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Curso de Estruturas – Estruturas rígidas – Eldon L. Mello – PhD – 6.

ESTRUTURAS RÍGIDAS
VIGAS ARTICULADAS

Resgate na ilha do bananal

Nosso monociclista se viu encrencado na famosa ilha do bananal. Ela tem 70km de largura!
É que as monovias das duas margens teriam sido destruídas por uma tsunami!. Uma
operação de resgate foi planejada pelos engenheiros da ilha. Não havia tempo para um
projeto mais detalhado. Verificaram que os dentes da bi-aquim estavam intactos. Se
lembraram de que dispunham de duas vigas rígidas, também dentadas e sem peso. A
primeira opção foi engastá-las em contrafortes nas duas margens do rio Araguaia.
Utilizariam, então, duas balanquins dentadas.

a P b Resistência é o que
Você já foi apresentado à 0aL
não falta à bi-aquim.
bi-aquim ao lado. A b  La
L Nem aos seus
diferença é que ela tem B C dentes!
dois dentes.
Pb/L Pa/L

(Pb/L)L1 Pb/L Pa/L (Pa/L)L2


A L1 B Ações C L2 D
equivalentes
Pb/L Pa/L

Antes da operação de montagem, os engenheiros fizeram uma simulação para calcular as


reações das balanquins sob a ação da bi-aquim. Inverteram os sentidos das reações de apoio
da bi-aquim e as aplicaram nas extremidades das balanquins. Os engenheiros denominam
essas forças de ações equivalentes.

As extremidades livres das balanquins não sofrerão movimentos verticais (deslocamentos)


porque as balanquins são rígidas. Isso veio a calhar porque os apoios da bi-aquim são
também rígidos. Com a goiabada e o queijo na mão! O monociclista apeou da bi-aquim
para as operações de montagem – como recomenda a Engenharia de Segurança.

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a P b
(Pb/L)L1 (Pa/L)L2
L1 L L2
0aL
Pb/L b  La Pa/L

Os engenheiros sabiam que as reações, as anotadas nos engastes, seriam válidas enquanto o
monociclista estivesse sobre a bi-aquim - a parte central da monovia. Quando P estivesse
sobre uma das balanquins, as reações seriam diferentes - mas não maiores que as da
situação anterior. Haviam feito as seguintes simulações.

a1 P a2 P b2
P  a1 P  b2
L1 L2
b2  L2  a 2
P P
Carga sobre AB Carga sobre CD

Vigas assim articuladas são conhecidas como Vigas Gerber, em homenagem ao seu
idealizador. Não se sabe se ele teve a oportunidade de construí-las. A construída na ilha do
bananal foi a Gerber.quim – a Gerber rígida e sem peso.

(Pb/L)L1 rótula a P b rótula (Pa/L)L2


Carga P no vão
L
central da viga
L1 0aL L2
Gerber.quim.
Pb/L b  La Pa/L

Você notou que a bi-aquim e as duas balanquins formam três subconjuntos da


Gerber.quim? Que a técnica utilizada para os cálculos foi meramente a de estabelecer as
condições de equilíbrio em cada um dos subconjuntos?

Articulações do tipo da viga Gerber são freqüentes nas estruturas de madeira e de concreto
(armado ou protendido). Vigas pré-moldadas de concreto armado podem ser vistas nos
edifícios residenciais da Colina Velha no campus da UnB. São visíveis externamente.

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Elas podem permitir um movimento longitudinal (embora limitado) entre trechos da viga -
a resistência à força normal poderá ser nula ou desprezada nos cálculos. Também, o
movimento de rotação entre as seções transversais é praticamente livre - a resistência à
flexão será muito pequena ou nula. As rótulas simbolizam momento fletor resistente nulo.

Você viu que os esforços solicitantes e as reações variam quando o monociclista atravessa a
“ponte”. Você poderá fazer um gráfico para cada um dos esforços solicitantes, e para cada
uma das reações também. Os engenheiros denominam esses gráficos de Linhas de
Influência.

Linha de influência da
reação VA para a carga P P
passeando sobre a L1 B L C L2 D
Gerber.quim VA

Linha de influência da
MA PL1
reação MA para a carga
P passeando sobre a L1 B L C L2
Gerber.quim D

Linha de influência do
momento fletor no B C
centro de BC para P L1 L2 D
passeando sobre a
Gerber.quim PL/4

Interessante, não? Como dever-de-casa você fará, por obséquio, os gráficos dos outros
esforços solicitantes e das outras reações. Suas expressões já estão disponíveis. Mãos à
obra. Oportunamente, você verá que as Linhas de Influência podem ser obtidas via
cinemática. Não se preocupe - será mais fácil que fazer pão-de-queijo!

Todos os esforços internos e externos (reações) puderam ser inequivocamente calculados


pelas aplicações das condições de equilíbrio estático. Estruturas rígidas com essa
característica são denominadas de estaticamente determinadas ou isostáticas.

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A seguir, nosso monociclista fará um passeio numa Gerber.quim estaticamente


indeterminada. Vejamos suas impressões.

A Gerber.quim-2

Na Gerber.quim ao lado, a bi-aquim foi


suprimida. As duas balanquins foram y
ligadas por meio de uma única MA x P MD
articulação B-C. Como na anterior, ela B-C
não oferece resistência ao momento e L1 L2
nem ao normal. Resiste apenas ao esforço VA VD
cortante.

A articulação B-C não resiste à força normal. Isso significa que a força normal solicitante
na articulação deverá ser nula. Em decorrência, as reações horizontais serão nulas também.
Por essa razão elas não foram representadas no esquema de forças.

Embora pareça mais simples que a anterior, não é. As aparências enganam! Quando a carga
P estiver sobre a articulação B-C haverá uma indeterminação: quais serão as forças
cortantes em B do trecho AB e em C do trecho CD? A mesma indeterminação ocorrerá
quando P estiver sobre um dos trechos. Veja o desenlace a seguir.

 Condições globais de equilíbrio estático

VA  VD  P

M A  M D  VD  L  P x 0xL

Os recursos de linguagem da madame são poderosíssimos e esclarecedores. A linguagem


matricial é um desses recursos. Ela permite expressar determinadas propriedades que não
seriam possíveis ou inteligíveis no dialeto (sic) algébrico. Vamos traduzir as duas
condições algébricas de equilíbrio para a linguagem matricial. Embora essa tradução não

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seja necessária nesse caso simples, ela será útil para você ir se acostumando com a notação
matricial.
 VA  y
V  MA x P MD
1 1 0 0   D   1  P B-C
0 L 1 1 M A   x 
  L1 L2
 
M D  VA L = L1 + L2 VD

Como a matriz é retangular, duas linhas e quatro colunas, não é possível expressar as quatro
reações em função da carga P.

 Momento resistente nulo na articulação

A condição de força normal nula na articulação da Gerber.quim não depende da posição da


carga P. Já a condição de momento solicitante nulo depende da sua posição. Deverá ser
estabelecida por meio de subconjuntos que interceptem a articulação. A seguir vamos supor
que a carga esteja sobre o trecho AB. Como dever-de-casa, você a considerará sobre CD.

y
x  L1 seja: x  a 1 a1
MA P MD
Para o subconjunto indicado, a
condição de momento nulo na L1 L2
articulação será: VD  L 2  M D  0 VA L = L1 + L2 VD

V 
1 1 0 0 A 1 Uma terceira linha foi acrescentada para a
0 L 1  1  D    a 1  P
V condição de momento nulo na articulação.
 M  A matriz é retangular de 3 linhas e 4
0 L 2 0  1  A   0  colunas.
M D 

Ainda não é possível expressar as quatro reações em função da carga P. Como não há
outras propriedades a acrescentar, a solução será indeterminada. Dizemos que a
Gerber.quim é estaticamente indeterminada, ou hiperestática. Será necessário reduzir o
número de reações, se quisermos encontrar uma solução para a Gerber.quim.

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1 1 0  VA   0  1 A madame permite expressar VA, VD e MA


0 L 1  V    1 M   a  P em função de P e MD. Mas a Gerber.quim
  D    D  1 terá de pagar um preço por isso! Aguarde e
0 L 2 0 M A   1  0 
verá.

y
1 1 0  VA  0 1
0 L MA a1 P
 1  V   1  M   a  P
 D    D  1
MD
0 L 2 0 M A  1  0  L1 L2
VA VD

 VA   1  1/ L 2   VA   1 1 
V   0  P   P 
 D  1 / L 2  M 
V   0
 D  1  M / L 
M A  a 1  L1 / L 2   D M A  a 1  L1   D 2

O preço foi sua mutilação. O engaste em D teve se ser transformado num apoio simples.
Em compensação, ela aceitará que você aplique o momento MD no apoio. Se não quiser,
poderá fazê-lo igual a zero. Todos os esforços internos poderão ser calculados também. De
estaticamente indeterminada, a nossa Gerber.quim se transformou numa estaticamente
determinada, ou isostática. Como a Gerber.quim é rígida, nosso monociclista nem percebeu
a transformação!

E por falar em transformação, as relações matriciais acima são transformações lineares.


Você pode escrever a última delas assim:

 VA   1    1/ L 2   VA   1   1 
 V    0 P   1/ L M  V    0 P   1 M / L
 D    2  D  D     D 2
M A  a 1   L1 / L 2  M A  a 1   L1 

Essa forma torna explícita a superposição das reações. As reações para o equilíbrio da carga
P são somadas às reações para o equilíbrio do momento aplicado MD. As estruturas rígidas
aceitam pacificamente o princípio da superposição dos efeitos. Melhor que isso...

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A Gerber.quim-3

Inesperadamente o apoio D cedeu. Por y


sorte o monociclista encontrava-se MA a1 P
B-C
sobre o trecho AB, que permaneceu L1 L2
c
intacto. Os engenheiros constataram VA
L3
que o engaste não sofreu nenhum dano. VD

Que os dois apoios poderiam resistir a eventuais solicitações horizontais. Que a articulação
ainda não oferecia resistência ao momento solicitante e que seu trecho sobre AB continuou
a não resistir ao esforço normal. A reação horizontal em A continuará nula e,
conseqüentemente, a horizontal em D também.

Mediram o desnível e encontraram o valor „c‟. Como os trechos da Gerber.quim são


rígidos, o comprimento de CD permaneceu igual a L2. O apoio D teve de descrever, então,
um arco de círculo centrado no eixo da articulação. Desceu verticalmente e movimentou-se
horizontalmente para dentro. Os engenheiros geotécnicos levantaram a hipótese de uma
ruptura do solo de fundação em D do tipo cunha. Mas, isso não vem ao caso.

y
MA a1 P
O valor de L3 é igual a L22  c 2 , de
modo que resultarão: L1 L2
sen   c / L 2 e cos   L 3 / L 2 . c

VA
O vão da Gerber-quim foi ligeiramente L  L1  L 3 L3
reduzido e passou a ser igual a L. VD

 Condições globais de equilíbrio estático


VA  VD  P
M A  VD  L  P a 1

 Condição de momento resistente nulo em B-C


VD  L 3  0 VD  0

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Logo, as condições estáticas serão:

VA  P VD  0 M A  P a1

Você fará a simulação com a carga P sobre o trecho inclinado. Mãos à obra. Em tempo – o
que acontecerá se o engaste não mais resistir ao momento solicitante em A? Deveremos
resgatar imediatamente o monociclista?

A Gerber.quim-4

Os vãos das três estruturas são iguais.

As articulações nas três Gerber.quins são


exatamente iguais. Elas resistem aos esforços P
normais e cortantes. Não resistem ao momento
solicitante. P

Quais são os esforços internos e as reações nas


três?

Se as barras da primeira pudessem sofrer P


encurtamento (uma pseudo-Gerber.quim), sua
geometria poderia tender para a segunda? E desta
para a terceira?

Bi-aquim e Gerber.quim.poli – Entretenimento 1

Gerber.quim.poli é uma viga Gerber, rígida e sem peso e de forma poligonal. Só existe no
reino da madame.

Você deve se lembrar de que podemos moldar um corpo rígido na forma que quisermos.
Afinal, quem é que manda?

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As duas vigas têm vãos iguais. Os apoios são


rígidos e fixos. P P
a b a
As articulações da Gerber.quim.poli resistem aos 1 2 C 3 4
esforços normais e cortantes. Não resistem a A B
momentos solicitantes. São muito obedientes. P P
c d d
b
Seja determinar seus esforços internos e reações. 1 4

Bi-aquim:
VA  VB  P HA  HB  H {indeterminadas}
N1  N 2  N 3  N 4  N C  H {indeterminados}

Q1  Q 4  P Q 2  Q3  Q C  0

M1  M 2  M 3  M 4  M C  P  a
Gerber.quim.poli:
VA  VB  P HA  HB  P a / c
N1  N 4  P d / c N 2  N3  NC  P a / c {todas de tração}

Q1  Q 2  Q 3  Q 4  Q C  0 M1  M 2  M 3  M 4  M C  0

Bi-aquim e Bi-aquim.poli – Entretenimento 2

Bi-aquim.poli, é uma viga bi-apoiada, rígida e sem peso e de forma poligonal. Nem é
preciso dizer que ela só pode ser encontrada no reino dela.

Há duas diferenças do entretenimento


P P
anterior: a)os apoios B podem se a b a
movimentar livremente na horizontal. Não
mais resistem às solicitações horizontais – 1 2 C 3 4
a reação horizontal em B é identicamente A B
nula. Atrito zero! Melhor que isso...b)as P P
c d d
conexões dos três trechos são rígidas. b
1 4
Resistem a qualquer coisa!

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Bi-aquim:
VA  VB  P HA  HB  0
N1  N 2  N 3  N 4  N C  0

Q1  Q 4  P Q 2  Q3  Q C  0

M1  M 2  M 3  M 4  M C  P  a

Bi-aquim.poli:
VA  VB  P HA  HB  0
N1  N 4  P c / d {tração} N 2  N3  NC  0

Q1  Q 4  P a / d Q 2  Q3  Q C  0

M1  M 2  M 3  M 4  M C  P  a

Bi-aquim.F e Bi-aquim.poli.F – Entretenimento 3

Agora vamos submeter as cobaias do entretenimento-2 a uma força axial de compressão.


Esse entretenimento pode ser útil para nos dar um insight do comportamento de vigas
protendidas e de pilares.

P P
a b a P P
F F
1 2 C 3 4 c d d
b
A B 1 4

bi-aquim.F bi-aquim.poli.F

Bi-aquim.F
HA  F VA  VB  P
N1  N 2  N 3  N 4  N C  F {compressão}

Q1  Q 4  P Q 2  Q3  Q C  0

M1  M 2  M 3  M 4  M C  P  a

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Bi-aquim.poli.F
HA  F VA  VB  P
N 2  N3  NC  F {compressão}

N1  N 4  (P  c  F  a ) / d {depende}
Q1  Q 4  (P  a  F  c) / d Q 2  Q3  Q C  0

M1  M 2  M 3  M 4  M C  P  a  F  c

Esses entretenimentos no reino da madame inspiram os pesquisadores doutores na


interpretação dos resultados de ensaios de vigas bi-apoiadas no reino da madame Physique.
Divertir é preciso! São poincarianos na elaboração de modelos para explicar o
comportamento dos materiais reais. Os entretenimentos são do tipo „8 ou 80‟. No do tipo
„8‟ você ordena que os apoios rígidos sejam imobilizados – atrito total!.Já no do tipo „80‟
você exige que seja dada liberdade total de movimento horizontal a um deles – atrito zero!
Pronto, você não pode exigir mais nada quanto aos apoios. Poderá exigir conexões também
do tipo „8‟ ou „80‟. Nada mais. Se os materiais vão concordar, é outra história. Torcerá para
que aceitem uma solução intermediária – a do tipo „44‟. Torcerá para que aceitem uma
interpolação, linear ou não.

Dever-de-casa: Verificar o que acontecerá quando „c‟ tender para zero, nos três
entretenimentos. Interpolar é relativamente seguro? Por via das dúvidas os engenheiros não
abrem mão dos coeficientes de segurança. Nem nas estruturas da indústria mecânica e nem
nas da construção civil. O seguro morreu de velho!

 Flexão pura – quando numa determinada seção transversal existe apenas o momento
fletor. Aponte os trechos sob flexão pura nos três entretenimentos.
 Flexão simples – quando uma seção está sob a ação do momento fletor e da força
cortante. Aponte os trechos de flexão simples.
 Flexo-compressão – quando uma seção está sob a ação do momento fletor e da força
normal de compressão. Aponte os trechos de flexo-compressão (também denominada de
compressão excêntrica).

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 Flexo-tração – quando uma seção está sob a ação do momento fletor e da força normal de
tração. Aponte os trechos de flexo-tração (tração excêntrica).

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