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Aimée de Lacan

Algo sobre Jacques Lacan

Jacques Marie Émile Lacan nasceu em Paris, França, em 13 de abril de 1901,


filho de Alfred Lacan e Emilie Baudry, pertencentes à grande burguesia. Após
os estudos iniciais e secundários no Colégio Stanislas, de direção jesuíta muito
rígida, entra na Faculdade de Medicina, em 1919, especializando-se em
psiquiatria sob a direção de G. de Clérambault.

Em 1920 inicia uma convivência com artistas surrealistas (Eluard, Dali, Bataille,
Malraux, Barrault principalmente). Entre 1929 e 1932 começa a escrever
alguns textos pré-psicanalíticos, incluindo uma monografia, que apresentou em
1931 (“O caso Aimée”) e sua tese de doutorado: “Da psicose paranoica em
suas relações com a personalidade” em 1932. Neste ano encontrava-se
envolvido com as Sociedades de Neurologia, de Psiquiatria e a de Saúde
Mental, além de ter conhecimento dos trabalhos de Freud, com o qual nunca se
encontrou, sendo influenciado pelos textos: “A psicopatologia da vida cotidiana”
(1901), “A interpretação dos sonhos” (1900) e “Os chistes e sua relação com o
inconsciente” (1905). Passou a empregar as terminologias teóricas de
Ferdinand Saussure – significado e significante – para evidenciar o papel
preponderante da linguagem, mediante a fala, à Psicanálise e iniciou sua
análise com Rudolph Loewenstein por cerca de seis anos.

Em 29 de janeiro de 1934 casa-se com Marie-Louise Blondin, tendo três filhos:


Caroline, Thibaul e Sibylle e em 20 de novembro é admitido como membro
aderente da Sociedade Psicanalítica de Paris.

Em 1936 apresenta uma comunicação sobre “O estádio do espelho” em


congresso da Associação Internacional de Psicanálise (IPA) em Marienbad e
inicia sua clínica particular. Em 1938 termina sua análise com Loewenstein e
torna-se membro da Sociedade Psicanalista de Paris (SPP).
Em 1941 se muda para a rua de Lille, número 5, onde mora e pratica a
psicanálise até sua morte (9 de setembro de 1981); divorcia-se de Blondin e
nasce Judith, sua filha com Sylvia Maklès-Bataille. Em 1950 realiza dois
seminários, desde então estenografados, em sua casa, iniciando o projeto de
retorno aos textos freudianos.

A intenção teórica confessa de Lacan, a partir de pelo menos 1953, era a


tentativa de reformalizar que ele chamou de "o campo freudiano". O corpo
substancial de escritos, palestras e seminários pode se lido como uma tentativa
de unificar e retificar quais são as quatro aspirações da interligação de escritos
teóricos de Freud:

1) uma teoria da prática psicanalítica como um procedimento curativo;

2) a geração de uma metapsicologia sistemática capaz de fornecer a base para

3) a formalização de uma heurística de diagnóstico de doença mental, e

4) a construção de um relato do desenvolvimento "civilizado" da psique


humana.

Lacan trouxe a este projeto, no entanto, um conhecimento profundo sobre os


últimos desenvolvimentos nas ciências humanas, atraindo especialmente na
linguística estruturalista (Saussure), a antropologia estrutural de Claude Lévi-
Strauss, topologia e teoria dos jogos. Além disso, como Jacques Derrida
observou, a obra de Lacan é caracterizada por um envolvimento com a filosofia
moderna (notadamente Descartes, Kant, Hegel, Heidegger e Sartre) de outros
teóricos da psicanálise, especialmente informados por sua participação em
cursos extremamente influentes de Paris do André Kojève sobre Hegel (1933-
1939).

O livro “Escritos”, reunião de seus artigos, comunicações e conferências


realizadas entre 1936 e 1966 foi publicado em 1966. Em outubro de 1967
apresenta um novo dispositivo para substituir a análise didata (adotada pela
IPA), o ato analítico “passe”: “O psicanalista só pode se autorizar por si
mesmo”.

Seus seminários ocorreram por dez anos no anfiteatro do Hospital Sainte-


Anne, após ser impedido de exercer suas funções de psicanalista didata pela
IPA (1963), passaram a ser na Escola Normal Superior e a partir de 26 de
novembro de 1969 realizava-os na Faculdade de Direito da Sorbonne (Paris
VIII), às quartas-feiras, de meio dia às catorze horas, quinzenalmente,
integrando as atividades da Escola Prática de Estudos Superiores.

A publicação dos “Seminários” começa em 1973, sob a coordenação de


Jacques-Alain Miller, marido de sua filha Judith. Em 1980 dissolve a Escola
Freudiana de Psicanálise (EFP) fundada em 1964 e cria a Escola da Causa
Freudiana.

Seria justo dizer que há poucos pensadores do século XX, que tiveram uma
influência tão profunda sobre a vida intelectual na área de humanas como
Jacques Lacan. “Voltar para o significado de Freud" mudou profundamente a
face institucional do movimento psicanalítico internacional. Seus seminários na
década de 1950 eram ambientes de formação de moeda de ideias filosóficas
que dominaram as letras francesas nos anos 1960 e que veio a ser conhecido
no mundo ocidental como "pós-estruturalismo".

Tanto dentro como fora da França, a obra de Lacan também foi profundamente
importante nas áreas de estética, crítica literária e teoria do cinema. Através do
trabalho de Louis Althusser Pierre (e mais recentemente Ernesto Laclau, Jannis
Stavrokakis e Slavoj Zizek), a teoria lacaniana também deixou sua marca na
teoria política e, particularmente, a análise da ideologia e da reprodução
institucional. Produziu mais de 270 trabalhos entre cartas, reflexões,
discussões, seminários, palestras, comunicações, mensagens e discursos.

A Aimée de Lacan
Marguerite Anzieu é Aimée (amada), personagem central da tese de doutorado
de Jacques Lacan, trabalho sob o signo do três: alguém, uma obra e um
protagonista que é um novo ser, real, mas com uma pitada de ficção e se
produz com a intervenção de um quarto, o secretário. Assim como ocorreu com
Sergei Pankeieff, eternizado como o “Homem dos lobos”, de Freud, é criado
um ser composto que conquista um lugar particular dentre o saber universal,
retornando sobre o original mudando seu destino.

Nessa obra, o secretário é um psiquiatra e o personagem um caso clínico. O


protagonista tem dois nomes: “Margarida Amada”, seu destino e de seu
secretário se entrelaçam quando a obra se inscreve na trajetória de cada um
com efeitos determinantes. O secretário não visa à produção de um nó na
escrita, pois aparentemente já foi produzido por outros meios. Aimée encontra
Lacan “já curada”, então o secretário só entra em cena após sua estabilização
e ela parece nada dever a uma costura, uma escrita, mas a uma violenta
passagem ao ato.

Como um caso psiquiátrico, a história se constrói com base em “evidências”,


fatos públicos, objetivos, de fontes universais e socialmente compartilhadas,
por exemplo o “Le Petit Journal”. Aimée é presa após atacar com uma faca,
Huguette ex-Duflos, atriz de sucesso à época, na saída do teatro em que
trabalhava. Para Aimée, Huguette fazia parte de uma rede de perseguidores,
pois Pierre Benoit, autor dessas peças estaria inserindo passagens de sua vida
e a atriz as encenava dando-lhes conotações vulgares. A rede além de tentar
ridicularizá-la ainda queria matar seu filho pequeno (Didier). Matar ou ferir a
atriz seria um aviso à rede, demonstrando que nem ela nem seu filho estariam
indefesos.

O delírio sistematizado e o comportamento instável e agressivo de Aimée


justificariam a passagem ao ato, já que a atriz ocupava papel central na rede
de ideias delirantes de megalomania e perseguição.
Aimée é transferida para o Hospital Sainte-Anne, o grande hospital psiquiátrico
de Paris, onde Lacan tornou-se o psiquiatra do caso. È relevante esclarecer
que cerca de três semanas após o ataque, o delírio abandonou Marguerite e
chorando afirmava ter realizado que a atriz nada tinha a ver com seus
problemas.

Lacan a encontrou e colocou em ação o que viria a definir como “tomar o


psicótico ao pé da letra”. Em suas conversas “falavam de tudo e de nada”,
sendo seu método: tudo é bom, tudo pode servir.

Quem era Marguerite

Marguerite era a terceira filha de René e Jeanne, tendo também três irmãos
mais novos. Criada numa fazenda do interior (Cantal), não era a única
Margarida, pois recebeu o nome da primogênita morta aos cinco anos após
uma queimadura acidental. A mãe coloca também seu nome chamando-a de
Marguerite Jeanne e é ela mesma psicótica, levando Elisa, a irmã mais velha, a
ter de cuidar de Marguerite.

Aos vinte anos, Marguerite torna-se funcionária dos correios numa cidade do
interior. Muda-se para Melun e se casa aos vinte e sete anos. Aos vinte e nove
se reconhece no livro de Pierre Benoit, L’atlantide. Suas ideias delirantes têm
início durante a gravidez de uma menina aos trinta e um anos, mas aborta-a.
Dois anos mais tarde nasce Didier, mas não consegue cuidar dele sozinha e
Elisa passa a fazê-lo. Ainda nos correios, foge e é internada a pedido do
marido. Retorna para casa e permanece ali até seus trinta e cinco anos. Vai
trabalhar e morar em Paris sozinha, visitando o filho e sua casa regularmente,
mas aos poucos vai cada vez menos.

Procura Benoit e o interpela sobre o papel de Duflos. Após dois anos, “lê num
jornal” que um de seus perseguidores vai matar seu filho. Abandona as férias
em família e dedica-se a atividades intelectuais. Escreve o romance Detrator,
oferecendo à editora Flamarion, redige muitas cartas e um segundo romance
Sauf votre respect.
Divorcia-se e foge com o filho por causa do perigo que estaria correndo. É
presa aos quarenta e um anos, em 18 de abril de 1931, após tentar esfaquear
Huguette ex-Duflos. Em junho é transferida para Sainte-Anne e seis anos
depois vai para Ville Evrard, sua mãe falece no ano seguinte e pela primeira
vez pede alta, tinha cinquenta e três anos. Começa a trabalhar como
empregada doméstica. Durante dois anos ela será governanta de Alfred Lacan,
pai de Lacan que se surpreende ao encontra-la numa visita ao pai. Nessa
época, conta ao filho que ela é a Aimée de Lacan, o qual o questiona porque
não lhe havia contado visto que era seu analista e o saberia durante a análise,
interrompendo-a então. No fim deste ano Lacan realiza a conferência: o
Simbólico, o Imaginário e o Real (SIR) em que lança seus três registros.

A escrita do delírio, como escrita da metáfora delirante, funda-se em um


“querem matar meu filho” e “estão me ridicularizando” que produzem um
mundo de articulações e uma rede ilimitada de significações. Existe dificuldade
para assumir que o sentido delirante, sozinho seja o bastante para justificar o
ato. Seus efeitos e repercussões subjetivas vão além de um “eliminei meu
inimigo”. Lacan insere o trabalho do delírio na personalidade como um todo,
que inclui as relações sociais e históricas para demonstrar, neste contexto mais
amplo e consistente, como o ato se justifica não apenas como ataque contra a
perseguidora, mas como um ato de violência contra ela mesma. Para Lacan, é
impossível tomar o delírio como um fragmento isolado da personalidade e é
impossível tomar o ato como uma agressão imaginária incidindo sobre sujeitos
reais.

Atacando Huguette ex-Duflos, disse Lacan, Marguerite se atinge, o que o leva


a denominar a paranoia de Aimée de autopunição. Desta forma, dá conta da
“cura” em dois tempos: “com um só golpe que a torna culpada perante a lei,
Aimée se golpeia e quando ela o compreende, experimenta a satisfação do
desejo realizado: o delírio se torna inútil, desaparece”.

Ele considera que com a passagem ao ato ela conseguiu ferir-se então, “ela
experimenta o alívio afetivo e a queda brusca do delírio”. A perda do filho será
a localização de um furo e o filho, Lacan passará a chamar de objeto a, o bem
mais precioso e ao mesmo tempo obrigatoriamente resto (algo que se deve
perder, deixar cair, para que se possa viver).

No ato há um após. Nele, “o sujeito reencontra sua presença renovada”. Talvez


somente depois do reconhecimento pelo Outro é que um ato se distingue
realmente de uma passagem ao ato. É o que Aimée obteve. Um lugar no Outro
para suas letras e um enlace entre elas que seja rocha e furo, uma escrita da
vida que faça um texto aberto a infinitas leituras e ao mesmo tempo fixo em
suas coordenadas de base. Nada muito distante da doce e quotidiana agonia
de todos nós.

Referências

ALLOUCH, Jean. Paranoia. Marguerite ou A “Aimée” de Lacan. Rio de Janeiro:


Companhia de Freud. 1997.

CESAROTTO, Oscar. LEITE, M. P. de Souza. Jacques Lacan, uma biografia


intelectual. São Paulo: Ed. Iluminuras. 1993.

JORGE, M. A. Coutinho. Ferreira, Nadiá P. Lacan, o grande freudiano. 3ª ed.


Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2009.

LEITE, M. P. de Souza. CESAROTTO, Oscar. Jacques Lacan. Col. Encontro


Radical. São Paulo: Ed. Brasiliense. 1985.

NASIO J.-D. [et al.]. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein,
Winnicott, Dolto, Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1995.

SAFATLE, Vladimir. Lacan. Col. Folha Explica. 2ª ed. São Paulo: Publifolha.
2013.

VIEIRA, M. André. Lições da psicose. Texto didático. Instituto Philippe Pinel,


segundo semestre de 2007.

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