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Cubismo, Picasso e “Guernica”

Estamos no ano de 1900, em França, presenciamos uma época de novas invenções


e descobertas científicas e promissoras. Picasso, já com 26 anos, resolveu visitar um museu
etnográfico em Paris e experienciou uma sensação de revelação com as máscaras africanas
que lá tinha observado. Esse impacto deu origem a um dos primeiros quadros do cubismo,
“Les Demoiselles d’ Avignon”.
“As Senhoras de Avignon” não foi inicialmente aceite, sendo bastante controverso
mas foi este quadro que contribui para as primeiras reformulações nos ideais de beleza. O
francês Georges Braque ficou estupefacto com o quadro, tanto que, os dois (Picasso e
Braque) uniram-se e decidiram que iam mudar a arte tal como era conhecida.
Tornaram-se os dois os principais fundadores do Cubismo. Os quadros pintados eram
caracterizados por ter diferentes perspectivas ao mesmo tempo, em vez de uma posição
estática e linear. Ao romper a perspetiva foi permitida uma maior abstração sobre os
atributos estéticos da obra, ao mesmo tempo que se recusava a ideia de arte como
pura imitação da natureza. Facto que até Georges Braque chegou a comentar afirmando
que “Não se imita aquilo que se quer criar”. É também de notar que este estilo abandonava
distinções de formas e qualquer tipo de noção de profundidade.
O crítico Louis Vauxcelles ao observar o quadro de Braque “Casas em Estaca”
utilizou o termo “bizarrias cúbicas”, devido ao seu aspeto fragmentado e abstrato. A origem
do nome vem precisamente desse comentário feito em 1908.
O cubismo era oficial, o termo espalhou-se e é evidente o estilo nas obras de Picasso
sendo o quadro “Cabeça”(1913) conhecido como sendo a sua colagem cubista
mais abstrata. O meio cŕculo desenhado a carvão representa o perfil da cabeça, este
pequeno círculo juntamente com o que parece ser uma seta representa um olho e um nariz.
O resto destas colagens simulam o cabelo e o pescoço.
Anos mais tarde, artistas por todo o mundo seguiram as pegadas de Picasso, como
por exemplo, Robert Delaunay, William Crozier, e Fernand Léger.
A formação de movimentos como Construtivismo(Russia), Futurismo(Itália),
Expressionismo(Alemanha) e Vorticismo(Reino Unido) são derivadas do cubismo.
É de notar que o cubismo não evoluiu todo de uma só vez. Existiram uma série de
sub-fases como o cubismo analítico. Podemos analisar isto verificando dois quadros, ambos
de Picasso, relacionados com o mesmo tema, um guitarrista. A pintura da esquerda foi feita
no período azul de Picasso enquanto que a do lado direito foi já feita nos últimos momentos
do cubismo analítico. A segunda foto aparece cortada em diversos planos, formando uma
imagem irreconhecível.
De acordo com Picasso este tipo de representação permitia ao observador ficar a
conhecer todos os detalhes do que estava a ser pintado. O uso de cor também era reduzido
visto que a intenção do cubismo era analisar as formas e não as cores do objeto.

Estava Picasso no auge da sua carreira quando no dia 26 de abril de 1937, forças
nazistas bombardearam uma vila no norte de Espanha chamada Guernica. As vítimas eram
incontáveis. Foi um dos piores momentos da guerra civil espanhola. Para Picasso a tragédia
na altura despertou-lhe a atenção, levando-o a produzir um enorme mural anti-guerra que
lhe chamou Guernica.
A pintura em si é um trabalho de grande documentação histórica e um protesto
político. Apesar de as intenções de Picasso ao pintar a obra serem claras, o simbolismo da
mesma pode ser tão confuso e caótico como a própria guerra.
Como é possível entender esta imagem e oque exatamente a torna uma obra prima
da arte cubista? A pintura em si é bastante confusa desde o princípio. O cubismo já era
considerado chocante (por exemplo nas pinturas com nudez), mas neste contexto o estilo
oferece uma profunda visão de guerra, violência e destruição. As perspetivas múltiplas
servem todas para demonstrar unicamente o horror do cenário, levando os olhos do
observador numa busca intensiva por paz, paz essa falhada visto por onde quer que ele olhe
apenas é visível a destruição.
No lado esquerdo uma mulher grita enquanto segura o seu filho morto. Os seus olhos
virados do avesso parecem lágrimas e a posição da cabeça procura uma saída da situação.
Mesmo ao lado, no lado direito há uma estátua de um soldado que é impossibilitado de
defender a mãe e o seu filho. O seu corpo encontra-se despedaçado. O seu braço segura
uma espada partida, sinal de derrota.
A ponta da espada encontra-se com o pé de uma mulher que tenta fugir da
devastação, mas a perna dela encontra-se presa no canto da pintura. Mesmo com a perna
esticada, a mesma não se consegue mexer.
Outra vítima aparece lá atrás, a gritar, encontrando-se rodeada de chamas. Cada
uma destas figuras está permanentemente presa, dando a sensação de uma certa
claustrofobia.
E quando se espera que o tamanho da pintura seja contrário aos sentimentos da
mesma, o quadro está numa escala massiva.
Uma vela é segurada por uma mulher fantasma à beira da sua janela. Será esta luz
a representação de uma certa esperança? Ou é apenas uma simples luz, que representa as
tecnologias da guerra moderna, iluminando ainda mais o caos que se encontra abaixo dela.
O seu braço guia o observador para os mais controversos símbolos da pintura.
Dois animais fantasmas apanhados no meio da destruição. Será o cavalo a gritar a
representação da ameaça do general Nacionalista Francisco Franco ou o será que o pedaço
de metal enfiado no seu corpo representa a sua vitimização como animal que estava no local
errado à hora errada, acabando por morrer pelo caos do homem?
Será que o touro branco representa Espanha? País de matadouros e tema comum
nos trabalhos de Picasso?Também não sabemos se o touro pode representar ao mesmo
tempo uma figura forte e bem formada ou uma vítima repreendida pelo poder do homem.
Nesta cena estes animais fazem-nos mais perguntas do que respostas, juntamente
com os pequenos objetos representados atrás, trazendo mais segredos para os
observadores. Podemos até dizer que quanto mais perto olhamos menos vemos. Exemplo é
o passáro no canto superior direito, que também tenta desesperadamente fugir. A
quantidade de animais na pintura também pode coincidir com o facto de ser um dia de
mercado quando ocorreu o bombardeamento.
Por último mas não menos importante, gostaria de abordar a situação da porta,
situada no lado direito que a mim particularmente me despertou a atenção. Na minha opinião
a porta representa oque pode ser um refúgio para as pessoas da pintura escaparem do
terror, por outro lado, o facto de a porta estar aberta quase encostada, demonstra o quão
fácil é fechar a porta. Sendo assim penso que Picasso queria transmitir que se não for feito
algo rápido para guerras e situações como a de Guernica, então a porta fechará e a
esperança estará para sempre perdida.
Tal como as bombas em Guernica, o trabalho de Picasso representa a densidade da
destruição escondida por detrás de todo o caos e símbolos, fazendo um ataque ao fascismo.
Escolhi esta pintura porque mesmo depois de Picasso morrer (1973), décadas depois
da criação, Guernica (situada no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia) retém o seu
poder de chocar os espectadores num debate consigo próprios, sendo ainda hoje uma
referência de protestos anti guerra por todo o mundo. Apesar de a mesma ter sido
vandalizada com tinta vermelha em 1974. Muitos conhecem esta obra de arte, mas não se
dão ao trabalho de perceber realmente o seu significado.
Além de que podemos dizer que o que torna esta pintura tão poderosa é o seu
simbolismo e a sua complexa mensagem política. Além de que, mesmo não compreendendo
o verdadeiro significado da pintura cubista, "Guernica" continua a ser uma lembrança das
verdadeiras causalidades das guerras.
Francisco Laranjo, nº11, 11ºB

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