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04. Regime Disciplinar Diferenciado (art.

52 da LEP)
a) Natureza e destinatários do RDD
Não se trata de uma nova modalidade de cumprimento de pena privativa de
liberdade, mas uma forma especial de cumprimento de pena no regime fechado,
caracterizado pela permanência do preso em cela individual, limitação do direito de
visita e redução do direito de saída da cela.
Pode apresentar natureza como sendo de sanção disciplinar, no caso de
cometimento de novo crime, conforme o art. 52, caput da LEP, como também de
medida cautelar, no caso do art. 52, §§ 1º e 2º, ao estabelecer a inserção no RDD dos
condenados que apresentem alto risco para a ordem e segurança do estabelecimento
penal ou da sociedade, bem como para aquele em relação ao qual recaiam fundadas
suspeitas de envolvimento em organização criminosa ou associação criminosa (este
último o nomen juris atribuído pela Lei n.º 12.850/2013 ao crime do art. 288 do CP,
antes rotulado de “quadrilha ou bando”.
Apesar dos questionamentos constitucionais sobre a agressão ao princípio
da dignidade da pessoa humana, a submissão à tratamento desumano e degradante (art.
5.º, III, da CF) e a desumanidade da pena (art. 5.º, XLVII da CF), tem se entendido que
não representa em si tratamento vexatório, representando de medidas disciplinadoras,
atendendo ao primado da proporcionalidade entre a gravidade da falta e a severidade da
sanção. Aliados a esses argumentos, o regime atende ao princípio da individualização da
pena, já que possibilita tratamento penitenciário diferenciado a presos desiguais seja
pela prática de falta disciplinar de natureza grave, seja pelo alto risco que representam
para a ordem e segurança dos presídios e da sociedade, seja por seu envolvimento com o
crime organizado.
b) Destinatários
1. Aos presos provisórios ou condenados definitivos que praticarem fato
definido como crime doloso, desde que essa conduta ocasione subversão da ordem ou
disciplina internas (art. 52, caput, da LEP). É necessário que a prática seja considerada
como causadora de tumulto ou conturbada da ordem ou disciplina da casa prisional em
que se encontra recolhido o preso. Em síntese, prejudica a normalidade da unidade
prisional ou implica desobediência ou descaso com as regras existentes e determinações
da administração carcerária (disciplina).
2) Aos presos provisórios ou condenados definitivos, nacionais ou
estrangeiros, que apresentem alto risco para a ordem e a segurança do
estabelecimento penal ou da sociedade (art. 52, § 1º, da LEP). Para inclusão, com clara
cautelaridade, é suficiente que o apenado represente alto risco para a ordem e a
segurança do presídio ou da sociedade.
Para MIRABETE1, esta situação é concretizada, quando:
“A permanência do apenado no regime comum “possa ensejar a ocorrência
de motins, rebeliões, lutas entre facções, subversão coletiva da ordem ou a
prática de crimes no interior do estabelecimento em que se encontre ou no
sistema prisional.”

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MIRABETE, Júlio Fabbrini, Ob. cit., p. 151.
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3) Aos presos provisórios ou condenados definitivos sobre os quais recaiam
fundadas suspeitas de envolvimento ou participação, a qualquer título, em organização
criminosa ou associação criminosa (art. 52, § 2º, da LEP). Com mais uma finalidade
cautelar, seu objetivo preventivo, visando a assegurar o cumprimento da pena em
condições de segurança, tanto do estabelecimento prisional quanto da própria sociedade.
Não se exige prova efetiva, mas fundadas suspeitas produzidas de acordo com os dados
apresentados ao magistrado.
c) Características do Regime Disciplinar Diferenciado (art. 52 da LEP)
As características do RDD estão previstas no art. 52, I a IV da LEP,
consistindo em:
I. Duração máxima de 360 (trezentos e sessenta) dias, sem prejuízo da
repetição da sanção por nova falta grave de mesma espécie, até o limite de 1/6 (um
sexto) da pena aplicada (art. 52, I). Decorrido o tempo, retorna ao regime comum. Caso
haja prática de novo crime, conforme hipótese de subversão da ordem, renova-se por
mais 360 (trezentos e sessenta) dias, desde que no total não seja ultrapassada 1/6 (um
sexto) da pena aplicada.
No caso de apenado incluído no RDD em razão das previsões do art. 52, §§
1º e 2º, há dois posicionamentos:
 Não é possível utilizar a hipótese de repetição do RDD prevista em lei, os
apenados somente poderão ser inseridos nesse regime uma vez, limitada ao tempo de
trezentos e sessenta dias.
 A limitação de trezentos e sessenta dias, referida no art. 52, I, da LEP, é
específica da falta grave, não se aplicando à reposta executória prevista nos §§ 1º e 2º
do mesmo diploma legal, casos em que há de perdurar pelo tempo da situação que a
autoriza, não podendo, contudo, ultrapassar o limite de um sexto da pena 2. Esta é a
posição predominante no STJ.
II. Recolhimento em cela individual (art. 52, II). O Regime Disciplinar
Diferenciado caracteriza-se pelo maior isolamento do preso, estabelecendo-se seu
recolhimento em cela individual a fim de evitar o contato permanente com outros
detentos.
III. Visitas semanais de duas pessoas, sem contar as crianças, com duração
de duas horas (art. 52, III). Limita-se o direito de visita a duas horas semanais,
estabelecendo-se ainda o número máximo de dois visitantes no período. A visitação
deve ocorrer em sala própria, com sistema de comunicação específico, sem que haja o
contato pessoal entre o preso e seu visitante. Por isso, não são permitidas visitas íntimas
ao preso inserido no RDD.
IV. Saída da cela por duas horas diárias para banho de sol (art. 52, IV).
Mesmo sem Sol, devem-se garantir essas duas horas de saída. Outrossim, não é permita
a saída da cela, para trabalho interno. Qualquer trabalho deve ser exercido dentro das
próprias celas.
2
A prorrogação do prazo por período superior a 360 dias, no regime disciplinar diferenciado, limita-se à
hipótese de cometimento de falta grave, não se estendendo para os presos que, não a havendo cometido,
apresentem, todavia, alto risco para a ordem e a segurança do estabelecimento penal, conforme artigo 52,
inciso I, da Lei de Execução Penal. HC n.º 44.049 – SP
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d) Competência para inclusão no RDD (art. 54, caput, da LEP)
De acordo com o art. 54, caput, da LEP:
“Art. 54. As sanções dos incisos I a IV do art. 53 serão aplicadas por ato
motivado do diretor do estabelecimento e a do inciso V, por prévio e
fundamentado despacho do juiz competente.”
No que pese o uso impróprio do termo “despacho”, mas se trata de uma
verdadeira decisão judicial.
Polarizam-se opiniões qual seria o juiz competente:
 Juiz da execução penal (Guilherme de Souza Nucci, Noberto Avena e
Renato Marcão);
 Juiz do processo (Júlio Mirabete).
e) Legitimidade para postular a inclusão no RDD (art. 54, §§ 1º e 2º, da LEP)
No art. 54, no seu § 1.º, lemos:
“§ 1.º A autorização para a inclusão do preso em regime disciplinar
dependerá de requerimento circunstanciado elaborado pelo diretor do
estabelecimento ou outra autoridade administrativa”.
Fica clara a legitimidade dos Secretários de Segurança Pública e os
Secretários da Administração Penitenciária.
No entanto, polemiza-se quanto à legitimidade do Ministério Público. No
favorável, argumenta-se que:
 no exercício das atribuições em matéria de execução criminal é
conhecedor da realidade dos presídios;
 Não se dá interpretação sistemática conceder à autoridade administrativa
a legitimidade, e negar ao membro do Parquet a quem incumbe a
fiscalização da execução penal e oficiar no processo executivo e nos
incidentes da execução (arts. 67 e 195 da LEP).
Nesse mesmo sentido, a propósito, decidiu o Tribunal de Justiça do Rio de
Janeiro3, compreendendo que:
“A iniciativa do diretor do estabelecimento prisional, por certo, não retira
do Ministério Público a legitimidade para requerer a imposição da sanção
disciplinar, no caso de não ser a mesma postulada no processo disciplinar,
por isso que, sendo o órgão incumbido de fiscalizar a execução da pena e
da medida de segurança, não se concebe o exercício deste poder sem a
possibilidade de requerer ao magistrado ministrar as medidas necessárias
à aplicação da lei penal, processual e de execução penal, como, aliás,
infere-se dos arts. 67 e 195 da LEP, perfeitamente harmônicos com os arts.
127 e 129, II, da Carta da República”.
f) Procedimento de inclusão do preso no RDD

3
TJRJ, Processo 2008.076.01135, j. 29.07.2008.
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O procedimento para inserção no RDD é bastante simples, decorrendo do
que dispõe o art. 54, §§ 1º e 2º, da LEP. Com efeito, apresentado o pedido de inclusão
do preso no regime, sobre ele deverão manifestar-se o Ministério Público (caso não
tenha sido o autor do requerimento) e a Defesa. Por interpretação do art. 196 da LEP,
depreende-se que o prazo para cada uma dessas manifestações será de três dias. Após,
caberá ao juiz da execução proferir sua decisão no prazo de quinze dias. Desse
pronunciamento judicial é cabível agravo da execução, com fundamento no art. 197 da
LEP.
g) Inclusão preventiva do preso no RDD (art. 60 da LEP)
No art. 60, caput, da LEP, encontramos a possibilidade de inclusão
preventiva:
“Art. 60. A autoridade administrativa poderá decretar o isolamento
preventivo do faltoso pelo prazo de até dez dias. A inclusão do preso no
regime disciplinar diferenciado, no interesse da disciplina e da
averiguação do fato, dependerá de despacho do juiz competente.”
[destacamos].
Tal inserção, conforme se infere do dispositivo, não pode ultrapassar o
prazo de dez dias. Com o esgotamento desse prazo, cabe ao juiz proferir a decisão
definitiva de inclusão do preso no regime, ou, não sendo esse o caso, restabelecer sua
condição normal de segregado.
Neste caso, o contraditório e a ampla defesa serão diferidos, ou seja, após a
determinação da medida, cabe ao juiz possibilitar a manifestação do Promotor de Justiça
e da Defesa Técnica, não sendo possível, sob pena de nulidade absoluta, proferir a
decisão definitiva sem que isso seja oportunizado.
A inclusão preventiva do preso no RDD deve justificar-se no interesse da
disciplina e da averiguação do fato (sua efetiva ocorrência e autoria).
Ressalte-se ainda que tal inclusão não é cabível apenas na hipótese versada
no art. 52, caput (falta grave consistente na prática de crime doloso), podendo ser
decretada também em relação às hipóteses previstas no art. 52, § 1º (alto risco para a
ordem ou segurança do estabelecimento prisional e da sociedade) e § 2º (fundada
suspeita do envolvimento em organização criminosa ou associação criminosa).

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