Você está na página 1de 4

Enurese

A enurese é um problema infanto-juvenil que significa o esvaziamento desapropriado e


involuntário da urina pela criança com idade que deveria ser suficiente para controlar os seus
esfíncteres. Este descontrolo acontece durante a infância, afectando principalmente os
rapazes entre os 6 e 7 anos de idade, e, em certos casos, persiste até à puberdade. A enurese
poderá ser primária ou secundária:

 Enurese primária, em que a criança ainda não conseguiu atingir o controlo dos seus
esfíncteres e continua a urinar na cama.

 Enurese secundária, em que a criança depois de ter conseguido por um período


superior a seis meses, volta a urinar-se.

Evitar a vergonha e que o “segredo”seja revelado

A enurese acarreta problemas não só para a criança, mas para toda a sua família. A criança é
afectada sobretudo ao nível psicológico, na sua auto-estima e no desenvolvimento da sua
personalidade, e que irá sofrer um agravamento com o seu crescimento. No plano social, a
criança tende a evitar qualquer actividade que exija passar a noite fora de casa com outras
crianças, receando que o seu “segredo” seja revelado.

Hoje em dia, existem no mercado produtos de higiene infantil que ajudam a minimizar as
consequências da enurese, poupando a criança às situações de vergonha resultante da
exposição pública do seu problema. A criança poderá usar umas cuecas de protecção
nocturna, com um aspecto que não é muito diferente da roupa interior, sempre que tenha que
dormir fora de casa com amigos. Assim, ela evitará os embaraços da cama molhada.

Atitudes gerais

Os pais, educadores e professores deverão evitar toda e qualquer atitude contra-producente,


como ameaças, castigos, humilhações e autoritarismos, geradores de climas de medo e
ansiedade para a criança. Pelo contrário, deverão proporcionar um clima de compreensão, de
ajuda e de apoio, tal como acontece em qualquer situação de doença física. Deve-se evitar que
a situação seja do conhecimento de outras pessoas, uma vez que a criança sente vergonha,
pelo que o “segredo” deve ser partilhado apenas com os seus pais, educadores e professores.
Deve-se actuar mais no sentido de ajudar do que falar do caso com a criança, pois é um
assunto que a faz sofrer. Mesmo perante as maiores sujidades e maus cheiros, deve-se evitar
mostrar qualquer repugnância. Para a criança, a urina e as fezes são algo que vem de si, que é
seu, parte de si, algo muito importante, tão precioso que “oferece” a quem ama, como objecto
de afecto. Para si, não cheira mal, é produzido por si e que lhe dá prazer cheirar. Se perceber
nas outras pessoas, sobretudo nas que ama, sinais negativos, de repúdio, de censura,
quaisquer sinais de nojo, a criança não compreende, ficando confundida e desenvolvendo
sentimentos de culpa.
A actuação dos Pais sobre a Enurese e Encoprese

Cabe aos pais o papel mais importante na aprendizagem da criança do controlo dos
esfíncteres. Eles devem exercer o seu papel em simultâneo no plano da organização
esfincteriana e no plano mais geral do seu desenvolvimento afectivo. Ambos são
indissociáveis, não se podendo pretender, de modo algum, que a criança aprenda a controlar
os seus esfíncteres num ambiente em que não exista afectividade.

Há que ter em atenção que é contraproducente a aprendizagem precoce do controlo dos


esfíncteres da criança, isto é, os pais não devem pretender que o seu filho aprenda demasiado
cedo a conter-se e a pedir para fazer “xixi”, pois, a criança pode ainda não possuir o necessário
desenvolvimento neuro-fisiológico ou, mais importante, pode ainda não ter atingido o
desenvolvimento afectivo necessário que lhe permita fazer o desinvestimento libidinal nas
suas zonas genitais e nas suas micções ou fezes.

A atitude dos pais em relação a esta aprendizagem, mesmo quando a criança se encontra na
idade dita “normal”, deverá ser sempre bastante cuidadosa, uma vez que um comportamento
demasiado coercivo leva a criança a reacções de revolta e de defesa, e um comportamento
demasiado permissivo pode impedir a organização adequada do controlo dos esfíncteres.

Os pais devem saber que a criança que faz “xixi” na cama, fá-lo de forma involuntária, pois não
controla a situação, e não porque seja preguiçosa ou queira chamar à atenção. Por isso, não
faz sentido os pais castigarem a criança ou darem-lhe “sermões”, pois só vai piorar a situação,
agravando os sentimentos de culpa, angústia e frustração da criança. Assim, os pais devem
ajudar a criança a desdramatizar o problema, ajudando-a a enfrentar a situação com
tranquilidade e paciência, e encorajando a criança pelo esforço que está a fazer para
ultrapassar o problema. É muito importantes que os pais procurarem a ajuda profissional de
um médico e um psicólogo.

De modo a criar um certo ritual que leve a criança a ir à casa de banho, por volta dos 2 anos de
idade, a mãe deve colocar um bacio e sentar nele a criança ao mesmo tempo que ela própria
se senta na sanita. Assim, a criança começa a integrar esta associação e, geralmente por volta
dos 3 anos de idade, ela própria começa também a baixar a fralda e, posteriormente, a fazer
no bacio. Desde o primeiro acontecimento em que a criança consiga fazer “xixi” no bacio, a
mãe deve mostrar o seu contentamento batendo palmas, beijando-a e fazendo uma grande
festa, mostrando o “produto” a toda a família, para que todos se mostrem contentes e a
elogiem, pois assim, sairá reforçada a acção conseguida, e a criança saberá que este
comportamento será recompensado.

Dado que a criança possui ritmos de evacuação mais curtos do que os da sua mãe, esta deverá
ter em atenção as horas em que a criança sente necessidade de ir para o bacio, para agir em
conformidade. É relativamente fácil de saber qual é o ritmo da criança. Para isso basta
cronometrar as “molhadelas” e colocar a criança no bacio uns minutos antes do “acidente”,
mesmo que seja necessário acordá-la a meio da noite ou a meio da sesta.

Os pais também podem alterar algumas rotinas do dia-a-dia da criança enurética que ajudem
melhorar a situação. Por exemplo, podem seguir as seguintes medidas práticas:

Não encorajar o uso de fraldas;

Estimular a criança a ingerir líquidos durante o dia para que possa reconhecer a sensação de
bexiga cheia;

Evitar que a criança beba muitos líquidos antes de ir para a cama e garantir que a criança faz o
“xixi” antes de se deitar;

Evitar alimentos que irritem a bexiga ou que causem prisão de ventre, tais como chocolate,
café, refrigerantes;

Proteger o colchão;

Deixar uma luz acesa e escolher o quarto da criança próximo da casa de banho de modo a
facilitar o acesso;

No Jardim de Infância

Geralmente, os Jardins Infantis são frequentados por criança com mais de 3 anos de idade e
que já deixaram as fraldas. Se começarem a acontecer com frequência “acidentes molhados ou
sujos” (enurese ou encoprese secundária), poderá ser um sinal de que aconteceu algum
problema psicológico, pelo que se deverá atuar de imediato, conversando com os pais,
aconselhando-os a procurarem a ajuda profissional de um psicológico. No caso da enurese ou
encoprese secundária, o educador, juntamente com os pais, deverão seguir os conselhos do
psicólogo, de modo a atuarem concertadamente, pois é importante a convergência de todos
os agentes educativos.

É importante referir que os educadores não devem deixar que ninguém se aperceba dos
“descuidos”, de modo a evitar atitudes de repulsa ou de nojo, bem como ameaças, castigos ou
humilhações, não só extensiva à criança enurética ou encoprética, mas a todas as crianças do
Jardim Infantil, uma vez que também elas se encontram ainda na fase de solidificação da
aprendizagem dos hábitos de higiene, não estando nenhuma livre da ocorrência ocasional de
qualquer “acidente”.

O papel do educador na solidificação da aprendizagem dos hábitos de higiene é muito


importante. Ele poderá actuar do seguinte modo:

 Cada criança deverá ter o seu próprio bacio;

 Criar uma rotina, havendo um horário sistemático e considerando-a ao mesmo nível


de qualquer outra actividade educativa;
 Continuar as acções de reforço, gratificando com alegria, palmas, canções ou qualquer
outro modo, aquelas crianças que forem mostrando o “xixi” ou o “coco” acabado de
fazer;

 Gratificar ainda de modo mais intenso aquelas crianças que, fora deste horário,
pedirem para ir ao bacio e mostrarem o que acabaram de “fazer”.

Na criança de 3 aos 6 anos, o ritmo de reflexão da bexiga é muito variável, pelo que o
educador deverá procurar descobrir o horário mais conveniente para as suas crianças, de
modo a que a “actividade educativa do bacio” suceda minutos antes das necessidades gerais.
De um modo geral, há necessidade desta actividades antes do deitar para a sesta e logo a
seguir ao acordar, variando ao longo do dia, de grupo para grupo de criança e espaçando-se
com o evoluir da idade. Há ter em conta que tudo o que causa excitação, alegria, entusiasmo e
movimento, provoca um imediato aumento da secreção da urina, pelo que o educador deverá
ter o cuidado de fazer com que as crianças façam o ritual do bacio antes de festas, danças,
jogos e brincadeiras muito excitantes. Há que ter atenção ainda que essa mesma excitação e
interesse pelas actividades, leva muitas vezes a criança a “esquecer-se de sentir vontade” e às
vezes até nem nota “que se molhou” antes da brincadeira terminar.

O educador deverá desenvolver ainda um programa evolutivo da “actividade colectiva do


bacio” de modo que o fazer no bacio evolua para fazer na sanita colectivamente e, por fim,
para o fazer isoladamente na sanita, fora de um contexto de actividade ao pé de outros.