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— Pois bem, faça isso.

— Obrigada, você é muito bom. Sabe meu pai gostava muito de você, apesar de só o
conhecer por algumas horas. Ontem, na hora do almoço, ele só falou de você.

— Seu pai era um homem muito bom. Agora vamos.

— Preciso apanhar minhas roupas. Desde ontem que eu não tomo banho.

— Está bem, sua porquinha. Vá apanhar as roupas.

— Eu não vou sozinha, já lhe disse que tenho medo.

— Eu vou com você — disse o rapaz, pondo-se em pé e estendendo a mão para que ela se
levantasse também.

Cibele apertou-lhe a mão com força e pôs-se em pé. Antes de soltar-lhe a mão, porém, ela
olhou-o cuidadosamente. Depois comentou, com um acento de decepção na voz:

— Você é noivo!

— Sim, eu sou noivo. Há alguma coisa demais nisso?

— Não, nada, é que eu...

— Você o quê?

— Nada. Vem comigo buscar a roupa então — disse ela, soltando-lhe a mão.

— E depois disso vamos avisar aquela sua amiga para fazer companhia a você. Assim não
terei que acordá-la no meio da noite.

— Vamos então — concordou ela, caminhando temerosa para a porta de entrada de sua
casa, esforçando-se para não começar a chorar novamente.

CAPÍTULO 4

De madrugada, após a partida do ex-chefe, Ely ficou algum tempo conversando com os
homens no prédio da estação. Depois, resolveu voltar para dormir mais um pouco. Ainda
faltava algumas horas para o amanhecer e ele caminhou pelos trilhos, pensativo. Pensava em
Cibele, no que seria dela após o acontecido. Seria difícil, para ela, enfrentar a nova situação
Aqui está. Puxa! É bastante. Não se preocupe, vá dormir. Você deve estar cansado.

— Eu disse que ia ajudá-la, agora vamos logo senão não terminaremos isso antes do
amanhecer.

— Já que você insiste... Bem, a primeira coisa de Português. Conjugue o verbo amar para
mim em todos os tempos e modos.

— Tudo isso?

— Eu disse que era bastante.

— Não tem importância. Vamos lá, então. Escreva aí: Presente do Indicativo. Eu amo, tu
amas, ele ama, nós...

— Isso eu sei terminar. É bonito, não é?

— O que é bonito?

— Esse verbo.

— Sim, sim bonito.

— Você já; o conjurou para sua noiva? — perguntou ele, sem levantar a cabeça.

— Sim, já, mas que pergunta, Cibele! Não vem ao caso. Escreva aí já?

— Puxa! — exclamou ela, levando a caneta até a boca num gesto sonhador.

— O que foi agora, Cibele?

— Ninguém ainda conjurou o verbo amar para mim.

— Ninguém mesmo.

— Bem, só você agora, mas não conta, não é?

— Bobinha! Essas coisas sempre acontecem, a gente não pode ter pressa. Um dia quando
você menos esperar, alguém vai conjugar o verbo amar para você.

— Queria que você conjurasse — corrigiu ela, voltando a escrever.


— Na noite do acidente com papai, lá na estação, você estava comigo, não é?

— Sim, tentava consolá-la.

— Mas depois saiu e ficaram algumas mulheres comigo. Uma delas era esposa do Costa.
Conhece?

— Sim, é meu braço direito lá na estação.

— Pois é. A mulher estava falando que ele estava muito bravo por não ter sido escolhido
chefe.

— Isso é normal, eu já esperava por isso. Costa é um bom homem, tem sido muito
atencioso para comigo.

— Só falei por falar, viu?

— Sei. Agora vamos para o Pretérito Imperfeito do Indicativo.

— Esse aí eu sei.

— Então faça, vamos ver.

Cibele, cabisbaixa, completou a conjuração do verbo naquele momento. Enquanto escrevia,


disse ao rapaz:

— Estou lhe devendo um jantar.

— Não se fala mais nisso agora.

— Eu faço questão de pagar. Meu pai o convidou, por isso...

— Está bem.

— Amanhã eu voltou para minha casa. Estive pensando. Sabe? Vou me sentir muito
solitária lá dentro, mas a Diná me fará companhia. Assim não terei medo também.

— É assim que se fala, Cibele. A gente não deve fugir dos problemas. Temos que enfrentá-
los, encará-los e vencê-los.

— Só sinto por uma coisa, puxa vida!


uma garantia para os herdeiros do falecido.

— Sessenta mil pela vida de um homem. É barato, não é? Meu pai valia mais.

— Isso eu sei, Cibele, mas já é alguma coisa. Você não precisará trabalhar. Além disso, a
garota que trabalha para o Seu Pedro vai trabalhar para mim também.

— Mas você vai me deixar fazer-lhe um jantar um dia, não vai?

— Sim, deixou, se isso a faz feliz.

— Sim, isso me faz muito feliz. Agora vamos terminar esse verbo. O que falta mesmo?

***

Dito aproximou-se eufórico de Costa, exibindo em sua mão um pedaço de papel, onde se
percebia algumas anotações.

— Costa, consegui, está aqui comigo. Veja.

— O que é isso?

— Chegou uma carta para o moleque, pelo malote da Estrada de Ferro. Foi mandada por
essa moça aqui. Anotei o endereço antes de entregar-lhe a carta. Perguntei, assim como quem
não quer nada, se era da namorada. Ele confirmou.

— Bom trabalho, Dito. Isso é muito bom mesmo. Já temos um bom assunto para escrever
uma carta para essa tal noiva dele.

— Que assunto?

— Você não soube? A filha do Jorge passou a noite lá na casa dele.

— Sozinha com ele?

— Não, a Diná, filha do Antunes, estava com ela, mas escute só o que aconteceu. De
madrugada, depois da passagem do ST-97, os dois ficaram conversando, sozinhos, na
cozinha. Não sei o que mais houve, mas sei que ficaram até bem tarde.

— Como é que você sabe disso?


— É um comunicado da companhia nos avisando que no final da semana vai chegar um
substituto para o Jorge. Diz aqui que o novo guarda-chave virá com a família e que devemos
arrumar-lhe acomodações.

Costa olhou para seu companheiro e piscou. O outro entendeu e fingiu preocupação
também.

— Isso é muito sério, Ely — disse Costa, levantando-se e aproximando-se do rapaz. — Não
vai ser fácil para a filha do Jorge.

— Como assim?

— É muito difícil arrumar casa aqui. Se não for para comprar, não há mesmo. Poucas casas
são de aluguel e não sei de nenhuma desocupada. Além disso, não dará tempo de se construir
uma, caso a moça pretenda usar o dinheiro do seguro para isso.

— Puxa, é difícil assim conseguir uma casa por aqui?

— Cidade pequena, é difícil construir alguma coisa por aqui. Não há mesmo uma boa
valorização dos imóveis, ninguém se arrisca, a não ser que precise mesmo.

— Caramba! Mas nós precisamos dar um jeito. Não podemos jogar aquela moça na rua
assim sem mais nem menos. Não há um modo dela ficar com alguma família de ferroviário?

— Isso é muito difícil. Você viu como são nossas casas. Pequenas, poucos cômodos, todos
tem famílias numerosa, não vejo como.

— Mas tem que haver uma solução — disse o rapaz, esmurrando a mesa.

— Eu poderia dar uma sugestão?

— Claro, Costa. É isso que precisamos agora.

— Mas não sei se vai ser do seu agrado. Além disso, o pessoal pode começar a falar
depois...

— O que você está querendo dizer?

— Bem, a única casa em condições de abraçá-la é a sua. É o único solteiro e sua casa tem
dois quartos, não é?
— Mas e as coisas que a gente pode comprar com tudo isso, bem? O que me diz disso?
Roupas, discos, viagens, uma porção de coisas.

— Mas vocês estão se esquecendo de uma coisa — interrompeu Diná. — Cibele está
sozinha agora, não tem ninguém para tomar conta dela, sustentá-la...

— Isso não é problema. Eu estou aqui para isso — disse Mário, adiantando-se. — Se
Cibele quiser, eu posso tomar conta dela.

— Isso eu dispenso — respondeu Cibele, olhando-o com desdém.

Mais tarde, ao final das aulas, Cibele e Diná voltavam para casa. Sem que percebessem,
Mário as seguia.

— Cibele, você pode ir na frente. Tenho que ir até a loja de tecidos comprar pano para
minha mãe.

— Quer que eu vá com você?

— Não, não precisa. Talvez eu demore um pouco. Além disso, você terá que fazer seu
almoço, não é?

— Sim tenho — concordou ela, afastando-se.

Mário aproveitou a chance para se aproximar.

— Ué, Mário. Não sabia que este era seu caminho — observou ela.

— De agora em diante vai ser.

— Como assim?

— Vou tomar conta de você.

— Isso eu dispenso. Sei tomar conta de mim mesmo.

— Quer fazer o favor de soltar o meu braço?

— Está bem, está bem. Você não se importa se eu a acompanhar até sua casa não é?
— Eu vou ficar deveras preocupado com isso.

— Solte-me! — gritou ela.

Mário não lhe deu ouvidos e baixou a cabeça, tentando beijá-la. foi quando sentiu um pulso
forte bater-lhe ao ombro.

— É melhor soltar a senhorita — ordenou Ely.

— Escute aqui, cara. O assunto não lhe diz respeito. É melhor dar o fora — respondeu
Mário, soltando Cibele e encarnado Ely.

— Algum problema com você, Cibele? — indagou-lhe Ely.

— Esse trouxa que está me importunando. queria me beijar.

— Escute aqui, seja lá quem você for. É melhor não se meter. O assunto é entre nós dois
aqui, você não tem nada com isso — advertiu Mário.

— E melhor você ficar, rapaz. Se pensa que pode ficar por aqui importunando qualquer
parente dos ferroviários está muito enganado. Esse assunto me diz respeito porque eu sou o
chefe aqui, está entendendo?

— Ah, então você é o tal que a ajuda?

— Como assim? Não entendi — disse Ely.

— Olhe aqui. Você pode ser o chefe, ou seja lá que for. Não pode me dar ordens e não
tenho satisfação a lhe dar.

— Vá embora, vai ser melhor para nós dois — advertiu Ely, segurando o outro pelo braço e
tentando empurrá-lo.

Em resposta, Mário virou um soco, mas Ely já esperava por aquilo. Abaixou-se e replicou,
atingindo o estômago do rapaz com um soco. Mário dobrou-se sem fôlego, agachando-se
sobre os pedregulhos.

— Vamos embora, Cibele. Isso é o suficiente. Eu a acompanho até sua casa — disse Ely,
segurando-a pelo braço com delicadeza.

— Puxa, você é valente mesmo. E forte, também. Que soco, rapaz! Que soco! O Mário bem
— Que saída?

— Minha casa é a única que dispões de acomodações para abrigá-la. São dois quartos e
eu só preciso de um. Você poderá usar o outro até que a situação se resolva.

— Mas... Eu e você?

— Sim, terá que ser assim. Você pode convidar aquela sua amiga para ficar com você,
dormir com você. Isso vai evitar que o pessoal fale demais.

— Mas mesmo assim eles vão falar. Essa gente tem a língua comprida e o divertimento
deles é esse, fofocar a vida dos outros.

— Eu não me importo nem um pouco com isso. Estou mais preocupado com você, se é que
me entende.

— E sua noiva? O que ela vai achar de tudo isso?

— Ela não precisa ficar sabendo disso. E depois eu posso muito bem explicar tudo o que
está se passando, ela é muito inteligente e culta, entenderá a situação.

— Ela não é ciumenta?

— Não, ela tem toda confiança em mim.

— Quer dizer que terei que aceitar?

— É a única solução, não há outro modo. Até que consigamos arrumar um outro lugar para
você ficar, terá que ser assim. Além disso, você estará mais protegida em minha companhia.
Ninguém se atreverá a incomodá-la.

— Obrigada, mais uma vez, Ely! — exclamou ela, apertando a mão do rapaz, sobre a
mesa.

Ely sentiu um estremecimento percorrer seu corpo e uma onda de ternura invadi-lo como
sentira na noite do acidente quando a estreitara em seus braços.

— Tudo vai sair bem, Cibele — disse ele, carinhosamente.

— Dito, você já mandou aquela carta? — indagou Costa chegando esbaforido ao prédio da
Lutou para que as lágrimas não escorressem de seus olhos. Começou a comer, mas o que
punha na boca não tinha sabor algum.

De repente, ao longe, cortando o silêncio da noite, o apito do trem, como uivo de um animal
louco. Cibele sentiu o chão faltar sob seus pés, mas procurou se controlar. Era apenas mais
uma passagem do ST-56, não havia com que se preocupar. Como sempre fazia, mas daquela
vez com passos maquinais, foi até a janela. O clarão forte do farol da máquina rasgava a
escuridão como uma navalha. O maquinista começou a frear a composição. As rodas, sendo
travadas, chiaram num ruído metálico e apavorante, Cibele levou as mãos aos ouvidos, mas o
ruído parecia aumentar, aumentar e o trem não mais se movia sobre os trilhos, mas parecia
caminhar em sua direção. Apavorada, precipitou-se pela porta da casa e saiu correndo. Só
havia um caminho a seguir e este era ao lado da ferrovia. O trem vinha logo atrás dela,
apitando e fazendo chiar o freio das rodas. O que a deixava ainda mais aturdida.

Lembrou-se, então do único lugar onde poderia se sentir segura: a casa de Ely. Rumou
para lá como uma louca e, quando entrou, desesperada, o trem passou. Cibele correu para o
quarto que havia ocupado na noite do acidente e atirou-se na cama, chorando.

Ely atendia o chefe do trem, dando-lhe instruções, enquanto aguardavam a partida. Costa
se aproximou dele e avisou:

— Ei, Ely. Aquela garota que trabalha em sua casa está aí fora e quer falar com você.
Parece que é muito importante, porque ela está muito nervosa.

— O que será que houve? — indagou ele. E depois dirigiu-se a Costa, pediu-lhe que
cuidasse da partida do trem, enquanto ele verificava de que se tratava.

Foi encontrar a jovem na plataforma.

— O que houve, Maria? Você parece assustada.

— A Cibele, Seu Ely. Não sei o que aconteceu com ela.

— Parece que ficou louca, eu não sabia o que fazer.

— Mas o que aconteceu, criatura. Conte logo.

— Eu estava servindo o jantar quando ela chegou correndo, entrou pela porta e foi se jogar
em cima da cama, chorando como louca. Tentei falar com ela, mas ela não quis me responder.
Então eu resolvi que era melhor chamar o senhor.

— Está bem. Maria. Fez muito bem. Eu vou já para lá. Enquanto isso, peça ao Costa aí,
bofetada com a intenção de fazê-la voltar a si, mas a mão parou no ar, incapaz de completar o
gesto. Então ele abraçou-a e beijou-a com força, quase com violência.

Assim que a soltou, Cibele havia parado de chorar, mas de seus olhos ainda escorriam
lágrimas. Ela passou as mãos pelos lábios, surpresa.

— Você me beijou! — exclamou ela.

— Foi o único modo que julguei que pudesse fazê-la voltar à razão. Você estava...

— Não, por favor, não explique — pediu ela, colocando sua mão sobre os lábios dele e
acariciando-os levemente.

— Cibele, desculpe-me...

— Foi a primeira vez que me beijaram.

— Foi?

— Sim. É tão gostoso.

— É, mas não vamos falar nisso agora. Conte-me o que houve. O que aconteceu para você
ficar nesse estado?

— Eu não fico mais naquela casa, sozinha. Por favor deixe-me ficar aqui.

— Está bem, está bem, se isso a deixa mais calma. Você falou alguma coisa sobre trem e
barulho...

— Quando o trem passou eu me lembrei daquela noite. Foi horrível! — exclamou ela,
aninhando-se nos braços dele.

Ely ficou sem reação, mas sentindo-se bem com o gesto da garota. Seus braços fizeram
menção de abraçá-la, mas pararam no ar. apenas conseguiu acariciar de leve os cabelos da
garota.

— Ely — disse ela, ainda encostada em seu peito.

— O que, Cibele?

— É tão gostoso.
— Não, não estou aborrecido com você. Estou aborrecido comigo mesmo.

— Mas foi por minha causa, não foi?

— Escute uma coisa. Cibele. Eu tenho a minha noiva...

— Olhe, não fale mais nisso. Se você quiser, eu esqueço tudo que aconteceu. Sim, isso
mesmo. Vamos fazer de conta de que nada existiu entre nós, que nós não nos beijamos que
nós não estamos apaixonados um pelo outro.

Ely levantou o rosto para ela, olhando-a assustado. Pela primeira vez desde que chegara,
pensou naquela possibilidade. Estava longe de sua noiva, Cibele era tão frágil e tão meiga, ele
se preocupava com ela, queria ajudá-la a todo custo. Teria se apaixonado por ela?

— De onde você tirou essa idéia, Cibele? — perguntou ele.

— Que idéia?

— Isso de estarmos apaixonados.

— Ora, qualquer bobo percebe isso. Não é uma coisa maluca?

— Puxa vida, o que eu faço agora! — exclamou ele, reclinando-se na poltrona. — Você me
deixou confuso, garota. Muito confuso mesmo. Já não sei onde estão meus pés nem minha
cabeça.

Cibele sentou-se em outra poltrona, diante dele. Ficaram se olhando e pensando, ambos
tentando se descobrir. Cibele sorria levemente, enquanto que Ely tinha os lábios franzidos de
preocupação.

— Você já jantou? — quis saber.

— Não, ainda não. Eu estavam jantando quando o trem passou.

— Então vamos jantar. A comida já deve ter esfriado até. você fechou sua casa quando
saiu de lá?

— Acho que não, não me lembro direito.

— Depois iremos lá, então. Você pega suas roupas e avisa sua amiga.
— Os dois estavam se beijando, abraçados, lá no quarto.

— Não diga?!

— Pois eu juro. Vi com esse olhos aqui. Os dois bem abraçadinhos, trocando beijos. Tudo
muito romântico, dava gosto de ver.

— Isso é muito bom. Quando a noiva dele souber disso também... Só espero que ela seja
daquela tipo bem ciumenta e explosiva. Quanto mais barulho ela amar, melhor para nós.

— Além disso, precisamos pensar em alguma coisa mais. Se no processo administrativo


constar que ele, por um motivo ou outro, tenha sido negligente ou irresponsável, melhor para
nós. Além disso, temos que fazer uma coisa bem feita, onde nós dois sejamos mencionados
como elementos responsáveis e capazes. Tem idéia de alguma coisa assim?

— Como você falou, é muito complicado. No caso da negligencia seria fácil, se


envolvêssemos a garota de algum modo. Quando à irresponsabilidade, já é mais difícil agora é
descobrir como juntar isso tudo num plano bem bolado.

— Eu também não tenho a menor idéia de como fazer isso.

— Mas vamos lá, puxe pela memória use sua imaginação. Temos que descobrir alguma
coisa.

— Bem, só se a gente usasse... Não isso não daria certo.

— Vamos situar o problema. Irresponsabilidade e negligência, o que o indivíduo tem que


fazer para receber essas acusações?

— No caso dele há uma porção de coisas. Deixar de atender um chefe de trem, por
exemplo, sem haver antes nomeado um substituto. Todo mundo ficaria aguardando por ele, o
trem se atrasaria parado aqui na estação. Isso resultaria num processo administrativo
automático.

— Grande idéia mesmo. A gente poderia aproveitar a passagem do ST-97, de madrugada.


Ele faz manobras e o chefe da estação tem que estar presente dirigir tudo. A entremos nós.
Ele não estará aqui e nós faremos isso. O chefe do trem fará constar nossos nomes no seu
relatório e tudo estará feito.

— Parece muito simples. Mas como impedir que ele venha aqui? Todo chefe de estação
tem em casa um despertador maior que qualquer sino de igreja. É difícil não acordar.
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— Ah, perdeu a conta outra vez?

— Eu me distraí um pouco... Quer que eu ponha a mesa?

— Já terminou suas tarefas?

— Faz tempo.

— Então pode pôr. Você já jantou?

— Ainda não, esperava por você.

— Então vamos logo com isso senão você vai ficar magrinha.

Cibele correu ao fogão e trouxe as panelas para a mesa, após o pai haver retirado dali seus
cadernos. Ela trouxe os pratos e depois sentaram-se para comer, em silêncio. A garota mexeu
e remexeu o garfo no prato, antes de levantar a cabeça e indagar:

— Pai, quando você vai tirar ferias?

— Eu? Férias? Daqui uns quatro meses, por quê?

— Por nada, não.

— Você perguntou por algum motivo, o que foi?

— Não, perguntei por perguntar, só isso.

— Vamos lá, menina. Pensa que eu não conheço esse seu jeitinho de perguntar só por
perguntar.

— Vamos viajar, pai?

— Viajar? Viajar para onde?

— Para lugar nenhum. Subir num trem e ir até o fim da linha e depois voltar.

— Você sabe onde é o fim da linha?

— Não, não sei e isso torna uma coisa maluca, menina.


— E quando o ST-97 passa de madrugada para fazer manobras e apanhar vagões aqui na
estação.

— Aí todo pessoal tem que se levantar também, não é só meu trabalho.

— Quando ele vai passar outra vez?

— Já que você perguntou, hoje.

— A que horas?

— As três da manhã, não se esqueça de colocar o relógio para despertar.

Após o jantar, enquanto o pai lia seu jornal na sala, Cibele lavava pratos e panelas,
sonhando com a viagem de quarenta horas. Seria uma loucura, uma verdadeira loucura.

— Tem horóscopo nesse jornal, pai? — gritou ela, lembrando-se.

— Acho que sim, você quer ler?

— Quero — respondeu ela, terminando de guarda tudo e indo ao encontro do pai.

Seu pai passou-lhe a coluna de horóscopo do jornal. Ela sentou-se à mesa e começou a ler
interessada.

— É horóscopo semanal, pai. Dos grandes.

— E você acredita nisso?

— Não, mas acho muito divertido. É uma coisa maluca.

— Tudo para você é maluco, não é?

— Não, pai. Só as coisas malucas mesmo.

Seu pai voltou ao jornal e ela continuou sua leitura. Seus olhos se arregalaram e ela riu
baixinho, antes de prosseguir. Mais à frente, porém, seu rosto se tornou sério.

— Que bobagem! — exclamou ela.

— O que é bobagem? — quis saber seu pai.


— Que maravilhoso, Cibele! — exclamou Sônia. — Vai ser nas férias?

— Sim, nas férias de...

— Ótimo. Talvez a gente vá junto. Meu pai vai me levar para a praia também.

— Praia? Mas quem falou em praia? — indagou Cibele.

— Você falou que ganhou uma viagem. Que viagem é essa?

— Uma viagem de quarenta horas, de trem.

— De trem?! — retrucaram todos.

— Sim, o que tem demais nisso?

— Que mau gosto, Cibele querida — observou Sônia.

— Mau gosto? Po que é mau gosto?

— Viajar de trem... Credo! É muito enjoativo, muito demorado.

— Acho isso muito maluco e divertido. Se vocês não concordam...

— Ei, Cibele. Se você quiser, eu a levo para uma viagem — propôs Mário.

— Não, muito obrigada! Eu sei das suas viagens. É para o mesmo lugar onde levou a
Cleusa, não é?

— E daí? Você iria gostar, eu aposto. Pergunte para a Sônia, ela já foi também. Não é
mesmo, Sônia.

— Eu não digo nada — respondeu Sônia, virando o rosto.

Cibele olhou para os amigos, decepcionada. A idéia da viagem poderia ser agradável para
ela, mas em nada emocionava seus colegas. Arrependeu-se de haver tido a idéia para a sala
de aula, guardar seu material, enquanto não tocava o sinal de entrada.

Diná, filha do ferroviário, também a seguia. Não sabia o que dizer, por isso sentou-se ao
lado da amiga, dentro da sala.
— Pequena, sem muitos atrativos, mas um ponto de partida. Tudo vai depender de seu
esforço. Se corresponder, logo poderá ser transferido para uma outra estação maior.

— Vontade não me falta.

— Você vai longe, rapaz. Lembra-se quando eu lhe dizia isso, há muito tempo, lá onde
você estava?

— Se você soubesse como eu o admirava com esse boné vermelho que você usa...

— Vai ter um agora.

— Já tenho, está guardado em minha mala. Caramba, como fiquei alegre quando foi à loja
comprar aquilo. Foi o máximo, rapaz!

— Imagino mesmo.

— Você conhece o pessoal dessa estação para onde vou?

— Conheço, são todos muitos bons, você vai gostar deles. só que a maioria deles é muito
mais velha que você, não sei como vai sentir dando ordens a eles.

— Essa negócio de ordens é muito relativo para mim. Acho que, antes de tudo, é preciso
ter um bom relacionamento com o pessoal. Ao invés de ordens, pretendo fazer pedidos, não
sei se você me entende.

— É, um pouco de simpatia ajuda muito. A camaradagem é muito importante.

—Gosto do meu serviço, esperei por esta chance muito tempo. Agora que a tenho, vou
colocar em prática uma porção de idéias que sempre tive.

— Vou torcer para que tudo dê certo para você. E a noiva, você a deixou?

— Sim, ela ficou para trás, mas logo eu volto para buscá-la. Assim que me acertar em
minhas novas funções mobiliar minha casa muito bem, eu vou buscá-la para me casar com
ela.

— O serviço que você vai fazer é muito solitário. É bom, ainda mais para um moço como
você, ter para onde voltar à noite. Conheci um rapaz que estragou toda sua carreira porque,
sendo solteiro, passava as horas farreando. Houve um acidente na estação que ele chefiava e
o resto você calcula, não?
presentes:

— Meus amigos, meu nome é Ely Rebello e serei, de agora em diante, o novo chefe de
vocês. Isso muito me alegra, mas, por outro lado, me deixa um tanto constrangido porque noto
aqui que a maioria tem mais idade que eu. Por isso, vamos dispensar todos os tratamentos
formais. Minha teoria é de que todos aqueles que trabalham num mesmo setor devem, antes
de tudo, procurar serem amigos. Isso é muito importante. Além disso...

E assim continuou ele, fazendo amigos a cada frase que pronunciava. A um canto, porém,
dois homens olhavam com desagrado aquela simpatia toda que irradiava da figura jovem e
dinâmica de Ely. Um deles comentou com visível irritação.

— Eu gostaria de saber como é que esse moleque veio parar aqui. Na saída do Seu Pedro
o mais indicado para ser chefe aqui seria eu, ou então você, Dito.

— Concordo com você. Costa, mas o que se há de fazer? Na certa o belezinha aí deve ter
um pistolão. E dos grandes. Passaram por cima da gente e mandaram alguém sem
experiência nenhuma. É o fim do mundo mesmo.

— E você vai deixar por isso mesmo?

— É como eu disse, o que se há de fazer?

— Nós dois seremos os auxiliares mais diretos dele. Será muito fácil criar alguma confusão,
fazê-lo cometer erros...

— Não, isso não. Você sabe que os erros são muito perigosos em nossa profissão.

— Não chegaremos a tais extremos. Vamos apenas cuidar que ele seja envolvido num
processo administrativo por falta de capacidade, é muito simples.

— E se ele for afastado, você tem certeza de que será um de nós dois o escolhido para
novo chefe?

— E por que não?

— E quem vai me garantir que, caso seja eu o escolhido, você não vá me envolver num
processo desse?

— Ora, Dito, você me conhece, somos amigos, sou seu compadre, eu nunca pensaria
nisso...
— Certo. Hoje à noite jantarei em sua casa. Só espero não causar nenhum aborrecimento
para sua esposa.

— Eu não tenho esposa, ela já é falecida. Minha filha é que cuida de tudo.

— Então avise sua filha para que não exagere. Também sou um homem simples, como o
senhor. Nada de luxo.

— Olhe, minha casa é a número cinco, não há como errar.

— Está bem. Seu Jorge. Hoje à noite, às sete horas, está bem?

— Não, às sete não. Tem que ser depois das sete.

— Por que não?

— Às sete é o horário do ST-56, de carga.

— Depois disso, então.

***

Após o expediente da manhã. Ely dirigia-se à casa do ex-chefe daquele posto para
almoçar, já que havia sido convidado. Como não estava de serviço, deixara seu chapéu na
estação e caminhava sobre os pedregulhos colocados nos intervalos dos dormentes. O
barulho era gostoso de ser ouvido. Ele experimentou dar passos pisando apenas nos
dormentes, mas era muito cansativo, Então, lembrou-se dos tempos de criança, tentou se
equilibrar sobre um dos trilhos, mas só conseguiu dar alguns passos antes de se desequilibrar
e pular fora. Um riso abafado soou atrás dele. Ele se virou e encarou a adolescente metida
num uniforme colegial, camisa branca de mangas compridas com distintivo e uma saia azul-
marinho.

— Do que você está rindo? — perguntou ele, olhando admirado a beleza daquele rosto
moreno, sorrindo para ele.

— Nada, não estou rindo de nada — disse ela, aproximando-se.

— Como não? Acha que sou surdo e cego para não ouvir e ver?

— Está bem, eu estava rindo de você. Só conseguiu dar quatro passos e meio sobre os
— Meu nome é Cibele.

— Muito bem, Cibele. Qualquer dia desses você me ensina como caminhar sobre os trilhos.

— Ensino sim. Você é novo aqui na cidade, não é? Ainda não o conhecia.

— Sim, cheguei hoje.

— Vai ficar?

— Acho que sim. A casa do chefe da estação é essa, não é?

— Do Seu Pedro? Sim, é essa mesma. Ele vai embora, sabia? Foi transferido. No lugar
dele virá um outro chefe. Se você é algum cobrador ou coisa parecida, trate de cobrá-lo, antes
que ele vá embora. Você é um cobrador?

— E se eu fosse?

— Eu não gosto de cobradores, são muito mal educados. Você não parece um cobrador, é
muito gentil para isso.

— Bondade sua, Cibele. Tchau!

— Tchau!

Cibele continuou seu caminho. Enquanto caminhava, voltava a cabeça para olhar o rapaz,
parado frente à porta da casa. Teve vontade de acenar-lhe, mas não o fez. Afinal, não o
conhecia muito bem, aquilo não era direito.

Quando chegou em casa, a garota tratou de aprontar logo o almoço. Pouco depois seu pai
chegava muito entusiasmado.

— Cibele, hoje à noite você vai ter que cozinhar como nunca, está me ouvindo?

— Ué! Por que isso, pai?

— Sabe quem vem jantar conosco hoje à noite?

— Não tenho a menor idéia...

— O novo chefe da estação...


— Mas não tem cabimento mesmo. Dito. É como você disse, um moleque. Mandaram um
moleque aqui para fazer o papel de homem, não tem cabimento uma coisa dessas.

— Ora, ora, por que tanta indignação, o que houve?

— Sabe o que eu acabei de ver? O chefe da estação brincando com a filha do Jorge.

— Aquele menininha?

— Ela mesmo. Já pensou se o pessoal da cidade vê uma coisa dessas? Vai achar que a
nossa companhia está virando bagunça mesmo.

— Escute, aquela filha do Jorge já está uma mocinha, não? Quantos anos será que ela
tem?

— Uns dezoito, dezenove anos, por quê? Sua cara não mente, você está pensando em
alguma coisa. Vamos, me conte.

— É só uma idéia, mas isso vai depender de como as coisas acontecem. Esse rapaz é
noivo, não é? Eu vi a aliança na mão direita dele.

— Eu também vi, e daí? O que tem isso?

— Bom, ele está aqui e a noiva está lá, bem longe. Sabe como homem é. Na certa quando
a saudade aperta, ele vai dar um jeito de tapear a saudade. Se ele namorasse a filha do
Jorge...

— E o que a gente faz?

— Manda uma cartinha para a noiva dele, ela vem aqui e faz o maior escândalo. Daí a
gente pressiona a direção, faz umas fofocas no ouvido certo e pronto. Nosso problema está
resolvido sem sair ninguém machucado.

— Olhe, se você for escolhido para ser o novo chefe, eu não vou me importar mesmo. Você
é muito mais eficiente que eu. Nunca na vida pensaria numa coisa dessa.

— Isso deve ser um elogio, não é?

— É, é isso mesmo. Só que tem um probleminha nisso tudo. Como é que a gente vai
descobrir o endereço da noiva dele? Perguntar não ficaria bem, não é?
que é que ele tem que eu não tenho? Sou muito experiente, já trabalho nisso há quase vinte
anos, ninguém conhece melhor que eu o serviço.

— Calma, não precisa ficar assim. Dizem que o rapaz é muito bom.

— Bom? Aquilo não é bondade, é moleza no duro. Onde já se viu permitir que o pessoal o
chame pelo nome? Fosse comigo e todos teriam que me chamar de Chefe Costa eu não
deixaria por menos.

— Isso praticamente encerra suas chances de se tornar chefe aqui, não é?

— Não, não acho assim. Você sabe como é isso, hoje ele é chefe aqui, amanhã vai para lá,
depois de amanhã não é mais nada. Numa dessas mudanças, eu chego lá.

— É, você tem razão. Se o rapaz for bom mesmo eles logo o transferem para uma outra
cidade maior, não é mesmo?

— Veremos — respondeu ele, atirando o chapéu sobre a mesa, sorrindo enigmaticamente.

CAPÍTULO 3

Jorge abaixou-se para verificar se a chave do desvio estava no lugar certo, depois levantou-
se e ficou olhando para o lado onde o ST-56 surgiria dentro de alguns minutos. Sua função era
a de vigiar aquela passagem de nível, pois não havia ali uma cancela. Ele ficava sobre a rua,
acenando para os veículos, quando o trem se aproximava.

Pensou na filha que ficara em casa preparando o jantar na camaradagem de Ely, seu novo
chefe. O apito do trem cortou a noite e ele caminhou para o centro da pista, com uma bandeira
vermelha na mão. O potente farol o iluminou, enquanto o trem se aproximava. Naquele
momento, um veiculo se aproximava da passagem, sem diminuir a velocidade. Jorge olhou
espantado para o carro que avançava, acenou a bandeira e adiantou-se. O carro freou
violentamente, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Jorge percebeu que estava sobre
os trilhos.

O trem apitou novamente, misturando seu som estridente com um grito, logo abafado pelo
ranger metálico dos freios que tentavam deter a composição, mas já era tarde demais.

Cibele ouviu o ranger dos freios e precipitou-se para a janela, a tempo de ver um
espetáculo fantasmagórico de faíscas que saltavam das rodas travadas, escorregando sobre
os trilhos. Pessoas corriam para a passagem de nível. Ela entendeu que deveria ter ocorrido
algum acidente. Ao lembrar-se de que seu pai era o responsável por aquela chave, sentiu seu
sangue gelar. Como louca saiu de casa e correu na direção do ajuntamento.
apertou-a contra o peito. Cibele desesperada, igualmente o abraçou, deixando que o pranto
rolasse livremente de seus olhos.

— Não chore, por favor. Você tem que ser forte — disse, baixinho.

— Meu pai... Meu pai... — repetia ela.

Algumas das esposas dos ferroviários chegaram naquele momento, Ely pediu que
tomassem conta de Cibele enquanto ele voltava à cena da tragédia.

— Alguém sabe como aconteceu isso? — perguntou às pessoas reunidas ao redor do


corpo.

— A culpa foi minha, a culpa foi minha — repetiu o motorista do carro.

— Por quê? O que houve? — indagou o rapaz, segurando o outro pelo ombro, tentando
acalmá-lo.

— Eu não havia percebido o trem, até que ele acenou a bandeira vermelha. Eu brequei o
carro, mas ele ficou ali na frente do trem. Meu Deus, foi horrível...

Ely passou a mão pelo rosto, desesperado, tentando se acalmar também, coordenar as
idéias. Procurou tomar as providências necessárias, removendo o corpo e chamando a policia.

— Mau sinal, Dito?

— Isso é bom para nós, Costa. pena que o Jorge tenha sofrido isso.

— É uma pena mesmo. Homem muito bom, trabalhador. Mas... Por que é bom para nós?

— O moleque se saiu muito mal hoje. Viu só a bronca que a policia deu nele por haver
removido o corpo?

— Acho que ele tinha razão. Deixar o coitado ali para quê?

— Mas pegou mal, não pegou? Ali, na frente de todo mundo.

— É nisso você tem razão. Sabe, estou pensando na filha dele. O que vai ser dela agora?

— Pelo que eu sei, já deve ser maior de idade. Além do mais vai receber o seguro pela
morte do pai. É um bom dinheiro, se ela souber cuidar dele.
— Meu nome é Ely. Fiquei aqui durante toda a noite porque você estava agitada. Espero
que não se importe com isso.

— Não, de jeito nenhum. Agradeço por você ter se preocupado comigo.

— Quer que eu saia agora para você se vestir?

— Quem tirou minha roupa?

— Não se preocupe, não fui eu.

— Então me deixe sozinha um pouco. Depois eu quero ver meu pai — disse ela, com
firmeza.

— Eu a levarei — respondeu ele, retirando-se.

Ely dirigiu-se ao banheiro, onde lavou o rosto e penteou-se. A noite fora longa e agitava.
Ele não havia dormido direito.

— O senhor aceita tomar café agora? — indagou-lhe a empregada da casa.

— Sim, aceito. O Seu Pedro ainda está dormindo?

— Sim, não acordou ainda.

— Então sirva o café. A Srta. Cibele também está se levantando.

— Coitadinha dela, não?

— Sim, é uma pena realmente.

— O que vai acontecer com ela agora?

— Ela ficará bem, deve ter parentes, não?

— Que eu saiba ela não tem nenhum. Era só ela e o pai.

— Tem certeza disso?

— Acho que tenho.


conseguir.

— Vou ter que trabalhar agora, não é?

— Não, isso não será preciso. Todos os ferroviários têm um seguro de vida, seu pai
também tinha. É obrigatório na companhia.

— Eu não quero esse dinheiro, custou a vida de meu pai.

— Está bem, não vamos discutir isso agora. Mais tarde eu lhe darei maiores detalhes —
disse o rapaz, tentando encerrar o assunto, pois reconhecia ser desagradável falar sobre
aquilo para ela, naquele momento.

***

À tarde, após o sepultamento, Ely retornou à estação para encerrar seu expediente. Pedro
se encontrou com ele na plataforma.

— Ely, minha mudança já está acertada. O ST-97 passa aqui hoje de madrugada e
carregará tudo que é meu. Aliás, gostaria de lhe falar sobre isso. Minha esposa acha que a
viagem poderá danificar os móveis. Além disso, eu também acho é hora de trocá-los. Assim,
achei que seria mais fácil para mim vender os móveis principais e depois comprar outros. Se
você quiser alguns.

— É uma boa idéia. Seu Pedro. Vamos para lá agora e combinaremos o preço de tudo.

— Como você quiser.

Enquanto caminhavam. Ely notou, bem à frente, perto da vila dos ferroviários um vulto de
mulher sentado sobre os trilhos. Pelos longos cabelos reconheceu que se tratava de Cibele.
Não falara com ela durante toda a tarde, por isso resolveu ir até lá.

— Seu Pedro, eu já vou. Quero conversar um pouco com a filha do Seu Jorge, ela ainda
está muito abalada.

— Está bem. Pobre garota!

Ely caminhou até lá. Cibele estava sentada sobre um dos trilhos com o queixo depositado
sobre os joelhos e as mãos ao redor das pernas, olhando para a porta de sua casa. Sentia-se
angustiada, com um pesado sentimento de solidão oprimindo-lhe o peito. Não percebeu
quando Ely chegou ao seu lado e sentou-se também sobre o trilho.
— E não saíra. Logo um de nós será o novo chefe da estação, amigo.

Costa deu alguns passos pela sala. Depois foi sentar-se na escrivaninha de Ely. Tinha
certeza de que ele seria escolhido para ser o novo chefe. Dito não tinha qualidades de
liderança; nem era inteligente o bastante para aquele cargo. Era um bom sujeito, mas nunca
poderia ser chefe de nada.

Martelava-lhe a cabeça a maneira como poderia conseguir a receita com Ely. Pensou por
algum tempo. Depois, resoluto, levantou-se e avisou Dito:

— Vou conseguir aquela receita agora.

Quando Costa chegou na casa de Ely, o rapaz estava terminando de jantar, Cibele, já mais
calma, estava com ele.

— Ely, vou ter que ir até a farmácia comprar uns remédios para a minha mulher. Se você
quiser, eu aproveito e trago os remédios que o doutor passou para a Cibele. Quer que eu faça
isso?

— Oh, Costa! Eu já estava me esquecendo disso.

— Eu não preciso de remédios. Já estou bem — interrompeu-os Cibele.

— Nada disso, mocinha. Se o medico receitou, você tem que tomar — repreendeu-a Ely,
retirando a receita do bolso e entregando-a ao outro. — Você paga lá para mim e depois eu
acerto com você, está bem, assim?

— Não tem problema, Ely — respondeu Costa, sorrindo satisfeito.

Assim que ele saiu, Cibele comentou com Ely.

— Não sabia que a mulher dele estava doente. Só se for da língua, porque é a maior
linguaruda da cidade inteira.

— Deixe de ser intrigante e termine logo seu jantar.

— Já terminei.

— Então vamos buscar suas roupas e fechar sua casa. Amanhã mesmo você providencia
sua mudança para cá. Há um quartinho ali no fundo da casa, você poderá mandar colocar tudo
lá dentro, até arrumar uma casa para você.
— Deixe que eu me preocupe com isso.

— Claro, nem pensei em lhe dar sugestões.

CAPÍTULO 7

Naquela noite ainda após auxiliar Cibele com as tarefas, Ely foi para seu quarto. Estava
muito preocupado com tudo que estava acontecendo, algo que ele mesmo não conseguia
entender. Pensou na noiva enquanto fumava nervosamente, caminhando pelo quarto. Ela era,
naquele momento, apenas uma grata lembrança frágil e desprotegida de Cibele. Tentava
analisar-se, mas as palavras da garota martelavam seu cérebro. Estaria ele realmente
apaixonado por ela ou era somente uma preocupação passageira, resultado da
responsabilidade que tinha para com as famílias de seus chefiados? Não conseguia uma
resposta.

Foi até a janela. O luar batia de chapa sobre a superfície polida dos trilhos que se
estendiam a perder-se de vista. Levavam a tantos lugares aqueles trilhos, pensava ele, a voz
de Cibele, no quarto vizinho, conversando com a amiga, o trazia de volta seus problemas.

Não estava com sono por isso resolveu sair. No portão, encontrou-se com Costa que
chegava com o remédio.

— Olhe aqui, Ely. O remédio que o doutor receitou para a Cibele.

— Ah, ótimo. Muito obrigado. Costa!

— De nada, Ely. quer mais alguma coisa?

— Se você não está com pressa, gostaria de conversar um pouco com você.

— Ora, como não?

— Estou muito preocupado com a situação de Cibele. Preciso pensar logo numa solução,
ela não vai poder ficar aqui por muito tempo.

— É como eu já disse, vai ser difícil.

— Se ao menos tivesse um parente...

— O Jorge nunca mencionou parente algum. Acho que era só ele e a filha, mesmo.
— Eu acordo de qualquer jeito mesmo. Aliás, sempre acordo antes do relógio despertar.

— Por que você acorda?

— Porque meu pai era guarda-chave. Venho fazendo isso há mais de dez anos, todos os
dias. Já me habituei.

— Curioso isso. Acho que me habituarei também?

— Tenho certeza que sim.

— Boa-noite, então — repetiu ele, sem coragem de se afastar da porta.

— Boa-noite! — respondeu ela, olhando-o feliz.

— Eu queria lhe pedir uma coisa, mas... Não, deixe para lá. Não tem importância.

— Não, pode pedir.

— É que... Mas eu não quero lhe dar nenhuma amolação.

— Por favor, eu insisto.

— Se você acordar mesmo de madrugada, se quiser pode fazer um café para quando eu
voltar?

— Claro que sim — concordou ela, abrindo os lábios num longo sorriso.

— Boa-noite! — disse ele mais uma vez retirando-se bruscamente e afastando-se para seu
quarto.

Cibele fechou a porta devagarinho, depois correu e se atirou na cama, abraçando-se ao


travesseiro. Virou-se e ficou olhando para o teto, romântica e sonhadora, embalando em seus
braços o travesseiro.

— O que há com você, Cibele? Ficou maluca? — sussurrou-lhe Diná.

— Não estou apaixonada.

— Apaixonada? Que coisa mais maluca, menina.


se até a casa para falar com a empregada.

— Maria, quero lhe pedir um favor muito grande que o médico me pediu para fazer. Olhe
aqui este remédio, é um calmante que o doutor receitou para a Cibele. Ela não quer tomar,
mas precisa. Você viu o que aconteceu com ela ontem à noite, não viu?

— Vi, sim, Seu Costa. Que coisa mais impressionante, quase morri de medo.

— Pois é, para que aquilo não aconteça mais é preciso colocar esse remédio na comida
dela.

— Mas de que jeito eu vou fazer isso?

— Pode colocar até na comida, quando você fizer. coloque sobre o arroz, quando for servir
a mesa, não tem perigo nenhum. Você pega uns quatro comprimidos desses e quebra num
copo fazendo um pós bem fininho. Depois é só esparramar sobre a comida.

— Mas o seu Ely também vai comer a comida. O remédio não fazer mal para ele?

— De jeito nenhum, vai até ser bom. Ele tem andando muito preocupado com o que
aconteceu com os pais de Cibele. Não tem dormido direito também. Isso aqui vai deixá-lo bem
calmo.

— Quantas vezes tenho que fazer isso?

— Só amanhã à noite, na hora do jantar, entendeu bem?

— Sim, entendi direitinho, pode deixar comigo.

— Olhe lá, não se esqueça de modo nenhum. Ela precisa tomar esse remédio senão pode
ter outro ataque como o de ontem à noite. E não conte nada para ninguém sobre isso. Se a
Cibele souber disso é capaz de mandar o Ely despedir você.

— Deus me livre. Seu Costa! Eu preciso deste emprego, tenho que sustentar...

— Está bem, não precisa nem dizer. Eu sei como é a situação. Posso confiar em você,
então?

— Pode sim.

— Ótimo — despediu-se Costa caminhando satisfeito para a estação.


Em seu quarto, o rapaz nem conseguia mudar de roupa para dormir. Acabou adormecendo
como estava, pesadamente. O mesmo aconteceu com Cibele, de modo que ambos não
ouviram quando Diná insistentemente chamou por eles. A empregada já havia ido embora e,
como não obtivesse resposta. Diná resolveu voltar para casa.

De madrugada, pouco antes da passagem do ST-97. Cibele acordou. Não conseguia,


porém, manter os olhos abertos nem coordenar seus pensamentos. A sonolência ainda era
muito forte, mas ela pôde ouvir quando o despertador no quarto de Ely fez soar suas
campainhas, sem que o rapaz acordasse. Toda corda do despertador foi gasta. Cibele não
ouviu nenhum ruído no quarto dele. Começou a ficar preocupada.

Ao longe, o ruído da aproximação do ST-97 já podia ser ouvido. levaria ainda uns dez
minutos para chegar a estação, por isso ela resolveu esperar mais um pouco. Os minutos iam
se escoando, o ruído do trem aumentava, mas Ely não acordava. Sonolenta, Cibele levantou-
se, vestiu seu roupão e saiu cambaleando, indo bater à porta do quarto do rapaz. Não obtendo
resposta, experimentou o trinco. A porta estava destrancada. Ela acendeu a luz e entrou.
Agarrou Ely pelos ombros e chamou-o bem alto. O rapaz abriu os olhos assustado:

— O que houve, Cibele? O que está fazendo aqui?

— O ST-97 já vem vindo. Você só tem mais uns cinco minutos, até que ele chegue na
estação.

— Mas o que aconteceu? O relógio não despertou?

— Despertou toda a corda que tinha, mas você não acordou. Agora levante-se
imediatamente e corra para à estação. Vou fazer um café para quando você voltar.

— Tem certeza que já é hora do trem passar?

— Ouça-o se aproximando.

Abrindo e fechando os olhos, com força, Ely sentou-se na cama e prestou atenção. O trem
se aproximava realmente. Apanhou seu boné e saiu em disparada, rumando para a estação.

Naquele momento na estação, Costa estava sentado na escrivaninha de Ely, esperando


triunfante a chegada do trem. Nesse momento, Dito entrou esbaforido.

— Você não falou que ele ia dormir até amanhã cedo, Costa?

— De quem você está falando?


— Comigo também nunca aconteceu isso — disse a jovem. — Só se foi efeito daquele
comprimido que tomei.

— Que comprimido?

— Aquele que o médico me receitou.

— Ah, sei. Mas não posso entender o meu caso. Acho que eu estava mais cansado do que
podia imaginar.

— Imagino. Esses últimos dias foram realmente muito movimentados para nós dois.

— Talvez seja isso. Agora experimente o café. Não sei se vai gostar ou não dele.

— Está delicioso. Onde está o antídoto agora? — indagou ela, brincando.

— Está tão ruim assim? — retrucou ele, olhando-a desconsolado.

CAPÍTULO 8

— Agora só podemos contar com a ajuda da noiva dele para solucionar nosso problema,
Costa. A idéia de fazê-lo perder o trem foi muito boa, mas não poderá ser feita enquanto a filha
do Jorge estiver morando com o Ely.

— mas eu não consigo entender. A garota também tomou o remédio. E veja bem que ela
ainda deve ter tomado o comprimido que o médico receitou.

— Você se esquece. Aliás, nós nos esquecemos de que ela é filha do ferroviário. Está
habituada com os horários de trem e automaticamente acorda. Com minha mulher acontece
isso e com a sua também.

Estavam ambos no portão da casa do Costa, conversando. O trem já havia passado e só


reinava a escuridão por ali, amainada um pouco pelo luar. Podia-se notar no semblante
daqueles homens a decepção, mas ao mesmo tempo, a firme decisão de não desistir do plano
inicial.

— Pelo menos poderemos ainda incriminá-lo por se envolver com a moça. Estão ambos
dormindo sob o mesmo teto, podemos acusá-lo de aproveitador, coisa assim.

— Mas a moça já é maior de dezoito, sozinha, ninguém tem nada com isso.
— Sim, fiquei com muita pena dela, coitadinha. Sozinha no mundo. Ainda bem que o Ely é
muito bom, está dando toda ajuda necessária.

— Sabe de uma coisa, Diná? Cá entre nós, pelo amor de Deus, não vá contar a ninguém,
mas eu acho que o Ely está gostando da Cibele. A gente nota isso. Lá na estação ele fala
muito dela, vive preocupado com ela. apesar dele ser noivo, isso não quer dizer nada, ele
pode desmanchar o noivado, não é mesmo?

— Mas não só o Ely que está gostando dela. Ela também gosta do Ely — respondeu a
jovem, ingenuamente, sem perceber quais as reais intenções de Costa.

— Verdade! Acho isso muito bonito, eles são jovens, tem a vida toda pela frente, não é
mesmo? Mas por que você diz que ela gosta dele? Ela lhe disse isso?

— Sim, foi ela mesma que disse isso. Eles até já se beijaram.

— Verdade? Então é amor mesmo. Fico muito contente com isso. A coitadinha da Cibele
estava precisando mesmo que alguma coisa boa acontecesse com ela. Mas eu só fico
preocupado com uma coisa: os dois morando na mesma casa, isso vai acabar na boca do
povo.

— Mas ele é muito honesto e respeitador. Imagine o senhor que ontem à noite eu não fiz
companhia para a Cibele. Hoje cedo ela me contou gentil e que eles ficaram um bom tempo,
de madrugada, conversando.

— Verdade? Quer dizer que eles estavam sozinhos lá na casa?

— Sim. O Ely é um rapaz muito bom mesmo, não é? Hoje em dia é difícil achar alguém
assim. Fosse um outro qualquer e já estaria querendo se aproveitar da situação, não é mesmo.

— Sim, isso mesmo. É um absurdo o mundo de hoje em dia.

— Mais alguma coisa. Seu Costa? Tenho que ir logo para casa ajudar minha mãe.

— Não, nada, pode ir. Eu só queria mesmo saber como ia a Cibele. Obrigado!

Costa afastou-se muito satisfeito. Se aquilo fosse parar nos ouvidos de sua mulher, logo
toda a cidade estaria sabendo disso. Precisava, porém fazer com que ela tomasse
conhecimento do fato sem que ele forçasse uma situação. Como era hora do almoço, foi para
casa. Assim que como quem não quer nada, foi dizendo à esposa.
mais havia se aproximado dela. Ambos se viam diariamente na escola, mas não trocavam
mais nenhuma palavra. Quando Cibele o viu, ficou desconcertada, pois ele se plantou ao lado
dela muito naturalmente, e olhando-a descaradamente, indagou-lhe:

— Escute, o que é que ele tem que eu não tenho?

— O que você está dizendo?

— Ora, ora, não se finja de inocente. Você tem uma carinha de anjo, mas não engana mais
ninguém. Pensa que a cidade toda já não está sabendo do que se passa lá naquela casa?

— Mário, eu não estou entendendo você. O que você quer dizer com tudo isso?

— Que santinha ela é! vocês dois, sozinhos lá na casa, que romântico, não? Acontece,
mocinha que eu também quero a minha parte, sabia?

— Que parte?

— Não se faça de rogada. Se você e ele podem se divertir todas as noites, porque não
deixar um pouquinho para mim?

— Você está me ofendendo.

— E você merece consideração, por acaso? Sabe o que você é?

— Não se atreva!

— Não será preciso que eu diga, você já entendeu. E então, quando é que nós podemos
ter nosso piquenique particular.

— Cretino! — exclamou ela, indignada, esbofeteando-o e disparando para casa.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela podia ouvir a gargalhada cínica de Mário
perseguindo-a pelo caminho todo. Quando chegou em casa, atirou-se no sofá, chorando
desesperadamente. Sabia que o povo interpretaria de um modo errôneo, arriscara-se fazendo
aquilo, mas o que deseja mesmo era estar perto de Ely.

Aquele fora o único modo que encontrara, mas o preço que estava pagando era alto
demais.

***
Havia recebido a carta e resolvera verificar o que estava acontecendo. Gostava muito de
Ely, já se conheciam há muito tempo.

— Puxa, é tão embaraçoso — disse ele.

— O que é embaraçoso?

— É uma longa estória. Vou lhe contar enquanto caminhamos.

Ely a pôs a par de tudo que estava acontecendo do que fazia por Cibele, deixando de lado
o fato de que ambos estavam apaixonados e que o noivado deveria ser desfeito. Esperava
preparar primeiro a garota antes de dar-lhe aquela noticia.

Ao chegar em casa, encontraram Cibele ainda no sofá, enxugando um resto de lágrimas do


rosto. Nem Silvia, nem Ely, reparam que ela estivera chorando.

— Silvia, quero que conheça Cibele. É a garota de quem lhe falei. — disse ele à noiva. E
depois dirigiu-se à Cibele, apresentou Silvia como sendo sua noiva.

Cibele estendeu a mão num cumprimento cheio de embaraço e vergonha ao mesmo tempo.
Ainda martelava-lhe na cabeça as palavras e a gargalhada cínica de Mário.

— Sinto muito o que aconteceu com seu pai. Cibele. Ely já me contou tudo sobre você.

— Tudo?

—Sim, Ely é um rapaz muito bom, sei que faz isso porque tem um bom coração.

Pelo olhar de Ely, no entanto, Cibele percebeu que ele omitira o que havia entre eles. Não
entendia porque ele havia procedido daquela maneira, quando o melhor a fazer seria contar a
verdade.

A principio, reinou um clima de tempestade pela casa, logo desfeito, porém, pela
espiritualidade e inteligência de Silvia. Esta, no entanto, lutava contra o sofrimento que lhe
passava pela alma ao saber que perderia o noivo. Era muito capaz de reconhecer o que havia
entre Ely e Cibele.

O motivo principal de sua visita havia sido a carta anônima que recebera. Nela era
mencionado o nome de Mário, por isso, naquela tarde ainda, após Ely haver retornado ao
trabalho, ela deu uma desculpa qualquer a Cibele e saiu à procura do rapaz.
— Isso mesmo. Como vê, temos algo em comum.

— Como poderá Ely ser despedido por causa desta carta?

— Muito simples. Bastará que a senhorita arme um escândalo na frente de testemunhas.


Além disso, o comportamento dele tem sido inconveniente com relação àquela garota que
mora com ele...

— Sim, fiquei sabendo disso também.

— Para mim já é o bastante. Isso incorrerá em um processo administrativo e ele será


demitido.

— Não acha isso um argumento um pouco falho? O que tem a companhia a ver com a vida
particular de seus funcionários?

— No caso dele é diferente, é um cargo de chefia, responsabilidade. Eu também havia


pensado nisso. Ate tentei incriminá-lo por negligencia, mas meu plano não deu resultados.

— Não deu? E que plano foi esse?

— Posso contar com a sua discrição?

— Claro, afinal, nós dois temos interesses em jogo, não é?

— Sim, sim é verdade — concordou Costa colocando Silvia a par de tudo que havia feito
para impedir que Ely estivesse presente na chegada do ST-97.

CAPÍTULO 9

Naquela noite, à hora do jantar, Silvia depositou a carta anônima que recebera ao lado de
seu prato, o que despertou a curiosidade do Ely e Cibele.

Silvia demonstrava nervosismo e uma certa preocupação. Sabia que não poderia lutar
contra Cibele, pois esta conquistara definitivamente o amor de Ely. Nada que ela fizesse ou
tentasse fazer poderia separar os dois. Além disso, não era esse o interesse dela.

— O que acha disso, Ely? — disse ela finalmente estendendo o envelope para o rapaz.

Este o abriu curioso e, à medida em que lia, seu rosto cobria-se de indignação. Ao final da
leitura, passou o papel para que Cibele o lesse também.
— Mas onde ele conseguiria o endereço de Silvia? — atalhou Ely.

— Se continuar com esse raciocínio vai chegar ao culpado. Mas isso não é tudo. Você
correu grande perigo aqui. Ely e não sabe disso. A pessoa que escreveu essa carta me
procurou hoje, interessada em causar mais aborrecimentos para nós.

— Quem foi?

— Alguém que anteriormente já havia tentando executar um plano para incriminá-lo,


fazendo com que um remédio de dormir fosse colocado em sua comida. Parece que Cibele
frustou todo o plano, como boa filha de ferroviário que é.

— Então foi por isso que não acordei de madrugada, com o despertador disparando toda
sua corda aos meus ouvidos. Mas quem

colocou o remédio para dormir? e para quê?

— Quem colocou foi sua empregada, mas ela não teve culpa. Foi induzida a isso. A idéia
toda era fazê-lo dormir, impedindo-o de estar presente no momento da chegada do trem. Isso
acarretaria um processo administrativo onde você perderia o cargo...

— E quem teria interesse em fazer isso?

— Conhece o Sr. Costa?

— Costa?! Mas não é possível, eu o conheço bem, é meu amigo, não faria isso.

— Fez, Ely. Ele queria seu cargo, estava muito enciumado porque perdera a chance com a
remoção do chefe anterior. Sua chegada o deixou bastante aborrecido porque ele esperava
ser o substituto.

— Está disposta a declarar isso perante testemunha, Silvia?

— Quando você quiser.

— Fico-lhe muito grato por isso. Silvia. Você demonstrou ter um caráter acima de todas as
baixezas do mundo. Não concorda Cibele.

— Sim, concordo. Ele é uma coisa maluca, mesmo.

Mais tarde, perante testemunhas. Silvia preencheu um documento contando tudo que sabia
— O que pretende fazer conosco? — indagou Dito.

— Eu desisto do processo administrativo se vocês dois concordarem em pedir transferencia


para outra cidade. Prometo que farei tudo para que essas transferencias sejam aceitas.

— Isso é bom demais para eles, Ely — disse um ferroviário. — Não se esqueça que de que
eles não se importavam com o fato de você perder seu emprego.

— Eu sei disso, amigo, mas não sou vingativo. Talvez essa nova chance os faça ver que
todo homem tem seu valor e que cedo ou tarde esse valor será reconhecido. Faço isso mais
pelas famílias dos dois do que por eles.

— Pensando bem, é uma solução justa para um caso sujo como esse — concordou o
ferroviário, assim como todos os presentes.

***

— Com tudo resolvido, acho que minha presença é demais por aqui — disse Silvia, um
pouco mais tarde.

Estavam os três reunidos na sala. Cibele havia servido um café e depois sentara-se no
braço da poltrona ocupada por Ely. Abraçando-o carinhosamente.

— Não sei o que teria sido de nós dois sem sua ajuda, Silvia. Você foi formidável. —
agradeceu Ely.

— Obrigada! você sabe que eu gosto de você, não me agradou ver como planejavam
destrui-lo. Além disso, tive em Cibele uma boa amiga. Estarei torcendo pela felicidade de
vocês dois. Vou embora amanhã mesmo...

— Não, por favor, fique mais alguns dias — pediu-lhe Cibele.

— Seria... doloroso demais para mim, acho que você compreende. Mas antes de tudo, é
preciso que vocês dois acertem essa situação. Não podem continuar assim.

— Você tem razão. Silvia. Vamos ficar noivos imediatamente e nos casaremos assim que
for possível. Isso vai calar a boca de todo o povo, e solucionar de uma vez por todas o
problema de Cibele. Ela não terá mais que se preocupar em mudar de casa. Ficará aqui para
sempre.
— Mas nós insistimos nas transferencias. Não temos mais condições de ficar aqui. O
pessoal vai sempre desconfiar de nós.

— Concordo com isso e não posso culpá-los. Amanhã nós providenciaremos as


transferencias. Enquanto elas não forem aprovadas vocês continuarão normalmente o serviço,
não quero que tenham nenhum prejuízo.

Os dois homens se levantaram, agradecidos, e estenderam as mãos para o rapaz que as


apertou com amizade. Estava muito contente, no fundo, com a decisão que tomara.

***

Na manhã seguinte, Ely e Cibele foram se despedir de Silvia, que partia. A jovem desejou
felicidade a ambos, portando-se com muito dignidade. Costa fez questão de lhe pedir
desculpas. Pouco depois, quando o trem partiu, Ely e Cibele, abraçados acenaram para ela
até que o trem se perdeu na distancia.

— É uma mulher maravilhosa, não? — disse Ely.

— É uma coisa maluca mesmo.

— Bom mocinha, temos que resolver nosso problema agora...

— Não diga nada agora, por favor. Deixe tudo para hoje à noite, à hora do jantar. Depois
que o ST-56 passar e você voltar para casa, nós conversaremos sobre o assunto.

— Por que isso?

— Por que sim.

— Mas que coisa maluca!

— Se é maluca, é sinal que é boa.

Ely concordou. À noite após a passagem do ST-56, caminhou para casa cheio de
ansiedade e curiosidade pelo que pretendia fazer Cibele. Durante o dia todo dia fora muito
misteriosa. Ele não conseguira descobrir nada sobre que planos ela estava tramando.
Reconhecia, porém, que tudo aquilo que aquele toque de mistério dava à sua volta para casa
um toque todo especial e delicioso.

Quando chegou notou que todas as luzes estavam apagadas, com exceção de uma
— Não, só na primeira pessoa do singular do Presente do Indicativo.

— Está bem. Eu amo...

— Você — acrescentou ela.

— Eu amo você, prometo que vou lhe conjugar sempre que quiser esse verbo maravilhoso.
Além disso tenho uma surpresa para você.

— Surpresa? que surpresa?

— Você queria uma viagem de quarenta horas, não era mesmo?

— Ah, eu não estava falando sério...

— Não fuja agora. Pois bem, você não vai ganhar uma viagem de quarenta horas...

— Ah! — exclamou ela, fingindo decepção.

— ... mas sim uma viagem de sete dias.

— Sete dias? Por que sete dias?

— Estive verificando uma circular da companhia e esta é a licença que dão para os chefes
de estação quando se casam.

— Verdade?

— Verdade. você quer se casar comigo?

— Vamos ver se você entende — disse ela, pondo-se de joelhos à frente e beijando-o com
ardor.

Levantaram-se felizes e, de mãos dadas saíram caminhando sobre os trilhos, cheios de


confiança e amor.

FIM

LOURIVALDO PEREZ BAÇAN

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