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VIOLÊNCIA DE GÊNERO,

LINGUAGEM E DIREITO

Análise de Discurso Crítica


em Processos na Lei Maria da Penha
VIOLÊNCIA
DE GÊNERO,
LINGUAGEM
E DIREITO
ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA
EM PROCESSOS NA LEI MARIA DA PENHA
Conselho Editorial
Andrea Domingues
Benedita Cássia Sant’anna
Carlos Bauer
Cristianne Famer Rocha
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©2013 Lúcia Freitas; Veralúcia Pinheiro


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permissão da editora e/ou autor.

F884 Freitas, Lúcia; Pinheiro, Veralúcia.


Violência de Gênero, Linguagem e Direito: Análise de Discurso Crítica em
Processos na Lei Maria da Penha /Lúcia Freitas; Veralúcia Pinheiro.
Jundiaí, Paco Editorial: 2013.

164 p. Inclui bibliografia.

ISBN: 978-85-8148-134-0

1. Lei Maria da Penha 2. Violência contra a Mulher 3. Análise de Discurso


4. Feminismo. I. Lúcia Freitas II. Veralúcia Pinheiro.

CDD: 340
Índices para catálogo sistemático:
Direito 340
Processo Social 303
Sociolinguística 306.44

IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Foi feito Depósito Legal

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Agradecimentos
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tec-
nológico - CNPq, pelo financiamento da pesquisa.
À Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação – PrP da UEG,
pelo apoio institucional.
À Diretora da UEG Unidade de Jaraguá, Professora Iraí Cor-
deiro Guerra Silva, pelo apoio ao projeto.
À professora Carmen Rosa Caldas-Coulthard e ao Professor
Osmar Domingos de Barros pela colaboração acadêmica.
A Wilma Pimentel de Moraes Carvalho, Rafaela Calixto de
Oliveira, Ângela Márcia da Cruz Arruda Chaves, Maria Eduarda
Sussekind Rocha Vieira de Freitas e Paulo Afonso Hernandez, pelo
apoio logístico e colaboração.
Às médicas, médicos, agentes de saúde, operadoras e operado-
res do Direito da cidade de Jaraguá, pelas entrevistas concedidas.
À juíza de direito, presidenta do Fórum da Comarca de Jara-
guá-GO, Mariana de Azevedo Lima, pela autorização de acesso aos
processos da Lei Maria da Penha.
Prefácio
No momento em que escrevo este texto, discuto com minhas
colegas da Universidade Federal de Santa Catariana um caso recen-
temente ocorrido com uma aluna de Pós-Graduação do curso de
Pedagogia que foi agredida por seu namorado, professor e chefe do
Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Educação, e
ironicamente, membro de um Comitê de Ética da mesma institui-
ção. Ela relata:
“Na noite de quinta-feira (15/11/2012), entre 18h e 22h da
noite, no apartamento dele, fui agredida. Levei um soco no olho
esquerdo sem motivo”.
Ainda menciona seu medo em relatar o ocorrido devido à sua
relação de inferioridade com o professor: ela uma aluna, ele um
acadêmico renomado. Depois de alguma hesitação, no entanto,
a aluna vai à Delegacia de Mulheres para registrar o Boletim de
Ocorrência da agressão sofrida. Lá, foi recebida por um agente que
lhe disse que deveria aprender a se defender sozinha. Em outra de-
legacia, onde também foi dar queixa, o policial que a atendeu, nem
tinha conhecimento da “Lei Maria da Penha”.
Ao denunciar seu caso para suas e seus colegas estudiosas/os
das relações de gênero da UFSC, a aluna, que também é jornalista,
expressa sua indignação ao dizer: “Comprovei que mulheres fra-
gilizadas são muito maltratadas pelo sistema e, por isso, sentem-se
intimidadas e relutam em seguir com a denúncia”.
Outros dados salientam ainda mais a imensidade do problema da
violência de gênero no Brasil: números do Anuário das Mulheres Bra-
sileiras 2011, divulgado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres e
pelo Dieese, mostram que quatro entre cada dez mulheres brasileiras
já foram vitimas de violência doméstica (http://www.brasil.gov.br/so-
bre/saude/saude-da-mulher/violencia-contra-a-mulher).
Ainda, de acordo com o Mapa da Violência de 2012 publica-
do pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos e pela
Faculdade Latino-Americana de Ciências Social, 70 mil casos de
violência contra mulheres foram registrados no Brasil em 2011.
Num ranking de 87 países onde as mulheres são mais assassinadas,
o Brasil se coloca no sétimo lugar.
O caso mencionado acima, ocorrido entre pessoas supostamente
educadas, assim como os dados das agências, exemplificam a impor-
tância do presente livro Violência de Gênero, Linguagem e Direito:
Análise de Discurso Crítica em Processos na Lei Maria da Penha, de
autoria de Lúcia Freitas com a colaboração de Veralúcia Pinheiro.
Nesta obra, as autoras conflagram 3 áreas de extrema importân-
cia para os estudos das Ciências Sociais: Discurso, Gênero e Direito.
Resultado de uma extensa e elaborada pesquisa de campo, Lú-
cia e Veralúcia demonstram que a violência de gênero, ainda impul-
sionada por uma ideologia patriarcal onde a mulher é inferior ao
homem, é um grande problema em nossa sociedade pós-moderna
e precisa ser combatida de todas as formas. A obra salienta, de ma-
neira cuidadosa e competente, as interseções entre o fazer, o social,
as ideologias e os discursos que materializam estas ideologias, prin-
cipalmente as de ordem jurídica.
Como prova o principal argumento que perpassa todo o li-
vro, é pelas estruturas discursivas que as práticas sociais são rea-
lizadas, já que o discurso constitui a realidade e é construído ao
mesmo tempo por ela.
Nas ciências sociais, muita relevância é dada a fatos e a teorias,
mas pouco importância é dada à questão linguística e discursiva,
que estrutura tudo o que é representado no nível do social.
O principal arcabouço teórico adotado na argumentação do li-
vro provém dos novos estudos críticos do discurso, que pretendem,
em essência, desconstruir discriminação, exclusão e relações assimé-
tricas. Para a Análise Crítica do Discurso ou Análise de Discurso
Crítica, como denominam as autoras, a prática linguística é o princi-
pal meio pelo qual os processos sociais operam e não como um con-
junto isolado de significados ou formas textuais A diversidade social
e institucional é estabelecida e perpetuada através da diversidade no
uso linguístico, ou nas diferentes “maneiras de falar ou representar o
mundo”. O enfoque crítico tenta não simplesmente descrever, mas
também interpretar e explicar diferentes formas de comunicação em
seus contextos sociais, já que para uma analista crítica do discurso,
o código linguístico deve ser considerado como parte integrante do
processo social. A própria análise já é considerada interpretação, pois
a/o analista faz parte do processo interativo.
As relações de poder, como a violência de gênero, são codifi-
cadas pela linguagem, e causam seu efeito sobre a prática social.
Como apontam as autoras, o relacionamento entre interação, pers-
pectiva e ideologia, são a principal preocupação da pesquisa que
tenta abordar as ideologias do fazer legal e das práticas de agressão
contra a mulher.
Em suas análises das narrativas de violência, as autoras com-
provam que os textos analisados têm em sua forma discursiva claras
implicações políticas e ideológicas, as quais refletem posições do/a
produtor/a textual assim como da instituição legal a que julgam
finalmente os/as atores/as sociais envolvidos.
O objetivo principal da análise crítica aqui apresentada é o de
expor a discriminação e os abusos do poder nos discursos da lei
para que as pessoas possam ter consciência das assimetrias sociais
provadas por esses textos. Pretende também apontar como dis-
cursos dominantes e preconceituosos são transmitidos através do
código linguístico e, assim fazendo, criar uma consciência crítica
nos/as leitores, os/as quais, como agentes, podem iniciar mudan-
ças sociais. Na medida em que estruturas agem em detrimento de
grupos, como neste caso das mulheres violentadas, a análise espera
proporcionar mudanças e transformação não somente das práticas
discursivas, mas também das práticas e estruturas sociopolíticas
que produzem essas práticas discursivas.
Por sua apresentação cuidadosa e por sua arguição perspicaz
e inovadora, recomendo o livro Violência de Gênero, Linguagem
e Direito: Análise de Discurso Crítica em Processos na Lei Maria
da Penha como um precursor importantíssimo na iniciante área
interdisciplinar de pesquisa em Discurso, Gênero e Direito, a qual
tem como objetivo principal produzir uma conscientização social
mais atuante e erradicar a violência de gênero de nossa sociedade.
Finalizo com as palavras proverbiais da aluna agredida da UFSC:

A violência só tem cara a partir do momento em que escan-


caramos sem anseios de seguir em frente. Ser mulher em uma
sociedade patriarcal e machista, que trata a diversidade como
doença mental não é uma tarefa fácil. Mas as mudanças só
acontecem quando estamos dispostas. A minha disposição
é grande e constante. Perene. Nesse momento, preciso de
apoio. É o pedido mais franco e desarmado que faço a todas e
a todos. Outras pessoas calaram diante de casos parecidos. Fa-
lar (e escrever) é o que sei fazer. Faço disso frente de uma luta.

Carmen Rosa Caldas-Coulthard

Professora Titular dos Programas de Pós-Graduação em Inglês e Estudos da


Tradução da Unziversidade Federal de Santa Catarina
Pesquisadora Sênior do Department of English,
University of Birmingham, Grã-Bretanha.
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO...................................................................................15

PARTE I – SITUANDO O PROBLEMA E SUA ABORDAGEM

1. Violência de gênero, violência contra a mulher: de que


violência falamos?..................................................................................23
2. O enfoque da Análise de Discurso Crítica...................................31
3. Os processos na Lei Maria da Penha como sistema de gêneros..34
4. Os significados resgatados dos autos: ação, representação
e identificação.........................................................................................41
4.1 Boletim de ocorrência e Termo de Representação.............43
4.2 Inquérito Policial.....................................................................46
4.3 Denúncia e Termo de Audiência e Suspensão.....................53

PARTE II – A RECUPERAÇÃO DAS HISTÓRIAS DE


VIOLÊNCIA PELOS AUTOS PROCESSUAIS

1. O terror após a separação.................................................................65


1.1 Comprei uma arma e vou te matar!.......................................66
1.2 Deixo você no escuro, jogo pedras no seu telhado e
depois te mato .................................................................................66
1.3 Destruição material e espiritual: pedras no telhado e
tapas seguidos de chutes.................................................................67
1.4 Vou ensinar a não me fazer de palhaço!................................67
1.5 Vou comprar uma arma pra te matar e quem estiver
com você............................................................................................68
2. Ciúme doentio...................................................................................68
2.1 Uma mordida na boca..............................................................69
2.2 A garota arrastada pelos cabelos por quatro quarteirões...69
2.3 Vou arrancar dente por dente seu até você estrebuchar
no chão! ............................................................................................70
2.4 Um passeio de carro na estrada .............................................70
3. Alcoolismo.........................................................................................71
3.1 Uma mordida na mão..............................................................72
3.2 Não mate a minha mãe!...........................................................72
3.3 Briga no bar................................................................................73
3.4 Vou te cortar com a faca de baixo para cima,
começando pela...! ...........................................................................73
3.5 Carnaval......................................................................................74
3.6 Você não faz comida porque está na rua com
outros homens! ................................................................................74
4. Brigas em que os filhos são pivôs, vítimas ou agressores............75
4.1 Fraldas para o filho....................................................................77
4.2 O recibo da pensão...................................................................77
4.3 As roupas da filha......................................................................78
4.4 Um soco na barriga da filha grávida......................................78
4.5 Vou te dar um tiro na cabeça!.................................................79
4.6 A mãe agredida pelo filho........................................................79
5. Agressão instrumentalizada.............................................................80
5.1 Uma facada no olho .................................................................81
5.2 Lata de ervilhas...........................................................................81
5.3 O caso da mulher assassinada pelo marido com
15 facadas..........................................................................................82
5.4 A mulher que mata o marido .................................................83

PARTE III – AS PERFORMANCES GENDERIZADAS NAS


CONJUGALIDADES VIOLENTAS

1. Performances de masculinidade hegemônica e machismo......88


2. Performances de amor fati e dominação.......................................96
3. A linguagem simbólica das performances violentas................103
PARTE IV – A PERFORMANCE DOS OPERADORES
DO DIREITO E A TRIDIMENSIONALIDADE DO
DISCURSO JURÍDICO

1. Dualismo discursivo e ação burocrática em


casos de retratação...............................................................................112
2. Conservadorismo, automatismo e banalização no
arquivamento dos processos..............................................................120
3. Suspensão de processos e extinção de punibilidade: a
dimensão coercitiva............................................................................130

CONSIDERAÇÕES........................................................................141

REFERÊNCIAS.................................................................................153
APRESENTAÇÃO
Este livro reúne parte dos resultados do estudo realizado no pe-
ríodo de 2009 e 2010, intitulado Violência contra a mulher em uma
cidade do interior de Goiás: silêncio e invisibilidade? e financiado pelo
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológi-
co (edital MCT/CNPq/SPM-PR/MDA nº. 57/2008). Os termos
Violência de Gênero, Linguagem e Direito, que formam seu título,
nos remetem de imediato à proposta tripartida que ora apresentamos.
O primeiro elemento que encabeça esse tripé, a “violência de
gênero”, constitui o problema central de nosso estudo. Do “direi-
to” buscamos os dados concretos sobre esse problema, a partir de
processos enquadrados na Lei Maria da Penha. Além disso, procu-
ramos apreender de que forma o campo jurídico interpreta os di-
reitos conquistados pela mulher brasileira na contemporaneidade,
uma vez que ele é idealizado como instrumento capaz de promover
a justiça, formado por instituições que têm a função de garantir a
efetivação dos direitos do ser humano como ser livre em cada con-
figuração histórica. E, por fim, na “linguagem”, que ao mesmo tem-
po registra e lida com a questão, concentramos nossas ferramentas
analíticas. A união dessas três áreas independentes é conveniente a
uma abordagem transdisciplinar, que busca superar as limitações
de teorias baseadas em visões fechadas, construídas a partir da
crença na pureza conceitual e na ideia de autonomia de campos do
conhecimento que procuramos romper nesta obra.
Sobre a violência de gênero, é importante lembrar que, embora
ela atinja as relações pessoais em geral, especialmente a de casais,
os dados nos mostram que as mulheres sofrem de forma mais di-
reta e contundente as consequências das relações conflituosas. Daí
o fato de diversas pesquisas utilizarem os termos “gênero” e “mu-
lher” como sinônimos. Não obstante, neste livro, o primeiro termo
é escolhido em função de expressar uma perspectiva de abordagem
mais dinâmica e relacional, que procura captar tanto o processo de

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Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

construção social da feminilidade e da masculinidade quanto a for-


ma como os gêneros se conectam ao fenômeno da violência.
Nos últimos vinte anos, vem ocorrendo na sociedade brasileira
o reconhecimento de que a violência contra a mulher é um pro-
blema de proporções que demandam uma intervenção mais direta
do Estado. Aqui, assim como em outros países, as estatísticas sobre
o perfil das vítimas de violência são muito eloquentes quanto ao
maior grau de insegurança para a população feminina no âmbito
familiar. Segundo Strey (2004, p. 38), “existe uma estimativa de
300.000 mulheres vítimas da violência de seus maridos ou compa-
nheiros cada ano no Brasil”. Essa violência é um tipo de ação que
envolve uma forma de poder extralegal/ilegal, que se utiliza de di-
versas espécies de sujeição e opressão econômica, psicológica, mo-
ral, até as formas de poder selvagem e criminal contra a integridade
física das mulheres.
Essa realidade corrobora para o entendimento de que a violên-
cia contra a mulher é um atentado aos Direitos Humanos, um obs-
táculo ao desenvolvimento e à consolidação plena da democracia,
por isso está entre as prioridades da agenda da Organização das Na-
ções Unidas (ONU), que iniciou seus esforços ainda na década de
1950, com a criação da Comissão de Status da Mulher. Nas últimas
décadas, em decorrência das lutas desencadeadas pelas mulheres,
tem havido uma convergência de interesses de âmbito internacio-
nal e nacional que impõe uma série de metas e ações específicas de
combate a essa forma de violência considerada incompatível com o
próprio projeto de modernidade.
Nessa tarefa, recai sobre o judiciário um papel extremamente
importante, uma vez que o paradigma de um Estado democrático
e de Direito requer dele decisões que satisfaçam a exigência de dar
curso e reforçar a crença na legalidade, entendida como segurança
jurídica. Como as práticas sociais são mediadas pela linguagem e
considerando-se que é substancialmente por meio da linguagem
que o direito se estabelece, é inegável que a união de campos como
Linguística e Direito é propícia ao objeto de estudo que nos pro-

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Violência de Gênero, Linguagem e Direito

pusemos enfrentar. Desse modo, os textos dos processos que cons-


tituíram o corpus de nossa pesquisa, são considerados um material
valioso para uma análise da cultura jurídica. É nessa direção, por-
tanto, que se dirige nosso interesse pelos documentos que regis-
tram as demandas de violência contra a mulher enquadradas na Lei
Maria da Penha.
A violência e a opressão contra a mulher tem se tornado mais
visível no Brasil. As mudanças determinadas pela Constituição Fe-
deral de 1988 têm exercido grande influência na sociedade, alte-
rando as condutas tanto dos agentes públicos quanto dos próprios
indivíduos envolvidos em relações dessa natureza. Todavia, con-
trariando essa tendência de maior visibilidade sobre o problema,
constatamos que na cidade onde trabalhamos como professoras e
pesquisadoras, em um campus da Universidade Estadual de Goi-
ás, esse tipo de violência não era claramente percebido e nem exis-
tiam estudos a esse respeito. Embora muitas pesquisas tenham sido
publicadas sobre o tema (Almeida, 2001; Azevedo, 1985; Fausto,
1984; Gregori, 1993; Grossi e Werba, 2001), dando-lhe maior visi-
bilidade, permanece ainda uma lacuna no que se refere às mulheres
do interior, posto que as pesquisas em geral retratam o universo das
mulheres que residem nas capitais ou grandes cidades. As pequenas
cidades e suas respectivas instituições raramente são contempladas
por estudos que se propõem a desvendar processos de continuida-
de ou ruptura com valores, visões de mundo que conduzem quase
sempre à violência, seja ela física, moral, sexual, etc. Assim, o foco
sobre a cidade de Jaraguá, que é tomada neste estudo como refe-
rencial para a compreensão da violência contra a mulher, provê um
ponto de visão diferenciado sobre a problemática.
Ao focarmos o objeto de estudo no contexto local desse muni-
cípio, impomos um recorte da realidade do interior do estado de
Goiás, que a exemplo de outros contextos brasileiros, é marcado
por uma formação cultural e política a partir da atuação de gru-
pos oligárquicos, constituídos com base em famílias patriarcais. A
cidade escolhida é um exemplo típico dessa origem, carregando,

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Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

por isso mesmo, uma herança cultural autoritária que, certamen-


te, ainda exerce influência nas práticas sociais de parte significativa
da população, especialmente em relação à mulher no espaço fami-
liar. Evidentemente, a urbanização ao longo das últimas décadas
do século XX insuflou uma entusiástica onda de independência
feminina e contribuiu para que a mulher se promovesse em vários
sentidos. Não obstante, a evidência de que o tema da violência con-
tra mulher era silenciado e invisível se constatou, em um primeiro
momento, justamente em meio ao público feminino local, entre
nossas alunas do curso de Pedagogia, futuras professoras. Embora
a violência não seja rara no interior de suas próprias famílias, de-
monstraram quase sempre pouca compreensão em termos legais e
culturais do tema por nós levantado.
Surgiu, então, o interesse em descortinar um quadro de violên-
cia contra a mulher nas relações afetivas no município. Essa é uma
iniciativa que poderia ser tomada a partir de diferentes bases, no
entanto, nossa opção foi abordar o problema a partir de um con-
texto específico, a esfera judicial. Acessaríamos uma realidade que
se encontrava encapsulada em documentos judiciais, guardados
nos arquivos do Fórum local, fora do alcance da maioria das pes-
soas, acessível apenas aos chamados “operadores do Direito”, eles
próprios muitas vezes cegos frente a uma questão que é ofuscada
em meio a um emaranhado de ações judiciais de toda natureza. Ao
adentrarmos esse espaço, deparamo-nos com uma realidade que
envolvia ameaças, vias de fatos que provocaram leões leves e graves
e até assassinatos, além de estupros e outros crimes sexuais. Revela-
va-se aos nossos olhos um quadro de violência bem mais amplo que
o imaginado. Contudo, a Justiça não disponibiliza todos os casos,
especialmente os últimos mencionados, que correm em “segredo
de Justiça”, de forma que, descontados os processos assim enqua-
drados, além dos que estavam nas mãos de advogados e outros que
já estavam arquivados, constituímos um corpus com um montante
que foi possível acessar.

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Violência de Gênero, Linguagem e Direito

Assim, os dados levantados para o livro foram colhidos em


um conjunto de mais de 250 textos de 25 processos penais en-
quadrados na Lei Maria da Penha. A partir desses registros foi
possível depreender um conjunto de histórias violentas, com seus
protagonistas, mulheres e homens agressores, os tipos de ofensas
que cada um desempenha nas cenas denunciadas, bem como o
próprio cenário em que acontecem. Ao mesmo tempo, os textos
ainda indicaram as providências acionadas pelo poder público e
os posicionamentos de seus agentes legais na lida com o proble-
ma. Sobre esses últimos, ainda fizemos algumas entrevistas em
que foram ouvidos juízes e juízas, promotoras e promotores, um
delegado da Polícia Civil e um comandante de Polícia Militar,
além de médicas e médicos e outros agentes de saúde que também
representam a esfera oficial.
Espera-se do poder público, especialmente do judiciário, que
suas decisões satisfaçam a exigência de dar curso e reforçar a crença
na legalidade, entendida como segurança jurídica. O Brasil, como
signatário de vários tratados e convenções internacionais de direi-
tos humanos, tem se comprometido formalmente com o combate
à violência de gênero e com a implementação de políticas voltadas
à garantia dos direitos das mulheres. A Lei Maria da Penha é re-
sultado de um empenho na direção de atender tal demanda. Não
obstante, sua implantação, durante todo o processo, foi alvo de
inúmeros problemas de resistência no meio jurídico. Reconhece-se
ainda a ineficiência e a morosidade desse Poder no trato aos casos
de violência contra a mulher, que para muitos estudiosos da área
(Izumino, 2004; Monteiro, 2003; Pimentel, Pandjarjian e Bello-
que, 2006; Castilho, 2008) é o reflexo da cultura patriarcal e ma-
chista da qual o judiciário brasileiro é impregnado.
Essas evidências tornam o sistema passível de inúmeras críticas
e, conforme declara Izumino (2004), na prática, contrariando sua
função precípua, tem funcionado como instância reprodutora de
desigualdades. É nessa direção, portanto, que se dirige nosso in-
teresse pelos documentos que registram a ação do judiciário com

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Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

relação à violência contra a mulher. O objetivo é estudar o fenôme-


no por uma abordagem transdisciplinar que vincula uma análise
crítica da linguagem jurídica registrada nos processos e as práticas
sociais em que os mesmos se inserem.
Dentro desse norte, o livro se divide em quatro partes. Na pri-
meira, apresentamos os eixos temáticos principais da obra, quais
sejam, violência e gênero, bem como as afiliações teóricas que os
contemplam, a linguagem, captada na Análise de Discurso Crítica,
referencial que é aplicado a Processos da Lei Maria da Penha, dados
situados no campo do Direito. Essas demarcações são esclarecidas
para situar os pontos que ancoram nossas análises e discussões.
Na segunda parte, reconstruímos, a partir dos registros proces-
suais, 25 narrativas de violência. Cada caso, na sua singularidade,
é parte de uma história de vida específica, que em conjunto repre-
sentam uma cronificação do conflito de gênero e, assim, expressam
também significados coletivos sobre o fenômeno. Dispomos as
narrativas recuperadas, que nos remetem a uma espécie de teatra-
lidade trágica, para melhor compreendermos os contextos em que
o fenômeno se localiza, com seus personagens, enredos e cenários
próprios, bem como provemos algumas tipificações.
Na terceira parte, questões sobre conjugalidade violenta são
abordadas tanto na dimensão ideológica, no plano dos discursos,
quanto no plano das ações materiais, enfaticamente reafirmadas
pelos homens e mulheres, protagonistas das histórias. Foram par-
ticularmente analisados os elementos do universo machista que
amparam e sustentam atitudes agressivas entre casais, bem como
os discursos de amor que expressam a cultura e o contexto de nossa
época. Os dois elementos norteadores de nossas reflexões sobre as
conjugalidades, o discurso e a performance, unem-se no sentido de
descrever aspectos simbólicos da violência como uma linguagem
própria de grande poder coercitivo nas relações conjugais.
A quarta parte do livro ocupa-se da discussão sobre como os
operadores do direito atuam nos casos de agressão, ou seja, que pro-
vidências tomam, quais as consequências concretas de suas ações e

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Violência de Gênero, Linguagem e Direito

que conhecimentos e valores sustentam suas defesas, suas acusações


e suas decisões como sujeitos públicos. Exploram-se os principais
desfechos dos processos, quais sejam arquivamentos e suspensões,
captando as dimensões retórica, burocrática e coercitiva do discur-
so jurídico. Nessa direção, levantamos as concepções ideológicas
que subjazem as decisões dos agentes da Lei, operacionalizadas
pelos elementos linguísticos que constroem sentenças, termos de
retratação, alegações finais e outros gêneros forenses por eles ma-
nipulados, e que moldam suas performances na condução dos casos
e nas questões de punibilidade. As análises oferecem um enfoque
linguístico sobre a cultura jurídica contemporânea, com suas ten-
sões e jogos de força que se escondem por trás de uma retórica de
“objetividade”, “neutralidade” e de “transparência”.
Chamamos atenção também para a relevância dos estudos lin-
guísticos na compreensão de problemas sociais como o que ora abor-
damos e que interessam não apenas linguistas, mas profissionais de
diferentes áreas e, no caso desta obra, aqueles envolvidos com o cam-
po das Ciências Sociais, especialmente o do Direito. As análises aqui
empreendidas expõem a instrumentalidade do recorte teórico-me-
todológico da Análise de Discurso Crítica na detecção dos aspectos
de linguagem que permeiam, influenciam ou mesmo determinam
circunstâncias de desigualdade e iniquidade. Nessa medida, reforça-
-se a importância da Linguística Aplicada, como ciência moderna, e
o papel coadjuvante de suas pesquisas e ação pedagógica nos proces-
sos de luta por mudanças sociais.

21
PARTE I
SITUANDO O PROBLEMA E SUA ABORDAGEM
1. Violência de gênero, violência contra a mulher:
de que violência falamos?
Ao nos interessarmos por processos de violência enquadrados
na Lei Maria da Penha, estamos lidando com um fenômeno cuja
complexidade se reflete na própria variedade e polissemia dos ter-
mos que se utilizam para se referir a ele: violência contra a mulher,
violência intrafamiliar, violência conjugal, violência doméstica,
violência de gênero, apenas para citar algumas designações. As
definições da palavra violência agregam significados etimológicos
relacionados a força, transgressão, algo que perturba a ordem, que
excede ou ultrapassa e que revela um descontrole (Ruiz e Mattioli,
2004). Na definição jurídica, violência se dá mediante “constran-
gimento físico ou ficto, exercido sobre a vontade de alguém, para
obrigá-lo a submeter-se à vontade de outrem ou a consentir” (Nu-
nes, 1999, p. 1082). Já a Organização Mundial de Saúde define o
termo como a imposição de um grau significativo de dor e sofri-
mento (Minayo, 2006). Essas definições sintetizam que toda vio-
lência implica em uma imposição dolorosa de poder.
Aqui, nosso objetivo é tratar desse tipo de imposição com re-
lação às mulheres, o que delimita o tema sobre o rótulo de “vio-
lência contra a mulher”. A esse respeito, uma primeira demarcação
é proposta na Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas
sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres (Cedaw), de
dezembro de 1993, segundo a qual:

23
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

A violência contra as mulheres é uma manifestação de rela-


ções de poder historicamente desiguais entre homens e mu-
lheres que conduziram à dominação e à discriminação contra
as mulheres pelos homens e impedem o pleno avanço das
mulheres...

Essa definição está em consonância com a explicação de Strey


(2004, p.24) sobre as raízes do problema:

Parte ou grande parte desse movimento predatório sobre as


mulheres vem da concepção historicamente baseada e sus-
tentada por filosofias, teorias científicas e “humanísticas” e
outros apoios ideológicos patriarcais, de que os homens são
seres humanos superiores, construtores da Cultura e da His-
tória, enquanto que as mulheres são seres inferiores, próximas
à natureza, devendo, portanto, serem submetidas exatamente
como tem sido a Natureza, ou por ordem divina ou por direi-
to conquistado pelos seres humanos do sexo masculino.

Tal compreensão perpassa noções de dominação masculina e


patriarcal, que definem violência contra as mulheres como expres-
são do domínio do homem sobre a mulher, sendo esta historica-
mente vitimada pelo controle social masculino. Os paradigmas da
dominação masculina (Chauí, 1985) e da dominação patriarcal
(Saffiotti, 1994) prevaleceram nas pesquisas sobre violência contra
a mulher nas últimas décadas. Contudo, neste livro, buscamos uma
aproximação com o conceito de “gênero” (Scott, 1986), que tem
direcionado trabalhos mais recentes sobre o tema no Brasil (Strey,
Azambuja e Jaeger, 2004; Araújo e Mattioli, 2004; Izumino, 2004;
Minayo, 2006; Grossi e Werba, 2001; Almeida, 2001).
Esse viés é proposto em função das mudanças que vêm ocorrendo
nos diferentes papéis que assumem mulheres em situação de violên-
cia na atualidade, cuja complexidade torna as noções como patriarca-
do e dominação masculina insuficientes nesse contexto. A especifici-
dade da violência contra a mulher se sustenta sobre uma sujeição que
não é apenas resultado de uma ideologia que se refere à superioridade

24
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

masculina versus a inferioridade feminina (Santos e Izumino, 2005).


Nesse sentido, destacamos uma abordagem de violência contra a mu-
lher não de forma absoluta e estática, mas sim de forma dinâmica e
relacional, embora o termo relacional não implique necessariamente
complementaridade, mas sim, assimetria de poder.
A definição e o uso da categoria de gênero nas pesquisas atuais
associam-se a debates teóricos internacionais e nacionais. Na Con-
venção de Belém do Pará (Convenção Interamericana para Preve-
nir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher, adotada pela
OEA em 1994), por exemplo, ficou definido que a violência contra
a mulher é “qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause
morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher,
tanto na esfera pública como na esfera privada”.
Essa demarcação reflete não apenas o paradigma de gênero como
o paradigma internacional dos direitos humanos que tem influencia-
do mudanças no cenário jurídico-político brasileiro. Tais mudanças
implicam na promulgação de novas leis com vistas a ampliar for-
malmente os direitos das mulheres, como é o caso da Lei 11.340 de
2006, conhecida como Lei Maria da Penha. No texto legal, a violên-
cia contra a mulher é assim definida: “Para os efeitos desta Lei, con-
figura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação
ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento
físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”.
Há nessa redação uma intertextualidade direta com a definição
de violência contra a mulher da Convenção de Belém do Pará. Em
seu Artigo 6o, o texto explicita o paradigma dos direitos humanos:
“violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das
formas de violação dos direitos humanos”. Observa-se, ainda, que a
Lei agrega termos como violência doméstica e familiar e esclarece
essas relações nos seguintes modos:

I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o


espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vín-
culo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas;

25
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade


formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados,
unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa;

III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor


conviva ou tenha convivido com a ofendida, independente-
mente de coabitação.

Essas definições esclarecem as sobreposições entre os termos


violência familiar e doméstica, ambas compreendidas dentro da
violência de gênero. Além de definir os contextos dessa violência, a
Lei, em seu Artigo 7o do Capítulo II, propõe uma espécie de tipifi-
cação das diferentes formas de violência contra mulher, dividindo-
-a em física, psicológica, sexual, patrimonial e moral:

I - a violência física, entendida como qualquer conduta que


ofenda sua integridade ou saúde corporal;

II - a violência psicológica, entendida como qualquer con-


duta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-
-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desen-
volvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações,
comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça,
constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento,
vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chan-
tagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de
ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saú-
de psicológica e à autodeterminação;

III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que


a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação
sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação
ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar,
de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar
qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimô-
nio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação,

26
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule


o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;

IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer con-


duta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou
total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos
pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, in-
cluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;

V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que


configure calúnia, difamação ou injúria.

A Lei Maria da Penha incorpora claramente não apenas a pers-


pectiva dos direitos humanos como, principalmente, a de gênero,
registrando na redação de seu texto que a violência contra a mulher
é “qualquer ação ou omissão baseada no gênero”. O conceito tem
sido utilizado nas ciências sociais em função de propor uma visão
mais aprofundada das relações sociais entre os sexos, captando a
criação inteiramente social das ideias sobre os papéis próprios dos
homens e das mulheres. Nesse sentido, a noção de gênero (Scott,
1986) rejeita explicações biológicas, como aquelas que encontram
um denominador comum para várias formas de subordinação no
fato de que as mulheres têm filhos e que os homens têm uma força
muscular superior. Assim, importa que se estude sob esse conceito,
como a construção social tanto da feminilidade quanto da mascu-
linidade se conecta ao fenômeno da violência.
Tal abordagem defende que estudar as mulheres de forma iso-
lada perpetua o mito de que a experiência de um sexo tem muito
pouco ou nada a ver com o outro sexo (Scott, 1986). Enfatiza-se,
portanto, o papel de homens e mulheres nas relações de violência,
considerando a participação de ambos na produção dos papéis
sociais que a legitimam. Segundo Izumino (2004), a violência de
gênero ocorre normalmente no sentido homem contra mulher,
mas pode ser perpetrada, também, por um homem contra outro
homem ou por uma mulher contra outra mulher. Sob o conceito

27
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

de gênero não se pode compreender o fenômeno da violência como


algo que acontece fora de uma relação de poder.
Para Scott (1986), o gênero é uma forma primária de signifi-
cação das relações de poder, pela qual ele é articulado. O poder,
segundo Foucault (1995), não é algo que possa ser dividido entre
aqueles que o possuem e o detêm exclusivamente e os que não o
possuem e lhe são submetidos, como em uma estrutura hierárquica
rígida, em que há dominantes e dominados. Para o autor, o poder
deve ser analisado como algo que funciona em cadeia, e se exerce
em rede. Nunca está localizado neste ou naquele ponto, não está
exclusivamente na mão de uns ou é apropriado como uma riqueza
ou um bem de outros. Nessa perspectiva, os indivíduos nunca são
alvos inertes e consentidos de poder, são sempre centros de trans-
missão, revezando-se na posição de exercer ou sofrer a sua ação
(Foucault, 1988).
Articulando o conceito de poder de Foucault e o de gênero de
Scott, Izumino (2004) propõe uma alteração no modo de ver os
termos em que se baseiam as relações entre homens e mulheres nas
sociedades, de forma a considerar essas relações como dinâmicas de
poder e não mais como resultado da dominação estática e polariza-
da dos homens sobre as mulheres. Nessa perspectiva, a autora argu-
menta que a violência de gênero não pode ser definida como uma
relação de dominação do homem sobre a mulher, simplesmente.
Ela ainda propõe que a situação de violência conjugal, por exem-
plo, encerra uma relação de poder muito mais complexa e dinâmica
do que a descrita pelo viés da dominação patriarcal.
No tocante ainda à violência conjugal, Santos e Izumino
(2005) compreendem que as mulheres têm autonomia e poder
para mudar a situação na qual porventura se encontrem, conforme
demonstram novos estudos sobre o tema (Izumino, 2004). Nesse
sentido, alerta-se para a necessidade de se relativizar a perspectiva
teórica da dominação-vitimização. Tal relativização é captada pela
expressão “mulheres em situação de violência” proposta por Soares
(1999) e é oportuna, segundo Santos e Izumino (2005), para que

28
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

possamos compreender como não apenas os homens, senão tam-


bém as mulheres, praticam e conferem significado à violência em
específicos contextos socioculturais, já que ambos participam na
produção dos papéis sociais que a legitimam.
Nesse sentido, é importante que se estude como a construção
social tanto da feminilidade quanto da masculinidade está conec-
tada com o fenômeno da violência.
Para captar essa dinâmica, ao construto de gênero (Scott,
1986) é necessário outro enlace teórico, que aqui vinculamos com
as noções de performatividade de gênero (Butler, 2008). Segundo
a proposta de Judith Butler, o gênero se produz por um processo
performático semelhante ao que descreve Austin (1967) em sua
Teoria dos Atos da Fala, no qual o autor demonstra como fazemos
coisas por meio da linguagem e, ao mesmo tempo, o poder que a
linguagem nos aufere na produção de realidades no mundo. É o
que acontece, por exemplo, quando uma juíza ou juiz profere uma
sentença ou proclama uma união matrimonial de duas pessoas.
Esses atos linguísticos geram consequências nos diversos campos
da vida social, criando e transformando a realidade. No que se re-
fere ao gênero, especificamente, Butler (2008) argumenta que seu
caráter performático já se manifesta a partir do momento em que
se pronuncia que um bebê é “menino” ou “menina”. Esse anúncio
determina uma cadeia de atos que visam a moldar o gênero, como
o controle sobre o tipo de roupas que a criança usará, as cores, os
brinquedos, enfim, a forma como o indivíduo viverá sua sexuali-
dade. A enunciação, portanto, de um gênero específico força tal
gênero a existir sob regras e normas, o que leva à criação de toda
uma performance para ele.
Compreendido dessa forma, o gênero está constantemente
sendo construído nas práticas discursivas cotidianas em nossas per-
formances como homens e mulheres, com base em padrões domi-
nantes do que é ser homem ou ser mulher. Isso significa que não
possuímos características de um gênero que existe antes da perfor-
mance, mas produzimos nosso gênero continuamente por meio

29
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

das coisas que fazemos: “o gênero como performance é algo que


o sujeito faz nos posicionamentos que ocupa, nas narrativas que
conta, nos modos de sentar, agir, mover o corpo, aceitar e recusar
parceiros sexuais etc.” (Moita Lopes, 2009, p. 134). Podemos con-
siderar, portanto, que tanto a feminilidade quanto a masculinidade
se engendram em performances que surgem no processo de cons-
trução de significados. Desse modo, é impossível definir a masculi-
nidade ou a feminilidade como construtos unitários e fixos, como
se todos os homens ou todas as mulheres compartilhassem uma
essência e pudessem ser identificados pelos traços, experiências e
interesses comuns a seu gênero.
A concepção de gênero como norma pela qual noções de mas-
culino e feminino são produzidas e naturalizadas permite também,
de forma paradoxal, que o gênero seja o dispositivo pelo qual esses
mesmos termos sejam desconstruídos e desnaturalizados (Butler,
2008). É crescente o número de pesquisas que se tem dedicado a
configurações e performances de gênero que desafiam ideais de fe-
minilidade e masculinidade culturalmente predominantes, como é
o caso dos estudos “Queer” ( Jagose, 1996; Lauro, 2004). Essas pers-
pectivas teóricas têm proporcionado novos focos de visão sobre a
temática das relações de gênero e provido inclusive uma rearticula-
ção nos interesses de estudo, trazendo uma maior problematização
para o termo “homem”, relativamente negligenciado nas pesquisas
do passado. Nesse campo, vale mencionar a contribuição de Ro-
bert Connell (1995), que cunhou a expressão “masculinidades” no
plural, para distinguir o que denomina de masculinidade “hegemô-
nica”, (que corresponderia a um ideal cultural implícito no modelo
patriarcal) e de masculinidades. Estes dois conceitos manteriam
relações de subordinação, cumplicidade ou de marginalização.
O trabalho de Connell (1995) aliado ao de Buttler (2008) tem
iluminado muitas questões sobre a relação entre performance de gê-
nero e violência, discutindo de que forma esta age na constituição
de certas masculinidades. No Brasil, dentre as pesquisas que se li-
gam à temática, vale citar Machado (2001), que busca entender os

30
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

efeitos da construção das categorias de masculinidade em associa-


ção com novas performances de violência a partir das falas de jovens
infratores do Distrito Federal, entre eles agressores de mulheres e
estupradores. Seguindo o mesmo viés teórico, Cecchetto (2004)
analisa as rixas e lutas ritualizadas, presentes nos bailes funk, como
uma performance “guerreira” que se constituiria como elemento
de uma certa masculinidade associada a camadas populares no
Rio de Janeiro. Do mesmo modo, Silva (2009) analisa as músicas
funk que tocam nos celulares de garotos da periferia do sul do país
como uma performatividade pública de masculinidade na qual a
violência é estilizada.
A exemplo desses trabalhos que expressam a tendência atual
dos estudos de violência e gênero, neste livro buscamos uma anco-
ragem nos conceitos de gênero e performatividade e seus vínculos
indissociáveis com questões de linguagem, que são o cerne de nossa
proposta, para analisar o fenômeno da violência contra a mulher a
partir de uma abordagem própria aplicada a textos penais, confor-
me esclarecemos a seguir.

2. O enfoque da Análise de Discurso Crítica


A noção de que as atividades humanas são permeadas pela lin-
guagem é o ponto de partida para que linguistas possam desenvol-
ver trabalhos de interpretação sobre temas sociais como o que ora
se apresenta: a violência de gênero no sistema judicial. Tal investi-
da tornou-se possível a partir de uma concepção que, ao invés de
priorizar categorias formais da linguagem, busca um deslocamento
para o uso efetivo da língua em sociedade e das exigências reais e
imediatas de seus usuários. As linhas de estudo linguísticos que en-
veredaram por esse caminho adotam uma concepção de linguagem
como instrumento de construção do conhecimento e da vida so-
cial (Moita Lopes, 2009; Menezes, Silva e Gomes, 2009; Possenti e
Benites, 2011). Busca-se focar a instância de linguagem que é ope-

31
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

rável tanto no nível linguístico quanto no extralinguístico, pois se


reconhece que aí se encontra o liame que liga as significações de um
texto às suas condições sócio-históricas. Esse âmbito é aqui identi-
ficado nas vias do discurso, considerado capaz de integrar conhe-
cimento linguístico, cognitivo e social, junto com as condições nas
quais as pessoas/falantes interagem. Como o discurso se processa
na interação, nele recai todo o peso da produção social, e, por isso,
ele é considerado como o principal mediador da construção social.
Dentre o extenso campo em que se constituem os estudos de dis-
curso atualmente, nossa proposta se fixa na Análise Crítica do Dis-
curso (Caldas-Coulthard, 2008) também denominada de Análise de
Discurso Crítica (Rezende e Ramalho, 2006), termo que adotamos
abreviado na sigla ADC. Essa linha ampara nosso estudo devido ao
seu aspecto multidisciplinar e seu direcionamento sobre as relações
entre linguagem, poder, dominação, discriminação e controle. A no-
ção de “crítica” significa situar os dados no social e focalizá-los como
práticas linguístico-discursivas, revelando como estas estão imbri-
cadas com as estruturas sociopolíticas mais abrangentes de poder e
de que forma contribuem para a desigualdade social e o domínio de
algumas pessoas sobre as outras. Essas características fazem da ADC
um recurso estratégico em uma proposta de estudo como a presente,
voltada para a violência contra a mulher e o discurso do Direito, am-
bos terrenos que têm no poder uma ancoragem central.
Essa forma de pesquisa social crítica propõe-se a estudar a lin-
guagem como prática social, observando o papel do contexto. Tal
proposta permite unir a análise textual à tradição macrossociológica
de análise da prática social, que se refere às estruturas sociais, assim
como à tradição microssociológica, interpretativa, concebendo a
prática social como atividade em que as pessoas se engajam. A verten-
te proposta por Fairclough (2003) envolve basicamente um enfoque
da gramática na disposição do texto, associando-a ao sentido sócio-
-histórico desse texto e a uma abordagem crítica das práticas sociais
em que ele se insere. O estudo concomitante desses três eixos procura
lançar luz sobre as razões prováveis de certas escolhas na estrutura

32
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

linguística (vocabulário, gramática, estruturas textuais), bem como


desvendar a que interesses essas formas linguísticas se voltam.
Nesse sentido, a aplicação de uma abordagem analítica como a
ADC sobre textos legais é oportuna à tentativa de revelar possíveis
parcialidades escondidas sob a alegada objetividade do discurso ju-
rídico. Tendo em vista a importância do sistema jurídico na vida
das cidadãs e cidadãos, dado ao poder deste de decidir sobre ques-
tões patrimoniais e até sobre a liberdade das pessoas, é bastante re-
levante considerar uma análise mais detida das práticas sociais de-
sempenhadas por meio de sua linguagem própria. Um olhar mais
detido sobre o discurso legal contempla o que Rodrigues (2005, p.
20) sugere: “se (quase) todos os aspectos da nossa vida em socie-
dade estão regulamentados, isto é, organizados em termos legais,
é urgente que prestemos alguma atenção à análise dessa linguagem
que define e estrutura os nossos comportamentos”.
Ao mesmo tempo, conforme alerta Figueiredo (2004), no
discurso legal, como em outros discursos que ilustram um siste-
ma social calcado na assimetria entre os gêneros, a noção de que
a lei sempre promove direitos individuais e sociais é uma questão
complexa, uma vez que o sistema jurídico e as decisões judiciais
tendem a refletir e construir relações assimétricas de poder entre
seus operadores e membros de grupos com menos status social, é
temerária uma visão desse sistema como veículo imparcial do bem
social. Considerando que os agentes sociais não são agentes livres,
mas sim socialmente constrangidos, seus textos acabam expondo
relações ideológicas que os permeiam.
Segundo Fairclough (2003), ideologias são representações de
aspectos do mundo cuja contribuição para manutenção, estabele-
cimento e mudança nas relações sociais de poder, dominação e ex-
ploração, deve ser mostrada. Os efeitos ideológicos dos textos têm
de ser uma prioridade nas análises críticas. A noção de texto que
o autor propõe tem um sentido muito amplo, documentos escri-
tos, impressos ou não, como listas de compras e artigos de jornais
são textos, mas da mesma forma o são transcrições de fala como

33
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

conversas e entrevistas, assim como programas de televisão e pá-


ginas da internet. O autor resume essa ideia, assumindo que texto
é qualquer instância de uso efetivo da linguagem. Dessa forma, a
analista de discurso, na perspectiva crítica, coleta material para a
teorização sobre a sociedade a partir de textos efetivamente produ-
zidos, teorizando a prática da linguagem a partir da noção de que o
próprio enunciado é construído à luz dos aspectos sociais, políticos
e ideológicos que o estruturam. Nessa perspectiva, portanto, signi-
ficado linguístico e ideologia compreendem entidades inseparáveis
e mutuamente dependentes da estrutura social.
Analisar texto sob o enquadre teórico da ADC na linha de
Fairclough significa contemplar simultaneamente forma e sentido
da linguagem, tomando partido de práticas sociais reais e de textos
concretamente produzidos, o que significa o envolvimento de su-
jeitos reais, agindo em uma prática interativa efetiva. Nessa direção,
o autor sugere uma análise de discurso “textualmente orientada”,
que reforça a análise social, essencialmente por incidir sobre exem-
plos concretos de prática e formas textuais e sobre processos de in-
terpretação a elas associados (Fairclough, 2001, p.87).
Assim, para compreendermos os sentidos produzidos sobre a
violência contra a mulher na esfera jurídica, é necessário conhecer a
função e a composição dos textos que são aí utilizados, basicamen-
te os autos dos processos penais, bem como as atividades específi-
cas que estes realizam por meio da linguagem. Para isso, é essencial
captar a noção de texto sob o viés teórico da ADC, como ativida-
de socialmente organizada, na perspectiva de “gênero discursivo”
(Fairclough, 2003) aliada à noção de “sistema de gêneros” (Fuzer
e Barros, 2008), conceitos que serão descritos no próximo tópico.

3. Os processos na Lei Maria da Penha como sis-


tema de gêneros
A palavra gênero é usada neste livro em associação às teorias
sobre construção social de identidades sexuais, como as masculinas

34
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

e femininas, conforme Scott (1986) e Butler (2008). Contudo, o


termo gênero também será usado dentro da noção de “texto” sob
o viés teórico da ADC, como “atividade socialmente organizada
sob alguma instância de linguagem” (Fairclough, 2003). Para fazer-
mos distinção, associamos o termo “gênero social” para o primeiro
e “gênero textual” para o último. De acordo com Fairclough (2003,
p. 65), gêneros textuais “são o aspecto especificamente discursivo
de formas de agir e interagir no curso dos eventos sociais”. Desse
modo, analisar textos em termos de gênero é investigar como estes
atuam em eventos sociais. O material linguístico sobre o qual se
projeta o discurso de violência contra a mulher no contexto pes-
quisado são textos da esfera jurídica, eminentemente, gêneros tex-
tuais que compõem processos do sistema penal. Nesse sentido, é
importante que se compreenda quais são as principais atividades
concernentes a essa esfera, como essas se organizam, quem pode ou
deve realizá-las e por que se apresentam com tal organização.
Segundo Fairclough (2003), uma primeira observação sobre os
gêneros textuais é que eles têm de ser entendidos dentro de suas
abstrações. Narrativa, argumentação, descrição e injunção, por
exemplo, compreendem uma alta abstração, pois são categorias
que transcendem a teia de práticas sociais particulares. Esse nível
de abstração o autor classifica como pré-gênero. Assim, a narrativa é
um pré-gênero, pois várias são as práticas sociais em que se empre-
gam esse modo de organização textual. Nos documentos forenses,
o padrão narrativo prevalece em alguns textos, como os “Termos
de depoimento”, que basicamente registram os relatos de vítimas
e acusados sobre o crime. Esse texto específico é classificado como
gênero situado, em virtude de, como o próprio nome diz, situar-se
dentro de uma prática social específica – nesse caso, a prática de
inquirir e registrar depoimentos em processos criminais. As práti-
cas sociais acionam gêneros de uma forma complexa e, ao mesmo
tempo, criativa, intercalando-os ativamente.
Na órbita penal circula todo um conjunto de gêneros textu-
ais que determinam ações específicas em processos que, em última

35
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

instância, visam à solução de conflitos sociais. O processo penal é


definido por Capez (2005, apud Fuzer e Barros, 2008, p. 48) como
“uma série ou sequência de atos conjugados que se realizam e se de-
senvolvem no tempo, destinando-se à aplicação da lei penal no caso
concreto”. Essa noção é captada pelo conceito de sistema de gêneros
denominado por Bazerman (2005) como os diferentes conjuntos
de gêneros produzidos e utilizados de modo organizado e padroni-
zado por um determinado grupo de pessoas.
No sistema, um gênero segue um outro gênero em uma sequên-
cia regular e em padrões temporais previsíveis, revelando um fluxo
comunicativo típico do grupo que o originou. No subuniverso do
processo penal, a produção dos gêneros que o constituem como
sistema está a cargo dos chamados “Operadores do Direito”. De
acordo com Pimenta (2007a, p. 2029), os operadores do direito são

todos aqueles que atuam na atividade adjudicante: (advoga-


dos, defensores públicos, o representante do ministério pú-
blico); a juíza ou juiz, oficial de justiça, escrivã/escrevente, e
os serventuários da justiça que trabalham nas secretarias das
varas criminais

Isso inclui também a Delegada ou Delegado de Polícia, seus


auxiliares e policiais, muito embora estes não pertençam à comuni-
dade forense, mas sim à comunidade policial judiciária.
Cada sujeito processual atua por meio de textos de sua compe-
tência específica, atendendo a critérios funcionais de determinados
gêneros discursivos. A atuação desses operadores por meio de seus
textos movimenta o sistema de gêneros que constitui o processo
penal. Esse sistema é caracterizado pela disposição dos textos se-
gundo uma lógica preestabelecida por regulamentos especiais que
organizam as atividades a serem executadas pelos operadores. Para
compreendermos melhor a forma e função dos gêneros que cons-
tituem o corpus deste estudo, bem como a sequência em que são
dispostos nos processos, é preciso, antes, pontuar algumas questões
sobre o universo deste trabalho.

36
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

Os processos de violência contra a mulher no Fórum de Jara-


guá são predominantemente de ameaças e lesão corporal. Há casos
de homicídio, mais raros. Estupro e atentado violento ao pudor,
porém, correm em segredo de justiça, o que inviabiliza o acesso das
analistas. Antes da promulgação da Lei Maria da Penha em 2006,
os crimes de lesão corporal e ameaça eram tratados pela Lei no
9.099, de 26 de setembro de 1995, sem nenhuma distinção aos
casos de violência contra a mulher. No âmbito da referida Lei,
eram previstas medidas despenalizadoras, como a suspensão con-
dicional do processo1 e o pagamento de multa, como cesta básica e
outras formas de prestação pecuniária em substituição à pena. Tais
procedimentos visavam maior agilização e facilitação do acesso à
justiça a certos casos de ameaça e lesão corporal, procurando evitar
o início de processos penais que poderiam culminar com a impo-
sição de uma sanção ao agente de um crime tido como de “menor
potencial ofensivo”.
Segundo Campos (2004), o que determina esse potencial é a
centralidade da pessoa na proteção jurídico-penal, assim, as lesões
corporais, por exemplo, são consideradas menos ofensivas ao bem
jurídico “vida” que o homicídio, devendo, portanto, serem trata-
das com menos rigor que este e de forma mais simplificada. Na in-
terpretação da Lei n. 9.099/95, lesão corporal e ameaça, as formas
mais comuns de manifestação de violência doméstica contra as
mulheres, de modo geral, eram crimes de importância diminuída.
Opondo-se a essa minimização da gravidade de ações em que
um agressor põe em risco a saúde de sua família, protegido pela
privacidade do “lar”, o art. 41 da Lei Maria da Penha (11.340/06)
determinou o afastamento da Lei anterior, a fim de tratar com
mais rigor delitos praticados em situação de violência contra a
mulher. Tal afastamento trouxe algumas alterações processuais. O
1
A suspensão condicional do processo é uma forma de solução alternativa para pro-
blemas penais, que busca evitar o início do processo em crimes cuja pena mínima não
ultrapassa um ano, quando o acusado não for reincidente em crime doloso e não esteja
sendo processado por outro crime.

37
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

primeiro passo, segundo o art. 12 da nova Lei é: “ouvir a ofendida,


lavrar o boletim de ocorrência e tomar a representação a termo, se
apresentada”. A Lei Maria da Penha não afirma que a ação penal
pública a respeito de violência doméstica tem natureza jurídica
“incondicionada”, ou seja, que pode ser proposta independente-
mente da vontade da vítima. Assim, é necessário que esta “repre-
sente” formalmente contra seu agressor, a fim de que o Ministério
Público possa tomar as medidas penais necessárias. A Lei prevê o
direito de renúncia à representação, caso a vítima assim o deseje,
mas somente perante a juíza ou juiz, em audiência especialmente
designada com tal finalidade.
Uma vez tomadas essas primeiras medidas, cabe então às auto-
ridades policiais colher todas as provas que servirem para o escla-
recimento do fato e de suas circunstâncias. A qualquer momento,
nessa fase ou na instrução criminal, caberá a prisão preventiva do
agressor. A Lei ainda estabelece que, uma vez recebido o expedien-
te com o pedido da ofendida, caberá à juíza ou juiz: I - conhecer
do expediente e do pedido e decidir sobre as medidas protetivas
de urgência, no prazo de quarenta e oito horas; II - determinar o
encaminhamento da ofendida ao órgão de assistência judiciária,
quando for o caso; III - comunicar ao Ministério Público para que
adote as providências cabíveis; IV - determinar que se proceda ao
exame de corpo de delito da ofendida e requisitar outros exames
periciais necessários; V - ouvir o agressor e as testemunhas; VI - or-
denar a identificação do agressor e fazer juntar aos autos sua folha
de antecedentes criminais, indicando a existência de mandado de
prisão ou registro de outras ocorrências policiais contra ele.
Essas medidas são tomadas na fase policial do processo, cada
uma delas é mediada por um gênero próprio, a maioria de incum-
bência da delegada ou delegado de polícia que dita ao seu escrivão
o que ele deve escrever. Tais procedimentos são feitos de forma pa-
drão e seguem alguns formatos próximos de um formulário. Em ge-
ral, um modelo é salvo em arquivo eletrônico, alguns campos ficam
em branco para que sejam preenchidos com os dados específicos de

38
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

cada caso. O documento é, então, salvo como um novo auto. Uma


vez concluída a etapa policial, é redigido um relatório em que são
descritas todas as medidas tomadas para a apresentação do crime
traduzido para a linguagem do direito. Do nosso corpus constam
os seguintes gêneros dessa fase: boletim de ocorrência; portaria;
qualificação; nota de culpa; certidão; exame de corpo de delito;
laudo médico; termo de representação; despacho; ordem de servi-
ço; termo de depoimento; termo de prisão em flagrante; medidas
protetivas de urgência; assentada e relatório. Esses são os gêneros
mais comuns do Inquérito Policial (IP), que, uma vez concluído, é
enviado ao Fórum para que seja instaurada a ação penal, começan-
do aí a fase judicial do processo.
Os procedimentos da fase policial são os mesmos para todos
os crimes. Já na esfera judicial, os casos recebem tratamento dife-
renciado de acordo com a natureza do delito cometido. Os homi-
cídios, de competência do Tribunal do Júri, são tratados em duas
fases distintas, lesão corporal e ameaça têm procedimento mais
simplificado. A peça documental que inicia o processo penal é a
“denúncia”. É através dela que se toma conhecimento do caso que
é apresentado resumidamente com base nas informações extraí-
das do IP. A primeira autoridade a examinar o IP é o representan-
te do Ministério Público, a promotora ou promotor, que devem
ser designados pela juíza ou juiz para acompanhar o caso. Na de-
núncia, a promotoria faz o enquadramento do crime nos artigos
do código penal e apresenta o rol de testemunhas, que em geral
são as mesmas que depuseram na fase policial e serão ouvidas na
fase de instrução criminal.
O Direito Penal brasileiro tende a priorizar a luta contra a cri-
minalidade considerada “grave”. Nos casos de ameaças e lesão cor-
poral, tidos como de menor potencial ofensivo, há uma tendência
de incentivo ao consenso e de se poupar trâmites processuais como
audiências, interrogatórios, alegações finais, sentenças e recursos.
Muito embora a Lei Maria da Penha diferencie ameaças e lesões
corporais praticadas como violência contra a mulher das demais,

39
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

de modo geral, ainda permanece a tendência de dar tratamento


sumário a todos os casos sem distinção. Assim, após oferecida a
denúncia, designa-se dia e hora para a audiência de instrução e jul-
gamento, na qual estarão presentes o representante do Ministério
Público (MP), o agressor e a vítima, acompanhados por seus ad-
vogados. Nesse momento, os procedimentos mais comuns podem
ser: a) a juíza ou juiz esclarece às partes sobre a possibilidade da
aceitação de proposta de aplicação imediata de pena não privativa
de liberdade, sem ferir o Art. 17 da Lei Maria da Penha, que veda
penas de cesta básica ou outras de prestação pecuniária; b) a mu-
lher retrata-se da representação; c) a juíza ou juiz suspende o pro-
cesso, com base no Art. 77 do Código Penal, que beneficia o réu
cujo crime tenha pena mínima igual ou inferior a um ano, desde
que este não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado
por outro crime.
Nos dois primeiros casos, a juíza ou juiz homologa o resultado
por sentença irrecorrível e se encerra o processo. Quanto à suspen-
são, expirado o período determinado e não havendo revogação, a
juíza ou juiz declarará extinta a punibilidade.
Todos esses procedimentos ocorrem na fase judicial do pro-
cesso, articulados por um sistema de gêneros engrenado a partir
da “denúncia” e encerrado, em geral, no caso de Jaraguá, pelo “ter-
mo de audiência e suspensão”. Em nosso corpus, os gêneros mais
recorrentes são os da fase policial, uma vez que na fase judicial, a
título de agilidade e simplificação, há uma certa economia proces-
sual que procura reduzir número de audiências, interrogatórios e
recursos, diminuindo, consequentemente, o número de autos. Há
quem faça a esse modelo penal fortes críticas. Para Gomes e Bian-
chini (2006), este é um sistema no qual não se escutam realmente
as pessoas e nem se registra propriamente o que elas dizem. Há
um abuso de frases estereotipadas (“o depoente nada mais disse
nem lhe foi perguntado”, etc), o diálogo entre as partes envolvidas
não é considerado e, por fim, dificilmente condena-se o agressor,

40
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

roubando-se, de certa forma, o conflito da vítima, que acaba tendo


pouca participação no processo.
A abordagem de gênero que aqui propomos, orientada princi-
palmente para aspectos sociais, compreende que os textos incorpo-
ram interesses e valores de grupos determinados, reforçando suas
regras. Uma vez que os gêneros forenses têm efeitos muito concre-
tos sobre a vida das pessoas, a abordagem crítica que se propõe para
este estudo visa desvelar os propósitos sociais para os quais estes
estão sendo utilizados, assim como suas ligações com os agentes
que os estruturam e questões de poder mais complexas. Posiciona-
mo-nos alternativamente frente ao sistema jurídico a fim de abrir
espaços para que vozes silenciadas possam ser ouvidas.

4. Os significados resgatados dos autos: ação, re-


presentação e identificação
Nosso propósito neste tópico é apresentar os dados que “resso-
am dos autos”, para usar uma expressão própria do meio judiciário.
Essa tarefa demanda, antes, o conhecimento mais aprofundado de
sua organização textual. Já esclarecemos na seção anterior que o
processo penal é constituído por um sistema de gêneros (Fuzer e
Barros, 2008), em que cada texto representa uma realidade e, ao
mesmo tempo, realiza atividades específicas por meio da lingua-
gem, em uma sequência que revela um fluxo comunicativo típico
do grupo que o originou. A redação de um Boletim de Ocorrência
(BO), por exemplo, geralmente o primeiro registro de uma série de
outros que constituirão o processo, tanto nos informa sobre um de-
lito praticado, reconstituindo-o sucintamente, como aciona provi-
dências policiais de prender o infrator, colher provas, transmiti-las
às autoridades competentes, etc.
A faculdade dos textos de, ao mesmo tempo, representar o
mundo e suas histórias e nele acionar atividades é explicada na
Análise de Discurso Crítica (ADC), dentro das acepções propos-

41
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

tas por Fairclough (2003), sobre os “significados da linguagem”.


Segundo o autor, de todo e qualquer texto é possível depreender
três significados que agem de forma associada e simultaneamente,
são eles: o “significado acional” (o texto como modo de ação e inte-
ração em eventos sociais), o “significado representacional” (o texto
como representação de aspectos do mundo físico, mental e social)
e o significado “identificacional” (o texto como construção e nego-
ciação de identidades no discurso).
Analisar os autos processuais sob este viés teórico é procurar
compreender como eles, ao mesmo tempo, representam a violên-
cia contra a mulher como fenômeno social, como essa realidade
é reconstruída nesses textos; que atividades eles acionam, como
providências jurídicas, por exemplo; e que posicionamentos são to-
mados por parte dos envolvidos. É, portanto, com o olhar voltado
para esses significados que apresentaremos os gêneros processuais
de onde depreendemos o fenômeno da violência contra a mulher,
foco deste estudo. Como o processo penal movimenta um sistema
com mais de 130 gêneros, conforme identificou Pimenta (2007a),
selecionamos, aqui, apenas os textos que nos dão maiores informa-
ções dentro desses significados.
A partir desse momento, tomamos alguns gêneros de um mes-
mo processo analisado, para demonstrar como o conflito denun-
ciado vai sendo representado nos textos, revelando um quadro de
violência moldado sob a ótica penal. Ao mesmo tempo, recompo-
mos que atividades estes textos acionam discursivamente, como
que providências jurídicas vão sendo tomadas por meio deles. E,
por fim, buscamos identificar os posicionamentos assumidos e ne-
gociados pelos personagens envolvidos, bem como pelos próprios
operadores do direito. Seguindo esses passos, deparamo-nos com o
cenário de violência que se delineia a partir desses conhecimentos.
O processo em questão é o caso de lesão corporal, número:
2008.026.821.67. Antes de dispor os textos, é preciso fazer a res-
salva de que os autos nos processos penais são ordenados seguindo
os requisitos estabelecidos no Código de Processo Penal e, por isso,

42
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

a sequência dos documentos não se encontra necessariamente em


ordem cronológica. O primeiro documento juntado aos autos é a
“denúncia”, que embora produzida após os textos do inquérito po-
licial, é disposta antes deles, logo na abertura do processo. Aqui,
apresentamos os textos segundo a sequência das atividades que eles
acionam no decorrer do processo.

4.1 Boletim de ocorrência e Termo de representação


Começamos nossa exposição pelo BO, o gênero que, funda-
mentalmente, presta-se a levar à autoridade de polícia judiciária
(Federal ou Civil) a notícia de infração penal bem como a outros
órgãos, públicos ou particulares, o relato sobre fatos que tenham
demandado a intervenção da polícia, cuja solução subsequente es-
teja afeta a esses órgãos (Tristão, 2009). Seu formato aproxima-se
ao de um formulário, com diversas tabelas e campos, onde se regis-
tram, às vezes em código, informações sobre tudo (pessoas, obje-
tos, lugares, etc) que envolve a ocorrência denunciada.
Neste estudo, os BOs foram utilizados, em um primeiro mo-
mento, na constituição do perfil social dos envolvidos a partir de
dados como, idade, estado civil, profissão, etc. Ao mesmo tempo,
retiramos de um de seus campos, chamado de “histórico da ocor-
rência”, os primeiros relatos sobre as cenas de agressão, uma vez que
ele é a síntese das informações colhidas pela polícia a partir dos
depoimentos dos envolvidos e dos dados observados sobre todo o
contexto (local, tempo, envolvidos, etc). Esse campo fornece uma
primeira visão da violência relatada, conforme se observa no extra-
to a seguir.

Histórico

A comunicante é casada com o autor há quase quatro anos


e tem com ele uma filha de um ano e dois meses. A comuni-
cante está separada de fato do acusado há aproximadamente

43
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

dois meses. Compareceu nesta delegacia para comunicar que


na data acima mencionada foi vítima de lesões corporais, ten-
do o autor a agredido fisicamente, tendo quebrado um tijolo
no rosto da comunicante, quebrou uma parede com altura de
quatro tijolos em sua cabeça, a pegou pelo pescoço e a jogou
no chão, arrastando-a pelo quintal, tendo a vítima ficado com
lesões corporais. O autor ainda alegava que a vítima era “puta,
piranha” e que deveria matá-la. A vítima foi submetida a exa-
me de corpo de delito em Jaraguá.

Segundo Tristão (2009), há uma orientação para que o operador


redija o texto de forma concisa, contendo as informações imprescin-
díveis. Essa orientação condiciona uma representação minimalista
do conflito que se estrutura, em geral, na menção ao tipo de relação
que vítima e agressor têm entre si, tempo de convivência, se há filhos
em comum, as circunstâncias em que irrompeu a agressão, data, lo-
cal, motivos alegados, a sequência e tipos de agressões sofridas.
Tal representação é, inexoravelmente, perpassada pelas percep-
ções do operador que redige o BO. Consequentemente, conforme
observou Jesus (2009), ela tem natureza heterogênea, caracterizan-
do-se tanto como um discurso referido, como um discurso relata-
do, uma vez que o operador enuncia a presença da vítima ou co-
municante, do agressor e das testemunhas, enfatizando o cenário,
o pensamento e a linguagem do comunicante. Nesse processo, o
campo identificacional se revela pela presença latente da perspec-
tiva do operador com relação às convenções sociais da realidade
vigente. Se por um lado, o operador, ao redigir o BO, segue uma
orientação que determina uma escrita objetiva, e, por isso mesmo,
o mais isenta possível de marcas de subjetividade, por outro lado,
essa mesma orientação já denuncia o estilo próprio do campo no
qual ele se posiciona, o campo do direito, com suas convenções e
ideologias subjacentes.
Se os significados representacionais no BO não nos permitem
conhecer a violência com mais profundidade e se a sua estrutura
também restringe suas marcas identificacionais, em termos de po-

44
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

der de ação esse gênero supera muitos outros, uma vez que ele pode
acionar uma série de atividades judiciais com consequências bas-
tante concretas na vida das pessoas. O BO é a peça que motivará
a ação dos outros órgãos na solução dos problemas relatados, ele
pode condicionar a prisão do acusado e dar início ao Inquérito Po-
licial, desenvolvido pela polícia judiciária. Ele é, assim, considerado
uma espécie de garantia de que o fato, uma vez registrado, propor-
cionará a necessária intervenção do Estado no conflito social.
Na sequência de atividades que o BO desencadeia, vem o Ter-
mo de Representação, gênero cuja estrutura textual se redige a par-
tir do próprio BO. Há, na primeira parte do texto, a qualificação
dos envolvidos, extraída do BO. Em seguida é expresso o propósi-
to do gênero: representar legalmente contra o agressor, conforme
exigiu a Lei Maria da Penha. O contexto e a forma das agressões
narrados no BO são novamente transcritos. Por fim, requer-se a
instauração do Procedimento Policial competente, para que sejam
tomadas as devidas providências legais que o caso exigir, e, em se-
guida, pede-se o encaminhamento do caso ao Poder Judiciário para
os fins de direito, conforme se observa no texto a seguir:

Termo de Representação

Aos cinco (05) dias do mês de maio (05) do ano de dois


mil e oito (2008), nesta cidade de Jaraguá, Estado de Goiás,
na Delegacia de Polícia local, onde presente se achava o Sr.
Maurício Massanobu Kan, Delegado de Polícia, comigo, es-
crivão de seu cargo, ao final assinado, ai compareceu a Sra.
XXXXXXX, brasileira, casada, estudante, natural de Jara-
guá – GO, nascida aos 16/08/1988, filha de XXXXXXX
e XXXXXXXX, portadora da Carteira de identidade nº
XXXXXXX, residente a Av. XXXXXXX, que REPRE-
SENTOU verbalmente contra a pessoa de XXXXXXXXX,
XXXXXXXXX, nesta cidade, pela prática dos crimes de
lesão corporal dolosa e injúria, pois a representante no dia
29 de março de 2008, por volta das 16:40 min, foi agredida

45
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

fisicamente e xingada por XXXXXXX, fato ocorrido na re-


sidência desse, quando a representante ali compareceu para
pegar as roupas do filho. Na ocasião, a representante foi al-
vejada com um tijolo e arrastada pelo pescoço pelo quintal.
XXXXXX ainda xingou a representante de “puta”, “piranha”,
dizendo que “deveria matá-la”. Requerendo a instauração do
Procedimento Policial competente, tomando-se as devidas
providências legais que o caso exigir, e, em seguida, seja o mes-
mo encaminhado ao Poder Judiciário para os fins de direito.
Nada mais disse, nem lhe foi perguntado. Lido e achado
conforme, vai devidamente assinado pela autoridade, pela re-
presentante e por mim, Escrivão que o digitei e assino.

Em termos de representação, apenas são acrescidas algumas


circunstâncias do delito, como a referência “quando apareceu para
pegar a roupa do filho”. Quanto ao significado identificacional,
observa-se que o último parágrafo do texto introduz uma estrutu-
ra padrão do direito com uma sequência de frases estereotipadas.
Tal estruturação situa o operador no campo do discurso jurídico,
expressando com ele conformidade. Assim como o BO, os signifi-
cados acionais do Termo de Representação lhe conferem poderes
de iniciar atividades como o próprio Inquérito Policial, ao qual nos
dedicamos no próximo tópico.

4.2 Inquérito Policial


O inquérito policial é um conjunto de diligências e atos inves-
tigatórios realizados por operadores da esfera policial para apurar
o fato criminoso e sua autoria. É, portanto, o instrumento formal
que reúne as “provas” necessárias para que se possa propor ação
penal. Segundo Jesus (2009), compreende-se como provas os ele-
mentos que elucidam os atos e os fatos condizentes às ocorrências,
transmitindo a elas condição de certeza e lucidez. Elas podem ser
subjetivas, aquelas que transmitem informações e cujas fontes serão
as pessoas que participaram direta ou indiretamente, dos aconteci-

46
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

mentos, ou objetivas e materiais, quando têm como base concreta


os vestígios que mediam a realização dos crimes. Nos processos do
nosso corpus, as provas configuram-se, basicamente, nos depoimen-
tos colhidos e nos laudos médicos dos exames de corpo de delito.
Começaremos nossa exposição dos gêneros que constituem o
Inquérito Policial (IP), pela seção “Descrição” do “Laudo médico”,
que é redigido após o “Exame de corpo de delito”:

Descrição

–LAUDO INDIRETO – RELATÓRIO MÉDICO


ABAIXO;
–ESTADO GERAL BOM;
–HEMATOMA NA REGIÃO ESQUERDA DO MENTO;
–ESCORIAÇÕES PELO CORPO TODO.

Como representação, esse gênero fornece as descrições das le-


sões sofridas pela vítima. A linguagem usada, extremamente técni-
ca, própria do discurso médico, representa o estado físico da vítima
sob um olhar clínico, fornecendo argumentos de autoridade sobre
os tipos de lesão e sua extensão para a saúde da mesma. Por um
lado, esse caráter do gênero dificulta o acesso do leigo, pois certos
termos são ilegíveis para a maioria das pessoas. No recorte exposto,
por exemplo, traduz-se que a mulher de fato teve o corpo agredi-
do, apresentando um hematoma no lado esquerdo do rosto e arra-
nhões em todo o corpo. Por outro lado, essa linguagem reforça o
caráter técnico do gênero que o legitima como peça fundamental
de comprovação da materialidade do crime. Os laudos médicos,
portanto, em termos de atividade, são gêneros que fornecem as
chamadas provas objetivas.
Quanto às provas subjetivas, estas são formuladas pelo con-
fronto aos depoimentos colhidos ao longo do IP. A tomada de de-
poimento judicial é uma ação-chave no sistema que se materializa
em vários gêneros, como os “termos de depoimentos”, “assentada”,

47
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

“depoimento em auto de prisão em flagrante”, etc. O depoimento


no IP possui forma e conteúdo determinados por lei. Segundo Nas-
cimento (2009), a função precípua desse gênero é a apuração dos
“fatos” e é o próprio Código de Processo Penal (CPP) que prescre-
ve sua forma e conteúdo. A primeira convenção do que seja um de-
poimento policial/judicial é que ele ocorre como uma “entrevista”
que acontece entre a juíza ou juiz, delegada ou delegado de polícia
e os depoentes, vítimas, agressores e testemunhas em um Fórum/
Delegacia de Polícia, sobre algum crime que tenha acontecido. Há
toda uma série de prescrições sobre os passos dessa entrevista. O
inciso VII do artigo 188 do CPP, por exemplo, prevê que o réu
deve ser perguntado, além das questões estabelecidas pelos incisos
anteriores a esse, sobre todos os fatos e pormenores que conduzam
à elucidação dos antecedentes e circunstâncias da infração. Nasci-
mento (2009) adverte que, muito embora a estabilidade do gênero
seja prescrita por lei, certas variabilidades ocorrem em função da
subjetividade, do contexto sociocultural em que este se insere, da
postura dos interlocutores e, especificamente, do propósito do ope-
rador do Direito. Dispomos a seguir o depoimento da vítima, do
qual suprimimos o cabeçalho e os itens de qualificação:

Inquirida, RESPONDEU; QUE, XXXXXXXX compare-


ceu nesta Delegacia de Polícia e representou criminalmente
contra a pessoa de XXXXXXX, residente na XXXXXXXX,
nesta cidade, pela prática dos crimes de lesão corporal dolosa
e injúria, pois a declarante no dia 29 de março de 2008, por
volta das 16h40min, foi agredida fisicamente e xingada por
XXXXXX, fato ocorrido na residência desse, quando a decla-
rante ali compareceu para pegar as roupas do filho; QUE, na
ocasião a declarante foi alvejada com um tijolo e arrastada pelo
pescoço pelo quintal; QUE, XXXX ainda xingou a declaran-
te de “puta”, “piranha”, dizendo que “deveria matá-la; QUE, a
declarante é casada com XXXX desde de 02 de abril de 2004,
e que dessa união teve uma filha por nome XXXXXXX, com
um ano e dois meses; QUE, a declarante encontra-se separada

48
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

de Divino há cerca de três meses; QUE, no dia 29 de março


de 2008, a declarante esteve na residência de XXXXX com a
finalidade de pegar algumas roupas da filha; QUE, naquele
local, como a declarante iria para Goiânia, solicitou Divino
que pedisse à mãe da declarante que entregasse a Certidão de
Nascimento da filha; QUE, XXXXX ligou para a mãe da de-
clarante, mas esta disse que não poderia entregar naquele mo-
mento; QUE a declarante estava no quintal da residência de
XXXXX, conversando com uma amiga, por nome XXXX,
quando inesperadamente, XXXX pegou a declarante pelo
pescoço, usando as duas mãos, e jogou a declarante contra a
parede, pegou um tijolo furado e bateu contra a face da decla-
rante, QUE, em seguida, XXXXX passou a desferir tapas e
murros no rosto da declarante, desferindo chutes contra todo
o corpo da declarante; QUE, durante a agressão, XXXXX
xingava a declarante de “puta” piranha” vagabunda” e outras
palavras ofensivas à reputação; QUE, além de agredir e xin-
gar, XXXX também passou a fazer ameaças dizendo: “eu de-
veria te matar”; QUE, indagado a declarante qual o motivo
dessa agressão, respondeu que XXXXXX naquele dia tentou
novamente reconciliar com a declarante, convidando-a para
conviverem juntos e a declarante não quis; QUE, já agrediu a
declarante em outras oportunidades, só que a declarante nun-
ca o denunciou por medo; QUE, tem como testemunha a sua
prima XXXX, que trabalha na XXXX, nesta cidade; QUE,
quanto a XXXX, esta mudou desta cidade, tendo em vista ter
sido ameaçada pelo marido dela, e que a declarante não sabe
o seu endereço; QUE, a declarante registrou a ocorrência em
Goiânia com medo de vir a esta Cidade e ser encontrada por
XXXXX. Nada mais disse e nem lhe foi perguntado lido e
achado conforme vai devidamente assinado pela Autoridade,
pelo declarante, por mim, Laudo Roberto de Barros, escrivão
que o digitei.

Observa-se que o Depoimento é um texto de estrutura es-


sencialmente narrativa, o que o caracteriza como gênero privi-
legiado para a representação do conflito. Compreender a lógica

49
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

dos depoimentos é um ponto de partida para a reconstrução das


histórias de violência, uma vez que estas são depreendidas da
conjunção dos “fatos” neles apurados e, ao mesmo tempo, é com
base neles que alguns gêneros são produzidos, como a “Denún-
cia”, por exemplo. Há variações nas representações dos eventos e
nas estratégias discursivas que, em geral, apagam, minimizam ou
realçam certas agências dos envolvidos, de acordo com os interes-
ses argumentativos dos depoentes. Percebe-se essa evidência no
depoimento do acusado sobre a mesma situação, do qual também
suprimimos os itens cabeçalho e qualificação:

QUE, o declarante é casado ainda no papel com XXXXX, e


que da união tiveram uma filha; QUE, o casal separou há cer-
ca de dois meses, tendo em vista que XXXXXX disse que não
gostava mais do declarante e que queria que o declarante a
matasse; QUE, XXXXXXX no dia em que ocorreu os fatos,
pediu perdão, queria reatar o relacionamento, disse que ama-
va o declarante; QUE, XXXXXXX queria levar a filha, e so-
licitou ao declarante que pedisse a certidão de nascimento da
filha XXXXX para mãe dela; QUE, a mãe de XXXXXX ha-
via ligado anteriormente para o declarante, cientificando das
intenções de XXXXXX, ou seja de retirar a filha desta cida-
de; QUE, a mãe de XXXXXX ligou para o declarante, no dia
em que ocorreu a briga, dizendo que não era para o declarante
ir lá e que o declarante era cúmplice do que XXXXXXX iria
fazer; QUE, o declarante alega que houve um empurrão em
XXXXXX, pegou ela pelo pescoço, empurrando para lá e
para cá, e que tal fato aconteceu devido XXXXX ter afirma-
do que iria levar a filha para fora da cidade; QUE, XXXX es-
tava presente e escutou o que XXXXX havia afirmado. QUE,
o declarante afirma ter dado empurrões em XXXXXX em
outra ocasião, mas que ela não sofreu lesões, “briga de casal”;
QUE, o declarante afirma que XXXXX mudou seu compor-
tamento, estava traindo o declarante. Nada mais disse e nem
lhe foi perguntado, lido e achado conforme vai devidamente
assinado pela Autoridade, pelo declarante, por mim, Laudo
Roberto de Barros, escrivão que o digitei.

50
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

Nota-se que em seu depoimento o agressor representa o evento


de violência com uma série de apagamentos e minimizações que
reduzem o grau de sua ação violenta. Somente pelo cruzamento
de informações dos diferentes textos dos processos é que os “fatos”
vão sendo contornados e vamos reunindo os elementos para nossa
própria representação do conflito. O próximo recorte, que exibe o
depoimento de uma testemunha, demonstra essa afirmação:

QUE, a depoente informa ser prima de XXXXX (vítima),


esposa de XXXXX; Que a depoente informa que XXXXX e
XXXXXX atualmente estão separados de corpos, sendo que
na data dos fatos investigados nos autos, XXXXXX separa-
va-se, contudo, passado alguns dias voltava a conviver com
XXXXXX; Que a depoente informa que no dia 30 de março
do ano em curso, foi até a residência do casal, a fim de conver-
sar com XXXXXX para ver se a convivência do casal melho-
rava, sendo que XXXXXX estava querendo ir embora não
revelando o lugar que iria; Que então passaram a conversar
e a certa altura da conversa XXXXXX desentendeu-se com
XXXXXX e passou a agredi-la com tapas e murros, tendo
a depoente e a filha menor do casal presenciando a surra que
XXXXX levava; Que em dado momento XXXXX parou
as agressões; Que, durante as agressões, XXXXXX xingava
a vítima de “quenga” e puta”, QUE, a depoente também viu
XXXXXX pegando um tijolo, mas não viu se acertou a víti-
ma com esse tijolo; QUE, a depoente saiu do local e foi pro-
curar um telefone para ligar para a mãe da vítima, e quando
retornou, encontrou com XXXXXX na porta da residência,
o qual disse: “eu nem sei porque não matei ela”; QUE, Nada
mais disse, lido e achado conforme, vai devidamente assina-
do pela Autoridade, pela depoente e por mim, Escrivão que
o digitou.

Uma vez de posse da notícia-crime registrada no BO, do pe-


dido formal da vítima pela intervenção legal acionado no Termo
de Representação, dos elementos que comprovam o crime, tanto
pelos relatos colhidos nos depoimentos, quanto pelos vestígios

51
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

materiais atestados no laudo médico, a delegada ou delegado dá


prosseguimento ao caso, remetendo-o a outra esfera judicial. Esse
passo é acionado pelo gênero Relatório de Inquérito Policial, no
qual a autoridade relata os principais acontecimentos e as provas
que indiciam o suposto autor do crime. O mesmo é encaminhado
ao fórum local, para análise pela juíza ou juiz da Vara Criminal,
conforme o exemplo a seguir:

MM.Juiz,

O presente procedimento policial iniciou-se por força de


PORTARIA a fim de apurarmos a autoria, a materialidade e
as circunstâncias do delito de lesão corporal praticado pelo in-
vestigado XXXXXXXX, tendo como vítima XXXXXXX,
sua esposa.

Dos fatos

Verte os autos que, no dia 29 de março de 2008, por volta das


16:40 horas, na rua XXXXXXXXXXXXX, nesta cidade, o
indiciado, de forma livre e consciente, ofendeu a integridade
física da ofendida, sua esposa, conforme consta do laudo de
lesões corporais juntado aos autos.

Das diligências

Foram realizadas a oitiva da XXXXXXXXXX, da vítima, e


do investigado. Agregou-se aos autos laudo de lesões corpo-
rais da vítima e relatório médico do averiguado.

Da tpificação

Diante dos depoimentos colhidos, bem como da maneira


em que os fatos se apresentaram, entende esta Autoridade Po-
licial que a conduta do autuado se subsume na figura típica
prevista no artigo 129 § 9º do Código Penal.

52
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

Da conclusão

Ex positis, apuradas as circunstâncias em que os fatos ocorre-


ram, completos estão os trabalhos da Polícia Judiciária. De-
termino ao Sr. Escrivão que, após as formalidades de praxe,
remeta os autos ao Poder Judiciário, renovamos os cumpri-
mentos da Policia Civil.

Observa-se que o cenário da violência contra a mulher vai se deline-


ando às vistas das pesquisadoras, à medida que se lê e examina o conteú-
do dos gêneros processuais. É relevante comentar que as especificidades
de cada texto, com seus pontos de vista particulares, demandam um
olhar mais cuidadoso para os apagamentos e inclusões neles contidos,
de acordo com interesses enunciativos específicos. Contudo, nesta se-
ção, pretendemos apenas demonstrar como o conflito conjugal, regis-
trado na espera penal, vai sendo revelado pelo percurso dos gêneros que
o capturam. Nosso intuito, até aqui, foi reproduzir o próprio percurso
que trilhamos ao adentrarmos o tema e introduzir o que se revela nesse
primeiro momento. O próximo item dá continuidade a essa investida e
já introduz as próximas apresentações de dados subsequentes.

4.3 Denúncia e Termo de Audiência e Suspensão


A Denúncia é um gênero que funciona como petição inicial
à juíza ou juiz pela punição do agente de um crime. Ela contém a
acusação formulada pelo MP contra esse agente e a exposição do
fato criminoso com todas as suas circunstâncias, a qualificação do
acusado e da vítima (se possível), a classificação do crime. Ferreira,
Vargas e Bortoluzzi (2006) identificaram uma estrutura básica na
Denúncia, assim dividida: a) oferecimento de denúncia: informa
o inquérito policial que permite oferecer a denúncia, identifica o
autor do crime; b) informação dos fatos delituosos: descreve de-
talhadamente as etapas do crime, prova a culpabilidade do denun-
ciado; c) “pedidos” da promotoria ao juiz de direito: solicitação de
instauração de processo legal, citação do denunciado, inquirição

53
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

da vítima e testemunhas, indicação do crime cometido conforme


código penal.
Tal estrutura pode ser depreendida do exemplo abaixo:

Consta dos inclusos autos de inquérito policial que, no


dia 29 de março de 2008, por volta das 16:40 horas, na re-
sidência localizada na Rua XXXXXXXXX, nesta cidade, o
denunciado, de forma livre e consciente, no âmbito da unida-
de doméstica e da família, mediante violência física, ofendeu
a integridade corporal da vítima XXXXXXXXX, produzin-
do-lhes as lesões descritas no Laudo de Exame de Corpo de
Delito de fls. 23/25.
Apurou-se que denunciando e vítima eram casados há
aproximadamente quatro anos e dessa união nasceu uma filha
de nome XXXXXXXX. Ocorre, porém, que o casal havia se
separado há cerca de três meses e o denunciando não aceitava
a separação.
Segundo a peça evidenciada, no dia e horário acima men-
cionados, a vítima foi à antiga residência do casal para pegar
algumas roupas de sua filha e, no momento em que estava no
quintal da referida residência, foi agarrada pelo denuncian-
do, que a pegou pelo pescoço, usando as duas mãos, e a jogou
contra a parede. Em seguida, o denunciado começou a desfe-
rir tapas e socos na face da vítima e também chutes por todo
o seu corpo, produzindo-lhe as lesões descritas no Laudo Pe-
ricial de fls. 23/25.
Ressoa dos autos que, durante as agressões, o denun-
ciando proferia xingamentos contra a vítima, chamado-a de
“puta, piranha e vagabunda”.
Ante o exposto, o MINISTÉRIO PÚBLICO ofe-
rece a presente peça inicial acusatória em desfavor de
XXXXXXXXXXX, como incurso no artigo 129,§ 9º,
do Código Penal c/c os artigos 5º, I e II e 7º, I , da Lei n.
11.340/06, requerendo que recebia e autuada esta seja ins-
taurado devido processo penal- constitucional, observado o
rito estabelecido no artigo 539 do Código de Processo Penal,
citando-se e interrogando-se o denunciado, ouvindo-se a víti-

54
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

ma e as testemunhas arroladas na seqüência e prosseguindo-se


até a final sentença condenatória.

A Denúncia é o texto que inicia todos os processos, vindo


disposta logo após a capa dos mesmos. Ela é, portanto, a primeira
representação do conflito, que é sucintamente disposto logo no se-
gundo campo estrutural do gênero. Ela contém de todo o IP, aquilo
que pôde ser apurado pelo confronto de informação. Observa-se
que o “tijolo”, denunciado pela vítima como instrumento do crime,
não consta do texto. Esse elemento não pôde ser comprovado no
exame de corpo de delito e não consta nos demais depoimentos.
Também não é mencionada a mãe da vítima, que, segundo esta e
o próprio agressor, teria apresentado resistência em entregar o do-
cumento da neta para que a vítima pudesse levá-la consigo para
Goiânia. A Denúncia sintetiza o conflito denunciado e é, por isso,
uma peça fundamental na introdução das pesquisadoras no campo
estudado. Ela demonstra a visão dos fatos que os operadores consi-
deram essencial sobre o conflito.
Além dos gêneros que foram apresentados até o momento, ain-
da podemos citar todo um outro conjunto de textos que igualmen-
te captam a violência contra a mulher, possibilitando às pesquisa-
doras traçar um quadro mais acurado sobre a questão. Porém, por
economia de espaço, vamos mostrar nesta seção apenas mais um
gênero, o Termo de Audiência e Suspensão. A inclusão deste texto,
especificamente, faz-se em função do mesmo compor o processo
cujos gêneros tomamos para exemplo nos tópicos anteriores. A ob-
servação deste último texto nos permite obter uma visão do início
e do fim da demanda, pois o Termo de Audiência e Suspensão equi-
vale à sentença final, conforme se pode observar:

O juiz proferiu a seguinte decisão: O fato narrado na de-


núncia, em tese, configura crime, preenchendo a acusatória os
requisitos legais. Recebo a denúncia.

55
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

Em seguida, o representante do Ministério Público veri-


ficou que o denunciado preenche os requisitos para obtenção
do benefício da suspensão condicional do processo, previsto
no artigo 89 da Lei nº 9.009/95. Desta forma foi formulada
a proposta de suspensão condicional do processo ao acusado
pelo prazo de 02 (dois) anos, mediante as seguintes condi-
ções: I – Não ausentar da Comarca, sem prévia autorização
desde Juízo por mais de 15 dias; II – Apresentar-se a esse Ju-
ízo, mensalmente, para justificar e informar suas atividades.
III – Não frequentar bares, boates, prostíbulos e casas de jo-
gos. IV – Informar novo endereço, antecipadamente a este
Juízo, em caso de mudança. Como condição especifica: Não
se aproximar da ofendida.
O denunciado e seu advogado aceitaram as condições
da proposta.
DESPACHO: aguarde-se o cumprimento. Certifique.
NADA MAIS, e, para constar, lavrei este termo que vai de-
vidamente assinado.

Em nome daquela economia processual à qual já nos referi-


mos, o processo em questão encerra-se sem a ocorrência de gêneros
como Interrogatório, Alegações Finais, etc. Na própria Audiência
de Instrução, o representante do MP, que ofereceu a Denúncia,
oferece também o benefício de suspensão condicional do processo,
conforme se expressa no texto. Uma vez aceita a proposta pelo réu
e seu advogado, suspende-se o processo por dois anos, ficando o
réu obrigado às condições legalmente determinadas e registradas
no texto. Depois de transcorrido o prazo estipulado, extingue-se
o processo e a punibilidade do réu, que passa a figurar socialmente
sem nenhuma marca penal. Caso venha a cometer novamente al-
guma infração penal, será tido como réu primário. Observa-se que
o texto não faz menção à vítima, que é apagada neste gênero, bem
como todo o conflito.
A sequência de textos aqui apresentada, ainda que referente a
um único processo, muito já nos diz sobre o cenário da violência

56
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

contra a mulher no contexto pesquisado. Ao trilharmos esse siste-


ma de gêneros, pudemos depreender uma série de significados re-
presentacionais que nos contam uma história de violência familiar,
com seu enredo, cenário, personagens e papéis próprios. Ao mesmo
tempo, os textos nos mostram um conjunto de ações e posiciona-
mentos não apenas daqueles diretamente envolvidos na situação
de violência, como dos diversos agentes públicos responsáveis pela
condução e resolução da mesma. Pelo exame desses gêneros e de
outros que não puderam ser aqui apresentados, é possível acessar
significados acionais e identificacionais que muito nos dizem sobre
de que forma são concretamente conduzidos os casos de violência
nas instâncias judiciais, bem como das ideologias e subjetividades
subjacentes a essa condução. Essas questões serão devidamente ex-
ploradas nas demais partes deste livro.

57
PARTE II
A RECUPERAÇÃO DAS HISTÓRIAS DE VIOLÊNCIA
PELOS AUTOS PROCESSUAIS
Os gêneros que compõem os processos penais encapsulam de
forma bastante fragmentada histórias de violência que nos remetem
a uma espécie de teatralidade trágica, com personagens, enredos e
cenários próprios. Cada caso, na sua singularidade, é parte de uma
história de vida específica, referente a indivíduos determinados, ge-
ralmente um casal, cujo enredo violento é a expressão de sua conju-
galidade. Juntas, as narrativas representam uma cronificação do con-
flito de gênero e, assim, expressam também significados coletivos
sobre o fenômeno. Reconstituir as narrativas a partir de informa-
ções que se fragmentam ao longo dos diversos gêneros dos processos
é uma tarefa que demanda algumas escolhas e justificativas.
A primeira dessas escolhas diz respeito à própria forma de
apresentação das histórias recuperadas. Segundo Labov (1997), a
narrativa é uma atividade discursiva privilegiada, com um come-
ço, meio e fim, contudo, esses elementos não se encontram assim
sequenciados nos autos. O gênero Denúncia, por exemplo, pode
ser considerado dentre os demais, o que melhor se aproxima dessa
ordem, pois um de seus campos textuais relata os fatos dentro de
uma estrutura próxima de uma narrativa completa. Porém, os fatos
ali incluídos advêm de alguns campos narrativos de outros autos do
inquérito policial, como os Termos de Declarações, por exemplo,
que são selecionados de acordo com os propósitos próprios da De-
núncia, que é essencialmente uma peça acusatória. Nesse sentido,
o gênero conta uma história a partir de uma seleção de fatos que
incriminam o acusado e omite detalhes que podem contribuir para
um entendimento mais global do conflito.

59
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

Não foi encontrado, nos processos, um gênero específico que


pudesse servir aos propósitos de recuperar uma história completa
no sentido laboviano. Diante disso, a solução foi recuperar dos di-
versos textos processuais os elementos que constituiriam uma nar-
rativa mais detalhada e apresentá-la sob a forma de um outro gê-
nero. Esse recurso resultou na produção de um texto híbrido, que
por um lado, procura preservar certas características contextuais,
discursivas e linguísticas do meio jurídico de onde as narrativas fo-
ram recuperadas e, por outro, aproxima-as de formatos mais recor-
rentes do cotidiano das pessoas em geral, como o conto e a crônica.
Assim, as “histórias de violência” que provemos nesta seção são
uma espécie de fusão entre os gêneros processuais, especialmente
a “denúncia” e os “termos de declarações”, a crônica policial jorna-
lística e o conto popular. Deste último elas tomam emprestado o
formato mais compacto e a introdução da estrutura temática por
um título. Da crônica elas concentram o princípio básico de regis-
trar o que é circunstancial e transitório. E das denúncias e termos
de declarações são retirados textualmente alguns registros que irão
compor os enredos, datas, personagens e cenários. Assim, as “his-
tórias de violência” são textos curtos, precedidas por um título que
expressa um tema central. Todas têm como protagonistas perso-
nagens com nomes escolhidos aleatoriamente para representar os
agressores e vítimas e, assim, resguardar a identidade dos mesmos.
Elas apresentam elementos básicos comuns: pessoas, profissão, ida-
de, local, dia, hora e sequências de fatos. Alguns padrões se repetem
nas narrativas, compreendemos que essas repetições se oferecem
convenientemente a possíveis tipificações.
Foi o que buscamos ao tentar agrupar alguns esquemas de agres-
são em categorias específicas. Essa é uma investida já tentada por al-
guns estudiosos, como Ferreira (1994), que identificou quatro mo-
dalidades do que chama de “violência conjugal”, assim distribuídas:
(a) o homem agride a mulher unilateralmente; (b) a mulher é quem
agride o homem unilateralmente; (c) os cônjuges se agridem mutu-
amente; (d) os casais que, embora não sendo agressivos, cometem

60
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

atos violentos quando não há mais consenso e comunicação entre


os envolvidos. O parâmetro usado por este pesquisador tem como
base a investida parcial de um dos cônjuges ou a sua ação conjunta
nos atos de violência, bem como o grau do conflito.
Já Izumino (2004), em seu estudo sobre justiça e violência con-
tra a mulher, propõe um quadro com categorias cuja referência é a
própria forma como são tipificadas as ações agressivas nos registros
forenses. Nesse sentido, a classificação da autora é assim distribuí-
da: a) “conflitos familiares” – agressões que foram motivadas por
desentendimentos relativos a assuntos domésticos; b) “ciúmes” –
conflitos que envolvem cenas de ciúmes do agressor ou da vítima,
bem como os casos em que a vítima alega ter sido agredida por ter
decido se separar; c) “discussão”- quando o motivo da agressão é
assim descrito, sem que o teor esteja claro; d) “motivo fútil”- agres-
sões assim enquadradas segundo critérios jurídicos; e) “desconheci-
da” ou “sem informação”, quando não é possível apurar os motivos
pelos relatos, havendo referência a agressões mútuas e provocações;
e f ) “vingança”, como o próprio nome já informa.
Ao tentar propor nossas próprias categorias, procuramos como
primeiro parâmetro nos ater ao contexto das agressões e motivos
alegados nos autos. Esse foi um direcionamento que nos levou a
um rol de queixas registradas pelos operadores do direito nos gêne-
ros processuais como as “causas” ou “razões” dos conflitos que ori-
ginaram os crimes de lesão corporal, ameaça e, em dois processos
do corpus, homicídio. Essa direção inicial, contudo, foi passível de
uma série de ressalvas. Sobre o gênero “Denúncia”, por exemplo, é
preciso considerar que ele é, em última instância, uma categoria de
texto dirigida ao convencimento do juiz de que o agente do crime
deve ser punido (Pimenta, 2007b).
Muito embora a linguagem jurídica se proponha à neutralida-
de e à objetividade, conforme identificou Nascimento (2007), o
processo de apuração da “verdade”, que ocorre na fase do inquérito
policial, promove uma retextualização do relato oral para o escrito,
durante as tomadas de depoimento, envolvendo uma série de in-

61
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

serções e supressões de material linguístico. A autora detectou que


esse procedimento acaba por promover uma construção de sentido
que, muitas vezes, suscita a condenação do acusado. No campo da
história oral, Meihy (1991) também discute esse processo de pas-
sagem da transcrição da fala para a textualização, ressaltando que
a textualização consiste numa tarefa de reorganização do discurso
que obedece à estruturação requerida para um texto escrito. Nes-
sa perspectiva existe uma sintonia entre os dois autores. Por tudo
isso, somente a partir do cruzamento de informações contidas em
vários gêneros é possível traçar um contorno mais aproximado dos
quadros de violência denunciados.
Conforme propõe Souza (2007), a violência não é um fenôme-
no isolado, que irrompe inesperadamente e de maneira abrupta, de-
sestabilizando a vida conjugal. Ela faz parte de uma estrutura simbó-
lica muito mais ampla e complexa. Ao contrário do que parece, ela
não tem uma motivação eminentemente desestruturadora da vida
doméstica, muito embora, como afirma o mesmo autor, essa conse-
quência geralmente ocorra. A violência, em geral, envolve uma ten-
tativa desesperada de “reorganizar circunstâncias que se mostram
temporariamente desequilibradas, relacionadas a algum agregado
de regras que está sendo questionado” (Souza, 2007, p. 276). Nesse
sentido, as alegadas “causas” de agressão identificadas nas denúncias
e em outros gêneros, apenas esboçam um conflito conjugal de pro-
porções que em muito ultrapassam os motivos ali registrados.
Diante dessas evidências, nossa opção, ao buscar um parâme-
tro para o enquadramento dos tipos de conflitos com base em suas
causas, acabou direcionando-se para uma conjunção entre motivos
e circunstâncias do momento em que a agressão irrompeu. Tal di-
recionamento partiu do cruzamento de dados das denúncias e de
outros gêneros que revelou determinados elementos que incidem
sobre o momento explosivo em que a agressão culmina no delito.
Esses elementos já foram amplamente explorados em outros estudos
(Araújo e Mattiolli, 2004; Gregory, 1983; Grossi e Werba, 2001;
Saffiotti, 1987; Izumino, 2004; Soares, 1999; Strey, Azambuja e Je-

62
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

ager, 2004) e reúnem luta de poder, álcool, machismo, ciúmes, ira,


sentimentos de vingança, infidelidade, cobranças diversas e todo um
rol que se alinha de diferentes formas e combinações nas histórias e
expressam de alguma forma a indignidade da condição humana.
O que fizemos foi agrupar alguns desses itens, com configu-
rações que se dividem em categorias tipificadoras das causas e cir-
cunstâncias do delito notificado. A seguir, as categorias detectadas
são descritas e exemplificadas.
Antes, porém, esta introdução se encerra com uma crônica po-
licial jornalística da versão on-line do Jornal Folha de Jaraguá, apre-
sentando um crime. A história de homicídio aí cronificada capta o
fenômeno da violência contra a mulher no âmbito local a partir de
um gênero diferente dos que analisamos neste estudo, todos pró-
prios da esfera judicial, mas divide com estes, tanto o tema, quanto
certas estruturas do discurso policial. O texto é aqui exposto, ante-
cedendo as histórias desta seção, a fim de fornecer um outro ponto
de visão sobre o fenômeno em análise.

Fim do mistério, mulher que estava desaparecida foi encon-


trada morta na serra de jaraguá e autor do crime é preso

Redação em: 07 de agosto de 2009

Polícia Civil de Jaraguá investiga e prende homem que


assassinou a ex-namorada
No último dia de pecuária em Jaraguá um fato curioso ra-
pidamente provocou o boato pela cidade. Informações davam
conta de que uma mulher residente no setor Jardim das Viven-
das teria sido tirada de casa pelo seu ex-namorado, assassinada
e jogada em uma cisterna abandonada no Jardim Vera Cruz.
Nossa produção acompanhou o caso e falou com os pa-
rentes da vítima, que até aquele momento encontrava-se de-
saparecida. Segundo nos informou Eunice da Silva, irmã da
vítima, a Dnilda da Silva, 26 anos e grávida de três meses, ha-
via saído com sua família no domingo para o Parque de Expo-

63
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

sição Agropecuária por volta das 20h com o intuito de assistir


o rodeio, mas Dnilda resolveu voltar pra casa, alegando a sua
irmã que não conseguiria subir na arquibancada.
Por volta das 22h, ela ainda tinha sido vista em seu do-
micílio por vizinhos. Horas antes, seu ex-namorado e pai de
seus filhos, um de 5 anos de idade e do outro ainda no ventre,
chegou na casa de Dnilda e discutiu com ela na frente do fi-
lho, sugerindo que ela fizesse um aborto.
Naquele mesmo dia 03/08, o autor desse bárbaro crime
retornou à casa de Dnilda e aconteceu uma nova discussão,
mas sobre o velho assunto, o aborto do filho do casal. Após
a discussão, ele saiu em uma moto, levando sua ex-namorada
e tomando rumo desconhecido. O fato começou a ser inves-
tigado pela Polícia Civil de Jaraguá já na manhã de segunda-
-feira, pois o suspeito também estava foragido, a equipe da
Polícia Civil se dividiu em dois grupos para procurar o corpo
de Dnilda, pois naquela altura dos fatos já se trabalhava com
a hipótese que ela estaria morta.
Foram cinco dias de buscas em vários pontos considera-
dos pelos policiais possíveis para a desova de cadáveres, quan-
do na manhã desta sexta-feira por volta das 8:30h os Agentes
de Polícia encontraram o corpo de Dnilda em uma pista de
MotoCross na entrada da Serra de Jaraguá, parcialmente nua
e já em estado de decomposição.
O Delegado Dr. Maurício Massanobú, titular da Dele-
gacia de Polícia Civil de Jaraguá afirmou que no depoimento
prestado pelo autor, Valdeilton Farias Cardoso, na noite de
domingo passou na casa de sua namorada Dnilda e conven-
ceu-a a subir para Serra afim de conversar. Ao chegar no lo-
cal, começaram a discutir porque ela havia se negado manter
relação sexual com ele, Valdeilton então deu um golpe com
capacete na cabeça de Dnilda e a mesma caiu.
Valdeilton Farias tirou sua roupa e tentou manter relação
sexual com ela, mas não conseguiu consumar o ato e deferiu
mais golpes de pedras contra a cabeça da vítima, assassinan-
do-a no local e logo após jogou o capacete na mata. O corpo
ficou exatamente 6 dias desaparecido.

64
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

As investigações levaram os policiais à casa dos pais do


autor e acabaram convencendo o mesmo a entrar em conta-
to com o filho para que ele se entregasse, o contato foi feito
e o mesmo se apresentou ao delegado acompanhado por seu
advogado. O Delegado Dr. Maurício Massanobú diz que o
autor vai responder por homicídio triplamente qualificado,
crimes que somado juntos o autor pode ser condenado por
até 30 anos de prisão.
A Polícia Civil de Jaraguá concluiu em tempo hábil as
investigações sobre este caso que abalou a cidade de Jaraguá,
os mais importantes veículos de comunicação do Estado esti-
veram na cidade fazendo a cobertura deste ato cruel e covarde
contra uma pessoa indefesa e que em nenhum momento ofe-
receu resistência. Além do esforço de toda a equipe da Polícia
Civil na procura pelo corpo da vítima, os policiais também
contaram com a colaboração voluntária do repórter policial
acostumado em lidar com este tipo de cena, Leônidas Camar-
go (Chumbo Grosso).

1. O terror após a separação


Ao contrário do que se diz corriqueiramente de que as mu-
lheres agredidas não largam seus agressores, a pesquisa revela que
muitas das agressões denunciadas ocorreram justamente quando as
mulheres decidiram deixar seus companheiros. Essa decisão repre-
senta grande perigo para elas, que sofrem todo tipo de pressão e
são ameaçadas de morte pelos agressores inconformados. Muitas
vezes, elas precisam fugir para outras cidades e nem sequer podem
comparecer às audiências finais. Nessa categoria, o traço comum é
a menção de que o acusado teria agredido a vítima sem se confor-
mar por esta tê-lo deixado, geralmente sob a alegação de que ela
não mais suportava suas agressões. Esse enquadre envolve ciúmes,
perseguição, vingança, discussão, acusação de traição, uso de be-
bida e, principalmente, ameaças, mas a característica recorrente é
a separação como quadro circunstancial em que irrompe o delito.

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Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

1.1 Comprei uma arma e vou te matar!


José, de 57 anos, comerciante, era casado com Eunice, de 45
anos, também comerciante, e possuíam um filho. Eunice resolveu
se separar por não aguentar mais as ofensas e agressões que seu ma-
rido lhe fazia. Em uma sexta-feira aparentemente normal, José foi
até a loja da vítima. Lá começou a dizer que não tinha receio da
polícia e foi em sua direção com o intuito de agredi-la. Imediata-
mente, o filho do casal repeliu o pai que, depois disso, aproveitou
para dizer que “tinha comprado uma arma e iria matar Eunice”.
Ela registrou o fato acontecido, mas ainda por diversas vezes José
continuou a ameaçá-la de morte, o que a fez pensar em desistir de
registrar o fato. Além de essas ameaças ocorrerem frequentemente,
José ainda dizia que a vítima era uma “vagabunda, piranha, puta,
ordinária, sem-vergonha”, tudo porque não aceitava a separação do
casal. (Processo 2007.036.850.28)

1.2 Deixo você no escuro, jogo pedras no seu telha-


do e depois te mato
Ednei, com 29 anos, e Angélica, com 24, ambos costureiros, fo-
ram casados por seis anos. No entanto, estavam separados há mais
ou menos três meses, em razão das incompatibilidades na relação.
Desde a separação, o denunciado decidiu não aceitar a situação,
passando, então, a provocar uma série de prejuízos à vítima, como
jogar pedras no telhado da residência da mesma, desligar o relógio
de energia. Não satisfeito com tudo isso, começou a fazer ameaças
de morte. Numa manhã de segunda-feira, mais ou menos na hora
do almoço, Ednei voltou a incomodá-la, só que dessa vez, além dos
prejuízos, arrombou a porta da casa e partiu para cima de Angélica
com a intenção de agredi-la, momento em que começou a enforcá-
-la. Angélica conseguiu se soltar e fugir por alguns instantes, no
entanto, foi alcançada, derrubada no chão e novamente agredida.

66
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

Ainda assim, a vítima saiu correndo salvando-se da perseguição e


de danos maiores. Ednei já possuía procedimento na Delegacia de
Polícia, por fazer ameaça contra Angélica, além de ser acostumado
a ingerir bebidas alcoólicas e perturbar o sossego da mesma. (Pro-
cesso 2008.003.731.40)

1.3 Destruição material e espiritual: pedras no te-


lhado e tapas seguidos de chutes
Casados por nove meses, Vitor de 31 anos, operava máqui-
nas, e Elissandra, de 37 anos, era doméstica. No entanto, devido
à incompatibilidade e às constantes desavenças entre o casal, Elis-
sandra resolveu se separar de Vitor, situação que não foi aceita por
ele. Num sábado à noite, dois dias após a separação, Vitor foi até
a residência da sua ex-mulher e passou a jogar pedras sobre o te-
lhado. Insatisfeita com a situação, Elissandra tentou conversar com
ele, pedindo que deixasse de jogar as pedras, pois poderia causar
prejuízos, já que o imóvel era alugado. Depois disso, ele lhe deu
um tapa no rosto. Surpresa com a reação, a vítima questionou tal
atitude, momento em que novamente foi agredida com outro tapa
e alguns chutes. No outro dia, Vitor teria prometido novas agres-
sões, porque ficou sabendo que Elissandra o havia denunciado. As
ameaças e as agressões não eram novidades. Elissandra já as sofrera
anteriormente. (Processo 2008.014.705.57)

1.4 Vou ensinar a não me fazer de palhaço!


Gilvan, de 63 anos, e Adelina de 58 anos, estavam juntos há
aproximadamente 36 anos. Ele sempre trabalhou como mecânico,
enquanto ela cuidava da casa. Mas há cerca de dois meses, em virtu-
de de agressões e ameaças praticadas por Gilvan, Adelina resolveu se
separar e foi morar com sua irmã. Desde então, o denunciado vem
afirmando para familiares da vítima que vai comprar uma arma para

67
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

matá-la e vai se suicidar em seguida. Em uma segunda-feira, repenti-


namente, Gilvan telefonou para nora de Adelina, dizendo que havia
comprado um revólver por R$ 700,00, e que o usaria para matar a
vítima e em seguida tiraria a própria vida. Adelina contou que desde
o início do casamento sofria com as agressões de seu marido. Após o
fato ocorrido, na última sexta-feira de rotina, a senhora Adelina se
encontrava em casa, quando Gilvan chegou e, em tom ameaçador,
pronunciou a seguinte frase: “Você vai ver agora o que eu vou fazer,
vou ensinar a não me fazer de palhaço”. Insatisfeito, mal-humorado,
com raiva de tudo e de todos, Gilvan, então, caminhou em direção
ao quarto, que fora do casal e, em um tom ainda mais ameaçador e
agressivo disse novamente a seguinte frase: “Amanhã vou comprar
um revólver e matar você e seu filho”. Devido a essas e outras agressões
feitas por ele, Adelina vive aterrorizada. (Processo 2008.019.380.01)

1.5 Vou comprar uma arma pra te matar e quem


estiver com você
O relacionamento de Jorge, 28 anos, e Cíntia, 25 anos, ele lavrador
e ela costureira, durou aproximadamente um ano e oito meses. Dentre
os motivos da separação alegados por Cíntia estava a crueldade de seu
companheiro, que lhe agredia inclusive fisicamente com socos, duran-
te toda a vida em comum. Mesmo assim, Jorge não aceitava a separação
e, por duas vezes consecutivas, uma delas em um domingo, esteve na
casa de Cíntia e pronunciara a seguinte frase :“Vou comprar uma arma
para te matar e quem estiver com você”. (Processo 2008.012.640.94)

2. Ciúme doentio
Neste enquadramento estão os processos cujas circunstâncias
em que a violência é denunciada estão associadas a cenas de ciúmes.
É notório que o ciúme é um elemento que perpassa quase todas as
categorias, porém, aqui, a diferença é que há nos textos uma ênfase

68
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

desse elemento sob a forma de crises reiteradas. Quanto à bebida,


outro elemento também recorrente nas descrições, não aparece
nesse enquadramento como desencadeadora da agressão, mas tal-
vez como coadjuvante dos arroubos de ciúmes. Em alguns textos,
há menções explícitas aos ciúmes, em outros ele é apenas depreen-
dido nos tópicos narrativos em que se mencionam relatos em que
o acusado teria sabido que a vítima estaria com outro. As alegações
nessa categoria são bastante difusas. Machado e Magalhães (1999)
explicam que os ciúmes, em geral, operam como um significan-
te que permite o travestimento de questões de poder e de direito
em questões amorosas e vice-versa. Os ciúmes camuflam todo um
entrelaçamento de problemas econômicos, identitários e afetivos,
travestindo-os em questões amorosas.

2.1 Uma mordida na boca


Pedro e Eliana estavam juntos há seis meses, ambos costureiros, ele
aos 26 anos e ela aos 21. Numa noite de sábado aparentemente normal,
os dois estavam em uma festa quando, repentinamente, Pedro ficou com
ciúmes dela e começou a agredi-la. O rapaz mordeu os lábios de Eliana,
jogou-a no chão e saiu arrastando-a pelos braços, machucando-a. Ob-
servando a presença da polícia, ele parou com as agressões e disse: “Lá
em casa eu acabo com você”. A moça, logo em seguida, foi até a Delega-
cia e representou contra Pedro. (Processo 2008.032.974.70)

2.2 A garota arrastada pelos cabelos por


quatro quarteirões
Unidos há três anos, Irineu com 21 anos, e Patrícia com apenas
16 anos, tinham uma filha. Patrícia cuidava da casa, enquanto Iri-
neu trabalhava como costureiro. Numa sexta-feira à noite, Irineu foi
à procura de Patrícia e, ao encontrá-la, começou então uma série de
agressões. O rapaz apertou o pescoço da garota na tentativa de enfor-

69
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

cá-la, deu-lhe socos e bateu com a cabeça dela contra a parede. Como
se não bastasse tudo isso, insatisfeito com as agressões sem armas
além dos próprios punhos, pegou um facão e continuou a agredir a
vítima com o objeto. Por fim, arrastou-a pelos cabelos por cerca de
quatro quarteirões, deferindo-lhe pontapés e socos, ofendendo-lhe
a dignidade com palavras ofensivas à sua reputação – “vagabunda,
prostituta”. Patrícia já havia sido agredida anteriormente por Irineu,
e este sempre justificou seu comportamento covarde em função do
ciúme doentio que nutria por ela. (Processo 2008.010.903.20)

2.3 Vou arrancar dente por dente seu até você estre-
buchar no chão!
Osmar, de 38 anos, lavrador, e Kátia, de 35 anos, comerciante, vi-
viam “uma união estável” há aproximadamente 15 anos e dessa relação
tiveram dois filhos. Em um sábado de manhã, Osmar chegou ao esta-
belecimento comercial alugado pelo casal e começou a acusar Kátia de
traição, dizendo que ela estava paquerando um cliente do restaurante.
Começou, assim, uma desavença e, no auge da discussão, Osmar disse
que Kátia não prestava. Ela, por sua vez, cansada das ofensas ditas pelo
seu marido, resolveu pedir a separação. Ele, inconformado, gritou: “É
melhor você então mudar daqui, porque senão eu vou arrancar dente
por dente da sua boca até você estrebuchar no chão”. Por diversas vezes
durante a vida em comum, Kátia foi ameaçada por Osmar. Ele afirma-
va que se ela o deixasse ele a iria matar, tudo isso motivado pelo ciúme
exagerado que sentia. (Processo 2007.043.462.51)

2.4 Um passeio de carro na estrada


Henrique e Fátima, ambos costureiros, ela com 24 e ele com 23
anos, eram casados e tinham um filho. Em razão de alguns desen-
tendimentos, Fátima foi passar alguns dias na residência de ami-
gos, por receio que Henrique pudesse causar-lhe algum mal. Numa

70
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

sexta-feira à noite, na tentativa de uma reconciliação, Henrique foi


até a casa dos referidos amigos do casal, fazendo com que Fátima
entrasse no carro com ele. Depois disso, foram em direção ao trevo
norte da cidade, sendo que no percurso, a moça, prevendo futuras
agressões por parte do marido, tentou saltar do carro. Nesse instan-
te, o denunciado segurou Fátima com força e começou a agredi-la,
machucando-a no ombro direito e na cabeça. O relacionamento
do casal já estava bastante conflituoso, desagradável, situação que
culminou em várias discussões, seguidas de separações e reconcilia-
ções. Na última reconciliação, Henrique afirmou que iria matá-la
se fosse deixado por ela mais uma vez, dizendo ainda que Fátima
estaria se insinuando para outros homens, tudo isso em razão do
ciúme exagerado que sentia. (Processo 2007.049.966.55)

3. Alcoolismo
Outra categoria de grande incidência é a que enquadra delitos
denunciados em cenas em quais enfatiza o uso de bebidas alcoóli-
cas. Aqui também são recorrentes termos como ciúme, traição, dis-
cussão, perseguição, etc, contudo, neste enquadre, a moldura é um
cenário no qual o agressor, bêbado, geralmente chega em casa e por
qualquer motivo instala uma situação de pânico com cobranças,
queixas, acusações, ameaças e vias de fato, aterrorizando a mulher e
os demais. Em muitos casos a separação emoldura o quadro de vio-
lência, no qual o agressor pode estar bêbado ao investir sobre a víti-
ma, fazendo-lhe acusações, ameaças e agredindo-a fisicamente, de
forma muito semelhante à categoria atual. Porém, aqui, o enquadre
é a própria cena de alcoolismo, uma vez que os motivos alegados
para a violência são, em geral, fúteis, e até desconhecidos. Almeida
(2007) observa que o alcoolismo, assim como alegações de lou-
cura, patologia, paixão e/ou na frustração sexual, compreendidas
como fator desencadeador do conflito, são explicações fatalistas
que encobrem lutas de poder mais complexas e apenas servem para

71
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

legitimar os processos de violência que se mantêm e se reproduzem


nos espaços domésticos.

3.1 Uma mordida na mão

Carlos e Alessandra viviam juntos há aproximadamente seis


meses e tinham uma filha, na época com três meses de idade. Ela,
aos 27 anos, trabalhava como doméstica, enquanto ele, aos 29
anos, trabalhava como pintor de paredes. Numa tarde de sábado,
Alessandra estava em casa, quando Carlos, bêbado, chegou de um
estabelecimento comercial e sem qualquer motivo aparente pas-
sou a ofender-lhe, afirmando que ela era “vadia, vagabunda, não
prestava”. Depois disso, resolveu abrir mais uma garrafa de cerveja,
sendo impedido pela moça. Tal atitude causou fúria ao denunciado
que imediatamente mordeu a mão direita da vítima, lesionando-a.
Nervosa, Alessandra jogou um copo contra Carlos e ele novamen-
te foi em direção a ela com o objetivo de atingi-la com a garrafa.
No entanto, tal ação foi impedida pelo pai de Carlos. Acionada a
polícia, Carlos tentou resistir à prisão utilizando-se de força física.
Contido, o rapaz foi preso e conduzido até a Delegacia local. (Pro-
cesso 2008.004.523.26)

3.2 Não mate a minha mãe!


Erivaldo tinha 31 anos e Cristiane, 24. Viviam juntos há apro-
ximadamente dois anos e não tinham filhos em comum. Ela era
costureira e ele lavador de automóveis. Em uma segunda-feira, o
rapaz chegou em casa bêbado, ofendendo Cristiane, dizendo que
ela era uma “vagabunda, puta, sem-vergonha.” Sem qualquer moti-
vo aparente, começou a agredi-la com puxões de cabelo e ameaças
de morte. As atitudes de Erivaldo foram repelidas pela filha da ví-
tima que começou a gritar, pedindo que ele não matasse sua mãe.
Então, Erivaldo saiu dizendo que iria “pegar um revólver”. Erivaldo

72
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

retornou e tentou entrar na residência, dando vários chutes con-


tra a porta, reafirmando que iria matar Cristiane. No dia seguinte
voltou a incomodar, no entanto, a polícia militar foi acionada e
prendeu Erivaldo em flagrante delito. (Processo 2008.027.736.26)

3.3 Briga no bar


Bruno, com 24 anos, e Gislaine, com 34, estavam juntos há
aproximadamente oito meses, ele oleiro e ela do lar. Num sábado
à noite os dois estavam no “Bar do Lininho”, quando Bruno come-
çou a dizer que Gislane era “vagabunda, puta, piranha e não passa-
va de uma prostituta”, atitude esta que fez com que ela se retirasse
do local para evitar maiores desentendimentos. Horas depois, Bru-
no foi procurá-la na casa de Gislane, dizendo: “você toma cuidado
comigo porque hoje eu estou por conta, eu vou desgraçar minha
vida”. Novamente Gislane saiu, sendo perseguida por ele, que con-
tinuava falando besteiras e passou a agredi-la fisicamente, jogan-
do a bicicleta em cima dela por algumas vezes. Nervosa, Gislane
empurrou Bruno, instante em que ele começou a lhe dar murros
contra a cabeça, machucando-a. (Processo 2007.043.487.42)

3.4 Vou te cortar com a faca de baixo para cima,


começando pela...!
Vilma era casada com José Mário há aproximadamente vinte e
um anos e tinham três filhos. Ela aos 55 anos trabalhava como do-
méstica e ele aos 53 anos como lavrador. Infelizmente, aproxima-
damente dez anos, antes do ocorrido, José Mário havia começado a
modificar seu comportamento, passando a ficar agressivo com sua
esposa e seus filhos, ameaçando-os frequentemente. Em um sábado
à tarde, José Mário chegou à sua casa, bêbado, e começou a ameaçar
Vilma de morte, batendo as tampas das panelas, e chegando, inclu-
sive, a empurrar sua esposa. Bêbado, disse as seguintes ameaças con-

73
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

tra ela: “Eu vou matar você e vou matar o seu filho”, dizendo, ainda
que “vai fuder” Vilma “todinha”, bem como que “vai cortá-la com
a faca de baixo para cima, começando pela vagina”. A vítima decla-
rou que tem muito medo de José Mário, uma vez que ele já teria ma-
tado três pessoas e estaria pronto para matá-la também. (Processo
2008.013.451.67)

3.5 Carnaval
Carol, uma jovem secretária, de 25 anos, e Wilmar, um jovem
mecânico, de 24 anos, possuíam uma união estável. Numa segun-
da-feira à noite, Wilmar chegou em casa bêbado, mandando Carol
calar a boca. Depois, a moça queria sair para as festas, pois era car-
naval. Neste instante, foi impedida por Wilmar, que ligou um som
em alto volume e começou a ofender a sua dignidade, afirmando
que “ela era muito safada e que mulher que nem ela tinha aos mon-
tes na rua”. Insatisfeita com a situação, Carol resolveu fazer suas
malas para ir embora, instante em que Wilmar começou a desferir
chutes por todos os lados. Daí por diante, ela passou a ser agredida
com empurrões, socos e uma série de tapas. A moça machucou seu
rosto na parte esquerda e seu braço esquerdo. Wilmar era reinci-
dente nas atitudes violentas, e já havia agredido Carol várias outras
vezes. (Processo 2008.014.708.91)

3.6 Você não faz comida porque está na rua com


outros homens!
Roberto e Simone eram casados há aproximadamente nove anos
e tinham duas filhas. Ele, aos 39 anos de idade, professor de Educa-
ção Física, e ela, aos 35 anos, costureira. Em um anoitecer de sábado,
Roberto chegou em casa bêbado, perguntando sobre o jantar, afir-
mando que Simone não fazia comida porque estava na rua com ou-
tros homens, que era uma “puta e piranha” e que iria matá-la. Logo
em seguida passou a dar empurrões em Simone, chegando, inclusive,

74
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

a pegar uma pedra com o intuito de atingi-la. Ela, para se defender,


pegou um pedaço de pau e jogou contra Roberto. Simone vinha sen-
do ameaçada de morte e agredida com empurrões há mais ou menos
cinco anos, além de ter sua dignidade abalada em razão das acusações
e insultos feitos pelo seu marido. (Processo 2007.043.465.96)

4. Brigas em que os filhos são pivôs,


vítimas ou agressores
As atitudes violentas dos adultos em relação às crianças, espe-
cialmente contra aquelas ainda bem pequenas, frequentemente são
associadas à inclinação instintiva da espécie humana para destruir
e fazer sofrer seus semelhantes. Vista dessa forma, a violência em
geral teria como causa principal a satisfação de impulsos e desejos
destrutivos do homem e, é claro, também da mulher. No sentido
psicanalítico, segundo Costa (1984), os motivos nobres ou “vis”,
serviriam apenas para justificar, perante a consciência, a existência
de que a conduta destrutiva é fruto da escolha humana.
A partir dessa premissa, Costa (1984) nos fornece argumen-
tos que corroboram a tese de desnaturalização da violência. Con-
cordar que o caráter violento da conduta humana é movido pelo
instinto e não pela razão, equivale afirmar que a violência é irra-
cional. Desse modo, o autor, procura nos mostrar a inconsistência
desse argumento, pois, mesmo nos casos em que a irracionalidade
dá origem à violência, não se pode dizer que essa irracionalidade é
instintivamente animal, já que sua existência nunca coincide com
a ação puramente instintiva.
É bastante comum ouvir alguém dizer que uma pessoa co-
meteu uma violência agindo irracionalmente, por força da raiva,
desespero, etc. Nessa afirmativa, fica implícito que irracional é
idêntico a “emocional”. Nessa equivalência entre violência, irra-
cionalidade e descontrole emocional deduz-se que o emotivo é
igual ao instintivo. Todavia, para o nosso autor, o “emocional” não
é um comportamento destituído de razão. Ora, o indivíduo pode
perfeitamente agir emocionalmente e com violência, sem que isto

75
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

exclua a participação da razão. Na acepção usual do termo e não


na definição científica, segundo Costa (1984), emocional não é o
oposto de racional; é o oposto de indiferente, apático. A violên-
cia provocada pela emoção pode perfeitamente ser racional. Esse
desejo pode ser voluntário, deliberado, racional e consciente ou
pode ser inconsciente, involuntário e irracional, no entanto, esses
predicados não alteram a qualidade especificamente humana da
violência, pois o animal não deseja, o animal necessita.
Afinal, segundo o autor, salvo nos casos reconhecidamente
patológicos, em que a clareza da consciência ou sua estrutura-
ção normal estão comprometidas, toda conduta é racional. A
irracionalidade do comportamento violento deve-se ao fato de
que a razão desconhece os móveis verdadeiros de suas intenções
e finalidades. A violência é irracional quando e porque se diri-
ge a objetos substitutivos, na acepção psicanalítica do termo.
É irracional esmurrar uma porta ou bater no filho, quando se
desejava bater num inimigo ou num chefe; é irracional linchar
um pivete, atribuindo-lhe a responsabilidade pelas condições
de miséria em que vive a população. Seria este o sentido preciso
da violência como sinônimo de irracional, sentido que nada tem
a ver com obscurecimento ou desestruturação da consciência no
ato de violência.
Na cultura ocidental cristã, a mãe ocupa no imaginário cole-
tivo um espaço quase “mítico”, traduzido por símbolos de bon-
dade, abnegação e um profundo amor, capaz de tudo sacrificar
em prol dos filhos e do marido. Todavia, a construção ideoló-
gica desse imaginário se contrapõe aos dados da realidade por
nós observada nos processos. As histórias ou os fragmentos das
histórias de vida narradas nos mostram que as mães não estão
livres de sofrerem agressão por parte dos filhos. Tudo isso, na
verdade, deixa claro o caráter não biológico, mas social e cul-
tural da violência. Crianças socializadas com violência tendem
a reproduzi-la na vida adulta de forma constante, como se ela
fosse natural. Aqui, dispomos uma história que tem uma senho-

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Violência de Gênero, Linguagem e Direito

ra como vítima de seu filho. Este é o único processo que sai do


padrão de violência conjugal identificado nos demais casos, mas
mantém com eles o perfil de violência doméstica e familiar.

4.1 Fraldas para o filho


Gaspar tinha 30 anos e Maria de Fátima 30, estavam juntos
há um ano e tinham um filho. Ela trabalhava como esteticista.
Era um domingo à tarde quando Maria de Fátima pediu para
que Gaspar fosse comprar fraldas para o filho recém-nascido,
no entanto, ele se recusou a atender ao pedido. Maria de Fátima
então pegou o celular para realizar uma ligação, momento em
que foi agredida com um soco. Como se não bastasse, Gaspar
ainda pressionou a moça e o bebê, que estava em seus braços,
contra o sofá, afirmando que se ela o denunciasse acabaria com
a vida dela. Gaspar estava acostumado a agredir verbalmente
Maria de Fátima, ofendendo-lhe a dignidade, bem como a de
sua família. (Processo 2007. 049. 963.70)

4.2 O recibo da pensão


Célio, 28 anos, que estava desempregado, teve uma filha com
Pauliane, 24 anos, que era analista. Em um domingo, mais ou me-
nos na hora do almoço, Célio foi até a casa de Pauliane com o in-
tuito de pagar o valor correspondente à pensão alimentícia de sua
filha. Chegando lá, pediu que Pauliane assinasse primeiramente
o recibo para em seguida lhe passar o dinheiro. Diante da negati-
va dela em atender ao seu pedido, Célio primeiramente ofendeu
a moça, dizendo que ela era “prostituta, vagabunda, bucetuda”.
Além das agressões verbais, Célio foi de encontro a Pauliane,
momento em que a arremessou contra o chão, desferindo-lhe
em seguida socos e tapas. Como se já não bastasse, Célio ainda
ameaçou-a, dizendo que se a mesma relatasse os fatos à polícia,
ele a mataria. (Processo: 2007.040.714.73)

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Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

4.3 As roupas da filha


Depois de terem sido casados por aproximadamente quatro
anos, Gustavo, 32 anos, gráfico, e Flaviana, 20 anos, estudante, es-
tavam separados há cerca de três meses e tinham uma filha. Gustavo
não aceitava a separação. Numa tarde de segunda-feira, Flaviana foi
à antiga casa do casal para pegar algumas roupas de sua filha, pois
pretendia se mudar para outra cidade para se libertar do agressor. No
momento em que estava no quintal da casa, foi agarrada por Gusta-
vo, que a pegou pelo pescoço, usando as duas mãos, e a jogou contra
a parede. Em seguida, ele começou a dar-lhe tapas e socos no rosto e,
também chutes por todo o seu corpo. Como se não bastasse a violên-
cia física, enquanto ele a agredia também a xingava, chamando-a de
“puta, piranha e vagabunda”. (Processo: 2008.026.821.67)

4.4 Um soco na barriga da filha grávida


Neto estava com 45 anos e Andreia com 43. Eram casados há
18 anos, aproximadamente, e tinham dois filhos. Possuíam uma
vida de casal aparentemente normal, ela trabalhava como técnica
de enfermagem e ele trabalhava como pedreiro. Na noite de uma
segunda-feira comum, Neto, bêbado, repentinamente e sem qual-
quer motivo, foi pra cima de Andreia, tentando enforcá-la. Assus-
tada, Andreia começou a gritar por socorro, instante em que a filha
do casal, mesmo diante das limitações de sua condição de grávida,
empurrou Neto para ajudar a mãe, que com muita raiva deu um
soco na barriga da filha. Ao escutarem os gritos das duas, os vizi-
nhos foram ver o que estava acontecendo e, lá chegando, encontra-
ram Neto com um pedaço de “pau” nas mãos. Ao questionarem se
estava havendo algum problema, Neto imediatamente respondeu
que o problema não era do interesse deles. Essas atitudes, por parte
de Neto, são frequentes, pois as vítimas já foram ameaçadas inú-
meras vezes por ele. No entanto, só após as agressões resolveram
representar contra Neto. (Processo 2008.004.972.61)

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Violência de Gênero, Linguagem e Direito

4.5 Vou te dar um tiro na cabeça!


Casados há aproximadamente 24 anos e tendo cinco filhos,
Guilherme e Joana tinham respectivamente 45 e 47 anos. En-
quanto ele trabalhava como operador de máquina, ela cuidava da
casa. Há cerca de um ano, Guilherme passou a ingerir com mais
frequência quantidade significativa de bebidas alcoólicas, sendo
que, quando isso acontecia, ele fica muito agressivo. Assim, numa
segunda-feira de rotina, quando Joana estava chegando em casa,
Guilherme, que estava em um bar próximo, começou a xingá-la e,
em seguida, ameaçou-a de morte. No dia seguinte, mais uma vez
bêbado, Guilherme passou a xingar sua filha, dizendo: “Tá ouvin-
do, sua vagabunda? Sua puta, sua mãe está falando isso?”. Logo de-
pois, ele partiu para cima dela e agrediu-a, dando-lhe um empur-
rão, tendo a garota de 15 anos, batido suas costas na parede. Após
o empurrão dado na filha, ainda lhe disse: “Vou te dar um tiro na
cabeça”. Após as agressões, a polícia foi acionada e compareceu ao
local dos fatos, onde efetuou a prisão em flagrante do denunciado.
(Processo 2008.022.673.48)

4.6 A mãe agredida pelo filho


Maria do Carmo já estava com 50 anos, era dona de casa e não
possuía um bom relacionamento com o filho, José, de 22 anos, que
estava desempregado. O rapaz, usuário de drogas, sempre pedia di-
nheiro à sua mãe para comprar essas substâncias e os dois frequen-
temente discutiam por isso. Em uma segunda-feira à tarde, José,
bêbado, encontrou sua mãe na casa de uma vizinha e lhe pediu
um cigarro e um isqueiro. Depois de atendido o seu pedido, o ra-
paz chamou dona Maria do Carmo para conversar. Ela não queria
muito ir, mas mesmo sem vontade foi conversar com o filho. Nesse
instante, José, drogado, passou a fazer ameaças a ela, dizendo que
“iria jogar o isqueiro e lhe dar um tapa”. Em seguida, realmente lhe

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Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

deu o tapa. Dona Maria do Carmo, logo depois de ter sido agredi-
da, correu em direção a sua casa, tendo sido seguida por José, que
recomeçou as agressões, desferindo socos e pontapés contra ela. O
pai do rapaz e marido da vítima tentou evitar a agressão, mas o filho
começou a se voltar contra ele também. Os vizinhos, assustados,
chamaram a polícia, que veio em socorro de dona Maria do Carmo,
prendendo o agressor. (Processo 2008.005.274.82)

5. Agressão instrumentalizada
A agressão física instrumentalizada é aquela em que o autor se
utiliza de alguma arma, instrumento ou objeto para agredir a inte-
gridade física da vítima. Incluem-se armas de fogo, armas brancas e
uma enorme variedade de objetos que estiverem à mão do agressor
para golpear e ferir a vítima. Identificamos quatro processos com
essas características. Um deles apresenta a história em que uma mu-
lher foi vítima fatal de seu marido, tendo sido assassinada a facadas
na frente dos filhos; outro se tratava de um homicídio cometido
pela mulher contra seu companheiro.
Sobre essa questão, vale comentar que as significações institu-
ídas sobre a mulher e seu papel de mãe possuem raízes tão profun-
das que não se aceita que ela possa, tal como o homem, praticar
atos de violência. Mas a pesquisa nos aponta outras perspectivas
para compreender a mulher e sua ação no mundo. Na verdade, as-
sim como o espaço doméstico, onde idealmente a mulher seria a
“rainha do lar”, não a protege da violência, ela também pode agir
de forma violenta contrapondo-se à mística da natureza feminina.
Nesse contexto, o crime também faz parte dessa ação, que pode ser
interpretada como uma forma de manifestação, de revolta contra
uma vida inteira de sofrimento. E, é essa “revolta” que lhe permite
sair do espaço privado e ganhar a visibilidade que não obteve du-
rante todo o tempo em que foi vítima de uma violência constante
e opressiva. Isso não significa que essa mulher agiu irracionalmente
ou que ela não estava adaptada culturalmente ao papel de mulher

80
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

ou de mãe. Sua ação difere da maioria das mulheres, ela saiu da con-
dição de mulher submissa ao homem para a condição de agressora,
autora de um crime. Claro que ela poderia ter procurado os meios
legais, denunciá-lo à polícia, separar-se dele, etc. No entanto, nem
sempre essas atitudes são eficientes para barrar a violência. Muitas
vezes, denunciar o agressor ou separar-se dele constituem motivos
para desencadear novas ameaças e violências ainda mais graves.

5.1 Uma facada no olho


Josemar tinha 34 anos e era costureiro. Sandra estava com 40
anos e era doméstica. Estavam juntos há aproximadamente três
anos. Numa terça-feira, Josemar repentinamente começou a ofen-
der Sandra, dizendo que ela era: “vagabunda, prostituta e puta”.
Durante a discussão, o rapaz pegou uma faca e desferiu um golpe
contra o rosto de Sandra, atingindo-a no olho esquerdo. As agres-
sões de Josemar contra Sandra começaram no dia 7 de dezembro,
sendo que no dia seguinte, ele machucou sua barriga após empur-
rá-la. Além das agressões físicas, Josemar ofendia Sandra, dizendo
que ela era uma “vagabunda, prostituta e puta”. Essa escalada de
violência só foi suspensa com a prisão de Josemar no dia 11 de de-
zembro, ou seja, quatro dias após os primeiros ataques. (Processo
2007.051.532.10)

5.2 Lata de ervilhas


Paulo tinha 23 anos e Ana Carla 30. Estavam juntos há apro-
ximadamente um ano e quatro meses. Ela era costureira e ele me-
cânico. Num domingo a tarde, Paulo chegou em casa bêbado, mo-
mento em que o casal começou a discutir. Alterados os ânimos, o
rapaz pegou uma lata de ervilhas aberta e começou a batê-la contra
o braço esquerdo e a testa de Ana Carla. Além disso, utilizando-se
da tampa da lata, fez vários aranhões no corpo da moça. Não satis-

81
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

feito, também passou a ofendê-la, dizendo que era ela uma “vaga-
bunda”. O denunciado era acostumado a fazer esses tipos de agres-
sões, e frequentemente agredia a moça durante a vida em comum.
(Processo 2008.014.708.08)

5.3 O caso da mulher assassinada pelo marido com


15 facadas
Chirley e Robson eram unidos há aproximadamente 15 anos
e tinham dois filhos. Ela, com 32 anos, cuidava da casa, enquan-
to Robson, com 40 anos, era autônomo. A convivência entre esse
casal já não era harmônica, tanto que Chirley já havia denunciado
uma vez seu companheiro por agressão e ameaças diversas. Depois
disso, Robson sempre comentava que iria matá-la. Em um sábado
normal, ambos estavam em um churrasco com a família. Em algum
momento, Chirley escorregou, caiu e cortou o supercílio, sendo
socorrida pelas pessoas que lá estavam. Os presentes contaram que
Robson teria zombado da esposa pela queda ao invés de ajudá-la.
Depois do atendimento médico, Chirley retornou à casa de sua
mãe, pegou seus filhos e foi embora para a República Z, onde mo-
rava. Quando chegou em casa, Robson já estava lá. A vítima foi
ao banheiro, momento em que Robson pediu para abrir a porta e
ela não abriu. Ao sair, a dona de casa começou a ser agredida pelo
marido, que se armou de uma faca e começou a desferir vários gol-
pes contra ela. Robson, neste momento, teria acabado de matar
Chirley. Toda essa cena foi assistida pelos filhos do casal, um com
dois anos e o outro com 14. Depois de ter matado a moça, Robson
foi em direção ao seu filho menor com o intuito de também fazer-
-lhe mal, no entanto, foi empurrado pelo filho maior que pegou
seu irmão e saiu à procura de socorro. O denunciado fugiu logo
em seguida, prometendo voltar para “pegar” os filhos. Embora o
casal brigasse constantemente e já tivesse se separado e reconciliado
vária vezes, o crime foi cometido por um motivo banal, que foi o

82
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

fato de terem tido uma discussão porque a vítima não queria abrir a
porta de um banheiro e, depois, reclamar pelo fato de não ter sido
socorrida por Robson, quando caiu na casa de sua mãe e cortou
o supercílio. Robson deu em Chirley quinze golpes de faca, até a
morte. Por ter sido o ataque inesperado e pela força superior de
Robson em relação a Chirley, ela não teve possibilidade de defesa.
(Processo 2008.044.618.77)

5.4 A mulher que mata o marido


Gerson tinha 35 anos e Ana Flávia, 44. Ela técnica de enferma-
gem e ele lavrador. Ficaram juntos aproximadamente seis anos. A
convivência entre o casal era difícil, pois frequentemente estavam
discutindo por incompatibilidades na relação. Gerson passou a ter
um comportamento sexual que não agradava Ana Flávia, muitas
vezes obrigando-a a fazer coisas que ela não queria. Quando ela
se recusava a fazer, ele dizia que iria procurar fora o que não tinha
em casa. Três meses antes do crime, Gerson começou um relacio-
namento com outra mulher, mas continuava a conviver com Ana
Flávia. Esta, ao descobrir o caso de seu marido, passou a agir de for-
ma descontrolada e a fazer coisas estranhas, como colocar fogo nas
roupas de Gerson e a ameaçá-lo. Mesmo possuindo uma amante,
Gerson não deixava Ana Flávia, obrigando-a ainda a ter relações
sexuais com ele. Ana Flávia, muito constrangida e nervosa, con-
tou que seu marido exigia que ela fizesse sexo oral e anal com ele,
e diante da recusa de Ana Flávia em fazer essas práticas, Gerson
justificava sua procura por outras mulheres, uma vez que em casa
não encontrava o que queria. A tensão entre o casal foi ficando cada
vez maior. Ana Flávia pedia que Gerson saísse de casa e este não
tomava nenhuma providência nesse sentido. As brigas foram cres-
cendo e se agravando. O casal desenvolveu um comportamento de
ameaças entre si e, inclusive, ele assustava Ana Flávia fingindo estar
segurando revólver, facas. Um dia Gerson ameaçou-a de morte, fin-

83
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

gindo colocar uma arma em suas costas para matá-la. A sensação de


pânico era cada vez maior e Ana Flávia estava completamente apa-
vorada. Em uma quinta-feira à noite, Gerson estava na residência
de sua amante, quando recebeu uma ligação de sua esposa, dizendo
que precisavam conversar. Chegando em casa, Gerson e Ana Flávia
começaram a discutir. No auge da discussão, a técnica de enferma-
gem se dirigiu ao quarto para pegar uma toalha e, nesse momento,
armou-se de um revólver calibre 32. Em seguida, dirigiu-se ao ma-
rido e efetuou seis disparos contra ele, sem lhe dar qualquer chance
de defesa. Depois de ter atirado no lavrador, a denunciada fugiu do
local em uma motocicleta, tendo se apresentado posteriormente.
Segundo a polícia, o motivo do crime deveu-se ao ciúme que a de-
nunciada nutria pela vítima. (Processo 2008.018.198.51)

84
PARTE III
AS PERFORMANCES GENDERIZADAS NAS
CONJUGALIDADES VIOLENTAS
Neste estudo, a violência contra a mulher apresentou-se, ma-
ciçamente, ligada a conflitos conjugais. Com exceção apenas do
caso do filho que agrediu a mãe, todos os demais processos trata-
vam de crimes decorrentes de brigas de casais. Essa característica da
violência contra a mulher exige uma análise do fenômeno a partir
de como este se configura dentro das acepções de “conjugalidade”.
Ou seja, conforme propõe Toloi (2006), sob a expressão e comu-
nicação de anseios, expectativas, valores, intenções individuais, de
como os indivíduos e instituições compreendem e vivenciam as
concepções de amor, família, casamento e como essas concepções
atuam no cotidiano das relações.
Segundo Magalhães e Féres-Carneiro (2003), a conjugalida-
de se define como uma dimensão psicológica compartilhada que
possui uma dinâmica inconscientemente ligada a leis e funciona-
mentos sociais específicos. Os autores esclarecem que, quando nos
referimos a um sentimento de intimidade datado na civilização
ocidental, estamos enfatizando a forma como esse sentimento foi
construído histórica e culturalmente, derivado das relações entre
público e privado. A intimidade tal qual a encontramos na relação
conjugal, nos tempos atuais, sofreu transformações sucessivas. A
historiadora Mary del Priore (2005) lembra que, no Brasil, durante
mais de quatro séculos, os casamentos não se faziam necessariamen-
te de acordo com a atração recíproca e sentimento de intimidade
dos parceiros, valiam mais os interesses econômicos e familiares,
entre os ricos, e a organização do trabalho e sobrevivência, entre os
mais pobres. A partir do século XX, contudo, as relações íntimas

85
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

entre casais, paulatinamente, passam a incorporar uma perspectiva


de transposição dos princípios da cidadania para a esfera privada.
Como sugere Giddens (1992), os relacionamentos íntimos e as li-
gações familiares na modernidade, revestem-se de uma promessa
de efetivação de liberdades, de direitos e de deveres essenciais à ma-
nutenção do equilíbrio da própria vida em sociedade.
Ter a equidade como um princípio regulador das práticas de
intimidade e de amor é uma forma de abordagem. Contudo, con-
forme aponta Toloi (2006), se na modernidade emerge um discur-
so de ideais igualitários que sinaliza algumas transformações nos
relacionamentos, no plano da subjetividade e no dia a dia das rela-
ções conjugais, é difícil ver uma transição definida. O que mais se
revelou nas análises das histórias de violência neste estudo foi que
o discurso inspirado no ideário individualista/feminista encontra
limites, tensões e muita resistência quando em contato com a reali-
dade local, tanto institucional quanto privada.
Tais evidências podem ser trilhadas nas estruturas textuais
redigidas pelos operadores do direito nos autos processuais. Elas
se expressam tanto em unidades lexicais menores, no nível da pa-
lavra, quanto em níveis mais complexos do texto, como o enredo
das histórias das vítimas e acusados, as seções argumentativas nos
apelos de advogadas/os e promotoras/es e até nos trechos injunti-
vos mais exíguos das sentenças de juízas e juízes, assim estruturados
em função da suposta neutralidade do direito. São nessas unidades
que detectamos a formação discursiva à qual o sujeito se filia, às
vezes mesmo sem perceber, marcando sua posição histórica, social
e ideológica. Como o universo discursivo compreende uma inten-
sa circulação de “saberes”, buscamos identificar quais propriamente
condicionam os posicionamentos tomados pelos indivíduos e ins-
tituições em seus textos. Trata-se, portanto, de identificar a relação
dos discursos aqui estudados com outros discursos do mesmo cam-
po, ou seja, trilhar os interdiscursos com suas diferentes vozes, no
caminho da compreensão dessa conjugalidade violenta.

86
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

Além da dimensão discursiva da conjugalidade, imaterial e ide-


ológica, também pretendemos captá-la nas ações mais concretas
que a realizam, tanto no plano institucional, do direito, quanto no
privado, das relações de gênero. É uma tentativa de análise do fe-
nômeno na polaridade discurso e ação. Para isso, além de trilhar as
ordens discursivas que baseiam as conjugalidades aqui estudadas,
propomos também observar as performances dos atores sociais que
as encenam.
Segundo Bento (2007), vivemos um momento em que as teo-
rias permitem enxergar como performances a quase totalidade das
ações humanas. Ou seja, sob o conceito de performance relaciona-
mos os modos que as pessoas adotam ao agir, falar, andar, comer,
fazer sexo, vestir-se, enfim, de se comportar nos diferentes contex-
tos sociais. Ligada à essência teatral, a performance social é a própria
encenação que os atores sociais desempenham nos palcos da vida,
onde representam diferentes papéis, tais como o de pai/mãe, filho/
filha, empregado/empregada, patrão/patroa, marido/mulher, etc.
Em relação ao teatro tradicional, ao qual a performance se associa
metaforicamente, ao contrário deste, em que existe a separação en-
tre quem atua, o local de atuação e o público que assiste, na per-
formance social tudo se apresenta de forma amalgamada. Sob tal
configuração, compreende-se que a performance ocupa uma posi-
ção estratégia na representação das identidades sociais e, principal-
mente, nas de gênero, uma vez que seu exercício emana do corpo,
onde o gênero se realiza.
Assim, é, fundamentalmente, pelos conceitos de interdiscur-
sividade e performance que serão analisadas questões sobre con-
jugalidade. Observaremos tanto a dimensão ideológica, no plano
dos discursos, quanto o plano das ações materiais, desempenhadas
pelos homens e mulheres, protagonistas das histórias de conjugali-
dade violenta, bem como os operadores do direito, que lidam com
essas conjugalidades no plano institucional.

87
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

1. Performances de masculinidade hegemônica


e machismo
Acho que tem vários fatores, uma delas é até mesmo uma
questão cultural. O tal brasileiro ainda tem o predomínio do
machismo. Além disso, pelas questões até legais. A sensação
de impunidade. A sensação de impunidade eu acho que é ge-
ral, não é só contra a mulher, mas na mulher pode até chegar
a se acentuar. E a agressão também não é só por violência, ela
não é só lesão corporal, mas moral. (Trecho de entrevista com
um médico)

Começamos este tópico com o trecho da entrevista de um


médico que atende no sistema de saúde pública no município em
que realizamos o estudo. Nessa entrevista, o médico associa ques-
tão cultural e impunidade em um comentário que se alinha direta-
mente à discussão sobre como a violência na conjugalidade se liga
a um contexto ainda muito impregnado pelos valores da cultura
patriarcal. O médico, além de relacionar cultura e impunidade à
violência de gênero, adiciona o elemento “machismo”, um compo-
nente muito presente, explícita ou implicitamente, nessa questão,
cuja evidência merece uma discussão especial, conforme desenvol-
veremos neste tópico.
Vamos começar por observar alguns extratos do gênero De-
núncia, que registram as formas pelas quais os homens impigem a
violência sobre suas companheiras, revelando os papéis que tomam
para si no que compreendem como conjugalidade:

1. Segundo a fonte em evidência, o denunciado e a vítima


são casados, e dessa relação frutificou um filho. No dia e local
indicados em linhas pretéritas, o denunciado, se dirigiu até
o estabelecimento comercial da vítima e lá começou a dizer
que não tinha receio da polícia e foi em sua direção com o
intuito de agredi-la. Tal ação foi repelida pelo filho do casal,
oportunidade em que o denunciado se retirou para o bar ao

88
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

lado afirmando que “tinha comprado uma arma e iria matar”


a ofendida. Registrada a ocorrência por este fato, o denuncia-
do voltou a tecer ameaças de morte contra a vítima, motivo
que fizera pensar em desistir da ação. Ressoa, ainda dos autos,
que por diversas vezes a vítima foi ameaçada e agredida pelo
denunciado, além de ter dito que era uma “vagabunda, pira-
nha, puta, ordinária, sem vergonha”, tudo porque não aceitava
a separação do casal. (Processo: 2007.036.850.28)

2. Segundo a fonte em evidência, o denunciado e a vítima são


unidos estavelmente há aproximadamente 15 (quinze) anos
e dessa relação frutificaram dois filhos. No dia indicado em
linhas recuadas, o denunciado chegou ao estabelecimento co-
mercial alugado pelo casal e começou a afirmar que a vítima
estava flertando com um cliente do restaurante. No calor da
discussão, o denunciado afirmou que a ofendida não prestava,
esta por sua vez, cansada das condutas de seu companheiro,
terminou por insistir na separação. O denunciado, irresig-
nado disse: “é melhor você então mudar de Jaraguá, porque
senão eu vou arrancar dente por dente da sua boca até você es-
trebuchar no chão”. Ressoa, ainda dos autos, que por diversas
vezes durante a vida em comum, a vítima foi ameaçada pelo
denunciado, pois este afirmou que se ela o deixasse, a mataria,
tudo isso motivado pelo ciúme exagerado que sentia. (Proces-
so: 2007.043.462.51)

3. Segundo a fonte em evidência, o denunciado e a vítima fo-


ram unidos estavelmente, e no local indicados em linhas recu-
adas, primeiro chegou em casa embriagado, ordenando que a
ofendida calasse a boca. Posteriormente, a vítima queria sair
para participar das festividades do carnaval, oportunidade em
que foi impedida pelo denunciado, que ligou o som em alto
volume e começou a ofender a sua dignidade, afirmando que
“ela era muito safada e que mulher que nem ela tinha aos mon-
tes na rua”. Insatisfeita com a situação, a vítima resolveu fazer
suas malas para ir embora, instante em que o denunciando
começou a desferir chutes por todos os lados. Dai por diante,

89
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

a ofendida passou a ser agredida com empurrões, socos e uma


série de tapas. As agressões causaram a vítima, lesões na face
esquerda e contusões no antebraço esquerdo. De acordo com
o noticiado, o denunciado era dado a atitudes violentas, pois a
vítima já havia sido agredida em outras oportunidades. (Pro-
cesso: 2008.014.708.91)

4. Restou apurado que, no dia e local indicados em linhas


recuadas, o denunciando injuriou a vítima XXXXX, ofen-
dendo-lhe a dignidade, insultando-a com os seguintes di-
zeres: “vagabunda, prostituta e puta”. Infere-se, outrossim,
do caderno investigativo, que, durante o entrevero ocorrido
entre o casal, o denunciado apoderou-se de uma faca e des-
feriu um golpe contra a face da vítima, atingindo-a no olho
esquerdo. É certo que as investida do denunciando tiveram
início no dia 07/12/2007 e terminaram com sua prisão no
dia 11/12/2007. No dia 08/12/2007 empurrou a vítima,
grávida, culminando lesões na região abdominal. Posterior-
mente, incorreu nas práticas descritas inicialmente. Conco-
mitantemente às agressões acima, o Denunciando ofendeu a
dignidade da vítima, ao chamá-la de “vagabunda, prostituta e
puta”. Assinale-se, por derradeiro, que o Denunciando convi-
veu com a vítima pelo período aproximado de três anos. (Pro-
cesso 2007.051.532.10)

As cenas aqui transcritas denunciam um sistema de relações


com alto grau de tensão e violência, permeado por práticas agres-
sivas, arbitrárias e cruéis. São performances de gênero que incorpo-
ram a cultura do “normal masculino” e a posição do “macho social”,
noções que apoiam o controle totalitário do homem sobre “suas”
mulheres nas relações de conjugalidade. É uma expressão de viri-
lidade conduzida por um padrão hegemônico no sentido estrito
do termo. Derivada do verbo eghemoneuo do grego antigo, que
significa “comandar”, “chefiar”, a palavra hegemonia tem uma co-
notação totalitarista do campo semântico militar. São, portanto,
performances hegemônicas, de homens que se investem de plenos

90
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

poderes para o controle sobre as mulheres, em nome de leis e supe-


rioridades naturais que julgam encarnar.
Essas ações, assim qualificadas, problematizam a conexão entre
homens, gênero e violência, ao que o médico, no trecho da entrevis-
ta que abriu este tópico, chamou de “machismo”. Essa é uma forma
de exercício do masculino que penaliza terrivelmente as mulheres,
pois impinge a elas mais que uma violência física, uma desmoraliza-
ção simbólica, conforme também observou o médico. E, aprovei-
tando ainda a fala do entrevistado, é desconcertante e desafiadora
a tolerância a esses tipos de agressões, expressa na impunidade dos
seus agentes, pois essa violência, a um só tempo, fere e contradiz o
ideário de civilidade informado pela universalidade de direitos a
que almejam as sociedades contemporâneas, ditas modernas.
Tentar compreender por que ações dessa natureza, arcaicas e
desumanas, ainda se perpetuam, especialmente, no contexto bra-
sileiro, implica em focalizar os processos de socialização associa-
dos ao tipo de masculinidade que elas performam, dominadora e
violenta. Isso perpassa a noção de que padrões de masculinidade
variam de acordo com a cultura, com um certo período de tempo,
com as diferentes identidades e variam até mesmo no decorrer da
vida de qualquer homem individual (Kimmel, 2000). Assume-se,
portanto, que é impossível definir a masculinidade de forma unitá-
ria e fixa, como se todos os homens compartilhassem sua essência
e pudessem ser identificados por traços subjetivos comuns. Assim,
ainda que os homens focados neste estudo dividam traços muito
semelhantes entre si, eles não podem ser tomados como representa-
tivos do homem brasileiro ou mesmo do homem jaraguense. Muito
embora o caráter hegemônico cararacterística dessa masculinidade
(construída a partir de valores patriarcais e machistas) seja consi-
derado por autores como Costa (1989) um traço dominante nos
padrões de masculinidade da sociedade brasileira de longas datas.
A discussão sobre o padrão de masculinidade do homem jara-
guense, bem como do brasileiro e suas associações com o machis-
mo tem no trabalho de Connell (1995) uma instrumentalidade

91
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

oportuna na sua definição sobre masculinidade associada a uma per-


formance de gênero. Ele propõe um conceito de masculinidade no
plural e, assim, temos que falar de diferentes masculinidades, como
projetos de gênero, estruturados por determinadas práticas que, em
um processo circular, performam esses mesmos projetos. Segundo o
autor, certas masculinidades envolvem um discurso que atribui aos
homens privilégios de dominação e superioridade social, ao que ele
chama de masculinidade hegemônica, um padrão de maior prestígio
e status social. Consequentemente, também o mais almejado.
Contudo, conforme enfatiza Connell (1995), nem mesmo a
masculinidade hegemônica tem um caráter fixo ou igual, pois sua
hegemonia se estabelece em um dado padrão de relações de gêne-
ro, construído através de práticas sociais em situações específicas e
passíveis de mudanças.
O conceito de Connell (1995) sobre masculinidade hegemô-
nica e suas performances nos permite traçar algumas relações entre
o machismo e os padrões de masculinidade que vigoraram na socie-
dade brasileira nos últimos séculos. Para Costa (1989) a constru-
ção do machismo no Brasil desenvolveu-se de forma estratégica a
partir do século XIX, momento em que os médicos e o movimento
higienista empreendiam um projeto civilizador nos trópicos (Fer-
reira, 1999). Era uma época em que o padrão masculino hegemô-
nico do “grande senhor colonial”, com seu mandonismo despótico
sobre mulheres, crianças, escravos e agregados cedia espaço aos va-
lores urbano-burgueses como meio de afirmação sobre o ambiente
social (Costa, 1989). Havia, nessa perspectiva, uma necessária re-
núncia à utilização da violência crua, valendo-se cada vez mais da
diplomacia dos hábitos, estratégia mais adequada aos padrões da
cidade. O modelo masculino desse “novo” homem, transposto de
“senhor colonial” ao “grande proprietário”, exigia deste uma perfor-
mance mais flexível, informada pelo apreço ao trabalho, admiração
pela competência profissional, estímulo ao espírito de competição,
gosto pela cultura artística e pelo conhecimento científico; o culti-

92
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

vo da aparência física; a busca do equilíbrio e da contenção moral


e assim por diante.
Conforme observa Costa (1989), esse processo transformador
do padrão hegemônico masculino estendeu-se às camadas popula-
res, porém, com algumas diferenças. Nesse ponto, vale comentar
a ressalva feita por Connell (1995) de que a masculinidade hege-
mônica, como um modelo cultural ideal, não pode ser completa-
mente incorporada por nenhum homem, embora exerça um poder
controlador sobre todos ao mesmo tempo. A filiação ao projeto
hegemônico esbarra em muitas dificuldades, pois é inteiramente
dependente das inserções dos homens na estrutura social, política,
econômica e cultural. Essas barreiras criam o que Connell (1995)
chama de masculinidade cúmplice, que ele define como uma ligação
com o projeto de masculinidade hegemônica, mas sem assimilá-la
totalmente. Essas noções podem ser úteis à compreensão de que o
mesmo empenho civilizador que converteu a conduta do “senhor
colonial” na do “grande proprietário”, sob os moldes já descritos,
influenciou também a construção de um modelo “machista” ao
qual se filiaram com mais adesão os homens menos ricos.
Segundo Costa (1989), as características “naturais” que a higie-
ne atribuiu ao masculino determinavam que ser homem importava
em ser mais sensual e menos amoroso; mais racional e menos sen-
timental; mais inteligente e menos afetivo, etc. No plano social, a
higiene lhe prescrevia o trabalho e o cuidado com o corpo e com o
sexo, além da conservação de uma das mais antigas de suas proprie-
dades: a mulher. Comenta o autor, que para o homem das cama-
das médias esses elementos tiveram uma enorme importância, pois,
bastava-lhe um bom comportamento físico e sexual e um desempe-
nho eficiente como reprodutor de uma prole sã, para ter resolvidas
todas as dificuldades morais, sociais, políticas e familiares, como um
cidadão de primeira classe. Além de que, o direito de concentrar so-
bre a mulher toda a carga de dominação antes distribuída sobre o
grupo familiar e demais dependentes restou-lhe como uma das raras
parcelas de poder social que ele poderia usufruir sem restrição. De

93
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

propriedade jurídico-religiosa, a mulher passou a propriedade hi-


giênica amorosa desse homem, cuja honra e poder são diretamente
dependentes de sua respeitabilidade, especialmente, a sexual.
Esses valores machistas ainda se fazem muito presentes na so-
ciedade brasileira atual. Em sua pesquisa sobre homens agressores
de mulheres no Distrito Federal, Machado (2001) destaca a centra-
lidade da categoria relacional da “honra” na construção simbólica
da masculinidade no Brasil. Segundo a autora, seus entrevistados
expressam a crença generalizada de que ser homem implica no con-
trole direto de “suas” mulheres, de quem deve assegurar a fidelidade
no desafio com outros homens e, assim, viver sob constante ameaça
de conflito com estes, tudo em nome da honra. Nesse exercício,
o “homem honrado” enxerga a masculinidade como o lugar dos
instintos incontroláveis, da agressividade e da violência, como um
“bicho danado”, categoria que a autora associa ao não domesticá-
vel, irresponsável e perigoso. Cria-se aí um paradoxo, pois o mesmo
homem, dependendo de suas posições na rede de relações sociais, é
“honrado” e “bicho danado”. Essa masculinidade paradoxal mistura
avaliações de juízo, respeito, vergonha, que medem o comprome-
timento maior ou menor do homem e também da mulher de cum-
prir regras sociais muito amplas, mas que têm na conjugalidade um
desdobramento crítico, dramático e, eventualmente, trágico.
Embora esse modelo hegemônico de masculinidade ditado
pelo machismo prevaleça em muitos setores da sociedade brasileira
e se expresse nas conjugalidades marcadas pela violência, ele con-
trasta com outros modelos que enfatizam a busca por uma maior
simetria entre os gêneros. Marques (2007) comenta que alguns se-
tores sociais brasileiros têm privilegiado padrões de conjugalidade
ditados pelo ideal igualitário, expresso na ausência de uma impu-
tação diferencial de valor ao feminino e ao masculino. Há, inclu-
sive, quem veja nessas subjetividades machistas, que associam o
masculino ao puro poder arbitrário, uma contraposição à crescente
desconstrução e questionamento da masculinidade hegemônica
(Machado, 2001).

94
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

Ainda sobre essa masculinidade, é importante comentar que


ela se sustenta e é mantida por um amplo segmento da população
masculina em função do status e poder que proporciona. Contu-
do, como a construção do gênero se dá na inter-relação simultânea
com estruturas de classe, raça, etnia, etc, a assimilação do status e do
poder do projeto hegemônico se faz de forma diferenciada. Assim,
as práticas violentas do homem mais pobre, pelas quais ele acredita
performar uma masculinidade de prestígio e que reforça sua hon-
ra, na realidade não o redime da sua posição social periférica. Em
certos contextos, pode até reforçar sua marginalidade, pois aquela
expressão “bicho danado”, que Machado (2001) identifica como
uma categoria de masculinidade, e que combina apropriadamente
com o padrão performático dos homens deste estudo, divide traços
semânticos muito próximos com “pobre diabo”, portanto, o mise-
rável e o coitado.
Nesse sentido, os homens agressores deste estudo, em sua maio-
ria pobre, desempenham performances machistas, acreditando que
assim se engajam no projeto da masculinidade hegemônica, quan-
do sua condição social jamais lhes permitirá atingi-la. Conseguem
no máximo manter com esse projeto uma relação de cumplicidade,
na definição de Connell (1995).
O que se percebe no exame das performances violentas desses
homens, representativas da violência perpetrada por homens de
todas as classes e não somente pelos pobres, é o alto nível de ten-
são, agressividade, arbitrariedade, truculência, mandonismo, enfim,
uma barbárie que ainda domina o universo de certas conjugalidades
em pleno século XXI. O machismo que apoia essas relações violen-
tas transporta-nos para tempos passados, em que vigorava o mando-
nismo desenfreado e os castigos físicos brutais. Esse cenário arcaico,
que em Jaraguá se vislumbra na arquitetura colonial remanescente,
incompatibiliza-se com as expectativas de avanço de um Brasil atu-
al, que aspira à modernidade. Essa incompatibilidade de cenários
se estende ao próprio cenário legal, onde a impunidade autoriza a
coexistência da lei oficial com a lei do machismo. Questões dessa

95
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

natureza implicam na reflexão de que qualquer investida na direção


do ideal igualitário e com vistas à civilidade demanda, imprescindi-
velmente, uma reinvenção das relações simbólicas entre os gêneros e
mudanças sensíveis nas concepções vigentes de masculinidade.

2. Performances de amor fati e dominação


Entre tapas e beijos é ódio é desejo é sonho é ternura,
um casal que se ama até mesmo na cama provoca loucuras,
e assim vou vivendo sofrendo e querendo esse amor doentio,
mas se falto pra ela meu mundo sem ela também é vazio.
(Leandro e Leonardo)

Na seção anterior focamos o polo masculino e os elementos do


universo machista que amparam e sustentam performances violen-
tas na conjugalidade. Neste tópico, ao inverso, vamos nos voltar
para um componente que é, em geral, mais associado ao feminino,
o “amor”, muito embora ele seja considerado um fator condicio-
nante das uniões tanto para os homens quanto para as mulheres.
Aparentemente, amor e violência seriam termos contrários, mas
ambos se unem apropriadamente naquela expressão popular muito
recorrente, “amor rima com dor”, que as conjugalidades violentas
parecem levar às últimas consequências e que as canções de amor,
especialmente as sertanejas, gênero recorrente no contexto local
pesquisado, exploram intensamente. Os versos de “entre tapas
e beijos”, que abrem este tópico, são aí alocados por captarem os
principais pontos de discussão que queremos desenvolver nesta
parte do livro, quais sejam as relações entre discursos de amor, per-
formances violentas e o contexto jaraguense.
Vamos começar analisando o léxico que constrói esses versos
da música “Entre tapas e beijos” cujos itens nos dão a seguinte
lista: ódio, desejo, sonho, ternura, casal, amor, cama, loucura, so-
frimento. Esse vocabulário performa, em síntese, um “amor doen-
tio”, como é assumido o sentimento amoroso nessa canção. É uma

96
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

concepção de amor que capta a dimensão tensa, passional, descon-


trolada e violenta das histórias aqui levantadas, como se o mundo
fictício das canções sertanejas se confundisse com o mundo real das
conjugalidades violentas e vice-versa, em uma espécie de associação
em que a arte imita a vida ou a vida imita a arte. O que importa é
que tal concepção de amor aproxima-se da definição do psicanalis-
ta alemão, Erich Fromm, na sua famosa obra do fim dos anos 1950,
A arte de amar, como um afeto simbiótico que, segundo o autor, não
é um amor, mas um egoísmo ampliado, algo mesmo doentio.
O amor é um tema multidimensional, passível de várias abor-
dagens. Contudo, importa-nos neste estudo focar o amor como
um fenômeno histórico-cultural, como ele é concebido no campo
da psicologia social e da sociologia. Assim, histórias de amor fazem
parte de uma matriz cultural e aquilo que é percebido como uma
manifestação de intimidade ou de amor varia consideravelmente
em função da cultura e do tempo em que se situa. Conforme es-
clarece Neves (2007), o amor para além de ser um sentimento, é
fundamentalmente um produto social e discursivo e, acaba por ter
uma função social reguladora. Ao estar inculcado na linguagem
coletiva e ao ser uma imagem construída em um tempo e em um
espaço particular, o amor é um produto social que nem sempre é
consumido com base em uma postura de livre arbítrio, mas sim de
padronização institucional.
Aqui, interessamo-nos justamente sobre o aspecto de padro-
nização que o amor adquire na cultura ocidental, na qual se tem
destacado uma concepção de amor dito “romântico”, que nos úl-
timos séculos ocupa um papel central no imaginário das relações
amorosas e, consequentemente, da conjugalidade. Segundo Cos-
ta (2005), o amor romântico como um modelo histórico-cultural
destaca-se como um vínculo a partir do desejo ardente de se con-
duzir unicamente na vida do outro. Como modelo de relação esse
amor unifica paixão sexual, emoção, matrimônio e prole. Como
prática cultural, corresponde a um repertório de discursos, ações
e rituais de manifestação de amor e que, no contexto do estudo,

97
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

adquirem contornos específicos do contexto regional e local, que


nos interessa focar. Um desses contornos discursivos diz respeito a
nossas observações de que as concepções de amor romântico, nos
moldes acima descritos, perpassam os gêneros forenses com aque-
les elementos que identificamos nos versos da canção sertaneja que
nos servem de comparação. Vamos abordar esses elementos a partir
dos trechos a seguir:

1. Que após este fato o declarante ficara sabendo que


XXXXX estava saindo com outros rapazes; Que em uma
conversa com uma amiga ficara sabendo que XXXXXX ha-
via ficado em uma chácara com um outro rapaz, sendo na data
dos fatos investigados nos autos, avistou XXXXX próximo a
sua residência, quando então a chamou para conversar, sen-
do quando XXXXX entrou em casa, o declarante a indagou
se a mesma estava traindo-o, sendo que XXXXX confessou
que estava saindo com uma pessoa conhecida pelo nome de
XXXXX, momento este que o declarante veio a ficar nervoso
e desferiu um tapa no rosto de XXXXX e logo em seguida a
segurou pelos cabelos arrastando-a até a casa de um primo,
por nome de XXXXX. (Trechos retirados do gênero Termo
de Declaração do acusado, processo: 2008.005.274.82)

2. QUE, na ocasião dos fatos, ao ver que a esposa se achava


alcoolizada, tentou impedir que a mesma ingerisse mais bebi-
da (pinga), ocasião em que a mesma ficou nervosa e agarrou
no colarinho da camiseta do declarante e em seguida afir-
mou “me bate, você não é homem não”; QUE ao ser segura-
do por XXXXXXXXX, o declarante acabou caindo sobre
ela, sendo que neste momento, acabou lesionando a boca de
XXXXXXXXX, a qual usa aparelho; QUE após se levanta-
rem, o declarante disse para XXXXXX que iria embora, po-
rém, a mesma impediu segurando na camiseta do declarante
e proferindo afirmações dizendo “você não é homem não, me
bate agora”. (Trechos retirados do Termo de Declaração do
acusado, processo: 2009.032.974.70)

98
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

3. (...) indagado ao declarante dos motivos pelos quais agredi-


ra XXXXXXX, afirma que fora por ignorância e que não ti-
nha motivo especifico; QUE, confirma as agressões mas nega
que tenha ameaçado XXXXXX, dizendo que não aceitaria
em vê-la com outro namorado nas festas e nem se XXXXXX
procurasse a Policia para registrar ocorrência acerca dos fatos
narrados acima. (Trechos retirados do gênero Termo de De-
claração do acusado. Processo: 2008.014.705.57).

Observam-se nesses recortes os componentes do amor “doen-


tio” da canção de Leandro e Leonardo, em que se destacam ódio,
desejo, loucura, sofrimento, além de tapas e outras violências, em
uma relação que aproxima gêneros de campos tão distintos, como
os textos do universo judicial e textos da indústria cultural. O que
ressalta no exame dos autos processuais em comparação com ou-
tros discursos de amor e conjugalidade no meio local é uma divisão
de papéis de gênero que condiciona performances violentas igual-
mente genderizadas, em que homens e mulheres assumem as con-
dições de agressores e vítimas dinamicamente, embora de formas e
graus bem diferenciados. Às performances dos homens associam-se
o poder e o controle sobre a mulher, bem ao exemplo do mode-
lo machista que já discutimos, em que se admite a violência física,
aliada ao uso de bebidas alcoólicas e alguns artifícios para realçar a
potência e a liberdade do homem. Às mulheres, por sua vez, cabe
insultar os companheiros, com questionamentos à própria mas-
culinidade e à honra destes, como no exemplo em que a mulher
desafia o marido dizendo que ele não é homem. Esse contexto de
guerra é o que ecoa no pensamento coletivo associado a uma ro-
manticidade questionável.
A padronização do amor que castiga, se vinga, faz sofrer, des-
confia de traição, permeado por ciúme, enfim, o amor simbiótico,
na acepção de Fromm (1964), ou doentio, como o chamam os ser-
tanejos, aparece em várias canções populares que fazem sucesso em
Jaraguá, e se repete de forma muito semelhante nos gêneros judi-

99
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

ciais. As coincidências ocorrem em gêneros tão díspares porque os


enunciados que falam a respeito das relações de casais estão atraves-
sados por uma série de discursos que já foram proferidos sobre este
mesmo tema. Assim, a temática do amor e das relações de casais é
constituída pelo interdiscurso de vozes de diferentes lugares sociais
que se fazem presentes de maneira mais ou menos explícita.
Neste contexto, ameaças, desconfiança, cobranças, traição, ci-
úmes, vingança, violência e sofrimento são os elementos que do-
minam as formações discursivas em que se baseiam as histórias dos
casais aqui examinados que, por sua vez, são dominadas pelo con-
texto cultural jaraguense – que a música sertaneja tão bem expressa.
Para dar mais exemplos, vamos agora propor uma comparação
com a letra de Ingrata, composição de Jairo Góes, Rivanil e Everton
Matos, cantada por João Neto e Frederico, dupla que faz muito su-
cesso em Jaraguá. A padronização discursiva dessa canção também
é identificada nos trechos de alguns autos que dispomos a seguir:

Safada, bandida
Por mim ainda vai chorar
Ingrata fingida
Você vai sofrer pode esperar
Te dei amor te dei carinho
Sempre foi tão bem amada
E agora estou sozinho
Tudo em troca de nada
O tanto que me fez sofrer
O quanto que me fez chorar
Um dia vai se arrepender
Um dia vai ter que pagar

4. (...) proferindo palavrões, tipo: puta, veia, sem vergo-


nha, safada, etc; Que, no sábado, dia 12 de janeiro de 2008,
XXXXXXX chegou em casa por volta das 14h30min,
embriagado, fazendo ameaças e batendo as tampas das pa-
nelas, inclusive chegando a dar murros; Que, em seguida,

100
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

XXXXXXX deu alguns empurrões na declarante, mandan-


do que desocupasse a casa dele... (Processo: 200801345167)

5. Posteriormente, a vítima queria sair para participar das


festividades do carnaval, oportunidade em que foi impedida
pelo denunciando, que ligou o som em alto volume e come-
çou a ofender a sua dignidade, afirmando que “ela era muito
safada e que mulher que nem ela tinha aos montes na rua”.
(Processo: 2008.014.708.91).

Observa-se que a palavra “safada” se repete nos três recortes. Na


canção ela é seguida de outros xingamentos, que recorrem para os
campos semânticos da desonestidade, da traição, com forte apelo
sexual, campos que também são acionados naqueles recortes an-
teriores dos autos, em que se alude a supostos envolvimentos das
mulheres com outros homens. As acepções que perpassam o amor
dito “romântico”, concebido durante décadas como o elixir para a
consagração dos afetos entre os sexos, fundamenta a reprodução de
relações de poder estatutariamente desiguais entre homens e mulhe-
res (Neves, 2007). Segundo Giddens (1992), essas noções de amor
associam a mulher com o casamento e a maternidade, assim como
à ideia de que o amor é para sempre, posicionando-a no lar, onde
ela deve ser mantida em isolamento, afastada do mundo exterior. A
ela cabe o confinamento ao domínio privado, locus da intimidade.
E, conforme esclarece Neves (2007), ao ser entendido como uma
construção social com um ônus cultural significativo, o amor apare-
ce como uma teia de relações sociais de poder, cujas dinâmicas estão
na origem da desigualdade, da discriminação e da violência.
Há quem defina o amor como uma conspiração engendrada
pelos homens contra as mulheres para lhes encher a cabeça com
sonhos tontos e impossíveis (Giddens, 1992). Sobre a questão,
Bourdieu (1999) defende a tese de que as noções de amor que di-
minuem as mulheres e ensinam-lhes os valores da abnegação, da
resignação e do silêncio são parte de um mesmo processo de so-
cialização que ensina os “homens a amarem os jogos de poder e

101
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

as mulheres a amar os homens que jogam” (Ibidem, p.166). Nesse


sentido, estabelece-se uma forma de amor que o autor chama de
amor fati, que é o amor ao dominante e ao seu dominador. Segun-
do Bourdieu, contrariamente ao que quer a representação român-
tica, que propaga o amor desequilibrado entre homens e mulheres,
esse amor é, na verdade, amor ao mesmo destino social que sustenta
a dominação masculina.
Nesse sentido, ao se engajar em formas de amores possessivos,
a mulher é corresponsável por seu processo de submissão. Citando
Virginia Wolf, Bourdieu (1999, p.167) diz que as mulheres servem
como espelhos aduladores “que devolvem ao homem a figura en-
grandecida de si mesmo à qual ele deve e quer se igualar, e reforçam
assim seu investimento narcísico em uma imagem idealizada de sua
identidade”. Não nos surpreende, portanto, que as performances
violentas das mulheres neste estudo, como naquelas cenas em que
desafiam seus homens com frases do tipo “me bate se for homem”,
tanto quanto as cenas de passividade que elas igualmente perfor-
mam, fazem parte de um mesmo jogo relacional informado pelos
valores da cultura machista a que elas próprias se afiliam. Conforme
explica Bourdieu (1999), a dominação masculina encontra um dos
seus maiores apoios no desconhecimento favorecido pela aplicação
às mulheres de categorias de pensamento engendradas na própria
relação de dominação e que pode conduzir a essa forma-limite do
amor fati que é o amor pelo dominante e pela sua dominação.
Sobre a questão vale terminar com as palavras de Neves (2007),
para quem esses discursos genderizados sobre a intimidade e o
amor, como os expressos nas canções de amor aqui levantadas, apa-
rentemente engajadas apenas em uma romanticidade ficcional, sem
implicações diretas com a vida real, são discursos legitimadores de
ações que visam garantir a continuidade do sistema patriarcal. Nes-
se sentido, essas canções, bem como toda a ordem de discurso a que
elas recorrem e que se manifestam em uma série de práticas diárias,
aparentemente desconectas de qualquer forma de violência, são na
realidade discursos de grande risco para as relações afetivas e prin-
cipalmente para as mulheres.

102
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

3. A linguagem simbólica das performances violentas


Ao nos aproximarmos do fim desta parte do estudo, em que
discutimos as relações entre as performances violentas na conju-
galidade e os discursos subjacentes às práticas de violência contra a
mulher, compreendendo essa relação na polaridade ação e discurso,
queremos agora, antes de fechar a seção, propor uma análise que
une essas polaridades de forma indissociável. Tarefa possível pela
compreensão de que as performances violentas que aqui identifica-
mos são elas próprias uma linguagem. Nesse momento, portanto,
queremos nos dedicar à linguagem simbólica que as ações violentas
comunicam. Vamos começar, pautando-nos na relação entre aspec-
tos performativos da linguagem e a teoria de performatividade do
gênero de Butler (2008), conforme esclarecemos a seguir.
Em seus estudos, Judith Butler enfatiza que o gênero está o
tempo todo sendo fabricado nas práticas discursivas cotidianas que
se expressam nas performances de homens e de mulheres com base
em padrões dominantes do que é ser homem ou ser mulher. Essa
perspectiva de construção do gênero vincula-se diretamente com a
possibilidade que a linguagem tem de fazer coisas no mundo. Sob
a ótica de Butler (2008), a viabilidade dos gêneros se constituírem
pela linguagem pauta-se na visão performativa desta, que a autora
empresta de Austin (1967). Para este, a linguagem é também uma
ação, como se “dizer” fosse ao mesmo tempo “fazer”, desde que as
palavras certas sejam ditas e as circunstâncias sejam apropriadas,
possibilitando que determinadas ações sejam executadas por for-
ça de palavras ou em consequência delas. De forma paradoxal, o
discurso coercitivo em relação ao gênero, justamente por ser uma
linguagem, divide com esta seu caráter performático, ou seja, seu
poder de produzir realidades, criando os próprios limites e regras
de sua expressão e materialidade. Assim, esses discursos, ao mes-
mo tempo em que prescrevem papéis, identidades, performam
comportamentos, estilos de ser. Aqui, interessa-nos especialmenta

103
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

relação entre linguagem, performance e a manutenção do poder he-


gemônico nas categorias de gênero.
O termo performance capta a importância de interpretação e
significação do corpo como suporte para a ação performática. Nes-
se sentido, esse termo tem grande instrumentalidade em estudos
sobre violência, especialmente a física, pois sob o conceito de per-
formance, essa violência é compreendida como uma ação que pro-
duz resultados no corpo daquele a quem é direcionada, inscreven-
do neste uma mensagem de aspecto bem cruel que comunica de
forma inequívoca quem manda e quem tem de obedecer. Ou seja,
essa violência é a um só tempo um meio de ação, uma performance,
e um meio de comunicação, portanto, uma linguagem.
Conforme observou Souza (2007), a violência carrega o con-
teúdo informativo de um código implícito que exprime os valores
tradicionais esquecidos, ignorados ou rejeitados por aquele sobre
quem é aplicada. Como um recurso discursivo, provido de um ex-
tenso conteúdo informacional, a violência apresenta formas parti-
culares de enunciação em cada situação conjugal ou familiar. Con-
tudo, certos padrões se repetem em diferentes contextos e um deles
diz respeito ao que analisou Souza (2007, p.125) sobre o caráter
simbólico que o rosto tem associado à vergonha e à honra, pois ser
honrado tradicionalmente significa “ter vergonha na cara”. Danos
ao rosto representam humilhação para aqueles que os suportam,
bem como o respeito à honra implica necessariamente no respeito
ao rosto. Como exemplifica o autor, isso pode ser facilmente infe-
rido de frases do tipo “respeita cara de homem” ou “não tire graça
com a minha cara”, que podem ser interpretadas como “não se atre-
va a desrespeitar-me”.
A condução das relações conjugais nesses moldes é um meca-
nismo de controle das imagens ideais que se pretendem manter,
impor ou preservar e que tem na violência uma ação reguladora
estabelecida entre o comportamento adquirido, ou por adquirir,
e os estereótipos que lhes servem de referência. Qualquer ameaça
a essas referências por parte daqueles que não detém o poder he-

104
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

gemônico na relação podem implicar em “quebrar a cara”, ou seja,


sair mal, machucar-se, humilhar-se, o que, consequentemente, im-
plica em pensar várias vazes antes de desrespeitar a regras do jogo.
A Parte II deste livro sobre as histórias das agressões, está cheia de
exemplos sobre a afronta direta ao rosto das vítimas. Aqui, dispo-
mos alguns recortes para retomarmos a questão.

1. Ato contínuo, o denunciado levantou-se e desferiu um tapa


contra o rosto da ofendida. Surpresa com a reação, a vítima
questionou tal atitude, momento em que novamente foi agre-
dida com um tapa e alguns chutes. (Trecho retirado do gêne-
ro “Denúncia”, processo: 2008.014.705.57)

2. (...) e partir para cima da vítima com a intenção de agredi-


-la, momento em que começou a enforcá-la. (...) A vítima
conseguiu se desvencilhar de seu companheiro por alguns
instantes, no entanto, foi alcançada, derrubada no chão e no-
vamente agredida. (Trecho retirado do gênero “Denúncia”,
processo: 2008.003.731.40)

3. Ainda, naquela oportunidade, o denunciado não satisfeito


apenas com as agressões verbais, foi de encontro à vítima, mo-
mento em que lhe arremessou contra o chão, desferindo-lhe
em seguida socos e tapas, causando na vítima as lesões corpo-
rais descritas no relatório Médico de fls. 07. (Trecho retirado
do gênero “Denúncia”, processo: 2007.040.714.73)

4. (...) e partir para cima da vítima com a intenção de agredi-


-la, momento em que começou a enforcá-la. (...) A vítima
conseguiu se desvencilhar de seu companheiro por alguns
instantes, no entanto, foi alcançada, derrubada no chão e no-
vamente agredida. (Trecho retirado do gênero “Denúncia”,
processo: 2008.003.731.40)

Conforme se pode perceber ao relermos esses exemplos das


denúncias, se o rosto tem um significado simbólico especial na

105
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

linguagem da violência, igualmente tem o corpo nas performances


que visam derrubá-lo, vergá-lo, curvá-lo, tombá-lo, na mais literal
expressão de “pôr abaixo”, “pôr no chão”. Em muitas denúncias de
agressão, descrevem-se sequências em que os acusados derrubam as
vítimas, geralmente, após tê-las esbofeteado e, em seguida, jogam-
-nas ao chão e por ele as arrastam, em um movimento que prolon-
ga o ato de “botar abaixo”. Essas performances, como todo o jogo
direcional da cena informa, visam pela derrubada do corpo, pelo
rebaixamento deste, um proporcional rebaixamento moral da ví-
tima, informado na sua própria posição física sua correspondente
posição moral: “rente ao chão”.
Essa linguagem tem por finalidade reafirmar a relação do poder
hegemônico que os agressores detêm no ambiente doméstico, que
embora sejam questionadas no espaço público ou nos discursos ofi-
ciais, ainda se perpetuam no plano privado. Ao desferirem tapas,
socos, murros na “cara” de suas companheiras e ao derrubá-las, fa-
zendo-as tombar ao chão, os maridos informam inequivocamente
quem é que manda e como fica quem não obedece. Fazem-no para
impingir a elas um sofrimento físico, uma humilhação, desmorali-
zação, rebaixamento, comunicando essas mensagens em uma lin-
guagem escrita no corpo, de uma forma que pelas palavras talvez
não fosse tão contundente. Contudo, se por um lado o corpo e o
rosto desempenham papéis bastante simbólicos nas performances
violentas que dispensam as palavras, por outro lado, estas podem
ter um papel igualmente instrumental na desqualificação moral das
vítimas quando proferidas em xingamentos e palavrões. O ato de
xingar é um ato de fala, na mesma acepção de Austin (1967), em
que “dizer” é “fazer”. Xingar é, portanto o proferimento de deter-
minadas palavras que, uma vez enunciadas e, atendendo a certos
pré-requisitos, produzem efeitos potenciais como machucar e de-
gradar moralmente o indivíduo, sendo uma violência moral e psi-
cológica e, agindo, em geral, como coadjuvante da violência física.
Em sua análise sobre xingamentos, Zanello (2008) observa que
esses têm na sexualidade um ponto de ancoragem específico, pois,

106
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

como a autora argumenta, sob a forma de “palavrões” as palavras


representam uma clara sugestão do “xingador” ao “xingado” de que
este não tem ou “perdeu” status na hierarquia social. Considerando
que os grandes degradados na hierarquia social são sempre os que
apresentam conduta sexual desviada da “normalidade” ou da “mo-
ralidade” aceita em uma sociedade e em uma determinada época,
os xingamentos mais ofensivos vão se amparar justamente nas pre-
missas morais. A autora exemplifica, mostrando que quando rela-
cionados às mulheres, os xingamentos têm caráter sexual ativo, tais
como “puta”, “prostituta”, “piranha”, “safada”, etc. Já os dirigidos aos
homens, ao contrário, têm caráter sexual passivo, como “boiola”,
“viado”, “baitola”. Os primeiros estão presentes nos vários extratos
narrativos mostrados ao longo do estudo. Quanto aos segundos,
não foi localizada nenhuma ocorrência.
Tal observação encontra uma explicação no papel que têm os
xingamentos como mecanismo de controle social e seu poder co-
ercitivo. Percebe-se que os palavrões direcionados às mulheres com
o intuito de ofendê-las, desmoralizá-las e humilhá-las opõem-se a
qualquer caráter sexual ativo destas, considerado desviante e, as-
sim, ao mesmo tempo em que as degradam, ainda lhes prescrevem
a passividade sexual, regulando, portanto, seu comportamento e
sua liberdade. Em contrapartida, aos homens é considerada extre-
mamente ofensiva qualquer referência que aponte para o reverso
de sua virilidade: a feminilidade. Assim, a simples negação da mas-
culinidade (“você não é homem”) é suficiente para configurar uma
ofensa. E, quanto maior o grau de negação do caráter viril, mais
inadmissível é o xingamento. Tão inadmissível que nenhuma mu-
lher ousou proferir qualquer um daqueles palavrões. E as que se
arvoraram a pôr em xeque a masculinidade de seus companheiros,
com aquela declaração desafiadora “você não é homem”, tiveram de
arcar com as graves consequências de seu ato irresponsável, confor-
me se viu em alguns exemplos.
Nesse sentido, tanto os xingamentos quanto as demais perfor-
mances violentas elencadas no rol de agressões levantadas neste li-

107
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

vro são signos de uma mesma linguagem cujo alto grau de poder
repressivo a torna um mecanismo muito complexo de coerção. In-
diretamente, ela comunica os valores vigentes na estrutura social
em que se insere, informando, prescrevendo e, ao mesmo tempo,
performando os papéis de gênero que posicionam assimetricamen-
te homens e mulheres na sociedade.
Por fim, cabe comentar que a linguagem da violência contra a
mulher, ao cercear a liberdade feminina em detrimento do exercí-
cio ativo e brutal dos desejos e da sexualidade masculina, está cla-
ramente a serviço do velho poder patriarcal que ainda insiste em
perdurar nos nossos meios sociais.

108
PARTE IV
A PERFORMANCE DOS OPERADORES DO DIREITO E
A TRIDIMENSIONALIDADE DO DISCURSO JURÍDICO
Ao longo deste capítulo, vamos dar ênfase aos discursos e per-
formances daqueles que lidam com as conjugalidades violentas no
plano institucional, os operadores do direito. Nossa discussão in-
cidirá sobre a questão de como esses operadores agem legalmente
com os casos de agressão aqui levantados, ou seja, que providên-
cias tomam, quais as consequências concretas de suas ações e que
conhecimentos e ideologias sustentam suas performances como
sujeitos da lei. Propomos começar essa discussão a partir de um en-
foque linguístico sobre a cultura jurídica contemporânea, em que
questionamos seus fundamentos ideológicos básicos de “consenso”,
“objetividade”, “neutralidade” e de “transparência”.
Começamos nossa discussão, chamando atenção para o fato de
que o Direito como discurso e ação aspira a uma segurança jurídica
que lhe possa garantir firmeza frente à decisão tomada em vista de
uma situação específica, de modo que esta seja justa e a única cabí-
vel. Assim, a linguagem do Direito busca caracterizar-se por uma
impressão de verdade, de descrição do real, como se as palavras e as
ações delas decorrentes fossem transparentes, trazendo consigo um
sentido invariável interpretado da mesma forma por todos.
Conforme observa Mozdzenski (2007), na modernidade o sis-
tema jurídico conquistou a hegemonia de dizer o valor dos atos so-
ciais de forma legitimada e praticamente inquestionável. Sobretu-
do a partir do final do século XVIII, a medida das relações sociais
parece se exprimir inteiramente no interior do sistema jurídico,
formado por um emaranhado de leis, normas, decretos e regula-
mentos dominados pelos operadores do direito. Estes últimos, por
sua vez, têm sua legitimidade prevista por lei constitucional e são

109
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

devidamente investidos em seus cargos por medidas administrati-


vas, regulamentadas pelo Estado. Esse arranjo, conforme observam
Boel e Agustini (2008) alia a existência de uma classe burocrática
estabelecida legalmente e um dogmatismo institucional do campo
jurídico, que possibilita que o seu saber seja perpetrado, impedindo
brechas para contestações, já que o discurso jurídico está represen-
tado por regras e rigores, expressos por pessoas legitimadas e sím-
bolos legalmente reconhecidos.
Essas características do discurso jurídico, ao mesmo tempo re-
tórico, burocrático e coercitivo são captadas em uma visão tridi-
mensional pelo sociólogo Boaventura de Souza Santos (1988), que
fornece uma argumentação explicativa sobre o funcionamento dos
mecanismos legais nas sociedades modernas que nos parece muito
oportuno abordar nesta etapa do estudo. Segundo o autor, a mo-
dernidade emergiu como um potencial e ambicioso paradigma so-
ciocultural embasado pela regulação e a emancipação social. Con-
tudo, conforme o teórico enfatiza, a emancipação perde espaço
frente à centralidade dos ditames capitalistas no desenvolvimento
e progresso da sociedade, uma vez que certos princípios emancipa-
tórios podem constituir uma ameaça ao próprio sistema, assim, é a
regulação que ganha força nos projetos da modernidade.
Nesse sentido, a ciência moderna e o direito moderno desem-
penham um papel instrumental frente a esses projetos. Pelo duo
conhecimento-regulação combatem a contaminação de qualquer
irracionalidade contra o sistema. Assim, o direito moderno surge
como um instrumental técnico de regulação social, cujas principais
características são a inspiração de uma racionalidade lógico-formal
que lhe atribui contornos científicos. Segundo Boaventura, o posi-
tivismo jurídico é uma coevolução ideológica, pois é um saber que
se tornou científico para maximizar sua operacionalidade enquan-
to instrumento não científico de controle social e de transformação
social. O cientificismo e o estadismo jurídico evoluíram simultane-
amente para legitimarem o Direito como um sistema racional de
leis, universais e abstratas, emanadas pelo Estado e que são aplica-
das a toda a sociedade através de uma administração profissional.

110
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

Boaventura ainda chama a atenção para o fato de que a ideolo-


gia jurídica capitalista toma o cidadão isoladamente como o único
sujeito reconhecido de conflitos juridicamente relevantes, excluin-
do da prática oficial as relações de classe e, acrescentamos, as de
gênero. Essa exclusão faz parte de todo um processo que o Direito
promove na transmutação da realidade social em realidade jurídi-
ca, autônoma e desconectada, transformando a primeira em uma
realidade conceitual (Monteiro, 2003), em que as tensões de gê-
nero e de classe social são minimizadas ou mesmo apagadas. Nessa
medida, a linguagem do Direito contribui para a invisibilidade dos
conteúdos de dominação que permeiam a ação e o discurso jurídi-
co tanto no funcionamento interno de cada uma dessas dimensões,
quanto na articulação entre elas.
Esse discurso, ao apagar o processo de constituição dos senti-
dos, dá a impressão de que o sentido está no próprio texto. Contu-
do, a expressão jurídica, como qualquer outra forma de linguagem,
é inexoravelmente subjetiva, na medida em que se trata de algu-
ma concepção humana sobre o mundo, portanto, será sempre, de
certa maneira, não transparente e não homogênea. Dessa forma, a
precisão almejada pelos sujeitos do Direito, ao criar normas e ao
aplicá-las, esbarra na rede de interpretação que remete um conceito
a outros conceitos, onde o significado torna-se outro significante e
assim sucessivamente, de modo que a essência nunca pode ser atin-
gida. Nesse sentido, a verdade do Direito é sempre a verdade de
uma posição sujeita a mais de uma interpretação. Muito embora
essa característica em nada abale o potencial da linguagem jurídica
na relação comando-obediência e seu caráter coercitivo, respalda-
do nas instituições burocráticas que legitimam e outorgam esse po-
der de regulação e controle social.
Essas considerações são necessárias para expor o ponto de vista
que embasa nossa concepção sobre o Direito nas análises que serão
propostas nas seções seguintes. Buscaremos desvelar os conteúdos
ideológicos, especialmente de gênero, que transparecem nos textos
e nas ações dos operadores, dos agentes da Lei, nos processos inves-

111
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

tigados. O propósito é mostrar, por uma análise linguística, como


esses sujeitos se articulam pelas dimensões retórica, burocrática e
coercitiva do Direito, na acepção tridimensional de Boaventura,
revelando as posições tomadas por esses operadores no trato à vio-
lência contra a mulher e como estes as legitimam.

1. Dualismo discursivo e ação burocrática em ca-


sos de retratação
Tomamos aqui, como ponto de partida para nossas análises, o
desfecho da história “Uma facada no olho”, do processo em que o
homem agrediu sua mulher grávida com socos na barriga e, pos-
teriormente, conforme antecipa o título, atinge-lhe o olho com
uma facada. No exame de corpo de delito, a autoridade médica
requisita uma apreciação complementar para se certificar do grau
de prejuízo da lesão para a vítima. Embora esse segundo laudo
não conste do processo, soubemos que a lesão foi permanente e
comprometeu uma vista. A despeito dos fatos, em audiência, essa
mulher se retrata da acusação, o juiz acata, o processo é encerrado
e o casal volta a viver junto.
Essa história particular é representativa de toda uma realida-
de que foi investigada em outras pesquisas sobre violência contra
a mulher e que se repete nos desfechos dos casos: o arquivamen-
to massivo dos processos, pela renúncia das vítimas. Na busca de
explicações para essa evidência desconcertante, há quem atribua à
atuação do judiciário uma pregnância de sentidos patriarcalistas e
até machistas que corrobora para que a violência seja banalizada,
“minimizada, senão negada, absorvida como fazendo parte da di-
nâmica familiar e como algo que não poderia ser evitado” (Narvaz
e Koller, 2004, p.162).
Há, por outro lado, os que questionam a posição das mulheres
como meras vítimas de seus companheiros, quando, na realidade,
em parceria com eles, protagonizam as cenas de violência conjugal.

112
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

O trabalho de Gregori (1993, p.134) é referencial da proposição


de que “os relacionamentos conjugais são de parceria e a violência
pode ser também uma forma de comunicação, ainda que perversa,
entre parceiros”. Em sintonia com Gregori, Izumino (2004) com-
preende que a busca pela denúncia nas Delegacias e pelo apoio do
Poder Judiciário é um recurso encontrado pelas mulheres para fa-
zer cessar períodos de agressões contínuas, mas a condenação dos
companheiros, na maioria dos casos, não é a intenção das vítimas.
Essas são formulações explicativas para um fenômeno impli-
cado mutuamente na desistência das vítimas e no consequente ar-
quivamento dos processos. Neste tópico, procuramos analisar as
posições ideológicas que subjazem às performances do judiciário
local, bem como trilhar as ordens discursivas acionadas por seus
operadores nos casos de retratação. Começo pela observação de
um trecho da entrevista com um juiz, na qual a autoridade mencio-
na a retratação como um impedimento à justiça:

No Brasil infelizmente a lei Maria da Penha... ela no papel...


é muito bonita mas na prática, no nosso entendimento, não
tem sido eficaz exatamente por isso que eu estou dizendo, ín-
dice de arquivamento é altíssimo, não há garantias necessárias
para que a mulher prossiga no processo, né? Então como a
lei permite a retratação da mulher na fase policial e perante o
juiz o que acontece é que nós marcamos audiência, fazemos
medidas protetivas, determinamos o afastamento do agressor
da mulher e de seus familiares, mas no momento da audiên-
cia em que ela deve representar para que o processo prossiga,
em mais de 95% dos casos, a mulher requer o arquivamento
e aí não cabe nada além de acatar esse pedido. Acaba não ha-
vendo condenação porque a mulher desiste. A própria justiça
fica impedida, o poder judiciário fica impedido, de atuar por-
que a lei prevê essa brecha e parece que... como a lei já está se
tornando ineficaz, já há no congresso Nacional... para tornar
essa ação não de iniciativa privada mais de iniciativa pública,
ou seja, independer da vítima para que o processo prossiga.
Eu acho que só assim nós vamos conter a violência [...] É de

113
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

fundamental importância que a mulher entenda o seu valor,


entenda que ela não é um objeto do homem, entenda que ela
não pode sofrer violência, entenda que ela deve... é um ser hu-
mano que deve ser respeitada em todos os momentos de sua
vida, né? E só a partir daí, da própria valorização da mulher
por ela própria é que essa... esses casos têm diminuído. Não
basta, no meu entendimento uma mudança legislativa, nós
podemos mudar a lei, tornar até a violência a penar em prisão
perpétua. Se não houver efetivamente uma nova postura da
mulher em relação ao homem, impedindo que ele dê o pri-
meiro tapa, a primeira agressão, né? (Trechos da entrevista
com um juiz)

Nessas declarações, é possível identificar algumas posições as-


sumidas pela autoridade que se vinculam a reivindicações próprias
do movimento feminista e de organizações humanitárias interna-
cionais em defesa dos direitos das mulheres. Em um primeiro mo-
mento, ao qualificar a Lei Maria da Penha como ineficaz, usando os
atenuantes “infelizmente”, “no papel é bonita” e na própria sequên-
cia verbal “não tem sido eficaz”, o juiz se apropria do mesmo discur-
so punitivo, abraçado pelas feministas e pelos movimentos sociais
internacionais, que recorre à criminalização da violência contra a
mulher como solução para o problema. Ao mesmo tempo, ao in-
sistir na necessidade de autovalorização das mulheres, em que urge
o reconhecimento por parte destas sobre sua autonomia frente aos
homens (“... não é um objeto do homem”), como seres humanos
respeitáveis (“...é um ser humano que deve ser respeitado em todos
os momentos de sua vida, né?”), o operador apela para o discurso
de conscientização e libertação da mulher, enquanto sujeito autô-
nomo e independente do homem, nos moldes muito próprios do
discurso feminista.
Segundo Celmer (2007), nas últimas três décadas, em de-
corrência da atuação da ONU, e de agências como Organização
Internacional do Trabalho, Organização Mundial da Saúde, Or-
ganização dos Estados Americanos, alguns espaços de discussão

114
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

dos movimentos feministas e de mulheres têm sido incorporados


pelo Estado, tanto pela pressão dessas agências internacionais e
movimentos sociais internos, como pelo intuito de se mostrar po-
liticamente correto. Consequentemente, tem havido uma maior
tendência do Estado de incorporar reivindicações feministas na
legislação, especialmente no tocante à violência contra a mulher.
No próprio “pedido de reconsideração” estudado no tópico ante-
rior, ecoam vozes desse universo por processos de intertextualidade
manifesta e constitutiva2.
À primeira vista pode parecer surpreendente a permeabilidade
desses ideais no discurso do judiciário em um contexto menos aber-
to, como é o caso de Jaraguá, em que instituições tradicionais como
família e casamento são concebidas ainda sob noções conservado-
ras. Nesse sentido, a manifestação do juiz favorável ao prossegui-
mento dos processos ao invés de serem arquivados, como acontece
por causa das retratações (“...índice de arquivamento é altíssimo,
não há garantias necessárias para que a mulher prossiga no proces-
so, né?”) se opõe a decisões judiciais, muito comuns, que autorizam
os arquivamentos como forma de apoio à preservação do casamen-
to e da família. Aparentemente, portanto, este é um discurso mais
alinhado aos ensejos feministas, que veem na renúncia ao direito de
representação e no consequente arquivamento dos processos, um
incentivo à banalização da violência conjugal e à reprivatização do
conflito, devolvendo o poder ao agressor.
Conforme definimos acima, essa aproximação com o ideal fe-
minista é apenas aparente, pois, sob um outro ângulo, o juiz, na

2
O termo intertextualidade foi cunhado por Julia Kristeva nos anos 1960, que de-
signa a presença de elementos de outros textos dentro de um texto, seja de forma ma-
nifesta ou constitutiva. Comenta Fairclough (2001), que na intertextualidade mani-
festa, outros textos estão explicitamente presentes na superfície do texto, marcados
ou sugeridos por traços como aspas, citações, discurso direto e indireto e assim por
diante. A intertextualidade constitutiva, entretanto, é a configuração de convenções
discursivas que entram na produção do texto, o que implica na interseção da história
(sociedade) nesse texto e deste na história.

115
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

mesma medida em que se alinha a esse discurso, afasta-se dele,


quando exime o encargo da justiça, responsabilizando as próprias
mulheres e cobrando destas uma postura autônoma (“Não basta,
no meu entendimento uma mudança legislativa, nós podemos mu-
dar a lei, tornar até a violência a penar em prisão perpétua. Se não
houver efetivamente uma nova postura da mulher em relação ao
homem, impedindo que ele dê o primeiro tapa, a primeira agres-
são, né?”). Essas declarações ensejam o que Boel e Agustini (2008)
discutem sobre o discurso da igualdade jurídica.
Em estudo intitulado A mulher no discurso jurídico: um pas-
seio pela legislação brasileira, as autoras observam que o judiciário
difunde uma alegada conquista de igualdade de direitos entre ho-
mens e mulheres na legislação, trazida pela Constituição de 1988 e
pelo Código Civil de 2002. Para as autoras, essa imagem resulta do
que é dito, em especial pela mídia, depois do auge do movimento
feminista, de que a mulher já teria conquistado seu espaço, haven-
do igualdade de tratamento com os homens nos vários seguimen-
tos sociais. Contudo, seus estudos expõem a presença de resquí-
cios, tanto na lei quanto em sua aplicação, das ideologias machistas
e patriarcalistas, em que a ilusão de igualdade é necessária para que
se tenha a imagem de imparcialidade do judiciário e se mantenham
as aparentes características de naturalidade/obviedade de seu dis-
curso. A fala do juiz, portanto, expõe uma dualidade ideológica.
Embora seja permeada por vozes de ordem feminista, é ao mesmo
tempo atravessado por ideias que o contradizem.
Se em entrevista o que se sobressai na performance do operador
é sua articulação retórica, nos gêneros processuais, em que a autori-
dade atua juridicamente com outros colegas em casos de retratação,
o que se destaca é uma performance mais burocrática. Demonstra-
mos essa evidência, ao recuperarmos nos “Termos de audiência”
aquela estrutura de formulário que identificamos na maioria dos
textos forenses e policiais, que se constroem a partir de um modelo
padrão, salvo em um arquivo eletrônico, composto por determina-
dos campos que são preenchidos com as informações específicas de

116
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

cada processo. Assim, detectamos nas peças analisadas uma com-


posição dividida em quatro partes.
A primeira contém basicamente data, hora, local e o rol dos
presentes nos seguintes moldes:

Ao.... dia do mês de .... do ano ....., às .... horas, na sala de au-
diências, desta Comarca de Jaraguá, Estado de Goiás, onde
achava-se presente o MM. Juiz de Direito, Dr. xxxx comi-
go escrevente judiciário abaixo nominado, presente o Dr.
xxxxxx, Promotor de Justiça e...(em geral vítima e acusado e\
ou seus representantes legais)

O segundo campo é dedicado ao registro da retratação em si,


conforme demonstramos pelos recortes abaixo:

Aberta a audiência, a ofendida se retratou. O representante


do Ministério Público concorda com o arquivamento do fei-
to devido à ausência de justa causa para ação penal. (Processo:
2007.049.966.55)

Aberta a audiência a ofendida XXXXXXXXXXX se retra-


tou neste ato. A representante do Ministério Público mani-
festou pela extinção da punibilidade do denunciado. (Proces-
so: 2007.051.532.10)

Aberta a audiência, as ofendidas, inclusive a menor devida-


mente representada por sua genitora, se retrataram neste ato.
(Processo: 2008.004.972.61)

Aberta a audiência, a vítima se retratou. (Processo:


2008.005.274.82)

O terceiro campo recebe o nome de sentença, decisão ou des-


pacho. Esse segmento textual representa o próprio gênero sentença
que, segundo Pimenta (2007b), é considerado o ápice da atividade
jurisdicional, pois é a decisão terminativa do processo e definitiva

117
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

quanto ao mérito, que julga procedente ou não a imputação feita a


alguém. Contudo, explica a autora, que algumas sentenças afastam
a pretensão punitiva do Estado por reconhecerem presente alguma
causa extintiva da punibilidade. Este é o caso dos quatro processos
encerrados pela retratação das vítimas. No campo dedicado à sen-
tença, a juíza ou juiz registra sua decisão e ordena as providências
cabíveis, conforme se percebe nos exemplos:

DESPACHO: acolho, arquive-se. (Termo de audiência do


processo: 2007.049.966.55)

SENTENÇA: Diante da manifestação da ofendida nesta au-


diência, julgo extinta a punibilidade de XXXXXXXX, com
base no art. 107, inciso VI, do CP. Publicada em audiência.
Registra-se e Arquive-se. Expeça-se alvará de soltura. (Termo
de audiência do processo: 2007.051.532.10)

SENTENÇA: Aguarde-se o decurso do prazo decadencial e


expeça-se Alvará de Soltura, transcorrido o prazo decadencial
sem manifestação das ofendidas, desde já, fica declarada ex-
tinta a punibilidade de XXXXXXX, com base no Art. 106,
Inc. IV, do CP, obedecido o principio da celebridade. Publi-
cada em audiência. Registre-se e Arquive-se . (Termo de audi-
ência do processo: 2008.004.972.61)

DECISÃO: Expeça-se alvará de soltura, se por outro motivo


não estiver preso. Arquive-se. (Termo de audiência do proces-
so: 2008.005.274.82)

Esses são os penúltimos campos do gênero que se encerra com


um pequeno texto final que é redigido dentro daquele formato
estereotipado do qual já falamos e que, aqui, é elaborado da se-
guinte forma: “E nada mais havendo mandou encerrar o presente
termo que vai devidamente assinado. Eu... escrevente Judiciário,
o digitei e subscrevi”.

118
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

O que se sobressai nestes termos é uma estrutura genérica pa-


drão, cheia de campos preestabelecidos, preenchidos a exemplo
de um formulário, e uma organização textual exígua, estereotipa-
da que apaga enredos, cenários e atores das histórias de violência,
reduzindo-as a processos burocráticos. É esse ângulo burocrático
que mais se destaca na análise da tridimensionalidade do discurso
jurídico neste estudo, embora sobre os aspectos retóricos caibam
algumas observações.
Quanto à alegada impotência judicial frente às retratações das
vítimas, pudemos identificar uma concepção sobre a mulher como
sujeito autônomo, responsável por seus atos e consciente de seus
desejos e direitos, que justificaria os arquivamentos em atendimen-
to ao pedido das vítimas (“...a mulher requer o arquivamento e aí
não cabe nada além de acatar esse pedido”).
Há nessa posição, como comentamos, uma interseção com o
discurso da conquistada igualdade entre os sexos, embora este não
tenha sido abertamente desenvolvido. Do mesmo modo, percebe-
mos uma relação conceitual com aquela discussão proposta por
Gregori (1993) de que as cenas de violência conjugal compreen-
dem um perverso processo comunicativo. Embora não haja uma
intertextualidade manifesta entre a fala do juiz entrevistado e esses
discursos, com nenhuma citação direta ou indireta aos autores que
deles se apropriam, as convenções dos mesmos estão aí presentes.
E parecem operar tanto na lógica dos arquivamentos que o magis-
trado criticou, quanto na decisão de seu colega naquele caso que
mencionamos no começo deste texto, o da história “Uma facada
no olho”, também arquivado a pedido da vítima.
Voltando-se a esse caso específico que tomamos como exem-
plo, no início do tópico, observamos que, no desfecho da ação, apa-
recem presentes tanto o respeito à autonomia feminina, quanto às
leis bastante idiossincráticas que dirigem a relação daquele casal.
Isso porque a justiça encerrou o processo sem nenhum comentário
sobre os aspectos criminais da facada no olho que o agressor desfe-
riu na vítima e a cegou de um lado. Pelo “Termo de audiência” que

119
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

pôs fim à ação, não é possível confirmar se o operador agiu segun-


do os valores de autonomia da mulher, atendendo a seus desejos e
vontades, ou em conformidade com o discurso que vê na violência
conjugal uma forma de comunicação perversa entre as partes. Do
mesmo modo, não se pode assegurar que o magistrado tenha-se
sentido impotente na absolvição do agressor, impedido por uma
exigência legal, como reclamou seu parceiro em entrevista.
Possível é recuperar, no documento que pôs fim ao caso, a for-
ma protocolar observada anteriormente, em que toda a história de
violência é transformada em uma representação conceitual, autô-
noma, como aspira o discurso jurídico, isento de parcialidades, po-
sitivista e neutro, e que acaba por desconectar a realidade jurídica
da social, dentro de um processo eminentemente burocrático. Nos
mesmos moldes do texto, o que se destaca na condução dos casos é
a execução automática de regras e procedimentos modelos, como
engrenagens de um grande sistema hierárquico que move o maqui-
nário judicial e que justifica a atuação igualmente burocrática dos
operadores na condução dos processos.

2. Conservadorismo, automatismo e banalização


no arquivamento dos processos
Ao longo de toda esta parte do estudo, sobressaiu-se na análise
do discurso e atuação dos operadores do direito uma sobreposição
de formações discursivas em que soam vozes em defesa dos direitos
das mulheres, compromissos com a ordem pública, ideais igualitá-
rios, tudo permeado por diferentes valores político-sociais. Contu-
do, a despeito dessa arena de forças ideológicas, o que predomina
na condução efetiva dos processos são formas protocolares e buro-
cráticas que acabam por reduzir qualquer debate ao automatismo
da máquina judicial. Essa é uma constatação que nos salta às vistas a
partir do cruzamento dos dados empíricos, colhidos em entrevistas
com os profissionais da área e os textos que os mesmos elaboram
até os desfechos processuais. Toda essa dinâmica, conforme temos

120
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

demonstrado, faz da dimensão burocrática do Direito a mais pro-


eminente, dentro da noção tridimensional de Santos (1988), re-
tórica-burocrática-coercitiva. Neste penúltimo tópico, seguindo os
mesmos moldes de investigação empírica, iremos nos debruçar so-
bre o arquivamento das “histórias de violência”, discutindo os dois
principais elementos identificados nos dados, conservadorismo e
automatismo. Também apresentamos um flagrante de banalização
em uma “Defesa prévia”, naquela história em que o filho agride a
mãe. No documento, o advogado do réu, de forma desrespeitosa e
debochada, desqualifica a violência do agressor e as lesões sofridas
pela mãe, ao mesmo tempo em que desmoraliza a ambos. A análise
desse texto demonstra que esse terceiro elemento, a banalização,
une-se àqueles dois primeiros para compor um modo de tratar a
violência contra a mulher.
No subtópico anterior, vimos que nos casos de arquivamento
dos processos, o Judiciário executa procedimentos legais burocra-
ticamente, mesmo quando seus operadores se dizem contrários a
esses procedimentos, alegando que é a própria Lei quem lhes res-
tringe a ação. Sem enveredar pela discussão sobre os freios legais,
Campos (2003) enxerga no fenômeno uma forte marca de conser-
vadorismo. Para a autora, o que move a lógica jurídica é um ideal
impregnado de valores tradicionais sobre o matrimônio e a família,
que se orientam para a preservação do casamento. Por suas obser-
vações, essa lógica permanece inalterada de longas datas. Contudo,
a partir da Lei 9.099/95, passou a ser operada não pela absolvição,
mas pelo arquivamento massivo dos processos, através da renúncia
das vítimas. Critica-se que, ao adotarem essa postura, alguns magis-
trados promovem uma aplicação do direito às mulheres de forma
assimétrica, ocultando modos de distribuição social de poder. Tal
argumento foi considerado na elaboração da Lei Maria da Penha
que vedou a lei anterior, atendendo a reivindicações feministas.
Algumas evidências sobre a presença do ideal conservador em
relação ao casamento e sobre o modo assimétrico de aplicação de
poder são identificadas neste “Termo de retratação”, em que foram
subtraídos apenas o cabeçalho e os dados da qualificação. os cam-
pos principais expomos a seguir:

121
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

Vem a presença de Vossa Excelência, na presente Ação Pe-


nal de nº 200704346596, dizer que RENUNCIO ao direito
de queixa em desfavor de XXXXXXXXXX, vez que, somen-
te fui à Delegacia de Polícia porque estava nervosa e cansada
de ver o esposo chegando em casa bêbado e sem trabalhar.
Contudo, atualmente, o mesmo passou por um trata-
mento de dependência química e alcoólica, passando a con-
viver comigo e com nossa família de uma maneira harmônica,
sem desentendimentos, sendo que, inclusive, livrou-se das
bebidas e das drogas.
Dessa forma, não tenho qualquer interesse na continua-
ção do feito.
Por ser verdadeiras as declarações acima mencionadas e
por estar de acordo em RETRATAR-ME é que firmo o pre-
sente. (Trecho retirado do Termo de Retratação do processo:
2007.043.465.96)

Nesse texto, o discurso da preservação do casamento e da fa-


mília é articulado de forma bastante artificial. Escrito em primeira
pessoa, o documento enunciaria a voz da vítima, que nesse caso é
uma costureira de 35 anos de idade, com pouco grau de instrução,
conforme sua qualificação nos autos. O gênero pelo qual registra
e apresenta sua assumida retratação pertence ao domínio foren-
se, cujas especificidades a impediriam de produzir tal redação. O
verdadeiro autor do documento, este sim habilitado a esse tipo de
produção textual, é o advogado3 do agressor, que assina a “Defesa
prévia do réu”, texto que menciona a retratação como recurso de

3
O “Termo de retratação” foi elaborado pela defesa do acusado e assinado pela vítima
do processo 2007.043.465.96, cuja história de violência é intitulada “Você não faz
comida porque está na rua com outros homens!”, aquela em que o marido chegou
em casa bêbado, perguntando sobre o jantar, afirmando que a companheira não fazia
comida porque estava na rua com outros homens, discussão que culminou com a
agressão mútua com pauladas e socos, atingido a mulher mais gravemente. No proces-
so em questão, embora constasse a retratação já assinada pela vítima, não havia sido
encerrado na ocasião da coleta, possivelmente, estaria à espera da audiência para a
finalização com a apresentação do documento e a manifestação da ofendida.

122
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

defesa e ao qual a mesma estava anexada. É, portanto, da posição


desse enunciador oculto que emerge a fala assumida pela vítima na
primeira pessoa, recurso que visa reforçar a autoria das declarações.
No parágrafo inicial, em letras destacadas em maiúsculo, vem
a proposição central do texto, a manifestação da renúncia (RE-
NUNCIO ao direito de queixa em desfavor de...) justificada pelo
nervosismo do momento em que foi à delegacia “cansada de ver o
esposo chegando em casa bêbado e sem trabalhar”. No português,
existe uma aproximação semântica entre justificar e desculpar, essa
última, por sua vez, está também associada ao significado de perdo-
ar. Os três sentidos se sobrepõem na redação do termo, pois ao se
retratar, a vítima a um só tempo se desculpa por ter acusado o ma-
rido; justifica-se pela acusação precipitada em função do compor-
tamento descontrolado do companheiro e em função também de
seu próprio nervosismo; por fim, perdoa as agressões do parceiro.
Ainda como forma de se desculpar, justificar seus atos e os
do marido, e perdoá-lo, o texto articula uma estratégia de legiti-
mação bem ao exemplo do que Thompson (1995, p. 89) classifica
de narrativização: uma operação linguístico-ideológica que cria a
sensação de que no presente algo é eterno e aceitável a partir de
um acontecimento passado. Essa operação pode ser recuperada na
sequência textual do segundo parágrafo, iniciado pela conjunção
adversativa (contudo) aí alocada para contrapor a cena do passado
em que a mulher “estava nervosa e cansada de ver o esposo chegan-
do em casa bêbado e sem trabalhar”. Em seguida, vem o advérbio
de tempo (atualmente) realçando o tempo presente e anulando
o passado nefasto que se quer esquecer. A anulação é engendrada
pela narrativa da reabilitação do marido com um tratamento de de-
pendência química e alcoólica, história inverossímil no contexto
jaraguense, onde não há serviços de saúde dessa natureza. No final,
a exemplo de contos da carochinha, em que o bem vence o mal, o
marido livra-se das “bebidas e das drogas”, possibilitando, “inclusi-
ve”, o desfecho feliz, com a convivência conjugal e familiar “harmô-
nica”, “sem desentendimentos”.

123
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

Por mais artificial, inconsistente e inverossímil que pareça, tex-


tos como o que ora se apresenta movem o judiciário. Executados
nesses moldes, atendem tanto aos critérios burocráticos próprios
desse sistema, quanto àqueles ideais conservadores da cultura pa-
triarcal que exploramos na parte anterior. Tudo orquestrado por ar-
ranjos linguísticos que operam uma duvidosa distribuição de poder.
Sobre esses arranjos, cabe um comentário final. Observa-se que
o documento se encerra com uma daquelas frases estereotipadas
“por ser verdadeiras as declarações acima mencionadas e por estar
de acordo em RETRATAR-ME”, esta última também em letras
maiúsculas, como no começo do documento aquele “RENUN-
CIO” e depois, “é que firmo o presente”, marcado o fim do texto.
Entre as duas expressões destacadas, “renuncio” e “retratar-me”, há
uma diferença semântica instrumental. A primeira aciona a possibi-
lidade de a vítima abrir mão, desistir ou mesmo renegar voluntaria-
mente seu direito de acusar, o que implica em noções de autonomia.
Enquanto que na retratação, a vítima confessa que fez uma acusação
errônea ou falsa e vem a público para se desculpar e anular a declara-
ção anterior. Na Justiça, retratações são exigidas em casos de difama-
ção e calúnia. Nesse sentido, a primeira expressão apenas atenua ou
mesmo disfarça as implicações subjacentes ao “Termo de retratação”,
que funcionalmente opera uma confissão de culpa das mulheres, que
assumem agir sob descontrole emocional ou irresponsavelmente.
Em síntese, o que o gênero faz concretamente é registrar o ar-
rependimento das vítimas, seu perdão aos agressores e, mais indi-
retamente, seu próprio pedido de perdão pelos constrangimentos
resultantes da abertura dos processos.
Nas análises até aqui traçadas, modos burocráticos de ação e
um ideal conservador são aspectos que se destacam na performance
do judiciário. Porém, permanecem ainda muitas questões sobre o
que realmente comanda a razão jurídica para o arquivamento dos
processos, conforme discutimos no tópico anterior.
As justificativas de atendimento às Leis estão cheias de contra-
dições, pois a Lei Maria da Penha, ao afastar os procedimentos da

124
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

Lei 9.099/95, quis transformar os crimes de lesões corporais leves e


culposos (cometidos no âmbito das relações familiares) em crimes
de ação pública incondicionada, não havendo exigência de repre-
sentação e nem possibilidade de renúncia ou desistência por parte
da ofendida. Assim, as autoridades teriam que levar os processos
adiante e penalizar os réus mesmo que perdoados pelas companhei-
ras. Por outro lado, o respeito à vontade da vítima de livrar o agres-
sor das penalidades cabíveis implica em um proporcional respeito
à violência deste contra a mesma. Respeitadas as agressões, todo o
rol ofensivo levantado na Parte II desta pesquisa, com seu conteúdo
de terror, é esquecido e, assim, até uma facada no olho que cega a
vítima, passa a ser desconsiderada ou perdoada como um simples
modo relacional.
Nos dados empíricos aqui analisados, fica latente que é a com-
binação dessa imagem da violência como uma idiossincrasia pró-
pria de certos relacionamentos amorosos-conjugais, com o ideal
conservador do Direito, ambos emaranhados no automatismo do
sistema, que opera as decisões judiciais no arquivamento dos pro-
cessos. As declarações feitas por uma representante do Ministério
Público em Jaraguá amparam essa evidência:

Eu acredito que até hoje o papel da mulher é muito funda-


mental, porque justamente ela tem aceitado a violência contra
ela. Então quando chega as audiências elas têm  pedido o ar-
quivamento, ou então ela dá mais uma chance, e isso faz com
que aquele que a agrediu uma vez ele cresça em cima daquela
que foi agredida. Então ela começa a praticar novos atos, até
que a questão fique totalmente insustentável.  E quando che-
ga nesta questão de se tornar insustentável é que geralmente o
processo vai até o fim. Até lá quase todos os processos a mu-
lher é agredida uma, duas três vezes, até ela cansar e dar anda-
mento no processo. Mas nos processos anteriores ela sempre
pede o arquivamento do processo. Elas registram geralmente
quando está naquele momento da agressão, aí elas chamam
a polícia, a polícia comparece ao local, ela faz o boletim de

125
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

ocorrência e já encaminha pra gente. Então já tem um registro


quase que automático. Quando ela chega a procurar a delega-
cia que ele a agrediu e tudo, às vezes ela vai mais por pirraça.
Ai geralmente quando chega na audiência quase todas, isso é
90% delas pedem o arquivamento. (Trecho de entrevista com
uma representante do Ministério.)

Em entrevista, essa promotora recorre ao mesmo discurso de


seu colega, o juiz, realçando a responsabilidade das mulheres na
permissão da violência de seus homens e na obstrução da Justiça na
condenação dos mesmos. Contudo, a autoridade acrescenta uma
declaração que confirma o automatismo do judiciário na condu-
ção dos casos, como argumentamos aqui, na metáfora da “máqui-
na judicial”. Nota-se que a entrevistada assume que as engrenagens
do sistema são acionadas mecanicamente a partir do registro do
Boletim de Ocorrência. Em seguida, ela acrescenta um elemento
não declarado na maioria dos dados, mas cuja presença é latente, a
consideração de que as mulheres usam a justiça no jogo relacional
violento com os maridos para fazer “pirraça”. Embora essa noção
não se explicite nos textos, como fez a promotora em sua entre-
vista, a ação desinteressada dos agentes nos casos mostra que, no
fundo, essas narrativas de violência, essa cronificação do conflito
doméstico, aborrece a Justiça, que a enxerga de forma banal.
Essa não é uma concepção declarada, ao contrário, na super-
fície, a fala dos operadores apela para os discursos da igualdade de
direitos, do respeito à autonomia feminina, do cumprimento às
leis, sempre com vistas a uma representação politicamente correta.
De modo que só por uma análise cuidadosa é possível desvelar con-
cepções de banalização. Contudo, de vez em quando, elas transpa-
recem por algum deslize ou descuido e aí é possível flagrá-las. É o
caso do texto a seguir, uma “Defesa prévia”, no qual um advogado
escancara essa visão banalizada:

126
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

XXXXXXXXXXX, na ação criminal que lhe move a


Justiça Pública, como incurso nas sanções do art. 129, § 9º do
Código Penal c/c art. 7º inc.I da Lei 11.340/06, pelo advoga-
do que esta subscreve, vem apresentar as suas ALEGAÇÕES
FINAIS fazendo-o na forma a seguir exposta:
Consta dos autos e do imaginário popular das circun-
dâncias da vila Colombo e adjacências, que o acusado vive na
beberronia e se transformou num beberrote contumaz;
No dia fatídico denunciado nos autos eis que logo após
uma lequéssia, estava numa tiaporanga desgraçada, com uma
zangurrina de dar inveja em gambá e para complementar a sua
traquitana, sua geratriz, que diga-se de passagem também é
uma bela duma pinguça, biriteira de mão-cheia, ou melhor de
cabeça cheia, deu por bem tomar satisfações com o acusado,
chamando-lhe a atenção por estar avinhado, trolado, chum-
beado, xambregado e andando em zigue-zague, qual caran-
guejo em areia.
Que embora sabendo ser sua genitora uma belatriz de
cabelo nas ventas, não se fez rogado; pegou a velha pelo co-
que, sabugou-lhe pelo chão; e ainda deu-lhe uns catiripapos
atingindo-lhe as nádegas e outras vergonhas desavisadas;
Que neste rega-bofe, a sua mãe andou-lhe dando tam-
bém uns petelecos, uns pés-de-burro, para aprender a respei-
tar aquela que uma dia lhe partiriu, lhe partejou e acima de
tudo lhe ensinou a encatrinar-se, encher a caveira, não de leite
materno mas de suor-de-alambique, quando então a chamava
de mamãe-de-luanda, manderuba e mãe benta;
Que nesse entrevero, o pai do acusado e maridado com a
vítima, mas que não podia fazer nada já é meio quartaludo e
truão; apenas pediu ajuda aos vizinhos para separar a confusão.
Que apaziguados os ânimos e separados os contendo-
res ficou o acusado de venta inchada e a vítimaria com uma
chavascada a enfeitar-lhe a dianteira, ornando-lhe a testa, um
buraco mal acantilado e cheio de depressões.
Sopesando, Exa., os acontecimentos, observamos que
ambos os contenciosos tiveram culpa no evento; nenhum

127
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

queria machucar o outro, mas a danada da aguarrás foi o mo-


tivo de tanta bagunçada;
Por uma questão de justiça e para a manutenção da or-
dem na família seria de bom grado punir a ambos os conten-
dores, proibindo-lhes de ingerir bebidas alcoólicas por dois
anos consecutivos.
Como não há previsão legal para este tipo de punição,
que se absolva o acusado, na forma da lei.

O texto reconstrói a história que gerou o processo de modo di-


verso do que está registrado nos autos. O que consta, em síntese, é
que o filho, drogado, teria agredido a mãe nas proximidades de sua
casa, após lhe pedir dinheiro. O pai teria tentado evitar que o rapaz
prosseguisse, mas foi impedido pela iminência de ser espancando.
Os vizinhos chamaram a polícia, o agressor foi preso, iniciando o
processo automaticamente. Com a assinatura do termo de retrata-
ção da vítima, o réu possivelmente já seria absolvido. Contudo, o
advogado redige uma “Defesa prévia”, gênero que em geral desqua-
lifica o delito acusado para que se possa alegar ausência de motivos
para a punibilidade do réu. O texto carrega no léxico, especialmen-
te nas categorias nominais, pelas quais se rotulam e avaliam-se tan-
to pessoas quanto situações.
Nesse sentido, ao recuperarmos as denominações atribuídas
a cada personagem do relato, tem-se a seguinte lista: a) a vítima:
genitora, geratriz, bela duma pinguça, biriteira de mão-cheia, de
cabeça cheia, belatriz, uma de cabelo nas ventas, velha, mamãe-
-de-luanda, manderuba, mãe benta, de venta inchada, a vitimaria;
b) o agressor: o acusado, que estava numa tiaporanga desgraçada,
avinhado, trolado, chumbeado, xambregado, que anda em zigue-
-zague qual caranguejo em areia; c) o pai: quartaludo, truão, mari-
dado com a vítima.
A cena é qualificada como um “rega-bofe”, ou seja, uma festa
ou folia. A atuação dos personagens é reduzida a uns “petelecos” e
“pés-de-burro”, no caso da mãe em relação ao filho, e a uns “catiri-

128
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

papos” (tapas) e “sabugos” (batidas) ao chão segurando pelo coque,


o filho em relação à mãe. Restou como resultado a venta inchada
no filho e uma chavascada (pancada) na testa da mulher, além das
nádegas atingidas e outras “vergonhas desavisadas”.
A linguagem jurídica, segundo Mozdzenski (2010), encontra-
-se de tal forma estruturada que inviabiliza a compreensão por pes-
soas de fora da elite profissional que a domina. O vocabulário em-
pregado no texto demandou uma consulta ao significado de muitas
palavras, porém, não por constituir o jargão do Direito, pretensa-
mente culto e elitista, mas, ao contrário, por ser próprio do meio
rural jaraguense, distanciado do padrão urbano de prestígio. Varia-
da e repetidamente adjetivados com um léxico próprio do univer-
so literário regionalista, os protagonistas do caso de violência são
representados nos moldes do personagem Jeca Tatu, de Monteiro
Lobato, caipira e ignorante. O autor joga com o hermetismo do
discurso jurídico e o anacronismo de termos rurais para compor
a representação inferiorizante desses atores e, proporcionalmen-
te, diminuir o grau de importância das ações agressivas. Traçados
como jecas os protagonistas, a violência por eles performada não
passa de uma mera pantomima entre matutos beberrões e exalta-
dos, com pouca ou nenhuma importância.
O texto é um flagrante de preconceito, deboche e desrespeito.
Ele expõe abertamente a imagem velada que no fundo muitos ope-
radores têm da violência doméstica, seus protagonistas e enredos:
não passa de uma querela entre casais ou parentes pirracentos, que
ocupam o judiciário desnecessariamente. A forma burocrática e au-
tomática pelo qual são conduzidas as ações, segregadas ao domínio
forense, abrigada do olhar externo manifestações de deboche como
esta que, ao que tudo indica, contam com a cumplicidade de outros
agentes, uma vez que não houve punição pelas irreverências que
o advogado escreveu, conduzindo de modo banal e ridicularizado
um fenômeno tão sério.

129
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

3. Suspensão de processos e extinção de punibili-


dade: a dimensão coercitiva
Chegamos, agora, a este tópico final da seção analítica sobre o
discurso e a performance dos operados do direito, no qual preten-
demos dar cabo à discussão sobre a condução dos processos e o fim
das histórias violentas com base na noção tridimensional de Santos
(1988) e seus planos retórico, burocrático e coercitivo. Uma vez
que se destacaram os aspectos retórico e burocrático na ancoragem
tanto do discurso da igualdade de direitos, quanto do automatismo
do sistema, resta, portanto, focar o terceiro plano ainda pouco ex-
plorado da tríade de Santos, o coercitivo. É a ele que nos dedicamos
neste momento final, analisando as medidas punitivas registradas
nas sentenças dos “Termos de audiência” que, efetivamente, findam
os processos.
Como nos detivemos por certo tempo nos casos de retratação,
vamos agora analisar as suspensões, que foram a segunda forma
mais comum de encerramento dos processos neste estudo. Co-
meçaremos a investida pelo “Termo de audiência e suspensão” do
processo 2007.040.714.73 da história “O recibo da pensão” (seção
3.2.2):

Audiências, desta Comarca de Jaraguá, Estado de Goi-


ás, onde achava-se presente o MM. Juiz de Direito Dr.
XXXXXX, comigo escrevente judiciário abaixo nomeado,
presente o Dr. XXXXXXXX, Promotor de Justiça, ausente a
vitima, ainda que intimada.
Aberta a audiência, o representante do Ministério Pu-
blico, fez a seguinte proposta de suspensão condicional do
processo pelo prazo de 02 anos, com as condições a seguir:
Comparecimento mensal e obrigatório em juízo, para jus-
tificar e informa suas atividades; proibição de ausentar-se
comarca onde reside por mais de 15 dias, sem autorização
judicial; proibição de frequentar bares, boates, prostíbulos e
casa de jogos; obrigação de informa novo endereço, anteci-

130
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

padamente, em caso de mudança; doação de 01 cesta básica


no valor de R$ 240,00, ate o dia 05 de abril de 2008, ao LAR
BETEL, juntando nota fiscal e comprovante de entrega,
como proposta especifica.
O denunciado e sua advogada aceitaram as condições
da proposta.
DECISÃO: Verifica que o presente feito deve tramitar peran-
te a justiça comum, sendo este magistrado designado para ofi-
ciar nos feitos criminais desta comarca. Por isso, a realização
desta audiência aqui no juizado, obedecendo ao princípio da
celeridade. Recebo a denúncia, posto que formalmente regu-
lar, narrando em tese, a ocorrência de crimes.
Redistribua-se à vara criminal, lá dando cumprimento às
condições aceitas.
Aguarde-se o cumprimento das condições.
E nada mais havendo mandou encerrar o presente termo
que vai devidamente assinado. Eu--------------Secretário de
Audiências, que digitei e subscrevi. (Termo de audiência do
processo: 2007.040.714.73)

Neste texto, um primeiro aspecto sobre a dimensão coercitiva


que pretendemos discutir diz respeito à aplicação de pena restri-
tiva de direito ou multa, recurso revogado pelo artigo 17 da Lei
Maria da Penha4 que, conforme mostra o documento, continua
operando, mesmo após a vedação legal. A modalidade de penas
alternativas ou multas pecuniárias foi alvo das maiores críticas so-
bre o desempenho insatisfatório dos Juizados Especiais nos casos
de violência contra as mulheres e a aplicação da Lei 9.099/95. A
mesma foi chamada de “lei da impunidade”, tanto por minimizar a
intervenção policial, quanto pela versão “civilizadora” intermedia-
da pelo pagamento de cestas básicas ou de trabalho comunitário,
ambos destinados a terceiros, sem qualquer consideração pelas víti-

4
É vedada a aplicação, nos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, de
penas de cesta básica ou outras de prestação pecuniária, bem como a substituição de
pena que implique no pagamento isolado de multa.

131
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

mas. Ainda que as mesmas tivessem prejuízo pessoal em decorrên-


cia da agressão, como quebra de dentes, de óculos e outros danos
materiais, a decisão residia basicamente no pagamento de cestas
básicas a terceiros. A Lei Maria da Penha expressamente revogou
a aplicação da Lei 9.099/95 nos casos de violência de gênero, jus-
tamente em atendimento a essas críticas e como forma de intro-
duzir mudanças. Todavia, o estudo detectou que alguns dispositi-
vos revogados ainda operam no judiciário jaraguense, conforme o
exemplo dado e, agora, novamente se expõe no próximo “Termo de
audiência e suspensão” do processo 2008.026.821.67 , da história
“Roupas para a filha”:

O juíz proferiu a seguinte decisão: O fato narrado na denún-


cia, em tese, configura crime, preenchendo a acusatória os re-
quisitos legais. Recebo a denúncia.
Em seguida, o representante do Ministério Público veri-
ficou que o denunciado preenche os requisitos para obtenção
do beneficio da suspensão condicional do processo, previsto
no artigo 89 da Lei nº 9.099/95. Desta forma foi formulada
a proposta de suspensão condicional do processo ao acusado
pelo prazo de 02 (dois) anos, mediante as seguintes condi-
ções: I – Não ausentar da Comarca, sem previa autorização
desde Juízo por mais de 15 dias; II – Apresentar-se a esse ju-
ízo, mensalmente, para justificar e informar suas atividades.
III – Não frequentar bares, boates, prostíbulos e casas de jo-
gos. IV – Informar novo endereço, antecipadamente a este
juízo, em caso de mudança. Como condição especifica: Não
se aproximar da ofendida.
O denunciado e seu advogado aceitaram as condições
da proposta.
DESPACHO: aguarde-se o cumprimento. Certifique.
NADA MAIS, E, para constar, lavrei este termo que vai
devidamente assinado. (Termo de audiência do processo:
2008.026.821.67)

132
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

Neste outro exemplo, a autoridade cita nominalmente a Lei


9.099/95, aplicando seus dispositivos mesmo após a revogação
pela Lei 11.340/06 (Lei Maria da Penha) quase dois anos antes da
data do processo.
Embora polêmica, a manutenção do sursis processual não é
uma evidência restrita ao âmbito do estudo. Conforme o estudo de
Azevedo, Craidy e Guattini (2010), sobre as jurisprudências nos
casos de sursis, em todo o país as suspensões prevalecem pelo enten-
dimento de que “A Lei 11.340/06 não impede a aplicação da sus-
pensão condicional do processo nos casos que esta couber”5. Com-
parados esses casos com os que foram arquivados com a retratação
das “ofendidas”, observa-se que a tendência geral de encerramento
das demandas é, por um lado, o arquivamento a pedido das vítimas,
ou, por outro, a suspensão, quando estas não se manifestam ou não
se retratam.
Em ambas as situações não é imputada nenhuma pena ao agres-
sor, pois, no primeiro caso, em geral, a punibilidade é automatica-
mente extinta com a retratação da vítima e, no segundo, fica pen-
dente pelo período em que perdurar a suspensão, sendo igualmente
extinta se, depois de cumprido o prazo decretado, não tenha o réu
incorrido no delito de que foi acusado. Dessa forma, constata-se
que, na realidade, o réu raramente é punido. Como a Lei Maria
da Penha atende aos tratados e convenções internacionais sobre
direitos humanos, devidamente aprovados pelo Congresso Nacio-
nal, ela faz referência expressa à Convenção sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher e à Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra
a Mulher. Nesse sentido, fica a interrogação sobre em que medida
essa forma de ação do judiciário contempla tais interesses.
A questão da punibilidade dos homens nos conflitos conjugais
ou domésticos é matéria muito polêmica. As opiniões se dividem
5
Redação do Enunciado nº 10, do I Fórum Permanente de Juizados de Violência Do-
méstica e Familiar contra a Mulher (Fonavid), realizado em 2009, na Cidade do Rio
de Janeiro.

133
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

amplamente. Há, por um lado, aqueles que consideram que a Lei


Maria da Penha foi um passo significativo para assegurar à mulher
o direito à sua integridade física, psíquica, sexual e moral, por uma
aplicação de procedimentos mais rigorosos e efetivos na condu-
ção dos casos de violência (Dias, 2007). Dentre eles, a possibi-
lidade de se decretar a prisão em flagrante ou preventiva, que é
necessária, tanto para dar tempo à vítima de resolver o caos da
sua vida e de seus filhos, uma vez protegida do agressor, quanto
para abrigá-la dos desdobramentos fatais que podem resultar do
momento violento. Segundo Dias (2007), não se pretende que a
condenação leve sempre o agressor para a cadeia. A Lei inclusive
prescreve, no art. 45, o comparecimento deste a programas de re-
cuperação e reeducação.
Por outro lado, há os que argumentam que a Lei Maria da Pe-
nha, ao invés de avançar e desenvolver mecanismos alternativos
para a administração dos conflitos de gênero, recorreu ao mito da
tutela penal, sistema considerado seletista, desumano, reprodutor
de desigualdades e da mais alta violência, que não promove justiça,
muito menos a paz. Para Azevedo (2008), a detenção atua sempre
de modo seletivo e temporário em termos de classe social e perten-
ça étnica e cultural, atingindo efetivamente apenas os mais pobres
e estigmatizados e, dificilmente, a elite. Sabendo-se da existência
de um Sistema Penal Subterrâneo (Baratta, 2002), que promove
um controle informal com o emprego de penas cruéis aos réus, em
que as autoridades são cúmplices, a leitura criminalizante seria re-
produtora de mais violência. Para quem segue essa corrente, o mais
adequado seria lidar com o conflito fora do sistema penal, radicali-
zando a aplicação dos mecanismos de mediação, realizada por pes-
soas devidamente treinadas e acompanhadas de profissionais do
Direito, Psicologia e Assistência Social (Azevedo, 2008).
A despeito de toda essa discussão, os Termos aqui mostrados
apenas revelam a tendência não punitiva sem, porém, expor os mo-
tivos que levam as autoridades a proferirem tais sentenças. Não há
apelo direto a nenhum dos discursos mencionados. Porém, o fato

134
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

de ambos os documentos encerraram demandas entre casais que


estavam separados já na época da agressão, não tendo as vítimas
comparecido às audiências por não mais viverem na mesma cidade
que seus agressores, dá margem para alguns comentários sobre a
noção da violência como recurso comunicativo do qual homens e
mulheres tomam parte. Na seção anterior, vimos que essa concep-
ção apoia a forma banalizada por que é tratada a violência domésti-
ca, como uma simples querela entre casais que se agridem dentro de
um processo relacional próprio. Contudo, não há como se falar em
jogo relacional mútuo se a violência ocorre quando o casal já está
separado e o homem agride a mulher por não aceitar sua decisão.
Estudos e até mesmo a mídia mostram que muitas mulheres
sofrem ameaças e são espancadas ou assassinadas justamente quan-
do se afastam dos companheiros com o intuito de pôr fim a uma
relação doentia da qual elas, definitivamente, não querem mais
participar. Durante o estudo, foi bastante noticiado o assassinato
da cabeleireira Maria Islaine de Moraes, de Belo Horizonte, por
seu ex-marido. A vítima registrou oito queixas contra o agressor e
teria colocado câmeras no salão onde trabalhava para comprovar
as ameaças. Infelizmente, seu assassinato com seis tiros de revólver
acabou sendo filmado. Foi muito criticada a atuação da polícia no
cumprimento das medidas protetivas. Conforme afirmou a pro-
motora de Justiça Luiza Eluf, em entrevista à revista Isto é, em 16 de
julho de 2010, “falta a polícia se convencer de que precisa ser mais
rápida nas questões ligadas à proteção da mulher”. Para desenvolver
a questão, tomamos o recorte da entrevista com o comandante da
Polícia Militar de Jaraguá, que tembém oferece um ponto de vista
sobre a própria Lei Maria da Penha:

Quando a mulher tem coragem de denunciar esses ataques crimi-


nosos, a justiça tem dado um bom retorno, com a prisão, com a le-
gislação Maria da Penha...é um legislação rígida com a questão
da agressão contra a mulher...uma simples ameaça pode acabar
em prisão de quem faz esse tipo de ameaças, esse tipo de
violência quando esse acaso chega a conhecimento da polícia
e a polícia realmente transforma esse em inquérito depois o

135
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

judiciário transforma em processo, com certeza os agressores


tem sido punidos por esse tipo de agressão. (Trecho de entre-
vista com o comandante da Polícia Militar, grifos nossos.)

As palavras desse operador e a realidade que os dados da pes-


quisa expõem se aproximam no automatismo do rito processual
nos casos de agressão, mas as semelhanças se desfazem na certeza
da punição dos agressores no fim do processo, que o comandan-
te declara, pois não é o que se constata. Tanto a fala desse agente
quanto as sentenças analisadas, são orientados pelo padrão formal
e burocrático, próprio do Direito, de modo que, na superfície, a
ênfase interdiscursiva recai apenas sobre os textos legais. Seguindo
o formato direto e econômico em termos de explicações e argu-
mentos, as autoridades não articularam muito a dimensão retórica
para justificar suas ações, como a oferta do sursis nas sentenças, por
exemplo. Essa é uma evidência que se abre para a crítica que Bour-
dieu (2006) faz à razão e ação jurídica em seu conceito de habitus.
Para o autor, o habitus é o conjunto de conhecimentos práti-
cos adquiridos ao longo do tempo que regulam o modo de agir
com naturalidade em um dado universo social. Ele afirma que o
habitus jurídico privilegia o formalismo do direito em detrimen-
to da justiça social, de modo que as categorias de pensamento dos
juristas acabam funcionando como instrumento de manutenção e
distribuição de poder social. Nessa medida, a desembargadora Ma-
ria Berenice Dias (2007), explica que a verdadeira razão para a não
aplicação imediata da Lei Maria da Penha é que ela foi recebida
da mesma forma que são tratadas as vítimas a quem protege: com
desdém e desconfiança. Conforme declarou a autora, “tudo serve
de motivo para tentar impedir sua efetividade”.
A efetivação da Lei, por conseguinte, é impedida tanto pela
burocracia do habitus jurídico como por ideias conservadores da
cultura patriarcal que o constituem. Entre essas ideias, depreende-
-se uma dimensão machista, ainda que de forma velada, que só
não adquire contornos declarados em vista da patrulha do “poli-

136
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

ticamente correto”. Contudo, volta e meia, por algum deslize ou


mesmo pela arrogância de seus partidários, a ideologia escapa e é
assumida abertamente, como no caso bastante noticiado do juiz
Edilson Rumbelsperger Rodrigues, da Comarca de Sete Lagoas
(MG). Em julgamentos de diversas ações, o magistrado considerou
inconstitucional a Lei Maria da Penha, chamando-a de “monstren-
go tinhoso”, “um conjunto de regras diabólicas” e ainda afirmando
que “a desgraça humana começou por causa da mulher”. De acordo
com informações do Conselho Nacional de Justiça, em sentença
proferida em 2007, o juiz declarou que “o mundo é masculino e as-
sim deve permanecer” e “para não se ver eventualmente envolvido
nas armadilhas dessa lei absurda, o homem terá de se manter tolo,
mole, no sentido de se ver na contingência de ter de ceder facil-
mente às pressões”. Essas são declarações que expõem sem rodeios
o raciocínio por trás de determinadas condutas dos operadores do
direito nos processos de violência doméstica.
Por mais que as pesquisas procurem explicações teóricas sobre
a violência de gênero, os dados empíricos sempre denunciam em
algum nível a cultura de desrespeito à mulher ditada pelo machis-
mo. “Enquanto o machismo não acabar, as mulheres continuarão
morrendo” é o que diz textualmente a promotora de justiça Luiza
Eluf em entrevista à revista Istoé. Ela ainda acrescenta:

Não é uma questão econômica, é cultural. É um padrão de


comportamento. Em todas as classes sociais os homens batem
nas mulheres. O Pimenta6 não sabia que não podia matar a
Sandra Gomide? Ele fez isso porque passava fome quando era
pequeno ou porque apanhou dos pais? Não, fez isso porque
é machista. O Lindemberg é de uma classe social mais baixa e

6
A promotora se refere a dois crimes contra mulheres que tiveram grande repercussão
na mídia nacional. O primeiro deles é o caso de Antônio Marcos Pimenta Neves, que
em agosto de 2000, então diretor do jornal O Estado de S. Paulo, matou com dois tiros
a ex-namorada e também jornalista Sandra Gomide. O segundo, ocorrido em 2008, é
o da garota de 15 anos Eloá Pimentel, mantida em cárcere privado por quase 100 horas
nas mãos do namorado Lindemberg Alves, de 22 anos, e por ele em seguida assassinada.

137
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

matou a Eloá pelo mesmo motivo: ambos achavam que eram


donos delas.

Para a desembargadora Maria Berenice Dias (2007), o combate


à violência contra a mulher demanda que os agressores se conscien-
tizem de que é indevido seu agir, que a mulher não é um objeto de
sua propriedade, do qual podem dispor do modo que lhes aprouver
e descarregar em seu corpo as suas frustrações.
Na seção sobre a linguagem da violência, vimos que as mulhe-
res protagonizam, sim, as cenas de agressão com seus companhei-
ros, inclusive perpetrando contra eles várias ofensas, dentro de um
modo relacional perverso. Contudo, fazem-no de uma forma que
comunica sua desproporcional posição de poder na relação, tanto
que é nelas que se imprimem as provas contundentes dos delitos
atestados nos laudos médicos. Assim, as denúncias que, em geral,
acontecem no ápice dos conflitos, atendem à necessidade imediata
de fazer cessar a agressão e impedir danos maiores para as mulheres,
com risco até de morte. Como a intervenção aciona o maquinário
judicial, um processo penal tem início, de modo automático, e se-
guirá um curso burocrático natural, cujo desfecho, em geral, é o
arquivamento ou a suspensão.
Isso ocorre não por uma visão crítica sobre a necessidade de im-
pedir que homens pobres sejam punidos cruelmente pelo sistema
penal “subterrâneo”. Na realidade as autoridades não têm um posi-
cionamento claro sobre questões de punibilidade. O que se observa
é a permeabilidade de vários discursos, dentre eles o feminista e o da
igualdade de direitos, porém sem um engajamento mais concreto
com nenhum deles. O discurso dos Direitos Humanos, portanto,
estaria longe de amparar as decisões judiciais em Jaraguá e, assim, as
suspensões e arquivamentos revelariam antes o apego aos trâmites
processuais já estabelecidos e ritualizados, que uma consciente me-
dida jurídica em prol de uma causa social complexa, como o com-
bate à violência de gênero. Eximindo os acusados de qualquer pu-
nição, ou imputando-lhes proibições de frequentar bares, bordéis e

138
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

casa de jogos, como nas sentenças de suspensão, o Judiciário reforça


a manutenção dos papéis tradicionais de gênero, baseados na cul-
tura patriarcal, e machista, atribuindo-lhes força normativa. Essa
forma de agir acaba desqualificando as mulheres, submetendo-as a
retratações humilhantes, que as convertem em verdadeiras rés dos
crimes nos quais são vítimas. Sem propor qualquer pena alternativa
efetiva, com vistas à reeducação dos agressores, “o Judiciário, fica
numa posição de lavar as mãos para ver o que vai acontecer”, para
usar ainda as palavras da promotora Luiza Eluf.

139
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo sobre a invisibilidade da violência contra a mulher
nasceu de nossas inquietações diante dos argumentos de professo-
res, alunos, advogados, dentre outros indivíduos em Jaraguá, ne-
gando a existência de violência contra a mulher naquela cidade.
Preocupava-nos esse discurso que tornava invisível o fenômeno
da violência doméstica na cidade e que se contrapunha aos relatos
frequentes de alunas do curso de pedagogia (majoritariamente fre-
quentado por mulheres), perseguidas por seus companheiros, ten-
do às vezes que abandonar os estudos e fugir para livrar-se das cons-
tantes ameaças, além, é claro, das notícias veiculadas pela imprensa
local, retratando casos, às vezes extremos, de violência conjugal.
Assim, a partir do objetivo de descrever e interpretar o discurso
sobre a violência contra a mulher nos textos do sistema penal de
Jaraguá e nos discursos de seus agentes públicos, nos anos de 2007
e 2008, selecionamos autores que também estudaram a violência
contra a mulher pelo viés das relações de gênero. Na leitura de
obras clássicas e contemporâneas que tratam da questão da mulher,
em concomitância com o exame dos processos e conteúdo das en-
trevistas com os agentes públicos, obtivemos suporte para desven-
dar a violência de gênero no espaço doméstico da cidade, mesmo
que esse desvendamento não abarque a realidade como um todo.
O livro procurou, então, desvelar uma realidade que se encon-
trava escondida sob uma capa de invisibilidade e silenciamento,
mas que representa um problema concreto e de proporções bem
maiores do que se divulga. Ao descortinarmos todo um quadro so-
bre o fenômeno, a partir de registros do sistema penal, elucidamos
fatos codificados em textos jurídicos que se mantém fora do alcan-
ce da maioria das pessoas.
A principal contribuição desta obra, portanto, foi trazer ao
conhecimento público uma realidade social reservada à esfera pri-

141
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

vada, onde é exercida das mais diferentes formas e graus de intensi-


dade, sem ser denunciada tanto por vergonha, por medo ou mesmo
por que o dominado (vítima) incorporou os valores culturais do
dominante (agressor).
O acesso aos registros de toda a movimentação policial e do
Cartório do Crime, nos anos de 2007 e 2008, nos forneceu dados
para identificarmos o volume global de processos penais do municí-
pio e, particularmente, sobre aqueles enquadrados como violência
contra a mulher. Os números contrariaram a crença comum de que
o crime mais recorrente na cidade de Jaraguá era a falsificação de
roupas de grife e de que a violência doméstica era insignificante, ou
melhor, um fenômeno isolado e restrito a poucos grupos familiares
que sobrevivem à margem da sociedade. Os dados apontaram, ao
contrário, um alto índice dessa violência no município, sendo ela
responsável pelo segundo maior percentual de processos criminais
no Fórum, ficando atrás apenas das demandas relacionadas aos di-
ferentes tipos de furtos e roubos.
Já as entrevistas com os operadores do direito, agentes de saú-
de e profissionais da área médica realizadas com o objetivo de des-
crever e discutir seus discursos sobre a violência contra a mulher,
resultou em um conjunto de dados em que foram ouvidos juízes,
promotores, um comandante de Polícia, um delegado, profissio-
nais da área médica e agentes de saúde da rede pública. O foco ana-
lítico foi dado aos operadores do direito, embora os depoimentos
dos demais profissionais colaborem para os resultados, fornecendo
elementos para triangulação. Considerando-se a hipótese inicial, o
discurso dos agentes públicos ouvidos não expressa abertamente o
autoritarismo ou o machismo próprio da cultura coronelista ainda
recente, da qual a cidade é herdeira. Ao contrário, os profissionais
procuraram se vincular à defesa da igualdade de direitos e até a ide-
ais feministas que reivindicam maior rigor na condução de casos
de violência doméstica e a punição dos agressores. A permeabilida-
de de tais discursos em um contexto eminentemente conservador,
como a cidade de Jaraguá, surpreende à primeira vista. Contudo, o

142
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

exame da prática desses profissionais revela que a esse discurso se


sobrepõem ações meramente mecânicas e burocráticas, tornando
o plano retórico mais uma articulação ao “politicamente correto”
que uma manifestação de engajamento ideológico verdadeiro. Não
obstante, vínculos ao discurso machista foram detectados em al-
guns gêneros forenses, como termos de retração e alegações finais
e até em sentenças, nos quais os operadores apelam para a cultura
conservadora, para construir argumentos que reforçam os papéis
de gênero estabelecidos de forma assimétrica. Em um caso, flagra-
mos um exemplo descarado de deboche e desrespeito, que expressa
de forma evidente a banalização da violência contra a mulher.
O panorama delineado mostrou um quadro de violência do-
méstica muito alto e maciçamente ligado a conflitos conjugais.
Com exceção apenas do caso em que o filho agrediu a mãe, todos
os demais processos tratavam-se de crimes decorrentes de brigas
de casais. As cinco formas de violência previstas na Lei Maria da
Penha foram detectadas, sendo a física a mais denunciada. Em um
número mais reduzido de processos, ela se apresenta como o tipo
chamado “vias de fato”, que não provoca lesão. Contudo, a forma
de agressão mais recorrente é a chamada “agressão nua” ou “espan-
camento”, aquela em que se utiliza o próprio corpo para atingir a
vítima, o que inclui socos, pontapés, tapas, empurrões, enforca-
mento, mordida, arrastão do corpo da vítima pelo chão, etc. Tam-
bém são comuns as agressões “instrumentalizadas”, em que além
do corpo usam-se instrumentos como tijolos, latas, pedras, peda-
ços de madeira e tudo que estiver ao alcance para acertar a mulher.
Houve um registro menor de violência patrimonial, dirigida aos
bens da vítima. As agressões físicas são sempre permeadas por uma
violência psicológica e moral, em que prevalecem os xingamentos,
desmoralizações e ameaças. Por essas últimas, os homens impin-
gem o medo em toda a família e principalmente nas companhei-
ras, afirmando que vão matá-las com tiros e, às vezes, reforçam a
crueldade com alegações do tipo vão “cortá-las ao meio, começan-
do pela vagina”, ou vão “arrancar-lhes os dentes até estrebucharem

143
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

no chão” e, em certos casos ameaçam de morte os próprios filhos.


A violência sexual ocorre nos casos de estupro e atentado violen-
to ao pudor, que não puderam ser acessados por correrem em se-
gredo de justiça, mas foram levantados e formam um percentual
também expressivo. As causas alegadas apontam para o ciúme e
o alcoolismo como principais motivos para as brigas, contudo, o
determinante é uma prática de maus-tratos e desrespeito à mulher,
ditada por uma cultura machista.
Na perspectiva de detectar os mecanismos usados nas repre-
sentações dessa violência pelos agentes públicos e pelos próprios
protagonistas dos fatos nos textos jurídicos, analisamos as repre-
sentações feitas pelo judiciário nos casos em que ocorrem confli-
tos de gênero. Nossas reflexões partiram do confronto de papéis e
performances registrados a partir dos relatos dos protagonistas das
cenas de violência. Tomamos cuidado para não resvalarmos para
uma perspectiva vitimista, na qual especialmente as mulheres são
tratadas sob concepções de passividade e imobilismo, observamos
as estratégias de representação que vítimas e agressores fazem do
conflito, segundo os papéis que estes tomam para si mesmos e para
seus companheiros e companheiras. Os resultados mostram que
homens e mulheres praticam e conferem significado à violência
de formas bem específicas e também assimétricas. Os homens, de
maneira contundente e aberta, por ofensas, ameaças, vias de fato
e espancamentos. As mulheres, complexamente, usam chantagem,
cobrança, desmoralização, procuram atingir a moral do compa-
nheiro dizendo que ele “não é homem”, ou ainda, embora com me-
nos frequência, chegam às vias de fato e até armam-se em situações
de autodefesa. Essas performances reproduzem as assimetrias de
poder presentes nas relações entre homens e mulheres, de forma
que a violência empreendida por elas contra seus companheiros ra-
ramente atinge as proporções da que é perpetrada por eles contra
as mesmas. A maior vulnerabilidade da mulher fica evidente nos
laudos dos exames de corpo de delito, que denotam uma violên-
cia simbólica ainda maior. Os operadores do direito, por sua vez,

144
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

promovem uma representação sob noções de conjugalidade con-


cebidas segundo os tradicionais papéis do gênero masculino e fe-
minino, quais sejam, liberdade, poder, dominação, força, violência
e superioridade, em relação ao primeiro, e submissão, passividade,
fraqueza e inferioridade, em relação ao último. Essa representação é
feita com estruturas textuais típicas do Direito, expressas em um lé-
xico próprio dos discursos conservadores e em sequências formais
e estereotipadas, cujo efeito é um distanciamento da realidade,
tornando-a meramente conceitual.
Para conhecer no âmbito dos discursos as formas encontradas
para ocultar a violência ou torná-la insignificante, analisamos as es-
tratégias de representação dos protagonistas nas cenas de agressão
e nessas mesmas estratégias no discurso dos operadores do direi-
to em textos sobre os conflitos. Com relação aos primeiros, ficou
evidente que homens e mulheres procuram diminuir sua agência
agressiva e articulam uma narrativa de acusação do parceiro. As
táticas das mulheres para destacar seu papel de vítima passiva são
apagamentos de suas ações agressivas nas cenas. Já os homens, além
dos apagamentos, ainda negam sua responsabilidade pelas marcas
impressas nos corpos de suas vítimas; acusam-nas de terem elas
próprias se machucado em momentos de descontrole ou alegam
esquecimento, usando o álcool como justificativa. Quanto aos ope-
radores, demonstramos que seus textos, com exceção dos Termos
de depoimento, apagam a história de violência, com seu enredo e
cenário e, principalmente, seus atores, a quem é dada pouca ou ne-
nhuma visibilidade. Os gêneros argumentativos incluem um con-
tingente de atores sociais, a quem é dado todo um destaque, sendo
alguns deles nomeados e até honorificados, enquanto desaparecem
completamente os próprios protagonistas. Nessa medida, a violên-
cia é mais uma vez representada nos moldes de uma razão jurídica
autônoma, desconectada da realidade social.
Os processos penais que forneceram os dados para análise so-
bre a violência nas relações de gênero, no contexto dessa cidade do
interior do Brasil, expressam uma realidade social a partir dos dis-

145
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

cursos próprios de um sistema que, por sua vez, é o agente público


responsável pelo seu combate. Ao acessarmos o conjunto de textos
que constituiu nosso corpus, e ao observarmos e entrevistarmos os
agentes públicos que os dominam, foi possível trazer para o conhe-
cimento público vários aspectos dessa violência velada, tanto sobre
as cenas em que ela é performada (com as ações de seus protago-
nistas) quanto sobre as concepções que permeiam e subjazem as
performances dos agentes públicos que dela se ocupam.
Ao longo das análises, os valores e prerrogativas culturais que
definem os tradicionais papéis do gênero foram se tornando cada
vez mais evidentes. Essas prerrogativas são promovidas no senso
comum em ditos populares, como “mulher é que nem bife, quanto
mais se bate, mais macio fica”, que a regulam e a protegem, como
no também recorrente: “em briga de marido e mulher não se mete
a colher”. As ocorrências policiais e os processos penais gerados a
partir de denúncias dessas “brigas” são dados oficiais dessa realida-
de que não chegam a representá-la no todo, mas que a registram,
fornecendo informações sobre um fenômeno silenciado.
Tal fenômeno representa uma ofensa direita ao ideal igualitário
almejado pelas sociedades modernas. Sobre a questão, a pesquisa
mostrou que, no plano privado, uma ofensa concreta a esse ideal
é expressa na nítida desproporção de forças entre homens e mu-
lheres, com o prejuízo destas, vítimas mais fatais de toda sorte de
imposições, arbitrariedades e agressões de seus parceiros. Embora
essa violência seja relacional, e as mulheres também desempenhem
um papel ativo dentro dela, fazem-no de forma que comunica va-
lores machistas vigentes na estrutura social em que elas se inserem
e praticam a partir de uma posição inferiorizada. Nesse sentido,
tanto os xingamentos quanto as demais performances violentas que
foram identificadas neste estudo são signos de uma linguagem co-
ercitiva usada pelos casais na disputa do poder na relação, mas que
resulta em última instância no cerceamento da liberdade feminina,
em detrimento do exercício ativo e brutal dos desejos de uma mas-
culinidade hegemônica. Essa linguagem ainda informa uma con-

146
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

cepção amorosa inspirada em modelos masculinos e femininos que


reservam aos homens o amor pelos jogos de poder, e às mulheres o
amor pelos homens que jogam, como observou Bourdieu (1999).
O número crescente de mulheres que recorrem à justiça contra
a violência dos parceiros sinaliza uma proporcional busca destas
por seus direitos legais. Contudo, a resposta do judiciário às mu-
lheres nas ações por elas movidas segue os mesmos moldes de seu
caráter conservador e distanciado, que resulta em uma abordagem
do problema sem nenhum comprometimento com as causas hu-
manitárias que o cercam. Sob uma pretensa imparcialidade, o siste-
ma acaba por promover arquivamentos e suspensões, extinguindo
a punibilidade dos réus. Proporcionalmente, expõe as mulheres a
retratações humilhantes, que as tornam verdadeiras rés nos crimes
de que foram vítimas. Nesse quadro, o discurso jurídico alinha-se
de várias formas ao domínio tradicional patriarcal, redobrando a
força normativa deste, com vínculos bastante imprecisos àquele
ideal igualitário que, supostamente, deveria garantir.
Isso deriva do apego dos operadores do direito à cultura tradicio-
nal, que influi na sua falta de posicionamento claro sobre questões
de punibilidade. Embora se observe que há uma permeabilidade do
discurso feminista e o da igualdade de direitos, nas entrevistas dos
agentes públicos, os ideais reivindicados pelos Direitos Humanos
estão longe de amparar as decisões judiciais em Jaraguá. E, assim, as
suspensões e arquivamentos revelariam antes o apego aos trâmites
processuais já estabelecidos e ritualizados, que uma consciente me-
dida jurídica em prol de uma causa social complexa. Falta, portanto,
a esse sistema, uma tomada de posição mais objetiva sobre um fenô-
meno cujas proporções e características não permitem que ele seja
tratado como uma simples querela entre casais.
De modo geral, atentamos para o fato de que os processos de
violência “contra a mulher” por nós investigados, narram situações
comuns às mulheres casadas (ou vivendo união estável), no interior
de uma cidade brasileira, totalmente integrada aos “progressos” da
modernidade ocidental, em pleno século XXI. Os absurdos ainda

147
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

vividos por essas mulheres nos remetem às reflexões feitas por Si-
mone de Beauvoir (2009), na obra O segundo sexo, escrito na pri-
meira metade do século XX. A leitura dessa obra nos faz pensar
que em relação à condição das mulheres casadas pouca coisa mu-
dou. Na época em que se dedicou a pensar sobre a mulher, Beau-
voir, acreditava que, ao se casar, a mulher recebia como feudo uma
parcela do mundo; garantias legais a protegiam contra os caprichos
do homem; mas em contrapartida ela tornava-se vassala dele.
Para a autora, a razão dessa enorme sujeição da mulher casa-
da ao marido estava relacionada, principalmente, ao fato de que,
economicamente, ele era o chefe da família. Ela deveria, então, a
partir do casamento, tomar-lhe o nome, integrar-se ao seu meio,
seguir para onde o trabalho dele a chamasse; era essencialmente de
acordo com o lugar em que ele trabalhava que se fixava o domicílio
conjugal. Além disso, com o casamento, a mulher deveria oferecer
ao marido sua virgindade e uma fidelidade rigorosa.
Aparentemente tudo mudou. No Brasil, a decisão de adotar o
nome do marido depois de casada é opcional; as responsabilida-
des com as despesas domésticas recaem sobre ambos, isso deveria
significar que não existem mais “chefes”, e que o casamento atual
é constituído sob bases igualitárias. No que se refere ao adultério,
a lei que previa a punição dos adúlteros, mas que punia apenas as
mulheres, foi revogada. Agora, os homens não podem mais contar
com a prerrogativa de eliminar suas esposas e simplesmente justifi-
car seu crime em nome de uma abstrata “defesa da honra”.
Todavia, a leitura dos processos deixa evidente a continuidade
da submissão das mulheres em relação ao homem, mesmo que essa
submissão seja garantida por meio de muita agressão física e moral.
O trabalho remunerado e a divisão das despesas domésticas não
livraram as mulheres de um cotidiano impregnado de violência.
Muitas vezes as mudanças ocorrem somente no âmbito dos dis-
cursos, dos códigos e das aparências. A realidade concreta que nos
foi possível verificar nos fragmentos descritos nos processos sobre
a vida das mulheres que denunciaram seus maridos, aponta para

148
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

situações bárbaras e cruéis que, exceto pela liberdade que gozam


devido à codificação do espaço familiar, garantido pela atual legis-
lação brasileira7, no que se refere aos costumes, a sociedade ainda
confere aos homens uma grande autoridade. Essa autoridade para
exigir a submissão da mulher em algumas narrativas dos processos
aparece de forma bastante evidente. Ilustra essa situação a narrativa
apresentada no processo 2007.043.465.96: o marido é professor de
educação física e a mulher é costureira, ele chega em casa, sábado
à noite, embriagado e brigando porque a mulher não havia feito o
jantar. Ora, se existisse igualdade, a esposa teria o mesmo direito que
o marido teve de se divertir no sábado ao invés de cozinhar, cuidar
do filho e da casa, ou melhor, essas obrigações seriam dos dois.
Mesmo estando na rua, provavelmente com os amigos, beben-
do e se divertindo, é a mulher quem sofre as acusações de “sair”
com outros homens. O suposto não cumprimento de todas as obri-
gações domésticas é o suficiente para que ela seja “suspeita” de uma
conduta moral desviante. Na verdade, as ações desse homem não
são isoladas, destituídas de sentido. Sua cobrança para que a mulher
cumpra com “suas obrigações” faz parte de seus valores em relação
ao modelo de mulher construído socialmente em nosso país. Se-
gundo Rago (1985), este modelo normativo de mulher, elaborado
desde meados do século XIX, pregou formas de comportamento e
de etiqueta que exaltavam as virtudes burguesas de labor, castidade
e esforço individual. Por caminhos sinuosos se forjou, então, uma
representação simbólica da mulher, a esposa-mãe-dona-de-casa,
afetiva mais assexuada, no momento mesmo em que as novas exi-
gências da crescente urbanização e do desenvolvimento comercial e

7
Ao contrário do Código Penal de 1940, que tipificava o adultério como crime, acar-
retando o direito do marido matar tanto a esposa como o suposto amante em “legiti-
ma defesa da honra”, na atual legislação brasileira não há ofensa à honra. O adultério
não coloca o marido ofendido em estado de legítima defesa (Artigo 25 do Código
Penal). Além disso, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06), possibilita à vitima a con-
cessão pelo Juiz de medidas protetivas de urgência, também proibiu no caso do agres-
sor penas pecuniárias.

149
Lúcia Freitas & Veralúcia Pinheiro

industrial que ocorriam nos principais centros do país solicitavam


sua presença no espaço público, já que o mundo do trabalho não
poderia prescindir de sua mão de obra.
No entanto, explica a autora, essa invasão do cenário urbano
pelas mulheres, não representou um abrandamento das exigências
morais. Ao contrário, quanto mais ela escapava da esfera privada da
vida doméstica, mais a sociedade lançava sobre seus ombros a mal-
dição do pecado, o sentimento de culpa diante do abandono do lar,
dos filhos carentes, do marido, que ao chegar cansado do trabalho,
nem sempre encontrava as coisas em seus devidos lugares.
Os sentimentos dúbios entre a necessidade de trabalhar para
contribuir com o sustento da família conviveram e ainda convivem
com um eterno sentimento de culpa da mulher por não atender a
todas as demandas do lar. O ideal feminino de mãe, vigilante do lar,
foi construído paulatinamente ao longo do tempo e incorporado
pelo modo de pensar das próprias mulheres. Talvez isso nos ajude a
entender a condescendência de muitas mulheres frente à violência
de seus companheiros, como por exemplo, a assinatura do “Termo
de retratação” nos processos. Por não corresponderem ao modelo
dominante de mulher, muitas vezes, ela acredita que, ao menos par-
cialmente, foi responsável pelas ações agressivas do marido.
Esse modelo de mulher, simbolizado pela mãe devotada e vol-
tada para o sacrifício, significa uma desvalorização em todos os âm-
bitos da vida, pessoal, profissional e intelectual. Essa desvalorização
é imensa porque parte do pressuposto de que a mulher em si não
é nada, de que deve esquecer-se de si mesma e realizar-se por meio
dos êxitos dos filhos e do marido. O rompimento com valores dessa
natureza pressupõe mudanças profundas. Nesse contexto, embora
importante, o aparato legal é apenas um dos lados da moeda. Além
dela, as mudanças devem atingir os valores inculcados desde muito
cedo nos indivíduos por meio da socialização que se realiza no am-
biente familiar, na escola, dentre outros espaços sociais.
Por fim, enfatizamos a necessidade de contribuirmos para a
construção de uma sociedade não violenta e, nesse contexto, pa-

150
Violência de Gênero, Linguagem e Direito

pel de professores e pesquisadores ocupa posição central. É preciso


transformar nossa indignação em luta, e lutar significa conhecer
profundamente as diferentes formas de manifestação da violên-
cia, buscando desvelar os diferentes subterfúgios elaborados com a
intenção de banalizá-la, tal como verificamos nos casos analisados
nesta obra. Desse modo, lembrando Hanna Arendt, não podemos
nos resignar à falsa ideia de que somos “todos violentos” ou que a
violência está em todos nós. A consequência social desse argumen-
to nos tornaria predispostos a fazer do comportamento violento
uma reação “natural”, inevitável. Daí a importância da autonomia
como projeto social, voltada para o desenvolvimento de novas for-
mas de lutas contra a violência que vão além das instituições buro-
cráticas. Nesse projeto de autonomia social e individual é preciso
tecer cotidianamente espaço para o agir reflexivo e lúcido, para en-
tão romper com os valores e preconceitos que levam o indivíduo,
principalmente a mulher, a agir como um autômato e não como
“sujeito de sua história”.

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Título Violência de Gênero, Linguagem e Direito:
Análise de Discurso Crítica em Processos
na Lei Maria da Penha
Autoras Lúcia Freitas
Veralúcia Pinheiro
Coordenação Editorial Kátia Ayache
Capa André Fonseca
Projeto Gráfico Bruna Feco
Preparação Vinícius Whitehead Merli
Revisão Nara Dias
Formato 14 x 21 cm
Número de Páginas 164
Tipografia Garamond Premier Pro
Papel Alta Alvura Alcalino 75g/m2
Impressão Prol Gráfica
1ª Edição Janeiro de 2013
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