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PATRIMÔNIO URBANO, PAISAGENS CULTURAIS E MEIO

AMBIENTE

MARQUES, YARA L. (1); XAVIER, CELIANE S. (2)

1. Universidade Federal de Minas Gerais


Rua Dante, 466_São Lucas
Belo Horizonte-Minas Gerais CEP 30240290
yaralm@terra.com.br

2. Universidade Federal de Minas Gerais


Rua Tenente José Pedro, nº 52, Bairro Antônio Dias
Ouro Preto – MG CEP 35.400-000
arqceliane@gmail.com

RESUMO
Na atualidade, cresce o reconhecimento da importância da prática da preservação de paisagens
culturais no Brasil, o que tem resultado, dentre outros produtos, em ações de proteção de conjuntos
urbanos. É o caso, por exemplo, do bairro Lagoinha, em Belo Horizonte-MG. Seu conjunto urbano,
arquitetônico e paisagístico é testemunho de várias épocas, histórias e práticas locais. Entretanto, a
passagem do tempo nem sempre foi generosa. Importantes marcos históricos, materiais ou
imateriais, transformaram-se, modificaram-se ou mesmo desapareceram, transmutando-se no que
denominamos cicatrizes urbanas. À vista disso, o objetivo principal deste artigo é identificar, no
espaço urbano presente do Lagoinha, marcas não visíveis enquanto objetos. Para tanto, análises
urbano-históricas foram necessárias, resultando no reconhecimento das principais cicatrizes urbanas
cuja importância ainda reflete no cotidiano dos dias atuais.

Palavras-chave: Cicatrizes Urbanas, Lagoinha, Belo Horizonte, Paisagem Cultural, Patrimônio.

3º Simpósio Científico do ICOMOS Brasil


Belo Horizonte/MG - de 08 a 10/05/2019
Paisagens Culturais: a cidade como palimpsesto

A vida, de uma forma geral, está em constante evolução. Da mesma maneira, o ambiente
patrimonial perpassou e perpassa, ao longo da história, diversas etapas evolutivas. O
próprio entendimento daquilo que é considerado patrimônio é um conceito em constante
evolução (Torelly, 2012). Partimos de uma compreensão rasa e superficial, onde o interesse
patrimonial esteve unicamente vinculado aos bens materiais de ordem artística e/ou
monumental. Passamos por uma interpretação um pouco mais flexível, que lida com o
patrimônio como algo que expande a natureza físico-material e deve, portanto, considerar
bens imateriais como componentes e formadores de culturas e, por conseguinte,
patrimônios. Até alcançamos os dias atuais, quando conceitos correlatos também
experimentam certo grau de aprimoramento.

Nisso, as paisagens culturais são, hoje, uma das manifestações mais complexas do
patrimônio (Castriota, 2013). Assim como a disciplina onde se insere, o conceito de
paisagem cultural também é amplo e complexo. Para além do que subtamente nos vem ao
pensamento, paisagens culturais compõe-se de um conjunto de elementos meio
ambientaiss característicos que superpõem-se sobre o ambiente físico. Ou seja, uma
paisagem cultutral é tudo aquilo que for passível de percepção humana em um determnado
local (Pena, 2019). Portannto, tato, olfato, visão, audição e paladar são fundamentais na
caracterização e percepção de uma paisagen cultural.

Nelas, estão mescladas as transformações ocorridas em determinado local (Silva, 2009).


Em essência, elas registram a realidade de diferentes temporalidades, apresentando-se
como produto, em constante transformação, da relação entre o ser humano e o espaço
(Nascimento, Scifoni, 2010, p.32). Assim, uma boa forma de definí-las seria como a
sobreposição das camadas temporais no espaço urbano presente. E, mais que isso, como
uma soma das relações, dinâmicas e dos modos de vida e ocupação do espaço, aspectos
formadores das comunidades.

Muitas vezes, entretanto, em razão da ação de interesses diversos, camadas e/ou


elementos temporais são abortados de forma a dar lugar à outros condizentes com as
diligências contemporâneas. Isso faz com que o ambiente socioultural também se altere de
modo a se adequar às novas realidades. Neste ponto, vale ressaltar que, conforme elencou
Castritota (2013), os aspectos materiais e imateria compositores de uma paisagem são
indissociáveis. Sob essa ótica, os contextos urbanos podem ser compreendidos como

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palimpsestos na medida em que são compreendidos, como propõe este conceito, como algo
que se raspa para se escrever de novo (Pesavento, 2004). Com isso, podemos nos referir a
um pedaço antigo de pergaminho ou, alinhando a formulação ao ambiente deste artigo, a
paisagem de uma cidade – considerada na amplitude proposta pelo conceito de paisagens
culturais.

Apesar da vigência do Decreto Federal Número 25 de 1937 (Brasil, 1937), no âmbito do


Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Brasileiro (IPHAN), que estabelece a
proteção das paisagens culturais, só muito recentemente passaram a emergir resultados
significativos dessa pretenção (Nascimento; Scifoni, 2010). Assim, a recognição dessas
paisagens como objeto de interesse patrimonial tem resultado, dentre outros produtos, em
ações de proteção de conjuntos urbanos. É o caso, por exemplo, do bairro Lagoinha, em
Belo Horizonte - MG, cuja proteção e tombamento foram aprovados pelo Conselho
Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município (CDPCM-BH), pela Deliberação N193/2016
(Belo Horizonte, 2016).

Precedente à construção da capital mineira, o bairro Lagoinha teve grande importância no


crescimento da cidade. Seu conjunto urbano, arquitetônico e paisagístico é testemunho de
várias épocas, histórias e práticas locais. O bairro precede, até mesmo, o Arraial de Curral
Del Rei, um dos primeiros povoados que deram início à formação da grande BH. Conforme
se pode consultar na Carta de Sesmaria de João Leite da Silva Ortiz (Belo Horizonte, 1711),
na designação da divisa das terras concedidas àquele bandeirante, no Cercado, o local já
figurava com o nome de Lagoinha. O bairro foi assim nomeado pelo fato de ter existido ali,
outrora, uma lagoa. Segundo relatos, esse corpo hídrico se localizava, aproximadamente,
onde hoje estão as ruas Diamantina, Itapecerica, Adalberto Ferraz e Formiga (Barreto,
Abílio,( 2014).

Apesar da lagoa não compor mais o espaço urbano local, sua presença permanece viva por
ser o elemento que deu origem ao nome do bairro. Entretanto, a passagem do tempo nem
sempre é tão generosa. Os marcos históricos, materiais ou imateriais, podem, com ele, se
transformar, modificar, ou mesmo, desaparecer. À vista disso, o objetivo principal deste
artigo é identificar, no contexto urbano do bairro Lagoinha, marcas não visíveis enquanto
objetos, palpáveis ou não, no espaço urbano presente. Ou seja, referindo-nos às cicatrizes
urbanas locais, ao que um dia esteve ali, ao que um dia foi palpável e caracterizou o lugar. E
que, ainda, por algum motivo, foi suprimido ou retirado, restando o registro dessa vivência
como uma referência para o cotidiano local e até mesmo, para além disso, para a cidade de

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Belo Horizonte como um todo. Para tanto, análises urbano-históricas se fizeram necessárias
a partir do estudo de mapas e documentos urbanos, além do contato direto com a
população local. Essa aproximação resultou no reconhecimento das principais cicatrizes
urbanas do bairro Lagoinha, cujas importâncias refletem no cotidiano dos dias atuais.

As cicatrizes devem ser entendidas, no âmbito deste estudo, como uma referência poética
que se apresenta sutil sempre que o espaço é visitado. Embora não tangíveis, elas tem
endereço certo. Não se tratam de uma rugosidade do tempo, como refere-se Santos
(SANTOS, 2002), já que o objeto causador da cicatriz, em sua natureza física, pode não
estar ali. O que permanece é sua marca, registrando a sua ausência e, conforme ensina
Bosi (1994), destrói “[...] os suportes materiais da memória, [já que] a sociedade capitalista
bloqueou os caminhos da lembrança, arrancou seus marcos e apagou seus rastros” (Bosi,
1994, p.19).

Então, esta pesquisa é saudosista? Quer de volta a Lagoinha que já não é? Quer arrancar o
BRT (Bus Rapid Transit)? Não! Este texto propõe instigar discussões que superem a
situação atuam de avanço urbano-imobiliário sobre o território do bairro, Isso, levantando
questões como: Onde, nas ações de preservação, estão as cicatrizes do que já não está lá,
mas que, um dia, definiu o bairro? Subindo ao Mirante veremos essas marcas? Também
não! De lá, veremos outra cicatriz: a da Serra do Curral exaurida pela mineração. Quem não
sabe? Quem não viu?

Assim, como forma de reconhecer a importância desses marcos no contexto urbano


presente e, mais ainda, chamar a atenção do poder público municipal - especialmente às
suas esferas patrimoniais – para a importância da proteção das paisagens em sua
completude, façamos um levantamento das principais cicatrizes do Lagoinha. Para tanto,
tenhamos em mente a concepção da paisagem como experiência a partir da internalização
dos conceitos anteriormente abordados - relativos ao valor de cada elemento, material ou
imaterial, na composição da paisagem e, portanto, da história de qualquer local que venha a
ser experimentado.

Cicatrizes urbanas do bairro Lagoinha

Eu sou a Moça-Fantasma.
O meu nome era Maria
Maria-Que-Morreu-Antes.

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(Andrade, 1940, pg 06)

Tradicional da história da cidade de Belo horizonte, o bairro Lagoinha cresceu e se


desenvolveu sem, inicialmente, atrair o interesse de políticas públicas de incentivo ao
adensamento e verticalização (Arcanjo, 2017). Entretanto, a partir da década de 60, o
intenso crescimento experimentado pela capital minera refletiu no contexto urbano do bairro
de forma tal que, ainda hoje, uma infinidade de projetos urbanos atua diretamente no
espaço físico do Lagoinha, impactando de forma significativa o ambiente sociocultural do
bairro. Felizmente,

Apesar de diversas intervenções urbanas, em meio a um crescimento


desordenado durante décadas, a comunidade local permanece e mantem
seus costumes, referências culturais e formas tradicionais de associação no
contexto da cidade, como parte da dinâmica cultural e da resistência de a
uma posição social marginalizada. A boemia, por exemplo, é um dos
elementos desta tradição destacado pela historiografia como representação
desta intensa vida social que marcou a vida social e que se mostra presente
na memória coletiva nos dias atuais (Arcanjo, 2017, p.02)

Deste modo, a região suburbana - nascida a partir das colônias agrícolas Carlos Prates e
Américo Werneck e incorporadas formalmente à zona suburbana de Belo Horizonte, nas
décadas de 1910 e 1920 (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1997) - já não existe mais. Senão,
como fragmentos de uma cartografia que não mais se representa na sua materialidade. Ou
que se representa, em alguns casos, nas memórias de seus antigos moradores.

Apesar de resistir às mudanças atribuídas à passagem do tempo e à ação do capital em seu


espaço urbano, a intensa vida social do bairro Lagoinha vem, gradativamente,
desaparecendo em meio à complexas implantações de sistema viários, ao estímulo ao
adensamento e ao descaso público em relação à revitalização e manutenção de algumas
regiões do bairro. Cicatrizes seriam, deste modo, uma representação simbólica desses
elementos que já não são, foram ou estiveram ali. Como no corpo humano, a cicatriz é
precisa, exata, está no lugar do desaparecimento, da supressão ou da obliteração.

Nesse sentido, a própria Lagoinha outrora existente seria, ela mesma, uma grande cicatriz.
O registro cotidiano à sua memória está na fala, nos documentos e nos endereços de seus
residentes. O próprio nome do bairro é uma expressão que faz sólida referência, senão
reverência, à sua memória. E isso ocorre desde de muito antes da atual importância dada
aos atuais sistemas supressores do bairro de então: como os de circulação viária que ou o
processo de metropolização que levou parte do território do bairro, isolando-o como uma ilha
de conteúdo pouco conhecido ao restante de seu território e deixando, no alto da rua Além

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Paraíba, uma igreja que parece ter sido importada da memória de algum lugar que pode não
estar em lugar nenhum.

Assim, então, a cicatriz poderia tornar-se um fantasma? Em alguns casos, sim. Porém, a
cicatriz tem endereço, não paira no éter. O complexo viário da Lagoinha, por exemplo, está
brutalmente implantado onde antes havia Lagoinha. Simplesmente, Lagoinha. Como o revés
anterior, estão o Mercado do Peixe, na rua Bonfim e a linha de bonde à qual se refere
Drummond (1940) em seus escritos. Ambos despareceram como a loura fantasma 1que toda
noite desaparecia no portão do Cemitério do Bonfim.

A segunda grande cicatriz é marcada pela abertura da Av. Antônio Carlos. Para sua
implantação, foi necessária a demolição da antiga Praça Vraz de Melo, ambiente de
centralidade e símbolo da vida bohemia do bairro (Arcanjo, 2017). Hoje, a avenida separa o
Lagoinha em duas regiões muito distintas. Apesar disso, ambas seguemse reconhecendo e
sendo reconhecidas como Lagoinha. Ainda são o mesmo bairro, porém, com realidades
notadamente díspares. Essa grande cicatriz fragilizou significativamente o bairro sendo, ela
própria, instigadora de novas supressões no mesmo local. É, portanto, uma cicatriz que
permite ampliação da supressão inicial. Supressões sobre supressões, podendo levar à total
desfiguração, onde já não se reconhece mais o que ali estava.

Quanto à isso, os registros iconográficos e históricos dão conta do ocorrido. Entretanto,


espacialmente, as antigas realidades materiais e imateriais estão suprimidas, apagadas.
Isso acontece porque novos interesses de ordens variadas se sobrepõem ao inicial. De
forma colossal, o singelo anseio de, simplesmente, morar, ocupar e viver a seu modo de
vida, é substituído pelo interesse político-urbano-conômico de viabilizar o trafego e a
ligação com a região Norte.

Como, com o passar do tempo, a Avenida Antônio Carlos passa a ser, crescentemente um
canal de tráfego muito demandado, das testados dos lotes à ela fronteiriços passa o poder
público a exigir uma faixa de reserva de cinco metros para um possível futuro alargamento
(FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1997). Isso leva essa área à condição de espera e à
subutilização, além de desestimular investimentos e novos empreendimentos.

1
Esta lenda urbana mitifica a história de uma mulher que teria sido assassinada por um taxista e, desde então,
viveria a assombrar os motoristas da região, levando-os para o cemitério do Bonfim e desaparecendo perante os
olhos deles.

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Essa cicatriz talvez nunca tenha sido fechada. Pelo contrário, a ferida tende a se espandir e
a memória do antigo, à cada geração, se torna mais difusa. Isto porque "se as lembranças
às vezes afloram ou emergem, quase sempre são uma tarefa, uma paciente reconstituição”
(Bosi, 2003, p.39). Muito petinente à ocasião, segue Bosi:

Ao lado da história escrita, das datas, da descrição de períodos, há


correntes do passado que só desapareceram na aparência. E que
podem reviver numa rua, numa sala, em certas pessoas, como ilhas
efêmeras de um estilo, de uma maneira de pensar, sentir, falar, que
são resquícios de outras épocas (Bosi, 2003, p. 39)

As duas partes que passaram a constituir a Lagoinha são unidas por uma precária passarela
(Figura 01), que só foi erguida após insistentes pedidos dos moradores.

Figura 01 – Passarela de interligação entre as regiões separadas pela Avenida Antônio Carlos

(Fonte: foto pública da internet)

Assim, se a primeira grande cicatriz foi a abertura da Avenida Antônio Carlos, a seguinte foi
a implosão da Praça Vaz de Mello (Figura 02) e demolição de seus arredores, em outubro
de 1981. Esse evento não atingiu apenas a Lagoinha, mas a cidade inteira, já que a praça
era importante do referencial da cidade como um todo. Causou a indignação de muitos
moradores, pesquisadores, intelectuais e frequentadores (Arcanjo, 2017)

A praça [Vaz de Mello] constituía um lugar de homens de família ou não,


artistas, trabalhadores, viajantes, coronéis ou qualquer outra categoria de
homens que possuía dinheiro para gastar e que, portanto, tinha acesso ao
prazer. Com os espaços livres, e com grandes casas desocupadas pelos
antigos moradores que se deslocaram para outros lugares. Implodir a
Lagoinha, não significa apenas derrubar um prédio: significa provocar uma
cesura, um corte, uma interdição definitiva. Implosão é explodir pra dentro,
de dentro. Entendendo a Lagoinha como um território em que suas “leis”

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eram determinadas pelo próprio movimento dos grupos, esvaziar esse
espaço, além de servir a interesses da urbanização emergente, se prestou
também para realizar uma “limpeza” e separar todos os que se propunham
a contestar de alguma maneira o status quo vigente (Paixão, 2012, p. 60).

Figura 02 – Demolição da Praça Vaz de Melo

(Fonte: foto pública da internet)

Portal de entrada para o bairro - que se desenvolvia, como visto, de forma heterogenia - até
as linhas de cumeada, a praça era uma proteção para o interior do bairro. A cidade
identificava a Praça Vaz de Mello como Lagoinha, fundindo as duas imagens. Pouco se
falava do interior do bairro. Exceto a Rua Itapecerica, já que fazia parte também da visão
que os moradores da cidade tinham da região.

A praça representava a Lagoinha das famílias iniciais. A jovem Lagoinha encontrava-se


entrelaçado à boemia e, ao mesmo tempo, ao mal falar do bairro. Daí, a necessidade
higienista de "limpar a cidade” foi a justificativa camuflada de modernidade utilizada, naquela
época, para a “inevitabilidade” de implosão da praça (Arcanjo, 2017).

Por um lado, de acordo com Freire (2009), a abertura das avenidas D.


Pedro II e Antônio Carlos e a construção dos elevados colocaram o bairro
numa condição de isolamento que reforçaram o cenário de abandono que já
vinha desde sua fundação como um local marcado pela violência urbana e
pela exclusão. Desde o início da construção do Túnel da Lagoinha a partir
de 1968 aos dias atuais, em especial após reformas urbanas de 1981;1994-
1996 e 2004, assiste-se, de acordo com a autora, a redução dos espaços de
sociabilidade e, por conseguinte, uma crise de identidade entre os
moradores e a população de modo geral (Arcanjo, 2017, p.03).

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Essa interdição definitiva de que se constituiu a implosão abalou a cidade, moradores do
bairro e frequentadores da praça (Paixão, 2012). Sobre do que foi a praça, foi ampliado o
complexo de viadutos conhecido como Complexo da Lagoinha (Figura 03).

Figura 03 – Complexo do Lagoinha

(Fonte: BHTrans, 1996)

O restante do espaço implodido foi objeto de um paisagismo frágil, onde se criou a Praça do
Peixe como forma de fazer referência às atividades do antigo Mercado do Peixe ali
localizado. Para constituir o ambiente desta praça, uma artista plástica doou uma escultura
de peixe (Figura 04).

Figura 04 – Escultura doada para Praça do Peixe

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(Fonte: foto pública da internet)

Hoje, nem mesmo essas estratégias subsequentes se mantiveram por falta de identificação
da população com aquele ambiente. Assim, a praça do Peixe teve roubado seu único peixe
de aço que lembrava, ou queria lembrar, o Mercado do Peixe que agora é nada, apenas
uma área vazia em um lugar tumultuado onde, do paisagismo, restam gramíneas
pisoteadas. Em seu blog, Paixão (2012) cita o escritor Vander Piroli (2004):

De todos os absurdos cometidos contra a memória histórica e cultural de


Belo Horizonte, destaca-se, sobremaneira, o fim da Lagoinha,
particularmente no entorno da Praça Vaz de Melo. Considerada “reduto da
boemia”, a implosão daquilo que ainda restava da Lagoinha, enquanto
resistência à chamada “força do progresso”, levou o jornalista e escritor
Wander Piroli a comentar, num comovente lamento de quem ali criou sua
identidade de homem e cidadão, e dali recolheu valioso material para sua
escrita: ¨Não fui lá nesse dia. Não queria ver o fim melancólico e
desnecessário da Praça. Em vez de tombá-la como patrimônio público, o
último local mais característico da vida noturna da cidade, preferiram
destruí-la. E destruí-la à toa, sem a menor necessidade. O fato é que as tais
autoridades municipais foram lá, muitos curiosos para ver o espetáculo de
uma implosão [...] E no meio da pequena multidão silenciosa, Lagoinha
soltou o samba: “Adeus, Lagoinha, adeus. Estão levando o que resta de
mim. Dizem que é a força do progresso. Um minuto eu peço. Para ver seu
fim.” Houve um minuto de silêncio após o último acorde da música. E,
depois, todo mundo viu um prédio ser jogado no chão¨ (Piroli, 2004, p.19
apud Paixão, 2012, p.01).

Outras cicatrizes vieram em seguida, como: o desaparecimento dos Cinemas da Lagoinha:


Paissandu, São Geraldo e São Cristóvão, aliás, a cidade toda sofreu com a supressão dos
cinemas dessa época, foram todos eliminados, e seus prédios viraram templos, shoppings,
lojas, pouquíssimos foram reabilitados. Por desuso ou falta de costume e por terem as

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pessoas se mudado dali, também desapareceu o Footing que ocorria na praça, no alto da
Rua Além Paraíba. O bonde, uma espinha dorsal do bairro, também se foi na mudança dos
modais de transportes da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Bonde, agora, só
viajando a outras cidades, mundo afora, na Lagoinha, não, aí é só uma cicatriz. Dos Times
de futebol – o Fluminense, o Terrestre e o Brasil - nunca mais se ouviu falar. E nem do
poderoso Terrestre Esporte Clube das festas famosas em toda cidade, a rua Itapecerica
ficou vazia de seu point. Não obstante a tudo isso, ficaram muitas casas vazias e
abandonadas, restando ainda um do ligeiro aroma de flores que vem de alguns raros
quintais. Essas cicatrizes podem parecer fragmentos, talvez essa seja uma características
desse tipo de marca, mas juntas, vivas elas compunham a identidade do bairro, com toda
efervescência que ele tinha.

Todo o exposto torna evidente que a existência pretérita desses elementos tem significativa
relevância no histórico sociocultural do bairro. Através dos elementos físicos e atributos
culturais, a paisagem do Lagoinha exibia formas expressivas e muito particulares daquela
população viver e organizar o espaço. Ali,

ao lado da história escrita, das datas, da descrição de períodos, há


correntes do passado que só desapareceram na aparência. E que podem
reviver numa rua, numa sala, em certas pessoas, como ilhas efêmeras de
um estilo, de uma maneira de pensar, sentir, falar, que são resquícios de
outras épocas (Bosi, 1994 p.75)

E assim o Lagoinha resiste. Em meio à (des) organização estrutural do bairro conduzida


pela moeda urbana e imobiliária, o Lagoinha autêntico, felizmente, insiste em (r) existir.
Como a pele humana, o bairro tem encontrado formas de se recompor, de se reconstituir.
Formas de manifestar sua individualidade em meio à homogeneização de uma cidade que,
impulsionada pela força dos capitais, se expande de modo acelerado. Essa resistência se
manifesta na forma de cicatrizes, visíveis e invisíveis, que sublinham a importância de algo
que não mais se vê ali e, trazendo, ao tempo presente, memórias que não podem ser
esquecidas.

Considerações Finais

Reconhecendo a riqueza da produção simbólica do bairro Lagoinha, pretendeu-se, neste


artigo, relacionar as principais cicatrizes urbanas do bairro. Com a expressão “Cicatrizes
Urbanas”, fazemos referência às marcas não visíveis no espaço urbano presente. Ou seja,
àqueles elementos cujas importâncias refletem nos dias atuais, mas que, por algum motivo,
se transformaram ou mesmo desapareceram ao longo da história do bairro. No caso do

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Lagoinha, as forças motoras principais para essas grandes transformações socioespaciais
foram impulsionadas, principalmente, pela explosão de empreendimentos viários impostos à
seu território no s últimos 50/60 anos.

A partir da discussão dessas situações, percebeu-se que, apesar de inserido em um


contexto de degradação e abandono, o Lagoinha vem sobrevivendo ancorado em suas
memórias e na força de uma população que ainda resiste às pressões urbanas e
imobiliárias. Entretanto, apesar de extremamente importante, este fato, sozinho, não é
suficiente para controlar o avanço da moeda urbana sobre o território do bairro.

Portanto, além de instigar discussões sobre o tema através do levantamento das principais
cicatrizes urbanas do bairro, objetivou-se, com este artigo, alertar o poder público municipal
para a necessidade de formulação de estratégias que busquem impedir as supressões
física, histórica e sociocultural do bairro. E isso deve ser feito não só com vistas à
valorização da importância histórica do bairro para a cidade de Belo Horizonte, mas
também, com respeito ao (r) existir de uma comunidade que vem sendo sufocada em seu
próprio território.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Referências Bibliográficas

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