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Brasil e Grau de Investimento na Folha de São Paulo ¹

Resumo: o artigo aborda os mecanismos do campo jornalístico financeiro no jornal


Folha de São Paulo. Além de tentar entender o campo jornalístico financeiro, propomos
analisar sob a perspectiva da Análise do Discurso e das ferramentas metodológicas
propostas por Charaudeau.

Palavras-chaves: jornalismo financeiro, campo e discurso.

Abstract: this article intends understanding the mechanisms of camp of financial


journalism in story País é promovido a grau de investimento by Folha de São Paulo
newspaper in May 1st, 2008. In addition to try comprehending the camp of financial
journalism; we propose analyzing under the perspective of (Análise do Discurso) and
the methodological tools suggested by Charaudeau.

Key words: financial journalism, camp and speech.

1- Acadêmico de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e


orientando da doutora Márcia Franz Amaral.
Introdução
Pretendemos com este artigo discutir alguns fatores que permitem a constituição
do campo do jornalismo financeiro dentro do dispositivo Folha de São Paulo. Além de
tentar identificar o capital simbólico que este campo concede aos seus agentes e às
instituições, já que o capital é a própria lógica do funcionamento do campo. E também
tentaremos entender algumas estratégias no discurso deste campo como código
específico e domínio de um monopólio de agentes especializados.
E mais especificamente, nossa análise pretende se situar em duas dimensões,
uma macro e outra micro, pois compreendemos que o campo do jornalismo financeiro é
um espaço de múltiplas variáveis, sendo importante levar em conta esta multiplicidade
para tentar situar o nosso objeto de pesquisa.
Também consideramos pertinente o objeto de nossa análise na medida em
reconhecemos que o campo do jornalismo financeiro é um universo privilegiado de
significações, principalmente, se pensarmos que estamos localizados num modo de
produção pós-industrial em que o sistema financeiro é o principal vetor de dinamismo
econômico.

As Propriedades do Campo Bourdieusiano

Consideramos o campo sob a perspectiva de Pierre Bourdieu que elenca uma


série de fatores precedentes à formação de um espaço (...) construído na base de
princípios de diferenciação ou de distribuição constituídos pelo conjunto de
propriedades que atuam no universo social (BOURDIEU, 1998: 133). Por conjunto de
propriedades podemos entender os diversos capitais (simbólico, econômico, social)
assegurados pelas instituições que um agente detém para se mover em sociedade.
Um dos princípios de diferenciação de um campo dos restantes do universo
social é o aparecimento de um corpo especializado de agentes. Isto significa o resultado
de uma monopolização da gestão de certos bens (no nosso caso as finanças) por um
corpo de especialistas, socialmente reconhecidos detentores de uma competência
específica necessária a produção de corpus. Portanto, surge uma segunda idéia para a
constituição de um campo que é a constituição de um corpus, isto é, de um código que
serve tanto como princípio de conhecimento quanto de comunicação entre os seus pares.
Seguindo esta lógica, Bourdieu considera que o campo é constituído por agentes
e instâncias capazes de reproduzir a lógica interna do próprio campo na garantia de sua
sobrevivência. Em troca o campo garante um dado capital (econômico, cultural ou
social), sendo o capital a própria lógica de funcionamento do campo. Portanto, o
funcionamento do campo do jornalismo financeiro realiza-se no reconhecimento do
monopólio do capital financeiro, isto é, do capital econômico em si. E a concorrência
pelo monopólio destes bens financeiros, respectivamente, no exercício do poder
advindo deste monopólio serão as tarefas do campo financeiro.
Entretanto, segundo Bourdieu o capital de autoridade (no nosso caso financeiro)
depende da força material e simbólicas de grupos e classes que ela pode mobilizar
oferecendo bens e serviços capazes de satisfazer seus interesses econômicos.
Outro ponto constitutivo do campo segundo a lógica bourdieusiana é que a
conservação e a restauração do mercado de bens (financeiros) só podem ser asseguradas
por um órgão do tipo burocrático que possa exercer de modo duradouro a ação contínua
necessária a reprodução do campo e do seu capital. Assim, a conservação do monopólio
do poder simbólico como autoridade depende da aptidão da instituição que o detém em
fazer reconhecer, por parte daqueles que dela estão excluídos, a legitimidade de sua
exclusão (BOURDIEU, 1974: 61).
Deste modo, já apresentados alguns elementos chaves que vão propiciar a
estruturação de um determinado campo, podemos partir para considerações sobre como
a reportagem apresenta-nos estas características. Pois bem, o elemento primordial na
análise bourdieusiana sobre o campo é o surgimento de agentes especializados e
correspondentemente possuidores do monopólio de código específico de conhecimento
e de comunicação.

Campo Bourdieusiano na Lógica Financeira

Na presente reportagem, País é promovido a grau de investimento, temos a


assinatura de dois jornalistas: Denyse Godoy da reportagem local e de Sérgio Dávila de
Washington. É interessante observar que ao assinar uma matéria o jornal identifica a
notícia e cria o efeito de que não é qualquer pessoa que escreve, mas jornalistas que,
presumivelmente, já possuem certo conhecimento sobre a área financeira. E a assinatura
representa certo ‘capital’ simbólico conquistado tanto no plano jornalístico quanto
financeiro. E não é de qualquer lugar que os jornalistas escrevem, mas da própria Folha
e de Washington, centro do poder político norte-americano. Já verificamos de início as
marcas deste corpo de agentes especializado. Outros sinais da presença destes agentes
especializados são apresentados no segundo, oitavo, décimo segundo parágrafos, nos
quais se identificam Lisa Schineller, diretora de “ratings” soberanos da agência
Standard & Poor’s; Marcela Meirelles, analista para a América Latina da
administradora de recursos americana TCW; do ministro da Fazenda, Guido Mantega e
do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
Além disso, conforme observa Bourdieu, é no porta-voz autorizado cuja fala de
autoridade está submetida em maior grau às normas do decoro oficial do campo.
Portanto, estes agentes especializados falam instituídos de uma dupla autoridade, uma
garantida pela sua capacidade de fala que é a competência de falar legitimamente, ou
melhor, em situações oficiais oferecida pela instância; e uma autoridade vinda de sua
posição dentro do campo. Estas falas, por sua vez, são o produto de um compromisso de
entre um interesse expressivo e uma censura constituída pela própria estrutura do
campo onde o discurso é produzido e também circula. O interesse expressivo pode ser
considerado na lógica bourdieusiana como as possibilidades de lucro material ou
simbólico que as diferentes formas de discurso podem proporcionar aos diferentes
produtores. No nosso caso, as possibilidades de lucro material são substanciais ao setor
financeiro nacional. E a censura consistiria em estratégias de eufemização, que são
parte integrante da própria estrutura do campo que operam sobre o discurso para moldá-
lo segundo um mercado lingüístico que aprecia e avalia os discursos que se conforma às
normas da língua legítima. Ressaltamos também que as estratégias simbólicas mais
refinadas jamais poderiam produzir completamente as condições de seu próprio êxito
(...) caso não pudessem contar com a cumplicidade de todo um corpo de defensores da
ortodoxia (HEIDDEGER apud BOURDIEU, 1996: 151). Ou seja, por mais que
apresentam posições diferentes dentro do campo financeiro, estes agentes reiteram ao
todo momento as suas falas numa cumplicidade explícita ao discurso financeiro.
Há, portanto, um quadro representativo de mais diversas posições dentro de um
mesmo espaço que é o campo do jornalismo financeiro. Como já apontamos que a
lógica do campo é o seu próprio capital e já que o capital do jornalismo financeiro é
capital econômico em si. Cabe ao jornalismo identificar os membros com maior ou
menor capital neste campo e dispô-los segundo esta lógica.
É importante destacar que há a estruturação de um determinado campo é um
processo histórico, portanto está relacionado a uma série de fatores materiais que são
mais ou menos presente em um determinado período. Assim, as instâncias, responsáveis
pela manutenção diária deste mercado de bens financeiros, também são devedoras deste
processo histórico. Pois se pensarmos nas principais instâncias de controle do mercado
financeiro, como o Banco Central e a Bolsa de Futuros só apareceram no país já na
metade final do século XX como apresenta Toledo Filho.
Portanto, como aponta Bourdieu

O processo de constituição de uma instância especificamente


organizada com vistas à produção, à reprodução e à difusão de
bens (...), bem como a evolução (...) no sentido de uma estrutura
mais (...) complexa, se fazem acompanhar por uma
sistematização e de moralização das práticas e das
representações (BOURDIEU, 1974:37).

Neste sentido é existência de bancos comerciais, Bolsa de Mercadorias e Futuros


e de órgãos reguladores deste mercado de bens financeiros são as bases da constituição
das instâncias do campo financeiro. Em seguida, as agências de classificação risco
(S&P, Fitch e Modys) e de imprensa especializadas serão depois de base na qual vai se
construir as instâncias do campo do jornalismo financeiro. Pois as agências de
classificação de risco e a imprensa especializada têm como capital não o capital
econômico em si, como o campo financeiro, mas a representação deste capital
econômico.
Além disso, torna-se necessário compreender como o termo investiment grade
pode reger a lógica da instância. Bourdieu reflete que os denominados ritos de
consagração, de legitimação podem muito bem estar unidos a uma categoria de ritos de
instituição. Falar em rito de instituição é indicar que qualquer rito tende a consagrar
ou legimitar, isto é, a fazer desconhecer como arbitrário e a reconhecer como legítimo
(BOURDIEU, 1996: 98). Isto é, uma classificação de ratings nada mais é que um ato de
consagração segundo uma escolha arbitrária e que se faz reconhecer como legítimo.
Portanto, o próprio termo investment grade carrega em si a força da legitimidade
conquistada pela Agência Standard & Poor’s no campo financeiro.
Com mais precisão temos na lógica do campo do jornalismo financeiro, o capital
simbólico deste capital econômico, pois as agências e a imprensa segmentada têm o
compromisso com as informações e análises que vão interferir no processo do campo
financeiro. As informações deste campo estão sempre baseadas em condições materiais
e decisões que são apresentadas pelas próprias instâncias financeiras.
Assim, o jornalismo financeiro e suas instâncias (agências de risco e imprensa)
servem a lógica de reprodução do campo financeiro, pois atuam na sua conservação do
seu capital e dos grupos ou instâncias que são mobilizados por este campo. Ao
considerarmos as agências de classificação de risco como parte integrante do campo do
jornalismo financeiro, concebemos que o jornalismo como espaço de classificação e
representação do universo social sendo, em ampla medida, o produto de uma imposição
arbitrária, isto é, de um estado anterior da relação de forças no campo de lutas pela
delimitação legítima.
E Bourdieu aponta que o caminho para sair das pré-noções e da ratificação
mistificada e mistificadora das representações, deve ser mostrar o próprio jogo da
disputa de reger a visão de mundo. Sendo assim que o compromisso de uma agência de
risco assemelha-se ao do jornalismo.
As instâncias de jornalismo financeiro estão bem claras na reportagem ao serem
apresentadas no primeiro, segundo, quarto, quinto parágrafos ao serem apresentadas.
Como os exemplos: Concedido ontem pela agência Standard & Poors (linhas 4,5 e 6 do
1° parágrafo); explicou a Folha (negrito deles, linha 8 do 2° parágrafo); Na escala da
S&P (linhas 4 e 5 do 4° parágrafo); A S&P é a maior agência de classificação de risco
(linhas 1 e 2 do 5° parágrafo). Na análise de Bourdieu sobre a estrutura do campo
religioso e do campo político, ele chama atenção que esta estrutura religioso-político
cumpre uma função externa de legitimação da ordem estabelecida na medida em que a
ordem simbólica contribui diretamente para a manutenção da ordem política.
Assim a ordem simbólica na qual se situam as agências de risco e a imprensa
contribui diretamente para a manutenção de uma ordem financeira, pois a) a autoridade
e a credibilidade que as diferentes instâncias do campo do jornalismo financeiro
dependem diretamente do peso dos leitores por elas mobilizados na estrutura das
relações de força entre as classes; b) em conseqüência, a estrutura de relações objetivas
tende a reproduzir a estrutura de relações de força entre as classes, embora sob forma
disfarçada. Entretanto, como alerta Bourdieu que uma ordem estabelecida não significa
que elimina as tensões e os conflitos. O que é bem visível na medida em que o próprio
título da matéria denuncia País é promovido a grau de investimento, aqui o termo
promovido revela um estado de promoção, o que sugere que o país estaria num estado
inferior segundo a lógica financeira e que agora está em condição de ser classificado
como seguro aos investidores externos. O que é uma demonstração flagrante das tensões
dentro do campo estudado.
Consideramos que são dispostas as instâncias por sua importância no campo
financeiro como apresenta os segmentos A S&P é a maior agência de classificação de
risco (4° parágrafo na 1° linha), explicou a Folha (negrito deles, 2° parágrafo na 8°
linha), índice Bovespa (6° parágrafo na 2° linha), TCW (8° parágrafo na 17° linha), FMI
(10° parágrafo nas 5° e 6° linhas), Fazenda (12° parágrafo na 1° linha), Banco Central
(12° parágrafo na 6° linha). Como a lógica do campo é o seu capital, e como o capital
econômico é o capital do campo financeiro, então a ordem de apresentação das
instâncias sugere que as instâncias que apresentam um maior capital econômico são
apresentadas com maior destaque do que outras. E vemos cinco vezes referências a
agência de classificação de risco S&P e apenas uma vez referência ao ministério da
Fazenda, do Banco Central. O que permite entender que o capital econômico de uma
agência de classificação de risco dentro do contexto do campo financeiro é superior a de
agentes e instituições econômicas brasileiros.
Em relação ao código que este campo desenvolve com objetivos de comunicação
e de conhecimento mútuo. E como o código assegura sua legitimidade fora deste
contexto, é importante destacar algumas observações de Bourdieu. O autor defende que
o reconhecimento da legitimidade do código não se dá por mera aceitação de uma
norma, mas se concretiza num estado de disposições que o mercado lingüístico ajusta.
Portanto, o reconhecimento efetua-se no nível das possibilidades de lucro material ou
simbólico que as leis que determinado mercado garante.
Para sermos mais claros, o código financeiro só se torna reconhecido e legítimo
na medida em que há possibilidades de ganhos materiais ou simbólicos que este código
oferece. Assim, o termo investiment grade ou grau de investimento se torna tão
importante ao país na medida em que sugere que através de um capital simbólico
reconhecimento de segurança da economia nacional (o investment grade), o país pode
converter este capital simbólico em capital econômico, pois deve aumentar bastante, a
partir de agora, o volume de recursos de estrangeiros que entram no Brasil tanto para
aplicações financeiras quanto para o setor produtivo (Folha de São Paulo, 1° de maio
de 2008).
Além disso, todas as práticas lingüísticas (ou código) encontram sua medida
com as práticas legítimas (BOURDIEU, 1996: 40). Assim, a legitimidade de um código
como o financeiro apóia-se também na própria idéia de constituição como código, pois
se não fosse legítimo dentro do contexto social sua formação como código estaria no
mínimo comprometida.
Outro ponto a ser destacado da constituição de um código de um determinado
campo como instrumento de poder e de legitimidade, é capacidade deste código
representar e organizar o sistema de diferença sociais, reproduzindo o sistema (...) na
ordem simbólica dos desvios diferenciais (BOURDIEU, 1996: 41). Deste modo, o
código financeiro reflete este sistema de diferenças sociais ao classificar países e
empresas como mais ou menos seguros para investimento e adotar uma escala que
representa de maneira próxima os lugares que estas entidades estão no sistema social.
Se não apresentasse tal similaridade com o sistema social, este código não seria
legítimo.
O código desenvolve também estratégias como instrumento de poder como ao
definir a capacidade de fala de seus agentes. A capacidade de fala refere-se a
competência necessária para falar a língua legítima que por, depender do patrimônio
social, retraduz distinções sociais na lógica propriamente simbólica (...) da distinção
(BOURDIEU, 1996: 42). Portanto, torna-se claro sob a perspectiva bourdieusiana que
as instâncias dos campos selecionam agentes que possam reproduzir este campo, e
logicamente, a seleção destes agentes acontece pelas suas capacidades de fala que
dependem de suas posições ocupadas na estrutura social. Há um circuito de processos
entre agentes, código e campo que se circunscreve e permite a manutenção do campo.
Deste modo, há uma relação entre o sistema de diferenças lingüísticas e o
sistema de diferenças econômicas e sociais (...) acrescenta-se o fato de se lidar com um
universo hierarquizado (...) (BOURDIEU, 1996: 43) que garante sua reprodução, mas
não garante sua perpetuação. Assim, o campo está em permanente luta em disfarçar os
objetivos e princípios do jogo.
E quando os mecanismos do jogo estão expostos, o que acontece? Acreditamos
que o grau de investimento, um dos mecanismos que campo financeiro, desenvolve-se
nesta matéria como principal ferramenta simbólica na qual regra do jogo é o principal
elemento de destaque, o que contraria a lógica bourdieusiana da denegação. E o
processo de denegação consiste em utilizar a linguagem para ocultar os elementos
recalcados, inserido-os numa rede de relações que lhes modifica o valor, mas não a
substância. Aqui se encontra o efeito de ocultamento dos jargões, das expressões que
mascaram as experiências primitivas do mundo social. Mas o que observamos é o seu
contrário, há uma exposição dos elementos da ordem econômica e como estes
elementos são definidores da atividade sócio-histórica.
Entretanto, por estarem nítidos estes elementos da ordem econômica há o que
percebemos uma consagração desta situação. O que percebemos é um sancionar e
santificar um estado de coisas, uma ordem estabelecida, a exemplo do que faz uma
constituição no sentido jurídico-político do termo (BOURDIEU, 1996: 99).
Conforme Bourdieu, os mecanismos de transmissão cultural tendem a garantir a
distribuição desigual de capital cultural entre os sujeitos. O que acontece também
noutros campos é distribuição desigual do próprio capital segundo uma capacidade de
fala que está relacionado às posições dentro da estrutura social. Assim, determinados
agentes de um mesmo campo terão uma maior ou menor legitimidade de sua fala devido
a sua posição no campo e, posteriormente, da posição do campo na estrutura social.
Respectivamente, uma direção de agência de análise de risco assegura ao seu
ocupante um lugar de destaque dentro da hierarquia do campo financeiro, já que uma
agência de análise de risco de investimentos ................, e dentro de uma estrutura
econômica capitalista que privilegia o setor financeiro ao produtivo, ou chamado pós-
industrial, garante ao ocupante deste lugar uma considerável legitimidade de sua fala.

O Campo Financeiro e o Discurso

Agora, tentaremos desenvolver uma análise detida ao discurso em si, isto é, uma
perspectiva micro em relação à análise anterior detida numa perspectiva macro dos
campos sociais.
Segundo Charaudeau a atividade da linguagem tem duas dimensões que são
indissociáveis, uma explícita que é testemunha da atividade estrutural da linguagem,
uma implícita que tem como principal fundamento a significação. Aqui se realiza o jogo
construtor da significação de uma totalidade discursiva que reenvia a linguagem ela
mesma como condição de realização dos signos.
E por último temos a interação explícita/implícita que é testemunha da relação
conflituosa que reside a linguagem. Pois a compreensão total se efetua nestas duas
etapas, uma de definição mesmo que primeira dos referentes, ou seja, confirmada pela
dimensão explícita e depois localizada no conhecimento que se tem das circunstâncias
discursivas de produção (implícita). Deste modo, pensamos que não podemos
determinar a priori o paradigma do signo, justamente porque ele é o ato da linguagem
em sua totalidade discursiva que o constitui a cada vez de maneira específica
(CHARAUDEAU, 1983:19).
Além disso, com esta observação permite medir dois aspectos das condições de
produção e interpretação. O primeiro aspecto é que os conhecimentos do enunciador e
do enunciatário se propõem a engajar há um investimento das práticas sociais. Isto é,
falamos por certas representações coletivas constantemente em função de um
deslocamento das relações interindividuais e intercoletivas. Então, a comunicação vai
depender da suposição que se efetua nos aspectos da produção e recepção.
Neste sentido Charaudeau propõe o núcleo discursivo como uma proposição de
sentido, testemunha de um contrato social que fixa o status semântico do significado.
O ato da linguagem como ato interenunciativo, isto é, em que os ‘eu’ e o ‘tu’ se
produzem. Entretanto, o ‘tu’ não é simplesmente o receptor da mensagem, mas um
sujeito construtor de uma interpretação em função do ponto de vista que ele tem sobre
as circunstâncias do discurso. Conseqüentemente, o ‘tu - intérprete’ não é o mesmo ‘tu
– destinatário’ a qual se direciona o ‘eu’. Deste modo, este tu faz uma interpretação,
reenvia ao ‘eu’ uma imagem diferente do ‘eu’ acreditaria (gostaria) ser.
Inversamente, o ‘eu’ direciona a um ‘tu - destinatário’ que ele acredita (quer)
adequado a sua proposta (uma aposta), e descobre que o ‘tu – intérprete’ não é o mesmo
que ele imaginou (fabricou), e então ele se descobre outro ‘eu’ sujeito falante fabricado
pelo ‘tu – intérprete’. Assim, o ato da linguagem não é mais concebido como um ato de
comunicação resultante da produção de uma mensagem por um emissor direcionada
para um receptor, mas como um encontro dialético (é um encontro que se funda numa
atividade metalingüística de elucidação dos sujeitos da mensagem). O ato da linguagem
vem então ser um ato inter-enunciativo entre quatro sujeitos (e não dois), ligação de
um encontro imaginário de dois universos de discursos não idênticos
(CHARAUDEAU, 1983: 38).
Deste modo, há um duplo ‘eu’, isto é, um ‘eu – enunciador’ que é uma imagem
construída pelo sujeito produtor da palavra que é o ‘eu – comunicante’. Visto pelo
processo de interpretação, o ‘eu – enunciador’ é uma imagem do enunciador construída
pelo ‘tu – intérprete’ como hipótese sobre a intencionalidade do ‘eu- comunicante’
realizado no ato de produção. E o ‘tu - destinatário’ é o sujeito ideal produzido pelo ‘eu
– comunicante’. Deste modo, todo ato de linguagem é uma negociação de estratégias
do ‘eu – comunicante’ e das possibilidades de interpretação do ‘tu – intérprete’
(CHARAUDEAU, 1983: 47).
Assim, com estes aportes de Charaudeau podemos levantar algumas questões
sobre a matéria País é promovido a grau de investimentos, como quais que a
reportagem representa não um mero dispositivo enunciativo, mas o encontro entre os
pólos de produção e de recepção em que os sentidos são organizados pelas duas
instâncias. É um produto em que marcas dos sujeitos da comunicação se fazem
presentes.
Portanto, o presente discurso apresenta-nos os sujeitos de produção (eu -
comunicante, eu – enunciador) e de recepção (tu – destinatário, tu – intérprete) bastante
nítidos. Podemos identificar o eu – comunicante, como o sujeito que seleciona e elabora
certa mensagem pensando num destinatário ideal, então o eu – comunicante seriam
(Agência Standard & Poor’s e Folha SP); tu – destinatário (Economia do Brasil). O tu –
destinatário seria a Economia brasileira, pois o grau de investimento é uma ferramenta
que viabiliza a captação de recursos não só pelo Estado, mas também para o setor
privado. E podemos localizar o eu – enunciador e o tu – intérprete nas presenças de
instâncias, agentes especializados e de um código comum. Segundo Charaudeau, no
discurso encontram-se eu – enunciador e o tu – destinatário, sendo que o eu –
comunicante e o tu – intérprete estão localizados no circuito externo do jogo discursivo.
Por isso, há tanta ênfase no Brasil e na economia brasileira na reportagem, pois eles
representam o tu – destinatário da mensagem. Como nos seguintes exemplos: Brasil
conquistou o chamado grau de investimento (1° parágrafo, linhas 4 e 5); embora o
Brasil continue exibindo alguns do defeitos (3° parágrafo, linhas 1, 2 e 3); o país subiu
um degrau (4° parágrafo, linhas 5 e 6).
Pois bem, o tu – destinatário é uma economia de um país que passa a integrar
uma lista de bom pagador, e o eu – comunicante são duas instâncias (S&P e FSP) que
compartilham da idéia de que essa economia que não era segura para investimentos
externos merece um crédito por sua contínua melhora dos indicadores econômicos (2°
parágrafo, linhas 2, 3 e 4).
E agora devemos localizar o tu – intérprete que é representado pelos agentes
especializados do Brasil (o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central, a
administradora de recursos) que decodificam a mensagem de, deve aumentar o fluxo de
investimentos (12° parágrafo, linha 7 e 8); o Brasil entrou para clube dos países mais
respeitados e sérios (12° parágrafo, linha 3, 4 e 5); o país mostrou que conseguirá se
manter em um caminho positivo (8° parágrafo, linha 5, 6 e 7). E acima de tudo, os
agentes especializados são apenas porta-vozes desta interpretação, pois é nas instâncias
que eles representam que a interpretação é feita sobre a mensagem.
E agora, o eu – enunciador, construção do tu – intérprete sobre o eu –
comunicante, restringe-se a Agência Standard & Poor’s e não mais também sobre o
jornal. O que acaba por demonstrar que o dispositivo jornal acaba por se isentar de
compromisso assumido da notícia, já que ele é participa da seleção e elaboração da
notícia, mas o tu – intérprete cria uma imagem sobre o eu – comunicante que acaba por
excluir o jornal e identifica apenas a Agência S&P. E como Charaudeau alerta-nos que
o eu – enunciador está presente no discurso como nos exemplos: explicou a Folha Lisa
Schineller, diretora de ratings soberanos da agência (2° parágrafo, linhas 8, 9 e 10);
Concedido ontem pela agência Standard & Poor’s (1° parágrafo, linhas 6 e 7).
Podemos entender que este processo de construção dos sujeitos da comunicação
no discurso jornalístico privilegia certa construção do eu – enunciador que não inclui o
jornal como um dos responsáveis pela seleção e elaboração da notícia. E que se torna
uma ferramenta importante nos estudos em jornalismo a identificação destes sujeitos
proposta por Charaudeau para uma análise mais aprofundada do discurso jornalístico. É
no reconhecimento dos sujeitos de produção e de recepção que podemos iniciar nossa
investigação, pois sem saber quais são os sujeitos desta comunicação não podemos
entender em que nível se efetua as relações entre os sujeitos.

Aparelhos Enunciativos

Após localizar os agentes de produção e de recepção do discurso, poderemos


seguir a um detalhamento sobre as estratégias discursivas usadas na presente
reportagem.

Conforme a lógica de Charaudeau, o ato da linguagem é resultante de um jogo


discursivo feito pelos sujeitos com a matéria lingüística semântico-formal que se
organiza em contratos e estratégias da fala. Cada jogo depende de diversas ordens de
organização, da mesma forma que o teatro depende do espaço, da luz, da decoração e
dos lugares e movimentos do atores. Cada ordem de organização compreende muitos
componentes que o definem e o constituem por si, e os componentes da competência
lingüística do sujeito serão usados para construir seu jogo discursivo.
Entendemos quatro ordens da organização do jogo discursivo que determinam
quatro aparelhos lingüísticos. Entretanto, apenas trabalharemos com a ordem
enunciativa que organiza os lugares e o status dos protagonistas do ato da linguagem (eu
e tu). Assim este aparelho chama-se de aparelho enunciativo.

Segundo Charaudeau, os componentes deste aparelho não são um catálogo de


marcas lingüísticas (pronomes pessoais, verbos) nem uma descrição dos atos de fala,
como a fonte corrente temas da filosofia analítica inglesa. Estes componentes são
definidos em termos de comportamentos linguageiros, o que Jakobson chamou de
funções da linguagem. E dentro do aparelho enunciativo investigaremos o aparelho
enunciativo polêmico que se caracteriza por:

- dizer sobre a relação eu - tu (o eu e o tu estão presos diretamente um ao outro).

- dizer sobre o tu que vê imposto mais ou menos diretamente ao universo do


discurso do sujeito enunciador por contrato de execução que obriga o sujeito
destinatário a executar.

- dizer sobre o sujeito enunciador, revelando sua posição de autoridade variável


conforme a classe de modalização que especificará certa posição.

Três grandes classes de modalização podem se especificar este comportamento,


Entretanto, apenas utilizaremos duas:

-o injuntivo que diz que a relação eu-tu é dada pelo sujeito enunciador possuidor
de um status de autoridade absoluta e ao sujeito destinatário um status de submissão.
Esta modalização poderá por si mesma especificada por diversas modalidades do
gênero: ordem, proibição, sugestão, julgamento, aviso, etc.

No caso injuntivo podemos destacar as seguintes passagens: Estamos olhando


para a contínua melhora dos indicadores econômicos do país e os sinais de
comprometimento do governo (2° parágrafo, linhas 2 a 7). O que percebemos nesta frase
é um forte sentido de aviso e julgamento em que a diretora de ratings da Agência S&P
detalha que este processo de elevação do país em investment grade só se deu mediante
uma situação econômica mais favorável ao país, mas que nem por isso deixará de
continuar avaliando o país e o governo, principalmente. Também podemos verificar um
sentido de julgamento em: O endividamento público ainda é grande. (3° parágrafo,
linhas 10 a 12) e A situação fiscal não é perfeita. (3° parágrafo, linhas 15 e 16). A
diretora da Agência assume um status de autoridade absoluta na medida em julga os
fundamentos econômicos do país e ao mesmo tempo em que defini por quais
parâmetros a política econômica deve seguir.

- o descriminativo que diz que a relação eu-tu é interpelativa, dando ao sujeito


enunciador um status de autoridade (o direito de interpelar) e ao sujeito destinatário um
status de sujeito descriminado entre uma representação de indivíduos, designado como
destinatário obrigatoriamente implicado mais ou menos especificado na sua relação com
o sujeito enunciador. Esta modalização será ela mesma especificada pelas diversas
modalidades do gênero: graus de conhecimento, hierarquia social, demonstração de
afeto, etc.

Aqui o efeito de autoridade se dá na medida em que enunciador interpela


(chama) o seu sujeito destinatário implicado na relação, e esta modalização traz marcas
de hierarquia social e grau de conhecimento. Neste caso podemos verificar o seguinte
trecho: Estamos olhando para a contínua melhora dos indicadores econômicos do país
e os sinais de comprometimento do governo (2° parágrafo, linhas 2 a 7), aqui o sujeito
interpelado é o governo, mais precisamente, a equipe econômica, pois não é para
qualquer um que a diretora da Agência S&P dirige sua fala, mas para governo. Como
também em: A situação fiscal não é perfeita, porém existe um pragmatismo na sua
administração. (3° parágrafo, linhas 15 a 18). Quem é o pragmático? Sem dúvida, é o
‘governo’ que deve manter este estilo ao lidar com a situação fiscal. Além de E
reformas, como a tributária, têm que sair. Ademais, é necessário equilibrar a
seguridade social (9° parágrafo, linhas 4 a 7). Quem é interpelado a guiar as reformas
tributárias e da seguridade social? É muito claro que o governo. Estes trechos
demonstram que a situação do governo é de subordinação em relação às definições dos
agentes do campo financeiro.

Segundo Charaudeau, o aparelho enunciativo prevê uma relação na qual o tu se


vê imposto mais ou menos diretamente ao universo do discurso do sujeito enunciador
por contrato de execução que obriga o sujeito destinatário a executar. Assim,
observamos esta relação entre o universo político representado pelo governo federal e o
universo econômico/financeiro representado pela Agência S&P. Uma relação desigual
em termos de capital (simbólico e econômico), em que o campo financeiro exerce uma
autoridade legítima na medida em que reconhecida como legítima pelos despossuídos
deste capital (governo brasileiro).

Conclusão

A partir das análises realizadas entendemos que o discurso do jornalismo


financeiro da Folha de São Paulo, na matéria País é promovido a grau de investimento,
contribui para um favorecimento das classes e instituições com um maior capital
financeiro, isto é, aos agentes internacionais do mercado financeiro e instituições como
a agência de classificação de risco como a Standard & Poor’s. Conseqüentemente,
reforça uma relação desigual de capital (simbólico e econômico) entre agentes com uma
posição privilegiada no campo que é o caso da agência de classificação de risco e de
agentes com uma posição subordinada que é o caso da economia brasileira.

E também podemos apontar que o código financeiro é um código legítimo na


medida em que é reconhecido pelo jornalismo devido ao seu nível de possibilidades de
lucro material ou simbólico que as leis que este campo determina.

Além disso, o jogo discursivo do jornalismo financeiro privilegia uma certa


relação no qual o tu – destinatário e o tu – intérprete se vêem impostos mais ou menos
diretamente ao universo do discurso do sujeito enunciador por contrato de execução.
Isto representa que o investment grade é uma representação do contrato de subordinação
na qual a economia nacional está perante organismos internacionais financeiros.

Bibliografia

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1974.

BOURDIEU. Pierre. Economia da Trocas Lingüísticas. São Paulo: Edusp, 1996.

CHARAUDEAU, Patrick. Langue et Discours. Eléments de sémiolinguistique (Théorie


et pratique). Paris: Hachette, 1983.

FILHO, Jorge R. T. Mercado de Capitais Brasileiro: uma Introdução. São Paulo:


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