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Antoine-Laurent Lavoisier

Tradução:
Laís dos Santos Pinto Trindade

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Da reimpressão da edição original do Traité Élémentaire de Chimie (1789), por Antoine-
Laurent Lavoisier.
Direitos de tradução para todos os países de língua portuguesa.
© 2007, Madras Editora Ltda.
Editor:
Wagner Veneziani Costa
Produção e Capa:
Equipe Técnica Madras
Tradução:
Laís dos Santos Pinto Trindade
Revisão:
Maria Cristina Scomparini
Wilson Ryoji Imoto
Silvia Massimini
Sérgio Scuotto
Amanda Maria de Carvalho
Coordenação:
Diamantino Fernandes Trindade

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
L436t
Lavoisier, Antoine-Laurent, 1743-1794
Tratado elementar de química / Antoine-Laurent Lavoisier ; tradução Fulvio
Lubisco. - São Paulo : Madras, 2007
Tradução de: Traité élémentaire de chimie
ISBN 978-85-370-0140-0
1. Química. I. Título.

06-3008. CDD 540


CDU 54
17.08.06 23.08.06 015833

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Tratado Elementar
de Química,
APRESENTADO EM UMA ORDEM NOVA
E SEGUNDO AS DESCOBERTAS MODERNAS;
Com figuras:
Pelo sr. LAVOISIER, da Academia das Ciências, da
Sociedade Real de Medicina, das Sociedades de
Agricultura de Paris e de Orléans, da Sociedade
Real de Londres, do Instituto de Bolonha, da Sociedade
Helvética de Basle, daquelas
da Filadélfia, Harlem,
Manchester, Pádua, etc.

Tomo Primeiro
M. DCC. LXXXIX
Sob recomendação da Academia de Ciências
e da Sociedade Real de Medicina

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Índice

Apresentação ............................................................................................ 15
Discurso Preliminar ................................................................................... 17
Primeira Parte
Da formação dos fluidos aeriformes e da sua decomposição; da
combustão dos corpos simples e da formação dos ácidos ................ 27
Capítulo I
Das combinações do calórico e da formação dos fluidos elásticos
aeriformes................................................................................................. 29
Capítulo II
Visões gerais sobre a formação e a constituição da atmosfera da
Terra .......................................................................................................... 40
Capítulo III
Análise do ar atmosférico: sua divisão em dois fluidos elásticos,
umrespirável, outro não respirável ....................................................... 43
Capítulo IV
Nomenclatura das diferentes partes constituintes do ar atmosférico ........ 50
Capítulo V
Da decomposição do gás oxigênio pelo enxofre, fósforo e
carvão, e da formação dos ácidos em geral ....................................... 53
Capítulo VI
Da nomenclatura dos ácidos em geral e, particularmente,
daqueles obtidos do salitre e do sal marinho ...................................... 58
Capítulo VII
Da decomposição do gás oxigênio pelos metais e da formação
dos óxidos metálicos ............................................................................... 63
7

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8 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

Capítulo VIII
Do princípio radical da água e da sua decomposição pelo
carvão e pelo ferro ................................................................................. 65
Primeira Experiência .......................................................................... 65
Segunda Experiência .......................................................................... 66
Terceira Experiência ........................................................................... 67
Quarta Experiência ............................................................................. 69
Capítulo IX
Da quantidade de calórico liberado das diferentes espécies
de combustão ........................................................................................... 72
Combustão do Fósforo ......................................................................... 74
Combustão do Carvão ......................................................................... 74
Combustão do Gás Hidrogênio ............................................................ 75
Da Formação do Ácido Nítrico ........................................................... 76
Combustão da Vela .............................................................................. 77
Combustão do Óleo de Oliva ............................................................... 78
Capítulo X
Da combinação das substâncias combustíveis umas com as outras ....... 79
Capítulo XI
Considerações sobre os óxidos e os ácidos de várias bases e
sobre a composição dos materiais vegetais e animais ....................... 82
Capítulo XII
Da decomposição dos materiais vegetais e animais
pela ação do fogo ................................................................................... 86
Capítulo XIII
Da decomposição dos óxidos vegetais pela fermentação vinosa............ 89
Capítulo XIV
Da fermentação pútrida ......................................................................... 96
Capítulo XV
Da fermentação acetosa ........................................................................ 99
Capítulo XVI
Da formação dos sais neutros e das diferentes bases que
entram na sua composição .................................................................. 101
Da Potassa ......................................................................................... 102
Da Soda .............................................................................................. 104
Do Amoníaco ..................................................................................... 104
Da Cal, da Magnésia, da Barita e da Alumina ................................. 105

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ÍNDICE 9

Das Substâncias Metálicas ................................................................ 106


Capítulo XVII
Seqüência das reflexões sobre as bases salificáveis e a
formação dos sais neutros ................................................................... 107
Segunda Parte
Da combinação dos ácidos com as bases salificáveis e da
formação dos sais neutros ................................................................... 113
Advertência ............................................................................................. 114
Tabela das Substâncias Simples .......................................................... 116
Observações .............................................................................................. 118
Tabela dos radicais ou bases oxidáveis e acidificáveis, compostos,
que entram nas combinações à maneira das substâncias simples .... 120
Observações ............................................................................................ 121
Observações sobre as combinações da luz e do calórico com as
diferentes substâncias ............................................................................. 123
Observações sobre as combinações binárias do oxigênio com
as substâncias simples metálicas e não-metálicas ................................. 125
Tabela das combinações binárias do oxigênio com as substâncias
metálicas e não-metálicas oxidáveis e acidificáveis ......................... 128
Tabela das combinações do oxigênio com os radicais compostos ... 130
Observações sobre as combinações do oxigênio com os radicais
compostos ............................................................................................... 131
Tabela das combinações binárias do azoto com as substâncias
simples .................................................................................................... 133
Observações ............................................................................................ 134
Tabela das combinações binárias do hidrogênio com as
substâncias simples .............................................................................. 136
Observações ............................................................................................ 137
Tabela das combinações binárias do enxofre não oxigenado
com as substâncias simples .................................................................. 139
Observações ............................................................................................ 140
Tabela das combinações binárias do fósforo não oxigenado
com as substâncias simples .................................................................. 141
Observações ............................................................................................ 142
Tabela das combinações binárias do carbono não oxigenado
com as substâncias simples .................................................................. 144
Observações ............................................................................................ 145

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10 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

Observações sobre os radicais muriático, fluórico e borácico e as


suas combinações ................................................................................... 146
Observações sobre a combinação dos metais ....................................... 147
Tabela das combinações do azoto ou radical nítrico, levado ao
estado de ácido nitroso pela combinação de uma quantidade
suficiente de oxigênio com as bases salificáveis, na ordem das suas
afinidades com esse ácido ................................................................... 148
Tabela das combinações do azoto completamente saturado
de oxigênio e levado ao estado de ácido nítrico, com as bases
salificáveis, na ordem da sua afinidade com esse ácido ................. 149
Observações ........................................................................................... 150
Tabelas das combinações do ácido sulfúrico com esse ácido e do
enxofre oxigenado com as bases salificáveis na ordem da sua
afinidade com esse ácido pela via úmida ............................................ 153
Observações ............................................................................................. 154
Tabela das combinações do ácido sulfuroso com as bases
salificáveis, na ordem da sua afinidade com esse ácido ................. 156
Observações ............................................................................................. 157
Tabela das combinações do fósforo que recebeu um primeiro grau
de oxigenação e foi levado ao estado de ácido fosforoso, com as
bases salificáveis, na ordem da sua afinidade com esse ácido ...... 158
Tabela das combinações do fósforo saturado de oxigênio, ou
ácido fosfórico, com as substâncias salificáveis, na ordem da sua
afinidade com esse ácido ..................................................................... 159
Observações ............................................................................................ 160
Tabela das combinações do radical carbônico oxigenado, ou ácido
carbônico, com as bases salificáveis, na ordem da sua afinidade com
esse ácido ................................................................................................ 161
Observações ............................................................................................. 162
Tabela das combinações do radical muriático oxigenado, ou ácido
muriático, com as bases salificáveis, na ordem da sua afinidade com
esse ácido ................................................................................................ 163
Tabela das combinações do ácido muriático oxigenado com as
diferentes bases salificáveis com as quais ele se une ...................... 164
Observações ............................................................................................. 165
Tabela das combinações do ácido nitro-muriático com as bases
salificáveis, dispostas em ordem alfabética, considerando que as
afinidades desse ácido não sejam ainda bastante conhecidas ...... 167
Observações ........................................................................................... 168

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ÍNDICE 11

Tabela das combinações do radical fluórico oxigenado, ou ácido


fluórico, com as bases salificáveis, na ordem da sua afinidade com
esse ácido ............................................................................................... 169
Observações ............................................................................................. 170
Tabela das combinações do radical borácico oxigenado,
com as diferentes bases salificáveis às quais ele se une, na
ordem da sua afinidade com esse ácido ............................................ 171
Observações ............................................................................................. 172
Tabela das combinações do arsênico oxigenado, ou ácido arsênico,
com as bases salificáveis na ordem da sua afinidade com esse ácido 174
Observações sobre o ácido arsênico e a Tabela das suas combinações .... 175
Tabela das combinações do molibdênio oxigenado, ou ácido
molibdênico, com as bases salificáveis, por ordem alfabética ....... 177
Observações ............................................................................................ 178
Tabela das combinações do tungstênio oxigenado, ou ácido
tungstênico, com as bases salificáveis ............................................... 179
Observações ............................................................................................. 180
Tabela das combinações do radical tartaroso oxigenado, ou ácido
tartaroso, com as bases salificáveis, na ordem da sua afinidade com
esse ácido ................................................................................................ 181
Observações ............................................................................................. 182
Tabela das combinações do radical málico oxigenado, ou ácido
málico, com as bases salificáveis, por ordem alfabética ................. 184
Observações ............................................................................................ 185
Tabela das combinações do radical cítrico oxigenado, ou ácido
cítrico, com as bases salificáveis, na ordem da sua afinidade com
esse ácido ............................................................................................... 186
Observações ............................................................................................ 187
Tabela das combinações do radical piro-lenhoso oxigenado, ou
ácido piro-lenhoso, com as bases salificáveis, na ordem da sua
afinidade com esse ácido ..................................................................... 188
Observações ........................................................................................... 189
Tabela das combinações do radical piro-tartaroso oxigenado,
ou ácido piro-tartaroso, com as bases salificáveis, na ordem da
sua afinidade com esse ácido .............................................................. 190
Observações ............................................................................................. 191

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12 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

Tabela das combinações do radical piro-mucoso oxigenado,


ou ácido piro-mucoso, com as bases salificáveis, na ordem da sua
afinidade com esse ácido ..................................................................... 192
Observações ............................................................................................ 193
Tabela das combinações do radical oxálico oxigenado, ou ácido
oxálico, com as bases salificáveis, na ordem da sua afinidade
com esse ácido ...................................................................................... 194
Observações ............................................................................................ 195
Tabela das combinações do radical acetoso oxigenado, por um
primeiro grau de oxigenação, com as bases salificáveis,
seguindo a ordem da sua afinidade com esse ácido ........................ 196
Observações sobre o radical acetoso oxigenado por um primeiro grau de
oxigenação, ou ácido acetoso, e as suas combinações com as bases
salificáveis ............................................................................................... 198
Tabela das combinações do radical acetoso oxigenado, em um
segundo grau de oxigenação, ou ácido acético, com as bases
salificáveis, na ordem da sua afinidade com esse ácido ................. 200
Observações ............................................................................................ 201
Tabela das combinações do radical succínico oxigenado, ou ácido
succínico, com as bases salificáveis, na ordem da sua afinidade
com esse ácido ....................................................................................... 202
Observações ............................................................................................. 203
Tabela das combinações do radical benzóico oxigenado, ou ácido
benzóico, com as diferentes bases salificáveis, dispostas por
ordem alfabética .................................................................................... 204
Observações ............................................................................................ 205
Tabela das combinações do radical canfórico oxigenado, ou
ácido canfórico, com as bases salificáveis, por ordem alfabética 206
Observações ............................................................................................. 207
Tabela das combinações do radical gálico oxigenado,
ou ácido gálico, com as bases salificáveis, dispostas por ordem
alfabética ................................................................................................ 208
Observações ............................................................................................ 209
Tabela das combinações do radical láctico oxigenado, ou ácido
láctico, com as bases salificáveis, por ordem alfabética ................. 210
Observações ............................................................................................ 211
Tabela das combinações do radical sacaroláctico
oxigenado, ou ácido sacaro-láctico, com as bases salificáveis, na
ordem da sua afinidade com esse ácido ............................................ 212
Observações ............................................................................................. 213

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ÍNDICE 13

Tabela das combinações do radical fórmico oxigenado, ou ácido


fórmico, com as bases salificáveis, na ordem da sua afinidade
com esse ácido ....................................................................................... 214
Observações ............................................................................................ 215
Tabela das combinações do radical bômbico oxigenado, ou ácido
bômbico, com as substâncias salificáveis, por ordem alfabética ... 216
Observações ............................................................................................. 217
Tabela das combinações do radical sebácico oxigenado, ou ácido
sebácico, com as bases salificáveis, na ordem da sua afinidade
com esse ácido ....................................................................................... 218
Observações ............................................................................................. 219
Tabela das combinações do radical lítico oxigenado, ou ácido
lítico, com as bases salificáveis, dispostas por ordem alfabética .. 220
Observações ............................................................................................ 221
Tabela das combinações do radical prússico oxigenado, ou ácido
prússico, com as bases salificáveis, na ordem da sua afinidade
com esse ácido ....................................................................................... 222
Observações ............................................................................................. 223

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Apresentação
Caro leitor!
O Tratado Elementar de Química, publicado em 1789, teve na sua
época uma rápida difusão e foi editado em vários países, em diferentes lín-
guas. Contudo, até agora, não havia uma única edição brasileira. A Madras
Editora traz até você esta Obra que provocou uma mudança, ou mais, uma
revolução na Química. Escrita com a intenção de difundir as novas idéias e
procedimentos experimentais, bem como estabelecer e consolidar a nova
nomenclatura química, Lavoisier e seu grupo deram à Química o caráter de
uma ciência moderna.
O termo “revolução” utilizado pelo próprio Lavoisier e disseminado
por seus contemporâneos, guarda uma relação com o sentido político da
Revolução Francesa. Acreditava que mudanças eram necessárias tanto na
ciência como no sistema de governo, na agricultura e nas finanças.
Dispondo de vastos recursos pessoais, pode introduzir, na Química,
técnicas de experimentação e de medida sofisticadas. Em particular, esta-
beleceu o uso sistemático de balanças aperfeiçoadas que possuíam tal pre-
cisão e sensibilidade, para a pesagem de pequenas quantidades de matéria,
que poderiam ser comparadas às mais modernas. Passou a ser um símbolo
do novo químico, ocupando o lugar do alambique e da retorta.
Desenvolveu trabalhos em conjunto com vários acadêmicos da época
tais como: Jean Bucquet, Pierre Simon Laplace, Jean-Baptiste Meusnier,
Armand Seguin, Louis Bernard Guyton de Morveau, Claude Berthollet,
Antoine François Fourcroy, René Just Haÿ, Henry Cavendish e outros.
Marie-Anne Paulze-Lavoisier deve ser lembrada como sua principal cola-
boradora. Conhecia bem a língua inglesa e traduziu para o francês trabalhos
publicados naquele idioma, além de ter desenhado os aparelhos utilizados
por Lavoisier e que compõem esta Obra.
Foi um dos primeiros a demonstrar que as reações químicas ocorrem
sem variação de massa, como poderemos ver nesta Obra: em todas as
operações da Arte e da natureza nada é criado; existe uma quantida-
de igual de matéria antes e depois do experimento. Devemos ressaltar
que o tradicional enunciado: na natureza nada se cria, nada se perde,
tudo se transforma não é de Lavoisier mas sim do poeta latino Titus
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16 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

Lucrecius Carus (96-55 a.C.) que se baseou nas idéias do filósofo grego
Epícuro (341- 270 a. C.) sobre a Física.
Os trabalhos de Lavoisier sobre a nomenclatura química também
foram importantes. Os alquimistas utilizavam uma nomenclatura muito
particular e de difícil memorização. Hoje utilizamos, na Química, uma
nomenclatura internacional fundamentada num trabalho conjunto de
Morveau, Lavoisier Berthellot e Fourcroy. É importante citar que o brasilei-
ro Vicente Coelho Seabra da Silva Telles, professor da Universidade de
Coimbra, foi o primeiro a traduzir e adaptar a nomenclatura de Lavoisier
para a língua portuguesa. Um ano antes da publicação do Tratado Elemen-
tar de Química, Silva Telles publicou a obra Elementos de Chimica.
Contribuiu com o regime revolucionário, participando de várias co-
missões, como a implantação do novo sistema de pesos e medidas. Contu-
do, não foi suficiente para apagar, na época das perseguições, as fortes
ligações que mantivera com a monarquia. A sua função, nada simpática, de
arrecadador de impostos, além de atitudes de vingança dos inimigos e o seu
papel de destaque na Academia Real de Ciências, sistematicamente ataca-
do por Marat (vetado por Lavoisier na eleição para a Academia), desenca-
dearam um processo que ocasionou a sua condenação, inicialmente por
peculato, passando depois para traição. Diante da petição redigida aos juízes
para que poupassem a sua vida, visto tratar-se de um sábio, quer a tradição
que, Coffinhal, presidente do tribunal, tenha respondido com uma frase fre-
qüentemente citada, mas provavelmente apócrifa: a Republica não preci-
sa de sábios. Lavoisier foi guilhotinado em 8 de maio de 1794.
Menos de um ano depois, o juiz e os jurados que o condenaram, além
de Robespierre, também foram guilhotinados e o Liceu de Artes organizou
um evento em sua homenagem, com a inauguração de um busto que tinha
uma inscrição escrita por Lagrange:
Vítima da tirania,
amante respeitado das artes,
ele continua vivo.
Por seu gênio,
continua servindo a humanidade.
Parabéns leitor amigo! Você está de posse de uma obra que segura-
mente lhe dará uma importante visão sobre o trabalho revolucionário de
Antoine Laurent Lavoisier na Química.
Diamantino Fernandes Trindade*
Lais dos Santos Pinto Trindade**

* Professor de História da Ciência do Centro Federal de Educação Tecnológica – SP.


Mestre em Educação pela Universidade Cidade de São Paulo.
Doutorando em Educação pela PUC-SP.
** Professora de Metodologia do Ensino das ciências das Faculdades Integradas de Boituva.
Mestre em Educação pela Universidade Cidade de São Paulo.
Doutoranda em História da Ciência pela PUC-SP.

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Discurso Preliminar

O meu objetivo quando comecei esta Obra era apenas desenvolver me-
lhor a Memória que li na sessão pública da Academia das Ciências no mês
de abril de 1787, sobre a necessidade de reformar e aperfeiçoar a Nomen-
clatura da Química.
Foi ocupando-me desse trabalho que percebi que eu não tinha ainda
constatado, até então, a evidência dos princípios colocados pelo abade de
Condillac na sua Lógica e em algumas outras obras suas. Ele aí estabelece
que só pensamos com a ajuda das palavras; que as línguas são os
verdadeiros métodos analíticos; que a álgebra é a mais simples, a mais
exata e mais bem adaptada ao seu objeto entre todas as maneiras de
enunciar-se; é, a um só tempo, uma linguagem e um método analítico;
enfim, que a arte de raciocinar se reduz a uma linguagem bem feita. E,
realmente, enquanto eu acreditava que me ocupava da Nomenclatura, e
tinha por objetivo apenas aperfeiçoar a linguagem da Química, a minha
Obra se transformou imperceptivelmente nas minhas mãos, sem que fosse
possível evitar, em um Tratado Elementar de Química.
A impossibilidade de isolar a Nomenclatura da ciência e a ciência da
Nomenclatura está relacionada com o fato de que toda ciência física é
necessariamente formada de três coisas: a série dos fatos que a consti-
tuem, as idéias que a lembram, as palavras que a exprimem. A palavra deve
fazer nascer a idéia, a idéia deve representar o fato; fazem-se três impres-
sões de um mesmo selo e, como são as palavras que conservam e transmi-
tem as idéias, disso resulta que não se pode melhorar a linguagem sem
aperfeiçoar a ciência, nem a ciência sem a linguagem, e que por mais certos
que fossem os fatos, por mais justas que fossem as idéias geradas, elas
ainda só transmitiriam impressões falsas, se não tivéssemos expressões
exatas para designá-los.
A primeira parte deste Tratado fornecerá, àqueles que quiserem real-
mente refletir, provas freqüentes dessas verdades; mas como me vi força-
do a seguir uma ordem que difere essencialmente daquela que foi adotada
até agora em todas as obras de Química, explico os motivos que me leva-
ram a isso.
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18 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

É um princípio bem confiável, e cuja generalidade é muito reconheci-


da nas matemáticas, como em todas as áreas de conhecimento, que só
podemos, proceder para nos instruirmos do conhecido para o desconheci-
do. Em nossa primeira infância, as idéias vêm das necessidades; dessa
sensação das carências nascem as idéias dos objetos próprios para satisfa-
zê-las e, imperceptivelmente, por uma seqüência de sensações, de obser-
vações e de análises, forma-se uma geração sucessiva de idéias, todas
ligadas umas às outras, e um observador atento pode, mesmo até certo
ponto, encontrar o fio e o encadeamento que constituem o conjunto do que
sabemos.
Quando nos dedicamos pela primeira vez ao estudo de uma ciência
estamos em relação a ela em um estado muito análogo àquele em que se
encontram as crianças, e o caminho que temos que percorrer é precisamente
o que segue a natureza na formação das suas idéias. Assim como para elas
a idéia é um efeito da sensação, que é a sensação que faz nascer a idéia, do
mesmo modo para aquele que começa a dedicar-se ao estudo das ciências
físicas, as idéias só devem ser uma conseqüência, resultado imediato de
uma experiência ou de uma observação.
Que me seja permitido acrescentar que aquele que inicia sua carreira
nas ciências está em uma situação menos vantajosa do que a própria criança
que adquire as primeiras idéias; se a criança se enganou pelos efeitos salu-
tares ou nocivos dos objetos que a circundam, a natureza lhe dá meios
múltiplos de corrigir-se. A cada instante, o julgamento que ela fez se acha
refletido na experiência. A privação ou a dor são decorrentes de um
julgamento falso; o gozo e o prazer, de um julgamento justo. Não se demo-
ra, com semelhantes mestres, a se tornar conseqüente e a raciocinar corre-
tamente quando não se pode fazê-lo de outra forma sob pena de privação
ou sofrimento.
Não ocorre o mesmo no estudo e na prática das ciências; os falsos
julgamentos que fazemos não interferem nem em nossa existência nem em
nosso bem-estar; nenhum interesse físico nos obriga a nos corrigirmos: a
imaginação, ao contrário, tende a nos levar continuamente para além do
verdadeiro; o amor-próprio e a confiança em nós mesmos, que nos inspi-
ram, também solicitam tirar conclusões que não derivam imediatamente
dos fatos: somos de certo modo influenciados a seduzir a nós mesmos.
Portanto, não é surpreendente que nas ciências físicas, em geral, tenha-se
muitas vezes suposto em vez de concluir; que as suposições transmitidas de
geração a geração se tenham tornado cada vez mais importantes apenas
pelo peso das autoridades que elas adquiriram, e que tenham, enfim, sido
adotadas e vistas como verdades fundamentais, até mesmo pelas melhores
mentes.
O único meio de prevenir esses desvios é suprimir ou, pelo menos,
simplificar o máximo possível o raciocínio que nos é próprio e pode nos
desorientar; colocá-lo continuamente à prova da experiência; em só con-

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DISCURSO PRELIMINAR 19

servar os fatos que são dados pela natureza e não nos podem enganar; em
só procurar a verdade no encadeamento natural das experiências e das
observações da mesma maneira que os matemáticos chegam à solução de
um problema – pelo simples arranjo dos dados, e reduzindo o raciocínio a
operações tão simples, a julgamentos tão curtos, que não perdem nunca de
vista a evidência que lhes serve de guia.
Convencido dessas verdades, impus-me a lei de nunca proceder se-
não do conhecido ao desconhecido, de não deduzir nenhuma conseqüência
que não derive imediatamente das experiências e das observações, e de
encadear os fatos e as verdades químicas na ordem mais apropriada para
facilitar o seu entendimento aos que estão começando. Era impossível que,
sujeitando-me a esse plano, não me afastasse dos caminhos comuns. É de
fato um defeito corrente a todos os cursos e tratados de Química pressupor,
desde os primeiros passos, conhecimentos que o aluno ou o leitor só deve
adquirir nas lições subseqüentes. Começa-se, em quase todos, por tratar
dos princípios dos corpos, por explicar a tabela das afinidades, sem se aper-
ceber que se é obrigado a revisar, já nas primeiras páginas, os principais
fenômenos da Química, por utilizar-se de expressões que não foram definidas
e supor que o conhecimento foi adquirido por aqueles aos quais se propõe a
ensiná-la. Por isso, é sabido que pouca coisa se aprende em um primeiro
curso de Química. Um ano é suficiente apenas para se familiarizar o ouvido
com a linguagem, os olhos com a aparelhagem; é quase impossível formar
um químico em menos de três ou quatro anos.
Esses inconvenientes se relacionam menos à natureza das coisas do
que à forma do ensino, e foi o que me determinou a dar à Química um
andamento que me parece mais conforme ao da natureza. Não me enganei
sobre o fato de que, querendo evitar um gênero de dificuldades, lançava-me
em outro, e seria impossível superar a todos; mas acho que aqueles que
permanecem não pertencem ao que escrevi, mas, sim, a uma conseqüência
do estado de imperfeição em que está ainda a Química. Essa ciência apre-
senta inúmeras lacunas que interrompem a série dos fatos e exigem liga-
ções embaraçosas e difíceis. Não tem, como a Geometria elementar, a
vantagem de ser uma ciência completa e cujas partes estão todas estreita-
mente ligadas entre si; mas ao mesmo tempo o seu desenvolvimento atual é
tão rápido, os fatos arranjam-se de maneira tão bem-sucedida na doutrina
moderna que podemos esperar, mesmo em nossos dias, vê-la aproximar-se
muito do grau de perfeição que ela pode atingir.
Essa lei rigorosa, de que não consegui descartar-me, de nada concluir
para além do que as experiências apresentam e de nunca suprir, com a
imaginação, o silêncio dos fatos não me permitiu incluir nesta Obra a parte
da Química mais suscetível, talvez, de tornar-se um dia uma ciência exata: a
que trata das afinidades químicas ou atrações eletivas. Os senhores Geo-
ffroy, Gellert, Bergman, Schéele, de Morveau, Kirwan e muitos outros já
reuniram uma infinidade de fatos particulares, que só esperam o lugar que

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20 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

lhes deve ser concedido; mas faltam os dados principais ou, pelo menos, os
que temos ainda não são nem suficientemente precisos nem certos para se
tornar a base fundamental sobre a qual deve repousar uma parte tão impor-
tante da Química. A ciência das afinidades, além do mais, para a Química
comum é o que a Geometria transcendente é para a Geometria elementar
grande número, e não achei que devia complicar com tão grandes dificulda-
des elementos simples e fáceis que estarão, espero, ao alcance de um gran-
de número de leitores.
Talvez um sentimento de amor-próprio tenha, sem que eu mesmo per-
cebesse, feito com que as pessoas se dedicassem a essas reflexões. O sr.
de Morveau está no momento prestes a publicar o artigo “Afinidade” na
Enciclopédia Metódica, e tenho muitos motivos para temer trabalhar em
concorrência com ele.
Ninguém deixará de ficar surpreso de não encontrar em um Tratado
Elementar de Química um capítulo sobre as partes constituintes e elemen-
tares dos corpos; mas ressalto aqui que essa tendência que temos de que-
rer que todos os corpos da natureza só sejam compostos de três ou quatro
elementos está ligada a um preconceito que nos vem originariamente dos
filósofos gregos. A admissão de quatro elementos que, pela variedade das
suas proporções, compõem todos os corpos que conhecemos é uma pura
hipótese imaginada muito tempo antes que se tivessem as primeiras noções
da Física experimental e da Química. Não havia ainda fatos, tratava-se de
formar sistemas; e hoje, que reunimos fatos, parece que nos esforçamos
para rechaçá-los quando não se enquadram em nossos preconceitos; isso é
tanto mais verdade na medida em que o peso da autoridade desses pais da
filosofia humana se faz ainda sentir e ela, com certeza pesará sobre as
gerações vindouras.
Uma coisa muito notável é que, ensinando a doutrina dos quatro ele-
mentos, não há químico que, pela força dos fatos, não tenha sido levado a
admitir um número ainda maior. Os primeiros químicos que escreveram
depois da renovação das Letras viam o enxofre e o sal como substâncias
elementares que entravam na combinação de muitos corpos: eles
reconheciam, portanto, a existência de seis elementos em vez de quatro.
Beccher admitia três terras, e era da combinação delas e da diferença
entre suas proporções que resultava, segundo ele, a distinção que existe entre
as substâncias metálicas. Stahl modificou esse sistema: todos os químicos
que o sucederam se permitiram alterá-lo, até mesmo imaginar outros siste-
mas, mas todos se deixaram levar pelo espírito do seu século, que se con-
tentava com asserções sem provas ou, pelo menos, que via amiúde como
tais ligeiríssimas possibilidades.
Tudo o que se pode dizer sobre o número e a natureza dos elementos
se limita, a meu ver, a discussões puramente metafísicas: nos propomos a
resolver problemas indeterminados, que comportam uma infinidade de so-
luções, mas é muito provável que nenhuma, em particular, esteja em acordo

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DISCURSO PRELIMINAR 21

com a natureza. Eu me contentarei, portanto, a dizer que se pelo nome de


elementos pretendemos designar as partículas* simples e indivisíveis que
compõem os corpos é provável que não os conheçamos; se, ao contrário,
juntamos ao nome de elementos ou princípios corpos de idéia do último
termo a que chega a análise, todas as substâncias que ainda não pudemos
decompor por algum meio são para nós elementos. Não que possamos
garantir que esses corpos que temos como simples não sejam, eles mes-
mos, compostos de dois ou até de um maior número de princípios, já que
esses não se separam, ou melhor, não temos meio de separá-los, são para
nós corpos simples. Não os devemos supor como compostos senão quando
a experiência e a observação nos tenham fornecido a prova.
Essas reflexões sobre a evolução das idéias se aplicam naturalmente
à escolha das palavras que devem exprimi-las. Sou guiado pelo trabalho
que fizemos juntos em 1787, os senhores de Morveau, Berthollet, Fourcroy
e eu, sobre a Nomenclatura da Química; designei o máximo que pude as
substâncias simples por palavras simples, e foram elas que fui obrigado a
nomear primeiro. Podemos lembrar-nos de que nos esforçamos por con-
servar para todas essas substâncias os nomes que lhe são dados pela
sociedade: não nos permitimos mudá-los, com exceção de dois casos. O
primeiro, acerca das substâncias recém-descobertas e que ainda não tinham
sido nomeadas, ou pelo menos para aquelas que só o foram havia pouco
tempo e cujos nomes, ainda novos, não tinham sido sancionados pela ado-
ção geral. O segundo, quando os nomes adotados, ora pelos antigos, ora
pelos modernos, pareceram-nos acarretar idéias evidentemente falsas, e
poderiam levar a uma confusão entre a substância que eles definiam com
outras dotadas de propriedades diferentes ou opostas. Não tivemos
dificuldade alguma, então, em substituí-los por outros que tomamos em-
prestado principalmente do grego: fizemos de tudo para que exprimissem a
propriedade mais geral, a mais característica das substâncias; e nisso en-
contramos a vantagem de aliviar a memória dos principiantes, que dificil-
mente retêm uma palavra nova quando esta é absolutamente vazia de
sentido, e de acostumá-los logo a não admitir nenhuma palavra sem a ela
ligar uma idéia.
No que se refere aos corpos que são formados da reunião de várias
substâncias simples, nós os designamos por nomes compostos formados
pelos nomes das próprias substâncias; mas, como o número das combina-
ções binárias já é grande, teríamos caído na desordem e na confusão se não
nos dedicássemos a formar classes. O nome das classes e dos gêneros
está na ordem natural das idéias, o que lembra a propriedade comum a um
grande número de indivíduos; o de espécies, ao contrário, é aquele que leva
a idéia às propriedades particulares a alguns indivíduos.

* N.T.: Para os termos átomos e moléculas preferimos, em geral, o termo partícula.

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22 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

Tais distinções não são feitas, como se poderia pensar, somente pela
metafísica; elas o são pela natureza. Uma criança, diz o abade de Condillac,
chama pelo nome de árvore a primeira árvore que nós lhe mostramos.
Uma segunda árvore que ela vê lhe lembra a mesma idéia e ela lhe dá o
mesmo nome; da mesma forma com uma terceira, com uma quarta, e eis a
palavra árvore dada a um primeiro indivíduo torna-se para ela um nome de
classe ou de gênero, uma idéia abstrata que compreende todas as árvores
em geral. Mas quando lhe fizermos observar que todas as árvores não
servem para os mesmos usos, que não dão os mesmos frutos, ela logo
saberá distingui-las por nomes específicos e particulares. Esta lógica é a de
todas as ciências e aplica-se naturalmente à Química.
Os ácidos, por exemplo, são compostos de duas substâncias do tipo que
consideramos simples. À que constitui a acidez e é comum a todos, deve ser
emprestado o nome de classe ou de gênero. À outra, que é própria a cada
ácido, que diferencia uns dos outros, deve ser emprestado o nome específico.
Mas na maior parte dos ácidos os dois princípios constituintes, o acidi-
ficante e o acidificado, podem existir em proporções diferentes, que consti-
tuem os pontos de equilíbrio ou de saturação; é o que se observa no ácido
sulfúrico e no ácido sulfuroso; nós exprimimos esses dois estados do mesmo
ácido fazendo variar a terminação do nome específico.
As substâncias metálicas que foram expostas à ação simultânea do ar
e do fogo perdem seu brilho metálico, aumentam de peso e adquirem uma
aparência terrosa; são nesse estado compostas, como os ácidos, de um
princípio que é comum a todas e de outro particular próprio a cada uma:
tivemos, igualmente, de classificá-las sob um nome genérico derivado do
princípio comum, e o que adotamos é óxido; em seguida, diferenciamo-las
umas das outras pelo nome particular do metal a que elas pertencem.
As substâncias combustíveis que, nos ácidos e nos óxidos metálicos são
um princípio específico e particular, são suscetíveis de se tornar, por sua vez,
um princípio comum a um grande número de substâncias. As combinações
sulfurosas foram por muito tempo as únicas conhecidas nesse gênero: faz-se,
hoje, segundo as experiências dos senhores Vandermonde, Monge e Bertho-
llet, com que o carvão se combine com o ferro e com vários outros metais;
disso resultam, dependendo das proporções, ácido, plumbagina,* etc. Sabe-
mos, igualmente, de acordo com as experiências do sr. Pelletier, que o fósforo
se combina com um grande número de substâncias metálicas. Reunimos es-
sas diferentes combinações sob nomes derivados daquele da substância co-
mum, com uma terminação que lembra essa analogia, e as especificamos por
outro nome, derivado da substância original.
A nomenclatura dos corpos compostos de três substâncias simples
apresentava um pouco mais de dificuldades em razão do seu número e,
sobretudo, porque não se pode exprimir a natureza de seus princípios cons-

* N.T.: Grafite

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DISCURSO PRELIMINAR 23

tituintes sem empregar nomes mais compostos. Tivemos de considerar nos


corpos que formam essa classe, tais como os sais neutros, por exemplo: 1º,
o princípio acidificante que é comum a todos; 2º, o princípio acidificável que
constitui o seu ácido próprio; 3º, a base salina, terrosa ou metálica que
determina a espécie particular do sal. Tomamos emprestado o nome de
cada classe de sais ao do princípio acidificável, comum a todos da classe;
em seguida, distinguimos cada espécie pelo nome de base salina, terrosa ou
metálica, que lhe é particular.
Um sal composto dos três mesmos princípios pode estar, entretanto,
em estados muito diferentes, só pela diferença da sua proporção. A nomen-
clatura que adotamos seria defeituosa se não exprimisse esses estados e,
chegamos a isso, principalmente por mudanças de terminação que torna-
mos uniformes para um mesmo estado dos diferentes sais.
Enfim, chegamos ao ponto em que, só pela palavra, reconhece-se
qual é a substância combustível que entra na combinação em questão, se
essa substância combustível é combinada com o princípio acidificante e em
qual proporção; em que estado está esse ácido; a que base ele está unido;
se a saturação é exata; e se o ácido ou a base está em excesso.
Concebe-se que não foi possível preencher essas diferentes visões
sem ferir, por vezes, os costumes recebidos e sem adotar denominações
que pareceram duras e bárbaras em um primeiro momento; mas observa-
mos que o ouvido se acostumava prontamente às palavras novas, sobretu-
do quando se achavam ligadas a um sistema geral e arrazoado. Os nomes
que se empregavam antes de nós, tais como pó de algaroth, sal alembro-
th, pompholix, água fagedênica, turbito mineral, colcotar e muitos ou-
tros, não são nem menos bárbaros e nem menos extraordinários. É preciso
uma grande habilidade e muita memória para lembrar-se das substâncias,
e, sobretudo, para reconhecer a que gênero de combinação pertencem. Os
nomes óleo de tártaro por delíquio, óleo de vitríolo, manteiga de arsê-
nico e de antimônio, flores de zinco, etc., são mais impróprios ainda
porque fazem nascer idéias falsas: porque não existem, propriamente dito,
no reino mineral e, sobretudo, no metálico, nem manteigas, nem óleos, nem
flores; enfim, porque as substâncias que se designam sob esses nomes
enganadores são violentos venenos.
Censuraram-nos quando publicamos o nosso Ensaio de Nomencla-
tura Química por termos mudado a língua que os nossos mestres falaram,
que os tornaram conhecidos, e que nos transmitiram. Mas se esqueceram
de que foram os próprios Bergman e Macquer que solicitaram essa refor-
ma. O sábio professor de Upfal, o sr. Bergman, escrevia ao sr. de Morveau
nos seus últimos tempos de vida: não poupe nenhuma denominação im-
própria: os que já sabem terão sempre aprendido; os que ainda não
sabem aprenderão em breve.
Talvez fosse mais apropriado censurar-me por não ter dado na Obra
que trago ao público nenhum histórico da opinião daqueles que me precede-

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24 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

ram; de só ter apresentado a minha, sem discutir a dos outros. Conseqüente-


mente nem sempre fiz justiça aos meus confrades, ainda menos aos químicos
estrangeiros, o que era a minha intenção, mas rogo ao leitor que considere
que, acumulando citações em uma obra elementar, nos entregaríamos a
longas discussões sobre o histórico da ciência e sobre aqueles que nela
trabalharam e perderíamos de vista o verdadeiro objetivo a que nos propu-
semos, o que resultaria em uma obra de leitura completamente fastidiosa
para os principiantes. Não é nem a história da ciência nem a do espírito
humano que se deve fazer em um tratado elementar; nele só se devem
procurar a facilidade e a clareza. Precisa-se cuidadosamente dele afastar
tudo o que poderia desviar a atenção. É um caminho que é necessário
aplainar continuamente, em que não se deve deixar subsistir nenhum obstá-
culo que possa trazer o menor atraso. As ciências apresentam por si só
dificuldades suficientes para que não se precise recorrer a outras que lhes
sejam alheias. Os químicos perceberão facilmente, diga-se de passagem,
que usei na primeira parte apenas experiências de minha autoria. Se algu-
mas vezes puderam escapar-me adotar, sem citá-las, as experiências
ou as opiniões dos senhores Berthollet, Fourcroy, de la Place, Monge,
daqueles que em geral adotaram os mesmos princípios que eu, é que o
hábito de vivermos juntos, de comunicarmo-nos as idéias, observações,
maneira de ver, estabeleceu entre nós uma forte comunidade de opiniões
em que nos é amiúde difícil a nós mesmos distinguir o que pertence mais
particularmente a cada um de nós.
Tudo o que acabo de expor, sobre a ordem que me esforcei seguir no
processo das provas e das idéias, é aplicável à primeira parte desta Obra: é
só ela que contém o conjunto da doutrina que adotei; foi somente a ela que
procurei dar a forma verdadeiramente elementar.
A segunda parte é principalmente formada de quadros de nomencla-
tura dos sais neutros. A ela juntei apenas explicações muito sumárias, cujo
objetivo é dar a conhecer os procedimentos mais simples para obter as
diferentes espécies de ácidos conhecidos: essa segunda parte não contém
nada que me seja próprio; só apresenta um resumo muito conciso de
resultados extraídos de diferentes obras.
Enfim, dei na terceira parte uma descrição detalhada de todas as ope-
rações relativas à Química moderna. Uma obra desse gênero pareceria
desejada havia muito tempo, e acho que será de alguma utilidade. Em geral,
a prática das experiências, e sobretudo das modernas, não está bastante
divulgada; e, talvez, se nas diferentes Memórias que apresentei na Academia
eu tivesse dado mais detalhes sobre as manipulações, teria sido mais facil-
mente entendido, e a ciência teria feito progressos mais rápidos. A ordem
dos conteúdos nessa terceira parte me pareceu um pouco arbitrária, e me
apeguei facilmente a classificar, em cada um dos oito capítulos que a
compõem, as operações semelhantes. Perceber-se-á facilmente que essa

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DISCURSO PRELIMINAR 25

terceira parte não pôde ser extraída de nenhuma obra e que, nos artigos
principais, só pude ser ajudado pela minha própria experiência.
Terminarei esse Discurso Preliminar transcrevendo literalmente algu-
mas passagens do sr. abade de Condillac, que descrevem com muito mais
detalhes o estado da Química em tempos próximos ao nosso.1 Essas passa-
gens que não foram feitas tais e quais o original só adquirirão mais força se
a sua aplicação parecer justa.
“Em vez de observar as coisas que queremos conhecer, nós quise-
mos imaginá-las. De suposição falsa em suposição falsa, perdemo-nos
em uma multidão de erros; e uma vez que esses erros se tornaram pre-
conceitos, são tomados, por essa razão, como princípios, e afastamo-nos
cada vez mais. Então, passamos a raciocinar segundo os maus hábitos
que havíamos contraído. A arte de abusar das palavras sem ouvi-las
bem foi para nós a arte de raciocinar... Quando as coisas chegam a
esse ponto, quando os erros assim se acumulam, só há um meio de pôr
ordem na faculdade de pensar; é esquecer tudo o que aprendemos, re-
tomar as nossas idéias na sua origem, seguir o seu caminho e refazer,
como diz Bacon, o entendimento humano.
Essa forma é tão mais difícil quanto mais instruídos nos julgamos.
Assim, obras em que as ciências seriam tratadas com grande clareza, grande
ordem, grande precisão, não estariam ao alcance de todos. Aqueles que
não tivessem estudado as entenderiam melhor do que os que fizeram gran-
des estudos e, sobretudo, do que aqueles que escreveram sobre as ciências.”
O sr. abade de Condillac acrescenta no fim do Capítulo V: “Mas,
enfim, as ciências progrediram porque os filósofos observaram melhor e
puseram, na sua linguagem, a precisão e a exatidão que tinham posto nas
suas observações; corrigiram a língua e se raciocinou melhor”.

1. Parte 2, Capítulo I.

Sem título-1 25 12/06/2007, 10:20


Sem título-1 26 12/06/2007, 10:20
Tratado Elementar
de Química
Primeira Parte
Da formação dos fluidos aeriformes e da sua
decomposição; da combustão dos
corpos simples
e da formação dos ácidos.

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Sem título-1 28 12/06/2007, 10:20
Capítulo I
Das combinações do calórico e da formação
dos fluidos elásticos aeriformes

É um fenômeno constante na natureza, cuja generalidade foi bem estabele-


cida por Boerhaave, que quando se aquece um corpo qualquer, sólido ou
fluido, ele aumenta de tamanho em todos os sentidos. Os fatos sobre os quais
se fundamentou para restringir a generalidade desse princípio apresentam
resultados ilusórios ou, pelo menos, tornam mais complexas as circunstâncias
alheias que se impõem: mas quando se chega a separar os efeitos e a rela-
cionar cada qual à causa a que eles pertencem, percebe-se que a separação
das moléculas pelo calor é uma lei geral e constante da natureza.
Se depois de aquecido até certo ponto um corpo sólido e ter, assim,
separado cada vez mais todas as moléculas, ele é posto para esfriar, e
essas mesmas moléculas se aproximam umas das outras na mesma propor-
ção segundo a qual foram separadas, o corpo passa de novo pelos mesmos
graus de extensão que havia percorrido; e se é levado à mesma temperatura
que ele possuía no começo da experiência, retoma perceptivelmente o vo-
lume que tinha a princípio. Mas como estamos bem longe de poder obter
um grau de frio absoluto, e como não podemos aumentar o grau de resfria-
mento, disso resulta que ainda não conseguimos chegar a aproximar, o
máximo possível, as moléculas de nenhum corpo e, por conseguinte, as
moléculas de nenhum corpo se tocam na natureza; conclusão singularíssima
e que, no entanto, é impossível refutar.
Concebe-se que as moléculas dos corpos, sendo continuamente obri-
gadas pelo calor a se separar umas das outras, não teriam ligação entre si.
Não haveria nenhum corpo sólido se elas não fossem retidas por outra
força que tendesse a reuni-las, e, por assim dizer, a encadeá-las; e essa força,
qualquer que seja a sua causa, foi chamada de atração.
Dessa forma, as moléculas dos corpos podem ser consideradas como
obedecendo a duas forças, uma repulsiva, outra atrativa, que as equilibram.
Se a última dessas forças, a atração, é vitoriosa, o corpo fica no estado
sólido; se, ao contrário, a atração é a mais fraca e o calor separou tanto as
moléculas do corpo umas das outras que elas ficam fora da esfera de ativi-
dade da sua atração, elas perdem a aderência que tinham entre si e o corpo
deixa de ser um sólido.
29

Sem título-1 29 12/06/2007, 10:20


30 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

A água apresenta-nos um exemplo desses fenômenos: abaixo de zero


no termômetro francês,* ela está no estado sólido e tem o nome de gelo;
acima dessa temperatura, as moléculas deixam de ser retidas pela sua atra-
ção recíproca, e a água se torna aquilo a que chamamos líquido: enfim,
acima de 80 graus, as moléculas obedecem à repulsão ocasionada pelo
calor; a água toma o estado de vapor ou de gás e se transforma em um
fluido aeriforme.
O mesmo se pode dizer sobre todos os corpos ou da natureza; eles
são sólidos, líquidos ou estão em um estado elástico e aeriforme, segundo a
relação que existe entre a força atrativa das suas moléculas e a força re-
pulsiva do calor ou, o que dá na mesma, conforme o grau de calor a que são
expostos.
É difícil conceber esses fenômenos sem admitir que eles são o efeito
de uma substância real e material, de um fluido muito sutil que se insinua
entre as moléculas de todos os corpos e que os separa: e supondo mesmo
que a existência desse fluido fosse uma hipótese, explica de maneira muito
bem-sucedida os fenômenos da natureza.
Essa substância, qualquer que seja, é a causa do calor ou, em outras
palavras, a sensação a que chamamos calor; sendo o efeito da acumulação
dessa substância, não se pode, em uma linguagem rigorosa, designá-la pelo
nome de calor porque a mesma denominação não deve exprimir a causa e
o efeito. Foi o que me havia determinado, na Memória que publiquei em
1777 (Coletânea da Academia, página 420), defini-los sob o nome de flui-
do ígneo e de matéria do calor.
Desde então, o trabalho que temos feito em comum, os senhores de
Morveau, Berthollet, de Fourcroy e eu, sobre a reforma da linguagem quí-
mica, leva-nos a acreditar que temos que banir essas perífrases que alon-
gam o discurso, que o tornam mais arrastado, menos preciso, menos claro e
que, em geral, nem mesmo comportam idéias suficientemente justas. Em
conseqüência, designamos a causa do calor, o fluido eminentemente elásti-
co que a produz, pelo nome de calórico. Independentemente de essa ex-
pressão realizar o nosso objetivo no sistema que adotamos, ela tem outra
vantagem, a de poder adaptar-se a todos os tipos de opinião. Já que, rigoro-
samente falando, não somos de modo algum obrigados a supor que o caló-
rico seja uma matéria real: ele basta, como se perceberá melhor pela leitura
do que vai se seguir, que isso seja uma causa repulsiva qualquer que afasta
as moléculas da matéria e se pode, assim, vislumbrar os seus efeitos de
maneira abstrata e matemática.

*N.E.: Escala Réaumur, cujos pontos fixos são o ponto de congelamento da água (zero) e o
seu ponto de ebulição (80 graus). Assim, a unidade dessa escala, o grau Réaumur, vale 5/4 de
1 Kelvin (ou de 1 grau Celsius) e tem o mesmo zero que o grau Celsius. Essa escala foi
concebida em 1731 pelo físico e inventor francês René Antoine Ferchault de Réaumur
(1683-1757).

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DAS COMBINAÇÕES DO CALÓRICO E DA FORMAÇÃO DOS FLUIDOS ELÁSTICOS AERIFORMES 31

É a luz uma modificação do calórico ou é este uma mudança daquela?


Não sabemos dizer no estado atual dos nossos conhecimentos. O que há de
certo é que quando se determina apenas a admitir fatos e evitando-se, o
máximo possível, nada supor além do que apresentam, deve-se provisoria-
mente designar por nomes diferentes aquilo que produz efeitos diversos.
Distinguiremos, portanto, a luz do calórico; mas não concordaremos que a
luz e o calórico têm qualidades comuns e que em algumas circunstâncias
eles se combinam mais ou menos da mesma maneira e produzem em parte
os mesmos efeitos.
O que acabo de dizer já bastaria para realmente determinar a idéia
que se deve atribuir à palavra calórico. Mas me resta uma tarefa mais
difícil a cumprir, a de dar idéias justas de como o calórico age sobre os
corpos. Posto que essa matéria sutil penetra pelos poros de todas as substân-
cias que conhecemos, já que não existem vasos dos quais ela não escapa, e
que, por conseguinte, não há nenhum que possa contê-la sem perda, apenas
se conhecem as suas propriedades pelos efeitos que, na maior parte, são
fugidios e difíceis de captar. Sobre esses efeitos, é importante tomar cuida-
do contra os desvios da imaginação, que tende sempre a lançar-se para
além do verdadeiro, pois é a duríssimas penas que se encerra no círculo
estreito que os fatos lhe circunscrevem.
Vimos que o mesmo corpo se tornava sólido, líquido, ou fluido aerifor-
me, segundo a quantidade de calórico presente ou, para falar de maneira
mais rigorosa, conforme a força repulsiva do calórico esteja igual à atração
das suas moléculas ou mais forte, ou mais fraca, do que ela.
Mas, se existissem apenas essas duas forças, os corpos só seriam
líquidos numa pequena fração de temperatura e passariam bruscamente do
estado de sólido para o de fluido elástico aeriforme. Dessa forma, a água,
por exemplo, no mesmo instante em que fosse gelo, começaria a ferver, se
transformaria em um fluido aeriforme e as moléculas se separariam indefi-
nidamente no espaço. Como não é assim, uma terceira força, a pressão da
atmosfera, se opõe a essa separação e é por essa razão que a água per-
manece no estado fluido desde zero até 80 graus do termômetro francês; a
quantidade de calórico que ela recebe nesse intervalo é insuficiente para
vencer o esforço provocado pela pressão da atmosfera.
Vê-se, portanto, que sem a pressão atmosférica não teríamos líquido;
só teríamos os corpos nesse estado no momento preciso em que eles se
fundem: o menor aumento de calor que recebessem em seguida afastaria
de imediato as suas partes e as dispersaria. Há mais, sem a pressão da
atmosfera não teríamos, propriamente falando, fluidos aeriformes. Na ver-
dade, no momento em que a força da atração fosse vencida pela força
repulsiva do calórico, as moléculas se distanciariam indefinidamente, sem
que nada limitasse o seu afastamento, se não fosse o seu próprio peso que
as reunisse para formar uma atmosfera.

Sem título-1 31 12/06/2007, 10:20


32 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

Simples reflexões sobre as experiências mais conhecidas bastam para


confirmar a verdade do que acabo de enunciar. Aliás, está confirmada de
maneira evidente pela experiência que segue, cujos detalhes já dei na Aca-
demia em 1777. (Ver Memória, página 426.)
Enche-se de éter sulfúrico2 um pequeno frasco de vidro estreito, A,
prancha VII, figura 17, montado sobre o seu pé P. Esse frasco não deve
ter mais de 12 a 15 linhas* de diâmetro e cerca de duas polegadas de altura.
Cobre-se o frasco com uma bexiga umedecida, que se ajusta no gargalo do
frasco presa por grossos fios bem apertados. Para maior segurança, colo-
ca-se uma segunda bexiga sobre a primeira e ajustada da mesma maneira.
Esse frasco deve completamente preenchido de éter de modo que não res-
te nenhuma porção de ar entre o licor e a bexiga. Em seguida, é posto no
recipiente B C D de uma máquina pneumática, fechado por um tampão de
couro, atravessado por uma haste E F, cuja extremidade F termina em uma
ponta ou lâmina muito aguda: nesse mesmo recipiente deve ser adaptado
um barômetro G H.
Quando tudo estiver assim disposto, retira-se o ar do recipiente; em
seguida, fazendo descer a haste pontiaguda E F, estoura-se a bexiga. Logo
o éter começa a ferver com surpreendente rapidez, vaporiza e se transforma
em um fluido elástico aeriforme que ocupa todo o recipiente. Se a quantida-
de de éter for bastante considerável para que, uma vez terminada a vapori-
zação, dele ainda restem algumas gotas no frasco, o fluido elástico que se
produziu sustentará o barômetro adaptado à máquina pneumática a cerca
de 8 ou 10 polegadas durante o inverno e a 20 ou 25 durante os calores do
verão. Pode-se, para tornar essa experiência mais completa, introduzir um
pequeno termômetro no frasco A que contém o éter, e se percebe que ele
desce consideravelmente durante todo o tempo que dura a vaporização.
Não se faz, nessa experiência, senão suprimir a pressão da atmosfera,
que, no estado comum, atua sobre a superfície do éter, e os efeitos que
disso resultam provam evidentemente duas coisas: a primeira, que no grau
de temperatura em que vivemos, o éter estaria constantemente no estado de
um fluido aeriforme, se a pressão atmosférica não pusesse aí obstáculos. A
segunda, que essa passagem do estado líquido para o aeriforme é acompa-
nhada de um resfriamento considerável, porque durante a vaporização, uma
parte do calórico que estava em um estado de liberdade ou, pelo menos, de
equilíbrio com os corpos circundantes, combina-se com o éter para levá-lo
ao estado de fluido aeriforme.

2. Darei em outra parte a definição do licor que se chama éter e descreverei as suas proprie-
dades. Limitar-me-ei a dizer, por ora, que se designa por esse nome um licor inflamável
muito volátil, de um peso específico muito menor do que a água, e até mesmo do que o
espírito do vinho.
*N.T.: antiga unidade de medida que corresponde a 1/12 de polegada ou aproximadamente
2,3 milímetros.

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DAS COMBINAÇÕES DO CALÓRICO E DA FORMAÇÃO DOS FLUIDOS ELÁSTICOS AERIFORMES 33

A mesma experiência foi bem-sucedida com todos os fluidos evapo-


ráveis, a exemplo do espírito de vinho ou álcool, da água e do próprio mer-
cúrio, só com a diferença de que a atmosfera do álcool que se forma sob o
recipiente não pode sustentar o barômetro adaptado à máquina pneumática
no inverno, senão a 1 polegada abaixo do seu nível, e a 4 ou 5 no verão; de
que a atmosfera só o sustenta em algumas linhas, e o mercúrio, a algumas
frações de linha. Há, portanto, menos fluido vaporizado quando se utiliza o
álcool do que éter; menos ainda com a água e, sobretudo, com o mercúrio.
Por conseguinte, menos calórico é empregado e menor esfriamento, o que
se encaixa perfeitamente no resultado das experiências.
Outro tipo de experiência prova ainda, de maneira também evidente,
que o estado aeriforme é uma modificação dos corpos, que depende do
grau de temperatura e de pressão em que eles se encontram.
Demonstramos, o sr. de la Place e eu, em uma Memória que lemos na
Academia em 1777, mas que não foi impressa, que quando o éter é subme-
tido a uma pressão de 28 polegadas de mercúrio, isto é, a uma pressão igual
à da atmosfera, ele entra em ebulição a 32 ou 33 graus do termômetro de
mercúrio. O sr. de Luc, que fez pesquisas análogas sobre o espírito de vinho,
reconheceu que ele entrava em ebulição a 67 graus. Por fim, é fato que a
água começa a ferver a 80 graus.
Não sendo a ebulição outra coisa além da vaporização de um fluido,
ou o momento da sua passagem do estado líquido para o de um fluido elás-
tico aeriforme, é evidente que, mantendo o éter a uma temperatura constante
superior a 33 graus na pressão atmosférica, é obtido em um estado de
fluido aeriforme e a mesma coisa deve acontecer com o espírito de vinho
acima de 67 graus e com a água acima de 80, o que foi perfeitamente
confirmado pelas experiências seguintes3.
Enchi de água a 35 ou 36 graus do termômetro uma grande cuba A B C D,
prancha VII, figura 15, transparente para melhor observar o que se passa
no seu interior, e poderia ainda manter as mãos por um tempo considerável na
água nesta temperatura. Mergulhei duas garrafas F, G, de gargalo estreito
que se encheram depois que eu as virei de maneira que ficassem com o
gargalo para baixo, contra o fundo do frasco.
Uma vez as coisas assim dispostas, introduzi o éter sulfúrico em um
pequeno recipiente, cujo gargalo a b c foi duplamente recurvado; mergu-
lhei-o na água do frasco A B C D e inseri, como se vê representado na
figura 15, a extremidade do tubo a b c no gargalo da garrafa F: assim que
o éter começou a receber o calor da água, entrou em ebulição; e o calórico
que se combinou com ele o transformou em um fluido elástico aeriforme,
com o qual enchi sucessivamente várias vezes as garrafas F, G.

3. Memórias da Academia, 1780, página 335.

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34 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

Aqui não é o lugar para examinar a natureza e as propriedades desse


fluido aeriforme, que é muito inflamável; mas, sem me antecipar aos co-
nhecimentos que não devo supor ao leitor, observarei, fixando-me no objeto
que nos ocupa por ora, o éter, que segundo essa experiência, está a ponto
de só poder existir no planeta que habitamos no estado aeriforme. Se o
peso da nossa atmosfera equivalesse a uma coluna de 20 ou 24 polegadas
de mercúrio em vez de 28, não poderíamos obter o éter no estado líquido,
pelo menos durante o verão; e seria, por conseguinte, impossível sobre as
montanhas mais altas, pois se converteria em gás à medida que fosse se
formando, a menos que se empregassem balões muito resistentes para con-
densá-lo e que se juntasse o resfriamento ao aumento da pressão. Enfim,
uma vez que a temperatura do sangue é mais ou menos aquela em que o
éter passa do estado líquido para o aeriforme, ele deve vaporizar-se imedia-
tamente, e é possível que as propriedades desse medicamento* estejam
ligadas a esse efeito, por assim dizer, mecânico.
Essas experiências são mais precisas com o éter nitroso porque ele
vaporiza a um grau de calor menor do que o éter sulfúrico. Acerca do
álcool, o espírito de vinho, a experiência para obtê-lo no estado aeriforme
apresenta um pouco mais de dificuldade porque, uma vez que esse fluido se
vaporiza apenas a 67 graus do termômetro de Réaumur, é preciso que a
água do banho seja mantida quase fervente, e nessa temperatura não é
mais possível mergulhar as mãos.
Seria evidente que a mesma coisa deveria acontecer com a água e
que esse fluido igualmente se transformaria em gás quando exposto a um
grau de calor superior àquele que o faz ferver. Mas, embora convencidos
dessa verdade, acreditamos, entretanto, o sr. de la Place e eu, que tínha-
mos de confirmá-la por uma experiência direta e eis, o seu resultado.
Enchemos de mercúrio um recipiente de vidro A, prancha VII, figura 5,
com a abertura virada para baixo e o pusemos numa cápsula B, igualmente
cheia de mercúrio. Introduzimos nesse recipiente água, até a altura C D,
acima da superfície do mercúrio; depois mergulhamos o conjunto numa
grande caldeira de ferro E F G H, colocada sobre um forno G H I K: essa
caldeira foi preenchida com água salgada em ebulição, cuja temperatura
excedia 85 graus do termômetro; assim procedemos para atingir uma tem-
peratura superior àquela da água fervente. Assim que a água atingiu a
temperatura de 80 graus ou cerca disso, entrou em ebulição e, em vez de
ocupar, como fazia, o pequeno espaço A C D, converteu-se em um fluido
aeriforme, que o encheu por completo: o mercúrio chegou mesmo a descer
um pouco abaixo do seu nível e o recipiente teria virado se não fosse muito
espesso, por conseguinte, muito pesado, e se a cápsula não estivesse, além
disso, presa pelo fio de ferro. Logo que se retirou o recipiente do banho de

* N.T.: nesta época o éter era usado como anestésico.

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DAS COMBINAÇÕES DO CALÓRICO E DA FORMAÇÃO DOS FLUIDOS ELÁSTICOS AERIFORMES 35

água salgada, a água se condensou e o nível do mercúrio voltou a subir;


mas ela retomava o estado aeriforme alguns instantes depois que o apare-
lho era mergulhado novamente.
Eis, portanto, que certo número de substâncias se transformam em
fluidos aeriformes em graus de calor próximos daqueles em que vivemos.
Veremos logo que há outras delas, tais como o ácido marinho ou muriático,
o álcali volátil ou amoníaco, o ácido carbônico ou ar fixo, o ácido sulfuroso
etc., que permanecem constantemente no estado aeriforme, no grau habi-
tual de calor e de pressão da atmosfera.
Todos esses fatos particulares, de que me seria fácil multiplicar os
exemplos, autorizam-me a estabelecer um princípio geral do que já anun-
ciei, que quase todos os corpos da natureza só podem existir em três estados
diferentes: no de solidez, no de liquidez e no aeriforme; e que esses três
estados de um mesmo corpo dependem da quantidade de calórico com que
esse se combina. Designarei doravante esses fluidos aeriformes sob o nome
genérico de gás; e direi, em conseqüência, que, em toda espécie de gás,
deve-se distinguir o calórico que exerce de certo modo a função de solven-
te e a substância combinada com ele e que forma a base.
Essas bases dos diferentes gases são ainda pouco conhecidas e fomos
obrigados a nomeá-las. Indicarei os nomes no Capítulo IV desta Obra, de-
pois de explicar alguns fenômenos que acompanham o aquecimento e o
resfriamento dos corpos e fornecer idéias mais precisas sobre a constitui-
ção da nossa atmosfera.
Vimos que as moléculas de todos os corpos da natureza estão em
equilíbrio entre a atração, que tende a aproximá-las e a reuni-las, e os es-
forços do calórico, que tendem a separá-las. Assim, não apenas o calórico
envolve todas as partes dos corpos, mas ainda preenche os intervalos que
as suas moléculas deixam entre elas. Formar-se-á uma idéia dessas dispo-
sições, imaginando-se um frasco cheio de pequenas esferas de chumbo no
qual se verte um pó muito fino, como a areia: concebe-se que essa substân-
cia se espalhará uniformemente nos intervalos que as esferas deixaram
entre si e os preencherá. As esferas, nesse exemplo, fazem com o pó o que
as moléculas dos corpos fazem com o calórico; com a diferença de que, no
exemplo citado, as esferas se tocam, ao contrário das moléculas dos corpos
que, sempre são mantidas a uma pequena distância umas das outras pelo
esforço do calórico.
Se substituíssemos as esferas, cuja figura é redonda, por hexaedros,
octaedros ou por sólidos regulares e de igual solidez, os espaços vazios que
eles deixariam entre si não seriam mais iguais e não se poderia mais aí
alojar uma quantidade tão grande pó. O mesmo ocorre com todos os corpos
da natureza; os intervalos que as suas moléculas deixam entre si não são
todos iguais e dependem da forma dessas moléculas, do seu tamanho e da
distância a que são mantidas umas das outras, segundo a relação que existe
entre a força de atração e a força repulsiva exercida pelo calórico.

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36 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

É nesse sentido que se deve entender a expressão: capacidade


dos corpos de conter a matéria do calor; expressão muito justa, intro-
duzidas pelos físicos ingleses, que conceberam as primeiras noções exa-
tas a esse respeito. Um exemplo do que se passa na água e algumas
reflexões acerca de como esse fluido molha e penetra nos corpos torna-
rão isso mais inteligível, e não seria demais ilustrar as coisas abstratas
com comparações sensíveis.
Se mergulharmos na água pedaços de diferentes madeiras, iguais
em volume, de um pé cúbico, por exemplo, esse fluido se introduzirá pouco
a pouco nos seus poros; eles incharão e aumentarão de peso, mas cada
espécie de madeira admitirá nos seus poros uma quantidade de água
diferente; as mais leves e porosas absorverão maior quantidade; as que
forem compactas e comprimidas não deixarão penetrar mais que uma
pequena quantidade. Enfim, a proporção de água que receberão depen-
derá ainda da natureza das moléculas constituintes das madeiras, da afi-
nidade maior ou menor que têm com a água. As madeiras mais refinadas,
por exemplo, embora muito porosas, admitirão que as penetrem muito
pouco. Poder-se-á, portanto, dizer que as espécies de madeiras têm ca-
pacidades diferentes para receber a água; poder-se-á inclusive conhecer,
pelo aumento de peso, a quantidade absorvida; mas se ignorará quanta
água continha antes da sua imersão, por isso não será possível saber a
quantidade absoluta que possuirão ao sair.
O mesmo ocorre com corpos que são mergulhados no calórico; obser-
vando, contudo, que a água é um fluido incompressível, ao passo que o
calórico é dotado de uma grande elasticidade, o que significa, em outras
palavras, que as moléculas do calórico têm grande tendência de se separa-
rem umas das outras quando uma força qualquer as obriga a se aproximar,
e portanto essa circunstância deve acarretar mudanças muito considerá-
veis nos resultados.
Uma vez que as coisas chegaram a esse ponto de clareza e de simpli-
cidade, ser-me-á fácil fazer com que entendam quais são as idéias ligadas
a estas expressões: calórico livre e calórico combinado, quantidade
específica de calórico contida nos diferentes corpos, capacidade de con-
ter o calórico, calor latente, calor sensível, expressões que não são
sinônimas; mas que, segundo o que acabo de expor, têm um sentido estrito
e determinado. É o significado que vou procurar ainda fixar por algumas
definições.
O calórico livre é aquele que não participa de nenhuma combinação.
Como vivemos no meio de um sistema de corpos com os quais o calórico
tem aderência, disso resulta que nunca obteremos esse princípio no estado
de liberdade absoluta.
O calórico combinado é aquele que é encadeado nos corpos pela
força de afinidade ou de atração, constitui uma parte da sua substância, até
mesmo da sua solidez.

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DAS COMBINAÇÕES DO CALÓRICO E DA FORMAÇÃO DOS FLUIDOS ELÁSTICOS AERIFORMES 37

Entende-se por esta expressão, calórico específico dos corpos, a


quantidade de calórico respectivamente necessária para elevar em um
mesmo número de graus a temperatura de diferentes corpos de mesmo
peso. Essa quantidade de calórico depende da distância das moléculas dos
corpos, da sua aderência maior ou menor. Essa distância, ou melhor, o es-
paço que dela resulta, que se chama, como já observei, capacidade para
conter o calórico.
O calor, considerado sensação ou, em outros termos, o calor sensí-
vel, é o reflexo produzido sobre os órgãos pela passagem do calórico que
se solta dos corpos próximos. Em geral, só o sentimos por um movimento
qualquer, e se poderia colocar um axioma, sem movimento, sem sensação.
Esse princípio geral se aplica naturalmente à sensação de frio e de calor:
assim que tocamos um corpo frio, o calórico que tende a pôr-se em equilí-
brio em todos os corpos passa da nossa mão para os corpos que tocamos, e
experimentamos a sensação do frio. O efeito contrário ocorre quando toca-
mos um corpo quente; o calórico passa do corpo para a nossa mão, e temos
a sensação do calor. Se os corpos e a mão têm o mesmo grau de tempera-
tura, ou quase o mesmo, não experimentamos sensação, nem de frio nem
de calor, porque então não há movimento, não há transporte de calórico e,
mais uma vez, não há sensação sem um movimento que a ocasione.
Quando o termômetro sobe, é uma prova de que há calórico livre que
se espalha nos corpos circundantes: o termômetro, que entre corpos, rece-
be a sua parte em razão da massa e da capacidade que ele próprio tem de
conter o calórico. A mudança que chega no termômetro, portanto, só anuncia
um deslocamento de calórico, uma mudança chegada a um sistema de cor-
pos de que ele faz parte; indica, no máximo, apenas a porção de calórico
que recebeu, mas não mensura a quantidade total que foi liberada, desloca-
da ou absorvida. O meio mais simples e prático para explicar este assunto
foi proposto pelo sr. de la Place, descrito nas Memórias da Academia, do
ano de 1780, página 364. Há uma explicação sumária no fim desta Obra.
Consiste em colocar o corpo, ou a combinação de que se solta o calórico,
no meio de uma esfera oca de gelo: a quantidade de gelo derretido é uma
expressão exata da quantidade de calórico que se soltou. Podemos, com a
ajuda do aparelho que mandamos construir segundo essa idéia, conhecer,
não como se pretendeu, a capacidade que têm os corpos de conter o caló-
rico, mas a relação dos aumentos ou diminuições que recebem essas capa-
cidades, por números determinados de graus do termômetro. É fácil, com o
mesmo aparelho e por diversas combinações de experiências, conhecer a
quantidade de calórico necessária para converter os corpos sólidos em lí-
quidos e estes em fluidos aeriformes, e, reciprocamente, o que os fluidos
elásticos abandonam de calórico quando voltam a se tornar líquidos, e estes
ao se solidificarem. Chegar-se-á um dia, quando as experiências estiverem
bastante multiplicadas, a determinar a relação de calórico que constitui cada

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38 TRATADO ELEMENTAR DE QUÍMICA (1789)

espécie de gás. Explicarei, em um capítulo específico, os principais resulta-


dos que obtivemos nesse gênero.
Resta-me, para finalizar este artigo, dizer uma palavra sobre a cau-
sa da elasticidade dos gases e dos fluidos gasosos. Não é difícil perceber
que essa elasticidade está ligada à do calórico, que parece ser um corpo
eminentemente elástico da natureza. Nada mais simples do que conceber
que um corpo se torna elástico ao se combinar com outro que é também
dotado dessa propriedade. Mas é preciso convir que é explicar a elastici-
dade pela elasticidade; que assim só se faz recuar a dificuldade, e que
resta sempre explicar o que é a elasticidade e por que o calórico é elásti-
co. Considerando a elasticidade em um sentido abstrato, ela não é outra
coisa que a propriedade que têm as partículas de um corpo de se afastar
umas das outras, quando são forçadas a se aproximar. Essa tendência
das partículas do calórico de se afastarem ocorre mesmo a grandes dis-
tâncias. Ficar-se-á convencido disso se considerar-mos que o ar é susce-
tível de um grande grau de compressão; portanto as suas moléculas já
estão muito distantes umas das outras, pois a possibilidade de aproxima-
rem-se supõe que exista uma distância pelo menos igual à quantidade da
aproximação. Ocorre que essas partículas do ar já muito distantes entre si
tendem a se distanciar mais ainda: na verdade, fazendo-se o vazio de
Boyle em um grande recipiente, as últimas porções de ar que nele restam
se espalham uniformemente por todo o frasco; por maior que este seja,
elas o preenchem por inteiro e pressionam as paredes. Acontece que
esse efeito só pode ser explicado supondo que as partículas fazem um
esforço em todos os sentidos para se separar, e não se conhece a distância
em que esse fenômeno cessa.
Há, portanto, uma verdadeira repulsão entre as partículas dos fluidos
elásticos ou, pelo menos, as coisas se passam como se essa repulsão exis-
tisse e, assim, se teria algum direito de concluir que as partículas do calóri-
co se repelem umas às outras. Uma vez admitida essa força de repulsão, as
explicações relativas à formação dos fluidos aeriformes ou gás se tornam
muito simples; mas é preciso convir, ao mesmo tempo, que uma força re-
pulsiva entre partículas pequeníssimas, e que age a grandes distâncias, é
difícil de conceber.
Talvez parecesse mais natural supor que as partículas do calórico se
atraem mais entre si do que o fazem as partículas dos corpos, e que elas só
os separam para obedecer à força de atração que as obriga se reunir. Ocorre
algo análogo a esse fenômeno, quando se mergulha uma esponja seca na
água: ela se infla, as partículas separam-se umas das outras, e a água preen-
che todos os intervalos. Claro está, que essa esponja, ao se inflar adquiriu
mais capacidade para conter água do que tinha antes. Mas é possível dizer
que a introdução da água entre as suas partículas lhes tenha dado uma
força repulsiva que tende a separá-las umas das outras? Não, sem dúvida:
só há, ao contrário, forças atrativas que agem nesse caso e essas forças

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