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MANUELA CARNEIRO DA CUNHA (ORG.

)
FRANCISCO M. SALZANO
NIÉDE GUIDON
ANNA CURTENIUS ROOSEVELT
GREG URBAN
BERTA G. RIBEIRO
LÚCIA H. VAN VELTHEM
BEATRIZ PERRONE-MOISÉS
ANTÓNIO CARLOS DE SOUZA LIMA
ANTÓNIO PORRO
FRANCE-MARIE RENARD-CASEVITZ
ANNE CHRISTINE TAYLOR
PHILIPPE ERIKSON
ROBIN M. WRIGHT
NÁDIA FARAGE
PAULO SANTILLI
MIGUEL A. MENÉNDEZ
MARTA ROSA AMOROSO
TERENCE TURNER
BRUNA FRANCHETTO
ARACY LOPES DA SILVA
CARLOS FAUSTO
MARY KARASCH
MARIA HILDA B. PARAÍSO
BEATRIZ G. DANTAS
JOSÉ AUGUSTO L. SAMPAIO
MARIA ROSÁRIO G. DE CARVALHO
SILVIA M.SCHMUZIGER CARVALHO
JOHN MANUEL MONTEIRO
SÓNIA FERRARO DORTA

HISTÓRIA
DOS ÍNDIOS
NO BRASIL
2? edição

FaPESP
Fundação DE AMPARO Á Pesquisa
^fefe. _SMC
y, -T^ i i ltlUsicir«i o! Ti in s
DO ESTADO Dt SÃO PAuuí COMHAN H A DaS
I LiriRAS iD... JL1"l>.. 1 ..,
Biblioteca Digital Curt Nimuendajú
http://www.etnolinguistica.org/historia

C:op>rinht © 1992 hy os Autores

Projeto editorial:
NrCIS.O DF. HISTÓRIA INDÍGF^A E DO INDIGENISMO

Capa e projeto gráfico:


Motmd CMvakanti

Assistência editorial:
Mjrta Rosa Amoroso

Edição de texto:

Otanlío Fernando Nunes Jr.

Mapas:
Alíàa Roíla
Tuca Capelossi

Mapa das etnias:


Clame CA)hn

FJmundo Peggion

índices:
Beatriz Perrvne- Moisés
Clame C^hn
Edgar Theodoro da Cunha
Edmundo Peggion

Sandra Cristina da Silva

Pesquisa iconográfica:
Manuela Cimeiro da Cunha
Marta Rosa Amoroso
Oscar Cuilávia Saéz
Beatriz Calderari de Miranda

Revisão:
Cármen Simões da Costa
FJiana Antonioli

1^ edição 1992

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (iip)

(Câmara Brasileira do Lixro, sp. Brasil)

História dos índios no Brasil / organização Manuela Carneiro

da Cunha. —São Paulo Companhia das letras


:
Se-
AL BR
cretaria Municipal de Cultura f*pf.sp. 1992 :

Bibliografia
F2519
ISBN S5-7164-260-5
.H57
1998x
1. índios da América do Sul
— Brasil — História 1

Cunha. Manuela Carneiro da.

(Di>-980.41
921393

índices para catálogo sistemático


1 Brasil índios História 980 41

1998

Todos os direitos desta edição leservados à


KDl rC)R.\ St:H\\ARt J'. l.Tlí.V

Rua Bandeira Paulista. 702, cj. 72


04532-002 — São Paulo — SP

Telefone: (011) 86tU)801


Fiix: (011) 8t)tU)814
e-niail: ct)leiiasiííinleiiu't.sp. ioin.br
COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS
Documentos materiais para a história indígena e a etnologia

Berta Q. Ribeiro e Lúcia H. van Velthem

coleções de um museu são frequen- COLEÇÃO: DAS CURIOSIDADES


As temente compreendidas como "coisas
fora da vida" e, nesse sentido, as reser-
À COLEÇÃO ETNOGRÁFICA

O ato de recolher objetos e materiais diver-


vas técnicas são encaradas como cemi-
sos pode ser compreendido como uma neces-
térios de objetos ou, em hipóteses mais alen-
sidade de classificação do mundo exterior, vi-
tadoras, como cavernas que guardam tesouros
sando nele inserir-se mediante sua compreen-
resplandecentes (Clifford, 1988:231). Metáfo- são e domínio. Uma coleção retrata, por isso,
ras à parte, as coleções museológicas represen- a história de uma parte do mundo e, conco-
tam, na realidade, documentos que se parti- mitantemente, a história e a realidade do co-
cularizam por serem materiais. lecionador e da sociedade que a formou. Para
A chamada História Nova (Le Goff (ed.), Clifford (1988:219), o colecionamento se apre-

1990) conduziu à renovação das disciplinas senta como uma "arte de viver intimamente
históricas, refletindo a preocupação de resga- associada à memória, à obsessão, à salvação da

tar, justamente, a contribuição oculta, o traba- ordem contra a desordem".

lho anónimo que tornou possível a opulência O recolhimento de elementos materiais das
e o brilho da oligarquia política e económica culturas ameríndias teve início com a desco-
de cada nação. berta do Novo Mundo. Esses artefatos torna-
No espaço aberto por essa disciplina, rede- ram-se conhecidos na Europa por meio das
fme-se o papel social dos museus etnográficos crónicas orais e escritas, gravuras, desenhos e
por si próprios. Eram apreciados, na época,
como repositórios das expressões materiais das
culturas indígenas. Repensar o desempenho muito mais por seu exotismo e pela raridade
dos materiais constituintes do que por suas
dos museus etnográficos confere um novo sen-
qualidades estéticas (cf. Surtevant, 1976). In-
tido às coleções e ao colecionamento e fomen-
tegravam os "gabinetes de curiosidades", pre-
ta o seu estudo.
cursores dos atuais museus, dentre os quais so-
O presente capítulo pretende explorar as bressaía o dos Mediei, de Florença (Suano,
potencialidades dos estudos de coleções etno- 1986:16). A esses gabinetes eram incorporados
documentos que exprimem
gráficas eníiuanto os materiais mais heterogéneos: pedras, vege-
a realidade material de uma cultura. Rese- tais, animais empalhados v objetos dos po\os
nhando parcela da documentação secundária americanos, sendo os adornos plumários os
sobre o assunto, procura ainda eíjuacionar as mais re(juisitados. .\s coifas e mantos de plu-
relações entre esses dociunentos e as discipli- mas dos Tupinambá da costa brasileira são um
nas e instituições afins tais como a história, a exemplo desse género de acervo. Vários exem-
etnologia, museus e universidades. plares encontrani-sc nos nniseus de Berlim,
104 MISTOKIV 1X>S l\l)ll>S \() HU\SU.

Frankfurt, Paris, Basileia e Florença. No Mu- \ ilegiando os aspectos formais e tuncionais dos
seu de C Copenhague, esses ornatos, provenien- objetos, numa perspectiva evolucionista con-
tesda Kunstkaninwr do rei, são datados de servadora; a outra se empenharia numa orde-
1690 e de\eni ter sido doados pelo príncipe nação contextual, conservando a multiplicida-
Maurício de Nassau (Métraux, 1928:140). de funcional dos objetos e procurando atingir
Niajantes e naturalistas europeus estiveram um relativismo liberal.
nas Américas desde a segunda metade do sé- Outro importante conceito antropológico
culo WIIl até tins do século \I\, pesquisan- está conectado ao estudo de coleções. Trata-
do e recolhendo elementos de história natu- se de um critério classificatório conhecido co-
ral com objeti\os classificatórios e taxonômi- mo "área cultural", o qual procura explicar a
cos. Paralelamente, coleta\am objetos artesa- similaridade tecnológica e estilística de deter-
nais, in\aria\elmente conduzidos para a Eu- minada região geográfica. Sua formulação de-
ropa e depositados em instituições públicas, rivou em grande parte de observações sobre
onde se transforma\am em fontes de informa- a variabilidade (estilística e tecnológica) dos
ção, integradas ao unixerso do homem oci- objetos encontrados em acervos museológicos
dental. (Roosevelt, 1987:2).
O colecionismo do
thuil do século XIX bus- Posteriormente, as análises de coleções atra-
ca\a perda
e\ itar a não só da cultma dos po- vessaram longo período de esquecimento,
vos indígenas, na época compreendidos como quando muitos cientistas consideraram que es-
fadados ã extinção, como também do que se tas não representav am um frutífero caiupo pa-
poderia encontrar nesses artefatos sobre a ori- ra as pesquisas em antropologia social ou ain-
gem e a evolução do homem. Assim, em gran- da que os estudos de cultura material e de co-
de parte, o \alor atribuído a esses objetos era leções etnográficas não eram mais importantes
a sua capacidade de testemunhar a respeito para as pesquisas antropológicas.
de estágios primitivos da cultura humana, as- Nos últimos trinta anos registrou-se um va-
sim como de um passado comum que confir- zio bibliogníficono que tange a esses estudos,
mava o triunfo e a superioridade europeia e a respectiva temática não se beneficiou com
(Clifford, 1988:288). os desenvolv imentos teóricos ocorridos no pe-
A coleta intensiva dessa época reproduz em ríodo. Os antropólogos que exerciam seu ofi-
sua dinâmica tanto a história do contato entre cio na universidade passaram então a ignorar
índios e brancos, como
da ciência
a história esse ramo de sua disciplina. A cultura mate-
antropológica e, em do gosto
parte, a história rial e os estudos museológicos se tornaram o

estético vigente (Dominguez, 1986:547). Ade- domínio dos arqueólogos e dos curadores de
mais, o despojo sistemático do patrimônio cul- museu (Rev iiolds e Stott, 1987:1-2). A propó-
turalde povos não europeus configurava uma sito assinala Fenton (1974:15):
apropriação de conquista, ou uma captura ".\ maioria dos antropólogos norte-ameri-
de herança alheia. Como enfatiza Ribeiro canos nunca coletou para um nuiseu ou tra-

(1989b:110), essa captura representa, na reali- balhou com espécimes museológicos. Não obs-
dade, "parte do colonialismo, exercido primei- tante, os estudos sobre cultura materi;il não de-
ramente pelas metrópoles e depois pelos es- sapareceram de todo, e um número suipre-
tados nacionais em relação às suas populações endente aparece sob rubricas tais como tec-
aborígines" . nologia, arte prinútiva e cognição".
Xa virada do século, a antropologia envidou O crescente interesse pelo simbolismo c
esforços interpretativos e classificatórios cen- seu rico campo de pesquisa levou nuútos an-
tralizados nos artefatos encontrados em nui- tropólogos a se V oltiutMU novumente para a cul-
seus. Esses eram reunidos sob categorias que tura materi;il e para os estudos nuiseologi«.\^s
consideravam o meio ambiente, a técnica e a e assim apreciarem seu potencial como meio
forma, e nas quais os aspectos sociais e sim- de conunúcação v isu;il. .\s tx>UN;õt\s de museus
bólicos, referentes aos objetos, eram obscure- tornaram-se então importantes ;iliadas nos
cidos. Stocking (1985:8) afirma que é possível esforços acadènúcos de traçar o desenv\>lvi-
discernir, nesse período, duas formas de mento das ideias estéticas e das formas ;uiis-
apreensão teórica no arranjo das coleções mu- ticas atrav és do tempix de nuxlo a seivm apn^

seológicas: uma as ordenaria linearmente, pri- ciadas sob uma perspectiva liistorica ^Pri«.v o
- <

c:oi.Kçoi:s et.\ografic:as 10.:

f- v^
i

^
— • — Machadinha
semilunar {abaixo),
característicados
i

grupos jê, que está


1 na coleção da
Bibliothèque
Sainte-Geneviève
desde pelo menos
1697, data da
í
gravura {ao lado)
que a representa,
em exposição na
chaminé, ao lado
de outros objetos
exóticos, no que
era então o
Gabinete de
Curiosidades,
*^^**^tv criado em 1675
pelo padre Claude
Price, 1980:8). Ademais, a análise da mudan- du Molinet.
ça artística, enquanto resposta aos agentes de
contato, tornou-se um assunto fundamental pa-
ra a pesquisa antropológica recente, e nesse
quadro a formação e o estudo de coleções et-

nográficas revelam-se promissores meios de in-

formação.

COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS:
torno de cada elemento individual de uma cul-
CONTEXTUALIZAR E
tura material"; ou, mais precisamente, um con-
DESVENDAR SIGNIFICADOS
junto de objetos e as ideias a eles associadas,
Paralelamente à informação escrita, á icono- entre os quais existe um alto, porém variado,
grafia, as coleções etnográficas constituem grau de interação.
também matéria-prima para o trabalho do Na busca dessa inter-relação, ou melhor,
etno-historiador, do historiador da arte, do an- dessa contextualização, os elementos de uma
tropólogo e do curador de museu interessados coleção, compreendidos enquanto artefatos-
nas expressões materiais da atividade humana. documentos, só contribuem para uma histó-
A análise e contextualização de um acervo ria social total se não forem isolados dos de-
etnográfico depende do uso do esquema con- mais documentos aos quais estão conectados.
ceituai da antropologia, de referências de cam- Entretanto, a maioria dos acervos museológi-
po e de pescjuisa bibliográfica, bem como de cos, obtida por doações feitas por não-espe-
técnicas documentais oriundas da museologia. cialistas, é desigual, mal documentada ou não
Estudos académicos de acervos de museus documentada, embora existam exceções de ex-
deverão focalizar os sistemas materiais das di- trema importância.
versas populações indígenas ou de estratos ru- O fato de determinadas coleções serem mal
rais ou urbanos da população brasileira. Por documentadas não deve, contudo, constituii"
"sistema material" Reynolds (1987:157) enten- um obstáculo ao seu estudo. .\ esse respeito,
de "a complexa unidade interatuante de com- a clássica defníição estabelecida por Mc Feat
portamentos, ideias (' objetos iiolarizada em (1967:93): objeto -t- doctunento = espécime.
106 msroHiv ix)s i\nu>s \o uu\su.

dos etnográficos de campo, as informações bi-


bliográficas, a iconografia e outras referências
audioN isuais. A propósito dessa abordagem, es-
creve Nason (1987:58):
"Este tipo de pesquisa pode focali2:ar uma
de aspectos, partindo de implicações
vasta área
de mudança tecnológica e de matérias-primas
em uma dada cultura ou área cultural, a pro-
blemas escudados em questões económicas,
de estrutura social, religiosa ou outras. Para
pesquisas deste tipo necessitaríamos contar,
idealmente, com a mais ampla documentação,
uma vez que os espécimes são usados como
a evidência material que diagnostica proces-
Tacape não pode ser descartada eiu^uanto elemento sos e fatos culturais complexos".
lupinambá de de decisão na escolha do objeto de análise. En- A forma de comunicar toda a trama de in-
madeira com o
tretanto, de acordo com Brasser (1975:54), a terações que cerca um item da cultura mate-
qual se abatiam
prisioneiros de utilização de maior número de artefatos e a rial é contextualizá-lo. Com isso se entende a
guerra,
acumulação de dados iconográficos e outros explicitação não só dos processos de manula-
provavelmente
levado para a escritos a respeito pode alterar a definição, tura, dos modos de uso, dos materiais consti-
França pelo colocando-a nos seguintes termos: objetos + tuintes, mas também das ideias e comporta-
cronista Thevet:
documentos = espécimes. O resultado dessa mentos associados. Trata-se de sistemas nos
talvez seja o
mesmo que ele abordagem é a possibilidade de articular en- quais o objeto é parte integrante mas extra%"a-
recebeu de tre si referências fragmentadas e espúrias, tan- sa sua dimensão física. \o caso das culturas
presente pelo
to documentais como artefatuais, e de ampliar indígenas, essa contextualização só se torna
grande morubixaba
Cunhambebe. por consideravelmente o leque de possibilidades possívelquando o objeto considerado é al\o
volta de 1555. de estudo. de estudo no campo e mediante consulta bi-
Thevet foi curador
Outro aspecto relevante diz respeito à pró- bliográfica. Isso também ocorre com relação
durante muitos
anos do Gabinete pria constituição do acervo. Assim, como ocor- a itens da cultura material nas sociedades com-
de Curiosidades re nas pesquisas etno-históricas e arqueológi- plexas. Dessa forma, o artefato ajuda a com-
do rei.
preender a sociedade e a cultura como um to-
cas, em que se trabalha com registros espar-
sos e fragmentários, o estudo de coleções do, ou um determinado momento do conti-
etnográficas também compartilha essa carac- nuum cultural. Exemplos de estudos de
terística. Entretanto, mesmo incompletas, as coleções de grupos étnicos ou lingiiísticos para
coleções constituem evidências para a com- complementar e\ idências obtid;\s em trab.illio
preensão do passado e podem representar, co- de campo são os de Newton (1971) p;ira os
mo no caso da fonte individual, o único docu- Timbira, o de Dorta (1981) piíra os Borora os
mento objetivo de que dispomos sobre a rea- de Van Velthem (1984) pimi os \\a\una-
lidade etnográfica de determinada época (cf Apalai' e os de Ribeiro (1980, 1985, 19S8) e
T. Hartmann, 1982). Ribeiro e Ribeiro (1986) para estudos tipoló-
A pesquisa com coleções etnográficas se gicos, tecnológicos e de pescjuisa de materias-
desdobra em diferentes itinerários. Metodolo- primas.
gicamente podem ser estudadas por grupo ét- Dispersos pelos relatos de \ iageni e mono-
nico ou área cultural, mas também podem se- grafias etnográficas, principalmente as mais
lo por categoria artesanal (plumária, trançados, antigas, encontram-se dados para estudos oi^n-
tecidos, cerâmica etc). Nason (1987:57) argu- textualizados de coleções etnográtioas.- Essa
menta que, cruzando referências e artefatos. consulta é indispensa\el para a conípiwnsào
as coleções seriam passíveis de pesquisas con- de aspectos funcionais dos objetos e p;u-a a sua
textuais, tipológicas, referenciais e simbólico- classificaçãi> tipológica segiu\do a mortologi.i

estéticas,além daquelas necessárias para fins e a túução. De\em ser levados em conta fato-

de exposição e referência. i"es temporais: a sinorcínia ou diacrmiia diis fi^n-


. /
A pesíjuisa contextual pressupõe uma pro- te.s. tanto docunuM\tais quanto ailofatuais. a fitn

,/í^ funda análise que associe às coleções os da- de não ptMiler do \ ista tatoivs de nuidança.
COI.KÇÕKS KTNOGRAFICAS 107

Ademais, como indica Newton (1986:19), o de- se enfoque recai sobre os elementos de uma
talhamento dos dados contextuais não deve ser mesma categoria artesanal ou os que são cons-
dissociado da descrição física do artefato. tituídospor matérias-primas similares. Procura
Cabe assinalar que o colecionador, a épo- igualmente examiná-los comparativamente
ca e forma de colecionamento apresentam im- dentro de uma área determinada ou entre uni-
portância crucial na contextualização das co- dades culturais diferentes.
leções, porque revelam sua relação com o cam- A determinação tipológica de coleções et-
po intelectual que a produziu. E essa asso- nográficas é tão importante para a arqueolo-
ciação que permite que se pensem não ape- gia quanto para a etnologia, sobretudo
porque
nas as peças que constituem a coleção, mas os exames detalhados a que as peças devem
também as instituições que as recolhem e con- se submeter proporcionam subsídios que po-
servam. Esse estudo é significativo na medi- dem ser direcionados para outros ramos de in-
da em que recupera, por meio das coleções, vestigação, como as análises estéticas e os es-
a própria história da produção das primeiras tudos de ecologia. Nesse tipo de enfoque, as
fontes de conhecimento sobre povos indígenas. amostragens diversificadas, tais como as que
Na pesquisa referencial, as coleções esco- geralmente estão disponíveis em coleções de
lhidas são asque possuem valor intrínseco em museus, permitem o tratamento estatístico da
virtude de suas estreitas relações com dados ocorrência de características tecnológicas es-
documentais, como o são algumas coleções et- pecíficas, notadamente no campo da micro-
nográficas de natureza histórica. Alguns exem- tecnologia, como as pesquisas desenvolvidas
plos seriam as coleções de Spix e Martius, por Newton (1981).
Koch-Griinberg, Curt Nimuendaju ou as do O estudo de coleções do ponto de vista es-
marechal Rondon. Essas coleções são extre- tético e simbólico só poderá ser empreendi-
mamente importantes para a etnologia e a his- do se for associado a dados etnográficos de
tória indígena brasileira, por permitirem aná- campo, porque nessa abordagem busca-se
lises diacrônicas que auxiliam a compreensão compreender, na peça, o sistema de represen-
das relações de contato. São igualmente sig- tações subjacente. Por seu caráter de auto-
nificativas para as pesquisas de etnobotânica representação, o objeto exprime igualmente o
e etnozoologia, uma vez que informam sobre estilo artístico, identificador de uma etnia ou
Exposição
as matérias-primas usadas na sua confecção e de uma comunidade específica. Na definição antropológica de
as áreas ecológicas em que viviam os grupos de Nason (1987:60), a pesquisa simbólica ou 1882 no Museu
indígenas que as produziram. Neste, como em estética "refere-se aos variados projetos que Nacional do Rio de
Janeiro, durante a
outros casos, deve-se levar em conta o campo examinam uma ampla gama de dados cultu- gestão de Ladislau
intelectual do coletor, os interesses principais rais, ideologicamente importantes, represen- Netto.

e os subsidiários que, em conjunto, influencia-


ram o critério e a seleção dos artefatos coleta-
dos. A grande maioria das coleções de cunho
histórico foi distribuída entre diferentes mu-
seus, tanto pelo coletor como por trocas efe-
tuadas entre os museus. Assim, a coleção es-
tudada deve ser comparada com outras de
mesma procedência e com a respectiva docu-
mentação, levando-se em conta a discrepân-
cia cronológica entre as informações contidas
em fontes bibliográficas e museográficas,
cuja defasagem é às vezes de décadas.
A análise tipológica tem por objetivo prin-
cipal focalizar os aspectos morfológicos, fun-
cionais e tecnológicos da cultura material. Co-
mo enfatiza Na.son (1985:53), es.sa análise é
"especialmente interessante em investigações
que abordam as adaptações tecnológicas pro-
cessadas ao longo do tempo ou do espaço". E.s-
lOS mvriMUv ix>s i\nu)s nd hhvmi.

nogriíficas para os grupos indígenas que as pro-


duziram. Trata-se de uma "nova coleta" ou de
uma "recontextualização", como sugere Nason
(1987:50), na qual indivíduos confrontados
com objetos pro\enientes de sua etnia, reuni-
dos sob a forma de coleção museológica, pro-
tagonizam um encontro específico, em que se
misturam a história familiar e a memória ét-
nica.^
Um outro aspecto foi apontado por Gallois
(1989:140) ao salientar que nos últimos anos
"d produção de \enda represen-
artefatos para
tou, para os índios, novos valores: por um la-
do porque muitos grupos têm encontrado na
\enda de 'artesanato' uma apreciá\ el fonte de
renda e, por outro lado, porque a manutenção
de uma cultura material diferenciada ser\e de
marca ao mo\"imento de resistência étnica, co-
mo sinal de autonomia a ser reconquistada ".

Efetivamente, a chamada "estética da mu-


dança", que compreende \ariadas formas de
reelaboração do sistema de objetos, correspon-
de a um mecanismo legítimo de atuação pelo
qual os grupos indígenas redefinem sua pró-
pria cultura para resistir, sociiil e politicimien-
Travessa de barro tados em ou por objetos". O autor faz referên- te, aos impactos sofridos (cf. Grabum. 1976).
com decoração cia aelementos decorativos e estruturais pre- É justamente nesse âmbito que estudiosos, co-
geométrica e
figurativa
sentes nos objetos e ao significado que lhes é leções e os próprios museus têm um impor-
elaborada com atribuído pelas sociedades que os produziram. tante papel político a desempenhar.
tinta vermelha de Os estudos etnológicos das artes iconográ- Nesse sentido, coloca-se a necessidade de
urucu.
ficas indígenas'comportam seja a sua apre- se estabelecerem formas de intercâmbio en-
sentação em suportes tradicionais como a — tre museus etnográficos e sociedades indíge-
cerâmica, o trançado, os tecidos e, com maior nas. Ao elaborar o projeto conceituai de um
ênfase, a própria pele — , sejam os chamados possí\el futuro Museu do índio em Brasília.
"desenhos espontâneos", coletados por antro- Ribeiro propôs como sua tarefa inicial 'recu-
pólogos em trabalho de campo. perar o patrimônio histórico-cultural mileniu-
O crescente interesse da antropologia por do índio, a ser de\ol\ ido. prioritariamente, a
questões ligadas ao simbolismo e à semiolo- ele próprio" (Ribeiro, 1987:84).
gia tem contribuído para reavivar os estudos Um dos passos a serem dados consiste em
de cultura material, segundo uma abordagem considerar os representantes indígenas en-
que os analisa como vetores de comunicação quanto especialistas, habilitados a realizar, no
visual. O desenvolvimento dessas pesquisas âmbito dos museus, trab;illios de identificaçãix

depende, em grande parte, da comunicação montagem e restauração de artetatos, l>em co-


entre profissionais que lidam com coleções e mo a reconte\tuali/.ar e resgatar, para seu usa
historiadores, antropólogos, sociólogos e his- 1'ma das formas de de-
materiiil di\ ersificado.
toriadores da arte, tendo em \ ista a elabora- \olução às sociedades indígenas de informa-
ção de um esquema conceituai para o seu ções sobre seu aceito artefatual consiste
estudo. em elaborar "cartilhas artesanais" (Kil>ein\
1983:19). Cartilhas artesanais foram ptvpara-
AS COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS das por Siijueira para os Kadiw eu. oontei\do
E A "NOVA COLETA" os elencos de seu riquíssimo ivpertório gráti-
O estudo dos acerxos museológicos não pode t'o e por Cwupioni para os Boa>tx> ^C^allois,

negligenciar o papel político das coleçõt\s et- 1989:142).


( oi.KçoES ktnogkafic:as 109

A atividade curatorial acima mencionada já cernimento dos acervos etnográficos, com-


vem sendo exercitada por um curador indíge- preendem tanto o histórico como a composi-
na Karipuna no Museu Goeldi de Belém com ção das coleções dos museus. No Brasil, são
relação às coleções do rio Oiapoque. O acer- conhecidos os catálogos do Museu Emílio
vo Wayana-Apalai desse museu foi analisado Goeldi, do Museu Paulista e do Acervo Plinio
por Van Velthem com o auxílio de membros Ayrosa. As peças podem estar elencadas tanto
desse grupo indígena. As coleções Bororó do por coletor como por etnia ou por área geo-
Xluseu Paulista e do Acervo Plinio AvTosa, am- gráfica (cf Rodrigues e Figueredo, 1982; Damy
bos da Universidade de São Paulo, foram da e Hartmann, 1986; Gallois et alii, 1986). Re-
mesma forma analisadas por Dorta e Grupioni. ferências suplementares sobre os museus
Uma outra faceta desse intercâmbio pode Goeldi e Paulista incluem descrições detalha-
da iniciativa do lí-
ser exemplificada a partir das e reproduções fotográficas das peças, po-
der indígena Tolamãn Kenhíri (Luiz Lana) de dendo ser encontradas em coletâneas sobre
clã Desana homónimo, que está erguendo uma museus brasileiros (cf Funarte, 1981; Paiva,
Vlaloca-Museu.^ Ela conterá as linhas arqui- 1984; La Penha, 1986).
tetônicas e os materiais tradicionais, sendo Os catálogos de exposições são mais nume-
equipada de todos os implementos de traba- rosos, mas variam grandemente com relação
lho masculinos e femininos, dos objetos de ao aprofundamento com que os temas são tra-
conforto doméstico, dos artefatos rituais e da tados. Concebidos para fornecer dados adicio-
paramentália cerimonial. Conterá ainda a re- nais a uma determinada exposição temporá-
construção do ambiente natural e plantado e ria, esses catálogos contêm o inventário das pe-
uma mostra das técnicas ligadas à navegação ças expostas com sua respectiva identificação
e à pesca. No que se refere à reconstrução dos e descrição. Entretanto, como muitos apresen-
objetos, o projeto se apoiará ocasionalmente tam textos etnográficos e reproduções fotográ-
em fotografias de peças de coleções antigas. ficas policromadas, esse conjunto referencial
Esse projeto tem como um de seus objeti- pode servir efetivamente para a documenta-
vos tornar a Maloca-Museu "uma lição viva", ção de coleções (cf Camêu, 1979; Schoepf,
ou uma "universidade aberta que instrua as 1979, 1986; Vasconcelos, 1980; Dorta e Vau
novas gerações sobre o contexto cultural em Velthem, 1980; Ribeiro et alii, 1983; Carmi-
que a casa comunal e os objetos materiais ne- chael et alii, 1985; Perez, 1986). O pioneiro
la contidos funcionavam" (Lana e Ribeiro, dos catálogos foi elaborado para a exposição
1991, ms.). Experiência semelhante vem sen- antropológica de 1882, realizada no Rio de Ja-
do desenvolvida pelo projeto Maguta dirigido neiro (cf. Netto, 1882).
por João Pacheco de Oliveira e Jussara Gru- Instrumentos bibliográficos de determina-
ber que criaram, em Benjamim Constant, ção tecnológica, taxonômica e de documen-
Amazonas, a "Casa da Cultura dos índios Tu- tação geral de coleções são encontrados nos
kuna". ensaios tipológicos. Textos imprescindíveis
concentram-se na Stima etnológica brasileira,
COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS: volumes 2 e 3 (Ribeiro e Ribeiro, 1986) e no
FONTES Dicionário de artesanato indígena (Ribeiro,
Uma avaliação da bibliografia relativa ao es- 1988), que contém dados tipológicos dos vá-
tudo de coleções etnográficas das terras bai- rios campos em que, tradicionalmente, se di-
xas sul-americanas'' permite constatar a sua vide a cultura material indígena. Referências
relativa escassez, e inclusão em estudos mais pormenorizadas sobre esse mesmo assunto
amplos de antropologia material. Muito em- encontram-se nos estudos de antropologia ma- Escultura
antropomorfa
bora possam ser encontradas referências me- terial e em Ribeiro (1985). de madeira
todológicas, constata-se a ausência de obras de Os estudos específicos de coleções podem "muirapiranga'
caráter teórico. ser subdivididos em três grupos. Inicialmen- Brinquedo de
criança.
As obras (jue tratam desse assunto podem te temos as referências metodológicas ao es-
ser englobadas sob os seguintes títulos: catá- tudo de coleções etnográficas disseminadas
logos de acervo, catálogos de exposições, en- em artigos (}ue discorrem sobre cultura ma-
saios tipológicos e estudos específicos. terial indígena no âmbito da antropologia (cf.

Os catálogos de coleções, úteis para o dis- Newton, 1976, 1986; Ribeiro, 1986, 1990). A
110 HISTÓRIA rXXS INOIOS \() BK\SII

que as condições físicas dos museus desenco-


rajam o colecionamento, os estudos das cole-
ções e, conseqiientemente, a problemática que
lhes diz respeito. As deficiências são a norma
na maioria das instituições do género, como
as sedes que geralmente são edifi'cios antigos,
construídos para outros fins, que têm de ser
restaurados e higienizados. Reconhecer e en-
frentar essas tarefas prévias é a prioridade
maior para que se possa fazer qualquer reno-
vação museológica de caráter científico.
Tratando-se especificamente dos registros
documentais, os museus não desenvolveram
até o presente métodos de coleta de coleções
etnográficas em
consonância com seus obje-
tivos de documentação científica e difusão cul-
tural. Em outras palavras, inexistem normas de

aquisição claramente definidas e, em conse-


qiiência, não há uma política de pesquisa ar-
quiv ística que pennita o melhor aproveitamen-
to do acervo existente do ponto de v ista cien-
tífico e como subsídio a exposições museo-

lógicas. Ou seja, o acervo não é usado como


produtor e difusor de conhecimento, .\demais,
Cestos-cargueiros. seguir encontramos os estudos que se basea-
a aquisição desordenada acarreta problemas
Da esquerda para ram em coleções etnográficas depositadas em
a direita: kabísiana de acondicionamento e de identificação de
e nambikwara. museus e que, além de dados metodológicos, acervos, que resultam mal documentados. Ou-
fornecem uma ampla gama documental tanto tro aspecto dessa problemática é a expansão
para outras análises de coleções, como para os das reservas técnicas e do pessoal encarreiz..-
estudos de antropologia material (cí. Blixen,
do da curadoria.
1968; Schoepf, 1971; Hartmann, 1973;' Zer- Nason (1987:62-3) calcula em cerca de 4,5
ries, 1973, 1980; Kensinger et alii, 1975; Van milhões o número de artefatos insuficiente-
Velthem, 1975; Ribeiro, B., 1980; Newton, mente documentados que se encontram em
1981; Hartmann, 1982; Grupioni, 1989). museus de todo o nunido. .\ maior piuie foi
O último grupo compreende trabalhos de trazida por não-especialistas, por isso sua do-
etnologia indígena que contêm referências e cumentação é ambígua, inexata e, nuiitas ve-
descrições sobre peças etnográficas, acompa- zes, totalmente inexistente.'' .\ impossibilida-
nhadas de ilustrações, que permitem compa- de de reversão desse quadro ocorre em gran-
rações e identificações tanto em nível diacró- de parte pelo fato de o pessoal técnicivcien-
nico como sincrônico. Esses trabalhos combi- tífico não ser orientado piU\i estudos de cul-
nam geralmente o estudo de acervos de tura material ou arte étnica e não ter. em fun-
museus, de coleções particulares ou objetos ção disso, um comprometimento intelectmil e
analisados em campo (cf Ribeiro e Ribeiro, afetiv o com as coleções. Esses perciílços anu-
1957; Yde, 1965; Roth, 1970; Frikel, 1973; Wil- liun as potenciíJidades de extrair informações,
bert, 1975; Muller e Henley, 1978; Ribeiro, às vezes iinicas, dos acervos artetatuais arma-
1989a; Dorta, 1981; Taveira, 1982; Van Vel- zenados nos museus, principalmente para seus
diem, 1984; La Salvia e Brochado, 1989; Mul- produtores.
ler, 1990). Ao resgatar testenuuíiios do numdo indigt^
na e do pré-industrial. os tnuseus etnogi\vti*.\>s
NOTAS FINAIS: memorizam estilos de v ida e de punlução de
PROBLEMAS E PERSPECTIVAS bens cjue se peixleriíun pela falta de ivgistrvKs

O que representa, hoje, o estudo de coleções escritos e a deterioração desses testemvuíhos


etnográficas? Inicialmente cabe considerar .\ fiilha na sua docinuentaçào e a não-tormu-
Homem e mulher Tupi, homem e mulher Tapuia.
Óleos do grande pintor holandês Albert Ekhout, da corte de Maurício de Nassau,
pintados em 1641 (as duas nnulheres) e 1643 (os dois homens).
Estes quadros, os mais fiéis de que se dispõe até j advento da fotografia,
encerram uma alegoria baseada no senso comum da época: a "domesticação"
possível dos Tupi e a ferocidade irredutível dos Tapuia.
Assim o homem e a mulher Tupi são aqui mostrados com sua produção (redes e cestos),
trabalhando para os estabelecimentos coloniais,
enquanto os Tapuia (que não eram, contrariamente aos Tupi. canibais)
aparecem carregando pés e mãos decepados,
e ladeados de animais peçonhentos.
Adoração dos magos. São raríssimas as representações de índios enn Por-
tugal. Neste quadro do século XVI, de autoria de Vasco Fernandes, um dos
reis magos é um índio brasileiro.
As potências europeias usaram os índios em suas
guerras na colónia; reciprocamente, os índios usaram as
rivalidades europeias em favor de seus próprios
interesses políticos.
Combate entre holandeses e portugueses, óleo, c. 1640,
de autoria de Gilles Peeters,
um dos pintores da corte de Maurício de Nassau.
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Aldeamento de índios de São Pedro de Alcântara, no


Paraná. Aquarela de J. H. Elliot, 1859.

Leque feito na China sob encomenda, representando


o imperador sendo coroado por um índio. O índio foi
símbolo canónico do Brasil (por oposição a Portugal)
desde o fim do século XVlll.
Mapas etnográficos de 1631, de autoria de
João Albernaz I, o maior cartógrafo português da época.
As aldeias de índios eram distribuídas próximo às povoações.
Vêem-se as "Províncias" das diversas etnias.
Fabricação de uma canoa em algum ponto do alto Amazonas.
Aquarela de Francisco Requeria y Herrera,
chefe da comissão espanhola de limites da Amazónia,
1778-85.

>^
Funcionários espanhóis da comissão de limites
interpelam dois Omagua no rio Mesay, bacia do Japurá.
Aquarela de Francisco Requeria y Herrera.

A missão jesuítica espanhola de San Joaquim de Omaguas


(Província de Maynas), no alto Amazonas peruano,
entre os rios Tigre e Nanay.
Aquarela de Francisco Requeria y Herrera.
o Botocudo Quack, de quem o príncipe
Maximiliano Wied-Neuwied
ficou amigo em 1815, e que foi levado para Alemanha.
onde passou o resto de sua vida. Foi retratado por vários artistas,
dentre eles o irmão do príncipe Maximiliano,
autor deste óleo de 1830, no qual se percebem os furos
dos botoques que outrora usara nas orelhas.
Quack morreu em 1832, no palácio do príncipe.
C OLEÇÕES ETNOGIUFICAS 111

lação de problemas a investigar influi até mes- locais. Seu estudo exige o concurso de outras
mo na sua conservação. O reconhecimento do disciplinas, principalmente a ecologia cultu-
valor explanatório dessas coleções encorajaria ral e a etno-história, as quais permitem equa-
a sua conservação, organização e descrição, cionar as variáveis responsáveis pela constru-
tornando-as mais uma ferramenta a serviço do ção dos substratos físicos e as vicissitudes his-
conhecimento. tóricas concomitantes. Segundo, o sistema
Outra tarefa é a de colocar a instituição mu- simbólico, presente nos objetos de uso coti-
seu/documento a serviço do público: abri-la ao diano e ritual que devem ser compreendidos
usufruto de uma clientela generalizada, para em seus diversos contextos, pois essa articu-
que sirva de complemento da educação for- lação revela o conteúdo semântico dos artefa-
mal e, sem pretender substitui-la, consti- tos, relacionando-os com a mitologia, a cosmo-
tuir, efetivamente, um local de lazer intelec- logia e a etno-estética que contribuem para a

tual. reprodução social e a identidade étnica.


Simultaneamente, tornar o acervo passível O que parece evidente, e este artigo enfa-
de estudo por especialistas, seja do quadro do tiza, é a necessidade de se inserir a temática

museu ou de outras instituições, assim como da cultura material num contexto mais amplo
dos grupos indígenas interessados. que a simples análise do artefato. Buscando a
Buscando compreender o museu como um contextualização, esses estudos colocam como
centro privilegiado para a documentação e a pano de fundo o ambiente ecológico e a orga-
conseqiiente divulgação das coleções, sugeri- nização sócio-econômica, e os enriquecem
mos o desenvolvimento dos seguintes projetos: com os conteúdos estéticos e simbólicos que
1) Em interação com a Universidade local, os objetos trazem embutidos. Dessa forma,
o acervo artefatual, arquivístico e da bibliote- mesmo aquele solitário artefato ganha vida e índio kayapó
ca deverá ser colocado ao alcance dos estu- significado. tecendo um cesto.
dantes de ciências humanas e cursos afins. Es-
ses estudantes poderiam colaborar nas tarefas
do museu, notadamente na documentação ta-
xonômica e tecnológica.
2) Priorizar a publicação de catálogos de
acervo ou de exposições, pois constituem ele-
mentos indispensáveis na documentação de fu-
turos estudos com coleções.
do curador visitante que,
3) Instituir a figura
à maneira do professor visitante, preste asses-
soria no levantamento de coleções que exijam
um conhecimento especializado em determi-
nado campo do saber O curador indígena vi-
sitante colaborará sobremodo na identificação
e restauração do acervo artefatual relativo ao
seu grupo.
Referindo-se à linha de pesquisa de que tra-
ta este artigo, Jean-Marie Pesez (1990:184) afir-

ma: "a história da cultura material continua


procurando se encontrar, ela ainda não soube
forjar seus conceitos, nem desenvolver todas
as suas implicações". Na medida em (jue maior
número de estudos tiver essa abordagem, se-
rá possível atingir-se o refinamento metodo-
lógico e teórico em que convém dividir as pes-
quisas nessa área do conhecimento.
Primeiro, o sistema tecno-econômico que
reflete os recursos naturais disponíveis para a
subsistência e o seu manejo pelas populações
112 IIISTOKIA IX>S INOUíS \c) BK\sll.

NOTAS (4) Esse tipo de "recontextualizaçâo" pôde ser


obserxado na reser\a técnica do Museu Goeldi. Seu
(1) Nos estudos dos trançados \\'a\ana-Apalai, o protagonista,um V\'a\ana, ata\iou-se com os antigos
repertório completo só toi passí\el de ser in\ entariado adornos, que obser\ ara quando jo\em serem usados
e estudado por meio da associação pesquisa de cam- por seu pai, lembrando fatos e personagens a eles
po/documentação de coleções. Se a pesquisa se conectados, como parte integrante e essencial do
limitasse a um único desses campos, re\elaria um processo de identificação dos artefatos.
repertório incompleto (cf. Van Velthem, 1984). (5) .\ldeia São João, no rio Tiquié, alto rio Negro,

(2) A bibliografia a esse respeito é resenhada em um estado do Amazonas.


item específico. (6) Cf Grupioni (1989) para uma a\ aliação semelhante.

(3) Os primeiros estudos de


antropologia estética entre (7) Dada a escassez do material, é pertinente englobar
os grupos indígenas brasileiros comparecem em nessa resenha algumas referências de análise de
moiiognifias e artigos cjue concluem, maioritariamen- coleções depositadas em museus europeus, assim
te,que a estética permite refletir e reforçar a estrutura como de estudos realizados em países limítrofes,
social.As análises sobre a estética corporal compre- sobretudo porque muitos grupos indígenas habitam
endem o tema mais estudado até o presente, uma \ez os dois lados da fronteira.
que é nesse domínio que mais facilmente sobressaem (8) G. Hartmann publicou mais de uma dezena de
os aspectos cogniti\os importantes, como a noção de artigos sobre o estudo de coleções. Veja essas refe-

pessoa. rências em Hartmann (1977).