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Paul Ricoeur Tempo e Narrativa

2 . A configuração do tempo na nar ra tiv a d e fic ç ão

Trad u ç ão

MÁ R C I A VAL É R IA MARTI NEZ D E A GUI AR

~

Re v isão d a t r aduç ão

CLAU DI A BE RLI N E R

~

wmjmartinsfontes

SÃO P AU L O 20 I O

172

TEMPO E N A RRATNA

Em s u ma, as duas n oções de pon t o de vis t a e d e voz são

tão soli d árias q u e se tor n a m in d i s c erníveis. Não f alt am a n á l i- ses e m L o t man, B ak ht in, Us p e n sk i , qu e p ass am sem tran s i ção

d e u ma à o u tra. T r a t a - se f u n d amen t a l me nt e de um a ún ic a

fu

n ção consi d er ad a so b o â n g ul o de du a s q u est ões di fe r e nt es.

O

po n to d e vis t a respo nd e à q u es t ão: de onde ve m os o q u e é

m

ost r a d o p elo fato d e ser na r rado? E, assi m, d e o n de se fa l a?

A

voz res p o nd e à q u es t ão: quem fa l a a qui? Se não qu i sermos

se

r iludi dos p e l a me t áfora da v i são, nu m a narra ti va em q u e

tu do é co nt ado e na q u a l fazer ver pelos o l hos de u m p e r son a-

gem é , segu nd o a a n álise qu e faz A ri s t óte l es da léxis (e l oc u ção,

d i cção), "coloca r so b os olhos", ou se j a, tra n sfor m ar a com-

p ree n são e m qu ase i nt u i ção, en t ão é prec i so co n si d erar a v i são como um a concre ti zação da comp r eensão e, portan to, parado-

4. A EXPERIÊNCIA TEMPORAL FICTÍCIA

xa

l mente, como um a n exo da esc ut a " .

 

A dis ti nção en t re a e n u n ciação e o en un cia d o no i nt er i or

 

D

esse modo, uma única diferença su b s i s t e e n tre ponto d e

vista e voz: o pon t o de vis t a a i nda faz par t e de um pro bl e m a

da n a r ra t iva fo rn ece u , ao longo do capít u l o p rece d e nt e , u m quadro a p ropriado para o estu d o dos j ogos com o t emp o , s u s -

de composição (como v i mos com Uspe n ski) e, por t an t o, ai n da

C itados. p e lo desdobramen t o, p a r a l e l o

a e .ssa diSti n ~ . ão, en t re o

l

con t i n ua n o campo de i nvest i gação da co nfi guração n arra t iva;

1

- ~ n po S i u e se l eva para j jarrar e

Q . !emI 2Qpa ~ ço i s ª s n arradas.

V

a

voz, em cont r apart i da, j á fa z par t e dos prob l emas d e com u -

Ora, a aná li se dessa es t r utu ra t e mp ora l de caráter r ef l exivo fez

n

ic a ção , n a m ed id a e m que é d ir igi da a um l eitor; sit u a-se as-

surg i r a n ecessid ade d e dar como finalidade a esses jogos com

l i mia r que co ndu z da primeir a prob l emá tica à segunda , n a m e-

d i da em que a experiênc i a d o t e mp o em ques t ão aq ui é uma

ex pe ri ê ncia fictícia qu e tem co m o h o r izon t e u m m undo i m agi-

n ário' que co nt i nu a se nd o o mundo do texto. Apenas a co n f r o n -

sim n o pon t o de tra n sição e nt re co nf ig u ração e r ef i guração, na

o t e m po a tarefa d e articul ar um a experiência do t emp o q u e se -

m ed i da e m que a le i t u ra marca a in t ersecção en t re o mund o

ria o q ue está em j ogo n esses j ogos. Co m i sso, a brimos o cam-

do t exto e o mun d o do l ei t or . São precisamente essas d u as

po a u ma i n vesti gação q u e aprox ima os p ro bl emas d e conf i gu -

f un ções qu e s ã o i n t er c a m biáveis. Todo ponto de vista é u m

ração narra t iv a aos d e refi guração do t empo pe l a na r ra t iva.

con v it e fei to ao l ei t or p ara q ue d i ri j a se u ol ha r na m esm a di re- ção q u e o au t or ou o perso n agem; em con t rapa rt i d a , a voz nar -

é a fala m u da q u e ap r esenta o m u ndo do t ex t o ao l e it or;

co m o a voz que se dir i gia a Agos tinh o n a h ora d a co n versão,

e l a d i z : "Tolle! Lege!" P ega e lê ! 92

rat iva

Cont u do , essa in ves t igação n ão u ltra p assará, no mo m e n to, o

9 1 . Voltarei, no úl t imo capí tul o d a q uar t a pa r te, ao pape l dessa quase i n - tu ição na f i cc i ona li z ação da h istór i a.

92 . So b re a leit ur a como respos t a à voz n ar r a t iva do t ex t o, Mario Val d é s, Sha-

dows in the Cave, op. cii., p . 23 : o t ex t o será d i g n o d e con f i ança q u an d o a voz f ic t í- cia també m o for (p. 25). A qu es t ão reveste u r n a u rgê n c i a par ti cular no caso d a p a - ród i a . A paródia ca r acterística d e Dom QuL-rote deve f i na lm en t e poder ser iden ti f i - cada por s in a i s não enganadores. Essa " h a b il i dade" do t ex t o, enunc i ada p e l a voz na r ra ti va , constitui a própria in t e n c i on a Jidade do t ex t o (pp. 2 6 - 3 2 ) . Cf. co m r ela - ção a í s so a i nt erpret ação d e Dom Q ui xo t e por Mario Va ld és, ibid., pp . 14 1-6 2 .

t a ção e ntr e esse mun do do t ex t o e o m undo d e vi d a do leitor

fa rá com q u e a pro bl e m á tica d a co nfig u ração n arrativa se re-

me t a à da r efig ur ação d o tem po pela n arrativa.

Apesar d essa lim i t ação d e princíp i o, a noção de mu n do do

t ex to exige q u e a o b ra literár i a se j a aberta - seg u n d o a ex pr es-

s ã o emprega d a m a i s a cima' - p ara um "fora" qu e ela pr ojet a

1 . Cf., ac i ma, p. 9.

190

T E MPO E NA R RATNA

A CO NF I G U RAÇ Ã O DO TEMPO NA N ARRATN A DE F I CÇÃO

191

d os para o b em d o d oen t e : "Ho lm es e Br a d s h aw o p erse gui am"

(p . 22 3 ). P i o r, foi a " n a tu reza h uman a" qu e p r o nunci o u so b re

ele o vered i c t o d e culp a bilid ade, s u a c o nd e n ação à m ort e. Nos pa pé i s q ue Sep ti mus p e d e p ara qu ei m ar e qu e R ez i a pr oc ur a

ao Tempo" (p . 224 ) . S e u t e mp o, a p ar -

t i r de e n tão , n ã o te m m a i s n e nh uma

d os p or t a d o r es do sa b e r m éd i co, s eu senti d o de m e did a, seu s

veredict os, se u poder de in f li g ir o sofrimen t o. S ep t i mu s j oga-se pe l a j an e l a. A q u e s t ão se põe d e sa b e r se, pa ra a l ém d o ho r ror da h is -

t ór i a q u e e l a e xprime , a m or t e de S e pt i mu s não foi i m bu í d a

sa l var, es t ão suas 11 odes

me dida c o mu m co m o

di zer, q u e o n a rra do r c onfia a t ar ef a d e legitimar , m a s a p e n as

até ce rto p o nt o, o s entido r e d e ntor da m o rte d e S e ptimu s. N un-

c a d eve m os p ois p e rd e r d e v ista qu e é a justa p o s i ção d a e x p e -

ri ê ncia d o t e mpo e m S e pt imus e em Clarissa qu e f a z s entid o".

C o nsid era da à p ar t e, a v i s ão de mund o e m S e ptimu s ex p rim e

a ago n ia d e um a a lma pa r a a qual ~ t e m po monume nt a l é in - I

s u p ortá v g l ; a r e l aç ão g u e a m or t e p od e t e r , alé m disso , c om a

e t er nid a d e, int ~s i f i ca essa a go n ia ( seg und o a inte rpre t ação d a

r ~ o -

e m minh a l e itura da s Confissões d e S an to Ago stinh o " ) . ~ po r-

t a l ~O com r e l ação a essa f a l ha in su p e r á ve l , a b e rta e nt re o t e J ; 11-\

e nt re a ete rn i d ade e o t e mp o qu e p ro pu s m a i s a c i ma

 

. p e l o n arr ador d e um o ut ro s i gn if ica d o q u e t ransfor m ari a o tem-

p

o m o nu m e nt a l d o mu n d o

e o t emp o mort a l da a lma , qu e s e

I

p o no n e ga ti vo da e t er n i d ad e . N ~ o u c ur a ,

Sept i m u s é o

d

is tribu e m e

se o rd e n a m a s ex p e riê n cia s t emp or a is d e - cad à

~

)

~

por t ad o r d e u m a reve l ação q ue p e rcebe no tem p o o obstác ul o

u n i da d e cósmica e na m or t e o acesso a esse

S i gnif i cado sa l v ador . Co n tudo, o narrador não qu i s f a z er dessa reve lação a "m e nsag e m " d e s ua na r rati v a . Associando reve l a - ção e l o u cur a, deixa o l ei t or na dúvida so b re o própr i o s e nti do da mor t e de S e p tí m u s ". Al ém d i sso, é a Clar i ssa, como s e v a i

à v i são d e u ma

1 5 . J O M C raham , " Tim e in th e N o v e l s of Vir g ín ía Woolf " , University of

Toronto Quarterly, v o l. XV I I I, 1 9 4 9 , pp. 1 8 6-201, r e t omado em Criiics on. Virginia Woolf J a c q u e li n e E . M . La th ar n , o r g . por Co ra ll G a bl es , F l or i d a U n i v e r s i t y o f Miarni Pr e s s, 1 970, pp . 2 8 - 3 5 . Ess e crí t i c o leva mui t o lon ge e s s a i n t erpre t ação

d o s u i c íd i o de S e pt imu s . É a "complete uieion" (p . 3 2) [ v i sã o comp l e t a ) d e S e p -

t i m u s que d á a C l ari ss a "the power to conouer time" [o pode r de v encer o t e m -

po ) (p . 3 2 ) . Dão- lh e r azã o as r e fle x ões, q u e evoca r emo s m a i s a d i a nt e, d e C l a-

r i s sa s o b r e a mor t e do jo v e m. El a e nt end e u int u iti vam e nt e, d i z [ o h n G r a h a m ,

o s i gn i f i cado d a vis ã o de S e p t im u s , qu e e l e s ó po d ia co mun ic a r com a mort e .

Assi m , vo lt a r à s u a " p a rt i ]" [ f e sta) sim b o l izará para C l a r iss a "ihe transfiguration of time" ( p . 3 3) [ a t ra n s f i g u ração do t e mp o ) . Hes i to e m s egu ir es s a i nt e r pre t a -

ç ão da m or t e de Se pt im u s a t é o fi n a l : "In arder to penetrate to the center like Sep- I timus, one musi either die, ar go mad, ar in some other way lose one's humanity in ar-

der to exist independently of time" (p. 3 1) [C om o int ui t o d e p e n et r a r o cen t ro , como S ep timu s , deve- s e o u b e m m o r r e r , o u f icar lo u co, o u a i nda, d e a l g um a man ei r a , perder sua hu ma ni dade para exis t ir ind e p en d en t eme n te do te m po ) .

D e r esto, ess e cr ít ico n o t a m u i t o b em que "the true terror of his uision is thai it

destroys him as a creature of the time-toorld" (p . 3 0 ) [ o v erda d e i ro terror d e s u a v i-

é qu e e l a o d e s tr ó i e n qu a nt o cr i a tur a d o mu nd o t e mp o r a l). Não é ma i s e n-

t ã o

são

d á a mor t e . M as como sepa r ar

e s sa "complete vision" [ v i são comp l e t a )- e s sa g n ose - da lou c u r a qu e t em t odas

o t em p o q u e é m or t a l , é a eter n i d a d e que

um d o s o ut ros perso n a ge n s e se u m o d o d e n egoc iar a re l a ç ã o

e nt re as du as m a r ge n s da f a lh a . Limitar - r n e-e i a P e t e r W a l s h e

C l ar i ssa , a p esa r d e h aver muit o a d izer so br e o ut ra s " ' y a r i ª - çõe s

im a g i n a ti vas re p o rta d as p e l o na rra dor .

d e a nt igam e nte p er did o p a r a se mp re - it

zoas over! = , s ua v id a pr ese nt e e m ru í n as l h e fa z e m mu rmu rar:

"a mor t e da alm a" (p . 8 8) . S e e l e n ão t e m, p ara se r eerg u er, a

c o nfi a n ça v i ta l d e C l a r issa, t e m , p ara a jud á - l o a s o br ev i ve r , a p r ó -

p r i a l eveza : t e r rív e l , ex cla m o u ele, t erríve l , t e r r í v e l! E, co n- tud o , o s o l b r ilh a; e, c o n tud o, co n so l a m o- nos ; e a v i da t e m a

a rt e d e adici o n ar um r u a a o utro r ua . C ont ud o

co m eçou a gar g a lh a r " e pp . 97 - 8 ) . Poi s , s e a id a d e n ão enf ra qu e-

eter

P e t er: seu a mor

Co ntud o

P

as carac t e r ís t i cas da pa r a n oia? Qu e m e sej a p er mi t id o ac r esce nt ar q ue a i nt er -

p re t açã o das reve l ações de S e pt i mu s po r [ohn G rah a m d á a o po rtunid a d e de

l a n ç ar um a p o nt e e ntr e a int erpre t açã o de Mrs. Dalloway e a d e Der Zauberberg

qu e t e nt a r e i ma i s a di a nt e, e m qu e o t e m a d a e t e rn ida d e e d e s u a re la ção

co m

o tem p o p assa m p a r a o p r imeir o plano.

1 6 . U m a n o t a d e V ir g ini a Wo o lf e m seu Diário a l er t a co ntr a um a se p ara -

ção ra d ica l e n tre l o u c u ra e sa n i d a d e : "I adumbraie here a study of insanity and sui-

cide; the world seen by the sane and the insane stay side by side - something like that"

[ Esboço a qu i um es tud o d a in sa nid a d e e do s ui c í di o ; o mundo v i s t o pe l o são

e p e l o i n sano co n v i ve m l a do a l a d o - a l go ass im] (A Writer's Diary, op. cii., p. 5 2 ).

A v i são d o l ouco n ão é d es quali f i ca d a p e l a " in sa n i dad e" . É se u ressoar n a a l ma

de C l arissa que fi na lm e nt e importa . 17. Tempo e narrativa, vol . 1, p p . 40 - 55 .

1 9 2

EMPO E NARRAT N A

T

ce as p aixões , "ad q ui r e - se - e nf i m! - a fac ul dade q ue a c resce n -

t a à expe r iê n c ia o s u pre m o sabor , a fac uld ade de n os a p o d e -

rarmos d a exp er i ência e d e v o lt eá -l a, len t ame nt e ,

lu z " (p . 11 9 ) .

em p l e n a

C lari s s a é bem evi d e nt e m en t e

a h eroí n a d o rom ance ; é a

n arra ti va de s e u s a t os e de se u s d i sc u rsos in t erio r es q u e d á ao

te mp o conta d o sua d e li mi t ação; m as é mai s ai n da s u a e x p e-

riê nci a t e mp or a l , me d i d a com relação à de Se ptimu s, d e P et e r

e das figuras de Auto r i d ade , que co n s t i tu i o pon t o cr u c i a l do

j ogo com o t empo opera d o pe l as t é c ni cas narra t iv a s cara c te rí s -

ti

cas d e Mrs. Dalloway.

 

S

ua v id a mu n d a n a , se u con v ív i o com f i g u ras de A u tor id a -

d

e f azem com que u ma pa rt e d e l a m esma est e j a do l ado d o

t

e mpo mo n um e nta l . N e ssa m e sma n o it e, ela ac a so não se pos -

t

ará no al t o das es c adarias para s u a r e c e pção , como a r a i n h a

rec e b e ndo s e us h ósp e d es no Buc k ing h a m Pa l ace? A caso e l a n ão

é

para os o ut ros u ma f i gu r a d e Autor i dade, por s u a postu r a

r

e t a e em p e rt i ga d a?Vis t a por P e t e r , n ão é acaso u m frag m e n -

t

o do Im pério B r i t â ni co? Acaso a ex pressão t e r n a e c r u e l d e P e -

t

e r n ão a de f i ne p l e na mente: "The perfect hostess 18 "? E , co ntud o ,

1 8 . A . D. Mood y ("Mrs. Dalloway a s a Co m edy" , in Critics

on Virginia

Woolj, op. cii., pp. 48 - 50) vê e m M rs . Da ll o w a y a imagem v i va da v id a s u perf i - cial l e va d a p e l a " i h e British ruling c l ass" [ c l a ss e dom in a nt e in g l e sa ] , como a so -

c iedad e l o n d ri na é ch a m ad a no própr i o l i v ro. É v erd ad e q u e en c arna ao m es-

m o tem p o a c r . tí ca d e s u a soc i e d a d e, m as sem t e r o poder d e di s soc i ar-se de l a.

Por i ss o o "cô mico " , alimenta d o p e l a ironia f e ro z d o n ar r a d o r , do m ina a t é n a

cena fin a l d a r e cep çã o , mar ca da p e l a p re s ença do pr i mei r o - m in is t ro. Ess a in-

t e rp r e t ação pare c e pade ce r d e u m a si m p lifi cação i n v ersa à q u e , h á pou F o, v i a

n a mor t e de Sept i mu s , t ra n spo s t a por Clar i ssa , o poder d e tr a n s figur ar o t e m - po. A m e i o cam in ho e ntr e a com é d i a e a g n os e e ncon t ra - s e a f á bul a so br e o

t em p o em Mrs. Dalloway. Como n o t a com ju s t eza J ea n C u igue t (op. c i i. , p. 235) :

" a c r ít ica s oc i a l d e se jada pe l o a ut or es t á in se r i d a no t ema psicom e t a f ísi c o d o rom a n ce " . [ ean C ui g u e t f az aq u i a lu são a uma o b se r va ç ão de V ír gini a Woo lf em se u Diário: " I want to give life and deaih, sanity and insanity; 1 u i an t to criticize the social system, and show it at work at iis most intense" [ Qu e ro dar v id a e mo r-

t e , s a ni d a de e in sanid ade; qu ero c rit i c ar o sis t ema socia l , e most r á - l o f un c i o -

n an d o em se u mo d o m a i s i n t enso ] (A Writer's Diaru, p . 57 , c i t ado p. 228). O p r i-

mado da in v es t iga ç ão p s i co l ógi c a so b re a c rít ica social fo i e x ce l e nt em e nt e e s-

t a b e l ec i d o p o r J ea n O. L o v e , em Worlds in Consciousness, Mythopoetic Thought in

ihe Novels of Virginia Woolf, Berke l ey , U n i v ersi t y of Ca li for n i a P r es s , 1 970.

A C O NF I G U RAÇ ÃO D O T E MPO NA NA RR AT N A DE FI C Ç ÃO

193

O n ar r ado r que r c o municar ao l e i tor o sen t i do d o p are n tesco ) ]

p ro fu n d o e n tre e l a e S e ptirnu s, qu e e l a nunca v i u , cujo pr ó p rio nome i g n ora . O m esmo h orro r a h a bita ; mas , ao c o n trá rio de

S e ptimu s, ela o e n f r e n tar á , l evada por um in d es t r utíve l a m o r à

v id a . O m e s m o ter ror: a s impl es evoc a ção d o d ef inh a r d a v i da

n o r osto d e M rs. Brut o n - qu e n ão a co n v id o u p ara a lmoça r jun -

t o com o mar id o! - bas t a p a ra l e mb rá -Ia qu e "o q u e e l a t e mia

era o tempo" ( p. 44 ). O qu e m anté m

se u frág il e qu i l í b r i o e nt re

o

t e m po morta l e o t empo d a reso lu ção d iant e da mort e - s e

o

u s a r m os a p l i ca r - lh e essa ca t egor i a e x i s t enc ial m a i or d e Sein

und Zeit [Ser e Tempo]-

é seu

a m o r à v i d a, à b e l eza

perecíve l , à

lu

z v o l úve l . s u a p aix ão

p e la"

gota qu e ca i " (p . 54 ) . D a í se u es -

p an t oso poder d e a p o i a r -se na l emb rança para m erg ulh ar "no

co

r ação m e smo d o mo m e n to" (ibid.).

A m a n e i ra como C l arissa rece b e a n o t íc i a d o s ui cí di o des - I,

se jo v em d esco nh ecido é a ocas i ão pa r a o n arrador situ ar C l a r ís- sa n a linh a di v i só r ia en t re os d ois ex t re m os de s u as v ar i ações imag i na ti v as n o qu e se r e fere à ex p e riênc i a t e m po r a l . Como j á se d eve ter adiv inh a d o há muito t e m po : S e ptin ; ] : !s é o / I d u p l o "

d

to a e la, e l a re dim e s u a m or t e con tinu an d o a v i v er " . A n o tíc i a do su i c í dio , l ança d a para serv i r d e p a s t g em pl e n a r ece p ção , ar -

e C l a rissa' " :

d e a l g u m

m odo, e l e mo r re e m se u lu gar . Qua n -

ra

n c a inic i a lm e nt e es t e pens ã : iIl € r í i o , ao m es m o t e m y o f rívo l o

e

c ú mp l ice de C l arissa ? O hf , p e n sou C l a rissa, n o meio d e m i -

nh a rece p ção, e i s a mort e " ( p . 2 79 ) . M as, n o m a i s

si me s ma , essa cer t e z a i ns ~ P ~ r ~ v ~ l : pe rd e nd o a v i d a , esse j o -

pr o f u ndo d e

19 . A e x p r es s ão é da p ró p ria V ir gi n ia Woo l f n o se u Prefácio à e di ç ão ame -

ri c ana d e Mrs. Dalloway: Se pt i mu s "is inienâed to be her double" [ es t á d esti n ado

~ seu dI P l o J ; cf . Isabe l Cam bl e , "Clar i ssa D a ll oway's do ubl e ", em Critics on

Virginia Woolj, op. ci i., pp . 5 2- 5 . C l ar i s s a t o rn a - s e o " du p l o" d e Sep t im u s qu an-

d o e l a se dá con t a " thai there i s a core of integrity i n the ego that must be kept intaci at all costs" (ibid., p . 55 ) [d e qu e h á u m cer n e d e i n t eg rid ade no ego qu e deve

s e r man tid o i n t ac to a t o d o c u s t o ] .

2 0 . Sabemos, pelo Prefácio esc rit o por V i rgi ni a Woo l f, q ~ e, n a s u a p r im ei ,

ra v ersão , C l a rissa de v er i a se s ui c id a r . Acr e sce nt a n do o pe r so n agem d e Se p ti-

m u s e fa z e nd o - o s ui c id ar-se, o a ut o r p er mi t iu a o n ar r ador - à voz narr a ti v a

q u e co nt a a hi stór i a a o l e it o r - aprox imar ao m áx imo a linh a d e d es tin o d e M r s.

D a ll oway d a d o s ui c id a , mas pro l o n gá- I a p ara a l é m d a t e nt ação da m o r t e .

194

TEMPO E NARRATWA

ve m sa l vo u o se ntid o m ais e l ev ado d a mor t e : "A morte é u m

d esafio; a m o rt e é um e sforço d e un ião ; os h om e n s , sentind o

qu e o cen tro

m is t er i osa m e n t e l he s e sca p a - o qu e est á próx i -

m o se r et ir a , o en c a nt o se d e sf az; e s tam os s o z inh o s . N a m or t e,

h á um a b r aço" (p . 2 8 1) . Aq u i, o na r ra d or re ú n e, e m u m a úni ca

voz n a r rat i va , a sua , a d e Se p t i m u s e a d e C l a ri s s a. É a pr ópr i a vo z

d e Se ptimu s qu e d i z , e m eco at r a vés d a d e C l a ri ssa: "A v i da é

in to l eráve l ; essa es p éc i e d e h o m ens t o r n a a vida in t o l e r ável"

(p. 28 1 ). É com os o lh os d e S ep t i m u s que e l a vê o d o u tor B ra d -

s h aw co m o" do t a d o d e um a o b sc ur a ma l e vo l ê n cia, sem sexo

n e m desej o , ca p az , a p es ar d e sua ex t rem a p o lid e z para c om as

mul h ere s, d e a l g u m cr ime imp e nsá ve l - v i o l a r a n ossa a lm a , é

is so" (ibid.). M a ~

t e mp o d e C l aris s a n ão é o t e mp o d e S ep tí -

mu s . Su a recepção n ão a cab ará e m d e sas t r e . U m "s i na l ", ali co -

l oca d o p e l a seg u nda vez p e l o n arra d o r , aj ud à f r " cr ar i S s ' a a re u -

A CONFIGURAÇÃO DO TEMPO NA NARRATWA DE FICÇÃO

195

o li v r o t er m in a a ssim: a m o rte

d e S e p t imu s , e nt endi d a e

d

e a l g u m m o d o p ar t ilh a da , d á ao amor i n s tint i vo qu e Cl ar i ssa

d

e dic a à v i d a u m t o m d e

d esafi o e d e reso lu ç ã o: "Ela pr e cis a

vo l t a r , r e a s s um i r se u papel

A

n arra dor se co nfun de com a d - e F ê - t er que , nesse ú l t imo inst a n -

t e da n ar r ati v a, t or n a-se para o lei t or a voz m a i s d i g n a de con -

fia n ça: " Q ue é esse t e r ror? p ergunto u - se P e t er, o êxtase? Q u e

ex t raor d i n ár i a e m oção é essa q u e me agit a? É C l ar i ssa, p e n -

so u . P o is e l a

A voz d i z sim p l es m e n t e: "For there she was." A fo r ça des -

r rogâ n c i a? The perfect hostess.? p o nt o , a v oz d o

(she must assemble)" ( p . 2 8 4 ).Vai d a d e ?

Talve~.Nesse

a li esta v a (For there she was)" ( p . 296) .

s a pr e s e n ça é o dom do

s u i cid a a C l ar íss a " .

Fi n a l m e nte, p o d e m os fa l ar d e um a

ex p er i ê n cia u n a do

t e mp o e m Mrs. Dalloway? Não , na med i d a e m qu e os des t i no s

d os pe r s on age n s e s u as v isões d e m u n d o perma n ecem j us t a -

n

ir o terror e o amo r pela v id a n o org ul h o d e enfren t ar; esse s i -

postos; sim , na m edida em que a p r o x imi da d e e nt re as " c a v er -

n

al é o gesto da ve lh a se nh or a , d o o u tr o

la d o d a rua, a b ri nd o

n as" v is it a d as co n s t itui u m a espécie d e r ede su b t errânea q u e é

as "cortínas, re tir an d o-se da j an e l a e indo se d e i ta r "soz inh a , muit o t ran q ui l am en t e" - fi g u r a d e sere nid a d e, re p e n tina m e nt e

associada ao refrão de Cymbeline: "Fear no more the heat of the

" * N essa mes m a manh ã , cedo, c o mo n os l em b ramos, C l a -

r i ssa, parando na fre n t e d e u m a v i t ri n e, v i r a o v o l um e d e Sh a-

kes p eare a b e r to n esses versos . E la s e p e r g u n t o u : " Qu e t e nt a - va e l a r ecu perar? Q u e l e m b ranç a d e branca a ur ora n o c amp o? "

m es m o dia, e m u m m o m e nt o d e r e t o r n o

p acif i cad o à rea li dade do t e mp o , S e p ti m u s d ev i a d i sce r n i r n es-

s es mesmos versos um a p a l av ra d e c on s o l o : " N ad a m a i s t e m as,

d i zia o coração, n a d a m ais t e m as . - E l e n ã o t i n ha m edo. A ca d a

sun

( p . 1 2 ) . M a i s t arde , n o

i n s t an t e , a N a tu r eza e n viava- l he u ma m e n s a ge m a l eg r e , como

aque l a ma n cha do u ra da q u e p er co rr ia a pare d e - a li , al i =, para

lh e di z er qu e e s t ava p r o nt a a l h e r eve l ar

m urm u r a n d o - l h e n a

o

r el h a as palav ra s d e S h a k es p e ar e - s e u se nti do " (p. 212) . Q u a n -

d

o C l a r issa r e p ete o ve r so, no f im do li v r o, e l a o r e p e t e c o m o

S

e pt i mu s o fez : "With a sense of peace and reassurance." ** 21

• Não t e ma s m a i s o ca l o r d o 50 1

•• Co m um se n t im e nt o d e p a z e r e c o n fo r t o . ( N . da T.)

21 . [ o hn Gra h am , e m Critics o n Virginia Waalj, op. cit., pp . 3 2 -3 .

( N . d a T . )

a ex p e ri ê n c i a do tempo e m Mrs. Dalloway. Essa exper i ên c ia do

t e mp o n ão é n em a de C l ar i ssa, n em a d e Se pt i mu s , nem a de

P e t er, n em a de n en hum d os p e r so n age n s: é s U J~ er i 9a ao l e i t or

pela repercussão ( ex p ressão qu e Bac h e l a r d gos t ava t an t o d e em-

p re s t ar de E. Min kows k i ) de uma experiência solitária numa ou-

d e um a me n sag e m d e re - \

d e n ção a esse d om d a p r e s e n ç a . Cl a riss a co n tin u ar á s e nd o u ma mu l h er do

m u nd o , para q u e m o t em p o m o nu m e nt al é uma gra n de z a com a qu a l é preci-

so co n serv a r a c oragem d e ne g o c ia r . Ne s se se n t ido , Cl ar i s sa c on t in u a s endo um a f i g u ra de compro m isso . A peq u en a fra s e "there she was" [ ela a l i e s t av a ) ,

no t a J e a n G ui g u e t , "coniains eoerqthing and states nothing preciselq" (ap. cii., p.

2 40) [ co nt ém t u d o e n ão a fi r m a n ada p rec i s ame n t e ) . E sse j u l ga m ento um pou -

co seve r o é j u s t if i cado, se d e i xamos C l ar i ssa s o z inha pe r a n t e o pr es t íg i o da or -

d e m social. É o p a re nt esco e nt re os d esti n os de Se p t imu s e d e C l ari s sa , n u m a

ou t r a pr o f u n d id a d e, a da s "caves" [ cave r na s ) q u e o n a r r a do r "connecis" [c o n ec -

t a ) , q u e g o ver n a n ão a p e n as a in t r i ga, mas a t e m á t i c a p s i c or n e t a fís i c a do ro -

m a nc e. O t o m firm e d essa asserção ressoa m a i s fo r t e qu e a s p a n ca d as do Big

B e n e d e t o do s o s re l óg i os , m a i s for t e que o t er r o r e o êx t ase q u e, d es d e o i n í -

22 . D eve m os sem dú v i d a e v i tar dar a d im e n sã o

c

i o d o roma n ce , d i s p u t a m a a l m a d e C l a r iss a. Se a rec u sa , po r pa rt e de se p t i- ! Iv'

m

u s, do t e m p o m o n um e n t a l pô d e nov a men t e l anç a r Mr s . D a ll oway n a v i da L:::

t

ra n s it ó r i a e su as a l eg ri as f u gazes , é p o r q u e ele a colocou no ca min ho d e um

t

e mp o mo r t a l a s s u m i d o.

196

TEMPO E NARRATWA

tra experiência solitçria. É essa r e d e, tomada n a s u a int egri d a d e,

q u e é a ex p e ri ê n c i a d o temp o e m Mrs.

Dalloway. Essa ex p e -

ri ê n cia, p o r s u a vez, d e f ro nta - s e , numa r e la ção c o mpl exa e i n s -

táve l , com o t em p o mon um en t a l , e l e p ró p r i o n asc id o de t odas as co n ivênc i as en t re o t e m po d os relóg ios e as f i g u ras d e A u - toridad e " .

2. D e r Zaub e rberg- "

Que A montanha mágica se j a um r o man ce sobre o t e m po é

e viden t e d e m a i s p a r a qu e pr ec i se m o s i n s i st ir ni sso. M u i t o m a i s

di f í c i l é d i zer em q u e se ntid o e l e o é. Limit e m o- n os , p ara co m e -

çar , aos t r aços mais man if es t os qu e i m p õe m a carac t eri z ação

globa l da Montanha mágica co m o Zeitroman.

E m pr i meiro l uga r , a abolição do senso das medidas

do tempo

é o traço mai or d a m aneira d e ex i st i r e d e ha b i t a r dos pensio -

n i stas do B e r g hof, o sana t ório de D avos . D o i n í c io ao f im d o r o -

m anc e , esse apagam e n to do t e mp o cro n o l ógico é c l a r ame n te rea l çad o p e l o co n tras t e en tr e " o s d o a lt o", a c lim ata d os a e sse

2 3 . Se ri a um g r ave e rro consi d e r a r essa ex p e ri ê n c i a, po r m a i s pa c i e nt e q u e

fos se , c omo a i l us t ração d e u ma fi l os of ia c on s t i tu í d a fo r a do ro m a n ce, me s mo

qu e f osse a d e B e rg s o n . O tempo m onu m e nt a l com o q u a l Se p timus e C l a ri s s a

s ã o c onfro nta d os n ada t e m do tempo e s p ac i a li za d o de B erg s on . T e m , por as s i m

di z er , se u d ire i t o p r óprio e n ã o r es u l t a de n en hu ma

co nfu são e nt re o e s pa ç o e a

d

u ra çã o. Por i s s o e u o a p r ox i mei m a i s da h is t ó ri a mon u me nt a l , n a co n cepç ã o

d

e N iet z s c h e. Q u a n t o a o t e mpo í nt i m o , t raz id o à lu z p e l as e x c u r s õ es do narr a -

d

o r à s cav e r n a s s u bterr â n eas , e l e tem mais

af i ni d ade com o arrou b o do mo-

'

-

\

-

me nt o q u e com a conti nui dad e me l ó di ca da dur ação seg u ndo Bergson . O pró -

p ri o re ss oa r da h o r a é u m de ss e s mome nt os, a c ad a vez qu a lifi ca d o d e modo

d i fere n t e pe l o h u mor pre s e nt e (ci. [ ea n G ui g u e t , op. cit., pp. 3 88-92). S e j am q uais forem a s se me l h an ças e a s d ifere n ças en t re o t e mp o e m V í r gí n ía W oo l f e o t e m -

po e m B e rgson, o e r ro m a io r co n s i s t e , a qui , e m n ão d a r à f icção en quant o t a l o

p od e r de e xp l ora r m o d a li da d es d a exper i ê n cia t e m pora l qu e esca p a m à co n ceí-

tu a li z aç ã o f i l o s ó fi ca , ju s t amen t e e m ra z ão d e se u cará t er a p o r é t i co. Esse ser á

um t e m a m a i o r de n o s s a q u ar t a par t e.

24. Tho m a s Mann , Der Zauberberg, Roman, Ces. Werke, t . Il l , O l d en b urg ,

Ed . S. Fische r , 1960 . Os c omentá r ios ant er ior es a 1 960 se re f erem a u ma edição

de 1924 ( B e rl i m, Ed . S. Fi sc h e r) em 2 v o l s. A pa gin ação e nt re p a r ên t e s es re m e -

te à e diç ã o de bo l so do origina l a le m ão (F i sc h er T asc h e nbu ch Verlag . 1 9 6 7).

A CONFIGURAÇÃO DO TEMPO NA NARRATWA DE FICÇÃO

1 97

r a - do - t e mpo , e " O S d e b aixo" - os d a re gi ã o pl a n a - , qu e c u i - dam de suas ocup a çõ e s n o ritmo d o ca l en d ár i o e do s r e l ó gio s .

A oposição e sp a cial r e d o br a e r e força a op os i çã o t e mp or al.

f o

D e p o is , o fio d a hi s t ó ria , re l a t ivame nt e s imp l es , é pon tua-

do por a lgum as id as e v ind as e n tre os de b a i xo e os d o cim a,

q u e dr a m at i za m o feit iço do lu gar . A c h egada d e H a n s C a s t o rp

constitui o p rim eir o aco nt ecim e nt o dessa or d e m. Esse jovem enge nh e ir o d e ce r ca d e t rint a a n os vem de Ha mbu rgo, reg i ão

p l an a p or exce l ência , v i sit ar se u p r i mo [oac hi m, em t rata m en -

t

n e c e r ap e n as três se m a n as n esse l ugar in só lit o. R eco nh ec id o

co m o d oe nte

t

tros d o B e r g hof. A pa rti da de [ cac hi m, vol t a nd o à v i d a mil itar,

seu ult er i o r r e t orno ao sa n a t ório , p ara a l i morrer por sua vez ,

a r epe nt i n a pa rti d a da sra . C h a u cha t - p erso n agem ce n tra l da

i nt rig a a m or o sa m i stu rada à fá bul a sob r e o t emp o - após o episódio d ec i sivo da " Noite d e Walpur g is" , se u retorno in es-

pe r ado junto co m M yn h eer Pep e rkorn : todas essas c h ega d as e

p a r ti d as c o n s titu e m o u tros t a n tos po nt os d e r u p tu ra , p rova s e

q u e stionam e nt os, num a ave ntu ra qu e , n o esse n c ial , d e s e n r o-

l a - se na r e clu s ã o e sp a c i a l e t emp or al d o B erg h of . O pr ó p r i o

H a n s C ast o rp a l i per m a n ecerá sete a n os, a t é qu e o " t rovã o " da

d ec la ra ç ã o de g u erra d e 19 14 o arra nqu e d o fe iti ço d a mo nt a-

a i r rupção da g r a nd e h ist ória o restituir á a o

temp o d os d e b a i x o apen a s para e ntregá - l o a essa " fe s t a d a

m o rt e" q u e é a g u erra. O desdo b ramen t o d a n arrat i va , em seu aspe ct o e pi só d ico, leva en t ão a ver o fio co ndut or da Montanha mágica n o con fro nt o de Hans Cas t orp com o t e mp o abo lid o .

n h a m á g i ca ; m as

e ir o d a i n s tituição, t o rn a - se por s u a vez um h ós p e d e e ntre ou -

o j á h á

s ei s m eses n o B e r g h of; s ua i nt e n ção inicia l é p er ma-

p e l o dout or B e h re n s, o c h e f e s inis tro e z omb e -

P or su a vez, a técnica narrativa emp r ega d a n a o b ra co nfir-

ma sua c a r act e rização c om o Zeitroman. O pro ce dime n t o mai s

v i s í v el di z r e sp e i to ao acen t o c o lo c ado n a re l ação e ntre o tem -

po d e na rr ação e o t e mp o n arra d o ".

25 . So br e essa re l a ç ão , d. H e rrna n n J. We i gand, The Magic Mountain, 1~ed .

D. Ap pl e t o n-C e ntu ry Co ., 1933 ; 2 ? e d . s em modifi ca ções, Ch a pel Hi ll T h e U n i -

versi t y of Nor th Ca r o li na Press , 1964.

174

TEMPO E NARRA TN A

diante de si e oferece à aprop r iação c ríti ca d o l ei t or. A noção de

a b ert ur a n ão con t ra d iz a de fechamen t o i m p li ca d a p e lo prin-

cí p io for m a l d e co n f i g u ração. U ma ob r a pode ser ao mesmo

t empo fecha d a em s i m es m a quanto à sua est r utu r a e a b e r t a

para u m m un do , ao m odo d e uma " j a n e l a" q u e recorta a pe r s-

p e c ti va fug i d i a da p aisagem q u e se oferece". Essa abertura co n -

siste na pro-posição de um mundo suscetível de ser habitado. Dessa

p

e r s p ectiva , um mundo inós p i t o , como muitas obras m o d er -

n

a s pro j e t am, só é assim no int er ior da mesma pr o bl em á t ica

\ - J .

do m und o ha bi t á vel . O q u e c h amamo s aq u i de e X Qer i ênc i a fie -

! !9

c i a vi rtua l do ~ er _ no m u ndo proposta pe l o t e x t o. E d esse modo

a do te mp- o ~ P ~Dill ' oasp e cto t e m1 2 0ra l de u ~ a eXQe r i ê n -

q u e a o b ra li terá r ia , escapando ao s e u próprio fec h amento , s e

a r a a l ém

I1 da r e c e pção do t e x to p e l o l e i t or e da int e rsecção e n t r e e ssa e x - per iê nc i a fic t ícia e a ex peri ê nci a v i v a do l e i tor, o mundo da obra

r

e por t a a , s e dirige para ., e m s uma, é a r e sp e it o d e

P

~

c ons t it u i o que e u c ham a ria d e uma transcendência imanente ao

t ex t o " . A e x pressão , à pr i m e ir a vis ta p a rado x al , d e ex p e ri ê ncia f ic -

t í cia não t em po i s out r a função senão desig n a r uma pro j eção

da o b r a, c a pa z d e en t rar e m int e r se c ç ão com a ex p e riênci a or -

d i nári a da ação : u ma e x p e r iê n c ia sim , mas f i ctícia , j á que é a p e -

nas a obra qu e a pro j et a. Para i l u s t ra r m e u propósito , esco l hi t r ê s obra s : Mrs. Dallo-

way, de Virginia Woo l f , Der Zauberberg [A montanha mágica], d e Th o mas Mann , A Ia recherche du temps perdu [Em busca do tem-

po perdido], de Ma r cel P r ous t . Por qu e e ssa esco l ha ?

~

I

2 . Eu g en Fin k, De Ia Phénoménologie, op. cito Num s e ntido pró x i mo , Lo t -

man vê no " quadro " que demarc a toda o b r a de arte o pr o cedimento de com- posição q u e a t ra n sfo r ma no " mode l o fini t o de u m uni v e rso i nf i n it o" (La Struc-

iure áu texte oriisiioue, op. c it., p . 309).

3 . Essa noção d e t ra n sce n dên c i a iman e nt e corre s pond e e xa t amen t e à de

inte n c iona l idade ap l ica d a por Mario Val dés ao te x t o como t o t a l id a de . É no a t o

de lei t u ra q u e a i ntenciona l i d ade do t e x t o é efe tu ada (op. c ii., pp. 45 - 76 ) . Essa

a

t ex t o. A voz n a rrati v a é o ve t or d a int ~ n c i ona l i d a d e do te x to , que só s e efe t ua na . relaçã o iD Jers u § jeti v a que se de se nvo l ve e nt re a i nt enção da vo z n a rra t i v a e ~ d a le i t ura . Essa análi s e será re t omada de modo s i s t em á t ico na n o s -

s a qu arta parte.

n á l i se p o d e se r a p r o x ima d a da de voz narra ti v a _ como aq u i l o qu e apresen t a o

A CO N F IG U RAÇ ÃO DO TEMPO NA NARRA TNA DE FI CÇÃ O

175

Em p r i me i ro lu g ar , essas t rês o b ras ilus t ram a distin ção

pro p os t a p or A . A . M e n d ilow entre"

tim e'". "Se n os p ede m muitas vezes p ara co n tar u ma fáb ul a do

t empo , decla r a Th o m as Ma nn no Vorsatz (Propósito) da Monta-

tales of time" e "tales about

'"' nha mágica, n ão é m e n os v e r d ade qu e o d ese j o de co nt ar u ma

f á bul a sobre o t empo não é t ão abs u rdo assim

espon t a neame nt e que tive m os a l go dessa n a tureza em v ist a

na pres e nt e obra. " A s o b ras q u e iremos e s tu dar são fábulas

bre o tempp, n a med i d a em q u e ~ eróRr i a ex P~ r i ê ncla d o t e m - L

l 2 . 2 ue const itu i o c erne ~

Co n fessamos

so- ~ 2

2

u ~ ~ n sfor !!.l asões

~~ rut. u r ais .

A l ém

isso, ca a u ma d essas obras explora, a seu modo ,

mo d a l idad e s i n é ditas de co n cordâ n c i a d i scorda n t e , q u e n ão af e -

tam mais apenas a composição n a r rati va, mas t amb é m a expe - ri ê n cia viva dos p erso n ag e ns da n ar r ativa. F a l are m os çi ~-

d es i gnar essas f i g u ras var i adas de . con -

-d1.es imaginativas p ara

cordância disco r d an t e, q u e v ão b em a l é m d os aspectos t empo- rais d a experiê n cia co t i di a n a , tan t o práx i ~ ã ) oill i U2 . <iti~a , : e omo os desc r e vemos no prime i ro vol u me so b o tít ul o de mímesis L São va r i e d ades da e x p eriê n cia t e mpora l qu e ape n as a f i c ç ão pode exp l orar e qu e s ã o oferec i das à l eitura c o m o intu i to de ref i g u rar a t e m pora l idade co m um ' .

Fin a l me nt e, essas t rês o b ras têm em comum e xplorar , nos conf i ns d a e x p e r iên c i a fundame nt al de c oncordâ n c i a d i scord a n -

t e , a r el aç ã o do t empo com a eternidade q ue , j á e m Agos t in h o ,

oferecia uma gra nd e variedade d e aspectos. A lit e r atu ra , nova - men t e a q ui, procede p or variações imagina tivas. Cada uma das t r ê s obras co n s i dera d as , l i b er t a nd o - se assi m d os aspectos mais lin eares d o t e m po, pode em cont r ap a r tida ex pl orar os ní- veis h i erárq u icos qu e co n s t i t uem a p rofundid a d e d a experiê n - cia t empo r a l . São, assim, t e m porali d a d es m a i s o u men os es - i ten did as qu e a narra t iva de ficção d e t ec t a , oferece nd o a cada vez uma fig ur a d i fere nt e d o reco l h imen t o, da e t ernida d e n o t e m -

. A . A . Me n d i low , Time and the Novel (op. cit., p . 1 6).

4

5 . A ex pr essão " v aria ç ões i magin a ti v as"

só g a n hará t odo se u sen ti do

f

q u a nd o estiver m os em co n d i ções d e opor a ga m a das so lu ções q u e e l a s dão às

a p or i as do te mp o à reso l u ç ão oferecida p e l a con s t i tui ção d o t empo h i s t órico (quar t a par t e , s eção III, ca p o I).

17 6

TEMPO E N ARRATNA

p

o O Ufora d o t e mp o e , a c r es c e nt are i , d a r el a ç ão sec r e t a d e st a

 

~

c

om a m o r t e .

D e i xe mo - n os a g ora i n s trui r p o r e s s a s t r ê s fábulas sobre o

tempo".

1. Ent r e o te mpo m o r t a l e o t e mp o m o num e ntal:

Mrs . D u llo uia u "

A nt es d e começar a i nt er p re t a ç ã o, é imp o r tante i nsist ir

uma vez m a i s sobre a d i fe r e n ça e nt r ~ o is ní ve i s d e l e i tu ra c rí-

t ic a da m es m a ob r a . N u m J ?.ri m ~ i ro n í ve l, o int eresse se c o n -

cen t r a n a cQ ! l f i g ] J ração d a o bra . N o seg u n d o níve], o i n teresse

se vo lt a para a v i s ã o d e mu n do e pa r a a ex p er i ê n cia te mp oral qu e essa co n f i g u ração projeta pa r a fora de s i m e sm a . N o caso de Mrs. Dalloway, um a l e it u r a d o pr im e i ro ti po, sem ser est é -

r il , ser i a p ur a e si m p l es m e n te t ru n ca d a: se a n ar r a ti va é c o nf i - gurad a da m ane i r a s ut i l co m o ire m os exp or, é a f i m d e qu e o na rr a do r - n ão d i go o au t or, ma s a voz nar r a t i va q ue faz c om

~ u e a o b r a f ale e Sf dir i ja a u m le it o r - ofereça a esse l e i t or u m punh a d o d e ex p er i ênc i as t e mp ora i s a serem p a rt il h adas. E m

co nt rap a r t id a , a dm i t o s em n e n hu m a dif i c u l dad e q u e é a co n -

f i g ur açã o n ar r a t iva d e Mrs. Dalloway - co nf i gu r a ção mu ito p a r -

t

J l u xo d e co nsc i ê n c i a" - qu e s e rv e de s up o rt e p a r a a ex p eriê n -

c i a q ue s e u s p erso n age n s fa ze m d o t e mpo e q u e a voz na r r a-

i c u lar e c o ntudo fác i l d e s itu a r n a famí l i a d os r o m a n ces d o

'

t i va do r o m a n ce q u e r c om un i c ar ao l ei t o r . O na rr a d o r f i c t íc i o f az c om q u e t o d os os a co n t e Q .m ento s

da h is t ó ri a q u e

e s p l ê nd id o d i a g ~ j yn h o d e 1 9 2 3, p o r ta n to , a l g u- 1 lli - a L 1 .osa p2s o

f im d o q u ê fo i c h am a d o d e A C r an d e C u er ra . A téc n ic a n a r r a -

t i v a é tão s uti l q u a nt o o f i o d a n a r r a t i va é s im pl es. Çl at i~a l -

c o n ta se p asse I I ' e n t r e a ma nh ã e a noi t e d e um

* As t r a d uções d e t re c h o s d as t rês ob ras ana l i sa d a s f o ra m fe it a s a pa r ti r

d as c i tações d o auto r , em f r an cês. ( No t a do E di t or )

6 . V ir g i n i a W oo l f , Mrs. Dalloway,

Lo nd r es, T h e H oga r th P ress, 1 9 2 5. C it a -

mos a ob r a n a ed i çã o d e b o l s o , Nova Yo r k e L o ndre s H arcou rt B r a ce [o v ano -

v it ch , 1925.

A CONFIG U RAÇÃO DO TEMPO NA NA R RATNA DE FI CÇÃO

1 7 7

u m a m u l h er d e ce rca de c i n qu e nta a nos d a alt a s o c ie-

e ssa mes ma n o ite um a r e c e p ção , c u jas p e-

ri p é cias m arc arão o ápice e o f e ch a m e nt o d a n arra tiv a . A c om -

pos i çã o da i nt r i ga cons i s t e e m l o ! m a~! l la

l o w a z

ad e

l on d r i na , d a r á

e l ipse, c uj o s e ~ i lo

f ôc o é o jo ve m S ep tim u s Wa r r e n Sr n i ! h , um a ntig o cOE1 b a t e ~ t e

d~ r a nd e G u e r r a , c uj a lo u c u r a o l ev a

ras an t e s qu e C l a r issa ofereç a s u a r e c e p ç ão . Q

c ons i s t e e m f a ze r c o m q u e a n o t í cia d a m o rte d e S e pt i mus s eja

l eva d a p e l o d o ut o r Bra d s h a w, uma ce l e brid a d e m é di ca qu e f a z

p a r t e d o cí r c ul o m u n dan o d e C lar i ss a . A h i s tó r i a a panh a C l a -

ri s sa d e m an h ã , n o m om e nt o e m q u e se p r e p a ra pa r a s air p ar a

co mp r ar f l ore s p a r a a r e c e p çã o , e a d e i x a r á n o m o m e n t o m ais

ao s u icídio a l g um a s ho -

n ó _ d a in mg a

cr

í t ico de s u a n o i t e. T r in t a a n o s an t es, C l a r i s sa q u ase de s p o s ou

~

W a l ~ h, u m , ami g o d e i nf â n c i a , d e qu em a g u a rd a o p r óxi -

m

o reto rno

da s I n d ias , on d e ele arru i n o u a v i da e m ocupa ções

s u b a l t er n a s e a mores m a l s u c e d i do s. R i c h a rd , qu e C l a riss a p r e -

f eri u a ele n o p assa d o e qu e, des d e e n t ão, é s e u mar i do, é um

h o m e m i m p o rtante n a s comi ssõ es p a rla men t a re s , se m s er um

p o l í t ico b ri lh a nt e. O ut r o s p e r s o n a g e n s, f r e q u e n t a do res assí - du os d as mund a nid a d e s de L o ndr es, g r av ita m em t o r no d esse

n

úc l e o d e a mi g os d e i n f ân cia; é imp orta nt e q u e S ep tim u s nã o , •

p

er t e n ç a a e s se c írc ul o e q u e o p a r e nt e s co e nt r e o s des tino s d e

Sep t im u s e C l a rissa se j a ob t ido p e las t é c n icas n a r ra tiv as d e quell

i r e m os f a l a r , e m um n í ve l m a i s p rofun d o qu e a p e rip éc ia d a j no tí c i a d e s e u s ui c í d i o e m pl ena rece p çã o qu e p ermi t e fec h

a

i ntri g a .

A

. : t~c ni ca n a rra t i va

d e Mrs. Dallo3-1! . ? s ! é !llt~~ u _ til.Q . r .r i-

aé!1b

m

e i r o pro c e d i men t o,

o m a i s fá c il d e d e t ec t a r , c o n sis t e e m m ar -

car o a va n ço d o d i a c om _ ~Ç j

e x ceç ã o s u idci iõ d e S e p timu s , ev i d e nteme n te, ~ s a c o n-

te c im e n t os ' à s v e ze s í nfimo s, impu l s i ona m a na r ra t i va pa r a s e u

fec h a m e n t o n eces s á r io : a r ec e p ç ão da d a p or Mrs . D all owa y; s ã o incon t á ve is as idas e v in d a s , os in c id e nt e s , o s e n co ntro s: no

ca m in h o d a m a nh ã , o príncip e d e G a l e s, ou u m a

ou t r a fig u r a

pri n c ip e s ca, p assa d e ca r ro ; u m ae r op l a n o e s tend e su a b an dei-

r o l a pub l ici t á r i a em l etr as m a iú s cu l a s q u e a m u l t i d ã o s o l e t ra ;

C la r i ssa v olt a p a r a arrum a r o ves t i d o d e g a l a; Pet e r W a l s h , re-

u e n íssi m o s ac on t ecim e nt o s ; co m

pe n ti nam e n te c h ega d o das Ín d ias, s u rp r ee n d e-a n a a t i v i d a de

p

( -

1 78

EMP O E N A RRA T I VA

T

de c o s tur a; a p ós revo l ver as c in zas d o p assa d o, Cl a ri ssa lh e d á

u m b e i jo; P eter se a f as t a em p ra nt o s ; a t ravessa o s m esm o s lu-

ga r es q ue C lar issa e d á co m o ca s al f o rm a d o p o r Se pt i mus

e

R ezia, a peq u e n a m odis t a d e Milã o qu e s e t or nar a s u a esp osa;

R

ezi a l eva o m ar i do

a um p r i me i ro p s iquia tra , o d ou t or Ho l-

m es: R ic h a rd h es i ta em c o m p r a r u m co l a r d e p éro l as para a mulh er e esco l he r osas (a h , essas rosas qu e circ ul a m do co m e -

ç o ao fim d a n arrat i va e cheg ~ - se

ta p eça r i a do qu arto de Se pt im u s con d e n a d o ao r epouso pe l a

med i c ina ); Ri c h ard , d emasiadamen t e p u d i co , n ão p oderá pro -

n unciar

K il ma n , a d evota e fe i a p recept ora d e E l i z a b e th , a fi lh a do ca-

sa l Dall oway, v a i às compras com E li za b e t h, qu e a a b andona

no me i o de s ua s bombas d e ch o cola t e; Sep ti mus, ins t ado pe l o

do ut or B rad s h a w a de i xar a mu lher por uma c l í ni ca no c ampo ,

p

o r u m momen t o n a

a me n sage m de amo r q u e e ssas rosas s i g ni f i ca m; M iss

j

oga - se p e l a j ane l a; Pe t er decide-se a com p arecer à recepção

d

ada por Cl a r i ss a; vem a grande cena da festa d e Mrs. Da l loway ,

o

a n ú n cio do s u i c íd i o d e Sep timu s p e l o do u tor Bradsh aw; a

mane i ra co m o M rs. D a ll owa y recebe a n otíci a do s u icíd i o des- se jove m qu e n ã o con h ece d e c i d e o t om qu e a própr i a C l aris - sa d ará ao f ech ame n to da n oite, q u e é t a m bém a morte d o d ia .

, Ess e s aco nt ecimen t 9 s , í n f im o s ou consideráve i s , ; : o

Eân t ua-

Ee l o _r ~ ssoar das poderosas pa n ca d as do B ig e ~ e e o u -

t ros sinos d e Lo n dres. M ostraremos mais a d ian t e que o signi -

f icado mm s im porta n te

buscado n o ní ve l da co n fig u ração d a narrativa, como s e o narra - dor se l i m i tasse a aj ud ar o l e it o r a se si t uar no t empo narrado :

dos

da lem b rança da h ora n ão d eve ser

as p ancadas d o B i g Be n t ê m se u ve rd a d eiro l u gar na ex p e riên -

~

\

c ia viva q u e o s di ve rsos p ersonagen s f azem d o t e mp o. Per t en -

ce m à ex p eri ênc i a f i c t íc i a do t empo para a qu a l a conf i guração

da obra se a br e.

N esse p rimeiro p roce dim e nt o de a cú mu l o progressivo , i n -

sere- se o p roced ime nt o ma i s con h e c i d o d a t éc n ica narra ti va

de Mrs. Dalloway. À m e did a q ue a n arra ti v a é im p ul s i o n ada

pa r a a frent e por tu do o qu e aco nt ece - por m ín im o q ue sej a -

n o t e m po n arr ad o, ela é ao m esmo tempo emp u rrada p a r a t rás,

r .e t a r da d a

q

u e c o n s tit uem ou t ros tant os acontecimento s d e p ensa m en t o , -

d e a l g um m odo , p or amp l as ) ncJ . lX . $ 5 ~ assa d o ,

-

A CON FI GU R AÇÃO D O T EMPO NA NA RR A TI VA D E F I CÇ ÃO

1 79

in ter p oladas e m l o n gas sequênc i as en t re as b reves irr u pçõ e s

d e ação . P a r a o c í rc ul o d os D a lloway, esses pe n samentos nar-

rados - he thought, thought she" - são n o esse n cial vo ltas à in - fância em Bourton e, prin cipa l men t e, a tud o o qu e p udesse es-

t ar r elac i ona d o ao amor mal og r ado, ao c asame nt o rec u sa d o ,

ent r e Cla r issa e Peter ; p a ra Se pt i m u s e R e z i a, tai s mer gu l hos no passado são uma ru min a ç ão desesp era d a so b re a ca d e i a d e aco nt e c i m en t os que l evou a um casame nt o desast r oso e à i n -

f e licidade a b so luta. Essas l o n gas seg u ências . s i e . ~ same n t o _ s ~

m

const i tu e m apenas vo ltas ao passado que, ~ adoxa l ment ~ , f a -

ze m avan ç ar o t er r : : Eo n arra d o r ~ t arda nd o - o ; cava m p or d e n -

t ro o in s t an t e do a c on t ecime nt o de pe n sa m e nt o, a m p lificam

do i n t er io r os m om e ntos do tempo narrado , d e t al m o d o q u e

o in t er va lo t o t a l da n arra t i v a, apesa r de s u a r e l a tiva b r ev i dade , par e ce ric o d e um a ime nsid ão imp l ica d a ". Na lin h a desse dia,

cujo a v an ç o é pont u ado pe l as p a ncadas d o B i g Be n , as ond a s

d e le m b ra n ça , as suputa ções pe l a s q u a i s c a da personag e m es -

f o rça-se e m a d i v in har a s con j ec tu r a s que o s o ut ro s fa ze m s o -

b r e sua própria aparência , seu própri o pens a ment o, se u pr ó -

prio s e gredo , f ormam amp l as molas que dão sua dist ensão es -

p ec í f i ca à ex t ensã o d o t empo nar r ado " . A a rte da ficção co n s ist e

u dos - ou , o q ue dá no mesmo, de d isc u rsos i n teriore s - n ão

• E l e p e n so u , p e n s ou e l a.

.

7 . [ am es Haf l ey , The Glass Roa/, p. 73, opondo Mrs. Dallowayao Ulisses d e

Jo y c e , esc r eve: "(Virginia WoolfJ used lhe single day as a unity (

re is no sucn thing as a single day" [ Virg in ia Woo l f u s a u m dia co mum com o u n i-

.) para mo s trar q u e n ã o e xist e a l g o co m o um d i a com u m ], c i tado por

[ ean G ui g u e t , Virginia Woolf et son oeuvre: l' art et Ia quête du réel, Par i s , D idi e r ,

" É tu des a n g l a i se s 1 3 ", 196 2 ; t ra d . ing l es a, Virginia Woolf and Her Works, Lon - dres , The Hog a rt h Pr e ss, 1 965 , p. 389 .

8 . V i rg i ni a Woolf es t a v a m uit o org ul ho s a pe l a d esco b erta e pe l o ex e rcíc i o

d a de

.) to show thai the-

de ss a , t é c n ica narra t iva que em s6!!õiár~a

took me a year's groping 10 discover What I call my tunneling process, by which I

teil the past Inj ins t a l me n is, as I have need of it " [ p rocesso de a b ertura de t ú n e i s :

" C u s t o u- m e u m a n o t a t ea n do para desco b r i r o q u e eu c h amo d e me u pro ces - so de abertura de tún e i s, p e lo q u , ? l c onto o passado por pr e s t açõe s, co n f o rme

te nh o neces s ida d e" ] (A Writer's Diary, Londr es, T h e H og a rth P ress, 1 9 5 9, p. 60 ,

c it ado por [e a n G u ig u e t , op. cit., p . 22 9 ) . Na época e m que o es b oço do romanc e

The Hours, e l a escr e ve e m se u Diário: "I should say a good deal

ai n d a s e c h amava

c h a m a d e "lhe tunneling process":

"li

180

T EMPO E NA R RAT T VA

ass i m e m tecer ju ntos o m un d o da ação e o d a introspecção , em mesc l ar o sen t ido do co t id i ano e o d a i n t er i oridad e . Para um a c r ítica l i t erária ma i s a t e nta à d esc rição d os ca -

racter es do que à e x ploração do tem p o n arrado e, a t r a v és desta , do tempo v i vi do p e l os perso n agens d a narr a tiva, é ce rto que

e s se me rg ulho no passado e tam b ém essa ava li ação inc e ssan -

t e das a l mas um as p e las o u tras co n tr i buem , ao l ado dos ge s t o s

d escri t os d e fora, pa ra re co n st r u i r su bt erraneam e nte os ca r ac-

t e res e m s e u estado pr es ent e; dando um a esp e ssura te mpor a l à narr a tiva , a imb r icação d o pr e se nt e n arrado com o passado

\ J

l !!: : , le q tb rado c onf e r e uma esp e ssurapsico l ó gica

a os persona -

. g e ns , sem nunca , cont u do , conf e r i r - l h e s um a id e nti dad e e st á - _ vel , t an t oa s p e r c epções dos p er sonage n s sobre os outros e so -

b re e l es m e s mos são discorda n t es; o l ei t or é d e i x ado com as

pe ças so l tas d e um g r and e jogo de id e nti f icação do s ca r act eres,

c~a so l uç ã o lh e esca pa tanto quanto aos p e rson a g e n s da na r - rati v a . Ess a t e nt a ti v a d e id e n t i ficação dos p e rsona g en s é cer t a - m e n t e co n f or m e às in c ita ç ões d o narrador f i c t íc i o quando e l e

e ntr eg a s e u s p e r s ona ge n s à intermin áve l b u sca d e s i m esm os " .

about The Hour s and my discooerf: how I dig out beautijul caves behind my charac- ters: r think that gives eXl1ctly what I wanl; humaniti], humour, depih. The idea i s that lhe caves shall conneci and eacn comes 'to daylight at the present moment" [ " Eu d e-

ve ri a fa l a r b a s t a nt e s o b r e The Hours e minha desco b er t a: c omo e s c a v e i bel as ca -

ve rna s po r t rás d e m e u s p ers on age n s: ac h o q u e i s so proporciona exa t a m e n t e o

u e e u q u e r o; hu man i dad e, humor , p r ofundidade , A id e ia é qu e a s cave rn as

e s t e j am co n e c ta da s e ve nh a m t o d as à l u z n o mom e nto pr ese nt e " ] (A Writer's

Diarf, P : 6 0 , c i t ad o p or [ ea n G u i g u et , op. cii., p. 2 33 -4) . A a lt er n â n c ia e ntr e a

~ ação e a l e mbr an ç a t o rn a - se ass im um a a l t e rn â nc i a en t r e o s~ p er fi cia l e o pr o -

• • •.fundo. O s d ois d e s t ino s d e S e ptimu s e d e Cla r i ss a se c omuni ca m esse n c i a l -

m e n t e p e l a 0z inh a n ç~ d as " c ave rn as" s u b t err â ne as visit a d as p e l o narr a dor ;

n a - s up e rfí c i e e l e s são po s to s e m r e l a çã o pelo p e rsonagem do do u tor Br a d s haw ,

q u e p er ten ce à s du as s u bintri ga s: a notíc i a da mor t e d e S e ptimu s t ra z id a p e l o dou t or Brad s h a w a ss u m e a ss im, na superfície, a un i dad e da int r i g a.

9 , É à e x p l o r a çã o dos ca rac ter es que se consagra p ri n cipalm e nt e [ ea n A le -

x an d er, em The Venture of Form in ihe Novels of Virginia Woolf, P or t Wa s h i ng t on ,

N . Y , Lond res, K e n n i k a t Pre ss , 197 4, c a p o III , "Mrs , Dal l owa y and To th e L í g h-

thou se" , pp , 85- 1 0 4 . E sse c r í tic o vê em Mrs, Dalloway o úni c o r o ma n c e d e V ir -

g i n í a Woolf qu e "eooiues [ro m character" [q u e se de s en v o l ve a par t ir d e u m ca-

r á t e r ] ( p, 8 5), Isoland o a ssi m o p e r so n ag em de C l arissa, [ean A l ex and er pod e

A CON FI GUR A ÇÃ O D O T EM P O NA NARRAT T VA D E F I CÇÃO

181

U m pr oce di mentQ da t écnicª - 1 l a r r a tiva de Mrs. Dalloway,

menos f á c il de p erce b ~ r qu e o pr e c e d e nte,

a t e n ção . O n a rr ado r - ao qua l o l e i t or

o pr i v il ég i o exor bita nt e de co n hec e r d o in t erio r os p e n sa m e n -

t os de to d os se u s p erso n agens - dá a si mesmo o mei o d e pas-

sar d e u m f luxo d e consc i ência a õ utro, faz e n d o com q u e se u s

p

Londres, o parque pú blico) , fa z endo - os ou v i r os mes mos ba-l

rul h os , fazendo-os assistir ao s m es mo s incidentes (a passa- i

gem d o c a r r o do pr í nc i p e d e G a l e s , o voo do aeroplano e t c.) . Ass im é i n corpora d a p e l a pr i meira v e z ao mesmo campo n ar -

ra ti v o a h is t ór i a d e Sep tim u s, t o t a l m e nt e es t ran h a

à d o c í rcu l o

Da l loway. Sept i m u s o u v iu , como Clari ssa, os r u mo r es s u sc ita -

dos pe l o i n ci d en t e r e a l (v e remos mai s adian t e a imp or t â n c i a

q u e este ú ltimo adquire na visão que os di v ersos pro t agonis-

tas t ê m do próprio t e mpo). É r e co r re ndo ao mesmo p r oced i -

m e n t o que o narrador sa l ta das rumina ç ões d e Peter s o bre seu

m e rece t oda n ossa

co n c e d e u de b om gra d o

e r sonagens se encontr e m n os mesmos l ugar e s (as r u a s de

an

ti go a m or mal ogrado a os fun e sto s p e nsame ntos trocados

pe

l o casa l Re zia - Sept i mu s , r e m oe ndo o d e s as tre d e s ua união.

_ A u nida d e de lugar , o . f ~ c e a face e m um ba n co do mesmo pa x

-

q u e , e quiv a le à u n i dade d e um m e smo instante no qu a l o n ar-

rador en x er t a a ex t ensão d e u m , l apso de mem ó ria " . O p r oce-

rea l ç ar o f a lso bri lh o , mis t ura d o c om o es pl e n d or , e o s c ompromi ss o s c o m um mun d o s oci a l q u e, para e l a, n u n c a p e rd e a so l id ez e a g l ór ia. Cl a ri s s a torna - s e I

ass i m um "class .S.Y/ll.bOI'." c uj a dU f . e za e . c u j o

Ma s a re l aç ão s ecre t a c om Septimu s W a rr e n S m i t h mud a a p ers pe c ti va, f az en - I

do e m e rg i r os p e rigo s que a v id a d e Clari s s a s upo s t a m e n t e

v a z io P e t e r W a l s h b e m p erce beu . "1

de s ar ma , a s a ber , 'I

~ es tr u iç ão

,. pos sív el da p e r s ona li d a de pe lo jo g o da s r e l açõ e s h u manas. Essa

a b or d agem ps i co l ógi ca su sc i t a u ma an á li se p e r ti nen t e da ga ma do s s entim e n -

t os de me d o e de t e rror qu e o rom a nc e e x plo r a. A a pro x ima çã o com A náusea,

de Sar t re , pare c e- m e dessa per s p e c t iv a to t almente

ju stificada (jJ. 9 7 ),

- 1 õ .' ba v i d D a i c h es (The Novel and the Modern World, U ni ver s i t y of C hi ca-

go Press, 1939 , ed . rev. 1969, c ap o X : " Virgi n i a W oo l f") c onsidera e ss e pro c e d i - m e nt o o m ais avançado da ar t e da fic ç ão e m V i r g in i a Woo l f ; e l e p e rmi t e , tecex)

[ unt os oS , E 1 oQ Q sda a çã o e da i nt ro s pec ç ã o : e s sa con j un ç ão ind u z um " t u n li g h i mooâ of receptive reoerie" (p . 189) [ di s po s iç ã o difusa d e de v aneio r ecep t iv o ] , que

Vi r g í n ia Woolf ex primi u - se s obre

e ss e "mood.:JdisRO~ão], t ã o c a r a ct e r í st ico

de t od a s ua obr a , e m seu en s aio

o l e i t o r é con v id a do a p a r t ilh a r . A própri a

" On M õ dern F i c t ion ", Tfie Common Reader, 1 9 2 3: "Lije i s a luminous hato, a semi-

'---

-

182

E MP O E NARRA TN A

T

di m e n to t oma - se v erossí m i l ] 2 e l o efeito de ressonânc i a que com -

pensa o e fei t o de rup tur a criado pelo sa l to de um f l u x o de co n s- ciência a ou t ro: acabado, e sem retorno possí v el, é o an t igo amor de Pe t er; a cabado , e sem f u t u ro possí v e l , é t ambém o ca-

samento do c a s a l R ez ia - Septim u s. É por uma transição seme -

l hant e que s e vo l t a e m s e guida de Pe t er a Re z i a, p assando pe l o refrão da ve l ha para l ítica, cantando amores frust rados : uma pon -

t e é l ançad a e n tr e a s almas , ao mesmo tempo pe l a co ntinuidad e

1

surrounding u s f rom th e beginning of consciousness 10 the end"

A v id a é wn h al o lu min oso, um en ve l op e se mi t r a nsp a r e nt e e n v ol ve ndo- n o s

d o iní c io a o fim d a co ns ci ê n c ia] ( c it a do por D. Daic h es, op. cit . , P : 1 92) . D a í c h es

p r op õe um es que ma s imp l es qu e dá c on ta p e rfeitam e nt e d essa t éc ni c a s util ,

m as f ác i l d e a n al i sa r. Ou n ós no s m a n t e mo s i m óve i s no t e mpo e a b arc amo s

c om o olhar a c on t e c i m e nto s div e r s o s, m as que se d ese nr o l a m s imu l t aneame n -

transparent envelope

[

t e no es pa ço, o u p er m a n e c e mo s im óve i s no e s pa ç o , ou me lhor , num p er sona -

ge m , er i gi do e m "l u ga r " f i x o , e ava n ça mo s ou r e montamos no t e mpo d a c o ns -

c i ê ncia do m es mo p e r s on age m . A t éc n i c a na r r a ti va c on sis t e as s im e m faze r al-

t ~'. I !

a di s p e r sã o ~ os p ers on age n s num m es mo p O O t o d; ; - t e f i põ e ~ dísp e r s ã ç

_d ~ s l e mb ra n ça s no i n t e ri o r d e u m m es m o p e r s ona ge Il }. Cf . o di ~gra m a pro p o s-

to

por D a i c h es, op. cit.,

pp . 204-5 . A esse . :: s ~ t o , ~ ir g inia Wo o l f se ! f l0sh · a ' ! . a i s

pr

e ocup ad a do q l {e [o yce em di s po r aq ui e a li m a r c o s in e quívo c o s qu e g u i . ? -m

Õ cur so de ssa s ã lt er li ân ci as. Par a uma c omp a r açã o c om Ulip'§.es.,qu e t a mb é m f az

ac ont ecer e m um d ia o ema r an h a d o i n fin i ta m e nt e mai s c ompl exo d e s u as ex -

c u r s ões e i nc u r sõe s , cf . D a ic hes (op. cit., pp. 190 , 1 9 3 , 1 9 8, 1 99 ) , q u e v i n c ul a a

c t if e r e n ça d e t é c n i c a do s do i s autor e s à difer e n ç a d e s u as int e n ç õ es : "Joyee's aim tuas to iso/ate reality f rom all human atiitudes - an at"t;mpt to -;'e-;iive lhe normative

of all va -

lues in the observer, indepcndent

e l e m e ni from f i c ti on completebj,

to create a selj-contained world independent

eoen (as though it is possible) of ali ualues in the crea-

tor. But Virginia Woolf refines on uatues rather ihan eliminates ihem. Her reaction to

cnm.zbling nor111Sis not agnosticism but sopnieiication" (op. cit., p. 1 99 ) [ Ç2

d l Joy c e e ra i s o l ar a rea l i dade de t oda s a s atit u d es hum a na s - u ma t e nt a ti va d e

~ e mo ve r c ompl e t a m e nte o e l e m e ' i : : to nor; ; : ; a tiv o d a fi cçã ~ , de cr i ar u m m u ndo

f echado in - . E e p en d e n t e de todos os v a l or es d o observador, ind e p e nd e nt e m es -

mo (ta n to qu a n t o p oss í v e l) do s va l ore s do cri a dor . Mas Vi r gini a Woo l f r e f in a

obj ~ t i ~ o

o

s v a l ore s e m lugar d e el í m í n ã - lo s . Su a rea ç ão à s n o rmas e s fa ce ladas n ã o é a g -

n

o s tici s mo , ma s sofis t i c a çã o ] . D a vid Daich es r e tomo u e d es en v ol v e u s u a int e r -

pr e t ação de Mrs. Dalloway em Virginia Woolf, N e w Dir e c t ion s Norfo l k , Co n n,

1942 , Lo ndr e s , Nic h o l son e Wa t s on , 1 945 , p p . 6 1 - 78 , e di ção r e v isada , 196 3 , pp .

1 8 7 - 217. É e s s a e c tição qu e c itamos a q u i. J ean Guigu e t , n a ob r a j á c i t ad a, r e to-

ma , ap o iando- se pr i n c i pa lme n t e no Diário de V irgíni a Woo l f , publi c ado ape- nas em 195 3, a q u e st ã o d a s r ela ç ões e n t re o Ulisses, de [oyce , e Mrs. Dalloway

( pp : 2 ' l1- 5 ). -

A

CON FIGUR AÇÃO DO TE M PO NA NARRAT l VA DE F I CÇÃO

183

dos l ugares e pe l o r essoar de u m disc u rso in t er i o r e m um O U -

t ro . Em uma outra ocasião, é a d escri ção de a d m i ráveis nuvens

n o cé u de j u nh o qu e permite à n ar r a t iva a t ravessar o a b ismo

que sepa r a o cu rso dos pe n same nt os da j o v e m E l iza b e th , de

v o lt a d e sua l i v r e escapada após ter d eixa d o

f l u x o de co n sci ê ncia de Se ptimu s, p reso a se u l e ito por o r d em

dos psiquiatras. U ~ a . Ear ~ c! . a p o mes m o mE<tr j u ma_ p ~ u s a no

l ! l es2 nol ~ o Q ~ temJ 2 oforma m uma passare l a en t re duas tem - por a l idades estran h as uma à ou t ra .

M i ss Ki l man , e o

Que e s ses proce d ime n tos, caracterís t icos da con f i g uração

-

t e mpora l, si rva m para s u scitar o co m parti l hamen t o. e n t r e o nar - rador e o lei t or, de uma ex periência tem pora l o u , mel hor, d e uma gama de e x periê ncias t empora is, e , assim, par .2 . E figy Ig

na leitura o próprio tempo, é o q u e impor t a agora m o strar , p e ne -

--

t r an d o na t a bu l a sobre o tempo a o l ongo d e Mrs. Dalloway. O t e mpo crono l ógico é b e m evid e nt e m e nt e r e pr e sen t ado

r : r -

--

-

[

n

a f i cção pelas pancad a s do . Big Ben e de alg u ns o ut ros s i nos

e

re l ógios soan do as h oras. M a s o impor t ante não é esse a l er-

t ã da hora , soando ao . mesmo tempo pa r a todos , m . 2 .s _ arelação \

~ e · Q S - C l i. v -ª sosp rotagonistas e stabel ~ cem com _ as m ar c as do /I

t e mpo . São a s varia ções dess a re l a ç ão , segundo os persona- gens e as ocasiõ e s, que constitu em a experiência temporal fictícia

qu e a na r r a t iva c o n strói com e x t r e m o c u i d ado, para persu ad i r

o leitor . As pa n c a das do Big B e n ressoam pe l a primeira v e z quan -

do C l arissa , na ro t a das lo j as d e lu x o, em W es t mins t er , r ev ol v e em seus pensamentos o id í lio rompido com Pe t er, a in da sem

f i cam p ara e l a , n e ~ ! llQ . r n ~] l J o , as p~nca d a s d o Big Ben : %!)

sab e r qu e est e ú ltimo está d e v o l t a . O importa n t e é o que sig -

ni

El

i rrevogáv e l. Os p esa d os círcu l os s e disso l vem no ar" (p . 6) .

Essa frase , tr ê s ve ze s repetida ao l ongo d a na r ra t iva, l e mb rará

so z in h a a i dent id a d e , para todos, d o tempo dos re l óg i os. A hor a

é i r r e vogável? N e ssa m a nh ã de ju n h o , po r ém, o irre v ogá v el não oprime, reav i va a a l egria de vi v e r , n o f r e scor d o novo mo- mento e na e x pecta t iva d a br ilh an t e recepção . Ma s uma som-

e est à começa nd o . Prime i ro, o pr elúdi o mu sic a l , depois a h ora ,

1

8 4

TEMPO ENARRATNA

A

CONFIGURAÇÃO DO TEMPO . NA NARRATNA DE FICÇÃO

1

85

bra pas sa : se P e t e r v o lt ass e, nã o a chamari a n ova m e nt e, com

g

ulho , l ev ará a p r ime ira a e n f r e nt ar " . Mas f i g u ras de A ut o r i d a-

su a terna ir o nia: "The perfect hostessf"*? A s sim c am i nha o tem -

d

e s ã o p o r ex c e l ê ncia o s ho r r íveis m é di c o s q ue a t o r men tam o

,C

.

po interior , ~ u x ado pa ~ a trás J2 e l a m e mó r i a e a ~~e la

p e c t a ti va . Disieniio animi: "S e m p r e s e n t i ra qu e e r a m u ito , m ui to

per i goso v i ver, por u m só d ia qu e f osse " (p . 11 ) . E st ranha C l a -

ex-

' r i ssa: símbo l o d a pr e ocupa ç ão fo r j ada p e l a v aidad e d o m undo ,

Ipr e ocup ada com a i m age m d e si m e sm a qu e e nt r e g a à int er - pr e t a ç ão d os o u t r o s , a t e nt a a se us p ró prios hum ores in s t áve i s e, a cim a d e t u d o, corajosamente a p aix on ada p e l a v i da, apesar d e

s ua frag i li d ade e d e s ua

rá ai nd a um a vez ao l on g o da n a rr a ti v a - o r efrão da Cymbeline

d e Sh a k es p eare:

dup li ci d a d e; p ara e l a ca nta - e c a n t a -

Fear no more the heat o' the sun Nor the furious toinier's ragee,"

Mas, a n t es m es m o d e e v oca r os o u t r o s incid e nt es d as p a n - cad as ma r cadas p e l o B i g B e n, é imp o r t an t e n o t ar qu ~ o t emp q _ o fi cial com o qu a l os p ersonagens são c o n fro n ta d os nã o é ape -

n as esse te m po dos re l óg i os, ma s t ud o o qu e é conive nt e com

fk , Está d e ac ord o c o m e l e tudo o qu e, n a n arra t iva, evoca a

h i stó ri a m o num en t a l , pa r a f a l ar co m o N ie t zsc h e e, e m prim ei -

r o l u gar, o admi ráve l ce n ár i o d e m á rmo re d a c ap i t a l i m p e ria l

( l u gar " r e a l", na f i cção, d e t o d os os acon t ec im e nt o s e d e seu s

eco s int eri ores). Essa h i s t ória m~~en t a l ,

p s r s~a vez, sec r e -

qu a l o

ta o q u e e u ousare i ch amar d " , tempo monumental~do

te mp o crono l ógi c o é a p e n as a expre ss ão au ê tí V e l ; a e sse t e mp o ~ r i o nu m e nt al p erte n ce m as fi g u ras d e A u toridad e e d e P oder

q u e con s ti t u e m o , S o nt ra p olo d o te mpo vi~2 , r esp ec t iva m e nt e

S ep t i mus , d e s se t e mp o qu e, p e l a v i r -

tud e d o r i gor, levará o ú ltim o a o s u i c ídio e, p e l a v irtud e d o o r -

v i vi do po r C l ari s sa e p or

inf o rt un ado S e ptim u s , p e rdido e m se u s p e nsame nt o s s u ici d a s, ao p o n t o d e l ev ar e m - no à mort e. O qu e é, com ef e i t o , a loucu ra para S ir W i ll i a m Bra d s h a w , es sa s u m i d ad e m é d i ca ena l t e c i da p e l o

e nob re cir n e nto , s e n ã o "ser priv ad o d o s e n ~ o d e m ed id a [pro-)

portion]" (p . 1 4 6 )? " M e d i d a, d iv i n a I 1led ida, d e u sa q u e S i r Wil -

l i a ~ l . ad o ra vg" ~ O). É es se s e n so d e - m e d i - da , d e p r o p o r çã o, ) qu e in s cr eve t o d a s ua vi d a pr o fis sio na l e m u ndana n o t e mpo

m o n u m e n t a l. O n arra d or n ão t e m e u as s o c i a r a es s as figur as

d e A u t o rid a d e, t ão c o ns oa n t es c om o temp o o f i cial , a r e ligião ,

fi g u ra d a p o r M i ss Ki l m an, a p rece pt or a f e i a, r a n c o ro s a e d ev o -

ta qu e ti rou E l i za b e t h d a m ãe, a nt es qu e a m oç a l h e es c a p asse

pa r a reco br a r se u pró prio t emp o, c o m s u a s promessa s e a m e a -

ças. " Mas a Me did a t e m um a irm ã meno s sorri d e n t e, m ais t er-

ríve l

Tempo d Q § r e l óg i os, t e mp o d a hi s t ór i a m o n um en t al, t e m -

C ha m a - s e Into ler â n c i a [Conversion]" (p . 151).

p o d as f i g ur as d e - 1 l l to t i d a d e : m esmo t e m po! É so b a regênc i a desse t e mp o m o nu m e nt a l , m a i s ' complex o q u e o s imp l es t e m - po cro n o l ógic o , qu e se d eve ou v ir s oa r - o u m e lh o r , b ater - as

h o r as, ao l o n g o d e t od a a n arra t i va.

o Big B e n br a da , n o m o m e n t o e m q u e

C l ar i ssa ac ab a de a pr ese nt ar a f ilh a a P e t e r ": "o s om d o B i g Ben

b a t en d o a me i a h or a r e ss o ou e n t r e e l e s co m ex trao rdinár i o vi-

go r , c o mo se u m j o ve m vig oro so, i n d ife r e n te, br u tal , l ançasse

s e u s h a l t ere s para f re nt e e par a t r ás" (p . 7 1 ). Não é, co m o a pr i-

Um a seg und a vez

12 . F i gura f u r t i va d e Au t o rid a d e: o c ar r o e n t r e v i s to d o p r ín c ip e d e Ga l e s

(e a rainha, se f osse e l a, n ão é acaso "o p e rd u r áve l sí mbol o d o Es t ado" "the en-

during symbol 01 the State")?

ções: '3f!ing the ruins 01 time" ( p. 2 3) [ e s q u a d r inh a n do os des t roços d o t em p o ) .

O u a inda õ avíãO e s u a f aixa p u b l ic it á r i a e m l e t r as m aiúsc ul as i m po n e nt es. F i -

A t é as v itrin e s d e an t i q u ár i os l e mb ra m suas f un -

 

g

u r a s d e Au t or id a d e, os Lor d es e as L a d i es d as eter n as "rece p ções" e m esm o

• A p er feit a a n f i t r i ã !

o

h o n es to R i c h a rd D a l l ow a y, f i e l se r v ido r d o Es t a d o .

11

. " Não mais t e m as o ca l or do s o l . N e m as i r as d o in ve rn o f u r i oso"

1

3 . "Es ta é m inh a E l iz a b e t h ", di z C lari ssa, co m t o do s o s s u b e n t e n d i d os

(p. 13). C l arissa l e u esse r e f rão ao p a r a r dian t e d a v i t r i ne de u m liv r e i r o; e l e

d

o p ossess i vo, q u e só e n co n t ra rão sua ré p li ca n a úl t im a apa r ição de E l iza b e t h,

co n s ti t ui ao m es m o te mp o um a d as pon t es l a n çadas, p e l a t éc n ica n ar r a t iva, e n -

q

u e va i e n co n t r ar o p a i d ela, n o m ome n t o e m qu e as co r t in a s i rão se f ec h a r so -

t re o d es ti n o d e C l ar issa e o de S e p t im u s, t ão a p aix on a do , com o vere mo s, p or

S h a k es p eare.

b r e a r ece p ção

p r ópr i a E li za b e t h " ( p. 2 95).

d e M rs. D a l loway : "E r e pe n ti n am e n t e e n te nd e r a q ue e r a s u a

18 6

TE M PO E NARRATNA

mei ra vez , a l e mb r anç a do i n ex orá v el, mas a j nge rê n ç ia - " en-

f i Os p esados c í rc u l os se disso l vem

tre e l e s " - do incongruen t e:

nó - ar" , rep é t e - o narrador . Por q u em , po i s , soou a meia hora?

"N ão esqueç a mi nh a rec e pção ! " l anç a Mrs. Da ll oway a Pet er ,

q u e a de i xa ; e e ste se a fas t a mod u lando r i t micamente as s e-

g u i nt es pa l av r as à s pan c ad a s do Big B e n: a i nd a onze e m e ia ? pensa e l e . Assoc i am - se a el e os sinos de St . Marga r et , ami g á -

ve i s, hospi t a l e i ro s , como C l arissa. Alegres, poi s ? Apena s at é o

ponto em qu e o e nl an g u escer do s om evoca a an ti ga do e n ça

d e C l a r issa e e m qu e a for ç a d a ú l tima pa n cada t o r na - se o d o-

b

r e fún e br e s oando sua morte i m ag i nada. Quan t os r ecursos

[ tt e m a fic ção para acomp a n ha r as s utis v aria ç ' õ e s e ntr e o t e m - \ po da c onsci ê nc i a e o t e mpo crono l óg i co!

U m a t erceir a vez , o Bi g B e n soa (p . 1 4 2) . O n a rrador f az s o ar

~ ~lr-'f\

m e i o- di a si mult a n ea m e nt e par a S e ptimus e R e z ia, a c a minh o

d o d o u to r Holm e s , so br e cu j a r e l aç ão o c u lt a com o tempo ofi -

ci a l j á co m en tamo s, e par a C l ar i s s a e stend e nd o s e u ve st i do ver -

d e na c a m a . Pa ra ca d a um d e l e s, e para n i ngu é m , " os p e sad o s

c

hor a é a m e sm a pa r a t o d os? D e fO ! i 1 siI D , d e d e nt r o l nã o : S ó a

' i Cç ão,p~recisam e nt e, pod e ex p l orar e ex p ri m i r p e la l in g u a g e m

es s e div ó rcio e n t r e as v isõ e s d e mundo e su a s p e rsp e ctivas in -

c onc il iáv ei s sob r e o t e mp o, qu e o t e mpo púb l ic o cava.

- Ã h ora s o a d e n ovo, um a e m e i a, d e ssa vez nos r e l óg i o s d o

r i c o b a irr o c o m e rci a l ; para um a R ez ia e m p r antos , el e s " ac o ns e- lha v a m a submissã o , exa l ta va m a autoridad e e lou v a v am e m coro a s va n t agens in c ompará vei s da med i da " (pp. 1 54 -5 ). É pa r a R i ch a rd e Cl ari ssa qu e o Big Ben soa três hor as. Para o p r ime i ro , ch e io d e r e conh ec im e n t o p e l o mi l agre qu e s e u casamento com C l a r issa l h e par ece significar : " Big B e n come-

í r c ul o s s e d i s sol ve m n o ar" (ibid.). Pod e - s e a ir l da 9j ze,r 9 u e a

ç a va a soar , p r ime i ro , o pre l úd io m u sic a l , depois a h ora, i rr ev o -

g á v el" (p . 177). A m bíg u a m e nsag e m: pon tu ação da f elic i dade? ou do t empo p erd i do em v ai dad e ? Quanto a Clarissa , me rg u-

l h a da, no m e i o de seu sa l ão , na pr e ocu p aç ão com seus convi t es:

" o som do sino i n undo u o aposento com suas onda s melancó-

l icas " (p. 178). Mas e i s R i char d , dian t e d e l a, e stendendo - lh e

suas f l or e s . Rosas - s e mpre ros a s: " A fe l icidad e é i sto , é is t o, pens o u e le " (p . 180) .

A C O N FI G UR A ÇÃO DO TEMPO N A N A R R AT NA D E FICÇÃO

1 8 7

Quan d o o Big Ben soa a meia hora seg u in t e , é pa r a po n-

tuar a s o l e ni dad e,

v i sta por C l arissa , ao lon g e , d i an t e de l a , no v ão da jan e l a, reti -

r a ndo- se pa r a as profu nd ez as de s e u q u ar t o ; como se as p a n-

cada s dad a s p e l o e n orme s in o s ubm e rgis s e m de no v o Claris -

sa n u ma z o na de tra n qui l idade, o n d e nem a v ã nosta l g i a do

amo r o utrora p e rsegu i d o por P e t er n e m a r e ligião e smag ad o -

r a p r ofe s s a d a p o r Miss Kilman p o d e r i a m p e netrar . Ma s, dois

minut os a p ós o Big B e n , re ssoa u m o u tro s ino , cu j o s son s l e - ves, m e n sag e i r o s da f u til idad e, m esc lam - se à s úl t i m a s on d a s

ma je s t o sas d as pancadas do B i g B e n pronuncia n do a L e i. É p a ra i nscr ever n o t e mpo público o ato suprem a ment e

pri va do do s uic ídio d e S e ptimus

Q u e ra z ã o t e m e sse r e l ó-

gio , co m pa rado com t odo s es s es rumor es d e p as so s, e s ses mur-

múr i os

cia ; o s in o cont i nu ava bate ndo q u a tro , c i n c o , s e is" (p . 227) . A s

tr ês primeir a s pancad as c o mo a l go de c on c r e to , d e s ó l ido , n o

tumu lt o d o s murmú r i o s , as trê s o ut r a s c om o a band e ira i ça da

e m ho nra do s mort os no ca mpo d e ba t a lha.

O di a a v an ç a , imp ulsionado p a ra a f r e nt e p e l a f l ec h a do

d e s e j o e da ex p e cta t i va l ançada d e s d e o início da narra t i v a ( e sta

n o it e , a r ece pç ão o f e r ec ida p or Mrs . Dal l owa y l) e p u xa do para

t rá s pelo in ce ss a n t e m e r g u l ho n a l emb rança qu e, p a r a do xa l -

m

o m i l ag r e , o m i lagre da ve lh a s e nho r a e n t re -

qu e o r e l ó gio s oa se i s ba t idas :

" Um re l óg i o s o av a , uma, duas, t r ês

e l e t e m ra z ão , c o m o S ep timus. Ela [ R ezia ] ad o rme -

e nt e , p o ntu a o ava n ç o in ex or áve l do d i a qu e morr e.

O narrador fa z o Big B e n s oar uma últi ma vez a h o r a , qu an -

d o o a n úncio do s u icídi o d e S e p t i mu s l a n ça Cl a ris sa e m p e n -

s

m

Para t odo s, p ara tod ~ s as JL a r iedad es cleJ1 - umor, o Qa mU :L o _ ~ _~ O~lJ.IJ

a m ento s c on t rad itór i os qu e ex p l ici tar e m o s mais adiant e ; e a

e sma fras e retoma : " os

pes a do s cí r culo . s s e dissol ve m no ar " . r {fl~ A"

e

sm o; _ ma s a h < 2 T.não§

l é ap e n a s o b a r ulh o qu e . o . t e mpo í n e -

x or áv el f az ao passar

-

-

Não é pois n u ma oposição simpli sta e ntre tempo dos r e -

l ó gios e t e mpo inte rior qu e d e y er n o s nos _dete r , mas j j a . Y aüe - \

da ~ e l ª -. Ç ões~

di ve rs os "p ersonagens e o t e mpo

b r e o t e ma dessa r é l ãç a o lev am i ""f i c Ç ã ~

e nt r e a e xp e r i ên c ia _t empora l _ c Q! lcr e t a QQS

monumen t a l . As va riaç ões so -

alé m da oposição

 

188

T EMPO E N A RRATIV A

A C O NF I GURAÇÃO DO TEMPO NA NARRAT I VA D E F I C ÇÃO

189

a

b stra t a e voc ad a h á po u co e se t r a ns f ormam, p ar a o l e it or, num

v

r o s const i tu e m mai s um mu r o e nt r e e l e , os o ut ros e a v ida.

p

o d e roso d e t e c to r das m a n e í ras i n f i nitam e nt e v a r iad as de com-

Um a passa Bem

d e Mrs. Dalloway

d i z t u d o; qu a ndo Re z i a , a

por e nt re si p e rs p ec ti vas s ob re o t e mpo , que a p e n a s a e sp ec ul a-

ç ão n ão co n seg u e meClíãr.

--

E s sa s var i aç õ e s co n st it u e m a qui toda um a ga m a de " so lu -

ç õ es'" c u j os d o i s e x tr e m o s são fi!P - :JI ados ,po r um l a d o , p elo

aco r d o ín t imo co m o t e m p o m on u m e nt a l da s f ig u ras d e A ut o -

! id a d e , res u mi d as n o do ut o r Bra d s h a w , e p e l o " t e rr or da h ist ó -

r ia" - p a r a f a l a r como Mi rce a Elia de - f i g ur a d o po r S e p timu s.

As o utr as ex p e r iê n c ias t empora i s , as d e C l a rissa e m pr im e ir o lu -

ga r ' a d e Pet er Wal s h e m m e n or g r a u , ord e nam - se co m re l aç ão

I a e ss es d ois p olos , e m fun ção d e se u m a i or o u m e n or p are nt e s - co c o m a ex p e ri ê nc i a princeps q u e o n a rrado r er í ge co m o p o nt o

d e r e f e r ê n ci a p a ra t o d a s u a ex pl o ra çã o da e x p er i ê nc i a t e mp o -

r a l : a ex p e r i ê nc i a da mo r t a l di sc o r dâ nci a e ntr e o t e m p o í n ti m o

e o t e mp o m o nu m e nt a l , d o q u a l S e p t im u s é o h eró i e a ví ti m a .

É p oi s d es s e pol o d e di s c o rdâ n cia ra d i c a l qu e se d e ve p a r ti r .

A "v i vê n c i a " d e S e p t im u s c o nf i rm a abund an t e m e n t e q u e

n e n hum a b is m o se c av a r i a p ara e l e e n t r e o t em p o " b a t i d o " p e l o

ig B e n e o h o rr or d a hi s t ó r ia qu e o co ndu z à m o r t e , se a his -

t

d i v ersas fi g ur as

n ã o d e s s e m ao t e mp o d o s r e l óg i os o c ort e jo d e po d er qu e t ra n s -

f o r m a o te m p o em a m eaça ra di c al . T amb é m S ep timu s v i u p a s -

s ar o car ro p r i ncipe s co; o u vi u o s rumo res d e r esp e it o d a m u l -

t i d ã o , as s i m co m o v iu a passage m do a e rop l ano publi c it ár i o

qu e n ão p ô d e d ei x ar d e arran car - l h e lá g r i m as, t a n t o a b e l ez a

do s lu ga r es f a z p arece r tu do

du as p a l av ras r es u m e m para e l e o a nta g oni s m o e nt r e as d u a s

h or rí ve l . H or r or! T e r r or ! Es s a s

B

pr ese n t e e m t o da pa r t e em L ondr es, e as

ó r i a m o n um e n ta l ,

d e A ut ori d a d e r es umid a s n o p o d e r m é d i c o

\ w dJ ' p e r s p e ct i v as t e mpor a is, co m o e nt r e e l e p rópr i o e o s o utr os -

.

~ \ .lf'L .

:

'es sa ~ o ~ o

e t e~"

( p . 37 ) - e e nt re e l e m esm o e a v id a . S e

p' W- essas ex p er i ências , n o li ' n it e i ndi z í ve i s , c h e g a m contud o à lin -

g u a ge m i nte rio r , é p o r o r e e nc o n t r aram uma coni vênc i a ver b a l

na l e it ura d e É s q u i l o , l J a nt e , Sh a k e s pe ar e , l e itu ra q u e só lh e

t ran s mit i u um a m e n sa g e m d e u n i ve rsal insi g ni f i câ n c ia . Ao m e -

n os e ss es li vr os e s t ão d o se u l ad o , c o mo um p r ot est o con tr a o

t e m po m o nu mental e t oda ciê n c ia o pr ess i va e r e pr ess i va d o

pod e r m é d i c o . P re c i s a me nt e po r es tar e m d o seu l a d o , e sse s l i -

l

p e qu e na m o dista d e Milã o , p e rd i d a e m L o ndr e s p a r a o nd e fo i

o m ar id o , p ro nun c i a : " Es t á n a h o ra ." "a p a-

la vr a ' ho r a ' re b e nt ou sua ca s c a, d e rra m o u se u s t eso u ros so b re

e l e , e d e s e u s l á bio s e sc a p av a m , c omo e s c a m as , c omo l i m a -

h a s , sem que nad a f i z es s e p ara i sso , du r a s, impere cív e i s p a l a -

vr as q ue v o a ra m e s e f i xa r a m e m s e u l ug ar n um a od e i m orta l

l

ac

omp a nhan d o

a o T e mp o " ( p. 1 05) . O t e mp o rec u p er ou a g r a n d ez a mít i ca , s u a l l

o

b scu r a r e p u tação d e d es t r u ir m a is d o q u e e n g e n drar. Ho rror

d

o t e mp o , q u e tra z d e e ntre os m orto s o fa nt a s m a d e se u co m -

pa nh e i ro

m o num e n t a l - a G r a nd e G u er r a - p a ra o c o r ação d a c id a d e im-

pe ri a l . Hu mo r ác id o d o n a r ra d or: " V o u t e d i ze r a h o r a (I will

tell you the time1 4 ) , disse S e pt imu s , m uito l e nt ame nt e, c o m t or -

p or , s or r in do mis t e rio same n t e p ar a

o mo r t o d e t er n o c i n z a .

d e g u e rra, E va n s , qu e r e mo n t a d o f und o d a hi s tó r ia

E

nqu a nto sen ta v a sorr i n d o , o qu ar t o d e h ora soo u ; onze h o ras

e

tr ês qua r tos . " " O q u e é se r j ov e m ! p e n so u P e t er W a l s h a o

p

assa r p o r e l e s " (p . 1 0 6 ) .

O s d oi s ex t r e m os da ex p e riê n c i a t e m p ora l são co nfron t a-

dos n a ce n a do s u icí di o d e S e p t i mu s: o d o ut o r Brad s h a w - Si r Will i a m! - d e c idiu qu e R e z i a e S e p timu s d e v e ria m s e r s e p a r a -

n os j o g o s d e pal a vr a s d e

S h a k e sp e ar e e m As !1~~t:

do ) You should ask me,

there i s no true lover in the forest; else sighing evenj minu t e and groaning every hour

would detect the lazy foot oj Time as well as a c/ock - (O r 1 . ) And why not the s10ift foot ofTime? Hnd 110t ihai been as proper? - (Ros.) By 1'10 means, sir. Time travels in di- vers paces with divers persons. 1'11 tell you toho Time amoles unthal, who Time trots iuithal, 10110Time gallops unthal, and 1Ohohe sttmds still u n . h a l .: " [( R o sa lin d a) Po r

f avo r , q u e h o r as sã o n o r elóg i o d a qui ? - ( O rl a nd o ) Vo e i ! de v e ria m e p erg unt ar

q u e h or a s são n o s ol ; n ã o ex i s t e r e l ó g io n a f l or es t a . - ( R o s. ) E nt ã o , n ã o e xi s t e

n e n hum ve rd ade ir o a p a i x o n a do n a f l o r es t a ; p o i s u m s u s p ir o d e l e a ca d a m i - nut o , u m ge mido a c a d a h o ra n o s d i r i a m a m a r c h a pr eg ui ç osa d o t e mp o tã o

b e m quanto u m r e l óg i o. - ( O r 1 . ) P or qu e n ã o di ze r a m a r c h a l é pid a d o tempo?

A ca s o n ão s e r i a ig ualm e nt e ve r d a d e i r o? - ( R o s.) D e m o d o a l g u m , se nh or . O t e m - ~

po te m ma r c h as di fe r e n t e s co nf or m e as pe s s o as . E u pod e ri a d ize r co m q u e m

14 . Ví r g ini a W oo lf n ão p ô de d e i xa r d e p e n s ar

" ( R o s al i nd ) I pray

YOI . / , tohat i s ' : o'clock? - (O rl a n-

tuhat time o'day; there's no c/ock in the forest. - ( R os. ) Then

e

le v ai a o p as s o, co m q u e m va i a tr o t e , c o m q u e m ga l op a , c om qu e m pa ra e

p

e r m a n e ce i m óv e l] ( A t o I II , ce n a II , v ers o s 3 01 55. ).