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D O S S I Ê

O ÍNDIO, O “OPORTUNISTA” E O ESTAR NO BRASIL:


TENSÕES, INTERESSES E ANÁLISE SOBRE IDENTIDADE
NA MÍDIA E A PROFISSÃO DO ANTROPÓLOGO

NILSON ALMINO DE FREITAS*

Considerações iniciais RESUMO relatar o conteúdo da reporta-


Este artigo reflete sobre a forma peculiar como
uma matéria de uma revista de grande circu- gem e a polêmica que ela gerou
lação nacional constrói seus argumentos, no
Na edição 2163 da revista sentido de pensar as atividades de afirmação do no próprio ambiente da revista
direito à terra, por parte de grupos indígenas
Veja, de ampla distribuição na- ou negros organizados. A referida reportagem e em outros meios de divul-
sugere critérios frouxos e oportunistas por parte
cional, com data de 5 de maio de de ONGs e antropólogos, no sentido de susten- gação na internet. Finalizo a
tar uma espécie de corrupção nos processos de
2010, a matéria intitulada “A far- reconhecimento de terras desses dois segmentos reflexão com uma discussão
sociais. Os problemas empíricos e teóricos na
ra da Antropologia oportunista” construção da identidade parecem ser o referen- sobre a minha condição, como
cial principal na crítica criada pela reportagem
muito me chamou a atenção. Nela e merecem ser discutidos, no sentido de apon- articulista de tema que é bas-
se discutem temas que há muito tar seus limites e possibilidades. A tensão entre tante caro para minha forma-
política e processo de identificação é ressaltada
vem sendo motivo de polêmica na relação construída pelos personagens envol- ção profissional.
vidos nessa trama complexa que tenta culminar
na área das ciências humanas. na afirmação jurídica da identidade étnica. No artigo da Veja, os re-
Palavras-chave: identidade étnica, mídia, profis-
Um deles é a questão da defini- são de antropólogo; pórteres responsáveis pela
ção da identidade do índio e do ABSTRACT matéria levantam uma série
This article reflects on the peculiar form of matter
negro no Brasil, bastante sistema- that a large-circulation national magazine buil- de suspeitas sobre os proces-
ds his arguments in order to consider the activi-
tizada por nossos intelectuais da ties of affirming the right to land by indigenous sos de identificação de gru-
groups or organized black. This report suggests
área de Ciências Humanas, mas criteria loose and opportunistic on the part of pos indígenas e quilombolas
que ganha contornos distintos NGOs and anthropologists in order to maintain
a kind of corruption in the process of recognition e a consequente demarcação
de tempos em tempos. Na maté- of land these two social segments. The empiri-
cal and theoretical problems in the construction de terras. Supostamente, na
ria mencionada, implicitamen- of identity seem to be the main reference in the avaliação deles, esses territó-
confusion created by the story and deserve to be
te, a tentativa de identificação discussed to point out its limits and possibilities. rios demarcados poderiam ser
The tension between politics and identification
do ser brasileiro acaba criando process is underscored in the relationship built “melhor” usados para produ-
by the characters involved in this complex plot
controvérsias sobre quem pode that tries to culminate in the legal assertion of ção de riquezas. O profissional
ethnic identity.
ser ou não representante dessa Keywords: ethnic identity, media, antropologist da área de antropologia, res-
profession
identificação. ponsável por laudos técnicos
* Professor de Antropologia da Universidade Es-
Antes de entrar propriamen- tadual Vale do Acaraú – UVA (Sobral-CE). Dou- para o reconhecimento junto
tor em Sociologia pela Universidade Federal do
te na análise sobre a identidade Ceará. à Fundação Nacional do Índio
e suas implicações para a política e para o trabalho (FUNAI) é questionado no que se refere à ética e ao
do antropólogo, objeto de reflexão deste artigo, devo rigor científico. O texto afirma o seguinte:

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A maioria desses laudos é elaborada sem Em resposta publicada na revista, o referido an-
nenhum rigor científico e com claro teor tropólogo afirma nunca ter entrado em contato com
ideológico de uma esquerda que ainda
os repórteres e muito menos ter feito a afirmação, que
insiste em extinguir o capitalismo, imo-
qualifica de “grotesca”. Uma réplica à manifestação do
bilizando terras para a produção. Alguns
relatórios ressuscitaram povos extintos há professor é publicada na sessão de cartas do site “Veja.
mais de 300 anos. Outros encontraram et- com”, de 3 de maio de 2010. Os repórteres afirmam
nias em estados da federação nos quais não haver feito contato com a assessoria de imprensa do
há registro histórico de que elas tenham vi- Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de
vido lá. Ou acharam quilombos em regiões Janeiro (UFRJ), instituição na qual o professor traba-
que só vieram a abrigar negros depois que
lha, que lhes aconselhou a leitura de artigo com o títu-
a escravatura havia sido abolida. Nesta re-
lo “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”,
portagem, VEJA apresenta casos nos quais
antropólogos, ativistas políticos e religiosos publicado online pelo Instituto Socioambiental, com
se associaram a agentes públicos para mon- data de 2006 e de autoria do professor citado. Os re-
tar processos e criar reservas. Parte delas pórteres fizeram ainda mais: publicaram o artigo na
destrói perspectivas econômicas de toda íntegra e marcaram trechos que, segundo eles, confir-
uma região, como ocorreu em Peruíbe, no
mam a intenção do pesquisador, de afirmar que para
Litoral Sul de São Paulo. Outras levam as
ser índio não basta dizer que é. Esses trechos, con-
tintas do teatro do absurdo. Exemplo disso
é o Parque Nacional do Jaú, no Amazonas, forme interpretação deles, estariam de acordo com a
que englobou uma vila criada em 1907 e ideia transmitida na frase da matéria jornalística que
pôs seus moradores em situação de des- originou a polêmica, pelo menos “em termos”. Eis
pejo. A solução para mantê-los lá foi de- a primeira passagem com trecho sublinhado pelos
clarar a área um quilombo do qual não há repórteres:
registro histórico (COUTINHO, PAULIN e
MEDEIROS, 2010). Nosso objetivo político e teórico, como
antropólogos, era estabelecer definitiva-
Complementando a crítica ao andamento dos mente – não o conseguimos; mas acho que
um dia vamos chegar lá – que índio não é
processos de reconhecimento étnico, a matéria usa
uma questão de cocar de pena, urucum e
uma afirmação do antropólogo Viveiros de Castro, arco e flecha, algo de aparente e evidente
que contraria a ideia de que “basta dizer que é índio”, nesse sentido estereotipificante, mas sim
para tornar-se índio. Segundo a matéria: uma questão de “estado de espírito”. Um
modo de ser e não um modo de aparecer.
Casos assim escandalizam até estudiosos Na verdade, algo mais (ou menos) que
benevolentes, que aceitam a tese dos “índios um modo de ser: a indianidade designa-
ressurgidos”. “Não basta dizer que é índio va para nós um certo modo de devir, algo
para se transformar em um deles. Só é índio essencialmente invisível mas nem por isso
quem nasce, cresce e vive num ambiente de menos eficaz: um movimento infinitesimal
cultura indígena original”, diz o antropólo- incessante de diferenciação, não um estado
go Eduardo Viveiros de Castro, do Museu massivo de “diferença” anteriorizada e es-
Nacional, no Rio de Janeiro (2010). tabilizada, isto é, uma identidade. (Um dia

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seria bom os antropólogos pararem de cha- ao mesmo tempo, a alegria com relação à forma como
mar identidade de diferença e vice-versa) se manifesta o crescimento da população indígena nas
(VIVEIROS DE CASTRO apud Veja.com,
décadas de 1990 e 2000. Tal crescimento é ocasiona-
2010).
do, não pelo aumento da taxa de natalidade, mas pela
Neste trecho o autor comentava uma posição mudança na identificação de populações, que antes se
política dos antropólogos na época dos governos mi- auto-referiam de outra forma, e agora se reconhecem
litares no Brasil (1964/1985) que viam os grupos se como indígenas.
afastarem de suas referências indígenas históricas e o O próximo trecho sublinhado diz:
governo pouco dava atenção para isso. Pelo contrá- Qual o problema hoje? Isto é, como apa-
rio, incentivava a desmotivação para que essas pes- rece o problema hoje? Ele aparece como
soas pudessem entrar para o mercado de trabalho. sendo o de evitar a banalização da idéia
Portanto, é uma afirmação historicamente situada e [sic.] e do rótulo de “índio”. A preocupa-
não uma definição imperativa do que deve ser índio. ção é clara e simples: bem, se “todo mun-
do” ou “qualquer um” (qualquer coletivo)
Segue-se o segundo trecho marcado:
começar a se chamar de índio, isso pode vir
A questão de quem é ou não é índio reapa- a prejudicar os “próprios” índios. A condi-
rece agora, mas por outras razões. Algumas ção de indígena, condição jurídica e ideo-
pessoas ligadas à questão indígena têm por lógica, pode vir a “perder o sentido”. Esse é
vezes a impressão (ou pelo menos eu tenho um medo inteiramente legítimo. Não com-
a impressão de que elas têm a impressão) partilho dele, mas o acho inteiramente le-
de que nós, índios e antropólogos, fomos gítimo, natural, compreensível, como acho
um pouco vítimas de nosso próprio suces- legítimo, natural etc. o medo de assombra-
so. Antigamente, muitos coletivos indíge- ção (VIVEIROS DE CASTRO apud Veja.
nas sentiam vergonha de sê-lo, e o governo com, 2010).
tinha todo interesse em aproveitar essa ver-
gonha inculcada sistemicamente, tirando as O medo de assombração, como ironiza o antro-
conseqüências jurídicopolíticas, digamos pólogo, parece ter afetado os articulistas de Veja na
assim, do eclipsamento histórico da face reportagem citada, quando chamam a atenção exata-
indígena de várias comunidades “campo- mente o perigo do fantasma que assusta a parte do
nesas” do país. Agora, ao contrário, “todo
país que “produz”. Segundo a matéria, um determina-
mundo quer ser índio” – dizemos, entre
intrigados e orgulhosos (VIVEIROS DE
do tipo de construção da identificação do ser índio e
CASTRO apud Veja.com, 2010). do ser quilombola (que é menos enfatizado na repor-
tagem), está sendo usado desonestamente para pre-
Aqui, o autor fala de outro tempo histórico, con- judicar irresponsavelmente os que querem implantar
temporâneo, onde a questão se transforma e os gru- um projeto de nação “desenvolvida”. Portanto, os “de-
pos indígenas tornam-se mais fortes como agentes sonestos”, usam desse artifício da identificação como
políticos, no sentido de programarem um projeto de indígena ou quilombola, para prejudicar o “progres-
“retradicionalização” ancorado na ideia de emancipa- so”. A imprecisão na definição dos sujeitos desse pro-
ção. Além disso, chama a atenção para a estranheza e, jeto desenvolvimentista e a contraposição ao índio ou

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quilombola, parecem supor que estes últimos repre- um raciocínio substantivo. Ora, o raciocí-
sentam o estado de natureza anterior ao “desenvolvi- nio substantivo exposto em meu texto está
nas antípodas daquele que Veja falsamente
mento”. Essa ideia parece conduzir os argumentos dos
me atribui. A afirmação de Veja de que eu
repórteres. A imprecisão não está somente no sujeito
a autorizara a “usar” o texto da forma que
que quer implantar um projeto de nação desenvol- ela “bem entendesse” parece assim signifi-
vida, mas também no conceito do que é produtivo. car, para os responsáveis (ou não) pela re-
Finalizando as passagens marcadas, temos a seguinte: vista, que ela poderia fabricar declarações
absurdas e depois dizer que “sintetizavam”
Os laços histórico-culturais com as organi- o texto. Esse arrogantemente “da forma
zações sociais pré-colombianas são eviden- que bem entendesse” não pode incluir um
temente importantes, pois é bobagem ima- fazer-se de desentendido da parte da Veja
ginar que se pode definir “índio” na base do (VIVEIROS DE CASTRO, 2010b).
preguiçoso princípio sub-relativista segun-
do o qual “índio é qualquer um que achar Independente de eu ter uma posição diante da
que é”. Não é qualquer um; e não basta questão (certamente a tenho), o que mais me chamou
achar ou dizer; só é índio, como eu disse,
a atenção foi a reação dos leitores com relação à maté-
quem se garante. (Por outro lado, são sim
parentes dos índios aqueles que os índios ria. Um deles afirma na coluna de Reinaldo Azevedo,
acharem que são seus parentes e ponto fi- no site Veja.com, que:
nal, pois só os índios podem garantir isso)
(VIVEIROS DE CASTRO apud Veja.com, Bem que no início da década de setenta
2010). saiu slogam[sic.] ou o Brasil acaba com a
saúva ou a saúva acaba com o Brasil, não
Como se pode verificar, os repórteres seleciona- acreditaram e hoje a mais nociva das pra-
ram trechos soltos do artigo, no sentido de fundamen- gas de saúvas, vermelhas como ela estão a
acabar com as lavouras produtivas e des-
tar um argumento que, de acordo com uma leitura do
nudando a pátria mãe com o apoio externo
texto completo, duvidosamente o antropólogo con- e com a anuência dos analfabetos de pa-
cordaria. O pesquisador responde à réplica no blog “A triotismo que grassa no Brasil (Veja.com,
vida das coisas: antropologia no mundo material”. Ele 03/05/2010).
confirma que se negou a atender aos repórteres dessa
revista, assim como nega ter indicado esse artigo es- O vermelho aqui se apresenta de forma ambiva-
pecificamente. Nas suas palavras: lente. Pode estar relacionado ao “índio”, segundo uma
imagem comum nos filmes vendidos no circuito co-
Pela ordem. Em primeiro lugar, essa res-
mercial. Porém, comparando com outros depoimen-
posta da revista fez desaparecer, como
num passe de mágica, a frase propriamente tos e a prática crescente na revista, de criticar o go-
afirmativa de minha suposta declaração, verno de Luís Inácio Lula da Silva (2003/2007/2010),
a saber, a segunda (Só é índio quem nas- pode se aproximar também de uma suposta “farra”,
ce, cresce e vive em um ambiente cultural
patrocinada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) que
original”), visto que a primeira (Não bas-
ta dizer que é índio etc.) permanece uma tem a cor vermelha predominante na sua simbologia.
mera obviedade, se não for completada por Apesar de os depoimentos listados no geral apoiarem

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a matéria, também foram publicados alguns fazendo reagirem. Ninguém melhor do que vocês
críticas, como neste que se segue: para se agruparem rapidamente, basta
um só comando. Abra a cabeça do povo,
Essa matéria foi, no mínimo, produzida e todo mundo ira apoiá-los (Veja.com,
por gente desinformada! Só um exemplo 02/05/2010).
disso é que a frasa [sic] atribuída ao an-
tropólogo Eduardo Viveiros de Castro é O que mais me chamou a atenção nos depoimen-
mentirosa. Ele mesmo já se pronunciou di- tos dos leitores foi o fato de entenderem o índio como
zendo que jamais disse um absurdo desses. o “outro” e diferente do “brasileiro”. Dois depoimen-
Portanto se mentiram a respeito disso, não tos, dentre outros que apareceram no mesmo senti-
dá pra confiar no resto da matéria (Veja.
do, me chamaram a atenção sobre isso. O primeiro,
com, 03/05/2010).
tentando pensar nas implicações sugeridas pelo títu-
Outro usa seu bom humor para comentar a lo, que diz ser 90% do território brasileiro domina-
polêmica: do pelos grupos indígenas e quilombolas. Um leitor
argumenta:
Um segundo antes do bom canibal descer
o tacape no Bispo Sardinha este brada aos Tomei conhecimento do post superficial-
céus: “Senhor convertei este canibal num mente, e apenas o tomo como ponto de
cristão!” Aí veio um clarão do céu sobre partida para o comentário, o percentual
o tupinambá. Este se detém um segundo e restante de 10%. Gostei. Eu, como outras
diz: “Senhor obrigado por mais essa refei- pessoas com os quais me relaciono, mi-
ção” (Veja.com, 03/05/2010). grariam para os 10% de território que so-
brasse. Bem, diante dessa possibilidade,
Dentre aqueles que radicalizam sua posição no penso que um dos meus sonhos poderia
sentido de confirmar os argumentos dos articulistas ser realizado mais facilmente, morar em
da revista, temos este como exemplo: “Quero uma um país desenvolvido sem sair daqui. Tal
lei áurea para livrar os brancos da escravidão pelos situação pode não ser uma má idéia, pois
indígenas e quilombolas. Pau nessa galera toda! Aço poderíamos[sic.] de fato fazer a reforma da
constituição dos nossos sonhos, e permitir
quente mesmo”. Alguns, mais saudosistas, relembram
às pessoas escolherem onde viver, uma na-
o período histórico do Brasil – os 21 anos, a partir
ção mais voltada para o desenvolvimento,
de 1964 – em que os militares tomaram o poder jus- para a educação, para a modernidade, para
tificando serem os salvadores patrióticos do país, a civilização do conhecimento, para o tra-
implantando um sistema de censura aos meios de balho, para a ética (Veja.com, 01/05/2010).
comunicação e controle rigoroso das manifestações
culturais e políticas: Um segundo depoimento, intitulado
“Anticomunas RJ”, diz o seguinte:
Cadê os Generais, coronéis e capitães e ofi-
ciais em geral, do Exercito [sic.] Marinha e Pela visão rasa destes pseudoantropólogos,
Aeronáutica. Cadê o juramento a Bandeira ONGs, políticos pilantras de plantão, etc…
e a Pátria que vocês fizerão[sic], em honrá- devolveremos todas as terras aos índios e
-la e defende-la[sic.]. Agora é hora de vocês todos nós brasileiros(!?) voltaremos para

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a nossa pátria mãe Portugal. Realmente. para que todos saibam quem nós somos”. O que pa-
O Brasil é o país do atraso e dos atrasados rece brincadeira, na verdade, é uma forma de mani-
(Veja.com, 01/05/2010).
festar uma dificuldade de delimitação precisa de um
Diante da ideia do que significa ser brasileiro, conteúdo que seja suficiente para responder quem é
conforme definido neste depoimento, penso que vale quem. Dificuldade que até então não me parece ter
a pena retomar questões pertinentes à construção da sido solucionada. Viveiros de Castro (2006), no artigo
identidade, seja ela étnica ou nacional, tendo como já citado, chama atenção para o delírio de quem tenta
referencial teórico, dentre outros, o próprio texto de misturar uma definição ontológica de identidade com
Viveiros de Castro citado pela reportagem da Veja. o ordenamento jurídico de seu controle em processos
Não por achar que a maioria do povo brasileiro pensa e rotinas do poder público. Este último visa discrimi-
da forma como os argumentos foram postos na ma- nar e identificar as pessoas como cidadãos.
téria, mas por considerar que, apesar de não se saber O Estado, em suas diversas instâncias, necessita
se é um pensamento da maior parte da população do ter uma informação precisa da identidade para me-
Brasil, não podemos deixar de considerar que essa lhor administrar ou controlar o cidadão, pois seu apa-
tendência na identificação do que é ser brasileiro exis- rato jurídico-legal requer classificações substanciais e
fixas para organizar as categorias criadas que servem
te. É a partir dessa forma de definição sugerida no úl-
como marcadores rígidos de identificação (gênero,
timo depoimento que quero articular minha reflexão,
estado civil, nome de família, profissão etc.), melhor
pensando a construção da identidade étnica, princi-
distribuindo a concessão de direitos. Esse processo é
palmente a do indígena, sem deixar de mencionar a
credenciado por “profissionais competentes” (técni-
condição de quilombola.
cos), recebendo selo de qualidade através de carim-
bos e assinaturas, como afirma Viveiros de Castro.
Entre o ser e o estar: ambivalências entre o
Acrescento que o reconhecimento jurídico é transfor-
midiático, o político e o jurídico
mado em número, que ratifica a condição legal de se
ser alguém, através de um artifício matemático exato
Discutir sobre identidade não é novidade no
e abstrato, impresso em papel, com a denominação
campo da Antropologia. Vários livros, artigos, núcle-
de RG ou Carteira de Identidade. Sem ela não somos
os de pesquisa, seminários, congressos, dentre outros reconhecidos como cidadãos, independente da defi-
instrumentos que fazem a mediação entre a reflexão nição que se possa dar a esse último conceito.
e a formação de opiniões sobre a questão, foram pro- Viveiros de Castro chama atenção para o seguin-
duzidos e tentam delimitar o conceito de diferentes te: perguntar quem é índio não é uma questão an-
formas. É um conceito central nas políticas de pre- tropológica, mas sim jurídica ou do campo político.
servação do patrimônio histórico e reconhecimento Como dizer que alguém é índio no Brasil? Este, talvez,
étnico. Porém, nunca me esqueci de um comentário seja o grande desafio posto ao se tentar definir o que
ouvido nos corredores do curso de graduação onde é índio, segundo o autor: como analisar um feixe de
me formei segundo o qual “identidade é aquele do- relações (agências e agentes interagindo em redes bas-
cumento que temos a obrigação de andar com ele tante amplas) que não tem substância?

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Na década de 1970, Barbu (1978) chama atenção perder “quase a totalidade do território”, em benefí-
para uma tese levantada por Lévi-Strauss, inserindo cio do “índio inventado” por antropólogos e ONGs.
o conceito de identidade no contexto contemporâneo Os militares são convocados ao cumprimento de seu
onde a mídia passa a ser influente no processo de for- “dever cívico” de implantar a ordem no país, para que
mação da pessoa. Segundo Barbu, para o antropólo- isso não aconteça.
go francês, esse conceito é resultante de um processo Esse discurso faz pensar que o mito da mistu-
dominante na nossa sociedade: a superabundância de ra das três raças (índio, branco e negro), tão usado
comunicação. Esse “supermovimento” produz uma nos livros didáticos dos diversos níveis de ensino de
reação que conduz ao oposto de uma caracterização história, parece não ter um peso significativo nesse
substantiva que se refere à necessidade de definição conflito entre “brasileiros” (que têm como pátria mãe
de limites e de diferenciações entre identificações Portugal) e “índios”. E ao “índio” esse mito, reforçado
construídas. Isso leva à definição de conteúdos clas- de diferentes formas pelos intelectuais brasileiros em
sificados por ele como “espúrios” e de significados diferentes tempos, tão reconstruído e desconstruído
“hiperbólicos”; portanto, conclui, “anti-científicos”. de diferentes formas, aparece enriquecido com outros
Para ele, o conceito de identidade é fértil para se pen- conceitos na matéria e nos comentários dos leitores.
sar de forma etnocêntrica, tanto no sentido do racis- Porém, também de forma confusa e imprecisa, pois a
mo, como no sentido de classe-etnocentrismo ou do identidade substantiva do ser índio parece não estar
estado-centrismo. adequada à imagem produzida pela mistura das raças,
A matéria publicada na Veja e, particularmente que caracteriza o brasileiro.
as reações de apoio aos argumentos dos jornalistas, Parece haver uma inversão da ordem nas rela-
por parte dos leitores, expressas na revista, mostram ções e tensões postas pela hierarquia social entre gru-
bem as implicações da dificuldade em tentar definir pos segmentares, pensados e inventados para afirmar
o que é índio que, curiosamente, surge em oposi- a miscigenação. A história conhecida é que os “bran-
ção ao ser brasileiro, no comentário de alguns deles. cos”, sempre definidos de forma imprecisa, “descobri-
Acontecimentos históricos, ou pelo menos algumas ram” o Brasil. Há versões que relativizam a ideia de
versões e seleções desses acontecimentos, são usadas “descobrimento”, dizendo que são “invasores”. Mas, de
na matéria e nas reações dos leitores como forma de fato, todos reconhecem, independente da posição ide-
mostrar o quão absurdo esse movimento em que o ológica sobre a questão, que existia índios aqui e que
“brasileiro” é prejudicado por algumas formas irres- houve uma tentativa de discipliná-los e “civilizá-los”.
ponsáveis de reconhecimento de povos indígenas. A Isso mostra que, na verdade, os índios passaram por
suposta origem portuguesa do Brasil acaba ganhando transformações culturais, sociais e comportamentais
um peso maior na identificação do ser brasileiro, em que modificaram sua “suposta” condição cultural,
alguns depoimentos de leitores; assim como as rela- segundo uma visão romântica do índio “natural” ou
ções com a modernidade e o desenvolvimento pas- “original”. Seria um movimento, muitas vezes repro-
sam a ser valores, opostos aos valores que são asso- duzido em nosso senso comum, que aponta para a
ciados ao índio. O patriotismo também surge como ideia de que os índios estão perdendo sua “pureza”,
valor, já que o “brasileiro” está sendo “ameaçado” de como se uma cultura só passasse por modificações se

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outra mais poderosa viesse a destruí-la. Brasil no século XVI. Os mapas dos portugueses da
É comum as pessoas pensarem a cultura indígena época reconheciam o controle territorial exercido
como atrasada, justificando que “parou no tempo”, por por “nações indígenas”, desconstruindo a ideia de que
não haver contato com o “branco”. Afirmação essa que eram nômades. Isso foi se perdendo com o tempo, as
não tem fundamento quando começamos a perceber culturas foram se modificando, algumas mais, outras
que a oralidade ainda é um importante componente menos, assim como os interesses em jogo sobre o tipo
no processo de formação cultural entre as diferentes de sociedade que se construiu no Brasil foi se modifi-
culturas indígenas. Com todas as suas características cando, tornando as relações entre as culturas diferen-
criativas, a oralidade logicamente não permite pensar tes um pouco mais complexa do que a lógica corrente
essas sociedades sem transformações internas na for- da subjugação cultural.
mação de seus membros, principalmente quando se Os leitores que se manifestam indignados com a
pensa no investimento na consolidação de um senti-
“tomada” do território nacional por índios e negros
mento de pertença. As histórias, as músicas, os rituais
que não se apresentam como o mito do “selvagem” e
que organizam narrativas sobre a origem, a história
“involuído”, — dois mitos correntes na reflexão sobre
coletiva, a mitologia, importantes componente para
o índio —, esquecem ou não conhecem essa história
composição de uma identificação coletiva, devem ser
de protagonismo do indígena na formação do Brasil,
compreendidos sob uma ótica mais cotidiana na sua
muito menos a colaboração do negro na composição
construção que nos faz lembrar que nunca contamos
cultural do país. Somente o europeu parece ser capaz
a mesma história de forma igual, assim como, ao con-
dessa empreitada. Alimentados pela esperança de
tarmos, aquele que repassa a modifica.
mudanças, os leitores usufruem das mesmas técnicas
Outra visão corrente é a de que essas culturas
adotadas pelos índios atualmente para reverter suas
foram vítimas do sistema colonial implantado no
perdas históricas e jogam com o discurso segundo o
Brasil. Mesmo pensando no processo de colonização
por parte de outras culturas, não podemos pensar que qual a sociedade atual é pautada por desordem e des-
os diferentes grupos indígenas existentes no Brasil, respeito às diferenças (leia-se identidade, já que falam
principalmente no período colonial, eram passivos da unidade cultural em contraposição a outras uni-
às influências, principalmente a que foi exercida pe- dades). Para os índios, principalmente aqueles mais
los portugueses. Oliveira (2010) lembra que alguns engajados em entidades e instituições direcionadas
documentos do período colonial mostram que seria politicamente para a defesa da condição indígena, o
inviável o sucesso do projeto colonial no Brasil sem “branco” foi o invasor e desordenou sua realidade.
a colaboração do índio. Ele aponta a necessidade ex- Portanto, devem ser compensados pelas perdas no
posta em suas fontes de se estabelecer um modus vi- passado. Por outro lado — e a matéria é expressão
vendi entre colono, seja ele português ou oriundo de desse contraponto —, os leitores que mandam suas
outros países europeus, e o nativo. Nessa perspectiva, mensagens, assim como os repórteres, tentam sensi-
o índio assume papel de protagonista do processo de bilizar a todos que é imperativo superar uma situação
colonização, em alianças forjadas com portugueses, na qual se sentem oprimidos pela corrupção. Tentam
holandeses ou franceses que se aventuravam pelo passar a ideia de serem eles os “dominados”, já que

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O Índio, o “oportunista” e o estar no Brasil

correm o risco de ocupar somente 10% do território futuras. Pretende-se sustentar o reconhecimento des-
nacional. Para isso, usam da competência técnica na ta unidade com base na ideia de segurança desejada
transmissão de imagens e textos através da revista por “todos os brasileiros”. A “insegurança” no discur-
Veja no sentido de fundamentar seus argumentos. so produzido é prerrogativa daqueles que contestam a
As imagens e textos transmitidos dissimulam uma versão da “segurança”, que são corruptos e subversivos
falta de consciência dos integrantes dos movimentos da harmonia, querendo mais do que lhes é devido.
contrários ou críticos às demandas que publicam na A pretensão da construção dessa versão do mito
revista, tentando assombrar os grupos de sensibiliza- do brasileiro é satisfazer as pessoas pelo que ele re-
ção através da organização de legendas ou frases de presenta em si mesmo, tornando-se autônomo e
efeito, fabricando os “bons” e os “maus”, os “ídolos” e independente. Apesar disso, a identificação do “ser
os grupos nocivos, com vocabulários fáceis de serem brasileiro” não é totalmente abstrata, pois está carre-
entendidos pelo “homem comum”. gada de uma situação, tornando-se móbil e funcional
A reportagem e a reação de apoio dos leitores re- através de exemplos do que não deve ser feito e que
metem a um discurso que tenta mostrar um suposto merece ser denunciado como absurdo. A concepção
momento de crise vivido pelo Brasil, semeando des- da situação do índio, portanto, apresenta-se como
crédito em relação àqueles que estão no poder público uma condensação não muito estável, cuja coerência é
no plano nacional. A impressão passada na matéria elaborada pautando-se em uma caracterização quase
é de que os que fazem o governo estão associados a folclórica. O índio é apresentado como uma nebulosa
antropólogos e ONG’s em uma espécie de quadrilha condensação mais ou menos fluida de saberes “tradi-
de corruptos que planeja estratégias contra os “bra- cionais” sem precisão conceitual (o que não é possí-
sileiros”. O discurso produzido na revista sustenta-se vel criar), que supostamente, segundo os jornalistas,
em um processo que objetiva a construção de uma são apropriados por inescrupulosos grupos e usados
autoconsciência coletiva, consubstanciada em uma para objetivos espúrios. Esse discurso sobre o uso da
ideia ufanista, relacionando uma memória selecio- identidade indígena apresenta-se sempre como um
nada cuidadosamente e, a partir dela, denuncia uma imperativo dirigido ao indivíduo que é obrigado a
mobilização contra aqueles que desejam um futuro suportar sua ambiguidade. É uma fala que pretende
promissor, harmonioso e fraterno, ancorado na pro- atingir a subjetividade, sublimando-se em sua gene-
dução de riquezas. Isso fundamentado na ideia de de- ralidade, construindo uma honestidade de si mesma.
senvolvimento e civilidade, jogada no discurso de for- Pretende sempre estar além das diferenças sociais,
ma imprecisa. É uma construção discursiva que tenta apesar de explicitamente apontá-las ou denunciá-las,
projetar uma unidade ou constância no tempo vivido posicionando-se diante delas.
no presente, dos indivíduos envolvidos em uma ver- A imprecisão na definição do ser índio e a his-
são do “ser brasileiro”. A identidade do país deve ser tória das relações entre os três componentes do mito
“purificada” e “limpa” da “vermelhidão”, seja ela rela- do ser brasileiro diluem-se em uma ideia de organiza-
cionada ao falso índio ou ao partido político do go- ção racional da sociedade, pautada em um saber que
verno, projetando esta unidade nacional higienizada, oculta a disputa por posições de prestígio e poder.
sustentada pela necessidade de difusão para gerações Até mais do que isso. Inverte sua lógica, colocando

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o elemento “brasileiro” (seja lá o que isso signifique) existem de forma unificada) são identidades virtuais,
como dominado, ou em posição inferior. Elabora uma nascem do estereótipo e são “folclorizadas” pela ima-
imagem de que os articulistas e leitores são detentores gem projetada. A imagem do diferente, do exótico, do
do saber prudente e honesto, que aparece perdido no “outro”, estigmatizada e transformada em “folclore”,
meio da “sujeira” patrocinada pelo governo, por pseu- alimenta os índices de audiência e, consequentemen-
doantropólogos e ONG’s. Dessa forma, não se expli- te, o lucro, assim como o poder de influenciar na pro-
citam preconceitos e implicações da invenção das di- dução da mentalidade do público.
ferenças perante um “outro” substantivo criado, tanto Apesar da “denúncia” sobre a impressão da falsa
do ponto de vista físico quanto simbólico. Muito pelo identidade, os leitores não são totalmente passivos.
contrário, as hierarquias e classificações sociais são Alguns leitores, como já visto, chegam a criticar a pos-
naturalizadas, tendo em vista administrar com maior tura da revista, apesar de não serem a maioria. O que
eficiência a convivência entre os diversos grupos so- não quer dizer também muita coisa, pois a comissão
ciais, pautados em um saber racional e imperativo, editorial da revista pode ter filtrado alguns e descar-
pretensamente autônomo em relação à vontade de tado outros. É até importante mostrar controvérsias,
qualquer ser humano. A imprensa usa desse artifício, pois a democratização do acesso ao saber ainda é um
articulado a ideia de que é neutra, imparcial e corajo- valor importante e pregado pela própria revista em
sa ao denunciar essa situação “descabida”, na qual os outros momentos e por isso não deixa de mostrar as
índios e os quilombolas tomam conta de “quase todo críticas. Porém, estas se perdem diante da maioria de
o território nacional”. leitores que manifestam apoio. Em outros sítios da
Os construtores de tal discurso não querem apre- Internet, outros leitores se revoltam. A Associação
sentar a ideia como “racista”, já que mostram que não Brasileira de Antropologia publica em seu site nota de
são contra os índios, mas sim a favor de uma racio- repúdio à matéria1.
nalização do processo de demarcação de terras que O grande problema que se coloca é que, essa clas-
está acontecendo, segundo eles, em detrimento da sificação de “falso índio” não consegue controlar o seu
produção de riquezas. Na verdade, são contra os “fal- referente. O fenômeno que é qualificado como ilegí-
sos índios”. Acontece que o problema da imprecisão timo dissemina-se em formas sutis, segundo a versão
na definição do ser índio, afeta também a definição de da revista. Assim, o discurso tenta fundamentar uma
quem não o é. ideia de que se aceita o “outro”, mas não se permite
A visão do racismo no Brasil, no caso da mídia, uma aproximação do outro às marcas “peculiares” do
quando aparece nos noticiários, em geral é associada “civilizado”, já que ele (o outro), por natureza, não o
a casos bastante radicais e vistos como anacrônicos. A seria, segundo a versão folclorizada. A revolta exacer-
não ser os intelectuais que trabalham sobre o assunto ba-se com a suposta falsidade deles, em dissimular a
e alguns curiosos, poucos se interessam por conhecer distância do ser “naturalmente” índio. É comum ver
a história do negro e do índio de uma forma mais sis- manifestações de não especialistas, que mostram que
temática. Quando os media se interessam por proje- o “índio natural” não pode sair de sua “reserva” ter-
tar imagens desses grupos étnicos, o fazem de forma ritorial. O termo “reserva” é sintomático do que se
superficial. As culturas negras e indígenas (se é que fala. Apesar do discurso do aceite da miscigenação, ao

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índio é destinado um espaço territorial próprio, o qual precisamente fronteiras fixas. São encontros onde di-
faz fronteira com o espaço dos “brancos”. Quando ferentes valores e práticas são constituídas em respos-
este “ser exótico”, quase associado a um ser natural ta a situações contextuais de sociabilidade. O mito, a
(animal), como ele geralmente é tratado pelos media, imaginação e a transgressão, apesar de serem alvos
adentra o espaço do homem “civilizado”, ocidental e constantes de combate, por parte da racionalidade,
eurocêntrico, o “dono” do território “invadido” não entendida como valor importante na contemporanei-
sabe o que fazer com ele. Enxotar o índio, não pode dade, não são deixados de lado pelos sujeitos sociais
fazer, pois tal atitude pode ser antipatizada pela “opi- no cotidiano. As relações de poder ou de interesses
nião pública”. Aqui, tanto se destaca o poder potencial são negociadas dia-a-dia, formam o conteúdo e tor-
do público-alvo da estampa “midiática” projetada, nam-se propriedade de uma identidade inventada. A
como o do índio como ser “exótico”, em controlar su- tradição, um desses conteúdos, está no mesmo regis-
postos comentários que podem ser entendidos como tro da invenção. Para Herzfeld (1991), não faz sentido
“politicamente incorretos”. falarmos de tradição inventada como uma concepção
Acabo aprendendo com esse artigo que o concei- que denuncia um movimento contemporâneo de tor-
nar a cultura um espetáculo a ser vendido ou com-
to de identidade brasileira só pode ser compreendi-
prado, pois, definido desta forma, esse conceito pode
do como uma imagem associada a uma posição, no e
fazer o leitor entender que existem algumas que são
sobre o mundo (social, temporal, espacial e mental).
mais originais, portanto, menos inventadas do que
Por sua vez, a produção dessa imagem tem relação
outras. Toda tradição é uma construção social, por-
com a inserção em agrupamentos sociais específicos,
tanto, uma invenção. Como a construção da tradição
que elaboram um discurso pautado na imagem de um
é um componente importante da identidade, faz com
outro que lhes serve como parâmetro de oposição.
que a imprecisão na definição de seus limites seja flui-
Associado a isso, um lugar ou sentimento de pertença
da e flexível.
é fundamental. O “ser” é ao mesmo tempo um estar e É comum intelectuais falarem sobre a identida-
um não-ser, pois, por mais que pareça contraditório, é de, como já dito. Porém, o difícil não é falar sobre ela,
um movimento situacional, efêmero e mutante que se mas sim, mostrar os encontros, desencontros, as afec-
desterritorializa e se territorializa todo tempo, como ções e disputas de interesses, já que não consolidam
diria Viveiros de Castro (2006). fixos identitários, mas fluxos, fluidez e movimen-
O “ser” é um deixar de ser constante. Portanto, tos. A identidade, portanto, seria um jogo compos-
ele não existe como exterior às manifestações indi- to por diferentes conteúdos de sociabilidade que, ao
viduais ou coletivas. É muito mais um devir, como se encontrarem, não definem claramente fronteiras.
diria Deleuze (1997), conceito esse que não faz sen- Aponta para o inacabado da existência, sempre se-
tido no registro do “ser” substantivo. É um bloco de denta de novas afecções.
coexistência múltipla de afecções que não produzem Deleuze (1997) entende o conceito de desejo
a semelhança nem a afinidade com algo rígido que o como agenciamento de um conjunto de elementos
identifica. Não é uma soma de “partes” de experiência que constituem o contexto do objeto supostamente
social ou cultural. É o “entre”, um bloco de movimen- referente. Não se deseja uma identidade, mas uma
to que se espalha de tal forma que é impossível definir série de elementos que formam um conjunto relativo

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ao lugar, à posição, ao interesse e à imagem que es- discernível. Nem possui fronteiras fixas. Por isso dizer
tão “ao redor” do “ser” desejado e o reforçam. Não se que existe uma “sociedade indígena”, quilombola ou
almeja ser “índio”, “quilombola” ou “brasileiro”. Mas “sociedade brasileira”, seria desconsiderar todo esse
sim, um lugar que o “ser” imaginado viria a ocupar movimento tenso e criativo que vai além daqueles que
no conjunto da sociedade mais ampla, a sua posição se encontram no grupo classificado e diferenciado e
diante dos “outros” e a imagem que esse pode proje- os afetam de alguma forma.
tar para “todos” aqueles que o veem. O que complica Ao antropólogo, responsável pelo relatório técni-
mais essa construção é o fato de os elementos que es- co que sustenta uma demanda de identificação como
tão “ao redor” serem também componentes de outros “índio”, cria-se um grande problema. Ele tem que
conjuntos maiores desejados. Isso cria uma confusão entrar em um jogo em que, ao mesmo tempo, ele é
aos olhos daqueles que pretendem entender a inven- juiz sem julgar, pois tem que dar somente um pare-
ção da identidade, pois esperam dela algo mais sólido, cer sobre a construção da identificação, assim como
com fronteiras precisas. também é jogador, pois é impossível dar um parecer
Simmel (2006) nos ajuda a compreender esse pro- sem uma posição política sobre a questão. Utilizando
cesso, lembrando que ao se encontrarem em reunião, a afirmação de Viveiros de Castro (2006), o antropó-
as pessoas são orientadas por conteúdos produzidos logo vai dar o parecer no sentido de dizer se aquele
por interesses e necessidades específicas. Esses conte- grupo “se garante” no agenciamento de elementos
údos são a matéria-prima da sociação, definida como empíricos e históricos que provem suas “tradições” e
forma de estar com o outro e, consequentemente “ser” que sustentem a construção da “diferença” entre “nós”
para o outro no momento da interação. Portanto, os e os “outros”. Vale a pena pensar melhor a posição am-
conteúdos a serem considerados na análise, na ver- bígua do antropólogo nesse jogo.
dade, não são as tradições e costumes usuais, são os
interesses, finalidades, tendências, condicionamen- O antropólogo na produção de “fatos”: em qual
tos psíquicos e movimentos, mediadores de relações, verdade devemos acreditar?
acompanhados pelo sentimento mútuo entre sujeitos
sociais de estarem socializando-se. É nesse movimen- No Simpósio sobre Fricção Interétnica na
to que as pessoas retiram valores das formas da vida América do Sul — realizado no ano de 1971, em
social e os configuram em uma interação específica. Barbados no Caribe, reunindo os vários segmen-
Esse movimento parece desagregador e contraditório, tos sociais envolvidos com as políticas indigenistas
porém é criativo. É um processo de ebulição que tem —, foi produzido um documento conhecido como
uma autonomia relativa, pois prescinde do conteúdo Declaração de Barbados. Tal documento chamou a
da sociação, o que remete ao que o autor chama de atenção para a necessidade de envolvimento políti-
sociedade (convivência sociável), incluindo e mis- co daqueles diretamente relacionados com a questão
turando ordem e desordem. A sociedade, portanto, indígena, sejam eles antropólogos, ONG’s, índios ou
é definida no contexto do encontro entre pessoas e grupos religiosos, com suas pastorais. O documento
grupos, assim como valores e práticas múltiplas cons- denuncia a continuidade de uma relação na qual os
tituindo uma sinergia. Não é uma estrutura estável e indígenas da América Latina continuam sujeitos ao

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O Índio, o “oportunista” e o estar no Brasil

domínio colonial equivalente ao “tempo da conquis- interétnico, para manifestar seus argumentos. A se-
ta”, quando ainda se formavam os estados nacionais gunda versão, de 1977, retoma as mesmas ideias da
sul-americanos. Essa dominação, segundo a declara- primeira versão, ressaltando a dominação física, que,
ção, é parte de uma situação de dependência externa segundo o documento, seria eminentemente econô-
desses países frente às grandes metrópoles “imperia- mica e contra os indígenas, exercida não só pelos esta-
listas”. Por serem dependentes, acabam criando uma dos nacionais. A dominação física deve ser entendida
atuação de colonização perante as sociedades indíge- como um movimento internacional de exploração e
nas, e uma autoconsciência deformada da sociedade de dominação econômica e cultural, que determina
nacional, agredindo algumas manifestações culturais uma hierarquia em que o modelo ocidental seria pro-
através de intervenções supostamente protetoras. eminente e imposto aos demais modelos. A própria
A Declaração foi repercussão de um movimen- política indigenista dos estados nacionais e missões
to intelectual que teve como um dos seus expoentes
religiosas, estaria inserida nessa lógica que a segunda
o antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira que, em
Declaração batiza de aculturação.
1964, em uma de suas publicações, cunhou o conceito
A terceira Declaração do chamado Grupo de
de “fricção interétnica”2 e que foi usado para batizar
Barbados, produzida no Rio de Janeiro em 1993, as-
o evento. Em entrevista concedida a Carlos Fausto,
sinada por integrantes de movimentos indigenistas
Yonne Leite, Carmen Weingrill e Vera Rita da Costa,
e antropólogos como Darcy Ribeiro e João Pacheco
em 1993, o autor explica que esse conceito surge
de Oliveira, dentre outros, mostra um momento no
como uma crítica à ideia de aculturação, que vinha
qual os grupos indígenas organizados já começam a
sendo usada nas obras de referência da antropologia
incomodar o chamado por eles “projeto contempo-
nacional, ao mesmo tempo em que se mesclava a um
râneo de globalização”. Este “projeto”, que pretende
“sociologismo” que dizia existir, na época de sua for-
ser hegemônico e produzir uma ilusória igualdade,
mação em São Paulo na USP. A proposta foi desen-
volver um modelo de investigação que privilegiasse na verdade, só produz uma profunda desigualdade
o conflito e não o consenso peculiar à antropologia sociocultural. A crítica ao sistema de relações “do-
social inglesa, que pensa as relações a partir de um minantes” na terceira Declaração parece acrescentar
sistema em equilíbrio. Ao contrário, o desequilíbrio outros elementos em comparação às outras duas ver-
e o antagonismo entre o índio e o branco são uma sões. É mais direcionada no sentido de mostrar que os
constante no sistema, criando-o e dando mobilidade diferentes saberes, ao contrário de serem “problemá-
às relações sociais e marcando tensões. Para o autor, a ticos”, são benéficos à preservação da biodiversidade
etnia constitui-se um elemento significante da disputa ecológica. A biodiversidade ecológica é acrescentada
interétnica. Já a classe social seria componente de um como ponto de pauta importante nas discussões so-
outro sistema, especificamente econômico, o que não bre a economia e a política interna dos países, e das
significa que a classe social e a etnia sejam conceitos relações internacionais. Segundo o que diz a terceira
exclusivos e excludentes um do outro. Declaração, a ganância promovida pela suposta ne-
A Declaração de Barbados, nas suas três versões, cessidade de crescimento econômico ilimitado ainda
tenta refletir sobre os dois sistemas, o econômico e o está favorecendo a invasão de terras indígenas, dando

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continuidade a uma expansão colonizadora. A dife- antropólogo, mas também teóricas, pois conceitos
rença é que agora os índios estão respondendo, inclu- unitários como “nação” passam a ser revistos, favo-
sive com críticas ao modelo devastador da globaliza- recendo um reconhecimento de sociedades pluriétni-
ção econômica. O documento finaliza suas observa- cas. Os próprios nativos passam a produzir trabalhos
ções solicitando aos Estados Nacionais o cumprimen- antropológicos, estudando aspectos de sua história.
to de promessas consubstanciadas em Declarações, Isso tudo, segundo Arantes (1992), gera a necessida-
como a de Guadalajara, em 1991, na qual se coloca a de de autocrítica da antropologia sobre seu trabalho e
necessidade de respeito à identidade cultural. Solicita revisão do papel do profissional como ator nesse jogo
também a aprovação da Carta dos Direitos dos Povos de forças políticas, reconhecendo a não dissociação
Indígenas pela Organização das Nações Unidas. Esse entre os aspectos técnicos e políticos no seu trabalho
documento só foi aprovado em 20073. de pesquisador.
Arantes (1992), em artigo de livro que organiza Este breve resumo das mudanças de concepção
juntamente com outros antropólogos, sintetizando o e de postura sobre a questão indígena e das minorias,
seminário promovido pela Associação Brasileira de por parte dos profissionais, conta também um pouco
Antropologia no início da década de 1990, intitulado sobre a forma como antropólogos proeminentes no
“Desenvolvimento e direitos humanos: a responsabi- contexto dos debates foram se posicionando. Fala da
lidade do antropólogo”, levanta argumentos visando história de uma antropologia comprometida, que ar-
sintetizar as discussões ocorridas. São argumentos ticula a tarefa de ser tradutora da cultura do outro e,
que parecem seguir a linha da antropologia aplica- ao mesmo tempo, mediadora da “causa indígena” ou
da e comprometida com as populações que pesqui- das “minorias”, no plano prático, quando a ética e o
sa. Denuncia crimes contra os direitos humanos de compromisso passam a ser componentes da discussão
grupos étnicos e minorias e propõe uma postura crí- sobre o ofício, desde a década de 1970. Nesse caso, há
tica diante da ideia de desenvolvimento e progresso. uma forte relação entre a prática acadêmica e a prática
Informa um momento de transição pelo qual a antro- política, exatamente na contramão e em conflito com
pologia está passando, justamente por ter uma histó- a perspectiva desenvolvimentista adotada pela maté-
ria de práticas de relativização cultural que podem le- ria da revista Veja, em questão neste artigo.
var a uma postura humanista. Contemporaneamente, Logicamente essa tendência da antropologia
o “outro” parece ser reconhecido, muito mais como comprometida e engajada entrou em tensão no cam-
parceiro e interlocutor do que objeto de pesquisa so- po acadêmico, com aqueles que defendem a ciência
mente. A exploração irracional dos recursos em detri- pura ou básica. Debert (1992), no mesmo livro re-
mento dos que não acompanham essa mesma lógica, sultante do seminário resumido por Arantes (1992),
não é novidade na história das relações entre as etnias chama atenção para o fato de as diferenças ocorridas
que convivem em um mesmo território. Segundo o entre as duas modalidades de antropologia terem
autor, o que é novidade é a constituição de novas e implicações na própria regulamentação da profissão.
variadas formas de resistência dos grupos diretamen- Alguns consideram que o reconhecimento jurídico
te afetados, como é o caso dos indígenas. Isso não engessaria a antropologia na formalização burocráti-
tem implicações somente práticas na profissão do ca, descaracterizando-a como campo de estudo que

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O Índio, o “oportunista” e o estar no Brasil

nunca aceitou fronteiras. Outros já defendem essa re- artigo. Com relação ao parecer sobre o objeto de es-
gulamentação, entendendo a ABA como uma espécie tudo, essas tramas entre os elementos listados, nas
de conselho profissional. Mas há aqueles também que ciências humanas, para Veyne (1998) são misturas
vêem a questão sob uma perspectiva mais ampla, se- “pouco científicas”, no sentido rígido desta palavra,
gundo a qual o conhecimento em geral, e não somen- e muito humanas, de relações materiais e simbólicas,
te a antropologia, deve ser discutido do ponto de vista orientadas por finalidades e acasos. O cientista isola
ético, desde sua contribuição até a sua instrumentali- uma fatia da vida social segundo seus interesses e os
zação, para se tomar uma decisão sobre o reconheci- “fatos” aparecem com laços objetivos e importância
mento profissional. relacional. A trama composta na narrativa do cientis-
Entendo que para se compreender esse processo ta é organizada em planos diferentes, de acordo com
tenso e cheio de conflitos no âmbito da definição da cortes transversais e ritmos temporais distintos, como
profissão do antropólogo é preciso analisar a ciência uma análise espectral, pautada em um ponto de vista
como elemento estruturado pela sociedade e constru- ou perspectiva. Desta forma, como lembra Veyne, o
ído em constante interação com suas tramas, tensões, “fato” nada é sem sua trama. Ele não é um ser, mas um
movimentos e ambiguidades. A ciência é socialmen- cruzamento de possibilidades, de opções metodológi-
te construída. Desta forma, um de seus produtos, o cas do observador, assim como acontece em qualquer
“fato”, não pode ser entendido fora do contexto das outro tipo de saber, inerente às relações sociais. Nesse
relações sociais. A Antropologia não foge a essa regra. movimento, muita coisa falta e pouca coisa se inclui e
Veyne (1998) entende a definição de “fato” como algo se mostra.
que pretende ter organização natural, bem estrutura- Latour (2000) também ensina que o analista não
do, que esteja pronto e que seja inalterável. A exigên- pode ser visto como isolado de um contexto social de
cia que se faz ao cientista em geral, e ao antropólogo relações. Não é um solitário a refletir sobre o mundo,
em particular, portanto, parece ser a de tentar reen- mas também um agenciador de redes construídas no
contrar esta organização. cotidiano. O saber produzido nesse processo é con-
Para Veyne (1998), o fato é algo mais complexo: tingente e relativo a um tempo histórico, com base em
não tem organização natural, portanto, não é também oportunidades heurísticas, postas dentre as possibili-
um reencontro de sua organização. No caso das ciên- dades existentes e práticas eficazes no agenciamento
cias da sociedade, os “fatos” não podem ser isolados de redes de produção, sustentação e difusão. A ciên-
das tramas sociais; tanto no que se refere àquelas ine- cia, desta forma, passa a ser vista como atividade hu-
rentes ao objeto de investigação, quanto às construí- mana, produzida por pessoas que vivem um modelo
das na ciência em ação, na relação entre o pesquisador de sociabilidade instável e mutante.
e o pesquisado, em um contexto social mais amplo A ciência em ação não é ensinada em manuais.
de sociação, envolvendo a academia, os instrumentos Não existem caminhos melhores, normais e seguros.
teóricos e materiais, as instituições representativas O processo de construção do saber científico não é
da profissão, dentre outros, e aqueles instrumentos, muito didático, justamente porque o contexto das
instituições e discursos agenciados pelos grupos in- relações e redes construídas acabam não se apresen-
dígenas e quilombolas, “objetos” de análise deste tando a partir de rotinas, modelos fixos e definitivos.

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Assim, como ensina Veyne (1998), o mérito do cien- elaborados para o contexto, não no sentido pejorativo
tista não é ser profundo nem descobrir a essência das destes termos, mas no registro da “arte”. Na arte, tanto
coisas, mas saber julgar bem o “medíocre”, lidando há prescrições ou regras, quanto habilidades, gêneros
com os inúmeros sentidos relativos ao tempo e ao es- e padrões de beleza distintos. As reflexões nessa área,
paço concedidos a esse termo. portanto, são constituídas na tensão entre a “conveni-
Aquele que é cientista talvez tenha uma respon- ência” e a astúcia. Os conceitos rígidos, portanto, são
sabilidade maior do que meramente passar um co- relativizados e convertidos a uma flexibilidade prag-
nhecimento acondicionado em caixas-pretas4. Mais mática e contextual, adaptados a disputas por posição
do que supor que sabe, talvez ele tenha que mostrar de prestígio, seja dentre os pares, seja dentre interlo-
que tudo o que aprendeu teve uma forte carga de ex- cutores da pesquisa, e mediados por interesses.
periência prática. Ele teve que lidar com os condicio- Talvez o leitor desavisado possa encarar essa re-
nantes sociais envolvidos no processo da ciência em flexão como pejorativa, ao qualificar a prática profis-
ação, assim como produzir no campo científico, res- sional do cientista como mediada por interesses em
peitando os encontros de sociabilidade de seu campo detrimento do rigor “factual” do que registra e relata,
de atuação, como acontece com qualquer pessoa ao ou seja, regulado pelas relações também políticas de
lidar com instituições e saberes, componentes das re- disputa por posições. Muito pelo contrário. O antro-
des sociais mais amplas. A obra científica produzida pólogo é rigidamente orientado para pensar algumas
pelo antropólogo tem relação com o campo de forma- questões norteadoras. Existem regras formais a se-
ção e atuação, a linguagem e os sentidos produzidos rem seguidas. No caso dos laudos técnicos que ser-
em cada campo e a comunicação na construção de re- virão como base para as decisões sobre o reconheci-
des entre os pares, instituições, valores e grupos pes- mento de terras indígenas ou quilombolas, temos as
quisados. Portanto, o conteúdo da formação da obra seguintes questões que devem ser detalhadamente
está muito mais nos interesses e disputas por posição respondidas:
do que na verdade dos “fatos”. Por isso mesmo que
A terra em questão é tradicionalmente
o pesquisador não produz do jeito que quer. Tem a
ocupada por índios? Qual a terra ocupada
mediação de toda uma rede de relação entre pessoas, por este grupo indígena? De que forma se
normas e instituições. dá esta ocupação? Qual a importância das
O registro de “fatos” verdadeiros é acionado de terras para este grupo e sua manutenção?
acordo com os interesses e formas de relações esta- Quais as terras habitadas em caráter per-
belecidas pelos agentes envolvidos. O que se observa, manente? Quais as terras utilizadas para
portanto, é uma trama e não uma estrutura relacional suas atividades produtivas? Quais as terras
imprescindíveis à preservação dos recursos
fixa, nas análises e escrita dos profissionais que refle-
naturais necessários ao bem-estar do gru-
tem sobre sociedade e cultura. Os agentes tecem per-
po indígena? Quais as terras necessárias à
cursos, sejam eles ações ou discursos, que se cruzam
reprodução física e cultural do grupo in-
em vários sentidos, elaborados pelas suas urdiduras, dígena? (FUNDAÇÃO NACIONAL DO
pautadas em uma “arte de fazer” (CERTEAU, 1994). ÍNDIO, 2010)
A trama, portanto, é pautada em um ardil e enredos

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O Índio, o “oportunista” e o estar no Brasil

Estas questões são desmembradas em outras que Ao tomar uma postura analítica diante da maté-
ampliam a percepção do pesquisador de tal forma que ria, me vi na obrigação de amenizar o choque pro-
fica difícil dizer que os critérios são frouxos, como su- vocado por ela e tentar extrair algo mais do que uma
gere o artigo da revista. Penso que o problema está mera resposta, criticando ou criando controvérsia de
em outro lugar: na construção de uma negatividade forma mais agressiva. Por isso me detive a discutir so-
do campo e da prática política, na definição jurídica bre concepções de identidade e de pesquisa na minha
de um grupo indígena. Há uma tendência a pensar área de atuação, que é a antropologia.
a prática profissional do cientista, particularmente Nesse caso, há uma seleção de opções conceitu-
do antropólogo, como isenta de julgamentos, a par- ais, teóricas e metodológicas claras de minha parte.
tir de uma posição definida no espectro das opiniões Por isso que a análise feita não é neutra, muito menos
vigentes em tensão, o que remete a disputas políticas. imparcial, como já dito. Fiz escolhas, a partir de meus
Volto a dizer de uma forma mais enfática: não existe desejos, mediadas pelo contexto de produção e publi-
neutralidade ao lidar com a sociedade e a cultura em cação do que está escrito. Não podia fazer um mani-
nenhum campo profissional, nem mesmo no siste- festo em favor de minha profissão, já que o destino
ma judiciário. A política é intrínseca à produção de desse texto é ser um artigo acadêmico.
opinião, seja ela com os rigores necessários do campo A confusão entre análise e posição moral, se
acadêmico, seja ela sustentada pela informação jor- instaura quando o movimento reivindicativo por
nalística ou ainda na interpretação da Lei. Eu, como parte de ONG’s e alguns antropólogos, em prol do
pesquisador, não estou fora disso. reconhecimento étnico, que é de natureza política, é
interpretado pelos repórteres como algo desonesto.
Considerações finais: retomando argumentos
Logicamente que desconsideram o breve histórico
Toda esta reflexão sobre identidade e práti- de envolvimento político destes segmentos acusa-
ca do antropólogo me fez lembrar das questões que dos, lembrado nesse artigo a partir da Declaração
Goldman (2008) faz em outro campo de pesquisa. de Barbados. Essa mistura e essa classificação como
Quando li a matéria, lembrei desse autor e adaptei as negativa das atuações no campo político parecem
suas questão aos meus interesses, pensando comigo: ser comuns e, em muitos casos, dizer que uma dada
será que vou poder levar a sério o que eles dizem sobre manifestação é política, tornou-se categoria de acusa-
o índio e a minha profissão? Seria mais fácil afirmar ção. A política parece não ser vista como disputa de
o absurdo do que dizem e julgá-los como inescrupu- posições, opiniões e práticas. Parece haver uma ideia
losos e oportunistas, invertendo acusações levantadas corrente de que existe uma posição mais correta, por-
por eles ao falar de alguns índios, ONG’s e antropólo- tanto, imperativa e necessária, e as demais são usadas
gos. Estava certo que existe uma “verdade” em minha para derrubá-la, o que remete a um interesse somente
opinião, que rejeitava as afirmações dos jornalistas. pragmático em ocupar um suposto poder ou lugar de
Justamente por isso que as afirmações publicadas são prestígio em benefício próprio, como já dito no item
perigosamente chocantes. Se falassem de coisas rela- anterior.
tivas a “crenças” que não estão em conflito com meus O contrário disso é a isenção, a imparcialida-
valores, não me chocariam tanto. de e a neutralidade, o que geralmente é remetido à

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Nilson Almino de Freitas

honestidade e correção de conduta. Os cientistas, his- o pesquisador e o “outro”. Não é uma disputa dual, em
toricamente, parecem ser responsáveis por essa ideia que de um lado estão aqueles que possuem a razão
de que é possível ser neutro, e é por isso que o inte- e do outro aqueles “interesseiros” e desonestos. São
resse e a posição política acabam sendo confundidos vários lados que disputam, assim como ninguém está
como negativos. isento de interesses ou é totalmente honesto, seja lá o
Vale a pena pensarmos de outra forma, aceitando que isso queira significar. É justamente na imprecisão
que as relações sociais, independente do lugar em que da definição do que é “isento” ou “honesto” que os su-
elas ocorram, não podem ser construídas sem media- jeitos envolvidos jogam, fazendo com que o antropó-
ções e negociações de interesses e desejos. Isso vale, logo tenha que contextualizar e entender como isso é
tanto para a reflexão sobre a identidade étnica, quanto usado no cotidiano das relações, que são foco de sua
para a construção da prática profissional ideal. Esta atenção como pesquisador.
posição que assumo aqui não é sustentada por uma Notas
opção moral. É uma consideração de ordem metodo-
lógica. Justamente porque a política está em todos os 1 Cf.http://www.abant.org.br/conteudo/005COMISSOESGTS
/quilombos/NotaDiretoria ABAMat PublicadaRevVeja.pdf.
lugares, inclusive no ofício do pesquisador. Portanto, a 2 Cf.Oliveira, 1996.
identidade que se constrói, o parecer do perito, a maté- 3 Cf. no site http://www.un.org/esa/socdev/unpfii/documents/
ria jornalística, as reações dos leitores e a própria aná- DRIPS_es.pdf

lise disso tudo não é desinteressada. Ao antropólogo 4 Latour (2000) define caixa-preta como dispositivo de
segurança inspirado na cibernética, onde o que conta é
cabe reconhecer essa peculiaridade e saber lidar com o que nela entra e o que dela sai. Por mais complexo que
seja seu conteúdo, e por mais controverso que sejam suas
ela metodologicamente, muito mais acompanhando afirmativas, as teorias, os conceitos e o conhecimento
movimentos e tensões do que produzindo conclusões produzido nela acondicionados, passam a ser “o ponto
de partida” ou o “porto seguro” do qual todos acham que
essencialistas sobre “fatos”. Ele próprio está envolvido devem partir em aventuras incertas, mas sustentadas por
supostos instrumentais seguros e sólidos.
naquilo que analisa. Deve-se reconhecer que ao falar,
os argumentos se sustentam em uma posição e uma Referências bibliográficas
perspectiva em disputa com outras. Assim, pensando ARANTES, Antônio A., RUBEN, Guilhermo
aqueles que falam mal de certos “índios”, antropólo- R. & DEBERT, Guita G. (orgs.)(1992),
gos e ONG’s na matéria, entendo que não são isentos, Desenvolvimento e direitos humanos: a
responsabilidade do antropólogo. Editora da
muito menos inocentes. Mas acredito que emitem
UNICAMP: Campinas.
uma opinião que deve ser discutida e levada a sério,
ARANTES, Antônio A. (1992), “Por uma antropologia
justamente porque, só o fizeram porque há uma rede crítica e participante”. in.: ARANTES, Antônio
de relações e de instituições que os legitimam a fa- A., RUBEN, Guilhermo R. & DEBERT, Guita
lar daquela forma, como nos ensina Latour (2000) ao G. (orgs.), Desenvolvimento e direitos humanos:
a responsabilidade do antropólogo. Editora da
tratar da idéia de ciência em ação. Certamente não
UNICAMP: Campinas.
compartilho da opinião deles, mas me fizeram pensar
AZEVEDO, Reinaldo (Acesso em 20 de maio de 2010),
e reforçar a ideia de que a construção da identidade é Eles querem dar sumiço em 90% do território
um instrumento de luta no campo político e essa luta brasileiro e isso não é força de expressão. Disponível
deve ser elemento a ser considerado na relação entre em http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/

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O Índio, o “oportunista” e o estar no Brasil

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