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Biologia do Câncer

Por Paulo Cesar Naoum

O câncer é uma doença genética porque as alterações ocorrem dentro de genes


específicos, mas na maioria dos casos não se trata de doença herdada.

Em uma doença hereditária, o defeito genético está presente nos cromossomos de um dos
pais (ou em ambos) e é transmitido para o zigoto. Por outro lado, as alterações genéticas
que causam a maioria dos cânceres originam no DNA das células somáticas durante a
vida da pessoa afetada. Por causa dessas alterações genéticas, as células cancerosas se
proliferam incontrolavelmente, produzindo tumores malignos que invadem os tecidos
saudáveis próximos às células tumorais. Durante o tempo em que o tumor permanece
localizado, a doença pode ser tratada com drogas específicas ou curada por remoção
cirúrgica do tumor. Entretanto, os tumores malignos tendem a se disseminarem, cujo
processo é conhecido por metástase, onde grupos de células cancerosas “escapam” da
massa tumoral e atingem a circulação sangüínea ou linfática, e se espalham para outros
tecidos e órgãos, criando tumores secundários. A remoção cirúrgica desses tumores
metastáticos é extremamente difícil, muitas vezes sem sucesso.

 Devido ao seu impacto na saúde e a esperança de que se pode desenvolver meios para a
cura dos cânceres, muitas pesquisas tem sido desenvolvidas ao longo de décadas.
Embora estes estudos tenham resultado em marcante conhecimento das bases celulares
e moleculares do câncer, o impacto dos seus benefícios ainda é pequeno, quer na
prevenção ou no aumento da sobrevida da maioria dos cânceres. Para se ter uma idéia
desse processo, foram realizadas pesquisas sobre os principais casos de cânceres e suas
relações com óbitos, durante todo o ano de 1997 nos Estados Unidos. Por meio desses
dados é possível observar que o tipo mais prevalente de câncer (próstata) é um dos que
menos causa a morte, onde a relação caso/óbito é de 7,73. Os cânceres mais graves cuja
relação caso/óbito é próxima de 1,0 são os que acometem o pâncreas, o cérebro e os
pulmões.
As informações sobre o comportamento das células cancerosas se baseiam em pesquisas
de crescimento celular “in vitro”, usando meios de cultura apropriados. Há grandes
diferenças entre os crescimentos de células normais e células tumorais. As células
normais crescem e se espalham dispostas numa simples camada de células. As células
tumorais crescem desordenadamente em agrupamentos. É, portanto, na disposição do
crescimento celular que se fundamenta a principal diferença entre as células normais e
cancerosas. Por outro lado, a capacidade de crescimento e divisão entre essas células
não é muito diferente. Apesar disso, é importante considerar que ao contrário das células
normais, as células malignas não respondem aos sinais de regulação para cessar o
crescimento e a divisão celular e, assim, se acumulam e transformam-se em tumores.
 
O FENÓTIPO DE UMA CÉLULA CANCEROSA

Um grande número de diferenças estruturais e bioquímicas foi estabelecido entre células


normais e cancerosas. Porém, há diferenças entre as próprias células cancerosas, fato
que torna impossível descrever as propriedades típicas dessas células. O comportamento
das células cancerosas é mais facilmente estudado quando as mesmas crescem em
meios de cultura. As células cancerosas podem ser obtidas por remoção de um tumor
maligno, dissociando-as e isolando-as do tecido, e cultivando-as em meios de cultura
apropriados. Por outro lado, as células normais podem ser convertidas em células
cancerosas por tratamento com substâncias químicas carcinogênicas, radiação e vírus
tumorais. Essas células normais que foram transformadas “in vitro” podem causar tumores
quando injetadas em animais.

As alterações são principalmente observadas dentro dos cromossomos das células


cancerosas, bem como das “células transformadas” em cancerosas. As células normais
mantêm seus cromossomos diplóides direcionados ao crescimento e divisão celular, tanto
“in vivo” quanto “in vitro”. Em contraste, as células cancerosas freqüentemente têm
aberrações cromossômicas, uma condição patológica conhecida por aneuploidia. Assim,
os cromossomos diplóides de uma célula normal podem sofrer lesões, porém, antes que a
célula sofra uma transformação em célula cancerosa, ocorre a ativação de proteínas
específicas da célula que causam a sua eliminação, num processo conhecido por
apoptose. Entretanto, a célula cancerosa freqüentemente falha na estimulação da
apoptose, e dessa forma seus cromossomos se desorganizam com mais intensidade.

As mais notáveis alterações morfológicas que ocorrem no citoplasma de uma célula


cancerosa envolvem o citoesqueleto. Enquanto uma célula normal contém organizada
rede de microtúbulos, microfilamentos, e filamentos intermediários, o citoesqueleto da
célula cancerosa é desorganizado e com redução de conteúdos dessas organelas. Muitas
mudanças morfológicas também são observadas na superfície da célula, incluindo o
aparecimento (ou desaparecimento) de componentes específicos. Algumas células
cancerosas possuem novas proteínas de superfícies, conhecidas por antígenos
associados a tumores, que induzem a formação de anticorpos específicos contra as
células. Porém, quando as ações desses anticorpos se tornam insuficientes, as células
cancerosas crescem em número e se tornam tumorais. Essas mudanças nas superfícies
das células cancerosas alteram-lhes a adesividade para com outras células teciduais bem
como com substratos não celulares (proteínas de adesão). Assim, a perda da adesividade
permite que as células cancerosas se destaquem da massa tumoral e migram para outros
tecidos e órgãos do corpo, cujo processo é conhecido por metástase.

Outras alterações importantes observadas em meio de cultura são as seguintes:

a) locomoção: as células normais deixam de se locomover quando se tornam cercadas


pelas células vizinhas; as células cancerosas ignoram os sinais emitidos pelas células
vizinhas e continuam suas atividades de locomoção;

b) fator de crescimento: as células normais dependem de fatores de crescimento presente


no soro humano adicionado ao meio de cultura; as células cancerosas proliferam na
ausência do soro, pois o ciclo celular não depende dos sinais transmitidos pelos fatores de
crescimento aos receptores de superfície;
c) capacidade de divisão celular: as células normais têm capacidade limitada para divisão,
após um número finito de divisões mitóticas elas sofrem o processo de decodificação que
a impede de crescer e dividir; as células cancerosas são “imortais”, pois se dividem
indefinidamente, devido à presença de telomerase nessa célula.

 
CAUSAS DE CÂNCER
 
A primeira observação de câncer relacionado com agentes ambientais foi feita em 1775
por Percival Pott, um médico inglês, em limpadores de chaminés que apresentavam altas
prevalências de câncer na cavidade nasal e na pele do saco escrotal devido à fuligem.
Posteriormente, com o desenvolvimento científico obteve-se o isolamento químico dos
vários componentes da fuligem, que, ao serem aplicados em animais de laboratórios,
mostraram ser carcinogênicos. Atualmente se sabe que há muitas substâncias químicas
potencialmente carcinogênicas, além de radiações ionizantes e uma variedade de vírus
capazes de estimular o desenvolvimento de câncer. Todos esses componentes tem
propriedades comuns que alteram o genoma.

As principais substâncias químicas carcinogênicas, semelhantes àquelas da fuligem ou da


fumaça do cigarro, podem ser diretamente mutagênica, ou convertida em componentes
mutagênicos por enzimas celulares. Da mesma forma, as radiações ultravioletas, que são
as principais causas de câncer de pele, são também muito mutagênicas.

Determinados tipos de vírus podem infectar células de vertebrados, transformando-as em


células cancerosas. Esses vírus estão divididos em dois grandes grupos: vírus – DNA –
tumorais e vírus – RNA – tumorais, cuja classificação se deve ao tipo de ácido nucléico
encontrado no vírus. Entre os vírus com DNA capazes de transformar células normais em
cancerosas estão os seguintes: polioma vírus, simian vírus 40 (SV40), adenovirus e vírus
herpético.

Os vírus com material genético de ácido ribonucléico ou vírus – RNA têm estruturas
similares ao vírus HIV, e aqueles capazes de causarem câncer estão sempre relacionados
a doenças primárias, conforme mostra a tabela abaixo.

Doença primária do
Câncer relacionado
vírus 
Vírus da hepatite B  Câncer hepático
Câncer cervical e
Papiloma vírus 
Câncer peniano
Vírus Epstein-Barr  Linfoma de Burkitt
Vírus Herpético  Sarcoma de Kaposi
Leucemia Linfocítica
Retrovírus HTLV-1 
T
Os vírus tumorais (DNA ou RNA) podem transformar as células infectadas em células
cancerosas devido à liberação de proteínas virais que interferem nas atividades de
regulação celular relacionadas ao crescimento das células.

Estudos epidemiológicos também mostram a intensa relação entre meio-ambiente e


hábitos das pessoas com câncer. Assim, a poluição ambiental, o tipo de trabalho, em
especial ambientes quimicamente poluídos, e o efeito cumulativo dos compostos e sub-
compostos químicos, estão relacionados como principais causas de câncer. Há o
consenso geral entre os epidemiologistas que alguns ingredientes na dieta, por exemplo,
gordura animal e álcool, podem aumentar o risco de desenvolvimento de câncer, enquanto
que certos componentes de frutas e vegetais podem reduzir o risco de câncer.

A relação entre composto químico e origem de câncer está bem exemplificada pela
aflotoxina B, uma proteína tóxica encontrada em nozes e amendoins, responsável por alta
incidência de câncer hepático em populações asiáticas que consomem este tipo de
alimento. O componente químico da aflatoxina B causa a substituição da base nitrogenada
guanina por timina (G ® T) no códon 249 que faz parte do gene supressor de tumor p53.
 Tabela 2 - Genes supressores de tumores GST relacionados como causas de câncer e
síndromes herdadas.
Tumor
GST Síndrome Herdada
Primário
Polipose
APC Colo-retal  adenomatosa
familiar
Câncer de mama
BRCA-1 Mama 
familiar
Neurofibromatose
NF-1 Neurofibroma 
tipo-1
Neurofibromatose
NF-2  Meningiomas 
tipo-2
p16
Melanoma  Melanoma familiar
(MTS1) 
Sarcomas, Síndrome Li-
p53 
linfomas, etc  Fraumeni
Tabela 3  - Relação entre proto-oncogene, tipo de lesão e tipo de câncer. 
Proto- Lesão não
Neoplasia
oncogene proto-oncogene 
Leucemia mielóide
Abl Translocação
crônica
bcl-2 Translocação Linfoma de células-B
CYCD-1 Translocação Ca de mama
Myc Translocação Linfoma de Burkitt
Ca de ovário e glândula
gip Mutação de ponto
adrenal
Leucemias agudas, Ca
K-ras Mutação de ponto
de tireóide e melanoma
Ca de pulmão, mama e
myc Amplificação
cervix
L-myc Amplificação Ca de pulmão
N-myc Amplificaçào Neuroblastoma
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Pui CH, Behm FG, Christ WM: Clinical and biologic relevance of immunologia marker
Studies in childhood acute lymphoblastic leukemia. Blood 82:323, 1993. 
 
Karp G: Cell and Molecular Biology, 2nd ed., John Wiley & Sons, Inc. New York, 1999. 
 
Sandenberg A: The chromosomes in human leukemia.  Semin Hemat 23: 301, 1996.
Stiene-Martin EA, Steininger CAL, Koepke JÁ: Clinical Hematology, 2nd ed, Lippincott,
New York, 1998.

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