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I.

A Idade Moderna enquanto mobilização

«Oxalá te caiba o destino de viveres


numa época interessante!»
Velha maldição chinesa.

Ainda é compreensível para seres humanos o moderno curso


do mundo desencadeado pelos homens? É porque cada vez mais
contemporâneos respondem negativamente a esta pergunta, não
só por instinto, mas também com argumentos, que muita gente,
em finais deste século interessante, fala de uma situação pós-
-moderna. Nos nossos dias, porém, a obscuridade da marcha do
mundo patenteia traços tão novos que nenhuma equiparação é
legítima entre as actuais confusões espirituais e as capitulações
pré-modernas da razão humana perante os enigmas do mundo.
Nenhuma evidência penetrava tão profundamente nas menta-
lidades pré-modernas como esta: as coisas acontecem sempre
de modo diferente do que se pensa. Pois, embora o pensamento
possa caber aos homens, a decisão continua, em todo o caso, a
ser assunto dos deuses. Se as coisas se passarem normalmente,
então sucedem de outra maneira - é este o a priori da expe-
riência prática da vida no mundo antigo, a qual não pode es-
quecer, nem um minuto, que os planos e os actos humanos se
movem dentro da tina de uma insuperável passividade. Com o
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advento da modernidade, porém, as coisas passam a correr tal forme se pensa, porque aquilo que acontece cada vez mais se
como os homens pensaram. Correm conforme foi pensado, por- realiza por nós o fazermos. Seria demasiado pouco dizermos
que os homens ocidentais - monges, comerciantes, médicos, que a Modernidade prometeu ser ela própria, doravante, a fazer
arquitectos, pintores e fundidores de canhões, in summa génios a história humana. No seu núcleo ardente, ela não quer apenas
e engenheiros - tratam de organizar de novo o seu pensamen- fazer história, mas também Natureza. Enquanto este século du-
to e porque a este se junta (apetece dizer: repentinamente) uma ro se aproxima do seu fim, vai-se espalhando a noção de que a
denominada «prática» que, como braço técnico do pensamento, história a fazer era um pretexto. O tema decisivo dos tempos
intervém no andar do mundo com um efeito revolucionário. A modernos é a Natureza que há a fazer.
Modernidade, enquanto complexo tecnopolítico, desequilibrou Assim que a utopia cinética da Modernidade é posta a desco-
por completo a antiga ecologia da potência e impotência huma- berto, o continente, aparentemente tão estável, da Modernidade,
nas. Impelida por uma mistura de optimismo e agressividade rompe-se, montanhas de problemas recém-erguidas avançam
que faz história, ela abriu a perspectiva da criação de um mun- para as nossas consciências, já nada é tal como nós o aprende-
do, em que as coisas se passam como se pensa, porque se pode mos nos bons velhos tempos modernos. Aquilo que aí se amon-
aquilo que se quer e se tem a vontade de aprender aquilo que toa até formar um insólito universo problemático são os para-
ainda não se pode. É a vontade de poder da capacidade própria doxos do próprio processo do mundo novo: sobre a história vem
que, nos tempos modernos, faz andar o curso do mundo. depositar-se uma pós-história, sobre a Natureza uma epinature-
Aliás, há apenas uma época denominada moderna, porque a za, sobre a Modernidade uma pós-modernidade. O carácter ine-
capacidade de actuação da humanidade ocidental, no período vitável da sobreposição de uma camada pós-moderna à Moder-
contemporâneo, pôde causar em si própria uma impressão tão nidade salta, entretanto, aos olhos de qualquer transeunte. Isso
arrebatadora que ela encontrou coragem para proclamar a orga- resulta de se observar que, mesmo modernamente, as coisas se
nização do mundo meramente através da sua própria acção. Na- passam de maneira muito diversa do que se havia pensado -
da mais se encontra latente no cerne gestual daquilo que hoje se não por o homem pensar e Deus ter outros planos, mas porque
designa - as mais das vezes, em tom defensivo - como o pro- um ter-de-acontecer-de-outra-maneira, inerente ao nosso pensar
jecto da Modernidade. O carácter de projecto próprio desta no- e agir e, incompreendido, perpassa com irresistível ironia atra-
va idade resulta da grandiosa suposição de que nela se possa, vés do projecto. As coisas acontecem de modo diferente do que
em breve, fazer correr a marcha do mundo de tal modo que já se pensou, porque se fez as contas sem o movimento. As coisas
só se mova aquilo que nós queremos, racionalmente, manter em acontecem forçosamente de outro modo, porque, ao invocar pe-
movimento através das nossas próprias actividades. O projecto lo pensamento e ao suscitar aquilo que há-de vir, sempre se põe
da Modernidade funda-se, por conseguinte, - o que ainda nun- também em movimento algo que não se pensou, que não se
ca foi claramente enunciado - numa utopia cinética: todo o quis, que não se teve em conta. E isso, depois, anda por si mes-
movimento do mundo deve passar a ser realização do plano que mo com perigosa obstinação. Nós adaptámo-nos às circunstân-
nós temos dele. Os nossos próprios movimentos vitais passam a cias com uma epinatureza feita de consequências da acção, que
ser, progressivamente, idênticos ao próprio movimento do mun- se escapam da nossa práxis «fazedora de história» como uma
do; o processo mundial, no seu todo, coincide progressivamen- physis secundária. As consequências do moderno processo
te com a nossa manifestação de vida; as coisas acontecem con- mundial que caminham por si próprias - é o que nós vemos
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com crescente mal-estar -, apoderam-se dos projectos contro- período da Modernidade. Entretanto, porém, o mais frágil de to-
lados; e da parte essencial do empreendimento da Modernidade, dos os seres, o homem, avalanche qui pense, já não é posto em
da consciência do automatismo espontâneo e guiado pela razão, perigo somente pela tempestade da vida, ele próprio desencadeia
irrompe um fatal movimento estranho, que nos escapa em todas as massas, pelas quais pode vir a ser sepultado.
as direcções. Aquilo que parecia uma saída controlada para a li- Com estas insinuações, mais líricas que outra coisa, atrás de
berdade, revela-se, agora, como o resvalar para uma incontrolá- nós, vamos agora, também analiticamente, tactear a nossa pro-
vel heteromobilidade catastrófica. Por ser incomensurável o gressão pela terra de ninguém, que se abre entre antigos concei-
muito que devido a nós acontece, efectivamente, tal como nós . tos e novas circunstâncias. Para se fazer o diagnóstico da época,
pensamos, connosco as coisas, no seu todo, correm de outro deve-se, hoje mais do que nunca, começar por confessar que
modo de uma forma explosiva. não sabemos o que sucede connosco. Aquilo que se segue são
É este o status quo pós-moderno, que é, a bem dizer, um lap- esforços para apreender o incompreensível, o que foi deixado
sus. Se, hoje, já pode haver um pós-modernismo filosófico, não virgem, deixado em branco no actual processo mundial. Talvez,
só resultante de poses nostálgicas e de humores exacerbados, presentemente, já nada mais se possa fazer senão instalar algu-
mas também de juízos, pois é porque, em vista do curso do mas testas de ponte da dizibilidade nos cegos e turvos torveli-
mundo, fortes argumentos nos dão a perceber que a utopia ci- nhos de acontecimentos. O autor não vai ao ponto de afirmar
nética da Modernidade rebentou. Puseram-se a rolar coisas (ou- que, nas páginas em apreço, já tenha tomado forma uma «teoria
tras até como escadas rolantes) que de modo algum se havia crítica» alternativa dos tempos modernos. O que ele afirma é so-
previsto, e das quais se tem sensatamente de duvidar de que ja- mente que, primeiro, as duas versões de teoria crítica até agora
mais possam ser apanhadas outra vez por uma acção humana e conhecidas (há que pensar, sobretudo, nas escolas marxista e de
desviadas para trajectórias não fatais. Francoforte) ainda permanecem sem sentido, porque ou não
Se houvesse que prover a deriva do actual «processo de civi- apreendem o seu objecto - a realidade cinética da Modernida-
lização» (esta expressão horrorosa queima as mucos as da boca de enquanto mobilização - ou não podem apresentar uma di-
ao ponto de as esburacar) com uma divisa filosófica, ter-se-ia de ferença crítica em relação a esta, já que elas próprias são, pelo
dizer que este se assemelha a uma avalancha que pensa. Isso o seu efeito, mobilizadoras; o que ele afirma, em segundo lugar, é
que é? Não o sabemos. No entanto, essa avalancha somos nós, que no diagnóstico do presente se tem de introduzir uma di-
indubitavelmente. Como tal, era difícil prever-nos, o que em na- mensão cinética e cinestética, porque, sem esta, tudo quanto se
da altera o facto de o espantoso alude se encaminhar agora, es- disser sobre a Modernidade passa ao lado do que há de mais
trondeante, para o vale. O processo da civilização (os buracos real. Só se pode designar como pós-modernos os exercícios de
começam a doer) evidencia-se como curiosidade ontológica de diagnóstico da época que se vão seguir, na medida em que estes
primeira ordem. Pois o que nele se torna facto consumado não é resultaram da disposição de formular o passivo do activo mo-
mais nem menos do que uma catástrofe natural que reflecte so- derno. O pensamento em posição pós-moderna é um pensamen-
bre si própria. Como tudo quanto é fatal, também isso é, filoso- to que, expressamente, acolhe em si os represamentos, os re-
ficamente, muito interessante. A avalancha que pensa é o equi- moinhos, os vácuos, as depressões, que fazem parte da
valente técnico avançado e pós-cristão do cálamo que pensa de espontaneidade despertada pela Modernidade. Talvez a pós-
Pascal que, em tempos, estremecia ao sopro gélido do primeiro Modernidade se reconheça, filosoficamente, antes de mais na-
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da, pelo facto de esta transformar as orgulhosas frases na voz 10 facto de a história planeada com a melhor das intenções não
activa da Modernidade em frases na voz passiva ou em locuções ser bem sucedida, nem a culpa incumbe ao Satanás-, nem tão-
impessoais. Revela-se aí não só um compromisso gramatical, -pouco se pode tornar directamente responsável por isso uma hi-
mas também um ontológico - trata-se de nada menos do que poteca kármica dos sujeitos actuantes que tivesse ficado por pa-
da possibilidade de inserir na interpretação contemporânea do gar. O que faz com que o movimento histórico se desvie do
sentido do «Ser», além de feitos, produções e ajustes, também rumo é a qualidade do próprio movimento histórico. Quem se
sofrimentos, acontecimentos e processos. A Modernidade move, move sempre mais do que apenas a si próprio. Quem faz
sobrealimentou-nos com teorias da acção, mas do padecer nun- história, faz sempre mais do que apenas história. Esse mais é o
ca soube nada mais senão que pode ser «utilizado» como motor demónio do erro tipográfico, que desfigura o texto tão bem
para acções. Mas como seria se, nos inúmeros pontos de parti- composto - é o excedente cinético que, ultrapassando os limi-
da culturais para pós-modernismos, se anunciasse, hoje, a ne- tes e passando ao lado dos alvos, se precipita para aquilo que se
cessidade de desenvolver uma consciência apaixonada da fini- não quer. O fatal mais entra no impulso dado às massas inertes,
dade humana, uma consciência dessa segunda passividade, que que, uma vez postas em circulação, de finalidades morais nada
só se pode formar no reverso do projecto Modernidade? Que mais querem saber. O capital cinético faz explodir velhos mun-
significa, visto desde uma segunda passividade, o mundo histo- dos, não porque tenha algo contra eles, mas apenas porque é seu
ricamente movimentado? Que significado encerra para nós a princípio não se deixar deter. Não pode fazer outra coisa senão
história feita ou a fazer, da qual os filósofos determinantes da pôr as circunstâncias a dançar ao som de melodias aceleradas.
Modernidade tanto esperavam? Se, realmente, os tempos mo- Põe rios de mercadorias a correr, frotas a cruzar, escadas rolan-
dernos foram uma revolta do sujeito contra a sua primeira pas- tes a deslizar, atmosferas a mudar, faunas a desaparecer. Já lá
sividade - outros falam de uma campanha para sabotagem do vão os tempos ingénuos, em que era dado aos homens pensar
destino -, que se há-de, pois, opinar da segunda passividade que se tinham de mover para que o mundo andasse para a fren-
que, enquanto sofrimento com a história, enquanto mal-estar te. Entretanto, o movimento, o movimento puro, passou a andar
com o poder-fazer-história e como constrangimento para aderir à solta. Enquanto os amáveis defensores dos avanços alcança-
a esse grande empreendimento duvidoso, pesa sobre a vida mo- dos nos tempos modernos se debruçam sobre teorias do com-
derna? portamento humano e discutem acerca de normas da fundamen-
À margem da Modernidade, a história e o destino travam ou- tação (última) da acção (com certeza que em breve serão
tra vez duelos imprevistos. É como se através dos feitos e dos promovidos a directores dos Parques Nacionais da Modernida-
autores do acontecer histórico se impusesse uma carga quase de, que hão-de ser criados dentro em pouco), espalha-se pelo
kármica, que frustra os projectos e intenções dos sujeitos que resto do mundo uma maldosa suspeita: talvez a cinética seja o
actuam. Essa ironia «kármica» é aqui analisada em conceitos ci- LI stino?
néticos. Pois que, também modernamente, as coisas corram de
maneira muito diferente do que fora pensado, isso nem é um te- A não ser que se aceite a identificação do mundo com o satânico, pura e sim-
pl .smente; como o fez Emst Bloch, quando, com uma idade avançada, acabou por
ma da filosofia da história, tal como esta foi concebida, nem é
p I' em cima da mesa as cartas gnósticas. Cf.: Experimentum mundi, capo 45,
susceptível de se interpretar satisfatoriamente com a clássica «Aufklãrung und Teufelsglaube, die Fortdauer des Widersacherischen» (lluminis-
ideia oriental do karma como causalidade moral dos actos. Pe- lHO e crença no Diabo, a permanência do satânico).
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1. A mobilização do planeta segredo mais bem guardado da Modernidade. Aquilo que nin-
através do espírito da auto-intensificação guém queria propriamente saber consubstancia-se numa forte
evidência. O que não é agradável a ninguém como conheci-
A cinética filosófica, que se encontra na base da interpretação mento impõe-se à reflexão com uma aborrecida coerência. Uma
d~ presente aqui esboçada, parte de três axiomas. Primeiro, que vez pronunciado, o segredo traído suscita igualmente a questão
nos nos movemos a nós próprios num mundo que se move a si de saber porque é que a mais notória das realidades não mere-
próprio; segundo, que os movimentos próprios do mundo in- ceu há mais tempo atenção generalizada. Alguns urbanistas, um
cluem e atropelam os nossos movimentos próprios; terceiro, punhado de militares dados a especulações, foram os primeiros
que, na Modernidade, os movimentos próprios do mundo pro- a sabê-lo; filósofos suspeitos, que desconfiavam da Modernida-
vêm dos nossos movimentos próprios, que cada vez mais se adi- de, apoderaram-se do assunto, e foi por eles que os esquizóides,
c~onam ao movimento mundial. A partir destes axiomas, é pos- nos cenáculos teóricos das grandes cidades, se deixaram entu-
slv~l grosso modo desenvolver plenamente a relação de mundo siasmar; uns quantos folhetins mundanos aproveitaram a opor-
antigo, mundo moderno e mundo pós-moderno. tunidade. Em breve, muitos serão os que vão dizer que sempre
Se se quiser produzir uma visão do mundo moderno na sua o souberam. Mas, então, o quê? Ora, essa realidade trivial que é
mobilidade prenhe de catástrofes, então, tem de se partir do fac- a cinética ser a ética da Modemidade.
to que o actual processo mundial recebeu a sua dinâmica das O que há de inquietante, até mesmo de obsceno, na revelação
iniciativas humanas acumuladas através dos séculos. Por conse- dessa realidade só superficialmente se consegue atenuar por
?uinte, uma percep.ção dos tempos modernos, que queira pôr-se meio de uma referência às doutrinas do progresso, de há muito
a altu~~ d~ a~onteclmento real, pressupõe algo a que até agora a conhecidas. Nestas, a própria ligação entre a moral e a cinética
conscrencm mtelectual se opôs com êxito: uma física da liber- ainda parecia estar moralmente controlada. Efectivamente, a
dade, uma cinética das iniciativas morais. Digamo-lo aberta- Modernidade definira-se, desde o princípio, também por con-
mente: isto é o fim do estetismo na teoria da civilização. Aqui- ceitos cinéticos, porquanto caracterizava como progressiva e
lo que parecia ser o mais vazio, o mais exterior, o mais progressista a sua forma de execução e de realização. Progresso
m~cânico, o movimento, que se havia deixado sem inveja ao é o conceito de movimento, através do qual a consciência ético-
c~ldado dos físicos e dos médicos desportivos para investiga- -cinética própria dos tempos modernos se exprime em voz mais
çao, penetra nas ciências humanas e revela-se, de repente, como alta e, em simultâneo, se dissimula mais hermeticamente. Quan-
a categoria principal igualmente na esfera moral e social. do se fala em progresso, está-se a referir o fundamental motivo
S,o~ o signo do movimento, as aventuras estético-políticas do cinético e cinestético da Modernidade, a qual tem apenas em
espírito humano tomam-se um ramo da física. Enquanto por to- mira desembaraçar dos seus limites o automovimento da huma-
do o lado no Ocidente se reúnem as comissões de ética en- nidade. No começo do progresso supunha-se, tanto com razão
quanto por toda a parte pessoas de boa vontade sacrificam os como sem ela, estar uma iniciativa «moral», que não pode des-
seus fins-de-semana para discutir, em academias evangélicas e cansar enquanto o melhor não for realidade. A experiência de
centros de estudos políticos situados em locais idílicos, acerca um progresso real ensina-nos que uma iniciativa humana prenhe
dos princípios de uma nova moral, ressuma para o exterior dos de valores sai «para fora de si», rebenta com os antigos limites
estúdios da investigação hermética e filosófica fundamental o da sua mobilidade, alarga o seu campo de acção e se impõe,
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com boa consciência, frente a entraves internos e a resistências passos». Isto fornece-nos a fórmula dos processos de moderni-
externas. zação: progresso é movimento para o movimento, movimento
Foi nas doutrinas políticas, tecnológicas e histórico-filosó- para mais movimento, movimento para uma capacidade de mo-
ficas do progresso que a época ainda presente formulou a sua vimento incrementada.
concepção cinética de si mesma. O que ela não reconheceu em É tão-só por isto ser válido que, na Modernidade, a ética po-
voz alta foi, porém, a sua tendência oculta para só levar a sério de provir directamente da cinética. Já não há imperativos éticos
os motivos morais na sua qualidade de motores de movimentos de tipo moderno que não sejam, ao mesmo tempo, impulsos ci-
exteriores. Faz parte da essência dos processos progressivos co- . néticos. O imperativo categórico da Modernidade reza assim:
meçarem com iniciativas éticas, para seguirem em frente num para actuarmos continuamente como seres de progresso, deve-
automatismo cinético. Continua sendo um dos grandes segredos mos ultrapassar todas as situações em que o homem seja um ser
do «progresso» como é que este conseguiu, aquando da sua ig- peado nos seus movimentos, imobilizado em si, desprovido de
nição inicial, fundir moralidade e física, motivos e movimentos liberdade, deploravelmente fixado-'.
numa unidade de acção. Esse segredo leva ao centro activo da- Na medida em que nós, enquanto sujeitos modernos, entende-
quilo a que a filosofia contemporânea chama subjectividade. mos a priori a liberdade como liberdade de movimentos, o pro-
A sua essência é inseparável da misteriosa força de iniciativa gresso é apenas concebível para nós como aquele movimento
que se manifesta como a capacidade de pôr em marcha novas que leva a uma capacidade de movimento mais elevada. Em
séries de movimento intituladas acções. Se, efectivamente, exis- conformidade com o seu sentido gestual, os movimentos pela li-
te algo como o progresso, então é porque, inegavelmente, ocor- berdade são sempre passos para a liberdade de movimentos;
rem movimentos que nascem da subjectividade. Eles são, em mesmo quando se fala de autodeterminação, pensa-se sempre
termos cinéticos, a matéria de que é feita a Modernidade. Se um em movimento próprio. Antes de qualquer distinção entre ser e
sujeito chega ao ponto de pôr em prática a ideia de «progresso», dever, o sentido de «ser», na Modernidade, é entendido como
é porque nele já actua esse auto-inflamador que inicia movi- dever ser e como querer-se a si mesmo de mais mobilidade.
mentos espontâneos de tipo progressista. Quem realmente sabe A Modernidade é, ontologicamente, puro ser-para-o-movi-
o que é progresso, move-se já no pensado - sabe-o, porque já -mento. Esta interpretação do ser é válida para nós pelo facto de
progrediu e continua a progredir. Quem percebe o que é a Mo- graças a nós ela se tomar irresistivelmente real. É irresistivel-
dernidade, somente a pode perceber com base nesse automovi- mente válida, porque é ina1cançável para movimentos contrários
mento auto-ignificante, sem o qual a Modernidade não existiria. e moralmente ruinosa para objecções. Toma-se real, porque é
Tem, na sua autogeração, de já ter dado um bom passo em fren- posta em prática por nós sob a forma de uma autovolição espon-
te - aquele passo que continua sendo o elemento cinético do
progresso ulterior. O progresso é desencadeado por esse passo
3 Foi Marx quem primeiro descortinou a mistificação moral do elemento cinéti-
para o passo que começa por se iniciar a si próprio para, depois, co. Achou que a «lei moral» kantiana não corresponde tanto à interioridade de
se ultrapassar a si próprio. Por isso, o conceito de progresso não lima consciência do dever, mas que a própria consciência é susceptível de ser mo-
significa uma simples mudança de posição, na qual um agente bilizada enquanto dever para a revolução. O imperativo categórico é, por conse-
iuinte, uma norma menos ética do que cinética: diz menos aquilo que tu deves fa-
avança de A para B. Progressivo, na sua essência, é somente zer do que aquilo que tens de derrubar para o poder fazer, nomeadamente todas
aquele «passo» que leva ao incremento da «capacidade de dar tiS circunstâncias que entravam o potencial cinético do homem.
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Peter Sloterdijk

tânea e incriticável. No ser-para-o-movimento, pulsam os moti- passos do progresso conduziu, simultaneamente, a movimentos
vos que parecem vir do âmago daquilo que nós próprios quere- forçados de um novo tipo, que podem competir, em termos de
mos e devemos querer. Se, realmente, o processo fundamental hcteronomia e de energia geradora de miséria, com os apertos
da Modernidade se apregoa como «movimento de autolibertação mais sufocantes dos tempos pré-modernos.
d.a humanidade», então trata-se de um processo que nós, pura e O «dinamismo» moderno contribuiu para uma manutenção
SImplesmente, não podemos não querer e de um movimento que da rigidez mais desprovida de espírito sob formas supermóveis.
nos é impossível não fazermos. Parece estar em acção, aí, um au- Quem quiser saber o que isso significa em particular, tem de
tomatismo moralo-cinético que não só nos «condena à liberda- procurar a resposta certa à seguinte pergunta: que têm em co-
de», mas também ao constante movimento de libertação. mum os autómatos, as empresas industriais e o pessoal dirigen-
Se rememorarmos em termos pessoais as grandes transfor- I na política e na economia? - e descobrir que esses três ele-
mações do mundo moderno, pois logo notamos uma profunda Inentos encerram a lição cinética ideal para cidadãos da
contradição nos nossos passos para uma mobilidade acelerada. Modernidade, pois demonstram-Ihes eficientemente o que o au-
Na verdade, os avanços das gerações modernas em matéria de lomovimento pretende e faz: intervir para continuar em acção,
movimento transmitiram-nos enormes espaços de manobra em pôr-se em marcha para se manter a todo o custo em an~amento.
numerosos domínios, e é quase miraculoso o que os membros (~essa a Alta Escola da automação, que não conhece diferenças
das burguesias e classes médias contemporâneas conquistaram fundamentais entre máquinas inteligentes e agentes humanos.
em termos de mobilidade, no decurso de escassos dois séculos , uando o Eu cinético se põe em movimento e toma a iniciativa,
no terreno da política, da economia, da língua, da informação, ntão toma-se de moto «próprio» agência central do empreen-
da circulação, da expressão e da sexualidade. Há nisso uma evi- dimento auto-activado.
dente «tradição cinética da Modernidade», independentemente Esse sujeito da iniciativa, que se refina a si próprio, é o mo-
de quão duvidosa se possa apresentar a respectiva transmissibi- I \iro no «moinho que se mói a si mesmo» dos tempos modernos
lidade ulterior. Mas em vez de encaminhar os agentes da Mo- assim chamou o poeta Novalis em 1799, no seu ensaio sobre
dernidade para uma mobilidade plena de espírito+, a maioria dos \ Europa, ao princípio de funcionamento do complexo homem-
natureza-fábrica, que fora posto em marcha por meros Eus-
.rnpresários prosaicamente automovidos, por protestantes, Bri-
4 o espírito teve, tradicionalmente, uma relação precária com o movimento - I, nicos, Prussianos e professores. Pela mesma ocasião, Novalis
salvo dizer-se a seu respeito que ele sopra onde quer (o que se deve, talvez, en-
formulou também pela primeira vez o conceito de utopia ciné-
tender como um galanteio aos inspirados, e o que, além disso, é suposto explicar
que, quando reina a calmaria, a culpa não é nossa). Se quiséssemos formular de Ii 'a da Modernidade, porquanto, na imagem do «moinho em
mo?o pos.itivo essa relação, seria possível caracterizá-Ia, provisoriamente, por i», no «autêntico perpetuum mobile» que é «movido pela cor-
~elo de CInCOcritérios: contextualidade (o espírito compreende aquilo que anda 1 .nte do acaso e vai flutuando sobre ela», uniu mentalmente os
~ s~lta ~ora dele), autopercepção (também pressente como ele próprio está), auto-
limitação (nota quando é o bastante), reversibilidade (tem «folga», pode aquilo dois tipos de movimento, o automovimento endógeno e o hete-
que pode, para a frente e para trás) e espontaneidade (pode não só continuar fa- romovimento exógeno, numa mobilidade comum - numa mo-
ze~do como até agora, mas também começar de novo; em caso de necessidade, hi Iidade, é certo, em que o elemento dinâmico é, ao mesmo tem-
ate.surpreender-se a si próprio). Estes critérios somente em conjunto garantem o
po, o desconsolador: uma deriva propulsionada pelo Eu em
~felto do «pleno de espírito»; separados uns dos outros, garantem disparates inte-
ligentes (por exemplo, a nossa vida, tal como ela é). dlrccção ao que é insensato, catastrófico, desenfreado, mortal.
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o poder diagnóstico das formulações de Novalis só hoje nos _ que já estamos, há muito tempo, expulsos do paraíso da Mo-
aparece em todo o seu alcance. Entretanto, ficámos sabendo, dernidade e que, de futuro, teremos de aprender com o suor do
sem que se tivesse de soprar um bafo de ironia romântica, o que nosso rosto o arranca e pára pós-moderno. É por isso que (além
o sujeito consegue fazer na «sua» máquina, ainda que esta não das lendárias avarias no abastecimento de energia eléctrica a
seja exactamente um moinho que mói por si próprio. A socieda- Nova Iorque, perante as quais bem se pode ficar pensativo), os
de moderna até realizou mesmo, pelo menos um dos seus pla- grandes engarrafamentos estivais nas auto-estradas da Europa
nos utópicos, o da completa automobilização, aquela situação Central são fenómenos com valor de referência em termos de fi-
em que cada sujeito adulto se move a si próprio, ao volante da losofia da história, até mesmo com significado no plano da his-
sua máquina que se move a si própria. Como, na Modernidade, tória das religiões. Devido a eles, acaba em fracasso um troço
não se pode de maneira nenhuma conceber o sujeito sem o seu de errónea Modernidade, neles se nos depara o fim de uma ilu-
movimento, o Eu e o seu automóvel estão metafisicamente cor- são: eles são a Sexta-feira Santa cinética, em que se extingue a
relacionados como alma e corpo da mesma unidade de movi- esperança na redenção pela aceleração. Nessas tardes ardentes,
mento. O automóvel é o substituto técnico do sujeito transcen- no funil de Lyon, no inferno do vale do Reno junto a Colónia,
dental activo por princípio. encravados no Irschenberg, no mais longo parque de estaciona-
Por isso, o automóvel é o que há de mais sagrado na Moder- mento da Europa, tendo, quer à sua frente quer atrás de si, cin-
nidade, é o centro cultual da religião universal cinética, é o sa- quenta quilómetros de chapa acumulada a escaldar ... então, as
cramento rolante que nos proporciona a participação naquilo negras visões em matéria de filosofia da história sobem como
que é mais rápido do que nós próprios. Quem guia um automó- gases de escape, então, ao jeito glossolálico, escapam dos lábios
vel aproxima-se do numinoso, sente como o seu pequeno Eu se de cada um críticas à civilização, das janelas laterais saem ne-
engrandece até se tornar um sujeito superior, que nos dá como crológios à modernidade e, independentemente das suas habili-
habitat todo o universo das vias rápidas e nos torna conscientes tações literárias, insinua-se nos ocupantes dos veículos o pres-
de que estamos destinados a algo mais do que a uma vida se- sentimento de que isto já não pode continuar assim por muito
mianimal como peões. tempo. Uma outra «era» projecta antecipadamente a sua som-
Sob o ponto de vista automobilístico, vivemos por uns tem- bra. Mesmo quem ainda nunca tenha ouvido a palavra pós-
pos na era messiânica, cumprida, em que os veículos com mo- -modernidade, já se familiarizou com o assunto nessas tardes
tor a dois tempos estacionavam pacificamente ao lado dos car- passadas nos engarrafamentos. E, efectivamente, isso pode
ros com doze cilindros - pouco poluente, o messias reinava no reformular-se em termos de teoria da civilização, pois em toda
seu reino; com injecção electrónica e sistema antibloqueio, com li parte onde automovimentos desencadeados formam conges-

catalizador regulado e turbocompressor de sobrealimentação, tionamentos ou redemoinhos, surgem condições para experiên-
ele levava os seus numa viagem celestial. Mas nem todos os cias, nas quais o activo moderno dá lugar ao passivo pós-
contemporâneos se deixavam convencer de que esse reino final moderno.
automóvel fosse já igualmente o Paraíso na Terra. O mafarrico Que se pode extrair destas vacilantes considerações para uma
tinha mão no jogo e tratou de conseguir que do automovimento t soria rigorosa da actualidade? Elas já contribuem suficiente-
geral saísse, por acaso, a imobilidade geral. Em tais momentos, mente para a sequência, se ajudarem a organizar as sugestões
torna-se-nos manifesto - ainda que ninguém o queira admitir das quais resultará o nosso próximo passo. Este ocorre de tal
38 Peter Sloterdijk A Mobilização Infinita 39

maneira que nós empregamos com franqueza o conceito de mo- ção é uma categoria do universo bélico, que abrange os proces-
bilização como expressão principal para descrever e explicar o sos críticos graças aos quais potenciais de combate em estado de
processo fundamental da Modernidade. Sem atender precipita- repouso são levados à prontidão para entrar em acção. A relu-
damente ao inevitável espanto perante a escolha de um tal con- tância perante a noção assim designada e, por maioria de razão,
ceito e suas consequências inerentes, trata-se apenas, por agora, a aversão pela coisa real, não nos podem impedir de-ver que o
de corroborar a evidência: as modernizações, para nós, apresen- modelo cinético básico desse procedimento - enquanto auto-
tam sempre, do ponto de vista cinético, o carácter de mobiliza- -actualização em vista da entrada em acção - não é de manei-
ções. Também se podia, naturalmente, proceder de modo induti- ra nenhuma uma especialidade militar, mas que traduz o princí-
vo, discreto, e, por assim dizer, com métodos próprios da pio fundamental de todos os empreendimentos modernos de
infantaria, reunindo, pela via de uma lenta recepção de provas, automovimento. O horror das belas almas pela palavra poderia
inúmeras descrições periféricas acerca do actual status-lapsus- facilmente tentar-nos a renunciar ao único conceito que identi-
-quo dos processos na biosfera e na noosfera. Que se multiplica fica e designa o modelo dinâmico da modernização.
o número dos milionários nos negócios; que as borboletas da Neste contexto, não se pode deixar de pensar em certas obras
nossa infância já não existem; que as curvas do turismo em paí- mal-afamadas de Ernst Jünger que, como é sabido, já no come-
ses distantes e das despesas com o armamento mostram uma sig- ço dos anos trinta havia separado o fenómeno da mobilização da
nificativa tendência para subir; que as populações explodem nos sua acepção especificamente militar, para o transpor para o mo-
países em vias de modernização, enquanto as dos países moder- derno processo social no seu todo. Desde há meio século que,
nizados estagnam; que os buracos do ozono por cima dos pólos em termos de história das ideias, essas suas afirmações estão em
se expandem agressivamente; que a venda de sapatos de corrida depósito - não utilizadas, envoltas em escândalo, inaceitáveis,
está florescente e a de equipamento para surf está em baixa; que mas, sobretudo, não examinadas: mais odiadas do que refuta-
as árvores nas montanhas de altitude média mudam de cor e for- das, mais discriminadas do que ultrapassadas. A reserva geral
mam copas em jeito de escova; que a fruta sul-africana está pre- relativamente às reflexões de Jünger, suspeitas de fascismo,
sente em mercados semanais na Baviera; que o tempo de voo tem, efectivamente, o seu fundamento. Quem quiser adoptar a
dos mísseis nucleares soviéticos desde os Urais até Bad Godes- sua óptica impiedosa para análise dos processos da Modernida-
berg se cifraria em quatrocentos e vinte segundos, etc. Mas a in- de tardia, ainda que seja só a título de experiência, arrisca-se a
finidade de semelhantes autos de declarações só faz sentido se passar, no plano da filosofia da história, por uma estrada de Da-
estas tiverem encontrado no conceito de mobilização o seu de- masco. Muito para além das intenções de Jünger, a categoria da
nominador comum, que faz, simultaneamente, um depoimento mobilização pode facultar pontos de vista que não são compatí-
essencial sobre os numerosos processos separados; o que hoje se veis com o sono dos justos no projecto da Modernidade. A fór-
passa, no essencial, é o fenómeno da mobilização. Para além da mula ominosa da «mobilização total» prepara-nos para o reco-
multiplicidade das diversas interpretações, a Modernidade en- nhecimento, que continua sendo escandaloso, até quase
quanto processo reporta-se a um modelo cinético, que é suscep- insuportável, de que há no mundo moderno um processo funda-
tível de se identificar como o de uma mobilização. mental político-cinético que tende a neutralizar de facto a dife-
Quem ficar chocado com a conotação militar da expressão, rença, moralmente importante, entre guerra e trabalho e anula
tem, num primeiro tempo, uma impressão correcta. A mobiliza- .ada vez mais a antiga distinção entre a situação de reserva e a
40
Peter Sloterdijk A Mobilização Infinita 41

entrada em acção. É esse, precisamente, o fatídico processo de sociedade da aprendizagem? - A primeira talvez produzisse
mobilização, que encaminha para a «frente» tudo quanto seja um pouco de fuligem, a segunda será tão limpa como uma re-
reserva de forças e impele para a realização tudo quanto seja po- trete nas áreas de serviço das auto-estradas suíças.) Justamente
tencial. Dos exercícios duvidosos de Jünger - o homem mau, porque o conceito de mobilização, devido às componentes fatí-
que será citado a grande distância, embora nunca sem respeito dicas, até mesmo devastadoras, do seu significado, se opõe a
pela sua capacidade de percepção> - no sentido do diagnósti- uma leitura inteiramente positiva (a vigorosa tentativa feita por
co da época, resultou, por fim, a definição (até ao presente, em Jünger nesse sentido é irrepetível), também se presta como ne-
lado algum retomada) da técnica contemporânea como a «mo- nhum outro para descrever um mecanismo «civilizador» que
bilização do planeta pela figura do trabalhador» - este último utiliza todos os acréscimos modernos em poder e saber, em mo-
não designa, evidentemente, o sujeito marxista da história, o bilidade, precisão e eficácia, para processos de endurecimento e
proletariado, mas o sujeito planetário da mobilização, o tipo hu- de mortificação, para armamentos, expansões, para se arrogar
mano de alta eficiência, vibrante de boa forma física, insensibi- plenos poderes e romper conexões. A mobilização, enquanto
lizado à dor, neopragmático, na sua resoluta intervenção a favor processo fundamental autógeno da Modernidade, leva a pôr à
do sistema de acção que se exalta, se arma, se atira para a fren- disposição potenciais de movimento sempre crescentes, para
te, ou, como também se diz, se volta para o futuro (que este se manter posições que, precisamente devido às condições prévias
denomine empresa, classe, povo, nação, bloco ou Estado mun- e às consequências desses estados de prontidão, se tomam im-
dial, isso já é indiferente, a esse nível de acção). possíveis como posições e impelem para o insustentável. Abre-
Se quisermos, agora, em circunstâncias muito modificadas -se, aqui, para uma crítica alternativa da Modernidade, o vasto
empreender uma nova tentativa para tomar o conceito de mobi- campo dos paradoxos cinéticos. Assim, a crítica da sociedade
lização útil a uma teoria da Modernidade (decerto, por outras toma-se crítica da falsa mobilidade. Se, após a derrocada do
vias que não as de Jünger, detentor da condecoração Pour-le- marxismo e depois do ambíguo ensurdecimento das escolas de
-Mérite), isso só pode ser prometedor desde que admitamos o Francoforte, ainda pode haver uma terceira versão de teoria crí-
mal-estar provocado pelo conceito e o façamos trabalhar a favor tica de um tipo exigente, então com certeza que só sob a forma
de uma perspectiva crítica. Este conceito manterá viva a recor- de uma teoria crítica do movimento. O seu critério terapêutico
dação da essência violenta dos processos cimeiros - tanto cien- consistiria na diferenciação, caso esta se possa conseguir com
tíficos como militares e industriais -, precisamente numa épo- exactidão, entre autêntica mobilidade e falsa mobilização. A sua
ca em que estes entram num estádio sofisticado, no qual a ofensiva exigência de verdade basear-se-ia no reconhecimento
violência se toma informativa, tíbia, processual e analgésica. de que há, em questões cinéticas, um espectro que se estende
(Qual é o lema da nova fase? Passar da indústria pesada para a desde o fisiológico até ao político. Graças a uma teoria crítica
informação rápida? Transição da sociedade do trabalho para a da mobilização, lançar-se-ia uma ponte sobre o abismo existen-
te entre o processo mental e o acontecer real, no plano dos con-
ceitos fundamentais - já não haveria mais pensamento «exte-
5 Como exemplo de trato franco com um outro homem mau do nosso século, Carl
Schmitt, o pensador da guerra civil mundial, pode servir o pequeno escrito de Ja- riormente», o teórico teria de perguntar a si próprio, a cada
cob Taubes, publicado postumamente, Ad Carl Schmitt- Gegenstrebige Fügung proposição, se o que ele próprio faz o sacrifica ao ídolo da mo-
Berlim 1987. '
bilização ou se acontece em virtude de uma nítida diferença re-
A Mobilização Infinita 43
42 Peter Sloterdijk

lativamente a esta. Pois uma teoria já só pode ser crítica, inde- plicar, não de nos mostrar como se faz. A questão da possibili-
pendentemente daquilo que transporta em termos de semântica dade de uma «terceira» teoria crítica, essencialmente diferente,
crítica, desde que denuncie a sua cumplicidade cinética com a vai, assim, desembocar no enigma clássico: como é possível a
mobilidade do processo mundial na pior de todas as direcções calma na tempestade para seres do princípio ao fim condenados
possíveis. Por isso, tem de ficar em suspenso a questão de saber à acção?
se ainda pode haver uma tal «terceira» teoria crítica, não só Percebe-se, agora, o que a recordação do movimento nos pro-
quanto ao valor nominal, mas também quanto ao sentido efecti- porciona: a aproximação ao ponto, epistemologicamente abis-
vo. Se ela for possível, então concretizar-se-ia, desde o princí- . sal, em que uma teoria sem sapiência já nem sequer vale nada
pio, como escola preparatória da desmobilização. Somente co- como teoria. Deveria a cinética, precisamente, tomar-se uma es-
mo tranquila teoria do movimento, somente como silenciosa cola de serenidade? Mal se pode imaginar o que os físicos e os
teoria da ruidosa mobilização, é que uma crítica da Modernida- metafísicos dirão a esse respeito. Mas seja o que for que eles te-
de ainda pode ser diferente do objecto criticado; tudo o mais é nham a objectar, aqui deve começar-se, no lado passivo de enér-
cosmética racional da comparticipação, choque consciente ou icas automobilizações, a entrar numa investigação do
inconsciente entre comboios de qualquer maneira em movi- processo-progresso que, através de nós, passa a toda a pressa
mento, mimese do processo básico no processo reflexivo. por cima de nós. Por isso, perguntamos, em vista do que acon-
Semelhante crítica «silenciosa» não pode, porém, produzir I ceu, o que foi, então, aquilo que se passou de maneira com-

ela mesma o seu próprio início, a sua origem, por desejo de pro- pletamente diferente? Passou-se de modo tão diferente do que
ceder de outra maneira. O facto de não o poder fazer é um dos se pensara, mas como havíamos nós de tê-lo pensado?
enigmas que se dissimulam no falatório generalizado acerca do
pós-modernismo. Pois quem pretendesse estar depois da Mo-
dernidade, haveria com certeza de ter passado por ela e de tê-Ia 2. Esboço para delineamento de uma crítica
levado até ao fim - e ninguém pode reivindicar que, em qual- da cinética política
quer aspecto essencial, seja esse o seu caso. Tudo quanto é pos-
sível dizer é que começámos, já há muito tempo, a reunir expe- Porquê, uma vez mais, uma teoria crítica da Modernidade?
riências relacionadas com o que aqui se denominou passivo I~porquê justamente agora, quando a maioria das pessoas pôs a
pós-moderno e que já não é preciso muito para se confessar que, sua vida fora do alcance das teorias? E já que tem de haver um
sobretudo em termos prospectivos, chegámos ao lado sofrido da mínimo de distância intelectual em relação ao que se chama o
Modernidade. Neste sentido, bate certo a fórmula: quanto mais existente, porque não o marxismo, como sempre? Porque não
moderno, tanto mais pós-moderno. Para o estilo de uma «ter- r .orrer às reservas éticas da humanidade? Porque não lírica im-
ceira» (ou pós-moderna) teoria crítica, isso tem uma grande im- pr .gnada de decadência, diante do muro das lamentações do
portância, pois esta, a fim de saber do que está falando, há-de tu .tual? Porque não, ao menos, um cepticismo da moda na bás-
ter-se metido sem reservas na contenda moderna - de outro I'lIla neoliberal das coisas? De nada serve tudo isso, precisa-

modo, nunca chegaria ao reverso das coisas. Mas como é que m ente porque o marxismo, a ética do apelo, o lirismo e o cepti-
ela consegue encontrar uma saída do cronódromo moderno pa- cismo desse tipo não se encontram à altura do que, em termos
ra algo realmente diferente, isso terá ela, primeiro, de nos ex- 11' rítica, é possível e necessário, já que eles próprios actuam
44 A Mobilização Infinita 45
Peter Sloterdijk

quando muito como agentes de inábeis mobilizações, embora A velha esquerda socialista tentou, nos seus tempos mais pre-
não contribuam suficientemente, no fundamental, para a com- sunçosos, fazer chegar moralmente ao ponto decisivo a sua exi-
preensão do fenómeno da mobilização. gência de domínio político sobre os processos do capital com a
E o destino da crítica social marxista que melhor evidencia is- fórmula «socialismo ou barbárie». Nesse ponto, porém, não foi
to. ~o seu tempo, Marx e os seus sucessores eram de opinião- só a sua política revolucionária que se despedaçou de encontro
parcialmente justificada - de que, através da sua análise dos à situação histórica real; também a sua concepção do processo
movimentos do capital, haviam tomado transparente o motivo mundial como resultado dos meros movimentos do capital se
da transformação mundial. Formularam, no seguimento da sua tomou inteiramente questionável. De acordo com os resultados
análise do capital, uma ética revolucionária, que via no contro- disponíveis até ao presente, há pouca coisa, entre o socialismo
lo político dos capitais o centro estratégico da sua «praxis»; a realmente existente e a barbárie, que aponte para uma exclusão
partir daí, deveria ser rigorosamente dirigida a emancipação da mútua; há, contudo, um vasto campo de sinonímia. Ora, é legí-
humanidade a caminho de uma vida na riqueza generalizada e timo supor que os socialismos reais não só tiveram azar, histo-
na produtividade ilimitada. Portanto, os pais do socialismo ricamente, e que, num mundo cheio de inimigos, nada melhor
apostaram abertamente numa ética da mobilização produtiva do que o existente conseguiram alcançar. Mas a sua má sorte
com um propósito humanista. Não suspeitavam decerto que, da também é devida ao facto de se terem comprometido fatalmen-
~ua cons~r~ção, apenas um aspecto se verificaria de modo algo te com a compreensão insuficiente que a análise marxista tem
involuntário, a saber, que têm de ser contrapostas ou incorpora- da cinética da modificação do mundo nos tempos modernos.
das aos processos do capital instâncias que os controlem efecti- Não era sem razão, evidentemente, que Marx opinava que a sua
vamente, se se quiser evitar o pior para a humanidade no seu to- reconstrução da condição moderna do trabalho já havia desco-
do. Numa linguagem mais moderna, isto significa que, sem uma berto a lei geral do movimento das sociedades de classes con-
cibernética «política», digamos assim, dos capitais, o «organis- temporâneas. Seja o que for que, nestas sociedades, se mova
mo hospedeiro», que é a Terra, está entregue, juntamente com nos planos político, cultural, psicológico e ideal, não pode ser
os seus hóspedes históricos, à devastação. Essa cibernética, ca- mais nada, segundo ele, senão um movimento secundário, que,
s~ deva estabelecer-se alguma vez, realizar-se-a, a longo prazo, zrn última instância, é regido pelo movimento económico pri-
nao tanto por meio de nacionalizações (pois estas apenas pro- mário. Este movimento primário apresenta desde o século XVIII,
duzem um efeito: «A mesma coisa, só que ainda pior»), mas poca da revolução industrial, uma regularidade especial: des-
através de um consequente refreamento ecológico dos motivos de que as actividades dos homens para a «reprodução material
de produção e através da desmilitarização dos lucros em bene- da sua vida» foram amplamente abrangidas pelo processo capi-
fício de despesas festivas, no quadro de um mecenato geral e re- talista, surgiu um fenómeno categorialmente de tipo novo, que
cíprocoô. nenhuma época passada pudera apresentar - o fenómeno do
«trabalho propriamente», a categoria do «trabalho sans phra-
,1'('». Marx interpreta-a como compreensão das actividades hu-
6 Há que te,r.em conta ~ue estas teses não são formuladas no espírito da utopia,
mas no espínto da teona da função do sistema, que serve, como é sabido, inte-
manas no processo material da vida através da criação de valo-
resses «con~ervad~res»; ~este caso, por certo, apenas o mínimo de conservação, r 'S do capital. É no proletariado industrial que a categoria do
a conservaçao de SI própno como contrário do suicídio. trabalho sans phrase encontra a sua configuração social. A ac-
46 Peter Sloterdijk 1\ Mobilização Infinita 47

tividade humana, porém, só passa a ser «trabalho propriamen- secundário ou, por outras palavras, de base e superestrutura, é
te» quando faz parte de uma forma de produção que, pela sua excluído do mundo. Na verdade, também o processo capitalis-
própria essência, produz continuamente maiores possibilidades Ia nunca se teria posto em marcha se não fosse suportado por
de produção. Marx explica este fenómeno extraordinário, asso- 'struturas autónomas, paralelas e precedentes, de auto-
ciando o motivo antropológico da produção do próprio Eu tan- -actualização e auto-intensificação. Não foi por acaso que os in-
to ao motivo económico do lucro (ou dos rendimentos do capi- I rpretes marxistas dos movimentos iniciais, no primeiro perío-
tal) como ao motivo agónico da concorrência. Da aliança entre do da era moderna, ficaram perplexos perante o enigma da
a autocriação conservadora de si próprio, a ambição do lucro e acumulação originária». Essa perplexidade tem de subsistir
a competição resulta a explosiva mistura de motivações que im- mquanto se teimar em entender o processo de acumulação em
pulsiona o movimento da modernização. O mecanismo decisi- t ermos económicos. Na verdade, o problema da acumulação le-
vo neste novo arranjo é, efectivamente, a famigerada «autova- va mesmo ao coração da cinética dos tempos modernos, o qual,
lorização do valor», essa habilidade de alquimista que consiste por sua vez, é inseparável - nós já o dissemos - do segredo
em organizar uma actividade de tal modo que tenha como re- da subjectividade. Seguimos por uma via mais frutuosa, se pu-
sultado o aumento da capacidade para exercer a actividade. On- s ermos de lado a questão da acumulação primitiva do capital
de o moderno «trabalho sans phrase» marca o compasso, não é .omo uma questão mal colocada, para, em vez disso, nos vol-
somente uma dada forma de vida que é reproduzida economi- rurmos para a primitiva «acumulação da subjectividade» -
camente (ou seja, em termos de governo da casa ou do palácio), pressupondo sempre que temos razão em ver nesta não só um
mas também figura no produto primário da produção um acrés- lcnómeno «metafísico» (o que ela também é em certo sentido)
cimo de produtividade. É justamente isso que corresponde à em encará-Ia não apenas como sede das faculdades intelec-
fórmula cinética da mobilização. A autovalorização do valor, tuais e criativas, mas também em reconhecer nela sobretudo a
enquanto produção de produtividade, é uma das numerosas ma- , ência, tão enigmática quanto capaz de repercussão universal,
neiras de a espiral de mobilização própria dos tempos moder- do automovimento para o movimento. Teríamos, daí em diante,
nos começar a girar como movimento para mais movimento. de lidar com a acumulação primitiva de uma «energia cinética»
Marx tinha razão em descrever o capital circulando em torno da que, sempre proporcionada por iniciativas de índole subjectiva,
sua própria multiplicação como uma grandeza que procede de • ' destaca do mundo, enquanto primeira natureza, para sobre
modo demiúrgico e que, por causa da automultiplicação con- -sra, que então se torna inteiramente matéria-prima, fonte de
servadora de si mesma, sujeita ao seu ritmo abstracto os actos -ncrgia e suporte, edificar um mundo novo a partir de artefac-
concretos da vida daqueles que trabalham. Mas presta muito tos móveis. (Salientaremos mais adiante, no 3.º capítulo, a na-
pouca atenção ao processo cinético fundamental da era moder- tureza de esforço dessa subjectividade cinética e associá-Ia-
na, enquanto movimento geral para mais movimento. O facto 'JllOS à relação tensa entre o nascimento graças a uma mãe e o
de, nos «tempos modernos», tudo se mover a maior distância, a 11 11 Ionascimento graças ao esforço próprio.)
maior velocidade e com maior intensidade, é por ele inteira- Em toda a parte onde o modelo cinético do êxito próprio dos
mente atribuído à dinâmica do modo de produção capitalista e, lvmpos modernos - movimento para uma mobilidade acresci-
depois de interpretado como problema sui generis com a ajuda ti I - se aplica a um sector de actividade, surgem contributos
do esquema enganador de movimento primário e movimento obstinados para a grande arrancada do mundo novo que separa
48 Peter Sloterdijk A Mobilização Infinita 49

e isola do seu modo de vida arcaico, antigo e medieval, primei- sua criatividade. Em todos estes campos e sectores da mobili-
ro, a Europa, e depois vastas partes do resto do mundo. É pro- dade humana se desenrolam automobilizações que abrangem
vável que essa arrancada tenha tido um prelúdio essencial na séculos, e para as quais o processo económico é certamente o
Grécia clássica, onde se pode encontrar os inícios de uma prá- meio mais dócil, o motivo mais autoritário e o cúmplice mais
tica desportiva da inteligência na sofística e de uma intensifica- multifacetado; é através dele que o movimento para mais mo-
ção cultual dos exercícios físicos nos Jogos Olímpicos. Em se- vimento se impõe de modo particularmente irresistível até nos
guida, o génio cinético parece ter sido arrolhado outra vez no processos industriais e monetários. Mas o «valor» marxista que,
seu frasco por um milénio e meio. Só de maneira oculta, as por capitalização, produz mais-valia, na verdade, é menos um
energias continuam a rumorejar, esgotando-se em conflitos tri- lenómeno económico do que um fenómeno cinético, e o seu pa-
bais, migrações de povos, guerras contra os Hunos, matanças rârnetro é a potência, cujo conteúdo, por sua vez, equivale à ca-
de Saxões, missionação germânica, primórdios da política im- pacidade de mover.
perial, agricultura, pecuária, recolhimento monástico, vida ere- Só presentemente é que se acha desimpedida uma perspecti-
mítica, mera reprodução. Depois dá-se a grande ignição inicial. va sobre a mobilização como processo fundamental dos tempos
Esta começa, ao que parece, nos mosteiros da Alta Idade Mé- modernos, não porque alguém fosse mais inteligente do que os
dia, onde a primitiva acumulação de subjectividade tem auten- randes teóricos sociais dos séculos passados, mas porque a
ticamente as suas fábricas. Mas o que aqui se inicia nos exercí- I própria coisa» entrou agora no estádio em que é reconhecível
cios de auto-intensificação ascética - o movimento autógeno vista desarmada. Só para nós, em presença dos efeitos da ace-
para o incremento do movimento, a concentração na concentra- I -ração própria da Modernidade tardia, é que o fenómeno da pu-
ção, o recolhimento no recolhimento, a prece pedindo trabalho, I I mobilidade se tomou susceptível de ser experimentado e pen-
o trabalho na capacidade de rezar -, tudo isso encontra a sua ado. Por analogia com a visão marxista dos Esboços, surge
analogia em múltiplos movimentos sectoriais para aumento da pura o diagnóstico do período final do século xx um fenómeno
mobilidade própria. É o caso da acumulação do saber científi- " dito como categoria: a «mobilidade propriamente», o «auto-
co, que só se pode manter como saber válido desde que se or- urovimento sans phrase». Isto pressupõe não só a terceira revo-
ganize como investigação, isto é, como mobilização cognitiva; 111.ão industrial, com tudo quanto a electrónica, a tecnologia nu-
é o caso da auto-exaltação dos Estados territoriais dos tempos rlcar e a informática fizeram da realidade da vida moderna, mas
modernos, que não tardam a manifestar-se como nações comer- I unbém a política moderna, com as suas espirais em matéria de
ciais e se armam, enquanto Estados nacionais; é o caso da di- '" mamento, os seus movimentos de massas, as suas iniciativas
nâmica da mobilização militar, que foi sempre uma competi- vindas de cima e de baixo; pressupõe igualmente o moderno tu-
ção, isto é, uma luta por vantagens balísticas e cinéticas; é o I 1110e a sua concepção do mundo como átrio de bilheteiras e
caso da autodramatização desportiva dos corpos, que se entre- li (a de aterragem, os ecrãs alimentados por cabo e também a
gam de modo quase ritual à embriaguês do incremento do mo- nova desordem no amor, com o seu teatro de dispersão nas gran-
vimento; é o caso da auto-erotização dos sujeitos sexuais, que di s cidades, assim como as discotecas nocturnas, os jogos de
se exercitam na excitação da sua excitabilidade; é igualmente o I umputador nos quartos das crianças, o jogging no parque e os

caso da autodivinização do indivíduo como artista, que gira nu- 11I1(os atléticos nos estádios, a garrafa sem devolução, a Factory
ma constante mobilização expressiva em tomo da criação da til Andy Warhol e a Captured Music ... Somente desde que o au-
50 Peter Sloterdijk A Mobilização Infinita 51

tomovimento sans phrase, enquanto categoria real, penetrou di- I .m: there is nothing outside the texil , só os ingénuos se agarram
rectamente na realidade vital de toda a gente, passou a ser pos- linda à ficção antediluviana do «referente exterior». Até no pla-
sível designar com a entoação própria de uma crítica serena o 110 epistemológico, está à vista o curto-circuito entre cinética e se-
motivo dinâmico de uma sociedade de sujeitos que se mobili- tniótica - o mundo está logicamente maduro para a vaporização.
zam a si mesmos, sem que o autor do diagnóstico tivesse de se Somente no horizonte de uma mobilização que se tomou om-
erguer como profeta de estatura sobrenatural. Só hoje, somos 11ipresente, pode apresentar-se a ideia de que a uma tal realidade
obrigados, igualmente no aspecto filosófico, a aperceber-nos de ipenas seria ainda adequada uma espécie de crítica que consiga
que Marx e Nietzsche disseram o mesmo: a vontade de auto- wançar até uma consciência penetrante do movimento. O que é,
produção que se apropria a si própria e a vontade de poder (co- mais uma vez, uma formulação equívoca, porque a direcção, em
mo iniciativa para impor uma interpretação do mundo) são duas que laboriosamente se procura chegar a uma tal consciencializa-
formulações alternativas para o mesmo grande ataque criativo à ~. o, não é para a frente, mas o passo à retaguarda, o desengatar-
«matéria» por parte do espírito activo, para o mesmo niilismo se do processo de aceleração para ganhar distância. Só com he-
cinético, que concebe o existente como fonte de energia e terre- ilação denominamos o lado crítico desta teoria da mobilização
no para obras e nada mais. li igundo um modelo clássico: crítica da cinética política.
No moderno processo fundamental da mobilização que, en- Graças a esta, o tema do movimento, sem graça, aparentemen-
tretanto, puxou para si todo o curso do mundo, pode-se distin- I \ apenas físico e sub-humano, é reclamado para as ciências do
guir três tendências elementares ou grupos de tendências. homem, da sociedade e da história, em virtude de conceitos fun-
O grande automovimento para mais movimento efectua-se, em damentais. Se nos recordarmos das caretas e dos argumentos com
primeiro lugar, como tendência para a motorização, para a ins- que foi acolhida pelas boas consciências do século XIX a preten-
talação de unidades automáticas de processamento e para a con- I o marxista de aceitar o conceito de trabalho como categoria bá-
tínua aceleração das mesmas (tacocracia); em segundo lugar, ica de uma antropologia histórica, então é possível fazer uma
como tendência para aligeirar, analgizar e excluir as funções do deia do acolhimento reservado a uma crítica da cinética política
sujeito demasiado sensíveis, demasiado lentas e demasiado - tanto mais que, desta feita, os marxistas estão solidários com
orientadas para a verdade (automação através da dessensibili- ,s boas consciências e com os pragmáticos burgueses na grande
zação ou da exclusão do contexto); em terceiro lugar, através da -oligação dos mobilizadores. Os marxistas, porque são eles os
supressão progressiva das distâncias e das imponderabilidades primeiros a perceber que a crítica da cinética só é possível de um
em concomitância com a apropriação estratégica do alheio (10- ponto de vista pós-marxista, a partir do qual se avista o «materia-
gística). Nestes três complexos de execução, o mundo, até en- lismo dialéctico» como uma forma particularmente fanada do
tão recurso inerte, é preparado, codificado, tomado pronto para moderno folclore da mobilização; as boas consciências, porque,
consumo e desrealizado para sujeitos automóveis do sistema. 110 mínimo, não são encorajadas por uma teoria tão feia na sua
A desrealização é o resultado psicossocial da «auto-realização» I) .upação favorita, que é a irrupção na nova era e a militância no
sistemática, na qual o conceito antiquado de «realidade» se
contrai logicamente até à função residual do ainda-não-
I No original de Derrida - il n'y a pas de hors-texte -, a mesma coisa tem uma
-mobilizado. Certos «desconstrucionistas» americanos segre- rnnsonância um pouco mais culinária, é perceptível ao ouvido a função prorro-
dam uns para os outros, desde há alguns anos, a nova mensa- utiva, ou, na nossa linguagem, desmobilizadora da tese.
52 Peter Sloterdijk A Mobilização Infinita 53

Human Potential Movement; os pragmáticos, porque, de qualquer po», a crítica da cinética política tem de pôr-se à procura de ou-
maneira, não admitem nenhum pensamento que ponha em causa, tros espaços para efectuar os seus estudos. Se será nos novos mo-
ainda que só de longe, o seu axioma dos três por cento ao ano de vimentos sociais, nos centros das culturas alternativas ou em fun-
crescimento económico. Ora, ninguém pode ter ilusões quanto ao dações para-universitárias novas, isso é, por agora, uma questão
facto de, mediante uma crítica da cinética política, se pôr em cau- secundária - tanto mais que tão-pouco se trata de alternativas
sa mais do que as meras taxas de crescimento económico de uma exclusivas. O essencial é que a transfaculdade para a crítica do
civilização industrial que, com o ímpeto de um comboio acelera- movimento forme para as sociedades novos cérebros polivalen-
do durante séculos, corre a toda a pressa para o incerto. Ao le- tes, nos quais se encame o saber de muitos domínios acerca da
vantar a questão cinética, coloca-se nada menos do que o proble- desmobilização. Esse saber terá para todos nós, que vimos do
ma de saber se e como se pode fazer parar esse comboio da noite processo da mobilização, algo de dificilmente manejável, de não
- ou de saber se, ao menos, há um desvio para ele. A questão não plausível e de desagradável, pois, em caso algum, a crítica da ci-
está em saber se algumas pessoas se podem apear do comboio (é nética política pode ser o saber teórico de uma «praxis». O seu re-
claro que podem, desde que sejam as pessoas certas), mas em sa- sultado extravagante, alguns dirão até absurdo, consiste em des-
ber se a totalidade moderna se pode livrar do modo de ser que é crever os processos reais de tal modo que, num primeiro tempo,
determinado pela fórmula do ser-para-o-movimento. nada» resta «a fazer» - na medida em que todos os interve-
Estas questões são demasiado fundamentais para que se possa nientes prontos a saltar se ridicularizarão perante o que há a fazer
deixá-Ias ao cuidado dos fundamentalistas. Por isso, a crítica da m primeiro lugar, perante a hesitação, perante o recuo para uma
cinética política expõe um quadro de trabalho no qual deveriam p rcepção mais exacta, perante a cessação da actividade de sem-
poder entrar todo o pensamento e toda a prática que, seja lá de que pre, perante o imperceptível libertar-se para o movimento certo.
maneira for, possam contribuir com alguma coisa para o estudo I ode-se garantir que tudo o mais resulta mais uma vez em mobi-
do movimento e para o exercício de uma mobilidade correcta. A I zação cega, por muito bem que soem os slogans de acção.
crítica da cinética política passa a ser um tema de trabalho para os Não se pode concluir da posição inicial pós-marxista da críti-
estudos de uma «academia» transdisciplinar e pós-universitária. \'I da cinética política que esta tenha uma relação destrutiva com

Esta pode empreender as suas actividades em toda a parte onde IIN opiniões da tradição socialista. Aquilo que, em comparação
seja necessário interrogar movimentos humanos e sistemáticos \ um esta, adquire importância é, por um lado, o alargamento do
quanto à sua fundamentação. Como todas as estruturas de tipo I limpo conceptual da produção para a mobilização e, por outro,

universitário existentes até à data, também a transfaculdade dedi- 1\ rlteração do sinal cinético. Temos de dar-nos ao trabalho de es-

cada à consciência do movimento precisa de terrenos neutros, aos (udar uma vez mais o Manifesto Comunista tal como o texto o
quais os executantes e os representantes de interesses dos mobili- 111 -rcce há muito tempo: como Magna Charta do niilismo ciné-
zadores não tenham acesso - em conformidade com a melhor I ro ofensivo, na qual, pela primeira vez, os tempos modernos
tradição de protecção da teoria desde a Alta Idade Média euro- di' -lararam abertamente aquilo que são e querem. Contudo, uma
peia. Mas, como o funcionamento de quase todas as universida- I IIica da cinética já não poderá associar-se à euforia de Marx, ao

des actualmente activas no mundo inteiro as transformou em es- 1111 ervar que, no mundo animado pelo capital, «tudo o que era

colas preparatórias da mobilização e em firmas fornecedoras de (lido e permanente se volatiliza». Nesta fórmula, Marx
conhecimentos para o «ataque do presente contra o resto do tem- uumifesta-se inteiramente como o pensador da mobilização em
54 Peter Sloterdijk 1\ Mobilização Infinita 55

acção, que não em vão forneceu a meio mundo racionalizações Tal como no processo do capital a parte do capital fixo au-
para fazer história. E é pensador da mobilização também porque menta proporcionalmente de modo permanente, também na
a sua grande máquina conceptual, em especial a dialéctica das mobilização mundial dos sistemas as massas mortas em movi-
forças produtivas e das relações de produção, só é construída no mento automático se avolumam continuamente e ampliam até
intuito de demonstrar a destrutibilidade das relações inertes, que no esmagamento a sua preponderância sobre os gestos de uma
ainda opunham resistências ao desencadeamento da produção mobilidade viva. O mesmo se aplica, aliás, às empresas desen-
produtiva e à volatilização definitiva do que era vigente. O que a .adeadas da investigação científica, nas quais o automovimen-
sua visão messiânica do trabalho visa é a situação de uma socie- 10 dos dispositivos teóricos faz com que o pensamento já não
dade em que a actividade dos sujeitos produtivos já só tenha de li sempenhe, praticamente, nenhum papel em relação à coisa
ver consigo própria - erosão da resistência real, apropriação to- pensada. Tanto o conceito de automação como o de alienação
tal do que foi alienado, vinte e quatro horas ao dia de autocria- 'uracterizam de forma deficiente estes processos extremamen-
ção auto-aquisitiva. Na verdade, uma crítica da cinética política I' inquietantes: em grande medida, o nosso vocabulário clássi-
conhecerá também, à sua maneira, uma «dialéctica», a das for- 'o deixa-nos em apuros perante as realidades processuais mais
ças cinéticas e das condições do movimento; simplesmente, não I .centes. O movimento é o grande tema impensado nas nossas
deplorará que as condições «ainda» entravem a plena aplicação I nguas. .
das forças, antes notará secamente, quando muito, que as forças Depois de tudo isto, deveria ser possível adivinhar os con-
cinéticas já não estão muito longe, mesmo sem isso, de «volati- tornos daquilo com que uma crítica da cinética política tem a
lizar» todas as condições nas quais eram possíveis pela nossa v r. Esta trabalha numa teoria crítica dos tempos modernos, na
parte os movimentos tradicionais. A crítica da cinética - em qual a problemática supressão das realidades do antigo mundo
conformidade com a sua dedução do pós-modernismo a partir de p 'Ia mobilização possa ser descrita em termos de movimento e
efeitos de uma segunda passividade -, também chamará a aten- criticada por meio de exercícios de desmobilização. Como foi
ção para o facto de haver uma crescente composição orgânica tllto, não há indícios que permitam saber se algo assim pode ser
das massas em automovimento e, por consequência, uma queda 11 sm sucedido - exceptuando o próprio sucesso, para o qual,
tendencial das vantagens da mobilidade, mas não lhe ocorrerá por sua vez, não é possível decretar critérios de natureza indu-
prognosticar, em virtude dessas observações, uma «situação re- hitável. O ponto de partida desta crítica é, em todo o caso, a ob-
volucionária»; são-lhe igualmente alheias especulações catastro- ervação seguinte: a marcha inicial da Modernidade para a vi-
fistas sobre as relações entre colapso do sistema e sublevação de 1111 auto-activa, consciente, de todos, perdeu-se amplamente
massas. O que ela acentua não é mais nem menos do que a opor- 1111111 rolamento cinético ulterior, mais cego que outra coisa, das
tunidade, condicionada pela crise, de uma retractação evolucio- uinssas envolvidas no processo, uma vez estas impelidas. Os
nária de falsos avanços da mobilizaçãoê. uuhos grandiosos em modernas possibilidades de automovi-
111 '1110 e de auto-actualização conseguidos em muitos domínios
8 Neste contexto, há que chamar a atenção para a obra demasiado pouco conhe- I) pagos com uma auto-entrega, incalculável e cada vez mais
cida de Dieter Claessens, Das Konkrete und das Abstrakte, Soziologische Skizzen
1\ uportável, a processos secundários automáticos e auto-
zur Anthropologie, Francoforte 1980 que, sem concessões à difamação romântica
da técnica, levanta a questão da intervenção de uma inteligência evolucionária no resvalantes. Se temos razão ao imaginar o futuro imediato co-
sentido do «recuo de posições insustentáveis». 1110 um tempo em que se actualizarão rapidamente crescentes
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56 Peter Sloterdijk A Mobilização Infinita

riscos de catástrofe, será por ser possível formular, desde já, o 3. A probabilidade de um Renascimento asiático:
esquema cinético básico de todos os desastres máximos possí- sobre a teoria do Antigo
veis: estes serão o resultado heteromóvel de incontáveis auto-
mobilizações. Da interacção de inúmeros automatismos resulta «Em toda a parte onde o Espírito europeu domina, vê-se
uma única fatalidade tenebrosa. No que concerne ao nosso fu- aparecer o máximo de necessidades, o máximo de traba-
lho o máximo de capital o máximo de rendimento, o má-
turo tantas vezes evocado, sob o ponto de vista sistemático, o
xi~o de ambição, o máxi~o de poderio, o máximo de mo-
respectivo segredo reside inteiramente nas variantes dessa dificação da natureza exterior, o máximo de relações e de
grande fatalidade. Tipificando, há entre elas duas versões ex- trocas.
tremas que se podem pôr em relevo: uma leva a uma relativa Esse conjunto de máximos é a Europa, ou a imagem da
acalmia da mobilização global através de uma travagem recí- Europa.
proca dos processos parciais (um grande louvor aos obstácu- Por outro lado, as condições dessa formação, e dessa de-
los?); a outra desliza, devido à interacção, para a potenciação sigualdade espantosa, prendem-se, evidentemente, com a
das mobilizações até ao inferno ecológico-cinético. E a nossa qualidade dos indivíduos, com a qualidade média do Homo
europaeus. É digno de nota que o homem da Europa não
consciência do processo? Que papel desempenha ela neste tea-
seja definido pela raça, nem pela língua, nem pelos costu-
tro mundial: o do herói, o do bobo ou apenas o do espectador mes, mas pelos desejose pela amplitude da vontade ... »
impotente? Se, realmente, tudo tende para um desfecho fatal,
então o nosso Eu consciente pode consolar-se, ficando a saber Paul vaíéry, La Crise de l' esprit
que, na cena final, detém todos os papéis ao mesmo tempo,
porquanto pode assistir ele próprio à sua dramática transforma- Entre conhecedores, é um segredo de polichinelo que, desde
ção de herói da mobilização em bobo do processo, até cair o há mais de cem anos, uma grande parte da intelectualidade oci-
pano. No caso da variante relativamente benigna, pelo contrá- dental «asiatiza», como se costuma dizer. Poder-se-ia ver nisso
rio, uma experiência notável consigo próprios esperaria os su- uma brincadeira irónica do objecto do conhecimento com o seu
jeitos. Numa época em que a Modernidade se tivesse salvo de sujeito. No mundo das inteligências, sucede que o descobridor
si mesma, também os sujeitos teriam deixado de se mexer co- se expõe a uma descoberta recíproca por parte daqueles que fo-
mo agentes ontológicos do movimento para mais movimento. ram descobertos. Para o mundo burguês, entre os séculos xvn e
Saberiam então, graças à modificação do seu modo de ser, que XIX, o interesse pelo Oriente despertou sob o signo do colonia-
não são os actores da mobilização, mas os «guardiões» do mo- lismo, que não tardou a acarretar um comércio intelectual à es-
vimento autêntico. 'ala mundial. Foi a geração do primeiro período do ~o~antis-
mo que, pela primeira vez, ergueu as importações da Asia a um
nível teórico e as inseriu numa sinopse grandiosa das civiliza-
ções do mundo. Conversa universal sobre literatura universal,
íul foi a imagem serena de um ecumenismo romântico, em que
N' fazia circular a lírica persa e as traduções dos Upanishads co-
mo outras tantas provas da actividade autenticamente metaffsi-
ru da alma do mundo.

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