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SAMUELSON MARTINS MESQUITA

COMENTANDO A DOUTRINA CRISTÃ: O ESPÍRITO SANTO E A


IGREJA (CIC 737 – 741)

Abril, 2021
O Espírito Santo como diálogo salvífico de Deus
Chegada a plenitude dos tempos Deus enviou seu próprio filho para nos revelar os seus
desígnios e para comunicar e dar pleno cumprimento a seu projeto de salvação que outrora
havia estabelecido a partir da queda de Adão (1). Sendo assim, o Verbo, consubstancial ao Pai,
assume a nossa humanidade pelo mistério da união hipostática para nos dar a conhecer o que
viu e ouviu do Pai pois ninguém jamais conheceu a Deus a não ser o seu Filho Unigênito que
estava voltado para o Pai em intimidade perfeitamente recíproca com ele, no conhecimento e
no amor. Jesus veio revelar quem era o Pai e, para dar pleno cumprimento ao seu plano de
salvação, expiou nossos pecados e mereceu-nos a vida eterna por meio do mistério de sua
Paixão, Morte e Ressurreição. Dessa forma Deus havia estabelecido um novo diálogo com suas
criaturas; em Cristo, a Criação é renovada, ele é o novo Homem, que restaura o homem, outrora,
no Éden, deformado; Jesus eleva o homem novamente à sua verdadeira condição, desejada por
Deus, e assim restabelece o diálogo deformado que o ser humano tentara desenvolver com
Deus. Na plenitude dos tempos, Jesus Cristo, Nosso Senhor, é a personificação do diálogo entre
Deus e a sua criação: acolheu a todos, curava todo tipo de doença entre o povo, ensinou e educou
dando pleno cumprimento à Lei Mosaica durante toda sua vida e a seu cabo, deu-nos a vida
Eterna por herança.

No entanto podemos chamar atenção para um episódio na vida de Cristo na qual, durante
sua última ceia com os Apóstolos, ele anuncia sua partida dizendo “é melhor para vós que eu
vá, porque se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, envia-vo-lo-ei.”(2). Surge
aí uma questão em relação à comunicação de Deus em Jesus Cristo: um pouco tempo ele
permaneceria com os discípulos, ainda que depois de Ressuscitado, mas, depois disso, subiria
para o Pai como o fez (3); a questão é a respeito da continuação da comunicação de Deus com
os homens se se interromperia. A resposta vem de imediato, em primeiro lugar, pela presença
gloriosa de Jesus uma vez que vivo já não morre e morto vive eternamente; seu corpo glorioso
não funciona como a matéria que conhecemos na realidade visível, é um corpo metafísico
evidenciado por ocasião de sua aparição aos discípulos quando o Evangelista diz “estando
fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus
entrou” (4), ou seja, um corpo que não obedece leis físicas, atravessando as portas sobrepõe as
leis naturais; por causa dessa realidade metafísica, Jesus agora tem uma presença que atravessa
os séculos no tempo e no espaço pois, mesmo tendo se sentado à direita do Pai, residindo na
Glória, é capaz, depois de ressuscitado, de fazer-se verdadeiramente presente na alma humana
e também sob a espécie do pão e do vinho na Eucaristia, atualização do Sacrifício do Calvário
que se realiza durante a Santa Missa. Em segundo lugar, ao referir-se à sua Ascensão, como
condição da vinda do Paráclito, Cristo relaciona o novo princípio da comunicação salvífica de
Deus no Espírito Santo com o mistério da Redenção:

“À custa da Cruz, operadora da Redenção, vem o Espírito Santo,


pelo poder de todo o mistério pascal de Jesus Cristo; e vem para
permanecer com os Apóstolos desde o dia de Pentecostes, para
permanecer com a Igreja e na Igreja e, mediante ela, no mundo. Deste
modo, realiza-se definitivamente aquele novo princípio da comunicação
de Deus uno e trino no Espírito Santo, por obra de Jesus Cristo, Redentor
do homem e do mundo.” (5)

Sendo este novo diálogo estabelecido, no Concílio Vaticano II, a Igreja coincide seu
nascimento com o dia de Pentecostes. Este acontecimento é a plenificação do que havia
acontecido no domingo de Páscoa no mesmo Cenáculo. “Estando as portas fechadas”, Cristo
lhes comunica o Espírito; dias mais tarde, em Pentecostes, o dom do Espírito viria a se
manifestar publicamente para o bem de todo o povo de Deus: abrem-se as portas do Cenáculo
e peregrinos, pagãos e judeus testemunham o poder do Espírito que por Cristo repousara sobre
seus Apóstolos. Cumpria-se assim o que havia dito Nosso Senhor: “recebereis uma força, a do
Espírito Santo que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a
Judeia e a Samaria, e até os confins da terra” (6).

A Igreja é o Corpo de Cristo e é até a consumação dos tempos a testemunha e a presença


deste Senhor ao longo da história. Assim como o Espírito ungia o Cristo, a unção do Espírito
Santo é perene na Igreja, configurando uma fonte inesgotável da qual flui bens espirituais de
toda sorte para edificação e construção do Reino de Deus e para santificação do povo eleito do
Senhor, a Igreja Católica, que convoca toda humanidade para beber dessa fonte “O Espírito e a
Esposa dizem: ‘Vem!’. Possa aquele que ouve dizer também: ‘Vem!’. Aquele que tem sede,
venha! E que o homem de boa vontade receba, gratuitamente, da água da vida!” (7). Por este
novo princípio de comunicação da Redenção, Deus visita seu povo para, pelo Espírito, revelar
às comunidades primitivas o que não eram capazes de compreender “tenho ainda muito que vos
dizer, mas não podeis agora suportar. Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à
verdade plena” (8).

Quando o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos, estes se revestiram de uma ciência
e de uma unção impensável até o momento, desde Abraão, passando por Moisés e pelos
profetas. Isso aconteceu pois Jesus já havia delegado o mandato de fazer o Evangelho se
espalhar por toda a face da terra para que todos os homens que viessem no futuro, fossem
alcançados pelo seu poder Redentor; sendo assim, incapazes de se lançarem a tal empresa, era
necessário então vir o Paráclito com toda a força para a consumação deste Santo mandato. Desta
forma, nos tempos atuais, esta força do Espírito Santo, “que os Apóstolos, pela imposição das
mãos, transmitiram aos seus colaboradores, continua a ser transmitida na Ordenação
episcopal.”(9) Os Bispos, por sua vez tornam-se partícipes deste mistério e se fazem
dispensadores deste dom espiritual, introduzindo neste mistério ministros sagrados pelo
sacramento da Ordem; agem ainda para que, aqueles que sepultaram suas vidas no Batismo,
sejam confirmados pelo sacramento da Confirmação na vida de Deus. Perpetua-se assim a graça
de Pentecostes de forma contínua e perene no seio da Igreja.

«O Espírito Santo habita na Igreja e nos corações dos fiéis como


num templo (cf. 1 Cor 3, 16; 6, 19); e neles ora e dá testemunho da sua
adoção filial (cf. Gal 4, 6; Rom 8, 15-16. 26). Ele introduz a Igreja no
conhecimento de toda a verdade (cf. Jo 16, 13), unifica-a na comunhão e
no ministério, edifica-a e dirige-a com os diversos dons hierárquicos e
carismáticos e enriquece-a com os seus frutos (cf. Et 4, 11-12; 1 Cor 12,
4; Gal 5, 22). Faz ainda com que a Igreja se mantenha sempre jovem,
com a força do Evangelho, renova-a continuamente e leva-a à perfeita
união com o seu Esposo». (10).

O papel da Virgem Maria no mistério do Pentecostes da Igreja


Mister se faz que, sendo Igreja, nos aproximemos da fonte inesgotável de toda vida que
é o Espírito Divino. A caminhada até a festa de Pentecostes, que se repete todos os anos 50 dias
após a celebração da Páscoa do Senhor, precisa possuir então um caráter pouco lembrado mas
imprescindível para que recebamos o Divino Espírito Santo sem o risco de torna-lo estéril em
nosso interior; essa característica é a proximidade com Maria Santíssima uma vez que ela esteve
perseverando em oração com os Apóstolos até o glorioso dia no Cenáculo e porque também é
chamada a Onipotência suplicante visto que ela está tão transformada em Deus pelos méritos
de seu Filho que suas preces se confundem à vontade Divina. Chamada desde há muito de
Mater Ecclesiae, a Virgem Maria gerou uma vez o Cristo, Filho do Deus vivo, por ação do
Espírito Santo e continuará gerando por ação do mesmo Espírito os filhos da Luz que se abriram
à graça batismal até a consumação dos tempos. O Espírito Santo no seio de Maria foi derramado
para gerar o Cristo que é a Cabeça da Igreja, depois de Sua Ressurreição, o Espírito Santo é
derramado para gerar os seus membros. Em Pentecostes a Virgem Maria recebe a graça para
gerar a Igreja e torna-se nesta ocasião a Mãe da Igreja.

A chave de compreensão para entrarmos no mistério de Pentecostes e por conseguinte


no mistério da Igreja é a união com a Virgem Maria pois, como membro da Igreja, Maria é
“portio maxima, portio optima, portio praecipua, portio electissima” (11), ainda como membro
da Igreja Maria nos aguarda no Cenáculo e como outrora Rebeca instruiu Jacó para agradar
Isaac em seu leito de morte para receber a bênção da primogenitura, a Virgem Maria nos instrui
para bem vivermos de tal modo atrair sobre nós a Misericórdia de Deus e pelas suas mãos
virginais recebermos as bênçãos celestiais: “Ela é o seu canal misterioso, o seu aqueduto, por
onde faz passar, suave e abundantemente, as suas misericórdias.” (12)

“Em verdade, a realidade da Igreja não se esgota na sua estrutura


hierárquica, na sua liturgia, nos seus sacramentos, nas suas ordenações
jurídicas. A sua íntima essência, a fonte primeira da sua eficácia
santificadora deve buscar-se na sua mística união com Cristo; união que
não podemos pensar dissociada d'Aquela que é a Mãe do Verbo
Encarnado, e que o próprio Jesus Cristo quis tão intimamente unida a Si
para a nossa salvação. De modo que é na visão da Igreja que deve
enquadrar-se a contemplação amorosa das maravilhas que Deus operou
em sua santa Mãe. E o conhecimento da verdadeira doutrina católica
sobre Maria constituirá sempre uma chave para a exata compreensão do
mistério de Cristo e da Igreja.” (13)

Referências Bibliográficas
1. (cf. Gn 3, 6).
2. (Jo 16, 7)
3. (At 1, 9)
4. (Jo 20, 19-23)
5. PAULO II, São João. Carta Encíclica Dominum Et Vivificantem, n. 4, 18 de maio
de 1986
6. (At 1, 8)
7. (Ap 22, 17)
8. (Jo 16, 13)
9. São João Paulo II, Carta Encíclica Dominum Et Vivificantem, n. 25, 18 de maio
1986
10. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, n. 4: AAS 57 (1965)
11. Ruperto, In Apoc. I VII, c. 12: PL 169, 1043
12. MONTFORT, São Luís Maria Grignion de. Tratado da Verdadeira Devoção à
Santíssima Virgem Maria, 24
13. PAULO VI. Discurso na clausura da terceira Sessão do Concílio Ecuménico
Vaticano II, 21 de Novembro de 1964.

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