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João Victor Ferreira Lucena 11252298 Noturno

História Antiga II
Minipaper II

A crítica aos modelos normativos de cultura e de sociedade homogênea no


estudo do Império Romano

Dentro da tradição dos estudos históricos, as formações de correntes de análise e


linhas de pesquisa derivam, em grande parte, da própria dinâmica científica de debates e
formulações de questões a partir do próprio material historiográfico já pré-existente, ancorada
no momento histórico, no sentido de que este delimita nossos paradigmas. É a partir dessa
perspectiva que surge o tema deste trabalho: a crítica aos modelos normativos de cultura e
sociedade homogênea no estudo do Império Romano.
Não é raro nos depararmos com estudos históricos que, em suas formulações,
esbarram em análises simplistas e reducionistas, chegando por vezes até a se assemelhar, aos
nossos olhos contemporâneos, a discursos cínicos de um típico político burguês de um país
ocidental. E esse é de certa forma o caso aqui presente. A historiografia formadora dos
estudos da Antiguidade nos séculos XIX e XX tem raízes profundas no projeto ideológico da
burguesia imperialista que se formou na Europa e nos EUA neste mesmo período. Assim
sendo, é de se esperar que os estudos iniciais sobre o Império Romano obedeçam a uma gama
de paradigmas que se distancia e muito da realidade do subdesenvolvimento contemporâneo
de países ex-colônia, como o Brasil.
O projeto intelectual burguês, que deu origem à historiografia moderna, está associado
à tentativa de consolidação dos Estados Nacionais e da formação, no plano ideológico, de
justificativas para as políticas imperialistas vigentes nos países ocidentais sobre as demais
regiões do planeta durante os séculos XIX e XX. A empreitada imperial europeia constituía,
além de um processo econômico e político, uma narrativa, a qual se utilizou de elementos
históricos para formar seus pilares, como Hingley nos mostra no caso britânico:

Muitos administradores, tanto do período vitoriano tardio quanto do


eduardiano, argumentavam que o propósito moral dos britânicos era o de
levar o progresso e a liberdade aos nativos de suas colônias. Essa missão
civilizadora, ou cruzada moral, também foi pensada, provavelmente, como
uma forma de melhorar a visão de mundo dos povos como um todo, e
imaginava-se que Roma tinha conseguido realizar um propósito moral
semelhante. (HINGLEY, 2010, p. 37).

Portanto, a formação inicial dos estudos sobre o Império Romano está embebida em
conceitos que tratam de dar ênfase aos elementos de “progresso” e de “desenvolvimento”
cultural, social e político na formação imperial de Roma, buscando traçar paralelos entre o
imperialismo europeu e a expansão romana na Antiguidade. Daí a necessidade de se teorizar
acerca da assimilação e aculturação de povos nativos, sob a guarda de um império conduzido
por ideais de uma civilização superior e definitiva, que é responsável por guiar os povos
dominados à luz do progresso cultural. Essa é a origem do conceito de “romanização”, ou
seja, ele se aplica ao fenômeno de uma suposta homogeneização cultural passiva e voluntária
de uma sociedade sob o domínio imperial romano: “o pressuposto de que os nativos
desejavam se tornar romanos, ou mais romanos, é defendido como sendo a motivação
subjacente à transformação gradual da cultura material, na província, de nativa a romana,
durante todos os três séculos e meio de dominação romana” (HINGLEY, p. 34).
Como citado no início do presente texto, é em oposição a essa historiografia
tradicional que surgem as críticas aos modelos de homogeneização cultural. Com a
emergência de estudos pós-coloniais na segunda metade do século XX, pode-se se estabelecer
novos paradigmas, como por exemplo em relação a agência dos elementos subalternos nessa
sociedade romana e entre os povos subjugados, como as mulheres e os trabalhadores. Os
movimentos feministas do século XX são um exemplo de como as mudanças sociais
oportunizaram novos olhares críticos a cerca da historiografia:

[...], mas foi a emancipação das mulheres a responsável pela multiplicação


das vozes femininas. Movimentos pelo direito de voto, pelo acesso à
educação e à universidade, assim como a crescente presença feminina na
vida pública, em particular a partir do século XX, foram determinantes para
uma presença muito mais intensa e visível. [...] A multiplicação de narrativas
femininas deve-se, ainda, à presença crescente e marcante das mulheres na
academia, a ponto que, hoje, em muitas universidades e publicações
predominem as mulheres. (GARRAFFONI, FUNARI, 2020, p. 283).

As perspectivas pós-coloniais foram responsáveis por destacar as problemáticas da


historiografia tradicional e identificar as heranças imperialistas em discursos formulados
sobre as teses de homogeneização de povos nativos, ilustrando a primazia dada às narrativas
institucionais e dos poderes dominantes na construção do saber histórico (HINGEY, p. 36).
Hingley afirma que “a agenda de grande parte da literatura pós-colonial dá a impressão de
estabelecer imagens alternativas da situação colonial; imagens que diferem das produzidas
pelas sociedades imperiais.” (HINGLEY, p. 36). Neste novo movimento intelectual, a
descentralização dos olhares leva a uma ampliação da gama de possibilidades de teorização
acerca dos mais variados sujeitos em uma sociedade, pois, apesar da maioria dos documentos
ser de origem das classes dominantes, a crítica pós-colonial inclui novas perspectivas de
crítica e análise de fontes já existentes, assim como uma ênfase em fontes que se enquadrem
nas demandas de estudos da “história vista de baixo”, tratando a contrapelo uma
documentação considerada marginal (GARRAFFONI, FUNARI, p. 291).
Sendo assim, através dessa mudança de paradigma e descentralização de visões, foi
possível concretizar estudos que evidenciam a pluralidade cultural e social que permearam as
relações entre os romanos e os povos nativos dominados. Guarinello propõe ainda que “o que
a historiografia denomina, muitas vezes, de sociedade romana é apenas uma abstração, ou a
generalização, para o conjunto do Império, de uma realidade que era válida, talvez, para
Roma.” (GUARINELLO, p. 12). Ou seja, é notável que a historiografia pós-colonial se
propõe a superar pressupostos de modelos normativos mesmo em relação a própria sociedade
romana e pretende compreender as dinâmicas históricas dentro de sua complexidade dialética.
Guarinello nos ajuda a compreender como ocorreu a dominação romana no âmbito
cultural. Ele aponta que o Império Romano constituiu um projeto em conjunto de diversas
elites oligárquicas, emaranhadas em uma rede de poder balanceada e capitaneada por Roma,
na qual a assimilação cultural e a cidadania romana serviam como maneiras de aliciar as elites
locais, além, claro, dos benefícios econômicos e proteção militar (GUARINELLO, p. 13).
Apesar disso, a dominação romana é caracterizada por diversos elementos que coexistiram em
maior ou menor grau, dependendo do substrato social no qual atuavam, como a tolerância
étnica e aos costumes locais, o sincretismo religioso, a extensão progressiva da cidadania e
dos direitos aos dominados, difusão de um culto à figura do imperador como elemento
aglutinador de autoridade e poder, e a criação de duas regiões linguístico-culturais de
influência: a grega, no Mediterrâneo oriental, e a latina, na metade ocidental (GUARINELLO,
p. 13). Podemos afirmar que as mudanças de perspectiva nos ajudaram a compreender que a
formação do Império Romano é fundamentalmente diferente da dos Estados nacionais, uma
vez que:

[...] o poder não se repartia homogeneamente sobre o território do Império,


dada a grande heterogeneidade de estatutos entre sua população e a ausência
de uma sociedade civil claramente identificada. É raro destacar com a devida
ênfase que o Império Romano foi marcado por uma profunda diversidade
social, política e mesmo cultural, diversidade cuja origens estão no próprio
processo de sua criação. (GUARINELLO, 2008, p. 10).
Portanto, o panorama geral do processo de assimilação cultural durante o
expansionismo romano pode ser traçado assim como Guarinello o faz:

No nível das elites, sobretudo, houve uma progressiva unificação, tanto


política como cultural, produzindo uma cultura erudita, tanto em grego como
em latim. Já no nível das massas a integração era mais difícil, fosse pelos
particularismos locais, pelas redes de clientelismos às quais estavam pressas,
fosse pelas dificuldades de comunicação na vaste tensão do Império, fosse,
enfim, pela impossibilidade de traçar ou definir objetivos comuns.
(GUARINELLO, 2008, p. 15)

Apresentado esse resumido cenário, devemos nos atentar para o objetivo principal do
texto. O que se faz necessário é compreender que o processo de interação cultural e social
dentro do Império Romano não é delimitado por níveis de cultura que se estabelecem em uma
“escada progressiva”, na qual a cultura romana se apresenta como superior e sua assimilação
ou não por um povo dentro do Império depende de uma escolha consciente entre aderir a uma
cultura evoluída ou permanecer fiel a sua cultura nativa, sendo, supostamente, a negação da
cultura do dominador e a oposição aberta os únicos meio de resistência de um povo
(HINGLEY, p 42). A incorporação de elementos culturais romanos pertence a uma ordem de
fenômenos que não se define apenas pelo fato em si. A resistência cultural de um povo se
apresenta de maneiras implícitas dentro das dinâmicas de interação social, sendo necessário
um aprofundamento na reprodução e circulação dos elementos forjados nessa interação para
se obter o real significado das manifestações culturais de autoafirmação de um povo. “O que
se deseja é uma compreensão mais refinada do que significam as velhas e novas ideias
dentro da sociedade provincial romana” (HINGLEY, p. 42).
Esse é o legado da crítica pós-colonial aos modelos normativos e homogeneizantes de
sociedade e cultura. O objetivo é a superação de concepções deterministas de herança
imperialista, nas quais são utilizados conceitos enraizados em estudos que priorizaram visões
das classes dominantes, ignorando a complexidade e pluralidade dos processos de formação
da história e da cultura de um povo. Garraffoni e Funari definem muito bem:

Trata-se de uma posição epistemológica, que pressupõe que toda opressão


corresponda uma reação, que a capacidade de intervenção está sempre
dynamei, em potência. Pôde buscar-se, a partir daí, as manifestações de
autonomia. Essa mudança de ponto de vista, a nosso ver, permitiu que se
investigassem as evidências em busca dessa independência e insubordinação.
(GARRAFFONI, FUNARI, 2020, p. 285).

É imperativo que se entenda os povos no lugar ao qual pertencem: como agentes de


sua própria história.
Bibliografia

GARRAFFONI, R. S.; FUNARI, P. P. A. As vozes das mulheres no início do Principado


Romano: Linguagem, discursos e escrita. In: GARCÍA SÁNCHEZ, M.; GARRAFFONI, R.
S. (eds.). Mulheres, Gênero e Estudos Clássicos: Um diálogo entre Espanha e Brasil.
Barcelona: Universitat de Barcelona; Curitiba-PR: Editora UFPR, 2020.

GUARINELLO, Norberto. Império e Imperialismo – realidades antigas e conceitos


contemporâneos. In: CAMPOS, A. P. et al. (Orgs.). Os Impérios e suas matrizes políticas e
culturais. Vitória-ES: Flor e Cultura editores, 2008.

HINGLEY, Richard. O “Legado” de Roma: Ascensão, declínio e queda da teoria da


“romanização”. In: _____. O Imperialismo Romano: Novas perspectivas a partir da Bretanha.
Trad. Luciano César Garcia Pinto. São Paulo: Annablume, 2010.

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