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João Victor Ferreira Lucena 11252298

2º Semestre/2020 Noturno
História Medieval II

Estudar História Medieval no século XXI: (re)pensando as


fontes e (re)discutindo a historiografia

Introdução

Ao nos deparamos, em primeira instância, com o campo do estudo


histórico do período medieval, chama atenção a discrepância entre o dito
“senso comum” formado sobre a Idade Média e o que é discutido e construído
pela comunidade acadêmica dentro da ciência histórica. A construção desse
senso comum passa pelo ensino escolar, obras de ficção (livros, filmes, séries,
etc.) e mesmo discursos públicos, sejam de políticos ou jornalistas, que se
apropriam do período para construções ideológicas. Diante disso, surge a
responsabilidade do historiador de, além de produzir o conhecimento histórico,
faze-lo circular pela sociedade como ciência e não apenas como narrativa. Em
pleno século XXI, em meio a disputas de discursos cada vez mais acirrados e
efervescentes, não há mais a possibilidade de adiar o compromisso do
historiador com o seu meio. Como nos Hobsbawm nos explica:

Essas e muitas outras tentativas de substituir a história pelo


mito e a invenção não são apenas piadas intelectuais de mau
gosto. Afinal de contas, podem determinar o que entra nos
livros escolares,(...). Mito e invenção são essenciais à política
de identidade pela qual grupos de pessoas, ao se definirem
hoje por etnia, religião ou fronteiras nacionais passadas ou
presentes, tentam encontrar alguma certeza em um mundo
incerto e instável, dizendo: “Somos diferentes e melhores do
que os Outros”. (HOBSBAWM, p. 21).
Partindo disso, os estudos históricos sobre a Idade Média no século XXI
devem estar sensivelmente ligados ao contexto e ao momento das
necessidades do presente, no qual urge o atrelamento e a adaptação do saber
histórico a um processo de difusão social. É nesse contexto que será
trabalhado aqui o conceito do “feudalismo” e o período entorno do Ano 1000,
entre outros temas presentes na aula 3 do módulo 1.

A historiografia

A Idade Média sofreu, desde a origem dos estudos históricos modernos,


um processo de estigmatização; a historiografia do século XIX tomava o
medievo como o contraponto ao período moderno e o seu Iluminismo, como
esclarece Joseph Morsel:

La “anarquia feudal” corresponde em efecto a la percepción


que tenían y que ofrecían del período medieval los
historiadores de la burguesia triunfante del siglo XIX y de la
primeira mitad del siglo XX, y que se apoyaba em dos
fundamentos: por um lado, la certidumbre de que la ausência
del estado no puede suponer más que desorden y anarquia, y
por tanto, que entre el estado carolíngio y el estado
monárquico sólo pudo existir um período oscuro y sangrento.
(MORSEL, 2008, p. 107)

É dessa raiz historiográfica que derivou o processo de caracterização do


período medieval e levou ao estabelecimento do senso-comum muito afastado
da realidade do período. Além disso, derivam dessa corrente alguns mitos
historiográficos, como o acerca do Ano 1000, ― que foi aperfeiçoado pelos
iluministas ― no qual o período anterior ao ano 1000 seria uma época de
pessimismo social devido à perspectivas escatológicas sobre os 1000 anos da
morte de Jesus Cristo (BASCHET, 2006, p. 95). Esse mito evidencia o
processo de diferenciação que os racionalistas tentavam trazer à tona: a Idade
Média seria o lugar do irracional, do medo, da religiosidade, criando uma
alteridade em relação ao “período da luzes”.
Outra questão que se faz pertinente em relação às heranças da
historiografia iluminista é o reducionismo da Idade Média ao fenômeno do
feudalismo, que engloba uma ênfase na fragmentação política, na violência
exacerbada, na estagnação e no obscurantismo. Fez parte do projeto burguês
de defesa do Estado centralizado a “demonização” do sistema senhorial da
Idade Média, no qual imperaria a anarquia, o caos social e constantes disputas
violentas devido a ausência deste mesmo Estado centralizado.
Essas teorias mostram ainda hoje seus rastros na formação da
concepção da sociedade sobre o período medieval. É importante que as mais
recentes perspectivas historiográficas substituam essas “ideias fixas” sobre a
Idade Média. Diversos autores como Barthélemy, Morsel, Baschet, Bloch, etc.,
apresentaram durante o século XX e XXI teorias mais assertivas e que
correspondem mais a realidade histórica da Idade Média.
Baschet, por exemplo, nos apresenta um quadro muito mais completo
sobre o período do Ano 1000. Segundo a obra “A civilização feudal” do autor,
na realidade, a Europa apresenta diversos elementos que demonstram que se
trata de uma época de convulsão social e, sobretudo, de desenvolvimento da
sociedade em diversos pontos. A população apresenta uma expansão
demográfica significativa, dobrando ou triplicando de tamanho em certas
regiões, entre os anos 1050 e 1250 (BASCHET, p. 101). O campo da
agricultura conhece consideráveis avanços, aumentando as áreas cultiváveis,
utilizando novas técnicas agrícolas, difundindo o uso de inovações tecnológicas
pré-existentes e introduzindo novas culturas de plantio. Esse fenômeno pode
ser compreendido como não tendo uma causa única, sendo fruto de uma
retroalimentação entre os fatores, levando ao desenvolvimento (BASCHET, p.
102-109).
Outro ponto de relevância é em relação a suposta violência e conflitos
na Idade Média. O senso construído pela historiografia burguesa é de uma
Idade Média onde os assassinatos, as guerras sangrentas e massacres
imperavam em sistema política fragmentado, no qual a força era o principal
elemento de legitimação política. Porém, a historiografia atual traz contrapontos
em relação a essa narrativa. Podemos entender atualmente que o período
medieval formava um todo coerente e que suas dinâmicas de conflito, sejam
conflitos entre senhores ou entre diferentes classes, devem ser compreendidos
dentro da lógica do poder medieval, como Baschet nos apresenta as teses de
Barthélemy e de Morsel:

...é preciso para isso “imaginar que, antes do Estado Moderno, certo
equilíbrio social e político possa ter existido graças aos poderes
locais e de feição privada”(...). Mesmo se ela é limitada e
regulamentada pelos códigos da faide, não se poderia negar a
violência dessa ordem, nem a rude exploração que ela impõe à
maioria dos produtores. A expressão não poderia, então, ser
entendida como um julgamento de valor, mas somente como um
julgamento de fato: a ordem reina no mundo feudal, e não sem
eficácia, sem o que não poderíamos explicar o impressionante
desenvolvimento do mundo rural que se opera ao mesmo tempo que
a dispersão feudal da autoridade. (BASCHET, p. 127)

Em outros termos, é necessário combater o senso comum derivado


ainda da historiografia do século XIX e trabalhar e difundir a perspectiva de que
a Idade Média, apesar de apresentar seus conflitos e explorações, forma um
contexto histórico coerente, no qual a fragmentação política não resulta em
disputas e violência irracional exacerbada e num caos social, mas se constitui
em um fenômeno na qual a ancoragem do poder senhorial é responsável pela
reprodução da vida medieval e fez florescer aquela sociedade.

Fontes

Como discutido acima, é necessário desprender o senso comum da


historiografia do século XIX para que o período medieval possa ser
compreendido dentro de uma História cientificamente formada. Essa
historiografia burguesa era ancorada principalmente em uma documentação de
cunho jurídico, a qual é abundante e tratava principalmente das relações entre
senhores, vassalos e a Igreja. Em nosso contexto atual, é necessário buscar
dar ênfase e produzir estudos utilizando fontes ligadas às relações que
envolvem a maioria da população e a produção e reprodução da vida material,
como os documentos “Sobre a condição social dos servos (S. IX)” e “Rendas e
serviços (S. XIII)”, encontrados no livro “História da Idade Média – Textos e
testemunhas”
BIBLIOGRAFIA:

BASCHET, Jerôme – A civilização feudal: do ano mil à colonização da América.


Trad. Marcelo Rede, apres. Jacques Le Goff. São Paulo: Globo, 2006, pp. 98-
167.

HOBSBAWN, Eric – Sobre história. Trad. Cid Knipel Moreira. São Paulo:
Companhia das Letras, 2013.

MORSEL, Joseph – A aristocracia medieval: el dominio social en Occidente


(siglos
V-XV). Trad. Fermín Miranda. Valencia: PUV, 2008, pp. 107-154.

SÁNCHEZ, M. G. P – História da Idade Média: textos e testemunhas. São


Paulo: Editora Unesp, 2000.