Você está na página 1de 116

PUBLICAÇÃO REFERENTE AO 40º ANIVERSÁRIO DA CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA - CONTAG - FUNDADA EM 22 DE FEVEREIRO DE 1963

ANOS DE LUTAS AO LADO DO HOMEM E DA MULHER DO CAMPO


VAMOS MANTER FORTE O SISTEMA CONTAG
DIRETORIA EFETIVA
5 Introdução
Manoel José dos Santos
Presidente
7 Mensagem
Alberto Ercílio Broch
1º Vice-Presidente e Secretário de Relações
Internacionais
9 História de nossas raízes
Hilário Gottselig
Secretário Geral
13 As primeiras lutas
Juraci Moreira Souto
Secretário de Finanças e Administração 15 Contag primeira organização sindical
Guilherme Pedro Neto
Secretário da Assalariados 19 Contag resistência ao regime
Maria da Graça Amorim
Secretária de Política Agrária e Meio Ambiente 23 Os rumos MSTR
Natal Ribeiro Maciel
Secretário de Política Agrícola 24 Eleições e Congressos Nacionais
Francisco Miguel de Lucena
Secretaria de Organização e Formação Sindical 47 Desenvolviemento sustentável
Maria de Fátima Rodrigues da Silva
Secretária de Políticas Sociais 59 Contag e a justiça social
Raimunda Celestina de Mascena
Coordenadora da Comissão Nacional de Mulheres 60 Contag defende a democratização
Trabalhadoras Rurais

Simone Battestin 69 Agricultura familiar


Coordenadora da Comissão Nacional de Jovens
Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
75 Organização de homens e mulheres

FICHA TÉCNICA
81 Formação sindical
Supervisão da Publicação: Manoel 85 Educação do campo
José dos Santos Edição e Revisão:
Adriana Borba Fetzner (6.100/DRT-RS0)
Pesquisa e Coordenação dos Textos:
89 Desafios para proseguir
Adriana Borba Fetzner - Amarildo
Carvalho de Souza Textos: Adriana 91 Gestão sindical
Borba Fetzner - Amarildo Carvalho de
Souza - Denise Arruda - Rosane Garcia
- Solon Dias Colaboração: Armando
95 Política sindical
Santos neto - Cléia Anice da Mota Porto
Evandro José Morello - Maria José Costa 103 Sustentabilidade
Arruda - Maria do Socorro Silva - Maria
do Socorro Sousa - Marleide Barbosa
Sousa - Paulo de Oliveira Poleze Fotos:
105 A Contag e as relações internacionais
César Ramos e arquivos da CONTAG
Editoração Eletrônica e Capa: Versal 106 A festa dos 40 anos
Design Fotolito e Impressão:
Permitida a reprodução, desde que citada
a fonte. Solicita-se envio de exemplar ou
107 A unidade na adversidade
cópia para os editores.
109 Cronologia da luta
Confederação Nacional dos Trabalhadores
na Agricultura – CONTAG
SMPW Quadra 01 Conjunto 02 Lote 02 -
71.735-010 – Núcleo Bandeirantes / DF -
Fones (61) 2102.2288 – Fax (61) 2102.2299
www.contag.org.br
E-mail: contag@contag.org.br CONTAG 40 ANOS - 3
4 - CONTAG 40 ANOS
apresentação

40 anos de lutas e conquistas


com satisfação que comemoramos 40 anos espaço de vida, de luta, de trabalho e de construção

É
de existência da CONTAG e mais uma vez de conhecimentos, capazes de promover as transfor-
homenageamos os que construíram a nos- mações necessárias para um desenvolvimento
sa história, que acreditaram e acreditam sustentável em nosso país.
na capacidade de organização dos trabalhadores e Essa trajetória possibilitou que, nos últimos 10 anos,
trabalhadoras rurais. a CONTAG elaborasse, coordenasse e implementasse
Nossa trajetória é fruto de organização, trabalho, o PROJETO ALTERNATIVO DE DESENVOLVIMENTO RURAL
articulação e mobilização dos Sindicatos e Federações SUSTENTÁVEL – PADRS, que representa um passo
de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, que em significativo para a articulação e unificação das lutas
cada município e Estado, vem desde a fundação da dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. O PADRS
CONTAG, em 22 de dezembro de 1963, construindo o propõe um novo tipo de relação entre o campo e a
Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras cidade e a perspectiva de um novo projeto de desen-
Rurais – MSTTR, com uma postura de luta e plurali- volvimento que inclua equidade de oportunidades,
dade, trabalhando com a diversidade regional, cultural justiça social, empoderamento dos atores sociais,
e produtiva do meio rural no nosso país. preservação ambiental, soberania e segurança alimen-
Ao longo desses anos a atuação da CONTAG con- tar, e crescimento econômico.
tribuiu para a ampliação e o fortalecimento da organi- O ponto de partida para elaboração do PADRS,
zação e representação sindical no meio rural: reivin- portanto, foi a concepção de desenvolvimento rural
dicando, mobilizando, propondo e negociando políti- sustentável, cujos eixos se fundamentam:
cas agrícolas diferenciadas, direitos trabalhistas e Na luta pela Reforma Agrária, como ferramenta
políticas sociais que resgatem a área rural, enquanto estratégica para a promoção da função social da

CONTAG 40 ANOS - 5
terra, para o resgate da cidadania de milhões de jovens, terceira idade; a luta pela erradicação do
trabalhadores e trabalhadoras rurais, para geração trabalho infantil; a formulação de uma proposta de
de emprego e renda dentro e fora do setor agrícola, educação do campo; a luta contra o trabalho escravo;
como forma de combate à fome e à pobreza, a susten- a democratização de sua estrutura com a realização
tabilidade ambiental e o desenvolvimento das comu- de congressos eleitorais e a filiação à CUT foram algu-
nidades envolvidas, processos essenciais para o mas das transformações e conquistas que qualifi-
fortalecimento da agricultura familiar. caram nossa intervenção nas diferentes políticas de
No fortalecimento da agricultura familiar, como interesse dos trabalhadores e trabalhadoras do campo.
estratégia produtiva e de desenvolvimento para o país, Essas mudanças possibilitaram à CONTAG apresen-
que se viabiliza a partir de uma economia solidária e tar uma proposta de Política de Crédito diferenciado
cooperativista, articuladas com novas tecnologias e para a agricultura familiar, que contou com o apoio
atividades não-agrícolas. das entidades parceiras. Foi uma contribuição essencial
Na luta pelos direitos trabalhistas e melhores para a criação do PROGRAMA NACIONAL DE FOR-
condições de vida para os assalariados e assalariadas TALECIMENTO DA AGRCULTURA FAMILIAR – PRONAF,
rurais, com salário digno, democratização nas relações que permanentemente é modificado com o propósito
de trabalho, cumprimento dos direitos trabalhistas com de atender a todas as necessidades dos agricultores e
qualidade de emprego e vida no meio rural. agricultoras familiares do nosso país.
Na construção de novas atitudes e valores para Para compreender a amplitude do PADRS, preci-
as relações sociais de gênero e geração, fundamen- samos conhecer a nossa história, lutas e organização.
tada no reconhecimento das diferenças e do direito Nenhuma instituição consegue construir um projeto
de cada pessoa, no aprender e ensinar a partilhar o de tal dimensão, se durante esses 40 anos, não
poder e o saber, na participação efetiva na organiza- tivesse ousado, entre erros e acertos, ser participa-
ção, na produção, na família e na sociedade. tiva, includente e plural, mesmo nos momentos mais
Na luta por políticas sociais e democratização difíceis da política e economia brasileira.
dos espaços públicos. A educação, a saúde, o lazer, A nossa cultura organizacional possibilitou
a formação profissional, a pesquisa, o assessoramen- manter-nos unificados durante esses 40 anos. Hoje
to técnico, o meio ambiente, os esportes, a cultura, temos mais de 4 mil Sindicatos de Trabalhadores e
a previdência e a assistência social são elementos Trabalhadoras Rurais e 27 Federações filiadas,
estruturais de qualquer proposta de desenvolvimento afirmando que nossa determinação e resistência
e de vida digna no campo. foram a base para o crescimento da organização.
A implementação desses eixos levou a uma nova Por tudo isso, surge a proposta da nossa revista.
organização da estrutura e da agenda sindical. Esti- Ela traz um resumo da nossa memória sindical e
mulou novas frentes de lutas e ações nos sindicatos, resgata nossas raízes. Registra, principalmente, um
federações e CONTAG, dando amplitude, diversidade pouco do que aconteceu nos últimos 10 anos de nossa
e pluralidade a nossa ação sindical, evidenciando que trajetória. Ela foi escrita, em especial, para nossos
o desenvolvimento sustentável precisa ser construído filiados e filiadas que vem, ao longo desses anos,
todos os dias, pois a mudança do modelo econômico, fazendo nossa história. No entanto, todos/as que
político e social excludente não é tarefa que se realize desejam conhecer a luta de um povo, de uma organi-
rapidamente, nem será feita só por nossa organização. zação que vem buscando melhores condições de vida
A partir dessa compreensão, o diálogo permanente e dignidade para os trabalhadores e trabalhadoras
com a sociedade e a busca de parcerias são elementos rurais do nosso país, encontrarão aqui a história
fundamentais nesse processo. contada pelos protagonistas.
A criação de secretarias específicas por frentes de
lutas; a ampliação da participação das mulheres, Diretoria da CONTAG

6 - CONTAG 40 ANOS
mensagem

Agência Brasil - ABr/ Ana Nascimento


O Presidente Lula anunciando o
resultado das negociações do Grito da
Terra Brasil/2003 - CESIR/CONTAG

ompanheiros e companheiras da CONTAG, mulher do campo, ou os avanços na política agrícola

C das FETAGs e dos Sindicatos de Traba-


lhadores Rurais de todo o país:
O 40º aniversário da CONTAG é, para
do país, da História de lutas da CONTAG. A Entidade,
liderando os trabalhadores e trabalhadoras do
campo, com inteligência e bravura, sensibilizou a
todos nós que lutamos por melhores condições de sociedade brasileira sobre a justeza das suas teses
vida para todos os brasileiros, um momento especial. e conquistou importantes direitos sociais, tornando-
Nele celebramos a plena capacidade da classe os cada vez mais efetivos.
trabalhadora para afirmar a democracia e os direitos Também na condição de Presidente da República
sociais no país. posso dar meu depoimento sobre a importância da
Como liderança sindical e dirigente político pude CONTAG na missão comum que temos de
testemunhar, ao longo das últimas décadas, o transformar o Brasil num país mais eqüitativo e
empenho da CONTAG e das Federações e Sindicatos soberano. Combinando a capacidade de diálogo e
a ela vinculados, na organização, educação e negociação com o governo, com grandes
mobilização dos trabalhadores e trabalhadoras do mobilizações de massa como foram o Grito da
campo, assalariados e assalariadas rurais, Terra, nas edições de 2003 e 2004, e a Marcha das
agricultores e agricultoras familiares do nosso país. Margaridas - a maior manifestação popular realizada
Não é possível separar, nesse tempo todo, a causa ao longo do meu governo -, foi possível ao país
da reforma agrária como condição para a paz no avançar nas suas políticas públicas e na construção
campo e para o desenvolvimento sustentável, as de melhores condições para a consolidação da
conquistas sociais e previdenciárias do homem e da agricultura familiar.

CONTAG 40 ANOS - 7
A construção do Plano Nacional da Reforma sindical, demonstrou capacidade para negociar com
Agrária; a ação estatal no combate ao trabalho firmeza e ponderação os consensos que estão
escravo e a fiscalização do cumprimento da produzindo mudanças estruturais no país,
legislação trabalhista; o aperfeiçoamento e beneficiando os homens e mulheres do campo,
universalização do crédito agrícola, que nesses dois criando empregos, distribuindo renda e
primeiros anos do meu governo triplicou os recursos impulsionando a nova dinâmica econômica de um
destinados ao PRONAF; a definição e implementação país que queremos mais justo e equilibrado.
do seguro agrícola; a afirmação dos direitos das Recebam todos - dirigentes, associados e
mulheres do campo; a qualificação das políticas associadas da CONTAG e das entidades sindicais que
públicas de saúde e educação, são algumas das a integram - o reconhecimento do governo e o meu
conquistas que estão transformando a realidade do abraço fraterno, com a reafirmação do nosso
campo brasileiro. Estou convicto de que esses compromisso com as causas que animam e dão sentido
avanços não teriam sido possíveis se o governo não à História do sindicalismo no campo brasileiro.
tivesse no sistema CONTAG um interlocutor
permanente que, sem renunciar à autonomia Luiz Inácio Lula da Silva Presidente da República

Agência Brasil - ABr/ Ana Nascimento


O Presidente Lula
e o Presidente da
CONTAG, Manoel
do Santos no
encerramento do
Grito da Terra
Brasil/2003 -
CESIR/CONTAG

8 - CONTAG 40 ANOS
história

apropriação do território

A brasileiro pelos portugue-


ses se deu pela colonização
de exploração. Arrancavam
da Colônia tudo que ela pudesse
oferecer. Podemos afirmar que a luta
pela terra começa no momento em
que os colonizadores perceberam a
imensidão do território brasileiro, rico
em matérias primas totalmente
disponíveis para exploração.
O Brasil foi dividido em grandes
áreas, chamadas de capitanias
hereditárias. Cada uma delas foi
entregue como concessão a nobres
portugueses - os donatários, com a
condição de que as explorassem,
povoassem e pagassem impostos à
Coroa Portuguesa, originando, as-
sim, o latifúndio. Os donatários não
podiam vender a terra, mas tinham
autorização de entregar parcelas de
terra, as sesmarias, a pessoas que
quisessem produzir nelas. Essas
pessoas tinham o direito de posse
durante aquele período, porém não
ficavam com o título.
Os donos não permitiam o es-
tabelecimento de lavradores em
suas terras, a não ser como seus

A história de dependentes, isso fez com que


muitos se tornassem posseiros de
pequenas porções existentes entre

nossas raízes
uma propriedade e outra. Outros
foram para locais distantes, come-
çando a formar a categoria de
agricultores familiares.

está associada à Nessa terra existia um povo, a


população indígena. Eram aproxi-

luta por terra para madamente cinco milhões de


pessoas1 espalhadas por todo o
viver e produzir território, com culturas diferen

1
Portugal tinha aproximadamente 1 milhão de habitantes.

CONTAG 40 ANOS - 9
ciadas. Quando os
colonizadores chegaram, o choque
cultural foi tão profundo, que a
desagregação levou muitos dos
povos à extinção, à migração para
locais mais isolados, à
escravização e à submissão
cultural.
O clima quente e úmido e o
tipo de solo despertaram a aten-
ção dos portugueses para o cultivo
da cana-de-açúcar. Nobres e
comerciantes instalaram aqui os
engenhos de açúcar, iniciando o
que chamamos de plantation, uma
combinação de latifúndio e mono-
cultura voltada a atender ao mer-
cado externo. A mão-de-obra
escrava, oriunda da África, sus-
tentava esse modelo. Uma das
formas mais significativas de
resistência dos escravos africanos
era a fuga para os quilombos.
No século XIX, chegaram os pri-
meiros colonos europeus não-
portugueses - suíços, alemães,
italianos. Eram agricultores pobres
atraídos para o Brasil por promes-
sas de terra, que passaram a
ocupar áreas ainda não utilizadas,
nas regiões Sul e Sudeste, e
trabalhavam, principalmente, no
regime de parceria ou colonato.
Esses colonizadores promoveram
conflitos por terra e pela libertação capital podia ser proprietário, a terra ficou escrava”.
dos escravos. impedindo que ex-escravos, pos- Nesse período, milhares de nor-
Em 1850, o Império restringiu seiros e os imigrantes pudessem destinos, fugindo da seca e da crise
o direito de posse da terra, por se tornar proprietários, mas sim, econômica dos engenhos de açúcar,
meio da Lei de Terras. Significou se constituíssem em mão-de-obra foram para o Norte trabalhar na
o casamento do capital com a pro- assalariada necessária nos latifún- extração dos produtos da floresta,
priedade de Terra, pois a partir dios. Segundo José de Souza Mar- principalmente a borracha e a casta-
desse momento a terra foi trans- tins, professor da USP: “Enquanto nha. Essa migração contribuiu para
formada em uma mercadoria. So- o trabalho era escravo, a terra era a formação da atual população de
mente quem já dispunha dela e de livre. Quando o trabalho ficou livre, agricultores familiares amazônicos.

10 - CONTAG 40 ANOS
O fim da primeira guerra mundial dustrializada. Estimular a agricul- Na década de 1960, do século
(1914-1918), a revolução russa tura familiar seria a condenação ao passado, o país falava em reformas
(1917), a quebra da bolsa de Nova subdesenvolvimento. Entretanto, de base. As principais reformas
York (1929), a crise do café, o também foi nesse período que eram na estrutura agrária, na
movimento tenentista e a coluna outro grupo de formadores de educação e no sistema bancário.
Prestes marcaram uma grande opinião argumentava que o Brasil Nesse período foi criado o Estatuto
seqüência de manifestações de não atingiria o desenvolvimento do Trabalhador Rural (1963), que
operários, artistas, militares, almejado sem resolver os sérios concedia aposentadoria por
camponeses que começaram a problemas fundiários do país. Mui- invalidez ou por velhice. As lutas
reivindicar a suspensão do paga- tas proposições foram apresenta- lideradas pelas Ligas Camponesas
mento da dívida externa, a reforma das no Congresso Nacional para no Nordeste e o surgimento dos
agrária, a elaboração de uma legis- modificar a estrutura agrária bra- sindicatos de trabalhadores rurais,
lação protegendo os trabalhadores sileira, porém a aristocracia rural, federações e CONTAG, influen-
rurais, e a colonização em terras que comandava a política, impediu ciaram na criação dessas leis, fato
devolutas com base em pequenas a evolução das propostas que que deixou os latifundiários abor-
propriedades. A inexistência de significavam uma ameaça à manu- recidos com o governo.
uma organização que aglutinasse tenção da concentração de terra. A mobilização popular a favor
essas bandeiras, à época, foi um No governo Juscelino Ku- das reformas amedrontou a classe
dos fatores que impediu a elabora- bitschek, a industrialização foi dominante, que temia o início de
ção e implementação de legislação impulsionada. Apesar do cresci- uma série de transformações
especifica para o campo. mento industrial, o país continuava radicais no país. A resposta das
Quando terminou a segunda a ser agro-exportador de produtos elites veio de imediato. No dia 31
guerra mundial, em 1945, o Brasil primários, a agricultura ainda era de março, de 1964, as tropas mili-
respirava uma atmosfera política dominada pelo latifúndio, pela tares ocuparam os pontos estraté-
pesada. Na economia, a agro- miséria do camponês e a depen- gicos do país, autoritarismo,
exportação, especialmente a do dência pessoal em relação aos desrespeito à Constituição, perse-
café, era prioridade do governo. senhores de terra. guição, prisão e tortura aos oposi-
O processo de industrialização Isso se reflete também na tores, e censura prévia nos meios
começava a se fortalecer. O prin- aprovação das leis trabalhistas, de comunicação.
cipal investidor era o Estado, que pois a Consolidação das Leis do Em 1964, foi decretada a
criou as empresas estatais nos Trabalho (CLT), que foi aprovada primeira Lei de Reforma Agrária
setores de indústria de base e de em 1943, valiam apenas para os do Brasil, denominada Estatuto da
infra-estrutura. trabalhadores urbanos, no entanto, Terra. Por um lado, definiu regras
Um grande grupo de acadê- 60% dos brasileiros viviam no para os contratos de arrenda-
micos e políticos defendiam a tese campo. Eram reconhecidas apenas mento e parceria, como resposta
de que para o Brasil alcançar o as organizações dos donos de às reivindicações do movimento
desenvolvimento almejado deveria terras, os sindicatos patronais, sindical; por outro, incentivou o
se converter numa economia in- conforme o Decreto 979 de 1903. pacote tecnológico da chamada

“Enquanto o trabalha era escravo, a terra era livre.


Quando o trabalho ficou livre, a terra ficou escrava.”

CONTAG 40 ANOS - 11
“Revolução Verde”, que teve como nizar a agricultura patronal e os necessidade de fortalecimento de
principal conseqüência a saída de grandes complexos agro-indus- sua organização coletiva. Hoje, a
muitos agricultores familiares das triais, além de estimular a agro- agricultura familiar no Brasil corres-
suas propriedades, ampliando exportação e o pagamento dos ponde a 85,2% dos estabeleci-
ainda mais a miséria na área rural compromissos internacionais. mentos rurais. Embora ocupe ape-
e nas cidades. No final dos anos 70, do século nas 30,5% da área total destinada à
Essa “Revolução Verde” ba- XX, o modelo desenvolvimentista produção rural, continua sendo o
seava-se no modelo agro-químico, entrou em crise, provocada por principal setor que abastece de
referencial implantado por grandes uma grande reorganização do alimentos o mercado interno e
corporações multinacionais, que capitalismo mundial e pela falência enfrenta sérios desafios na luta por
buscava a “modernização” e a financeira da maioria dos gover- políticas públicas que reforcem seu
produtividade do campo de forma nos. Essa crise provocou o aumento papel estratégico no desenvolvi-
subordinada à industrialização. das dívidas interna e externa, a mento sustentável do país.
Nesse período, as transferências explosão da inflação e uma forte
de tecnologias desenvolvidas recessão em toda a década de 80,
A agricultura familiar do
(adubo, veneno, variedades melho- do século XX.
Brasil corresponde a 85,2%
radas e maquinário moderno) para Diante de tantas pressões, a dos estabelecimentos rurais.
os países do terceiro mundo foram sobrevivência da agricultura fami- Embora ocupe 30,5% da área
utilizadas como forma de moder- liar ficou cada vez mais vinculada à total destinada a produção
agrícola e seja o principal
setor de abastecimento do
mercado interno.

12 - CONTAG 40 ANOS
história

As primeiras lutas
crescente politização da sociedade e da luta em Goiás (1954-1957), onde várias lideranças de

A dos operários urbanos alcançou níveis nunca


antes vistos no Brasil. Conseqüentemente,
a luta no campo ganhou qualidade e organi-
zação. Lideranças populares despontaram, principal-
base se destacaram.
Outras lutas, igualmente importantes, foram
travadas pelos arrendatários contra os contratos que
favoreciam os proprietários. Os documentos eram
mente, contra o regime de meia - entrega de metade elaborados com base na “meia” ou no “cambão” -
da produção -, pela regularização fundiária e por obrigação de dar, gratuitamente, dois ou quatro dias
melhores salários. de trabalho para o dono da terra.
Na década de 50, do século passado, as organi- Em Pernambuco, fundaram a Sociedade Agrícola
zações camponesas passaram a se contrapor, de e Pecuária dos Plantadores, promovendo uma das
forma articulada, contra as ações de despejos mais importantes lutas da época, no Engenho
acionados pelos usineiros e latifundiários, a exemplo Galiléia, no município de Santo Antão. Foi quando
de Porecatu, no Paraná (1950-1951) e, a luta dos surgiu a primeira experiência de Ligas Camponesas
posseiros e arrendatários de Trombas e Formoso, e, conseqüentemente, de resistência camponesa

CONTAG 40 ANOS - 13
articulada a objetivos políticos somente deu notoriedade à luta essas lutas e organizações do
mais definidos. dos camponeses de Galiléia, como campo, em 1954, surgiu a União
A idéia inicial dessa liga Cam- também transformou o engenho no dos Lavradores e Trabalhadores
ponesa era, de certo modo, pa- primeiro núcleo das Ligas Cam- Agrícolas do Brasil - ULTAB,
cífica: organizar escolas para os ponesas, símbolo da reforma a- durante a II Conferência Nacional
filhos dos lavradores; adquirir grária que os trabalhadores rurais dos Lavradores, realizada em São
caixões para fazer frente ao alto reivindicavam. Paulo. O primeiro presidente foi
índice de mortalidade infantil na A luta camponesa passa a ter Lyndolpho Silva, que uma década
região; adquirir sementes, inse- uma postura politizada e politi- depois, viria a ser o primeiro
ticidas e instrumentos agrícolas; zadora. No processo de organiza- presidente da CONTAG.
auxílio governamental, como ção e luta, foram criadas outras Nessa Conferência, os lavra-
assistência técnica, entre outros. organizações como o Movimento dores e trabalhadores agrícolas
Mas o proprietário do engenho, dos Agricultores Sem Terra – MASTER, identificaram as bandeiras priori-
pressionado por outros usineiros na região sul do país. As várias tárias para a ULTAB: reforma
que não viam com bons olhos a formas de organizações campo- agrária; título de propriedade plena
autonomia da organização cam- nesas passaram a sentir a neces- a posseiros; adoção de medidas de
ponesa, exigiu sua extinção e sidade de uma articulação nacional apoio à produção, de combate aos
buscou auxílio na Justiça, que que representasse os interesses e regimes semifeudais de explora-
impetrou uma ação de despejo. as demandas específicas. ção do trabalho (cambão, meia,
Os demais proprietários temiam Fruto dessa efervescência polí- etc) e, o estímulo à criação de
que o movimento de Engenho tica e da necessidade de articular sindicatos de trabalhadores rurais.
Galiléia pudesse servir de exemplo
em outras usinas.
Essa iniciativa precipitou um
dos maiores conflitos de terra no “Nestes 40 anos, decisões foram importantes
interior do nordeste. A resistência para qualificar a ação da CONTAG. Destaco a
dos trabalhadores foi organizada filiação à CUT, a criação das secretarias específicas,
em três frentes: uma no campo, as eleições em congresso e a vinda de mulheres e
outra na Justiça e a terceira na da juventude para a direção.Destaco também, a
Assembléia Legislativa. Entrou em marca da CONTAG nas ações massivas, como os
cena o advogado e deputado esta- Gritos da Terra Brasil e as Marchas das Margaridas,
dual Francisco Julião, contratado além das inúmeras ocupações de terras e acampa-
pelos trabalhadores para defendê- mentos, que asteiam a bandeira da CONTAG por
los na ação de despejo. Julião teve todo o País.
papel decisivo na consolidação e Mas, para conquistar a plena dignidade e cidadania dos
difusão das Ligas Camponesas, trabalhadores e trabalhadoras rurais, ainda há muito que fazer. Por
por meio de diversas publicações isso, é preciso que a CONTAG esteja aberta às mudanças para
e de uma combativa atuação no fortalecer suas lutas, ampliar os espaços de democracia interna, dar
Legislativo estadual. visibilidade às ações e ajudar na construção da unidade e articulação
A batalha judicial durou 14 dos povos do campo, fundamental na conquista da reforma agrária
anos. Iniciada em 1945, só viria e do desenvolvimento rural sustentável e solidário”
terminar em 1959, quando foi
Maria da Graça Amorim
aprovada a desapropriação do Secretária de Política Agrária e Meio Ambiente
Engenho Galiléia. A vitória não

14 - CONTAG 40 ANOS
história

CONTAG
Primeira organização
sindical nacional no campo
As Ligas Camponesas, o Movimento dos SINDICATO, na pessoa de cada trabalhador rural que

A Agricultores Sem Terra – MASTER, a Ação


Popular – AP, ligada aos católicos radicais
e, a União dos Lavradores e Trabalhadores
Agrícolas do Brasil – ULTAB, dentre outros, fizeram
havia compreendido a sua missão de se libertar, era
o SINDICATO VIVO”.
Setores conservadores do clero, mais fortes,
numerosos e, preocupados com o avanço do
com que a organização dos trabalhadores rurais em comunismo no campo, partiram para a montagem
Sindicatos fosse acelerada. de um sindicalismo capaz de fazer frente às correntes
Esse momento é descrito no periódico da de esquerda.
CONTAG, em 1978: “Na época, acreditava-se, As organizações de esquerda com atuação no
apenas, na capacidade humana de se unir. Com a campo buscaram atualizar e ampliar as bandeiras
união, acreditava-se na capacidade humana de de luta e, estabelecer linhas de ação comuns. Nesse
vencer. Não havia legislação suficiente para sentido, organizaram o 1º Congresso Nacional dos
‘acobertar’ a fundação de sindicatos rurais (...) não Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, em 1961,
existia a sede do sindicato. Existia, sim, o conhecido como “Congresso de Belo Horizonte”,

CONTAG 40 ANOS - 15
convocado e coordenado pela ULTAB. evento. À época existiam 475 sindicatos no Brasil,
Esse congresso reuniu 1.600 delegados de várias dos quais, 220 eram reconhecidos pelo Ministério
organizações. Apesar das divergências, ratificou o do Trabalho.
reconhecimento social e político da categoria
camponesa e da sua capacidade organizativa. Já As deliberações da Convenção:
nesse momento histórico, a convivência e construção a) reforma Agrária;
política entre diferentes correntes de pensamento, b) regulamentação do Estatuto do Trabalhador Rural;
de concepções e de formas de organização, marcaram c) acesso aos benefícios da Previdência Social;
as lutas e caracterizaram as vitórias obtidas pelos d) participação no desenvolvimento do país, tendo
trabalhadores e trabalhadoras rurais. acesso à educação, orientação técnica, preços
mínimos, crédito integral e cooperativismo;
As deliberações do 1º Congresso: e) criação de uma Confederação Nacional dos
a) transformação da estrutura agrária; Trabalhadores na Agricultura.
b) desapropriação dos latifúndios;
c) posse e uso da terra pelos que nela desejassem Articular nacionalmente as lutas passou a ser uma
trabalhar; das principais preocupações das organizações de
d) direito de organização dos trabalhadores rurais; esquerda que atuavam no campo. A exemplo de Per-
e) modificação de dispositivo da constituição de nambuco, onde em 1963, uma greve no setor cana-
1946, para permitir a desapropriação por vieiro envolveu a Federação dos Lavradores, as Ligas
interesse social mediante indenização em Camponesas e sindicatos autônomos, resultando na
títulos públicos. assinatura de uma tabela conjunta para pagamento
dos trabalhadores assalariados rurais do estado.
Em 1962, na cidade de Itabuna-BA, aconteceu o Os setores mais conservadores do sindicalismo
1º Congresso de Trabalhadores na Lavoura do de trabalhadores rurais, principalmente aqueles
Nordeste, organizado por diversas organizações que ligados à Igreja, não pararam de organizarem-se e
atuavam no estado. Os principais encaminhamentos estimularam a criação de um grande número de
foram de organização de luta para aplicação imediata sindicatos e federações de trabalhadores rurais. Com
da reforma agrária, acesso aos benefícios previden- esse trabalho, conseguiram o reconhecimento junto
ciários, construção de estratégias unitárias de luta ao Ministério do Trabalho de muitos Sindicatos de
no campo, dentre outras. Trabalhadores Rurais. Preocupados com o possível
Em março de 1963, o governo de João Goulart crescimento das organizações de esquerda, setores
promulgou o Estatuto do Trabalhador Rural (Lei conservadores da Igreja realizaram uma reunião, em
4.214), que garantia aos trabalhadores do campo, Recife, e fundaram a Confederação Nacional dos
direitos sindicais, trabalhistas e previdenciários Trabalhadores na Agricultura - CNTA.
assegurados aos trabalhadores urbanos. Logo após a fundação dessa entidade, foi
O Brasil vivia um momento de forte atuação solicitado seu reconhecimento junto ao Ministério
política, as organizações sindicais e partidos polí- do Trabalho. Diante das pressões de setores da
ticos de esquerda foram às ruas por melhores salários esquerda, o Ministério indeferiu a solicitação de
e mudanças estruturais para garantir um processo reconhecimento e determinou a realização de um
de desenvolvimento mais duradouro. Nesse ambiente Congresso Nacional para a criação definitiva da
político, a ULTAB organizou a 1ª Convenção Brasileira confederação, da qual deveriam participar todas as
de Sindicatos Rurais, ocorrida de 15 a 20 de julho, 27 Federações reconhecidas oficialmente.
de 1963, em Natal-RN. Quatrocentos dirigentes, À época existiam 42 federações, em alguns
representantes de 17 estados, participaram do estados havia mais de duas. Existiam Federações

16 - CONTAG 40 ANOS
de Assalariados, de Lavradores, de Pescadores, de momento, que apoiaram as políticas implementadas
Agricultores, de Trabalhadores Rurais, dentre outras, por João Goulart. Ou seja, o rompimento se deu
caracterizando uma ampla e irrestrita liberdade de justamente quando a reforma agrária entrou na
organização dos trabalhadores que viviam e agenda de reformas do capitalismo brasileiro.
trabalhavam no campo. O governo militar depôs e reprimiu duramente
Finalmente, em 22 de dezembro de 1963, todos os movimentos populares e, com eles, políticos
trabalhadores rurais de 18 estados, distribuídos em e lideranças comprometidos com as reformas de
29 federações, decidiram pela criação da base, em especial, a reforma agrária. A CONTAG
Confederação Nacional dos Trabalhadores na sofreu intervenção. O presidente Lyndolpho Silva e
Agricultura – CONTAG, que foi reconhecida em 31 demais diretores foram presos imediatamente, o
de janeiro de 1964, pelo Decreto Presidencial 53.517. mesmo acontecendo com outras lideranças sindicais
A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical rurais nos estados. Todos os militantes sindicais urbanos
camponesa de caráter nacional, reconhecida e rurais que pleitearam por reformas de base, ou eram
legalmente. Ajustou em seu interior diversas ligados aos setores de esquerda, foram presos e
concepções e correntes de pensamento, desde os torturados, muitos foram exilados ou assassinados.
setores mais à direita, ligados à igreja, aos Após a intervenção, foi constituída uma Junta
comunistas. Aliás, cabe ressaltar, perfil diverso que Governativa que durante um ano administrou a
a CONTAG mantém até hoje. É essa uma de suas CONTAG. No ano seguinte, uma diretoria foi eleita
características mais marcantes: ser unificada na para administrar a entidade durante o período de
diversidade ideológica, regional, cultural e produtiva. 1965 a 1968, tendo como presidente, José Rotta.
A CONTAG nasceu em um momento crítico da Por força da exigência legal, as federações
atividade política do país. No ano seguinte, o existentes foram unificadas em cada estado, pas-
Presidente da República João Goulart foi deposto por sando de 29 para 11, transformando-as em Federa-
um golpe militar. Aconteceu a radicalização e ções Estaduais dos Trabalhadores na Agricultura,
ampliação da luta camponesa que, de um lado, forçou estrutura que se mantém até hoje. Essa exigência
o governo de João Goulart a avançar com a proposta permitia o controle do governo militar, que temia
de reforma agrária e, de outro, jogou os latifundiários que a existência de muitas ramificações das
contra o regime, pois foram eles, no primeiro organizações sindicais saísse do controle estatal.

A luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais brasileiras nesses 40 anos de


organização sindical, foi construída com muito sacrifício, prisões e até mortes,
principalmente durante o regime militar. Mesmo nos momentos mais difíceis, a CONTAG,
as Federações e os Sindicatos, não recuaram das suas convicções políticas e reagiram.
Como resultado dessa postura política firme, contabilizamos hoje muitas vitórias. A
exemplo da organização sindical do MSTTR, com Federações nos 27 estados, além dos
mais de 4.100 Sindicatos. Ou ainda, a realização dos Gritos da Terra Brasil nos últimos
10 anos, da Marcha das Margaridas – em 2000 e 2003, da organização da Juventude e da
Terceira Idade, além da construção de uma organização cooperativista do MSTTR.
Com certeza, essas lutas e conquistas foram instrumentos importantes para a
existência das políticas publicas que temos hoje no campo.

Juraci Moreira Souto


Secretário de Finanças e Administração

CONTAG 40 ANOS - 17
Durante os anos
duros do regime
ditatorial militar o
MSTR acelerou o
processo de
organização e
politização da
classe
trabalhadora

18 - CONTAG 40 ANOS
história

CONTAG
Resistiu a regime
imposto pelos militares
Estatuto da Terra, ela- a crescente exploração de mão-

O borado durante o go-


verno de João Goulart,
foi promulgado pelo
General Castelo Branco, Presi-
de-obra barata. A repressão à
atuação sindical não permitia que
os assalariados rurais pleiteassem
seus direitos trabalhistas.
dente da República, devido às Os pequenos e médios produ-
pressões internacionais e internas. tores foram incentivados a se
Ainda assim, marcou uma nova modernizarem, adquirindo máqui-
etapa em relação à legislação exis- nas e equipamentos mediante
tente, permitindo, dentre outras financiamentos que, mais tarde,
coisas, a intervenção do Estado no não conseguiram pagar. Essa
setor fundiário, mediante a situação, aliada à ausência de uma
desapropriação de terras por política diferenciada de créditos,
interesse social. resultou na perda de muitas pro-
Este dispositivo foi ignorado priedades, tornando irreversível a
pelo governo militar, que se con- ampliação da concentração fun-
centrou na modernização das diária no país.
relações capitalistas no campo e À época, a CONTAG era presi-
nos projetos de colonização nas dida por José Rotta, que contava
áreas de fronteira, preocupando- com apoio do Ministério do
se com um projeto agrícola afina- Trabalho. Ele convocou um Con-
do com sua política econômica. gresso Nacional de Trabalhadores
Colocou à margem a pequena Rurais, realizado em São Paulo,
produção e favoreceu a ampliação em 1966. Nesse congresso, ficou
da concentração de terra e de explícita a existência de dois gru-
renda no país. Houve um estímulo pos políticos, um ligado ao Rotta,
à especulação da terra e de con- e outro ligado a trabalhadores e
cessões a grandes empresas para lideranças que se mostravam
atuarem no campo, em especial comprometidos com as lutas dos
nas áreas de fronteira agrícola. trabalhadores, críticos ao modelo
A política salarial, controlada de desenvolvimento implemen-
pelo governo, impedia os aumen- tado pelo governo militar.
tos reais e garantia ao patronato No ano seguinte, em 1967, o

CONTAG 40 ANOS - 19
Rio de Janeiro é transformado em em grande número, para abarro- derações urbanas existentes tinham
sede da Conferência Nacional tar as Juntas de Conciliação e dúvidas entre resistir ou aceitar a
Intersindical, congregando repre- Julgamento, forçando uma toma- intervenção no movimento sindical,
sentantes dos trabalhadores ru- da de posição favorável aos tra- a CONTAG optou pelo enfrentamen-
rais, bancários, industriários e balhadores. Essa proposta, quando to ao poder econômico e político em
portuários. Nessa conferência, a levada à prática, causaria uma uma de suas principais bases: a
defesa da reforma agrária foi unâ- reação violenta do patronato e do democratização da terra e a organi-
nime, contando com a presença de poder público, que ameaçavam e zação política dos trabalhadores
sindicalistas rurais de quase todos puniam os líderes sindicais por rurais, por meio da formação de
os estados. Foi o início de uma arti- promoverem reuniões nos Sindi- lideranças.
culação ampla, urbana e rural, de Durante os ‘anos duros’ do
consolidação de uma chapa para regime ditatorial militar, 1968 e
concorrer às eleições da CONTAG. 1969, os dirigentes do MSTR ace-
Fruto da união operária e leraram o processo de organiza-
camponesa, por apenas um ção e politização da categoria.
voto de diferença, a chapa Lançaram o periódico “O Tra-
encabeçada por José balhador Rural”, informa-
Francisco da Silva impõe tivo que levava as idéias e
a derrota a José Rotta. propostas da CONTAG às
Empossada, a nova dire- Federações e Sindicatos de
toria convocou todas as todo o país.
federações para um en- Nesse período, a direção
contro, em Petrópolis da CONTAG qualificou ainda
(RJ), a fim de elaborar um mais a sua forma de comu-
Plano de Integração Nacional nicação com a base, lançando
- PIN. Diante da divisão política a revista mensal “O Trabalhador
revelada no processo eleitoral, a Rural”, apresentando análises
preocupação maior era criar um sobre a conjuntura nacional e
instrumento capaz de garantir a sugerindo encaminhamentos para
unidade do Movimento Sindical de catos de Trabalhadores Rurais. reflexão nos estados.
Trabalhadores Rurais – MSTR. A formação de líderes era es- Os textos reproduzidos no
O PIN elegeu a reforma agrária sencial para o futuro do MSTR. Por periódico demonstram explicitam-
como uma das bandeiras de luta meio de cursos sobre a realidade ente o enfrentamento da CONTAG
capaz de propiciar a unidade do brasileira, legislação trabalhista, diante das políticas do governo
movimento, pois seria de funda- agrária, agrícola, cooperativismo militar. Num dos primeiros nú-
mental importância não apenas e de organização sindical, a meros dessa revista, por exemplo,
para os diretamente envolvidos CONTAG iniciou um contínuo tra- foi transcrita a carta ao Papa Paulo
nos conflitos pela terra, mas tam- balho de conscientização dos VI, assinada por José Francisco,
bém para o pequeno produtor e o trabalhadores rurais sobre os seus que reafirmava: “É, para vencer
assalariado. direitos, qualificando-os para a barreiras centenárias de irraciona-
O PIN previu ações específicas luta cotidiana. lidades geradas pelo latifúndio,
para cada setor. No caso dos O PIN marcou a singularidade do sinônimo de um poder político,
assalariados, por exemplo, foram MSTR dentro do sindicalismo bra- econômico, social e cultural que
incentivadas as ações coletivas, sileiro. Enquanto as outras confe- contrariam a função social de

20 - CONTAG 40 ANOS
propriedade, é necessária uma mento do campo, foi organizado Outros dados, sobre o
decisão drástica e enérgica pela um Encontro Nacional, em Petró- crescimento e consolidação da
reforma agrária”. polis/RJ. No evento, diversos CONTAG, foram apresentados
A necessidade de organizar os representantes das Federações pelo Presidente José
trabalhadores nos municípios e concluíram que: “a) o diálogo deve Francisco, na abertura do
constituir sindicatos era uma das ser a base para a construção de Congresso Nacional de Traba-
grandes demandas do movimento uma proposta educativa para o lhadores Rurais, em 1979:
sindical naquele momento. A campo e; b) o método a ser “apesar das condições
revista “O Trabalhador Rural” era utilizado, deve levar em conta o desfavoráveis para o trabalho
um dos meios utilizados para conhecimento da realidade, que sindical entre o último
chamar os trabalhadores para será criticada, para daí se chegar Congresso e os dias atuais,
organização sindical. Existia uma à escolha da ação e a própria passamos de 19 para 21 Fede-
seção chamada “Conversa de ação, conhecimento e crítica”. rações, de 1.500 sindicatos
Caboclo”, que contava estórias Na revista “O Trabalhador Ru- para 2.275, de dois milhões
sobre o cotidiano dos trabalha- ral”, a direção da CONTAG politizou e meio de associados para
dores rurais, rotina repleta de o debate sobre o papel da mais de cinco milhões”.
dificuldades e injustiças. Criadas organização sindical e utilizou A CONTAG estava consoli-
pela equipe técnica da Contag e repetidamente o lema “Sindica- dada, não como um espaço
assinadas com nomes fictícios, as lismo autêntico, é Sindicalismo desse ou daquele ‘modo de
estórias chamavam a atenção dos livre”. Denunciou a intenção de pensar o sindicalismo’, mas
camponeses sobre a importância cooptação do governo através do de todas as correntes políti-
da organização sindical. Em uma assistencialismo. Demonstrou que cas existentes. Rompeu com
dessas estórias consta esse tre- o conceito de desenvolvimento do a visão imediatista da luta
cho: “E quem é esse sindicato, governo era diferente da idéia do sindical e buscou atender a
que vai dar nosso valor? É uma MSTR: “milhões de camponeses outras dimensões e necessi-
sociedade composta de agricultor. continuam morrendo de fome (...), dades do ser humano, inclu-
Nós vai lá se reunir, pra acabar com mas o Brasil está em franco cresci- sive, apontando o conceito de
a tal de meia. Que sempre nos tem mento. Sim, porque crescer é bem desenvolvimento que se que-
trazido amarrado no nó da peia.” diferente de desenvolver”. ria para o campo: “O desen-
A luta essencialmente corpo- Levantamento elaborado pela volvimento deve vir acompa-
rativa, nunca foi a marca do CONTAG, em 1971, demonstrou nhado de transformações
movimento sindical coordenado que a estratégia adotada pelo sociais e políticas”.
pela CONTAG, já em 1968, MSTR foi acertada nos 22 estados, O mesmo aconteceu com o
preocupados com a importância inclusive Brasília e Guanabara, estímulo à participação. Em
da educação para o desenvolvi- conforme a tabela. registros internos percebe-se
que reuniões de avaliação e
planejamento sempre estive-
Municípios Municípios Municípios Média de sócios ram presentes na história
brasileiros c/ sindicatos s/ sindicatos por sindicato
dessa entidade, inclusive com
Inicio 3959 705 3254 800 a participação da assessoria,
de 1969
demonstrando como praticar
Final democracia interna mesmo em
3959 1045 2914 1132
de 1971 momentos difíceis e sob amea-
Fonte: Revista O Trabalhador Rural ça constante dos militares.

CONTAG 40 ANOS - 21
22 - CONTAG 40 ANOS
Os rumos do MSTTR
sempre foram decidos pela base

alar sobre participação difícil, driblar a presença de exemplo do Congresso sobre

F da base do movimento
sindical de trabalha-
doras rurais nas deci-
sões políticas é antes de qualquer
‘agentes’ do governo ou da policia
– ou dos dois – , infiltrados entre
os delegados que vinham dos
estados. Esses desafios não impe-
Reforma Agrária e de Jovens Rurais
no Rio Grande o Sul: “aconteceu o
IV Congresso de Jovens Rurais (...)
os congressos da juventude são
coisa, falar dos encontros, semi- diram que dirigentes sindicais de incentivados pela Federação de
nários e congressos estaduais, todo o território nacional se Trabalhadores na Agricultura do Rio
regionais e nacionais. reunissem e construíssem uma Grande do Sul e da Frente Agrária
Mesmo antes da fundação da estrutura sindical nacional, que Gaúcha”, ou, “os trabalhadores
CONTAG os trabalhadores rurais já fosse plural, representativa e de rurais de Santa Catarina reuniram-
coordenavam congressos nacio- luta, a CONTAG. se dias 7,8 e 9 de novembro, em
nais e estaduais, a exemplo do Os Congressos e Encontros congresso, com a participação de
“Congresso de Belo Horizonte”, garantiam o debate, a socialização aproximadamente 400 delegados de
em 1961, com 1.600 participan- e a integração das políticas do mais de 180 sindicatos do Estado”.
tes, ou da 1ª Convenção Brasileira movimento sindical. Serviram, As atividades regionais tam-
de Sindicatos Rurais, em 1963, também, para consolidar politica- bém foram importantes para
realizada em Natal-RN, com 400 mente a Confederação e as construir uma identidade nacional
representantes de 17 estados. Ou Federações, enquanto represen- do MSTR. A exemplo do III Encontro
ainda, o congresso de fundação da tação da categoria trabalhadora das Federações do Nordeste, no
CONTAG, em dezembro de 1963, rural. Em agosto de 1969, a Rio Grande do Norte, em junho de
que contou com a participação de CONTAG em seu periódico, falava 1969, que buscava a integração
29 federações de 19 estados. sobre essa importância: “No entre as Federações e a CONTAG.
Para compreender os desafios sentido de manter um nível de Outro exemplo foi o Congresso
na realização de um congresso debates (...) e crescimento das Regional de Trabalhadores Rurais
nacional durante os anos 60 a lideranças sindicais, a CONTAG e que se realizou em Curitiba, com
meados de 70, do século XX, é Federações vêm organizando a participação dos estados de
preciso saber como vivia a Encontros e Congressos, (...) a Santa Catarina, Rio Grande do Sul,
população brasileira e, sobretudo, troca de experiência propicia uma Paraná e São Paulo. Essas Fede-
a população rural. Estradas e real integração”. rações buscavam a construção de
meios de comunicação precários, Existem registros de Congres- propostas comuns a serem
poucas linhas de ônibus intermu- sos temáticos nos estados desde a debatidas no Congresso Nacional
nicipais e interestaduais, e o mais década de 60 e 70, do século XX, a dos Trabalhadores Rurais.

“Dois marcos consolidaram o caminho escolhido pela CONTAG.


Crescimento e Organização”

CONTAG 40 ANOS - 23
Trajetória das Eleições e
Congressos Nacionais da CONTAG
e Antonio J. de Faria/RJ. Para o
1ª Eleição da CONTAG 2ª ELEIÇÃO DA CONTAG Conselho Fiscal, foram escolhidos:
Jose Felix Neto/SE; José Palhares/
Em Congresso participativo, Com o golpe militar, a direção RN e João Jordão da Silva/PE.
democrático e de construção de da CONTAG foi deposta e alguns
estratégias comuns, as dirigentes presos. Uma Junta 3ª ELEIÇÃO DA CONTAG
organizações que atuam no campo Governativa foi indicada pelo
criam a Confederação dos Ministério do Trabalho e, no ano Em 1968, as eleições contaram
Trabalhadores na Agricultura – seguinte foi eleita para o período com duas chapas. Uma encabeçada
CONTAG. O congresso contou com de 1965 a 1968, a diretoria por José Rotta, que representava
a participação de 29 federações, composta por: José Rotta/SP; a influância do Ministério do
de 18 estados. Ao final, foi eleita Euclides A. do Nascimento/PE; Trabalho e, a outra chapa por José
a primeira direção executiva: Joaquim B. Sobrinho/PA; João de Francisco, contando com o apoio
Lyndolpho Silva/RJ, Sebastião A. Cavalcante/PA; José Lazaro/ de entidades sindicais urbanas e
Lourenço de Lima/MG, e Nestor PR; Nobor Bito/; Agostinho J. da base do movimento sindical de
Vera/SP. Neto/RJ; Joaquim Damasceno/RN trabalhadores rurais.

24 - CONTAG 40 ANOS
A eleição ocorreu na reunião do mento da organização. Em sua De acordo com decisão do
Conselho Deliberativo da CONTAG, fundação, a CONTAG contava com Conselho Deliberativo da CONTAG,
onde apenas 11 Federações 475 Sindicatos, distribuídos em 18 naquele período: “as Federações
votavam. Por apenas 01 voto de estados. Após dez anos, eram se movimentarão para motivar os
diferença, a chapa encabeçada por 1.881 sindicatos e 19 Federações trabalhadores no sentido de se
José Francisco saiu vitoriosa. filiadas, uma Delegacia na Amazô- sentirem mais unidos e mais
Foram eleitos para o mandato de nia, atingindo 47,51% dos municí- fortes (...). As Federações reali-
1968/1971: José Francisco/PE; pios brasileiros , sendo mais de zarão encontros ou congressos
José Felix Neto/SE; Joaquim A. dois milhões de sindicalizados. O preparatórios e, a CONTAG, reali-
Damasceno/RN; José Ari Griebler/ segundo marco, foi a realização zará encontro regional em Belém
RS; Geraldo F. Miqueletti/PR; João do 2º CNTR, com atividades pre- do Pará, Belo Horizonte, Curitiba
de A. Cavalcante/PB; Agostinho paratórias nos municípios, esta- e Recife. Essas diferentes conclu-
José Neto/RJ; José Benedito da dos e grandes regiões do país, sões serão encaminhadas ao
Silva/AL e Otavio F. Gomes/CE. envolvendo centenas de dirigentes Congresso Nacional, cuja Comis-
O Conselho Fiscal: Joaquim sindicais na sua construção. são Coordenadora, para maior
Coutinho/RN; Tarciso G. Mendes/ sentido de integração, está com-
CE e Manoel P. da S. Filho/PB. 2º Congresso Nacional dos posta de um membro de cada
A retomada da CONTAG pelos Trabalhadores Rurais - CNTR, região do País, indicado nos en-
legítimos trabalhadores rurais, a classe trabalhadora faz valer contros regionais”.
representou um salto qualitativo sua vontade. Apesar das entidades sindicais
e quantitativo. A primeira inicia- estarem quase paralisadas pela
tiva da direção eleita foi a “o conceito de Segurança Nacional ação do Ministério do Trabalho e
construção coletiva de um Plano está vinculado também ao dos órgãos de segurança do regime
de Integração Nacional – PIN, com desenvolvimento sócio econômi- militar, e a ação sindical limitar-
a participação de todas as federa- co. E esta somente é alcançada se à defesa dos interesses indivi-
ções filiadas, consolidando defini- plenamente quando o trabalho é duais dos trabalhadores perante à
tivamente a CONTAG enquanto realizado como condição da Justiça do Trabalho, os dirigentes
uma estrutura sindical nacional. dignidade humana.”. do MSTR realizaram um grande
congresso.
4ª ELEIÇÃO DA CONTAG Houve várias tentativas para
impedir a realização do encontro.
Em março de 1971, ocorreu a Proibiram a discussão de temas con-
Reunião do Conselho Deliberativo siderados inoportunos ou ofensivos,
que escolheu a diretoria da tais como reforma agrária e greve,
CONTAG para o triênio 1971/1974, mas ainda assim, o congresso
composta pelos diretores efetivos: aconteceu com mais de 700
José Francisco/PE; Otavio F. delegados, sob a coordenação da
Gomes/CE; Francisco Urbano de A. CONTAG, Federações e Sindicatos,
Filho/RN; Zacarias Pedro/SC; em maio de 1973, em Brasília.
Acácio F. dos Santos/RJ; Agenor P. O congresso deliberou sobre:
Machado/SP e José Felix Neto/SE. Legislação Rural, Educação,
Dois marcos consolidaram o Previdência, Reforma Agrária e
caminho escolhido pela CONTAG. Desenvolvimento Agrícola. No
O primeiro marco foi o cresci- encerramento, o presidente da

CONTAG 40 ANOS - 25
CONTAG enfatizou a necessidade Apesar das tentativas do reforma agrária, apesar de a
de cumprimento do Estatuto da governo, a diretoria foi empos- convocação “oficial” anunciar que
Terra para: “estabelecer um siste- sada. À época, era o Ministério do o curso seria sobre administração
ma de relações entre o homem, a Trabalho quem presidia a soleni- sindical.
propriedade rural e o uso da terra, dade de posse dos dirigentes Criaram também nessa gestão
capaz de promover a Justiça So- sindicais urbanos ou rurais. Era a Delegacias Sindicais do estado
cial, o progresso e o bem-estar do costume os dirigentes eleitos do Acre e Território Federal de
trabalhador rural e o desenvolvi- falarem por apenas cinco minutos, Rondônia. Estimularam, a criação
mento econômico do país, com a caso houvesse inscrição prévia. de boletins e programas de rádio
gradual extinção do minifúndio e Devido aos desentendimentos pelas Federações, visando a
do latifúndio”. anteriores à posse, essa prática consolidação do Movimento
foi levada ao extremo. Relatos de Sindical de Trabalhadores Rurais
5ª Eleição da CONTAG dirigentes sindicais da época na base e junto à sociedade
contam que para frustrar a inten- brasileira.
Em março de 1974, o Conselho ção do governo, eles se inscreviam
de Representantes da CONTAG em bloco e cediam seu tempo para 6ª Eleição da CONTAG
elegeu a nova diretoria para o José Francisco, fato que deixou os
triênio 1974/1977. A diretoria representantes do Ministério do Em maio de 1977, foi empos-
efetiva foi composta por: José Trabalho indignados e impotentes sada a Direção para o triênio
Francisco da Silva/PE; Octavio diante da astúcia dos dirigentes. 1977/1980. A diretoria efetiva era
Adriano Klafke/RS; Paulo F. No discurso de posse, o presi- composta por: José Francisco da
Trindade/ES; Jonas P. de Souza/ dente José Francisco reafirmou as Silva/PE; Roberto T. Horiguti/SP;
MT; Francisco Urbano A. Filho/RN; bandeiras estratégicas para o Paulo F. Trindade; Orgenio Rott/
José Felix/SE; Leocadio N. de movimento sindical de trabalha- RS; Francisco Urbano A. Filho/RN;
Oliveira; Acácio F. dos Santos/RJ dores rurais: Reforma Agrária, José Felix/SE; Henrique Gomes
e José B. da Silva/AL. O Conselho Política Agrícola, Educação, Vilanova/PI; Acácio F. dos Santos/
Fiscal foi composto por: Álvaro Previdência Social e Legislação RJ e José B. da Silva/AL. O Con-
Diniz; Euclides D. Canalle e João Trabalhista. O discurso provocou selho Fiscal foi composto por:
Tavares da Silva. surpresa nas autoridades e satis- Álvaro Diniz; Euclides D. Canalle
No entanto, a posse da nova fação nos dirigentes sindicais e Jonas P. de Souza.
direção não foi tranqüila. A presentes. No discurso de posse, o presi-
CONTAG crescia e ganhava Durante essa Gestão, os cursos dente eleito falou sobre o cres-
respeitabilidade no Brasil e fora de capacitação voltados para a cimento e consolidação da enti-
dele. O 2º Congresso representou Administração Sindical e regulari- dade em todo território nacional:
um marco para a organização da zação dos Sindicatos foram inten- “Ao assumirmos nosso primeiro
classe trabalhadora rural, logo, o sificados. Os dirigentes sindicais mandato, contávamos com 11
Governo Militar buscou impedir a utilizavam esses cursos para federações filiadas, congregando
posse da direção eleita. discutir direitos trabalhistas e 700 sindicatos, com 600 mil

“Dirigentes sindicais da época contam que para frustrar a


intenção do governo, eles se inscreviam em bloco e cediam
seu tempo para José Francisco” .

26 - CONTAG 40 ANOS
trabalhadores sindicalizados. a conquista de justas reivindi- das pelos pequenos proprietários.
Contamos hoje, com 20 federa- cações da categoria”. Conseqüentemente, houve
ções filiadas, abrangendo todos os pressão do governo para impedir
Estados, menos o Estado do Acre, 3º Congresso Nacional dos a realização do congresso, inclu-
onde mantemos uma Delegacia; Trabalhadores Rurais – CNTR – sive, a tentativa de impedir que
2.150 sindicatos e 4 milhões e 500 “Um marco na História da delegações dos estados che-
mil trabalhadores sindicalizados. classe trabalhadora rural”. gassem à Brasília. A armadilha
(...) Por isto mesmo, reafirmamos esbarrou na vontade política dos
que a solução do problema agrário Na perspectiva de analisarem trabalhadores e trabalhadoras
brasileiro, e, até certo ponto, do e deliberarem sobre as grandes rurais e das suas organizações,
crescimento desordenado dos questões vividas pelo país, 1.600 que realizaram um dos maiores e
grandes centros urbanos, reside delegados se reuniram, em maio mais bonito congresso da
na fixação do homem à terra, que, de 1979, em Brasília, para o 3º categoria à época.
para nós, se traduz na implan- Congresso Nacional dos Trabalha- Esse congresso consolidou e
tação da Reforma Agrária”. dores Rurais. deu visibilidade nacional ao
A direção realizou um Encontro O congresso considerou as sindicalismo de trabalhadores
Nacional, em março de 1978, para políticas agrárias e agrícolas go- rurais coordenados pela CONTAG.
estudar e refletir sobre a situação vernamentais as responsáveis Também explicitou as demandas
do movimento sindical de de quem vive e produz no campo,
trabalhadores rurais no articulou a luta por reforma agrária
âmbito nacional. O país e pela redemocratização do país.
atravessava um intenso Foram aprofundadas questões
processo de mobilização com estratégicas, como reforma agrá-
greves de metalúrgicos e ria ampla, massiva e imediata com
bancários, organização da a participação do trabalhador; li-
sociedade civil pró-Anistia, berdade e autonomia sindical;
acirramento da violência no auto-sustentação do Movimento;
campo, em especial, depois educação; política salarial; con-
do assassinato do advogado tratação coletiva de trabalho;
baiano Eugenio Lira da Silva, Justiça do Trabalho e seu funcio-
que defendia as causas de namento; arrendamento e par-
trabalhadores rurais. ceria; crédito e seguro agrícola;
Nos primeiros meses de crédito fundiário; assistência
1979, por ato do Ministro do técnica e insumos; comercia-
Trabalho, foram afastados os lização e preços mínimos; coope-
dirigentes do Sindicato dos rativismo; obras de infra-estru-
Metalúrgicos do ABC, em São tura e Previdência Social Rural.
Paulo. A CONTAG saiu em Outra importante deliberação
defesa dos dirigentes, desse congresso foi o debate sobre
conforme matéria publicada no pelo agravamento da concentra- a criação de uma Central Única,
jornal Estado de São Paulo: ção da terra e dos conflitos sociais, capaz de englobar todos os tra-
“solidariedade aos metalúrgicos pela expulsão em massa dos balhadores brasileiros e unificar
do ABC paulista, que se valeram trabalhadores do campo e pelas suas lutas. Também foram apro-
do legítimo direito da greve para dificuldades crescentes enfrenta- vadas duas moções: pela Anistia

CONTAG 40 ANOS - 27
e completa redemocratização do Fiscal foi composto por: Álvaro resgate sobre a trajetória política
país e, outra, pela ocupação da Diniz; João F. de Souza e Norberto e de luta da entidade. Ressaltou
terra e preservação do meio Kortmann. que os contratos coletivos e o esta-
ambiente. A festa de posse contou com a belecimento de preços mínimos
A linha de ação sindical adotada presença dos ex-dirigentes em muitas culturas eram uma rea-
a partir do 3º CNTR representou, Lyndolpho Silva e José Pureza da lidade; que o número de ocupações
sem dúvida, um passo significativo Silva, ambos fundadores da e conseqüentemente de conflitos
e decisivo para o avanço das lutas CONTAG e, de volta ao país após agrários ampliaram e que as
e da unidade dos trabalhadores e vários anos de exílio. Eles organizações dos trabalhadores
trabalhadoras rurais. A principal enfatizaram a importância da atingidas pela seca qualificaram
“marca” foi a decisão de atuar em entidade na vida política do país, as lutas no Nordeste.
Ações Coletivas, que hoje cha- inclusive, pelo seu tamanho,
mamos de ações de massa. Cam- capilaridade e pluralidade de
panhas salariais foram desen- idéias. Eram 21 Federações
cadeadas em todo o país, com os Estaduais e 2.346 sindicatos
trabalhadores rurais recorrendo à filiados, congregando 6 milhões de
greve como forma de dobrar a trabalhadores sindicalizados. 4º Congresso Nacional
intransigência patronal. dos Trabalhadores
Rurais - CNTR, “Reforma
Essa postura levou a entidade 8ª Eleição da CONTAG Agrária para acabar com
a ser disputada por todas as forças a fome e o desemprego
no campo e na cidade”.
políticas que atuavam no movi- Em abril de 1983, foi empos-
mento sindical brasileiro. Princi- sada a direção para o triênio
palmente durante os embates que 1983/1986. A direção Efetiva era
marcaram os primeiros anos da composta por: José Francisco da
década de 80, seja em torno da Silva/PE; Roberto T. Horiguti/SP;
formação das Centrais Sindicais, André Montalvão/MG; Estevam N.
ou em relação aos acordos que de Almeida/BA; Gelindo Zulmiro
marcaram a constituição da frente Ferri/RS; Jonas P. de Souza/MT;
denominada Aliança Democrática Eraldo Lírio de Azevedo/RJ;
e a derrota do regime militar. Francisco Urbano A. Filho/RN e
Osmar Araújo/PI. O Conselho
7ª Eleição da CONTAG Fiscal foi composto por: Álvaro
Diniz; João F. de Souza e Norberto
Em abril de 1980, foi empos- Kortmann.
sada a direção para triênio 1980/ O Brasil vivia um novo cenário
1983. A Diretoria Efetiva era político construído também pelo o
composta por: José Francisco da movimento sindical de trabalha-
Silva/PE; Roberto T. Horiguti/SP; dores rurais. As discussões sobre
André Montalvão/MG; José B. da a fundação de uma Central Sindical
Silva/AL; Gelindo Zulmiro Ferri/ foram retomadas e a CONTAG
RS; Jonas P. de Souza/MT; Eraldo participou, coordenou e cedeu
Lírio de Azevedo/RJ; Francisco suas instalações para muitas das
Urbano A. Filho/RN e Henrique reuniões da Comissão Pró-CUT.
Gomes Vilanova/PI. O Conselho O presidente eleito fez um

28 - CONTAG 40 ANOS
Demonstrando mais uma vez o Presidente da Republica, José realização de eleições da CONTAG
sua capacidade de organização, o Sarney, havia falado na abertura e Federações em Congresso, com
MSTR realizou o 4º CNTR, em maio do 4º congresso sobre o Plano mandato de três anos.
de 1985, com 4.100 delegados, Nacional de Reforma Agrária – No mesmo ano, as Federações
eleitos em assembléias munici- PNRA, e sua importância estraté- de Goiás e do Rio de Janeiro reali-
pais, encontros estaduais e re- gica para o desenvolvimento do zaram seus congressos eleitorais.
gionais. As delegações dos estados país. Em votação simbólica, os No entanto, foi necessário refe-
eram compostas de um delegado delegados e delegadas aprovaram rendar a diretoria eleita em
da direção do sindicato e um a proposta do PNRA, apresentada reunião do Conselho Deliberativo
dirigente de base escolhido em pelo governo federal. da entidade, em função da
assembléia. Quase 600 convida- O congresso reafirmou tam- legislação vigente.
dos e observadores de diversas bém as reivindicações da cate-
organizações da sociedade civil goria em relação às questões 9ª Eleição da CONTAG
nacional e internacional partici- agrícolas, trabalhistas, sindical,
param do evento. previdenciária e sobre os grandes “1ª Eleição da história da CONTAG
O debate sobre o modelo de temas nacionais. Entendendo a em Congresso”
reforma agrária, defendida pelo necessidade de democratização na
MSTR, foi o ponto alto desse participação da base nos destinos Quase 2 mil delegados de todos
congresso. Principalmente porque do MSTR, os delegados aprovaram os Estados estiveram em Brasília
na 1ª Eleição Congressual, em de-
zembro de 1985. Nesse congresso,
votaram as direções das Fede-
rações e um delegado de cada
sindicato escolhido em assem-
bléia, sendo assegurado um mí-
nimo de cinqüenta delegados para
os estados com menos de cin-
qüenta Sindicatos.
Romperam com a Legislação
Sindical autoritária e ampliaram
a participação dos trabalhadores
rurais nas decisões de suas enti-
dades e na condução de suas lu-
tas. Era a busca da conquista de
um sindicalismo livre, autônomo,
forte, unitário e democrático.
Uma importante deliberação foi
a ampliação da participação das
Federações nos Conselhos Delibe-
rativos da CONTAG, passando a ser
quatro delegados (as) efetivos (as)
e quatro delegados (as) suplentes.
A realização desse congresso
eleitoral para o triênio 1986/1989

CONTAG 40 ANOS - 29
foi uma vitória da democracia e necessidades dos trabalhadores. A
participação da base nos destinos Contribuição Sindical, sua princi-
do MSTR, apesar da necessidade pal fonte de receita está corroída
‘legal’ de ratificação dos nomes por uma imensa desvalorização.
escolhidos pelo Conselho Delibe- A realização, em Brasília, de um
rativo da CONTAG. congresso eleitoral com 3.200
A direção Efetiva era composta participantes, ou seja, 01 por
por: José Francisco da Silva/PE; sindicato, esbarra principalmente
Ezidio V. Pinheiro/RS; Divino na falta de recursos. Daí o Conse-
Goulart/GO; Francisco Sales/MA; lho ter aprovado por ampla maio-
André Montalvão/MG; Jonas P. de ria, o critério de 02 delegados por
Souza/MT; Elio Neves/SP; Eraldo cada 10 sindicatos. Todavia,
Lírio de Azevedo/RJ; Francisco dificuldades surgidas em alguns
Urbano A. Filho/RN; Aloísio estados na condução deste
Carneiro/BA; Pedro Ramalho/MS processo eleitoral como fora
e José Amadeu Araújo/CE. O definido, levaram a direção da
Conselho Fiscal foi composto por: CONTAG a ouvir as federações
Henrique Gomes Vilanova; João F. quanto à possibilidade de eleições
de Souza e Norberto Kortmann. através de urnas em suas próprias
sedes, nos Estados, com a parti-
10ª Eleição da CONTAG cipação de 01 delegado por
sindicato, atendendo critério
“Eleição da CONTAG de 1989 não definido no 4º CNTR”.
ocorreu em Congresso”. A Diretoria Efetiva eleita era
composta por: Aloísio Carneiro/ suplente da direção da entidade.
Apesar da deliberação do 4º BA; José Francisco da Silva/PE; As mulheres conquistam a Co-
CNTR, a eleição da diretoria e José Amadeu Araújo/CE; Antenor missão Nacional Provisória da
conselho fiscal da CONTAG – Beni/PR; Erny Knortst/RS; André Trabalhadora Rural, que apesar de
Gestão 1989/1992, não aconteceu Montalvão/MG; Norberto subordinada à presidência da
em Congresso. As urnas foram Kortmann/SC; Vidor Jorge Faita/ entidade, dava os primeiros pas-
colocadas nas sedes das Federa- SP; Francisco Sales/MA; Francisco sos para consolidar a organização
ções. A votação foi de um dele- Urbano A. Filho/RN; Pedro das mulheres trabalhadoras rurais.
gado por Sindicato. Ramalho/MS e Adevair N. de Também nessa gestão decidi-
A CONTAG justificou essa Carvalho/ES. O Conselho Fiscal ram apoiar uma candidatura à Pre-
decisão: “o MSTR vive uma crise foi composto por: Jonas P. de sidência da República e a reaproxi-
financeira sem precedentes que se Souza; Eraldo Lírio de Azevedo e mação com setores cutistas. O
reflete nas dificuldades enfren- Henrique Gomes Vilanova. Conselho Deliberativo da CONTAG
tadas pela CONTAG, Federações e Nessa eleição foi eleita a aprovou o documento intitulado:
Sindicatos para desenvolverem primeira mulher, a sergipana “MOVIMENTO SINDICAL NA LUTA
uma programação a altura das Gedalva de Carvalho, enquanto PELA VITÓRIA DE LULA”, enviado

“A democratização da terra é a base para a


democracia no Brasil”

30 - CONTAG 40 ANOS
As conclusões dos encontros
regionais foram sistematizadas e
remetidas para as assembléias de
base. As observações oriundas das
assembléias regionais constituí-
ram o Documento Base, com
análise e proposições a serem
discutidas e deliberadas nas
Plenárias e Congressos Estaduais.
Foram escolhidos (as) 02 dele-
gados (as) por Sindicato e, 02
mulheres trabalhadoras rurais por
Estado, independente das eleitas
nas assembléias dos Sindicatos.
Durante a preparação do
congresso, as direções da CONTAG
e da CUT Nacional buscaram
alternativas que possibilitassem
uma composição dos segmentos
que atuavam no MSTR com os
segmentos que atuavam a partir
do Departamento Nacional dos
A tradição democrática
e pluralista da CONTAG
Trabalhadores Rurais da CUT. O
requer uma diretoria êxito desses esforços estava
que represente o todo o país, para rediscutir e presente no discurso de abertura
universo das concepções
redefinir suas lutas”. de Aloísio Carneiro, presidente da
existentes no campo
No 5º CNTR, em novembro de CONTAG, que destacou a traje-
1991, em Brasília, a participação tória política da CONTAG e da sua
para todas as federações e sindi- da base foi ampliada qualitativa tradição democrática e pluralista.
catos do país, convidando todos ao e quantitativamente. Elegeram o Aloísio afirmou a necessidade da
engajamento na campanha eleitoral dirigente do Rio Grande do Norte, eleição de uma diretoria que
nos municípios e nas capitais. Francisco Urbano. Os Encontros representasse o universo das
Regionais preparatórios no concepções existentes no campo.
11ª Eleição da CONTAG Nordeste, Norte e Centro-Sul, A direção efetiva eleita era
contaram com a participação de composta por: Francisco Urbano A.
5º Congresso Nacional dos 20 estados. Foram levantados os Filho/RN; Aloísio Carneiro/BA;
Trabalhadores Rurais – CNTR. principais pontos a serem aprofun- José Francisco da Silva/PE; Juarez
“TERRA, PRODUÇÃO, SALÁRIO”. dados no congresso: Organização L. Pereira/MG; Tereza Silva/MG;
Sindical, Participação Política nas Hilário Gottselig/SC; José Fialho/
“apesar das tentativas de Questões Nacionais, Luta pela MS; Itálico Cielo/RS; José
desarticulação das organi- Reforma Agrária, Luta dos Peque- Raimundo de Andrade/PB e
zações sociais promovidas pelo nos Agricultores, Luta dos As- Francisco Sales/MA. Conselho
governo, o MSTR Reuniu mais salariados Rurais, Saúde e Pre- Fiscal: Antonio Zarantonello;
de dois mil delegados (as) de vidência Social. Wilson Paixão e Osmar Araújo.

CONTAG 40 ANOS - 31
Participaram a direção executiva da CONTAG,
Os principais avanços do 5º CNTR foram:
direção efetiva das Federações e delegados eleitos
em número correspondente a 10% dos sindicatos
 Aprofundamento do debate nas bases sobre a
filiados a cada Federação. Foi assegurada a participa-
filiação da CONTAG a uma central, sindical
ção das diretoras da CONTAG, como delegadas, e
sendo a CUT a central de maior afinidade com
de duas trabalhadoras rurais por estado.
os critérios estabelecidos pelo MSTR.
O congresso extraordinário foi coordenado pelo
 Eleição da direção em Congresso, respaldada
Presidente em exercício, Aloísio Carneiro. Francisco
pelo Estatuto da CONTAG, com a presença de
Urbano estava licenciado para concorrer a uma vaga
uma mulher na diretoria efetiva.
para o Senado Federal, pelo Rio Grande do Norte. As
 Reorganização interna da CONTAG com a
propostas aprovadas nesse congresso municiariam
criação de secretarias específicas por frentes
as Federações e a CONTAG nas negociações com os
de luta e os novos diretores eleitos para
governos federal e estadual, eleitos em 1994.
comandar uma área específica.
 Ampliação das mobilizações de base na luta
Deliberações do 1º CNETR
pela terra, por crédito, nas lutas salariais,
I – Meta de assentar 2 milhões de trabalhadores
em defesa do SUS, etc.
(as) nos próximos cinco anos.
 Maior inserção nas frentes de lutas interca-
II – Entendimento que reforma agrária é um
tegorias e em parceria com organizações da
programa prioritário e emergencial para o
sociedade civil.
combate à fome e à miséria.
III – Política diferenciada para o pequeno produtor.
1º Congresso Nacional Extraordinário dos
IV – Fiscalização do Ministério do Trabalho para o
Trabalhadores Rurais – CNETR
cumprimento da Legislação Trabalhista e, que
possibilite a eliminação do trabalho escravo,
“... não podemos sacrificar a nossa intervenção nos
tráfico de mão-de-obra, exploração do
processos eleitorais gerais que o país viverá,
trabalho infantil e discriminação da mulher.
convocando um congresso massivo em Brasília. As
V – Realização do 6º CNTR em abril de 1995.
eleições de agora terão a responsabilidade de
VI – Defesa da Unicidade Sindical e da Estrutura
construir o amanhã...”.
Confederativa.

Constatando que o próximo congresso aconte-


ceria na segunda quinzena de novembro, no mesmo
12ª Eleição da CONTAG
período em que ocorreriam as eleições gerais de
1994, o Conselho Deliberativo aprovou a realização
6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR.
de um Congresso Extraordinário, em Brasília, em
“Nem fome, nem miséria. O campo é a solução”.
agosto de 1994.

Na preparação do congresso, o MSTR avançou na


O temário do 1º CNETR:
capacidade de inovar e qualificar a organização
I – Sindicalismo e Organização Sindical;
sindical no campo. A Comissão Coordenadora do
II – Luta pela Reforma Agrária;
Congresso foi composta por representação de todas
III – Luta dos Pequenos Produtores;
as regiões. Foram delegados (as): I) Diretoria Efetiva
IV – Luta dos Assalariados Rurais;
da CONTAG; II) Diretoria Efetiva das Federações,
V – Saúde e Previdência Social e;
até o máximo de sete; III) Um delegado (a) por
VI – Reformulação dos Estatutos da CONTAG.
Sindicato, eleito em assembléia; IV) Duas mulheres

32 - CONTAG 40 ANOS
“A deliberação pela filiação à CUT, provocou intenso debate
na base da CONTAG, das Federações, dos Sindicatos de
trabalhadores rurais e da própria central”

para cada proporção de 10% dos STRs quites com a ofendidas e discriminadas em todo o processo, em
Federação, independente daquelas escolhidas pelos função de alianças e negociações que se deram de
STRs, das diretorias das Federações e das que forma fechada, desrespeitando plenárias estaduais
faziam parte da diretoria efetiva da CONTAG. e também o anseio da maioria deste Congresso”.
A preocupação em garantir a participação efetiva Essa insatisfação momentânea estimulou, ainda
da base nas decisões foi fundamental para a mais, a organização e intervenção qualificada das
construção de um congresso que consolidasse a mulheres nos congressos que aconteceriam daí por
Unidade Política da classe trabalhadora no campo e diante, nos âmbitos nacional, estadual e municipal.
na CUT. Em maio de 1995, 2 mil trabalhadores (as)
rurais participaram, em Brasília, do 6º CNTR. Resultado da Eleição para direção da CONTAG
Os trabalhadores e trabalhadoras rurais conde- Total de Delegados (as) = 1.563
naram o projeto neoliberal do governo de Fernando 1.110 votos a favor
Henrique Cardoso; reafirmaram a Reforma Agrária 103 votos brancos
enquanto bandeira prioritária; defenderam a 346 votos nulos
definição de uma política agrícola diferenciada para
a agricultura familiar, o combate ao trabalho escravo A direção eleita teve a seguinte composição:
e a preservação dos direitos previdenciários, sociais Diretoria Efetiva: Francisco Urbano A. Filho/RN;
e trabalhistas conquistados na Constituição de 1988. Avelino Ganzer/PA; Gerônimo Brumatti/ES;
Todo o processo de elaboração e realização do Francisco Miguel de Lucena/CE; Maria Santiago de
Congresso representou uma lição de debate, de Lima/RO; Hilário Gottselig/SC; Norival Guadaghin/
política e de organização. O evento explicitou a SP; Francisco Sales/MA; Alberto Ercílio Broch/RS;
necessidade da classe trabalhadora rediscutir a sua Guilherme Pedro Neto/GO; Airton Luiz Faleiro/PA e
prática de luta e de convivência democrática com Sebastião Rocha/MG. Conselho Fiscal: Antonio
as divergências. A direção eleita tinha o desafio de Zarantonello; Divino Goulart e Almir José Feliciano.
reorganizar e recompor a Unidade construída ao
longo dos mais de 30 anos da CONTAG. Essa unidade Filiação à CUT
precisava ser permanentemente revitalizada para o
enfrentamento dos novos e históricos desafios que O estreitamento das relações da CONTAG com
estavam postos para o movimento. as organizações que atuavam no campo e, a deli-
A negociação de composição da nova diretoria beração pela filiação à CUT, provocou intenso de-
não agradou a todos os segmentos representados. bate na base da CONTAG, das Federações, Sindi-
No encerramento do congresso, as delegadas catos de Trabalhadores Rurais e da própria central.
distribuíram nota de repúdio à forma de escolha dos Em reunião do Departamento Nacional de
nomes para compor a direção eleita. Denunciaram a Trabalhadores Rurais - DNTR/CUT, realizada em
ausência dos nomes de mulheres identificadas São Paulo, em novembro de 1994, contando com
previamente pela Comissão Nacional de Mulheres a presença de Lula, os militantes decidiram que,
Trabalhadoras Rurais: “Queremos manifestar nosso caso a opção fosse por uma composição na dire-
repúdio à forma como fomos desrespeitadas, ção da CONTAG no 6º CNTR, os nomes da CUT

CONTAG 40 ANOS - 33
seriam de Francisco Miguel do Ceará (CE), Gui- “...os próximos anos serão
lherme Pedro Neto (GO), Maria Santiago de Lima decisivos, será uma luta desigual,
(RO); Airton Faleiro e José Roberto Faro (PA). mas de fundamental importância,
Em Congresso Nacional do DNTR/CUT, rea- pois o que está em jogo é o futuro
lizado em Goiânia/GO, com uma votação aper- do Brasil e de toda a sua
tada, o DNTR aprovou a estratégia de trabalhar população...”
“por dentro da CONTAG” e, referendou os nomes
aprovados em São Paulo. O encontro contou com Um salto qualitativo e
a presença das cinco Federações filiadas à CUT quantitativo se processou na
- Acre, Pará, Rondônia, Tocantins e Goiás. organização e trajetória política da
A votação ocorreu através de cédula CONTAG, merecendo destaque a
específica. velocidade dessas mudanças nos
últimos 10 anos. O 7º congresso
Resultados da votação para filiação da CONTAG representou um marco dessas
à CUT no 6º CNTR mudanças. No período de 30 de
março a 02 de abril de 1998, mais
Total de delegados (as) 1.563 de 1.400 delegados e delegadas
841 votos pela filiação já debateram e aprovaram um Projeto
546 votos pela filiação em janeiro/1996 Alternativo de Desenvolvimento
116 votos nulos Rural Sustentável – PADRS.
42 votos brancos A construção do congresso se deu
nos três níveis: municipal, com as
Após o congresso da CONTAG, foi convocado assembléias para debate e eleição
outro Congresso Nacional do DNTR para definir dos delegados (as) para a Plenária
estratégias de ação da CUT no campo. Foi Regional ou Estadual; estadual, com
aprovada a imediata extinção do DNTR. Nos Plenárias para debate e eleição dos delegados (as)
estados onde as Federações não fossem filiadas, ao Congresso Nacional; nacional, com a realização
a extinção dos DETRs ocorreria quando se do 7º CNTTR.
concretizasse a filiação à CUT. Onde houvesse A Coordenação foi escolhida em Conselho
composição nas direções das Federações, a Deliberativo. Sendo dois dirigentes da CONTAG, um
opção seria de trabalhar por dentro e extinguir (a) dirigente de cada Federação e a representação
os DETRs, a exemplo do que ocorria no Paraná, da Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras
Paraíba e Rio Grande do Sul. Nos demais estados, Rurais - CNMTR.
os DETRs trabalhariam a aproximação com essas O Documento Base do congresso traduzia as
Federações buscando estabelecer composição na mudanças que ocorriam no meio rural e os desafios
direção, ou mesmo, a filiação delas à CUT. que estavam colocados para o MSTTR. Trouxe para
o debate, as reflexões vindas dos cinco Seminários
Regionais de aprofundamento sobre o modelo de
desenvolvimento rural para o país.
13ª Eleição da CONTAG Nascia o Projeto Alternativo de Desenvolvimento
Rural Sustentável – PADRS, a partir de uma ampla e
7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e massiva reforma agrária; na expansão, valorização
Trabalhadoras Rurais – CNTTR. “Rumo a um Projeto e fortalecimento da agricultura familiar; e na
Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. melhoria das condições de vida e de trabalho dos

34 - CONTAG 40 ANOS
Os congressos da
CONTAG garantiram
o debate, a
assalariados e assalariadas rurais. socialização e a e de Secretaria de Organização e
integração nacional
Esse projeto representou um Formação Sindical.
das políticas do
passo significativo na articulação movimento sindical Esse congresso buscou
e unificação das lutas da categoria dos trabalhadores e preparar as entidades sindicais do
na esfera nacional e para o trabalhadoras rurais MSTTR para enfrentar novos
fortalecimento de um novo tipo de desafios; aprovou a cota mínima
interseção campo e cidade. de 30% de mulheres trabalhadoras
O projeto também ampliou a visibilidade política rurais em todas as instâncias do movimento;
das mulheres coordenadas pela CNMTR, que já estabeleceu a auto-sustentação com base nas
haviam conquistado a inclusão da Coordenação da contribuições voluntárias; iniciou o debate sobre a
Comissão Nacional no Estatuto da CONTAG. Incluíram inclusão de Jovens e a Terceira Idade nas entidades
mais um “T” no nome do congresso, passando a ser sindicais.
7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Tra- A organização e estrutura sindical foi o tema mais
balhadoras Rurais – CNTTR, demonstrando a compre- polêmico do congresso e recebeu um momento
ensão que o MSTTR possui dois sexos. Também específico para debater o assunto. Os delegados (as)
passou a ter três dirigentes na direção efetiva da aprovaram a realização de um Congresso Extraor-
CONTAG. As novas diretoras ocuparam a Coorde- dinário para aprofundar esse tema. Antes do con-
nação da CNMTR e as Secretarias de Políticas Sociais gresso extraordinário, o Movimento desencadeou um

CONTAG 40 ANOS - 35
grande processo de discussão em todos os espaços seminário nacional sobre
sindicais, com o objetivo de definir uma proposta Organização e Estrutura Sindical,
que permitisse a construção da organicidade no com palestrantes que
movimento sindical de trabalhadores e trabalhadoras representavam todas as concepções
rurais, a partir dos seguintes elementos: relação com a respeito dos temas em debate.
a CUT, organização de base, estrutura associativa/ Ocorreram, também, cinco
cooperativa, regionalização de base sindical, seminários regionais para discussão
diferenciação na representação de segmentos do Documento Base do congresso,
(assalariados, agricultores familiares), relações com o propósito de preparar as
internacionais, auto-sustentação financeira. lideranças sindicais dos estados
O 7º representou uma prova da democracia e para o debate nas assembléias dos
unidade do MSTTR. Todas as forças políticas Sindicatos e nas Plenárias Estaduais
participaram e interviram de forma qualificada. e Regionais das Federações.
Saíram unidos em torno das propostas aprovadas e Quanto à participação, foi
da nova diretoria eleita, apesar, de duas chapas do aprovado que: I – as assembléias dos
campo cutista terem disputado as eleições para a STRs elegeriam os delegados (as),
direção da CONTAG. proporcional ao número de sócios
Uma chapa foi encabeçada pelo pernambucano quites; II – os Encontros Regionais
Manoel José dos Santos, o Manoel de Serra. A outra, elegeriam os delegados (as)
pelo gaúcho, radicado no Pará, Airton Faleiro. Como regionais na proporção de 01 para
em qualquer disputa que envolvam companheiros cada 03 delegados (as) presentes;
(as), ficaram algumas cicatrizes, abrandadas ao III – a Plenária Estadual elegeria os
longo dos três anos de mandato da direção eleita. delegados (as), na proporção de 01
A direção da CONTAG teve a seguinte composi- delegado (a) para cada STR filiado à FETAG.
ção: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos/PE; Participaram ainda, como delegados (as), as dire-
Gerônimo Brumatti/ES; Francisco Urbano A. Filho/ torias das Federações e da CONTAG. Todo o processo
RN; Agnaldo dos Santos Meira/BA; Maria do Ó do de escolha de delegados (as) obedeceu à cota mínima
Nascimento/AL; Hilário Gottselig/SC; Mario Plefk/ de 30% de mulheres trabalhadoras rurais.
PR; Alberto Ercílio Broch/RS; Sebastião Rocha/MG;
Guilherme Pedro Neto/GO; Maria da Graça Amorim/ As principais deliberações foram:
MA; Maria de Fátima R. da Silva/PI e Raimunda  defesa da Unicidade Sindical pelo MSTTR;
Celestina de Mascena/CE. Conselho Fiscal: José Ro-  transparência administrativa das entidades
berto de Assis; Antonio Zarantonello e Maira Bottega. sindicais;
 participação da base nas decisões da entidade;
2º Congresso Nacional Extraordinário dos  criação da Comissão de Ética Nacional;
Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNETTR  ampliação do mandato da direção da CONTAG
para 04 anos, com uma Plenária Nacional de
“A prioridade será a discussão na base, os avaliação e ajustes após os dois primeiros anos;
trabalhadores e trabalhadoras rurais deverão  definição de agricultor (a) familiar, admitindo
determinar qual o tipo de sindicalismo que irá até dois empregados permanentes;
representá-los no próximo milênio”.  criação da Comissão Nacional de Jovens
Trabalhadores Rurais no 8º CNTTR;
Antecipando-se ao 2º Congresso Extraordinário,  constituição das Regionais da CONTAG;
realizado em outubro de 1999, foi realizado um  estreitar relações com a CUT.

36 - CONTAG 40 ANOS
A criação da Comissão
Nacional de Jovens
Trabalhadores e
Trabalhadoras Rurais e a
estrutura cooperativista
ligada ao MSTTR, foram
dois grandes marcos. É o
futuro sendo construído.

valorização e o fortale-
cimento da Agricultura
Familiar, a geração de em-
prego e renda no campo e,
por melhores condições de
vida e de trabalho para os
assalariados e assalariadas
rurais.
Esse congresso foi mais
uma prova da capacidade do
MSTTR em refletir coletiva-
mente, de maneira demo-
crática e participativa,
explicitando e enfrentando
as divergências existentes, na busca da construção
14ª Eleição da CONTAG de um MSTTR autônomo, independente, classista e
de luta.
8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Os delegados e delegadas avaliaram que apesar
Trabalhadoras Rurais – CNTTR. “Avançar na cons- das dificuldades vividas no enfrentamento com o
trução do Projeto Alternativo de Desenvolvimento governo de Fernando Henrique Cardoso, o MSTTR,
Rural Sustentável”. em nenhum momento, se curvou aos desmandos e
ao autoritarismo imposto pelo governo. Pelo con-
Nesse congresso, o Conselho Deliberativo incor- trário, a CONTAG, Federações e Sindicatos, estive-
porou mudanças para inscrição das chapas con- ram à frente das principais mobilizações nacionais,
correntes à direção da CONTAG. O registro passou a estaduais e municipais.
ser realizado até quinze dias antes do Congresso Avaliaram as consideráveis vitórias obtidas pelo
com a finalidade de evitar esvaziamentos do plenário MSTTR, a exemplo do Grito da Terra Brasil – GTB/
pelos delegados (as) que articulavam a composição 2000, que mobilizou mais de 10 mil trabalhadores
de uma ou mais chapas. Essa decisão possibilitou (as) em Brasília. E a Marcha das Margaridas, que
maior aprofundamento do debate político. também mobilizou mais de 40 mil mulheres trabalha-
Em março de 2001, em Brasília, ocorreu o 8º doras rurais na capital federal. Essas mobilizações
CNTTR com mais de 2 mil delegados e delegadas. O conquistaram a retirada da Taxa de Juros de Longo
MSTTR reafirmou a estratégia de avançar na cons- Prazo –TJLP, do PRONAF e elevaram seus recursos
trução do PADRS, tendo como princípios a realiza- para mais de 4 bilhões. Conquistaram ainda a as-
ção de uma Ampla e Massiva Reforma Agrária, a sinatura do Programa Crédito Fundiário e a renego-

CONTAG 40 ANOS - 37
ciação das dívidas acumuladas da agricultura familiar.

As principais deliberações foram:


 impedimento de participação das atividades do
MSTTR, das Federações que não realizem eleições
em Congresso e que não cumpram a política de
cotas de 30% de mulheres;
 membros da direção do STR que não efetuarem
prestação de contas ficam impedidos de concorrer
a eleições sindicais;
 mudança no Estatuto da CONTAG para acrescer
o cargo de Coordenação Nacional da Juventude
Trabalhadora Rural;
 constituição de uma estrutura cooperativista da
agricultura familiar;
 elaboração e implementação de um Plano
Nacional de Reforma Agrária, com definição de
metas e ações regionais e com atribuições
descentralizadas para os governos estaduais.
 apresentar ao Congresso Nacional o Projeto de
Lei do MSTTR, que trata de alterações nas regras
de contribuição e ampliação do acesso aos
benefícios previdenciários;
 defesa do Projeto de Emenda Constitucional que
estabelece limites de 35 módulos fiscais para
propriedade da terra, como bandeira de luta para
ampliação da Reforma Agrária.
 intensificar as ocupações de terras e acampa-
mentos, como instrumento essencial para con-
quista da terra e principal forma de mobilização
e pressão.
 realizar Campanha Nacional de recuperação do
poder aquisitivo do salário mínimo, envolvendo
CONTAG, FETAGs, STRs e entidades de traba-
lhadores de âmbito nacional.
 dar continuidade à Campanha Nacional de
Prevenção de Acidentes do Trabalho na Área
Rural- CANPATR sobre segurança nos transportes
e alojamentos dignos.
 Campanha nacional de prevenção e combate
contra os riscos e uso dos agrotóxicos, objeti-
vando uma campanha pelo o fim dos agrotóxicos;
 realização do Congresso Nacional da Terceira

38 - CONTAG 40 ANOS
Idade;
 contraposição ao plantio e comercialização de
Transgênicos;
 estimular a produção orgânica, enquanto
estratégia;
 descentralizar a produção do programa a VOZ da
CONTAG de forma a favorecer sua regio-
nalização.

Todas as forças políticas participaram de forma


qualificada no debate, mas não foi suficiente para
unificar o processo eleitoral. Duas chapas concorreram
à eleição da direção da CONTAG. Uma chapa encabeçada
por Manoel de Serra e, outra, encabeçada pelo baiano
Edson Pimenta.
No entanto, a sabedoria política dos (as) dirigentes
sindicais do MSTTR, comprometidos com a construção
de uma entidade nacional forte e representativa, mais
uma vez superou as diferenças e passou a coordenar
coletivamente as lutas gerais e específicas da maior
organização sindical da América Latina.
Numa demonstração de maturidade política, os
dirigentes sindicais do MSTTR deram continuidade às
ações de massa e de enfrentamento da política
neoliberal, contribuindo para a construção de um Brasil
mais justo e solidário, com uma política econômica
centrada no bem estar de todos os brasileiros e
brasileiras do campo e da cidade.
A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria
Efetiva: Manoel José dos Santos/PE; Alberto Ercílio Broch/
RS; Manoel Candido da Costa/RN; Hilário Gottselig/SC;
Maria do Ó do Nascimento/AL; Juraci Moreira Souto/
MG; José de Jesus Santana/BA; Airton Faleiro/PA;
Guilherme Pedro Neto/GO; Maria da Graça Amorim/MA;
Francisco Miguel de Lucena/CE; Maria de Fátima R. da
Silva/PI; Raimunda Celestina de Mascena/CE e Simone
Battestin/ES. Conselho Fiscal: Francisco Sales, Gilson
Francisco da Silva e Maria Helena Baungarten.

A Marcha das Margaridas - 2000 razões para


marchar, mobilizou mais de quarenta mil mulheres
trabalhadoras rurais em Brasília

CONTAG 40 ANOS - 39
manutenção da terra como valor vida institucional do país.
econômico nas mãos do proprie- Enfrentou o latifúndio e a
tário. Este elo era representado repressão militar nas suas mais
por um aspecto quase feudal na agressivas formas de expressão.
relação com o latifúndio: o lavra- Ele apostou na formação e na
dor morava na fazenda. A classe organização do Movimento
social a que pertencia constituía Sindical de Trabalhadores e
um semiproletariado. Trabalhadoras Rurais.
O pioneiro da CONTAG também
explicou, em respostas aos críticos Apesar das dificuldades de
dos primeiros momentos da organizar mobilizações nos anos
atuação política da CONTAG, que iniciais da CONTAG, a entidade
o surgimento da Confederação não cresceu e tem realizações. Que
foi uma “outorga” do estado, mas feitos da CONTAG o senhor daria
uma combinação de dois fenô- destaque?
Lyndolpho Silva menos: um político com o recuo do
Primeiro presidente da CONTAG governo para acalmar os ânimos, A organização dessa entidade,
e outro social, com a persistência a estrutura dela hoje, com eleição
Nas comemorações dos 40 anos da classe trabalhadora rural. em Congresso, atuando por secre-
de criação da CONTAG, Lyndolpho taria, tudo isso é uma grande
Silva encontrava-se em São Paulo, conquista. O avanço da reforma
hospitalizado. O depoimento é um agrária, que era quase impossível
resgate das suas declarações há 40 anos, está acontecendo. A
quando das comemorações dos 30 questão da previdência no campo,
anos da Confederação, em 1993. a organização dos agricultores
familiares, com programas espe-
Durante as festividades dos 30 cíficos de crédito. São fenômenos
anos da CONTAG, em Brasília, tremendamente importantes que
Lyndolpho reproduziu parte da eram perseguidos passo a passo
história de lutas do MSTTR. Ele e que são grandes conquistas.
recordou que a luta dos posseiros Temos que lembrar os assalariados
concentrava-se na defesa da que sofreram um baque com a
titulação da terra, com base na lei modernização da agricultura, mas
de usucapião, já que cultivavam o pessoal está deixando de ser
a terra e pagavam impostos. O assalariado e está partindo para
empenho político dos assalariados José Francisco da Silva lutar pela conquista da terra.
tinha outra vertente: a obtenção ex-presidente da CONTAG
de salários condizentes. Com se deram as lutas em defesa
Lyndolpho explicou que a Foi o primeiro presidente da dos interesses no período de
maioria dos camponeses era mais CONTAG depois da retomada da cerceamento das liberdades?
que trabalhador do campo. A instituição, em 1968. Ligado ao
situação representava o elo de partido comunista, “Zé Havia muita união. O inimigo
ligação entre o trabalho como Francisco”, dirigiu a entidade por foi cedendo, aos poucos, às
forma de sobrevivência e a 21 anos, nos piores momentos da nossas pressões. Naquela época,

40 - CONTAG 40 ANOS
“O avanço da reforma agrária, que era quase impossível há
40 anos, está acontecendo.”

já realizávamos essa defesa lan- da CONTAG, se percebia que a Agricultura da Bahia. A partir de
çando mão até dos instrumentos cada dia o pessoal envolvido 1986, Aloísio assumiu a
jurídicos que se tinha, como a procurava ocupar estes espaços. Presidência da CONTAG para um
Constituição, o Estatuto do Traba- Com isso, o processo democrático mandato de três anos (1986/
lhador, o Estatuto da Terra, o ia se consolidando, porque na 1989). Podemos dizer, que daí
artigo 508 do Código Civil, que dá medida em que se recorria aos começava o Movimento Sindical de
direito à defesa da posse. A classe instrumentos que se foram Trabalhadores e Trabalhadoras
trabalhadora não era desunida forçosamente criando ao longo das Rurais, com dois Ts.
como pensam. O que havia era um pressões dos trabalhadores, se Aloísio chega à liderança do
abuso de poder bem maior do que encontrava, ao mesmo tempo, MSTR no segundo ano do Governo
se vê hoje. Se nos dias atuais o condições de se somar conquistas. do Presidente José Sarney. No
latifúndio quase não tem medo de campo, a violência levou o governo
nada, imagine naquela época, com a criar, na estrutura do Ministério
o estado, a política e o dinheiro da Reforma e Desenvolvimento –
garantindo as oligarquias. MIRAD, uma coordenação especí-
fica para acompanhar os conflitos
O senhor fez referências a uma agrários. Nesse cenário, surgiu a
certa evolução do espaço demo- União Democrática Ruralista, uma
crático das lutas camponesas. O instituição ultradireita, cujo obje-
que isso representa? tivo era impedir qualquer avanço
na reforma agrária. Nesse clima
A partir de 1979, houve um de tensão, entre as forças favo-
espaço bem maior para ampliação ráveis e contrárias às reformas no
da luta. É preciso levar em conta campo, Aloísio Carneiro atuou não
que naquela época começaram os somente em defesa dos interes-
primeiros movimentos da redemo- ses dos trabalhadores rurais,
cratização do país, a exemplo da buscou avançar também na luta
Campanha das “Diretas Já”, pela eliminação do trabalho
dentre outros. Tivemos a Cons- Aloísio Carneiro infanto-juvenil e da escravidão.
tituição de 1988, que permitiu Ex-presidente da CONTAG Foi ainda em sua gestão que
avanços importantes para as ocorreram os embates na Assem-
classes trabalhadoras do campo da Aloísio Carneiro chegou à bléia Constituinte para garantir os
e da cidade, em relação, sobre- CONTAG em 1983, como suplente, direitos dos trabalhadores e
tudo, no que se referia a direitos integrando a oitava diretoria da trabalhadoras do campo. Aloísio
trabalhistas, questão da terra, da instituição. Baiano, ele atuou no faleceu em 2002. Ao grande
previdência, da organização Sindicato dos Trabalhadores companheiro o reconhecimento de
sindical e, principalmente, Rurais de Retirolândia, de onde todos os homens e mulheres que
autonomia e liberdade sindical. seguiu para a direção da lutam por condições digna de vida
Quer dizer, no caminho das lutas Federação dos Trabalhadores na no campo.

CONTAG 40 ANOS - 41
ameaças do governo de reprimir do MSTTR, ao lado de outras
com maior severidade a reação bandeiras de luta, como a
desesperada dos atingidos pela eliminação do trabalho escravo e
estiagem. Urbano foi convocado infantil.
ao Ministério da Justiça para dar Na visão de Urbano, a lógica
explicações e ameaçado de enqua- perversa do estado em relação aos
dramento na Lei de Segurança homens e mulheres do campo
Nacional, sob acusação de incita- vem, historicamente, forçando o
ção das massas. êxodo rural e ampliando a exclusão
Nas comemorações dos 40 anos social, quando o mais sensato
da CONTAG, Urbano fez uma ava- seria a interiorização do desen-
liação dos dez últimos anos da luta volvimento. Mas quando “lam-
dos trabalhadores e trabalhadoras pejos” de desenvolvimento “ilu-
rurais e lamentou que o Estado minam” minimamente uma
Francisco Urbano brasileiro ainda não tenha assu- pequena parcela do campo, o
Araújo Filho mido a reforma agrária, como a Estado surge para descaracterizar
ex-presidente da CONTAG principal política capaz de eliminar o indivíduo. Isso ocorre, por
a fome e retirar da miséria mi- exemplo, quando uma pequena
Francisco Urbano Araújo Filho, lhões de brasileiros. comunidade consegue instalar
mais conhecido como Urbano, tem Ao falar da luta pela reforma uma micro-agroindústria para
uma história parecida com de agrária lembrou que a luta do beneficiar a produção e agregar
muitos outros trabalhadores rurais MSTTR não avança mais rapida- valor ao produto, buscando elevar
brasileiros. Nascido em São Paulo mente por motivos ‘óbvios’. “Es- sua renda. Quando isso corre, a
do Potengi, interior do Rio Grande tamos longe de avançar como de- Previdência alega que aquele
do Norte. Deixou a condição de veríamos, por uma razão objetiva: indivíduo não é mais o mesmo. Ou
meeiro para ingressar na luta com a legislação que aí está, o que seja, o agricultor familiar perde
sindical. Durante 20 anos ocupou vamos continuar fazendo é assen- essa condição para ser rotulado de
diversos cargos na CONTAG até tamento e não reforma agrária”, empresário.
chegar à presidência. afirmou. Urbano lembrou que o enten-
Em 1993, já como presidente Na opinião de Urbano, o assen- dimento de agricultura familiar
da CONTAG, quando a seca tamento de poucas centenas de está consolidado e o segmento é
castigava o povo nordestino, famílias e a manutenção de tema de estudos dos intelectuais
diante do descaso do estado, milhões de hectares em mãos de e foi integralmente assimilado em
Urbano passou a defender os latifundiários mantém o trabalha- todas as instâncias de poder,
saques aos estabelecimentos dor rural na histórica condição de desde o Executivo, passando pelo
comerciais. “Nem passarinho desvantagem diante das insti- Legislativo e até mesmo o
morre em cima do galho sem antes tuições de crédito e comercial. Judiciário.
voar para tentar encontrar Para ele, a reforma agrária O que falta, lembrou Urbano,
comida”. Era uma resposta às continua sendo um grande desafio são programas de capacitação dos

“...com a legislação que aí está, o que vamos continuar


fazendo é assentamento e não reforma agrária.”

42 - CONTAG 40 ANOS
agricultores familiares, por meio Serra Talhada, no sertão de Nesses quarenta anos, conse-
de um serviço permanente de Pernambuco. Em 1970, começou guimos resistir ao golpe e a dita-
assistência técnica, “é preciso a participar da Ação Católica, dura militar, retomamos nossa
reativar e fortalecer um sistema organização pastoral no meio entidade para o rumo da auto-
de assistência técnica e extensão rural. Em 1972, filiou-se ao nomia e da representação dos
rural, cujo desmonte começou no Sindicato dos Trabalhadores trabalhadores e trabalhadoras
governo José Sarney e foi Rurais de Serra Talhada, onde se rurais. Lutamos junto com outras
totalmente destruído no governo tornou dirigente sindical, organizações para a redemo-
de Collor”, que os tornem com- ocupando vários cargos até 1989, cratização do país. Avançamos na
petentes para disputar mercados primeiro, como Tesoureiro e articulação, na pressão, na mo-
dentro desse processo maior, depois Presidente do Sindicato. bilização e na proposição,
chamado globalização. Significa Na década de 80, do século XX, construindo o Grito da Terra Brasil
tornar o agricultor familiar apto a contribuiu para a construção do e o Projeto Alternativo de Desen-
competir dentro do mercado. PT, partido ao qual ainda é filiado, volvimento Rural Sustentável.
Ele destacou que segurança e da criação da CUT. Em 1990, foi Nesses últimos anos, partici-
alimentar não está relacionada à eleito Secretário-Geral da pamos de forma ativa e propo-
quantidade e sim, à qualidade dos Federação dos Trabalhadores na sitiva da mobilização nacional em
produtos colocados à disposição da Agricultura de Pernambuco – favor da eleição de um governo
sociedade.”Segurança alimentar é FETAPE. Em 1993, elegeu-se comprometido com os traba-
ter produto com qualidade, sem Presidente da Federação, sendo lhadores e trabalhadoras. Do ponto
veneno, sem química para o reeleito em 1996, permanecendo de vista da organização interna,
consumo das pessoas”. no cargo até 1998, quando foi tivemos mudanças fundamentais
eleito em congresso, para assumir em nossa estrutura organizativa,
a Presidência da CONTAG, redimensionamos nossa ação
cumprindo atualmente seu sindical, antes centrada na luta
segundo mandato. dos assalariados, especialmente
da região canavieira, e na reforma
Como o senhor descreve a agrária. Ampliamos nossas frentes
CONTAG quarentona? de luta para atender a diversidade
dos trabalhadores e trabalhadoras
Entendo que nenhuma organi- rurais e suas demandas, também
zação pode achar que já fez tudo, avançamos na democracia
que não tem nada para modificar, interna: em 1968, José Francisco
ou se reestruturar. O próprio nome disputou a direção da CONTAG com
já diz: movimento sindical, ou 11 votos, apenas 11 pessoas
seja, algo que está em permanen- votavam representando as
te mudança, buscando responder Federações. Hoje, nossas eleições
as demandas e necessidades dos acontecem em congresso, com
Manoel José dos Santos trabalhadores e trabalhadoras, se representantes dos mais de 4.100
Presidente da CONTAG auto-avaliando, refletindo e fazen- sindicatos, filiados às 27
do as mudanças necessárias, na Federações. Milhares de delegados
Agricultor familiar, conhecido perspectiva de uma ação ino- e delegadas escolhidos em
como Manoel de Serra, numa vadora, propositiva e coerente assembléias de base e que chegam
referência à sua cidade de origem, com seus representados. nos congressos, vem com um

CONTAG 40 ANOS - 43
acúmulo de discussões realizadas Como se produz uma mudança qualidade e contextualizada na
em Plenárias Regionais. Trazem no campo? realidade do campo, lazer e espor-
propostas por temáticas específi- tes, para que a juventude possa
cas para serem debatidas e Esse é um dos grandes desa- ter perspectiva e opção de viver
aprovadas no Congresso Nacional. fios. É fazer uma política de for- e produzir no campo.
Temos a participação das mu- talecimento da agricultura O desenvolvimento sustentá-
lheres e dos jovens em todas as familiar, favorecendo a todos. vel como um processo em cons-
instâncias. São mudanças signifi- Avançando no processo de desa- trução, precisa assegurar aos
cativas e necessárias à realidade propriação, nos assentamentos assalariados e assalariadas rurais
atual do campo brasileiro. das famílias que não têm terra e direitos trabalhistas, condições de
construindo uma política comple- trabalho e salários dignos, que
O que precisa ser feito para mentar de acesso à terra. O cré- tem no salário mínimo um peso
promover o desenvolvimento dito fundiário é um dos instru- significativo no campo. Além
sustentável no campo? mentos para garantir o acesso à disso, temos que pensar o campo
terra naquelas áreas que estão como um lugar de viver, de morar
Precisamos entender o desen- abaixo da linha da desapropriação e de produzir, por isso, temos que
volvimento sustentável no campo, prevista pela Constituição Federal. pensar a articulação de atividades
dentro do processo de construção É preciso que haja um planeja- agrícolas e não agrícolas como
de um projeto de sociedade. Onde mento sobre o que se vai implan- forma de evitar o desemprego e a
governo e movimentos sociais tar, qual é a aptidão dessa terra, exclusão social.
têm papeis e funções distintas, qual projeto que será implantado. Com relação aos movimentos
em alguns momentos complemen- É preciso garantir assistência sociais, precisamos mobilizar,
tares, sem perder de vista a técnica à produção, agregar valor organizar, formar nossa base,
identidade de classe. ao produto, para que não seja além de tudo, precisamos ter a
Com relação ao governo, pre- vendido in natura por qualquer capacidade de propor, de nos
cisa implementar políticas es- preço, assegurar acesso ao articular, de realizar parcerias, de
truturais, como: Reforma Agrária mercado e, para isso, executar dialogar no sentido de buscar es-
ampla e massiva, diferente de uma política de infra-estrutura, tratégias de melhoria da qualidade
distribuição de terra, com plane- com a construção de estradas que de vida dos trabalhadores e tra-
jamento, assistência técnica, permitam o escoamento da balhadoras rurais.
infra-estrutura para a produção; produção. Precisamos também de
geração de emprego e renda; políticas sociais que busquem, em Como é a relação da CONTAG com
valorização da agricultura familiar, regime de colaboração, reunir os o governo que ajudou a eleger?
com política de crédito, agroin- esforços e responsabilidades das
dustrialização dos produtos, de esferas do poder: União, Estados Hoje, o Presidente Lula, é um
acesso ao mercado, de modelos e Municípios, no atendimento às gestor público dos interesses do
tecnológicos que preservem o demandas de saúde, moradia, conjunto da sociedade, portanto,
meio ambiente. previdência, escola pública de de interesses heterogêneos e di-

“É preciso que haja um planejamento sobre o que se


vai implantar, qual é a aptidão dessa terra, qual
projeto que será implantado.

44 - CONTAG 40 ANOS
O segredo da
liderança é não tirar
versificados. A CONTAG é repre- tivemos com o governo os pés da terra, ter em Brasília.
sentante de um segmento da Fernando Henrique, referência na sua Sobretudo, ouvir
sociedade que são os trabalha- estamos tendo com o base, embora e considerar bas-
desenvolva tarefas
dores e trabalhadoras rurais. Além governo Lula, com algu- tante o que di-
distintas em outras
de termos clareza da importância mas exigências a mais, esferas de atuação zem, pensam e
dos movimentos sociais terem sua pois participamos do necessitam os
autonomia perante o governo, processo de sua eleição. trabalhadores e
sabemos que temos um governo trabalhadoras lá
de coalizão, onde as diferentes Se o senhor não fosse em seus locais de
forças políticas: trabalhadores, o presidente da CONTAG que trabalho, na roça. Para mim, o
empresários de diversos setores conselho daria aos dirigentes segredo da liderança é não tirar os
da economia, segmentos fisioló- sindicais? pés da terra, ter referência na sua
gicos e que só vêem seus inte- base, embora desenvolva tarefas
resses. Por isso, que sabendo des- Fica difícil imaginar essa distintas e em outras esferas de
sa correlação de forças, da disputa situação, porque eu sou o pre- atuação. Por isso, mesmo eu
de interesses entre os vários sidente da CONTAG. Mas se estando aqui em Brasília, sendo
setores que compõem o governo, estivesse lá na base, trabalhando Presidente da CONTAG, mantenho
e que Lula não é mais sindicalista na roça, iria sugerir que os diri- minha roça lá no sítio Juazeiro, no
e, sim, Presidente da República do gentes não se afastassem de sua município de Serra Talhada, onde
Brasil, a CONTAG vem cumprindo base, que tornasse a organização nasci, me criei, comecei a atuar
seu papel de reivindicar, propor e sindical cada vez mais um instru- no sindicato, e todas as vezes que
negociar, quando necessário, para mento a serviço dos trabalhadores posso, vou lá trabalhar na roça. Sou
atender os interesses da nossa e trabalhadoras rurais, que pudes- agricultor familiar, é isso que eu
categoria e do país. Por exemplo, sem ver a diversidade de cada es- aprendi a fazer e ser e quero
a mesma ação e propostas que tado e não apenas o que acontece continuar sendo.

CONTAG 40 ANOS - 45
Desenvolvimento
sustentável
includente e dinamizador das
potencialidades locais
“Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas,
de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...Tanta gente”.

Guimarães Rosa

modelo agrícola brasi- justo e que levasse em conta as

O leiro sempre foi con-


servador, parcial, exclu-
dente e insustentável. A
produção agroexportadora e os
demandas produtivas, sociais,
políticas e organizativas da classe
trabalhadora, sobretudo, daqueles
que vivem e produzem no campo.
grandes proprietários sempre Em 1970, a direção da CONTAG
foram os principais focos das polí- confrontava o Brasil que se indus-
ticas voltadas para o campo. Po- trializava de forma acelerada, com
deríamos recordar momentos da o Brasil que morria de fome e afir-
nossa história, para caracterizar mava que, apesar do crescimento
esse modelo, porém, começare- econômico, não havia desenvol-
mos pelo período ditatorial que su- vimento: ”Desenvolvimento não campo também era feita nos Fóruns
plantou a democracia por 20 anos. quer dizer somente crescimento internacionais que a CONTAG
Durante esse período, o Brasil econômico, mas também, (...) participava. Seja como convidada,
cresceu de forma regionalizada e distribuição de terra e renda, jus- ou como membro, a exemplo das
concentrada. As organizações so- tiça social e ampla participação de Reuniões da Organização Interna-
ciais, amordaçadas pelo regime todos os habitantes de uma nação, cional do Trabalho. Ou mesmo,
ditatorial, pouco podiam fazer incluindo-se os camponeses (...) junto a organizações sindicais
para contestar o modelo. Os traba- desenvolvimento é o crescimento européias e norte-americanas.
lhadores e trabalhadoras rurais, acompanhado de melhora, no A luta por melhoria das
coordenadas pela CONTAG, defen- campo social, educacional e condições de vida das populações
diam a construção de um modelo econômico”. do campo é a razão de existir do
de desenvolvimento includente, Essa análise da realidade do MSTTR. Dar visibilidade e valori-

46 - CONTAG 40 ANOS
história

zar o espaço rural, enquanto local diferenciada para a agricultura trabalhadores e pelas dificuldades
privilegiado de transformação e familiar, por acesso universal à cada vez maiores enfrentadas
implementação de políticas de saúde, previdência e assistência pelos pequenos proprietários.
inclusão social, com profundas social e por uma educação de O relacionamento com outras
repercussões sobre o conjunto da qualidade. organizações da sociedade civil é
sociedade, é o propósito. O congresso da CONTAG, em uma constante na ação política da
Com esse ideal, a CONTAG maio de 1979, denunciou as polí- CONTAG, sempre em apoio às lutas
atravessou os anos da ditadura, ticas agrárias e agrícolas gover- gerais da sociedade. Exemplos são
empunhando a bandeira da demo- namentais, responsáveis pelo os apoios às greves de traba-
cratização do acesso à terra, por agravamento da concentração de lhadores urbanos, abertura política,
garantia de direitos dos assala- terra, aumento de conflitos so- anistia e organização intercate-
riados rurais, por uma política ciais, pela expulsão em massa dos goria, sempre no sentido de

CONTAG 40 ANOS - 47
“A luta por melhoria das condições de vida das populações
do campo é a razão de existir do MSTTR.”

construir caminhos alternativos que a debater e refletir sobre a Praia Grande, São Paulo, em
possibilitassem um novo modelo de construção de uma organização agosto de 1981, realizaram a
desenvolvimento para o país. intercategoria. A CONTAG já havia maior manifestação intercategoria
Vários fatores tornaram a aprovado em congresso a luta pela do Brasil, a 1ª Conclat – Confe-
década de 80, do século XX, um criação de uma entidade que rência Nacional da Classe
marco para o país e, sobretudo, congregasse todos os trabalha- Trabalhadora. Ao final, foi eleita
para o campo. Destaca-se o re- dores brasileiros. uma Comissão encarregada de
torno de exilados políticos, como Os mais de 5 mil dirigentes preparar um Congresso para
Lyndolpho Silva, Gregório Bezerra, sindicais e delegados de base, da criação da Central Única dos
Miguel Arraes, dentre outros. Os cidade e do campo, reunidos em Trabalhadores – CUT.
trabalhadores rurais passaram a
ter direito ao FGTS; ocorreram
manifestações em todos os
estados contra a grilagem; as
entidades sindicais passaram a
enfrentar os latifundiários para
garantir a propriedade da terra.
Buscando construir o enfren-
tamento à violência patronal e
conservadora, que ganhava força
no país, organizações sociais e
sindicais, partidos e militantes de
esquerda, após 17 anos, passaram

5 mil dirigentes e
delegados de base da
cidade e do campo,
realizaram em agosto
de 1981, a maior
manifestação
intercategoria do
Brasil, a 1ª
Conferência Nacional
da Classe
Trabalhadora.

48 - CONTAG 40 ANOS
Comissão Pró-CUT eleita na 1ª Conclat

SÃO PAULO: Arnaldo Gonçalves (Metalúrgicos de (Industrias Urbanas de PE); Jose Alves Siqueira
Santos); Clara Ant (Arquitetos de SP); Edson Barbeiro (Metalúrgicos de Recife); Jose Rodrigues da Silva
Campos (Bancários de SP); Hugo Perez (Federação (FETAPE). SANTA CATARINA: Francisco Alano
das Industrias Urbanas de SP); Jacó Bittar (Petrolei- (Comerciários de SC); Norberto Kortmann
ros de Campinas e Paulínia); Raimundo Rosa de Lima (FETAESC). PARANÁ: Antonio Santana (Construção
(Panificadores de SP); Roberto Toshio Horiguti Civil de Curitiba); Agustinho Bukowski (FETAEP).
(FETAESP); Luis Inácio da Silva (Metalúrgicos de São ESPÍRITO SANTO: Vitor Buaiz (Médicos de ES);
Bernardo do Campo). RIO DE JANEIRO: Ivan Martins Antonio Ângelo Moschen (STR de Colatina). MATO
(Bancário do RJ); João Carlos Santos (Petroquimicos GROSSO DO SUL: Antonio Benjamin Costa (Industrias
de Caxias); Jorge Bittar (Engenheiros do RJ); Urbanas de MS); Pedro Ramalho (FETAG-MS). PARÁ:
Oswaldo Pimentel (Metalúrgicos do RJ); Roberto Venise Nazaré Rodrigues (Professores do Pará);
Chabo (Médicos do RJ); Eraldo Lírio de Azevedo Avelino Ganzer (STR de Santarém). CEARÁ:
(FETAG-RJ). MINAS GERAIS: Guilherme Tell Raimundo Guerreiro (Metalúrgicos de Fortaleza);
(Professores de MG) João Paulo Vasconcelos João Mendes Maia (STR de Morada Nova). RIO
(Metalúrgicos de João Monlevade); João Silveira GRANDE DO NORTE: Horacio Oliveira (Bancários do
(Metalúrgicos de Belo Horizonte); Tilden Santiago RN); Jose Francisco da Silva (FETARN). BRASÍLIA:
(Jornalistas de MG); André Montalvão (FETAEMG). Armando Rollemberg (Federação Nacional dos
RIO GRANDE DO SUL: João Paulo Marques (Vestuário Jornalistas); Jose Francisco da Silva (CONTAG).
de Porto Alegre); Olívio Dutra (Bancários de Porto MATO GROSSO: Edivaldo Jose da Silva (FETAG-MT).
Alegre); Lauro Hagemann (Jornalista de Porto Alegre); GOIÁS: Nelson de Assis Teles (STR de Bela Vista de
Ricardo Baldino e Souza (Construção Civil de Porto Goiás). MARANHÃO: Jacó Alves de Souza (STR de
Alegre); Walter José Irber (STR de Tenente Portela); Poção de Pedras). ALAGOAS: Arlindo Vitalino da Silva
Orgênio Rott (FETAG-RS). BAHIA: Gonçalo Santos (FETAG-AL). SERGIPE: Manoel Julio de Santana
de Melo (Petroleiros da Bahia); Lazaro Bilac (FETASE). ACRE: Manoel Pacifico da Costa
(Eletricitários da Bahia); Jose Gomes Novaes ( STR (Professores do AC). PIAUÍ: Osmar Araújo (FETAG-
de Vitória da Conquista); Aloísio Carneiro (FETAG- PI). PARAÍBA: Álvaro Diniz (FETAG-PB).
BA). PERNAMBUCO: Edvaldo Gomes de Souza (CONTAG, Brasília; O Trabalhador Rural, Nº 12 – ago./set./ 1981)

Apesar da definição coletiva de Bernardo do Campo, colocando-se se afastando pouco a pouco da


realização do congresso para cria- ao lado das demais confederações política implementada pela CGT,
ção da Central, segmentos sin- e entidades sindicais que também permanecendo autônoma até
dicais ligados ao Partido dos ficaram de fora desse processo. 1995. Essa autonomia, não im-
Trabalhadores se anteciparam e A CONTAG e outras entidades pediu que a CONTAG participasse
fundaram, em São Bernardo do sindicais fundaram, posterior- conjuntamente com a CUT de
Campo, a Central Única dos mente, a Central Geral dos diversas manifestações políticas
Trabalhadores – CUT. A CONTAG, Trabalhadores – CGT. Contudo, nacionais. Em 1995, após intenso
mantendo sua prática política de com o passar do tempo, a con- debate interno, a CONTAG se
tentar, por todos os meios, a vivência política na CGT foi fi- filiou à CUT.
manutenção da Unidade Política da cando insustentável e as diver- Em abril de 1986, durante a
classe trabalhadora, não partici- gências afloravam cada vez com posse da direção da CONTAG, José
pou da fundação da CUT em São mais intensidade. A CONTAG foi Francisco afirmou que: “a CGT só

CONTAG 40 ANOS - 49
tem uma razão de ser, e não é
abraçar uma linha de esmaga-
mento da CUT, que é uma entidade
que tem companheiro combativo
(...) Pode haver equívocos
políticos sim, de ambos os lados,
mas que jamais deverão levar à
separação da classe trabalhadora
(...) A CONTAG precisa do apoio
da CGT, precisa do apoio da CUT,
precisa do apoio dos partidos
políticos que querem mudanças
neste país. Nós não podemos nos
pautar nesse ou naquele enten-
dimento separadamente”.
Em toda a sua história, a
CONTAG sempre buscou estabe-
lecer um diálogo entre as deman-
das dos trabalhadores (as) rurais,
com as demandas mais gerais da
classe trabalhadora. Em 1990, o
congresso da CONTAG afirmou
que a Reforma Agrária é o eixo
central para melhorar as condi-
ções de vida no campo e, estra-
tégica para acabar com a fome e
o desemprego no campo e na
cidade. Demonstrando a inter-re-
lação existente entre as demandas
da população do campo e da
cidade.
Durante a Assembléia Nacional Collor, em 1989, houve um em 1995 e aprovado em 1998.
Constituinte, o MSTTR, junto com retrocesso, outro modelo exclu- Começava a ganhar forma, a idéia
outras organizações da sociedade dente e concentrador começava a original do Projeto Alternativo de
civil, interviu de forma qualificada ser implementado no país. No 5º Desenvolvimento Rural Susten-
na perspectiva da construção de CNTR, em novembro de 1991, o tável – PADRS.
um modelo de desenvolvimento MSTTR identificou a necessidade Uma das “ferramentas”
que tivesse na inclusão social e de construir um projeto político utilizadas pelo MSTTR para ga-
política, participação, transparên- que dialogasse com as demandas rantir a construção do PADRS
cia e controle social dos gastos e prioridades do MSTTR, que fosse foram as políticas públicas, com-
públicos, mecanismos considera- alternativo ao neoliberalismo e, preendendo que os Conselhos
dos imprescindíveis para o empo- tivesse no ser humano o centro Municipais, Estaduais e Nacional,
deramento da sociedade civil. das suas ações políticas. Esse são espaços importante para a
Com a eleição de Fernando projeto só viria a ser explicitado elaboração, negociação e imple-

50 - CONTAG 40 ANOS
O questionamento às
políticas neoliberais e
a proposição de
políticas públicas
voltadas para o campo
sempre foram os
principais temas do
Grito da Terra Brasil.

prêmio foi concedido pelo Instituto


Ayrton Senna, em 1999, pela
montagem e gerenciamento da
Rede de Rádios do Sistema
CONTAG de Comunicação em
Defesa dos Direitos das Crianças,
e concorreu com outros brilhantes
projetos de comunicação, desen-
volvidos por todo o país e sobre
diversos segmentos excluídos da
sociedade.
Durante as duas gestões do
Presidente Fernando Henrique
Cardoso (1994/1997 e 1998/
2001), a implantação das políticas
neoliberais no país ganhou
dimensão e velocidade. O acesso
à terra continuou a ser caso de
polícia. A diminuição da presença
do Estado em áreas sociais e
mentação de políticas públicas. quanto espaço de elaboração, produtivas estratégicas foi a
Uma das experiências mar- negociação, execução e gestão de marca desse governo, a exemplo
cantes da atuação da CONTAG e políticas de garantia de direitos do sucateamento da assistência
merecedora de destaque, é a da criança e do adolescente. técnica estatal, do INCRA e das
campanha pela Erradicação do Como reconhecimento desse estruturas da CONAB, etc.
Trabalho Infantil. O processo de trabalho desenvolvido pelo Em maio de 1994, aconteceu o
articulação institucional entre MSTTR, o programa de rádio – A 1º Grito da Terra Brasil – GTB, que
organizações de trabalhadores e VOZ DA CONTAG, que veiculou mobilizou mais 100 mil trabalha-
de empregadores, do governo e diversas matérias e campanhas dores (as) rurais. A mobilização foi
da sociedade organizada no sobre o trabalho infanto-juvenil, organizada pela CONTAG, em
combate ao trabalho infantil, recebeu o Prêmio Ayrton Senna de parceria com o Departamento
representa o ideal de democracia Jornalismo - Categoria Veículo Nacional dos Trabalhadores Rurais
participativa e constitui-se en- Rádio Destaque Nacional. Esse – DNTR/CUT, Movimento dos

CONTAG 40 ANOS - 51
“Desenvolvimento local sustentável baseado
na agricultura familiar.
Construindo um projeto alternativo.”

Trabalhadores Rurais Sem Terra – impulsionou o relacionamento com movendo alterações, também, na
MST, Movimento dos Atingidos por organismos internacionais e foi formação política sindical, que
Barragens – MAB, Conselho Na- quando iniciou a construção de incorporou enquanto ação prio-
cional dos Seringueiros – CSN, uma política estratégica de rela- ritária, o Desenvolvimento Local
Coordenação das Articulações dos ções internacionais. Uma das Sustentável – DLS. O MSTTR pas-
Povos Indígenas – CAPOIB e Movi- primeiras intervenções da sou a visualizar a necessidade de
mento Nacional de Pescadores. As CONTAG foi a representação da criar novos processos de capaci-
principais bandeiras foram: o agricultura familiar brasileira na tação da base, para estabelecer
questionamento às políticas neoli- Coordenadora de Agricultores uma maior e mais qualificada
berais implementadas pelo go- Familiares do MERCOSUL. inserção junto ao poder local e
verno Fernando Henrique Cardoso A partir daí as atividades da promover políticas públicas de
e a proposição de políticas volta- área internacional cresceram. A
das para a população que vive e CONTAG esteve presente nos
trabalha no campo. eventos da Rede Interamericana
Além da mobilização nacional, de Agricultura e Democracia
em Brasília, ocorreram mobiliza- (RIAD); nos seminários oficias do
ções em São Paulo, Mato Grosso MERCOSUL; passou a ser con-
do Sul, Mato Grosso, Minas Ge- vidada pela União Internacional
rais, Sergipe, Maranhão, Rio dos Trabalhadores em Alimenta-
Grande do Sul, Paraná, Santa ção, Agricultura, Hotéis, Restau-
Catarina, Pernambuco, Piauí, rantes e Tabaco -UITA para os
Ceará, Paraíba, Alagoas, Bahia e eventos regionais e internacio-
Espírito Santo, Rio Grande do nais; participou dos eventos da
Norte, Pará, Rondônia, Acre e Coordenação da Comissão de
Tocantins. Essa metodologia de Solidariedade entre os Trabalha-
mobilizar localmente para cons- dores do Açúcar no Mundo –
truir uma pauta Nacional a ser CCSTAM; dos encontros da FAO e
negociada nacionalmente, ganhou da Rede Brasil. Sempre represen-
força ano após ano. tando os interesses dos trabalha-
Nas relações internacionais, dores e trabalhadoras rurais
apesar da CONTAG ser conhecida brasileiros, sejam agricultores
e reconhecida pela sua dimensão (as) familiares – consolidados ou
e capilaridade, foi a partir de assentados, ou assalariados (as)
1991, que começou a se esta- rurais.
belecer prioridades e estratégias A CONTAG processava mudan-
para uma ação articulada interna- ças substanciais na sua atuação
cionalmente. A filiação à CUT política interna e externa, pro-

52 - CONTAG 40 ANOS
desenvolvimento rural susten- ampliando, de forma qualitativa, Sindical, também colaborou nesse
tável. as parcerias do MSTTR nos esta- sentido, construindo um imenso
Nesse sentido, foi desen- dos e municípios. diagnóstico desse Brasil rural.
cadeado um grande processo de Os materiais de apoio pedagó- Esse diagnóstico identificou 26
mobilização e capacitação voltado gico, como cartilhas, cartazes e dinâmicas de desenvolvimento.
para o desenvolvimento local vídeos, ainda hoje são utilizados Em todas as dinâmicas se percebia
sustentável, envolvendo direta e nos processos de capacitação no que as fronteiras “geopolíticas”
indiretamente, mais de 30 mil Brasil e no exterior. O vídeo “De- não explicavam as diferenças.
lideranças e técnicos do MSTTR, senvolvimento Local Sustentável Percebeu-se que uma dinâmica de
em mais de 4,5 mil municípios, Baseado na Agricultura Familiar – uma localidade se produzia e
dentro do Programa de Desenvol- Construindo um Projeto Alter- reproduzia da mesma forma em
vimento Local Sustentável – PDLS. nativo”, por exemplo, foi pre- outra localidade totalmente
Esse programa colaborou para miado como melhor vídeo na 10ª distinta da outra. Esse projeto
incorporar a “cultura” de par- Mostra de Agrovídeos, realizada colaborou para reafirmar os
cerias na ação sindical do MSTTR, em Vila Clara, em Cuba. conceitos e metodologias voltadas
envolvendo inúmeras organiza- A construção do Projeto CUT/ para o desenvolvimento rural
ções não governamentais e CONTAG de Pesquisa e Formação sustentável.

Foi desenvolvido
um grande processo
de mobilização e
capacitação
voltado para o
desenvolvimento
local sustentável.

Quando o 7º congresso aprovou


a construção do Projeto Alterna-
tivo de Desenvolvimento Rural
Sustentável – PADRS, através de
uma ampla e massiva Reforma
Agrária, da expansão, valorização
e fortalecimento da agricultura
familiar e, pela melhoria das
condições de vida e de trabalho
de imensos contingentes de as-
salariados e assalariadas rurais,
aprovava uma proposta que
levava em conta todo um acúmulo
decorrente das mais diversas

CONTAG 40 ANOS - 53
experimentações do MSTTR. fessor José Eli apresentou seus PADRS para o país, Cléia Anice Porto,
Quanto a esse acúmulo, pode- estudos sobre o tamanho desse assessora da CONTAG, afirma que:
mos destacar a integração com Brasil rural, identificando cerca de “a opção de ter a agricultura familiar
organizações de trabalhadores e 4.485 municípios com fortes ca- como base para a construção do
trabalhadoras rurais de outros racterísticas rurais e com uma po- desenvolvimento rural sustentável,
países, do Projeto CUT/CONTAG e pulação estimada em 70 milhões se justifica plenamente pelas con-
da construção e implementação do de pessoas. dições favoráveis que esta dispõe,
PDLS. No entanto, o principal No contexto dessa ruralidade, além de ser a grande fomentadora
acúmulo veio da “escuta” feita a atuação da CONTAG, Federações da interiorização do desenvol-
junto à base, durante a realização e Sindicatos é estratégica, en- vimento, alternativa (...) que cer-
dos cinco grandes Seminário Regio- quanto estimuladores de processos tamente faria desafogar os grandes
nais, que envolveram organizações de desenvolvimento local susten- centros urbanos”.
parceiras e estudiosos da rurali- tável. Estratégica também, para O 7º congresso quando aprovou
dade brasileira e que trouxeram estimular a construção de relações como princípios do PADRS, uma
uma nova concepção de Desen- sociais inovadoras, que incorpo- Ampla e Massiva Reforma Agrária,
volvimento Rural Sustentável. rem a solidariedade e cooperação pela Valorização, Expansão e
Nesses seminários regionais e mútua, em contraposição ao in- Fortalecimento da Agricultura
nos debates posteriores, os pro- dividualismo, uma marca caracte- Familiar, estabeleceu que esses
fessores Ricardo Abramovay e José rística do neoliberalismo. princípios precisariam estar arti-
Eli da Veiga foram imprescindíveis Também no sentido de colaborar culados por políticas transversais
na reflexão e construção de estra- com a reflexão sobre a importância de gênero, geração, raça e etnia
tégias voltadas para o DLS. O Pro- estratégica de um projeto como o e meio-ambiente.

54 - CONTAG 40 ANOS
Outros princípios do PADRS, estabelecidos no 7º Congresso

· Privilegiar o ser humano na sua integralidade, · Não existirá desenvolvimento sustentável, sem
possibilitando a construção da cidadania. educação, saúde, garantias previdenciárias,
· Incluir crescimento econômico, justiça, salários dignos, erradicação do trabalho infantil
participação social e preservação ambiental. e escravo, respeito à autodeterminação dos povos
· As questões econômicas devem estar articuladas indígenas e preservação do meio ambiente.
às questões sociais, culturais, políticas, · A geração de emprego e renda não se resume,
ambientais e às relações sociais de gênero, evidentemente, à expansão e fortalecimento da
geração, raça e etnia. agricultura familiar. Ela inclui a melhoria das
· Não se alcança o desenvolvimento com programas condições de vida de imensos contingentes de
de combate à pobreza, é fundamental criar assalariados agrícolas e a criação de outras
políticas e programas voltados para a distribuição ocupações rurais não-agrícolas no campo.
de renda.

Além desses princípios nortea- Logo, enquanto os Eixos Es- representação, articulação e
dores, que chamaremos de Eixos tratégicos dialogam com as proposição das demandas e
Estratégicos para a implementa- frentes de luta mais gerais do propostas do MSTTR na área
ção do PADRS, esse congresso MSTTR, os Eixos Táticos dialogam internacional.
também afirmou que o PADRS está com as ações políticas cotidianas Quanto às relações institucio-
em permanente construção e que dos trabalhadores e trabalhadoras nais e com a sociedade, em julho
sua implementação acontece no rurais e de suas organizações. de 1999, em São Paulo, a
cotidiano dos trabalhadores e Dentre as deliberações volta- CONTAG, Federações e Sindica-
trabalhadoras rurais e de suas das para o dia-a-dia da ação sin- tos, divulgaram o Projeto Alter-
organizações. dical, destaca-se a importância nativo de Desenvolvimento Rural
Quando trabalhadores (as) estratégica: do meio-ambiente, Sustentável – PADRS. Realizaram
rurais, em sua comunidade, as- da soberania alimentar, da atividades em sindicatos urbanos,
sociação ou cooperativa, no agroecologia, da organização da Universidades e na Assembléia
Sindicato ou Federação, partici- produção, da organização da Legislativa do Estado de São Paulo.
pam ou coordenam processos de Juventude e da Terceira Idade, da Durante Plenária da CUT São
ocupação de terras; informam ou ampliação da democracia interna, Paulo, no mesmo período, foi
coordenam ações voltadas para o e dos esforços no sentido de eleger apresentado aos delegados e
acesso ao crédito; orientam e Luis Inácio Lula da Silva para delegadas, as linhas gerais do
contribuem para o acesso aos be- Presidência da República. PADRS. No mesmo ano, em
nefícios previdenciários; estimu- As relações internacionais, Brasília, a direção da CONTAG
lam, participam ou coordenam estabelecidas a partir da CONTAG, recepcionou parlamentares em sua
ações de organização das mu- também fizeram parte das preocu- sede para apresentar o PADRS.
lheres, jovens ou terceira idade, pações centrais no 7º congresso. Sempre com olhar voltado para
estão implementando o PADRS. Foi aprovada a filiação da CONTAG o Desenvolvimento Rural Susten-
Essas ações concretas e cotidianas à UITA. A vice-presidência da tável, a CONTAG realizou dois
são chamadas de Eixos Táticos. CONTAG assumiu a tarefa de Salões da Agricultura Familiar com

CONTAG 40 ANOS - 55
o propósito de chamar a atenção daram os seguintes temas:
para o papel transformador da
agricultura familiar nos processos · O I Fórum foi realizado em
de Desenvolvimento Rural Susten- Brasília/DF, em agosto de
tável. Esses ‘eventos adotaram a 1999, sobre Desenvolvi-
mesma metodologia voltada para mento Rural Sustentável.
a difusão de conceitos, tecnolo- · O II Fórum foi realizado em
gias e práticas voltadas para o São Luis/MA, em dezembro
desenvolvimento. O primeiro de 1999, sobre Processos de
Salão ocorreu no Rio Grande do Organização de Base, Educa-
Norte, e o segundo em Salvador. ção, Gestão Participativa e
Os eventos conjugaram es- Políticas Publicas.
paços de apresentação de expe- · O III Fórum foi realizado em
riências exitosas e apresentação Porto Alegre/RS, em Julho de
de tecnologias alternativas. 2000, sobre Instrumentos de
Painéis foram apresentados por Gestão Participativa, Siste-
estudiosos e organizações par- mas de Gestão para Susten-
ceiras, e realizaram oficinas sobre tabilidade da Agricultura
as principais temáticas do MSTTR. Familiar e Estratégias de
Estima-se que mais de 4 mil diri- Gestão para a Inserção da
gentes, técnicos e trabalhadores Agricultura Familiar no
de base passaram por todas as MERCOSUL.
atividades desenvolvidas nos dois · O IV Fórum foi realizado em
salões e também receberam um Recife/PE, em novembro de
grande número de visitantes. 2000, sobre a importância
Buscando aprofundar o debate estratégica da Educação do
sobre as questões centrais do Campo para o Desenvolvi-
PADRS, inclusive conceitual, a mento Rural Sustentável. Buscando
CONTAG constituiu espaços de re- aprofundar o
flexão, aprofundamento e inte- debate sobre as
questões centrais do
gração entre o MSTTR, agências A CONTAG, levando à prática
PADRS a CONTAG
de cooperação internacional, um dos princípios do PADRS, de ampliou sua
ONGs, Universidades e organiza- entendê-lo enquanto um projeto participação junto
ções governamentais. Esses construído cotidianamente, per- as organizações
internacionais
espaços, denominados de Fóruns cebeu que ainda faltava “engatar
CONTAG de Cooperação Técnica, um importante vagão”, de forma
em parceria com BIRD, IICA, FAO mais qualificada, nesse ‘trem’ do
e PNUD, deram maior visibilidade Desenvolvimento Rural Susten-
ao projeto político do MSTTR e tável, os assalariados e assala-
permitiram que suas formulações riadas rurais. entre o capital e o trabalho esta-
se firmassem enquanto referên- Esse exercício contribuiu para belecidas no campo. Além de ser
cias no debate nacional e conti- que os aspectos econômicos e pro- impossível falar em desenvol-
nental sobre desenvolvimento dutivos da agricultura familiar não vimento rural sustentável sem
rural sustentável. Os fóruns abor- se sobrepusessem às relações levar em consideração os 5 milhões

56 - CONTAG 40 ANOS
de assalariados e assalariadas
rurais, que constituem a parte Essa proposta é estratégica também para os trabalhadores e tra-
mais explorada e marginalizada da balhadoras assalariadas rurais quando promove:
categoria trabalhadora rural.
O MSTTR, ao elaborar o Projeto  criação de novos postos de trabalho;
Alternativo de Desenvolvimento  redução do desemprego, no incremento de atividades não-
Rural Sustentável, teve por base agrícolas;
a realização da reforma agrária  melhoria das condições de trabalho e vida e aumento da renda,
como meio de ampliar e fortalecer fundamentais para este setor que ainda enfrenta graves
a agricultura familiar, com con- problemas como a ausência de novas oportunidades de trabalho
seqüência na geração e ampliação e emprego;
de postos de trabalho e de renda  combate a crescente informalidade e precariedade das relações
no campo. de trabalho no campo.

CONTAG 40 ANOS - 57
A implementação efetiva do de trabalhadores do mercado de
PADRS favorece, portanto, a de- trabalho.
mocratização das relações de O desafio para a CONTAG na
trabalho, qualidade de emprego e atualidade é aglutinar as orga-
vida e garantia de direitos traba- nizações representativas dos in-
lhistas e previdenciários, sobre- teresses de trabalhadores e tra-
tudo pela geração de emprego e balhadoras rurais existentes – assa-
ocupações produtivas no campo. lariados (as), sem terra, agricultores
No assalariamento rural as (as) familiares, quilombolas, dentre
transformações foram grandes, outras especificidades, em torno
entretanto, do ponto de vista das dos princípios do PADRS. Enten-
relações sociais e da estrutura dendo esse projeto como parte de
agrária foram marginais. Para a um projeto de sociedade, que seja
CONTAG, é fundamental que se justa, democrática, igualitária,
busque formas que impeçam a equânime, solidária e ambiental-
exclusão de grandes contingentes mente sustentável.
“Nessas quatro décadas de
existência, a CONTAG sempre
lutou por bandeiras amplas e
A contag nestes 40 anos de história foi uma das entidades
necessárias ao desenvolvi-
que liderou e construiu propostas para as mudanças sociais e
mento do país. Na luta pela
econômicas deste país, buscando a melhoria de condições de
redemocratização do país,
vida da população brasileira. Principalmente na defesa dos
pelo impeachment de Collor,
interesses dos trabalhadores e trabalhadoras
pela implementação de polí-
rurais brasileiros.
ticas públicas para o campo,
Logo após sua fundação sofreu intervenção em
pela implementação de um
conseqüência do golpe militar de 1964, somente
Projeto Alternativo de Desen-
retomando suas lutas em 1968. Neste período inicia-
volvimento Rural Sustentável.
se uma luta pela Reforma Agrária, Organização dos
Essa missão, continua pre-
Assalariados e Assalariadas Rurais e posteriormente
sente no dia a dia da CONTAG,
a organização dos Agricultores e Agricultoras
consolidando cada vez mais a
Familiares.
maior organização sindical de
A Contag por ser uma entidade que investe na
trabalhadores e trabalhadoras
sua estrutura, organização interna e de suas
rurais da América Latina”.
lideranças é uma referencia nacional para o
movimento sindical. Através de suas ações e mobilizações, que
Natal Ribeiro Maciel
é um marco no nosso pais e tem conquistado políticas de
Secretário de Políticas
A luta continua e esta entidade vem se adaptando as
Agrícolas
mudanças conjunturais que sofre o nosso país, modernizando
sua estrutura e procurando desenvolver propostas políticas que
atendam as necessidades e demandas da base na busca de uma
melhor qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras
rurais do Brasil.
Hilário Gottselig - Secretário Geral

58 - CONTAG 40 ANOS
história

Contag e a justiça e seus cidadãos. Para nós, da


Central Única dos Trabalhadores,
social no País é motivo de orgulho ter a Confe-
deração como uma de nossas filia-
Luiz Marinho - Presidente Nacional da CUT das e principal colaboradora para
a organização dos trabalhadores
inegável a importância de propostas concretas para o de- no campo. E é desta luta incan-

É dos trabalhadores rurais


para o desenvolvimento
econômico e social do
País. Mais importante ainda é
senvolvimento agrário, que pode
trazer, por conseqüência, o desen-
volvimento de pequenas e médias
cidades do Brasil.
sável que o movimento sindical
precisa para, junto com outros se-
tores sérios da sociedade, poder-
mos conquistar a dignidade daque-
organizá-los para que tenham Ou seja, nestas quatro décadas, les que fazem o País.
condições de lutar contra as a Contag tem demonstrado serie- Parabéns Contag! Parabéns, com-
injustiças e a exploração que per- dade e compromisso com o Brasil panheiros e companheiras rurais!
meiam o trabalho no campo (até
muito mais do que no trabalho
urbano). E é aqui que a Confe- Nesses 40 anos de historia e lutas, a CONTAG estimulou
deração Nacional dos Trabalha- permanentemente a visibilidade política e econômica dos
dores na Agricultura, a Contag, trabalhadores e trabalhadoras rurais. Hoje, esse segmento
assume papel fundamental. representa um dos setores mais dinâmicos da economia e da
Nestes 40 anos de existência, política sindical brasileira.
a Contag vem exercendo uma Mas, entendo que uma das ações mais
ação efetiva na organização dos importantes para consolidar a CONTAG
trabalhadores rurais e seus sin- enquanto essa entidade plural e diversa, foi a
dicatos de base, sendo a principal ampliação da participação das mulheres.
referência de representação da Podemos afirmar que historia dessa organização
categoria. Os números por si só tem dois momentos distintos, antes e depois
comprovam: hoje ela congrega das mulheres conquistarem seu espaço político.
4.100 sindicatos, 27 federações e Essa participação qualitativa e quantitativa,
nada menos que 25 milhões de potencializou ainda mais as ações do MSTTR. a
trabalhadores. exemplo da Marcha das Margaridas e as muitas
A entidade tem sido decisiva na vitórias das lutas das mulheres, como o acesso
luta pelos direitos dos trabalhadores ao PRONAF-Mulher e a titulação da terra em
rurais, pelo efetivo reconhecimento conjunto com o marido.
de seu direito de organização Isso não quer dizer, que os problemas de participação das
sindical – cotidianamente atacado mulheres na sociedade e no MSTTR acabaram. Mas, com
diante da perseguição às lideranças certeza elas não estão sós nessa luta, pois conta com o apoio
de base que, em inúmeros casos, e estimulo da maior organização sindical de trabalhadores e
terminam em brutais assassinatos trabalhadoras rurais da América Latina – a CONTAG
–, e pela reforma agrária, tão ne-
Raimunda Celestina de Mascena – Coordenadora Nacional das
cessária para que de fato a justiça
Mulheres Trabalhadoras Rurais.
social exista em nosso País. Além
disso, está à frente da formulação

CONTAG 40 ANOS - 59
CONTAG defende a democratização
do uso de terra desde sua fundação
mudar o perfil agrário brasileiro.
Os materiais de formação,
publicados na revista O Trabalha-
dor Rural, desde os anos 60, sem-
pre enfatizaram a necessidade de
que a pose da terra estivesse asso-
ciada a uma formação educacional
formal e profissional, aos direitos
e deveres de regime da previdên-
cia social pública e ao crédito agrí-
cola diferenciado. A CONTAG es-
clarecia ainda, que a luta pela
reforma agrária exigia um traba-
lho de conscientização junto aos
trabalhadores e suas organizações,
para uma melhor compreensão da
Uma breve releitura a respeito latifúndios, em sua maior parte, real situação dos sem-terra.
do modelo agrário implementado improdutiva ou destinada à cria-
no Brasil demonstra que a opção ção de gado. A maior parte dessa Dados do Instituto Brasileiro
dos sucessivos governos foi pelo terra cultivável, 46%, está nas de Reforma Agrária – IBRA/
econômico com ênfase na preser- mãos de 1% dos proprietários 1969
vação do latifúndio e exploração rurais e, aproximadamente 85%,  Enquanto 1.200.663 minifún-
da monocultura. Os aspectos so- não produzem um quilo de trigo dios ocupam 5.568.000 hecta-
cioambientais e culturais sempre ou uma saca de feijão. res (1,8% da área total cadas-
foram desconsiderados, o que Nesses 40 anos de existência, trada), 27 latifúndios ocupam
resultou em exclusão social, a CONTAG sempre colocou em sua área praticamente igual, 1.7%
concentração de renda, degrada- pauta o debate sobre a questão da área cadastrada.
ção do meio ambiente e cresci- fundiária. Mesmo porque, a pró-  O número de famílias sem-
mento da violência no campo. pria construção da CONTAG se terra era de 7,3 milhões,
Levantamentos oficiais sobre confunde com a história da refor- sendo distribuído da seguinte
a estrutura agrária brasileira não ma agrária no Brasil. Ainda que de forma: 1,4 milhões assala-
desmentem essa opção excludente forma pouco explícita, os traba- riados permanentes; 3,9 mi-
e perversa que trouxe conseqüên- lhadores e trabalhadoras rurais, lhões assalariados temporá-
cias ambientais e sociais malé- nas décadas de 60 e 70 do século rios e 2 milhões de posseiros,
ficas para o país. O Brasil dispõe passado, já apontava a necessi- meeiros, etc.
de aproximadamente 600 milhões dade de conjugar a reforma
de hectares aptos para agricul- agrária, com o acesso à educação, Ainda que de maneira tímida
tura. No entanto, 250 milhões são previdência, saúde e moradia, ou preventiva, devido ao regime
áreas ociosas e 285 milhões são como um caminho viável para ditatorial imposto à população

60 - CONTAG 40 ANOS
brasileira, em 1973, a revista da No discurso de abertura do con- É claro que esse enfrenta-
CONTAG declarou: “Não pode o gresso da CONTAG, em maio de mento da CONTAG, em seus
cumprimento das normas prote- 1979, José Francisco, declarou discursos e impressos institucio-
cionistas do trabalho depender que: “a partir de 1968, a opção nais, recebia o respaldo de seus
exclusivamente da atuação governamental de estímulo à filiados. Somente no primeiro tri-
sindical. (...) Não deve a terra ser exportação de produtos primários mestre de 1979, oito Federações
propriedade de poucos, quando reforçou o poder econômico dos organizaram trabalhadores sem-
muitos nela trabalham e quando latifúndios. A desproporção dos terra para resistir a ações de
todos dela dependem (...) rei- créditos concedidos a produções despejo. Agricultores familiares
vindicamos do Governo a execução como a soja, o cacau, a cana e o iniciaram mobilizações demons-
da Reforma Agrária, que se café, em comparação com os pro- trando que a política agrícola do
constitui um imperativo da polí- dutos básicos para alimentação, Governo era perversa com os
tica sócio-econômica Nacional”. como milho, feijão e mandioca”, pequenos produtores e, em di-
Foi também nesse período que a era gritante. Além disso, esclare- versos estados, as federações
CONTAG começou a falar de uma ceu o presidente: “independente realizavam reuniões com empre-
política de crédito fundiário. do destino da produção, o crédito gadores rurais para negociar
Reivindicava a instituição do cré- rural tem ido para quem dele melhores salários e condições de
dito para trabalhadores rurais com menos precisa”. vida aos assalariados rurais. Atrás
pouca terra ou sem terra, sem da CONTAG existiam aproximada-
limite de idade, com prazo máxi- Dados oficiais de 1970 a mente seis milhões de trabalha-
mo de 20 anos para pagamento. 1975: dores rurais.
É de se perguntar quantas  As propriedades com menos À época, a CONTAG informava
organizações de trabalhadores de 50 hectares perderam em seu periódico: “os poderosos
ousaram tanto nesse período e quase 900.000 hectares, já temem a nossa força. O Movi-
conseguiram sobreviver. Ardilo- enquanto que aquelas com mento Sindical de Trabalhadores
samente a direção da CONTAG área maior de 1.000 hectares Rurais está crescendo e se forta-
dava o recado ao explicar que a incorporaram mais de 20 lecendo dia-a-dia. A nossa força,
intenção das reivindicações da milhões de hectares de terra. hoje, já é uma realidade que não
categoria era pleitear condições  Em 1970, eram 11,5 milhões pode ser negada (...) provas disso
de trabalho mais compatível com de famílias trabalhadoras, são as recentes vitórias obtidas
a dignidade humana e, assim, sendo que apenas 2,5 milhões por trabalhadores no Norte, com
fazer o trabalhador rural contribuir tinham acesso à propriedade desapropriações de áreas em
e participar da riqueza nacional. da terra, ainda que em conflito; do Sul, com a queda dos
Que governo ou censura poderia quantidade insuficiente. Já o impostos que prejudicam os
se opor a um texto em que os latifúndio, representando pequenos produtores; do centro e
trabalhadores declaravam que aproximadamente 20% dos do Nordeste, com conquistas que
queriam melhores condições de imóveis rurais, controlava melhoram as condições de vida e
vida para contribuir com o 80% das terras do país. trabalho dos assalariados do
progresso da nação? campo”.

“Independente do destino da produção, o crédito rural


tem ido para quem dele menos precisa”.

CONTAG 40 ANOS - 61
O lado ruim desse avanço da lideranças e, também, o cresci- claro que não haveria solução
organização foi o crescimento da mento da tenacidade dos tra- duradoura para tantos conflitos,
violência e do terror contra balhadores rurais para continuar caso não houvesse “uma verda-
lideranças sindicais para intimidar as lutas dos companheiros mortos. deira redistribuição da proprie-
o Movimento Sindical de Traba- A CONTAG declarou: “O nosso dade, da renda e do poder no meio
lhadores Rurais. Apesar de ter Movimento Sindical sente-se rural, através de um Reforma
contra si o aparato policial re- fortalecido para reafirmar sua Agrária ampla, massiva, imediata
pressivo; a ação de jagunços disposição de prosseguir na luta, e com participação dos traba-
pagos por grileiros; a morosidade sem se deixar intimidar, honrando lhadores“. A abertura política no
da Justiça e a total omissão do o exemplo dado pelos compa- início da década de 80, do século
poder público, o MSTTR não se nheiros assassinados”. XX, naturalmente produziu
intimidou. O resultado foi o cres- A CONTAG denunciava a transformações nas lutas contra o
cimento de assassinatos de omissão do governo e deixava modelo agrário brasileiro e

62 - CONTAG 40 ANOS
cadeada em vários estados, com toral, até a vontade política de
passeatas e atos públicos en- implementar o PNRA.
volvendo milhares de pessoas. A Os latifundiários se organiza-
O Plano Nacional de ampliação das manifestações ram e foram para o enfrentamento
Reforma Agrária foi
apresentado pelo
populares provocou uma reação do Plano Nacional de Reforma
Governo Federal durante infeliz do governo militar, que Agrária, sob a coordenação da
o 4º Congresso. Contando tratou com violência os manifes- União Democrática Ruralista –
com a presença do
tantes e suas organizações. UDR, essa oligarquia defendia
Presidente da República,
José Sarney. Durante o 4º congresso, em abertamente o uso da violência e
1985, a reforma agrária deu o tom da força armada contra a execu-
do evento e contou com a ção da reforma agrária.
presença de vários Ministros e, do Com o descaso do Estado bra-
também obrigou o Governo pensar Presidente da República José sileiro, a violência no campo cres-
em mudanças nas políticas para Sarney. Os delegados (as) levaram cia e a UDR utilizava métodos
área rural. panelas furadas à bala, como fraudulentos para impedir a
Em 1982, o Governo apresen- forma de denunciar a violência desapropriação de propriedades
tou o Programa Nacional de Política sofrida no campo. ocupando áreas, até então im-
Fundiária conduzido pelo então O Ministro da Reforma e Desen- produtivas, com gado. Aborra-
criado Ministério Extraordinário volvimento Agrário, Nelson Ribeiro, tavam o MIRAD com pedidos de
para Assuntos Fundiários. Para a anunciou que esperava a revisão de atos desapropriatórios,
CONTAG se tratava de mais uma participação dos trabalhadores para alegando falta de vistoria do
medida burocrática, portanto efetivar o Plano Nacional de Reforma INCRA. Tudo isso, buscando des-
inócua para efetivar uma legítima Agrária. A meta do Plano era moralizar o PNRA e o próprio
reforma agrária no país. A CONTAG assentar 7,1 milhões de famílias de INCRA, que tinha à frente José
garantiu que continuaria lutando, acordo com critérios definidos pelos Gomes. Mais uma vez, o Governo
reivindicando e cobrando a trabalhadores e previa fórmulas Federal recuou diante da pressão
imediata decisão do 3º Congresso diferenciadas para atender a das forças reacionárias que até
Nacional de Trabalhadores Rurais. realidade de cada região. hoje dominam a área rural.
A CONTAG, IBASE, ABRA, CIMI, As lideranças sindicais não Passados os cincos do governo
CNBB e CPT lançam a campanha chegaram a um consenso sobre de José Sarney, o MIRAD teve cinco
nacional pela reforma Agrária. apoiar ou não o PNRA, enquanto a ministros e as desapropriações
Diversos segmentos da sociedade, maioria das lideranças entendeu realizadas no período foram exclu-
principalmente representantes de que as intenções desse governo de sivamente para “apagar incên-
organizações urbanas, prestigiaram transição deveriam ser levadas em dios”. Os poucos assentamentos
o lançamento da campanha e conta pelos delegados (as), outras realizados eram desmoralizados
começaram a buscar informações lideranças questionavam desde a porque os trabalhadores não
para compreender o modelo agrário legitimidade da eleição presiden- recebiam assistência técnica,
brasileiro. A campanha foi desen- cial, feita através de Colégio Elei- recursos e infra-estrutura.

“A ampliação das manifestações populares provocou uma


reação infeliz do governo militar, que tratou com violência
os manifestantes e suas organizações”.

CONTAG 40 ANOS - 63
O alarde em cima do Plano e assinaturas, foi entregue no Con- mãos de poucos, a posse da terra.
posterior recuo do Governo pro- gresso Nacional em uma grande Pronta a nova Constituição,
moveu o crescimento da violência manifestação popular. depois de 20 meses de mobilização
e assassinatos. Levantamento Apesar dessa atuação corajosa de massa, a CONTAG declarava:
realizado pela CONTAG e Fede- e permanente dos trabalhadores ”Se, por um lado, o trabalhador
rações contabilizou que entre 1985 rurais, e do apoio de parlamenta- obteve algumas vitórias, o texto
e 1989, 210 pessoas foram assas- res progressistas, a correlação de referente à reforma agrária é a
sinadas, sendo 17 líderes e cinco forças era desigual. Os parlamen- parte mais dura, mais antidemo-
advogados sindicais. tares da velha oligarquia rural crática da nova Constituição.
Diante do recuo do Governo, o conseguiram derrubar a proposta Perdeu o Brasil a oportunidade de
visível fracasso do Plano Nacional de emenda à constituição que superar um de seus maiores e mais
de Reforma Agrária e o pacote implantava a reforma agrária graves problemas”. Essa derrota
econômico que agravou a situação almejada pelo MSTR, ignorando a não significou recuo, mas sim
dos trabalhadores, a CONTAG vontade popular e mantendo a acirramento na luta pela reforma
intensificou as lutas, principal- expressão de poder do país nas Agrária.
mente pela Reforma Agrária.
Com a proximidade das elei-
ções dos parlamentares que
seriam os constituintes, a CONTAG
preparou suas bases para lutar pela
Reforma Agrária na Assembléia
Nacional Constituinte. “A Consti-
tuinte, por si só, não representa
solução para as graves distorções
nacionais, mas os trabalhadores,
os setores mais progressistas da
sociedade precisam nela estar
representados, como forma de
neutralizar a atuação da direita na
Constituinte, assegurando o ne-
cessário espaço ao avanço das
lutas dos trabalhadores”.
Eleitos os Constituintes, o
MSTR iniciou o lobby. Uma das
primeiras ações foi ocupar espa-
ços da Câmara dos Deputados em
repúdio às tentativas da União
Democrática Ruralista – UDR, de
ocupar cargos de Presidente, Vice-
presidente e Relator da Subcomis-
são de Política Agrícola, Fundiária
e Reforma Agrária. A Emenda
Popular a favor da Reforma Agrá-
ria, com mais de 1 milhão de

64 - CONTAG 40 ANOS
Depois de debates com as O MIRAD foi extinto e Fer- peito da Lei Complementar nº 76,
bases, em 1989, a CONTAG elabo- nando Collor assumiu a Presi- de 06 de julho de 1993. Essa lei
ra o anteprojeto de lei ordinária dência da República, demons- dispõe sobre o Rito Sumário, que
da reforma agrária. A mesma trando que reforma agrária, trata da desapropriação de imóvel
proposta foi apresentada na aber- conforme estabelecia a Constitui- rural por interesse social, para
tura dos trabalhados do Congresso ção, não era sua meta. A atitude fins de reforma agrária.
Nacional, em 1990, pelo então do governo em relação à reforma Entretanto, os últimos dez
senador Fernando Henrique agrária apenas reforçou a luta dos anos de debate e atuação da
Cardoso. O jornal O Trabalhador trabalhadores rurais. Também CONTAG foram especiais para a
Rural divulgou: “o projeto da existia uma pressão forte no construção de um Projeto de
CONTAG, endossado pelo senador Congresso Nacional para que o Desenvolvimento Rural Susten-
Fernando Henrique, define pro- projeto da Lei Agrária fosse vota- tável. Com uma postura política
priedade produtiva vinculando-a do, pois estava paralisada desde de independência em relação aos
ao cumprimento de sua função 1989. Foi um grande embate entre governos, ampliando o reconheci-
social”. MSTR e bancada ruralista a res- mento estratégico da reforma
agrária no desenvolvimento rural
sustentável e compreendendo-a
como elemento fundamental para
promover a ampliação, valorização
e o fortalecimento da agricultura
familiar. Projetos de assentamento
têm gerado postos de trabalho em
atividades agrícolas e não agrí-
colas, além de possibilitar o aces-
so à terra e ao crédito a famílias
até então, desprovidas dos direi-
tos básicos dos cidadãos brasi-
leiros.
Também foi nessa última déca-
da que a sociedade tomou conhe-
cimento de dois massacres que
trouxeram à tona uma prática
comum no meio rural. Foram os
conflitos agrários que resultaram
em 40 trabalhadores rurais sem
terra assassinados, nos municípios
de Corumbiara/RO e Eldorado dos
Carajás/PA. Em Corumbiara, a
ordem de despejo, determinada
pela Justiça, foi motivo para
polícia de Rondônia assassinar 19
trabalhadores rurais sem-terra,
eram 187 policiais militares forte-
mente armados contra 500 sem-

CONTAG 40 ANOS - 65
“...eram 187 policiais militares fortemente
armados contra 500 sem-terra.”

terra. Em Eldorado dos Carajás, mentos de criminalização da luta sem nas áreas de conflito.
foram 21 trabalhadores rurais pela reforma agrária, como a Me- Com a eleição de Luis Inácio
sem-terra assassinados, em dida Provisória 2.183 e as Porta- Lula da Silva, à Presidência da
confronto com 155 policiais rias que a sucederam, deram às República, processo eleitoral que
fortemente armados. polícias, ao judiciário e ao INCRA, contou com um massivo empenho
Esses dois episódios violentos mais poder para reprimir a luta e da CONTAG, Federações e Sindi-
na luta pela terra forçaram o Go- impedir avanços nas desapropria- catos de Trabalhadores e Trabalha-
verno a anunciar propostas que ções. Mesmo com a criação do doras Rurais, a CONTAG participou
apontassem soluções para a vio- MDA, a repressão e agressões a ativamente na elaboração de pro-
lência no campo. Uma das inicia- trabalhadores e trabalhadoras postas de governo e influenciou na
tivas foi a criação do Ministério rurais não impediram que a formação da equipe que seria
do Desenvolvimento Agrário - MDA violência e impunidade continuas- gestora da reforma agrária do
Documento elaborado pela
Secretaria de Política Agrária e
Meio Ambiente da CONTAG,
esclareceu o que significaram para
o MSTTR as propostas do governo:
“a criação do Ministério do
Desenvolvimento Agrário – MDA,
apesar de ter sido apresentado
como um instrumento institucio-
nal capaz de dar o tratamento
adequado à reforma agrária, não
foi articulado à adoção de medidas
que pudessem atribuir àquele
órgão, um papel de destaque fren-
te às outras políticas governa-
mentais em curso. Buscando
desincumbir-se da pressão social
pela reforma agrária, sem ter que
redirecionar suas prioridades
orientadas pelo modelo neoliberal,
o governo FHC investiu mais em
propaganda do que em ações
eficazes no tratamento a esta
dívida social”.
No período do governo de Fer-
nando Henrique Cardoso instru-

66 - CONTAG 40 ANOS
governo de Lula. diversas ações em busca da da Reforma Agrária, esse último,
O documento da Secretaria reforma agrária almejada pelo funcionando ainda hoje com a
também destacou a herança rece- MSTTR, desde a aliança com participação de Federações e
bida pelo atual governo, enquanto outros movimentos sociais, como coordenação nacional da CONTAG.
legado do governo Fernando a participação no Fórum Nacional A CONTAG também estimulou,
Henrique Cardoso: ”Uma enorme de Reforma Agrária - criado em em todos os estados, a luta pela
demanda por desapropriações, um 1995 para articular ações defen- terra, seja fomentando acampa-
grande passivo nos assentamentos didas pelas entidades e movimen- mentos ou qualificando as orga-
e uma situação de violência e tos que lutam pela reforma agrá- nizações associativas nos assen-
impunidade no campo. O governo ria, - até ações de massa, como tamentos. Quando se fez neces-
passado deixou ainda um irrisório os Gritos da Terra e o acampa- sário, a CONTAG também estimu-
orçamento, um arcabouço de me- mento nos canteiros do Ministério lou ações mais drásticas, como a
didas legais restritivas e um qua- da Fazenda, realizado em 2003. ocupação de prédios públicos para
dro administrativo insuficiente e Nesses dez anos, a CONTAG garantir que os interesses dos tra-
mal distribuído entre as superin- participou ativamente na constru- balhadores e trabalhadoras rurais
tendências do INCRA”. ção de instrumentos que qualifi- sem-terra fossem considerados
Com o propósito de viabilizar caram as ações de Reforma Agrá- pelo governo federal. A ação das
o PADRS, a CONTAG desenvolve ria. A exemplo do Projeto Lumiar, Federações e Sindicatos também
voltado para a viabiliza- foi imprescindível, pois avança-
ção dos assentamentos ram na organização e coordenação
enquanto unidades pro- de ocupações de terra, de órgãos
dutivas estruturadas e públicos e de acampamentos, nos
voltadas para as deman- seus estados.
das identificadas pela Outra ação importante foi a
própria comunidade; do atuação da CONTAG na criação do
Programa de Crédito projeto de Crédito Fundiário,
Especial para Reforma como ação complementar à refor-
Agrária – PROCERA, que ma agrária. O projeto visa atender
através créditos espe- à demanda pela aquisição de áreas
cíficos para assenta- não passíveis de desapropriação,
mentos rurais, objetiva- tem por princípios a transparência
vam uma inserção au- e ampla participação das organi-
tônoma no mercado, e, zações na gestão do programa e o
assim, permitiram a sua respeito às particularidades regio-
independência da tutela nais. Nesses 40 anos o debate
do governo, com titu- sobre a reforma agrária amadure-
lação definitiva. Ou ceu. Os dirigentes aprenderam
ainda, o Programa Na- com erros, reflexões e debates,
cional de Educação na sabem exatamente em que con-
Reforma Agrária – texto a reforma agrária deve ser
PRONERA, um programa executada e é com essa compre-
de educação de traba- ensão que persistem em suas
lhadores rurais em Pro- propostas apresentadas à socie-
jetos de Assentamento dade e governos.

CONTAG 40 ANOS - 67
Para compreender essa historia de 40 combater os avanços da
anos da CONTAG, se faz necessário CONTAG.
percebermos três períodos distintos Quando decidimos que
na historia do nosso país. independente de qualquer que
Durante a ditadura militar, a seja o governo, nos tínhamos
CONTAG foi a única entidade que mobilizar, reivindicar,
sindical que teve uma postura pressionar e negociar e, se
equilibrada, enfrentando o regime necessário, radicalizar. Somos a
militar a partir de propostas única entidade sindical, que tem
concretas que possibilitavam o essa determinação de forma
avanço e conquistas importantes para a classe programática. Nesse sentido, a filiação à CUT
trabalhadora rural. foi importante para que esse projeto para o campo
Durante a construção da Constituição de 1988, dialogasse com as demandas urbanas.
devido ao acumulo de discussões anteriores, a Por isso, ainda hoje, colhemos os frutos
CONTAG foi uma das entidades que mais mobilizou plantados desde a fundação e consolidação da
em todo o periodo. Foi tão forte que nossos CONTAG.
adversários criaram a UDR, sobretudo para
Guilherme Pedro Neto - Secretário de Assalariados

O MSTTR sempre foi uma escola para a classe Sem perder de vista a necessidade de estabe-
trabalhadora rural. A CONTAG, nesse sentido é uma lecer parcerias com outras organizações, a
Universidade que a grande maioria dos dirigentes CONTAG vem construído coletivamente, políticas
sindicais não puderam cursar.Por isso temos muito publicas de grande impacto na base, a exemplo
orgulho de participado e ajudado nessa construção das Diretrizes Operacionais para a Educação
coletiva de 40 anos. Básica das Escolas do Campo.
A luta da CONTAG deu um salto qualitativo ainda Mais a maior mudança que a CONTAG propõe,
maior, quando começou a construção de um projeto está na forma de fazer política sindical. Cons-
político a partir da base, o Projeto Alternativo de truindo um sindicalismo classista, democrático
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS. e participativo para todos trabalhadores e tra-
A partir daí, a luta deixou de ter balhadoras rurais. Construindo
um caráter apenas reivindicatório, um sindicalismo independente,
passando a ser propositivo em áreas autônomo e ao mesmo tempo
como educação, saúde, meio ambi- comprometido com as propostas
ente, previdência, dentre outras. A coerentes apresentadas por
intervenção qualificada da CONTAG governos Federal, Estadual ou
nessas áreas, chamou a atenção de municipal.
ONGs, Universidades e até de seto-
Maria de Fátima Rodrigues da
res dos Governos Federal e Estadual.
Silva – Secretaria de Políticas Sociais

68 - CONTAG 40 ANOS
Agricultura familiar dinamiza
processos de desenvolvimento local
sustentável no interior do país
A agricultura familiar é uma das melhores
possibilidades para o Brasil. Responde pela maior
parte do abastecimento interno de alimentos, gera
mais postos de trabalho que a agricultura ou pecuária
em grande escala. Hoje a agricultura familiar
emprega 7 de cada 10 empregados do campo, 77%
da mão-de-obra rural. O mais importante é que, além
de abastecer o mercado interno, são os agricultores
familiares que dinamizam a vida socioeconômica dos
pequenos municípios brasileiros.
Para CONTAG nada mais justo que se estabeleçam
políticas públicas e legislação específica para ga-
rantir o desenvolvimento da agricultura familiar,
tornando-a mais produtiva e competitiva. A compre-
ensão da necessidade do estabelecimento de políticas
e legislação específicas se justifica pelas peculia-
ridades da agricultura familiar. Não é possível man-
ter tratamento igual ao da produção em grande
escala. O MSTTR reconhece que nos últimos 10 anos
houve avanços, principalmente na área de financia-
mento diferenciado ao agricultor familiar, mas é
preciso muito mais. Para compreender como o MSTTR
conquistou políticas específicas para agricultura
familiar é preciso conhecer a jornada de lutas dos
trabalhadores rurais ao longo desses 40 anos.
Reforma agrária e agricultura familiar se fundem
em diversos momentos da história da CONTAG. Histo-
ricamente e ainda hoje, produtores de pequenas pro-
priedades tornaram-se sem terra, pois não tinham
assistência, crédito diferenciado, dependendo do atra-
vessador para escoar a produção, além da ausência de
uma política de preços mínimos para os produtos rurais.
A soma dessas dificuldades levou muitas famílias rurais
a perderem suas terras e engordarem os números do
êxodo rural e da pobreza na população brasileira.

CONTAG 40 ANOS - 69
Em 1970, existiam 2,7 milhões programas de crédito e de assis- empresas agropecuárias, voltadas
de minifúndios e 2 milhões de tência técnica oferecidos pelo para produtos de exportação,
famílias de parceiros e rendeiros, Governo. Os beneficiados pelos tinham prioridade em prejuízo dos
todos vivendo em situação programas eram os grandes e alimentos básicos, como feijão,
precária por falta de renda, médios produtores. arroz, batata e hortigranjeiros,
assistência técnica e política de A Associação dos Agrônomos do além da utilização indiscriminada
preços mínimos. Desde 1965 Estado de São Paulo também de adubos e venenos sintéticos.
existia a Lei do Crédito Rural, que denunciava que o modelo agrícola Durante Congresso dos Agrô-
regulava a forma como deveriam de crédito e incentivos às grandes nomos do Estado de São Paulo, no
ser financiados os agricultores. A
Lei determinava que deveriam ser
fortalecidos com financiamentos,
principalmente os pequenos e
médios agricultores, No entanto,
a realidade era diferente. Para o
sistema financeiro realizar um
empréstimo era necessário o
cumprimento de exigências
impossíveis de serem atendidas
pelos agricultores familiares.

Dados do censo Agropecuário


em 1970:
 as pequenas propriedades
eram responsáveis por 26%
da área total plantada com
lavouras permanentes;
 32% da área total plantada com
lavouras temporárias, quase
10% do total de bois e vacas e
47% do total de porcos.
 as grandes propriedades
respondiam por 9% da área
total cultivada com culturas
permanentes e 8% da área total
com lavouras temporárias.

À época, o presidente da
Empresa Brasileira de Assistência
Técnica e Extensão Rural –
Embrater, Renato Simplício Lopes,
informava que 80% dos pequenos
produtores não tinham acesso aos

70 - CONTAG 40 ANOS
qual membros da direção e alimentícios básicos, pesquisas
assessoria da CONTAG estavam para a criação de uma tecnologia
presentes, os profissionais defen- que leve em conta o uso intensivo
deram a formulação de uma nova da terra e da mão-de-obra”.
política agrícola com: “maior ên- Durante o ano de 1978, a
No sul do País, fase ao mercado interno, o desen- CONTAG realizou encontros
suinocultores volvimento acelerado do Programa regionais com todas as federações
bloqueiam estrada
nacional do Álcool, apoio governa- que defenderam no relatório final:
em protesto as
condições impostas mental à produção de gêneros “uma profunda reorientação da
pelos grandes política agrícola, no sentindo de
frigoríficos favorecer as explorações fami-
liares (...), que se revissem taxas
de juro, prazos, e que os emprés-
timos tivessem por garantia a
produção (...), os preços mínimos
deveriam considerar os custos
reais de produção (...) e os
projetos de colonização deveriam
estar fundamentados sobre a
exploração familiar e não sobre às
grandes empresas.”
No ano seguinte, durante o
congresso da CONTAG, em 1979,
essas propostas foram acrescidas
de outras: comercialização facili-
tada, criando condições para cons-
trução de armazéns, fabricação de
silos, construção de estradas a fim
de evitar o intermediário; incenti-
vos e condições para organização
em cooperativas; criação do
seguro agrícola; crédito especial
para os pequenos agricultores.
A partir de 1980, grandes ma-
nifestações de pequenos produto-
res eclodiram na região Sul. Pri-
meiro contra o confisco da soja,
que mobilizou mais de 700 mil
produtores e fez o governo voltar
atrás, retirando o imposto para
exportação da soja. Depois os
suinocultores se mobilizaram
boicotando a entrega do produto
e bloqueando estradas em

CONTAG 40 ANOS - 71
“Em 1986, a CONTAG cria a Comissão
Nacional de Política Agrícola.”

protesto contra os preços e as con- agrícolas, porém o anúncio da que apenas 3% da população
dições impostas pelos grandes liberação do crédito rural desbu- brasileira estaria no campo num
frigoríficos. Os fumicultores con- rocratizado não passou de pro- futuro próximo, a mobilização e
seguiram estabelecer um preço messa. Os agricultores familiares pressão do MSTTR contribuíram
negociado; e também os vitivini- continuavam sem acesso aos fi- para que ele reconhecesse o
cultores e produtores de leite se nanciamentos e o sistema finan- programa e garantisse fonte de
mobilizaram pela prática de um ceiro fazia exigências inviáveis recursos para sua viabilização.
preço mínimo condizente com o para os agricultores. Sob a coor- Ao longo desses 10 anos, as mo-
custo de produção. Essas conquis- denação da Comissão Nacional de bilizações de massa da CONTAG,
tas parciais estimularam grupos de Política Agrícola as federações como os Gritos da
agricultores familiares a se mo- iniciaram debates regionais com Terra e Marcha das
bilizarem para realizar levantamen- o propósito de elaborar o Projeto Margaridas, conquis-
tos de custos e obrigando agroin- Nacional de Política Agrícola, que taram avanços para o
dústrias e governo a negociar. daria um tratamento diferenciado fortalecimento e
A CONTAG declarava: ”a linha aos agricultores familiares. Foram consolidação de
de atuação do Movimento Sindical os primeiros debates que deram políticas voltadas para
de Trabalhadores Rurais tem sido origem ao PRONAF. agricultura fami-
no sentido de levar os pequenos Com acúmulo suficiente a liar.Um bom exemplo
produtores a perceber que a luta respeito do que deveria seria uma foi a implementação
a ser travada é pela mudança da política diferenciada para agricul- do Programa de
política agrícola vigente, por tura familiar a CONTAG articulou Desenvolvimento
demais nociva aos nossos interes- em dois campos distintos. Um foi Local –PDLS, que
ses na medida em que se coloca a o estudo realizado conjuntamente, capacitou lideranças e
serviço do capital financeiro, co- em 1994, pela CONTAG, Incra e técnicos do MSTTR
mercial e agroindustrial, notada- Fundo das Nações Unidas para para o acesso às
mente, o multinacional”. Para Alimentação – FAO. A outra arti-
CONTAG estava claro que se tra- culação se deu com o governo
tava de um modelo implantado no federal. Em 1994, a CONTAG
país a partir de 1964, que aprofun- apresentou a primeira reivindica-
dou as desigualdades sociais e de ção ao Presidente da República
renda. A indefinição de uma Itamar Franco. Surgiu o Provap. Os Gritos da Terra
Brasil conquistaram
política de comercialização e Em 1996, a CONTAG apresentou o
avanços para o
preços justos deixava os produto- Pronaf ao Presidente da República, fortalecimento e
res numa situação de insegurança. Fernando Henrique Cardoso. consolidação de
Em 1986, a CONTAG cria a Apesar do Presidente Fernando políticas voltadas
para a agricultura
Comissão Nacional de Política Henrique Cardoso, ter argumen-
familiar
Agrícola. O governo da nova re- tado que havia uma tendência de
pública anunciou vários pacotes esvaziamento do espaço rural, e

72 - CONTAG 40 ANOS
políticas destinadas à agricultura tário, posseiro, arrendatário e ou Quanto à dimensão organiza-
familiar. parceiro. cional, a agricultura familiar ainda
De acordo com dados da Sem dúvida foram avanços carece de maior impulso para
Secretaria de Política Agrícola da significativos, entretanto, para a constituir bases sólidas e autô-
CONTAG, nesses 10 anos, o Pronaf consolidação das políticas públicas nomas de acesso aos mercados.
superou limites. Atualmente são que levem ao desenvolvimento Para consolidar esse projeto de
beneficiárias todas as famílias sustentável da agricultura fa- inserção o MSTTR tem fomentado
contempladas pela Resolução miliar, a CONTAG compreende que processos que vem se constituindo
3.206, de 24 de junho de 2004, é necessário instituir uma lei que em iniciativas concretas, por meio
que estavam assentadas pelo assegure a produção, a renda e a do Sistema CONTAG de Organiza-
Programa Nacional de Reforma identidade da agricultura familiar. ção da Produção – Siscop, que
Agrária ou beneficiadas por Políticas de assessoramento téc- integra organizações cooperativas
programas de crédito fundiário nico, transformação e comercia- e associativas, para assessora-
ou, ainda, que explorem parcela lização na agricultura familiar mento técnico, cooperativismo de
de terra na condição de proprie- também devem ser implantadas. crédito e de produção.

CONTAG 40 ANOS - 73
Organização de homens e mulheres
assalariados rurais avançou junto com
as demais conquistas do MSTTR

“A reforma agrária será um novo dente da República descrevendo a


13 de maio”, depoimento de um realidade dos assalariados rurais:
bóia-fria de uma lavoura de café “existem 1,4 milhão de famílias
no Paraná, em 1972. de trabalhadores permanentes nas
propriedades, que em sua maioria
A condições de vida e trabalho absoluta não pagam salário nem
dos assalariados e assalariadas ru- as demais obrigações trabalhistas
rais está longe de ser a ideal, po- e encargos sociais”.
rém já foi bem pior. Em tempos
de acesso difícil, péssimo sistema Em 1975, o periódico da
de comunicação e legislação mí- CONTAG divulgava que
nima estabelecendo regras para o aproximadamente 70% dos
trabalho rural, a CONTAG já dedi- assalariados do campo re-
cava especial atenção a esses tra- cebiam igual ou menos que
balhadores, vítimas do êxodo ru- um salário-mínimo. Mais de
ral. Eles estavam na raiz da cons- 80% dos trabalhadores não
trução do MSTTR e permanecerão tinham registro na carteira
como protagonistas das reformas de trabalho. No caso das
exigidas pelo Movimento. mulheres ultrapassava os
Em 1969, dados do Instituto 87% e entre menores acima
Brasileiro de Reforma Agrária – de 95% não tinham registro
IBRA, revelavam existir mais de na carteira profissional.
4 milhões de trabalhadores sazo- família, além de passar fome,
nais. Nos anos 60, do século pas- A realidade era cruel. Todos os permanecia devedora do patrão.
sado, o crescimento de traba- membros da família trabalhavam, Os trabalhadores ficavam à mercê
lhadores sazonais e a expulsão de inclusive crianças, mas o dinheiro dos latifundiários e se sujeitavam
trabalhadores das grandes pro- era sempre insuficiente para às condições que eles lhes impu-
priedades ocorriam porque os atender às necessidades básicas nham, e a Justiça, não estava apa-
proprietários rurais não queriam da família. O trabalhador necessi- relhada para dar cumprimento à
aceitar a implantação da legisla- tava comprar alimentos no arma- legislação.
ção trabalhista. Em 1970, a zém de propriedade do fazendeiro. Existiam ainda, como hoje ain-
CONTAG enviou carta ao Presi- Os preços eram extorsivos e a da existem, trabalhadores e tra-

74 - CONTAG 40 ANOS
balhadoras rurais escravizadas. em alojamentos precários e tendo
Desesperados à procura de traba- seu direito de ir e vir cerceado. rurais, 3, 270 milhões não
lho, acreditavam em falsas pro- tinham carteira profissional
messas oferecidas pelos “gatos” Dados da Pesquisa Nacional registrada. Mais de 80% dos
– aliciadores da mão-de-obra rural de Amostra por Domicílio assalariados e assalariadas
- e acabavam aprisionados em do Instituto Brasileiro de rurais não tinham situação
distantes propriedades rurais, Geografia e Estatística – profissional regularizada.
sendo obrigados a trabalhar até 12 PNAD/IBGE, de 1976, reve-
horas, de domingo a domingo, sob lavam que de um total de 4 Por um longo período a
a mira de armas de fogo, vivendo milhões de empregados CONTAG divulgou em seus meios

CONTAG 40 ANOS - 75
de comunicação os direitos dos goas e Sergipe. Em 1986, a nização e persistência das Fede-
trabalhadores rurais assalariados. CONTAG anunciava: “Ano a ano o rações e Sindicatos para avançar
Diversos textos traziam informa- movimento sindical vem procu- nos direitos trabalhistas. Os tra-
ções precisas, que orientavam a rando avançar a luta dos assala- balhadores e trabalhadoras rurais
respeito de métodos e técnicas riados rurais em todo o País. Os estiveram ao lado dos trabalha-
para organizar negociações cole- contratos coletivos de trabalho dores urbanos lutando pelo direito
tivas de trabalho. Esse mecanismo são, hoje, uma realidade em mais de greve, livre organização sindical,
de orientação trouxe maior cons- de uma dezena de estados”. estabilidade no emprego, jornada de
ciência aos dirigentes sindicais Assim como em outras áreas trabalho, licença maternidade,
para instruir os assalariados e de atuação do MSTTR, foi durante férias, seguro-desemprego.
assalariadas rurais que sofriam a Constituinte que a CONTAG uti- Nos anos 90, do século XX, as
toda espécie de abuso dos pa- lizou toda a sua estrutura, orga- campanhas salariais unificadas
trões, por desconhecerem seus
direitos trabalhistas. Em uma
edição do periódico da CONTAG a
área jurídica esclarecia: “é bom
lembrar (...) que os sindicatos de
trabalhadores devem firmar con-
venções e acordos para conseguir
direitos e vantagens que ainda não
estejam nas leis trabalhistas, pois
o que já está na lei deve ser obri-
gatoriamente cumprido”.
A partir de 1979, intensifica-
se a luta pelo cumprimento da
legislação trabalhista e por reajus-
tes salariais com os movimentos
grevistas do setor canavieiro
tanto no Nordeste quanto em São
Paulo. Estes movimentos levaram
à criação dos primeiros acordos,
convenções e dissídios traba-
lhistas no campo.
A partir de 1980, diversas “pa-
ralisações” de assalariados e as-
salariadas rurais eclodiram pelo
país sob a coordenação dos sindi-
catos, Fetags e CONTAG. As para-
lisações eram, principalmente, de
trabalhadores e trabalhadoras das
zonas canavieiras do nordeste,
que conseguiram unificar as cam-
panhas salariais de Pernambuco,
Paraíba, Rio Grande do Norte, Ala-

76 - CONTAG 40 ANOS
eram uma realidade e fortaleceram lhadoras a problemas de saúde e lhistas e perdas de conquistas
a categoria. Muitos assalariados risco de vida. Trabalhadores e tra- históricas influenciam as relações
e assalariados rurais conseguiram, balhadoras são transportados em de trabalho no meio rural e foram
por meio das campanhas salariais, veículos de péssimas condições e materializadas através de medi-
transformar antigas reivindica- permanecem em alojamentos das como a Emenda Constitucional
ções em cláusulas de contratação precários, além disso ficam expos- nº 28 sobre a prescrição traba-
coletiva. No entanto, isso não sig- tos à acidentes e doenças rela- lhista igualando trabalhadores
nificou a solução para o fim da ex- cionadas ao uso de agrotóxicos, rurais e trabalhadores urbanos, a
ploração patronal. Muitos empre- sem nenhum tipo de capacitação. criação das cooperativas de mão-
gadores rurais ignoram as con- A onda de precarização, a eli- de-obra com a descaracterização
venções e acordos coletivos, e minação de postos de trabalho, do vínculo empregatício, a criação
expõe os trabalhadores e traba- flexibilização de direitos traba- do Banco de Horas, entre outras.
Nesses 10 anos, a CONTAG
atenta à flexibilização das relações
de trabalho no meio rural, refor-
çou a organização sindical dos
assalariados e assalariadas rurais
e atuou efetivamente contra o
descumprimento das leis traba-
lhistas, e acordos e convenções
coletivas de trabalho.
As campanhas salariais no
meio rural possuem uma dinâmica
própria envolvendo diferentes cul-
turas e períodos de safra e entres-
safra que refletem diretamente no
processo de negociação coletiva.
Para a CONTAG, o espaço da
negociação coletiva de trabalho é
fundamental, pois é uma peça
importante na luta sindical. As
negociações coletivas de trabalho
promovem melhoria das condições
de vida, remuneração e trabalho
dos assalariados (as) rurais, possi-
bilitando inclusive o acompanha-
mento das transformações rela-
cionadas à reestruturação pro-
dutiva no meio rural.
Os acordos e convenções cole-
tivas de trabalho evoluíram na
forma e no conteúdo assegurando
conquistas relevantes. Percebe-se
um avanço considerável nas cláu-

CONTAG 40 ANOS - 77
sulas dos acordos e convenções irregularidades e a informalidade com a realização do Seminário
coletivas de trabalho. Hoje não se no campo, principalmente a Nacional sobre Segurança e Saúde
prioriza apenas a cláusula eco- prática de trabalho escravo. na Agricultura, Pecuária e Explo-
nômica (reposição salarial), mas ração Florestal – Trabalho Seguro
também cláusulas sociais impor- e Saudável. Posteriormente a
tantes estão sendo incorporadas A PNAD/IBGE, de 2002, revela CONTAG iniciou a Campanha Na-
como transporte seguro, aloja- que existem aproximada- cional de Prevenção contra os
mento digno, alimentação saudá- mente 3,1 milhões de traba- Riscos dos Agrotóxicos em con-
vel, capacitação para o uso de lhadores e trabalhadoras vênio com a FUNDACENTRO,
agrotóxicos e segurança e saúde rurais com vínculo empre- realizando Encontros Estaduais de
do trabalhador (a) rural. gatício sem carteira assinada capacitação de multiplicadores
Ao ser firmado um acordo ou na área rural. Muitos desses (as) acerca do tema.
convenção coletiva de trabalho profissionais moram nas peri- Faz parte do planejamento da
consegue-se garantir mais digni- ferias das cidades, e devido CONTAG realizar a Campanha
dade e estabelecer condições ao alto índice de desemprego Nacional de Assinatura da Carteira
mínimas para um trabalho decen- e baixos salários pagos, essas de Trabalho com o objetivo de
te e de qualidade. pessoas também se consti- conscientizar e ampliar o número
Para se contrapor a estes tuem no setor mais empo- de mulheres, homens e a juven-
avanços os patrões se valeram do brecido da categoria. tude rural sobre a importância da
desemprego, da criação de falsas assinatura da CTPS.
cooperativas de mão-de-obra
(coopergatos) para descaracterizar As questões relacionadas à De acordo com a PNAD/2003,
o vínculo empregatício e de segurança e saúde do traba- 80% dos trabalhadores rurais
decisões judiciais desfavoráveis lhador(a) assalariado rural pre- não têm carteira de trabalho
que afetaram a organização dos cisam levar em consideração as assinada
trabalhadores (as) e os resultados peculiaridades do perfil do mundo
das campanhas salariais, dimi- do trabalho rural. A partir do Grito Outra área de forte atuação da
nuindo o poder de barganha e da Terra Brasil de 1999 e 2000, a CONTAG é pela erradicação do
reduzindo conquistas. CONTAG participou de uma ampla trabalho escravo, que ainda é uma
Tem sido prática das empresas campanha de prevenção de aci- realidade no Brasil, especialmente
rurais empregarem grande quan- dentes do trabalho rural. Em na área rural. Nesses últimos
tidade de mão-de-obra de tra- parceria com o Ministério do anos, a CONTAG trouxe o tema
balhadores vindos de várias Trabalho e Emprego participou para discussão da sociedade e
regiões do estado ou país, visando ativamente da CANPATR – Cam- diversas ações foram e estão
dificultar a capacidade de mobi- panha Nacional de Prevenção de sendo desenvolvidas para a
lização e de organização sindical. Acidentes de Trabalho na Área erradicação do trabalho escravo e
Contrário a esta eliminação de Rural, priorizando temas relacio- participou das reuniões do Grupo
direitos e conquistas o MSTTR tem nadas às condições de transportes, de Trabalho Executivo de
atuado efetivamente contra o alojamentos e alimentação para os Repressão ao Trabalho Escravo/
descumprimento de leis e acordos trabalhadores(as) rurais. Forçado – GERTRAF/Ministério do
trabalhistas e dos acordos e con- A partir de 2001, o tema Trabalho e Emprego, da Comissão
venções coletivas de trabalho. central da CANPATR foi sobre os Especial do Conselho de Defesa dos
Atualmente o MSTTR (CONTAG/ riscos dos agrotóxicos na saúde Direitos da Pessoa Humana –
FETAGs/ STRs) tem denunciado humana e ambiental culminando CDDPH/Ministério da Justiça,

78 - CONTAG 40 ANOS
CONTAG 40 ANOS - 79
“Muitos avanços já foram obtidos como o lançamento do
Plano Nacional de erradicação do trabalho escravo...”
como também da Comissão Nacio- punidade”. Todos estes elementos condenadas pela justiça por
nal de Erradicação do Trabalho são importantes para as inter- trabalho escravo, instituindo a
Escravo – CONATRAE. venções e ações do MSTTR, esta- “Cadastro de Empregados” que
Em 2004, a CONATRAE e de- belecendo estratégias integradas são impedidos de ter acesso a
mais entidades parceiras organi- visando erradicar o trabalho financiamento público e por fim a
zaram a II Jornada de Debates escravo. criação das Varas de Trabalho Iti-
sobre Trabalho Escravo, ampliando Muitos avanços já foram obti- nerantes que facilitam o processo
o debate sobre as dificuldades e dos como o lançamento do Plano de ações punitivas aos maus
os avanços obtidos nos últimos Nacional de Erradicação do Tra- empregados nos locais onde se dá
dois anos e aprofundando sobre balho Escravo e o lançamento dos a prática do trabalho escravo.
questões como a contextualização Planos Estaduais do Pará, Piauí, No Senado Federal, Proposta
do trabalho escravo, trabalho Maranhão e Mato Grosso, promo- de Emenda à Constituição, elabo-
escravo e a competência criminal, vendo ações de cidadania e com- rada pela CONTAG, foi apresen-
trabalho escravo e impunidade, bate à impunidade. Com o plano tada pelo ex-senador Ademir
identificando os entraves para nacional ocorreram mudanças, Andrade (PSB/PA). A PEC 438-A/
uma ação mais efetiva. entre elas estão o aumento do 2001, prevê expropriação de
Existe hoje um tripé que número da equipe de fiscalização terras da propriedade que utilizar
sustenta a prática do trabalho móvel nas ações de fiscalização, mão-de-obra escrava. Essa é uma
escravo que, segundo, Marcelo o lançamento da campanha e a sua luta pelo direito à vida e ao
Campos, da Secretaria de Inspe- divulgação na mídia e através da trabalho com dignidade e que esta
ção do Trabalho/MTE, é “a estru- Internet, a divulgação da lista com prática nefasta não seja mais uma
tura fundiária, a pobreza e a im- nomes de pessoas e empresas realidade no nosso país.

Compromisso com o Brasil dos trabalhadores


Renato Rabelo - presidente do Partido Comunista do Brasil, PCdoB

A criação da Confederação Nacional dos Trabalha- nativos à época do descobrimento da América e ao


dores na Agricultura, Contag, em 22 de dezembro de enfrentamento da escravidão realizada pelos negros
1963, representa um marco na luta dos brasileiros. Pouco africanos para cá trazidos.
depois de oficialmente reconhecida, em 31 de janeiro Com a eleição e posse do presidente Luiz Inácio
de 1964, foi vítima da ira das classes dominantes que, Lula da Silva, o Brasil passou a viver situação inédita,
através do golpe militar de 31 de março, intervieram em que novas classes e setores de classes passaram
na entidade, prendera e forçaram aos exílios vários de a integrar o governo central. Fato de tal magnitude
seus dirigentes. Os trabalhadores rurais retomaram a se reflete nas lutas dos trabalhadores das cidades e
entidade em 1968, derrotando o interventor. do campo.
Entidade máxima dos assalariados rurais brasi- Assim como o PCdoB, a Contag, fruto da ação
leiros, a Contag é o fruto sindical de uma luta secular consciente dos trabalhadores, está envolvida no
em nosso país. Luta que remete à resistência dos projeto do novo Brasil.

80 - CONTAG 40 ANOS
A CONTAG vem consolidando seu projeto político de Desenvolvimento
Rural Sustentável para o Brasil, o PADRS. Sendo reconhecida nacional e
internacionalmente, como uma entidade sindical que estimula a participação
da juventude nos espaços de direção e de representação política.
Foi uma das primeiras entidades sindicais nacionais do Brasil, a constituir
uma Comissão Nacional especifica da Juventude, com uma coordenação
estatutária na direção executiva da CONTAG, das FETAGs e da maioria dos
STRs.
Com certeza, os próximos quarenta anos da CONTAG serão diferentes,
porque será construído a partir da efetiva participação de quem vive, sonha,
produz e reproduz qualidade de vida no campo, as pessoas, de todas as idades,
cores, saberes, raças, etnias, culturas e recortes regionais e territoriais.
Simone Battestin – Coordenadora Nacional dos Jovens Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais.

Formação sindical
ação permanente do MSTTR para
consolidar o Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável
formação sindical sem- ções sociais na década de 80, do sáveis pela produção de jornais e

A pre teve papel de desta-


que na estratégia polí-
tica do MSTTR. Para
compreender na atualidade essa
século passado. O segundo perío-
do vai da retomada dessas lutas
até os dias atuais.
Todos os esforços foram no
programas de rádio.
Os materiais de comunicação
sindical foram fundamentais para
garantir minimamente uma ação
importância é necessário entender sentido de consolidar uma estru- articulada nacional, regional e es-
o período ditatorial que o MSTTR tura sindical nacional e garantir tadual. Eram boletins, revistas e
e os brasileiros viveram após o autonomia política em relação ao jornais, que tinham como objetivo
golpe militar de 1964. governo militar. Os educadores central a conscientização e a
Para explicitar as transfor- sindicais das Federações eram res- socialização das vitórias e lutas do
mações da formação sindical no ponsáveis pelo planejamento e MSTTR.
MSTTR ao longo de sua história, realização de cursos, encontros, A revista mensal da CONTAG, “O
dividiremos a ação formativa em seminários e congressos, normal- Trabalhador Rural”, foi um dos
dois períodos. O primeiro passa mente, tratavam sobre o sindi- principais instrumentos de motiva-
pela fundação da CONTAG até a calismo e a formação de lideranças ção, mobilização e sedimentação de
retomada das grandes mobiliza- sindicais. Também eram respon- uma política sindical nacional.

CONTAG 40 ANOS - 81
Dedicava em todos os números, prosas e cordéis, escritas pelos Trabalho. Os autores das estórias
matérias sobre sindicalismo, papel trabalhadores (as) rurais, dialo- utilizavam pseudônimos, caso a
das lideranças sindicais, noções de gando com os desafios do dia-a- repressão militar resolvesse
Planejamento, Administração Sin- dia, sem serem perturbados pela censurar os textos, os autores
dical, passos de como fazer reu- Policia ou pelo Ministério do estariam protegidos.
niões, além de enfatizar as lutas
ocorridas nos estados, como CONVERSA DE CABLOCO
exemplos a serem seguidos.
O periódico “O Trabalhador Bom dia cumpade Chico, cuma vai, cuma passou?
Rural” recebeu diversas denomi- Eu vou indo cuma DEUS quer, pelejando sim sinhô?
nações, – jornal, revista, boletim No meu roçado deu a peste, não aproveitei nem o feijão.
– de acordo com o papel que É isso mesmo cumpade, cum pouco tudo se ajeita
desempenhava o impresso à Eu não acredito em mais nada, a coisa pra cá ta preta.
época. A esse período que estamos Tem calma cumpade Chico, tu não crê in nóssi. E no sindicato já viu
nos reportando, conforme a falar, que vai dar nosso valor.
assessora da CONTAG, Adriana Creio em DEUS que é santo véio.
Borba Fetzner: ”uma revista se Meu amigo por favor preste atenção.
adequava melhor aos propósitos Esse nosso sindicato, será nossa salvação
da organização, ou seja, formar E quem é esse sindicato, que vai dar nosso valor
novas lideranças e aumentar o É uma sociedade composta de agricultor.
número de federações e sindicatos Nóis vai lá se reunir, pra acabar com essa tal de meia
filiados ao MSTR (...) manter o Que sempre nos tem trazido, amarrado no nó da pêia.
trabalhador rural informado e,
Assinam Chico da Rita e Zé do Ansé.
principalmente, formá-lo, pois CONTAG/RJ; O Trabalhador Rural; Ano I – Nº 01, Julho/1969.
ninguém melhor do que o próprio
personagem do campo para
Nós, aqui em João Lisboa,
comunicar à sociedade a sua rea-
Estamos de parabéns,
lidade e, de posse do conhecimen-
Já temos Sindicato
to, modificar aquela realidade”.
Assim como vocês têm.
A criatividade marcou esse
Aqui, nosso Presidente
período. O cerceamento das liber-
Nunca freqüentou escola,
dades individuais e coletivas
Mas como ele tem vontade,
inibia qualquer divulgação de
Já lê, já conta e escreve
trabalhos que pudessem, em seu
Já vi que este homem serve
conteúdo, ser interpretado como
E assim nos se desenrola
“ofensivo” ao governo e a “ordem
O Sindicato é união,
pública”. Foram utilizadas muitas
É amizade, é amor
estórias, a exemplo da “Conversa
É beneficio, é progresso,
de Caboclo”, produzida por quase
É conhecimento, é valor,
uma década. O cotidiano e o
É reunião necessária dessa classe proletária
estímulo à organização dos traba-
De homem trabalhador.
lhadores (as) rurais eram reprodu-
Colaboração do companheiro do Município de João Lisboa no Estado do Maranhão
zidos por meio de personagens. CONTAG/DF; O Trabalhador Rural; Ano 5 – Nº 01 – Janeiro/1973.
Também reproduziam as poesias,

82 - CONTAG 40 ANOS
A formação sindical
sempre teve papel de
destaque na estratégia
longa duração. Alguns deles com até guns participantes não compreen-
política do Movimento
Sindical de 30 dias, e em regime de internato. derem o que estava acontecendo.
Trabalhadores e Além da preocupação pedagógica, Os congressos da CONTAG
Trabalhadoras Rurais existia a preocupação com pos- também foram espaços privile-
síveis “agentes” do governo infil- giados para sistematizar experiên-
trados entre os participantes. Se- cias e propostas e unificaram a linha
gundo relato de dirigente, durante política para a Formação Sindical.
Outro instrumento muito utili- os eventos as lideranças falavam Existia a preocupação de manter
zado em finais da década de 60 a sobre organizar as reivindicações uma ação permanente e renovada
meados de 70, do século XX, foi o dos assalariados e de se organizar na formação de novas lideranças
sóciodrama. Priorizava a oralidade contra o latifúndio, dentre outros sindicais que: “não se limitassem
e expressão corporal, para esti- assuntos que se relacionavam com exclusivamente, à prestação de
mular uma visão crítica daquele a organização e luta da categoria. serviços burocráticos e assisten-
momento que o país vivia, sem Quando chegavam representantes ciais”. Nesses espaços, também
chamar a atenção do poder público. do Ministério eles apagavam tudo eram identificados os conteúdos que
Durante esse período, a CONTAG que estava escrito no quadro e mu- deveriam sempre ser direcionados
realizava cursos de capacitação de davam de assunto. Era comum al- para o dia-a-dia da base.

CONTAG 40 ANOS - 83
de 15 mil lideranças e técnicos do
MSTTR; V – o foco da ação forma-
tiva, era o estímulo à construção
de parcerias e alianças no nível
local; VI – o estímulo à intervenção
qualificada do MSTTR junto ao
poder público local.
A Formação Sindical passou a
incorporar as demandas específi-
cas e a focar a ação nas pessoas
e, não nas coisas. A Formação se
transformou em uma ação meio.
No segundo período, a partir implementação do Projeto CUT/ O PADRS estimulou a Formação
da década de 80, do século XX, CONTAG de Pesquisa e Formação Sindical a pensar junto com as
novos paradigmas foram incorpo- Sindical, fundamental na constru- demais secretarias, estratégias de
rados à proposta de Formação ção de uma proposta de desen- implementação das demandas
Sindical do MSTTR. Com a aber- volvimento que fosse alternativa específicas, sempre visualizando
tura política ocorrendo de forma aos sucessivos modelos concen- o projeto maior - o PADRS.
lenta, a formação sindical se de- tradores de terra e de renda. Os meios de comunicação da
parou com novos desafios, mere- Com o PADRS, a Formação Sin- CONTAG evoluíram com o decorrer
cendo destaque a qualificação da dical passou a ter uma referência dos anos e com o acesso a novas
ação sindical. pedagógica unificada nacional- tecnologias. Profissionais especia-
O movimento sindical come- mente, levando em conta as de- lizados em comunicação passaram
çou a desenvolver ações para mandas regionais, culturais, a integrar a equipe otimizando as
retomar as entidades que ainda produtivas, organizativas, sociais relações da CONTAG com a mídia.
estavam sob a direção de setores e as dimensões transversais de Essa evolução da comunicação, em
conservadores. As vitórias obtidas gênero, geração, raça e etnia. sintonia com as novas demandas
com a promulgação da Constitui- Uma das grandes ações forma- do MSTTR, contribuíram para
ção também requeriam ações tivas desencadeadas pela CONTAG potencializar a ação política das
imediatas do MSTTR, com o pro- foi o Programa de Desenvolvi- Secretarias. Exemplos que pode-
pósito de manter a base esclare- mento Local Sustentável – PDLS. mos citar são os “spots” radiofô-
cida sobre as conquistas e con- Esse programa trouxe novidades: nicos do programa “A Voz da
seqüentes mudanças. I – a ação formativa ocorria no local CONTAG” sobre saúde preventiva,
Os congressos da CONTAG, de e, com o público local; II – o foco erradicação do trabalho infantil,
1991 e 1995, deram um salto qua- da ação formativa eram as políti- auto-sustentação. Os profissio-
litativo na organização política do cas públicas, seu controle, gestão, nais da comunicação da CONTAG,
MSTTR, criando e consolidando as proposição e negociação; III – o por aproximadamente 10 anos,
secretarias específicas na PADRS foi o fio condutor de toda também formaram lideranças em
CONTAG. Também foi aprovada a a ação; IV – foram envolvidas mais técnicas de comunicação.

“A Formação Sindical passou a incorporar as demandas


específicas e a focar a ação nas pessoas e, não nas coisas.”

84 - CONTAG 40 ANOS
Educação do campo e
desenvolvimento rural
garantem a sustentabilidade

A educação, cada vez mais, educação esteve na pauta de todos contraposição ao método ‘antigo’,
ganha importância estratégica na os congressos, Encontros, Semi- leva em conta cada realidade
Agenda Sindical do MSTTR. Não nários e atividades específicas, individual, de cada educando, para
significa que esse debate não ocor- como objeto de reflexão, aprofun- assim podermos construir uma
resse anteriormente na CONTAG, damento e deliberação. realidade coletiva. Conhecimento
Federações e Sindicatos. Sempre O MSTTR permanentemente da realidade, que será julgada,
houve uma compreensão coletiva criticou o modelo tradicional de criticada e conforme as conclusões
sobre a importância da Educação educação, desconectado da reali- do grupo, chega-se à escolha da
enquanto estratégia para uma dade de quem vive e trabalha no ação e, à própria ação. Conforme
inserção qualificada dos trabalha- campo. Nos primeiros anos de deliberado no Encontro de Petró-
dores (as) rurais nos processos de CONTAG a direção afirmava que: polis, em 1968, com dirigentes e
desenvolvimento do país. O tema “o método participativo, em técnicos de várias Federações”.

CONTAG 40 ANOS - 85
Esse conceito demonstrava, implanta este ano, no interior, um incentivar o espírito associati-
em 1973, opção por uma proposta sistema de ensino de primeiro vista e a valorizassem a profissão
pedagógica que valorizasse os grau adaptado ao meio rural de agricultor, com o apoio de
trabalhadores (as) rurais enquanto ajustado às condições sócio- material didático que levasse em
sujeitos políticos. “Educado é econômicas de cada região. O conta as peculiaridades e caracte-
aquele que sabendo ou não ler e sistema de educação rural terá rísticas do campo.
escrever sabe, contudo, inter- currículo de acordo com as Educação como estratégia para
pretar as coisas, os aconteci- aspirações de desenvolvimento de o desenvolvimento do campo,
mentos. Educação é o conheci- cada comunidade e foi idealizado sempre foi a defesa da CONTAG. “A
mento das coisas, a capacidade de a partir da constatação de que 49% educação assume importante papel
julgamento e ação. A educação dos estudantes do primeiro grau dentro do processo de desenvolvi-
escolar para os trabalhadores estão na zona rural, mas recebem mento, exigindo especializações, a
rurais deve: I – desertá-los para o o mesmo ensino ministrado na partir do fator educacional. Por outro
saber; II – despertá-los para o zona urbana, com disciplinas lado, ela assume o papel motivador
querer e; III – motiva-los para con- muitas vezes sem qualquer do próprio desenvolvimento. A
seguir o que necessitam”. utilidade na vida prática”. educação nos liberta como pessoas,
Algumas conquistas, ainda que Essas experiências sempre como gente que somos”.
localizadas, são vitórias dessa foram socializadas e debatidas nos
pressão e proposição da sociedade congressos do MSTTR. Em 1973,
civil e, sobretudo, do MSTTR. A o congresso extraordinário O que define a
identidade das escolas
exemplo da experiência gaúcha, deliberou pela necessidade da
do campo é o seu projeto
publicada no Jornal do Brasil, em adoção nos currículos escolares, político pedagógico e os
1973: “O Rio Grande do Sul de disciplinas que viessem a sujeitos a quem ela se
destina

86 - CONTAG 40 ANOS
No congresso da CONTAG de ciassem as diferentes situações Fórum CONTAG de Educação,
1991, a educação foi tratada com do meio rural, como as Escolas articulado com universidades,
profundidade. Os delegados de- Famílias Agrícolas. No caso espe- organismos internacionais e
fenderam ensino, público e gra- cífico da educação básica, a ONGs. O resultado foi uma agenda
tuito, adequado às características principal estratégia defendida foi de trabalho visando acumular um
do meio rural; exigiram que o cur- a pressão sobre as prefeituras, debate sobre as bases de uma
rículo escolar fosse elaborado a responsáveis pela fiscalização e política específica de Educação do
partir do cotidiano dos trabalha- acompanhamento de todos os Campo, voltada para o desenvol-
dores rurais; e definiram a realiza- processos do sistema de ensino - vimento rural sustentável.
ção de uma campanha de alfabe- além da sociedade civil, por meio O MSTTR e outras entidades
tização, por meio dos STRs, para dos Conselhos Municipais e Esta- parceiras, que têm experiência
estimular os pais a enviarem os duais de Educação - a fim de com educação formal e não-
filhos as escolas. garantir o bom funcionamento do formal1 , sistematizaram uma pro-
No congresso da CONTAG de ensino em todos níveis de esco- posta de política pública consti-
1995, o MSTTR afirmou que a laridade. tuída por princípios e diretrizes da
escola rural deveria respeitar a Entendendo que não é possível educação do campo que estão
cultura local e a realidade dos construir uma proposta de sendo implementadas em alguns
trabalhadores (as) rurais, priori- Educação do Campo isolado em si, municípios rurais.
zando pedagogias que viven- o MSTTR realizou em 2000, o IV

1
MOC – Movimento de Organização Comunitária, SERTA, Secretaria Municipal de Educação de Curaçá/BA, IRPAA/BA, ARCAFAR,
UNEFAB, GT/UnB, Instituto Agostim Castejon, Escola de Formação da CUT da Amazônia, Escola do Campo Casa Familiar Rural de
Pato Branco/PR, dentre outros.

CONTAG 40 ANOS - 87
Essa proposta foi apresentada e e a sua realidade. Diretrizes representam um impor-
debatida nas audiências públicas do O MSTTR entende que as Dire- tante ‘instrumento’ para reverter
Conselho Nacional de Educação – CNE, trizes Operacionais para as Esco- esse quadro e garantir uma educa-
realizadas no final do ano de 2001. las do Campo, por si só, não res- ção de qualidade, que dialogue
Ao final, o Conselho Nacional de ponderá a todas as demandas de com a realidade de quem vive e
Educação aprovou as “Diretrizes quem foi historicamente excluído trabalha no campo, na perspectiva
Operacionais de Educação Básica do acesso à educação em nosso de implementação e consolidação
para as Escolas do Campo”, instituída país. Mas, sem dúvida alguma, as do PADRS.
oficialmente por meio da Resolução
n.º 01, de 03 de abril de 2002.
Nas Diretrizes Operacionais da
Educação Básica das Escolas do
Campo, a educação não se restrin-
ge ao espaço da escola, ela acon-
tece também nos diferentes
espaços em que os sujeitos vivem
e trabalham, alimentando e for-
talecendo o vínculo entre a cultu-
ra, a educação escolar e a educa-
ção não-escolar (formação política, A CONTAG vem ao
formação profissional, etc). longo desses 40 anos,
O que define a identidade das construindo um novo
escolas do campo não é neces- ‘olhar’ sobre o campo e Do campo. Esse exercício de reconstruir
sariamente a sua localização geo- a ruralidade brasileira, destacando sua importância estratégica,
gráfica, mas seu projeto político contribuiu para o estabelecimento de parcerias qualitativas para
pedagógico e os sujeitos a quem a ação política do MSTTR.
ela se destina. Entretanto, é fun- Um desses momentos foi a construção do Grito da Terra
damental que essas escolas, em Brasil, hoje consolidado em todo o país enquanto um momento
todos os níveis e modalidades de de reflexão política, proposição, reivindicação, negociação e
ensino estejam localizadas nas pressão. Com certeza, poderíamos citar outros tantos momentos
comunidades e povoados. em que a construção coletiva norteou a ação política da CONTAG.
O projeto político pedagógico A Formação Sindical sempre esteve presente na construção
das escolas do campo deve estar e consolidação dessa política. Aliás, a ação formativa da CONTAG
a serviço da promoção do desen- sempre esteve a serviço desse propósito, construir um projeto
volvimento humano e sustentável, político para o campo sob a coordenação do MSTTR.
e ter como referência a concepção Surge o PADRS, não enquanto um projeto pronto e acabado,
e prática pedagógica construída mais uma síntese da construção anterior, somada às
pelos movimentos sociais e sindi- contribuições de intelectuais, da base e de outras organizações
cais que atuam no campo. Ou se- parceiras. A filiação à CUT e a implementação do Projeto CUT/
ja, os seus objetivos, conteúdos CONTAG, com certeza representou um marco na construção
programáticos, metodologia e pro- desse projeto político.
cessos de aprendizagem e de ava- Francisco Miguel de Lucena
liação devem levar em conta os Secretario de Organização e Formação Sindical.
sujeitos desse processo educativo

88 - CONTAG 40 ANOS
Desafios para prosseguir
numa histórica caminhada
Dom Tomás Balduino - Presidente da CPT

A CPT congratula-se com a seiros, pequenos proprietários. vos para a já histórica caminhada
CONTAG pelos seus 40 anos de Articulou estas forças, ainda sob da CONTAG. Principalmente, quan-
história junto aos trabalhadores e a ditadura militar, para exigir o to à construção da unidade do
trabalhadoras do campo. E começa respeito à legislação trabalhista e campesinato, no meio deste mar
relembrando o grande número de a reforma agrária. de diversidade de organizações que
lideranças sindicais autênticas que A CPT, nascida em 1975, se tor- se constituíram nos últimos anos.
foram perseguidas e mortas na nou sua parceira e aliada. Quantos Esta foi a intuição fundamental
busca e defesa dos mais sagrados sindicatos os agentes da CPT não na sua criação e esta é hoje uma
direitos dos trabalhadores e ajudaram a criar nos diferentes de suas missões. Só uma unidade
trabalhadoras da terra. Estados da Federação! Na tentativa sólida será capaz de fazer frente aos
Primeiro pela ditadura militar, de ter um sindicalismo mais com- entraves que são colocados aos
que via em qualquer forma de or- bativo e autêntico, não atrelado aos trabalhadores do campo. Entraves
ganização dos trabalhadores uma poderes constituídos e executando estes que, desde sempre, impedem
ameaça à Segurança Nacional e tarefas simplesmente assisten- a reforma agrária com a conse-
depois, até os dias de hoje, nos cialistas, a CPT também incentivou qüente redemocratização da terra
confrontos com o arcaico latifúndio e apoiou as oposições sindicais. e relações justas de trabalho. Estes
e o moderno agronegócio. Uma lem- Passados, porém, os anos da di- entraves passam ainda pelo modelo
brança toda especial para as mu- tadura, novas organizações repre- de desenvolvimento adotado pelo
lheres que assumiram esta luta e sentativas de segmentos específicos Brasil que coloca o capital como o
esta causa e que têm em Margarida de trabalhadores começaram a eixo definidor das grandes prio-
Maria Alves o melhor exemplo. surgir. Nasceram assim os movi- ridades nacionais e que acaba
A CONTAG, nascida às vés- mentos dos sem-terra, dos peque- atraindo para si e para o agronegócio
peras do golpe militar, criou uma nos agricultores, dos atingidos por todas as atenções, ficando o traba-
articulação nacional dos diversos barragens, dos assentados, etc. lhador relegado a segundo ou ter-
sindicatos e associações de tra- Hoje contam-se em dezenas estes ceiro planos, atendidos por medidas
balhadores rurais existentes, movimentos ou associações reivin- paliativas e por políticas compen-
dando-lhes representatividade e dicando a representatividade das satórias.
visibilidade nacionais e, assim, se pessoas às quais dizem servir. Parabéns, Contag. Que o exem-
tornou uma referência nacional. Esta nova realidade, no mo- plo dos que derramaram o sangue
Reuniu sob sua sigla a imensa di- mento da comemoração dos 40 na conquista da terra e dos direi-
versidade do campo - assalariados anos, está a exigir uma profunda tos aponte o norte da atuação do
rurais, parceiros, meeiros, pos- reflexão e a busca de caminhos no- movimento sindical rural hoje.

“Quantos sindicatos os agentes da CPT não ajudaram a


criar nos diferentes Estados da Federação!”

CONTAG 40 ANOS - 89
A CONTAG vem construindo um sindicalismo dinâmico
e inovador a cada década, desde a sua fundação. No
entanto, entendo que a ultima década carece de uma
maior analise, já que representa uma síntese das três
décadas anteriores.
Sempre viemos reivindicando um tratamento
diferenciado para a agricultura familiar, mais foi nessa
década que nossa proposta se
materializou através do
PRONAF. Sempre reivindica-
mos um processo formativo
nacional e massivo, voltado
para a ação política nos muni-
cípios, através do Programa
de Desenvolvimento Local
Sustentável – PDLS atendemos
a quase todos os municípios
do país.
Foi também nessa década
que através da nossa pressão,
conquistamos um ministério
especifico para a agricultura
familiar, o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA.
A CONTAG sempre participou de eventos internacionais,
mais também foi nessa ultima década que se processou
maiores mudanças quanto as relações institucionais no
exterior.
Atualmente a CONTAG ocupa a Secretaria da
Coordenadora da Agricultura Familiar no MERCOSUL.
Participa de fóruns de Reforma Agrária, Juventude,
Mulheres, Agricultura Familiar e Assalariados (as) rurais,
onde é ouvida por organizações não governamentais e
governamentais em todos os continentes.
O estimulador dessas mudanças nos últimos 10 anos,
foi a unificação das propostas históricas do MSTTR em
um projeto político, o PADRS. Projeto reconhecido
nacional e internacionalmente, enquanto uma contri-
buição ao debate sobre a proposta de segurança e sobe-
rania alimentar que queremos para o mundo.
Alberto Broch
Vice-Presidente e Secretário de Relações Internacionais

90 - CONTAG 40 ANOS
Gestão sindical: ferramenta
para consolidação do PADRS

É muito comum o dirigente sin- políticas acontecessem na base. Uma das grandes contribuições
dical participar de reuniões sobre A imprensa sindical foi muito decorrentes desse processo de
gestão sindical, entendendo que utilizada para cumprir esses capacitação foi o fortalecimento
Gestão Sindical corresponde à objetivos, a revista “O Trabalhador e consolidação do MSTTR em todo
administração sindical, à gestão Rural”, no período de 1969 a 1974, o país. Segundo levantamento
política, à auto-sustentação e ao trazia de forma sistematizada as divulgado pela CONTAG, em 1963,
patrimônio. No entanto, o conceito noções básicas de como fazer uma existiam 641 STR e apenas 306
é novo no MSTTR. Não significa que reunião, planejamento, papel dos eram reconhecidos pelo Ministério
essa demanda não tenha existido dirigentes nos Sindicatos, prestação do Trabalho. Em 1972, eram 1.754
em momentos anteriores. Nesses de contas, departamento pessoal, STRs , sendo 1.330 reconhecidos
40 muitas alternativas já foram elaboração de projetos. pelo Ministério do Trabalho.
implementadas para garantir uma
boa Gestão Sindical. Nos materiais
de comunicação da CONTAG exis-
tem registros a respeito do esforço Principais fatores que contribuíram para o crescimento:
das Tesourarias do MSTTR em capa- I– Estatuto do Trabalhador Rural (Lei 4.214, de 02/03/1963);
citar dirigentes e técnicos sobre II – Estatuto da Terra (Lei 4.504, de 30/11/1964);
administração sindical. III – Reconhecimento da CONTAG (Decreto 53.517 de 31/01/1964);
Eram cursos de capacitação para IV – Sindicalização Rural (Portaria Ministerial nº71, de 02/02/1965);
Direção das Entidades, Conselho V– Reforma Agrária – Ato Institucional nº9, de 25/04/1969;
Fiscal e Funcionários (as). Exemplo VI – Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural – FUNRURAL
foi o 2º Encontro de Tesoureiros e (Decreto-Lei nº276, de 28/02/1967);
Contadores realizado em setembro VII – Enquadramento Sindical (Decreto-Lei nº789 de 26/08/1969 e
de 1972, sobre a importância de Decreto-Lei nº1.166 de 15/04/1971);
uma administração sindical voltada VIII – Programa de Redistribuição de Terras – PROTERRA (Decreto-
para a luta, sem, contudo, deixar Lei nº1.179 de 06/07/1971);
de perceber a importância da IX – Programa de Assistência ao Trabalhador Rural – PRORURAL (Lei
“máquina sindical” funcionando de Complementar nº11 de 25/05/1971).
forma a garantir que as ações

“A imprensa sindical foi utilizada na


divulgação das formas de fazer: reunião,
planejamento, seminários etc.”

CONTAG 40 ANOS - 91
A contribuição voluntária dos de vez com a contribuição sin- Os Encontros da Comissão Na-
associados (as) sempre foi refe- dical, editada pelo Presidente da cional de Finanças foram fundamen-
rendada em todos os congressos República Fernando Collor. O Con- tais para garantir maior unidade das
e instâncias do MSTTR, como a selho Deliberativo da CONTAG, em ações de gestão, estimulando o diá-
contribuição mais importante para setembro de 1990, se antecipou logo entre as ações estaduais e a
auto-sustentação. Até hoje a con- aos fatos e aprovou a implemen- estratégia decidida nacionalmente.
tribuição voluntária é o objetivo tação imediata da Contribuição Os programas de capacitação na
central. Nesses 40 anos, muitas Confederativa, independente de base também foram importantes
ações voltadas para qualificar a regulamentação. Recomendou a porque abordavam, prioritaria-
ação sindical e a prestação de ser- todos os sindicatos filiados que mente, temas como Gestão e Ge-
viços na base foram experimen- acelerassem a realização de suas renciamento, Planejamento Estra-
tadas pela CONTAG, Federações e assembléias para que a confede- tégico, Reestruturação Administra-
Sindicatos, com o propósito de rativa pudesse tornar-se um dos tiva, Política Sindical e Formação.
estimular a sindicalização. meios de auto-sustentação das Os últimos dez anos foram de
Em Minas Gerais, em 1973, o lutas e mobilizações do MSTTR. expansão da Gestão Sindical da
Conselho de Representantes da CONTAG. Ocorreu a implantação
Federação dos Trabalhadores, com da Contribuição Confederativa; o
o objetivo de dar condições para recolhimento da Contribuição Sin-
aquisição ou ampliação de sedes, dical por parte das entidades
compra de máquinas, equipamen- sindicais; a implantação da men-
tos e instalações fixas, aprovou a salidade de aposentados e pensio-
criação do Fundo Rotativo de nistas com desconto direto nos
Aplicações Sindicais. Quase 25 benefícios previdenciários, sem a
anos depois, em 1997, a CONTAG necessidade do associado (a) ir
elaborou um projeto para via- mensalmente ao Sindicato.
bilizar a compra de computadores A troca da denominação de
através de convênio firmado entre Tesouraria Geral para Secretaria de
CONTAG e a IBM. O objetivo era Finanças e Administração significou
acelerar a gestão interna do STRs. uma mudança na compreensão
Muitas “âncoras” financeiras As capacitações voltadas para sobre as responsabilidades da área
foram priorizadas ao longo desses a Gestão Sindical foram retomadas de finanças do MSTTR. Gestão
anos para garantir o funciona- com força total durante toda a Sindical deixou de ser a área exclu-
mento dos Sindicatos e, conse- década de 90, do século XX. A cam- sivamente burocrática, passou a ser
qüentemente, do Sistema Confe- panha de divulgação da Contri- considerada essencial na construção
derativo. Entretanto, nos últimos buição Confederativa ganhou o das ações do Movimento.
anos, o MSTTR passou a experi- apoio do programa de rádio “A Voz Muito ainda existe para ser
mentar novas formas de garantia da CONTAG”, que foi ao ar oficial- feito quanto à Gestão Sindical,
da auto-sustentação. Também foi mente, em 1º de maio de 1993. porém, nos últimos 10 anos, o
nesse período que ocorreram mui- Nesse mesmo ano, a CONTAG assi- MSTTR conseguiu acelerar e qua-
tas investidas contra as formas de nou convênio com o Banco do lificar o processo de Gestão Sindi-
contribuição e da própria organi- Brasil para a emissão de guias e cal, sempre na perspectiva de im-
zação sindical. cobrança da contribuição confe- plementar e consolidar o Projeto
Um exemplo foi a publicação derativa e lançou a campanha Alternativo de Desenvolvimento
da Medida Provisória que acabava “Para Colher Tem que Plantar”. Rural Sustentável – PADRS.

92 - CONTAG 40 ANOS
história

A política transversal
de gênero, geração, raça e etnia no PADRS
“No PADRS o ser humano é objeto central e em sua implementação
considera primordiais as especificidades da pessoa, como idade,
sexo, raça e etnia”.

lgumas Federações reali-

A zavam, já na década de
60, do século XX, ativi-
dades específicas com
jovens e mulheres. A Federação do
Geração no PADRS

É um conceito que explicita o papel social que cada pessoa cumpre


nas diferentes fases da vida: infância, adolescência, juventude,
Rio Grande do Sul, em parceria adulto, terceira idade e idosos. Estes papéis se alteram de acordo
com a Frente Agrícola Gaúcha – com a época e história de cada sociedade. Esse enfoque geracional
FAG, organizava congressos de faz um apelo sobre a valorização e as oportunidades de inserção
jovens em finais da década de 60. social de jovens, terceira idade e idosos na sociedade.
No entanto, a organização da ju-
ventude no MSTTR ocorreu oficial-
mente início da década de 90, do
século passado. No caso das mu- ao Encontro Nacional, que identi- elevação da auto-estima; incen-
lheres trabalhadoras rurais a ficaram, aprofundaram e sistema- tivar e fortalecer a sua organiza-
organização dentro do MSTTR tizaram as demandas da juven- ção e formação política; apresen-
começou em meados da década tude trabalhadora rural. tar propostas de políticas sindicais
de 80. A terceira idade e as dimen- Essas propostas orientaram o e políticas públicas que promovam
sões de raça e etnia, só irão fazer Documento Base do 8º CNTTR, e efetivem a inserção social da
parte da agenda e proposição polí- afirmando que a juventude consti- juventude no meio rural.
tica do MSTTR, a partir de 1995. tui-se em mulheres e homens que O MSTTR aprovou em Congres-
vivem e trabalham no meio rural, so e garantiu nos Estatutos, uma
JUVENTUDE com idade de 16 a 32 anos. Que Coordenação Nacional da Juven-
ser jovem é uma condição relativa tude Trabalhadora Rural, Coorde-
Com o aprofundamento e e transitória, pois logo entrarão nações Estaduais e Municipais.
sistematização das propostas que nas outras fases da vida. Entre- Essa organização, oficialmente
constituíram o PADRS, a importân- tanto, é na fase da juventude que reconhecida na estrutura do siste-
cia estratégica da juventude as pessoas afirmam sua identida- ma CONTAG, refletiu em conquis-
ganhou visibilidade e passou a ser de social e profissional e, definem tas para juventude, como o Pronaf
incorporada nas temáticas e agen- sua formação física, intelectual, Jovem - uma linha de financia-
da sindical. Logo após o 7º psicológica e emocional. mento específica - e o programa
CNTTR, a CONTAG realizou cinco O foco central da proposta para “Nossa 1ª Terra” - uma política
Encontros Regionais preparatórios o trabalho com a juventude é a específica de crédito fundiário.

CONTAG 40 ANOS - 93
TERCEIRA IDADE

A participação de
mulheres e homens aci-
ma dos 55 anos de idade
nos espaços de direção,
enquanto sócios e nas
demais instâncias do
MSTTR, sempre foi uma
presença constante.
No entanto, à exce-
ção das conquistas do
acesso aos benefícios
previdenciários, poucas
políticas específicas
foram elaboradas e
implementadas pelo
MSTTR. Mesmo desem-
penhando papel impor-
tante na vida familiar e
comunitária, infeliz-
mente muitas dessas
pessoas sofrem discri-
minação e preconceitos,
ficando à margem na sociedade. MSTTR. O mesmo acontece com a A luta das mulheres por igual-
Foi após o 7º CNTTR, que as elaboração e implementação de dade de condições no MSTTR
demandas desse grupo ganharam políticas sindicais e políticas pú- começou na construção das pri-
visibilidade e importância polí- blicas, que elevem a auto-estima meiras entidades sindicais.
tica. As Federações realizaram dessas pessoas, assegurem seus Apesar da ausência de registros
Encontros Estaduais preparatórios direitos e garantam sua inserção sobre a participação das mulheres
ao “Encontro Nacional dos Traba- social na vida familiar, comunitária, nas lutas, fica muito difícil imagi-
lhadores e Trabalhadoras Rurais da sindical e na sociedade em geral. nar uma greve de canavieiros,
3ª Idade”. Nesses encontros ela- como as que ocorriam com fre-
boraram um diagnóstico a respei- MULHERES qüência na década de 70 e 80, do
to da realidade daqueles que estão século XX, sem imaginarmos o
na terceira idade, que vivem e Gênero no PADRS é um con- trabalho das mulheres garantindo
trabalham no meio rural, sempre ceito em construção, que articula a estrutura física e psicológica da
considerando o valor desse grupo a dimensão de classe, geração, família e dos grevistas ou diri-
dentro do PADRS. Os resultados raça e etnia, e serve para entender gentes sindicais.
subsidiaram a construção do as relações de poder e de hierar- Os registros da CONTAG e de
Documento Base para o 8º CNTTR. quia estabelecidas entre mulheres algumas Federações identificam
Um desafio precisa ser supe- e homens na família, na comunida- grandes manifestações estaduais
rado: a inclusão definitiva da de, no local de trabalho, no de mulheres em meados da
terceira Idade na organização do MSTTR, e na sociedade em geral. década de 80. A Federação de

94 - CONTAG 40 ANOS
Pernambuco, por exem- construção do MSTTR, foram os públicas específicas é a mobili-
plo, realizou reuniões de debates ocorridos antes, durante zação “Marcha das Margaridas”.
mulheres nos Pólos Sin- e depois da construção do PADRS. Movimento de afirmação da mu-
dicais para debater pro- A opção de mudar de pequena lher na luta pela democratização
postas para serem en- produção, para produção em e melhoria da qualidade e vida no
caminhadas ao congresso regime de economia familiar, deu ambiente rural brasileiro, a Marcha
da CONTAG, em 1991. visibilidade produtiva a quem já ganhou esse nome em alusão à
No ano seguinte, mais de começava o processo de conquista Margarida Alves, presidente do
10 mil Mulheres Traba- política. Sindicato Rural de Alagoa Grande,
lhadoras Rurais dos A aprovação da cota mínima de Paraíba, assassinada em 1983, na
estados do Rio Grande 30% de mulheres em todas as ins- porta de sua casa.
do Sul e de Goiás realiza- tâncias do MSTTR, aprovada no Ao longo desse período de
ram seus Encontros Es- congresso da CONTAG, em 1997, construção da organização das
taduais. foi um importante instrumento de mulheres trabalhadoras rurais e
Em 1989, as mulheres democratização das relações de depois a consolidação do movi-
conquistaram a Comissão poder entre mulheres e homens, mento, a organização obteve
Nacional Provisória das contribuindo para o reconheci- conquistas e avanços importantes
Trabalhadoras Rurais e mento das mulheres como sujeitos que deram o diferencial nas
elegeram a primeira políticos, assegurando definitiva- relações de gênero. Dentre essas
mulher para a direção da mente sua participação direta em conquistas merecem destaque o
CONTAG. Em preparação todos espaços formativos e de de- reconhecimento da profissão tra-
para 5º CNTR, a Comis- cisão da CONTAG, FETAGs e STRs. balhadora rural com a concessão
são Nacional Provisória Desde então, o MSTTR, por dos benefícios previdenciários; o
realizou encontros em di- meio da Comissão Nacional de Pronaf Mulher e a titulação con-
versos estados, buscando dar visi- Mulheres Trabalhadoras Rurais, junta na posse da terra.
bilidade às demandas específicas. Comissões Estaduais e Municipais
A Comissão conseguiu fazer de Mulheres Trabalhadoras Rurais, RAÇA E ETNIA
constar no Regimento Interno do vem construindo uma política
congresso da CONTAG, em 1991, transversal de gênero. Contri- As questões de raça e etnia
a escolha de duas delegadas por buem para a construção de novas permanecem somente nos dis-
estado, sem prejuízo das demais relações entre mulheres e homens cursos do MSTTR. Portanto, essa
que poderiam ser eleitas nas baseadas na igualdade de direitos questão é um dos desafios da
assembléias dos Sindicatos. Pela e oportunidades. Buscam valorizar CONTAG, pois a partir da cons-
primeira vez na história do suas habilidades e capacidades trução do PADRS ficou posto que
MSTTR, as condições desiguais políticas, sociais, econômicas, o projeto precisa, em sua essên-
das mulheres eram levadas em produtivas e culturais, assegu- cia, dar conta do ser humano em
conta na escolha de delegados (as) rando sua participação direta nos sua integralidade. Se o ser huma-
a um congresso, mecanismo man- espaços de decisão e poder do no é o objeto central desse projeto
tido no congresso seguinte, com MSTTR e nos espaços de formu- em permanente construção, raça
algumas modificações que quali- lação e gestão de políticas pú- e etnia são questões que neces-
ficavam a proposta. blicas, na perspectiva da constru- sitam de propostas que sejam
Entretanto, o grande marco da ção e implementação do PADRS. levadas à prática.
participação política das mulhe- Outro espaço utilizado pelas Apesar do pouco acúmulo sobre
res, enquanto protagonistas na mulheres em busca de políticas o tema, existem alguns consensos

CONTAG 40 ANOS - 95
estabelecidos no MSTTR. vida. Estas pessoas incorpo- às suas políticas macro, um caráter
ram e difundem expressões cultural, organizativo, social e
 Toda pessoa é portadora de culturais específicas, como a produtivo das regiões do país.
diferentes identidades sociais. religião, língua, dança, arte, li- Muito ainda está para ser fei-
Além de mulheres ou homens teratura, etc. to, mas ao olhar para essas quatro
trabalhadores e trabalhadoras décadas, com mais da metade
rurais ou urbanas, em diferen-  Etnia é uma categoria que ser- vivida sob a observação vigilante
tes fases da vida, e também, ve para entender a identidade dos fuzis, percebe-se que o
portadores de uma identidade de um povo. Cada povo tem MSTTR está no caminho da cons-
racial e étnica. seu território, costumes, hábi- trução de uma nova forma de fazer
tos, tradições e formas pró- sindicalismo no Brasil. Está cami-
 Raça é uma categoria que prias de organização social, nhando, aprendendo e aprendendo
serve para definir a identidade política, econômica, bem como a aprender, com a convicção que
racial de uma pessoa ou grupos de convivência com o meio o maior patrimônio político é a
sociais. Esta categoria conside- ambiente. interação com os trabalhadores e
ra as características físicas de Esses consensos, ainda que pri- trabalhadoras rurais de forma
um determinado grupo de mários, dão para a CONTAG uma integral, na perspectiva de cons-
pessoas que são transmitidas certeza, que nesses 40 anos de Luta trução de um projeto de sociedade
de geração em geração, bem e História, a coordenação política baseado na solidariedade, demo-
como sua origem e história de nacional do MSTTR buscou adensar cracia e justiça.

96 - CONTAG 40 ANOS
Aposentados rurais impulsionam o
desenvolvimento de pequenos municípios
Por longos anos os trabalha- oligarquia rural, somente em 1967 Incluiu-se também, o seguro
dores e trabalhadoras rurais foram surgiu a primeira concessão ao acidente de trabalho rural. A
esquecidos pelos governos quando trabalhador rural, com a criação assistência médica era
se trata de seguridade e demais do Fundo de Assistência ao administrada via convênios com
políticas sociais, como saúde e Trabalhador Rural – Funrural, que organizações locais. O
educação. No decorrer desses 40 estabeleceu o desconto de 1% financiamento dos benefícios era
anos, as propostas da CONTAG sobre o valor do produto rural in feito com uma contribuição de 2%
para políticas sociais se modifi- natura, pago pelo adquirente ou sobre o valor da comercialização
caram muito, em compasso com consignatário na sua primeira da produção rural, cujo
as alterações econômicas e sociais operação e, assim, garantia recolhimento ficava a cargo do
do país. assistência médico-hospitalar. adquirente. Além disso, foi
Em 1923, nascia a previdência Quatro anos depois surgia o instituída uma alíquota de 2,4%
no Brasil, depois de mobilizações Prorural, que tornava o trabalhador sobre a folha de salários das
de movimentos operários, o rural beneficiário da previdência empresas urbanas que viabilizou
governo promulgou a Lei Eloi social. A aposentadoria por idade efetivamente a estrutura de cus-
Chaves. A lei permitiu a institui- era restrita ao chefe de família e teio do FUNRURAL. Posteriormen-
ção das Caixas de Aposentadoria correspondia a 30% do salário te (...) houve um acréscimo de
e Pensão – CAP’s. Porém, durante mínimo, sendo 65 anos a idade mais 0,5% na alíquota de contri-
a negociação para aprovação para aposentadoria. O Prorural era buição incidente sobre o valor de
dessa lei, a oligarquia rural que financiado pelo Funrural. comercialização dos produtos
comandava o Congresso Nacional De acordo com o assessor da rurais (totalizando 2,5)”.
impôs que a legislação se restrin- CONTAG, Evandro Jose Morello, O surgimento dessas políticas
gisse ao operariado urbano. Signi- “partir de 1974, foi incluída no ocorreu depois das mobilizações
ficava que, apesar de o trabalha- plano de benefícios a Renda dos movimentos de trabalhadores
dor rural contribuir com sua Mensal Vitalícia para idosos a rurais, como as Ligas Campo-
produção, trabalho e o pagamento partir dos setenta anos de idade nesas e CONTAG. À época, a
de impostos indiretos, não era ou para inválidos, dirigida àqueles CONTAG considerou um avanço,
assegurado, permanecendo priva- que não completassem os porém fez severas críticas, não
do dos direitos mínimos de qual- requisitos estabelecidos para a apenas pela limitação do progra-
quer cidadão. aposentadoria/pensão, também ma, mas também pela utilização
Devido às imposições dessa no valor de meio salário mínimo. política da concessão. O governo,

“E 1923, nascia a previdência no Brasil. Somente em


1967 surgia a primeira concessão ao trabalhador
rural, com a criação do FUNRURAL”.

CONTAG 40 ANOS - 97
“A aposta da CONTAG para modificar a
política previdenciária era a nova Assembléia
Nacional Constituinte”.

ao estruturar o Programa, subme- intensificação das formas de ações desenvolvidas pelos traba-
teu a indicação dos representantes mobilização e pressão por uma lhadores rurais durante a Consti-
daquele órgão a forças políticas nova política previdenciária tuinte, foi na área da Previdência
locais para controlar a concessão iniciaram, de fato, com a eleição Social que ocorreram avanços
dos benefícios. Para ampliar e dos parlamentares constituintes. significativos, inclusive para as
melhorar a qualidade dos serviços O MSTR exigia que trabalha- mulheres que passaram a ser
previdenciários, a CONTAG defen- dores rurais obtivessem os mes- reconhecidas como trabalhadora
dia, que o recurso financeiro para mos benefícios do Regime da rural. O benefício da aposentado-
manutenção da previdência social Previdência Social que desfru- ria passou para o valor de um salá-
deveria ser arrecadado por meio tavam os trabalhadores urbanos. rio mínimo e a idade mínima aos
de impostos, uma taxa de 2% Durante o congresso da CONTAG, 60 anos para homens e 55 para
paralela ao ICMS. em 1985, os delegados aprovaram mulheres.
Para garantir a luta do traba- o anteprojeto de reforma do Uma manobra do governo
lhador rural pelos seus direitos Sistema de Previdência Social, protelou a aplicação dos direitos
básicos de educação, saúde, elaborado pelo MSTR. Ao mesmo dos trabalhadores rurais, em
previdência social, a CONTAG tempo o Governo Federal criou um especial quanto ao valor dos
compreendia que era importante grupo de representantes da socie- benefícios. Passados dois anos da
um programa efetivo de educação dade, o qual a CONTAG integrava, Constituinte, os trabalhadores
formal e não formal com a finali- para discutir propostas para rurais ainda recebiam meio salário
dade de converter o trabalhador reforma previdenciária. A CONTAG mínimo de aposentadoria e as
rural em protagonista da conquista não apostava muito nesse traba- mulheres não conseguiam ser
desses direitos. Em 1969, a lho, como pode ser observado no reconhecidas como trabalhadoras
CONTAG salientava a necessidade jornal O Trabalhador Rural: “cabe para fins de aposentadoria. A
de: ”encontrar um método educa- salientar que as conclusões do gru- FETAG/RS deu o “ponta pé” inicial
tivo de ação, ajustado à realidade po têm caráter de sugestões. Por- nessa luta ao entrar com mandato
dos trabalhadores rurais, tor- tanto, poderão se transformar em de injunção exigindo o efetivo pa-
nando-os capazes de assumir suas anteprojeto ou virem a merecer o gamento do benefício da aposen-
responsabilidades dentro dos mesmo destino que tiveram traba- tadoria rural, no valor de um salá-
quadros sindicais, objetivando a lhos de grupos criados nesses rio mínimo, mesmo sem a regu-
libertação da classe”. últimos 20 anos: a gaveta”. lamentação, já que os prazos cons-
Foi justamente a utilização dos A aposta da CONTAG para titucionais para regulamentação
meios de comunicação existentes modificar a política previdenciária haviam sido desrespeitados. A
e o debate dos trabalhadores que era a nova Assembléia Nacional CONTAG seguiu o mesmo caminho
permitiu a conquista da aposenta- Constituinte. Os dirigentes tinham e impetrou mandato no Supremo
doria por idade e invalidez, auxílio compreensão que para o êxito na Tribunal Federal. Independente
funeral, pensão por morte, conquista das reformas neces- das decisões das esferas federais,
assistência médico, hospitalar e sárias, o MSTR precisava estar o superintendente do INSS, no Rio
social. No entanto, a ampliação e organizado. De fato, de todas as Grande do Sul, determinou o rece-

98 - CONTAG 40 ANOS
bimento dos pedidos de aposen- derações coordenaram mobilizações acompanha a política e o orça-
tadorias com base nos novos direi- de trabalhadores e trabalhadoras mento do setor para todo o País.
tos. Em 1991, o Supremo Tribunal rurais na luta pelo pagamento dos Essa universalização dos bene-
Federal, determinou o pagamento benefícios antigos e pela aceitação fícios, conquistada pelo MSTTR,
da diferença de 50% do salário dos novos requerimentos, espe- para idosos e inválidos de ambos
mínimo, devida aos aposentados cialmente os das mulheres. Em os sexos, com a fixação do piso
no período de 1988 a 1991. 1993, o Ministério da Previdência de um salário mínimo, promo-
Passaram-se três anos sem o Social havia concedido 702.780 veram impactos socioeconômicos
cumprimento da determinação do aposentadorias rurais depois de nos municípios.
STF, foi necessária a intensificação muita pressão e mobilização dos Atualmente, são aproxima-
das mobilizações dos trabalhadores trabalhadores rurais. damente 7 milhões de benefícios
rurais a fim de garantir a implan- Ainda em 93, a CONTAG passou rurais pagos mensalmente pela
tação das novas regras previden- a integrar o Conselho Nacional da previdência social. Segundo o
ciárias. Em todos os estados as Fe- Previdência Social – CNPS, que IBGE, cada benefício pago aos

CONTAG 40 ANOS - 99
trabalhadores e trabalhadoras ru- safra, devido a contingências cado por Evandro José Morello, é
rais beneficia, em média, 2,5 pes- climáticas, o benefício previden- que a Previdência Social chega em
soas que vivem em torno do bene- ciário pode ser considerado como praticamente todos os municípios
ficiado. Isso representa quase 24 uma espécie de seguro agrícola do país e, em mais de 60% deles,
milhões de pessoas beneficiadas garantindo a renda das famílias os valores dos benefícios previden-
direta ou indiretamente. dos produtores rurais e, muitas ciários superam o valor repassado
Evandro Morello esclarece que vezes, servindo como uma fonte ao município a título de FPM – Fundo
“além de ser um eficiente sistema de financiamento da própria de Participação do Município
de distribuição de renda, os bene- agricultura familiar. Refletem (SOLON,2000). São mais de 1,6
fícios previdenciários rurais têm ainda na melhoria da qualidade da bilhões de reais mensais pagos aos
ajudado a fixar homens e mulhe- habitação rural, em aspectos como trabalhadores e trabalhadoras rurais
res no campo diminuindo, assim, construção de casas de alvenaria, que são distribuídos em milhares
o êxodo rural e a conseqüente abastecimento de água, instala- de municípios.
pressão sobre as grandes cidades. ções sanitárias, acesso a energia Cientes dessas mudanças que
Os estudos indicam ainda que, na elétrica e telefone (IPEA,1999)”. impulsionaram o desenvolvimento
época de entressafra ou perda de Outro aspecto relevante, desta- no interior brasileiro e que os tra-

100 - CONTAG 40 ANOS


balhadores rurais não estavam
totalmente assegurados pelo Sustentabilidade:
Regime Geral de Previdência
Social - RGPS, a CONTAG iniciou principal estratégia do
novas articulações para garantir
a participação do trabalhador desenvolvimento
rural no RGPS. De acordo com
a legislação, o prazo para que
os trabalhadores e trabalha- O debate sobre sustentabili- por uma alternativa viável e
doras rurais permaneçam no dade é recente no MSTTR, durante sustentável para a construção do
Regime Geral da Previdência o processo de construção do desenvolvimento rural. Contudo,
Social, tendo acesso aos bene- Projeto Alternativo de Desenvolvi- se faz necessário que a agricultura
fícios previdenciários mediante mento Rural Sustentável – PADRS, familiar e a reforma agrária que
apenas a comprovação do exer- em 1995, o tema entrou na agen- propomos, oriente suas formas
cício da atividade rural, vai até da. O uso racional e adequado dos produtivas e organizativas de
o ano 2006 ou 2011 - há diver- recursos naturais, da necessária modo a incorporar os valores
gências na interpretação da Lei democratização da terra e da água ambientais.
sobre o prazo limite. e, da distribuição das riquezas Neste sentido, o PADRS define
A partir de 1996, a CONTAG internamente integrou os debates a agroecologia como estratégia a
promoveu um amplo debate a do movimento sindical. ser adotada pela agricultura fa-
respeito da contribuição dos A Contag e as Federações par- miliar consolidada ou em processo
trabalhadores e trabalhadoras ticiparam ativamente dos eventos de consolidação, porque esse pa-
rurais para a Previdência Social. nacionais e internacionais sobre drão produtivo, além de significar
Com base nessas discussões a meio ambiente e sustentabilidade, rentabilidade, incorpora valores
CONTAG apresentou, em 2002, com foco prioritário na soberania essenciais da sustentabilidade.
à Câmara dos Deputados, Pro- e segurança alimentar, a exemplo O cuidado com os mananciais,
jeto de Lei nº 6548. Esse pro- da Agenda 21 e demais Fóruns a recomposição de matas ciliares,
jeto foi respaldo por mais de específicos. Essas ações contri- investimento em políticas de
uma milhão de assinaturas re- buíram para uma maior interação saneamento, dentre outras, são
colhidas em todo o território com organizações governamentais medidas essenciais e urgentes. O
nacional sob a coordenação do e não governamentais e serviram MSTTR participa dos debates em
MSTTR. Em sua essência, o Pro- para aperfeiçoar o debate sobre Fóruns específicos que discutem
jeto garante a permanência dos sustentabilidade. a construção de uma legislação
trabalhadores e trabalhadoras A sustentabilidade para a ampla sobre os valores da água e
rurais no regime geral da CONTAG, constitui-se em elemen- sua dimensão como um direito
previdência social, inclusive, to essencial na fundamentação humano.
visando o período de transição para a crítica dos grandes projetos A partir do congresso da
estabelecido na legislação agropecuários, hidrelétricos, ma- CONTAG, em 2001, houve um
previdenciária vigente, que deireiros, dentre outros, que sem- significativo avanço nas reflexões
vincula o direito de acesso aos pre tratam os recursos naturais, e discussões em torno da questão
benefícios previdenciários no equivocadamente, como infinitos. ambiental. Como forma de viabi-
valor de um salário mínimo me- Para a CONTAG, a opção pela lizar a sustentabilidade do PADRS,
diante a comprovação do exer- Reforma Agrária e Agricultura o MSTTR tem buscado construir
cício das atividades rurais. Familiar, reflete essa preocupação junto à sua base uma consciência

CONTAG 40 ANOS - 101


agroecológica, de preservação e A CONTAG atuou também na cem condições de produção em
equilíbrio dos ecossistemas. formulação da Resolução do CONAMA sistemas equilibrados e com redu-
Nos últimos anos, a CONTAG nº 289/01, que trata do licencia- zidos impactos ambientais, são
vem desempenhando um papel mento ambiental, para as áreas de desenvolvidas pelo MSTTR. Exem-
importante junto aos ambienta- assentamentos de reforma agrária, plo, é o “Programa de Desenvolvi-
listas, setores do governo e do importante instrumento de gestão mento Sustentável da Produção
Congresso Nacional, especial- criado pela política nacional do Meio Familiar Rural na Amazônia” -
mente quando faz contraponto às Ambiente, de utilização com- PROAMBIENTE, proposto pelas
posições conservadoras do setor partilhada entre a União, os Estados FETAGs da Amazônia Legal, junta-
patronal da agricultura, que e municípios, com o objetivo de mente com várias organizações
pretende se afirmar como o único regular as atividades e empre- sociais e ambientais. Este pro-
representante do setor produtivo endimentos que utilizam os recursos grama valoriza o caráter multi-
no campo. Um dos momentos de naturais e que podem causar funcional de produção com con-
participação da CONTAG ocorreu degradação ambiental onde se servação do meio ambiente e

“A CONTAG atuou na formulação... que trata do


licenciamento ambiental, para as áreas de
assentamentos de reforma agrária...”

durante o processo de elaboração encontram instalados. oferece a oportunidade de cober-


e negociação da proposta de Esse instrumento proporciona tura dos custos adicionais de ma-
atualização do Código Florestal. ganhos de qualidade ao meio nutenção ambiental e remune-
No Conselho Nacional do Meio ambiente e à vida das famílias ração dos serviços ambientais
Ambiente — CONAMA, a CONTAG assentadas, numa melhor perspec- prestados à sociedade.
defende proposições que dêem tiva de desenvolvimento. Por pres- Como forma de articular as
tratamento equilibrado e adequa- são do governo federal, na gestão experiências positivas que afir-
do às necessidades produtivas dos do Presidente Fernando Henrique mam a agroecologia foi consti-
trabalhadores e trabalhadoras Cardoso, a Resolução foi aprovada tuída a Articulação Nacional pela
rurais. Nesse sentido, está formu- sob ressalvas dos movimentos so- Agroecologia – ANA, que tem a
lando propostas de Resolução para ciais e entidades ambientalistas, participação da CONTAG e o
agricultura familiar que estejam que consideravam que a mesma objetivo de facilitar processos
instaladas em Áreas de Preser- poderia dificultar, ainda mais, a organizativos que permitam,
vação Permanente – APPs, pre- implantação dos assentamentos, desde a base até o nível nacional,
vistas nas Resoluções 302 e 303 assim como não solucionaria as a participação de todos os interes-
do CONAMA. Essa medida visa questões ambientais. Essas previ- sados no avanço da agroecologia
solucionar problemas ambientais sões se confirmaram e os órgãos no Brasil. Espaços como esses têm
nas APPs, como forma de garantir governamentais tiveram dificul- sido importantes para se buscar
o desenvolvimento da agricultura dades em implementá-la. construir a unidade política na
familiar e possibilitar a elevação Algumas alternativas viáveis e diversidade, reconhecendo e valo-
da capacidade produtiva de forma inovadoras de desenvolvimento rizando as experiências concretas
sustentável. rural sócioambiental, que ofere- e as dinâmicas regionais distintas.

102 - CONTAG 40 ANOS


A CONTAG consolida a Política Estratégica
de Relações Internacionais

Nos últimos anos a CONTAG deu todos os eventos internacionais de tre outras, principalmente, nas
um salto qualitativo nas relações contraposição ao modelo neoli- ações voltadas para as relações de
junto a outras organizações nacio- beral. Em Seattle, nos Estados gênero, juventude, meio-ambiente,
nais e internacionais, resultando Unidos; em Johanesburg, na África organização da produção, comércio
na ampliação de alianças estra- do Sul; em Yaoundé, no Camarões; justo, agricultura sustentável.
tégicas. em todas as edições do Fórum Essas ações, na perspectiva de
As filiações à CUT e à UITA Social Mundial, em Porto Alegre e construção da solidariedade interna-
foram fundamentais para ampliar na Índia, buscando construir estra- cional, objetiva articular a luta po-
as relações com outras organiza- tégias comuns em nível global. lítica em defesa do desenvolvimento
ções sindicais no nível nacional e Buscando consolidar essa Política rural sustentável, da soberania e da
internacional, levando para estas, Estratégica, a CONTAG vem estabe- segurança alimentar dos povos em
a necessidade de fortalecerem lecendo relações e parcerias com desenvolvimento. Mas também, atua-
ações em defesa da agricultura entidades e organizações governa- lizar o projeto político do MSTTR – o
familiar e da melhoria das con- mentais e não-governamentais, a PADRS, enquanto uma contribuição
dições de vida e trabalho dos as- exemplo da UITA, Oxfam, ActionAid, do MSTTR na elaboração de uma
salariados e assalariadas rurais. Ebert Stiftun, FAO, IICA, OIT, nova estratégia de desenvolvimento
A CONTAG esteve presente em UNICEF, UNIFEM, FPH, Fredrich, den- global para o campo e para a cidade.

CONTAG 40 ANOS - 103


CONTAG manteve a unidade na adversidade
José Genoíno – Presidente do PT

Precisamos registrar na histó- portância da agricultura familiar. lutas mais gerais da sociedade.
ria vitoriosa da CONTAG, como a Em um país com a nossa di- Contribuiu para a formação de
entidade que organizou e repre- mensão continental e a diversidade lideranças no campo, o que é fun-
sentou os trabalhadores assala- regional, o papel de uma entidade damental para o avanço da par-
riados rurais e pequenos agricul- como a CONTAG é sempre relevante ticipação dos movimentos sociais
tores ao longo dos seus 40 anos. para dar a unidade na adversidade, na luta por reformas e mudanças.
Entre as várias experiências de or- como é a luta dos camponeses. Portanto, a CONTAG conquistou
ganização camponesa, a CONTAG Uma entidade que ao longo um espaço institucional importan-
se destaca e se consagra como a desses anos se desenvolveu pelo te e organizou uma base social
mais permanente e consistente. lado institucional e pelas grandes ampla no campo brasileiro.
Ao longo de sua história colo- mobilizações de massa nas ruas. Por Na relação com os governos
cou na agenda do país a luta pela outro lado, a CONTAG esteve pre- conseguiu administrar negociação
reforma agrária, por uma política sente nos principais acontecimentos com pressão e contribui decisiva-
agrícola que incorpore os pequenos políticos das últimas décadas, nos mente para construção de políticas
proprietários de terra e a im- movimentos democráticos e nas públicas para área rural.

A festa dos 40 anos


Poucas entidades sindicais de trabalhadores Na festa de 40 anos, realizada no mês de no-
tiveram o orgulho de completar 40 anos de vembro de 2003, a Câmara dos Deputados
existência. Coragem, persistência, reconheceu o relevante papel desempe-
obstinação, firmeza são alguns nhado pela CONTAG e prestou uma
adjetivos que bem podem qualificar homenagem singela, mas de especial
esses homens e mulheres que cons- significado, onde os matizes políticos
truíram a história da CONTAG. convergiram para exaltar a sua im-
São 40 anos de embates contra portância para toda sociedade
as forças mais reacionárias da brasileira. Parlamentares comprome-
sociedade brasileira e contra o Es- tidos com a Reforma Agrária e com a
tado que nunca prestou a esses tra- mudança de rumos no modelo econômico
balhadores e trabalhadoras as honras que e nas políticas sociais que atingem de forma
merecem e não lhe reconheceram, na justa me- visceral o dia-a-dia do campo, não deixaram de
dida que fosse, seus direitos. Os momentos de alegria destacar em seus discursos o significado da orga-
não foram concessões e sim conquistas. nização como ponto aglutinador dos ideais daqueles

104 - CONTAG 40 ANOS


que formam um dos mais
aguerridos grupos sociais entre
todos os componentes da vida
nacional
No clima de festa, realizada no
CESIR, a um só tempo aconteceu
a 1ª Plenária Nacional dos
Trabalhadores e Trabalhadoras
Rurais, que finalizou com uma
grande confraternização prestigia-
da por representantes dos mais
diversos segmentos da sociedade.
Placas foram descerradas em
alusão aos 40 anos da CONTAG,
marcando a trajetória de lutas
contra o poder sem limites do
regime militar e a ignorância que
pontuava a vida de uma população
que, por pouco, não perdera suas
referências históricas e a noção
de seu valor como nação.
A festa dos 40 anos reforçou a
proposta do MSTTR: ator da
construção da democracia, pro-
motor da transparência interna e
defensor do pluralismo social. Para
entender o verdadeiro significado
desta postura, basta ver as com-
posições de todas as mesas que
agora se formam a partir das
comemorações dos 40 anos e da
realização da plenária. Nelas,
sempre haverá representantes das
comissões de geração e gênero,
como os idosos, jovens e mulhe-
res - o que nem sempre foi pos-
sível inserir na história das insti-
tuições de caráter sindical brasi-
leiras. Muitos dos homenageados
e homenageadas ilustram as pá-
ginas desta edição, aumentando
e justificando o valor da memória
como ferramenta das lutas que
estão por vir.

CONTAG 40 ANOS - 105


Cronologia da luta
1945 - Fim do Estado Novo – os movimentos sociais Trabalhadores Agrícolas ou “Congresso de Belo
no campo, retomam suas lutas. Horizonte”, com cerca de 1.600 delegados.
1950 - 1º Congresso Camponês de Pernambuco, inicio Jânio renuncia e, o Vice-presidente João
das primeiras discussões sobre Reforma Goulart assume através da Emenda Constitu-
Agrária no Congresso Nacional. cional nº 4, com compromisso parlamentarista.
1951 - O governo do Paraná, sob pressão dos possei- 1962 - Regulamentação da sindicalização de
ros de Porecatu em armas desde 1950, declara trabalhadores rurais.
pela 1ª vez no Brasil, que as terras em litígio - Acontece o 1º Congresso de Trabalhadores
passariam a ser de utilidade pública, para fins na Lavoura do Nordeste, em Itabuna, Bahia.
de desapropriação. Um marco na construção de uma identidade
- 1º Congresso da Federação de Mulheres do regional e nacional, dos trabalhadores e
Brasil, em S. Paulo. A entidade atua nacional- trabalhadoras rurais.
mente, em especial na luta pela paz, até ser - Ocorre o 4º Congresso Sindical com 2.566
fechada pelo golpe de 64. delegados, é fundado o Comando Geral dos
1954 - A II Conferencia Nacional dos Trabalhadores Trabalhadores (CGT), posteriormente, foi
Agrícolas, cria a União dos Lavradores e Tra- esmagada pelo Golpe Militar.
balhadores Agrícolas do Brasil – ULTAB. Defen- Fundação da Federação Estadual dos Traba-
dem o fim do latifúndio e das formas feudais lhadores na Agricultura do Estado de Pernam-
de exploração do trabalho no campo. buco, 06 de junho. Reconhecida pelo Ministério
- Presidente Getulio Vargas se mata com tiro do Trabalho no mesmo ano.
de revólver no peito, no Catete, Rio. - Fundação da Federação Estadual dos
1955 - É criada a 1ª Liga Camponesa em Pernambuco, Trabalhadores na Agricultura do Estado do Rio
no Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Grande do Norte, em 15 de junho. Reconhecida
Antão. Marco inicial da primeira grande onda pelo Ministério do Trabalho em 14 de agosto
de lutas pela reforma agrária no Brasil, até o de 1963.
golpe militar de 64. - Fundação da Federação Estadual dos Traba-
- Fundado o DIEESE (Departamento Intersin- lhadores na Agricultura do Estado de Sergipe,
dical de Estatística e estudos Sócio-Econô- em 18 de junho. Reconhecida pelo Ministério
micos). Terá destacado papel na contestação do Trabalho em 18 de julho de 1963.
da política salarial durante a ditadura militar - Fazendeiros mandam matar João Pedro Tei-
e, nos anos seguintes, na denúncia do desem- xeira, presidente da Liga Camponesa de Sapê,
prego e suas causas.. Paraíba. Durante o enterro 5 mil pessoas com-
1960 - É criado, no Rio Grande do Sul, o Movimento pareceram. João Pedro foi imortalizado no
dos Agricultores Saem Terra – MASTER. filme “Cabra marcado para morrer”.
Inauguração de Brasília, tendo à época, 1963 - Fundação da Federação Estadual dos Tra-
aproximadamente 141 mil habitantes. balhadores na Agricultura do Estado de São
1961 - 1º Congresso Nacional dos Lavradores e Paulo, em 29 de abril. Reconhecida pelo

106 - CONTAG 40 ANOS


Ministério do Trabalho em 17 de setembro do Trabalhadores na Agricultura – CONTAG, no Rio
mesmo ano. de Janeiro, em 22 de dezembro. Reconhecida,
- Fundação da Federação Estadual dos Tra- por meio do Decreto Presidencial 53.517, de
balhadores na Agricultura do Estado da Paraíba, janeiro de 1964.
em 19 de junho. Reconhecida pelo Ministério 1964 - Comício da Central do Brasil pró-reformas de
do Trabalho em 26 de novembro do mesmo ano. base reúne 300 mil pessoas. João Goulart
- Fundação da Federação Estadual dos Tra- anuncia a nacionalização das refinarias de
balhadores na Agricultura do Estado do Paraná, petróleo.
em 20 de julho. Reconhecida pelo Ministério - O Comando Geral dos Trabalhadores – CGT,
do Trabalho em 29 de julho de 1965. anuncia uma Greve Geral pelas reformas de
- Fundação da Federação Estadual dos Traba- base.
lhadores na Agricultura do Estado da Bahia, - Marcha da Família com Deus pela Liberdade,
em 01 de setembro. Reconhecida pelo Minis- uma experiência conservadora de mobilização
tério do Trabalho em 06 de agosto de 1965. de massas, coordenada pela direita brasileira.
- Fundação da Federação Estadual dos Traba- Consolidava-se o ambiente para o Golpe Militar
lhadores na Agricultura do Estado do Ceará, de 1964.
em 19 de setembro. Reconhecida pelo Minis- - João Goulart é deposto pelos militares.
tério do Trabalho em 18 de dezembro do mes- - General Castelo Branco, assume a Presi-
mo ano. dência da República no período 1964 –1967.
- Fundação da Federação Estadual dos Cria o Conselho de Segurança Nacional – CSN,
Trabalhadores na Agricultura do Estado do Rio núcleo real da ditadura militar, extingue os
Grande do Sul, em 06 de outubro. Reconhecida partidos políticos, cassa os mandatos legisla-
pelo Ministério do Trabalho em 24 de agosto tivos por todo o país e intervem em todas as
de 1965. organizações democráticas – sindicatos,
- Fundação da Federação Estadual dos Traba- associações etc.
lhadores na Agricultura do Estado de Alagoas, - Onda de prisões pelo país. Diretoria da
em 10 de dezembro. Reconhecida pelo Minis- CONTAG é destituída e perseguida, seus
tério do Trabalho em 19 de março de 1964. principais dirigentes são presos e exilados,
- Fundação da Federação Estadual dos Tra- dentre esses, Lyndolpho Silva e José Pureza.
balhadores na Agricultura do Estado do Rio de O governo militar, por meio do Ministério do
Janeiro, em 1963. Reconhecida pelo Ministério Trabalho, constitui uma Junta Governativa
do Trabalho em 04 de maio de 1965. para administrar a CONTAG, encabeçada por
- Em plebiscito nacional, o povo diz não ao José Rotta, dirigente sindical paulista.
Parlamentarismo no Brasil. João Goulart - O General-Presidente Castelo Branco promul-
reassume os plenos poderes de Presidente da ga o Estatuto da Terra, Lei 4.504 de 30 de
Republica. novembro, que previa a desapropriação de
- 1ª Convenção Brasileira de Sindicatos Rurais, propriedades que não cumprissem sua função
com 400 dirigentes sindicais, de 17 estados. social.
Promulgado o Estatuto do Trabalhador Rural, 1965 - Fundado o MDB (Movimento Democrático
através da Lei 4.214, de 02 de março. Brasileiro, hoje PMDB), de oposição ao regime
- Trabalhadores rurais assalariados nas Usinas ditatorial de 1964.
de Barreiros, PE, seqüestram o delegado e José Rotta, presidente da Junta Governativa
trocam tiros com a polícia. do Ministério do Trabalho, é eleito para
- Fundação da Confederação Nacional dos assumir a presidência da CONTAG.

CONTAG 40 ANOS - 107


Regulamentação da Sindicalização Rural, por Santa Catarina, em 02 de julho. Reconhecida
meio da Portaria Ministerial nº 71, de 02 de pelo Ministério do Trabalho em 07 de janeiro
fevereiro. de 1969.
1966 - Setores da Igreja Católica passam a ter uma Fundação da Federação Estadual dos
presença maior no campo. Consolidavam-se Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará,
as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, em 30 de dezembro. Reconhecida pelo
fundamentais na formação de quadros para Ministério do Trabalho em 28 de janeiro de
as organizações populares e sindicais no 1969.
campo. Cerca de 10 mil canavieiros entram em Greve,
1967 - Criação do Fundo de Assistência ao na cidade pernambucana do Cabo.
Trabalhador Rural – FUNRURAL, através do José Francisco, apoiado por setores
Decreto-Lei nº 276, de 28 de fevereiro. progressistas do sindicalismo rural e urbano,
Realização do Encontro Nacional dos derrota José Rotta, por 01 voto de diferença,
Canavieiros, em Carpina, Pernambuco, dando tornando-se Presidente da CONTAG.
inicio aos primeiros passos para a retomada 1969 - General Garrastazu Médici, assume a
da CONTAG, da influencia do Ministério do Presidência da Republica, durante o período
Trabalho. de 1969 a 1974. Durante sua gestão, foi
Realização da 1ª Conferência Intersindical, no aprovado o decreto-lei da censura prévia em
Rio de Janeiro. Contando com a participação livros e periódicos. Apesar das denuncias
de dirigentes sindicais portuários, internacionais sobre a tortura de presos
industriários, bancários e dirigentes sindicais políticos no Brasil, manteve-se a forma brutal
do meio rural. Consolida-se o apoio urbano a de governar e eliminar quem discordasse. O
retomada da CONTAG. Presidente, declara no Rio Grande do Sul que
General Costa e Silva, assume a Presidência “o homem não foi feito para a democracia”.
da Republica, durante o período de 1967 a Realização do IV Congresso Estadual de Jovens
1969. Durante sua gestão, o povo viveu o Rurais no Rio Grande do Sul, coordenados pela
momento mais duro e cruel da ditadura Frente Agrária Gaúcha e pela Federação
militar. As organizações estudantis foram Estadual dos Trabalhadores na Agricultura –
dizimadas. 68 municípios foram impedidos de FETAG/RS.
eleger prefeitos, sendo considerados de Realização do III Encontro das Federações do
Segurança Nacional. O governo proíbe qualquer Nordeste, no Rio Grande do Norte.
manifestação pública. 1970 - Fundação da Federação Estadual dos
Fundação da Federação Estadual dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de
Trabalhadores na Agricultura do Estado do Alagoas, em 28 de outubro. Reconhecida pelo
Espírito Santo, em 20 de dezembro. Ministério do Trabalho em 30 de novembro do
Reconhecida pelo Ministério do Trabalho em mesmo ano.
11 de abril de 1968. Fundação da Federação Estadual dos
1968 - Fundação da Federação Estadual dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do
Trabalhadores na Agricultura do Estado de Piauí, em 19 de dezembro. Reconhecida pelo
Minas Gerais, em 27 de abril. Reconhecida pelo Ministério do Trabalho em 22 de novembro de
Ministério do Trabalho em 03 de março de 1971.
1969. - Criação do Programa Nacional do Álcool –
Fundação da Federação Estadual dos PROALCOOL, que só veio a ser implementado
Trabalhadores na Agricultura do Estado de em 1975, como alternativa ao setor automo-

108 - CONTAG 40 ANOS


bilístico, diante da crise do petróleo. democracia no campo se fortalece.
- Fundação da Federação Estadual dos Traba- 1976 - Juscelino Kubitschek morre em acidente de
lhadores na Agricultura do Estado de Goiás, carro na via Dutra.
em 28 de outubro. - Morre do coração, na Argentina, o ex-Presi-
1971- Fundação da Federação Estadual dos dente João Goulart.
Trabalhadores na Agricultura do Estado do Mato 1977 - Assassinato de Eugênio Lira, advogado dos
Grosso, em 23 de outubro. Reconhecida pelo trabalhadores rurais da Bahia.
Ministério do Trabalho em 1972. - 6ª eleição da CONTAG, com a reeleição de
- Criação do Programa de Assistência ao José Francisco a presidência da entidade.
Trabalhador Rural – Prorural. Através da Lei Inaugurada a sede própria do Centro de Estudo
Complementar nº 11 de 25/05/1971 Sindical Rural – CESIR, no Núcleo Bandeirante
- Governo Militar lança o Programa de – DF. Construída com recursos próprios, sem
Redistribuição de Terras – PROTERRA, através nenhuma doação do Estado ou de organizações
do Decreto-Lei nº 1.179 de 06 de julho. internacionais.
- 4ª eleição da CONTAG, sendo reeleito José 1979 - Fundação da Federação Estadual dos Tra-
Francisco, para a presidência da entidade. balhadores na Agricultura do Estado do Mato
1972 - Fundação da Federação Estadual dos Grosso do Sul, em 29 de fevereiro. Reconhe-
Trabalhadores na Agricultura do Estado do cida pelo Ministério do Trabalho em 23 de maio
Maranhão, em 02 de abril. do mesmo ano.
- Mudança da sede da CONTAG do Rio de - Os trabalhadores rurais, legalmente, passam
Janeiro, para Brasília. a ter direito ao FGTS.
- Começou a funcionar provisoriamente em - A Campanha por Anistia Ampla, Geral e
Taguatinga, o Centro de Estudos Sindicais Irrestrita, ganha as ruas do país.
Rurais – CESIR, da CONTAG. - Começa mobilização da 1ª greve dos
1973 - Realização do 2º Congresso da CONTAG, em canavieiros de Pernambuco após 11 anos.
Brasília, com mais de 700 delegados. - Realização do 3º Congresso Nacional dos
1974 - 5ª eleição da CONTAG, José Francisco foi Trabalhadores Rurais – CNTR, em Brasília, com
reeleito para a presidência da entidade. cerca de 1.500 delegados (as).
- General Ernesto Geisel, assumiu a - O Congresso Nacional aprova o fim do
Presidência da Republica, durante o período bipartidarismo (ARENA– MDB).
de 1974 – 1979. Durante sua gestão, os crimes General João Baptista Figueiredo, assumiu a
praticados contra militantes de esquerda Presidência a Republica durante o período de
foram ampliados com requintes de crueldade, 1979 – 1985. Sua gestão foi marcada pela
a exemplo do jornalista Vladimir Herzog. militarização dos conflitos agrários. Criou o
Impõe a sociedade, a eleição indireta para Ministério Extraordinário para Assuntos
governadores e cria a figura dos senadores Fundiários – MEAF, cuja direção coube ao
biônicos, como forma de garantir controle General Danilo Venturini. Criou o Grupo
político. executivo de Terras do Araguaia -Tocantins –
1975 - Fundação da Federação Estadual dos Traba- GETAT, também sob controle militar.
lhadores na Agricultura do Estado do Amazonas, 1980 - Mil pessoas, entre sindicalistas, intelectuais,
em 14 de dezembro. Reconhecida pelo líderes rurais e religiosas, aprovam no colégio
Ministério do Trabalho em 29 de maio de 1976. SION, em São Paulo, manifesto de fundação
- A Igreja Católica cria a Comissão Pastoral da do PT.
Terra – CPT, a luta contra o latifúndio e por Realização da Semana Sindical (25 de abril a

CONTAG 40 ANOS - 109


1º de maio), coordenado pelas Federações e Trabalho em 28 de outubro de 1984.
Sindicatos. Congresso de fundação da Central Única dos
Greves em Minas Gerais e no Nordeste, Trabalhadores (CUT), em São Bernardo, São
mobilizam mais 250 mil trabalhadores rurais Paulo. Jair Meneguelli é eleito o primeiro
assalariados. presidente – fica no cargo até 1994.
José Francisco, presidente da CONTAG; Chico Congresso Nacional da Classe Trabalhadora,
Mendes, dirigente sindical rural do Acre; Luis em Praia Grande. É criado o Conselho Sindical
Inácio da Silva, presidente do PT, Jacó Bittar, para gerir as políticas intercategorias. O
dentre outros sindicalistas e militantes de movimento sindical brasileiro estava dividido
esquerda, foram processados pela Lei de em duas organizações sindicais nacionais.
Segurança Nacional, por participarem de ato Pistoleiros matam a tiros, na porta de sua
contra a morte violente de Wilson Souza casa, Margarida Maria Alves, presidente do
Pinheiro. STR de Alagoa Grande, na Paraíba.
7ª eleição da CONTAG, com a reeleição de José 1º comício pró-diretas, reuniu 10 mil pessoas
Francisco a presidência da entidade. no Pacaembu, em São Paulo.
1981 - 1ª Conferencia Nacional da Classe 8ª eleição da CONTAG, com a reeleição de José
Trabalhadora – CONCLAT, de 21 a 23 de agosto, Francisco a presidência da entidade.
em Praia Grande, São Paulo. Reuniu 5.030 A FASE lança o vídeo, “Cabra marcado para
delegados de 1.126 entidades. morrer”, baseado na historia de João Pedro
1º de outubro, foi o Dia Nacional de Luta, Teixeira, líder da Liga Camponesa de Sapé,
convocado pela Comissão Nacional Pró-CUT. na Paraíba. Com direção do cineasta Eduardo
Foi entregue ao Governo Militar, um manifesto Coutinho.
exigindo o fim do desemprego, da carestia, 10º Encontro do Vale do São Francisco reforça
contra a redução de benefícios da previdência a luta dos trabalhadores rurais de Itaparica.
social, pela reforma agrária, direito a 1984 - Encontro nacional de Trabalhadores Sem Terra,
moradia, liberdade e autonomia sindical e, por religiosos, militantes de esquerda e ONG’s,
liberdades democráticas. de 4 dias em Cascavel no Paraná, fundam o
CONTAG lançou livro sobre “As Lutas MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Camponesas no Brasil”, pela Editora Marco Sem-Terra).
Zero. Plenária Nacional da CUT, em 18 de maio, em
1982 - Encontro Nacional de Avaliação do MSTTR, São Paulo.
com a presença de dirigentes da CONTAG e 1º Congresso Nacional da CUT, de 24 a 26 de
de todas as Federações. agosto, em São Bernardo do Campo, São Paulo.
CONTAG realizou o 3º Encontro Interestadual Com 5.222 delegados (as), foi eleita a direção
de Política Agrícola – Federações do RS, SC, nacional, tendo como presidente, o
PR, SP, ES e MS. metalúrgico Jair Meneguelli.
A sede da CONTAG volta a funcionar na Apesar das mais de 8 milhões pessoas nas ruas
Avenida W-3 Norte, Quadra 509-B, Edifício em 100 dias, a emenda das Diretas não foi
CONTAG, Brasília – DF. aprovada na Câmara Federal. Foram 298 votos
CONTAG realizou o 3º Encontro Nacional sobre a favor, 65 votos contra e, 112 ausências.
Conflito de Terras, em Brasília. Foram 22 votos a menos que os 2/3 exigidos.
1983 - Fundação da Federação dos Trabalhadores na Salário mínimo passa a ser unificado em todo
Agricultura do Estado do Acre, em 07 de o território nacional.
agosto. Reconhecida pelo Ministério do 1985 - Tancredo Neves morre após ser eleito para

110 - CONTAG 40 ANOS


Presidência da Republica durante o período de - I Seminário Nacional de Trabalhadoras Rural,
1985 a 1990. Seu vice-Presidente José Sarney, coordenado pela CONTAG.
assume a Presidência. - A Constituição Federal é promulgada,
- 2 pistoleiros matam com 12 tiros, o dirigente batizada como constituição Cidadã.
sindical João Canuto de Oliveira. A última frase 1989 - 1ª eleição presidencial após 29 anos. Vitória
do líder sindical: “Morro, mas fica a semente”. de Fernando Collor, em segundo turno.
Realização do 4º Congresso da CONTAG, em - Greve Geral de 14 a 15 de março. A CUT e a
Brasília. O Presidente José Sarney, participa CGT, se uniu para a realização desta greve
da abertura do congresso. contra o “Plano Verão”. Cerca de 35 milhões
- Governo Federal cria o 1º Plano Nacional da de trabalhadores (as) aderiram a greve.
Reforma Agraria – PNRA, que passa a ser - A eleição da CONTAG não ocorreu em
objeto de criticas e ataques de setores congresso, conforme deliberação do 4º
conservadores no Congresso Nacional congresso nacional. Foram colocadas urnas nas
- 1ª eleição em congresso da historia da Federações, cabendo um voto por Sindicato
CONTAG, em Brasília. José Francisco foi filiado. Foi eleito Aloísio Carneiro para a
reeleito para a presidência da entidade. presidência da CONTAG.
1986 - 2º Congresso Nacional da CUT, no Rio de - II Seminário Nacional de Trabalhadoras Rural,
Janeiro, de 01 a 03 de agosto. O metalúrgico coordenado pela CONTAG.
Jair Meneguelli foi reeleito a presidência da 1991 - Zélia Cardoso lança o Plano Collor 2, com
central. feriado bancário, congelamento de preços.
1987 - Surge a União Democrática Ruralista – UDR, Realização do 5º Congresso da CONTAG, , com
organização ligada a CNA e a Sociedade Rural mais de 2 mil delegados (as) de todo o país.
Brasileira. Passa a estimular seus associados, Realizava assim, o primeiro congresso em
a usar a força das armas no combate às Brasília temático e eleitoral da historia do
ocupações de terra. MSTTR.
- Paulo Fonteles, advogado dos posseiros do - 4º Congresso Nacional da CUT, de 04 a 08 de
sul no Pará, é morto por um pistoleiro com 5 setembro, em São Paulo, o metalúrgico Jair
tiros na cabeça. Mneguelli foi reeleito a presidência da central.
- É constituída a Comissão Nacional de 1º congresso da Força Sindical, em São Paulo.
Mulheres Trabalhadoras Rurais – CNMTR. Prega um “capitalismo moderno”, privatizante
Greve Geral em 20 de agosto, convocada pela e competitivo..
CUT e CGT. 1992 - O Congresso Nacional, sob forte pressão
1988 - 3º Congresso Nacional da CUT, de 07 a 11 de popular, instaura a CPI para apurar denúncias
setembro, em Belo Horizonte. O metalúrgico contra Fernando Collor.
Jair Mneguelli foi reeleito a presidência da - Começa no Rio a Eco-92, conferência da ONU
central. sobre ecologia, com 114 chefes de estado e
- Fundação da Federação Estadual dos 40 mil ecologistas de todo o mundo.
Trabalhadores na Agricultura do Tocantins, em - O impeachment: foi aprovado por 441 votos
27 de novembro. a favor e 38 contra. Collor teve seus direitos
- Sarney lança o Plano Verão, a moeda passa a políticos suspensos por oito anos.
ser o Cruzado Novo (Ncz$). - O vice-presidente Itamar Franco, assume a
- Assassinado por Grileiros, o sindicalista Presidência da Republica.
acreano, ambientalista e personalidade - III Seminário Nacional de Trabalhadoras
mundial, Chico Mendes. Rurais, pressão no Congresso Nacional,

CONTAG 40 ANOS - 111


garantiu a regulamentação das conquistas das apoio de maioria das Federações.
trabalhadoras rurais. - Assinado o convênio da CONTAG com o INSS,
- Jornada de Lutas dos Trabalhadores Rurais, os sócios (as) aposentados ou pensionistas,
de abril a julho, promovida pela CONTAG, CUT, podem pagar suas mensalidades através de
MST, CPT e outras entidades. Reivindicavam desconto em folha de pagamento.
terra para plantar e morar, credito rural subsi- 1995 - Fernando Henrique Cardoso assume a
diado, salário digno, previdência garantida aos Presidência da Republica.
trabalhadores rurais, dentre outras. - Realização do 6º CNTR, em Brasília, com mais
1993 - Fundação da Federação Estadual dos de 2 mil delegados.
Trabalhadores na Agricultura de Rondônia, em - O Conselho Monetário Nacional – CMN,
20 de junho. aprovou no dia 23 de agosto, a resolução nº
- CONTAG assina convenio com o Banco do 2.191, que institui o Programa Nacional de For-
Brasil, permitindo a cobrança da Contribuição talecimento da Agricultura Familiar – PRONAF.
Confederativa em todos os municípios do país. - Criação do banco de tecnologias do MSTTR,
Congresso Nacional aprovou a Lei Agrária e o o Banco Nacional da Agricultura Familiar –
Rito Sumário da desapropriação para fins de BNAF, a partir de convenio entre a CONTAG e
reforma agrária. a EMBRAPA.
- CONTAG em convenio com a Organização - Criação do Fórum pela Reforma Agrária e
Internacional do Trabalho – OIT, começou a Justiça no Campo, envolvendo organizações
desenvolver o Programa: Erradicação do Tra- sociais e sindicais que atuam no campo,
balho Infantil. Partidos Políticos e, organizações governamen-
- O Nordeste enfrentou a pior seca do século, tais ligadas aos direitos humanos.
mais de 12 milhões de famílias foram atin- - Descoberto aparelho de espionagem dentro
gidas. de tomada elétrica no CESIR, em Brasília.
- A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto A CONTAG e a CUT, realizaram o I Encontro
de lei que institui o pagamento do salário Nacional de Meninos e Meninas Trabalhadoras
maternidade para as seguradas especiais. Rurais, em Brasília.
1994 - Entra em cena o Plano Real (o 6º plano - Chacina em Corumbiara, Rondônia. Policiais
econômico, em 8 anos). Um indexador, a Militares a serviço do latifúndio, executaram
Unidade de Real de Valor – URV, instituída pela com tiros pelas costas, sete trabalhadores
Lei 8880 de 27 de maio de 1994, antecedeu a rurais, inclusive uma criança de 07 anos.
nova moeda. Em 01 de Julho nascia o Real. - CONTAG e FASER, promoveram em Brasília,
5º Congresso Nacional da CUT, em São Paulo. no CESIR, o Seminário Nacional “Agricultura
O metalúrgico Vicentinho foi eleito presidente Familiar e a Extensão Rural”.
da central. - Morre Florestan Fernandes, pioneiro da
- 1º Congresso Nacional Extraordinário da sociologia crítica no país.
CONTAG, em Brasilia. 1996 - No Pará, no município de Eldorado dos Carajás,
- Festa de comemoração dos 30 anos da a Policia Militar assassinou 19 trabalhadores
CONTAG, em Brasília. sem-terra que bloqueavam a Rodovia PA-150.
- A CONTAG realiza o 1º Grito da Terra Brasil – No 4º Grito da Terra Brasil – GTB, coordenado
GTB. Em parceria com a CUT, MST, MAB, CNS, pela CONTAG, em parceria com a CUT e
MONAPE e CAPOIB. organizações sociais, mobilizaram mais de 100
- O candidato a Presidência da Republica Luis mil trabalhadores e trabalhadoras rurais em
Inácio Lula da Silva, visitou a CONTAG e recebe todo o país.

112 - CONTAG 40 ANOS


- Eleita Margarida Pereira da Silva, a Hilda de - Começa a implementação do Programa de
Pernambuco, para um mandato de três anos à Desenvolvimento Local Sustentável – PDLS, em
frente da Coordenação da CNMTR da CONTAG. todos os municípios do país, coordenado
A CNMTR desencadeou uma serie de eventos nacionalmente pela CONTAG.
sobre o papel das mulheres nas eleições - Começa a implementação do projeto “Edu-
partidárias e, nos Congressos das Federações cação em Saúde Reprodutiva, Gênero e Famí-
e da CONTAG. lia”, nos estados do Rio Grande do Norte, Cea-
- A CONTAG, Federação do Rio Grande do Norte rá e Pernambuco, coordenado pela CONTAG.
e ASSOCENE, promoveram o I Salão Nordestino - Realização da 1ª Plenária Nacional das
da Agricultura Familiar, em Natal-RN. Mulheres Trabalhadoras Rurais, com 300
- Lei 9.126, regulamenta a aplicação dos participantes.
Fundos Constitucionais para o credito - Morre Paulo Freire, educador pernambucano,
agrícola, com juros e condições de pagamento com 76 anos.
diferenciado para a agricultura familiar. - Morre Herbert de Sousa, o Betinho, com 62
- 3º Seminário de Avaliação e Planejamento anos, de Aids, no Rio de Janeiro.
do Sistema CONTAG de Comunicação, no - Fundação da Social-Democracia Sindical – SDS.
CESIR, em Brasília. 1998 - Fundação da Federação Estadual dos
- II Encontro Nacional de Meninos e Meninas Trabalhadores na Agricultura do Distrito Federal
Trabalhadoras Rurais, coordenado pela e Entorno, em 28 de junho.
CONTAG, contou com a presença de Lula, Realização do 7º CNTTR, em Brasília, contando
presidente de honra do PT. com mais de 1400 delegados,.
- Realização de 05 Seminários Regionais de 1999 - Fernando Henrique Cardoso assume o 2º
Desenvolvimento Alternativo, identificando mandato presidencial.
recortes regionais do desenvolvimento, - I Fórum CONTAG de Cooperação Técnica, em
começava a ganhar forma o PADRS. Brasília/DF, em agosto, sobre Desenvolvimen-
- Começa a implementação do Projeto CUT/ to Rural Sustentável.
CONTAG de Pesquisa e Formação Sindical, - 2º Congresso Nacional Extraordinário da
importante instrumento na construção do CONTAG, em Brasília, contando com mais de
PADRS. 600 delegados (as).
- Estréia o voto eletrônico, para prefeito de - O programa de rádio “A VOZ DA CONTAG”,
57 cidades. ganha premio por sua luta em defesa dos
1997 - Edição do Decreto 2.250, que delibera que direitos da criança, concedido pelo Instituto
terras ocupadas, não poderão ser objeto de Airton Sena.
vistoria. - Seminário Nacional de Educação do Campo –
- Programa de radio “A VOZ DA CONTAG”, foi Construindo o PADRS, em Brasília, com a
um dos ganhadores do Premio Vladimir Herzog participação de todas as Federações.
de Anistia e Direitos Humanos. - Dia Nacional de Protestos e Paralisação de
- 3º Encontro de Meninos e Meninas Traba- rodovias, contra o modelo de reforma agrária
lhadoras Rurais, em Brasília, coordenado pela implementado pelo governo, sob a coorde-
CONTAG. nação da CONTAG e FETAGs.
- 6º Congresso Nacional da CUT, de 13 a 17 de - 1º Encontro Nacional da Juventude
agosto, em São Paulo. Os 2.266 delegados (as) Trabalhadora Rural, em Brasília, coordenado
reelegeram o metalúrgico Vicentinho para a pela CONTAG.
presidência da CUT. - 1º Encontro Nacional de Trabalhadores e

CONTAG 40 ANOS - 113


Trabalhadoras Rurais Aposentados e Aposen- Agrário – MDA, reivindicação histórica do
tadas, em Brasília, coordenado pela CONTAG. MSTTR.
- CONTAG e Federações lançam o Projeto
Alternativo de Desenvolvimento Rural Susten- 2001 - Realização do 8º CNTTR, em Brasília, com
tável – PADRS, em São Paulo, junto à sociedade mais de 2 mil delegados e delegadas.
civil. Atentados terroristas destroem as torres
- Morre Francisco Julião, líder das Ligas gêmeas do World Trade Center, em Nova York,
Camponesas nos anos 50-60. e parte do Pentágono, em Washington,
- Realização do II Fórum CONTAG de Cooperação deixando 3.300 mortos.
Técnica, em dezembro, em São Luis. Sobre - Os Estados Unidos iniciam bombardeio ao
Processos de Organização de Base, Educação, Afeganistão. Segundo o governo norte-ame-
Gestão Participativa e Políticas Publicas. ricano, o governo afegão estaria protegendo
Osama Bin Laden, principal acusado pelo
Século 21 atentado terrorista.
2002 - Falece o sindicalista baiano e, ex-Presidente
2000 - Fundação da Federação Estadual dos Tra- da CONTAG, Aloísio Carneiro.
balhadores na Agricultura de Roraima, em 02 - O Conselho Nacional de Educação aprova as
de setembro. “Diretrizes Operacionais de Educação Básica
- Marcha Mundial das Mulheres, contra a para as Escolas do Campo”, por meio da
violência e a pobreza, em 130 países. resolução nº 01, de 03/04/2002. Resultado da
- III Fórum CONTAG de Cooperação Técnica, construção coletiva e pressão da CONTAG e
realizado em Porto Alegre/RS, em Julho, sobre organizações parceiras.
Instrumentos de Gestão Participativa, Siste- - Conselho Deliberativo da CONTAG aprova
mas de Gestão para Sustentabilidade da apoio a eleição de Luis Inácio Lula da Silva à
Agricultura Familiar e Estratégias de Gestão Presidência da Republica
para a Inserção da Agricultura Familiar no 2003 - Luis Inácio LULA da Silva assume a Presidência
MERCOSUL. da Republica.
- Marcha das Margaridas – 200 razões para - Marcha das Margaridas – 2003 Razões para
Marchar. Maior manifestação de mulheres já Marchar. Mais de 40 mil mulheres estiveram
ocorridas no Brasil, aproximadamente 10 mil em Brasília, na segunda versão da maior mani-
mulheres marcharam em Brasília, reivindi- festação de mulheres da historia desse país.
cando credito, terra, saúde, educação e inclu- - 8º Congresso Nacional da CUT, de 03 a 07 de
são social, coordenada pela CONTAG e enti- junho, em São Paulo. Com a presença de 2.712
dades parceiras. delegados (as). Foi eleito para a presidência
- 7º Congresso Nacional da CUT, de 15 a 19 de da central, o metalúrgico Luis Marinho.
agosto, em Serra Negra – SP. Os 2.309 - Fundação da Federação Estadual dos Tra-
delegados (as) elegeram o professor João balhadores na Agricultura do Amapá, em 26
Antonio Felício, para a Presidência da CUT. de outubro.
- IV Fórum CONTAG de Cooperação Técnica, - Realização da 1ª PNTTR, de avaliação e
realizado em Recife/PE, em novembro, sobre correção de rumos do MSTTR a partir das
a importância estratégica da Educação do deliberações do 8º Congresso da CONTAG,
Campo para o Desenvolvimento Rural contando com a participação de mais de 600
Sustentável. delegados (as).
- Criação do Ministério do Desenvolvimento

114 - CONTAG 40 ANOS