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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Gomes, Ezequiel
A última Igreja do Apocalipse [livro eletrônico]:a repreensão de Jesus Cristo à mornidão de Laodiceiaa
Ezequiel Gomes. - 1. ed. - Jundiaí, SP : Ed. do Autor, 2021.

PDF

ISBN 978-65-00-16459-6

1. Apocalipse (Teologia) 2. Bíblia. N.T. Apocalipse - Crítica, interpretação, etc. I. Título.

21-55234 CDD-228.06

Índices para catálogo sistemático:

1. Apocalipse : Profecias : Interpretação : Bíblia 228.06

Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

Capa: A última igreja do Apocalipse:


Wtanabe Pereira dos Santos a repreensão de Jesus Cristo à mornidão de Laodiceia
Projeto gráfico e diagramação:
Ana Paula Pirani 1ª edição – 2021
SUMÁRIO
AGRADECIMENTOS................................................................. 9

DEDICATÓRIA............................................................................ 13

INTRODUÇÃO............................................................................ 15

I - UMA CARTA À ÚLTIMA IGREJA....................................21

Quem se dirige pessoalmente


à igreja de Laodiceia?.......................................................... 22
O Amém...................................................................................................23
A testemunha fiel e verdadeira............................................................25
O princípio da criação de Deus...........................................................26

A quem se destina a mensagem


profética de Apocalipse 3:14-22?..................................... 28

Outros aspectos históricos


importantes para compreender a profecia............. 31

Algumas passagens escriturísticas


que iluminam o conceito de mornidão.................. 32
II - CONCEITOS PARALELOS,
COMPLEMENTARES E
SINÔNIMOS DE MORNIDÃO...................................35

Pecados estruturais............................................................. 38
Cegueira espiritual.................................................................................39
Egoísmo....................................................................................................40
Superficialidade......................................................................................42
Hipocrisia.................................................................................................43
Sequidão espiritual.................................................................................44
Coração dividido....................................................................................45
Cristianismo casual................................................................................47
Legalismo..................................................................................................48
Dúvida.......................................................................................................49
Irregeneração...........................................................................................51

Pecados de omissão............................................................... 53
Indecisão...................................................................................................54
Apatia........................................................................................................56
Inércia na direção errada......................................................................57
Indiferença ao pecado...........................................................................58
Frígida despreocupação........................................................................59
Complacência..........................................................................................60
Falta de entusiasmo................................................................................61
Hesitação..................................................................................................62
Negligência...............................................................................................62
Covardia...................................................................................................64

Pecados de rebelião.............................................................. 65
Mundanismo...........................................................................................66
Carnalidade..............................................................................................68
Apostasia...................................................................................................68

Mornidão como
condição pecaminosa e
como infidelidade à lei de Deus................................... 70

Mornidão como condição pecaminosa............................................70


Mornidão como infidelidade...............................................................71
Mornidão como incoerência entre fé e obras..................................74

III- O QUE NÃO PARECE SER MORNIDÃO,


MAS FREQUENTEMENTE É.........................................77

Entusiasmo litúrgico.......................................................... 80

Envolvimento missionário............................................... 82

Zelo doutrinário................................................................... 86

Perfeccionismo radical
em direção a uma suposta santificação.................. 90
IV - O QUE PARECE SER MORNIDÃO,
MAS FREQUENTEMENTE NÃO É.............................98

Racionalidade científica................................................. 99

Academicismo teológico.................................................. 103

Sensibilidade cultural........................................................ 107

Ativismo político e social ............................................... 110

Equilíbrio.................................................................................... 112

V - O REMÉDIO PARA LAODICEIA....................................115

Ouro refinado pelo fogo................................................. 118

Vestiduras brancas............................................................... 120

Colírio para ungir os olhos.......................................... 121

REFERÊNCIAS ............................................................................124
Introdução...............................................................................................124
1. Uma carta à última igreja.................................................................124
2. Conceitos paralelos, complementares
e sinônimos de mornidão....................................................................129

APÊNDICE ...................................................................................134
TEXTOS BÍBLICOS CITADOS .......................................................134
As comunidades cristãs do livro de Apocalipse veem-se expostas a
ameaças e perigos externos e internos. Do lado de fora, pesam os peri-
gos da guerra e da inflação, as pressões da parte dos judeus, bem como a
besta horripilante que demanda uma lealdade político-religiosa obriga-
tória a todos os cidadãos. Do lado de dentro, hereges ameaçam a identi-
dade das comunidades. Também há referência à qualidade “morna” da
fé, de forma que algumas igrejas já estão sem forças ou mortas. É preci-
so converter-se às primeiras obras: amor, fidelidade, justiça, paciência,
serviço e perseverança. O profeta João é co-participante da tribulação e
compartilha com os cristãos o destino de uma minoria estigmatizada,
mas que vive na certeza da vitória já ocorrida e da futura participação
no domínio celestial de Jesus Cristo.

Udo Schnelle
AGRADECIMENTOS

Este livro foi escrito em um processo que durou cerca de oito anos
para ser escrito e finalizado, passando por três etapas bastante diferentes
da minha vida. Suas primeiras palavras foram escritas no segundo semes-
tre de 2012, enquanto eu era ainda estudante de teologia no Unasp-EC.
Eu estava terminando o mestrado em teologia quando tive inicial-
mente a ideia de escrever um artigo sobre a mornidão de Laodiceia. Fiz
uma extensa pesquisa a respeito do tema, porém não cheguei a terminar o
artigo, que à época chegou a ter cerca de cinquenta páginas de conteúdo.
Porém, fui chamado ao ministério pastoral em 2013 e me dediquei
ao cumprimento da missão da igreja com fidelidade nas funções que me
foram atribuídas, sem retomar o projeto do artigo. Entretanto, preguei
várias séries de sermões sobre o livro de Apocalipse em várias igrejas
diferentes, e continuava meditando sobre a profecia que é a base do livro
ao qual hoje o leitor tem acesso.
Durante meu ministério pastoral retomei o arquivo do artigo algu-
mas vezes e fiz algumas melhorias nele, agora com vistas a transformá-lo
num pequeno livro. Porém, não consegui finalizar a tarefa àquela época.
Em junho de 2016 eu viria a deixar de exercer o ministério pastoral
num contexto controverso e particularmente complicado. E em função
disso mudei de Estado, passei a exercer novas atividades profissionais,

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

troquei de computador e nesse ínterim acabei me esquecendo totalmen-


te daquele projeto.
Publiquei três livros entre os anos de 2016 e 2017 pela Editora Refle-
xão, e por volta de julho de 2019, relembrei da existência da pesquisa que
eu havia realizado sobre Apocalipse 3. Por isso, fiz uma busca em meus
arquivos de computador e em meus e-mails em busca do texto. Em vão.
Não achei o manuscrito em lugar nenhum, mas a ideia de publicar
algo sobre o tema da mornidão não me abandonava. Ao mesmo tempo
eu não tinha a menor vontade de recomeçar a pesquisa do zero.
Então eu tive uma lembrança cujos desdobramentos viriam a pos-
sibilitar a publicação do presente material. Eu me lembrei que havia en-
viado uma versão quase final do texto já corrigido e melhorado a um
amigo através de um aplicativo de mensagens. A ideia era que ele o revi-
sasse com vistas à publicação.
Todavia, naqueles primeiros instantes eu me lembrei de que havia
enviado o arquivo pra alguém, mas não conseguia lembrar o nome da
pessoa. Depois de uns três minutos forçando minha memória, recordei
com clareza: Reginaldo Castro. Um excelente revisor de textos e cristão
comprometido. Fui ao histórico de mensagens e percebi que não havia
me enganado. Lá estava o manuscrito com meu texto intacto!
Imediatamente após recuperar meu arquivo enviei a ele uma men-
sagem de agradecimento dizendo: Muito obrigado! Ele me respondeu,
porém, dizendo que não estava entendendo o motivo da gratidão. Expli-
quei a situação e avisei que sem aquele arquivo meu projeto de escrever
um livro sobre a mornidão de Laodiceia teria se perdido para todo o

10
AGRADECIMENTOS

sempre. Ele me respondeu dizendo que não teve mérito nenhum nesse
fato, de forma que eu não precisava agradecê-lo por isso.
Seja como for, eu respondi que se ele não fosse um bom profissio-
nal e cristão eu não teria enviado o arquivo pra ele a fim de trabalhar-
mos juntos em primeira instância. E se isso não tivesse ocorrido eu teria
perdido meu material em definitivo.
Assim, recuperei o texto, pude concluí-lo e agora ele está pronto
para ser publicado e espalhado aos quatro ventos. Naquela ocasião, me
comprometi de que esse amigo iria receber uma menção especial de
gratidão quando o livro fosse finalmente concluído e publicado. E aqui
está minha promessa cumprida. Muito obrigado, Reginaldo. Que Deus
te abençoe infinitamente em todos os seus caminhos!
Agradeço, porém, acima de tudo a Deus pela forma maravilhosa
como tem guiado a minha vida e meu ministério. De forma que entrego
ao Senhor o louvor por mais uma obra disponível ao público com vistas
à edificação da igreja.
Aproveito a oportunidade e expresso meu agradecimento mais que
especial à minha esposa, Carolina, e à minha mãe, Dinaura. O apoio e
amor de vocês é absolutamente fundamental na minha vida.
Obrigado também a todos os familiares e amigos que me inspiram e
me ajudam na caminhada cristã. Menção honrosa seja feita igualmente aos
professores e mestres que me ajudaram a desenvolver o amor pela teologia
bíblica de forma que o presente livro viesse a se tornar uma realidade.
A produção do livro se deu num contexto de financiamento cola-
borativo, onde irmãos doam valores para cobrir todos os custos envol-

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

vidos na produção do material e, assim, disponibilizam seu conteúdo


gratuitamente na internet a quem quiser estudar. Se o leitor quiser fazer
parte dessa rede de apoiadores para a produção de materiais futuros é
só entrar em contato comigo através do endereço eletrônico: ezeksalt@
hotmail.com. Que Deus recompense a cada um na proporção de Sua
glória e conforme a disposição alegre dos doadores em participar na
pregação do evangelho.
Por fim, agradeço aos leitores que tomarão tempo para aprender
mais de Deus através deste material. Que a graça de Cristo e a ilumina-
ção do Espírito Santo sejam com todos.

Soli Deo gloria


Ezequiel Gomes
Jundiaí, SP
Inverno de 2020

12
D E D I C AT Ó R I A

Dedico a presente obra, em função de seu conteúdo, a todos os


cristãos de língua portuguesa espalhados por toda a face da Terra, sem
exceção, e sem quaisquer divisões e discriminações em termos de tradi-
ções e denominações religiosas.
Mas dado o contexto de produção e publicação deste livro, eu não
poderia deixar de dedicá-lo de forma especial a todos os membros e
líderes da minha amada igreja em particular, especialmente na Associa-
ção Central Sul-Riograndense, na União Sul Brasileira e na Divisão Sul
Americana. Quem lê, entenda.

Graça e paz!

13
INTRODUÇÃO

Este livro começou a ser escrito a partir de uma ampla reflexão e


pesquisa que teve início enquanto eu cursava o mestrado em teologia bí-
blica, no ano de 2012, quando me tornei especialmente curioso em rela-
ção a uma palavra singular na Palavra de Deus: mornidão (Ap 3:16). O
termo mornidão, no grego do Novo Testamento, é kliarós. Esse vocábulo
é o que chamamos tecnicamente de um hapax legomena, ou seja, uma
expressão que só ocorre uma vez em toda a extensão do registro sagrado.
Frequentemente, esse tipo de palavra oferece um desafio especial a
tradutores e intérpretes, uma vez que não existem outras ocorrências da
mesma palavra em contextos semelhantes ou diferentes dentro da própria
Bíblia para ajudar a iluminar seu significado. Caso contrário, essas outras
ocorrências poderiam testificar da potencial amplitude de significados
que uma expressão possivelmente contém em diferentes contextos.
Para minha surpresa, o que descobri estudando a interpretação do
texto apocalíptico e o uso do conceito de mornidão em livros e artigos
cristãos na história da teologia, foi que o termo tem inúmeros equiva-
lentes/paralelos muito próximos, sinônimos ou antônimos, tanto na
Palavra de Deus quanto na literatura teológica. Esses conceitos me aju-
daram a ampliar meu entendimento sobre os possíveis sentidos da ima-
gem bíblica e a identificar a quais realidades em potencial ele se refere

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

de forma a justificar a fortíssima repreensão de Cristo contra uma igreja


que Ele comprou com Seu próprio sangue.
A impactante mensagem para a igreja em Laodiceia, relatada em
Apocalipse 3:14-22, é profunda e de amplas implicações, mas aparen-
temente não recebe a atenção merecida diante de sua importância para
a comunidade cristã em geral. Em uma atmosfera de divisões e lutas
internas no cristianismo, aparentemente é muito mais fácil e tentador
para alguns lançar o estigma da mornidão apenas a uns poucos grupos
cristãos ou poucos indivíduos em meio às igrejas. Tal atitude acabaria
livrando, em certa medida, a grande maioria dos seguidores de Cristo
da necessidade de refletir mais seriamente na severa repreensão de Jesus
à última igreja do Apocalipse contextualizada na ideia da mornidão.
O resultado dessa desatenção ou indiferença é que o alerta do Se-
nhor se torna esvaziado de relevância e aplicação prática e passa a ser
encarado como se não fosse dirigido diretamente à maioria ou à totali-
dade dos cristãos, que, nessa hipótese, não mereceriam ser chamados de
mornos. É como se a maioria dos cristãos pudessem agradecer a Deus
por não serem mornos, como os demais homens (cf. Lc 18:11).
Seja como for, mesmo que tal denúncia tivesse sido direcionada a
apenas algumas poucas igrejas ou a algumas poucas pessoas em meio à
realidade mais ampla da comunidade cristã, o destino de qualquer gru-
po ou de quaisquer indivíduos que compõem a igreja pode estar sendo
determinado pela atenção ou desatenção à mensagem de Cristo nessas
palavras. A razão para tanto é que a mensagem é urgente a quem se
destina, e não temos um padrão objetivo para estabelecer de antemão

16
INTRODUÇÃO

a quem essa profecia se aplica e a quem supostamente não, se é que ela


realmente não se aplica a todas as igrejas e a todos os seus indivíduos.
Sendo assim, esse texto precisa ser levado a sério e estudado por
todo seguidor de Jesus, e deverá continuar sua obra de despertar cons-
ciências e operar profundo arrependimento na vida dos “laodiceanos”
até cumprir plenamente o propósito designado por Deus para sua exis-
tência (cf. Is 55:11).
À luz dos desafios exegéticos e hermenêuticos implicados no estu-
do desse texto, devemos reconhecer que interpretar o livro de Apocalip-
se é algo reconhecidamente complexo, especialmente quando lidamos
com seus símbolos viscerais e suas cenas, no mínimo, estranhas. Esta-
belecer o sentido pormenorizado de cada cena, visão, quadro, símbolo e
ideia é tarefa gigantesca, e ainda que conseguíssemos chegar ao final dela
no presente livro teríamos que lidar, ao final, com os demais estudiosos
que empreenderam a mesma tarefa e chegaram a um entendimento um
pouco (ou muito!) diferente do nosso sobre esse que é o último livro do
cânon bíblico e um dos mais enigmáticos.
O desafio interpretativo, todavia, não é evocado aqui para desa-
nimar intérpretes e leitores, nem para pregar o agnosticismo ou rela-
tivismo sobre o sentido da revelação, de maneira nenhuma, mas a di-
ficuldade é reconhecida simplesmente para dar o tom da humildade
imprescindível à busca que estamos iniciando nesse material.
As cartas às sete igrejas do Apocalipse não representam os maio-
res desafios aos estudiosos do último livro da Bíblia, tais como a inter-
pretação dos sete selos (Ap 6:1-17; 8:1-6), das sete trombetas (8:7–9:21;

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

11:15-19) e das bestas (13:1-18; 17:1-18), mas se enganaria gravemente


quem concluísse a partir disso que estamos diante de textos simplórios
ou desinteressantes.
As localidades geográficas, os elogios e repreensões, os persona-
gens, as promessas, as histórias e as perspectivas contidas em Apocalip-
se 2–3 dão margem a reflexões espirituais que alinham a experiência da
igreja com aquilo que o Senhor recomenda e alertam o povo de Deus
quanto àquilo que o Criador desaprova.
A multiplicidade de “igrejas” nesse trecho do livro de Apocalipse
não depõe contra a unidade da igreja cristã, mas explora realidades lo-
cais nas igrejas da Ásia Menor do primeiro século a fim de retirar delas
lições espirituais que, no final das contas, terminam sendo, pelo menos
em certo sentido, relevantes para todos os cristãos de todas as eras. Ainda
assim, reconhecemos que quando estamos em busca de uma interpreta-
ção e aplicação correta do texto, as questões particulares mais diretamente
relacionadas à audiência original devem ter a merecida proeminência.
Dos variados e importantes elementos contidos na profecia des-
tinada à igreja de Laodiceia, a mornidão é uma das características que
mais se destaca, e “sua interpretação tem sido objeto de especulação por
séculos”.1 É digno de nota que todas as considerações que se seguem,
como já mencionado, nasceram do meu interesse inicial por uma úni-
ca palavra da Escritura. Isso demonstra de antemão que devemos estar
alerta para que um conceito extremamente rico possa ser encontrado
por detrás de uma simples palavra e que, para encontrá-lo, é necessá-
rio empenho e dedicação no estudo do texto bíblico. Nessa caminhada,

18
INTRODUÇÃO

também pode ser interessante avaliar o que outros cristãos já escreve-


ram antes de nós a respeito do tema em questão, sendo que esse proces-
so pode conduzir os estudiosos a descobertas fascinantes.
Este livro, é bom que se diga, não é exatamente uma pura exege-
se de Apocalipse 3:15-16, apesar de incluir uma exegese da passagem
em certo sentido. O mais correto seria dizer que esse material consiste
numa avaliação bíblica mais ampla a respeito da imagem da mornidão a
partir do texto, do contexto e de outras passagens bíblicas identificadas
por estudiosos cristãos como análogas, paralelas ou mesmo sinônimas
do conceito central em nosso presente esforço teológico.
Nesse ponto, o leitor deve estar preparado para entrar em contato
com dezenas ou centenas de passagens bíblicas que, em meu entender,
servem para iluminar e esclarecer o conceito de mornidão, ainda que a
palavra em si não ocorra nesses outros textos.
Frise-se, portanto, que o leitor que se debruçar sobre as passagens es-
criturísticas citadas ao longo desse livro será muito mais beneficiado do que
aquele que passar pela pesquisa bíblica referida nas páginas que se seguem
sem conferir texto por texto. A leitura de cada referência pode parecer um
pouco cansativa num primeiro momento, mas esconde em si uma bênção
ao leitor atento e bereano (cf. At 17:11). No decurso do estudo, apesar de
trabalhado num paradigma de que a Escritura está acima de qualquer con-
vicção pessoal de teólogos individuais e magistérios, também atentaremos
para o uso que estudiosos cristãos fizeram do termo mornidão a fim de
iluminarmos nosso entendimento da discussão a partir também das inte-
lecções deles em suas análises textuais e teológicas envolvendo o tema.

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Antes, porém, de nos dedicar ao conceito bíblico de mornidão e de


sua interpretação e implicações, será interessante identificar e respon-
der algumas questões preliminares sobre essa profecia como um todo a
fim de contextualizar nossas considerações.

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I

U M A C A RTA À
Ú LT I M A I G R E J A
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

QUEM SE DIRIGE
PESSOALMENTE À
IGREJA DE LAODICEIA?

O livro de Apocalipse nos é apresentado como uma “revelação


de Jesus Cristo, que Deus lhe deu” (Ap 1:1), e que foi transmitida
a João através de um mensageiro celestial. O livro é profundamen-
te interessante e importante para todos os cristãos. O personagem
que origina e carrega a mensagem ao anjo da igreja de Laodiceia
(3:14-22) é o mesmo personagem que se direciona a todas as igrejas
anteriores (cf. 1:12-18). Esse personagem se autodescreve usando
imagens retiradas da visão de Apocalipse 1:4, 5, 12-20 como: “Aque-
le que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio
dos candeeiros de ouro” (2:1; cf. 1:13, 16); “o primeiro e o último,
que esteve morto e voltou a viver” (2:8; cf. 1:18); “Aquele que tem a
espada afiada de dois gumes” (2: 12; cf. 1:16); “o Filho de Deus, que
tem os olhos como chamas de fogo e os pés semelhantes ao bronze
polido” (2:18; cf. 1:14, 15); “Aquele que tem os sete espíritos de Deus
e as sete estrelas” (3:1; cf. 1:4, 16); “o santo, o verdadeiro, Aquele
que tem a chave de Davi” (3:7; cf. 1:5; 3:14); e “o Amém, a teste-
munha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus” (3:14; cf.
1:5). Portanto, inequivocamente quem se dirige às igrejas é o Cristo
ressurreto e glorificado. Vamos agora analisar mais detidamente os
três títulos cristológicos presentes em Apocalipse 3:14.

22
UMA CARTA À ÚLTIMA IGREJA

O Amém

A palavra “amém” carrega a ideia daquilo que é verdadeiro, firme-


mente estabelecido e digno de confiança. Essa era uma palavra comum
aos adoradores do Antigo Testamento que participavam de uma doxo-
logia,1 fazendo sua própria confirmação em relação àquilo que ouviram
em uma reunião com propósitos espirituais (1Cr 16:36; Sl 106:48). O
amém é um enfático “sim” como resposta afirmativa a uma ideia, oração
ou doxologia (Rm 1:25; 9:5; 16:27; Gl 6:18; Ap 1:7; 5:14; 7:12; 19:4).
Precedido pelo artigo definido, o amém se tornou a personificação
do Deus da verdade (Is 65:16; cf. 2Co 1:20).2 Jesus toma esse título para
Si mesmo, e esse é o único lugar em todo o texto bíblico onde a palavra
“amém” isoladamente é um nome próprio, e nessa única ocasião “ela se
refere ao nome de Cristo”.3
Cristo é a “última palavra de Deus” (cf. Hb 1:1-2), a palavra final,
escatológica, a plena revelação (Jo 1:18). Amém é uma palavra comu-
mente carrega conotação “de conclusão ou cumprimento (2Co 1:20)”.4
Em Cristo todas as promessas de Deus são cumpridas. A descrição de
Cristo como o amém é “uma descrição única”5 e bastante apropriada
para designar Aquele que é a verdade em sentido absoluto (Jo 14:6).
Estudiosos do texto bíblico concluem que “Cristo é o amém no senti-
do de que Ele é o Deus da verdade encarnado”,6 e que, assim sendo, “Cristo
é a encarnação da fidelidade e da verdade de Deus”.7 Isso nos conduz a pen-
samentos profundos e sublimes sobre a identidade dAquele que se dirige

23
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

às suas igrejas como alguém que as “conhece” (Ap 2:2, 9, 13, 19; 3:1, 8, 15).
Ele é alguém que conhece todas as coisas (1Jo 3:20; cf. Jo 2:25).
Cristo é a verdade, o amém, e, “como tal, Sua mensagem aos laodi-
censes deve ser aceita sem ser colocada em dúvida”.8 Isso é extremamente
importante no caso da igreja de Laodiceia, que certamente será tentada a
duvidar do diagnóstico espiritual que o Senhor tem a lhe oferecer: “Pois
dizes: estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que
és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3:17, grifo nosso).
Tal realidade dificilmente seria encarada com aceitação tranquila e
imediata por parte de uma igreja descrita como estando tão profunda-
mente envolvida em sua própria ilusão. Essa pode ser a razão pela qual
Cristo, para desmascarar definitivamente todas as pretensões do engano
de Laodiceia, Se apresenta sob o título de “o amém”,9 como forma de
evocar a mais alta autoridade do universo (Mt 28:18) e demandar uma
extrema seriedade na consideração de Seu juízo sobre a condição de
tal igreja (Ap 3:15-17), e sobre como essa condição poderia ser venci-
da (3:18-20), bem como sobre quais seriam os destinos de perdedores
(3:16) e vencedores (3:21) no conflito contra a mornidão.
A mornidão é a característica negativa mais específica, singular
e enfatizada na mensagem à Laodiceia e resume todas as facetas de
seu autoengano, mas Cristo é fiel (1Ts 5:24) e “sua imutável fidelidade
como ‘o amém’ contrasta com os propósitos vacilantes ‘nem frios nem
quentes’ da última igreja do Apocalipse”.10 O amém é também um tí-
tulo de Cristo conectado intimamente com título seguinte que vamos
analisar a seguir.

24
UMA CARTA À ÚLTIMA IGREJA

A testemunha
fiel e verdadeira

A descrição de Jesus Cristo como a “testemunha fiel e verdadeira”


indica que Cristo conhece todas as realidades referentes à Sua igreja em
cada pormenor particular, e significa também que todos os Seus teste-
munhos, juízos e promessas são verdadeiros em sentido absoluto. Cristo
é o Verbo (Jo 1:1; cf. Ap 19:13), o pensamento de Deus tornado audível
e visível (cf. Hb 1:3), e isso é a verdade (Jo 17:17; cf. 14:6).
Cristo não é somente a testemunha fiel e verdadeira da Palavra de
Deus, mas também o esquadrinhador dos “pensamentos e desígnios do
coração”. E o evangelho afirma que Cristo, mesmo antes de ser glorifi-
cado, “não precisava que alguém Lhe desse testemunho a respeito do
homem, porque Ele mesmo sabia o que era a natureza humana” (Jo 2:25,
grifo nosso). E agora adicione a isso Sua glorificação (Jo 17:15; cf. 7:39)
e você será capaz de vislumbrar a seriedade que as afirmações de Cristo
evocam em um mundo tão rebelde contra Deus até o ponto de pratica-
mente não haver nele “verdade” (Os 4:1).
Tudo aquilo que Jesus Cristo fala, entretanto, é indubitavelmente
verdade, e no fim do Apocalipse nós lemos a afirmação: “Essas palavras
são fiéis e verdadeiras” (Ap 21:5; 22:6),11 e isso obviamente inclui tudo
o que ele afirma sobre Laodiceia. Essa fidelidade e veracidade de Cristo
como testemunha são “particularmente relevantes em uma carta para
os infiéis laodicenses”12 e são invocadas de antemão para envergonhar
qualquer tentativa de se negar o que será dito muito em breve.

25
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Antes de prosseguir, porém, Cristo deseja estabelecer Sua identida-


de e autoridade de forma ainda mais ampla, e o faz através do terceiro e
último título com o qual Ele Se apresenta à última igreja do Apocalipse.

O princípio da
criação de Deus

Esse é o título mais polêmico atribuído a Cristo nessa passa-


gem, e muito se pode dizer a respeito dele de forma que seu sentido
fique claro para nós. Por exemplo, Paulo exortou que a carta que ele
escrevera aos colossenses fosse lida em Laodiceia (Cl 4:16). Nela,
Paulo desenvolve uma cristologia madura e distingue a Cristo como
“a imagem de Deus, o primogênito de toda a criação”. Ensina que
tudo foi criado “por meio dele e para Ele”, sendo Ele antes de todas
as coisas e tudo nEle subsistindo. Também se afirma que “aprouve
a Deus que nele residisse toda a plenitude” (Cl 1:15-19), e que em
Cristo “habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl
2:9). Todas essas verdades estão contidas de forma resumida no
título “o princípio da criação” em Apocalipse 3:13.
O título primogênito de toda a criação em Colossenses 1:15
“aponta para a exaltada posição de Cristo como o Rei supremo do
universo” e não é uma expressão que sugira por si mesma, ou de
forma irrefutável, “que Ele tenha emanado do Pai ou tenha sido
criado por Deus em algum ponto da eternidade passada”.13 Além
do mais, o termo “princípio” não precisa necessariamente ser tra-

26
UMA CARTA À ÚLTIMA IGREJA

duzido no sentido passivo, o que implicaria em que Cristo foi cria-


do por Deus, mas pode perfeita e legitimamente ser traduzido no
sentido ativo, significando que Cristo é o principal agente ativo da
criação de Deus, ou seja, o próprio agente Criador (cf. Jo 1:3; At
3:15). Portanto, o título “o princípio da criação” apenas enfatiza “a
proeminência de Cristo sobre todas as criaturas de Deus”14 como
fonte de sua existência.
Jesus, portanto, é Aquele através de quem e para quem todas
as coisas existem, e aqui está o fundamento mais básico para ex-
plicar de onde vem Sua autoridade para repreender e disciplinar
aqueles que estão em qualquer erro (Ap 3:19). Além disso, Ele o faz
porque ama Sua criaturas iludidas e falhas e não permite que elas
tomem caminhos de morte pensando ser caminhos direitos (Pv
14:12; 16:25), sem avisá-las do terrível perigo em que elas estão.
Antes, Ele as repreende com amor e seriedade para que “se conver-
tam e vivam” (cf. Ez 18:31-32).
Cristo é o legítimo autor e possuidor de todas as coisas, e Lao-
diceia despreza essa realidade ao se imaginar “rica e abastada, e sem
nada precisar” (Ap 3:15) em nome de sua própria prosperidade. Entre-
tanto, esse desprezo, além de ilusório e pecaminoso, é justamente um
dos principais fatores que lhe impedem de conhecer sua real condição
miserável e deplorável. No entanto, à igreja enganada é dada a opor-
tunidade inigualável de conhecer ao Senhor que unicamente a pode
livrar da condenação de sua ilusão de autossuficiência (3:18, 21). Mas
quem são os laodicenses descritos em termos tão negativos?

27
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

A QUEM SE DESTINA A
MENSAGEM PROFÉTICA
DE APOCALIPSE 3:14-22?

Os laodicenses originais eram os primeiros cristãos da cidade


de Laodiceia, na Ásia Menor, ainda que a mensagem profético-apo-
calíptica possa ter em mente um público-alvo mais amplo além da-
quelas pessoas.
Ranko Stefanovic nos diz que “o livro de Apocalipse afirma ser
uma profecia (1:3; 22:7, 10, 18-19) e como tal deve ser abordado”.15
E conclui que “a mensagem de um profeta ao povo de seu tempo
também se estende para além do seu próprio tempo”.16
A região da Ásia Menor, onde estavam situadas as sete igrejas
incluídas na profecia do Apocalipse (Ap 1:11), abrigava outras im-
portantes igrejas cristãs. As igrejas de Colossos 17 e de Hierápolis,
por exemplo, são mencionadas no Novo Testamento (Cl 1:2; 4:13),
e o fato de não figurarem na profecia das sete igrejas do apocalipse
pode implicar que Cristo usou um critério de seleção18 para a inclu-
são das igrejas que haveriam de receber essa mensagem profética/
apocalíptica de Sua parte como Senhor glorificado.
Segundo alguns estudiosos, a existência de um critério de se-
leção pode implicar na escolha de igrejas que estariam aptas para
ilustrar e/ou tipificar “a condição da igreja como um todo, na era
apostólica, e (posteriormente) por toda a história cristã”.19

28
UMA CARTA À ÚLTIMA IGREJA

Paulien observou paralelos entre a linguagem da mensagem di-


recionada à igreja de Laodiceia (Ap 3:17-18) e a última advertência
dirigida ao povo de Deus em conexão com a batalha do Armagedom
(Ap 16:15). Os conceitos-chave em paralelo, presentes em ambas as
profecias, são: vestiduras, nudez e vergonha.20 Isso pode indicar que
talvez João tenha usado a mesma linguagem da profecia feita a Lao-
diceia para descrever a mensagem final ao povo de Deus no fim do
tempo, na última batalha. Assim é que alguns acreditam que a igreja
de Laodiceia, a última na ordem da profecia das sete igrejas, está re-
lacionada com o último período da história do mundo.21
Por outro lado, pode-se perceber que as visões do Apocalipse,
dentre elas as mensagens proféticas dirigidas às sete igrejas nos ca-
pítulos 2 e 3, “oferecem esboços históricos de amplitude universal”.
E é “por isso que a interpretação dessas visões apocalípticas deve
respeitar a extensão cósmica iniciada na própria época dos escri-
tores, mas que conduz o leitor até o fim”.22 Ou seja, não necessaria-
mente estamos tratando com um cronograma profético da história
ilustrado na seleção e sequência entre as sete igrejas, mas todas as
mensagens são relevantes em todo o tempo para todas as igrejas.
Baseados nesses princípios podemos concluir, junto com
Stefanovic, que

as mensagens às sete igrejas têm significação tanto para as


igrejas locais às quais a profecia foi dirigida primariamente,
como para a igreja universal, e também para cristãos indi-

29
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

viduais, em qualquer lugar como em qualquer momento da


história da igreja. Elas são dirigidas a todos que têm ouvidos
e estão dispostos a ouvir o que o Espírito diz às igrejas (Ap
2:7, 11, 17, 29; 3:6, 13, 22).23

A mensagem à igreja de Laodiceia é uma denúncia pesada e


certamente permanece aplicável ao povo de Deus no tempo presente,
ou, no mínimo, a uma parte desse povo até os dias de hoje. Dessa
forma, na ausência de um critério prévio para definir destinatários
diretos da repreensão, todos os que afirmam ser cristãos deveriam
se interessar por ela e escrutinar seu próprio coração na presença do
Senhor em razão de sua força incisiva. A mensagem para Laodiceia
deve ir a todas as igrejas, especialmente àquelas que têm tido grande
luz espiritual e teológica, mas não têm andado nela na prática da fé
que atua pelo amor.
De acordo com as considerações acima, a mornidão caracte-
rística de Laodiceia não deve ser interpretada simplesmente como
sendo um aspecto peculiar ou específico de uma igreja no primeiro
século de forma isolada, como se não tivesse relevância à igreja que
vive ou viverá no último período da história, antes da volta de Je-
sus. A profecia também não aponta de forma objetiva a uns poucos
cristãos individuais vivendo em meio à comunidade cristã de forma
geral, mas deve abarcar, pelo menos potencialmente, todos que afir-
mam ser cristãos, em todas as eras da igreja, até o tempo em que o
Senhor retorne nas nuvens do céu.

30
UMA CARTA À ÚLTIMA IGREJA

OUTROS ASPECTOS
HISTÓRICOS IMPORTANTES
PARA COMPREENDER A PROFECIA

Muitos livros e artigos excelentes discutem a mensagem à igreja


de Laodiceia em conexão com as características históricas e geográficas
da cidade, e o fazem com muitos detalhes.24 Provavelmente, a Laodiceia
mencionada no Apocalipse “foi construída entre 261-246 a.C. por An-
tíoco II e recebeu esse nome em homenagem à sua esposa, Laodice”.25
A cidade era distinguida por três características especiais:26 (1) era ri-
quíssima, a ponto de ser um centro bancário/financeiro;27 (2) era um
centro de produção têxtil;28 e (3) possuía uma escola de medicina,29 par-
ticularmente famosa por produzir uma espécie de colírio, muito famoso
no mundo antigo, chamado “tetra frígia”.30 Todas essas características
da região são evocadas pelo Senhor, bem como interpretadas alegorica-
mente como refletindo a condição espiritual dos laodicenses (3:17-18),
com o objetivo de fazer a igreja despertar de sua real e perigosíssima
condição de mornidão e autoengano, a fim de que os cristãos mornos se
movessem em direção ao arrependimento (3:19; cf. Rm 2:4).
Entretanto, para nosso estudo específico, o aspecto histórico mais
relevante é o fato de que Laodiceia não tinha suprimento independente
de água,31 sendo privilegiada somente como rota comercial e militar.
Por outro lado, Hierápolis, situada a nove quilômetros ao norte de Lao-
diceia, tinha grande abundância de águas quentes e medicinais, enquan-
to Colossos, situada a dezesseis quilômetros em direção ao leste, possuía

31
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

fontes de água fresca e potável. Quando a água foi canalizada em direção


a Laodiceia,32 partindo da região das águas quentes de Denizli (região de
Hierápolis), a água não tinha tempo suficiente para esfriar nos aquedu-
tos e chegava à cidade “morna”.33 É a partir dessa realidade histórica que
a testemunha fiel e verdadeira retira a marcante imagem de identifica-
ção que caracteriza a igreja de Laodiceia como morna.

ALGUMAS PASSAGENS
ESCRITURÍSTICAS QUE
ILUMINAM O CONCEITO DE MORNIDÃO

Conforme já afirmamos na introdução do livro, o adjetivo grego


que é traduzido como morno consiste em um hapax legomena neotes-
tamentário. Ainda assim, existem várias passagens das Escrituras que
podem nos auxiliar a entender os possíveis significados espirituais por
detrás do conceito de mornidão.
Em um trabalho sobre referências cruzadas entre os textos bíbli-
cos, Smith34 se refere a várias passagens que podem iluminar o conceito
de mornidão. As mais significativas são: a disposição remissa em passar
e possuir a terra que Deus já havia dado em herança através de aliança
(Js 18:3); a falta de pressa dos levitas em reparar a casa de Deus na refor-
ma promovida pelo rei Joás (2Cr 24:5); a atitude do povo em desampa-
rar a casa de Deus e seus serviços (Ne 13:11); a postura dos que estão à
vontade em momentos de dificuldades espirituais do povo de Deus (Sl

32
UMA CARTA À ÚLTIMA IGREJA

123:4); viver de forma despreocupada ao mesmo tempo que não se dá


ouvidos à Palavra de Deus (Is 32:7); manifestar uma atitude de sober-
ba e presunção espiritual aliada à infidelidade (Is 47:8); uma rotina de
desprezo pelo relacionamento com Deus (Is 64:7); escolher aquilo que
desagrada a Deus (Is 66:4); pretender ser o povo de Deus enquanto faz
o mal e não conhece verdadeiramente ao Senhor (Jr 9:3); fazer a obra do
Senhor relaxadamente (Jr 44:10); desamparar aos necessitados quando
vivendo em um contexto de prosperidade pessoal (Ez 16:49); a dispo-
sição de se reunir para ouvir a Palavra de Deus e professar muito amor
com a boca, mas não colocar a verdade por obras (Ez 33:31-32); ter um
coração falso (Os 10:2); relativizar o bem e o mal (Sf 1:12; cf. Is 5:20);
não se importar com o convite do evangelho (Mt 22:5); esfriar no amor
para com Deus e/ou para com as pessoas (Mt 24:12); ter forma de pieda-
de mas negar o seu poder e manifestação legítimos (2Tm 3:5); pretender
ter fé ao mesmo tempo que não manifestar essa fé em obras (Tg 2:14-26;
cf. Gl 5:6); dentre outras passagens.
Todos esses conceitos trazidos por Smith têm em comum uma
perceptível e flagrante disparidade entre a teoria de se pertencer a uma
comunidade de fé religiosa aparentemente correta e ortodoxa, e a rea-
lidade prática de se manter um relacionamento indiferente e/ou infiel
para com a verdade de Deus e para com o Deus da verdade, isso em
várias dimensões e circunstâncias diversas. É algo dessa realidade que
pode ser percebido como característica distinta e marcante da igreja
de Laodiceia, e pela qual ela é fortemente reprovada. Entretanto, o
desafio de compreender de forma mais exata em que consiste a mor-

33
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

nidão permanece como um desafio aos intérpretes dada sua singulari-


dade no texto bíblico.
A mornidão, na história da teologia, acabou se tornando um con-
ceito utilizado para reprovar inúmeras más características de diferentes
igrejas e cristãos em particular, e muitos pregadores e comentadores do
texto bíblico aplicaram a imagem da mornidão de formas bastante di-
versificadas e diferentes entre si. Passaremos agora a analisar algumas
possibilidades de compreensão em torno do tema da mornidão a partir
de conceitos possivelmente análogos a ele.

34
II

CONCEITOS
PA R A L E L O S,
COMPLEMENTARES
E SINÔNIMOS
DE MORNIDÃO
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

O conceito de mornidão está frequentemente acompanhado, nos


escritos de cristãos em diferentes momentos da história da igreja, a ter-
mos e frases que ajudam a iluminar e/ou esclarecer a que tipo de carac-
terística se faz referência quando se evoca essa imagem.1
Às vezes, esses termos e/ou frases são aparentemente sinônimos
perfeitos do conceito de mornidão em si, outras vezes são aparente-
mente complementares apenas, quando não o exato oposto. E é muito
interessante analisá-los para melhor compreender qual é a atmosfe-
ra espiritual evocada através da palavra “mornidão” na mentalidade
cristã em geral.
Minha abordagem se utiliza da ideia do “paralelismo sinônimo” na
poesia hebraica, quando, por exemplo, uma segunda ideia é usada para
esclarecer ou enfatizar uma primeira ideia.
Exemplos de paralelismos sinônimos:

“Os justos herdarão a terra e nela habitarão para sempre” (Sl 37:29).
“Desvia de ti a falsidade da boca e afasta de ti a perversidade dos
lábios” (Pv 4:24).

Nesses dois casos simples, dentre inúmeros que poderiam ser citados,
fica claro que herdar a terra e habitar na terra para sempre são paralelos
sinônimos e que a falsidade da boca equivale à perversidade dos lábios.
Imagine que fôssemos escrever um livro sobre “falsidade”, mas essa
palavra só ocorresse uma vez em todo o registro bíblico. Ainda assim,
nesse caso, o conceito de “perversidade dos lábios” poderia, ou melhor,

36
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

deveria ser usado para ajudar a esclarecer a que o conceito de falsidade


é sinônimo de perversidade.
Também fundamento as conclusões a seguir na ideia do “parale-
lismo antitético”, que é a definição de um termo pelo seu exato oposto
ou contraste. O Salmo 37 também tem um exemplo desse tipo de para-
lelismo: “Porque os malfeitores serão desarraigados; mas aqueles que
esperam no Senhor herdarão a terra” (Sl 37:9). Portanto, na hora de de-
finir quem são os “malfeitores” no texto, é útil contrastá-los com “os que
esperam no Senhor” para descobrir, por oposição suas características.
Quem não espera no Senhor, nesse caso, é um malfeitor.
É a partir de constatações dessa espécie que identificamos na Palavra
de Deus, e em trabalhos teológicos de cristãos em geral, conceitos análo-
gos ao conceito de mornidão, seja por conceitos sinônimos ou antitéticos,
ainda que a palavra tema do nosso livro só ocorra uma vez no registro
sagrado. A identificação de vários desses paralelos sinônimos é que será
explorada para nos oferecer vislumbres mais profundos sobre como en-
tender a natureza da mornidão.
Todos os conceitos que se seguem neste capítulo, portanto, foram
reconhecidos e retratados por diversos autores como estando de alguma
forma intimamente relacionados ao conceito de mornidão na mentalida-
de de cristãos comprometidos com as verdades bíblicas e com a missão
da igreja, ainda que cada qual sob o prisma de sua tradição em particular.
Agora estamos preparados para explorar essa riqueza teológica a
fim de expandir nossa compreensão sobre o sentido por detrás do pe-
cado da mornidão, tão fortemente repreendido por Cristo. Os termos

37
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

a seguir foram divididos didaticamente entre pecados estruturais, de


omissão e de rebelião.

PECADOS ESTRUTURAIS

A expressão “pecados estruturais” aqui denota problemas espirituais


que não representam meramente ações ruins ou omissões em relação ao
que é correto, mas a dificuldades mais fundamentais e que fazem parte
do amplo espectro de pecados condenados na imagem da mornidão.
Cada problema descrito no que se segue representa uma condi-
ção pecaminosa que se manifesta na base da experiência religiosa e,
por isso mesmo, é difícil de ser reconhecida para poder ser tratada.
Conquanto praticamente todos os cristãos reconheçam que ainda co-
metem erros, pouquíssimos religiosos parecem estar abertos a consi-
derar que podem estar realmente errados em sua religião, especial-
mente em pontos fundamentais.
Mas é exatamente para essa possibilidade que a profecia e repreen-
são de Cristo à igreja de Laodiceia aponta. Desconsiderar a possibilida-
de de que assim seja é desconsiderar que a imagem da mornidão pode
ser aplicada a si, o que pode meramente agravar o quadro do autoenga-
no condenado por Cristo. Dessa forma, é importante pensarmos com
seriedade em pecados estruturais e paralelos ao conceito de mornidão
para ver se tais questões não têm se manifestado na realidade de nossa
experiência religiosa.

38
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

Cegueira espiritual

A cegueira espiritual é evocada explicitamente no contexto imediato


da reprovação à mornidão em Apocalipse 3:17-18. A condição da ceguei-
ra indica a incapacidade de ver, o que, em tese, não se trata de uma condi-
ção repreensível por ser uma condição defeituosa pela qual, em geral, seu
portador não tem culpa (cf. Jo 9:1-3). Entretanto, uma vez que a condição
da cegueira natural e sua cura, em determinado contexto, é usada por
Cristo para ilustrar a cegueira espiritual, a situação pode mudar de figura
na análise quanto à culpa da situação.
Diante do milagre realizado por Cristo na cura de um cego de nascen-
ça, os fariseus se demonstraram incapazes de ver naquilo um sinal do Reino
de Deus e da dignidade do portador desse milagre. Por essa razão, tentavam
investigar e interpretar a situação de forma a tentar tirar daquele episódio
motivo para acusar e condenar Jesus e quem nEle cresse, movidos por sua
falta de entendimento e por seus preconceitos religiosos (Jo 9:13-34).
Nesse contexto polêmico, a pretensão farisaica de “ver” revela sua ce-
gueira espiritual, uma cegueira pela qual eles eram culpados, uma vez que,
nesse caso, a cegueira era voluntária. Os fariseus cegaram a si mesmos para
as evidências da natureza divina do ministério de Cristo, e isso fez com que
ficassem em sua zona de conforto e sentissem que não precisavam rever
suas convicções religiosas diante das implicações absolutamente radicais
por detrás da vida e obra de Jesus Cristo.
Laodiceia, assim como os fariseus, é miserável, mas não vê isso,
sendo, portanto, cega a respeito de si mesma, e isso voluntariamente,

39
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

e não por uma condição de cegueira involuntária. O indício mais cla-


ro disso é a pesada repreensão de Cristo em torno dessa condição. Ela
revela a condição culposa, de pecado, na qual Laodiceia reflete mais do
farisaísmo (cf. Jo 9:41) do que do próprio Cristo.
Fazer os cristãos enxergarem seus erros mais profundos pode ser
tarefa muito difícil, tanto que Cristo teve dificuldade de fazer os fariseus
de Seu tempo enxergarem sua real condição diante de Deus. Mesmo
diante de milagres claros ou de verdades espirituais irrefutáveis e in-
cisivas, os fariseus do passado e os cristãos do presente parecem ter a
tendência de interpretar tudo que lhes condena de forma peculiar, sem-
pre esvaziando a repreensão de conteúdo e a condenação de relevância
e seriedade. A cegueira espiritual voluntária permanece como uma das
condições mais lastimáveis entre os professos seguidores de Cristo.

Egoísmo

A Palavra de Deus recomenda uma postura de vida segunda a qual


ninguém deve “buscar o seu próprio interesse”, mas deve buscar o bem
dos outros (1Co 10:24). Esse princípio se desdobra nas características do
amor verdadeiro (1Co 13), na consideração dos demais como superiores
a si mesmo e na atitude de não se ter em vista somente o que seja propria-
mente seu (Fp 2:3-4) – em resumo, no amor ao próximo (Mt 22:39).
O egoísmo, porém, é uma das consequências primordiais do pecado
original de Gênesis 3. Após a queda, Adão e Eva são descritos envolvidos
em preocupações e justificativas próprias essencialmente egoístas (Gn

40
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

3:7-13), natureza essa que agora foi transmitida aos filhos de Adão, bem
como à humanidade de forma geral e irrestrita (Gn 5:3; cf. Rm 5:12-14).
Cristãos essencialmente egoístas são um paradoxo, uma vez que
Jesus Cristo, seu Salvador, Senhor e Exemplo, é o modelo máximo de
vitória sobre o egoísmo naquilo em que Ele atrai as afrontas sobre Si
na condenação à morte na cruz (Hb 13:12-13; cf. Sl 69:7). A vitória so-
bre um espírito egoísta também está refletida em certa medida na igreja
primitiva (At 5:41). Dessa forma, cristãos realmente egoístas são uma
contradição de termos em relação ao Senhor e à verdadeira natureza e
comunhão da igreja.
Entretanto, é necessário enfatizar que o egoísmo pode se mani-
festar tanto como condição natural e inescapável quanto em ações do-
losas de pecado. No primeiro caso, o egoísmo é sinônimo do mínimo
instinto de autopreservação e/ou mesmo de amor próprio, não sendo
necessariamente condenável. Mas quando o egoísmo amadurece entre
professos cristãos na direção da expressão de qualquer tipo de orgulho,
prepotência, inveja, malícia, vaidade, violência, desamor e demais pe-
cados contextualizados no pecado do egoísmo, então estamos diante de
um quadro tenebroso de mornidão.
Fazer os cristãos egoístas enxergarem a correta dinâmica entre tais
princípios não deveria ser difícil, em teoria, mas na prática acaba sendo.
Relativizações e justificativas parecem estar prontas para que o pecado do
egoísmo seja acariciado e resguardado em nome dos sentimentos e pos-
turas normais de autopreservação e amor próprio. O que jamais deveria
ser confundido, o é, e isso para a vergonha dos chamados cristãos, como

41
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

no caso das repreensões de Paulo aos mornos e egoístas coríntios no con-


texto dos abusos por eles cometidos na ceia do Senhor (cf. 1Co 11:17-22).

Superficialidade

O ser morno também indica o ser superficial. A mornidão é a ima-


gem de uma fé comprometida, no sentido negativo do termo, por causa
da falta de fervor e de amor prático e verdadeiro. Isso tudo representa
um circulo vicioso onde a superficialidade gera esse estado de coisas e,
ao mesmo tempo, impede que ele seja percebido de forma mais clara e
seja combatido de forma mais diligente.
A superficialidade atinge especialmente os cristãos que pouco
conhecem das Escrituras, e atinge os cristãos que não praticam aquilo
que eles conhecem da Palavra de Deus. De uma forma ou de outra,
seja no conhecimento da verdade ou em sua manifestação prática na
realidade da vida, todos os incoerentes são condenados como superfi-
ciais em algum sentido.
A fé cristã mantém em perspectiva verdades doutrinárias, além de
compromissos éticos e espirituais extremamente profundos e radicais,
capazes de transformar o mundo caso praticados de forma consistente.
Ser um cristão morno e superficial, portanto, é resultado da recusa em
se aprofundar em tais direções.
Um mundo de estudos profundos em todas as áreas do conheci-
mento, bem como de engajamento prático no fazer o bem em amplos
horizontes, está aberto a todos os cristãos que estão atentos às doutrinas

42
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

(ortodoxia) e às práticas (ortopraxia) biblicamente recomendadas aos


seguidores de Jesus. A superficialidade é opção unicamente no contexto
da infidelidade à natureza da fé e à missão da igreja.

Hipocrisia

A hipocrisia também é uma realidade usada para fazer par com a mor-
nidão e carrega sobre si as marcas de algumas das mais pesadas repreensões
de Cristo contra a liderança espiritual do povo de Israel de Seus dias (Mt
23:1-36). A hipocrisia da mornidão é equivalente à manifestação externa do
autoengano característico dos laodicenses. Ela se manifesta quando o cris-
tão morno está tão iludido e convencido de seu autoengano que pretende
ser capaz de enganar os outros, inclusive a Deus (cf. Os 11:12).
O pecado do farisaísmo é característica de Laodiceia, e isso a coloca
em relação antagônica com Jesus. Talvez por isso, Cristo seja retratado do
lado de fora, batendo à porta, com vistas a poder entrar no lar e no cora-
ção de Laodiceia (Ap 3:20).
Assim como o Senhor combateu os pecados farisaicos quando vi-
veu entre nós, Ele nos alerta contra esses mesmos erros, mas agora dis-
farçados dentro do próprio cristianismo. Isso revela a absoluta coerên-
cia e constância de Cristo em combater um problema, venha ele de onde
vier. A hipocrisia carrega em si a falsidade, a mentira e o que é enganoso
e enganador. Esse espírito jamais deve ser admitido entre os crentes,
pois em tese eles são os seguidores dAquele que foi o maior combatente
de todas essas realidades.

43
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Sequidão espiritual

A mornidão também evoca a imagem da sequidão, e essa é uma


imagem pesada demais quando comparada com a promessa de Cristo
de que “aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede;
pelo contrário, a água que Eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a
vida eterna” (Jo 4:14).
Os mornos têm negligenciado beber da água que Cristo oferece em
troca de beberem suas próprias águas de autossuficiência e autoengano
(cf. Is 4:1). Essa negligência é o segredo tenebroso de sua sequidão, ima-
gem esta que evoca também relações áridas e cheias de atrito, que não
fluem de forma positivamente cristã.
Cristãos secos estão esvaziados de uma espiritualidade mais fértil
e prazerosa, fazendo com que eles precisem rever sua experiência ao
lado do Salvador, que, através da repreensão, lhes chama a uma nova e
diversa condição.
O salmista Davi descreve a “sequidão de estio” (Sl 32:4) como a
imagem espiritual adequada para descrever aquele que cala seus pe-
cados e tem a mão de Deus pesada sobre si. Dessa forma, a referida
imagem é análoga à da mornidão e lida com aspectos de pecados não
confessados. Isso é muito adequado para descrever Laodiceia, uma vez
que se ela não está consciente de sua condição pecaminosa e de seus atos
de transgressão, ela não os irá confessar, como está implícito em Apoca-
lipse 3:17. Dessa forma, enquanto se ilude com sua justiça própria, ela
fica privada da experiência do perdão e da purificação prometidos aos

44
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

que confessam seus erros (1Jo 1:9), o que demonstra o grave perigo por
detrás de tal condição espiritual.

Coração dividido

A imagem de um coração dividido evoca um estado confuso e


complexo de coisas. Uma pessoa que quer, mas não quer, determinada
coisa. Imagine uma pessoa que quer, mas, ao mesmo tempo, não quer
uma profunda relação com Deus. Há aqui um elemento de instabilidade
muito complicado que poderia ser entendido mais ou menos assim: na
teoria, a pessoa deseja andar com Deus de forma intensa, profunda, sé-
ria, fiel e tudo o mais, mas, na prática, não quer pagar o preço para viver
tal relação ao lado do Senhor e termina revelando que, na verdade, ela
não quer aquilo que antes julgava querer.
A mornidão é um estado aparentemente parecido com isso, com o
agravante de que ao mesmo tempo que um cristão não deseja realmente
viver uma vida consagrada a Deus, ele se ilude de que está tudo bem,
pois ele, pelo menos, “gostaria” de conseguir viver uma vida dedicada
ao Criador. Isso o coloca acima dos demais homens e sua indisposição
prática é facilmente interpretada como natural em função dos limites
das capacidades humanas em se relacionar com Deus de forma perfeita.
Mesmo sendo correto dizer que uma vida perfeita esteja além da
condição humana neste mundo, o fato é que ninguém deveria usar esse
fato bíblico e incontestável para justificar uma vida menos fiel do que uma
pessoa deve ser capaz de levar pela graça de Cristo na presença do Eterno.

45
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

O quadro bíblico mais interessante e mais complicado em torno


dessa imagem é a experiência do homem de Romanos 7. Nesse texto,
que é um dos mais polêmicos de toda a revelação cristã, Paulo descreve
em primeira pessoa a experiência de alguém que quer fazer o bem, mas
faz o mal (Rm 7:21). Muitos estudiosos na história da interpretação do
Novo Testamento se debruçaram sobre esse texto a fim de identificar se
Paulo fala de si mesmo antes da conversão como judeu e vivendo debai-
xo da lei, ou depois da conversão como cristão, livre da lei.
Independentemente da resposta às polêmicas milenares em torno
do texto, o homem de Romanos 7 é alguém descrito como desejando fa-
zer o bem, mas não conseguindo e, dessa forma, fazendo o mal que não
desejaria fazer. Esse quadro não é sinônimo perfeito da mornidão acima
descrita como a condição de um coração dividido, conquanto restem
algumas semelhanças.
O morno de coração divido não quer realmente fazer o bem, ape-
nas se ilude de que gostaria de fazê-lo caso fosse mais fácil assim pro-
ceder e ele não tivesse que negar a si mesmo de forma tão radical. O
homem de Romanos 7 realmente deseja fazer o bem, mas encontra os li-
mites da natureza humana e de sua experiência neste mundo de pecado.
Se as imagens evocadas acima fossem perfeitamente sinônimas,
Paulo seria o “morno” por excelência seja em sua experiência pré ou
pós-conversão. Não sendo esse, porém, o caso, podemos concluir que
o morno tenta se utilizar da retórica de Romanos 7 como se o texto se
referisse a si mesmo, quando, na verdade, ele não se refere. O suposto
desejo de fazer o bem, no morno, é meramente ilusório e só sobrevive

46
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

até que a realidade lhe cobre atitudes contra os pecados que ele realmen-
te deseja viver e dos quais não deseja abrir mão.

Cristianismo casual

Longe de compreender, crer ou se comprometer com a mensagem


da salvação, Laodiceia manifesta desprezo pela verdade e representa
uma condição na qual se vive um cristianismo casual e de conveniência.
Estruturas familiares e sociais transformam milhares de pessoas des-
crentes e infiéis em “cristãos”, e, assim, a mornidão se alastra como fogo
em meio a uma montanha de palha seca. Muitos desses cristãos, porém,
recuariam com desprezo diante da mensagem bíblica caso a conhecessem
de verdade, e a rejeitariam por completo ao verem que ela não se harmo-
niza, nem de longe, com suas ideias pessoais e práticas corriqueiras.
Essa dimensão sociológica do problema da mornidão é uma das
mais difíceis de serem tratadas. A solução do problema, a meu ver, não
é expulsar da comunhão da igreja aqueles que ali estão mais por con-
venções familiares e sociais do que por qualquer outro motivo, sendo
pessoas geralmente apáticas e sem maior vida espiritual. Em vez disso,
o foco deveria ser tentar ajudar tais pessoas a entender o sentido das
crenças e práticas da igreja e sua relevância tanto a elas como pessoas
quanto a um mundo que perece no pecado.
O objetivo é fazer tais pessoas enxergarem a natureza da verdade
e da vida cristã de forma a que entendam o privilégio de conhecê-la
e poder pregá-la aos outros, superando assim essa mornidão de quem

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

trata a igreja como um clube de fim de semana, mais ou menos tão chato
quanto obrigatório que se frequenta por tradição e/ou conveniência.

Legalismo

A mornidão está, também, lado a lado com o legalismo. E essa


também é uma figura muito interessante. No contexto da mensagem
de Cristo à última igreja do Apocalipse, a manifestação do legalismo
nos conduz a vislumbres profundamente perturbadores da condição da
igreja cristã nos últimos dias da história terrestre.
O cúmulo da autoilusão é atingido quando uma pessoa ou igreja
coloca a si mesma como o padrão do que é correto e torna isso a “lei”
para julgar tudo e todos. Nesses casos, a Bíblia e sua noção particular
da natureza última da lei de Deus (cf. Rm 13:10, dentre outros textos) é
deixada de lado ou, no máximo, interpretada como convém aos donos
da verdade do momento, os laodicenses.
O legalismo é uma forma equivocada e pecaminosa de lidar com
os aspectos legais da revelação divina e ele pode ser fielmente retratado
como um câncer no corpo de Cristo. Uma doença que tem potencial de
matar ou, no mínimo, de fazer com que a trombeta soe a nota errada
(cf. 1Co 14:8). Nossa salvação é fruto da graça de Deus e é atingida pela
fé em Jesus Cristo, e não por obras da lei (cf. Rm 3:20, 27-28; Gl 2:16).
Portanto, suscitar o legalismo em qualquer dimensão ou direção é ir
contra a mensagem mais básica e fundamental da Palavra de Deus para
a salvação dos seres humanos.

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CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

Uma das ironias da relação entre mornidão e legalismo é que algu-


mas pessoas podem adentrar no legalismo supondo justamente ter en-
contrado a “cura” para a mornidão, mas, ao assim fazer, se tornam pre-
sas de uma das formas mais perversas dessa condição espiritual. Aquela
que faz uma pessoa se sentir segura em função de sua adesão à “lei”, ao
mesmo tempo que fatalmente a graça de Deus é retirada de sua devida
posição como única segurança real para qualquer pecador.

Dúvida

Os cristãos devem “se compadecer de alguns que ainda estão na


dúvida” (Jd 22) e devem lembrar que aquele que duvida é “semelhan-
te à onda do mar, impelida e agitada pelo vento” (Tg 1:6). Portanto,
não podemos conceber que os próprios cristãos sejam seres possuídos
dessas mesmas dúvidas contras as quais a Palavra nos adverte. Mas é
exatamente isso que a mornidão faz em seus hospedeiros. O cristão
morno consegue conhecer e crer na verdade, e ainda assim duvidar
dessa verdade quando ela confronta sua mornidão. Um exemplo po-
derá ilustrar esse fato.
Diante da exortação “sede fervorosos de espírito” (Rm 12:11), dois
grupos diferentes de cristãos mornos tentam interpretar essa exigência
de forma a acomodar sua própria realidade a essa exortação e hipoteti-
camente podem pensar coisas como: “Eu vou à igreja com regularidade,
não mato nem roubo e oro a Deus; portanto, sou fervoroso de espírito”;
ou: “Participo de cultos animados aos berros, gritos, louvores e manifes-

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

tação do dom de línguas, e existem muitos milagres do Senhor no meio


da minha comunidade cristã; portanto, sou fervoroso de espírito.”
Esses dois exemplos mostram um pouco da amplitude na qual a
mornidão pode se manifestar, pois em ambos os casos não há nessas
atitudes descritas indicação que garanta presença do “fervor de espírito”
na vida de tais adoradores. As únicas coisas garantidas que podemos
afirmar com certeza nesses dois exemplos são frequência a cultos dife-
rentes e uma mesma ilusão: ir a um culto me faz “fervoroso na fé”.
Existe pouco senso crítico sobre em que consiste o verdadeiro
fervor espiritual e como ele realmente se manifesta: primeiramente no
coração e depois externamente. E externamente não apenas dentro de
uma igreja de quatro paredes.
Caso uma pessoa “fervorosa” como as duas que ilustramos aqui
entrasse em contato com a Palavra de Deus e fosse confrontada com
o fato de que é possível fazer uma oração intensamente fervorosa que
não seja aos berros, ou que não basta não matar ou roubar para ser
fiel a Deus e fervoroso, e logo essas pessoas manifestariam descrença e
descontentamento com aquele que lhe ousasse perturbar sua paz com
esse tipo de questão.
A mornidão muitas vezes gera confusão religiosa, pois pressupõe
ser legitimamente cristão aquele que não passa de alguém morno em
sua relação com Deus e com as pessoas. Dessa forma fica cada vez mais
difícil (senão impossível) distinguir cristãos de não cristãos. Nos exem-
plos mais radicais desse problema, aparentemente é possível encontrar
mais fé e mais amor da parte de quem supostamente pouco ou nada

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CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

sabe de Jesus do que entre os que alardeiam ser seguidores do Mestre.


Essa é uma faceta do dilema religioso que desorienta muita gente que
está em busca da verdade.
A amplitude e profundidade das divisões entre os cristãos, soma-
das à realidade da mornidão em todas as comunidades de fé, torna a
busca pela igreja verdadeira, como a comunidade de fé e amor genuina-
mente bíblicos, uma tarefa que pode se revelar extremamente ingrata.
Especialmente diante dos erros que toda igreja tem, como instituição/
comunidade composta de seres humanos.
O medo e a dúvida se alastram de forma muito fácil diante desse
ambiente, e a tarefa de vencê-los pertence a todos os cristãos. A solução
não é manter a pretensão de saber tudo e não ter dúvidas a respeito de
nada, mas manter-se confiante nas verdades divinas conhecidas, ain-
da que muitos mistérios aguardem a eternidade para serem revelados.
Muitas dúvidas podem existir na mente de um verdadeiro cristão sobre
uma infinidade de questões secundárias em torno da fé, mas nenhuma
dúvida deve haver sobre as verdades fundamentais da revelação bíblica,
especialmente em torno do amor de Deus (1Jo 4:8) e da salvação unica-
mente pela graça de Jesus Cristo (Ef 2:8).

Irregeneração

O conceito de irregeneração, colocado em paralelo ao conceito


de mornidão, foi evocado por George Whitefield, teólogo e evangelista
calvinista. Em resumo, na mentalidade calvinista, a regeneração é uma

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

obra monergista, contendo todas as sementes daquilo que conduzirá


o eleito/predestinado à salvação. A ausência da regeneração é, então,
a ausência da própria salvação no contexto da eleição e da predesti-
nação. Whitefield, portanto, está repugnando a mornidão a ponto de
indicar que ela demonstra que o morno sequer passou pela fase inicial
da salvação, estando, de fato, perdido.
A única esperança para ele está na experiência dos frutos da
obra de regeneração subsequente a essa condição e que lhe dê a vitó-
ria sobre ela, demonstrando que tal pessoa foi, sim, eleita/predesti-
nada à salvação na eternidade passada.
Eu, particularmente, tenho muitas reservas quanto à soteriolo-
gia calvinista de forma geral e a esse conceito monergista de regene-
ração de forma específica. Creio, em resumo, que igualar a mornidão
com irregeneração com implicações de ausência da própria salvação
na experiência do morno é ir longe demais, além de carregar impli-
cações tenebrosas em diversas direções teológicas.
O morno no livro de Apocalipse se esfriou ou sequer se aqueceu
o suficiente, mas aparentemente não está numa condição de absoluta
morte/inabilidade espiritual e perdição irremediável. Além disso, a
própria repreensão de Cristo pela situação do morno demonstra que
é impossível que o problema se dê pela simples falta da regeneração
monergista, cuja culpa terminaria recaindo sobre o próprio Deus,
que, até aquele ponto, portanto, ainda não o havia regenerado.
Dessa forma, no paradigma calvinista, foi Deus que suposta-
mente não escolheu/predestinou a pessoa a ser salva, e, por isso, ela

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CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

não é regenerada. Então, qual o sentido de atribuir à mornidão a


culpa pelo estado de perdição na qual a pessoa se encontra e perma-
necerá até o fim?
Creio que esse quadro implicaria na falsidade de Deus, uma vez
que a razão da perdição da pessoa, nesse caso, estaria no fato de não
ter sido eleita por Deus para a salvação, nem Cristo derramado Seu
sangue por ela, e não no fato de ela ter manifestado mornidão na sua
relação com o Senhor.
O paradigma calvinista, portanto, não é correto nem suficiente
para esclarecer adequadamente o conceito de mornidão, mas a força
da negatividade da referida condição é bem explícita e demonstra a
repugnância que a condição daquele que “não é quente e nem frio”
traz à mente também dos cristãos calvinistas.

PECADOS DE OMISSÃO

A expressão “pecados de omissão” aqui denota problemas espiri-


tuais que representam em grande medida omissões em relação ao que é
correto e que fazem parte do amplo espectro de pecados condenados na
imagem da mornidão.
Cada problema descrito no que se segue representa pecados de
omissão na experiência religiosa e está conectado à ideia da mornidão.
Deixar de fazer o bem que se sabe que deve ser feito é descrito na Pala-
vra de Deus claramente como pecado (Tg 4:17).

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Seja como for, a imagem da omissão é muito ampla em potencial e


conduz alguns ao desânimo, uma vez que parece ser muito difícil fazer
tudo o que pretensamente se deveria fazer relativamente às questões es-
pirituais. Assim, as pessoas mais sensíveis a tais ideias se esforçam muito
para não se omitirem de seus deveres religiosos/espirituais, mas em geral
precisam terminar reconhecendo que se omitem e erram em muitos pon-
tos, sim (cf. Tg 3:2).
O autoengano da mornidão laodiceana é um elemento possivelmente
perturbador nesse contexto, que pode fazer com que uma pessoa não veja a
gravidade de seus pecados de omissão e se sinta justa apesar de negligenciar
muitos aspectos da revelação e da vontade de Deus na prática.

Indecisão

Toda e qualquer indecisão em direção à verdade e vontade de Deus é


uma forma de manifestar a mornidão do coração. A indecisão é associada,
na Palavra de Deus, à imaturidade (2Cr 13:7) e à covardia por conveniência
política, como no caso de Pilatos (Mt 27:11-26; Mc 15:1-15; Lc 23:1-5, 13-
25; Jo 18:33-19:16).
Ela ocorre quando um ser humano vacila entre o que ele sabe que de-
veria ser feito: amar, perdoar, se santificar, abandonar o pecado, julgar com
justiça, dentre outras coisas, mas por razões diversas como comodismo,
medo, incerteza, dúvida, falta de fé ou de amor, apego ao pecado, ele não faz.
Ao mesmo tempo, todavia, o morno não se coloca em guerra declara-
da e aberta contra aquilo que, em tese, ele sabe que deveria ser feito. A natu-

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CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

reza de sua indecisão não tem necessariamente que ver com a dúvida entre
o certo e o errado, mas com problemas diversos, como, por exemplo, os
temores paralisantes a respeito das consequências práticas do envolvimento
com o que é certo e/ou com o confronto com o que é errado.
Aqui há uma forte tendência à indolência e à ideia de que apesar de
o bem e o mal estarem claramente delineados em tantas questões diante
de si, uma adesão muito radical ao bem ou rejeição muito direta ao mal
não é uma atitude prudente, sábia ou equilibrada. Também as facetas ne-
gativas de uma tolerância “cristã” que avance para tolerar o pecado além
do pecador podem ter sua raiz no pecado da indecisão.
Estar indeciso em relação às questões espirituais também pode
representar um grande perigo diante das oportunidades divinas em
termos de salvação. O eunuco etíope, em contato com Filipe, não res-
pondeu de forma indecisa ao anúncio de Jesus Cristo e perguntou pelo
batismo, sendo em seguida batizado (At 8:26-38). Saulo de Tarso preci-
sou ser confrontado com a necessidade de decisão a fim de ser batizado
e ter seus pecados lavados, invocando o nome de Jesus (At 22:12-16), ao
que ele prontamente obedeceu (At 9:18; cf. 26:19).
A indecisão poderia tê-los feito deixar de aproveitar o dia da visita-
ção divina (Lc 19:41-44) e o próprio dia da salvação, chamado hoje (Hb
4:6-7). Por isso, o perigo por detrás de uma postura morna/indecisa no
início da caminhada cristã. Mas não se engane e saiba que o mesmo peri-
go espreita aqueles que já deram os primeiros passos no caminho da sal-
vação, mas ainda podem cair da fé e da graça em contextos de indecisões
pecaminosas na direção de se fazer o que é correto (Hb 6:4-8; 10:26-31).

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Apatia

A apatia invadiu a espiritualidade de muitos, e tais cristãos são


um testemunho tenebroso para os incrédulos, passando a impres-
são de que, no fim das contas, a religião cristã realmente não pas-
sa de uma “fábula engenhosamente inventada” (2Pe 1:16). A única
ressalva que esses incrédulos fazem é do adjetivo “engenhoso”, nes-
se contexto.
Pouco antes da volta de Jesus é o momento em que o mundo
precisa dos mais fortes e decisivos exemplos de fé e amor dentro da
comunidade que leva o nome de Cristo. No entanto, ao contrário,
vemos uma disseminação de um estado estranho de coisas, onde
o bem é cada vez mais escasso e surpreendente e o mal é cada vez
mais normal e comum.
A apatia tem sido a regra entre almas cansadas, que já não su-
portam mais a tensão de reagirem proporcionalmente aos desafios
da realidade e, agora, se contentam com uma disposição indiferen-
te sobre os rumos das coisas na igreja e no mundo.
A obra da salvação e a obra do pecado dentro da igreja dei-
xam de ser experimentadas e avaliadas com alegria e indignação
proporcionais e passam a ser enfrentadas cada vez mais com um
movimento de ombros do tipo: do que importa? A apatia é uma das
maldições do pecado, das quais Deus promete nos livrar por toda a
eternidade no Seu Reino (cf. Is 49:10).

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CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

Inércia na direção errada

O morno é também aquele que tem dificuldade de mudar os ru-


mos errados de sua caminhada espiritual. Ele age dessa forma, pois
aparentemente não entendeu, não creu, nem experimentou as reali-
dades mais intensas da vida cristã de forma mais séria e profunda,
apegando-se a vícios e problemas difíceis de se vencer.
Portanto, um cristão morno é alguém que sucumbiu ao cres-
cimento espiritual e, apesar de não ver isso, está temporariamente
destituído de uma fé genuína. Nessa situação, ele é alguém que não
pode agradar a Deus (Hb 11:6) e que, por isso, causa náuseas no
Senhor. Estar inerte nessa direção é o que há de mais perigoso para
a vida espiritual.
O cristianismo é a religião que entende que “um morreu por to-
dos, logo todos morreram” (2Co 5:14). Isso significa que aqueles que
vivem não devem “viver para si” (v. 15), antes devem experimentar o
que significa “não mais viver”, mas ter Cristo vivendo em si através da
fé (Gl 2:20). Isso implica em mudança de vida. Não pode haver inércia
na direção do erro.
A filosofia do tipo “deixa a vida me levar” é absolutamente ina-
dequada ao cristão, que deve lutar sábia e ativamente contra tendên-
cias e correntes de pensamento no mundo e na igreja que representem
enganos e heresias (Ef 4:11-14). Uma postura de inércia nas questões
espirituais é uma postura, no mínimo, inadequada.

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Indiferença ao pecado

Uma condição espiritual de torpor acaba por fazer com que alguém
se torne indiferente ao pecado, à enormidade de seu caráter ofensivo a
Deus e à vida humana. A doutrina do pecado é uma das verdades funda-
mentais da Bíblia, aquela que explica a ampla quantidade de mal que ve-
mos no mundo de forma geral e na humanidade de forma específica. Os
cristãos que prezam pelas Escrituras mantêm que o pecado é uma condi-
ção humana herdada em função da queda (Rm 5:12, 19), bem como uma
disposição de mente e coração para escolher o mal em termos de decisões
deliberadas de transgressão da lei de Deus (Is 65:12; cf. 1Jo 3:4).
O quadro que surge a partir da argumentação acima não é posi-
tivo para nenhuma pessoa, e todos precisam reconhecer que pecaram
(Rm 3:23) e ainda pecam (Ec 7:20). O peso espiritual de tais sentenças é
esmagador e faz com que o homem entenda sua necessidade de reden-
ção, perdão, restauração e libertação definitiva do pecado. Diante dessa
perspectiva, torna-se mais fácil entendermos por que uma experiência
de indiferença em relação ao pecado é algo tão tóxico e perigoso, pois
fecha os olhos das pessoas à sua real condição de pecadores.
Quem se torna indiferente diante do mal que existe em si mesmo
e nos outros já não pode sentir a urgência de ser transformado para sua
própria salvação nem de trabalhar pela salvação do outro.
A mornidão é a encarnação de um processo de infidelidade para
com Deus que se manifesta em uma crescente indiferença. Ninguém se
torna cristão com o objetivo de ser infiel. Diante da pregação da Pala-

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CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

vra da vida eterna (Jo 6:68), o coração se aquece e comove (cf. Lc 24:32).
Os mornos, todavia, se permitiram esfriar, e o desenvolvimento de sua
fé não foi acompanhado de um crescente interesse, zelo ou amor, mas de
uma triste indiferença cínica cada vez mais ampla. E quando tal condição
atinge a alma humana, tal pessoa se encontra no terreno mais perigoso
em que alguém poderia se encontrar, um lugar onde a verdade de Deus é
desconsiderada para todos os fins práticos e relevantes para os quais ela
foi dada em primeira instância. Temos um cristão ateu na prática.
A mornidão mostra todo o seu potencial destruidor quando con-
segue manter um cristão no nível de cegueira e infidelidade demonstra-
das até aqui, e ainda consegue fazê-lo se sentir seguro consigo mesmo.
Só o Senhor nos faz repousar seguros (Sl 4:8) em todo e qualquer senti-
do. Não podemos confiar na carne (Fp 3:3), mas devemos ter segurança
no Senhor, em quem Ele é e no que Ele fez, faz e fará por nós, e nunca
em nós mesmos. A atitude básica que caracteriza Laodiceia é uma atitu-
de perversa de autoengano na direção de uma indiferença ao pecado, e
todos devem estar precavidos contra tal atitude.

Frígida despreocupação

O tempo em que vivemos é cada vez mais caracterizado por uma


frígida despreocupação, ou seja, uma futilidade da parte de muitas pes-
soas de forma geral.
Mesmo os fascinantes avanços científicos e tecnológicos e a ebu-
lição das relações sociais, políticas, econômicas e espirituais não têm

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

sido suficientes para tornar a maioria das pessoas mais engajadas com
as questões cruciais para a humanidade. Um bando de zumbis viciados
em redes sociais e futilidades é uma realidade atual.
Muitos cristãos, por sua vez, seguindo esse mesmo estado de coi-
sas, vivem como se este mundo fosse oferecer muitos e muitos anos, e
décadas, e séculos de paz e segurança (cf. 1Ts 5:3). Essa é sua filosofia
prática, ainda que muitos deles admitam que as Escrituras e a realidade
apontem para possibilidades bastante diferentes disso.
Essa despreocupação é frígida, fútil, inadequada, ilusória, mas apa-
rentemente Laodiceia não se envergonha diante dos quadros mais nega-
tivos de sua própria ilusão. Ela prefere viver como se tudo fosse perma-
necer como está por muito tempo e não está disposta a vigiar de forma
mais séria diante da situação do mundo e de si mesma como igreja.
Além disso, essa despreocupação é vista sempre que a igreja mani-
festa disposição unicamente de entreter a si mesma, em vez de servir e
advertir o mundo do que virá. É como se os cristãos não mais tivessem
uma mensagem urgente a pregar e pudessem se dar ao luxo de se fechar
em torno de si mesmos despreocupadamente.

Complacência

A complacência com uma religião meramente formal e vazia não


experimenta a manifestação viva e orgânica do corpo de Cristo que se
une em oração, adoração, aprendizado, prática e proclamação da Pala-
vra de forma espontânea, honesta e profunda, sempre mais e mais.

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CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

Alguns membros da igreja parecem não querer pensar, muito


menos desejam ser confrontados com a realidade da maldade essen-
cial por detrás de sua atitude morna para com Deus e com seus seme-
lhantes. Tais pessoas frequentemente se tornam cada vez mais indife-
rentes a qualquer movimento, seja ele humano ou divino, que tenha o
objetivo de abalar suas seguranças e convicções mornas e substituí-las
pelo arrependimento e fé genuína no Salvador, com todas as implica-
ções que isso carrega.
Nada parece ser capaz de substituir o torpor que toma conta da
situação espiritual de tais pessoas, com o qual elas são coniventes por
alguma razão estranha.

Falta de entusiasmo

Quando a minha religião não faz muito sentido para mim mesmo,
então não há espaço para o verdadeiro entusiasmo na caminhada e na
pregação da fé.
Não adiantaria tentar tornar o culto um local de grandes doses de
“ginástica espiritual” com cavalares injeções de autoajuda para animar
uma congregação a crer naquilo em que ela não crê e a fazer algo que ela
não está comprometida em fazer.
Existem dúvidas sobre qual é realmente o conteúdo da fé cristã, e
sobre as formas legítimas de manifestar essa fé, e enquanto Laodiceia
não encarar essa realidade e buscar na Palavra de Deus as respostas, sua
mornidão será incurável.

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

O cristianismo de muitas pessoas está como que espiritualmente en-


velhecido e não se anima ou se alegra à medida que a igreja avança. Isso
acaba sendo uma influência negativa sobre aqueles que são mais novos na
comunidade, uma vez que, na prática, se espera que o entusiasmo natural e
inicial na caminhada com Cristo seja inevitavelmente substituído em breve
por uma situação idêntica a desses cristãos experimentados na mornidão.

Hesitação

Os mornos hesitam em sua espiritualidade, testemunho, envolvimen-


to missionário e compreensão de seu papel no corpo de Cristo e na socieda-
de de forma mais ampla. Dessa forma eles tropeçam e fazem tropeçar aque-
les que estão no início de sua caminhada de fé e dão aos novos conversos a
impressão de que ser cristão é algo que ninguém deveria desejar ser.
Os resultados de uma religião hesitante, sem foco e sem brilho nos
olhos se expressam na realidade de comunidades inteiras em falta de envol-
vimento e serviço social e missionário. Cristãos hesitam em avançar como
que temendo não ser o tempo em que vivemos tão sério e de responsabi-
lidades tão solenes quanto ao testemunho da breve vinda de Jesus Cristo.

Negligência

A negligência diante de sua própria eleição para o serviço ou para a


salvação (2Cr 29:11; cf. Mt 25:14-30; 1Tm 4:14) tem por raiz a negligência
no ouvir e no praticar a Palavra de Deus de forma vibrante e honesta (cf.

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CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

Tg 1:25). E aqui está a razão pela qual a mornidão é algo tão detestável,
pois revela uma infidelidade fundamental na vida de alguém que diz crer
e praticar aquilo em que ele não crê e aquilo que ele não pratica.
Esse também é exatamente o mesmo caso daquele cristão que está
inerte, ou seja, estagnado, em sua relação com Deus e com a obra que
Deus lhe concedeu. Só está parado em sua relação com as coisas ce-
lestiais quem aparentemente está satisfeito com aquilo que conseguiu
absorver e agora simplesmente não está em busca de mais de Deus. É
fato que aparentemente uma vida espiritual “quente” é algo muito exi-
gente em termos de fé, amor, obras, obediência, santidade e santificação,
dentre mil outras coisas. Mas o que se pede do cristão nesses quesitos
é que ele sempre busque avançar dentro de suas capacidades e não que
seja absolutamente perfeito em absolutamente tudo caso deseje evitar o
estigma da mornidão.
O peso da busca pela fidelidade, especialmente diante dos constan-
tes fracassos, gera desânimo na vida de muitas pessoas, especialmente
aquelas que mantêm fantasias sobre a sua capacidade de atingir alguma
espécie de perfeição. Mas não precisa ser assim. O que importa é ter a
consciência de fazer o seu melhor sob o padrão da Palavra de Deus e
não do seu próprio.
Laodiceia é repreendida por pensar o melhor de si mesma sem
prestar atenção às condições que Deus pede a partir da Palavra em sua
direção. Portanto, ao fazermos o nosso melhor, devemos sempre sub-
metê-lo e avaliá-lo sob o fundamento da revelação e não sob o funda-
mento do “acho que está ótimo e Deus deve estar orgulhoso de mim!”.

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Não deve haver espaço para a negligência das maiores alturas a


quem podemos atingir na vida de um cristão, nem ilusões quanto a nos-
sas capacidades. O que deve existir é um crescimento do amor e da fé,
mesmo em meio às muitas tribulações, tudo na perspectiva da manifes-
tação cada vez mais próxima do Reino de Deus.

Covardia

A mornidão envolve também a covardia daqueles que têm medo


de mudar, ao mesmo tempo que necessitam desesperadamente de mu-
dança. Os confortos e seguranças da condição presente lhes parecem in-
finitamente superiores ao exame do seu próprio coração que lhes reve-
lará ali dentro toda sorte de hipocrisias e pecados em função dos quais
eles precisarão mudar.
Encarar com seriedade esse estado de coisas conduzirá alguns
dos laodicenses a perceber sua necessidade urgente de abandonar
todo tipo de mal acariciado. Mas é importante enfatizar que admitir
o próprio pecado e se submeter ao Senhor Jesus é uma atitude muito
difícil para as pessoas que se sentem salvas e em paz com o céu em
meio à própria infidelidade laodiceana (cf. Mt 7:22-23). Sua conversão
genuína às vezes é mais difícil do que a das pessoas sem esperança e
sem Deus no mundo (cf. Ef 2:12).
O enfrentamento da mornidão é uma tarefa penosa. Buscar fazer
o levantamento e balanço do problema, apontar raízes e razões, deli-
near formas de confronto e superação da condição tão ruim quanto

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CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

perigosa exige a coragem de mexer com algo que, de certa forma, se


for deixado como está, pode passar a impressão de ser uma dificulda-
de menor do que de fato é.
A Bíblia definitivamente não tem os “covardes” em alta conta (Ap
21:8) e aponta o destino deles como a perdição em caso de não arrepen-
dimento e mudança de postura. Os cristãos precisam estar conscientes
das implicações negativas de sua vida de fé neste mundo, uma vez que
perseguições e tribulações devem ser esperadas na experiência de todos
(Mt 5:10; 2Tm 3:12; cf. At 14:22). Se formos covardes diante de tais pers-
pectivas, certamente falharemos em passar por elas com a perseverança
e resignação necessárias para os momentos difíceis.

PECADOS DE REBELIÃO

A expressão “pecados de rebelião” aqui denota problemas espi-


rituais que representam os chamados pecados “de mão levantada” e
que fazem parte do amplo espectro de pecados condenados na ima-
gem da mornidão.
Cada problema descrito no que se segue representa uma condi-
ção pecaminosa que se manifesta na experiência religiosa e implica
em grave infidelidade a Deus. O fato de que Laodiceia aparentemente
não consiga discernir sua vergonhosa infidelidade a Deus nem mes-
mo nesse tipo de situação é testemunha da gravidade da sua situação
diante do Senhor.

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Mundanismo

Nenhum amor ao mundo, ou mundanismo (1Jo 2:15), pode ser


tolerado ou justificado em nome da verdadeira fé. Todavia, mera crença,
pertencimento religioso ou aparência de piedade não são salvaguardas
contra as inúmeras formas em que o mundanismo pode se manifestar.
O amor ao mundo certamente obstrui a presença do amor do Pai e
deve ser cortado da alma, ainda que esse seja um processo relativamente
penoso para o pecador. Contudo, nem sempre o mundanismo se mani-
festa como algo grosseiro, mas pode indicar um espírito sofisticado de
pecado que pode se manifestar mesmo em meios eclesiásticos e teológi-
cos aparentemente acima de qualquer suspeita.
O mundanismo é uma manifestação complexa e nem sempre fa-
cilmente detectada ou eliminada em cristãos profundamente iludidos
como os laodicenses. Pecados flagrantes são denominados atitudes
mundanas, mas quem disse que os pecados “cristãos” sejam menos
mundanos? Podemos nos congratular de não roubar, matar ou adul-
terar, “de fato”, mas, por vezes, cristãos mascaram suas frustrações pes-
soais, emocionais, psicológicas, sexuais, familiares e sociais com uma
capa de ortodoxia e zelo pela igreja a ser lançada como parâmetro de
julgamento condenatório contra cristãos em particular ou contra a pró-
pria comunidade de fé.
Nessa direção, a politicagem eclesiástica, bem como a irrespon-
sável condenação ao inferno, a crítica puramente maldosa, a malícia
contra o outro e a maledicência mentirosa se tornam pecados consagra-

66
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

dos e santificados por aqueles que estão indignados contra o “mundo”


e defendem a “igreja”. O paradoxo é que cristãos mornos podem ser
aparentemente zelosos e fervorosos pela suposta honra de Deus e da
igreja, atentando para a obra de condenar quase tudo e quase todos,
mas, ao mesmo tempo, reproduzindo posturas absolutamente munda-
nas como moralismo, suspeitas malignas, perseguição, falácias variadas
na tentativa de justificar suas visões teológicas particulares (nem todas
elas ortodoxas), mentira, dentre inúmeras outras manifestações.
Além de tudo, e para piorar a situação de uma vez por todas,
práticas não regulamentadas clara e diretamente na Bíblia em torno de
inúmeros tópicos da vida humana atual são inadvertidamente taxadas
de mundanas, colocando mais munição nas mãos dos justiceiros con-
tra os pecados que não constituem na quebra de nenhuma lei divina
(cf. Rm 4:15). Mas que ninguém se engane: naqueles que são conde-
nados em Apocalipse 3:15-16 essa disposição zelosa não passa de uma
manifestação rebuscada da mornidão de um coração mundano.
O mundanismo é extremamente perverso, mas nem sempre de
forma tão clara, e, por isso, muitos mundanos se passam por amigos
de Deus e servos de todos, até que suas intenções sejam questiona-
das ou desatendidas. Desse momento em diante, toda a maldade
do mundo se manifestará com reação aos que ousam discordar dos
“servos do Senhor”. Se tal estado de coisas persistir até o pecado
contra o Espírito Santo, o próprio Deus Se afastará definitivamente
de tais mundanos resistindo aos soberbos e dando graça somente
aos humildes (Tg 4:6; 1Pe 5:5).

67
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Carnalidade

Se o morno é um cristão carnal (cf. 1Co 3:1-3), pode-se entender que


ele está aquém de seu potencial espiritual e permanece necessitado de puri-
ficação dessa condição (cf. 2Co 7:1), que envolve, além de uma imaturidade
inicial, uma infidelidade terrivelmente perigosa (Gl 5:13, 19-21).
A carnalidade no cristão se refere à sua velha natureza, já subjuga-
da, mas ainda não plenamente erradicada (cf. Ef 4:22). Dessa forma, o
cristão deve estar em constante alerta contra o que é carnal, uma vez que
isso ainda contém ecos em sua própria natureza e pode voltar a seduzi-
-lo ao pecado, seja ele qual for. Todos os cristãos lutam com essa mesma
realidade, mas aparentemente o morno está numa condição especial de
vulnerabilidade em função de seu elevado juízo sobre si mesmo em face
de sua real condição.
Cristãos mornos e carnais são cristãos que dão vazão à carne em
inúmeros particulares, ao mesmo tempo que aparentemente não ima-
ginam que podem estar atraindo sobre si mesmos todo tipo de mal no
momento atual, e até mesmo a condenação definitiva ao final, em caso
de pecado contra o Espírito Santo no contexto da carnalidade.

Apostasia

A apostasia é, resumidamente, a atitude de quem se aparta do Se-


nhor, e a mornidão é uma forma especialmente cruel de se fazer isso. O
morno tem a autoilusão como característica básica de sua identidade e

68
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

percepção de mundo, e isso torna possível que uma pessoa apostatada


não se enxergue como tal, tornando a identificação e superação do grave
problema bem mais complicadas.
Cristãos de diferentes tradições religiosas discutem sobre a possibi-
lidade da apostasia da parte de pessoas salvas e sobre a capacidade de “re-
conversão” ou arrependimento do apostatado em inúmeros contextos.
Os textos e Hebreus 6:4-8 e 10:26-31 são chave nessa discussão e
tratam de pessoas que deixaram para trás seu compromisso inicial para
com a mensagem da salvação. O ponto central da experiência da apos-
tasia é recusar o perdão que Deus graciosamente ofereceu por meio de
Seu Filho.
Esse comportamento então leva à condenação de todos aqueles
que, na corte escatológica de Deus, forem revelados como tendo recu-
sado a oferta de misericórdia divina em contexto de apostasia, apesar
de sua fé inicial nos primeiros contatos com o evangelho.
A apostasia, dessa forma, é uma atitude de quem volta para trás,
que avalia a fidelidade ao seu compromisso cristão inicial como algo
que não merece seriedade e perseverança.
O perdão dos pecados, uma vez valorizado, deixa de ser atrativo
e a vida segue numa direção que antes era evitada. Tudo isso envolve
uma atmosfera morna na alma do apostatado, de forma que ele viva
espiritualmente anestesiado enquanto se afasta mais e mais do Se-
nhor. Se tal condição persistir até o ponto do pecado contra o Espírito
Santo, o apostatado terá perdido sua salvação e enfrentará o destino
dos perdidos.

69
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

MORNIDÃO COMO
CONDIÇÃO PECAMINOSA
E COMO INFIDELIDADE À LEI DE DEUS

Até aqui vimos que a imagem da mornidão implica em vários ti-


pos diferentes de pecado. Na próxima seção iremos resumir e arrematar
toda a ideia em torno de três questões abordadas resumidamente: mor-
nidão como condição pecaminosa, infidelidade à lei de Deus e incoe-
rência entre fé e obras.

Mornidão como
condição pecaminosa

A mornidão pode ser vista como uma caracterização profética ade-


quada de uma certa condição pecaminosa manifesta na igreja de Laodi-
ceia. Uma condição pecaminosa diz respeito não somente a atos isolados
de transgressão, mas a uma atmosfera de pecado que se manifesta de forma
geral também em negligências, omissões e situações de pecado estrutural.
Nesses casos, a discussão entre o nexo de culpa e a capacidade de supe-
ração completa da referida condição pecaminosa é bem mais complexa do
que no caso das transgressões. Parte disso será tratado na conclusão deste
livro. Mas por ora é importante identificar que a ideia é como se a mornidão,
antes de ser uma atitude dolosa da parte do cristão morno, fosse uma condi-
ção de existência herdada em todo o contexto de pecado do mundo desde a
queda de Adão até ele.

70
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

Assim, o morno talvez seria simplesmente alguém imperfeito em con-


textos de pecado, e conquanto alguns desses pecados sejam voluntários, ou-
tros parecem ser mais fundamentais e denotam defeitos da própria natureza
humana, caída e manchada. Seria, portanto, o morno meramente uma víti-
ma do pecado e não seu agente ativo?
A dura repreensão dirigida à igreja por causa de sua mornidão, nesse
contexto, chama a atenção para a importância da questão. Mesmo não sendo
acusada de idolatria ou de imoralidade, a igreja da Laodiceia recebe a mais
forte condenação de todas as sete igrejas do Apocalipse. Isso indica que além
de uma condição pecaminosa, a mornidão é também uma transgressão pela
qual a igreja de Laodiceia é culpada. Por isso, a seguir falaremos de mornidão
como sinônimo de infidelidade à lei de Deus.

Mornidão como infidelidade

O Catecismo de Westminster declara que a “mornidão é um dos pe-


cados proibidos no primeiro mandamento da lei de Deus”. E certamente o
juízo de Cristo contra tal condição aponta para o fato de que ela é perigo-
síssima e representa transgressão da vontade do Senhor.
Essa infidelidade dos laodicenses pode ser inferida a partir de per-
cepções diferentes a respeito de sua condição morna. A Palavra de Deus
declara que “há caminhos que ao homem parece direito, mas no fim
são caminhos de morte” (Pv 16:25), e o fato de que Laodiceia estava an-
dando por esse caminho é evidenciado por seu contentamento com sua
prosperidade material enquanto inconsciente de sua pobreza espiritual.

71
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Certamente Laodiceia não discernia o destino correspondente e inevitá-


vel à sua condição espiritual e julgava, ilusoriamente, estar em caminhos
que a conduziriam à vida eterna.
O pecado de Laodiceia vai além de não responder à graça de
Deus com o fervor espiritual ideal, mas indica que a infidelidade
transgressora da lei de Deus (cf. 1Jo 3:4) por parte de Laodiceia lan-
çava uma avalanche de dúvidas sobre o caráter de Deus, mal repre-
sentando o amor, a justiça, a verdade e a santidade de Deus perante
aqueles a quem ela deveria testemunhar do evangelho. E essa condi-
ção descreve com terrível realismo um pesado quadro de infidelida-
de contra o Senhor.
Arthur W. Pink descreve a condição infiel que se revela na mor-
nidão laodiceana dizendo que a igreja iludida

afirma ser divina enquanto ainda se inclina para tudo que é


terreno; carrega o nome de Cristo, mas mal representa a Ele e O
expõe a vergonha aberta. Muita religião, mas pouca vida. Muita
atividade, mas pouca vitalidade. Muitas coisas feitas, mas pou-
cas coisas realizadas. Muita pompa, mas pouco poder. Intensa
mundanidade e maldade coberta com pretensões humanitárias
e religiosas.

Lang, por sua vez, nos diz que igrejas que encarnam a condição
de Laodiceia são preguiçosas e corruptas. Já Stefanovic nos diz que a
mornidão de Laodiceia é a condição de indiferença e autossuficiência.

72
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

Todas essas imagens são descrições pesadas de uma condição de in-


fidelidade contra o Criador: mal representar a pessoa de Cristo é tomar
Seu nome em vão (Êx 20:7); falsidade, hipocrisia e mentira, condenadas
no nono mandamento (cf. Êx 20:16), são as realidades predominantes na
vida das pessoas que pretendem ter cidadania celestial ao mesmo tem-
po que se empenham apenas naquilo que é corretamente descrito como
“mundano proceder” (cf. 2 Co 10:2); expor o Filho de Deus à vergonha
e ao desprezo é o mesmo que crucificá-Lo para si mesmo (cf. Hb 6:6). E
tal abominação é conduzida e realizada de forma tão intensa e cruel pelos
cristãos mornos, como quanto por pecadores que pecam em meio a tem-
peraturas mais quentes (cf. Os 7:4-10).
A tentativa de encobrir uma vida de pecado através de pretensos
propósitos religiosos e humanitários representa também um engano es-
sencial e pretende que Deus seja passível de ser enganado pelo homem
(Mt 23:14; cf. Ez 8:5-12). A justificativa de que se teve disposição de fazer
a obra do Senhor e/ou “o que vale é a intenção” não melhora a situação
daqueles que são mornos, uma vez que em sua mornidão eles acabam fa-
zendo tal obra “relaxadamente”, sendo malditos por causa disso (Jr 48:10).
A única escapatória da condenação para os mornos laodicenses está
no arrependimento profundo e real conversão do coração em direção a
uma fidelidade verdadeira para com Deus, nosso Salvador e Senhor, nos
termos das soluções propostas pelo próprio Cristo em Apocalipse 3:18-
22, das quais falaremos mais detidamente adiante.
O destino que aguarda uma pessoa ou igreja que negligenciar o de-
ver de combater sua própria mornidão não poderia ser mais desastroso.

73
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Para os mornos que não se arrependem de sua condição, tal qual Cristo
lhes convida com urgência (Ap 3:19-20), resta apenas a expectação hor-
rível de juízo e fogo vingador que consumirá para sempre os adversários
do evangelho de Jesus Cristo (cf. Hb 10:27), não lhes deixando raiz nem
ramo (cf. Ml 4:1), restando serem vomitados da boca do Senhor.
Todos esses juízos são justos e implicam que a imagem da mornidão
significa pecado e culpa no sentido ativo de infidelidade voluntária à von-
tade do Criador do universo. Nesse sentido, a mornidão é passível de ser
vencida no caso de o morno atender aos apelos da Testemunha verdadeira
em Apocalipse 3:18.

Mornidão como
incoerência entre fé e obras

Morno é alguém em quem o amor esfriou (Mt 24:12), alguém que


ainda não permitiu que a graça de Deus realizasse plenamente seu intento
de produzir obras dignas de arrependimento (cf. Mt 3:8) e que, portanto,
necessita de arrependimento e de crer na Palavra do Senhor mais firme-
mente (Mc 1:15).
A dicotomia entre fé e obras, condenada de forma tão explícita na
Epístola de Tiago (2:14-26), é a verdadeira razão desse estado de morni-
dão que caracteriza a igreja de Laodiceia. Tudo gira em torno desse ponto.
Entender a mornidão de Laodiceia como uma referência à incoerên-
cia entre fé e obras nos garante vantagens significativas na compreensão
desse assunto. A primeira dessas vantagens é de que através da condena-

74
CONCEITOS PARALELOS, COMPLEMENTARES E SINÔNIMOS DE MORNIDÃO

ção do estado de mornidão Cristo condenou todos os pecados da igreja


de Laodiceia, não importando sob qual disfarce eles possam se manifestar.
Laodiceia foi abençoada com grande luz, e nada pode justificar sua
infidelidade para com essa luz. Pois se a luz dada a Laodiceia se tornar em
trevas, por causa de sua indiferença e desobediência, quão grandes trevas
serão! (Mt 6:23).
Portanto, a mornidão é um símbolo de tudo aquilo que pode represen-
tar incoerência com a verdade que Deus deu a conhecer para Sua igreja, a
mesma que Ele ordenou que fosse proclamada a todo o mundo (Mt 24:14; cf.
Ap 14:6-12) e que é poderosa para salvar as almas dos homens que crerem em
Jesus com fé viva e verdadeira (Tg 1:21; Jo 3:16).
Se temos falhado em manifestar a fé que temos de forma coerente
com seu caráter santíssimo (Jd 20-23), somos mornos. A fé cristã é distinta
de qualquer outra, e a manifestarmos ao mundo em amor é a única forma
de impedirmos que ela se torne inútil, sem valor e sem poder salvador para
conosco mesmo, ou para com um mundo que perece (Gl 5:6). Mas caso seja-
mos rebeldes e mantenhamos nossa mornidão obstinadamente, seremos vo-
mitados, pois para nada mais serviremos, como o sal que se tornou insípido
(Mt 5:13). Esse é o preço que a mornidão cobra de seus credores indiferentes.
Cristo, porém, não apresenta os mornos como estando em uma con-
dição desesperançada, da qual seria impossível escapar. O Senhor mesmo
apontou o caminho de volta dessa condição terrível, e o elemento central nes-
se caminho estreito é a fé verdadeira.
Nossa única esperança é confiar do poder da graça de Deus para nossa
salvação, e isso com “plena certeza de fé” (Hb 10:22), e com um coração

75
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

não dividido por causa de incredulidade em qualquer sentido, seguindo o


exemplo do patriarca Abraão (Rm 4:1-8, 19-25), que estabelece o contexto
para a identificação dos verdadeiros filhos de Deus no Novo Testamento
(Gl 3:6-14, 23-29).
No próximo capítulo, lidaremos especialmente com aquilo que parece
ser a antítese da mornidão, mas que pode, ao final, representar unicamente
uma outra forma de manifestar o problema espiritual em questão.

76
III

O Q U E N Ã O PA R E C E
S E R M O R N I D Ã O, M A S
FREQUENTEMENTE É
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Como já foi demonstrado até aqui, o conceito de mornidão abre


espaço para inúmeras aplicações diferentes entre si, mas que de alguma
forma podem ajudar a esclarecer questões importantes e específicas em
áreas distintas da espiritualidade ou da vida de cristãos individuais ou
de uma igreja em inúmeros sentidos. Tenho convicção de que a maioria
dos leitores deste livro provavelmente não tinha noção da riqueza de
conceitos e perspectivas bíblicas/espirituais que podem ser identificadas
a partir de uma simples palavra da Escritura.
Apesar de crer já ter conseguido demonstrar a enorme dimensão
que o estudo do nosso tema pode atingir, quero deixar claro que não
pretendo ter conseguido identificar ou aplicar o conceito de mornidão
de forma exaustiva, ou em todo o seu potencial, nem naquilo que já
escrevi nem naquilo que ainda escreverei naquilo que se segue. Desejo
simplesmente tornar explícitas aqui algumas possibilidades de aplicação
para serem tratadas com seriedade por parte daqueles que estão interes-
sados em identificar o tamanho potencial dessa imagem para desmas-
carar e condenar todos os pecados de todos os cristãos individuais ou
como grupos/igrejas em uma só palavra: mornidão.
A pluralidade de perspectivas que podem ser enxergadas a partir
do espectro da mornidão é ampla e rica na mesma medida e ao mes-
mo tempo que é potencialmente aterrorizante para qualquer cristão ou
igreja com consciência espiritual. Tais posturas identificadas na sessão
anterior do livro são tão comuns como difíceis de serem admitidas e
superadas em razão da profundidade do pecado que habita em nós e da
malignidade dos erros que são manifestam em nossos objetivos, pensa-

78
O que não parece ser mornidão, mas frequentemente é

mentos e ações. Identificar que o cristianismo está cheio de hipócritas é


fácil; ver-se como mais um deles é bem mais difícil.
O quadro é muito feio e humilhante para a natureza humana, a
tal ponto de terminar alimentando a mornidão, que aqui pode ser vista
também como uma espécie de racionalização da condição pecaminosa
de uma pessoa ou de uma igreja. O resultado é que acabamos masca-
rando a realidade e concluindo que as coisas não são tão ruins como
parecem ser, tudo de forma a minimizar a escuridão e o desespero que
fluem do tenebroso quadro pessoal ou eclesiástico.
Quanto mais uma pessoa ou uma igreja tenta negar a realidade de
que ela manifesta algum dos variados aspectos possíveis da realidade da
“mornidão” em sua experiência religiosa, mais terrível essa ideia parece
ser, uma vez que a negação é um ponto nevrálgico do problema especí-
fico ao qual estamos tratando.
Por outro lado, a simples admissão de ser morno em um ou mais
sentidos não é confortável para ninguém, pois é a afirmação de que es-
tamos numa condição na qual ninguém gostaria de se ver envolvido e
pela qual merecemos ser severamente repreendidos, senão condenados
eternamente. Não há saída fácil desse labirinto que nos conduz a reco-
nhecer os aspectos ruins de quem nós somos.
Antes, porém, de tratarmos de possíveis soluções para a condição da
mornidão, vamos nos aprofundar ainda mais no diagnóstico do problema
deixando explícitas algumas posturas que não são consideradas “mornas”
pela maioria dos cristãos, ao contrário, mas que podem esconder o vírus
desse complexo problema espiritual de forma especialmente perversa. Va-

79
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

mos tratar de atitudes que parecem não ser mornas, mas dependendo do
espírito em que são levadas a cabo, o são, definitivamente.

ENTUSIASMO LITÚRGICO

Wilkinson afirma que se o coração de um cristão for morno ele de-


monstrará isso na forma como ele cultua/adora a Deus de forma pública
e/ou em sua devoção particular.
Se utilizarmos esse mesmo princípio para avaliar a saúde de uma
igreja em sua adoração ao Senhor, poderemos concluir que uma condi-
ção de mornidão na disposição de adorar a Deus e/ou no envolvimento
com a pregação do evangelho ao mundo certamente se manifestará em
uma mornidão litúrgica correspondente.
Algumas igrejas cristãs inclusive exploraram a imagem da “morni-
dão litúrgica” com o objetivo de se diferenciarem de outras igrejas. Isso é
comum especialmente no pentecostalismo, que tenta se diferenciar nes-
se ponto dos demais ramos do cristianismo, tanto católico romano não
carismático como protestante tradicional. Alguma forma do conceito de
mornidão litúrgica, interpretado de forma a apoiar um carismatismo de
matizes avivadas/pentecostais, já foi usado extensivamente e continuará
sendo usado para atacar a liturgia de qualquer igreja que mantenha uma
adoração e um louvor a Deus de forma mais tradicional, em sentido geral.
Uma aplicação litúrgica para o problema da mornidão de Laodiceia,
entretanto, não é evidente no texto do Apocalipse, e as soluções para o

80
O que não parece ser mornidão, mas frequentemente é

problema, cogitadas nos conselhos de Cristo para a igreja de Laodiceia


(Ap 3:18), não evocam essa característica em especial. Assim, certamen-
te a pretensão de uma igreja em afirmar sua “não mornidão” através de
quaisquer de suas características litúrgicas avivadas oferece um quadro
evidente e exato do princípio fundamental do autoengano exposto na
profecia: “Pois dizes: sou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e
nem sabes que és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3:17).
Conquanto seja plenamente possível aceitar como verdade o princípio
de que uma mornidão de coração irá se manifestar em uma mornidão litúr-
gica na igreja composta de pessoas com esse perfil espiritual, é totalmente
inaceitável reduzir o conceito de mornidão a esse aspecto particular ou in-
terpretá-lo como o ponto mais importante da metáfora apocalíptica.
Seria, todavia, uma irresponsabilidade hermenêutica deixar de ava-
liar essa intrigante questão através exemplos bíblicos claros. A Palavra de
Deus revela o aborrecimento do Senhor com: aqueles que comparecem
perante Ele fazendo “ofertas vãs” ao mesmo tempo que “multiplicam ora-
ções” enquanto têm as mãos “cheias de sangue” (Is 1:12, 15); aqueles que
“entram pelas portas do templo para adorar a Deus” enquanto vivem uma
vida de infidelidade à lei do Senhor (Jr 7:2-14); aqueles que se reúnem em
“assembleias solenes” em nome de Deus e fazem ressoar melodias através
de um “canto estrepitoso”, mas manifestam a ausência da justiça que tra-
duz a vontade de Deus em suas vidas (Am 5:21-24); aqueles que têm “a
aliança de Deus sempre nos lábios e repetem os Seus preceitos” ao mesmo
tempo que rejeitam Sua disciplina prática (Sl 50:16-17). Tudo isso deixa
claro que um avivamento puramente litúrgico, no qual o entusiasmo é a

81
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

característica destacada, e cujo resultado seja uma igreja onde se manifes-


te um louvor mais animado ou maior número de orações e ofertas espiri-
tuais a Deus, não necessariamente resolve, nem de longe, o problema da
mornidão de Laodiceia.

ENVOLVIMENTO MISSIONÁRIO

Há uma percepção entre muitos cristãos de que o envolvimento


missionário traz fervor e convicção espiritual ímpares aos que se envol-
vem com a pregação do evangelho. Tal envolvimento seria, portanto,
preventivo do problema de Laodiceia e oposto à experiência da mor-
nidão. Entretanto, a imagem apocalíptica não parece ser direcionada
a essa questão. Não me parece impossível que “grandes missionários”
possam se tornar arrogantes, soberbos, altivos e desenvolver um espíri-
to de justiça própria muito adequados para serem descritos através do
conceito de mornidão.
É verdade que existem aqueles que concluem que através da ima-
gem da mornidão laodiceana Cristo está dizendo, por implicação, que a
água quente e a água fria são úteis, mas os mornos laodicenses são inú-
teis e não têm valor espiritual para a comunidade na qual eles vivem. Há
também quem afirme que a mornidão de Laodiceia deve ser vista como
a ineficácia do seu testemunho, ou que a tepidez da igreja de Laodiceia
não providenciava o calor da cura para os espiritualmente doentes, nem
providenciava alívio refrescante para os espiritualmente atribulados. Po-

82
O que não parece ser mornidão, mas frequentemente é

rém, mais uma vez é bom destacar que a inutilidade/ineficácia da obra


missionária dos cristãos laodicenses em sua comunidade não é, de forma
nenhuma, explícita no texto bíblico. Ou seja, nada sabemos a respeito de
uma suposta ineficácia missionária na igreja histórica de Laodiceia.
Interpretar a ineficiência no testemunho cristão de Laodiceia em ter-
mos mais amplos do que apenas na dimensão evangelística em específico
pode ser mais adequado e pode nos conduzir a vislumbrar uma situação
onde, talvez, mesmo envolvendo-se ativamente na pregação do evange-
lho, a igreja de Laodiceia não deixava de ser caracterizada pela mornidão.
Tal situação pode iluminar o significado de uma possível ineficá-
cia evangelística, uma vez que a mornidão pode significar que havia uma
apatia espiritual na igreja. Além disso, pode nos conduzir a entender que
essa apatia agia como uma forma de contrabalancear ou mesmo neutrali-
zar a obra evangelística que certamente era feita na comunidade, tornan-
do-se contraproducente.
É bem verdade que alguém, em tese, pode manifestar algum zelo no
esforço missionário, e ainda assim estar corrompido até mesmo em suas in-
tenções em evangelizar, sendo que nesse caso o ardor missionário termina
não tendo nenhum valor diante de Deus. Como, por exemplo, no caso do
amplo sistema de pregação desenvolvido por testemunhas de Jeová e mór-
mons, que se esforçam por espalhar heresias perigosas por essa via.
Assim, é plenamente possível uma igreja manifestar grande zelo
no esforço missionário, mas ainda estar tão envolvida em incoerências
e infidelidades que tais pecados acabam neutralizando a uma ação mais
poderosa de Deus em resposta a esses esforços. Isso acaba tornando a

83
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

experiência missionária zelosa dos laodicenses infrutífera e irrelevante


para a salvação efetiva de sua comunidade.
A salvação é uma realidade da graça de Deus que é apropriada e vi-
venciada pelo ser humano “mediante a fé” (Ef 2:8). Assim, uma igreja de-
sobediente/incoerente à sua própria fé, um quadro claro de mornidão, terá
graves dificuldades em ajudar uma comunidade ainda descrente a crer em
Cristo e a se relacionar corretamente com Deus para uma salvação através
da fé que se manifesta na obediência ao evangelho (Rm 1:5; Hb 11:6).
Ellen White, por exemplo, define a mornidão espiritual, dentre ou-
tras coisas, como “um espírito mundano, seguido por frieza recíproca,
acusações mútuas, maldades, contendas e iniquidade”. E, caso ela esteja
correta em sua visão, como creio que está, então é certo que tal atmosfera
espiritual desabona qualquer esforço evangelístico sério. Seria completa-
mente estranho que uma comunidade que estava entrando em contato
com o “evangelho” através de uma igreja que manifestava essa tenebrosa
condição de infidelidade, indiferença e autoengano em sua própria rela-
ção para com Deus e uns para com os outros, se tornasse uma comunida-
de “sadia na fé” (cf. Tt 1:13).
Portanto, antes de responder à grande comissão de pregar ao mundo
à altura (Mt 28:18-20) e resolver o problema de sua mornidão, entendi-
da como ineficácia missionária por alguns, Laodiceia precisava readqui-
rir uma noção adequada do evangelho em si. Corretamente entendido, o
evangelho é uma mensagem que desfaz completamente o autoengano da
pretensão à visão por parte daqueles que são espiritualmente cegos, e o faz
com o objetivo de que eles enxerguem a manifestação das obras de Deus

84
O que não parece ser mornidão, mas frequentemente é

(Jo 9:3, 39-41; Ap 3:17-18). Isso precisa ocorrer antes de eles poderem le-
var a mensagem de Cristo ao mundo com o poder que lhe é característico
e devido (cf. 1Ts 1:5).
Uma das imagens bíblicas mais tristes e revoltantes desse tipo de
espiritualidade morna e de seus frutos é a disposição missionária fari-
saica mencionada por Jesus. Segundo Ele, os fariseus rodeavam “o mar
e a terra” (um grande esforço missionário!) para fazer um prosélito, e,
uma vez feito, esse prosélito se tornava filho do inferno duas vezes mais
do que eles mesmos (Mt 23:15). A razão disso estava no fato de segui-
rem as doutrinas e tradições dos homens ao mesmo tempo que aban-
donavam a Palavra de Deus (Mt 15:3, 9) – e tudo isso sob a “aparência/
forma de piedade” (cf. 2Tm 3:5).
A mornidão, portanto, termina por ilustrar uma realidade espi-
ritual no relacionamento com Deus que vai muito além de uma sim-
ples ineficiência evangelística no testemunho cristão, entendido como o
convencimento da comunidade em que se vive de que o Cristo crucifi-
cado é o Salvador e Senhor de todos. É importante identificar também
que o envolvimento missionário por si mesmo não é garantia de que um
cristão ou uma igreja estão livres da condição que Cristo repreende tão
pesadamente na igreja de Laodiceia.
É verdade que a mornidão se refere a uma condição espiritual com-
plexa e ampla, que pode perfeitamente incluir a ineficácia do trabalho
missionário onde existe preguiça, letargia e desinteresse pela proclamação
do evangelho. Todavia, a mornidão também pode se manifestar na vida
de alguém que mantém uma iniciativa missionária “zelosa”, mas que é

85
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

um hipócrita e infiel externamente envolvido num esforço de pregação da


verdade que, ao final das contas, não se revela realmente comprometido
em viver essa mesma verdade de fato (cf. 1Jo 3:18). Além disso, o grande
esforço missionário para se pregar a heresia também cai sob a condenação
de Cristo como sendo morna, uma vez que o herege pretende estar pre-
gando a verdade, mas está enganando a si mesmo.

ZELO DOUTRINÁRIO

Há um intrigante paradoxo na igreja cristã na atualidade. Con-


vivemos lado a lado como igreja com uma erudição bíblica altamente
desenvolvida e com uma enorme quantidade de pessoas que se dizem
cristãs ao mesmo tempo que são biblicamente analfabetas. Esse, inclu-
sive, pode representar um amplo quadro de mornidão, especialmente
entre aqueles que acham que sabem mais do que todos os demais ou
entre aqueles que têm acesso ao conhecimento, mas se julgam satisfeitos
com o pouco que já sabem.
No contexto dessa discussão, é tentador que surja uma ideia se-
gundo a qual o zelo doutrinário e o aprofundamento teológico sejam
a antítese da mornidão. Um estudioso empenhado em cavar fundo nas
Escrituras em busca da verdade não é exatamente o quadro do membro
morno da última igreja do Apocalipse, não é mesmo? Proponho que as
aparências podem enganar.

86
O que não parece ser mornidão, mas frequentemente é

Ainda que eu creia ser correta a conclusão de que um contato vivo


com Deus por meio das Escrituras seja poderoso antídoto contra a mor-
nidão, é interessante perceber as várias polêmicas presentes na Palavra de
Deus contra pessoas que eram profundas estudiosas da Revelação.
Salomão, conhecido como o homem mais sábio que já existiu, pediu
conhecimento a Deus, e o Senhor o concedeu, mas ainda assim isso não
impediu o rei de ser infiel, sendo severamente criticado por isso no regis-
tro sagrado (2Cr 1:10-12; cf. 1Rs 11:1-10). Os sacerdotes da antiga aliança,
aqueles que estudavam as leis bíblicas e administravam o culto do Senhor
de acordo com elas, foram repreendidos por não darem honra ao nome
de Deus em seu coração (Ml 2:1-2). Nicodemos era “mestre em Israel”,
mas, na perspectiva de Jesus, não sabia coisas básicas na experiência do
Reino de Deus (Jo 3:10). Além disso, os ais de Jesus contra os escribas e
fariseus (cf. Mt 5:20; 7:29; 23:2-33; 27:41-42) demonstram que um mero
zelo pela doutrina não garante vitória sobre a mornidão, especialmente
em contextos onde a perícia teórica supera o desejo prático de viver de
acordo com a vontade revelada de Deus (cf. Jo 7:17).
O mero entendimento ou estudo formal das questões bíblicas em
termos linguísticos, contextuais, históricos ou doutrinários não colocam
nenhuma alma absolutamente a salvo de perigos ou doenças espirituais.
Supor isso seria de uma ingenuidade ímpar diante do fato de que o pró-
prio inimigo de Deus e da verdade é suficientemente ousado para inter-
pretar e aplicar a revelação também para seus propósitos tentadores e te-
nebrosos (Gn 3:1-5; Mt 4:6).

87
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Portanto, a teologia em si mesma não pode ser a resposta defi-


nitiva ao problema que estamos tratando aqui, e certamente é possí-
vel que muitos teólogos amadores ou mesmo profissionais deixem de
manter relacionamento íntimo com Deus apesar de sua perícia nessa
área do conhecimento.
Uma questão interessante que surge nesse contexto tem que ver
com a experiência daquele que viria a ser conhecido como Paulo, o
apóstolo. Saulo de Tarso, segundo as palavras registradas por Lucas, se
identifica como zeloso para com Deus desde os dias de seu farisaísmo
(At 22:3). Escrevendo aos gálatas, o pregador dos gentios se identifica
como alguém que era “extremamente zeloso das tradições de meus pais”
(Gl 1:14). Tais identificações colocam a ânsia perseguidora e condenató-
ria de Saulo em relevo diante do estudo do tema da mornidão.
Paulo era um fanático religioso, perseguindo os discípulos de Cris-
to até o ponto de ser identificado como quem perseguia o próprio Se-
nhor (At 9:3-5). Isso indica que todo o conhecimento doutrinário e zelo
religioso que ele tinha não o colocaram numa condição espiritual tal
onde ele fosse capaz de perceber as coisas de forma mais clara e acura-
da. Ele estava gravemente enganado em relação a uma ampla gama de
questões essenciais, e somente um milagre da graça e do poder de Deus
pôde tirar as escamas de seus olhos, espiritual e literalmente.
Há em Israel a chamada “tradição do zelo”, que remonta até Fineias
e sua história relatada em Números 25. O servo de Deus, naquele con-
texto, matou o pecador incorrigível que simbolizava a descarada infide-
lidade do povo. Aquilo fez cessar uma praga de sobre a nação escolhida.

88
O que não parece ser mornidão, mas frequentemente é

Paulo provavelmente se identificava com essa tradição e justificava suas


ações violentas e sangrentas em torno da necessidade de preservar as
tradições dos fariseus contra todas as ameaças, mesmo que isso envol-
vesse a necessidade de medidas drásticas.
O zelo doutrinário em torno de uma tradição específica, aliado a
exemplos da história sagrada, é extremamente perigoso naquilo em que
pode se materializar numa espécie de “mornidão” incapaz de fazer juí-
zos espirituais saudáveis e corretos diante da atuação livre do Espírito
de Deus em direções além daquelas consideras “ortodoxas” pelo grupo
religioso ao qual se pertence. Essa realidade transformou o campo da
doutrina bíblica em um palco de inúmeras “batalhas sangrentas”, em
sentido figurado ou não.
Toda a história cristã está cheia de exemplos em que discussões re-
ligiosas, geralmente mescladas com interesses econômicos e políticos, se
materializaram em retratos horríveis de nossa pecaminosidade perversa.
Em nome de conceitos como “ortodoxia”, “santidade” e “verdade”, dentre
outros, muitos cristãos se demonstram dispostos a manifestar um espírito
de odioso combate mútuo a graus que podem atingir o ponto de inquisi-
ções, cruzadas, genocídios, perseguições e massacres.
A manifestação mais comum dessa realidade, porém, se dá em termos
mais acadêmicos ou teóricos cujas implicações práticas são menos eviden-
tes, mas não menos reais. Esse espírito ronda a igreja cristã como um leão
procurando a quem devorar e é perceptível em função da profunda ani-
mosidade que existe entre tradições cristãs diferentes, mesmo em questões
secundárias e irrelevantes para a doutrina ou experiência da salvação.

89
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Essa situação não é simples de ser superada. A verdade é que as


inúmeras e profundas discordâncias doutrinárias entre as tradições e
denominações religiosas têm implicações para sua própria existência,
autoconsciência e missão. Assim, é absolutamente natural e até mesmo
saudável que exista amplo espaço para todo tipo de discordância e dis-
cussão de ideias entre os cristãos de linhas teológicas diferentes.
O que é inadmissível, entretanto, é a essencial falta de amor pelo
outro em qualquer nível ou sentido por causa das diferenças de mera
percepção e opinião teológica. Quando nossas diferenças religiosas
fazem com que nosso amor ao próximo definhe e/ou morra, nos tor-
namos fanáticos religiosos que rejeitam o mais importante que Cristo
ensinou (cf. Mt 22:34-40) em nome daquilo que nós julgamos mais im-
portante: preservar nossa “ortodoxia”, “santidade” e “verdade” de acordo
com nossa tradição/denominação religiosa. A mornidão, nesses casos, é
tão flagrante quanto nauseante.

PERFECCIONISMO
RADICAL EM DIREÇÃO
A UMA SUPOSTA SANTIFICAÇÃO

Dada a íntima relação do conceito de mornidão com inúmeras formas


e manifestações daquilo que é descrito biblicamente como “pecado”, alguns
cristãos só conseguem ver uma solução para esse problema: a própria per-
feição como resultado da experiência da santificação. Entendida em moldes

90
O que não parece ser mornidão, mas frequentemente é

de uma superação da condição pecaminosa e da prática voluntária de qual-


quer transgressão da vontade revelada de Deus.
A ideia é que devemos manter uma fidelidade radical, no sentido po-
sitivo do termo, a tudo aquilo que Deus nos pede em Sua Palavra e não po-
demos nos deixar esmorecer por quaisquer dificuldades teóricas ou práticas
em torno do ideal. Dessa maneira, quem chegar a viver nesse estado per-
feito de consciência e fidelidade jamais poderá ser acusado de mornidão.
Além de se preocuparem em ser fiéis à Palavra de Deus, frequente-
mente esses cristãos avançam em seu entendimento da “revelação” para
legislar ou admitir legislações sobre áreas mais cinzentas da vida humana.
Com isso, acabam admitindo que a perfeição precisa incluir a adesão a
restrições a serem implementadas em relação à sua alimentação, entreteni-
mento, forma de se vestir e de todas as questões da vida, desde que tais res-
trições ascéticas sejam revestidas de ares de espiritualidade e consagração.
A falta de instruções bíblicas específicas em torno dos muitos regu-
lamentos que surgem nesse contexto geralmente é encarada com indife-
rença. A ideia é que seja “óbvio” que a Bíblia nos dá princípios gerais e que
cabe a nós, ou a alguns membros iluminados dentro da igreja, traduzir
esses princípios gerais em limites bem específicos e a obediência diante
dos regulamentos que surgem a partir desse contexto que supostamente
são extremamente importantes para a espiritualidade em direção à vitória
contra o pecado.
Está armado o palco para a manifestação de todo tipo de restrição
ao que é “mundano” e “pecaminoso”, restando diante dos cristãos verda-
deiros somente o que é santo, puro, bom, digno – em resumo, perfeito.

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

A adesão a essa mentalidade, em teoria, e a todas as regras que dela


surjam na prática supostamente concederá ao crente obediente uma
vida espiritual tão pulsante que a mornidão jamais conseguiria se mani-
festar, dado o grau de excelência e consagração possível de ser atingida
da parte de quem segue esse caminho. Tanto quanto mais fanático for,
mais certa é a vitória final.
Todas as exortações bíblicas à perfeição no Antigo e no Novo Tes-
tamento (cf. Gn 17:1; Mt 5:48), aliadas às perspectivas de “vitória contra
o pecado” (cf. Êx 20:20; Jo 8:11), se tornam veículos da mensagem que
designarei aqui como “perfeccionismo fanático”. As boas intenções pa-
recem evidentes e cristalinas, e o fracasso dessas pessoas em cumprir
os objetivos delineados no curso de seu pensamento e ação se tornam
especialmente tristes diante da dignidade de sua busca, mas as razões
disso não são tão difíceis de ser explicadas ou entendidas.
A própria Bíblia, que chama os crentes à perfeição e à vitória con-
tra o pecado, pressupõe e estabelece a imperfeição da condição pecami-
nosa sobre todos os seres humanos, sem exceção na história da huma-
nidade, a não ser uma, Jesus Cristo (Ec 7:20; Rm 3:23; 5:12; 1Jo 1:8-10;
cf. Hb 4:15). Tal fato nos coloca diante de algumas complexidades? Sim,
mas elas são facilmente compreendidas a partir das perspectivas bíblicas
mais amplas em torno da questão.
A condição pecaminosa de quem é chamado para vencer o pecado
indica que há pelo menos dois sentidos diferentes quando falamos da
experiência humana em relação ao pecado. Em um sentido o pecado
é uma condição da natureza humana, inescapável enquanto a natureza

92
O que não parece ser mornidão, mas frequentemente é

humana for como é, não importa o esforço que o pecador possa fazer na
direção da superação desse problema essencial (cf. Rm 7:21).
Por outro lado, o pecado também é descrito como transgressão, o
que indica uma ação deliberada pela qual o pecador pode ser responsa-
bilizado. E tais características fazem com o que pecado seja visto como
superável, uma vez que ação deliberada e responsabilização pressupõem
liberdade de escolha. E se há a liberdade de pecar, é necessário que exis-
ta a liberdade de não pecar, caso se recuse em se transgredir deliberada-
mente a lei/vontade de Deus (cf. Sl 119:11).
No paradigma bíblico, há espaço para se falar em vitória sobre o
pecado (cf. 1Jo 3:6, 9), mas somente naquilo que o termo se restrinja à
dimensão do conceito referente meramente às escolhas deliberadas de
transgressão da parte dos seres humanos (Is 57:17), que naturalmente
podem e devem ser vencidas pelos próprios seres humanos mediante a
graça de Deus (Ef 2:10).
O problema do perfeccionismo fanático gira em torno de dois pon-
tos que conduzem a uma experiência de mornidão extremamente grave.
O primeiro problema é aplicar a lógica da vitória contra o pecado sobre
todas as dimensões do conceito de pecado. Agora, além de ser capaz de
“escolher” não pecar/transgredir, o homem supostamente deve ser ca-
paz de sequer precisar conviver com qualquer dimensão de imperfeição
pecaminosa que se refira à sua própria natureza caída. A ideia é que os
homens podem, em tese, simplesmente não serem mais pecadores em
nenhum sentido do termo, contradizendo Tiago 3:2, dentre tantos ou-
tros textos bíblicos, na prática.

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A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Quando pessoas que acreditam nesse tipo de coisa são confrontadas


com a realidade do pecado na vida de todos, eles tendem a interpretar a
falha como estando localizada não na sua teoria, mas no nível de “consa-
gração” atual dos crentes. É nesse ponto que todos aqueles regulamentos
extrabíblicos e farisaicos fazem sentido para os advogados da teoria, mes-
mo que ainda sejam vistos pecados entre os membros do grupo.
A tese é que o crente está derrotado porque come isso, bebe aquilo,
vê aquilo outro, toca naquilo outro. E caso venha a aderir a regulamen-
tos mais estritos, mesmo diante de questões não reveladas na Palavra de
Deus, ele estará numa posição cada vez mais vantajosa, e se seguir fiel-
mente nessa direção atingirá a própria perfeição, ao arrepio de Colossen-
ses 2:20-23, dentre outros textos bíblicos, naturalmente.
A teologia do perfeccionista fanático é de tal ordem, porém, que ne-
nhuma argumentação que lhe contradiga pode ser admitida sequer em
mínimo grau. O mundo jaz no maligno e conspira contra sua fé de verda-
deiro filho de Deus que não se contenta com uma vida de derrotas e peca-
dos. Todos os questionamentos à sua ideia devem vir do próprio Satanás,
sem sombra de dúvida.
O perfeccionista se cerca de milhares de regras ao estilo “pode/não
pode”, se congratula de não seguir milhares de tendências supostamente pe-
caminosas em questões gerais da vida dos demais homens, e segue sua mis-
são de disseminar a mentalidade fanática em todas as mentes que puder tra-
zer para seu universo particular de ideias e práticas religiosas (cf. Mt 23:15).
Poucas pessoas que seguem nessa direção espiritual conseguem per-
ceber a armadilha em que se encontram. Na tentativa de serem realmente

94
O que não parece ser mornidão, mas frequentemente é

justas ou de pelo menos de parecerem justas a si mesmas ou às demais


pessoas ao seu redor, tais cristãos se concentram em infinitas questões pe-
riféricas, e à medida em que possam acumular “vitórias” em tais questões,
aparentemente isso diminui a necessidade delas em lidar com as questões
mais viscerais da lei de Deus (cf. Mt 23:23). Há muita fidelidade em torno
de usos e costumes, por exemplo, e bem menos fidelidade em termos da
fé, da misericórdia e do amor, pelo menos nas dimensões mais profundas
de tais conceitos essenciais.
Vencer a “tentação” de comer um pudim de leite condensado ou
um churrasco, ou de assistir um jogo de futebol ou novela, pode dar ao
fanático a ilusão de estar entrando numa dimensão tão íntima em sua
relação com Deus que a ausência das qualidades mais essenciais cristãs
em medida satisfatória, que dirá perfeita, parece não ser capaz de abalar a
experiência mágica.
Cada vitória naquilo que é periférico indica que o fanático está na
direção certa, e aquelas derrotas em manifestar “pouco amor”, por exem-
plo, são relativizadas e esvaziadas de maior importância, de maneira que
a consciência permaneça tão iludida quanto cauterizada.
Se a medida do sucesso espiritual entre os fanáticos fosse a fé per-
feita, a misericórdia perfeita e o amor perfeito, eles estariam chorando e
lamentando suas incoerências e questionando o motivo de suas dificulda-
des em “fazer o bem” que eles tanto querem fazer (Rm 7:19). Também re-
conheceriam que fazem o mal que não gostariam de fazer e encontrariam
a lei de que o mal habita neles, de tal maneira que toda sua cosmovisão
perfeccionista ruiria em instantes (v. 21).

95
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

É por isso que a medida do sucesso espiritual nessa teologia precisa


se transformar em uma enorme lista de pecados que eles não cometem,
como: ouvir rock, comer carne, beber suco de laranja com açúcar, ou mi-
lhares de regras no mesmo espírito. Que a Bíblia não fale nada sobre rock,
vegetarianismo obrigatório ou açúcar é um mero detalhe de somenos im-
portância, e, assim, vencendo tais e tais coisas, o fanático está no verda-
deiro caminho da “salvação pelas obras mediante a santificação através de
leis divinas inexistentes na Bíblia”.
A mornidão que acompanha esse quadro torna o perfeccionista ca-
paz de argumentar inteligentemente sobre a necessidade da santificação e
a plausibilidade da aplicação de princípio bíblicos que tornem inúmeras
coisas em pecado, ainda que a lei de Deus nada fale sobre elas especifica-
mente. Mas sua inteligência termina no momento que se torna necessário
admitir que toda essa teoria não funciona na prática em termos de seu
objetivo final, a perfeição efetiva que torne seu possuir isento de qualquer
pecado em todo sentido do termo.
Ninguém jamais se tornou absolutamente perfeito em fé, misericór-
dia, amor, santidade e espiritualidade de uma forma geral por tais meios,
mas muitas pessoas já se tornaram extremamente perversas com as de-
mais em função de diferenças de opinião em relação a questões desse tipo
dentro do corpo de Cristo.
A fuga do perfeccionista fanático é sempre apontar para um possível
sucesso futuro diante dos repetidos fracassos do passado e do presente,
jamais questionando sua adesão a uma doutrina nunca experimentada ou
vivida na realidade.

96
O que não parece ser mornidão, mas frequentemente é

Quando cremos teoricamente em algo que não vivemos na prática


cria-se uma contradição entre fé e obras. E quando isso é acompanhado
de uma incapacidade ou indisposição de se ver a falha fundamental de tal
visão doutrinária à luz da revelação bíblica, então estamos diante de um
grave quadro de mornidão, a despeito da retórica de que se está somente
em busca da vitória absoluta contra o pecado até o ponto da perfeição.
A nobreza do objetivo não desfaz o fracasso prático e nem lida efi-
cazmente com a implicação herética de que no momento em que o “per-
feccionismo” se materializasse em pessoas sem pecado, a doutrina bíblica
estaria em absoluta contradição com a realidade (cf. Ec 7:20; 1Jo 1:8-10).
No próximo capítulo, por sua vez, lidaremos com algumas questões
ilustrativas que são comumente rotuladas de posturas “mornas” da parte
de cristãos que defendam algumas bandeiras específicas, mas cujas con-
clusões não são necessariamente verdadeiras.

97
IV

O Q U E PA R E C E S ER
M O R N I D Ã O, M A S
FREQUENTEMENTE
NÃO É
O que parece ser mornidão, mas frequentemente não é

O conceito de mornidão tem um espectro bastante amplo, mas


também existem alguns cristãos capazes de apontar a presença desse
problema espiritual específico, mas cuja caracterização não é exata e in-
questionável, muito pelo contrário.
Em outras palavras, posturas normais e até recomendáveis em de-
terminados contextos têm sido acusadas como mornas, na tentativa de
fazer a igreja se inclinar em certas direções em relação à teologia e à vida
como um todo. Vamos identificar brevemente algumas dessas princi-
pais discussões.

RACIONALIDADE CIENTÍFICA

Há uma polêmica atualmente bem estabelecida, especialmente


desde o Iluminismo, sobre a relação entre a fé e a ciência. O fenômeno
não é absolutamente novo, sendo já ecoado no próprio Novo Testamen-
to (cf. 1Tm 6:20-21), mas a manifestação atual dessa celeuma a torna
central em inúmeras áreas e esferas da vida no século 21 e se desdobra
em infinitas discussões particulares.
Existem cientistas que pressupõem e proclamam uma radical se-
paração e superação da mentalidade religiosa por causa dos avanços da
ciência, e, em contrapartida, existem cristãos que respondem a esse es-
tado de coisas fechando-se para as disciplinas e práticas científicas. É
como se elas representassem interesses perigosos e que deveriam ser
evitadas em função da possibilidade de alguém apostatar da fé em razão

99
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

do contato com paradigmas e compreensões científicas de questões ge-


rais relacionadas desde a temas como a origem da vida e a evolução até
a descrição e funcionamento do universo em geral, entre outros.
Os cristãos interessados no método científico e em sua filosofia
seriam “mornos”, oscilando entre dois senhores e vacilando em direção
às trevas do erro e do mal. Essa é uma descrição nada lisonjeira de tais
pessoas, convenhamos.
É bem verdade que alguns crentes podem ter convicções de fé
abaladas ao entrar em contato com uma forma diferente de entender o
mundo sob uma ótica cientificamente informada aliada a uma cosmo-
visão naturalista ou ateísta. Inclusive quadros de mornidão podem, sim,
ser desencadeados em função de confrontos e questionamentos que
surjam nesse tipo de contexto na mente de algumas pessoas.
O problema nesse caso, entretanto, não é causado pelo mero in-
teresse científico ou contato com a ciência, mas, dentre outras coisas,
com a ausência prévia de uma percepção de que há outras formas de
se encarar a realidade do mundo. Quando uma perspectiva “científica”
aparece diante de pessoas que antes não a tinham considerado, ela pode
oferecer força atrativa e sedutora que, inclusive, termine revelando que
as convicções religiosas que agora serão questionadas e rejeitadas não
eram tão sólidas na experiência particular dessa pessoa.
Costuma-se dizer que Sigmund Freud foi acusado de desviar mui-
tas pessoas da fé por causa de sua “ciência psicológica”, ao que ele res-
pondia que se qualquer coisa que ele pudesse dizer tinha a capacidade
de tirar a fé de uma pessoa, essa pessoa já carecia de tal fé desde antes.

100
O que parece ser mornidão, mas frequentemente não é

Nenhuma ciência tem capacidade de tirar de alguém aquilo que lhe per-
tence em termos de convicção e fé, mas se uma ciência pode fazer uma
pessoa “mudar” sua forma de ver o mundo, a conclusão é que a fé inicial
da pessoa era, no mínimo, irrefletida e pouco profunda, susceptível de
ser abalada ou destruída com relativa facilidade. Em suma, uma aposta-
sia após o contato com uma visão de mundo mais científica demonstra
mais algo sobre a natureza frágil das convicções da pessoa em questão
do que do poder corruptor da ciência em si mesma.
Acima de tudo, porém, acontece nessa discussão que não há con-
tradição absoluta entre ciência e religião. Diante disso, é completamente
normal que o método científico e tudo que orbita em torno dele, como
a filosofia da ciência e as inúmeras áreas de aplicação do(s) método(s)
empírico(s) de levantamento e análise de dados em geral, seja campo
naturalíssimo de interesse da parte, inclusive, de cristãos comprometi-
dos com a Palavra de Deus.
A história da ciência moderna testemunha de cristãos firmemente
crentes na Bíblia, mas que estiveram entre os grandes primeiros cientis-
tas de suas áreas de pesquisa, como Isaac Newton, para citar somente
um dos mais proeminentes dentre centenas ou milhares de exemplos.
A crença de que Deus criou o universo, imprimindo nele ordem e
sentido capazes de serem descobertos e explorados, moldou interesses
e objetivos científicos sérios, ainda que a convivência com cosmovisões
concorrentes fosse inevitável, o que também acontece no próprio âm-
bito da teologia. Tudo, ou quase tudo, pode ser abordado e entendido
a partir de paradigmas diferentes. E se a ciência possibilita maior nível

101
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

de certeza em relação a alguns de seus postulados e pontos de interesse,


não se nega que nela também há áreas abertas à divergência na obtenção
e interpretação de dados e na formulação de explicações, teorias, méto-
dos e princípios gerais.
Se existem cosmovisões concorrentes e enganos ao redor dessas
questões, a única coisa que deve ser feita é identificar tais e tais ideias
através de uma abordagem clara, honesta e embasada que dê conta de
explicar por que a cosmovisão bíblica ou as verdades cristãs são alterna-
tivas superiores em relação a tais leituras da realidade.
É absolutamente possível que uma pessoa se mantenha tão verda-
deiramente cristã quanto qualquer outra mesmo mantendo seus inte-
resses ou área de atuação no ramo das ciências de forma geral. Não há
nenhuma ligação clara ou necessária de que a investigação e atuação
científica conspire para uma maior incidência da “mornidão” entre os
cristãos, em comparação com irmãos de fé que estudem ou trabalhem
em outras áreas. Que fique claro que conhecimento científico não é algo
capaz de gerar a mornidão por si mesmo.
Às vezes, o contrário é que é verdade. Conhecimento profundo de
questões científicas e atuação acadêmica ou profissional nas áreas corre-
latas podem ajudar cristãos a desenvolverem ou avivarem sua capacida-
de de se maravilhar diante do universo e, consequentemente, diante do
Criador do universo.
Uma atuação numa área instigante, exigente, mais ou menos “exa-
ta” e norteada por princípios científicos pode ajudar os cristãos envolvi-
dos com isso a desenvolverem diversas habilidades. Isso envolveria, por

102
O que parece ser mornidão, mas frequentemente não é

exemplo, capacitar-lhes a desenvolver, dentre outras coisas, inclusive,


métodos de estudo da Bíblia e da história que podem ser bastante úteis
para ajudarem outras pessoas de mentalidade mais “científica” a se apro-
ximarem da Palavra de Deus.
Inclusive isso já existe no próprio campo do estudo bíblico. A teo-
logia também é considerada uma “ciência”. Aliás, não seria a dedicação
ao estudo acadêmico da teologia também uma forma de mornidão?

ACADEMICISMO TEOLÓGICO

A fé cristã conquistou a atenção e a reflexão de todo tipo de pessoa,


desde aquelas com pouco ou nenhum estudo formal até os super qualifi-
cados doutores, pós-doutores e livre-docentes em suas respectivas áreas
de atuação. O fato é que o mundo da teologia é bastante amplo e pro-
fundo, exigindo do estudante que deseja simplesmente se aprofundar
muitos anos de dedicação e empenho. O alerta, porém, é que ao final
da jornada tal estudante deve forçosamente concluir que ainda conhece
muito pouco sobre o cristianismo dentre o universo de coisas que exis-
tem para serem conhecidas.
A amplitude dessa área do conhecimento já seria um desafio gi-
gantesco por si mesma, mas nesse contexto surgem outros desafios atre-
lados a essa característica.
Por um lado, a teologia contém farto material para que os teólogos
busquem aprender a lidar da melhor forma possível com as inúmeras for-

103
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

mas de se entender e se explicar os dados bíblicos e históricos. Por outro,


há um amplo interesse nessas mesmas questões da parte de pessoas em
posições menos vantajosas do ponto de vista da educação formal.
O que pretendo dizer é que comunidades e igrejas em geral são
centros de interesse teológico vivo, mas esse interesse é alimentado fre-
quentemente com uma visão bastante parcial dentre todo o espectro
teológico mais amplo. Dessa forma, criam-se algumas situações que nos
ajudarão a entender a sensação de mornidão que algumas pessoas têm
em relação à teologia e aos teólogos acadêmicos.
O primeiro problema que surge diante dos desafios intelectuais e
acadêmicos propostos e enfrentados na teologia cristã é que poucas pes-
soas estão dispostas a encarar a jornada de estudos necessários para se si-
tuar diante de tais questões com relativa propriedade. Uma segunda fonte
de dificuldades em determinados contextos é que a academia é, por natu-
reza, um ambiente relativamente tolerante e de livre expressão e troca de
ideias diferentes, ao contrário de muitas comunidades religiosas.
O ambiente social está, assim, pronto para que algumas daquelas
pessoas indispostas a encarar os desafios intelectuais da fé cristã mais a
sério e de forma mais profunda acusem os teólogos de mornidão, espe-
cialmente quando eles começam a demonstrar respeito por visões dife-
rentes em alguma espécie de tolerância.
A ideia subjacente a esse quadro aqui bastante simplificado é que a
teologia conduz seus adeptos a serem menos firmes em termos de con-
vicção e fé e mais tolerantes com erros, heresias e visões teológicas estra-
nhas àqueles que não estão dispostos ao diálogo acadêmico.

104
O que parece ser mornidão, mas frequentemente não é

Em muitas comunidades cristã, a pouca “teologia” que existe ser-


ve unicamente para formar e reforçar dogmas específicos, geralmente
tradicionais, e nunca para questionar aquilo que se entende ou crê, nem
que seja para amadurecer o entendimento das pessoas na direção de
uma fé mais embasada e capaz de lidar com desafios externos.
Com isso, o teólogo acadêmico acaba sendo visto como uma
ameaça e um perigo para a comunidade, pelo menos por alguns de seus
membros. Ao estar acostumado ao mundo da pluralidade de perspec-
tivas e ideias em sentido amplo, e sendo capaz de trabalhar paradigmas
diferentes, ele pode “contaminar” pessoas com algumas dúvidas e ques-
tões que não existiriam se as comunidades vivessem isoladas em si mes-
mas, sem qualquer contato com qualquer compreensão da teologia que
seja externa àquela que já é tradicionalmente aceita naquele ambiente.
O medo de algumas pessoas em relação à teologia e as razões
oferecidas para tal medo ignoram a própria natureza inquiridora dos
seres humanos. Uma teologia acadêmica pode ser usada para plantar
dúvidas, sim, mas em geral o caminho é oposto, desde que se respeite
alguns limites simples.
Um teólogo pertencente a uma certa tradição religiosa pode e
deve “passear” pelo entendimento de outras tradições, desde que ao
final ele seja capaz de explicar e ensinar à sua comunidade de fé as
razões para se manter fiel ao entendimento do grupo à luz de entendi-
mentos alternativos e conflitantes. É só quando um teólogo abandona
um entendimento tradicional na comunidade que pode haver um real
conflito mais problemático.

105
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Entretanto, acredito que o mais comum é que quando um estu-


dioso tem suas convicções transformadas por seus estudos de forma ra-
dical, a ponto de romper com sua própria tradição religiosa, ele muito
provavelmente não deseja mais nenhuma comunhão com aquilo a que
ele superou através de uma nova forma de ver as coisas. Assim, a ten-
dência, a meu ver, é que ele se afaste por vontade própria da posição de
ensinar, ainda que tenha o direito de ser claro em sua nova forma de ver
as coisas e seja capaz de explicar seus motivos a quem quiser ouvi-lo.
Em algum caso, em outra direção, se supõe que a comunidade em
questão deve ter os meios teológicos e administrativos internos sufi-
cientes para lidar de forma amorosa, mas firme, com a situação.
O conhecimento acadêmico na área da teologia frequentemente é
responsável por muito mais frutos positivos do que negativos na vida
das comunidades cristãs. Através dele, servos e servas de Deus ama-
durecem, se tornam capazes de dar razão de sua fé de forma mais pro-
ficiente, são apresentados a novas formas de ver as coisas e precisam
aprender a desenvolver tolerância e amor no diálogo com o diferente,
mesmo com o ignorante e/ou herege.
A teologia como área acadêmica do conhecimento não é exercida
por anjos sem pecado, mas por seres humanos falhos, mas a bússola da
Palavra de Deus seriamente estudada contrabalanceia a fraqueza ine-
rente à raça caída com uma revelação capaz de iluminar aqueles que
nela buscam luz. Competência acadêmica, aliada à amplitude de pensa-
mento e certa tolerância na avaliação e no trato com o diferente, não é
necessariamente “mornidão”, mas, quem sabe, mera educação.

106
O que parece ser mornidão, mas frequentemente não é

Essa educação deve ser ampliada e exercida não só no mundo do


pensamento teológico em si, mas também diante de inúmeras ques-
tões culturais. Mas, aliás, cristão que fala em “cultura”, especialmente
em “respeito à cultura”, só pode ser morno, né?

SENSIBILIDADE CULTURAL

A Palavra de Deus exorta a que os seguidores de Cristo “não


amem o mundo nem as coisas que no mundo há” (1Jo 2:15). Essa e
outras verdades bíblicas foram e são usadas para colocar o cristão
em quase absoluto antagonismo com aquilo que é chamado popular-
mente de “cultura”.
O conceito de cultura pode ser bastante estrito ou elástico, há
amplo debate sobre isso, mas em termos práticos, o termo se refere
ao conjunto de crenças e práticas que prevalecem numa comunida-
de. Naturalmente, nesse paradigma, os ambientes urbanos e globa-
lizados contêm dezenas ou centenas de culturas em si mesmas, e o
convívio entre elas é inevitável.
Os ajuntamentos humanos seguem padrões sociais, religiosos,
filosóficos e econômicos que permitem a cooperação em larga escala
com vistas à prosperidade de todos, pelo menos no ideal. Ninguém
vive em isolamento absoluto, e todos os seres humanos são interde-
pendentes para que tudo na sociedade funcione de forma mínima,
pelo menos.

107
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Ocorre que o tecido cultural de cada família e grupo dentro da so-


ciedade pode ser sensível e traz elementos particulares que perturbam o
cristianismo de muita gente. A situação termina revelando problemáticas
em torno de questões aparentemente simples, mas que podem se manifes-
tar em tensões bastante graves.
Alimentação, vestuário, música, comércio, diversão, fé, casamento,
política e tantas outras coisas são compreendidas e ordenadas diferen-
temente por pessoas/grupos diferentes e surgem como fatores desesta-
bilizadores da ordem em função do embate entre percepções e práticas
diferentes.
No meio cristão, as discussões sobre esses temas são bastante pauta-
das pela questão da “aculturação” do evangelho a ser pregado às pessoas
de outras culturas, sejam elas distantes, como no caso dos índios na flo-
resta amazônica, ou próximos, como no caso de um bairro chinês numa
grande metrópole.
Muitos missiólogos trabalham extensivamente abordagens teóricas
ou práticas em relação ao tipo de desafio que essa realidade impõe sobre
a igreja. Eles frequentemente tendem a ensinar o respeito e a tolerância
pela cultura como ponto de partida para qualquer missão eficaz em favor
das pessoas.
Do outro lado do espectro, estão aqueles cristãos que se opõe ao que
consideram como visão “liberal” por detrás dessa missiologia da contextua-
lização, como se ela representasse o fracasso em ser verdadeiramente cristã.
Essa discussão pode tomar proporções homéricas, mas para nossas
modestas pretensões basta identificar a acusação de “mornidão” lançada

108
O que parece ser mornidão, mas frequentemente não é

sobre o primeiro grupo da parte do segundo. A missão deve antagonizar


a cultura e jamais tolerar nada que não seja cristão. Seria lindo se não
fosse trágico.
Pergunte aos acusadores o que é a “música cristã”, “alimentação
cristã”, a “diversão cristã” ou mesmo a “visão cristã de mundo” e a con-
fusão estará instaurada para nunca mais deixar de existir.
Ainda que seja possível buscar responder a todas essas (e inúmeras
outras) questões de forma tão acurada quanto possível de uma perspec-
tiva específica, é impossível fazer com que todas as pessoas de todas as
culturas venham a concordar entre si sobre elas. Mesmo os cristãos de
diferentes culturas divergem entre si sobre tudo isso, e quando os não
cristãos são adicionados a essa conta, o resultado é uma complexidade
ainda maior e bastante desafiadora.
Os adeptos do discurso mais agressivo contra a cultura geralmente
exploram práticas culturais deploráveis entre certas comunidades em
torno de abusos, violência, imoralidades e morte, dentre outros proble-
mas, bem como exploram as crenças antibíblicas em geral da parte de
várias culturas como desculpa para sua retórica mais geral.
Inclusive, em breve essa retórica poderá igualar tais e tais questões
com graves acusações contra a participação de cristãos em “aniversário”,
“festa junina” ou “Natal”, por exemplo, para o desespero do bom senso
básico. Imagine o que essas pessoas não falam sobre “shows”, “festas”,
“filmes e séries”, “músicas” e tantas outras coisas. Quem discorda da ala
supostamente contracultural é “morno” e não está comprometido com
o escândalo da cruz, é o resumo da ópera.

109
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Ocorre que ainda que se possa definir e defender uma separação,


inclusive radical, entre o cristão e o “mundo”, não se deve ignorar que
estamos no mundo e nele devemos viver como sal e luz. Práticas cultu-
rais específicas podem ser condenadas naquilo em que conflitem cla-
ramente com a Palavra de Deus, mas esse não é o caso em inúmeras
questões, e nessas questões, o respeito, a tolerância, a paciência e o amor
devem, sim, prevalecer. E isso não é a pregação da “mornidão”, mas do
próprio cristianismo, especialmente no contexto da regra áurea (cf. Mt
7:12) e da argumentação de Paulo em Romanos 14.
Todo cristão existe em uma cultura (não há outra modalidade de
existência) e deve usar sua influência para tentar mudar o que precisa
ser mudado nela, de todas as formas lícitas que for capaz, inclusive abra-
çando ideologias coerentes/não antagônicas com a fé e militando social
e politicamente por elas.
O quê? Militância política e social? Isso é pura mornidão! Não?

ATIVISMO POLÍTICO E SOCIAL

Estou escrevendo estas palavras em meio à pandemia da Covid-19,


em 2020. O clima político no país está extremamente tenso, especialmen-
te à luz da reação de parlamentares e juízes do Supremo Tribunal Federal
brasileiro contra a operação Lava Jato, contando, no mínimo, com coni-
vência do atual presidente, Jair Bolsonaro, aquele que praticou o maior
estelionato eleitoral da história do Brasil desde a redemocratização.

110
O que parece ser mornidão, mas frequentemente não é

Em função de todo o embate em torno de tais e tais questões, o


brasileiro tem discutido como nunca a respeito de orientações e par-
tidos políticos. Há um clima de acusação e suspeita generalizada em
função disso tudo, e a percepção de muitos cristãos é que essa guerra
representa somente um desvio de foco da missão da igreja.
O resultado dessa percepção é que a alienação em relação à política
se torna quase que uma “norma cristã” de conduta. O máximo envolvi-
mento possível é se submeter ao governo e orar pelos governantes (cf.
Rm 13:1-2; 1Tm 2:1-2). Qualquer envolvimento com a política é ime-
diatamente sentenciado como “mornidão”.
A discussão de questões políticas em contextos religiosos cristãos
é celeuma de longa data, remontando à igreja primitiva e aos primeiros
cristãos, que viveram sob o Império Romano, acompanhando poste-
riormente toda a história da igreja.
O interesse na esfera pública do poder, ou mesmo na natureza po-
lítica essencial de todas as relações humanas, porém, não é pecamino-
so ou objetável por si mesmo. O cristão é um ser humano, racional,
relacional, político (por natureza) e vive em contexto social, podendo
(se não devendo) se envolver com as questões comunitárias de forma
absolutamente natural.
Meu propósito aqui não é discutir a harmonia ou desarmonia da fé
cristã com espectros políticos de esquerda, centro, direita ou libertário/
anarquista. Cada qual deve ter sua consciência livre para investigar tais
relações e agir em harmonia com suas conclusões particulares. Minha
intenção também é deixar claro que, ao meu ver, a esfera eclesiástica

111
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

deve, no ideal, ser mantida absolutamente afastada das questões ideo-


lógicas/partidárias, em função da mensagem universal da igreja para
todas as pessoas. A igreja não é extensão ou militância de nenhum par-
tido político.
Ainda assim, o envolvimento político dos cristãos individuais não
é sinônimo de infidelidade ou mornidão, mas de interesse legítimo e
mesmo potencialmente nobre. A mensagem da igreja sobre a verdade,
o amor, a fé, o perdão e a paz conduz ao questionamento de estruturas
sociais e políticas que devam ser questionadas e modificadas dentro do
possível na direção de uma sociedade onde tais questões sejam mais
efetivas ou mais abundantes.
Tal militância é legítima e pode, inclusive, ser combustível de edifi-
cação na fé, ainda que não seja demais alertar a todos de que a lealdade
a qualquer ideologia (de qualquer espectro) jamais deve servir de su-
peração ou relativização de nossa lealdade ao Reino de Deus, acima de
qualquer projeto de poder humano, em absoluto.
O equilíbrio é um conceito chave nessa e em tantas outras ques-
tões. O quê? Equilíbrio?

EQUILÍBRIO

A imagem do morno como estando a meio caminho entre o quen-


te e o frio é usada por pessoas fanáticas religiosas o ensejo de condenar
qualquer apologia de uma fé “equilibrada”. Um dos pilares dessa noção

112
O que parece ser mornidão, mas frequentemente não é

é que a fé verdadeira deve ser radical em seu compromisso com Deus


de forma a não abrir nenhuma brecha para qualquer outra atmosfera na
relação pessoal com o Senhor. A conclusão é que não pode haver “equi-
líbrio” entre o bem e o mal; tais princípios antagonistas não podem ser
mesclados a fim de fornecer uma postura “equilibrada” diante das deci-
sões da vida. Deve haver, então, uma adesão cega à fé, custe o que custar,
e qualquer retórica que clame por equilíbrio é apenas uma manifestação
de justificar o pecado.
A primeira coisa que precisamos questionar quando nos deparamos
com uma visão dessa natureza é o conceito de pecado. Frequentemente a
retórica da adesão radical à fé, por mais correta que possa parecer em um
primeiro momento, esconde ciladas da definição da própria fé.
Quando “pecado” ou “fé” não são mais definidos biblicamente,
mas religiosamente dentro de uma cultura eclesiástica, ver televisão
pode ser “pecado” e faltar a um culto em dia de semana à noite, a fim de
perseguir uma melhor qualificação acadêmica ou profissional, pode ser
“falta de fé”.
Quando conceitos extrabíblicos são introduzidos nas definições
do que é certo ou do que é errado, há uma ampla confusão no meio da
igreja. Não se respeita mais o paradigma revelado de que “onde não há
lei, não há transgressão” (Rm 4:15), e “tudo e qualquer coisa” pode se
tornar pecado e falta de fé.
O equilíbrio biblicamente recomendável (cf. Ec 7:16-17) não pode
ser confundido com a tentativa de se criar uma linha de “harmonia en-
tre Cristo e o Maligno” (2Co 6:15). O conceito do equilíbrio é análogo

113
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

ao do “bom senso” (cf. At 26:25; 1Tm 2:9, 15), e não há razão para que
tal qualidade possa ser temida ou desencorajada.
Juízos particulares sobre questões não claras na Revelação podem
representar fontes de problemas em comunidades de fé, mas esse tipo e
situação é que faz com que o equilíbrio seja exaltado como característica
cristã genuína e necessária, o que nada tem que ver com a mornidão
condenada por Jesus Cristo em Sua repreensão à igreja de Laodiceia.

114
V
I

O U
RM EM A ÉCDAI R OT A
P AÀR A
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MD A I ICGE R
IAEJA
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Chegamos ao final de nossa jornada de estudo bíblico em busca dos


sentidos de um conceito que à primeira vista parece muito simples ou mes-
mo desinteressante para alguns. A ideia da mornidão, porém, como de-
monstrado em nossa discussão, esconde complexidades interessantes, pro-
fundas e instigantes, capazes de desmascarar tantos problemas e pecados
em sua simplicidade, que ficamos maravilhados com a amplitude potencial
da repreensão de Jesus Cristo para cada um de nós e para nossas igrejas.
Em grande medida, toda a discussão sobre o sentido do termo mor-
nidão pode ser resumida no conceito de pecado, uma vez que são os peca-
dos da igreja que estão sendo escancarados a fim conduzir o povo de Deus
à compreensão de sua situação espiritual com vistas à cura de graves e
perigosos problemas espirituais. Especialmente no ponto em que não es-
tão sendo discernidos correta e seriamente pelas pessoas a quem se dirige.
A forte repreensão explícita no texto, porém, nasce do amor de Jesus
Cristo por aqueles a quem Ele comprou com Seu próprio sangue (cf. Ap
3:19). Não há por trás dessa mensagem um espírito desejoso de massacrar
a igreja com o quadro aterrador dos problemas espirituais que se manifes-
tam em seu seio. Nem é a igreja deixada sozinha ou sem orientação espe-
cífica sobre como encarar o problema e superá-lo, ainda que nada na pro-
fecia indica que esse processo seja fácil ou isento de lutas e dificuldades.
Em resumo, a igreja de Laodiceia deve levar muito a sério o que Je-
sus diz. Ele é o Amém, a testemunha fiel e verdadeira e o princípio da
criação de Deus. O Senhor afirma explicitamente “conhecer” a situação
tal qual ela é a partir da manifestação das obras da igreja morna, e elas não
Lhe parecem positivas.

116
O REMÉDIO PARA LAODICEIA

Jesus então evoca a imagem da mornidão e afirma estar a ponto


de vomitar Laodiceia de Sua boca em função dela, o que demonstra a
seriedade de uma situação limite onde a paciência do Deus longânimo
parece estar muito perto de se esgotar (cf. Êx 34:6; 2Pe 3:9), como se
Cristo estivesse cansado (cf. Jr 15:6).
O ponto primordial do problema é a absoluta disparidade entre
a realidade e o julgamento de Laodiceia a respeito de si mesma. Ela se
percebe rica, abastada e plenamente autossuficiente enquanto Jesus a
percebe como infeliz, pobre, cega e nua.
Quando o texto parece não dar mais margem à esperança na
situação, eis que Cristo gentilmente “aconselha” Laodiceia a tomar
atitudes aparentemente simples, mas das quais depende seu destino
eterno. Ele usa as metáforas de comprar ouro refinado pelo fogo para
se enriquecer realmente, vestir roupas brancas para que não seja ma-
nifesta a sua nudez vergonhosa e ungir os olhos com o colírio que
unicamente permite ver.
Naturalmente, se a análise do termo mornidão nos permitiu
desenvolver um amplo quadro do problema, uma atitude análoga
entre as metáforas usadas para indicar a solução do problema po-
deriam facilmente ser tratadas na mesma amplitude. Mas dados os
limites de espaço e tempo, bem como as intenções por detrás deste
livro, vamos nos contentar com a indicação das principais questões
em torno das imagens.
Todas as metáforas negativas e positivas na profecia de Jesus Cris-
to à última igreja do Apocalipse fazem referência à Laodiceia histórica.

117
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

A cidade rica financeiramente, famosa por seus tecidos e por sua escola
de medicina e seu colírio renomado, agora vê-se diante de um quadro
onde não se deve deixar enganar pelas aparências.

OURO REFINADO PELO FOGO

Na parábola do semeador, Jesus já havia alertado que a fascinação


das riquezas e demais ambições, junto com as preocupações do mun-
do, sufoca a palavra, deixando-a infrutífera (Mc 4:19). Nada poderia ser
pior para um cristão e uma igreja do que se verem diante do cumpri-
mento dessa imagem em sua vida espiritual. Ser sufocado é, sem sombra
de dúvida, experiência desesperadora e de morte, de forma que Jesus
aponta para uma realidade muito forte e perigosa ao tratar do assunto.
Há muito que se poderia dizer a esse respeito, mas o foco é que Lao-
diceia provavelmente estava confusa sobre a natureza da verdadeira ri-
queza. Em sua má análise da realidade via na prosperidade mundana um
sinal de uma riqueza na relação com Deus que simplesmente não existia.
Laodiceia estava perto de “ganhar o mundo, mas perder a alma”
(cf. Mc 8:36-38). Jesus não poderia ficar indiferente à situação e expõe
a pobreza de Laodiceia ao lado da solução: comprar dEle ouro refinado
no fogo para enriquecer genuinamente.
Um amplo chamado à reavaliação do que seja a verdadeira riqueza
indica que Jesus Cristo deseja que Laodiceia esteja disposta a reavaliar
suas convicções à luz da Revelação. Não há outra forma de ser verda-

118
O REMÉDIO PARA LAODICEIA

deiramente rico para com Deus, que certamente deseja nos conduzir
ao amadurecimento da fé e do amor, em Cristo Jesus (Ef 4:13; Hb 5:11–
6:3). A satisfação com o que já foi alcançado, especialmente quando isso
representa “pouca coisa”, é perigosa, e quando a pobreza do que já foi
atingido é entendida como “riqueza”, aí Jesus precisa intervir para dar a
direção correta.
Um alerta muito interessante sobre esse tópico tem que ver com o
contexto atual da igreja cristã, muitos séculos após o contexto imediato
da existência da igreja de Laodiceia. Vivemos um momento da história
do mundo em que temos riquezas e confortos jamais sonhados pelos
antigos em inúmeras direções, ao mesmo tempo que temos problemas
complexos em função de toda a exploração do meio ambiente para o
sustento de nosso rico estilo de vida. Nem o rei Salomão, em toda a sua
glória, jamais sonhou em andar de carro ou avião, ou de falar em um
celular e acessar a internet, realidades normais mesmo entre pessoas
consideradas pobres no século 21.
Além disso, a igreja cristã hoje tem posse de um tesouro gigantesco
em termos de teologia que remonta a séculos de estudo da parte de cris-
tãos comprometidos com a Palavra de Deus em diversas áreas do pensa-
mento. Ainda assim, a igreja atual continua sendo assolada por heresias
e má compreensões teológicas da Palavra de Deus em função de apego
ao erro ou falta de aprofundamento na verdade, o que claramente reflete
o problema da mornidão em ampla medida.
A imagem do tornar-se realmente rico através do ouro purifica-
do no fogo, comprado da pessoa de Jesus, ressoa fortemente a ideia de

119
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

que a fé é “muito mais preciosa que o ouro perecível, mesmo apurado


por fogo” em 1 Pedro 1:7. O ponto principal da metáfora deve ser que
Laodiceia precisava aprender a ponderar em que consiste a verdadeira
riqueza e segurança e desistir de qualquer forma de apego a formas pas-
sageiras de riqueza e segurança, que podem decepcionar os que nelas
confiam ao final da jornada (cf. Lc 12:20-21).

VESTIDURAS BRANCAS

Jesus alertou contra a excessiva preocupação com “o que vestir”,


ainda que tenha reconheça a necessidade e aponte a providência divina
a respeito (Lc 12:22, 29-30), de forma que Seu conselho de que Laodi-
ceia comprasse vestes brancas é claramente metafórica.
Na Bíblia, é dito que devemos nos revestir do próprio Cristo e nada
dispor à carne relativamente às suas concupiscências (Rm 13:14). Isso
indica que as vestiduras brancas referidas na profecia podem evocar
toda a experiência de graça mediante a fé para a salvação (cf. Ef 2:8), na
qual o homem se refaz no conhecimento do Senhor (cf. Cl 3:10).
O tema das vestiduras brancas é recorrente por todo o Apocalipse
(Ap 3:4-5, 18; 7:9, 13-14; 19:14; 22:14), e sempre indica uma experiência
de fé e fidelidade puras em meio às imagens de contaminação da parte
dos infiéis (Ap 2:20; 13; 16; 17).
Sem desejar retomar a discussão sobre o perfeccionismo que prega
fanatismo em nome de santificação, é importante alertar para a ideia de

120
O REMÉDIO PARA LAODICEIA

que os salvos vestem branco, inclusive linho, que representa “os atos de
justiça dos santos” (Ap 19:8), indica, sim, uma forte imagem de pureza,
santidade e santificação.
Entretanto, é importante alertar de que toda e qualquer vitória do
povo de Deus no Apocalipse só ocorre em função do derramamento do
sangue do Cordeiro, que nos ama (Ap 12:11; cf. 1:5; 15:2-3), e não como
fruto de adesão ao fanatismo perfeccionista, de qual matiz e denomina-
ção cristã seja. Além disso, o próprio profeta da Revelação é descrito pe-
cando ao final do livro (cf. Ap 22:8-9), demonstrando na prática que os
crentes, na mentalidade apocalíptica, não são seres absolutamente sem
pecado, mas revestidos da justiça de Jesus (cf. 2Co 5:21) em contexto de
graça (Ap 22:21).

COLÍRIO PARA
UNGIR OS OLHOS

A última imagem, sem prejuízo das anteriores, é provavelmente a mais


importante e aponta para a premente necessidade de discernimento (cf. Ef
3:3-4), que é o foco do problema do autoengano da parte de Laodiceia.
O discernimento correto da verdade cristã e do que Deus espera de
cada pessoa e de cada igreja em particular só pode ser realmente desfruta-
do em conexão com a obra do Espírito Santo. Unicamente essa obra pode
guiar em toda a verdade (Jo 16:13), sempre conectada à pessoa de Jesus
Cristo (Ap 14:6) e à Palavra/ lei de Deus (Ap 17:17; cf. Sl 119:142).

121
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Dessa forma, o que realmente Laodiceia precisa é mais do Espírito


Santo, mais de Jesus Cristo, mais da Palavra e da lei de Deus, e menos de si
mesma, especialmente nas coisas em que ela se demonstra totalmente dis-
posta a se iludir sobre sua condição espiritual e seu destino correspondente.
A solução, afinal, até que parece simples demais para a complexida-
de dos problemas identificados na imagem da mornidão. Mas, ao final das
contas, tudo não passa de uma manifestação específica, ainda que bastan-
te ampla, do princípio bíblico que ensina ousadamente: “Onde abundou
o pecado, superabundou a graça” (Rm 5:20). Aquilo que Jesus realmente
precisa é que Laodiceia simplesmente não se apegue aos seus pecados.
Através da Sua repreensão à última igreja do Apocalipse, Jesus
Cristo ao mesmo tempo ilumina e disciplina um povo a fim de o condu-
zir de uma situação desesperadora de infidelidade ao arrependimento,
em função de um convite de puro e perfeito amor (Ap 3:19-20). Os re-
sultados de uma resposta positiva da parte de Laodiceia virão na con-
cretização do exato oposto do “ser vomitada” (Ap 3:16). O fim será uma
experiência de partilhar do próprio trono de Jesus Cristo (Ap 3:21),
onde Ele sentou-Se após Sua vitória sobre o mundo (Jo 16:33), o pecado
(Rm 8:2) e a morte (At 2:24).
Vislumbrar essas verdades e nelas crer é a maior bênção que pode
atingir uma pessoa ou uma igreja. E o privilégio de conhecer a si mesmo
como objeto do amor e da graça de Deus, a despeito da imensidão do
pecado, é o que nos dá força para encarar o mundo, o pecado e a morte ao
lado de um Salvador onisciente e todo-poderoso que prometeu: “E eis que
estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28:20).

122
O REMÉDIO PARA LAODICEIA

A história de Laodiceia contada por si mesma é uma história de


profunda ilusão e pecado, cujo resultado natural é ser vomitada da boca
de Jesus e condenada no tribunal divino. Mas a história de Laodiceia
contada por Cristo é de repreensão e disciplina, sim, mas sobretudo de
graça com vistas à imerecida salvação eterna da igreja.
Acima de tudo, meu interesse em escrever este livro foi fruto do
desejo em esclarecer as questões aqui debatidas a cada leitor. Dentro do
possível e dos limites de minha habilidade teológica, espero que todos e
cada um tenham experimentado, através deste texto, um encontro po-
deroso com o Senhor cujos frutos sejam na direção do esclarecimento
teológico, do perdão e da salvação. Mesmo ao leitor que se sinta indig-
no e pecador e esteja vivendo um período de trevas. Este livro é um
testemunho de que a graça de Deus é maior do que todo pecado e mal
envolvidos na mornidão.
Ao final, me despeço com um alerta teológico oportuno: bênçãos
e vitórias como as descritas neste capítulo só podem ser encontradas na
pura e simples graça que vem ao pecador unicamente mediante uma
verdadeira, ousada e inabalável fé em Jesus, o Messias.

123
REFERÊNCIAS

Introdução

1. OSBORNE, GRANDE R. Revelation. Baker Exegetical Commentary


on the New Testament. Grand Rapids: Baker Academic, 2002, p. 205.

1. Uma carta à última igreja

1. Uma fórmula ou frase breve expressando louvor a Deus (FREEDMAN,


DAVID N.; MYERS, Allen C.; BECK, Astrid B. Eerdmans
Dictionary of the Bible. Grand Rapids: Eerdmans, 2000. Ou uma
conclusão engrandecendo a Deus sobre a qual todos concordam.

2. KISTEMAKER, Simon J.; HENDRIKSEN, William. Exposition of the


Book of Revelation. New Testament Commentary, v. 20 (Grand
Rapids: Baker, 1953-2001), p. 168.

3. MCGEE, J. Vernon. Thru the Bible Commentary. v. 5. Nashville:


Thomas Nelson, 1997, p. 921.

4. YEATTS, John R. Revelation. Believers Church Bible Commentary.


Scottdale: Herald Press, 2003, p. 77.

124
REFERÊNCIAS

5. FOGLE, Lerry W. Revelation Explained. Plainfield: Logos International,


1981, p. 118.

6. MACARTHUR, John. Revelation 1-11. Chicago: Moody, 1999, p. 133.

7. CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM (Orgs.),


Nuevo comentario bíblico: siglo veintiuno (Miami: Sociedades
Bíblicas Unidas, 2000), Ap 3:14.

8. NICHOL, Francis D. (Ed.), Seventh-day Adventist Bible Commentary:


The Holy Bible With Exegetical and Expository Comment,
Commentary Reference Series. Washington, DC: Review and Herald,
1978, Ap 3:14.

9. “Esse termo [amém] é particularmente bem adaptado para nosso


Senhor, que é a verdade – João 14:6, não apenas como um nome
geral, mas especialmente em conexão com suas solenes afirmações
aos laodicenses” (SPENCE-JONES, H. D. M. Revelation. The Pulpit
Commentary. Bellingham: Logos Research Systems, 2004, p. 115).

10. JAMIESON, Robert Jamieson.; FAUSSET, A. R.; BROWN, DaviD.


A Commentary, Critical and Explanatory, on the Old and New
Testaments. Oak Harbor: Logos Research Systems, 1997, Ap 3:14.

11. KISTEMAKER, Simon J.; HENDRIKSEN, William. Exposition


of the Book of Revelation. New Testament Commentary, v. 20
(Grand Rapids: Baker, 1953-2001), p. 168.

125
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

12. YEATTS, John R. Revelation. Believers Church Bible Commentary.


Scottdale: Herald Press, 2003, p. 77.

13. MUELLER, Ekkehardt. “O primogênito de toda a criação”.


Disponível em: <https://bit.ly/2XFPe68>. Acesso em: 30/07/2020.

14. DAVIS, Christopher A. Revelation. The College Press NIV


Commentary. Joplin: College Press, 2000, p. 134.

15. STEFANOVIC Ranko. Revelation of Jesus Christ: Commentary on


the Book of Revelation. Berrien Springs: Andrews University Press,
2002, p. 90.

16. Ibid.

17. A proximidade entre Colossos e Laodiceia é testificada na Bíblia no


fato de que esta última é mencionada quatro vezes na carta de Paulo
aos Colossenses (cf. Cl 2:1; 4:13, 15, 16).

18. “O número sete indica também que as sete igrejas foram escolhidas
como representantes de todas as igrejas” (BARTON, John;
MUDDIMAN, John. Oxford Bible Commentary. Nova York:
Oxford University Press, 2001, Ap 1:11).

19. NICHOL, Francis D. (Ed.), Seventh-day Adventist Bible


Commentary: The Holy Bible With Exegetical and Expository

126
REFERÊNCIAS

Comment, Commentary Reference Series. Washington, DC:


Review and Herald, 1978, Ap 1:12.

20. PAULIEN, Jon. The Book of Revelation. Bible Explorer Series.


Harrisburg: Ambassador Group, 1996, audiocassete, v. 2, 3.

21. STEFANOVIC Ranko. Revelation of Jesus Christ: Commentary on


the Book of Revelation. Berrien Springs: Andrews University Press,
2002, p. 90.

22. William G. Johnsson, “Apocalíptica bíblica”, em Tratado de


Teologia Adventista do Sétimo Dia, ed. Raul Dederen. Tatuí: Casa
Publicadora Brasileira, 2011, p. 884.

23. STEFANOVIC Ranko. Revelation of Jesus Christ: Commentary on


the Book of Revelation. Berrien Springs: Andrews University Press,
2002, p. 62.

24. Alguns destes livros e artigos são:

BARCLAY, William. Letters to the Seven Churches. Nova York:


Abingdon, 1957;

HEMER, Colin J. The Letters to the Seven Churches of Asia in Their


Local Setting. Journal for the Study of the New Testament Supplement
Series, v. 11 (Sheffield: JSOT Press, 1986);

127
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

RAMSAY, W. M. The Letters to the Seven Churches. Peabody:


Hendrickson, 1994;

WORTH JR, Roland H. The Seven Cities of the Apocalypse and Greco-
Roman Culture. Mahwah: Paulist, 1999.

25. ANDERSON, Roy A. Revelações do Apocalipse. Tatuí-SP: Casa


Publicadora Brasileira, 1988, p. 52-53.

26. ROEHRS, Walter H.; FRANZMANN, Martin H. Concordia Self-Study


Comentary. St. Louis: Concordia Publishing House, 1998, p. 292.

27. CÍCERO. Carta a seus amigos 3.5.4; e Carta a Ático 5.15.2.

28. ESTRABÃO. Geografia 12.8.16.

29. Ibid., 20.

30. GALEN. Higiene 6.12; E HORÁCIO. Sátira 1.30.

31. HEMER, Colin J. The Letters to the Seven Churches of Asia in


Their Local Setting. Grand Rapids: Eerdmans, 1989, p. 177. Veja
também: “Há evidência de que Laodiceia só tinha acesso à uma
água morna que não era muito palatável e causava náuseas” (Citado
em: BEALE, G. K. The Book of Revelation: A Commentary on the
Greek Text. Grand Rapids, Eerdmans, 1999, p. 303).

128
REFERÊNCIAS

32. PORTER, Stanley E. “Why the Laodiceans Received Lukewarm Water


(Revelation 3:15-18)”. Tyndale Bulletin, v. 38 (1987), p. 143-149.

33. OSBORNE, Grant R. Revelation. Baker Exegetical Commentary on


the New Testament. Grand Rapids: Baker Academic, 2002, p. 205.

34. SMITH, Jerome H. The New Treasury of Scripture Knowledge: The


Most Complete Listing of Cross References Available Anywhere
– Every Verse, Every Theme, Every Important Word (Nashville:
Thomas Nelson, 1992), p. 1510.

2. Conceitos paralelos,
complementares e sinônimos de mornidão

1. Todos os conceitos teológicos paralelos ou antitéticos ao conceito de


mornidão ao longo deste e dos demais capítulos foram retirados das
obras listadas a seguir. Já insiro o alerta ao leitor que vá pesquisas
as fontes de que essa pesquisa foi realizada há muitos anos e talvez
algumas referências estejam imprecisas em alguns detalhes.

BASS, Ralph E. Back to the Future: A Study in the Book of Revelation.


Greenville: Living Hope Press, 2004, p. 145;

BEALE, G. K. Beale. The Book of Revelation: A Commentary on the


Greek Text (Grand Rapids: Eerdmans, 1999), p. 303;

129
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

BOLES, Kenneth L. Galatians & Ephesians. The College Press NIV


Commentary. Joplin: College Press, 1993, Ef 3:10;

CLARKE, Adam. Clarke’s Commentary: Acts. Albany: Ages Software,


1999, At 18:17;

COTTREL, Jack. Romans. College Press NIV Commentary. Joplin:


College Press, 1996, Rm 13:11;

DEMAREST, Bruce A. The Cross and Salvation: The Doctrine of


SalvatioN. Wheaton: Crossway, 1997, p. 462;

FLEMING, Donald C. Concise Bible Commentary. Chattanooga:


AMG Publishers, 1994, p. 594;

JAMIESON, Robert.; FAUSSET, A. R.; BROWN, David. A Commentary,


Critical and Explanatory, on the Old and New Testaments. Oak
Harbor: Logos Research Systems, 1997, Ap 3:15;

KNAP, J. J. The Loins Girded. Ontário: Martien C. Vanderspek, 1997;

LANG, J. Stephen. 1,001 Things You Always Wanted to Know About


the Holy Spirit. Nashville: Thomas Nelson, 1999, p. 372;

LEVY, David M. Israel My Glory. Bellmawr: The Friends of Israel


Gospel Ministry, 1999;

130
REFERÊNCIAS

LUTHER, Martin. Luther’s Works, v. 10: First Lectures on the Psalms I:


Psalms 1-75. Saint Louis: Concordia, 1999, p. 314, 352, 391;

NICHOL, Francis D. (Ed.). Seventh-day Adventist Bible Commentary:


The Holy Bible With Exegetical and Expository Comment,
Commentary Reference Series. Washington, DC: Review and Herald,
1978, v. 7, p. 966;

OSBORNE, Grant R. Revelation. Baker Exegetical Commentary on the


New Testament. Grand Rapids: Baker Academic, 2002, p. 205;

PINK, Arthur W. An exposition of Hebrews. Swengel: Bible Truth


Depot, 1954, p. 275;

PRINGENT, Pierre. O Apocalipse. São Paulo: Loyola, 1993, p. 84-94;

REID, Daniel G.; LINDER, Robert Dean.; SHELLEY, Bruce L.; STOUT,
Harry S. (Eds.). Dictionary of Christianity in America. Downers
Grove: InterVarsity, 1990;

ROEHRS, Walter H.; FRANZMANN, Martin H. Concordia Self-Study


Comentary. St. Louis: Concordia Publishing House, 1998, p. 292;

SIMEON, Charles. Horae Homileticae. v. 18: Philippians to 1 Timothy.


Londres: Holdsworth and Ball 1832-1863, p. 76;

131
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

SPENCE-JONES, H. D. M. Revelation. The Pulpit Commentary.


Bellingham: Logos Research Systems, 2004, p. 115;

SPURGEON, Charles. Faith’s Checkbook. California: Ephesians Four


Group, 2000, p. 2;

Stefanovic, Ranko. Revelation of Jesus Christ: Commentary on the Book


of Revelation. Berrien Springs: Andrews University Press, 2002, p. 142;

SWETE, Henry Barclay. The Apocalypse of St. John. Nova York:


Macmillan, 1907, p. 59;

The Westminster Larger Catechism: With Scripture Proofs. Oak Harbor:


Logos Research Systems, 1996, pergunta 105;

UNDERWOOD, Jonathan.; NICKELSON, Ronald L. King James Version


Standard Lesson Commentary: 2004-2005. Cincinnati: Standard
Publishing, 2004, p. 361;

WALWOORD, John F.; ZUCK, Roy B. The Bible Knowledge


Commentary: An Exposition of the Scriptures. Wheaton: Victor Books,
1983, v. 2, p. 940;

WATSON, Jeffrey A.; SWINDOLL, Charles R. Biblical Counseling for


Today: A Handbook for Those Who Counsel from Scripture. Swindoll
Leadership Library. Nashville: Word, 2000, p. 20;

132
REFERÊNCIAS

WILKINSON, Bruce H. Victory Over Temptation. Eugene: Harvest


House, 1999;

Woman’s Study Bible. Nashville: Thomas Nelson, 1997, Ap 3:15.

133
APÊNDICE

TEXTOS BÍBLICOS CITADOS

Gênesis
Gn 3; 3:7-13; 5:3; 17:1

Êxodo
Êx 20:7, 16, 20; 34:6

Números
Nm 25

Josué
Js 18:3

1 Reis
1Rs 11:1-10

1 Crônicas
1Cr 16:36

2 Crônicas
2Cr 1:10-12; 13:7; 24:5; 29:11

134
Neemias
Ne 13:11

Salmos
Sl 4:8; 32:4; 37:29; 50:16-17; 69:7; 106:48; 119:11, 142; 123:4

Provérbios
Pv 4:24; 14:12; 16:25

Eclesiastes
Ec 7:16-17, 20

Isaías
Is 1:12, 15; 4:1; 5:20; 32:7; 47:8; 49:10; 55:11; 57:17; 64:7; 65:12; 65:26;
66:4

Jeremias
Jr 7:2-14; 9:3; 15:6; 44:10; 48:10

Ezequiel
Ez 8:5-12; 16:49; 18:31-32; 33:31-32

Oseias
Os 4:1; 7:4-10; 10:2; 11:12

Amós
Am 5:21-24

135
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Sofonias
Sf 1:12

Malaquias
Ml 2:1-2; 4:1

Mateus
Mt 3:8; 4:6; 5:10, 13, 20, 48; 6:23; 7:12, 22-23, 29; 22:5, 34-40; 23:1-36;
23:2-33; 24:12, 14; 25:14-30; 27:11-26, 41-42; 28:18-20

Marcos
Mc 1:15; 4:19; 8:36-38; 15:1-15

Lucas
Lc 12:20-21, 22, 29-30; 18:11; 19:41-44; 23:1-5, 13-25; 24:32

João
Jo 1:1, 3, 18; 2:25; 3:10, 16; 4:14; 6:68; 7:17, 39; 8:11; 9:1-3, 3-34, 39-41;
14:6; 16:13, 32; 17:15, 17; 18:33-19:16

Atos
At 2:24; 3:15; 5:41; 8:26-38; 9:3-5, 18; 14:22; 22:3; 22:12-16; 26:19, 25

Romanos
Rm 1:5, 25; 2:4; 3:20, 23, 27-28; 4:1-8, 15, 19-25; 5:12-14, 19-20; 7; 7:19,
21; 8:2; 9:5; 12:11; 13:1-2; 13:10, 14; 14; 16:27

1 Coríntios
1Co 3:1-3; 10:24; 11:17-22; 13; 14:8

136
APÊNDICE

2 Coríntios
2Co 1:20; 5:14-15, 21; 6:15; 7:1; 10:2

Gálatas
Gl 1:14; 2:16; 2:20; 3:6-14, 23-29; 5:6, 13, 19-21; 6:18

Efésios
Ef 2:8, 10, 12; 3:3-4; 4:11-14, 22

Filipenses
Fp 2:3-4; 3:3

Colossenses
Cl 1:2, 15-19; 2:9; 2:20-23; 3:10; 4:13; 4:16

1 Tessalonicenses
1Ts 5:3, 24

1 Timóteo
1Tm 2:1-2; 2:9, 15; 4:14; 6:20-21

2 Timóteo
2Tm 3:5, 12

Tito
1:13

Hebreus
Hb 1:1-3; 4:6-7, 15; 5:11-6:3; 6:4-8; 10:22, 26-31, 11:6; 13:12-13

137
A ú lti m a ig reja d o A po c alipse

Tiago
Tg 1:6, 21, 25; 2:16-24; 3:2; 4:17

1 Pedro
1Pe 1:7

2 Pedro
2Pe 1:16; 3:9

1 João
1Jo 1:8-10; 2:15; 3:4, 6, 9, 18, 20; 4:8

Judas
Jd 20-23

Apocalipse
Ap 1:1, 3-5, 7, 11-20; 2:1-2, 7-13, 18-20, 29; 2-3; 3:1, 4-6, 8, 13, 14-22;
5:14; 6:1-17; 7:9, 12-14; 8:1-9, 21; 11:15-19; 12:11; 13; 13:1-8; 14:6-12;
15:2-3; 16; 16:15; 17; 17:1-18; 19:8, 13-14; 21:5, 8; 22:6, 8-9, 22:14, 21

138
A carta de Jesus Cristo à igreja de Laodiceia, registrada no livro de
Apocalipse, contém uma repreensão intrigante. O Senhor aponta a
mornidão dessa igreja como algo que lhe causa náuseas e quase
lhe faz vomitá-la de sua boca. +

Em A Última Igreja do Apocalipse: A Repreensão de Jesus Cristo


à Igreja de Laodiceia, o leitor encontrará uma análise ampla a
respeito do sentido e das implicações daquilo que o Senhor disse
sobre essa igreja e que pode representar aquilo que eu e você
precisamos ouvir hoje, no século 21. +

Este livro tem como objetivo conduzir o estudante da Palavra de


Deus a encarar alguns aspectos da revelação que contém
repreensões fortes, porém necessárias, para que a relação entre
o Senhor e a igreja caminhe na direção da vontade de Deus. +

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