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Discurso acerca da sabedoria trágica

IA

RETRATO DE um jovem com uma


caveira. Óleo sobre tela, de Frans Hals.
(Foto: REPRODUÇÃO)

ÓLEO SOBRE tela, de Edward Hopper, cuja marca é a obsessão pela


luz do sol, através da qual cria contornos recortados. (Foto:
REPRODUÇÃO)

O espírito tornado livre é mais humano do qualquer outro: ele se


deixa entremear por aquilo que Nietzsche chamou de sabedoria
trágica, a saber, que o mundo vivo do ser humano sempre comportou
e sempre comportará aspectos admiráveis e terríveis, prazerosos e
dolorosos. Isso parece óbvio. Porém, o homem comum, animal de
rebanho, tem ojeriza ao sofrimento: ele o vê como um mal a ser
expurgado da face da terra, a começar pela morte. Nunca se
perguntou por que muitos investem em tratamentos estéticos ou
médicos que prolonguem a vida? Ou por que os medicamentos contra
a dor (de qualquer tipo) encontram sempre um grande contingente
de pessoas ávidas por seus efeitos anestésicos? Nada contra cuidar
de sua aparência ou mitigar a dor. Mas há conteúdos aqui altamente
doentios de uma cultura doentia que nada quer saber da vida em sua
face dolorosa e o que esta percepção nos daria em riqueza sobre o
existir humano. É uma corrida desenfreada para longe das dores do
mundo. Tentativa ingrata e tragicômica de tentar pular sobre a
própria sombra: uma vida agonizante, decadente... Com certeza, não
estou pregando um reles masoquismo de fundo de quintal. A vida
sempre tem aspectos positivos e negativos como vivências que vêm e
vão continuamente. O que tem isso de estranho? É da nossa vida
mesma que falamos. Estar aberto a este devir é cultivar uma
sabedoria trágica (que os gregos antigos haviam compreendido muito
melhor do que nós) que nos torna mais humanos, um dizer Sim! ao
terrível, à dor, ao prazer, à desmesura da vida e o que ela comporta.
Não perceber isso é sobreviver como um arremedo de expectativas e
sonhos apequenados que teimamos em chamar de gente. Uma
existência assim é só uma quimera! O espírito livre tem no existir
trágico seu chão mais condizente para um cultivo mais humano.

O espírito que martela

Por sem mais que humano, o espírito livre não é nem santo nem
salvador. Ele pode ser meio monstro para os espíritos cativos ou
mesmo um palhaço que faz chacota da vida apequenada do animal
de rebanho que, como gado, vai caminhando para o precipício se
para lá o levarem.

Para viver livremente, o exercício da liberdade precisa ser garantido


com um punho que erga o martelo: quebrando para reconstruir; fazer
vibrar um som da destruição que mais parece música para sentir e,
quem sabe, dançar. O que exatamente se pode construir com um
martelo? A música pode vir de tal destruição? A liberdade advém de
tão grande necessidade de destroçar o que antes se tinha como
´verdadeiro´ e ´certo´?

O espírito livre que usa de marteladas não é um espírito somente


destruidor. Nietzsche afirmou que o martelo funciona como um
diapasão: ele, quando é vibrado, emite uma freqüência sonora de
que se servem os músicos para afinarem seus instrumentos. Um
martelo quebra; mas também ajuda na construção de algo. Martelar
é destruir em si todas aquelas miúdas ´verdades´ (geralmente
aquelas que nos empurraram e ainda empurram goela abaixo a
família e o convívio social) em si mesmo. É para fazer música com
aquilo que está no porvir. Mas o que? Um mudança radical de
valores. Nos cumes e no meio do gelo (Ecce Homo, Prólogo, aforismo
3) o espírito livre se sente à vontade: com os pulmões ardendo pelo
pouco ar a respirar, ele subiu ora receoso, ora apavorado, querendo
verdades ainda não apreendidas. Viu como tudo que vivera estava
abaixo de sua liberdade, de sua força, de sua coragem demonstrada
por ter atingido os cumes e respirando o límpido ar das alturas. O sol
está mais próximo; os deuses trágicos circundam emanando a
percepção do devir do mundo e do ser humano. O espírito tornado
livre despojou-se, limpou-se, lavou-se daquilo que foi: do pó, das
pedras, da ´evidência´ do simplesmente e socialmente aceito e das
´certezas´ sem quaisquer questionamentos.

A independência do saber-se estar vivo demole o que se considerava


certo e indubitável. A substância do pensar/dizer do espírito livre faz
dele uma espécie de ´demônio que ri´: ele traz tristeza ao homem
animal de rebanho com seus discursos que trazem aquilo que parece
o mais óbvio e, por isso, ficou no esquecimento, a diferença.

Liberdade

Com a diferença, como definiremos liberdade? Com certeza não é o


mesmo que viver sob um regime democrático, sob a idéia de que o
Estado garante as liberdades individuais. Também não é o mesmo
que, como reza o senso comum, fazer ´o que quiser, quando quiser,
sozinho ou acompanhado, sem dar conta dos atos para nada e
ninguém´. A absurdidade disto é tão óbvia! Mas ninguém está
disposto a abrir mão um milímetro de sua liberdade, mesmo que seja
por um bem maior e melhor para si ou para a coletividade. Vimos
nascer uma cultura de contestação tão estranha e anti-social onde
nem mesmo as leis são obedecidas.

Nietzsche toma outro rumo ao definir liberdade. No Crepúsculo dos


Ídolos (Incursões de um extemporâneo, aforismo 38) o filósofo
afirma que tudo aquilo que nos torna homens apequenados, imersos
em uma avidez de prazer, nivelados para baixo em uma mesmice,
diminuindo nossa vontade de poder, retiram nossa liberdade. Notem
que Nietzsche não gostava das instituições político-sociais de seu
tempo (que ainda é o nosso) que pregavam uma democracia
sinônima de uniformização do homem. Elas não buscavam uma
educação entendida como formação para a diferença individual seja
por meio dos saberes científicos e/ou artísticos, postulados por
Nietzsche. O que estas instituições buscavam (e ainda buscam) é o
homo tecnologicus, o qual somente se especializa em tarefas
mínimas de trabalho a fim de conquistar a ´felicidade´ que seu parco
salário pode proporcionar e a mendacidade do final de semana.

A liberdade não é um conceito advindo da Filosofia Política, nem


tributária das teorias libertárias advindas da Revolução Francesa, mas
um conceito visceral, vivido, guerreiro, pois sob a pressão das
condições mais desfavoráveis que tendem a tornar o homem um
animal de carga similar a todos e indiferente, deve emergir um
espírito muito, muito livre.

Conquista-se a liberdade. Ela não é dada de fora por nada ou por


alguém. Liberdade é guerrear pela vontade de responder a si e por si
mesmo; preservar a distância que nos faz diferentes apesar das
similaridades da espécie, de gosto, de lazer, de trabalho, de opção
sexual, de time de futebol, de classe social ou qualquer outra coisa
que nos aproxime. A felicidade do espírito livre é preservar-se de
qualquer idéia de felicidade que não seja educar-se para ser mais e
mais diferente; ser artista, ser dionisíaco (mas em esquecer-se do
apolíneo que nos marca também profundamente) e não uma
felicidade de bem-estar que status social e monetário pode
pretender. O espírito sempre será guerreiro.

Dito isto pode parecer que esta é uma visão dura de um homem duro
que apenas esbocei aqui. Também não é verdade. Existe a delicadeza
do espírito livre, pois ele não é inimigo de ninguém, seja grupo ou
indivíduo. Não! Ele somente nega e guerreia com as forças reativas
que sugam do homem aquilo que para o qual ele poderia estar
destinado: exercer a afirmação dionisíaca, trágica de uma sabedoria
que lhe está arraigada em seu âmago e que a sociedade
burocratizada e instrumental apenas fê-lo esquecer. O espírito livre
não esquece que esta Filosofia Trágica é também música e dança. Foi
uma opção que ele fez: guerrear pelo que é mais importante e não
ficar somente sentado, toda noite, diante de uma TV, resmungando
em como a vida é injusta com ele. O espírito livre medita e age sobre
o que impulsiona o seu pensar e sua garganta. Ele é exatamente isto:
um humano que pensa seus pensamentos e os comunica. Mais ainda,
age por si mesmo mostrando em si uma liberdade vivida e não um
conceito democrático que, contraditoriamente, vive em uma
sociedade totalitária, e que nos submete cada vez mais.

O espírito livre é leve consigo mesmo! Como uma brincadeira! E não


entenda ´brincadeira´ como algo bobo e cuja importância só as
crianças dão. Veja esta mesma criança: ela está entretida e
concentrada no que faz e, ainda assim, está se divertindo. Em certo
momento, ela pára o que está fazendo, destrói o jogo ou o brinquedo
e começa outra coisa. Tudo de novo. Este exemplo lembrado por
Nietzsche é o mesmo de Heráclito de Éfeso. Contudo, não sejamos
precipitados: conquistar a liberdade não é mera brincadeira, mas sim
para tomar nas mãos a própria existência, uma vez que ninguém vive
e / ou pensa nossa vida em nosso lugar.

Filosofar e pensar
ALERIA
Os mecanismos comunicativos e ideológicos da indústria cultural
tendem a ocupar o lugar do nosso pensar, dizendo-nos o que
devemos considerar importante, além de como e o que devemos
pensar. Tais discussões constituem o interesse dessa edição.

Carlos Roger Sales

Vivemos tempos difíceis quando percebo que ao nosso redor existe


uma série de mecanismos comunicativos (a mídia eletrônica em geral
e principalmente) que tendem a querer responder aos nossos anseios
antes mesmos deles surgirem em nós em forma de perguntas. Se eu
não perguntei, com que direito um outro pode responder por mim?
Ainda nem me dei conta de meus anseios e quais seriam! Será que
não possuo competência suficiente para responder por mim mesmo?
Estes mecanismos comunicativos e ideológicos tendem a ocupar o
lugar do nosso pensar. Já vem de longe a instauração, dentro deste
mundo tecnológico que ´tudo diz´ e ´tudo dá´, uma verdadeira
letargia mental. Lamentável contradição´! E já que ´a televisão me
deixa burro demais´, como cantou o Titãs, porque ela diz claramente
o que pensar, como pensar, quando pensar, ouso perguntar: como
filosofar nestes tempos velozes em que sobrevivemos mais do que
vivemos? Pode-se filosofar? É permitido? Se somos seres racionais,
estas perguntas não seriam, no mínimo, descabidas e uma completa
perda de tempo tentar responde-las? Pensar e filosofar não são a
mesma coisa? Existe, inclusive, a disciplina curricular de Filosofia no
Ensino Médio (e mesmo no Ensino Fundamental em algumas
instituições), nas Universidades e Faculdades. Para que isso? O que
ela pode ensinar já que o ´mais importante´ são as outras disciplinas
preparatórias para o Vestibular? O que os professores fazem numa
aula (esta pergunta me inquieta pelo fato d´eu ser um professor de
Filosofia) que tem tudo para ser ´chata´ como provavelmente são as
aulas de Filosofia? Mesmo com a existência de tais aulas em nossos
colégios, é preciso que a Filosofia subsista? Podemos subsistir sem
ela? Os doutos concordaram na necessidade da Filosofia para o
homem. Mas esta não é a opinião de muitos: eis uma terrível
desinformação sobre a Filosofia. Não serei óbvio: vejamos, portanto,
por que a Filosofia existe e se é ela é necessária.

O pensar não significa pensar em qualquer coisa e de qualquer


maneira. E não é tão difícil como pode parecer. Então ela comporta
certa dificuldade? Como que isso pode ser assim se passo boa parte
do dia pensando no que tenho de fazer, no que fiz (e no que não
devia ter feito), para depois partir para ação? São perguntas simples
que homens simples podem fazer não sem alguma perplexidade.
Aprender a pensar?! Quem pensaria numa tolice e obviedade dessas?
A Filosofia é, infelizmente, vítima de uma péssima propaganda.
Podemos começar a desfazer certas imagens e preconceitos a partir
de suas próprias origens.

É bastante generalizado que a palavra Filosofia (philosophia) significa


amor à sabedoria. Porém, a palavra phílo pode também significar
amante ou amigo. Ora, quem é amante ou amigo não tem seu objeto
de amor ou amizade em plena posse, ou o tem em parte. O convívio,
a proximidade é o apanágio deste amor. Notem bem que filósofo não
é o mesmo que sábio: alguém que detém um saber e, certamente,
em grande medida. Pelo menos, é assim que imaginamos alguém que
seja sábio. Todavia, uma postura mais ´pé no chão´ é bastante
salutar: o filósofo não é um sábio, mas alguém que procura a
sabedoria. Logo, abertura para o aprendizado constante para o que a
existência humana comporta é algo indispensável ao filósofo. Do
exposto, sujeitos que afirmam e se gabam de sua própria sapiência
em sua área de atuação profissional ou de sua experiência de vida
podem ter algo de interessante a nos dizer, mas são pouco abertos a
aprender, bem como a dialogar com os outros.

Dizia eu mais acima que existem dois caminhos para fora da Filosofia.
Por eles muita gente entrou e continua a entrar. Mas isso não afeta a
Filosofia. Antes, afeta o próprio homem! O próprio fato de pensar
sobre a existência (que fazer de minha vida? Como viver feliz? O que
é uma vida feliz? Felicidade existe? Por que existe o sofrer?) fica
comprometido. E nenhum ser humano minimamente consciente pode
escapar de pensar sobre si mesmo de vez em quando. O humano é
um ser pensante por des-natureza. Mas passar a filosofante, isto nem
sempre é possível para ele mesmo. É uma escolha. Se eu não me
perguntar, pelo menos de vez em quando, sobre meu existir, é
porque eu renunciei (ou fui levado a renunciar) a uma parte daquilo
que me faz humano: o de possuir uma mente que me permita refletir
sobre como venho levando a minha vida, e ela em relação aos outros.
A Filosofia é uma senda de interesse neste percurso. Foi sob este
ponto de vista que não pude aceitar a fala da mãe de minha ex-
aluna.

Hegel, filósofo alemão do século XIX, afirmou que a Filosofia pode


partir de qualquer coisa e de qualquer lugar. Simplesmente não
haveria objeto que não se dispusesse a ser pensado e não dispusesse
o pensamento a se perguntar; a se inquietar. Mas como qualquer
coisa ou lugar pode convocar o filosofar, saindo da mesmice
cotidiana?

Perguntar, como qualquer criança faz, é sinal de quem quer saber


para além do que já sabe. Certa humildade necessária ao
questionamento. Porém, exige do sujeito força para confrontar o
conforto das ´noções aceitas´.

Acontece mais ou menos assim: no cotidiano, de vez em quando,


deparamo-nos com situações, ações (nossas ou de outras pessoas),
palavras, fatos sociais, silêncios etc, que nem sempre conseguimos
compreender imediatamente. Percebemos, vagamente, certa
inquietação em nosso íntimo que pede, que solicita de nós um
aprofundamento. Surge o que Platão chama de espanto: quando
encaramos aquilo que nos parecia familiar com certo estranhamento,
convocando-nos a chegar mais perto na compreensão. Um querer
´saber mais´ do que o que já sei ou ´acho que sei´. Esta
´inquietação´ é a nossa ignorância sendo remexida. Surpreendemo-
nos ignorantes... Mas que não deseja mais ser. Daí o incômodo que
é, na verdade, uma provocação. Quando algo provoca nossa
ignorância a este ponto, percebemos saber que pouco ou nada
sabemos. Só assim e então perguntamos. Perguntar é sinal de quem
quer saber mais. Certa humildade necessária ao questionamento.
Esta é a famosa docta ignorantia ou, douta ignorância que nos
convoca a ir mais adiante.

Pensando o estar-no-mundo
GALERIA
Somos humanos e nunca saberemos de tudo. Se duvida, tente...
Portanto, em nosso íntimo somos espíritos incompletos e que a
procura de saber é um sinal de incompletude. O homem é um ser
finito: não porque morre, mas porque não sabe de tudo e nunca
saberá. Passamos por situações que provocam nossa ignorância. Mas
se sou ignorante, então ´só sei que nada sei´. Esta é uma frase bem
conhecida e era um dos lemas de Sócrates, filósofo grego. Por esta
consciência de não saber muita coisa, é que, no templo de Apolo, o
conhecido Oráculo de Delfos o considerou o homem mais sábio da
Grécia.

Tudo isso parece muito bonito, mas e daí? Bom, muita gente, é claro,
prefere não dar vazão àquilo que lhe vem como sobressalto e
inquietude, embora a perceba de vez em quando. A letargia mental e
seus frutos podres advindos de um cultural de massa (produto da
indústria cultural); desinteresse numa formação educacional digna;
da falta excessiva de leitura pelo afunilamento dos interesses (ou o
inchaço de atenção em coisas fúteis) os quais não permitem fixar-se
em nada, fazem com que o homem tão-somente sobreviva em
superficialidades e trate as questões realmente importantes de sua
existência de modo semelhante: superficial e com a ´ajuda´ apenas
do seu senso-comum, locus da tranqüilidade típica de um rebanho.

Então dá para viver sem Filosofia? Claro! Todavia, devo dizer que
quando nos assaltam questões existenciais e seu sentido (e elas
sempre vêm e vão de vez em quando remoendo em nosso íntimo);
quando decisões e indecisões nos afligem; desejos e quereres os
quais refletem nossa vida potencialmente pensante, merecendo de
nós que a pensemos (assim como o pensamento torna-se também
vivo se pensamos a nossa vida), então desde sempre já estamos no
terreno filosófico. Isso se confirma quando percebemos com certa
facilidade que parte de nosso ser abre-se em um certo
desconhecimento sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos
circunda. Até mesmo aqueles que se dedicam a depreciar a Filosofia
se vêem às voltas em construir argumentações para esse fim. Por
incrível que pareça, ao fazerem isso, também estão filosofando!! Ou
seja, pensar a Filosofia, como se estivesse de fora, é entrar ainda
mais nela. Mesmo para desqualificá-la. É o exercício do pensamento
analítico, sintético, crítico e promovedor de alternativas. Pensar é um
atributo utilizável por todos, mas pode ficar emperrado...

Para o vulgo, a vida só tem sentido se for vivida como rotina e como
a prática de seus afazeres diários. Estes, é óbvio, são todos
amparados pelo volumoso arsenal tecnológico que tornam as
existências humanas mais ´confortáveis´. Se o comum dos homens
não sabe o que fazer de sua vida, ele vai aos manuais de auto-ajuda
ou à medicina ou às ciências em geral. Elas ´respondem´ algo para
ele com toda certeza. E se há sempre o que fazer para resolver
´todos os problemas´ sob os auspícios da tecnologia, para que
pensar? Afinal, se aprendemos coisas importantes na escola (e
realmente são) e se somente elas têm serventia para o dia-a-dia, não
há razão para filosofar. ´Ninguém disse que eu tinha de pensar para
viver!! Pensar demais não me deixa viver, ou (o que dá na mesma),
se eu pensar muito, não vivo´. Parece até aquela música do Gabriel,
o Pensador, Retrato de um jovem playboy: ´Minha cabeça tá doendo!
Quem mandou eu pensar?´. A medicina diz que devo me prevenir
para não contrair nenhuma DST. Mas ela não diz como viver minha
sexualidade e que critérios devo criar para vivê-la. Filosofar já ajuda
nisso.Mas se optamos por pensar, seria então uma espécie de tarefa
ininterrupta que estou a sugerir? De modo algum! Ninguém é filósofo
todo tempo. Mas está sob nossa vontade meditar sobre a vida e o
mundo. Só não controlamos a inquietude que, de vez em quando,
nos provoca. Explico-me. O filósofo alemão Martin Heidegger, em
uma célebre conferência intitulada O que quer dizer pensar?,
tentando responder esta pergunta, diz que não sou eu que desejo
pensar, mas qualquer coisa que possa vir a me inquietar; me
provocar. Isso mostra-me o quanto não sei. É esta inquietude que me
põe na pista do saber. Aquilo que mostra minha ignorância, deixa
tenso meu pensamento. Nem a mídia, nem a tecnologia conseguem
me responder tudo o que é importante para mim. É quando percebo
que a tarefa da decisão é só minha e que sempre estou só para
decidir.

Foi nesta mesma conferência que ele afirma que os pensadores são
os filósofos. Não é nada de elitismo. E não se trata somente dos
filósofos reconhecidos como tais. Diz respeito a qualquer um que se
lance nesta tarefa do pensar. Se a Filosofia já caiu em um certo
domínio público, isto é, do leigo, do vulgo, ela pode ser empreendida
por qualquer um que se inspire neste espírito da docta ignorantia. O
que vejo é que, se ela é para todos, ela não é para qualquer um:
nem todos topam a empreitada do filosofar. Já conheci graduados e
mestrandos em Filosofia com mentes enciclopédicas sobre vários
filósofos e seus ditos. Mas eram incapazes de manter um diálogo
filosófico. Havia um apego apaixonado às próprias opiniões. Postura
estranha vinda de... filósofos.

A tarefa do pensamento é como um caminho em que iniciamos das


nossas opiniões pequenas, banais, vulgares (em grego, doxa) na
direção a um saber mais aprofundado de nós e do mundo (em grego,
epistéme). Filosofar é esse caminhar bem junto daquilo que nos
provoca; é perceber o pensamento como uma força, como diz o
Cidade Negra. Uma força que nos coloca mais atentos, mais espertos,
menos ignorantes, menos medíocres...

Com certeza, a Filosofia não é se deixar levar pelo que a maioria das
pessoas pensa, tão preocupadas apenas com suas vidinhas miúdas,
fruindo de seus bens de consumo na esperança de recheá-las como
um peru de Natal. Filosofia é buscar viver bem, em sermos um pouco
mais felizes, ou menos infelizes. A via filosófica é bem outra do que
aquela que o vulgo percorre: a vida filosofante é mais lúcida, mais
racional (o que não quer dizer isenta de paixões), menos dependente
de meras opiniões e mais apoiada em razões realizem sentidos
verdadeiros.

Contudo, sobre esse perigo de sermos influenciados pela opinião da


maioria, Platão já nos alertava no Diálogo Críton. Só porque há certa
unanimidade entre as pessoas sobre diversos assuntos e opiniões,
não quer dizer que aí exista a ´garantia da verdade´. O que o mundo
tecnológico nos diz é que a Filosofia é inútil e o filósofo, alguém que,
por escolha própria, quer ser ´diferente de todos´! Enfim, um sujeito
inútil também... Diferente, é? Como se houvesse alguém igual a
outro...!! Impressionante como esquecemos certas coisas tão
impressionantemente óbvias! Penso que foi Nelson Rodrigues quem
disse que ´toda unanimidade é burra´.

Immanuel Kant, outro grande filósofo alemão, escreveu que não dá


para ensinar Filosofia. Ensina-se a filosofar. Iniciar-se no filosofar não
é, com certeza, ler e decorar os livros de História da Filosofia ou
cursar uma graduação universitária em Filosofia. Isso ajuda. E a
´decoreba´ de manuais qualquer um pode fazer, além de ser
tremendamente enfadonho. Posso dizer com maior propriedade que
estar na Filosofia é estar em um aprendizado voluntário e consciente
do exercício da liberdade de si mesmo e do que se quer. É encarnar o
espírito filosófico. É deixar-se ficar perplexo, espantado com o mundo
e conosco mesmo. E só dá para fazer isso por conta própria.
Interrogando a si mesmo (´conhece-te a ti mesmo´), os outros, o
mundo, a existência, as dores, os prazeres, as paixões, a sociedade,
a política, a religião, a mediocridade, a intolerância, a educação;
enfim, tudo o que o cotidiano não cansa de nos mostrar pela
experiência e o que só imaginamos saber... É óbvio que esta não é
uma caminhada solitária, embora ninguém possa filosofar em meu
lugar. Há os outros filósofos os quais nos ajudam sempre, se nos
dispusermos a trocar idéias com eles ou lê-los (se já tiverem
morrido). E, também, para não ficarmos com aquela falsa certeza de
que acabamos de inventar a roda. Portanto, dialogar sempre é a
receita mais simples e mais eficaz como iniciação e continuidade na
Filosofia.

Urge entrarmos, agora, no empreendimento do pensar o mais rápido


possível, pois uma outra acusação à Filosofia é de que ´ela pensa
demais e faz de menos´. Em contrapartida, o mesmo Heidegger,
mencionado mais acima, nos afirma, categoricamente, que já faz
séculos que o homem já vem agindo demais e pensando de menos.
Eis aqui o desenho de um exercício filosófico: o que lhe vem à mente
e no coração diante de uma afirmação altamente provocadora e
acusadora como essa? Principalmente em nossa época, com seus
valores, com sua tara de empreendimentos nem sempre bem
pensados?