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João Victor Ferreira Lucena Nº USP: 11252298

Curso: História – 4º semestre Período: Noturno

Avaliação – História da África


Tema 3

Ao nos depararmos, em conjunto, com texto de Steve Biko e com a obra


de Yinka Shonibare, Scramble for Africa, uma grande questão pertinente ao
neocolonialismo europeu na África se faz passível de análise dentro das
temáticas apresentadas no curso de História da África: o papel da cultura no
contexto imperialista a partir do final do século XIX.  
A obra de Shonibare faz alusão a um momento decisivo do período: a
Conferência de Berlim, que ocorreu entre novembro de 1884 e fevereiro de
1885. Nesta conferência, que reuniu líderes da Alemanha, Áustria-Hungria,
Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, Noruega, Países
Baixos, Portugal, Rússia, Suécia e também do Império Otomano e dos Estados
Unidos, foram firmados diversos acordos entre as potências europeias para a
divisão e exploração sistemática do continente africano, num ato deliberado de
imperialismo capitalista. Na obra, 14 figuras representando os líderes europeus
se reúnem ao redor de uma mesa que contém o mapa da África para discutir
sobre a divisão do continente. As figuras são representadas sem as suas cabeças,
simbolizando talvez uma falta de consciência e humanidade em seu ato odioso
de ganância pelo continente africano. 
Apesar disso, é preciso ter em mente que o imperialismo europeu se
estabeleceu também como expressão da cultura europeia, não sendo apenas fruto
de atos de homens inescrupulosos. Na própria Ata Geral da Conferência de
Berlim fica evidente o fator ideológico que acompanhava o processo: “...e
preocupados ao mesmo tempo com os meios de crescimento do bem-estar moral
e material das populações aborígenes,..” (Ata Geral da Conferência de Berlim,
1885). As potências europeias de fato acreditavam serem portadoras da
civilização máxima e que deveriam tutelar os povos africanos para que estes
pudessem usufruir do progresso da civilização capitalista ocidental. O autor
Edward Said, em sua obra “Cultura e Imperialismo”, define bem o fundamento
da questão:
[...] as ideias de levar a civilização a povos bárbaros ou primitivos, a
noção incomodamente familiar de que se fazia necessário o
açoitamento, a morte ou um longo castigo quando “eles” se
comportavam mal ou se rebelavam, porque em geral o que “eles”
melhor entendiam era a força ou a violência; “eles” não eram como
“nós”, e por isso deviam ser dominados. (SAID, 2011, p. 3)
Em sua obra, Said aborda vários aspectos da cultura imperialista que foi
disseminada durante os séculos XIX e XX através de diversos elementos
culturais que compunham as sociedades colonialistas, como livros e peças de
teatro, e ajudavam a formar a mentalidade colonizadora na Europa. O autor
propõe que o imperialismo e o próprio conceito de nação se constituem também
de narrativas, e que a construção ideológica dentro das sociedades colonialistas e
das colonizadas possuem caráter determinante na formação histórica do período.
Como ele próprio diz, “o poder de narrar, ou de impedir que se formem e
surjam outras narrativas, é muito importante para a cultura e o imperialismo, e
constitui uma das principais conexões entre ambos” (SAID, p. 5). 
Portanto, é a partir disso que se pode começar a entender o elemento da
cultura no processo do neocolonialismo. Longe de se constituir em apenas um
processo político de expansão e exploração, como visto em vários momentos ao
longo da história, o imperialismo constitui um projeto ideológico derivado do
próprio processo de acumulação capitalista e do racionalismo europeu do século
XIX, que inclui “a noção de que certos territórios e povos precisam e imploram
pela dominação, bem como formas de conhecimento filiadas à dominação…”
(SAID, p. 30). 
É dentro desse contexto que poderemos entender o texto do líder sul-
africano Steve Biko, que mostra a perspectiva do papel da cultura já no âmbito
colonial e nas lutas de libertação pelo continente africano. Ele nos apresenta um
texto que configura uma espécie de “chamamento” aos povos africanos, no qual
ele reivindica a “liberdade da mente e do coração” como pilar para o processo de
libertação dos negros das amarras do colonialismo. A mensagem trazida por
Biko, de maneira poética, está intimamente ligada à questão da cultura, já
apresentada anteriormente; porém, nos abre espaço para trabalhar um
contraponto ao fenômeno discutido acima: a cultura como meio de resistência e
componente da luta por libertação. Ora, se o imperialismo opera através de
narrativas e construções ideológicas que possibilitem e sustentem o seu precioso
domínio colonial, é imperativo que a construção dos movimentos pela liberdade
dos povos africanos passe diretamente pela disputa no âmbito cultural.
Steve Biko fala em uma mente “manipulada e controlada pelo opressor a
ponto de fazer com que o oprimido acredite que ele é uma responsabilidade do
homem branco”, referindo-se ao problema do controle ideológico dos
colonizados, que seria uma grande barreira na luta pela liberdade. O autor Frantz
Fanon, que atuou nas lutas de libertação da Argélia, define brilhantemente em
seu livro “Os condenados da terra” a atuação dessa esfera do colonialismo
europeu:
O resultado, conscientemente procurado pelo colonialismo, era meter
na cabeça dos indígenas que a partida do colono significaria para eles
o retorno à barbárie, ao aviltamento, à animalização. No plano do
inconsciente, o colonialismo não pretendia ser visto pelo indígena
como uma mãe doce e bondosa que protege o filho contra um
ambiente hostil, mas sob a forma de uma mãe que a todo momento
impede um filho fundamentalmente perverso de se suicidar, de dar
livre curso a seus instintos maléficos. A mãe colonial defende o filho
contra ele mesmo, contra seu ego, contra sua fisiologia, sua biologia,
sua infelicidade ontológica. (FANON, 1979, p. 175).
Esse é o terrível jogo do colonialismo. Sua estrutura de dominação tem
como característica principal a apropriação do processo histórico do povo
colonizado através do controle do desenvolvimento de suas forças produtivas,
negando-lhes o direito de conduzir sua própria história (CABRAL, p. 359).
Assim, ao se apossar da história, o colonialismo se apossa também do “passado
do povo oprimido, deforma-o, desfigura-o, aniquila-o” (FANON, p. 175). Esse
processo violento de opressão faz desaparecer gradativamente o poder cultural
do povo, suprimindo sua autodeterminação e se apossando de suas
possibilidades criativas (CÉSAIRE, p. 258). Aimé Césaire estabelece que “a
colonização é esse fenômeno que inclui, entre outras consequências
psicológicas, a seguinte: fazer vacilar os conceitos sobre os quais os
colonizados poderiam construir ou reconstruir o mundo” (CÉSAIRE, p. 269).
Daí as palavras de Biko: “o negro quer, portanto, explorar por conta própria o
ambiente em que vive e testar suas potencialidades”. A reivindicação diz
respeito à história de cada povo africano, para que eles possam tomar as rédeas
de seu próprio futuro e possam conduzi-lo com liberdade, livres da opressão da
exploração imperialista e do jugo racial europeu. 
Outra face do domínio colonial capitalista passa pelo exacerbamento ou a
criação das contradições de classe entre os povos colonizados. Amílcar Cabral
explica que, durante o processo de repressão da vida cultural, a alienação
cultural do povo é associada à ampliação das barreiras sociais entre uma elite e o
povo. Nessa etapa ocorre a assimilação cultural por parte dos grupos sociais
dirigentes da mentalidade do colonizador, estabelecendo-se como diferentes do
resto da população e acatando os valores sociais colonialistas, processo que só
se amplia com o maior acirramento das desigualdades sociais e concessões de
privilégios por parte dos colonialistas a essas elites locais (CABRAL, p. 363).
Esse movimento configura uma estratégia que mantém a dominação no nível
tanto político quanto cultural. Cabral aponta que:
[...] o colonialismo, que reprime ou inibe pela raiz as manifestações
culturais significativas da parte das massas populares, apoia e protege
na cúpula, o prestígio e a influência cultural da classe dirigente. Instala
chefes que gozem de sua confiança e sejam mais ou menos aceites
pelas populações, concede-lhes vários privilégios materiais, [...]. E,
acima de tudo, garante, por intermédio dos órgãos repressivos da
administração colonial, os privilégios econômicos e sociais da classe
dirigente em relação às massas populares. (CABRAL, p. 364).
É a partir desse cenário que Steve Biko chega à conclusão de que “na
essência desse pensamento está a compreensão dos negros de que a arma mais
poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido”. Ele estabelece que,
dentro do sistema de repressão do colonialismo, o elemento de dominação que
torna o aperto do laço da opressão em um nó cego é a escravidão da mente, o
esvaziamento de sua cultura, que transforma a sua história em esquecimento e a
sua dignidade em indigna, cortando com navalha de ferro cega o fio de ouro que
une a mente, o coração e o povo, obtendo o receptáculo desabitado onde se
instalará o maquinário do lucro, dissimulado em esplêndida fantasia de
progresso e civilização.
Porém, se a conclusão é que através da dominação cultural o imperialismo
reina, a cultura é a única e firme garantia de que a escravidão não é destino: “se
dentro de nosso coração estivermos livres, nenhuma corrente feita pelo homem
poderá nos manter na escravidão”, afirma Biko. Essa é a chave para os povos
colonizados: “pensar segundo a linha da Consciência Negra faz com que o
negro se veja como um ser completo em si mesmo. Torna-o menos dependente e
mais livre para expressar sua dignidade humana. Ao final do processo, ele não
poderá tolerar quaisquer tentativas de diminuir o significado de sua dignidade
humana”. Cabral aponta que:
[...] enquanto existir uma parte desse povo que possa ter uma vida
cultural, o domínio estrangeiro não poderá estar seguro de sua
penetração. Num determinado momento, que depende dos fatores
internos e externos que determinam a evolução da sociedade em
questão, a resistência cultural (indestrutível) poderá assumir formas
novas (políticas, econômicas, armadas) para contestar com vigor o
domínio estrangeiro. (CABRAL, p. 357)

Ele nos explica que a cultura enquanto elemento de resistência se justifica


no fato de que ela constitui a manifestação da realidade material e histórica do
povo colonizado, sendo o fenômeno ideológico que caracteriza os processos de
relações entre as pessoas de uma sociedade e seu meio (CABRAL, p. 359). A
cultura também simboliza as expressões de resistência e resoluções de conflitos
das sociedades ao longo de sua trajetória, servindo, portanto, como um fator que
reveste todos os movimentos de lutas de libertação, “que são em geral
procedidas por uma intensificação das manifestações culturais” (CABRAL, p.
360). É importante também ter em mente o caráter de classe das formações
culturais de um povo, que evidenciam a heterogeneidade cultural presente numa
sociedade. Portanto, o movimento de libertação deve compreender e estar ligado
ao caráter popular da cultura, o qual será responsável por unir a luta pela
liberdade de um povo (CABRAL, p. 362).
O movimento de resistência cultural e sua reação são muito bem
delimitados por Fanon. O autor detalha que o intelectual colonizado, uma vez
que opta por retomar e exaltar sua cultura nativa, abrindo mão e negando a
cultura e os privilégios da cultura ocidental invasora, coloca toda a concepção
ideológica do imperialismo em cheque:
Cada colonizado conquistado, cada colonizado seduzido, quando
decide extraviar-se, não somente representa um revés para a empresa
colonial como também simboliza a inutilidade e a falta de profundeza
do trabalho realizado. Cada colonizado que torna a transpor a linha é
uma condenação radical do método e do regime, [...]. (FANON, p.
184).

Uma última questão a respeito do tema é o fator nacional. Césaire propõe


que a estrutura na qual a cultura poderá ter seu pleno desenvolvimento passa
pela organização política deste povo, a qual também compõe sua cultura e é
condicionada por ela (CÉSAIRE, p. 258). Fanon defende que a cultura é a
expressão de uma nação, ou seja, de seu desenvolvimento histórico. Portanto, a
cultura reivindicada, para que possa ser livremente praticada e vivida, depende
da libertação nacional e do ressurgimento do Estado (FANON, p. 371). Diante
disso, Cabral afirma que o movimento de libertação nacional, além de utilizar a
cultura como arma para a liberdade, tem o dever de contribuir para a formação e
reestruturação dessa mesma cultura nacional, numa relação dialética onde “a
confluência dos níveis de cultura das diversas categorias sociais” da sociedade
alimentem a luta armada pela liberdade, ao mesmo tempo em que
progressivamente construa uma unidade nacional pautada nos valores adquiridos
durante a luta de libertação, sejam valores internos ou externos (CABRAL, p.
361, 371, 373). Em outras palavras, a cultura não é tomada como um fator
sagrado e imutável, embebido e permeado pela bondade do povo, como se se
devesse procurar estabelecer uma cultura una e ancestral, a qual deverá ser
seguida religiosamente. O proposto é que as lutas de libertação sejam não
apenas um “fato cultural”, mas um “fator de cultura”, o qual deverá gerar
progressos e benefícios para a população, ancorada nos valores sociais
construídos por aquele povo como um todo.
Essa é a reivindicação de Steve Biko. Ao clamar por suas
“potencialidades”, por se ver “um ser completo em si mesmo”, ele clama pela
“libertação do processo de desenvolvimento das forças produtivas nacionais”
(CABRAL, p. 361), ele clama pela devolução de sua própria história. Cabral diz
que a realização deste ato através da “luta armada de libertação, nas condições
concretas da vida dos povos africanos, enfrentando o desafio imperialista, é um
ato de fecundação da História, a expressão máxima da nossa cultura e da nossa
africanidade” (CABRAL, p. 374).
Desde o momento simbólico do imperialismo odioso da Conferência de
Berlim, representado por Shonibare, até o momento de reivindicação pela
liberdade de Steve Biko, o que está em jogo é a história e a cultura dos povos
africanos. É o que diz Aimé Césaire (p. 272):
Estamos aqui para dizer e para reclamar: deem a palavra aos
povos. Deixem os povos negros entrar no grande palco da história.

Bibliografia

CABRAL, Amílcar. “Libertação nacional e cultura” In SANCHES, Manuela


Ribeiro
(org.) Malhas que os impérios tecem... Op.cit, pp. 355-376.

CÉSAIRE, Aimé. “Cultura e Colonização”. In SANCHES, Manuela Ribeiro.


(org.)
Malhas que os impérios tecem... Op. Cit, pp. 253-272.

FANON, Frantz. “Sobre a cultura nacional”. In Os condenados da terra. Prefácio


de Jean-Paul Sartre. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2ª ed., 1979,
pp. 169-208.

SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Cia
das Letras, 2011, pp.11-50.

Fonte
Universidade Federal de Minas Gerais. Ata Geral da Conferência de Berlim
redigida em 26 de fevereiro de 1885. Disponível em:
https://web.archive.org/web/20131029200637/http://www.casadehistoria.com.br
/sites/default/files/conf_berlim.pdf