Você está na página 1de 5

A democracia ou democratismo no Estado brasileiro

José Carlos Paraguaio1

O assunto proposto tem por objetivo, não a pretensão de convencê-los, mas de


convidar os leitores para refletir sobre o pensamento democrático no mundo
contemporâneo e suas implicações sociais.
Ao tratarmos de um assunto considerado democrático, lidamos com a idéia de
que se trata de consenso aparente. Demonstra-se um conceito ou discurso democrático
que em nome da liberdade de ir e vir, liberdade de expressão, de que governantes e
governados convivem na mesma instituição – Estado - dizendo-se democráticos,
partindo do pressuposto do idealismo democrático, toma-se o rumo de forma ingênua e
o domínio autoritário dos governantes sobre os governados, invertendo-se o pensamento
e as atitudes, assim denominamos; democratismo.

O que é democracia?
A palavra democracia vem do grego ( demos, povo; kratos, poder) e significa
poder do povo, ou seja, no Estado democrático deveria ser objetivado o bem-estar
social, proporcionando a convivência tranqüila entre os homens, para poder ter uma
sociedade próspera garantindo a toda população, a exclusão de todo tipo de miséria de
que se constitui na sociedade democrática.

Para Tocqueville a sociedade democrática é:

“ ...onde não subsistem distinção de ordens e de classes; em que


todos os indivíduos que compõe a coletividade são realmente iguais,
o que não significa que são intelectualmente iguais, o que é absurdo,
ou economicamente iguais o que, para Tocqueville, é impossível.”
(1987; IV).

Na sociedade democrática não se tem como proposta restaurar um homem primitivo,


selvagem, mas proporcionar ao homem a condição de superar seus próprios limites para
tornar-se moral.

1
Professor, Pedagogo, Especialização em Filosofia: “Os valores fundantes da
civilização ocidental”, pelo Instituto de Humanidades, Doutorado em “Ciência da
Educação”, pela UPAP – Universidad Politécnica y Artística del Paraguay.
Enquanto isso na Época Moderna chama-se de “moral social de tipo
consensual”, porque a sociedade apropriando-se de um conceito de democracia,
livrando-se das amarras das instituições secularmente autoritárias. Desenvolve-se a
sociedade, aparecendo a necessidade da organização desta, surgindo as instituições
políticas como Roma e as cidades-Estado, na Grécia. Surge então a figura do
mandatário em forma de conselho constituído pelos líderes das grandes famílias
conceituadas de grande prestígio, que chefiavam o Estado, hereditariamente, que mais
tarde transformando-se em órgãos eletivos, mesmo assim, o líder era escolhido entre as
estas famílias prestigiadas, com característica aristocrática, surgindo também uma outra
ala democrática, na qual vários grupos sociais elegiam tribunos que tinham a função de
proteger seus interesses nos órgãos públicos. Kant elabora o pensamento da convivência
e de interesses comuns a todos os membros da sociedade sem cair no democratismo,
para ele Kant, a democratização:
“... é o direito dos homens a se constituírem sob o império de leis
públicas coercitivas, segundo as quais possa ser reconhecido para cada
um o seu e cada um possa ser garantido contra qualquer atentado por
parte dos outros.” (Kant, in Instituto de Humanidades, guia de estudo,
Política, 6,7,8 pg. 60).

Define-se na compreensão da forma, a maneira do poder constituído doutrinado,


outorgado pela maioria. Mesmo Tocqueville fundamentado num processo histórico,
confirmando o poder hereditário aristocrático, não previu que o democratismo
provocaria devastação análoga, inclusive nos desdobramentos da revolução do Porto em
Portugal.

Que é democratismo?
“O democratismo corresponde a uma corrente política que em muitos
casos tem sido confundido com o liberalismo. A confusão advém do
fato de que, no momento em que o democratismo faz sua aparição,
durante a Revolução Francesa, a experiência liberal estava circunscrita
à Inglaterra e não tinha propósitos democratizantes.” ( Inst. De Hum.
Política, 6,7,8 pg. 59).
A Revolução Francesa foi um marco característico do democratismo, tendo
como fundamento o liberalismo, dizendo-se de um sistema democrático, mas, constitui-
se no sistema totalitário – que para Barros:
“ o governante não se satisfaz com o cumprimento dos seus deveres pelos seus súditos;
ele quer tudo deles, corpo e alma, sobretudo esta”- ( 19). Em pleno séc. XVI, no período
entre 1789 e 1815, houve uma convulsão social e política, obrigando a Revolução
Francesa a demonstrar o protótipo do democratismo, fazendo com que a sociedade
participe do processo como virtuoso, e àqueles que desobedecessem eram
guilhotinados, sua influência foi tão marcante que o princípio de Orwell “todos são
iguais”, sofreu uma complementação dizendo o seguinte: “ todos são iguais, mas alguns
são mais iguais do que os outros”. (61), tornando o sistema autoritário e ditatorial.
O democratismo está impregnado culturalmente em nosso povo, no sentido de
que; o cidadão que elege o seu representante sinta-se compromissado de não se opor às
atitudes superiores. No momento em que a sociedade está em conflito político, é quando
a corrente do democratismo torna-se mais empolgante com idealizações que nem
sempre são possíveis de realização convencendo a massa social, contribuindo para o
endurecimento do regime em que está inserido, que acaba caracterizando-se como
populismo.
Esse pressuposto cultural significa a presença do homem no estar e comunicar-se
com outros membros da sociedade visando a possibilidade de realizar-se, pois que não
consegue alcançar por si mesmo seus objetivos, só através da sociabilidade é possível a
realização pessoal. Por isso a realização individual é possível a partir da ação integrada,
porque, a natureza humana é própria da vida política, ordena-se de maneira a atender as
necessidades da comunidade visando beneficiar as partes com ordenamento político
proporcionando o bem-estar social. Muitas vezes insatisfeitos com os resultados
esperados, procuramos viver em sociedades politicamente organizadas moral e
cientificamente. Com a evolução necessária da sociedade os fenômenos influenciam no
comportamento desta, o mundo não foi construído por acaso, é o passado penetrando
no presente, possibilitando novas idéias, novos modelos, a história apresentando os
fatos do passado para melhorar a realidade que nos circunda, portanto, o significado que
a cultura política se faz presente, tem sua significação no momento que se apreende o
sentido de cultura, que segundo Almond e Verba: “O termo cultura política refere-se às
orientações especificamente políticas, atitudes com relação ao sistema político em suas
várias partes e atitudes com relação ao papel do próprio sujeito no sistema”. (In
Crippa:16).
No processo educacional, o homem volta-se para o individual, pois nem tudo é
disponível para atender o sistema constituído, seja partindo da relação; passado e
presente, velhice e infância, a verdade metafísica e a experiência científica, todos os
esforços são para que possa oferecer mínimas condições de sobrevivência digna ao
homem. No entanto, enfatiza-se que a democracia contribui e garante ao cidadão, a
participação individual nas decisões coletivas, visando a organização da vida política
em sociedade. Para tanto, o homem, estando consciente e pleno uso da razão participa e
juntos organizam e definem suas ações de acordo com seus direitos e deveres, definindo
moralmente seus anseios, no processo, as adoções das decisões se tornarão obrigatórias.
Assim: “O Estado democrático oferece ao homem comum a oportunidade de participar
como cidadão que influi no processo de tomada de decisões políticas”. ( Idem, 15).
Nesse entendimento, a cultura política proporciona aos cidadãos, certezas
indiscutíveis, que leva os indivíduos a uma ação e reação mediante situações
semelhantes, fazendo uma análise funcional diante dos fenômenos surgidos no seio da
sociedade. Nesse contexto, caracteriza-se o individualismo na sociedade moderna, no
entanto, é necessária a convivência social, assim, o homem pode ser definido do ponto
de vista ontológico – natureza do ser - e ético como sendo um indivíduo, torna-se
relativo a inserção deste, na sociedade como depreende Barreto: “ É através do
indivíduo que a pessoa poderá tornar-se senhor de outra pessoa. Em virtude de sua
liberdade o homem irá construir a sociedade”. (1977:42). O homem é um ser em
permanente construção de si mesmo, tem no Estado democrático, o livre arbítrio de
gozar da liberdade de usufruir de seus direitos e cumprir os seus deveres, no sentido de
aquilo que as leis permitem, pois são elaboradas através dos representantes da sociedade
outorgados pela própria sociedade.

Bibliografia

-TOCQUEVILLE, Aléxis de. 1805-1859. A Democracia na América; posfácio de


Antonio Paim; Tradução, notas de Neil Ribeiro da Silva. 2ª edição. Belo Horizonte,
Ed. Itatiaia; SP. Ed. USP. 1987.

- Instituto de Humanidades, guia de estudo, Política, nº 6, 7, 8.

- BARROS, Roque Spencer Maciel de, 1927, O Fenômeno Totalitário/Belo Horizonte:


Itatiaia; SP. Ed. USP, 1990.
- BARRETO, Vicente. Ideologia e Política, no Pensamento de José Bonifácio de
Andrada e Silva.. Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977.

- As Idéias Políticas no Brasil / Coord. Adolpho Crippa: Colaboradores João Alfredo de


Souza Montenegro ... [et al] São Paulo: Convívio, 1979.

José Carlos Paraguaio


Professor na Fecilcam, Pedagogo, Especialização em Filosofia: “ Os valores Fundantes
da Civilização Ocidental.” Pelo Instituto de Humanidades, Mestrado e Doutorado em
“Ciências da Educação” – UPAP – Universidad Politécnica y Artística del Paraguay,
Membro da Academia Mourãoense de Filosofia, da cadeira nº. 19 cujo patrono é John
Dewey.