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Fundamentos das ciências

sociais

Aula 9 - A atualidade das Ciências Sociais na


compreensão da sociedade contemporânea:
globalização, desigualdades e exclusão social
INTRODUÇÃO

Ouvimos falar muito em globalização, sociedade em rede, aumento da desigualdade social, preconceito, intolerância,
não é mesmo?
Esses fenômenos sociais recentes foram e estão sendo objetos de diversos estudos socioculturais contemporâneos.

Nesta aula, estudaremos vários desses fenômenos, no mundo e em especial na sociedade brasileira, a partir da
contribuição de diversos pensadores contemporâneos.

OBJETIVOS

Analisar as questões da desigualdade, pobreza e exclusão na sociedade contemporânea, marcada pela globalização.

Compreender o sentido do conceito de desenvolvimento ecologicamente sustentável. Analisar o campo de atuação da


ecologia política.

Reconhecer, em especial, as desigualdades de gênero, raça e etnia no Brasil contemporâneo.


GLOBALIZAÇÃO CULTURAL
Para compreendermos o que é a globalização cultural devemos, primeiramente, entender o que é globalização.

Giddens de ne globalização como:

A intensi cação de relações sociais mundiais que unem localidades distantes de tal modo que os acontecimentos
locais são condicionados por eventos que acontecem a muitas milhas de distância e vice-versa.

Stuart Hall, em “Identidade Cultural Na Pós-modernidade” (glossário), apresenta três posições contrárias ao sentimento
de homogeneização cultural:

Stuart Hall (03/02/1932 — 10/02/2014)
Foi um teórico cultural e sociólogo jamaicano que viveu e atuou no Reino Unido a partir de 1951.
//literacomunicq.blogspot.com.br/2015/11/resumo-da-obra-encodingdecoding-de-hall.html

CONSEQUÊNCIAS DA GLOBALIZAÇÃO
Esta formação de “enclaves” étnicos minoritários no interior dos estados-nação do Ocidente leva a uma “pluralização”
de culturas nacionais e de identidades nacionais, tendo como consequência o surgimento de manifestações de
xenofobia em várias partes do mundo.

Percebe-se que a globalização não parece estar produzindo nem o triunfo do “global” nem a persistência, em sua velha
forma nacionalista, do “local”. Os deslocamentos ou os desvios da globalização mostram-se, a nal, mais variados e
mais contraditórios do que sugerem seus protagonistas ou seus oponentes. Entretanto, isso também sugere que,
embora alimentada, sob muitos aspectos, pelo Ocidente, a globalização pode acabar sendo parte daquele lento e
desigual, mas continuado, descentramento do Ocidente.

A SOCIEDADE EM REDE
Outra característica marcante da sociedade contemporânea é a formação de redes sociais nas quais os processos de
construção de identidades são cada vez mais múltiplos. Segundo Manuel Castells, em “A Era da Informação:
Economia, Sociedade e Cultura”, o mundo contemporâneo globalizado constitui uma “sociedade em rede”.

Para ele:

Redes constituem a nova morfologia social de nossa sociedade e a difusão da lógica de redes modi ca de forma
substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e de experiência, poder e cultura. Tudo isso porque
elas são estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam
comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmos códigos de comunicação (por exemplo,
valores ou objetos de desempenho).

Manuel Castells

Nesse contexto, a rede é um instrumento apropriado para:


Fonte: Ellagrin / Shutterstock

GLOBALIZAÇÃO E DESIGUALDADE SOCIAL


Segundo Boaventura de Sousa Santos, em Os Processos da Globalização, a globalização na produção de desigualdade
a nível mundial tem sido amplamente debatido nos últimos anos. As novas desigualdades sociais produzidas por esta
estrutura de classe têm sido amplamente reconhecidas, mesmo pelas agências multilaterais que têm liderado este
modelo de globalização, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. É hoje evidente que a iniquidade da
distribuição da riqueza mundial se agravou nas duas últimas décadas: 54 dos 84 países menos desenvolvidos viram o
seu PNB per capita decrescer nos anos 1980; em 14 deles a diminuição rondou os 35%.

Fonte: Costa Fernandes / Shutterstock

Segundo o Relatório do Programa para o Desenvolvimento das Nações Unidas de 2001, mais de 1,2 bilhões de pessoas
(pouco menos que 1/4 da população mundial) vivem na pobreza absoluta, ou seja, com um rendimento inferior a um
dólar por dia e outros 2,8 bilhões vivem apenas com o dobro desse rendimento.

Segundo o Banco Mundial, o continente africano foi o único em que, nas últimas décadas, se veri cou um decréscimo
da produção alimentar. O aumento das desigualdades tem sido tão acelerado e tão grande que é adequado ver as
últimas décadas como uma revolta das elites contra a redistribuição da riqueza com a qual se põe m ao período de
certa democratização da riqueza iniciado no nal da Segunda Guerra Mundial.

Segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano do PNUD relativo a 2005, os 20% da população mundial a viver nos
países mais ricos detinham, em 1997, 86% do produto bruto mundial, enquanto os 20% mais pobres detinham apenas
1%.

Segundo o mesmo Relatório, mas relativo a 2001, no quinto país mais rico concentram-se 79% dos utilizadores da
internet. As desigualdades neste domínio mostram quão distantes estamos de uma sociedade de informação
verdadeiramente global. A largura da banda de comunicação eletrônica de São Paulo, uma das sociedades globais, é
superior à da África no seu todo. E a largura da banda usada em toda a América Latina é quase igual à disponível para
a cidade de Seul.

Observe, a seguir, como está distribuída a riqueza mundial, de acordo com uma pesquisa feita em 2015:

Fonte: Informe sobre Riqueza Global 2015 de Credit Suisse. El País. (glossário)

DESIGUALDADE, POBREZA E EXCLUSÃO SOCIAL NO BRASIL


A desigualdade social no Brasil tem sua origem no processo de colonização. Ao longo dos anos, apesar de conquistas
sociais como o m do regime escravista, a marginalização histórica dos setores mais baixos da escala social brasileira
permaneceu, a despeito dos avanços veri cados nas duas últimas décadas.

Estatísticas revelam que 12,9% dos brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza. As desigualdades regionais são
visíveis: as regiões Norte e Nordeste respondem por 43% do total de pessoas vivendo em extrema pobreza no país.

SAIBA MAIS
, Clique aqui (https://www.youtube.com/watch?v=0a9DdaIazjI) e assista à entrevista de dona Maria Lindalva, realizada no
documentário HUMAN. Nordestina, analfabeta e ex sem-terra, ela conta um pouco de sua trajetória.
A desigualdade também se expressa nos grandes centros urbanos, onde populações desassistidas vivem pelas ruas, e
nas periferias das grandes e médias cidades brasileiras, um expressivo número de pessoas vive em subocupações ―
as favelas, localidades em que se registra uma alto índice de criminalidade, decorrente da ausência ou ine ciência do
poder público, e da ação de grupos que passam a exercer autoridade sobre a população, como tra cantes e milícias.

GLOBALIZAÇÃO, DEGRADAÇÃO AMBIENTAL E EXCLUSÃO SOCIAL


A globalização do capitalismo não criou um mundo uni cado, e sim dividido. O atual modelo de industrialização,
visivelmente, não é universalizável, e as exceções bem-sucedidas dessa regra não chegam a invalidá-la. Além disso, o
moderno sistema industrial capitalista depende de recursos naturais, numa dimensão desconhecida a qualquer outro
sistema social na história da humanidade, liberando emissões tóxicas no ar, nas águas e nos solos e, portanto,
comprometendo o equilíbrio da biosfera (ALTVATER, 1995, p. 25). O relatório bianual da organização não
governamental WWF, publicado em 2010, demonstrou que “a humanidade não está mais vivendo dos juros da natureza,
mas esgotando seu capital”.

Podemos ver exemplos desse “esgotamento” nas imagens abaixo:


Javier Rosano / Shutterstock, photosthai / Shutterstock e Anna Moskvina / Shutterstock

Segundo dados da Comissão Mundial da Organização das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
(PNUD), com a manutenção da atual matriz energética e do modo de produzir, seriam necessários cinco planetas
iguais à Terra em energia e recursos naturais, para manter os 7 bilhões de habitantes do planeta com um padrão de
consumo semelhante àquele que possuem os norte-americanos de classe média.

Há aproximadamente cento e cinquenta anos, antes do desenvolvimento do industrialismo e da racionalidade do


mercado, as sociedades utilizavam os recursos dos respectivos territórios, com a nalidade de atender a necessidade
de consumo local. Hoje, esses mesmos recursos são extraídos em quantidades muito mais elevadas, para atender ao
mercado, numa cultura de consumo frenético, associada à ilusão de lucro in nito por parte das empresas (cf.
BAUMAN, 1999, pg. 91). Um movimento que inclui a aceleração da obsolescência dos produtos, a diminuição da sua
durabilidade e a di culdade para consertá-los. Tudo com o objetivo de aumentar as vendas. (glossário)

Assista ao vídeo A história das coisas, no qual a especialista em desenvolvimento sustentável e


saúde ambiental, Annie Leonard, explica como funciona essa cultura de consumo frenético:

VÍDEO

AMBIENTE, SOCIEDADE E O DESENVOLVIMENTO ECO-COMPATÍVEL


Segundo o economista polonês Ignacy Sachs...

Crescimento econômico sem distribuição de renda e sem sustentabilidade ambiental pode ser chamado de qualquer coisa,
menos de desenvolvimento.

Ignacy Sachs

Fonte: //www.estadao.com.br (glossário)

Nessa perspectiva, sustentar o desenvolvimento da sociedade, de modo ecologicamente compatível, signi ca utilizar
os recursos naturais não renováveis, de maneira que eles possam continuar a ser utilizados pelas gerações futuras. Do
contrário, tem-se apenas uma efêmera produção de riqueza, geralmente, bastante concentrada nas mãos de poucos. E,
em alguns casos, desfaz-se em menos de uma geração.

EXEMPLO
, Isso ocorreu com muitos fazendeiros de café, no Vale do rio Paraíba do Sul, no século XIX. Eles degradaram os solos de suas
propriedades, uma vez que cultivam a terra sem o devido cuidado com a manutenção de sua fertilidade. Tinham como único
objetivo aumentar a produção e obter lucros rápidos. Como consequência, viram a riqueza que produziram se dissolver junto com
a terra que degradaram e escorrer entre os seus dedos.

Fonte da Imagem: https://reformaminera. les.wordpress.com

Ao longo do século XX, a indústria continuou mantendo níveis de produção e consumo sintonizados com esse mesmo
modo de produção, que estabelece como prioridade os interesses das grandes corporações e do grande capital, muitas
vezes colocando em plano secundário as necessidades da sociedade e o equilíbrio dos processos produtivos com o
que de nimos como natureza. Nessa perspectiva, a estratégia de sustentar o desenvolvimento, o que compreende o
seu sentido eco-compatível, exige um signi cativo esforço de mudanças na própria cultura. Um primeiro passo para
isso seria a desconstrução da separação realizada entre sociedade e natureza no Ocidente.

Como ciência, a Ecologia Política faz aparecer a civilização em sua interação com o ecossistema terrestre, ou seja,
com o que constitui a base natural, o contexto não reprodutível da atividade humana (GORZ, 2010, p.27).
SAIBA MAIS
, Clique aqui (galeria/aula9/docs/a09_12_01.pdf) e saiba mais sobre desenvolvimento ecologicamente sustentável.

, CONCLUINDO...
Neste sentido, é falso o discurso que a rma existir uma contradição estrutural e inevitável entre desenvolvimento e
sustentabilidade ecológica, já que as demandas sociais se relacionam, também, ao uxo adequado de recursos do meio físico ou
natureza, tais como a água, os alimentos, o ar, as madeiras para construção e muitos outros que só agora começamos a
conhecer. Neste sentido, as a rmações que colocam em campos opostos a sociedade e o seu ambiente se devem a uma
distorção de visão, construída ao longo do período da modernidade, na qual a natureza, ou o ambiente eram vistos como o “outro”
em relação aos processos sociais humanos.
É como se fosse possível separar a sociedade humana da natureza, ou seja, agir e pensar como se os seres humanos não
dependessem dos recursos da biosfera como todos os demais habitantes do planeta, o que é um grave equívoco. A contradição
mencionada de início, que envolve natureza e desenvolvimento, se apresenta na realidade em relação a um determinado modo de
produção e consumo.
Jacob_09 / Shutterstock

ATIVIDADE PROPOSTA
Leia o texto abaixo e responda a questão proposta:

Uma só língua

Em busca do bom inglês, coreanos fazem até operação Na Coreia do Sul, falar inglês é questão de honra e só subirá na
vida quem for uente no idioma. Até aí, tudo bem, o coreano é, por determinação cultural, aluno dedicadíssimo, que
aprende bem o que lhe é ensinado. O problema está na articulação das palavras, diversa da ocidental. Não há
distinção, por exemplo, entre r e l, o que faz com que “rice” (arroz) muitas vezes vire “lice” (piolho).

A solução cada vez mais adotada no país nos últimos tempos é drástica: fazer um pequeno corte na língua, ou melhor,
na membrana embaixo dela (o chamado freio lingual), para, supostamente, facilitar a pronúncia das palavras inglesas.

A cirurgia é realizada em crianças abaixo de cinco anos. Muitos duvidam da e cácia, mas ninguém tem certeza. Só a
partir dos nove anos a criança consegue pronunciar bem as palavras, e nenhum paciente da cirurgia chegou a essa
idade. (Veja, 22 de maio, 2005).

Esse texto evidencia que os coreanos seguem uma tendência mundial: a valorização do idioma inglês.

Você percebe esta tendência em nosso país? Justi que sua resposta.

Resposta Correta

Glossário
IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE

HALL, Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

AUMENTO DAS VENDAS


As empresas são levadas continuamente a criar novas necessidades e desejos para os seus clientes, conferindo as mercadorias,
valores simbólicos, fetiches, que, em alguns casos, visam somente diferenciar a posição social do consumidor. Qualquer tentativa
de desenvolver esforços e colaboração entre produtores e consumidores, para evitar desperdícios e economizar recursos para
“fazer mais com menos”, acaba dando lugar ao objetivo de “produzir mais e consumir mais” (GORZ, 2010, 22).
Esse processo ganharia força nas últimas décadas do século XX, levando o modelo civilizatório capitalista a ocupar suas últimas
fronteiras, num movimento semelhante à corrida imperialista, ou neocolonialista do século XIX.