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GIULIO VICINI

COMO ABRAÇO AFETUOSO EM CORPO SOFRIDO


SAÚDE INTEGRAL PARA OS VELHOS

PESSOAS IDOSAS, SOCIALMENTE ATIVAS E AUTÔNOMAS DA


CIDADE DE SÃO PAULO, EXPRESSAM CONCEPÇÕES
DIFERENTES DE SAÚDE.

MESTRADO EM GERONTOLOGIA

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da


Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
como exigência parcial para obtenção do título de
MESTRE em GERONTOLOGIA sob a orientação
do Prof. Dr. Salvador SANDOVAL.

Pontifícia Universidade Católica

São Paulo -- 2001


2

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________________

_____________________________________________

_____________________________________________
3

“(...) as culturas nasceram do silêncio entre as palavras


e este silêncio é intraduzível.”

Basarab NICOLESCU
4

AGRADECIMENTOS
5

RESUMO
6

ABSTRACT
7

SUMÁRIO

I. Introdução p. 4
II. Ciência e paradigma p. 11
III. Paradigma holístico ou da transdisciplinaridade p. 18
IV. Conceitos de doença e saúde p. 33
V. A assistência à saúde p. 52
VI. Saúde dos idosos numa visão biomédica arejada p. 61
VII. Uma visão holística sobre envelhecimento saudável p. 73
VIII. Saúde integral para os idosos p. 80
IX. Metodologia da pesquisa p. 90
X. Resultados da pesquisa p. 95
XI. Considerações finais p.
XII. Bibliografia p. 96
XIII. Anexos p. 99
XIV. Notas p. 134
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I. INTRODUÇÃO

“As populações de idade avançada vão complicar os sistemas de saúde


de muitos países em desenvolvimento, que ainda lutam para garantir condições
mínimas para proteger a saúde dos mais jovens. Mais doenças devem passar a
acometer os mais velhos nas próximas décadas”.1

Futuro ameaçado?
Assim se expressa a ORGANIZAÇÃO das NAÇÕES UNIDAS (O.N.U.)
em seu relatório anual sobre população, abraçando uma crença bastante difundida
de que os velhos são menos saudáveis que os jovens, são acometidos por um
maior número de doenças, principalmente crônicas, cujos tratamentos são mais
caros do que aqueles normalmente dispensados aos mais jovens. Por isso, os
sistemas de saúde, ao se verificar um aumento da população de maior idade,
estariam destinados a sofrerem uma pane geral. Em conseqüência disso a
proteção à saúde dos mais jovens seria prejudicada.
Revelando situação semelhante, as discussões sobre a lei que
regulamentou os contratos de prestação de serviços privados de saúde tornou
público o aumento escorchante a que normalmente são submetidos os usuários
desses serviços ao cumprirem 60 anos de idade; isto reflete a crença das
empresas de prestação desses serviços, fundamentada quiçá em dados
financeiros de suas carteiras, de que os tratamentos de saúde para velhos são
muito mais caros do que os destinados a grupo de pessoas de qualquer outro
segmento de idade.
Como parece não haver solução para o fato de que a humanidade no
futuro deva integrar em seu meio um número muito maior de velhos do que
atual mente possui (BERQUÓ, 1996)2, é importante que se investigue como isso
poderá ser feito, evitando-se que a sociedade seja levada a uma situação de
calamidade, por causa da falência de seu sistema de saúde. Nesta situação
hipotética, nem jovens nem velhos terão um futuro risonho!
Segundo o artigo anteriormente citado (ver nota nº 1) a
ORGANIZAÇÃO das NAÇÕES UNIDAS (O.N.U.) afirma que o envelhecimento
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das populações não afeta apenas os países ditos desenvolvidos; nos países em
desenvolvimento, também, a expectativa de vida está aumentando de forma
acentuada nas últimas cinco décadas. A média de expectativa de vida que é, hoje,
de 65,2 anos para mulheres e de 62,1 anos para homens será, em 2045,
respectivamente, de 77,8 e 73,2 anos. O número de pessoas com mais de 65
anos deverá mais do que dobrar nos próximos 50 anos, passando de 6,8% da
população mundial para 15,1%. Haverá nos próximos anos, portanto, mais velhos
e eles viverão mais. Que desastre?

E o presente é viável?
Sobre os dados demográficos brasileiros disponíveis, NERI e SILVA
(1993, p. 216) concluem que, apesar da heterogeneidade com que a velhice se
manifesta nas várias regiões do país, por refletir diferentes condições, socio-
econômicas e culturais entre outras, “o idoso brasileiro é em geral pobre, com
insuficiente acesso a precários serviços públicos de bem-estar, e tem poucas
perspectivas de melhora a curto e a médio prazo.” É de se prever que, ao se
duplicar, nos anos a vir, o número de idosos, a precariedade com que eles serão
atendidos em suas necessidades deverá aumentar, a não ser que se modifiquem
urgentemente as políticas destinadas à manutenção e à recuperação da saúde da
população.
Nos países cujo processo de envelhecimento populacional já se deu há
algum tempo, criaram-se políticas de investimento em redes de suporte ao idoso e
a seus cuidadores, familiares ou não, voluntários ou profissionais e os idosos
fragilizados contam, segundo CICIRELLI3, com uma série de serviços que lhes
asseguram moradia, manutenção da casa, sustento, segurança, cuidado pessoal,
cuidados domiciliares com saúde, transporte, apoio psicológico, oferta de
atividades sociais e recreativas, apoio espiritual, proteção e assistência
burocrática, além de outros serviços que satisfazem demandas de
autodesenvolvimento.
Os que têm uma visão da saúde centrada apenas nos problemas físicos
do corpo, diriam que exclusivamente os cuidados médicos diretos redundam em
efeitos de recuperação e manutenção da saúde. De fato não é assim, pois todos
aqueles serviços colocados à disposição dos idosos nas sociedades mais
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envelhecidas estão diretamente ligados à saúde. Até mesmo a proteção e a


assistência burocrática, se considerarmos que problemas nessa esfera podem ser
fonte de estresse continuado e, portanto, de possíveis enfermidades.

Saúde dos idosos: tema de interesse mundial


Será que, no futuro, a saúde dos mais jovens dependerá da capacidade
dos sistemas de saúde absorverem o contingente cada vez mais numeroso e
oneroso de velhos ou a forma para solucionar este impasse aparente estará na
capacidade de jovens e velhos aumentarem sua habilidade de controle sobre sua
saúde? Dito em outros termos: as políticas de saúde deverão priorizar aumentos
indefinidos de recursos para a recuperação da saúde –prevenções secundária e
terciária de doenças e outros agravos– ou preocupar-se com investimentos, desde
já, em promoção de saúde e prevenção primária de doenças e outros agravos,
para todos os grupos de idade? E em que consiste de fato promover a saúde de
idosos e fazer prevenção primária de doenças em idosos?
A saúde dos velhos é um tema que não interessa apenas a esta
categoria social, mas interessa a todos, se considerarmos que a população de
pessoas idosas no país deverá dobrar no arco de tempo dos próximos 20 anos
(BERQUÓ, 1996) e que, supostamente, a manutenção de sua saúde incidirá de
forma crescente sobre as contas do país.
Desde o 1º Congresso Internacional sobre a Promoção da Saúde,
realizado em Ottawa em 21 de novembro de 1986 e que resultou no documento
conhecido como Carta de Ottawa, a ORGANIZAÇÃO MUNDIAL da SAÚDE
(O.M.S.), impulsionada por inúmeros estudos referentes à promoção da saúde,
tem colocado as estratégias de promoção da saúde como um meio capaz de unir
as forças das organizações governamentais e voluntárias para a conquista da
Saúde para Todos até o Ano 2000 (EUROLINK AGE, 1996).
Estando no ano 2001, é fácil verificar que, se muitas iniciativas tiveram
lugar no mundo para a promoção da saúde, elas não conseguiram ainda criar uma
consciência, tanto nos meios acadêmicos como na população em geral, ao ponto
de revolucionar os sistemas de saúde dos vários países, notadamente o nosso
sistema brasileiro de saúde. Os sistemas andam falidos e as pessoas carentes de
assistência, em que pesem os avanços obtidos em certos campos.
11

Os objetivos da dissertação
Nesta dissertação quisemos contribuir para a recuperação e a
sistematização de pelo menos dois conceitos aparentemente antagônicos de
saúde, o da visão biomédica e o da visão holística, apresentados por Fritjof
CAPRA4, e de suas influências sobre o sistema de assistência à saúde, para
verificar como eles de fato se expressam nas percepções e nas formas como
usuários idosos deste sistema lidam com a busca e a manutenção de sua saúde.
As representações das pessoas sobre saúde poderiam influir sobre as
ações de busca e manutenção da saúde? Se constatássemos que velhos buscam
manter, prevenir ou recuperar sua própria saúde de forma congruente com um
determinado tipo de conceito de saúde, poderíamos inferir que há pelo menos
uma consistência entre o “pensar saúde” e o “agir saúde” destas pessoas e se
esta consistência fosse generalizável para a população idosa poderíamos estudar
com proveito como esta visão pode organizar-se nessas pessoas; se fosse
desejável, poderíamos idealizar e propor processos de mudança cognitiva e
vivencial, para que a população idosa desenvolvesse um “pensar e agir saúde”
mais apropriado para a obtenção de saúde em nossa sociedade.
Contrariando tudo que foi dito no parágrafo anterior, poderíamos pensar
que não há congruência alguma entre o que os idosos pensam sobre saúde e o
seu modo de buscar e manter sua saúde. O “agir saúde” seria vivencial e, como
tal, sujeito às influências das inúmeras relações em que a busca da saúde e de
sua manutenção costuma ocorrer, sofrendo, freqüentemente o impacto de
emoções fortes que soem acompanhar a experiência do sofrimento e dos
constrangimentos ligados à manifestação das enfermidades. Será que paradigmas
e percepções sobre saúde são tão poderosos a ponto de afirmar-se, na ocasião
do aparecimento de doenças, para orientar as ações das pessoas que buscam a
solução de seus problemas de saúde? Talvez a única congruência possível seja
entre o manifestar-se do sofrimento de uma doença e a busca de sua redução ou
de sua eliminação a qualquer custo e não entre uma crença sobre doença e busca
da saúde e uma forma específica de terapia ou de prevenção. Se assim for,
eventuais políticas de promoção da saúde não poderão apenas ser propostas a
partir de visões conceituais, mas terão que procurar alavancas mais vivênciais e
personalizadas, permitindo às pessoas introjetá-las não por meio de um
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convencimento sobretudo racional, mas como se fosse o efeito de um abraço


afetuoso no corpo sofrido de um doente.

O objeto da pesquisa
Para observar como as visões biomédica e holística de saúde estão
presentes no mundo das representações sociais dos idosos e como elas se
estruturam de forma a orientar seus comportamentos relativos aos cuidados com a
saúde, fez-se uma verificação de campo, por meio de investigação prospectiva em
uma amostra de 140 pessoas, pertencentes a nove grupos da terceira idade,
alguns deles ligados ao Serviço Social do Comércio (SESC-SP) e outros ligados a
igrejas, na cidade de São Paulo, e secundariamente, testou-se, como instrumento
de investigação, uma escala de tipo Thurstone, cujos enunciados serviram para
que os idosos pesquisados pudessem manifestar sua visão de saúde.
Os resultados desta pesquisa e as reflexões deles decorrentes estão
consignados no final desta dissertação.

Mas o que é saúde, afinal?


O conceito que se tenha de saúde é importante para definir se a
assistência à saúde assim como sua promoção são efetivas. Segundo a Carta de
Ottawa,
“a saúde é gerada e vivida por todos na esfera do quotidiano: no aprender, no
trabalhar, no brincar, no amar. A saúde é gerada cuidando de si mesmo e dos
outros, adquirindo a capacidade de tomar decisões e de assumir o controle das
circunstâncias da vida, de forma que a sociedade em que se vive permita a
conquista da saúde para todos os seus membros”. (EUROLINK AGE, 1996, p. 34
– t. d. a.).
Nesta concepção, a saúde é algo que se gera ou que se perde ao
vivermos o nosso dia-a-dia. Este parece ser um conceito mais amplo do que
aquele que identifica saúde como ausência de “luta bacteriológica” entre uma
colônia de microrganismos e um organismo humano, por exemplo. A maneira de
se pensar a saúde não parece ser irrelevante para a forma como os sistemas de
saúde são organizados nas sociedades e como as pessoas usufruem dos bens
por eles produzidos.
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As múltiplas facetas da saúde


Várias são as visões sobre saúde que podem ser recolhidas das
pessoas, a partir de suas experiências sobre doença e cura. O antropólogo
francês François LAPLANTINE (1991) deu-se a este trabalho, comparando os
diversos discursos, conhecimentos e práticas que revelam como as pessoas se
representam a morbidez e a saúde. Para obter seu objetivo, este autor estudou
tanto os sistemas médicos dominantes, quanto os marginalizados para a periferia
da sociedade.
LAPLANTINE construiu o que ele chama de "modelos etiológicos e
terapêuticos", isto é, construções teóricas que, na sua opinião são aplicáveis a
qualquer cultura.

Modelos etiológicos de Laplantine


Os modelos etiológicos que LAPLANTINE descreve são:
a) modelo ontológico (a doença é uma entidade em si ora identificável com um
dano orgânico, ora com um corpo estranho que a causa);
b) modelo funcional ou relacional (a doença é um desequilíbrio, por excesso ou
por falta; não é algo em si, mas algo que decorre de uma alteração numa
relação, é algo funcional e ocorre não em um espaço geográfico, mas em uma
evolução temporal, histórica);
c) modelo exógeno (a doença é resultado da ação de um agente externo
antropomorfo –feiticeiro, gênio, espírito, diabo, Deus, destino) ou “natural”
(planetas, clima e metereologia, condições ecológicas e sociais de existência,
o meio químico ou bioquímico dos alimentos);
d) modelo endógeno (a doença é fruto de algo que acontece no interior do
doente, não vem de fora, algo que está relacionado, de alguma forma, com a
responsabilidade do doente na gênese do estado mórbido –temperamento,
constituição, disposições e predisposições, tipo de caráter, tipo de astral, de
natureza, hereditariedade, patrimônio genético, meio interior, secreções
glandulares, sangue, fragilidade, disposição para uma doença, potencial inato
ou adquirido de recursos de autodefesa);
e) modelo aditivo, decorrente da mentalidade cristã sobre doença como
conseqüência do pecado ou da possessão demoníaca, ou da mentalidade
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pasteuriana da infecção microbiana, ou de um excesso de cultura –excesso de


tensão, de energia, de alimentação, de bebida, de tabaco (a doença é uma
“positividade inimiga”, “uma adição de algo de mal a ser extraído”);
f) f) modelo subtrativo (segundo a cultura muçulmana ortodoxa, a doença seria
mais uma ausência do que uma presença, ela provém de uma falta, de algo
que não há –uma ausência– ou que se foi –uma perda–, de uma negatividade,
algo, então, a ser curado por adição ou junção);
g) modelo da doença maléfica (para o saber médico moderno ocidental, a
doença é “nociva, perniciosa, indesejável” e, como tal, deve ser combatida;
além de ser um “desvio biológico”, a doença é, também, um “desvio social”,
pois o “doente é visto pelos outros e se vê ele mesmo como um ser
socialmente desvalorizado”;
h) modelo da doença benéfica: a doença é a expressão da tentativa do
organismo de restabelecer o equilíbrio perturbado, ou até como a expressão
de uma possibilidade de um equilíbrio superior; para outros, a doença é algo
muito significativo a ser vivido plenamente (doença-salvação); esta última
representação decorre de uma visão cristã que considera a doença como uma
graça de Deus, em que o cristão associa-se à obra redentora de Cristo
(porém, numa outra concepção, de extração igualmente cristã, a doença é
concebida como a decorrência do pecado original e, portanto, uma punição,
algo maléfico); há uma variante exógena deste modelo, pela qual a doença é
uma invasão da divindade (um acréscimo divino), uma exaltação (modelo
místico);.a variante endógena deste modelo é a do xamã, cuja alma parte para
um itinerário espiritual, interior, terapêutico (modelo xamanístico); uma outra
variante, que o autor considera mitológica, é da nossa cultura contemporânea,
em que a saúde é considerada como ausência total de doença:
“Esta idéia-força, que se exprime ao mesmo tempo sob a forma de um direito (o
“direito à saúde”) e de um dever (o dever de todos e de cada um – e em particular
aquele que se exige do Estado – de travar um combate inexorável contra a
anormalidade, o envelhecimento e a própria morte), mobiliza uma parte tão grande
de nossa energia e é objeto de uma tal convicção, que convém, em nossa opinião,
qualificá-la de mitológica.” (LAPLANTINE, 1991, p.120).
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O autor pergunta-se se, à medida que os sintomas são considerados como


expressão profunda do ser humanos em um momento específico de sua vida,
ainda se pode falar em patogenia e em doença.

Modelos terapêuticos de Laplantine


Ultrapassando as preferências terapêuticas de cada época e cultura, o
autor busca estabelecer uma série de modelos de base de estratégias
terapêuticas, assim como procurou fazer em relação aos modelos de imputação
etiológica. Além da classificação habitual dos tratamentos como
preventivo/curativos, paliativos/definitivos, causais/sintomatológicos, simbólico
(efeito placebo)/ medicinais (como subdivisão deste último conceito –tratamentos
medicinais, podem ser relacionados os tratamentos físicos –radioterapêuticos,
cirúrgicos,quimioterapêuticos– ou os energéticos); o autor oferece quatro pares
contrastados de formas elementares de cura, que podem explicar de forma teórica
(não empírica) todas as estratégias de cura existentes:
a. modelo alopático ou aloterápico: alopatia intervém agredindo (contra-
agressão) a entidade patogênica externa por meio de instrumentos invasivos,
como o quimioterápico; se quer impedir ou eliminar qualquer sintoma, crise ou
causa identificável, através de terapias extremamente eficazes, de “extrema
brutalidade”, que provocam efeitos colaterais importantes ou “até mesmo mais
graves que a própria doença que se procurava tratar.” (p.162).
b. modelo homeopático: pelo princípio das similitudes, a alopatia médica erudita
procura tratar a doença por meio do remédio que pode provocá-la, graças ao
princípio das diluições infinitesimais, nas quais há uma inversão da ação do
remédio; o sintoma deixa de ser um mal a ser combatido; ele apenas revela o
desequilíbrio do organismo; o mesmo princípio homeopático explica o princípio
da vacinação, pelo qual, inoculando a doença conseguimos proteger-nos dela;
a homeopatia médica popular atua no mesmo sentido (“fogo contra fogo”), a
“medicina das assinaturas” (analogia das cores e das formas da afecção com
o remédio) e a homeopatia ritual (através de cerimonial invoca-se o Santo que
tem o nome semelhante ao da doença); a cura psicanalítica, também, é de
tipo homeopático, seguindo o princípio das similitudes: procura-se reativar os
problemas da pessoa favorecendo um deslocamento de energia ou de
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significação; enfim, procura-se “resolver os conflitos intrapsíquicos sem atacar


frontalmente os sintomas por uma intervenção exterior (...), mas agindo no
sentido de sua reatualização, o que provoca no analisando a famosa „neurose
de transferência‟.” (p.168). a “antipsiquiatria é homoterapêutica: o
“antipsiquiatra” não inibe as reações do paciente, antes ajuda-as a se
desenvolverem, de forma que o psicótico empreende uma espécie de “viagem
iniciática”, ajudado por seu terapeuta;
c. modelo subtrativo: a terapia visa a retirar (subtrair) do doente algo que
penetrou nele como corpo estranho: trilogia da lavagem, do purgativo e da
sangria; ventosas e sanguissugas, cataplasmas de mostarda, bolsa de água
quente, infusão (fazer suar para extrair, ajudar o organismos a se livrar de
excessos); cirurgia extrativa (ablação); dietética subtrativa (esvaziar, evacuar);
d. modelo aditivo: a doença é fruto de uma perda, de um déficit, de uma
diminuição que deve ser restituída (adicionada) para obter-se a cura; terapias
de reforço alimentar, de prescrição vitamínica; cirurgia de enxerto; terapias de
reabsorção (antidiarrêicos, adstringentes –fortalecedores de tecidos,
carminativos –reabsorvedores de gases, hemostáticos, anti-sudoríferos,
vasoconstritores;
e. modelo exorcista: o exorcismo é a extração da doença do doente por meio de
um combate sem trégua(é o modelo dominante em nossa cultura médica
atual);
f. modelo adorcista: o termo “adorcismo” foi criado por Luc de Heutsch (1971): a
doença não é um mal a ser combatido, extraído do indivíduo, mas uma
oportunidade para adquirir um nível superior de equilíbrio humano, físico,
emocional, espiritual; portanto, a doença solicita “uma ação de domesticação,
de iniciação, de entronização, mas sempre de sacralização por
acréscimo.”(p.187); a doença é um valor que o terapeuta deve confirmar,
induzir e amplificar, é algo que tem um sentido, o qual se relaciona com a
iniciativa do doente de assumir sua doença, mesmo que não se deva sentir
responsável por ela; no sentido adorcista, a cura não é a eliminação da
doença, nem o retorno a um estado inicial de saúde; é, ao contrário, um
caminho para um novo nível de saúde, de ser; o doente não é um doente, mas
um ser em transformação para melhor;
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g. modelo sedativo: o terapeuta inibe os processos fisiológicos em excesso


(eliminação de humores danosos de Galeno, tratamento com purgante, dieta e
sangria, certas psicoterapias que usam relaxamento, treinamento autógeno de
Schultz, sofrologia, meditação); a imunologia e a acupuntura podem ser tanto
sedativas como excitativas dependendo do objetivo (por exemplo: a
acupuntura pode estimular a energia yang debilitada ou sedar uma energia yin
negativa em excesso;
h. modelo excitativo: tratamento de tonificação do organismo ou da
personalidade (ativar, estimular, aumentar, fortificar, excitar, reanimar,
reconstituir, desinibir).
Sobre as relações entre os modelos etiológicos e terapêuticos,
LAPLANTINE observa que há casos em que não existe um sistema etiológico-
terapêutico reconhecível (por exemplo: uma endoetiologia não suscita sempre
uma endoterapia). É possível, também, escolher uma série de respostas
terapêuticas para uma mesma etiologia. Teoricamente, o mais freqüente é a
representação etiológica induzir a interpretação terapêutica (o diagnóstico
determina o tratamento). Mas há, também o caso inverso, quando o médico aplica
um remédio sem conhecer as causas de um distúrbio:
“É importante enfatizar até que ponto a imensa maioria dos médicos que
encontramos são práticos no estrito sentido do termo, e até mesmo
pragmáticos, mas raramente teóricos. Eles prescrevem com freqüência
tratamentos vários, sem ter um conhecimento exato das causas da doença e
são obrigados, todos os dias, a tomar decisões, por vezes cruciais, antes que
estejam perfeitamente comprovados os processos dos medicamentos
utilizados.” (LAPLANTINE, 1991, p.208).

Visões diversas de saúde podem coexistir na sociedade


Sempre de acordo com o autor mencionado, há dois tipos de relações
entre os vários modelos: de alternância e de coexistência conflituosa. A
alternância dos modelos é perceptível para quem considera a história da medicina,
em que há “renascimentos, descontinuidades, rupturas, distâncias” entre modelos.
A outra relação, de conflito entre modelos, é percebida pelo estudioso que não se
atém apenas à análise do modelo ou dos modelos dominantes, ficando atento
para as expressões marginais de cada cultura ou sociedade. O conflito entre
18

modelos pode expressar as contradições de uma sociedade em um certo período


de sua evolução. Assim, as visões biomédica e holística de saúde podem
coexistir, como de fato coexistem, em nossa sociedade e no meio de grupos
específicos, como, por exemplo, os idosos.
A visão biomédica de saúde pode ser reconduzida aos modelos
etiológicos laplantinianos de tipo ontológico, exógeno, aditivo, de doença maléfica
e aos modelos terapêuticos alopático, subtrativo ou aditivo e exorcista
A visão holística de saúde está referenciada nos modelos etiológicos de
tipo funcional, endógeno e aos modelos terapêuticos de tipo homeopático e
adorcista.
Embora seja de grande interesse verificar quais visões de saúde
estejam mais presentes na população idosa, tanto o foco de nossa reflexão como
a pesquisa junto a grupos de idosos restringir-se-ão à abordagem das visões
biomédica e holística, assim como descritas por Fritjof CAPRA e por nós nesta
dissertação.
É importante esclarecer que o modelo biomédico de saúde não é o
único presente no sistema de saúde oficial de nossa sociedade. Ao lado desse
modelo e surgindo em seu próprio meio, veio marcando sua presença o modelo da
chamada Saúde Coletiva, corrente de pensamento que se corporificou em
movimento social e prática médica. Everardo Duarte NUNES (1994)5 descreve a
trajetória histórica e conceitual deste modelo, que surge em nosso país, a partir da
segunda metade dos anos 50, com a instauração de um "projeto preventivista"
latino-americano e, posteriormente, com a sistematização, na década de 70, de
um novo campo de saber, que foi chamado de Medicina Social.
NUNES afirma que o projeto preventivista surgiu da crítica à teoria e à
pratica médicas dominantes e teve como principal saldo positivo "a inclusão, no
curso de graduação em medicina, de disciplinas e temas associados à
epidemiologia, ciências da conduta, administração de serviços de saúde,
bioestatística." (uma tentativa de fornecer aos futuros médicos uma visão não
apenas biológica do indivíduo). No plano político-ideológico, o projeto preventivista
teria influenciado a prática médica por meio de programas fora dos hospitais,
enfatizando a medicina da família e a medicina comunitária.
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A Medicina Social surgia mais tarde, em outro contexto sócio-


econômico, na esteira de novos movimentos sociais populares, procurando
responder a novas problemáticas no campo da saúde (acidentes de trabalho,
doenças crônico-degenerativas), por meio da focalização das relações entre o
biológico e o psicossocial como objeto de estudo.
Diante de novas condições estruturais da economia latino-americana
que, no final dos anos 70, enfrentava recessão econômica, aumento do processo
inflacionário, da dívida externa, do desemprego e do déficit fiscal e das influências
negativas deste quadro sobre os níveis de saúde, novos grupos surgiram para
analisar e promover mudanças na situação da saúde e das políticas sanitárias.
Para tanto, novas bases teóricas foram buscadas no referencial marxista, que
elegeu o coletivo como o lugar privilegiado para o conhecimento e a prática de
saúde.
Ao longo desta dissertação, quando nos referirmos às práticas médicas
dominantes, não nos referiremos necessariamente a estas "vertentes sociais" da
biomedicina, embora a elas, também, possamos fazer menção em algumas
oportunidades; pois, apesar de nascidas do mesmo caldo cultural biomédico,
buscam ultrapassar suas limitações mecanicistas e reducionistas da natureza
humana.

Expandindo a temática da pesquisa


Como vimos anteriormente, há diferentes crenças sobre saúde e todas
refletem a necessidade que as pessoas têm de explicar o que ocorre com si
próprias, quando doentes, e de justificar as práticas de saúde que o meio social
propõe e que elas decidem abraçar. Os movimentos preventivistas conseguiram
introduzir novos hábitos de higiene e prevenção nas populações, para combater
os riscos de infecções, assim como estabelecer políticas correspondentes de
saúde pública, que visam à prevenção dita primária das doenças e à promoção da
saúde..
Estas políticas de saúde fundamentam-se na crença das pessoas de
que tanto uma como outra valem a pena, se considerarmos que a prevenção
primária de pessoas idosas ou adultas não costuma ter nenhum caráter coercitivo
(como acontece com medidas de prevenção dirigidas às crianças) e a promoção
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da saúde tem como objetivo principal favorecer a adoção espontânea de hábitos


saudáveis (ou estilo saudável) de vida.
Parece lógico assumir que a prevenção primária e a promoção da
saúde sejam políticas de saúde evidentemente boas para todas as pessoas, quer
porque evitam os sofrimentos da doença, quer porque sua prática é geralmente
muito mais barata que qualquer intervenção de tipo secundário (curar a doença)
ou terciário (recuperar as funções do indivíduo afetadas pela doença).
Se assim fosse, boa parte dos problemas previstos para nosso não
longinquo futuro, relativos à desestruturação dos sistemas de saúde pelo aumento
exponencial do número de velhos e de sua esperança de vida, não ocorreriam, já
que as pessoas aprenderiam a prevenir as doenças e a se manterem durante o
maior tempo possível em condições saudáveis por meio de bons hábitos de vida.
Algumas pessoas aceitam de bom grado ou até procuram colocar em
prática orientações de prevenção primária e de evitação de riscos de doenças,
advindos de hábitos de vida nocivos, chegando a investir seus parcos recursos no
aprendizado de métodos naturais de prevenção de doenças e de manutenção da
saúde; outras, ao contrário, não querem ou, mesmo querendo, não conseguem se
livrar de maus hábitos, procurando soluções para seus problemas de saúde, que
vão desde a ingestão de remédios que provocam efeitos colaterais bastante
indesejáveis à aceitação de submeter-se a terapias cirúrgicas invasivas, mesmo
quando não imprescindíveis. Estas formas extrínsecas de abordagem dos
problemas de saúde são praticadas normalmente pela medicina tradicional alopata
de nosso sistema médico ocidental, organizado a partir de uma visão cartesiana
do universo.
Por outro lado, por exemplo, na China há legiões de pessoas idosos
inclusive ou principalmente, que procuram os parques das cidades toda manhã
bem cedo para praticar exercícios e ginásticas terapêuticas e o mesmo ocorre
com parcela das populações ocidentais, que nas últimas décadas foram
sensibilizadas ou se deixaram sensibilizar sobre a oportunidade dessas práticas.
Essas pessoas, provavelmente, expressam uma visão de mundo diversa da que
sustenta o sistema médico alopata.
A crítica à visão cartesiana do mundo, cujas conseqüências se fazem
sentir nos estudos e na sociedade, tem um de seus expoentes mais recentes e
21

conhecidos em Fritjof CAPRA. Segundo esta crítica, a visão mecanicista


cartesiana do universo gerou, no ocidente, uma visão também mecanicista da
vida: o ser humano é um agregado de peças com funções específicas, embora
interrelacionadas, cujo funcionamento é apreendido pelo estudo detalhado de
cada uma separadamente e é mantido e, eventualmente, recuperado por
especialistas os médicos especialistas, que se esmeram em aplicar as
descobertas de seus princípios bioquímicos, intervindo nele com drogas, e em
aplicar as mais modernas tecnologias dos vários campos científicos aos mais
variados tipos de operações invasivas no corpo humano.
Com isso, a saúde seria a conseqüência de uma ação especializada
sobre o corpo doente, fornecida por um sistema de saúde também especializado e
capaz de prover todas as drogas e as intervenções tecnológicas disponíveis.
Outras pessoas, que possuem uma visão holística e concebem a saúde
como uma forma de equilíbrio físico, psíquico, mental, espiritual, ecológico do
próprio organismo, procuram manter este equilíbrio ou recuperá-lo, “liberando” as
próprias forças internas do organismo humano.
Será que a concepção das pessoas sobre saúde influi sobre seus
comportamentos relativos ao domínio da busca e da manutenção desta mesma
saúde? Será que uma visão cartesiana ou biomédica da saúde bloqueia a procura
da prevenção das doenças e da promoção de hábitos de vida saudáveis? Ou, por
oposição, será que uma visão holística de assistência à saúde favorece a busca e
a manutenção da saúde através de hábitos saudáveis de vida e de ações
preventivas? Será que o chamado paradigma holístico tem chegado ao
conhecimento da população idosa, através das várias mídias? Se isso for verdade,
como esta mesma população se apropriou, se representou e traduz em sua vida
este paradigma? O que os velhos fazem para se manterem saudáveis nas difíceis
condições de vida oferecidas por uma megalópole como São Paulo? O que vem a
ser, afinal, o paradigma holístico em saúde e ele faz algum sentido para pessoas
educadas a interpretar a realidade de forma científica?

O caminho de nossa reflexão


Costuma-se falar em paradigma holístico. Será que esta expressão é
cabível no contexto de uma reflexão acadêmica? No segundo capítulo,
22

procuramos justificar por que esta expressão é legítima, trazendo a reflexão de


Thomas KUHN sobre como de fato a ciência, historicamente, vem se
desenvolvendo através de paradigmas, como eles surgem e se defrontam.
No capítulo terceiro procuramos explicar o sentido do termo holístico,
indicando quando teria surgido no mundo ocidental este paradigma e descrevendo
suas principais características, por meio de sua expressão filosófica organizada
por Basarab NICOLESCU.
No capítulo quarto abordamos os conceitos de saúde e doença,
especificamente sob os pontos de vistas biomédico e holístico, a partir da visão
sistêmica elaborada por Fitjof CAPRA.
No capítulo quinto, continuamos nossa reflexão sobre as visões
biomédica e holística, mas projetadas sobre os diversos modos de assistência à
saúde gerados por um e outro modelo.
No capítulo sexto, abordamos a visão biomédica da OPAS sobre saúde
dos idosos, uma visão aberta a outros componentes que não os estritamente
biomédicos, apresentando e discutindo um de seus filhotes recentes, ou seja, a
Política Nacional de Saúde do Idoso.
Nos capítulos sétimo e oitavo, procuramos ampliar a visão biomédica
da saúde do idoso para uma visão holística sobre envelhecimento saudável e
saúde integral, trazendo reflexões e dados oferecidos por NERI, WITMER e
SWEENEY e BANDURA..
O capítulo nono é dedicado à metodologia da pesquisa levada a efeito
com grupos de idosos autônomos e socialmente ativos da cidade de São Paulo,
enquanto o capítulo décimo descreve os resultados sobre visão e comportamento
de saúde obtidos junto à população pesquisada.
Finalmente, o capítulo décimo traz as considerações finais sobre os
temas abordados em nossa dissertação.
23

II. CIÊNCIA E PARADIGMA

A crítica de CAPRA à visão biomédica de saúde e de assistência à


saúde parte do pressuposto de que esta visão se fundamenta em um paradigma
científico que se iniciou com Descartes no século XVII, consolidou-se nos séculos
seguintes e mantém-se ainda como paradigma predominante na produção
científica do começo do século XXI. Este paradigma teria começado a perder sua
exclusividade, como referencial para o trabalho científico, apenas no começo do
século XX, ao ser questionado pelos físicos das teorias quântica e da relatividade.
É possível compreender estas afirmações se se entender o que é um paradigma
científico, como ele se forma e como pode ser suplantado por outro. O físico,
historiador da ciência e filósofo Thomas KUNH (1998), que estudou a estrutura
das revoluções científicas, pode orientar-nos nessa compreensão.

O que é paradigma
Segundo Thomas KUHN, a história da ciência mostra que existem
períodos pré-paradigmáticos, nos quais coexistem várias escolas (ou teorias) sem
que nenhuma delas consiga impor-se às demais, períodos paradigmáticos ou de
ciência normal, marcados pelo trabalho fecundo da ciência orientado por
paradigmas, e períodos revolucionários nos quais o paradigma existente falha em
orientar a solução de problemas especiais que surgem no trabalho de ciência
normal, razão pela qual alguns cientistas buscam novos paradigmas que acabam
se impondo à comunidade científica, por serem mais eficazes na solução desses
novos problemas.
Mas, o que é um paradigma? Este é como o ar que se respira: damo-
nos conta dele apenas quando está fazendo falta. Na opinião de Edgar MORIN,
“um paradigma é invisível, não está formulado em lugar nenhum!” (1996, p. 287).
Para KUHN, paradigmas são modelos que têm a força de construir "tradições
coerentes e específicas da pesquisa científica" e que possuem duas
características: a de serem "suficientemente sem precedentes para atrair um
grupo duradouro de partidários" e "suficientemente abertas para deixar toda a
espécie de problemas para serem resolvidos pelo grupo redefinido 6 de praticantes
24

da ciência" (KUHN, 1998, p. 30). As regras compartilhadas pelos grupos de


cientistas para a realização do que KUHN chama de ciência normal derivam de
paradigmas, aos quais cabe também "dirigir a pesquisa mesmo na ausência de
regras." (KUHN, 1998, p. 66).
Na realização desta ciência normal, o sucesso do cientista não depende
tanto do fato de seguir um conjunto explícito e completo de regras, quanto do
conhecimento não explicitado, adquirido através da prática científica (KUHN, 1998,
p. 69). Este "conhecimento tácito" é fruto da educação científica:
"Pode-se supor que em algum momento de sua formação, o cientista abstraiu
intuitivamente as regras do jogo para seu próprio uso – mas temos poucas
razões para crer nisso. Embora muitos cientistas falem com facilidade e brilho
a respeito das hipóteses individuais que subjazem numa determinada
pesquisa em andamento, não estão em melhor situação que o leigo quando
se trata de caracterizar as bases estabelecidas do seu campo de estudos,
seus problemas e métodos legítimos."( KUHN, 1998, p. 72).

Como surge um paradigma


Os paradigmas podem ser modelos muito limitados, quando surgem,
mas eles se impõem, em relação a seus competidores, pela capacidade que
possuem de resolver alguns problemas que o grupo de cientistas considera como
críticos. Eles são apenas uma promessa de sucesso, que a ciência normal se
encarrega de realizar, ampliando o conhecimento dos fatos que foram
apresentados como relevantes pelo paradigma, ampliando a capacidade de
predição do modelo em relação a esses mesmos fatos e desenvolvendo de forma
mais articulada a teoria que explica aqueles fatos.

O caminho para a mudança de paradigma


Sempre segundo KUHN, a ciência normal é uma atividade que visa a
ampliar continuamente o conhecimento científico e a aumentar cada vez mais sua
precisão. Nisso, ela é extremamente bem sucedida. Não cabe a ela descobrir
novidades, quanto a fatos e teorias. No entanto, a pesquisa descobre
periodicamente fatos novos e gera teorias novas:
25

"A descoberta começa com a consciência da anomalia, isto é, com o


reconhecimento de que, de alguma maneira, a natureza violou as expectativas
paradigmáticas que governam a ciência normal. Segue-se então uma exploração
mais ou menos ampla da área onde ocorreu a anomalia. Esse trabalho somente se
encerra quando a teoria do paradigma for ajustada, de tal forma que o anômalo se
tenha convertido no esperado". (KUHN, 1998, p. 78).
Isto ocorre porque o paradigma que orienta a pesquisa é tão eficaz
(preciso e amplo) que se mostra bastante sensível como indicador de anomalias,
podendo induzir a mudanças nele próprio. A anomalia ou novidade aparece
normalmente apenas a quem conhece com precisão o que deveria ocorrer e, no
entanto, "saiu errado". Essas mudanças, porém, exigem algo mais que um
pequeno ajustamento e "até que o cientista tenha aprendido a ver a natureza de
um modo diferente, o novo fato não será considerado completamente científico."
(KUHN, 1998, p. 78).
Além das mudanças nos paradigmas, decorrentes de descobertas, há
também mudanças, geralmente mais amplas, que acontecem como resultado da
invenção de novas teorias. Estas surgem na esteira do fracasso das regras
existentes para obter os resultados esperados na solução dos quebra-cabeças7
instrumentais, conceituais e matemáticos, colocados continuamente pela ciência
normal.
Esta não abre mão dos instrumentos proporcionados por um paradigma
existente, enquanto eles forem capazes de resolvê-los:
"Na manufatura, como na ciência, a produção de novos instrumentos é uma
extravagância reservada para as ocasiões que o exigem. O significado das crises
consiste exatamente no fato de que indicam que é chegada a ocasião para
renovar os instrumentos". (KUHN, 1998, p. 105).
No momento da crise, o antigo paradigma torna-se explícito, como expressa
MORIN, dizendo que "quando o pensamento já não tem êxito em explicar suas
observações é que se pode interrogar e remontar até o paradigma." (1996,
p. 287).
26

Como e por quê aceitar um novo paradigma


O que leva os cientistas à aceitação de um novo paradigma? De um
lado, a insegurança gerada pelo desmantelamento do paradigma anterior (que já
não consegue explicar tudo o que deveria); de outro, a existência de uma
alternativa, justamente, de um novo paradigma: a decisão que leva à aceitação do
novo paradigma depende da comparação entre esses paradigmas e de ambos
com a natureza. Não se trata de um processo de construção cumulativa:
“É antes uma reconstrução da área de estudos a partir de novos princípios,
reconstrução que altera algumas das generalizações teóricas mais elementares do
paradigma, bem como muitos de seus métodos e aplicações. (...) Completada a
transição, os cientistas terão modificado a sua concepção da área de estudos, de
seus métodos e de seus objetivos”. (KUHN, 1998, p. 116).
E também:
“A tradição científica normal que emerge de uma revolução científica é não
somente incompatível, mas muitas vezes verdadeiramente incomensurável com
aquela que a precedeu.” (KUHN, 1998, p. 138).

A crise como ponte necessária para a formulação do novo paradigma


Os períodos de crise são caracterizados por uma utilização mais
intensa da análise filosófica por parte dos cientistas, que, embora mantenham
normalmente “a filosofia criadora ao alcance da mão”, nesses períodos, podem
julgar que “a busca de pressupostos (mesmo os não existentes)” seja “uma
maneira eficaz de enfraquecer o domínio de uma tradição sobre a mente e sugerir
as bases para uma nova”. (KUHN, 1998, p. 120). KUHN dá à transição para um
novo paradigma o nome de revolução científica; esta ocorre pela passagem da
pesquisa normal para um período de pesquisa extraordinária, em que há “a
proliferação de articulações concorrentes, a disposição de tentar qualquer coisa, a
expressão de descontentamento explícito, o recurso à Filosofia e ao debate sobre
os fundamentos” (KUHN, 1998, p. 123).
Às vezes, sempre segundo KUHN, o paradigma antigo cai ao primeiro
sinal de que não satisfaz o desenvolvimento da ciência normal (seria o caso dos
primeiros informes de Thomas YOUNG sobre a teoria ondulatória da luz, os quais
apareceram bem no começo de uma crise no campo da Óptica). Outras vezes, há
27

um caminho considerável entre a emergência de um novo paradigma e os


primeiros sintomas de crise (como nos casos do surgimento da teoria copernicana,
da relatividade e da teoria nuclear contemporânea).

Uma crise que é revolução


Por que “revolução”? KUHN afirma que “tal como a escolha entre duas
instituições políticas em competição, a escolha entre paradigmas em competição
demonstra ser uma escolha entre modos incompatíveis de vida (científica – n.d.a.)
comunitária.” (KUHN, 1998, p. 127). Não há apenas lógica neste processo de
transformação; vale muito o impacto de técnicas de “argumentação persuasiva”:
“Embora a inclusão lógica continue sendo uma concepção admissível da relação
existente entre teorias científicas sucessivas, não é plausível do ponto de vista
histórico.”( KUHN, 1998, p. 132).
A mudança de paradigma não é apenas uma nova interpretação científica dos
dados observados na natureza: “embora o mundo não mude com uma mudança
de paradigma, depois dela o cientista trabalha em um mundo diferente.” (KUHN,
1998, p. 157).
O novo paradigma nasce através de “iluminações da intuição”, que não estão
ligadas “nem lógica, nem fragmentariamente” a experiências, o que poderia
promover uma atividade interpretativa:
“Os cientistas falam freqüentemente de „vendas que caem dos olhos‟ ou de uma
„iluminação repentina‟ que „inunda‟ um quebra-cabeças que antes era obscuro (...).
Em outras ocasiões, a iluminação relevante vem durante o sonho. “ (KUHN, 1998,
p. 158).
Depois da revolução científica, o fazer ciência muda, embora de forma
não necessariamente total. O cientista observa o mundo sob um prisma diferente
e várias manipulações e medições que ele fazia se tornam irrelevantes; no entanto
ele continua mantendo grande parte de sua linguagem e usando, embora de forma
diferente, a maior parte de seus instrumentos de laboratório. O que mais muda, no
trabalho científico são as relações dessas manipulações com o paradigma e seus
resultados concretos.
28

A revolução invisível
KUHN sustenta que as revoluções do passado tornaram-se invisíveis a
nossos olhos por causa da visão distorcida dos cientistas em relação ao
desenvolvimento histórico de suas disciplinas. Eles tendem a reescrever a história
passada, nos seus manuais, a partir do presente, de forma a fazer parecer que os
cientistas do passado tenham trabalhado sobre os mesmos fatos e de acordo com
os mesmos cânones “que a revolução mais recente em teoria e metodologia
científica fez parecer científicos.” E acrescenta:
“A depreciação dos fatos históricos está profunda e provavelmente funcionalmente
enraizada na ideologia da profissão científica, a mesma profissão que atribui o
mais alto valor possível a detalhes fatuais de outras espécies.”( KUHN, 1998, p.
176).

A mudança de paradigma como conversão


Há uma resistência enorme à mudança de paradigma; esta resistência
é a expressão da validade do antigo paradigma e é o que permite à ciência normal
avançar. O cientista é como um bom artesão eficiente que, uma vez escolhido um
padrão estético que lhe convenha, põe-se a produzir suas obras-evidências
incessantemente. Se ele aceitasse rediscutir o padrão escolhido a todo momento,
não teria tempo e concentração para fazer o seu trabalho “normal”. Embora
existam argumentos relevantes e os cientistas possam ser persuadidos a mudar
de idéia, a adesão ao novo paradigma não é fruto de provas ou de
argumentações, mas de uma conversão, a qual, evidentemente, não pode ser
forçada. Os que adotam um novo paradigma no início de sua formulação precisam
ter fé na capacidade deste paradigma resolver os problemas nos quais o
paradigma anterior fracassou. São esses adeptos iniciais que irão desenvolver o
paradigma ao ponto de produzir bons argumentos que possam ser difundidos e
multiplicados.

Qual é o fruto das revoluções científicas?


KUHN afirma que durante aqueles períodos em que predomina a
ciência normal o progresso parece óbvio e assegurado como resultado do trabalho
29

científico; isto porque o cientista é educado rigidamente para essa tarefa. Mas, e
durante as revoluções científicas? Também há progresso, porque “para a facção
vitoriosa, o resultado de uma revolução deve ser o progresso.” Ou será que
“alguma vez o grupo vencedor afirmará que o resultado de sua vitória não
corresponde a um progresso autêntico?” (KUHN, 1998, p. 209). KUHN acrescenta
que os cientistas tendem a negar as perdas que ocorrem em uma revolução,
enfatizando apenas seus ganhos. Esta é uma avaliação interna corporis, já que é
essencial à comunidade científica não delegar a nenhuma autoridade externa a
ela a possibilidade de julgar os resultados de sua produção.
Qual é, então, o fruto do trabalho científico? Certamente algum tipo de
progresso científico. Mas, apenas isto? KUHN declara:
“Para ser mais preciso, talvez tenhamos que abandonar a noção, explícita ou
implícita, segundo a qual as mudanças de paradigma levam os cientistas e os que
com eles aprendem a uma proximidade sempre maior da verdade.” (1998, p. 213).
Há sim um processo de evolução de estágios sucessivos, que se caracterizam por
uma compreensão cada vez mais precisa da natureza. Mas isto não significa que
haja um processo evolutivo que manifeste algum finalismo:
“Será realmente útil conceber a existência de uma explicação completa, objetiva e
verdadeira da natureza, julgando as realizações científicas de acordo com sua
capacidade para nos aproximar daquele objetivo último?.” (KUHN, 1998, p. 214).
30

III. PARADIGMA HOLÍSTICO OU DA TRANSDISCIPLINARIDADE

O nascimento de um novo paradigma


Ao discursar sobre como ocorrem as mudanças de paradigmas, KUHN
pergunta-se se a mudança de paradigma é fruto de uma nova interpretação de
observações fixadas desde sempre pela natureza e pelo aparato perceptivo. Ele
responde que esta maneira de ver as coisas é usual e que “é antes uma parte
essencial de um paradigma iniciado por Descartes” (KUHN, 1998, p. 156). Refere-
se ele ao paradigma cartesiano, que “serviu tanto à Ciência como à Filosofia” e
que estaria “de algum modo, equivocado”, como sugerem pesquisas atuais em
setores da Filosofia, Psicologia, Lingüística, História da Arte, embora até agora
sua exploração tenha gerado “uma compreensão fundamental que talvez não
pudesse ser alcançada de outra maneira.” (KUHN, 1998, p. 156). E acrescenta:
“Nenhum desses temas promotores de crises produziu até agora uma alternativa
viável para o paradigma epistemológico tradicional (cartesiano – n.d.a.), mas já
começaram a sugerir quais serão algumas das características desse (novo –
n.d.a.) paradigma.” (KUHN, 1998, p. 156).
Fritjof CAPRA (1997) e Basarab NICOLESCU (1999) fazem remontar o
começo da elaboração do novo paradigma, que se contrapõe ao paradigma
cartesiano, aos estudos que resultaram na consolidação das teorias da física
quântica e da relatividade, durante as primeiras três décadas do século XX.
CAPRA diz que, a partir das revoluções conceituais pelas quais passou
a física moderna, o mundo passou a ser percebido sem suas conotações
mecanicistas cartesianas, passando a ser visto como um todo orgânico e
ecológico, de uma forma que “mostra grandes semelhanças com as visões dos
místicos de todas as épocas e tradições”, apresentando-se, agora, como “um todo
harmonioso e indivisível, uma rede de relações dinâmicas que incluem o
observador humano e sua consciência de um modo essencial.” (1997, p. 44).
CAPRA acredita que a experiência questionadora dos físicos pode ser
uma lição útil para outros cientistas que, ao chegarem “aos limites da visão de
mundo cartesiana em seus respectivos campos”, devem colocar-se o problema de
ter que mudar ou abandonar alguns de seus conceitos mais consolidados:
31

“Os cientistas não terão por que relutar em adotar uma estrutura holística, como
freqüentemente o fazem hoje em dia, por temor de serem anticientíficos. A física
moderna pode mostrar-lhes que tal estrutura é não só científica, mas está de
acordo com as mais avançadas teorias científicas sobre a realidade física.”
(CAPRA, 1997, p. 46).

O novo paradigma holístico ou da transdisciplinaridade


A palavra “holístico” vem de holon, expressão grega, que significa
“o todo”. Segundo Pierre WEIL (1993), esta palavra foi forjada primeiramente por
Jan Christian SMUTS para indicar “uma força responsável por todos os conjuntos
do universo” (WEIL, 1993, p. 39) e, de acordo com CAPRA (1997, p. 40), Arthur
KOESTLER utilizou a palavra holons em teoria de sistemas, para denominar os
subsistemas de um sistema: cada subsistema é, simultaneamente, um todo em si
e uma parte de um todo maior, manifestando duas tendências opostas e
complementares: de integração (no sistema) e de auto-afirmação (como um todo
autônomo individual). A palavra “holístico” expressa o movimento de superação da
divisão da natureza em partes mecanicamente integradas, promovida ao excesso
pela visão cartesiana de mundo. CAPRA considera a esse respeito que:
“Quando os cientistas reduzem um todo a seus constituintes fundamentais – sejam
eles células, genes ou partículas fundamentais – e tentam explicar todos os
fenômenos em função desses elementos, eles perdem a capacidade de entender
as atividades coordenadoras do sistema como um todo.” (1997, p. 107).

A visão sistêmica dos organismos vivos


A visão holística tem por metáfora a holografia8 e reporta-se muito à
visão sistêmica dos organismos vivos, pelas características peculiares que os
distinguem de sistemas mecânicos. CAPRA descreve essas diferenças: máquinas
são construídas, organismos crescem e manifestam-se através de processos;
máquinas têm número de peças e projeto definidos, organismos possuem alto
grau de flexibilidade e plasticidade interna; máquinas funcionam por cadeias
lineares de causa e efeito, organismos têm funcionamento orientado por fluxos
cíclicos de retroinformação; máquinas são sistemas relativamente isolados,
32

organismos são abertos, mantendo troca contínua de energia e matéria com o


meio.
Os sistemas vivos se auto-organizam; isto significa que mantêm certo
grau de autonomia em relação ao meio com que se relacionam; assim fazendo,
eles reciclam em continuidade seus componentes –auto-renovação, e ultrapassam
suas fronteiras físicas e mentais –autotranscendência. Essa atividade auto-
organizadora possui um alto grau de estabilidade dinâmica, que consiste na
manutenção de uma mesma estrutura global, apesar da contínua substituição dos
componentes. Por outro lado, as máquinas não se auto-renovam e não se
transcendem, pois elas funcionam apenas para executar a tarefa para a qual
foram construídas.
As máquinas, também, quebram mas não envelhecem e podem ser
reparadas. Os organismos vivos, por serem complexos, deterioram-se
gradualmente – envelhecem, e substituem-se totalmente, dando vida a um novo
organismo, e depois morrem. “A morte, portanto, não é o oposto da vida, mas um
aspecto essencial dela” (CAPRA, 1997, p. 276), é o preço pago pela
individualidade, na interpretação de Leonard SHLAIN 9, pois, sem ela, estaríamos
nos reproduzindo de forma assexuada e indiferenciada como as bactérias. Se
somos o novo da vida, porque nascemos, e estamos destinados a morrer,
significa, então, que fazemos parte de um todo maior que continuamente se
renova. É a hipótese de Gaia10, que considera o planeta Terra como um
organismo vivo, inserido em sistemas mais compreensivos.
Há dois mecanismos básicos de realimentação nos organismos vivos:
um reduz os desvios do estado de equilíbrio – realimentação negativa, como
ocorre nos organismos superiores para manter constantes, por exemplo, as taxas
de pressão e temperatura, e outro amplia certos desvios – realimentação positiva,
como ocorre nos processos de desenvolvimento, aprendizagem e evolução.

Mudanças adaptativas dos organismos e evolução


Os organismos superiores são capazes, ainda, de três tipos de
adaptação a mudanças ambientais: mudanças adaptativas a mudanças
ambientais facilmente reversíveis; mudanças somáticas, devidas à adaptação a
mudanças ambientais mais prolongadas (ainda são reversíveis, embora não seja
33

tão fácil revertê-las); mudanças genotípicas de adaptação das espécies ao


processo de evolução (irreversível no arco de tempo da vida de um indivíduo). As
mudanças genotípicas produzem maior flexibilidade que as somáticas, porque
cada célula traz em si a informação genética, sem precisar de mensagens
adicionais vindas de fora, o que deixa mais circuitos livres e mantém alta a
flexibilidade do sistema. “Os três modos de adaptação caracterizam-se por uma
crescente flexibilidade e uma decrescente reversibilidade.” (CAPRA, 1997, p. 268).
Ainda, os organismos vivos tendem para a vida associativa e
cooperativa, apesar de manterem parcialmente certos comportamentos
competitivos entre si. É o que ocorre com animais e plantas nos ecossistemas
equilibrados. Este conceito contrasta com a posição dos darwinistas sociais que
não consideram os princípios cooperativos e integrativos com os quais se
organizam os sistemas vivos.
Além das características complementares da auto-afirmação e da
integração, os sistemas apresentam, segundo CAPRA, outras duas
características, também complementares: a autoconservação e a
autotranscendência. A primeira dá conta dos processos de auto-renovação, cura,
homeostase e adaptação; a segunda, explica os processos de autotransformação
como a aprendizagem, o desenvolvimento e a evolução11. CAPRA afirma que a
evolução não se explica apenas pela adaptação: “Se a adaptação fosse, ela só, o
núcleo da evolução, seria difícil explicar por que as formas vivas evoluíram além
das algas azuis, que estão perfeitamente adaptadas a seu meio ambiente, (...).”
(1997, p. 279).
A evolução seria melhor explicada pelos comportamentos de
autotranscendência dos organismos – a criatividade de indivíduos, ecossistemas,
sociedades, culturas. Então, a evolução seria basicamente aberta e
indeterminada, não havendo finalidade nela, apesar de manifestar um padrão
definido de desenvolvimento:
“Na visão sistêmica, o processo de evolução não é dominado pelo „acaso cego‟,
mas representa um desdobramento de ordem e complexidade que pode ser visto
como uma espécie de processo de aprendizagem, envolvendo autonomia e
liberdade de escolha.” (CAPRA, 1997, p. 281).
34

Evolução social e cultural dos organismos


A unidade básica de sobrevivência, na teoria evolutiva darwiniana, era a
espécie ou outro componente básico do mundo biológico. Para a teoria de
sistemas, o que sobrevive, no processo evolutivo, é um modelo de organização
adotado por um organismo em suas interações com o meio ambiente – um
comportamento; há uma co-evolução do organismo e do meio.
Esta co-evolução permitiu o surgimento e a convivência de inúmeras
formas simples de vida. Dois processos, porém, permitiram uma fantástica
produção de formas complexas de vida: a reprodução sexual, com a introdução da
variedade genética, e a consciência, que permitiu substituir os mecanismos
biológicos evolutivos pelos mecanismos sociais, com o desenvolvimento do
pensamento e da linguagem simbólica.

Mente e consciência
A este respeito, CAPRA cita Gregory BATESON. Este autor (1986, p.
99) analisa os critérios que definem quais agregados de fenômenos ou qual
sistema podem ser chamados de “mente”. Para BATESON, mente é a
conseqüência necessária de um certo nível de complexidade dos organismos e
ela se manifesta antes desses mesmos organismos desenvolverem um sistema
nervoso superior.
A mente é, portanto, uma característica dos sistemas vivos –
organismos vivos, sociedades, ecossistemas, e ela expressa a dinâmica de sua
auto-organização, isto é, do processamento das informações que os perpassam.
CAPRA afirma que “mente” não é, portanto, uma manifestação que se oponha à
matéria:
“Mente e matéria já não parecem pertencer a duas categorias fundamentalmente
distintas, como acreditava Descartes; pode-se considerar que apenas representem
aspectos diferentes do mesmo processo universal.” (1997, p. 284).
O organismo humano possui uma série de atividades mentais, que
CAPRA chama de “mentações”12. Estas “mentações” envolvem células, tecidos e
órgãos, inclusive o cérebro, em vários níveis correspondentes a diferentes
estágios da evolução humana. A mente humana seria o conjunto de todas estas
35

mentações, sendo um “fenômeno de múltiplos níveis, do qual só em parte temos


conhecimento nos estados ordinários de consciência.“ Esta noção de mente é
própria de muitas culturas não-ocidentais e manifesta, segundo CAPRA, uma
totalidade, que não pode ser expressa apenas pela idéia tradicional de Deus:
“Na ordem estratificada da natureza, as mentes humanas individuais estão
inseridas nas mentes mais vastas dos sistemas sociais e ecológicos, e estes, por
sua vez, estão integrados no sistema mental planetário – a mente Gaia–, o qual
deve participar, finalmente, de alguma espécie de mente universal ou cósmica.”
(1997, p. 285) 13.
O que é absolutamente característico da mente humana é o
desenvolvimento da consciência interior à qual pertencem, sempre segundo
CAPRA, a autoconsciência, a experiência consciente, o pensamento conceitual,
a linguagem simbólica, os sonhos, a arte, a criação de cultura, o senso de valores,
o interesse no passado e a preocupação com o futuro. As chamadas psicologias
orientais têm desenvolvido mapas elaborados dos vários níveis de consciência,
para cada um dos quais possuem termos específicos14.

Experiências e expectativas influenciam nossa percepção


Tanto CAPRA como KUHN abordam o tema da percepção sensorial.
CAPRA (1997, p. 288 e seg.) diz que, na tradição cartesiana, todo indivíduo era
equipado com o mesmo aparelho biológico, tendo as mesmas percepções
sensoriais e podendo diferenciar-se apenas em sua interpretação. Mais
recentemente, estudos neurofisiológicos têm demonstrado que a percepção
sensorial é alterada pelas experiências passadas e pelas expectativas das
pessoas, antes mesmo da própria experiência perceptiva ocorrer. Não há,
portanto, como separar os aspectos fisiológicos da percepção dos psicológicos, de
forma que diferimos, em nossas percepções, na própria experiência perceptiva,
antes mesmo de sua interpretação. CAPRA conclui:
“Nossas respostas ao meio ambiente são, portanto, determinadas não tanto pelo
efeito direto de estímulos externos sobre o nosso sistema biológico, mas, antes,
por nossa experiência passada, nossas expectativas, nossos propósitos e a
interpretação simbólica individual de nossa experiência perceptiva.” (1997, p. 289).
36

KUHN (1998, p. 145 e seg.) é levado a abordar o mesmo tema ao


perguntar-se como é possível que o mesmo mundo, após uma mudança de
paradigma, seja visto com outros olhos pelos mesmos cientistas que antes o viam
de maneira diferente. Como o mundo não mudou, algo deve ter mudado nos
cientistas. O quê? Se o aparelho perceptivo dos cientistas é o mesmo, então terá
mudado o paradigma, isto é, a experiência prévia visual-conceitual, que nos
ensina a como ver o mundo: “somos levados a suspeitar de que alguma coisa
semelhante a um paradigma é um pré-requisito para a própria percepção.” (KUHN,
1998, p. 148). KUHN afirma que a história da Astronomia fornece muitos exemplos
de mudanças na percepção científica induzidas por paradigmas e exemplifica
dizendo que “os pêndulos nasceram graças a algo muito similar a uma alteração
da forma visual induzida por paradigma.”( KUHN, 1998, p. 155). Ele esclarece esta
afirmação explicando que Galileu pôde analisar o movimento em termos da teoria
do impetus, “um paradigma da Idade Média que afirmava que o movimento
contínuo de um corpo pesado é devido a um poder interno, implantado no corpo
pelo propulsor que iniciou seu movimento”. Então, onde os aristotélicos viam
apenas um corpo pesado oscilante que caía com dificuldade (uma pedra presa a
uma corrente, movimentando-se até alcançar um estado de repouso), Galileu
pôde ver um pêndulo com período (tempo necessário para a oscilação)
independente da amplitude de sua oscilação (no caso de amplitudes superiores a
90º).

Visão holística do mundo e ritmo


A oscilação pendular é uma figura que nos permite fazer a liga com a
análise final de CAPRA da teoria de sistemas aplicada aos organismos vivos; ele
prevê que, no futuro, a noção de ritmo deverá desempenhar um papel
fundamental. Para que os organismos mantenham sua estabilidade, não obstante
os ajustes e as modificações permanentes auto-regulatórias, é necessário que
todos os processos subjacentes às formas visíveis estáveis sejam formados por
modelos rítmicos, tais como flutuações, oscilações, vibrações e ondas: “as
estruturas ordenadas resultam de modelos rítmicos.” (CAPRA, 1997, p. 293).
Estes modelos seriam um fenômeno que se manifesta em todos os
níveis: subatômico, atômico, nas plantas, nos animais e nos seres humanos; todos
37

têm ciclos de atividade e de repouso e todas as funções fisiológicas oscilam em


ritmos de várias periodicidades. Os ecossistemas, também, estão interligados por
trocas cíclicas de matéria e energia; as civilizações ascendem e decaem
ciclicamente; os planetas têm seus ritmos e recorrências. Apesar de serem um
fenômeno universal, os modelos rítmicos permitem a expressão de diferentes
individualidades, posto que cada indivíduo tem seu ritmo particular (ritmo da fala,
dos gestos, do corpo, da respiração, da atividade, interior etc.):
“A realidade à nossa volta é uma contínua dança rítmica, e nossos sentidos
traduzem algumas de suas vibrações para modelos de freqüência que podem ser
processados pelo cérebro.” (CAPRA, 1997, p. 294).
A experiência humana expressa freqüentemente momentos de vibração
uníssona entre pessoas, assim como momentos de dissincronia total, quando não
se consegue estabelecer empatia com alguém15.

A transdisciplinaridade
Num dos subtítulos anteriores identificamos holismo com
transdisciplinaridade. Pierre WEIL (1993, p.30) informa que, segundo Basarab
NICOLESCU, o primeiro a usar o termo "transdisciplinar" foi o psicogeneticista
Jean PIAGET, em um colóquio sobre interdisciplinaridade, cujo texto foi publicado
em 1970. Mas, quem se apropriou desse termo e o lançou como expressão do
novo paradigma holístico foi o próprio NICOLESCU (1999). Foi ele quem deu uma
primeira formulação teórica mais precisa ao paradigma holístico e é com ele que
seguiremos os próximos passos para elucidar o modelo deste novo paradigma.
Mas, afinal, em que consiste a transdisciplinaridade? Sendo uma
disciplina um campo do saber com objeto, método e teorias definidos, a
transdisciplinaridade é o que está entre as disciplinas, além e através delas.
Diferente da pluridisciplinaridade (várias disciplinas estudando ao mesmo tempo
um objeto) e da interdisciplinaridade (em que o método de uma disciplina é
utilizado em outra disciplina), a trandisciplinaridade busca o estudo da “estrutura
descontínua do espaço transdisciplinar” (NICOLESCU, 1999, p. 46). Este espaço
é um espaço vazio para o pensamento classico disciplinar, mas é um espaço
cheio , “como o vazio quântico está cheio de todas as potencialidades”, para o
pensamento transdisciplinar. É uma estrutura descontinua este espaço, porque
38

não há continuidade entre os vários níveis de realidade, como por exemplo entre
os níveis do macrocosmo e do microcosmo.

A nova axiomática da transdisciplinaridade


A lógica clássica rege-se por três premissas que não necessitam de
demonstração, isto é, os axiomas da identidade (A é A), da não-contradição (A
não é não-A) e do terceiro excluído (não existe um terceiro incluso T que é, ao
mesmo tempo, A e não-A). Nos anos 30, surgiram novas lógicas “quânticas”, na
esteira da física quântica, para dar conta dos paradoxos por ela gerados.
Aparentemente, a lógica é algo inscrito na natureza, imutável. De fato, há uma
história da lógica, pois ela se inscreve no meio ambiente mutável de cada época.
O que parecia imutável, a lógica do pensamento clássico, mudou, diante da
realidade microcósmica da natureza ora corpuscular ora ondulatória da luz:
“A maioria das lógicas quânticas modificaram o segundo axioma da lógica
clássica: o axioma da não-contradição, introduzindo a não-contradição com vários
valores de verdade no lugar daquela do par binário (A, não-A).” (NICOLESCU,
1999, p. 31).
NICOLESCU afirma que estas lógicas multivalentes ainda não possuem
um poder preditivo consolidado e elas não consideraram que o terceiro axioma da
lógica clássica, também, poderia ser modificado. Também diz que foi mérito de
Lupasco mostrar que “existe um terceiro termo T que é ao mesmo tempo A e não-
A” (1999, p. 32). Isto é possível, se se introduz o conceito de que existem
diferentes níveis de realidade (ao menos dois, o macrocósmico e o microcósmico;
mas poderia se postular a existência de infinitos níveis de realidade). O terceiro
incluso, igual tanto a A como a não-A pode existir, desde que em um nível de
realidade diferente daquele em que estão inseridos os dois termos opostos:
“O terceiro dinamismo , o do estado T, exerce-se num outro nível de Realidade,
onde aquilo que parece desunido (onda ou corpúsculo) está de fato unido
(quantum) e aquilo que parece contraditório é percebido como não-contraditório.
(...) Na lógica do terceiro incluído os opostos são antes contraditórios: a tensão
entre os contraditórios promove uma unidade mais ampla que os inclui.” (...) “A
lógica do terceiro incluído é uma lógica da complexidade e até mesmo, talvez, sua
lógica privilegiada, na medida em que permite atravessar, de maneira coerente, os
diferentes campos do conhecimento.” (NICOLESCU, 1999, p. 33).
39

A pluralidade complexa e a unidade aberta do mundo


NICOLESCU afirma que estamos vivendo um big-bang disciplinar, pois
a complexidade veio “desferir o golpe de misericórdia na visão clássica do mundo”
(1999, p. 36). O indivíduo é desmanchado em inúmeras peças, cada uma das
quais é estudada por uma disciplina. O objeto de cada disciplina reduz-se cada
vez mais, tornando impossível o diálogo entre elas. Esta explosão disciplinar
responde ao imperativo “de uma tecnociência sem freios, sem valores, sem outra
finalidade que a eficácia pela eficácia.” (NICOLESCU, 1999, p. 37).
A complexidade apareceu na “própria fortaleza da simplicidade: a física
fundamental.” (NICOLESCU, 1999, p. 37). Apesar das tentativas de “unificação e
superunificação das interações físicas” resta uma grande quantidade de questões
matemáticas e experimentais a serem resolvidas. Assim, a física contemporânea,
segundo NICOLESCU, contém em si, inseparáveis, a complexidade matemática e
a complexidade experimental. A complexidade mostra-se, também, em todas as
ciências humanas e exatas e, particularmente nas artes e na sociedade:
“O ideal de simplicidade de uma sociedade justa, baseada numa ideologia
científica e na criação de um „homem novo‟, desabou sob o peso de uma
complexidade multidimensional.” (NICOLESCU, 1999, p. 40).
Esta complexidade é fruto da nossa cabeça – é a complexidade das
equações e dos modelos das ciências, mas é, também, o resultado dos dados
experimentais que retratam a própria natureza. É uma complexidade que possui
“uma coerência atordoante “ entre o infinitamente pequeno e o infinitamente
grande.
A realidade da transdisciplinaridade é multidimensional e não
unidimensional como no pensamento clássico e parece haver uma
“autoconsistência” na evolução do universo, “do infinitamente pequeno ao
infinitamente grande, do infinitamente breve ao infinitamente longo.”
(NICOLESCU, 1999, p. 51). Há um processo de interação contínua entre todos os
níveis de realidade “conhecidos ou concebíveis”, o que faz deles uma estrutura
aberta de tipo gödeliano16:
“Isto significa que toda pesquisa de uma teoria física completa é ilusória. Se esta
afirmação for verdadeira para os domínios mais rigorosos do estudo dos sistemas
40

naturais, como poderíamos sonhar com uma teoria completa num campo
infinitamente mais complexo: o das ciências humanas?” (NICOLESCU, 1999, p.
53).
O processo interativo entre os diferentes níveis de realidade dá-se, de
um nível para outro até esgotá-los todos, da seguinte forma:
“1. Um par de contraditórios (A, não-A) situado num certo nível de realidade é
unificado por um estado T situado num nível de realidade imediatamente vizinho;
2. Por sua vez, este estado T está ligado a um par de contraditórios (A‟, não-A‟),
situado em seu próprio nível; 3. O par de contraditórios (A‟, não-A‟) está, por sua
vez, unido por um estado T‟ situado num nível diferente de Realidade,
imediatamente vizinho daquele onde se encontra o ternário (A‟, não-A‟, T).”
(NICOLESCU, 1999, p. 52).

Os pilares da transdisciplinaridade e o novo princípio da relatividade


A transdisciplinaridade é, portanto, a superação dos pares de opostos
que pululam na realidade da visão clássica de ciência –“sujeito-objeto,
subjetividade-objetividade, matéria-consciência, natureza-divino, simplicidade-
complexidade, reducionismo-holismo, diversidade-unidade.” (NICOLESCU, 1999,
p. 57). Esta superação é possível graças ao terceiro incluso. Enquanto a pesquisa
disciplinar se ocupa de um único nível de realidade, a transdisciplinaridade aborda
diversos níveis de realidade ao mesmo tempo:
“Embora a transdisciplinaridade não seja uma nova disciplina, nem uma nova
hiperdisciplina, alimenta-se da pesquisa disciplinar que, por sua vez, é iluminada
de maneira nova e fecunda pelo conhecimento transdisciplinar. Neste sentido, as
pesquisas disciplinares e transdisciplinares não são antagonistas mas
complementares. Os três pilares da transdisciplinaridade – os níveis de Realidade,
a lógica do terceiro incluso e a complexidade – determinam. a metodologia da
pesquisa transdisciplinar.” (NICOLESCU, 1999, p. 47).
O fato de poder existir o terceiro elemento incluído em um nível
diferente –imediatamente vizinho– de realidade salva o princípio da não-
contradição (A não é não-A ou T é igual a A e não-A), mas, também, significa que
não se chegará jamais a uma não-contradição absoluta, justamente porque é
sempre possível encontrar, no terceiro elemento incluído, em outro nível de
41

realidade, uma forma de superação de toda contradição: “o conhecimento está


aberto para sempre.” (NICOLESCU, 1999, p. 53).
Segundo NICOLESCU, a coexistência da pluralidade complexa com a
unidade aberta faz emergir um novo “Princípio da Relatividade”, pelo qual nenhum
nível de realidade tem o privilégio de nos fazer entender todos os demais. Por
isso, é importante usar todos os níveis de percepção para podermos acessar
todos os níveis correspondentes de realidade.

A zona de não-resistência ou do sagrado


Uma vez perpassados todos os níveis de realidade, graças a todos os
níveis de percepção, encontraremos o que NICOLESCU nomeia de “zona de não-
resistência às nossas experiências, representações, descrições, imagens ou
formulações matemáticas.” (1999, p. 55). É uma zona sobre a qual nossa mente
não consegue encontrar resistência e, portanto, uma zona que não reflete à nossa
mente nada que possa orientar-nos na formulação de qualquer hipótese teórica ou
imagem ou percepção; é uma zona transparente aos nossos instrumentos de
medida. Esta zona de não-resistência é o que chamamos de sagrado, isto é,
“aquilo que não se submete a nenhuma racionalização.” (NICOLESCU, 1999, p.
55).
Não houvesse o que chamamos de sagrado, a coerência dos níveis de
realidade ficaria limitada a esses níveis –a seus níveis mais alto e mais baixo. A
unidade aberta da realidade postula, então, a existência desta zona de não-
resistência, do sagrado. “O conjunto dos níveis de Realidade e sua zona
complementar de não-resistência constituem o Objeto transdisciplinar.(...)
O conjunto dos níveis de percepção e sua zona complementar de não-resistência
constituem o Sujeito transdisciplinar.” (NICOLESCU, 1999, p. 55 e seg.).Há uma
identidade de zonas de não-resistência do Objeto e do Sujeito transdisciplinares,
permitindo que objeto e sujeito se comuniquem mutuamente, ocorrendo o
conhecimento, o qual não é nem exterior –em direção ao objeto– nem interior –em
direção ao sujeito:
“A zona de não-resistência desempenha o papel do terceiro secretamente incluído,
que permite a unificação, em suas diferenças, do Sujeito transdisciplinar e do
Objeto transdisciplinar.” (NICOLESCU, 1999, p. 57).
42

Este diálogo entre objeto e sujeito transdisciplinares dá-se por meio de


um fluxo de informação que perpassa os níveis de realidade e um fluxo de
consciência que atravessa os níveis de percepção. Quando objeto e sujeito
transdisciplinares se fundem, unem-se, também, suas zonas de resistência do
sagrado. Então, esta zona de não-resistência surge como zona de resistência
absoluta, pois resiste a toda compreensão:
“O sagrado adquire uma condição de Realidade do mesmo modo que os níveis de
Realidade, sem, no entanto, constituir um novo nível de Realidade, porque ele
escapa a todo o saber. (...) A Realidade engloba o Sujeito, o Objeto e o sagrado,
que são as três facetas de uma única e mesma Realidade. Sem uma dessas três
facetas, a Realidade deixa de ser real e torna-se uma fantasmagoria destrutiva. A
realidade reduzida ao Sujeito gerou as sociedades tradicionais, que foram varridas
pela modernidade. A Realidade reduzida ao Objeto leva aos sistemas totalitários.
A realidade reduzida ao sagrado leva aos fanatismos e integralismos religiosos.”
(NICOLESCU, 1999, p. 74).
Ciência e consciência são os pilares da futura democracia. Ambas
precisam da responsabilidade da autotranscendência – “um novo tipo de evolução,
ligada à cultura, à ciência, à consciência, à relação com o outro.”
(NICOLESCU,1999, p. 75). A autotranscendência é o terceiro incluso que une
ciência e consciência.

O lugar da transdisciplinaridade
NICOLESCU acha possíveis diferentes tipos de desvio da
transdisciplinaridade, como confundir os diferentes níveis de realidade –
disciplinaridade, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade;
como o neo-cientificismo, que crê na capacidade da ciência “de dar conta da
totalidade daquilo que existe”; como cair no irracionalismo hermético, via
exoterismo barato ou via moda universitária de reduzir tudo à linguagem; como
colocar a transdisciplinaridade no “saco amorfo e sem consistência” do que se
costumou chamar de Nova Era; como mercantilizá-la, proporcionando “uma nova
legitimidade aos líderes desnorteados”.
O lugar da transdisciplinaridade é um lugar “atópico”:
“um lugar sem lugar. Ele não está nem no homem interior (não produzindo assim
nem uma nova religião, nem uma nova filosofia, nem uma nova metafísica), nem
43

no homem exterior (portanto não produzindo uma nova ciência, mesmo que fosse
a ciência das ciências). (...) A abordagem transdisciplinar não opõe holismo e
reducionismo, mas os considera como dois aspectos de um único e mesmo
conhecimento da Realidade.” (NICOLESCU, 1999, p.119 e seg.).

A atitude transdisciplinar
Para NICOLESCU, uma atitude transdisciplinar deve reunir efetividade
e afetividade, isto é, as pessoas devem manifestar aptidão para manter uma
postura (este é o significado etimológico de atitude) ou orientação constante, no
plano social, através dos níveis de realidade (efetividade) e, no plano individual,
através dos níveis de consciência (afetividade). O nosso mundo exalta a
efetividade, mas despreza a afetividade. No entanto, ambas são necessárias num
projeto de civilização para os tempos a vir.
A atitude transdisciplinar caracteriza-se por três traços fundamentais:
rigor, abertura e tolerância. Esta última decorre da constatação de que há idéias
contrárias aos princípios da transdisciplinaridade. Tolerância significa aceitar a
escolha do outro pela posição oposta, porque ela, também, “está inscrita na
natureza do Sujeito.”(NICOLESCU, 1999, p. 123). O traço da abertura significa
estar pronto a aceitar o desconhecido, inesperado, imprevisível; a natureza
transforma o desconhecido em conhecido, que por sua vez gera novamente o
desconhecido; a abertura implica a recusa de todo dogma, ideologia ou sistema
fechado de pensamento, pois “a cultura transdisciplinar é a cultura do eterno
questionamento” (1999, p. 123). O traço do rigor transdisciplinar
”é um aprofundamento do rigor científico, na medida em que leva em conta não
apenas as coisas mas também os seres e sua relação com os outros seres e
coisas. Levar em conta todos os dados presentes numa dada situação caracteriza
este rigor.” (NICOLESCU, 1999, p. 122).
Ao descrever a fase transdisciplinar, como sendo a quinta e última fase
ao longo do processo de aquisição do conhecimento, desde a chamada Idade de
Ouro17 até os nossos dias, Pierre WEIL discute se há alguma diferença entre
holismo e transdisciplinaridade. Ele responde afirmativamente, enquanto, para ele,
a transdisciplinaridade seria “uma forma de abordagem holística intelectual” à qual
faltaria a vivência da “holopraxis” (WEIL, 1993, p. 36 e seg.). Isto é, o sujeito deve
44

ir além do raciocínio lógico para encontrar a verdade do objeto e isto só é possível


mediante uma vivência direta do objeto (holopraxis), tal como é realizada nas
iniciações das antigas tradições místicas. Julgamos, no entanto, que essa
distinção trazida por WEIL18 não seja procedente, na medida em que NICOLESCU
integra a experiência vivida ao saber, assumindo o significado etimológico de
“teoria” como “contemplação” (1999, p. 72):
“A transdisciplinaridade é simultaneamente um corpus de pensamento e
uma experiência vivida. Estes dois aspectos são inseparáveis.” (NICOLESCU,
1999, p. 121).
Após afirmar que a transdisciplinaridade não constitui uma nova
filosofia, nem metafísica e nem ciência das ciências, Ubiratan D' AMBRÓSIO
(1997, p.79-80) indica que a atitude adequada para a transdisciplinaridade é uma
atitude aberta, "de respeito mútuo e mesmo de humildade", com relação às
diferentes culturas:
"A transdisciplinaridade é transcultural na sua essência. Implica num
reconhecimento de que a atual proliferação de disciplinas e especialidades
acadêmicas e não-acadêmicas conduz a um crescimento incontestável de poder
associado a detentores desses conhecimentos fragmentados. Esse poder contribui
para agravar a crescente iniqüidade entre indivíduos, comunidades, nações e
países."
E conclui afirmando que os detentores deste conhecimento fragmentado
dificilmente serão capazes de enfrentar e resolver os problemas complexos que
surgem neste mundo, a cuja complexidade natural sobrepõe-se a do próprio
conhecimento.
45

IV. CONCEITOS DE DOENÇA E SAÚDE

Antes de abordarmos o tema da saúde dos idosos, devemos, de início,


esclarecer o que é saúde, para, em seguida verificar se faz algum sentido
perguntar-se o que é saúde dos idosos, ou seja, se a forma de manter a saúde
muda com a idade. Não é nossa intenção descrever como está a saúde dos
idosos em São Paulo ou no Brasil, mas sim identificar as condições em que é
possível manter a saúde e se há condições específicas para a manutenção da
saúde nas idades da velhice.
Tanto as pessoas comuns como os especialistas aos quais a sociedade
atribui as funções de cura têm mais facilidade para representar-se a doença e a
cura da doença do que propriamente a saúde. Para muitos, saúde não passa de
uma situação em que estamos livres de doenças. E se nos perguntássemos o que
é uma doença, o que responderíamos? Não é fácil, também, responder a essa
pergunta; pelo menos, a resposta não é óbvia.
Para MOSCOVICI (1978), o conceito de saúde, em nossa sociedade,
faz parte de um discurso que se nutre, principalmente, dos conteúdos de algumas
disciplinas, tais como a anatomia, a fisiopatologia, a biologia, a genética, a
farmacologia, a psicologia, a filosofia. O que é saúde, como promovê-la, conservá-
la, recuperá-la, quem pode avaliá-la, diagnosticar seu estado e fazer prognóstico
de sua evolução: são questões debatidas por estudiosos em inúmeras publicações
reservadas aos especialistas de cada uma daquelas disciplina e em simpósios
anuais realizados em todos os recantos do mundo.
No entanto, a saúde é também objeto dos discursos leigos de inúmeras
revistas populares e da imprensa cotidiana, de programas de rádio e televisão e
de todos os tipos de terapeutas, que no dia a dia se debruçam sobre as inúmeras
queixas de um sem número de pessoas em busca de saúde; e é também objeto
das conversas dessas mesmas pessoas que procuram os meios de manter ou
melhorar a sua saúde.
Poderíamos pensar que as falas dos cientistas e estudiosos, dos
divulgadores da ciência e dos fatos científicos, assim como das pessoas comuns
estão perfeitamente alinhadas em um sistema ordenado de comunicação que vai
46

do mais douto ao menos douto, em um sentido unívoco, apenas perdendo-se algo


de sua profundidade e precisão.
Na realidade, a comunicação se dá, de forma complexa, em todas as
direções e ela é o meio que permite que a maioria das pessoas se aproprie, de
uma forma sui generis, do discurso científico e especializado da minoria. Por meio
de um processo de representação social19, cujo conceito expressa fenômenos, ao [G1] Comentário: rever numero da
pagina da nota no fim
mesmo tempo, sociais e psíquicos, os vários grupos humanos criam sentidos para
todos os fatos de suas vidas; entre eles, a doença, a saúde, a vida, a morte.

O que é doença?
O antropólogo francês François LAPLANTINE (1991) estudou as formas
de representação social das doenças e das terapias na população francesa e em
várias outras populações, chegando à conclusão de que há alguns modelos
básicos de representação que parecem ser universais. Então, poderíamos
responder à pergunta “o que é doença” dizendo que ela é o que nos
representamos que ela seja. Assim, se para nós doença é uma possessão
diabólica, então doença é isso. Se, por outro lado, achamos que doença é uma
invasão de microrganismos patógenos em nosso corpo, então doença é isso. Se
pensamos que doença é algo que nos afeta negativamente, pois nos faz sofrer, e
é fruto de uma punição por alguma ação imprópria que possamos ter cometido
(comer desregradamente, por exemplo), então doença é isso. Mas se julgarmos
que doença é algo que nos revela um desequilíbrio interior e que nos chama a
uma mudança de vida, para que alcancemos um novo equilíbrio superior, então
doença será isso.

A doença alopática
No entanto, em nosso meio social, os médicos alopatas, e apenas eles,
detêm um poder oficial para dizer o que é doença. Esses médicos, baseados em
estudos biomédicos ou clínicos, definiram um conjunto de sinais e sintomas como
sendo indicadores de doenças oficialmente existentes e reconhecidas: são as que
constam nos livros de medicina.
CAPRA (1997) distingue entre enfermidade e doença, relacionando a
primeira à totalidade do ser humano, enquanto a segunda seria uma condição de
47

uma determinada parte do corpo. Temos aqui uma outra interpretação de doença:
doença é o fenômeno definido pelos médicos como tal, algo que diz respeito não
ao ser humano como um todo, mas a alguma parte de seu corpo afetada por um
evento que a prejudica. Neste contexto, CAPRA acha que os médicos,
geralmente, não se preocupam com os pacientes que estão enfermos, mas com o
tratamento de suas doenças:
”Perderam de vista a importante distinção entre os dois conceitos. De acordo com
o ponto de vista biomédico, não existe enfermidade, não havendo, assim,
nenhuma justificação para o cuidado médico, quando não são encontradas
alterações estruturais ou bioquímicas características de uma doença específica.
Mas a experiência clínica tem demonstrado que uma pessoa pode estar enferma
mesmo sem apresentar qualquer doença. Metade das consultas ao médico é de
pessoas com queixas que não podem ser associadas a qualquer distúrbio
fisiológico.” (1997, p. 144).
Na visão de CAPRA, a doença é uma enfermidade definida pela
biomedicina, com etiologia, diagnóstico, prognóstico e procedimentos terapêuticos
reconhecidos por ela, e que não afeta o indivíduo em sua totalidade. Por outro
lado, enfermidade pode ser entendida como qualquer tipo de mal-estar não
redutível a uma doença específica e que afeta o indivíduo como um todo. Há
muitos estados de enfermidade não reconhecidos pela medicina científica e em
relação aos quais ela não sabe como se portar. Ela tende simplesmente a negá-
los. Se estamos apenas tristes, para a medicina oficial alopata, não estamos
doentes, a não ser que nossa tristeza apareça como um sintoma claro de alguma
doença oficialmente definida. Por isso, a medicina freqüentemente não tem o que
dizer sobre nossa tristeza. Mas, se a tristeza nos bloqueia, impedindo-nos realizar
adequadamente nossas atividades ou nos relacionarmos normalmente com as
pessoas com as quais convivemos, então estamos enfermos e esta enfermidade
precisa de algum tipo de cuidado, a fim de não evoluir para algo pior e de que
possamos voltar a nos sentir bem.

Uma visão antropológica da doença


Segundo LAPLANTINE, (1991, p. 16), na língua inglesa há três
palavras para o termo doença. A palavra disease indica a doença como ela é
48

apreendida pelo conhecimento médico; a palavra illness indica a doença como ela
é experimentada pelo doente e a palavra sickness indica um estado menos grave
e mais incerto, como enjôo, opressão no coração ou, genericamente mal-estar.
LAPLANTINE tende a considerar sickness como “o processo de
socialização de desease e de illness” , ou seja, um termo que incorpora “as
condições sociais, históricas e culturais de elaboração das representações do
doente e das representações do médico”. Em outras palavras, há a doença vista
pelo médico, a doença vista pelo doente e a doença vista por todos, no momento
vivido, na relação médico-paciente, e mediada pelas crenças sociais.
O mesmo autor diz que, embora o médico alopata seja educado para interpretar
objetivamente a doença, segundo os cânones da biomedicina, ele “tem também
uma compreensão não (bio)médica da patologia e da terapia”, de forma que a
relação entre o paciente e o médico (alopata) não é apenas unívoca, no sentido da
relação entre experiência vivida (paciente) e saber científico (médico), pois o
paciente também tem um saber médico (mesmo não oficial) e o médico também
possui uma experiência vivida: “a compreensão mais „cientificamente neutra‟ do
segundo (do médico – n.d.a.) jamais é integralmente científica, ou seja, isenta de
representações.” (LAPLANTINE, 1991, p. 18).
LAPLANTINE considera mitológica a concepção de saúde como
ausência total de doenças:
“Esta idéia-força, que se exprime ao mesmo tempo sob a forma de um direito (o
“direito à saúde”) e de um dever (o dever de todos e de cada um – e em particular
aquele que se exige do Estado – de travar um combate inexorável contra a
anormalidade, o envelhecimento e a própria morte), mobiliza uma parte tão grande
de nossa energia e é objeto de uma tal convicção, que convém, em nossa opinião,
qualificá-la de mitológica.” (1991, p. 120).
Um autor que explicitou de forma contundente o papel da medicina
alopática na ritualização da doença em nossa sociedade (apesar dele referir-se
especificamente à sociedade dos Estados Unidos dos anos cinqüenta) foi Ivan
ILLICH (1981). Escorado em Talcott PARSONS, Miriam SIEGLER e Humphrey
OSMOND20 ele diz que o ritual médico faz do doente um paciente, isto é, o
portador de uma doença é alguém que deve submeter-se ao médico e a seu
sistema de assistência. Ao admitirmos que estamos doentes, automaticamente
49

admitimos que somos pacientes e submetemo-nos a todas as regras que o


sistema médico engendrou, com a anuência de nossa sociedade, evidentemente.
O doente, feito paciente, é destituído de qualquer responsabilidade pela doença e,
também, por recobrar sua saúde. O médico fornece-lhe um atestado que o isenta
das obrigações sociais às quais normalmente se sujeitaria, assumindo um novo
papel “o de portador legítimo de anormalidade” (ILLICH, 1981, p.72).
ILLICH afirma, porém, que este “poder da medicina de outorgar o papel
de doente foi dissolvido pela pretensão de proporcionar cuidados universais.”
(1981, p.73). Isto porque nosso sistema médico estende agora sua autoridade não
apenas sobre os doentes, mas, também, sobre os que ainda não estão doentes,
sobre os que não sabem se estão bem e sobre aqueles para os quais os médicos
ainda não têm cura eficaz. O médico divide agora sua autoridade com o gerente
da saúde pública para planejar e gerir um sistema abrangente de assistência
curativa e preventiva que resulta em “uma sociedade mórbida que exige
medicalização universal e uma instituição médica que atesta morbidade universal.”
(ILLICH, 1981, p. 74)21. Esta visão de ILLICH explicita a doença como um estado
de anormalidade outorgado e atestado pelo médico e que isenta o doente, feito
paciente, de qualquer responsabilidade sobre si mesmo e com relação à
sociedade.

A visão holística de doença


CAPRA, explicitando que “o equilíbrio natural dos organismos vivos
inclui um equilíbrio entre suas tendências auto-afirmativas e integrativas”, vê a
doença como uma conseqüência do desequilíbrio e da desarmonia decorrentes da
falta de integração da pessoa, especialmente na doença mental22, “que resulta
amiúde da falta de avaliação e integração da experiência sensorial.” (1987, p.
317). A noção de doença como desequilíbrio pode ser entendida quando
analisada à luz do conceito de estresse, que consiste justamente em "um
desequilíbrio do organismo em resposta a influências ambientais." (CAPRA, 1987,
p. 318).

Concluindo e resumindo este tema, pode-se dizer, seguindo os autores


citados, que doença é uma representação que os grupos sociais constróem com
50

relação a eventos, sejam eles físicos, psíquicos, sociais ou de outras dimensões,


que afetam a saúde das pessoas. Essas representações têm diferentes
significados ou crenças e estão relacionadas com diferentes normas de conduta,
para diferentes grupos de pessoas ou diferentes culturas, podendo ter conotação
absolutamente negativa ou até positiva. Em nossa sociedade gerida por um
sistema médico alopata, porém, doença é um evento oficialmente definido e um
estado de anormalidade do ser, outorgado por este mesmo sistema, ao qual é
oficialmente demandada uma intervenção para a recuperação da saúde. Segundo
CAPRA, esta visão alopata da doença restringe o campo da ação médica à
intervenção sobre partes do corpo afetadas e não dá conta de todas as
enfermidades vivenciadas pelas pessoas. Para ele, a doença é a expressão da
incapacidade da pessoa de manter-se em equilíbrio dinâmico e integrada ao seu
contexto de vida. Para LAPLANTINE, a noção de ausência total de doenças é
mitológica.

Em busca de um sentido para a saúde


Como já vimos, para muitas pessoas saúde ainda é um estado em que
o ser não é afetado por doenças: ter saúde é não ter doenças. Assim, por
exemplo, ter saúde é não ser atacado por microrganismos patógenos, ou seja, não
manifestar nenhuma doença infecciosa. Mas há muitos outros tipos de doença que
podem afetar o indivíduo (doenças metabólicas, ocupacionais, genéticas, entre
outras) e manifestar-se, de modo a comprometer a saúde das pessoas. Então, ter
saúde seria não ter qualquer tipo de doença aguda ou crônica, infecciosa ou de
qualquer outro tipo.
Mas, será que existe alguma pessoa que possua um caráter de higidez
perfeita e total durante a vida toda? Não parece ser a condição normal das
pessoas, pois todas elas apresentam algum tipo de problema de saúde em vários
momentos de suas vidas, de forma mais ou menos leve ou grave, de forma mais
ou menos passageira ou persistente. Quer dizer, então, que não existe saúde?
Que não há pessoa saudável? Ou saúde é um estado apenas temporário entre
uma e outra doença? Faz sentido dizer-se que uma pessoa é parcialmente
saudável ou bastante saudável? Saúde é uma utopia, algo que se busca sem
51

nunca alcançar, como a felicidade? Saúde é a própria felicidade, a plenitude do


ser?

O que é saúde?
Em um instigante escrito sobre saúde, o jornalista Demócrito MOURA
(1989, p. 41 e seg.)23 historia a evolução do conceito de saúde, desde
HIPÓCRATES e GALENO, passando pela Renascença, o Iluminismo até os
nossos dias. Ele afirma que apenas em 1946 houve uma radical mudança na
conceituação de saúde, graças à definição oficial incluída pela ORGANIZAÇÃO
MUNDIAL da SAÚDE (O.M.S.) em sua Constituição. A O.M.S. (1976) definiu
saúde como "um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não
apenas a ausência de distúrbios ou doenças". MOURA entende que a partir de
então saúde começou a ser conceituada como um "estado positivo de higidez,
para o qual contribuem poderosamente as condições biológicas, psíquicas e
sociais oferecidas às pessoas", incluindo a necessária adaptação bem-sucedida
ao meio em que as pessoas vivem.
Apesar de modificar positivamente o conceito de saúde, a definição da
O.M.S. foi amplamente criticada por biólogos, médicos clínicos e sanitaristas e
sociólogos, por considerá-la utópica, inatingível e perfeccionista e a própria O.M.S.
reconheceu, posteriormente, que esta definição não era operacional, isto é, não
servia para medir objetivamente níveis de saúde das populações.
MOURA, em seu escrito, sintetiza um trabalho de Steven POLGAR24, o qual
agrupou os enunciados mais significativos sobre saúde em três concepções de
saúde: a assintótica, a elástica e a aberta. A assintótica é a que tende para um
ideal do qual se pode aproximar-se, sem jamais alcançá-lo. A definição da OMS
pertenceria a esta categoria, junto com a versão de saúde como "equilíbrio
funcional de elementos divergentes" (MOURA, 1989, p. 48), como seria, por
exemplo, o equilíbrio homeostático (de algumas correntes médicas ocidentais) ou
o equilíbrio de yin e yang (da medicina tradicional chinesa). A concepção elástica
(como a da moderna medicina preventiva) vê a saúde como uma acumulação de
capacidade de resistência a agressões potenciais. A concepção aberta considera
a saúde como um processo de adaptação física, mental e social ao ambiente em
52

que se vive, desde a morte (uma espécie de zero absoluto), recuando até um
ponto máximo de adaptação.

Uma abordagem transdisciplinar de saúde


Nosso interesse, porém, dirige-se para uma abordagem transdisciplinar
ou holística deste tema. Para expressar a visão transdisciplinar, esta abordagem
deveria permitir a superação da oposição entre doença e saúde, esta entendida
como ausência de doenças, por meio da lógica do terceiro incluso e do princípio
da complexidade25. A oposição doença-ausência de doença foi criada
principalmente pela medicina biomédica e, portanto, ela dá-se num plano
basicamente biofísico. Neste contexto, não há solução para esta oposição, pois se
o organismo é afetado por uma manifestação patológica, este mesmo organismo
não pode ser são, do mesmo ponto de vista biofísico. Mas, num outro plano de
realidade, por exemplo psíquico, doença e saúde podem convergir na percepção e
no conceito de “um mal que vem para o bem”. Ou seja, o organismo afetado
percebe a doença como uma defesa de si mesmo contra um desequilíbrio que se
tenha instalado nele e, portanto, um sinal de que algo deve ser feito para a
recomposição do equilíbrio perdido.
A saúde, então, não seria a ausência de doença, mas a capacidade de
perceber os sinais de alerta e de pôr em ato os cuidados necessários para a
superação do desequilíbrio. Nesse sentido, a doença faz parte da saúde, pois sem
ela, o novo equilíbrio não é alcançado. Como diz KUPERMAN 26, a doença é “um
meio não intencional” de resolver problemas de saúde.
Com esta abordagem, saímos da oposição entre doença e ausência de
doença, para entrar numa outra, a saber, entre desequilíbrio e equilíbrio: a saúde
como superação de um desequilíbrio, por meio de um novo equilíbrio. Esse par de
opostos pode encontrar sua síntese no conceito de auto-organização, oferecido
pela teoria de sistemas. Os organismos, vistos como sistemas, podem
desequilibrar-se, devido às influências do meio, do qual dependem, mas pelo qual
não são totalmente condicionados, mantendo, assim, certo grau de autonomia.
Eles, porém, têm a capacidade de recobrar seu equilíbrio graças a forças internas
adaptativas27, que lhes permitem reciclar continuamente seus componentes, auto-
renovando-se e adaptando-se continuamente ao meio, sem, porém, alterar sua
53

estrutura global. Este movimento de recuperação do equilíbrio ocorre mediante


mecanismos de realimentação negativa, reduzindo os desvios do estado de
desequilíbrio, e positiva, ampliando certos desvios, para permitir aprendizagem,
evolução e desenvolvimento.
Neste contexto, saúde é um movimento de auto-organização, que
permite às pessoas se manterem equilibradas, podendo transcender a si mesmas
para alcançar novos estágios de desenvolvimento. Neste sentido, é um movimento
interno das pessoas e não uma intervenção externa.
O organismo, então, em “equilíbrio dinâmico” 28 possui forças curativas
próprias, uma “tendência inata” para voltar ao estado de equilíbrio rompido por
alguma enfermidade. É o que ocorre com as enfermidades menores de nosso
organismo, que costumam curar-se por si mesmas. Mas não apenas isso. Ele
possui, também, a capacidade de, em processo de transformação, alcançar novos
estados de equilíbrio. É o que ocorre com as pessoas que passam por graves
crises e as superam mudando seus estilos de vida e alcançando um nível de
equilíbrio superior ao precedente29.
Assim como a doença decorre de vários tipos de desordens, que
podem manifestar-se em vários níveis do organismo ou em suas variadas
interações com o meio, a saúde, também, se manifesta em diferentes níveis,
interdependentes entre si: o individual, o social e o ecológico. CAPRA (1997, p.
316) afirma que o que não é saudável para o indivíduo tampouco é saudável,
geralmente, para a sociedade e para o ecossistema global.
Chegamos assim, a um novo tipo de par de opostos: manutenção do
equilíbrio (homeostase) e superação de si mesmo (transcendência). Talvez seja
30
possível superar esta oposição por meio do que Gregory BATESON (1986)
chamou de mente. A organização de seres com um nível de complexidade como a
das pessoas se manifesta com tal riqueza de processamento de informações, que
é possível o desenvolvimento de diferentes níveis de consciência interior. Esta
consciência expressa-se como autoconsciência, experiência consciente,
pensamento conceitual, linguagem simbólica, sonhos, arte, criação de cultura,
senso de valores, interesse no passado e preocupação com o futuro. Esta
consciência permite à pessoa entrar em sintonia com a totalidade de que ela
(mente-consciência) é uma expressão. Esta totalidade, segundo CAPRA, não
54

pode ser expressa apenas pela idéia tradicional de Deus e é manifestação de uma
noção de mente, própria de muitas culturas não-ocidentais:
“Na ordem estratificada da natureza, as mentes humanas individuais estão
inseridas nas mentes mais vastas dos sistemas sociais e ecológicos, e estes, por
sua vez, estão integrados no sistema mental planetário – a mente Gaia31, o qual
deve participar, finalmente, de alguma espécie de mente universal ou cósmica.”
(CAPRA, 1997, p. 285).
Por esta abordagem, saúde é um movimento de auto-transcendência
da pessoa em direção a uma expressão de vida que supera a simples homeostase
dos subsistemas do organismo humano. Por este movimento consciente,
podemos operar transformações em nosso organismo, rumo a uma expressão de
totalidade, que pode estender-se tanto quanto a nossa consciência o permita.
Esta expressão de totalidade remete-nos à relação estabelecida por
LAPLANTINE, entre saúde e salvação e à visão do sagrado de NICOLESCU.

Saúde e o sagrado
Segundo LAPLANTINE (1991), tanto a palavra “saúde” (sanitas) quanto
a palavra “salvação” (salvatio) vêm da mesma raiz indo-européia san (=
conservação de si mesmo). Ele afirma que se deixamos de lado o “como fico
doente” e o “como fico curado” e passamos a nos perguntar sobre o porquê da
doença, então as pessoas buscarão as respostas não nos processos etiológicos e
terapêuticos, mas nas relações possíveis entre doença e sociedade e entre
doença e sagrado, que sempre fizeram parte do mesmo fenômeno na experiência
popular da doença:
“(...) a representação da doença individual suscetível de ser isolada e interpretada
como a morbidez específica de um indivíduo em particular é, pelo que sabemos,
única no campo etnográfico de todas as sociedades conhecidas.” (LAPLANTINE,
1991, p. 218).
Para o pensamento biomédico, o porquê da doença coincide com sua
causa (biológica, o mais das vezes), mas para o antropólogo ocidental este porquê
está ligado à relação que a doença tem com o sagrado, a qual decorre da relação
da doença com o social: a doença seria um caso particular de uma desgraça
social e a saúde um caso particular da salvação. Essa relação evidencia-se nos
55

fenômenos da possessão, do messianismo, da utopia, da experiência de uma


doença que modifica a existência e da medicina popular.
Esta medicina popular não se distingue da medicina erudita pelo poder
do terapeuta (tanto o médico quanto o curandeiro são investidos de grandes
poderes) ou por uma maior autonomia do doente na medicina popular (o doente
deve acreditar no curandeiro tanto quanto no médico); distingue-se da medicina
erudita, principalmente, pelo fato de tentar dar uma resposta integral a todas as
insatisfações das pessoas, tanto as somáticas quanto as psicológica, sociais,
espirituais e existenciais. Segundo LAPLANTINE, “a religião popular e a medicina
popular são uma única e mesma coisa.” (LAPLANTINE, 1991, p. 223). O santo
cura, a salvação inclui a saúde.
Como já vimos32, para Basarab NICOLESCU, o sagrado é uma zona
que não reflete à nossa mente nada que possa orientar-nos na formulação de
qualquer hipótese teórica ou imagem ou percepção; é uma zona que não se
submete aos nossos instrumentos de medida e à nossa racionalização. Chegamos
a esta zona uma vez perpassados todos os níveis de realidade através de todos
os níveis de percepção (fluxo de consciência):
“A Realidade engloba o Sujeito, o Objeto e o sagrado, que são as três facetas de
uma única e mesma Realidade. Sem uma dessas três facetas, a Realidade deixa
de ser real e torna-se uma fantasmagoria destrutiva. A realidade reduzida ao
Sujeito gerou as sociedades tradicionais, que foram varridas pela modernidade. A
Realidade reduzida ao Objeto leva aos sistemas totalitários. A realidade reduzida
ao sagrado leva aos fanatismos e integralismos religiosos.” (NICOLESCU, 1999, p.
74).
Por essa visão holística, a saúde ultrapassa seu status de homeostase,
a caminho da auto-transcendência da pessoa, estado do ser em busca do sentido
último da existência. O doente busca resposta para o “porquê” da doença e a
encontra, de alguma forma, além dos níveis perceptíveis da realidade, num
sentido de totalidade que se insere na esfera do sagrado.

Resumindo, de acordo com uma visão holística transdisciplinar, saúde


não é a ausência de doenças, mas uma capacidade de nos autocuidarmos para
superar algum tipo de desequilíbrio. A doença, então, faz parte da saúde, pois
56

sem ela, o novo equilíbrio não pode ser alcançado; a doença é, portanto, “um meio
não intencional” de resolver problemas de saúde.
Saúde é, também, um movimento interno de auto-organização, através do qual
nos mantemos equilibrados, podendo transcender a nós mesmos para alcançar
novos estágios de desenvolvimento.
Saúde é, enfim, um movimento em que podemos nos transcender em direção a
uma expressão de vida que supere a simples homeostase dos subsistemas de
nosso organismo. Por este movimento consciente, podemos operar
transformações em nosso organismo, rumo a uma expressão de totalidade. Esta
expressão de totalidade é o sagrado, uma zona que resiste a todas as nossas
hipóteses interpretativas, na qual, porém, podemos encontrar o sentido último da
nossa existência e, nele, inclusive, de nossas doenças e da própria morte.

Ampliando conceitos
Respondendo às perguntas que nos fizemos anteriormente sobre
33
saúde , a partir do conceito transdisciplinar de saúde aqui apresentado, é
possível entender que existirá um estado de saúde não quando houver uma
ausência total de doenças (isto é um mito), mas quando e enquanto as pessoas
tiverem a capacidade de, através ou a partir da doença, readquirir um estado de
equilíbrio dinâmico, por meio de forças próprias do organismo, com ou sem o
auxílio de intervenções externas (das várias terapias).
Não há uma definição do que seria um novo equilíbrio percebido como
superação de um estado de enfermidade e, portanto, aceito e vivenciado como um
estado de saúde. Será que uma pessoa idosa que teve uma infecção pulmonar,
ao conseguir reestabelecer-se, mesmo tendo como seqüela alguma restrição de
sua autonomia de vida, poderá expressar um sentimento de que está em boa
saúde? RUDINGER e THOMAE (apud NERI, 1993, p. 14-5) afirmam que mais do
que a saúde biológica, avaliada segundo parâmetros médicos (alopatas, n.d.a.),
são a saúde percebida e as maneiras com que as pessoas lidam com problemas
de saúde que têm um poder preditivo de bem-estar na velhice. Isto apoiaria a idéia
que é possível se ter algum problema "objetivo" de saúde e, mesmo assim, por se
estar de alguma forma controlando este problema (o controle expressaria algum
tipo de equilíbrio), ter uma percepção de bem-estar. Há, portanto e certamente,
57

pessoas saudáveis, mas não no sentido de que elas estariam isentas de doenças
e saúde é um estado subjetivo: o que é saudável ou doentio, normal ou anormal é
definido de forma diferente de uma cultura para outra.
Na concepção que descrevemos, saúde não pode ser um estado
temporário de uma pessoa, entre uma doença e outra, já que doença é parte da
saúde, sendo um instrumento de saúde “não intencional”34. Quando dizemos que
ela não é um instrumento intencional, queremos expressar a idéia de que a
doença não é conscientemente desenvolvida para que com ela obtenhamos
alguns possíveis resultados; geralmente, não há uma intenção explícita de
querermos a doença, embora isto possa ocorrer em alguns casos.35
Se saúde não é um estado relativo do ser, isto é, um estado passageiro
que se manifesta enquanto não estamos enfermos, então deveremos admitir que
saúde é um estado absoluto do ser, uma expressão da vida em si mesma? Dito de
outra maneira: haverá saúde enquanto houver vida?
A visão dos sistemas orgânicos que possuem uma capacidade de se
auto-organizarem e se auto-renovarem, reciclando continuamente seus
componentes, mas mantendo sempre sua estrutura global, sugere-nos que saúde
possa ser identificada com esta característica permanente do ser de se manter
organizado, auto-renovando-se continuamente, até ocorrer a morte. Então, mesmo
quando estamos doentes podemos considerar-nos saudáveis se estivermos em
condições de superar a doença.
Ainda podemos responder à pergunta se há pessoas mais saudáveis de
que outras. Embora todos os seres vivos tenham como característica intrínseca a
da resposta saudável (auto-organização permanente), a experiência e a visão
sistêmica dos organismos também levam-nos a admitir que sim. Na realidade, não
parece haver restrições ao fato de que cada organismo tenha uma capacidade
específica de se auto-organizar, de acordo com a herança genética e com as
circunstâncias do meio em que ele vive.

Saúde, utopia, felicidade, bem-estar e qualidade de vida


Saúde, por acaso, seria uma quimera, isto é, um sonho ou uma utopia?
Têm razão os que criticam a definição de saúde da Organização Mundial de
58

Saúde36 por considerá-la não operacional, isto é, inútil para medir, de alguma
forma esta característica?
Saúde não é um sonho ou uma utopia. O seria se considerássemos
saúde como higidez perfeita, ou seja, um estado em que as pessoas estejam
totalmente isentas de enfermidades. Se considerarmos saúde como uma
capacidade de auto-regulação dos organismos, então ela é algo neles existente
desde seu começo até sua morte. Assim, se quiséssemos medir saúde,
deveríamos preocuparmo-nos em avaliar saúde através de dimensões que
manifestassem esta sua característica auto-regulatória, em lugar de medi-las
através de dimensões outras, como por exemplo o índice de morbidade ou de
mortalidade. Que tal medir saúde, por exemplo, por indicadores de atividade (não
sedentarismo) das pessoas ou de outros hábitos saúdáveis de vida? Ou por meio
de dimensões da vida das pessoas que se tenham revelado como preditivas de
saúde e bem-estar no curso de sua vida, desde a infância até a velhice37? Este
assunto mereceria um estudo à parte, como decorrência das reflexões aqui
apresentadas sobre o conceito de saúde.
Em nossa concepção, saúde não se confunde com bem-estar e
felicidade, embora estar em boa saúde seja uma condição essencial, ao lado de
outras, para que tenhamos a percepção de vivermos com bem-estar.
O conceito de saúde parece confundir-se, freqüentemente, com os conceitos de
qualidade de vida e de bem-estar. Estar bem, ter boa qualidade de vida e estar em
boa saúde parecem sinônimos. Na realidade, boa qualidade de vida ou bem-estar
são percepções de estados em que as pessoas se encontram quando estão em
boa saúde e gozam, também, de uma série de outras condições pessoais e
sociais que as deixam satisfeitas, confiantes e seguras. Se estamos em boa
saúde, temos boa chance de estarmos bem e ter boa qualidade de vida, o que não
ocorre quando estamos com a saúde prejudicada.
No entanto, embora os conceitos de bem-estar e de boa qualidade de
vida (aqui usados como sinônimos), englobem a idéia de saúde, eles, porém, são
representações mais amplas do que a de saúde. Não parece ser possível ter boa
qualidade de vida, tendo saúde, sem possuir também, por exemplo, um padrão
sócio-econômico minimamente razoável. Provavelmente, quem não tiver um
padrão que lhe assegure vida biopsíquica, social, cultural e espiritual íntegras,
59

mais cedo ou mais tarde terá sua saúde abalada, vivenciando uma série de
perdas que dificilmente poderão ser compatíveis com um estado de bem-estar.
NERI (1993, p. 10) aponta uma longa lista de variáveis como
determinantes ou indicadoras de bem-estar na velhice: longevidade, saúde
biológica, saúde mental, satisfação, controle cognitivo, competência social,
produtividade, atividade, eficácia cognitiva, status social, renda, continuidade do
desempenho de papéis familiares e ocupacionais, continuidade de relações
informais em grupos primários. Todos estes indicadores pesam no balanço global
do nível de qualidade de vida dos idosos, embora não se saiba qual parte caiba a
cada um. De fato, o peso de cada indicador no cômputo geral de bem-estar deve
variar de pessoa para pessoa, porque a forma de reagir das pessoas ao impacto
das adversidades, sejam elas de caráter físico, econômico, afetivo ou social, varia
de acordo com a subjetividade de cada uma.
Um panorama das tendências da investigação sobre qualidade de vida
na velhice é oferecido por NERI (1993); organizado em torno de algumas
variáveis, postas em evidência pelas diversas pesquisas, aborda os seguintes
temas: satisfação, atividade, senso de controle, mecanismos de auto-regulação,
estresse. Embora os estudos relatados por NERI separem saúde biológica de
saúde mental e se refiram a um bem-estar qualificado como psicológico (quem
sabe em oposição a um bem-estar apenas físico?), eles trazem dados muito
interessantes para a compreensão de nosso tema. Um deles permitir-nos-á, mais
adiante38, traçar o perfil da pessoa que, na velhice, poderá provavelmente viver
com qualidade de vida, portanto, com boa saúde.

Velhice: doença e morte


A velhice é uma doença? Desde a antigüidade39, há uma crença
bastante difusa que velhice é uma doença. Felizmente, a nossa medicina alopática
não descobriu nenhuma doença com este nome de velhice, embora muitos
praticantes desta medicina manifestem em seu exercício profissional diário esta
crença (velhice como doença crônica debilitante), ao tratarem os velhos com certa
displicência e descrença em sua capacidade de recuperar a saúde: é um
preconceito com relação aos velhos como tantos outros que grassam em nossa
sociedade. Velhice não é sinônimo de doença. Segundo NERI, "são os incidentes
60

patológicos que produzem um organismo qualitativamente diferente na velhice, e


não o envelhecimento, muito menos por causa da passagem do tempo." (NERI,
1993, p. 34).
MONTEIRO (2000) monstra como a relação sujeito-sujeito do terapeuta
com três pessoas idosas permitiu que elas promovessem mudanças em suas
imagens corporais e, através delas, em seus corpos adoentados, alcançando
objetivos de vida antes não esperados. Eis suas conclusões:
“Enquanto o corpo viver, independente de sua idade cronológica, existirá dentro
dele a potencialidade, a certeza da mudança. Sendo assim, mesmo no tempo de
trevas, haverá sempre a possibilidade do surgimento da luz. Uma luz que oriente o
indivíduo a encontrar a volta, o retorno para dentro de si mesmo para, finalmente,
libertar-se.” (MONTEIRO, 2000, p.224).
A esse respeito, convém citar, também, Leonard HAYFLICK, presidente
da Sociedade Gerontológica dos Estados Unidos, professor de anatomia e
microbiologia e membro-fundador do conselho do Instituto Nacional do
Envelhecimento dos EUA:
"Se o envelhecimento, assim como a passagem à idade adulta é universal, não
deveria ser encarado como uma doença, pois nenhuma doença é universal. (...)
Uma distinção geral é que as perdas fisiológicas características do envelhecimento
acabam ocorrendo nas células, tecidos e órgãos de todos os membros idosos de
uma espécie, enquanto as mudanças decorrentes do envelhecimento ocorrem
apenas em alguns membros." (HAYFLICK, 1997, p. 39).
Ainda, sobre causas de morte na velhice, HAYFLICK informa que não
há muitos estudos realizados para se saber qual foi a causa da morte de idosos e
que alguns gerontologistas acreditam que se desconhece a causa da morte de
pessoas de mais de 85 anos, por exemplo. Ele afirma que “poucas pessoas com
mais de 65 anos morrem realmente daquilo que está escrito em seu atestado de
óbito.”
Os poucos estudos realizados sobre este tema revelaram que a maioria das
doença dos idosos existiam muito tempo antes de sua morte sem sinais clínicos
ou com sinais mínimos. Isto significa que não foi a doença diagnosticada a causar
a morte. Ocorre que “as mudanças normais associadas à idade simplesmente
aumentaram a vulnerabilidade à condição que consta do atestado de óbito.”
(HAYFLICK, 1997, p. 37-8).
61

Se não morremos por causa das doenças diagnosticadas ou por causa


da velhice, por que, então, morremos? A morte não é um fato exclusivamente
conexo com a velhice, já que se pode morrer em qualquer idade. Em nossa
sociedade há ainda muitos bebês que morrem até o primeiro ano de vida; há,
também, muitos jovens que morrem em circunstâncias violentas (acidentes de
trânsito e armas); não podemos esquecer, ainda, que há muitas mortes de
pessoas não idosas, ligadas a acidentes no trabalho, e que se pode morrer, em
qualquer idade, em atos de suicídio. A morte, então, é uma condição da vida dos
organismos humanos, pois ela está inscrita em sua natureza. É certo que, se
sobrevivermos até a velhice, na velhice morreremos; mas não por sermos velhos;
por sermos humanos. “Morrer de velhice” é um ideal que um número ainda restrito
de pessoas, mas cada vez maior, consegue alcançar; embora a expressão não
seja correta, pois não se morre de velhice, mas na velhice, ela manifesta a
condição de quem morre, não prematuramente, mas por ter esgotado o limite de
vida inscrito em sua natureza e sem que a morte tenha sido ocasionada por um
evento funesto (doença, acidente, etc.).
O momento da morte ocorre quando nosso organismo não encontra
mais as condições suficientes para manter-se em funcionamento. Na realidade,
existem estruturas vitais e acessórias em cada organismo. Assim, por exemplo,
não podemos viver sem um volume mínimo de sangue ou sem respirar durante
um certo tempo ou sem partes vitais do sistema nervoso40. É isto que manifesta
nossa finitude, o fato de que nosso organismo é feito de estruturas críticas que
nem sempre podem ser repostas (como o sangue) ou reconstituídas (como o
tecido nervoso, ao menos por enquanto). Ainda que um acidente possa colocar-
nos em uma situação de perda de estruturas vitais, de forma a nos levar à morte,
não teremos morrido por causa do acidente e sim por conta do caráter finito de
nossa vida. Não tivesse este caráter de finitude, nossa vida não estaria sujeita a
condições limitantes como as descritas. As causas de morte normalmente
mencionadas para justificar a perda da vida humana são apenas ocasiões em que
a morte se deu e não sua causa. Deveríamos dizer então que fulano morreu por
ocasião e não por causa de uma doença ou de um acidente fatal. Sabemos que
somos finitos porque morremos. Mas não é por morrermos que somos finitos.
Enfim, há uma única causa de morte: a finitude de nossa vida.
62

Certamente, na esfera do sagrado, há muitas outras respostas que


podem ser dadas à pergunta do por quê morremos; a resposta que oferecemos
aqui não é incompatível com as respostas fornecidas pelas tradições religiosas,
apenas ela se restringe aos níveis de realidade que se sujeitam à análise de
nossa razão.

Morte, saúde e doença


Quanto à morte, ela ocorre nos organismos vivos como forma de auto-
renovação; auto-organizados em estruturas de múltiplos níveis, de diferentes
complexidades, os organismos vivos substituem suas estruturas em ciclos
contínuos, como maneira de adaptar-se ao meio. Isto significa que componentes
básicos de organismos vivos, eles mesmos organismos vivos, entram em colapso
e são substituídos o tempo todo: morrem e nascem renovados. Desta forma, para
CAPRA, a morte não é o oposto da vida, mas um aspecto essencial dela (CAPRA,
1997, p. 276).
Ela não é, também, o oposto da saúde: nós não morremos por falta de
saúde ou por causa de doenças. Se, como dissemos anteriormente, saúde é uma
tendência inata do organismo, para que ele volte ao estado de equilíbrio rompido
por algum estado de enfermidade ou desequilíbrio, nós não morremos por falta de
saúde; ela existe em nós enquanto vivemos. Não morremos por causa de
doenças, também, porque doenças fazem parte da vida e, portanto, da saúde, que
atua no sentido de superá-las.
Na interpretação de Leonard SHLAIN41, a morte é o preço pago pela
individualidade: se nos reproduzíssemos de forma indiferenciada e assexuada
como as bactérias, não estaríamos sujeitos à experiência da morte, pois nos
reproduziríamos por divisão celular em muitos indivíduos exatamente iguais
(embora saibamos que não existem células imortais, pois toda linhagem de células
tem um fim previsível42). Ao nos reproduzirmos, engendramos seres irrepetíveis e,
por isso mesmo, finitos. Mas, se somos o novo da vida, porque nascemos, e
estamos destinados a morrer, isto significa, então, na visão sistêmica da vida, que
fazemos parte de um todo maior que continuamente se renova: o novo que nasce
substitui o velho que morre, não mais repetindo o que foi, mas criando um novo
43
contexto de vida. É a hipótese de Gaia, já citada , e, também, a hipótese de
63

todas as tradições espirituais que acreditam na continuidade da existência


humana após a morte.
A visão biomédica da saúde costuma negar a morte:
“A antiquíssima arte de morrer deixou de ser praticada em nossa cultura, e o fato
de ser possível morrer com boa saúde parece ter sido esquecido pela classe
médica. (...) Os médicos e outros profissionais de saúde deixaram hoje de ser
treinados para lidar com pacientes agonizantes e acham extremamente difícil
enfrentar o fenômeno da morte. Eles tendem a ver a morte como um fracasso (...)."
(CAPRA, 1997, p. 138).
Por outro lado, as culturas orientais encaram a morte como uma
experiência de vida à qual devemos nos preparar com seriedade. Segundo
SOGYAL Rinpoche (1999, p. 314 e seg. e p. 49), o processo de morrer, assim
como o explica a tradição budista tibetana, ocorre por meio de uma dissolução
externa dos sentidos e dos elementos (terra, água, fogo, ar) de nosso corpo e de
uma dissolução interna dos estados, densos e sutis, de pensamento e das
emoções. A preparação para a morte passa pela compreensão e pela realização
da verdade da "impermanência" e pela busca incessante da "iluminação".
64

V. A ASSISTÊNCIA À SAÚDE

A visão biomédica de assistência à saúde


Os conceitos de saúde e doença são importantes para a tarefa de
estabelecer políticas de atenção à saúde. Se temos uma visão biomédica de
saúde ou doença, tenderemos a projetar políticas de atenção à saúde voltadas
apenas a aspectos biológicos da pessoa e a combater tão somente as possíveis
causas biológicas das doenças, deixando de lado o resto da totalidade humana e
das inúmeras situações de mal-estar que não podem ser descritas como doenças.
Nesta mesma concepção biomédica, tenderemos a colocar o médico como
personagem central da solução dos problemas de saúde e do sistema biomédico
de saúde que ele vem sustentando desde os primórdios da medicina científica e,
principalmente, da industrialização da medicina.
CAPRA apresenta a medicina ocidental como emergindo de um “vasto
reservatório de curas tradicionais e populares”, tendo-se propagado no mundo
todo, convivendo, porém, num ambiente de variadas crenças médicas, junto com
medicina popular e sistemas médicos elaborados por culturas importantes, como a
indiana, a chinesa e a persa, com base em tradições escritas e conhecimentos
empíricos, praticados por aquilo que ele chama de elite profissional.
Ele elabora uma crítica dirigida ao sistema biomédico de assistência à
saúde. Esta crítica não é voltada à pessoa do médico, que muitas vezes é um
indivíduo dedicado e abnegado, digno de todo respeito. A crítica que CAPRA
dirige ao sistema biomédico de assistência à saúde vai desde a inacessibilidade
de seus serviços, a ausência de simpatia e solicitude, a imperícia ou a negligência,
até à desproporção entre seu custo e sua eficácia. CAPRA afirma que a relação
entre medicina e saúde é de difícil avaliação, porque a maioria das estatísticas
apenas dão conta de certas doenças, deixando de lado doenças mentais e
patologias sociais –dependência de drogas, crimes violentos, acidentes, suicídios.
Segundo nosso autor, o aumento da expectativa de vida estaria ligado
basicamente ao declínio da taxa de mortalidade infantil, que, por sua vez,
dependeria do nível de pobreza, do acesso a uma alimentação adequada e de
muitos outros fatores sociais, econômicos e culturais. Não seria fruto primordial da
65

assistência médica oferecida pela moderna medicina ocidental44. O sucesso da


medicina está ligado ao conhecimento dos mecanismos biológicos associados a
doenças específicas e ao desenvolvimento de tecnologias capazes de atuarem
sobre elas. Isto, porém, não significa curar. “Mas, embora tal assistência médica
possa ser decisiva em casos individuais, parece não fazer uma diferença
significativa para a saúde das populações como um todo.” (CAPRA, 1997, p. 129).
CAPRA cita estudo de Thomas MCKEOWN45, para concluir que o
acentuado declínio da mortalidade decorrente das doenças infecciosas, a partir do
séc. XVIII, foi devido principalmente à melhoria da nutrição, das condições de
higiene e do saneamento básico e à melhoria geral das condições de vida da
população. E conclui:
”A saúde dos seres humanos é predominantemente determinada, não por
intervenção médica, mas pelo comportamento, pela alimentação e pela natureza
de seu meio ambiente. Como essas variáveis diferem de cultura para cultura, cada
uma tem suas próprias enfermidades características, e, na medida em que mudam
gradualmente a alimentação, o comportamento e as situações ambientais, mudam
também os tipos de doença.” (CAPRA, 1997, p. 131).
As doenças odiernas são as assim chamadas doenças da civilização,
as crônicas e degenerativas –cardiopatias, câncer, diabetes, ligadas ao estilo de
vida do nosso tempo, o qual gera estresse em grande freqüência e quantidade e
poluição ambiental, facilita o uso de dietas muito ricas em proteínas e gorduras,
uso e abuso de drogas e vida sedentária.
Como conseqüência da visão biomédica, a assistência à saúde
a) ficou dicotomizada entre os estudos e os cuidados do corpo e os
estudos e os cuidados da mente, gerando dois conjuntos distintos de pesquisa em
saúde, criando-se um hiato entre a saúde física e a saúde mental46. A doença não
é considerada como algo potencialmente benéfico para o paciente, pois que ela é
vista apenas como um inimigo a ser debelado.
b) A visão biomédica da saúde costuma negar a morte.
c) A abordagem biomédica da saúde levou a atribuir excessiva
importância à tecnologia médica, cujo uso é freqüentemente injustificado, muito
caro e reforça a tendência do médico de especializar-se em partes do corpo
perdendo de vista o todo.
66

d) Uma conseqüência do uso excessivo de alta tecnologia é a


iatrogenia.
e) Confunde-se processo patológico com origem das doenças; assim,
procura-se interferir nos mecanismos biológicos ao invés de tentar eliminar as
condições que levaram à doença.
f) Há uma visão reducionista de que uma única causa é responsável
pela doença e que uma vez descoberta esta causa, ela pode ser manipulada a fim
de eliminar a doença. A teoria microbiana de Pasteur resultou numa ênfase
excessiva sobre a capacidade dos microrganismos gerarem doenças –única
causa versus multicausação de fatores individuais, físicos, psicológicos, sócio-
culturais, ambientais, o que levou a medicina ocidental a considerar que a doença
é conseqüência de um ataque externo e não um distúrbio do próprio organismo.
Este fato levou à produção de uma gama enorme de medicamentos, com efeitos
de iatrogenia, via receita médica ou auto-medicação.
“Como eles [os médicos] são treinados para usar um modelo de saúde e de
doença em que as forças emocionais não desempenham papel algum, são
propensos a ignorá-las em sua própria vida.” (CAPRA, 1997, p. 140.)
Sempre segundo CAPRA, os próprios médicos são os que mais sofrem
as conseqüências de sua visão mecanicista de saúde, tendo uma expectativa de
vida de dez a quinze anos menor que a média da população, apresentando
“elevadas taxas de doença física, além de altos índices de alcoolismo, abuso de
drogas, suicídio e outras patologias sociais." (1997, p. 139).
O enfoque mecanicista da saúde fundamenta a terapia exclusivamente
na capacidade técnica do médico, deixando de considerar o potencial curativo
existente no organismo de cada paciente47. Quem sabe o que é importante para a
saúde do indivíduo é o médico, a partir da análise de testes de laboratório e da
medição de parâmetros físicos em sala de exame; esses dados são usualmente
considerados mais importantes do que o histórico sócio-familiar do paciente e a
avaliação de seu estado emocional.
A autoridade médica, no sistema biomédico de saúde, é central ao
ponto de tornar secundária a responsabilidade do enfermo sobre sua própria
doença e de relegar a papel subalterno todos os demais profissionais de saúde:
67

“Fascinada pela mística que cerca a profissão médica, nossa sociedade conferiu
aos médicos o direito exclusivo de determinarem o que constitui a doença, quem
está doente e quem não está, e os procedimentos com relação ao indivíduo
enfermo. Muitos outros profissionais, como os homeopatas, os quiropráticos e os
herbanários, cujas técnicas terapêuticas estão baseadas em modelos conceituais
diferentes, mas igualmente coerentes, foram legalmente excluídos do ramo
principal da assistência à saúde.” (CAPRA, 1997, p. 151).
Uma outra característica da visão biomédica é a tendência à
hospitalização (os médicos são treinados para atuarem sob a proteção de um
ambiente hospitalar), embora esta tendência esteja diminuindo sob a influência de
estudos que mostram seus altos custos financeiros e iatrogênicos e as vantagens
da assistência domiciliar, quando indicada.
O modelo biomédico de assistência à saúde tornou-se um dogma,
necessitando-se de uma revolução cultural para suplantá-lo, exigindo “uma
mudança radical conceitual na ciência médica, mas também uma reeducação
maciça do público. Muitas pessoas aderem obstinadamente ao modelo biomédico
porque receiam ter seu estilo de vida examinado e ver-se confrontadas com seu
comportamento doentio”. (CAPRA, 1993, p. 155). CAPRA vai além; afirma que
“medicalizamos”48 nossos problemas sociais, ou seja, transformamos em
problemas médicos situações sociais complexas, que nos recusamos a enfrentar
através de uma transformação social e cultural:
“Preferimos falar sobre a „hiperatividade‟ ou a „incapacidade de aprendizagem‟ de
nossos filhos, em lugar de examinarmos a inadequação de nossas escolas;
preferimos dizer que sofremos de „hipertensão‟ a mudar nosso mundo
supercompetitivo de negócios; aceitamos as taxas sempre crescentes de câncer
em vez de investigarmos como a indústria química envenena nossos alimentos
para aumentar seus lucros.” (CAPRA, 1997, p. 155).

A visão holística de assistência à saúde


O estado psicológico de uma pessoa é tão importante para a geração
da doença quanto para sua cura. A reação psicológica do paciente é um
ingrediente importante na receita da cura. CAPRA cita o cirurgião Leonard
SHLAIN:
68

“alguns médicos parecem fazer bem às pessoas, enquanto outros,


independentemente de todas as suas qualificações de especialistas, apresentam
elevados índices de complicações. A arte de curar não pode ser quantificada”.
(CAPRA, 1997, p. 135).
Analisando a medicina dos médicos japoneses que integram o sistema
tradicional da medicina chinesa com o sistema médico ocidental, CAPRA afirma
que, contrariamente à prática médica ocidental, que reprova os que têm maior
talento para exercer intuitivamente a medicina, os médicos orientais valorizam o
conhecimento subjetivo; desta forma, “os médicos japoneses podem aceitar juízos
subjetivos –tanto seus próprios quanto os de seus pacientes, sem que vejam neles
ameaças à sua competência médica ou à sua integridade pessoal." (1997, p. 312).
Segundo CAPRA, apesar da visão holística dos documentos clássicos
da medicina chinesa, os médicos chineses, assim no passado como hoje,
consideram as condições sociais e psicológicas de seus pacientes quando
formulam seu diagnóstico, mas não lidam com esses mesmos aspectos
psicológicos e sociais da doença em sua terapia. Uma assistência holística à
saúde deve, porém, saber integrar medidas de aconselhamento psicológico e de
intervenção no uso das tecnologias e na organização das estruturas sociais e
econômicas.
A assistência holística à saúde deverá ser basicamente uma assistência
e não uma intervenção externa “tão excessiva e fragmentária, como tem
acontecido na assistência contemporânea à saúde.” (CAPRA, 1997, p. 149). Ela
deverá estimular o organismo para que ele mesmo desencadeie as reações
internas necessárias à superação da enfermidade; assim como faziam e fazem os
médicos criteriosos e, há milênios, também os curandeiros. O que importa não é
interferir no processo biológico alterado da doença, mas nos processos internos
que desencadeiam a autocura. Infelizmente, a maioria dos pacientes, que foi
levada a acreditar que só os médicos sabem o que ocorre em seus organismos,
não conhecem as possibilidades de autocura que esses mesmos organismos
possuem. Esta crença torna difícil aos médicos progressistas mudarem os
modelos atuais de assistência à saúde. É necessária uma revolução cultural para
modificar este quadro! Esta revolução deverá permitir que os pacientes aceitem o
69

fato de que eles são partícipes conscientes ou inconscientes do desenvolvimento


de sua própria doença.49

Como deve ser um sistema holístico de assistência à saúde


O sistema holístico de assistência à saúde vislumbrado por CAPRA
(1997, p. 325-50) tem as seguintes prescrições:
a) deverá ser um “sistema abrangente, efetivo e bem integrado de
assistência preventiva”;
b) deverá assistir as pessoas individualmente, por meio de terapeutas,
para que as pessoas se conscientizem da necessidade de manter seu equilíbrio
orgânico, respeitando regras simples de comportamento em relação a sono,
alimentos, exercícios e medicamentos (promoção de hábitos de vida saudáveis,
como uso de alimentos integrais, realização de exercícios físicos, realização de
parto em casa, uso de técnicas de relaxamento e meditação);
c) organização de um sistema de “assistência social à saúde”, para
desenvolvimento de atividades dedicadas à manutenção e à promoção da saúde;
a assistência social à saúde deverá ter duas vertentes integradas e coordenadas:

(i) a educação para a saúde, cujo objetivo é esclarecer as pessoas sobre como
seu comportamento e seu meio ambiente afetam sua saúde e sobre como
enfrentar o estresse em sua vida cotidiana; outro objetivo será o de contrabalançar
nos veículos de comunicação de massa os efeitos perniciosos da publicidade de
produtos e estilos de vida nocivos; além disso, a educação para a saúde deverá
estimular a responsabilidade das grandes companhias sobre seus métodos
nocivos de produção e sobre os produtos igualmente nocivos que eventualmente
fabriquem, fazendo com que elas formulem políticas empresariais que evitem os
danos à saúde das pessoas, que geram custos de saúde elevados;

(ii) a segunda vertente da assistência social à saúde, a política da saúde, deve


consistir na definição de uma legislação que favoreça a prevenção das doenças e
no estabelecimento de uma política social que garanta as necessidades básicas
das pessoas (por exemplo: restrições à publicidade de produtos prejudiciais à
saúde; impostos de assistência à saúde sobre indivíduos e empresas que gerem
70

riscos para a saúde; impostos progressivos sobre cigarros, bebidas alcoólicas,


alimentos supérfluos e artificiais; programas de ação social para melhorar a
educação, os níveis de emprego, os direitos civis e a situação econômica dos
empobrecidos; desenvolvimento de serviços de planejamento e aconselhamento
familiar, de centros de assistência diurna (prevenção de doenças mentais);
incentivo à indústria para produzir alimentos mais nutritivos, restringindo os artigos
oferecidos em máquinas automáticas, e definição de especificações nutricionais
para alimentos servidos em coletividades, incentivos para o desenvolvimento de
métodos orgânicos de produção de vegetais;
d) todas as medidas anteriormente sugeridas requerem que se
reestruturem as instituições sociais, entre elas e em primeiro lugar, o próprio
sistema de assistência à saúde;
e) a terapia holisticamente considerada deve conscientizar o paciente
da natureza e da extensão de seu desequilíbrio, diminuindo sua ansiedade e
estimulando sua esperança e confiança, em direção à autocura;
f) todos que fornecem assistência primária à saúde devem ter
qualificação terapêutica básica para poder atender o paciente em nível físico e
psicológico, avaliando a participação relativa de fatores biológicos, psicológicos e
sociais para o surgimento e a manutenção da enfermidade, orientando o paciente
sobre a natureza e o significado da enfermidade e sobre a possibilidade de
mudança do estilo de vida que pode tê-lo levado à doença;
g) a terapia deve ter por finalidade básica o restabelecimento do
equilíbrio do paciente, reconhecendo a tendência inata do organismo à autocura, e
privilegiando na medida do possível os tratamentos moderados  reduzir estresse,
fortalecer o corpo, instilar autoconfiança e atitude mental positiva no paciente,
criando um ambiente mais propício à cura;
h) a terapia será multidimensional (tratamento em vários níveis do
sistema corpo/mente) e multidisciplinar (produzida por equipe de especialistas em
vários campos, compartilhando todos a mesma visão holística de assistência à
saúde;
i) deve ser imposta uma moratória a toda expansão hospitalar,
devendo-se transformar os hospitais existentes em instituições mais eficientes e
humanas, em ambientes confortáveis, de estilo hoteleiro, e terapêuticos;
71

j) devem-se usar os medicamentos apenas em caso de emergência e,


assim mesmo, de forma parcimoniosa, emancipando-se a assistência à saúde da
indústria farmacêutica e reduzindo o número de medicamentos aos básicos
necessários para um tratamento eficaz;
k) reorganizar o estudo da medicina, ampliando sua base científica e
atentando mais para as ciências do comportamento e a ecologia humana,
reorientando-se as prioridades de pesquisa, com a diminuição de sua ênfase na
biologia celular e molecular, concentrando-se a educação médica na prática da
medicina familiar e na medicina ambulatorial, preparando-se os futuros médicos
para trabalharem em equipes multidisciplinares;
l) deve-se fornecer incentivos financeiros que induzam os profissionais
de saúde e as instituições de assistência à saúde, assim como o público em geral
a fazer escolhas adequadas de saúde (por exemplo: um seguro de saúde que
incentive a assistência holística à saúde, a educação para a saúde e sua
promoção, bem como a prevenção das doenças; normas de licenciamento de
profissionais ou de regulamentação de profissões de saúde que reflitam os
princípios anteriores, dando ao público maior liberdade de escolha;
m) desenvolver técnicas terapêuticas que sejam compatíveis com a
visão sistêmica de saúde, escolhendo-se a terapia mais adequada e eficiente para
cada paciente, enquanto os pesquisadores estudariam os diferentes modelos
terapêuticos em profundidade, tentando integrá-los em um sistema coeso.

Terapias para uma adequada assistência à saúde


CAPRA cita várias abordagens terapêuticas, algumas baseadas nas
tradições ocidentais da arte de curar, outras fundamentadas em outras tradições,
a maioria delas não sendo “levada muito a sério pelo establishment médico, por
serem difíceis de entender em termos dos conceitos científicos clássicos.” (1997,
p. 332).
Segundo CAPRA, os modelos da “medicina energética” devem ser
entendidos a partir de conceitos compatíveis com a moderna teoria de sistemas
fluxo, flutuação, vibração, ritmo, sincronia, ressonância, e não a partir de
conceitos como substâncias subjacentes aos padrões dinâmicos de auto-
72

organização dos organismos. Entre as abordagens “energéticas”, CAPRA analisa


a homeopatia, a terapia reichiana e a medicina chinesa.
As demais abordagens por ele analisadas, embora algumas delas se
dediquem ao reequilíbrio físico do organismo, outras ao reequilíbrio de seu
metabolismo e outras mais ao estabelecimento de um equilíbrio por meio de
técnicas psicológicas, todas “reconhecem a interdependência fundamental das
manifestações biológicas, mentais e emocionais do organismo, sendo, portanto,
coerentes.” (CAPRA, 1997, p. 338).
As abordagens terapêuticas de trabalho do corpo são: terapias
ocidentais e orientais de trabalho com o corpo –massagens, ioga, taiji-quan,
aikido, shiatsu, acupressura, quiropatia, cinesiologia, bioenergética, técnica de
ALEXANDER, integração estrutural de Moshe FELDENKRAIS, integração
estrutural de Ida ROLF, padronização estrutural de Judith ASTON, terapia do
movimento de Rudolf LABAN e Irmgard BARTENIEFF.
Entre as abordagens de obtenção de equilíbrio do organismo pelo
metabolismo, CAPRA cita as seguintes: orientação e terapia nutricional, medicina
herbácea, uso de drogas médicas na terapia biomédica (uso restrito e
emergêncial).
Um último grupo de técnicas terapêuticas mencionado por CAPRA
refere-se às que abordam o equilíbrio psicossomático através da mente; entre
elas: métodos de relaxamento, meditação, técnicas de visualização, biofeedback e
o tratamento Simonton do câncer.

Terapias alternativas?
A apresentação que Capra oferece das várias abordagens terapêuticas
está longe de ser exaustiva. Baste lembrar a terapia dos florais, a reflexologia, a
imposição das mãos (toque terapêutico, reiki, cura prânica, técnica da polaridade,
jin shin jyutsu), as quiropraxias de origem oriental, a osteopatia, as terapias da
medicina antroposófica e das medicinas tradicionais hindu e tibetana, entre outras,
os exercícios terapêuticos chineses chamados Lian Gong, as inúmeras versões de
Qi Gong, a naturopatia com todas as suas técnicas naturais, a biodança, a
musicoterapia, o neoxamanismo, a cristaloterapia, a cromoterapia, a radiestesia, a
magnetoterapia, a aromaterapia, a eutonia,...
73

O termo "alternativas" faz sentido apenas no mundo em que impera a


medicina alopática, pois indica, justamente, uma abordagem terapêutica
alternativa a esse tipo de medicina. Alguns preferem chamar estas terapias de
"complementares", como a indicar que poderiam ser um complemento ao
tratamento alopático. Enfim, estas terapias sempre são definidas não por aquilo
que são, mas por uma suposta relação de subordinação à medicina alopática. Na
realidade, elas podem ser "alternativas" ou "complementares, mas não
necessariamente. Elas podem dar muito bem conta sozinhas da saúde de um
indivíduo, sem que se intervenha com a medicina alopática.
D' AMBRÓSIO50 considera que o insucesso do diálogo entre a ciência
ocidental, provedora de tecnologias, e os sistemas de valores tradicionais, em
todos os setores da sociedade, mas sobretudo no campo da saúde, poderá gerar
"conflitos culturais irrecuperáveis que ameaçam a viabilidade de sobrevivência da
humanidade com dignidade". Segundo ele, estamos diante de um dilema, pois a
medicina convencional moderna está se tornando cada vez mais inacessível à
população, por causa de seu custo e sofisticação crescentes. A população que,
então, procura as chamadas práticas alternativas, mais acessíveis normalmente
por seu custo menor e por seu "aparato formal menos constrangedor", encontra
freqüentemente pessoas que praticam terapias "sem o adequado amparo das
tradições em que se baseiam".
D' AMBROSIO considera esta questão de filosofia social:
"Não se trata de preferir que seja de um ou de outro modo, o que significaria
referendar e oficializar uma epistemologia, mas sim de reconhecer a coexistência
das tradições e das tecnologias científicas nas questões de saúde integral nas
sociedades modernas."
É necessário buscar um conhecimento integral sobre "vida, corpo e mente,
natureza e sociedade", "ancorado em todas as tradições, sem posições
epistemológicas exclusivas".
A nosso ver, a maior responsabilidade pela condução deste diálogo não está nos
representantes das terapias "alternativas", mas nas pessoas que encarnam o
poder da ciência e da tecnologia em nossa sociedade. Não faz mais sentido exigir-
se dessas terapias que mostrem os resultados de seus processos metodológicos
"duplo-cegos"51 de pesquisa ou que simplesmente produzam pesquisas, na
74

situação de marginalização a que estão relegadas. Trata-se de uma questão


social e como tal deve ser encarada pelos detentores do poder econômico e
político, aos quais cabe destinar recursos para a pesquisa. O governo americano
já entendeu isto e começou a destinar financiamentos para pesquisar terapias
"alternativas" através do Departamento de Medicina Alternativa dos National
Institutes of Health52. Tampouco faria sentido obrigar as terapias "alternativas" a
um figurino metodológico de pesquisa que não colimasse com seus princípios
epistemológicos.
75

VI. SAÚDE DOS IDOSOS NUMA VISÃO BIOMÉDICA AREJADA

O MINISTÉRIO da SAÚDE emanou recentemente normas específicas


sobre saúde do idoso53. Isto sugere que a saúde do idoso merece orientações
diversas daquelas que poderiam ser oferecidas para qualquer outro grupo etário.
De fato, estas normas estão centradas em dois objetivos primordiais, quais sejam,
"a promoção do envelhecimento saudável e a manutenção da capacidade
funcional do indivíduo que envelhece".
O documento traz uma introdução sobre evolução demográfica do
grupo de idosos no país e características da população idosa, para justificar as
políticas de saúde que preconiza. Além disso, sintetiza dados de custos de
hospitalização desta mesma população:
"Estudos têm demonstrado que o idoso, em relação às outras faixas etárias,
consome muito mais recursos do sistema de saúde e que este maior custo não
reverte em seu benefício. O idoso não recebe uma abordagem médica ou
psicossocial adequada nos hospitais, não sendo submetido também a uma triagem
rotineira para fins de reabilitação."(MINISTÉRIO da SAÚDE, 1999, p.20, col. 3).
O documento espelha as diretrizes da ORGANIZAÇÃO MUNDIAL da
SAÚDE (OMS) e de seu ramo latino-americano, a ORGANIZAÇÃO PAN-
AMERICANA de SAÚDE (OPAS).
Antes de analisar o conteúdo das diretrizes que oferece, é importante
que se façam duas observações. Em primeiro lugar, o equívoco quanto à definição
de envelhecimento, como sendo "'uma etapa da vida em que há um
comprometimento da homeostase, isto é, o equilíbrio do meio interno, o que
fragilizaria o indivíduo, causando uma progressiva vulnerabilidade do indivíduo
perante a uma sobrecarga fisiológica'". As aspas constam da Portaria em análise,
refletindo, de acordo com o texto, o pensamento de uma maioria de autores que
assim conceituam o envelhecimento.
Este não pode ser considerado uma etapa da vida e sim um processo permanente
a partir de um determinado momento da vida das pessoas. A velhice sim poderia
ser entendida como uma etapa da vida, culturalmente e biologicamente definida,
mas não o envelhecimento, que decorre mais de características biológicas (ou
76

será que biopsíquicas?). HYFLICK, já mencionado anteriormente, define


envelhecimento como um processo que "representa as perdas na funcão
(biológica, n.d.a.) normal que ocorrem após a maturação sexual e continuam até a
longevidade máxima para os membros de uma espécie." (1997, p. 7). Não
podemos dizer que um jovem de 25 anos seja um velho, mas podemos dizer que
ele começa a envelhecer, iniciando a sofrer perdas em suas funções biológicas
(HYFLICK cita estudos que mostram o começo da diminuição do poder de olfação
aos 20 anos). Se começamos a envelhecer após adquirir a maturidade sexual,
então, "a promoção do envelhecimento saudável" não deveria fazer parte apenas
de uma política nacional da saúde do idoso, mas sim de uma política de saúde
voltada para os jovens. Evidentemente, os idosos podem beneficiar-se de uma
política de promoção do envelhecimento saudável, mas é mais lógico pensar que
se beneficiariam muito mais dela, se pudessem fazê-lo desde sua juventude.
Em segundo lugar, se "o idoso não recebe uma abordagem médica ou
psicossocial adequada nos hospitais", como diz o documento do MINISTÉRIO da
SAÚDE, então, não é verdade que "o idoso consome muito mais recursos do
sistema de saúde" do que outras faixas etárias; não é ele que consome esses
recursos, mas sim o próprio sistema. O idoso que ocupa os leitos hospitalares com
doenças crônicas é freqüentemente o jovem de antes de ontem que não foi
educado a promover sua saúde e o adulto de ontem "medicalizado" pelo sistema
de saúde, e por ele "cronicizado", habituado a depender do sistema e de suas
drogas. Enfim, se os idosos ocupam os hospitais do país mais do que outras
faixas etárias e são motivo de gastos maiores, isto não é devido necessariamente
à idade ou ao envelhecimento, mas sim à forma como nosso sistema médico lida
com a saúde e as doenças das pessoas.

A visão da Organização Panamericana de Saúde


A ORGANIZAÇÃO PANAMERICANA de SAÚDE (OPAS) editou em
1994 um livro sobre a saúde dos idosos. Este livro foi escrito com a colaboração
de 46 especialistas –centro e sul-americanos, norte-americanos, espanhóis,
ingleses e israelenses– em sua maioria da área médica.
O diretor da OPAS, Carlyle de MACEDO, introduz o livro apontando as razões de
sua oportunidade:
77

"O rápido envelhecimento da população nos países em desenvolvimento, a


identificação das necessidades específicas da população idosa, certas
circunstâncias desestabilizadoras da vida atual e futura (migração para as cidades,
desemprego e subemprego, falhas nos sistemas de seguridade social, redução do
tamanho das famílias, entre outras) e as limitações no crescimento econômico
constituem poderosas razões para que os governos e as organizações nacionais e
internacionais, governamentais e não governamentais, relacionadas com o bem-
estar e a saúde das sociedades, se interessem e trabalhem com entusiasmo e
coordenação a favor das pessoas de idade avançada." (OPAS, 1994, p. V
- tradução do autor).
O livro trata do envelhecimento, dos principais aspectos da saúde dos
idosos, da atenção aos idosos, da promoção de seu bem-estar e das
repercussões do envelhecimento das populações no futuro.
Pela leitura dos capítulos que tratam da atenção e da promoção do bem-estar dos
idosos, pode-se traçar um quadro de como seus autores entendem o trabalho de
promoção e manutenção da saúde desta população.

A promoção do bem-estar
O tema da promoção do bem-estar dos idosos, que ocupa apenas seis
das quase 500 páginas do livro, é abordada por Helena E. RESTREPO e Elías
ANZOLA PÉREZ54. De acordo com a análise destes dois autores, a Região das
Américas apresenta cinco grandes tendências em suas características
demográficas e epidemiológicas:
1) aumento acelerado da população adulta e de idosos;
2) crescimento urbano caracterizado por infra-estruturas de serviços
básicos bastante deficientes;
3) aumento dos óbitos por enfermidades crônicas não transmissíveis,
fatos violentos e acidentes;
4) aumento de condutas não saudáveis, tais como, violência,
sedentarismo, dietas inadequadas e dependências químicas;
5) persistência e, em alguns casos, aumento das doenças infecciosas –
cólera, malária, AIDS, tuberculose, deficiências nutricionais.
78

Os autores identificam dois grupos de problemas decorrentes do


envelhecimento da população: de um lado, o envelhecimento biológico
aumentando o risco de doenças crônicas; de outro, a acumulação dos fatores de
risco, relacionados com estilos não saudáveis de vida, aumentando, ao longo dos
anos, o risco de aparecimento desses problemas.
Como conseqüência disso, os serviços de saúde têm seus custos de
atenção aos idosos aumentados, pois o tratamento das enfermidades crônicas
pode requerer uma tecnologia cara, com hospitalizações repetidas e cuidados
domiciliares. A isto, devem-se acrescentar as despesas com o atendimento,
através de vários serviços, de necessidades sociais dos idosos, para que se evite
sua incapacidade funcional e sua dependência.
RESTREPO e ANZOLA PÉREZ traçam um quadro epidemiológico dos
idosos, relacionando-o ora à velhice ora ao envelhecimento ("epidemiologia da
velhice" ou "epidemiologia do envelhecimento"). A este propósito, os autores
indicam que uma das formas de iniciar a análise epidemiológica é a de fazer a
revisão cuidadosa da informação sobre mortalidade, que é a que mais está
disponível.
Os mesmos autores citam um trabalho de BRODY55, que distingue duas
categorias de problemas que afetam os idosos: 1) os problemas que dependem da
idade (ligados ao envelhecimento biológico) –doenças cardíacas, demências,
osteoporose; 2) os problemas relacionados com a idade –incontinência urinária,
constipação, depressão e solidão. A fratura da bacia seria um problema típico das
mulheres velhas; outro problema levantado é o nutricional, decorrente das
condições sociais dos velhos – solidão, negligência da família e de suas
deficiências mastigatórias devidas às más condições da boca. As mulheres devem
receber atenção especial, considerando-se que elas são a maioria da população
idosa e que 70% delas vivem em condições de pobreza nos países menos
desenvolvidos.
Aquiles R. SALAS56 acrescenta aos problemas de saúde já
mencionados a hipertensão arterial, a artrite e os transtornos da visão e da
audição e observa que existe nas Américas uma patologia derivada da pobreza –
carências nutricionais, doenças infecciosas e parasitárias– e doenças decorrentes
da industrialização e da abundância –obesidade, alguns tipos de câncer, acidentes
79

e algumas enfermidades crônicas e degenerativas dos aparelhos respiratório e


cardiovascular e das articulações.
Uma vez delineados os dados epidemiológicos, a promoção da saúde
realiza sua missão através de vários tipos de ações: comunicação social,
disseminação da informação, educação para a saúde, promoção de políticas
públicas, reorientação dos serviços e desenvolvimento de habilidades pessoais.
RESTREPO e ANZOLA PÉREZ citam os seis princípios sobre a saúde dos idosos
formulados por um grupo de trabalho57:
" • A velhice não é uma doença, mas uma etapa evolutiva da vida.
• A maioria das pessoas de 60 anos e mais estão em boas condições físicas e
sua saúde é boa, porém, ao envelhecer perdem a capacidade de recuperar-se
das enfermidades de forma rápida ou completa e tornam-se mais propensas a
debilitar-se e a necessitar de ajuda para seu cuidado pessoal.
• Pode-se fortalecer a capacidade funcional na velhice mediante treinamento e
estimulação ou evitando os fatores relacionados com saúde ruim.
• Do ponto de vista social e psicológico, as pessoas de idade avançada são mais
heterogêneas que os jovens.
• A promoção da saúde na velhice deveria orientar-se para a estimulação (no
original estimación - sic? N.d.a.) de um bom funcionamento mental, físico e
social, assim como à prevenção das doenças e das incapacidades funcionais.
• Muitas medidas que afetam a saúde das pessoas de idade avançada
transcendem o setor de saúde58 ; sem dúvida, o pessoal da saúde e do bem-
estar social tem condições de promover mudanças dentro e fora de seu âmbito
de trabalho". (t.d.a.).
Segundo KALACHE59, os idosos compõem um grupo especial por
apresentarem:
"patologia múltipla, maior risco de doenças crônicas que provocam incapacidade
funcional, problemas iatrogênicos, prática de intervenções prematuras que
ocasionam freqüentemente dependência e o fato de serem vítimas da atitude
negativa dos profissionais , da sociedade e deles mesmos; por exemplo, ao atribuir
à velhice problemas que podem ser solucionados ou melhorados."(OPAS, 1994, p.
463 - tradução do autor).
David GALINSKY60 observa que, diferentemente da intervenção
recomendada para os enfermos jovens, a indicada para os idosos deve priorizar
80

uma equipe interdisciplinar –equipe básica: geriatra, profissional de enfermagem,


terapeutas reabilitadores, assistente social; equipe complementar: dietista,
odontólogo, podólogo, psicólogo– uma atenção progressiva e a prevenção.
Segundo GALINSKY, a atenção progressiva é o tratamento integral
oferecido por um sistema formal e informal aos idosos com perda progressiva de
funcionalidade, com a finalidade de manter os idosos em situação de maior
conforto e o mais possível no seio de sua família, a qual é a base da atenção
informal. A ela se acrescentam os serviços médicos e sociais, entre os quais os
mais conhecidos são: serviços prestados por auxiliares domésticas, serviços de
comida quente, clubes diurnos, organizações de voluntários, unidades de
cuidados domiciliares, serviços de hospitalização –unidades de avaliação e
reabilitação, hospitais-dia, serviços de psicogeriatria, instituições de cuidado
permanente.
GALINSKY acrescenta que "o uso racional destes serviços demanda
um adequado diagnóstico gerontológico integral prévio, que inclua a avaliação
psicossocial, médica e funcional do idoso realizada por uma equipe interdisciplinar
bem adestrada." (OPAS, 1994, p. 327).
A prevenção é abordada por Aquiles R. SALAS61, a partir de
recomendações do AMERICAN COLLEGE OF PHYSICIANS62, as quais se
aplicam "ao mínimo de prevenção a ser realizado a favor do paciente de aparente
baixo risco, assintomático, no contexto da consulta preparada para este
propósito63" (tradução do autor). As recomendações dizem respeito aos hábitos de
saúde e às prevenções primária, secundária e terciária propriamente ditas.
Quanto aos hábitos de saúde, recomenda-se que os pacientes sejam
formalmente avaliados a cada quatro anos, no mínimo, ou quando seja
conveniente, ocasião em que o médico deve aconselhar sobre a necessidade de
modificar certos hábitos, a saber: consumo de tabaco, ausência de exercícios,
dieta inadequada (número de refeições por dia, capacidade para comprar e
preparar os alimentos e qualidade dos alimentos ingeridos), abuso de álcool,
transtornos do sono.
Quanto às prevenções primária e secundária (o autor não distingue o
que se refere a uma e outra64), advoga-se a imunização com a vacina contra a
pneumonia pneumocócica de todas as pessoas acima dos 65 anos, contra tétano
81

(reforço a cada 10 anos) e sarampo, parotidite e rubéola (para as pessoas


suscetíveis); análise de colesterol total em pessoas de 65 anos ou mais; detecção
de doenças dentais e periodontais, de falha auditiva precoce e da presença de
hipertensão no exame periódico de saúde; exame de mamas e mamografia anual
para mulheres com idade entre 65 e 80 anos; exame de Papanicolau a cada três
anos para mulheres; detecção de sangue oculto nas fezes para prevenção de
câncer de cólon no exame periódico de saúde.
A prevenção terciária refere-se aos esforços para a manutenção da
autonomia funcional e da qualidade de vida, quando existe uma doença manifesta
(acidentes cérebro-vasculares, fraturas, amputações, doença articular
degenerativa, falha visual ou auditiva, doença cardíaca e pulmonar) e consiste "na
avaliação das falhas físicas e cognitivas, do impacto do meio ambiente e da
capacidade da família e dos serviços sociais da comunidade para compensar as
carências" (tradução do autor). Recomenda-se avaliação das funções físicas,
sociais e psicológicas a cada dois anos para pessoas entre 65 e 74 anos e anual
para maiores de 75 anos. SALAS também defende, como estratégia preventiva
terciária, a avaliação gerontológica integral, por parte de uma equipe multi e
interdisciplinar, nos casos de prevenção de perda de função ou quando se
apresentam outras situações adversas (entre elas, a internação em casas de
repouso para idosos).
Da visão biomédica de saúde da OPAS fazem parte, também,
recomendações relativas a programas de detecção de bem-estar, que deveriam
ser conduzidos pelos organismos de saúde não de forma isolada, mas no contexto
de uma programação geral de saúde. Segundo Marialcira QUINTERO O.65, o
ponto de partida de um programa de detecção deve ser "a valoração integral da
saúde da pessoa e não unicamente a visão fragmentada de algum de seus
aspectos". Assim, deve-se avaliar não apenas a capacidade física dos idosos, mas
sim sua capacidade funcional integral, o que na recomendação da OPAS
significaria abordar os seguintes aspectos: atividades da vida diária,
funcionalidade psicossocial, funcionalidade com relação à saúde física, recursos
sociais, econômicos e ambientais. Segundo QUINTERO, a não inclusão de
aspectos outros que não os biológicos, tem levado tradicionalmente a reconhecer
como apropriados para os idosos, por exemplo, apenas programas de deteçcão
82

de hipertensão, câncer, diabetes, glaucoma, presbiopia, presbiacusia e colesterol.


Estes programas deveriam focar sobretudo a prevenção de limitações e a
estimulação da autonomia.

A Política Nacional de Saúde do Idoso


Em suas diretrizes, a Política Nacional de Saúde (MINISTÉRIO da
SAÚDE, 1999) indica que a promoção do envelhecimento saudável deverá ocorrer
"mediante a adoção precoce de hábitos saudáveis de vida e a eliminação de
comportamentos nocivos à saúde". Entre os hábitos saudáveis, citam-se a
alimentação adequada e balanceada, a prática regular de exercícios físicos, a
convivência social estimulante, a busca de uma atividade ocupacional prazerosa e
mecanismos de atenuação do estresse. Entre os hábitos nocivos são
mencionados o tabagismo, o alcoolismo e a automedicação.
A manutenção da capacidade funcional dos idosos é prospectada como
possível por meio da prevenção de agravos à sua saúde (prevenção de primeiro
nível) e da detecção precoce de problemas de saúde (prevenção de segundo
nível) que possam vir a comprometer suas habilidades e sua autonomia. A
aplicação de vacinas (antitetânica, antipneumocócica e contra a influenza)
garantiria a prevenção de agravos à saúde, enquanto a detecção precoce de
problemas de saúde incluiria: detecção precoce de doenças não transmissíveis
(hipertensão arterial, diabetes melito, osteoporose, hipotireoidismo), de danos
sensoriais (auditivos, visuais e propioceptivos), prevenção de perdas dentárias,
deficiências nutricionais e isolamento social, avaliação das habilidades funcionais
no ambiente domiciliar.
A assistência às necessidades de saúde do idoso deverá ser provida,
de acordo com a mesma Política Nacional de Saúde do Idoso, nos âmbitos
ambulatorial, hospitalar e domiciliar.
No ambulatório, através da consulta geriátrica, cujo modelo deverá ser
abrangente, devendo permitir a identificação de problemas relacionados com os
vários sistemas (cardiorrespiratório, digestório, hematológico, endócrino-
metabólico), além da percepção de transtornos neuropsiquiátricos, dos aparelhos
locomotor e genito-urinário e de problemas sociais relacionados com o bem-estar
dos idosos. Outros problemas de saúde de alta prevalência deverão poder ser
83

detectados na consulta geriátrica, como as doenças tireoidianas, a doença de


Parkinson, a hipotensão ortostática, a incontinência urinária, demências,
depressões, glaucoma, catarata, hipoacusia e iatrogenias.
No hospital, a assistência será mais dirigida a pacientes de longa
internação, geralmente com grau elevado de dependência, e deverá ser pautada
pela presença de uma equipe multiprofissional que deve incluir médico,
enfermeiro, fisioterapeuta, assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional,
fonoaudiólogo, dentista e nutricionista.
Alternativas ao atendimento hospitalar serão postas em ação, como o
atendimento domiciliar, o atendimento ao idoso residente em instituições e o
atendimento ao idoso em hospital-dia geriátrico, este último para necessidades
terapêuticas, como hidratação, medicação endovenosa, quimioterapia,
reabilitação, que não justifiquem permanência em hospital.
A reabilitação da capacidade funcional comprometida será
implementada de forma precoce, considerando-se que "as causas de dependência
são, em sua maioria, evitáveis e, em muitos casos, reversíveis por intermédio de
técnicas de reabilitação física e mental". A Política Nacional de Saúde do Idoso
prescreve que se dê a devida atenção à detecção precoce e ao tratamento de
pequenas limitações funcionais, que podem promover formas graves de
dependência, mediante o uso de órteses e próteses (óculos, aparelhos auditivos,
próteses dentárias e aparelhos "assistivos" –andador, bengala, etc.).
A capacitação de recursos humanos especializados será demandada a
Centros Colaboradores de Geriatria e Gerontologia, escolhidos pelo MINISTÉRIO
da SAÚDE entre instituições preferencialmente de ensino superior, de acordo com
as necessidades que forem identificadas na implementação desta Política
Nacional de Saúde do Idoso.
Apoio ao desenvolvimento de cuidados informais deve ser provido pelo
sistema de saúde, mediante parcerias entre profissionais de saúde e cuidadores66
de idosos, em vista da promoção da saúde do idoso, da prevenção de
incapacidades e da promoção da capacidade funcional do idoso dependente. Os
cuidadores deverão receber atenção pessoal, para prevenir possíveis perdas e
agravos à sua saúde, devido à tarefa desgastante que desempenham.
84

Apoio a estudos e pesquisas deverá ser uma tarefa dos Centros


Colaboradores de Geriatria e Gerontologia anteriormente mencionados, os quais
serão incumbidos de gerar informações para subsidiar as ações de saúde dirigidas
à população com mais de 60 anos de idade. As linhas de pesquisas
recomendadas abrangem estudos de perfil do idoso, de avaliação da capacidade
funcional, de prevenção de doenças; estudos de seguimento e de
desenvolvimento de "instrumentos de rastreamento" (de doenças? n.d.a.); estudos
de modelos de cuidados, de avaliação das intervenções; estudos sobre
hospitalização e alternativas à assistência hospitalar; estudos sobre orientação e
cuidados aos idosos; estudos que promovam uma articulação entre as
informações geriátricas e gerontológicas básicas para os profissionais de todas as
especialidades.

Algumas reflexões sobre a Política Nacional de Saúde do Idoso


Deixando para mais adiante uma análise da visão biomédica de saúde
do idoso, fazemos aqui algumas observações pontuais sobre a Política Nacional
de Saúde do Idoso, sem deixar de reconhecer que sua formulação foi um avanço
indiscutível na atenção à população idosa deste país.
Uma primeira observação é sobre a não inclusão do uso de drogas, a
não ser o álcool, e do sedentarismo na lista de hábitos nocivos de saúde. Talvez a
ausência da menção das drogas se deva à falta de dados sobre seu uso por parte
de idosos. O sedentarismo, por sua vez, é fator de risco prevalente na população
do Estado de São Paulo, segundo MATSUDO67, e não poderia ser preterido. O
fato de incluir a prática regular de exercícios físicos entre os hábitos saudáveis,
não dispensa a inclusão do sedentarismo entre os hábitos nocivos, embora um se
oponha a outro. A detecção de hábitos de sedentarismo e a promoção da prática
de exercícios físicos, embora complementares, podem eventualmente ser
realizados separadamente.
Uma segunda observação é sobre a inclusão da automedicação como
hábito nocivo. O documento da Política Nacional de Saúde do Idoso não define o
que considera automedicação. Supomos que signifique a decisão autônoma do
paciente de tomar ou deixar de tomar algum medicamento receitado normalmente
por médico ou de alterar sua posologia. Ou será que, na intenção dos autores da
85

política de que estamos falando, automedicação compreende todo e qualquer tipo


de autoprescrição? Inclusive de um chá de ervas ou de uma terapia alternativa?.
Sobre automedicação ou autoprescrição, LOPES (1999, p. 52) entende que ela
"parece ser a resposta individual à competição que se trava entre os saberes" ( o
do médico e o do paciente, n.d.a.) e significa a tentativa que as pessoas leigas
fazem para recuperar um controle sobre seu próprio corpo. A automedicação pode
ser entendida como uma forma de autocuidado; neste sentido, não pode ser
simplesmente tachada de habito nocivo e, como tal, reprimido.
Uma terceira observação diz respeito ao caráter multiprofissional da
equipe que atende os idosos. Nada a objetar sobre esta orientação a não ser o
fato de que ela inclui apenas profissionais de nível superior, que não são os que
dedicam mais tempo aos cuidados diretos dos idosos. Referimo-nos aos auxiliares
de enfermagem, aos massoterapeutas aos próprios cuidadores de idosos, aos
auxiliares sociais, aos podólogos. Uns e outros deveriam fazer parte de todas as
equipes em todos os ambientes que acolhem idosos; residências, asilos, hospitais
de longa permanência ou hospitais-dia, ambulatórios. Uma massagem bem
aplicada pode resolver mais desconforto que muitas consultas médicas. O toque
de um profissional atencioso, uma leitura interessante, o alívio de preocupações
com pequenos problemas cotidianos podem fazer muito para a saúde e o bem-
estar dos idosos68. O mesmo pode ser dito em relação à formação dos
profissionais de saúde. É importante que se preparem geriatras e enfermeiros,
psicólogos e fisioterapeutas, para que saibam lidar com a população idosa; porém,
há vários profissionais que ainda são tachados de "alternativos" (os próprios
massoterapeutas e podólogos, reflexólogos, quiropatas, naturopatas, terapeutas
corporais, etc.), cuja formação é tão importante quanto a dos demais, pois
realizam terapias preventivas e não-invasivas, sem falar dos cuidadores de idosos,
de cujo preparo vai depender em grande medida o bem-estar da população idosa
em nosso país.
Uma quarta observação refere-se ao fato que a implementação das
políticas públicas de saúde preconizadas deverão ser postas em prática pelas
estruturas normais do sistema de saúde, sem que se apontem medidas de
reorientação destas mesmas estruturas, reconhecidamente falhas em muitos
aspectos. Há que se superar barreiras estruturais, como as divisões entre as
86

várias especializações terapêuticas, a separação entre a assistência médico-


sanitária e a social, assim como entre seus modos de financiamento, as
divergências quanto à importância das medidas curativas e preventivas.
Ao afirmar que os cuidadores de idosos desempenham tarefas
desgastantes, o documento da Política Nacional de Saúde do Idoso recomenda
que seja dispensada a eles atenção médica, para prevenir perdas e agravos à sua
saúde. A visão biomédica de saúde caracteriza-se, também, pela crença que
reduz a saúde à visão que a medicina alopata tem dela. A atenção que deve ser
dispensada aos cuidadores de idosos pode ser muito mais ampla do que uma
atenção apenas médica. Ela pode ser psicossocial, de alfabetização e
recuperação corporal, energética, espiritual, etc.
A preocupação em definir orientações específicas para a promoção e a
manutenção da saúde do segmento populacional com mais de 60 anos parece ter
permitido que fosse omitida qualquer referência ao fato de que a promoção de um
envelhecimento saudável deveria começar na infância e que estudos sobre este
tema deveriam ser oportunamente estimulados.
Por fim, a questão dos custos dos serviços de saúde foi apenas
acenada e de forma, a nosso ver inadequada, pois restringe-se a apontar custos
maiores de hospitalização da população idosa, sem fazer referência a estudos que
apontem diminuição de custos com a implementação de medidas preventivas69 ou
a outros que apontam as falhas no controle das despesas com saúde70.
87

VII. UMA VISÃO HOLÍSTICA SOBRE ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL

Não conhecemos estudos abrangentes sobre o que venha a ser um


modo saudável de envelhecer e de ter uma velhice saudável. No entanto, existem
pesquisas sobre a influência de diversas variáveis sobre a saúde e o bem-estar
dos idosos. Julgamos que estes estudos apontam para uma visão mais holística
de saúde que não a biomédica, pois consideram, além de variáveis físicas,
também variáveis psicossociais. Além disso, eles superam o contexto limitado da
relação terapêutica, para se referirem ao contexto global de vida das pessoas, no
qual costumam moldar-se os hábitos de vida e definir-se os caminhos de seu
envelhecimento e os modos de ser de sua velhice, em todos os seus aspectos,
inclusive no da saúde.

Como ser uma velha ou um velho saudável e com boa qualidade de vida
Entre os autores citados por NERI (1993), surpreenderam-nos
positivamente Melvin WITMER e Thomas J. SWEENEY (1992) por elaborarem um
“modelo holístico”, um “paradigma integrado” para a obtenção de bem-estar e de
prevenção de doenças e problemas sociais durante o curso de vida; seu propósito,
ao elaborar este modelo, segundo dizem, foi tanto acadêmico, de construção de
uma teoria, como de aplicações no campo da atuação social (saúde, educação,
políticas públicas e defesa de direitos). O modelo foi construído a partir de “dados
das ciências social, psicológica, médica e do comportamento”, colhidos de estudos
desenvolvidos num arco de tempo de cerca de 60 anos (de 1927 a 1990).
A pessoa idealmente saudável, de acordo com este modelo, possui onze
dimensões relacionadas com a expressão de valores espirituais, com qualidades
físicas, emocionais, intelectuais e de relacionamento humano e social.
Valores espirituais, expressos como crença na dignidade humana, nos
direitos humanos, no respeito pela vida, na distinção entre meios e fins são
necessários para uma pessoa ser saudável. Descobrir um sentido para a vida e ter
propósitos, esperança, otimismo e valores que nos guiem nas relações e nas
decisões são outras dimensões da espiritualidade. Otimismo e significado na vida
são importantes para controlar o estresse.
88

O senso de valor, que junto com o senso de controle constitui o que


comumente se indica como senso de auto-estima, é a dimensão que permite que
a pessoa se aceite por aquilo que é, com suas fraquezas e imperfeições, sem se
deixar perturbar por elas, e podendo, ao mesmo tempo, sentir-se satisfeita consigo
mesma; esta dimensão revelou-se significativamente relacionada com saúde física
e mental e mostrou-se capaz de fortalecer as pessoas para que vivam com
responsabilidade e com força para “opor-se aos males pessoais e sociais que
grassam em nossa sociedade”.
O senso de controle pessoal diz respeito a sentimentos de segurança
(senso de competência), autoconfiança, otimismo e habilidade para lidar com
situações de estresse. Para as pessoas com senso de controle pessoal, a vida
não é uma camisa de força, ela é “ajeitável”. A pessoa que, possuindo controle
pessoal, aceita desafios e é capaz de compromissos é vigorosa, resistente (o
contrário de impotente). As pessoas cujo senso de controle depende menos de
crenças sobre a ligação dos eventos a sorte, acaso, destino ou a poderes
incontroláveis (controle externo), do que de suas próprias ações, esforço e
persistência (controle interno) costumam informar-se mais sobre doenças e
manutenção da saúde e empenham-se mais nos cuidados de prevenção.
Um senso de realidade (crenças realísticas), uma aguda percepção não
distorcida da realidade é encontrada nas pessoas saudáveis. Ao contrário,
pessoas não saudáveis apresentam pensamentos irracionais ou distorcidos, com
probabilidade maior de responder de forma não apropriada aos eventos da vida.
Crenças irracionais (as cinco crenças irracionais de ELLIS) contribuem para o
estresse das pessoas, aumentando sua ansiedade e a produção de sintomas
físicos. Essas crenças foram assim expressas: (a) o passado continua tão
influente que é difícil mudar ou prevenir acontecimentos ruins; (b) não consigo
evitar de me criticar quando falho em alguma coisa ou algo sai errado; (c) é muito
importante ser estimado e querido por quase todos que encontro; (d) devo ser
totalmente competente, adequado e perfeito em tudo o que faço para considerar-
me útil; (e) tenho pouco controle sobre meus maus humores, que são causados
quase sempre por eventos externos a mim.
Espontaneidade e emotividade, no comportamento externo e na vida
interior (pensamentos, impulsos, emoções, desejos e opiniões). As pessoas
89

espontâneas não se defendem em continuidade nem se utilizam de subterfúgios;


são sensíveis às dificuldades dos outros e olham para a vida como a algo sempre
passível de novidade e de que se pode sempre maravilhar-se. Elas dão vazão a
seus sentimentos e os compartilham com prazer e espontaneidade com os outros.
São pessoas que amam o riso, a música e a dança. Emoções suprimidas ou
negativas são prejudiciais ao bem-estar das pessoas. A rivalidade, por exemplo,
contribui para distúrbios circulatórios até graves e a cólera (mesmo contida) é
considerada um fator de risco poderoso de morte precoce. Outros sentimentos
negativos, como ansiedade, solidão e depressão têm sido associados à inibição
do funcionamento do sistema imunológico. Ao contrário, estados emocionais
positivos e relaxamento parecem fortalecer este mesmo sistema. Isto ocorre,
também, ao abrirmos nossos sentimentos para pessoas que têm uma atitude de
não querer julgar-nos (amigos e terapeutas).
Estimulação intelectual, solução de problemas e criatividade: pessoas
de mente aberta, flexível, que gostam de explorar, imaginar e criar conseguem
controlar o seu ambiente e produzir algo satisfatório para si mesmas. A
experiência e os estudos mostram que pessoas idosas, quando estimuladas a
serem intelectualmente produtivas e criativas sentem-se como rejuvenescidas e
mantêm um sentimento de possuir boa qualidade de vida.
Senso de humor, principalmente se acompanhado de boas risadas,
produz efeitos de analgesia, relaxamento, energização, flexibilidade para solução
de problemas, quebra de barreiras defensivas, melhora das trocas comunicativas
e neutralização do estresse. O bom humor é como um antídoto para o distresse,
enquanto permite a coexistência de idéias e afetos em nossa consciência.
Prontidão e saúde física e nutrição. Um estudo de PAFFENBARGER 71
concluiu que as pessoas fisicamente ativas apresentam taxas de mortalidade
significativamente mais baixas: “um homem de meia-idade pode esperar viver
duas horas a mais para cada hora de exercício”. Mas, é importante frisar que os
benefícios dos exercícios não são apenas futuros; eles produzem, de imediato,
bem-estar psíquico, baixa de ansiedade, relaxação muscular e redução de
depressão. Uma boa alimentação variada e balanceada produz efeitos positivos
sobre nossa saúde, nosso humor e nosso desempenho. Sucesso no trabalho.
Manter-se apto a desempenhar um trabalho remunerado, ou trabalhos não
90

remunerados mas úteis para si e para os outros, ao longo da vida, traz benefícios
econômicos, psicológicos e sociais. Por outro lado, a incapacidade de
desempenhar esta tarefa pode ser um sintoma sério de enfermidade. A satisfação
com seu próprio trabalho é um dos melhores indicadores de longevidade.
Manutenção de amizades e de relações sociais. Numa pesquisa de
MASLOW (1970), revelou-se que a pessoa saudável é uma pessoa que manifesta
profundo sentimento, simpatia e afeto pelo ser humano em geral e mantém
relações interpessoais profundas. Pessoas sós, viúvas, com poucos amigos ou
familiares e que não participam de comunidades morrem a uma taxa de duas a
cinco vezes maior do que as que mantêm relações mais amplas. Dividir aflições
com os outros protege as pessoas do estresse, de forma que os que agüentam
sozinhos suas dores e angústias têm taxas médias de enfermidades muito
superior. Não colher as oportunidades e não assumir a responsabilidade de
alimentar amizades pode custar às pessoas enfermidade, uma esperança menor
de vida e satisfação reduzida em sua vida.
Satisfação no casamento ou em outro tipo de relação íntima. As
pessoas que amam tendem a manifestar intimidades, a ser confiantes, abertas
aos outros, a manter compromissos de longa duração e freqüentemente mantêm
relações sexuais. Tanto o casamento como os filhos e os amigos podem
preencher esta dimensão amorosa. Há diferenças de sexo e idade na maneira de
obter satisfação: as mulheres conseguem maior satisfação com pessoas que lhes
dêem suporte emocional (afeição, segurança, alguém com quem poder contar e
se abrir); os homens obtêm mais satisfação com suas esposas e com seus
superiores no trabalho; os idosos conseguem maior satisfação com a família e os
vizinhos; os jovens, com os amigos e os companheiros de trabalho. Relações
íntimas produzem certamente benefícios de saúde: pessoas não casadas,
divorciadas, viúvas (dos dois sexos e de todas as raças) apresentam sempre
taxas de mortalidade até cinco vezes maiores que os casados. No entanto, não se
conhece a extensão em que a satisfação sexual contribui para a longevidade e o
bem-estar das pessoas. Saber amar a quem quer que seja (inclusive animais e
plantas? n.d.a.) é uma boa medida de previsão de saúde mental.
Na opinião de WITMER e SWEENEY, as onze dimensões
anteriormente descritas, são preditivas de boa qualidade de vida na velhice. Não
91

deve ser fácil para ninguém encaixar-se perfeitamente no figurino apresentado,


mas julgamos provável que um número relevante de pessoas possam identificar-
se com várias das dimensões apontadas. Resta saber como as pessoas que
eventualmente não se identificassem com aquele mesmo figurino poderiam, de
alguma forma, tentar mudar para adquirir pelo menos algumas daquelas mesmas
dimensões e, assim, aproximar-se de um perfil de pessoa com boa esperança de
qualidade de vida. Será que esta hipótese é absurda e descabida ou vale a pena
ser considerada?
Antes, porém, de abordar este tema, gostaríamos de complementar o panorama
traçado pelos dois autores citados, sobre velhice e qualidade de vida, com a visão
de NERI sobre como é possível envelhecer bem.

Como ter uma velhice satisfatória


Segundo os estudos apresentados por NERI (1993), as pessoas têm
uma boa velhice não porque tenham se comportado adequadamente na juventude
(apenas para exemplificar), mas porque constantemente, desde sempre se
adaptam de forma adequada – controlando emoções e eventos produtores de
estresse, solucionando problemas, desenvolvendo novas habilidades de memória
e compreensão, sendo ativas e tendo desempenhos e competências sociais
efetivas, adequadas à realidade de cada período de suas vidas. Uma boa velhice
é fruto constante, e não resultado final, de um processo contínuo de adaptação.
Inspirando-se em proposições teóricas extraídas de um modelo psicológico para o
envelhecimento satisfatório elaborado em 1990 por BALTES, um dos maiores
exponentes da perspectiva de curso de vida em psicologia, NERI propõe uma
série de asserções sobre a natureza do envelhecimento humano entre as quais
destacamos as seguintes:
a) há diferença entre velhice normal (sem patologias), velhice
patológica (com degenerescência associada a doenças crônicas, doenças e
síndromes típicas da velhice e desorganização biológica), velhice ótima
(caracterizada por um estado ideal de bem-estar pessoal e social);
b) para obtenção de envelhecimento satisfatório, as políticas de saúde
pública devem otimizar a expectativa de vida e minimizar a morbidade decorrente
de estados físicos, psicológicos e sociais;
92

c) a compressão da morbidade, ou seja, seu adiamento cada vez maior


para perto do fim da vida, depende das reservas físicas dos velhos e estas podem
ser aumentadas com exercícios físicos;
d) cada pessoa tem uma experiência diferente de envelhecimento
(existem, portanto, experiências diferentes de velhice), embora as diferenças entre
idosos tendam a diminuir em força de programas que melhoram as condições de
vida das populações;
e) é possível desenvolver novo potencial envelhecendo, mantendo altos
níveis de desempenho, adquirindo novos conhecimentos, aprimorando
73
capacidades de auto-regulação e mantendo interações sociais significativas;
f) os velhos podem compensar perdas cognitivas com desenvolvimento
de conhecimentos práticos relativos à organização e ao manejo do ambiente74;
g) apesar dos possíveis ganhos e compensações da velhice, suas
perdas biológicas, cognitivas, motivacionais e sociais são uma realidade objetiva
que corresponde às expectativas de pessoas de todas as idades (velhice é
relacionada com improdutividade, dependência, isolamento, desvalorização social,
sabedoria e dignidade);
h) o passar do tempo não melhora os mecanismos cognitivos de auto-
regulação, que dependem de fatores como os genéticos, saúde, sexo, educação,
nível social, renda e etnia, e tornam característica de cada pessoa a experiência
do envelhecimento, mas eles podem permanecer sempre intactos;
i) os anos mais avançados da existência seriam propícios para o
desenvolvimento de um sentido de transcendência – aspiração à paz interior,
busca de comportamentos adequados a evitar ansiedade e desamparo, de um
lado, e obtenção de aprovação social e proteção, do outro.
NERI conclui que a ciência não é prescritiva e, portanto, não cabe ou
não é possível dar receitas de como envelhecer bem. No entanto, em relação a
estratégias de intervenção, aponta três caminhos: 1) promover a saúde física ao
longo de todo o curso de vida; 2) oferecer educação continuada na vida adulta e
na velhice, inclusive treinamento visando a compensar perdas cognitivas,
biológicas, motivacionais e sociais; 3) encorajar a flexibilidade nas relações
interpessoais e sociais.
93

Para NERI, a velhice ótima exclui a velhice patológica; portanto é uma


velhice sem doenças ou que comprime a ocorrência de doenças para o fim da
vida, além de ser uma velhice com desenvolvimento de potencial ou compensação
de eventuais perdas, e uma velhice que mantém até o fim um significado para a
vida com o desenvolvimento de um sentido de transcendência.
Já dissemos anteriormente que não é possível viver sem doenças ou
ter uma velhice sem doenças e que ser saudável significa ter condições de
recuperar a saúde a partir de um movimento interior. A velhice ótima exclui sim a
velhice patológica (doenças crônicas debilitantes e causadoras de perdas graves
de autonomia), mas não, a nosso ver, a possibilidade de enfermidades
passageiras ou controláveis. Resta sempre, inclusive, a possibilidade de descobrir
um significado positivo, também, nas doenças mais graves da velhice; neste caso,
a velhice ótima não exclui nem mesmo essas doenças.
94

VIII. SAÚDE INTEGRAL PARA OS IDOSOS

De acordo com a OPAS e o MINISTÉRIO da SAÚDE75, existem mesmo


agravos que afligem principalmente os idosos: trata-se de doenças cardíacas,
demências, osteoporose, incontinência urinária, constipação, depressão, solidão,
fratura da bacia, problemas nutricionais, hipertensão arterial, artrite, transtornos da
visão e da audição, doenças infecciosas e parasitárias, obesidade, alguns tipos de
câncer, acidentes, algumas enfermidades crônicas e degenerativas dos aparelhos
respiratório e cardiovascular e das articulações.

Doenças senis e associadas à velhice


Talvez, de toda esta lista, apenas as demências ditas senis e a
incontinência urinária possam ser, de fato, relacionadas como agravos específicos
da velhice. Todos os demais são compartilhados por pessoas de outras idades.
Pode-se alegar que a freqüência com que se manifestam na terceira idade é maior
que em outras idades. Porém, nem por isso são específicas desta idade ou
associadas à velhice de todas as pessoas. Quando uma doença se manifesta
apenas na idade jovem, diz-se que ela é uma doença juvenil. No entanto, não se
diz que ela é uma doença associada à juventude.
Sabemos que se usa o termo "associada à velhice" para dizer que uma
doença ocorre durante a velhice, não tendo, porém, a velhice como sua causa. No
entanto, parece que o uso desta expressão, além de nada acrescentar à clareza
da comunicação, pode induzir as pessoas a entender justamente aquilo que se
quer negar, isto é, uma relação causal entre a velhice e as doenças.

Idosos: um grupo especial


Assim, alega-se que os idosos compõem um grupo especial por
apresentarem patologias e problemas peculiares (ver KALACHE, p. 65),
especialmente doenças crônicas e maior risco de perda de autonomia e de
dependência física. Mas, ao mesmo tempo em que atribui ao grupo de idosos um
caráter de especialidade, o próprio KALACHE afirma que ela decorre, ao menos
em parte, do fato de serem vítimas de problemas iatrogênicos e da atitude
negativa dos profissionais de saúde, da sociedade e deles mesmos, na medida
95

em que se atribuem à velhice "problemas que podem ser solucionados ou


melhorados".
Perguntamo-nos qual seria a vantagem de se considerar os idosos como um
grupo especial76. Não seria, antes, uma maneira de justificar a ampliação da
"medicalização" desse segmento da população? Será que as mulheres terão
alguma vantagem, se dissermos que pertencem ao "sexo frágil" e, portanto,
merecem atenções peculiares? Não seria, antes, uma forma de discriminação?

Saúde dos idosos


Haveria, então, uma maneira diferente de cuidar da saúde em cada
idade, de forma a justificar a expressão "saúde dos idosos"? Cuidar da saúde na
velhice é diferente de cuidar dela na juventude?
Do ponto de vista das pessoas, cuidar de sua própria saúde é uma
tarefa complexa que se modifica à medida que cresce a compreensão das
dimensões nela envolvidas; isto é, quanto mais compreendermos que saúde é
uma capacidade, inerente ao nosso ser finito, de manter seu equilíbrio dinâmico,
em vista de sua adaptação ao meio em que vive e da superação das dificuldades
que se lhe apresentam, tanto mais passaremos de uma abordagem curativa,
médico e fármaco-dependente, para uma abordagem preventiva, centrada nas
capacidades de autocura de nosso próprio organismo.
Se há, portanto, uma mudança na forma de obter e manter nossa
saúde, ela não é caracterizada pelo passar do tempo ou pela idade, mas sim pelas
mudanças em nossa consciência, as quais podem ocorrer durante toda a nossa
vida. Nesse contexto, faz mais sentido falar em "saúde da criança", pois ela pode
ter um nível de consciência limitado por sua compreensão ainda restrita da
realidade e, portanto, ela depende da intervenção de adultos para a consecução
de seus fins.
Se, porém, abdicarmos completamente do domínio sobre nossa própria
saúde, atribuindo-o a terceiros (terapeutas, políticas públicas, por exemplo), então,
haveremos de nos submetermos ao julgamento dos outros, a suas classificações,
interpretações e, sobretudo, a suas intervenções. É o que o Estado faz, ao definir
uma política pública. Ele é um centro de poder e este poder se manifesta na
interpretação que ele produz sobre o bem-estar da população ou de um de seus
96

segmentos. E o que ele manifesta, hoje, é uma visão ainda prevalentemente


biomédica da saúde, que nos enxerga como segmentos afetados por riscos de
doenças ou grupos de doenças a serem combatidos com as armas da medicina
alopata. E quando elas não mais se demonstram eficazes, o veredito é que não há
o que fazer ou, paradoxalmente, manter nossa vida de forma artificial77.
Assim, respondendo à nossa pergunta inicial, diríamos que faz sentido
ter-se uma política de saúde específica para cada idade, porque ela é congruente
com a visão biomédica dos poderes públicos atuais que a formularam: existe o
idoso com seu perfil epidemiológico, que indica seus riscos de saúde e o coquetel
de doenças que o afetarão, assim como existe a equipe de saúde atenta a isso e
com as armas prontas que a biomedicina vai descobrindo no dia a dia.
Não existe, porém, uma "saúde do idoso" no sentido que cuidar da
saúde na terceira idade é diferente do que em outras idades, pois saúde é uma
capacidade de equilíbrio dinâmico inerente ao ser humano e que o acompanha
durante toda sua vida. Para cada um de nós, agir de forma saudável é uma
tomada de consciência que nos acompanha durante a vida.

A aquisição de hábitos saudáveis de vida


Mais atrás78, fazíamo-nos a pergunta se teria cabimento que as
pessoas, as quais ainda não possuíssem a maioria das dimensões que indicam
uma velhice saudável, se esforçassem para adquirir hábitos saudáveis de vida, em
vista de melhorar suas possibilidades futuras de vida saudável. E como elas
poderiam fazer isto?
Albert BANDURA (1986, p. 177-81) abordou esta temática sob o ângulo da difusão
das práticas de saúde, baseado em estudos, realizados entre 1971 e 1984, sobre
o impacto dos hábitos de vida na saúde, como eles contribuem para o que ele
chama de “disfunções corporais” e podem ser alterados por programas realizados
no âmbito de comunidades. BANDURA aceita resultados de um estudo de FUCHS
(1974)79, os quais mostram que as despesas com cuidados de saúde têm apenas
um pequeno impacto sobre a expectativa de vida das pessoas. O mesmo dirá,
pouco tempo depois (em 1975)80, Ivan ILLICH (1977, p. 18-21):
“Epidemias vinham e iam: doutores e sacerdotes as conjuravam, mas nem uns
nem outros podiam modificar o seu curso. (...) Seria grave erro explicar essas
97

mudanças (para menos, n.d.a.) nas taxas de mortalidade globais pelo progresso
global da eficácia do ato médico. (...) A análise das tendências da morbidade
mostra que o meio (noção que inclui o modo de vida) é a primeira determinante do
estado de saúde global de qualquer população. A alimentação, as condições de
habitação e trabalho, a coesão do tecido social e os mecanismos culturais que
permitem estabilizar a população desempenham papel decisivo na determinação
do estado de saúde dos adultos e da idade em que têm probabilidade de morrer.“
BANDURA, como ILLICH, afirma que “a saúde física é amplamente
determinada pelos hábitos de vida e pelas condições ambientais”. Os hábitos de
vida nocivos, que afetam a saúde das pessoas, são hábitos alimentares
inadequados, sedentarismo, bebida alcoólica em excesso, inabilidade para lidar
com estresse, fumo. Os fatores ambientais prejudiciais dizem respeito
principalmente aos poluentes industriais e agrícolas, aos alimentos não muito
sadios e à água contaminada que ingerimos. Assim, a perspectiva oposta, de
mudança dos hábitos de vida, de nocivos para saudáveis, e da prática de manejo
ambiental pode produzir enormes benefícios para a saúde das populações. Há
sempre, nessa perspectiva de BANDURA, uma visão de saúde dicotomizada ou
tricotomizada, pois a saúde é sempre vista como sendo algo prevalentemente
físico. Perguntamo-nos se bons hábitos de saúde e uma relação prazerosa com
um meio ambiente saudável e que conforta a vista não faria bem não apenas para
a saúde física, mas, também, ao que se chamaria, di ou tricotomicamente, uma
saúde psíquica e uma saúde espiritual.
BANDURA fornece a receita de FRIES e CRAPO 81, baseada em um
“amplo conjunto de evidências”, para o envelhecimento ótimo: o objetivo é retardar
o declínio das funções fisiológicas e prevenir o desenvolvimento de doenças
crônicas, maximizando, assim, a duração de um curso de vida, em que seja
possível “permanecer saudável e psicologicamente capacitado”, pois “são os
fatores psicossociais que determinam amplamente o quanto do potencial de vida
se realizará e a qualidade da vida que será vivida”. O segredo do sucesso não
está tanto nas mãos dos médicos quanto nas mãos de cada um:
“para que as pessoas possam prevenir as devastações da doença, elas devem ter
acesso a conhecimentos e habilidades que lhes permitam exercer controle sobre
98

seus hábitos e sobre as condições ambientais que mutilam sua saúde”.


(BANDURA, 1986, p. 178, t.d.a.)

Como mudar os próprios hábitos de vida


Este é o núcleo do tema sobre hábitos de vida. Embora a experiência
de cada um possa mostrar que muitas pessoas têm dificuldade para mudar
hábitos de vida82, as pesquisas indicam que não apenas isto não é impossível,
mas também que, ao contrário, acontece freqüentemente e com sucesso:
“A evidência dos estudos em que um tempo razoável decorreu (da realização do
programa de intervenção, n.d.a.) indica que os esforços de uma comunidade
engajada na prevenção não apenas reduzem os fatores de risco (para a saúde,
n.d.a.), mas, também, a morbidade assim como a mortalidade” (BANDURA, 1986,
p. 180, t.d.a.).
Os estudos apresentados por BANDURA referem-se todos a
intervenções sobre grupos comunitários, pois o interesse desses estudos se volta
para a forma de produzir efeitos que mobilizem um número relevante de pessoas.
Em resumo, as principais evidências destes estudos são que:
a) as pessoas se dispõem a mudanças de hábitos quando percebem
como eles podem contribuir para seu bem-estar, quando sabem como modificá-los
e acreditam em sua capacidade de obter esta mudança;
b) motivações aversivas (do tipo “veja os males terríveis que se
abaterão sobre você”) podem revelar-se relativamente fracas, se dirigidas a
pessoas que ainda não sofreram qualquer efeito adverso devido aos hábitos
nocivos; assim, é necessário oferecer às pessoas uma gama de fontes potenciais
de motivações, ligadas às preocupações do momento e não a contingências de
sua vida futura;
c) para que as pessoas saibam como mudar seus hábitos, precisam
aprender a monitorar o comportamento que procuram mudar, a como colocar-se
metas próximas, mais fáceis de serem alcançadas, e a como autoincentivar-se
para despender os esforços necessários à realização da mudança desejada;
d) as pessoas que conseguem mudanças de hábito funcionam como
difusores e incentivadores dos hábitos saudáveis de vida;
99

e) a rede de influências sociais das pessoas deve ser monitorada para


evitar que estas influências possam retardar ou minar os esforços de mudança;
f) projetos de mudança de hábitos conduzidos por pessoas da própria
comunidade tem mais poder de manter o esforço de mudança do que projetos
conduzidos por pessoas externas à comunidade, que acabam se afastando dela
ao seu término;
g) os programas de mudanças de hábitos devem dirigir-se tanto aos
adultos como aos jovens, considerando que é mais fácil não desenvolver maus
hábitos do que livrar-se deles após tê-los adquiridos;
h) a escola é um lugar natural para tais programas;
i) os programas de maior sucesso são os que retiram do hábito não
saudável seu aspecto glamouroso, muitas vezes construído à custa de enormes
gastos em publicidade por parte das agências interessadas em sua manutenção;
esta imagem glamourosa pode ser corroída, documentando-se como, por
exemplo, o abuso de uma substância pode prejudicar o funcionamento fisiológico,
aumentar os riscos para a saúde com o correr do tempo e mostrando-se
estratégias de resistência ao uso da substância em questão;
j) argumentos apresentados aos jovens por pares são mais eficazes e
duradouros do que se apresentados por pessoas mais velhas.
BANDURA lembra-nos que nem sempre as estratégias de difusão de
bons hábitos de vida decorrem de deficiências nos programas. Devemos
considerar as dificuldades que as pessoas sem recursos financeiros têm para
exercer maior controle sobre sua própria saúde (“quem vive em ambientes
infestados por doenças não pode dar-se ao luxo de produzir grandes mudanças
em seu estilo de vida”), assim como as enormes somas de dinheiro que são
gastas justamente para levar as pessoas ao abuso de substâncias prejudiciais à
saúde83.
Alguns estudos citados por EUROLINK AGE (1996, p. 20) têm
concluído que os resultados de projetos de promoção da saúde não têm sido
relevantes, porque os participantes que se beneficiam desses projetos são os que
se encontram, desde seu começo, em melhores condições de saúde e de estado
funcional. Os autores desses estudos não conseguiram desvendar as razões
desse fato, recomendando estudos sobre o contexto em que as intervenções
100

foram promovidas. Haveria barreiras para a participação de certos grupos de


pessoas. Algumas experiências, também citadas por EUROLINK AGE,
procuraram fazer com que estas barreiras à participação fossem superadas por
meio de atividades culturais adequadas, de um modelo de comunicação específica
para grupos minoritários, do engajamento de voluntários, de intervenções
educativas conduzidas por "pares" (pessoas com nível, estilo de vida e idade
semelhante aos educandos), do patrocínio de intervenções educativas, da
remoção de dificuldades de acesso físico às iniciativas de promoção, utilizando,
inclusive, oportunidades de contato já existentes com os serviços de saúde e com
os próprios médicos ou terapeutas.

A ditadura do corpo "jovem, belo, forte e saúdável"?


Em um seminário sobre visão holística do ser humano84, o doutor em
Filosofia Luiz Felipe PONDÉ, lançava um desafio aos presentes para pensar sobre
um conjunto de valores e crenças (um paradigma?) difundido em nosso meio
social, que chamou de uma quase “ditadura da saúde” e que lhe parecia estivesse
resultando numa extrema valorização do corpo humano. O desafio lançado aos
terapeutas que trabalham com o corpo era o de resistir ao que chamou de
"edonismo disfarçado". De acordo com sua visão, o conceito de recuperação
corporal tende em nossos dias a significar que o corpo "deve adquirir as
qualidades que o eterno das idéias teria"; ou seja, o corpo não é algo que se
corrompe, como pensava Platão, mas algo que deve permanecer para sempre.
O fato da visão holística atribuir aos indivíduos poderes de cura (a
conquista de um novo equilíbrio de vida) e responsabilidades por sua obtenção,
levando-os a buscarem formas de manutenção da saúde, através de exercícios
físicos e energéticos ou de outros meios adequados, poderia levar esses mesmos
indivíduos a superestimar sua capacidade de conquistar a saúde; isto os
incentivaria a uma busca da “eterna juventude”. Assim, criar-se-ía a “mitologia do
corpo”, na expressão de um artigo de FREI BETTO85, que lembra duas outras
facetas desta “mitologia”: a do corpo sempre e necessariamente eficiente
(derivação do paradigma darwiniano de que a evolução favorece sempre o mais
forte) –o corpo excepcional do esportista e do trabalhador que suporta qualquer
101

situação de estresse– e o do corpo inútil, desapropriado de seu trabalho pelo


avanço tecnológico e, poderíamos acrescentar, pelo estigma da idade.
Apenas uma “meia verdade” sobre a concepção holística do ser
humano levaria as pessoas a se enganarem ao ponto de perseguirem a busca da
“eterna juventude”. Quem sabe, “eterna, enquanto durar”. Evidentemente, a
crença nas capacidades do indivíduo de reequilibrar-se e obter a cura, quando
necessário, através de meios prevalentemente naturais, permite que as pessoas
obtenham um controle sobre si mesmas (corpo, mente, relações com o meio físico
e social) e uma confiança de que poderão afastar de suas vidas o risco de uma
série de doenças ou, ao menos, de suas conseqüências mais graves e de poder
proporcionar a si mesmas um ritmo de envelhecimento físico e mental mais lento
em relação ao que teriam se não soubessem como cuidar pessoalmente de sua
própria saúde. É o que pode ser verificado nas pessoas, comparando sua idade
cronológica com seu grau de envelhecimento biológico. Com idades iguais,
pessoas diferentes podem ter graus diferentes de envelhecimento biológico.
Isto não significa engendrar a crença de que é possível e, sobretudo,
desejável buscar a qualquer custo e de forma exterior (por meio de manipulações
externas ao indivíduo) a “eterna juventude”. Pelo contrário, as pessoas que
possuem uma visão holística do ser humano, como a descrita neste trabalho, não
apenas sabem muito bem que elas são finitas e que, portanto, terão que ir ao
encontro da morte, mas, também, que podem e devem preparar-se para este
momento culminante e importante de suas vidas. Sabem que o envelhecimento é
o curso normal da vida desde a sua origem. Sabem, além disso, que a beleza
física é fruto de um equilíbrio de todo o ser (corpo, mente, espírito) com seu meio
ambiente total e não apenas, de tratamentos epidérmicos (também legítimos, se
desejados, mas apenas epidérmicos).

A integralidade da saúde dos idosos


Retomando as palavras de BANDURA (1986), anteriormente citadas86,
não é possível que as pessoas possam prevenir as doenças sem que possam
aprender (conhecimentos e habilidades) a controlar seus hábitos de vida e as
condições ambientais em que vivem.
102

Uma visão integral de saúde leva a uma integralidade na visão da


assistência à saúde. A Política Nacional de Saúde do Idoso precisa responder às
questões sobre onde e como as pessoas podem aprender a prevenir doenças,
não apenas tomando vacinas, mas adquirindo conhecimentos, sobre como podem
desenvolver hábitos de vida saudáveis e como podem eventualmente modificar o
ambiente em que vivem para torná-lo mais saudável; ou ainda, como podem evitar
de modificar seu ambiente para que ele não se deteriore. Assim, torna-se evidente
que saúde é uma totalidade que ultrapassa as dimensões que as especialidades
médicas podem desenhar para ela; que saúde, portanto, não é assunto apenas
para o MINISTÉRIO da SAÚDE. A Política Nacional de Saúde do Idoso vislumbra
esta realidade ao indicar responsabilidades compartilhadas por outros setores
governamentais que não o da saúde.
Uma visão integral da saúde do idoso não pode prescindir de indicar
ações educativas, dirigidas inclusive às crianças e aos jovens, sobre o processo
de envelhecimento, as condições em que as pessoas envelhecem em nosso país,
as iniciativas para que os problemas dos velhos sejam solucionados por nossa
sociedade de forma cooperativa e no espírito de uma convivência pacífica entre
gerações87.
Entre essas ações educativas, a OMS cita o desenvolvimento das capacidades
pessoais dos idosos88. Além de visar à aquisição e à manutenção de um estilo de
vida saudável, é necessário ensinar os idosos a manter sob controle as doenças
crônicas; enfrentar os acidentes, as crises da vida e os perigos que ameaçam a
saúde (maus-tratos), obter o máximo possível dos serviços sociais e de saúde.
Além disso, entre outros recursos, é necessário oferecer aos velhos que não a
possuam uma educação de base, conhecimentos sobre saúde e habilidade para
desenvolver estes conhecimentos, técnicas de primeiros socorros, técnicas de
desenvolvimento de autoconfiança e técnicas de autodefesa89.
EUROLINK AGE (1996) considera que as oportunidades limitam o
exercício das capacidades pessoais, de forma que programas de promoção da
saúde com maiores probabilidades de sucesso são aqueles que se preocupam
não apenas com a aquisição das capacidades, mas também com a criação de
oportunidades.
103

Uma visão integral de saúde do idoso não pode simplesmente esquecer


que os velhos são pessoas que tiveram não apenas a sorte, mas também a
competência de chegar a uma idade avançada, na qual deverão enfrentar a
ocorrência da morte de muitas pessoas conhecidas e de sua própria morte
pessoal. Os idosos devem poder ter estruturas de apoio adequadas, para
poderem morrer com dignidade, longe dos tubos e dos fios, quando muito
assépticos, das Unidades de Terapia Intensiva dos hospitais e longe da miséria e
do abandono que caracterizam a marginalidade em que muitos deles foram
colocados. Mais do que isto, também as crianças e os jovens devem ser educados
a enfrentar a morte com dignidade, porque ela está à espreita de todos nós a
qualquer momento da vida, sobretudo em nosso mundo mecanizado ao excesso e
de enormes concentrações populacionais, nas quais os conflitos são multiplicados
sobremaneira.
Uma visão integral de saúde do idoso deve, também, promover a
descoberta de um novo papel para os velhos em nossa sociedade moderna,
porque o desempenho de um papel de valor é essencial para a saúde dos idosos.
Além disso, deve pelo menos aceitar, se não estimular, que os idosos possam
desenvolver um senso de "gerotranscendência" 90 que transmita a eles e, através
deles, a toda a sociedade um sentido pleno para a nossa vida.
104

IX. METODOLOGIA DA PESQUISA

Com um caráter exploratório, a pesquisa foi desenvolvida em quatro


etapas principais: a primeira, em que foi construída uma escala de atitudes sobre
saúde; a segunda, na qual foi elaborado um questionário, visando a conhecer as
ações de saúde e de manutenção da saúde das pessoas pesquisadas; a terceira
etapa, em que o questionário, que incorporava a escala, foi aplicado a um grupo
de pré-teste; a quarta etapa, em que a forma definitiva de questionário foi aplicada
numa amostra representativa da população objeto deste estudo.

Primeira etapa: escala de atitudes sobre saúde, de tipo Thurstone


Na primeira etapa, foi elaborada uma escala de atitudes de tipo
Thurstone sobre visão de saúde (holística X biomédica).
De acordo com KIDDER (1987), a escala de tipo Thurstone é uma escala
diferencial, que tenta aproximar-se de uma escala de tipo intervalar (em que são
conhecidas as distâncias entre os pontos do instrumento de medida, o que permite
comparar diferenças ou mudanças de atitudes). Uma escala diferencial consiste
em uma série de itens, cuja ordenação na escala foi verificada por juízes. Para
fazer isto, o método mais usado é o de intervalos de aparência igual. De acordo
com este método, o pesquisador reúne múltiplas afirmações, que se supõe
estejam relacionadas com a atitude que está sendo pesquisada, as quais são
classificadas em onze posições, de forma independente, por um número
apreciável de juízes. Na primeira posição, os juízes colocam as afirmações que
mais expressam, em nosso caso, o conceito de saúde holística ou de assistência
holística à saúde e, na décima primeira posição, as afirmações que mais denotam
uma visão de saúde e de assistência à saúde de tipo biomédico. A sexta posição
na escala é considerada neutra e definida como a que não pende para nenhum
dos extremos da escala (nem para a saúde holística, nem para a saúde
biomédica). Entre essas posições extremas e o ponto neutro são colocadas as
afirmações que definem uma ou outra visão de saúde de forma intermediária, isto
é, de forma menos enfática ou apenas acenada.
105

Para criar a escala de atitudes sobre saúde utilizada neste estudo,


formularam-se 115 enunciados relativos a julgamentos sobre saúde e assistência
à saúde, numa visão holística ou biomédica, expressando pontos de vista variados
para permitir sua classificação nas onze posições da escala (anexo I). Os
enunciados foram agrupados em torno de oito dimensões relativas à saúde e à
assistência à saúde, que nos pareceram centrais na análise de CAPRA (1997) do
paradigma holístico em saúde:
I. caráter integral X caráter apenas físico da saúde
II. caráter processual X caráter acidental da doenças
III. caráter interno X caráter externo da cura
IV. caráter preventivo X caráter curativo da terapia
V. caráter brando X caráter invasivo da terapia
VI. caráter includente X caráter excludente da visão terapêutica
VII. caráter sinérgico X caráter exclusivo do terapeuta
Os enunciados foram elaborados pelo autor a partir da leitura de vários outros
autores, alguns deles citados na bibliografia.
Foram escolhidos 20 juízes, entre pessoas conhecidas do autor. Estas
pessoas foram selecionadas por serem reconhecidas pelo autor como
especialistas capazes de discernir atitudes relativas ao espectro da saúde
biomédica X saúde holística, em função de sua formação, de seus escritos, de
opiniões emitidas em conferências ou por serem indicadas por outros especialistas
reconhecidos.
Foi realizado um pré-teste com um dos juízes para verificar eventuais
problemas de entendimento dos enunciados. Em decorrência do pré-teste, alguns
enunciados foram modificados para sua melhor compreensão. O formulário com
os enunciados e a escala foi enviado a cada juiz, acompanhado de um documento
que explicava o que é uma escala de tipo Thurstone (anexo II), o sentido das
diferentes dimensões, relacionadas com a atitude frente à saúde, ao redor das
quais haviam sido reunidos os vários enunciados, e dava indicações sobre como
proceder para classificar os enunciados (anexo III).
Dos vinte juízes escolhidos, 19 aceitaram participar da construção da
escala de atitudes e 16 de fato responderam, de forma independente (lista dos
juízes no anexo IV), enviando o formulário preenchido. As respostas dos juízes
106

foram tabuladas de modo a calcular-se a mediana de seus julgamentos, relativos a


cada proposição, e seu desvio-padrão (tabela 1).
Dentre os 115 enunciados propostos aos juízes, foram selecionados
todos os que não se referiam ao ponto neutro da escala e que tinham uma
distribuição com um valor máximo de 1,5 de dispersão (desvio-padrão),
totalizando 28 enunciados relacionados com a visão holística e 24 com a visão
biomédica.
Analisando-se os enunciados, percebeu-se que o de número 13 (referente à visão
biomédica de saúde) era muito semelhante ao de número 9 e resolveu-se eliminá-
lo. Assim, para haver um número igual (23) de enunciados referentes a cada um
dos dois paradigmas (biomédico e holístico), eliminaram-se cinco enunciados
relativos ao paradigma holístico, quais sejam, os de números 2 (por ser parecido
com o de número 3),18 (por não expressar claramente uma atitude para com a
saúde), 36 (por ser semelhante ao de número 38), 45 (por similaridade ao de
número 42), 82 (por conter uma palavra pouco conhecida). Todos os enunciados
eliminados por similaridade de conteúdo tinham um desvio-padrão superior aos
seus similares.
Assim chegou-se a uma lista de 46 enunciados, 23 de cada paradigma,
que foram incluídos no questionário, proposto em seguida a uma amostra de
idosos (anexos V e VI).

Segunda etapa: elaboração de questionário de respostas estruturadas e abertas


O questionário foi construído, visando a conhecer as crenças das
pessoas sobre saúde e as ações de saúde e de manutenção da saúde das
pessoas pesquisadas. A capa do questionário continha uma rápida apresentação
da pesquisa e itens de identificação sócio-demográfica do participante da
pesquisa. As variáveis sócio-demográficas consideradas foram as que são tidas
comumente como relevantes em pesquisas semelhantes: idade, sexo, renda,
escolaridade, situação de trabalho, profissão e visão de mundo (religião).
As representações sobre saúde, em suas expressões biomédica e
holística, foram propostas por meio dos 46 enunciados selecionados entre os
formulados para a escala de tipo Thurstone anteriormente descrita. Outras sete
perguntas (as de números 47 a 53) visavam a apurar o mesmo tipo de crenças
107

através de enunciados formulados a partir da análise dos modelos etiológicos e


terapêuticos de LAPLANTINE (1991) e da análise de CAPRA (1997) com relação
aos conceitos biomédico e holístico de saúde. Havia a intenção de verificar se
existia uma equivalência entre as respostas aos enunciados formulados na escala
de tipo Thurstone e as destes últimos sete enunciados.
Questões adicionais (as de número 54 a 62) tinham a intenção de
identificar o modo de agir das pessoas com relação à busca e à manutenção de
sua saúde. As perguntas de número 63 e 64 manifestavam o propósito de suscitar
um julgamento das pessoas sobre o modo como a sociedade organiza a
assistência à saúde.

Terceira etapa: teste prévio da aplicação do questionário


Todos os enunciados do questionário foram submetidos a uma
aplicação prévia em um grupo de 12 pessoas, antes de ser aplicado em toda a
amostra.
Ao compilar um questionário com 63 perguntas, embora a maioria delas
fossem "de cruzinha", o autor sabia que iria encontrar dificuldade em sua
aplicação. Imaginava que apenas a leitura das perguntas já fosse uma tarefa difícil
para muitas pessoas. Assim o autor fez o pré-teste com a perspectiva de que teria
que reformular drasticamente o questionário, caso encontrasse muitas dificuldades
em sua aplicação.
O grupo pré-teste foi um grupo de convivência e reflexão do SESC
Carmo91, com 12 pessoas, das quais apenas três do sexo masculino. [G2] Comentário: verificar no fim
número da página
Contrariamente à expectativa, todas as pessoas responderam à quase totalidade
das perguntas. Não havia, porém, pessoas analfabetas no grupo, o que não
permitiu conferir se seria possível que essas pessoas respondessem às questões
quando lidas pelo aplicador. Resolveu-se dar continuidade à pesquisa junto aos
demais grupos, aceitando a possibilidade de excluir as pessoas analfabetas da
amostra.
Como conseqüência da análise do pré-teste, apenas uma pergunta foi
retirada do questionário, (a de número 59, que se referia a uma medida de
quantidade diária de atividades moderadas), pois pareceu complexa demais,
demandando muitas explicações; outra pergunta, a de número 8 apenas foi
108

modificada no sentido de se perguntar de forma direta qual a religião da pessoa


investigada.

Quarta etapa: aplicação do questionário sobre saúde dos idosos na amostra


Após a fase de pré-teste, o questionário foi aplicado, de forma grupal,
nas pessoas da amostra selecionada, constituída por 140 pessoas maduras e
idosas, autônomas e socialmente ativas92, de várias regiões da Cidade de São
Paulo, de diferentes segmentos sócio-econômicos, diferentes níveis de
escolaridade, com idades variando entre 47 e 83 anos, de ambos os sexos,
freqüentadores de instituições ou grupos que organizam atividades especialmente
dirigidas à população idosa.
A amostra foi selecionada a partir do catálogo de grupos de idosos da
cidade de São Paulo, contido no GUIA BRASILEIRO DA 3ª IDADE 93. A pesquisa
foi realizada junto a Grupos da Terceira Idade de vária unidades do Serviço Social
do Comércio (SESC) de São Paulo e também junto a grupos ligados a igrejas.
Os grupos em cada unidade do SESC foram sorteados entre os
existentes no período da pesquisa, excetuando-se do sorteio apenas um grupo de
teatro e coral do SESC Consolação e os grupos de hidroginástica do SESC
Pompéia, por terem um número muito grande de participantes. O Grupo de
Reflexão do SESC Carmo, que participou do pré-teste, foi escolhido por ter
participantes acostumados a reflexões sobre temas da terceira idade.
A decisão de realizar a pesquisa também junto a grupos ligados a
igrejas decorreu da hipótese que grupos com visões de mundo mais marcadas por
crenças religiosas pudessem manifestar um conjunto de respostas diferentes das
que poderiam ser encontradas nos grupos do SESC. Quem sabe, a visão religiosa
das pessoas, explicitada e alimentada pelo fato de pertencer a um grupo de igreja,
pudesse influenciar o tipo de representação que elas se fizessem da saúde e da
assistência à saúde. Pensou-se em eliminar eventuais influências devidas à
localização geográfica dos grupos estudados, escolhendo grupos de igreja
localizados em regiões semelhantes às regiões nas quais se situavam os grupos
do SESC.
Não houve possibilidade de obter uma correspondência bairro a bairro,
pois vários grupos estavam encerrando suas atividades no período em que se
109

pretendia realizar a pesquisa (final de novembro e começo de dezembro). Afinal,


escolheram-se grupos de igreja em regiões "grosso modo" equivalentes: na região
central (Santa. Cecília) da Cidade de São Paulo, na região de Vila Maria (zona
norte), de Vila Arapuá (além bairro do Ipiranga - zona sul) e de Santana (zona
norte). Talvez, essa correspondência não seja relevante, pois enquanto os
freqüentadores dos grupos de igreja reúnem pessoas dos bairros vizinhos ao local
da igreja, as unidades do SESC recebem sim pessoas dos bairros que as
contornam, mas, também, de outras regiões da cidade. Encontramos no SESC do
Carmo, por exemplo, uma pessoa que vinha de uma região para além do bairro do
Jabaquara. Ela já havia freqüentado varias unidades do SESC e estava querendo
iniciar um curso no SESC Carmo, unidade que ainda não conhecia. De acordo
com a opinião de um coordenador do próprio SESC, não se tratava de um caso
excepcional,

Dificuldades e surpresas da aplicação do questionário


Ao longo da pesquisa com os grupos da amostra, houve apenas três
pessoas que se declarassem analfabetas ou manifestassem total dificuldade de
compreensão das questões envolvidas no questionário. Algumas pessoas,
encontraram dificuldade de entender questões da segunda parte do questionário
(as primeiras 46 questões) e foram orientadas no sentido de marcar a resposta
"Não sei". Às vezes, alguém perguntava o sentido de uma palavra (por exemplo
"utopia"). Os aplicadores forneciam a essas pessoas um sinônimo e,
normalmente, isto era suficiente para que as pessoas continuassem respondendo
ao questionário
Outras pessoas convidadas não aceitaram participar da pesquisa,
alegando falta de tempo; mas, aparentemente, pareciam estar fugindo de uma
tarefa que julgavam complexa demais (antes mesmo de conhecer o teor do
questionário). Uma ou outra destas pessoas fizeram comentários do tipo "não sei
fazer isto". Nenhuma pessoa foi forçada a responder ao questionário. As que
queriam responder, mas declaravam dificuldade de leitura ou dificuldade de visão
eram ajudadas pelos aplicadores: o próprio autor e sua assistente, anteriormente
preparada para acompanhar a aplicação dos questionários e para verificar seu
correto preenchimento antes de recolhê-los, liam as perguntas e marcavam as
110

respostas; em um caso, uma senhora pediu para a filha que a acompanhava para
ler as perguntas e anotar suas respostas.
Algumas pessoas entregaram questionários com uma ou outra pergunta
em branco porque os aplicadores não conseguiram controlar, às vezes, a
confusão que se formava no grupo, à medida que as pessoas terminavam de
responder, enquanto outras continuavam imersas na tarefa. Outras vezes, foram
oferecidas, pelas pessoas entrevistadas, respostas em branco ou respostas
múltiplas, onde apenas uma era requerida; instadas a fazer uma opção entre
respostas possíveis ou a preencher a resposta em branco, recusaram-se a fazê-lo.
Foi o caso de uma pessoa que, após preencher todo o questionário, o devolveu
negando-se a oferecer as referências de profissão, situação de trabalho e religião.
Apenas duas pessoas deixaram entender que não gostariam de declarar sua
idade real e pareceram querer escondê-la.
Houve, também, casos em que as pessoas que respondiam ao
questionário na mesma mesa, o fizeram lendo e ,às vezes, discutindo as
respostas em conjunto. Os aplicadores não desestimularam esse tipo de
comportamento julgando que a situação da pesquisa fosse mais uma
oportunidade, entre tantas outras, para as pessoas se formarem uma opinião;
apenas alertavam que a resposta devia ser pessoal.
A experiência mais notável, ao longo de toda a pesquisa, foi descobrir
que pessoas de pouca escolaridade (às vezes aprenderam a ler e escrever
informalmente na roça ou em cursos de alfabetização) e de idade avançada,
desafiadas por uma tarefa complexa como a de preencher um questionário longo
e com várias questões relativamente complicadas e sutis, não se furtaram de
realizá-la até o fim, apesar da demora em cumpri-la (aproximadamente três
quartos de hora de duração) e, às vezes, do desconforto (escrever em cima de
uma prancheta, por falta de mesa). Mais do que isto, a acolhida aos aplicadores
em todos os grupos foi muito generosa: ninguém conhecia o autor e sua
assistente, mas todos os receberam como se fossem pessoas do próprio grupo,
apesar do contato anterior ter se limitado a uma rápida conversa telefônica com os
coordenadores destes grupos. Em alguns deles, quando havia tempo disponível,
após o preenchimento dos questionários, o autor propôs-se a ensinar às pessoas
111

uma automassagem de origem chinesa. Era algo que o autor podia fazer em troca
da benevolência dos grupos e que foi muito bem aceito por eles.

Os grupos de idosos do SESC


O SESC, de acordo com documentos por ele próprio divulgados, é uma
Instituição criada em 1946 por decreto-lei do governo federal e administrada pelas
federações patronais dos setores de comércio e serviços de cada estado
brasileiro, sob a coordenação do SESC Nacional, com a finalidade de oferecer
iniciativas e programas que visem à promoção do bem-estar social, à melhoria da
qualidade de vida e ao desenvolvimento cultural da sociedade e, mais
especificamente, de seus associados ligados às atividades de comércio e
serviços,
O SESC de São Paulo foi uma das primeiras instituições do país, se não a
primeira, a preocupar-se com os velhos. Desde 1963, ele vêm estendendo sua
programação cultural, de atividades físicas e sociais para os idosos, criando
inclusive atividades específicas para eles. Um artigo publicado pelo SESC em
197994 informa que, naquele ano, os grupos reuniam cerca de cinco mil e
quinhentas pessoas em todo o estado. Hoje em dia eles formam uma população
de aproximadamente 50 mil pessoas95. Os grupos, que de início se
desenvolveram centrados em si mesmos e voltados para atividades sociais,
físicas, manuais, culturais e intelectuais, abriram-se, mais tarde, a uma
participação comunitária, encontrando-se anualmente para troca de experiências.
Em 1977, sob influência da Universidade da Terceira Idade de Toulouse
(França), o SESC criou a primeira Escola Aberta para Idosos. Estas escolas
multiplicaram-se nos anos seguintes, atraindo muitas pessoas a participar de
cursos centrados na abordagem de aspectos psicossociais do envelhecimento,
informação e atualização cultural, saúde do idoso e na realização de atividades
físicas e manuais, entre outras expressões sócio-culturais.
Sobretudo nos anos passados, quando ainda não existiam cursos
regulares de Gerontologia no país, o SESC preocupou-se com a formação de
pessoas dedicadas ao trabalho com os idosos, nos diversos campos, organizando
seminários e cursos com especialistas internacionais, sobretudo franceses e
espanhóis. Criou, também, um Centro de Estudos da Terceira Idade (CETI) que
112

publica estudos e organizou um acervo bibliográfico sobre os mais diversos


aspectos da gerontologia, composto por publicações especializadas nacionais e
estrangeiras.
As unidades do SESC-SP nas quais foi desenvolvida a pesquisa foram
as do Carmo, da Consolação, do Ipiranga, da Pompéia e de Pinheiros. No período
em que foi realizada a pesquisa (novembro e dezembro 2000), as atividades em
grupo oferecidas especificamente às pessoas da terceira idade eram as seguintes:
dança, ioga, alongamento, ginástica voluntária, natação, hidroginástica,
reprogramação postural global, voleibol feminino, história da arte, arte ilustrada,
criação literária, tear manual, artesanato tipo mosaico, palestras com chá,
confecção de objetos com trançado com fita, coral, teatro, vivências corporais,
aprendizagem de "clown", reflexologia, eutonia, tai qi quan, condicionamento físico
com aparelhos, caminhadas, passeios. Algumas das atividades oferecidas eram
gratuitas, mas os cursos geralmente, pagos (preços entre oito e 20 reais). Sendo a
demanda pelas atividades oferecidas, de forma geral, muito grande, era feito
sorteio para preenchimento das vagas disponíveis. As pessoas que já estavam
nas atividades, podiam continuar nelas, desde que renovassem a inscrição.
Os grupos do SESC eram todos quase totalmente femininos. Foram
encontrados alguns poucos homens (ao todo sete pessoas) nos grupos de
vivência e reflexão do SESC Carmo, de História da Arte do SESC Pompéia e de
ginástica voluntária do SESC Pinheiros. Para que fosse possível aumentar o
número de participantes masculinos na amostra, o autor decidiu convidar homens
que estavam lendo jornais e revistas nas áreas de convivência das unidades do
SESC Consolação, Ipiranga e Pompéia. Em conversas com membros dos grupos
pesquisados pôde-se apurar que alguns homens, geralmente maridos de alguma
mulher que participa de um grupo, inscrevem-se nas atividades, mas logo
desistem de participar depois de uma ou duas presenças: parecem "sucumbir" à
superioridade numérica feminina.
O contato com os grupos selecionados para participar da pesquisa foi
feito por intermédio do coordenador ou da coordenadora das atividades dirigidas à
Terceira Idade. Este ou esta informava a professora do grupo sobre a pesquisa e
avisava o dia em que o pesquisador iria convidar o grupo a participar da pesquisa
e combinar uma data para isso. Todas as professoras colaboraram com o autor
113

para conseguir o máximo possível de resultados. No entanto, várias pessoas


esqueceram de apresentar-se antes da aula para responder ao questionário ou
não puderam permanecer depois da aula para o mesmo fim. Apesar disso, foi
possível obter o número desejável de participantes na amostra.

Os grupos de idosos ligados a igrejas


O grupo Novo Horizonte da igreja católica da Vila Arapuá recebeu o
autor e sua assistente no último dia de suas atividades no ano. O que seria um dia
marcado apenas por uma celebração bíblica e uma confraternização à base de
pizza, ficou mais cumprido e recheado com um questionário rico em perguntas. Já
tendo chegado quinze pessoas, propusemos dar início à pesquisa. Aos poucos
vinha chegando mais gente, que se unia aos outros na tarefa de responder ao
questionário. Ao término da tarefa, permanecemos com eles para a celebração
bíblica e para a festa de confraternização. A celebração bíblica foi conduzida por
uma biblista, que compunha a visão histórica da vida de Cristo e da Igreja com
uma interpretação crítica da realidade social da atualidade. A participação das
pessoas foi atenta e ativa.
O grupo Amizade da igreja católica de Santa Terezinha no Alto de
Santana recebeu-nos em dia de bingo. Ao chegarmos ao local, já havia duas
pessoas ao redor de uma mesa e com cartelas de bingo postas sobre ela.
Percebemos logo que a atividade principal do dia seria o jogo do bingo.
Conversamos com as duas senhoras enquanto outras, uma a uma, vinham
chegando, superando com fadiga uma escada bastante íngreme que dava acesso
ao salão do encontro. Aos poucos, as mesas e as cadeiras empilhadas nos cantos
da sala eram colocadas em locais predeterminados, onde os grupos de amigas
(eram todas mulheres), de três a seis pessoas, costumavam reunir-se. Disseram-
nos que os grupos de amizade mantinham-se constantes. Originalmente, o grupo
tinha 90 membros e foi reduzindo-se aos atuais 60. No dia da pesquisa
apareceram pouco menos de 40 pessoas. Como a coordenadora do grupo não
chegasse, julgamos que nossa chance seria começarmos logo com a pesquisa.
Cumprimentamos o grupo e propusemos a ele nossa atividade de pesquisa. A
maioria aceitou responder ao questionário antes do jogo do bingo e assim foi feito.
Naquele dia, o bingo teve uma hora de atraso.
114

O grupo Amizade da igreja adventista da Vila Maria recebeu-nos em dia


de encontro com orações e cânticos. Um dos "irmãos" acompanhava os cânticos
com uma gaita. Soubemos depois que era um industrial aposentado e que agora
se ocupava de apicultura, cuidando pessoalmente de dez colméias e participando
da diretoria de uma associação de apicultores com sócios em todo o país.
A pesquisa foi realizada com as pessoas sentadas nos confortáveis bancos da
sala da igreja e escrevendo sobre as pranchetas que havíamos levados, sabendo
da falta de mesas. O ambiente formal de orações e cânticos não impediu que aos
poucos as pessoas se soltassem, manifestando seus sentimentos e opiniões com
espontaneidade. Ao término da pesquisa, o autor ensinou aos presentes uma
automassagem de origem chinesa. Ao final, participamos de um lanche oferecido
pelo grupo.
O Grupo Amizade de Trabalhos Alternativos da igreja católica de Santa
Cecília, também convidou-nos para seu último dia de encontro no ano. Quando
chegamos, várias pessoas já estavam reunidas manipulando trabalhos de tricô e
saquinhos confeccionados para os presentes do "amigo secreto". A coordenadora
recebeu-nos efusivamente e apresentou-nos ao grupo, que logo começou a
responder ao questionário em cima dos trabalhos que havia na mesa. O grupo
realiza diversas atividades, inclusive exercícios e passeios, usufruindo de
microonibus cedidos pelo Governo do Estado, e têm projeto de organizar uma
espécie de república para reunir várias mulheres do grupo que vivem sozinhas e
gostariam de morar juntas. Ao término dos trabalhos, o autor ensinou às pessoas
presentes um exercício de automassagem chinesa e, em seguida, participou com
sua assistente do lanche organizado pelo grupo. Despedimo-nos com um convite
a voltar para participar de uma festa que estava sendo organizada para daí a
quinze dias.

Comparação da amostra com a população de idosos da cidade de São Paulo96


Nossa pesquisa dirigiu-se a idosos autônomos e socialmente ativos;
portanto, apenas a uma parcela da população idosa da cidade de São Paulo: a
que tem condições de locomover-se autonomamente e participa de atividades
culturais e sociais grupais. O GUIA BRASILEIRO DA TERCEIRA IDADE, já
mencionado, cita a existência de 145 grupos da terceira idade, perfazendo o total
115

aproximado de 20.000 inscritos. Nesses totais não foram computados 170 grupos
da Associação Brasileira de Clubes da Melhor Idade, porque a própria associação
não soube informar quantos desses grupos pertencem à cidade de São Paulo (e
não ao Estado) e quantos participantes eles possuem. Também não foram
computados os grupos de atividades do SESC, o qual declara ter um total de
28.612 inscritos, dos quais 5.608 participantes em atividades permanentes97.
Evidentemente, há outros grupos em que se expressam os idosos
autônomos e socialmente ativos da cidade de São Paulo e que não são
mencionados no GUIA citado, como, por exemplo, os clubes de mães, as
Sociedades de Amigos do Bairro, os clubes de serviços e os grupos de igrejas que
integram pessoas de várias faixas de idade. No contato com os grupos de nossa
amostra pudemos perceber que nem todos os membros inscritos nos grupos
participam deles regularmente (há uma diferença de pelo menos 30%).
É natural que as características sócio-demográficas de nossa amostra
difiram das mesmas características na população total de idosos, pois nossa
pesquisa se dirigiu a um subgrupo específico desta população, o que se locomove
autonomamente e que tem participação social ativa.
De fato, segundo dados apresentados pelo SEADE98, em 1987, na Região
Metropolitana 43,36% dos idosos eram homens e 56,64%, mulheres. Nossa
amostra (tabela 3) era composta por 140 idosos (tabela 2 e 2.1), cerca de 87%
dos quais de mulheres e cerca de 13% de homens (tabela 3). Este dado sugere
que os homens participam muito pouco de certas atividades como as dos grupos
pesquisados, principalmente as que se destinam a cuidar do corpo.
Além do fato anteriormente mencionado, que nesses grupos de atividades os
homens, em minoria absoluta, não se sentem à vontade, oferecemos duas
hipóteses explicativas dessa ausência masculina em atividades de cuidados
corporais. Uma delas é que os homens foram, no passado, culturalmente
preparados para usar o corpo como instrumento de trabalho e não como objeto de
cuidados para o bem-estar. Corpo significa força muscular ou inteligência;
portanto, o corpo deve ser cuidado apenas na medida em que isto sirva para
desenvolver força física ou intelectual a ser aplicada no trabalho. Outra hipótese,
que pode complementar a primeira, é que os homens também foram culturalmente
educados para usar o corpo como instrumento de domínio da natureza (nisso
116

incluindo a mulher) e não como meio de expressão de seus sentimentos e de


relacionamento social. Enfim, sobra uma forte impressão que muitos homens (não
os que participaram de nossa amostra) não sabem o que fazer com seus corpos,
quando não se trata de usar sua força física ou seus dotes intelectuais. Por outro
lado, as mulheres, às quais em geral a sociedade não requer uma aplicação do
corpo em tarefas de desempenho de força física e, até algumas décadas
passadas, não era permitido o acesso a postos de mando, aprenderam e
aprendem muito mais que os homens a utilizar o seu corpo como meio de
expressão.
Quanto a educação escolar, na Região Metropolitana de São Paulo,
viviam, em 1987, cerca de 25% de idosos e de 36% de idosas (perfazendo um
total geral de cerca de 31%) com um nível de instrução equivalente a, no máximo,
um ano de escolaridade. Cerca de 19% dos idosos (e idosas) possuíam no
máximo 3 anos de escolaridade; cerca de 38% dos idosos haviam cursado até oito
anos de escola e cerca de 12% possuíam nove ou mais anos de escolaridade.
Nossa amostra (tabela 7) é formada por menos de 3% de semi-alfabetizados, por
cerca de 42% de pessoas com até cinco anos de escolaridade e com uma parcela
de cerca de 29% de pessoas com mais de onze anos de educação escolar. É,
portanto, composta por um grupo bem mais escolarizado de pessoas, se
comparado com a população geral. Note-se a quase ausência de pessoas
analfabetas ou semi-alfabetizadas. Provavelmente nossa pesquisa não pode
detectar a presença dessas pessoas em atividades sócio-culturais grupais. No
entanto, não nos parece absurdo supor que pessoas semi-alfabetizadas procurem
outros meios de manifestação social para se expressar que não esse tipo de
grupos por nós pesquisados.
Com relação à ocupação dos idosos, os dados do SEADE revelam que
os idosos ocupados, em 1987, representavam pequena parcela da população
ocupada no estado de São Paulo: 3,66%. A maioria destes ocupados era de
homens (78,6%), sendo as mulheres ocupadas apenas 21,4%. No entanto, os
idosos naquele ano, contribuíam com 23,16% para o conjunto da população não-
economicamente ativa (PNEA).
117

A mão-de-obra feminina permanecia majoritariamente ocupada na prestação de


serviços (64,62% no Estado e 62,69% na Região Metropolitana de São Paulo),
este dado refletindo sua desqualificação profissional.
Em nossa amostra (tabela 8), apenas 8,8% das pessoas trabalha. A maioria
(72,2%) é aposentada ou pensionista; quase 3% declarou que é aposentado e
permanece trabalhando e 2,2% declara que é aposentado e desempregado. Cerca
de 12%, evidentemente todas mulheres, declaram sua condição de pessoas
dedicadas ao lar, isto é, sem pensão, sem aposentadoria e trabalhando em casa.
Podemos dizer que em nossa amostra há um número maior de pessoas idosas
trabalhando (11,7% contra 3,66%) que não na população total do estado de São
Paulo (pesquisada em 1987). Não sabemos se essa é uma característica
específica de nossa amostra ou se estes dados manifestam um incremento de
pessoas idosas que se mantêm ativas no trabalho. Este fenômeno deve estar
provavelmente acontecendo, considerando-se que a idade para a aposentadoria
vem sendo elevada como conseqüência do aumento da expectativa de vida.
Quanto às atividades laborais (tabelas 9 e 10) , 45,6% de nossa amostra declara
estar ocupada em prendas domésticas. Se a este grupo agregarmos outro que
declarou ter atividade de empregada doméstica (9,6%), temos que mais da
metade de nossa amostra lida com afazeres domésticos. Neste aspecto, nossa
amostra parece ser peculiar. No entanto, se deixarmos de lado o grupo de
"prendas domésticas", encontramos 32,8% de pessoas que trabalham nos setores
de comércio e serviços contra apenas 4,8% de pessoas que trabalham nos
setores da indústria moderna ou tradicional. É impossível tecer comparações com
os dados sobre trabalho apresentados no estudo do SEADE de 1987, porque os
dados foram agregados de forma diferente. No entanto, considerando-se que
nossa amostra é, em sua maioria de mulheres, seus dados e os do SEADE são
consistentes ao apontar que as mulheres em sua maioria trabalham em setores de
serviço e comércio, tendo participação diminuta no setor industrial.
Com relação à renda familiar (tabelas 6 e 6.1), nossa pesquisa aponta
que quase a metade das pessoas de nossa amostra (50,7%) ganham até R$
400,00.
Na realidade, muitas destas pessoas declararam verbalmente ao pesquisador que
recebiam um salário mínimo (R$ 151,00). Dois grupos de cerca de 16% das
118

pessoas ganham, respectivamente, de R$ 401,00 a R$ 800,00 e de R$ 801,00 a


R$ 1.200,00. Cerca de 8% ganha de R$ 1.201,00 a R$ 1.600,00 e 9% ganha
acima de R$ 1.601,00.
Se comparada com a população da Região Metropolitana de São
Paulo, segundo os dados do SEADE de 1987, nossa amostra é formada por
pessoas com nível de renda não muito diferente: 35% dos idosos possuía renda
familiar entre zero e dois salários mínimos; apenas 15% tinha renda acima de dez
salários mínimos (R$ 1.510,00); quase 44% percebia renda familiar até três
salários mínimos (R$ 453,00).

Comparação da amostra do SESC com a população idosa atendida pelo SESC


Os cinco subgrupos que compõem o grupo do SESC em nossa amostra
apresentam as seguintes características sócio-demográficas: as pessoas são em
sua maioria (cerca de 76%) do sexo feminino (tabela 12), a idade média das
mulheres é de 64,77 anos e a dos homens é de 66,53; quanto a escolaridade
(tabela 15), metade (50,85%) das pessoas de nossa amostra tem escolaridade
superior a 11 anos de estudos; a outra metade se reparte de forma equilibrada nas
demais classes (13,56% com até cinco anos de escolaridade, 18,64% com até oito
anos e 16,95% com até 11 anos de estudos).
A comparação da população da terceira idade, atendida pelas Unidades
do SESC-SP incluídas em nossa amostra99 – SESC Carmo, SESC Consolação,
SESC Pompéia, SESC Pinheiros, SESC Ipiranga – com os Grupos do SESC de
nossa amostra revela os seguintes dados:
a) nossa amostra total do SESC tem pequena participação masculina (tabela 12:
24%, sendo 4,8% em cada unidade), enquanto, com exceção do SESC
Consolação e do SESC Pinheiros, em cujos grupos também há um número
pequeno de homens (respectivamente, 9% e 4%), as demais unidades contam
com um número maior de homens (34% no SESC Pompéia, 36% no SESC
Ipiranga e 39% no SESC Carmo;
b) quanto à idade, parece não haver diferenças significativas entre a população
total de idosos do SESC e a amostra de nossa pesquisa (tabelas 20 e 21)
c) em termos de escolaridade, também os dois grupos não diferem muito;
apenas, nos grupos do SESC Ipiranga e Pompéia nossa amostra aparenta ter
119

níveis de escolaridade superiores à clientela geral da terceira idade do SESC


(tabelas 22 e 23).

Comparação dos grupos do SESC com os grupos das igrejas


Se a presença masculina nos grupos do SESC é reduzida (25%), ela o
é ainda mais nos grupos das igrejas: apenas três pessoas (4%) num total de 78
(tabela 12). Os grupos das igrejas são freqüentados por maior número de pessoas
mais velhas (44% de pessoas com mais de 70 anos nos grupos das igrejas contra
31% nos grupos do SESC). Os grupos ligados a igrejas têm membros com nível
de renda familiar menor, se comparados com os do SESC (tabela 14): enquanto
os idosos ligados a igrejas que têm renda familiar de até R$400,00 são 68%, os
dos grupos do SESC, na mesma faixa de renda, são 35%. Nestes grupos, há 20%
de idosos ganhando mais de R$ 1.200,00, enquanto nos das igrejas apenas 4%.
A maioria (70%) dos idosos dos grupos de igrejas teve uma educação
escolar de até cinco anos (tabela 15). Não estão em igual situação os idosos dos
grupos do SESC de nossa amostra, pois eles, em sua maioria (50%), tiveram mais
de 11 anos de educação escolar. Com relação à ocupação principal (tabela 16), os
dois tipos de grupos diferem porque a maioria dos membros dos grupos de igreja
são donas de casa (50%) e empregadas domésticas (15%), enquanto a maioria
(50%) das pessoas dos grupos do SESC trabalhavam ou trabalham como
empregados de empresas de comércio e serviços, embora neles também haja um
bom grupo de 29% de donas de casa. As condições de trabalho dos dois tipos de
grupos são semelhantes (tabela 17): em ambos, pouco mais de 70% são
aposentados ou pensionistas e os outros se distribuem nas demais condições de
forma parecida. Apenas há mais idosos trabalhando nos grupos ligados a igrejas
(10% contra 6% nos grupos do SESC).
Nossa pesquisa forneceu dados sobre a visão de mundo (religião) dos
idosos que compõem toda a amostra (tabela 11). A grande maioria (64%)
declararam-se católicos, 15,5% evangélicos, 5,2% espíritas; apenas 2,2% das
pessoas definiram-se agnósticas. Os grupos ligados a igrejas declaram a religião
da igreja a que pertencem (com exceção de um grupo de católicos em que três
pessoas se declararam protestantes)
120

Se considerarmos apenas os grupos do SESC (tabela 19), os católicos


são quase 52%, os evangélicos 5%, os espíritas cerca de 12% e os cristãos 13%.
Neste grupo há, ainda 5% de cristãos carismáticos, de pessoas que professam
religiões orientais e de agnósticos, um representante da religião judáica e dos
mórmons
Quanto à idade (tabelas 4, 5 e 13), aceitamos em nossa amostra todas
as pessoas presentes nos grupos pesquisados. Confirmando nossa expectativa
que nos grupos haveria várias pessoas de idade inferior aos 60 anos, 32 delas
(22,9%) declararam ter menos dessa idade. Entre 61 e 70 anos havia 39,3% das
pessoas; com mais de 70 anos, cerca de 38%; apenas 5% declararam idade igual
ou superior a 80 anos. A idade máxima encontrada nos grupos pesquisados foi de
83 anos.

Conclusões sobre a amostra da pesquisa


Nossa amostra de grupos do SESC difere da população total de idosos
que o SESC costuma atender apenas pela menor participação de homens e por
uma presença um pouco maior de pessoas com nível de escolaridade superior.
Os grupos de idosos de nossa amostra, ligados a igrejas, são
freqüentados em quase sua totalidade por pessoas do sexo feminino, ocupadas
em afazeres domésticos, enquanto os grupos do SESC possuem alguma
participação masculina; esses grupos possuem também membros mais velhos,
com menor nível de educação escolar e com renda familiar menor do que as
pessoas que freqüentam os grupos do SESC.
Nossa amostra total difere da população da cidade de São Paulo
também por ter menor participação de homens, por ter níveis mais elevados de
educação escolar, por possuir um número maior de pessoas idosas trabalhando e
por ser constituída, em sua maioria, por mulheres ocupadas em prendas
domésticas.
121

X. RESULTADOS DA PESQUISA

Um dos objetivos de nossa pesquisa era verificar em que medida a


visão holística de saúde e de assistência à saúde está presente na expressão
social de idosos autônomos e socialmente ativos da cidade de São Paulo.
Como estas pessoas de nossa amostra, participantes de grupos sócio-
culturais, religiosos e de vivências corporais, podem ter conseguido compor um
conjunto de representações sociais com relação à saúde e à assistência à saúde?
Já mencionamos anteriormente, citando MOSCOVICI (1978)100, que os [G3] Comentário: rever n. da pa'gina
da nota no fim.
grupos humanos criam significados para todos os fatos de sua vida, de uma forma
não-linear, complexa, apropriando-se da linguagem e dos modelos explicativos da
ciência (outrora, da religião), como faz um doente às voltas com especialistas:
"Reencontramo-nos incessantemente perante o dilema do doente que, depois de
ter consultado especialistas que examinaram cada parte de seu corpo e
identificado um distúrbio local, depois de ter visto as radiografias, lido os
resultados abstratos das análises de laboratório, deve em definitivo formular
sozinho um diagnóstico e um prognóstico para saber em que pé se encontra"
(MOSCOVICI, 1978, p. 21).
Assim como o diagnóstico do doente não é um rascunho do diagnóstico do
médico, mas sim uma reinterpretação da fala do médico à luz de sua vivência da
realidade, a visão de saúde e doença desses idosos não é uma repetição
empobrecida de discursos ouvidos ou lidos nos diferentes meios de comunicação,
embora estes meios tenham um papel importante em suas formulações.

A representação social como reinterpretação do discurso científico


MOSCOVICI considera que antes da idade moderna, a maneira de
expressar através de noções e vocábulos as experiências cotidianas, incluindo
nelas a previsão de comportamentos e acontecimentos, originava-se do senso
comum, "com sua inocência, suas técnicas, suas ilusões, seus arquétipos e
estratagemas", do qual a ciência e a filosofia extraíam suas elaborações
sistemáticas. Na idade moderna, este processo inverteu-se: a maior parte dos
objetos e dos conceitos que os expressam são propostos pelas ciências. Isto
porque tornou-se impossível, pelo multiplicar-se dos conhecimentos e das
122

experiências, exercer um domínio sobre todos eles. Assim, espera-se que


indivíduos competentes obtenham esses conhecimentos e os transmitam para os
demais:
"Nessas condições, pensamos e vemos por procuração, interpretamos fenômenos
sociais e naturais que não observamos e observamos fenômenos que nos dizem
poder ser interpretados...por outros, (...)." (1978, p. 21).
MOSCOVICI julga que há um preconceito difundido entre os
intelectuais, o de achar que a ciência vulgarizada perde seu status e afirma que
este preconceito advém de uma confusão de objetivos: enquanto o cientista busca
a descoberta de algo desconhecido, o indivíduo comum interessa-se pelos fatos
científicos, na medida em que eles afetem, mudando-os ou explicando-os, os fatos
de sua vida; e cita a difusão da teoria microbiana das doenças como um exemplo
de institucionalização de novos comportamentos, no caso, os comportamentos
higiênicos:
"Os ritos de limpeza, de esterilização, de isolamento, as prescrições de evitação
de contato com certas pessoas, certos animais, certos objetos, de busca de um
ambiente purificado, originaram o desfile de medicamentos que previnem os
efeitos da raiva, da tuberculose, das doenças venéreas, etc. A vacinação recebeu
força de lei e a desinfecção, a autoridade de regra" (1978, p. 22).
Longe de julgar que a divulgação de uma ciência seja algo negativamente
conotado –simplificação, vulgarização, distorção da ciência, MOSCOVICI
apresenta a difusão de conhecimentos científicos como tendo um caráter criador,
que consiste no processo de socialização de uma disciplina no seu todo. O saber
socializado não seria o mesmo saber originário do meio científico, mas um novo
saber reelaborado para as necessidades não de seus criadores mas de todos que
dele se utilizam em um contexto social definido.
A condição necessária para que os conhecimentos científicos possam
penetrar no que MOSCOVICI chama de laboratório da sociedade, onde todos eles
assumem um novo "status epistemológico", sob a forma de representações
sociais, é a ruptura, a descontinuidade do universo de pensamento e de ação
científicos para um outro universo, no qual, de forma criadora as representações
sociais assumem uma função constitutiva da realidade em que a maioria das
pessoas se movimenta.
123

Os temas e os princípios da medicina, da psicologia, da física, da


filosofia, da arte, da política, etc. são recebidos pelas pessoas e por elas
submetidos a um trabalho de transformação, para serem expressos em formas
simbólicas e concretas (objetivadas), que formam o cabedal de conhecimento que
as pessoas usam no seu viver cotidiano. Este trabalho de transformação da
realidade parte do quase desconhecido –do invisível e provisoriamente
inacessível– para um conhecimento direto, de uma realidade presumida ou de um
testemunho de terceiros à formulação de hipóteses concretas sobre os objetos.
Dessa forma apropriamo-nos do universo exterior.
Mais do que ao clínico que desvenda a natureza da doença através dos
sinais e sintomas e dos casos clínicos observados e narrados por outros médicos,
o "homem-comum", no seu trabalho de apreensão do sentido do real, assemelha-
se, para MOSCOVICI, ao documentalista, o qual, sem precisar julgar a verdade e
a qualidade dos textos que registra e organiza, pode associar subjetivamente
dados e artigos relativos aos campos e às teorias mais diversas; pois o objetivo do
"homem-comum" "não é ampliar o conhecimento, é 'estar ao corrente', 'não ser
ignorante' nem ficar fora do circuito coletivo" (1978, p. 55).
O hiato entre a linguagem científica e a leiga amplia-se, pois o que era
apenas simbólico na primeira tornou-se real, percebido como existente, na
segunda; mas, o hiato entre a ciência e o real se reduz, pois o que era apenas
atributo de um produto intelectual (um conceito) torna-se uma propriedade
observável em uma pessoa: "houve substituição do conhecido pelo percebido." Ao
objetivar um conteúdo científico, representando-o socialmente, sem a mediação
dos cientistas, as pessoas apropriam-se indiretamente do poder que a ciência tem
de definir aquele objeto; esta apropriação é considerada por MOSCOVICI como
"um ato gerador de cultura" (1978, p.112).

A mediação dos meios de comunicação


O mesmo autor mencionado acrescenta que a difusão do conhecimento
foi muitas vezes concebida como um movimento de cima para baixo, como
disseminação do conhecimento intelectual para os não intelectuais ou como
imitação da elite por parte das massas. Ele julga mais verdadeiro dizer que este é
124

um movimento de troca, pelo qual "experiências e teorias se modificam


qualitativamente, tanto em seu alcance como em seu conteúdo":
"Essas modificações são determinadas tanto pelos meios de comunicação (jornais,
rádio, conversações, etc.) como pela organização social dos que comunicam
(Igreja, Partido, etc.). A comunicação jamais se reduz à transmissão das
mensagens de origem ou ao transporte de informações inalteradas. Ela diferencia,
traduz, interpreta e combina, assim como os grupos inventam, diferenciam ou
interpretam os objetos sociais ou as representações de outros grupos" (1978,
p. 28).
Evidentemente, hoje não poderíamos deixar de citar expressamente a televisão,
nem tampouco as personalidades por ela projetadas sobre as mentes, os
corações e as aspirações das massas, como o mais poderoso meio propulsor
dessas transformações a que MOSCOVICI se refere.
101
Madel T. LUZ considera que, a partir da segunda metade do século
XX, ocorreram três cisões na medicina alopática (que ela chama de medicina
ocidental contemporânea): entre a ciência médica e a arte de curar, entre a
diagnose e a terapêutica e entre o médico e o paciente.
A primeira cisão fez com que o médico se tornasse um aplicador de
protocolos oriundos de estudos científicos, levando-o a deixar de lado sua
sensibilidade e sua capacidade de observação.
A segunda, criou um distanciamento entre o momento da acolhida do
doente, em busca de um diagnóstico e o momento da superação do estado
mórbido, devido ao que poderíamos chamar de um processo de "terceirização": o
diagnóstico ficou na dependência de uma série de exames clínicos conduzidos por
terceiros e, muitas vezes, a própria terapêutica tornou-se um "veredito",
pronunciado freqüentemente de forma isolada por vários especialistas, mais do
que um processo de aconselhamento.
A terceira cisão afastou de vez o doente do terapeuta ao ponto deste
achar dispensável o contato pessoal, até com o próprio corpo enfermo.
LUZ julga que estas cisões geraram nas sociedades ocidentais uma
busca por outros tipos de medicinas ou terapias, que ela define como
"racionalidades médicas"102, promovendo, nos últimos 20 anos, o "que se
denominou, em termos de establishment médico de 'terapêuticas alternativas'."
125

De fato, foi ao redor do começo da década dos anos 80 que, em nosso


país, se começou a divulgar, antes em espaços para iniciados e, posteriormente,
em lugares cada vez mais públicos e midiáticos, o conjunto das medicinas
tradicionais e populares, acompanhadas de várias outras terapêuticas
marginalizadas pela medicina oficial. Hoje em dia, a importância das "alternativas"
pode ser medida pelo número de programas televisivos a elas dedicados, pelo
número de revistas, jornais e boletins vendidos em bancas de jornais ou
distribuídos gratuitamente em espaços "alternativos", e pelas páginas de Internet
sobre esse tema que podem ser acessadas gratuitamente.

As terapias alternativas e o grupo amostral


Se considerarmos a década de 80 como o início de um período de
divulgação social mais ampla das terapias "alternativas", naquele período, as
pessoas mais jovens de nossa amostra (entre 55 e 65 anos) tinham idades entre
35 e 45 anos. As pessoas mais velhas (70-80 anos), possuíam, então, entre 50 e
60 anos de idade. Embora a afirmação que as pessoas mais velhas sejam menos
permeáveis às novidades (como era o caso das terapias "alternativas" na década
de 80) nos pareça apenas preconceituosa, é possível supor que as pessoas mais
jovens, por terem uma história de vida submetida à medicina alopática mais curta,
e portanto menos dependente de hábitos alopáticos do que os mais velhos,
estivessem mais disponíveis para se deixar influenciar positivamente pelas
"novas" terapias.
Por outro lado, uma outra hipótese favorável à maior abertura dos mais
velhos às terapias "alternativas" poderia ser também formulada: os mais idosos
teriam maior tempo de contato com um tipo de medicina alopática (a do médico
familiar acostumado com o contato prolongado, com a próximidade do cliente e a
auscultação paciente de seus problemas) menos "tecnológica" e mais semelhante
aos princípios e procedimentos das "alternativas". Os mais velhos de nossa
amostra teriam tido, também, mais contato com as receitas da medicina caseira,
que faziam parte do cabedal de sabedoria das pessoas mais velhas da família, e
com as quais se costumava resolver a maior parte dos pequenos problemas de
saúde do dia a dia.
126

Em nossa amostra a grande maioria das pessoas (119–86%)


expressaram-se a respeito das terapias "alternativas", afirmando já tê-las usado
(tabela 36). Apenas 3% declara nunca ter ouvido falar nelas (tabela 42.54). Este
resultado foi obtido apesar de não ter havido estimulação para a resposta, no
sentido que não se lembrou às pessoas o que seriam terapias "alternativas" ou
quais seriam. Não parece haver influência da visão de saúde (holística ou
biomédica ou neutra103) sobre o uso dessas terapias, visto que a porcentagem de
pessoas de cada um destes grupos que aderiu às terapias "alternativas" é muito
semelhante (87% para o grupo I, 87,7% para o grupo II e 82,4% para o grupo III –
tabela 46). Os dados mostram como, de fato, a maioria desses idosos conhecem e
usam terapias alternativas ao lado das práticas próprias da medicina alopática
dominante em nosso meio social.
Significaria este dado que a maioria das pessoas apenas admite a
possibilidade de buscar terapias "alternativas" fora do sistema alopático
dominante, para melhor manutenção de sua saúde, ou seria uma prova de
confiança mais estrita no uso dessas terapias? Talvez uma indagação maior sobre
o tipo de uso (mais ou menos freqüente, mais ou menos complementar) pudesse
diferenciar os três grupos acima mencionados com relação ao tema levantado.
As terapias mais lembradas, pela ordem, foram a homeopatia, a
acupuntura, a massagem, a fitoterapia e a ioga. Esta última pode ter sido
lembrada mais facilmente que outras práticas, porque dois dos grupos do SESC,
que fazem parte de nossa amostra, praticavam justamente a ioga.

A representação como expressão social de grupos


Uma representação é social, segundo MOSCOVICI (1978), porque ela
é expressa pela opinião pública presente na sociedade. Porém, as proposições,
reações e avaliações desta opinião pública, longe de compor um coro uníssono,
são expressão de diferentes "universos de opinião", tantos universos quantos
grupos, culturas ou classes existirem.
A hipótese formulada por MOSCOVICI é que cada um desses universos
de opinião possua três dimensões: a informação, o campo de representação e a
atitude.
127

A dimensão da informação relaciona-se com o conjunto de


conhecimentos de um grupo sobre um determinado objeto social. Em nosso
estudo, seria o sentido que os vários grupos atribuem ao objeto "saúde integral".
Provavelmente haja grupos que dêem um sentido específico a este objeto,
diferenciável do sentido a ele atribuído por outros grupos. Mas, também, haja
grupos que não atribuam qualquer sentido específico a ele, por não possuírem
uma quantidade de informação suficiente para formulá-lo.
A dimensão denominada "campo de representação" refere-se à imagem
ou ao modelo social do objeto representado e ele existe na medida em que haja
uma unidade hierarquizada de elementos. Em nosso estudo, o "campo de
representação" poderia abranger a imagem do terapeuta e do cliente de saúde
integral, assim como das ações de saúde integral e suas relações.
A terceira dimensão da representação social é a atitude das pessoas
com relação ao objeto representado; ela expressa a posição global do sujeito para
com o objeto. Esta posição pode ser favorável ou desfavorável ou, ainda, "neutra";
as posições favoráveis ou desfavoráveis podem ser extremadas ou relativas. Em
nosso estudo, a atitude das pessoas referente à saúde integral foi verificada por
meio da escala de tipo Thurstone, construída especificamente para este fim,
através de suas respostas às proposições apresentadas: "concordo muito",
"concordo pouco", "discordo muito", discordo pouco", "não sei".
Assim, foi possível distinguir grupos em função da representação que
eles se fazem de um objeto tal como a saúde. Esta relação de um grupo com sua
representação de um objeto socialmente valorizado diferencia uma coletividade de
outra, definindo-a por meio de sua "teoria" (representação, consciência, etc.)
acerca desse objeto; portanto, essa "teoria" torna-se um seu atributo fundamental.
Por expressar a coletividade, dizemos que a representação é social.
O estudo de MOSCOVICI acerca da representação social da
psicanálise mostra que, entre suas três dimensões, anteriormente descritas, a
atitude é a que está presente em todos os grupos estudados; este fato tem levado
este autor a concluir que a atitude é uma dimensão "geneticamente primordial", no
sentido que "uma pessoa se informa e se representa alguma coisa unicamente
depois de ter adotado uma posição, e em função da posição tomada". Outras
pesquisas sobre atitude do mesmo autor confirmariam tal hipótese (1978, p.74).
128

As visões de saúde e assistência à saúde das pessoas da amostra


A análise fatorial aplicada às respostas das pessoas às perguntas de 1
a 46 do questionário da pesquisa (proposições da escala de tipo Thurstone)
revelou a existência de três grupos relativamente homogêneos quanto à sua
representação da saúde e da assistência à saúde (figura I).

O grupo biomédico (grupo II)


As 83 pessoas do grupo que nomeamos de biomédico (59,3% do total
da amostra –tabela 27) definem-se sobretudo pela concordância com a maioria
dos enunciados de teor biomédico do questionário da pesquisa, e se reconhecem
na seguinte visão da saúde e da assistência à saúde:
 elas aceitam como fato normal e inevitável que o fim da vida humana necessite
da presença de um médico; a morte ideal é a que ocorre em hospital sob
cuidados médicos; portanto, a morte deve ser combatida pela medicina em luta
heróica
 pensam que os sistemas de saúde devam preocupar-se sobretudo com a
formação de médicos especialistas, aos quais recorrer logo que se sintam
enfermas, ao ponto de afirmar que sem eles o doente é fadado à morte
 a vontade de cura do doente não é fundamental para o processo de cura; ele
deve tornar-se um paciente, isto é, submeter-se às decisões do médico, para
seu próprio bem, porque apenas ele tem autoridade para decidir a melhor
terapia (ele foi formado para diagnosticar e tratar doenças); ele tem
competência para controlar o sofrimento da dor; ele cura, fazendo desaparecer
os sintomas físicos da doença
 prevenir doenças é utopia; o que importa é curá-las quando se manifestam; por
isso, não faz muito sentido se gastar dinheiro com programas de promoção de
saúde; melhor despendê-lo para tratar as doenças dos necessitados e para o
funcionamento dos hospitais; porém, querendo preveni-las, é suficiente ter
bons hábitos de higiene e tomar vacinas, sendo que os hábitos de vida não
são tão importantes para o estado de saúde
 o que importa é a doença, não o paciente; as doenças têm causas definidas e
quase sempre bem conhecidas; uma vez detectadas as causas, as doenças
129

podem ser combatidas e eliminadas; a medicina é como uma oficina de


reparos e manutenção, destinada a conservar em funcionamento a máquina
humana; a cura é possível, geralmente, devido a realização de exames,
prescrição de medicamentos e intervenções cirúrgicas; em resumo, a
intervenção médica é razoavelmente eficiente na prevenção de doenças ou na
preservação da saúde; a pesquisa e a tecnologia biomédicas são insuperáveis;
essas pessoas concedem, no entanto, que, como o organismo humano tende a
recuperar seu equilíbrio, sempre é bom usar primeiro o remédio mais
moderado, passando às drogas sintéticas apenas como último recurso
 elas discordam de que o paciente tenha o poder de sua cura, vinda de dentro
dele, do qual o terapeuta seria apenas um auxiliar, e de que as famílias e as
comunidades devam assumir a responsabilidade por sua própria saúde e seu
próprio bem-estar;
 entendem que para a cura de uma pessoa não há necessidade de
concorrência de aspectos físicos, psicológicos sociais e ambientais e que,
diante de doença grave, não há necessidade de colocar em pauta uma
reflexão sobre o sentido da vida.
Este grupo é formado (tabelas de 37 a 41) em sua maioria por pessoas
pertencentes a grupos ligados a igrejas (67,5%); apenas cerca de um terço
(32,5%) deste grupo é de pessoas que freqüentam o SESC. Somente cerca de
20% das pessoas mais jovens do grupo amostral (com até 60 anos) compõem
este grupo. Em sua maioria, são pessoas com idades entre 61 e 70 anos (42,2%)
ou com mais de 70 anos (38,6%). Pessoas de renda familiar mais baixa integram
este grupo: 58,4% tem renda até R$ 400,00 e 37,7%, renda entre R$ 401,00 e R$
1.200,00. Mais da metade (53,7%) deste grupo é formado por pessoas com até
cinco anos de escolaridade, cujas ocupações principais são as de dona de casa
(44%) ou de empregado de comércio e serviços (30,7%). Cerca de 10% dos que
trabalham com autonomia operativo-intelectual também fazem parte deste grupo.

O grupo holístico (grupo III)


O grupo que denominamos de holístico é composto por 34 pessoas
(24,3% do total da amostra –tabela 28), que se definem mais pela discordância de
vários dos enunciados de expressão biomédica do questionário da pesquisa do
130

que por sua concordância com os enunciados de teor holístico e se identificam


com a seguinte representação de saúde e de assistência à saúde:
 não concordam com a perspectiva de que a vontade de cura das pessoas não
seja fundamental para a saúde e que elas devam submeter-se, como
pacientes, à autoridade do médico, para a condução do processo de cura;
admitem que o terapeuta seja um auxiliar do poder de cura que existe em cada
pessoa, sem, porém, relegá-lo a um papel secundário na abordagem
terapêutica
 discordam, também, da afirmação que a prevenção das doenças seja uma
utopia e que os hábitos de vida das pessoas não sejam importantes para a
manutenção da saúde, de forma que não concordam com programas de saúde
que priorizem as medidas curativas e a criação de hospitais em detrimento das
ações preventivas e de promoção da saúde
 discordam da posição que apenas os sintomas físicos de uma doença sejam
relevantes e que a doença e não o paciente seja de fato importante, pois que o
diagnóstico da doença não garante o tratamento e a cura; afirmam que a
doença é um processo de mudança necessário ao restabelecimento do
equilíbrio de uma pessoa; no entanto, parecem admitir que pode ser útil
procurar descobrir as causas de uma doença, para sua superação, e não
aceitam a afirmação que a doença sempre tem componente psicossomático e
sempre propicia algum bem
 negam que apenas os médicos saibam como curar as doenças, em função de
seu preparo profissional, e que os sistemas de saúde devam priorizar a
formação de especialistas, porque não é verdade que sem eles o doente é
destinado a morrer; no entanto, parecem reconhecer que os especialistas
também têm um papel a desempenhar no contexto do sistema de saúde
 não compartilham a crença na eficiência indefectível da pesquisa biomédica e
da tecnologia médica e desconfiam que a intervenção médica não seja tão
eficiente na prevenção de doenças e na preservação da saúde
 não acreditam que a morte ideal seja a que ocorre em um hospital sob
cuidados médicos e que estes sejam imprescindíveis nesta situação, embora
muitas vezes necessários.
131

Este grupo é formado (tabelas de 37 a 41) em sua grande maioria


(82,4%) por associados do SESC. Como os demais grupos, ele é eminentemente
feminino, considerando que a amostra é majoritariamente feminina. No entanto,
mais da metade dos participantes homens da amostra (55,5%) aparecem neste
grupo holístico. Este grupo é o mais jovens dos três, sendo formado por 35,3% de
pessoas com até 60 anos e 35,3% de idosos com idade entre 61 e 70 anos. Isto,
porém, não significa que a maioria dos mais jovens professe uma visão holística
de assistência à saúde, tendo em vista que um contingente ainda maior deles
pertence ao grupo chamado de Biomédico. Este grupo é o de melhor perfil de
renda familiar, incluindo 77% dos que têm renda superior a R$ 1.200,00 e sendo
formado por 73% das pessoas com renda superior a R$ 400,00. Também é o
grupo de maior escolaridade, sendo integrado em sua maioria (72,7%) por
pessoas com mais de 11 anos de escolaridade. Há, porém, 15,2% de pessoas de
menor escolaridade (até cinco anos) que possuem esta mesma visão holística. Em
termos da ocupação principal destas pessoa, 48,3% são empregados do comercio
e dos serviços, 24,1% são donas de casa, 17,2% são pessoas que trabalham com
autonomia operativo-intelectual e 10,3% são operários.

O grupo neutro ou de transição (grupo I)


O grupo que denominamos de neutro ou de transição é composto por
23 pessoas (16,4% do total da amostra –tabela 26), que se definem por uma
reação de indecisão (“não sei”) diante dos enunciados do questionário da
pesquisa, manifestando que ou não entendeu os enunciados, ou não tem posição
definida sobre eles, ou ainda possui uma visão de saúde e de assistência à saúde
que não é nem biomédica nem holística, talvez porque a visão biomédica já não o
satisfaça mais e a holística ainda não tenha se firmado nele. Assim, este grupo:
 não sabe se a participação do doente é efetiva e fundamental para a cura e se
o terapeuta é apenas um auxiliar do poder de cura de cada pessoa
 se a doença é, de fato, um sinal de desequilíbrio pessoal e se para a saúde
concorrem tanto aspectos físicos como psíquicos e sociais; se de fato as
doenças sempre propiciam algum bem
 se apenas os sintomas físicos são relevantes e se ao fazê-los desaparecer, a
pessoa é curada; se as doenças têm componentes psicossomáticos ou se elas
132

possuem causas definidas e quase sempre bem conhecidas; se é possível


tratar de distúrbios que os médicos não tenham definido como doenças; se o
corpo é mesmo semelhante a uma máquina que precisa de manutenção para
funcionar
 se a intervenção de especialistas é essencial para a cura e se é bom que os
planos de saúde permitam o acesso a todo tipo de terapeuta; se é suficiente o
médico se importar com a doença, esquecendo o paciente
 se é no hospital, ao lado de um médico que é inevitável e bom morrer ou se é
importante, ao adoecer de uma doença grave, considerar o sentido do viver; se
realmente os médicos se esqueceram que a morte, assim como a doença, faz
parte da vida e que morrer é uma arte que deveria voltar a ser praticada em
nossa cultura
 se prevenir doenças é uma utopia; se os hábitos saudáveis de viver são
importantes para a manutenção da saúde e se é melhor gastar na cura das
doenças do que em programas de prevenção e promoção
 se é bom deixar o uso de drogas sintéticas para depois do uso de remédios
brandos
 se nossa pesquisa biomédica e nossa tecnologia médica são realmente
insuperáveis e se a intervenção médica é de fato eficiente
 se saúde é algo muito simples ou se, afinal, é algo que parece ser tão
complexo quanto sua definição, quando se diz que ela é “um processo de
constante procura do bem-estar físico, mental e social, associado a uma
vivência espiritual e uma percepção de pertença cósmica”.
Do grupo neutro ou de transição fazem parte (tabelas de 37 a 41)
sobretudo pessoas pertencentes aos grupos da terceira idade ligados a igrejas
(70%). São pessoas mais velhas (47,8% com mais de 70 anos e 35% com idade
entre 61 e 70 anos) e com escolaridade limitada, na maioria (62%) a cinco anos de
estudos. Sua faixa de renda é mais baixa que a dos outros dois grupos (76%
ganha até R$ 400,00) e sua ocupação principal é de dona de casa (62%).

Homogeneidade e heterogeneidade da representação de saúde


O estudo de MOSCOVICI, já citado, também admite que é possível não
haver homogeneidade quanto à representação que o mesmo grupo se faz de um
133

objeto ou, ainda, que é possível haver uma representação homogênea em grupos
em que intervêm fatores diferenciais.
Por exemplo, em relação à psicanálise, o grupo de classe operária
(francesa), que tem conhecimento dela apenas por ter ouvido falar, não tem uma
representação homogênea sobre ela. Os estudantes (franceses) constituem um
grupo único na representação da psicanálise, apesar da diversidade de suas
origens sociais, de seus interesses e de suas opções políticas. As classes médias
(também francesas) teriam uma atitude comum a respeito da psicanálise mas uma
forma diversificada de sua representação social, devido a uma diferenciação de
fatores sócio-culturais: o nível sócio-econômico e o grau de instrução –superiores
para o grupo que tem uma representação estruturada da psicanálise e inferiores
para o grupo que não tem dela uma representação estruturada. O grupo dos
intelectuais e profissionais liberais (franceses) teria uma separação ideológica.
Outros fatores como sexo, religião e profissão não permitiriam distinguir subgrupos
com relação ao tema estudado por MOSCOVICI.
Em nossa pesquisa, a homogeneidade das opiniões apareceu nos três
grupos indicados pela análise fatorial. Cada um desses grupos, principalmente o
segundo (Biomédico) e o terceiro (Holístico), expressa sua visão sobre saúde e
assistência à saúde de forma bastante semelhante.
A heterogeneidade das representações pôde ser percebida a partir da
análise da composição desses três grupos (tabelas de 37 a 41): todos são
compostos, embora em proporções diferentes, por pessoas pertencentes aos
mesmos grupos de origem – os grupos do SESC e os grupos ligados a igrejas; o
grupo dos mais jovens e o dos mais velhos; o grupo de menor renda e o de maior
renda; o grupo de maior escolaridade e o de menor escolaridade. Isto significaria
que estes grupos são, de fato, heterogêneos quanto à expressão de sua visão de
saúde.
No entanto, analisando os dados, parece-nos aceitável concluir que
pessoas que exercem ocupações em que é possível certo grau de autonomia
operativo-intelectual (empresário, comerciante, profissional liberal, empregado de
nível superior, empregado supervisor) têm opinião formada sobre saúde (nenhuma
delas pertence ao grupo que denominamos de neutro ou de transição).
Do mesmo modo, a grande maioria (77%) das pessoas com maior renda familiar
134

(acima de R$ 1.200,00) pertencem ao grupo Holístico. Parece ser bastante


evidente que pessoas acostumadas a agir de forma independente estejam
habituadas a se formarem opiniões próprias sobre os mais variados assuntos,
inclusive sobre saúde. Menos evidente é o fato de que ter renda familiar mais
elevada signifique uma porta aberta para uma visão holística.
Podemos formular duas hipóteses para este fato. Uma delas é a maior
acessibilidade dos que têm posses maiores a terapias "alternativas" mais
complexas: tendo possibilidade maior de experimentar novas terapias, estas
pessoas poderiam apreciar seus benefícios, o que as estimularia a querer
compreender seus fundamentos teóricos e o modo de sua prática social. Outra
hipótese decorreria da possibilidade maior destas pessoas para ter acesso a
informações sobre novas visões de saúde (diferentes da tradicional alopática
dominante) obtidas de maneira formal (62 % das pessoas com mais de 11 anos de
educação escolar pertencem ao grupo Holístico) e não formal – fora da escola –
em cursos, encontros, vivências e outras ocasiões de expansão cultural. É nossa
opinião que não seja tanto a informação da educação formal em si a abrir as
portas ao mundo do holismo e sim as habilidades cognitivas de leitura, reflexão,
análise, avaliação e síntese que permitem a essas pessoas, estimuladas por
experiências de vida, ter acesso a novas informações independentes.

Da teoria da saúde à ação sobre a saúde


Mas, o que são mais precisamente representações sociais? Segundo
MOSCOVICI, elas são uma "preparação para a ação", que guia o comportamento,
dando-lhe um sentido, remodelando e reconstituindo os elementos do meio
ambiente em que o comportamento deve ter lugar:
"As representações sociais são entidades quase tangíveis. Elas circulam,
cruzam-se e se cristalizam incessantemente através de uma fala, um gesto, um
encontro, em nosso universo cotidiano. A maioria das relações sociais
estabelecidas, os objetos produzidos ou consumidos, as comunicações trocadas,
delas estão impregnados." (1978, p.41).
MOSCOVICI assimila a noção de representação às noções
psicossociológicas de opinião –ou atitude e preconceito– e de imagem. Embora as
considere equivalentes, julga que a noção de representação se diferencie das
135

demais "num sentido fundamental" (1978, p.46).


Para ele, a opinião é o meio pelo qual as pessoas tomam posição
diante dos problemas sociais, aderindo a pontos de vista socialmente valorizados;
a opinião versa geralmente sobre fatos específicos e costuma ser pouco estável,
sendo um momento da formação de atitudes e estereótipos. Normalmente, dá-se
uma opinião sobre um objeto que vem de fora, já definido sem a participação do
sujeito que a emite; ao mesmo tempo, ela é tida como preditiva de um
comportamento que o indivíduo poderia vir a ter em relação ao objeto sobre o qual
se expressou: se, por exemplo, um sujeito tem opinião negativa da psicanálise,
dificilmente irá se utilizar dela ou aconselhá-la a outras pessoas. O contrário pode
ser dito de quem tem uma opinião favorável sobre terapias '"naturais":
provavelmente procurará terapeutas "naturistas" para resolver seus problemas de
saúde e os indicará com entusiasmo para amigos e conhecidos.
Comparando o conceito de opinião ao de imagem, MOSCOVICI afirma
que, embora eles sejam semelhantes, o conceito de imagem designa "uma
organização mais complexa ou mais coerente de juízos de valor ou de avaliação"
(1978, p.47). As imagens são como fotografias, reproduções passivas de fatos,
objetos, sentimentos que estão no campo de nossa experiência atual; ou como
"sensações mentais" de impressões que os elementos de nossa experiência
deixaram em nossos cérebros. Elas podem ser conservadas e evocadas,
tornando-se, então, lembranças do passado, que podem aflorar à nossa memória,
traçando uma trama de continuidade entre o nosso presente e o nosso passado e
fazendo uma ponte entre as nossas experiências individuais e as vivências
coletivas. Essas "reproduções fotográficas", porém, sofrem processos de filtragem
das informações que obtemos sobre os objetos; os contornos e as texturas dos
objetos imaginados possuem efeitos criados por essas filtragens, desencadeadas
por necessidades do indivíduo, tais como a busca do prazer e a coerência. Por
isso, assim como não existem experiências iguais, também não existem imagens
iguais destas experiências. Por sua vez, as imagens que já possuímos funcionam
como um filtro para as novas mensagens, controlando sua percepção e sua
interpretação.
A representação social, embora faça parte do mesmo domínio
psicossocial, não se identifica nem com a opinião nem com a imagem, por ser
136

anterior a ambas, pois quando um indivíduo "exprime sua opinião sobre um objeto,
somos levados a supor que ele já se representou algo desse objeto.
A representação é o momento em que a pessoa se abre para o mundo, torna-se
consciente, na expressão de HEIDER, citado por MOSCOVICI (1978, p.50), e isso
se dá apenas nas relações e na interação entre as pessoas.
Os conceitos de opinião, de atitude e de imagem não consideram estes vínculos,
visto que eles se formam a partir de objetos –pessoas, grupos– não enquanto eles
estejam interagindo, mas enquanto estáticos. Por oposição, as representações
sociais são dinâmicas, por produzirem comportamentos e relações com o meio
ambiente, por agirem modificando tanto uns quanto outras:
"Em suma, vemos aí sistemas que têm uma lógica e uma linguagem particulares,
uma estrutura de implicações que assenta em valores e em conceitos. Um estilo
de discurso que lhes é próprio. Não os consideramos como 'opiniões sobre' ou
'imagens de', mas como 'teorias', 'ciências coletivas' sui generis, destinadas à
interpretação e elaboração do real" (1978, p.50).
MOSCOVICI estabelece a hipótese que uma representação é social por
ser gerada coletivamente. Hoje é consensual dizer que tanto ciência, como
ideologia ou representação não são produções individuais e sim coletivas – e nem
sempre foi assim; e, perguntar pela função social que elas possuem (para que são
produzidas) é mais importante do que definir quem as produziu. Tal função é
específica a cada objeto socialmente valorizado. Assim, a ciência visa a controlar
a natureza e a nos dizer a verdade sobre ela; a ideologia procura justificar a
atuação de um grupo ou estabelecer um sistema de metas para ele; a função da
representação é exclusivamente a de orientar comportamentos e comunicações
sociais. Tanto a ciência como a ideologia, assim como, também, a filosofia e a
arte, propõem comportamentos e comunicações adequadas para as pessoas
lidarem com o mundo real, mas isto apenas pode ocorrer mediante
transformações decorrentes dos processos de representação, pois o objetivo
delas não é orientar as pessoas para a ação.
Assim, conhecer a representação social do objeto "saúde" não é
apenas importante para descobrir quais são as teorias dos diversos grupos sociais
sobre este objeto, como também para desvendar que tipo de comportamentos de
obtenção ou manutenção da saúde estes diferentes grupos possuem ou como
137

eles se comunicam socialmente em relação a tudo isto.

Como idosos autônomos cuidam de sua saúde


Vários enunciados do questionário de nossa pesquisa propõem alguns tipos de
comportamento, em termos de cuidados com a saúde.

Especialistas e especialidades médicas


A questão de número 10 propõe que, ao sentir-se enferma, a pessoa
recorra logo ao especialista capaz de cuidar do órgão afetado pela doença; a
questão de número 7, por sua vez, afirma que os sistemas de saúde devem
formar sobretudo especialistas. Mais de 85% das respostas foram de total
concordância com a proposição de número 10 (tabela 42.10) e mais de 67%
concorda com a necessidade de se formarem sobretudo especialistas (tabela
42.7). Isto significa, então, que o especialista é uma figura presente na visão de
cuidados de saúde tanto das pessoas que possuem uma visão biomédica dela
como daquelas que têm dela uma visão holística. Uma abordagem holística de
assistência à saúde não pode concordar com esta proposição, não porque os
especialistas não tenham uma função relevante nos sistemas de saúde, mas
porque eles, geralmente, atuam mais para o restabelecimento da saúde do que
para sua prevenção e podem não ter uma visão completa da situação de saúde da
pessoa, ao fazer uma abordagem especializada desde o começo da intervenção.
A própria medicina social defende que o contato normal das pessoas em busca de
saúde deva ser feito com médicos generalistas e não com especialistas.
Por que, então, esta procura tão generalizada por especialistas? De um
lado, os sistemas de saúde têm se organizado por especialidade, transmitindo à
população a idéia de que cada parte do corpo tem sua autonomia nosológica e
terapêutica, bem no estilo das oficinas mecânicas (especialista em freios, em
motor, em funilaria etc.). De outra forma como seria? A quem procurar? Os
clínicos gerais têm desaparecidos diante da atração científico-comercial das
especialidades. Apenas os especialistas conhecem a fundo o organismo e os
remédios, cada vez mais especializados (e geralmente mais caros, também,)
necessários à cura. Há uma tendência para que este quadro seja revertido, dando-
se mais importância ao tradicional (de tempos idos) médico de família. Mas esta é
138

uma realidade recente que parece não estar ainda influindo sobre as atitudes e as
opiniões de pessoas como as pesquisadas. Parece-nos uma hipótese razoável
dizer que as pessoas, mesmo as que possuem uma visão holística, se utilizam do
sistema de saúde existente da forma em que ele está organizado: em um sistema
de especialidades vai-se ao especialista.

A prevenção de doenças
As questões de números 27, 28 e 50 tratam deste assunto. A primeira
declara que a prevenção é uma utopia; a segunda que a prevenção é feita
mediante o uso de hábitos de higiene e de vacinas. A terceira solicita fazer uma
opção entre, de um lado, tomar vacinas e fazer exames clínicos e, de outro lado,
manter hábitos saudáveis de vida. Não sabemos como as duas alternativas desta
segunda pergunta foram interpretadas pelas pessoas que responderam ao
questionário. Ela, porém, pretendia separar os que têm uma visão restrita de
prevenção (restrita aos exames clínicos e às vacinas –uma visão mais biomédica)
dos que teriam uma visão mais ampla (ou mais holística), abrangendo outros
hábitos saudáveis de vida (quaisquer fossem).
Prevenir doenças é uma utopia: concordam 55,5% das pessoas e
discordam 40% (tabela 42.27). Mais de 78% das pessoas da amostra concordou
firmemente com o enunciado do questionário sobre prevenção (hábitos de higiene
e vacinas –tabela 42.28). É possível que os que tenham concordado pouco com
esta asserção (14%), assim o tenham feito por julgar esta expressão acanhada em
termos de prevenção. Isto é consistente com as respostas à questão da escolha
entre uma visão mais restrita ou mais ampla de prevenção, em relação à qual as
pessoas se dividiram entre as duas visões quase pela metade (tabela 42.50 –51%
a favor da mais ampla contra 49%para a outra).
Se considerarmos que apenas um quarto da amostra pertence ao grupo
que denominamos de holístico, podemos avaliar como a visão "prevencionista"
tenha conseguido penetrar no mundo dos idosos, inclusive em seu sentido mais
amplo de construção de hábitos de vida saudáveis. Isto parece ser extremamente
alvissareiro para o futuro dos próprios idosos, que não dependerão
exclusivamente dos orçamentos deficitários do estado para prover sua própria
saúde.
139

Mas, por que, então, prevenir doenças seria uma utopia para mais de
metade da amostra pesquisada? É bom fazer-se prevenção com hábitos de
higiene e vacinas e com o desenvolvimento de hábitos de vida saudáveis, mas a
prevenção é uma utopia? Há pelo menos duas interpretações possíveis desta
aparente incongruência: é bom e possível prevenir doenças, mas é utópico pensar
que elas possam ser evitadas por completo; o sistema de saúde pede-nos fazer
prevenção, mas esta não funciona realmente para evitar as doenças. Julgamos
que a primeira interpretação é mais aceitável que a outra, por ser consistente com
as demais respostas das pessoas sobre prevenção.

Hábitos de vida
Complementam o aspecto anteriormente abordado, sobre atitudes
preventivas, as respostas às perguntas sobre hábitos de vida saudáveis e sobre
hábitos de dependência física (questões 55, 56 e 58). Quase 68% da amostra
afirma que sempre achou bom criar e manter hábitos saudáveis; há um grupo de
quase 24% que despertou para esse cuidado com sua saúde apenas
recentemente. Este último dado mostra ser possível que pessoas idosas mudem
seus comportamentos para obter benefícios de saúde. Seria interessante saber
como estas pessoas realizaram tal mudança em sua vida recente, mas nossa
pesquisa não permitiu esse tipo de explicação. Esperaríamos que pessoas
inclinadas à manutenção de hábitos saudáveis tivessem prevalentemente uma
visão holística. No entanto, esta condição não se verificou em nossa pesquisa. A
este grupo dos cultivadores de bons hábitos pertencem pessoas dos três grupos
identificados na análise fatorial (quase 61% do grupo Neutro ou de Transição,
69,5% do grupo Biomédico e 73,5% do grupo Holístico –tabela 47).
Quase a mesma quantidade de pessoas que sempre achou importante
desenvolver hábitos saudáveis também faz exercícios normalmente e quer
continuar a fazê-los e até a aumentá-los: são os "ativos" (65,7% – tabela 42.58).
Os "contemplativos" , ou seja, os que estão pensando em ter uma vida menos
sedentária, mas não conseguem começar a fazer exercícios ou atividades físicas
são 25,2% (quase a mesma quantidade de pessoas que despertou recentemente
para a oportunidade de desenvolver hábitos saudáveis). O grupo dos "ativos" é
formado por pouco mais da metade dos grupos I e II identificados na análise
140

fatorial (grupo Neutro e Biomédico), e por quase 83% dos que compõem o grupo
Holístico (tabela 49): um claro indício de que a visão holística facilita a criação de
hábitos saudáveis de vida ou, vice-versa, que a manutenção desses hábitos
favorece a construção de uma visão holística.
Aparentemente, nossa amostra apresenta um grau de atividade
bastante superior ao de outros grupos pesquisados104, provavelmente porque
parte de nossa amostra é formada por pessoas que procuram no SESC
justamente uma oportunidade de exercício ou de atividades físicas (quase 63%
das pessoas que declararam ser pessoas "ativas" pertencem a grupos do SESC –
tabela 45).
Quanto a hábitos de risco, isto é, de dependência física (a tabaco,
drogas, alimentos, etc.) mais de dois terços (71,2%) afirma não possuir hábitos de
dependência física (tabela 42.56). Destes, apenas 61,8% das pessoas do grupo
Holístico não os possuem, contra 78,3% dos que pertencem ao grupo Neutro e
73% das pessoas do grupo Biomédico (tabela 48).
Por outro lado, estes hábitos de dependência física são ou já foram
problema para pouco menos de um terço dos idosos pesquisados: cerca de 13%
conseguiu livrar-se deles; 7,4% conseguiu diminuir sua dependência; apenas 7,4%
continua com o problema, apesar de já ter tentado se livrar dele.
As pessoas com visão holística parecem conviver, ou ter convivido, com
problemas de dependência física até o ponto de conseguir livrar-se deles: 23,5%
deste grupo consegue esta façanha, contra 13 do grupo Neutro e 9% do grupo
Biomédico (tabela 48). Não podemos esquecer que as pessoas com visão
holística costumam ter forte sentimento de responsabilidade por sua cura e uma
consciência aguda de seu poder de cura.

Tipos de remédios
As questões de números 31, 34 e 35 abordam o tema de uma certa
precaução no uso de remédios: dos mais brandos aos mais "invasivos" (das ervas,
aos remédios homeopáticos, às drogas sintéticas). As três questões afirmam que
há remédios diferentes e menos "invasivos" dos que são usados pela medicina
alopática, os quais seriam mais "invasivos" (porque tenderiam a combater a
suposta causa física da doença na profundidade dos tecidos e, freqüentemente,
141

com efeitos colaterais não desprezíveis). De maneira geral, as respostas às três


perguntas são congruentes, todas no sentido de tomar primeiro os remédios mais
brandos para em seguida os mais "invasivos", até porque esse "outros" remédios
são eficientes: (39% concordam muito com a primeira dessas questões; 58 % com
a segunda, revelando conhecimento da existência e da eficiência dos remédios
homeopâticos; 45% concordam muito com a terceira dessas questões que afirma
a eficácia do uso de ervas). De novo, devemos sublinhar que a adesão ao uso de
ervas e de remédios homeopáticos, assim como do uso precavido de remédios
sintéticos ultrapassa o total de pessoas da amostra de nossa pesquisa que a
análise fatorial identificou como tendo um perfil holístico.
Completando o quadro relativo aos remédios, é também interessante
sublinhar que na resposta à questão 61 do questionário de nossa pesquisa105,
sobre cuidados com a saúde nos últimos seis meses, apenas 14 pessoas
mencionaram o uso de remédios, o que parece destoar da literatura gerontológica
corrente que relata abundante uso de remédios por parte dos idosos.

Tipos de terapeutas
As questões de números 38 e 39 abordam a centralidade/exclusividade ou a
complementaridade dos terapeutas, neles incluído o médico alopata: a primeira
afirma que apenas os médicos sabem como curar doenças e a segunda que os
usuários de planos de saúde deveriam ter acesso a todos os tipos de terapeutas.
Do total de pessoas da amostra, 56,6% concorda muito com a exclusividade da
competência médica e 26,1% concorda pouco (tabela 42.38). Aproximadamente a
mesma quantidade de pessoas (50,4%) afirma que escolheria a orientação de um
médico (ou farmacêutico) para cuidados de saúde (pergunta de número 57 e
tabela 42.57). Por outro lado, 78,8% concorda muito com a possibilidade de
acesso a todo tipo de terapeuta e 8,9% concorda pouco (tabela 42.39). Temos
cerca de 43% das pessoas da amostra pelo menos questionando a exclusividade
da competência médica e mais de três quartos desejando ter acesso não apenas
a médicos para recuperar ou manter sua saúde. É um dado que mostra quão
importante os idosos considerem o acesso às terapias não médicas, tanto às
142

psicológicas como às "alternativas".

A relação terapêutica
As questões de números 19, 23 e 32 abordam aspectos da relação
terapeuta-cliente ou terapeuta-paciente. A de número 23 afirma que o paciente
deve submeter-se às decisões do médico, enquanto a de número 19 atribui ao
terapeuta apenas um papel auxiliar do poder de cura que existe em cada pessoa.
Quase 62% das pessoas da amostra (tabela 42.23) concorda plenamente com a
submissão às orientações médicas; pouco mais que o total de pessoas (59,3%)
que a análise fatorial indicou pertencer ao grupo que denominamos de Biomédico.
Este mesmo número de pessoas (62,3% –tabela 42,19) acredita que o terapeuta
tenha apenas uma função de auxiliar o poder de cura do próprio doente. Não
podemos também esquecer que mais de 82% das pessoas investigadas indicou
que a responsabilidade pela recuperação da saúde é sobretudo da própria pessoa
e não do terapeuta (questão 51 –tabela 42.51).
Evidentemente não sabemos se se trata das mesmas pessoas que
acreditam nos dois tipos de relações (o poder do médico influindo sobre o paciente
e o poder do enfermo prevalecendo sobre o do terapeuta) ao mesmo tempo.
Porém, certamente há uma sobreposição de dados de, no mínimo, 24% da
amostra: há um grupo de ao menos 33 pessoas em que as duas crenças
convivem juntas. Como isso é possível? Acreditamos ser possível que as pessoas,
as quais pensam existir nelas um poder de cura, desenvolvam um sentido de
maior autonomia em relação à capacidade do terapeuta de promover a cura. Elas
podem ter iniciativa maior do que outras, que não possuam esta crença, com
relação ao modo de proceder terapêutico. No entanto, uma crença não se
contrapõe à outra. Imaginamos ser possível seguir a orientação do médico e
acreditar que o poder da cura esteja no paciente: o terapeuta seria apenas um
assistente, um intérprete, um incentivador, um mediador.
A questão 32 expressa uma crítica bastante amarga da atuação
médica: "os cuidados médicos provocam freqüentemente enfermidade, angústia e
doença, constituindo uma epidemia mais importante do que qualquer outra." Como
era previsível, em um ambiente em que viceja um sistema de medicina alopática,
no qual os médicos ainda possuem grande prestígio, a maioria (56,3%) discordou
143

totalmente desta afirmação (tabela 42.32). No entanto, mais de 10% concordou


plenamente e pouco mais de 11% concordou em parte com esta mesma
proposição. Um quinto da amostra de nossa pesquisa possui uma visão critica do
fazer médico de nosso sistema de saúde. Pode ser uma reação às infecções
hospitalares, aos "erros médicos" e às que Madel T. LUZ chamou de cisões da
medicina alopática106, assim como a consciência de que nossa ciência médica [G4] Comentário: verificar pagina no
fim do trabalho
soube, nos últimos séculos, decompor nosso corpo nas minúcias de suas fibras e
nervos –para não dizer moléculas e átomos, mas não soube reintegrá-lo no todo
humano que nasce, cresce, adoece, vive e morre.

O que você acha das recomendações dos especialistas?


Na pergunta (questão 60 do questionário) elencava-se a maioria das
recomendações dos especialistas para um bom trabalho de prevenção junto aos
idosos e se pedia que as pessoas manifestassem o que achassem daquelas
orientações. A quase totalidade das pessoas (113) considerou as recomendações
boas, ótimas, interessantes, formidáveis, importantes, úteis, saudáveis,
necessárias, muito certas, lógicas, bastante pertinentes e válidas (anexo VII).
Um grupo de pessoas (12) concordou com a utilidade das
recomendações, mas ressalvou que "o sistema de saúde de nosso país é falho",
razão pela qual as ações recomendadas não estão ao alcance da grande maioria
da população ("o sistema de saúde não faz não"); portanto, estas recomendações
seriam "uma utopia dentro da realidade que vivemos, onde o 'idoso' não é visto
como elemento importante dentro da sociedade".
Uma única pessoa fez um comentário crítico com relação às
recomendações dos especialistas, indicando um outro caminho preventivo:
"acredito que quanto menos interferência de indivíduos e exames invasivos e
drogas que alterem o equilíbrio pessoal melhor a pessoa viverá, se assumir seus
aspectos físicos/mentais/sociais/espirituais."

O que você fez nos últimos seis meses para cuidar de sua saúde?
A quase totalidade das pessoas pesquisada (questão 61 do
questionário) declara que cuidou de sua saúde (anexo VII). Apenas quatro
pessoas responderam à pergunta formulada no título, dizendo que nada fizeram;
144

talvez até porque sua saúde não precisasse de nenhum cuidado especial! Uma
delas confessou: "Não precisei de médico!" Mas a maioria segue um roteiro de
cuidados esperado: consultar o médico (às vezes, especificamente, o especialista
–39 pessoas), fazer os exames periódicos de controle e prevenção (58 pessoas) e
tomar os remédios prescritos (14 pessoas). Um bom número de idosos acrescenta
outros cuidados: uma alimentação equilibrada (19 pessoas) e exercícios físicos
(19 pessoas). A campeã destes exercícios regulares é a caminhada (20 pessoas),
seguida por outras práticas mencionadas por uma ou outra pessoa: tai qi, ioga,
condicionamento físico, esportes, natação, hidroginástica, corrida, pedestrianismo,
alongamento, danças de salão.
Há um outro grupo de pessoas que inclui entre os cuidados com sua
saúde outros tipos de afazeres, tais como: manter hábitos saudáveis, trabalhar ou
fazer trabalhos voluntários, fazer boas leituras, ir ao teatro e ao cinema, ter lazer,
ter vida social ativa, fazer reuniões com amigos e conviver com pessoas, estudar
assuntos de seu interesse, orar, viver em paz com Deus e com os homens, viver
bem consigo mesma, observar o que acontece em seu corpo, cuidar do emocional
para não somatizar, observar a natureza "com olhos, mente e corpo".

Sua saúde poderia ser melhor se...


A pergunta de número 62 do questionário de nossa pesquisa pedia uma
complementação ao enunciado do título, sobre de que forma as pessoas
pesquisadas poderiam melhorar sua saúde. Das 140 pessoas da amostra, 33 não
responderam; um grupo de 14 pessoas afirmou que está em boa saúde e "se
melhorar estraga". Uma delas expressa claramente: "Apesar de ter tido câncer de
mama e osteoporose, sinto que tenho muito boa saúde." Uma outra pessoa
afirma: "[Minha saúde] não poderia ser melhor. Estou ótima. Cuido de todos os
trabalhos da minha casa e ainda ajudo minhas filhas na casa delas."
Um grupo de 49 pessoas vê uma possível melhora em sua saúde a
partir de intervenções externas a si mesmo, enquanto outras 40 pessoas julgam
ser possível a melhora de sua saúde a partir de ações que elas próprias possam
empreender.
As ações externas que poderiam melhorar a saúde dos idosos
pesquisados são as que melhorassem os sistemas ou os planos de saúde,
145

inclusive no aspecto de sua acessibilidade, ou a situação financeira das pessoas,


principalmente das que dependem de aposentadorias. Um grupo de 10 pessoas
entende que, para sua saúde tornar-se melhor, é necessário que a biomedicina
descubra terapias mais eficazes de combate a vários males que o afligem
(diabetes, hipertensão, dores reumáticas, púrpura, etc.). Outras pessoas sugerem
oferecer melhor qualidade de vida aos idosos e remédios mais baratos. A saúde
também poderia ser melhor "se eu tivesse antes a cabeça que eu tenho hoje", "se
eu morasse perto do mar, ou na região quente sem poluição", se fosse mais
nova", "se não tivesse trabalhado muito além de minhas forças", "se não tivesse a
parte de jovens que não entendem os velhos".
As ações que as próprias pessoas podem realizar para que sua saúde
seja melhor dizem respeito ao maior empenho em realizar consultas e exames
médicos preventivos, em fazer atividades físicas, em controlar hábitos
(principalmente os alimentares), ao desenvolvimento de hábitos saudáveis, como
ter uma vida social e um trabalho produtivo, e ao controle das emoções
decorrentes da vida familiar e do estresse proporcionado pelos afazeres
cotidianos. Uma pessoa julga que sua saúde seria melhor "se houvesse vontade
de melhorar as condições de vida: meio ambiente, tranqüilidade nas relações
sociais, qualidade de vida, etc."; e arremata: "mas isso é uma preocupação para
melhorar o estado de vida de todas as camadas sociais."

Muitas pessoas acreditam que o sistema de saúde irá à falência


A pergunta 63 do questionário de nossa pesquisa solicitava uma
tomada de posição frente à afirmativa que os idosos são culpados pela falência
dos sistemas de saúde, por viverem mais tempo que nos anos passados e por
serem os custos de seu atendimento de saúde mais alto (supostamente por causa
de internações hospitalares mais prolongadas e de procedimentos médicos
especializados mais caros).
Das 140 pessoas pesquisadas, 17 não responderam à pergunta ou não
sabem (1 pessoa), 30 concordam com o enunciado da pergunta (duas delas
apenas parcialmente) e 32 pessoas discordam. As demais (61) não concordam
nem discordam, mas aproveitam para formular juízos sobre os sistemas de saúde
e a saúde dos idosos.
146

Na realidade, muito poucos entre os que concordam com o enunciado


da pergunta assim pensam porque acham que os velhos realmente vivem mais e
adoecem mais facilmente, necessitando de mais cuidados. A maioria tem outros
motivos para isso: baixa cota orçamentária destinada à saúde, situação de
descalabro da saúde dos idosos, falta de mudança da "mentalidade dos
governantes", "incompetência das autoridades", ou "falta de vontade para
melhorar o nosso sistema de vida, saúde, educação" , equívoco das políticas
sociais que "jogam dinheiro na recuperação dos doentes e não na promoção do
bem-estar físico, social, mental", "falta de orientação da população que procura
desnecessariamente os médicos", desvio das verbas ("ladrões e sanguessugas
nos órgãos do governo encarregados da área da saúde"), falta de fiscalização do
sistema de saúde, má distribuição de renda. Enfim, a maioria dessas pessoas
concordam com a falência do sistema ('a falecida já morreu e não sabe"), mas não
atribui aos idosos as razões desta falência.
Os que discordam também se pronunciam de forma contrária ao
enunciado da pergunta em questão por vários motivos: o sistema não irá à
falência se se ensinar bons hábitos de saúde às pessoas, "a medicina está em
constante evolução e os remédios previnem cada vez mais as doenças" de forma
que "os velhos estão com qualidade de vida cada vez melhor"; "se o governo tiver
os recursos necessários e uma boa administração financeira o sistema de saúde
não irá à falência"; afinal, "é obrigação do governo cuidar dos velhos e não acho
que irão à falência por isso"; "qualquer plano de saúde bem administrado pode e
deve dar lucro"; "não concordo, pois hoje os idosos estão trabalhando e
desenvolvendo atividades físicas"; se a falência do sistema for uma verdade, ela
deve "ser estudada e resolvida para que os mais velhos (...) possam viver o
restante de suas vidas sem maiores preocupações"; "se as autoridades vissem
este problema com mais amor e carinho não se preocupavam com gastos que os
velhos dão, pois já contribuíram muito financeiramente"; "todo ser humano deve
ter tratamento adequado", "acho uma boa desculpa para políticos corruptos", o
sistema de saúde não cuida só dos velhos, porque estes deveriam aceitar a
"culpa" por sua falência? Aliá, os gastos menores com os jovens compensam,
justamente, os gastos maiores com os velhos. O sistema irá à falência "se nossos
147

idosos continuarem sem assistência e não houver ação preventiva para as


crianças e jovens."
Outras pessoas não explicitaram sua concordância ou não com o
enunciado da pesquisa, mas responderam de forma a expressar seu juízo sobre o
sistema de atendimento de saúde: uma pessoa afirma que os jovens de hoje
devem aprender a lidar com o estresse, mais emocional do que físico, para não ter
problemas na velhice; se os jovens tivessem consciência, na juventude, do valor
da saúde, não dariam, na velhice, muitas despesas para o estado; outras pessoas
se queixam dos planos de saúde, feitos apenas "para ganhar dinheiro e não
visando a saúde de ninguém, muito menos velhos", dizendo, também, que se deve
"melhorar o método de convênio no país, pois os idosos não têm como pagar para
se tratar, pois é muito caro e nem todos podem"; alguém afirma que "devemos
cuidar para viver bem em qualquer idade"; outra pessoa clama por "menos
carpetes e mármores e mais eficiência!" Há, também, quem ache que "a velhice
está indo muito bem, pois estamos vivendo mais e com mais saúde, pois temos
mais recursos do que antigamente. Várias pessoas, porém, pensam que os idosos
estão desamparados, pois o governo não prevê serviços necessários e eficientes
para que eles cuidem de sua saúde, razão pela qual alguém entre eles conclama:
"Temos que ir à luta unidos!"

Que pessoa poderia influenciar mais você sobre como cuidar de sua saúde?
As pessoas estão sujeitas a uma série de influências –de opiniões, de
circunstâncias, de exemplos de comportamento, de valorações, de gratificações
ou punições, no dia a dia, especialmente quando querem pôr em ato algum tipo de
mudança de comportamento. Basta manifestar a intenção de fazer uma dieta
alimentar para que uma enxurrada de informações, opiniões e palpites nos sejam
oferecidos. Nestas horas, estabelecem-se canais privilegiados de influência sobre
atitudes, convicções e comportamentos das pessoas, através de uma triagem
perceptiva, afetiva, emocional, racional de todas as mensagens que nos são
enviadas, fruto do conjunto de nossas visões da realidade e de nossas
experiências passadas.
O sentido da pergunta de número 57 do questionário de nossa pesquisa
era justamente de verificar quais seriam as pessoas que mais se constituíam em
148

canais privilegiados de influência, para os idosos pesquisados, em assuntos de


saúde. Como a maioria da amostra possui uma visão biomédica de saúde, era de
se esperar que a centralidade da figura do médico neste tipo de visão resvalasse
para a escolha deste profissional como principal conselheiro dos idosos em
matéria de saúde. De fato, metade das pessoas (67 –tabela 42.57) que
responderam à pergunta indicaram o médico como pessoa de confiança. Os
demais se dividiram entre a família ampliada (familiar, amigo, vizinho –13,5%),
enfermeiro/ fisioterapeuta (7,5%), Qualquer pessoa que não tenha interesse em
influenciar (7,5%) e outra pessoa (11,3%). Os idosos que escolheram esta última
alternativa são os que, em última análise, acreditam ter condições próprias de
decisão em assuntos de saúde (7,5%), sem precisar de mediações, a não ser a de
Deus (3,8%).
Estes dados mostram que o médico não é figura central para a saúde
de metade da população pesquisada, mas que ainda é o principal conselheiro de
saúde para a outra metade, o que significa uma grande responsabilidade dos
médicos com relação a esta parte da população.

O que mais propicia bem-estar na velhice?


A pergunta de número 59 do questionário de nossa pesquisa visava a
verificar se as pessoas da amostra tinham consciência da importância para sua
saúde de uma série de dimensões, relacionadas com a expressão de valores
espirituais, com qualidades físicas, emocionais, intelectuais e de relacionamento
humano e social, como as descritas por WITMER e SWEENEY (1992)107 [G5] Comentário: verificar opágina
da nota no fim.
Todas as pessoas pesquisadas confirmaram a importância das
dimensões propostas na pergunta, atribuindo maior importância às seguintes
dimensões (tabelas 42.59a a 42.59m e 42.60):
1. ser espontânea(o) consigo mesma(o) e com os outros, sem guardar raiva,
ódio e inveja (91 escolhas)
2. sentir o corpo disponível para as atividades diárias e ter alimentação
equilibrada (86 escolhas)
3. sentir-se satisfeita(o) consigo mesma(o) (83 escolhas)
4. manter-se ocupada(o) com algo útil e estar satisfeita(o) com as atividades
desempenhadas (78 escolhas)
149

5. saber enfrentar a vida de forma realista [não ser sonhador(a) ou


saudosista] (65 escolhas)
É bem possível que outro grupo pesquisado respondesse de forma totalmente
diversa, atribuindo importância maior a outras dimensões. O grupo de nossa
pesquisa atribui muito valor, para uma vida saudável, à espontaneidade, à
alimentação equilibrada, à auto-estima, ao manter-se ocupado com algo útil e
satisfatório e a ser realista no trato com os problemas cotidianos.
Acima do valor atribuído a uma ou outra dimensão, importa ressaltar
que todas as pessoas pesquisadas percebem a importância de dimensões não
apenas físicas para a manutenção de uma boa saúde.

As questões sobre visão de saúde


Ao final da análise das respostas ao questionário de nossa pesquisa,
gostaríamos de tecer alguns comentários sobre as próprias questões propostas às
pessoas para expressarem sua visão de saúde (biomédica ou holística). Cada
questão tem capacidade diferente para discriminar os dois grupos. Se
considerarmos as questões que mais atraíram as respostas de tipo biomédico ou
as de tipo holístico (porcentagem de "concordo muito" mais porcentagem de
"concordo pouco" com enunciados correspondentes a uma ou outra visão)
teremos dois grupos de questões mais efetivas na indicação da atitude estudada.
Estes dois grupos estão organizados nas tabelas 24 e 25. São 18
questões de teor biomédico e 21 questões de teor holístico com porcentagem de
resposta afirmativa superior a 50%. Na perspectiva de futuros estudos de
sondagem de atitude para com a saúde, as questões que funcionaram melhor
poderão ser escolhidas, com vista a uma redução do tamanho do questionário.
As perguntas de números 47 a 53 foram formuladas com a intenção de
verificar se elas poderiam substituir as questões originadas da escala de tipo
Thurstone (questões de 1 a 46). Uma rápida análise das respostas a estas sete
perguntas (tabelas 29 a 35) por pessoas integrantes de cada um dos grupos
identificados pela análise fatorial (grupo I Neutro ou de Transição, grupo II
Biomédico, grupo III Holístico) mostra que não há correlação relevante entre estas
sete perguntas e as do conjunto da escala de tipo Thurstone. Dentre elas, as que
melhor discriminaram os dois tipos de grupos foram as perguntas de números 49
150

("Uma terapia é boa quando..."), 50 ("A prevenção das doenças se faz


principalmente...")e 52 ("Para manter sua saúde, você precisa..."). A que menos
discriminou os dois grupos foi a de número 53, sobre a morte. A grande maioria
das pessoas que integram os três grupos indicados pela análise fatorial (69,6% do
grupo I, 84,6% do grupo II, 91,2% do grupo III) responderam que a morte é uma
experiência humana digna de ser vivida e compartilhada.
151

XI. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na Introdução desta dissertação nos colocávamos uma série de perguntas:


1. o que vem a ser o paradigma holístico em saúde e se ele faz algum sentido
para pessoas educadas a interpretar a realidade de forma científica;
2. se o chamado paradigma holístico tem chegado ao conhecimento da
população idosa;
3. como as visões biomédica e holística de saúde estão presentes no mundo das
representações sociais dos idosos e como elas se estruturam de forma a
orientar seus comportamentos relativos aos cuidados com a saúde;
4. o que os velhos fazem para se manterem saudáveis nas difíceis condições de
vida oferecidas por uma megalópole como São Paulo;
5. se uma visão cartesiana ou biomédica da saúde bloqueia a procura da
prevenção das doenças e da promoção de hábitos de vida saudáveis ou se
uma visão holística de assistência à saúde favorece a busca e a manutenção
da saúde através de hábitos saudáveis de vida e de ações preventivas;
6. se paradigmas e percepções sobre saúde são tão poderosos a ponto de
afirmar-se, na ocasião do aparecimento de doenças, para orientar as ações
das pessoas que buscam a solução de seus problemas de saúde;
7. em que consiste de fato promover a saúde de idosos e fazer prevenção
primária de doenças em idosos;
8. se os mais velhos irão sobrecarregar os sistemas de saúde e, assim, prejudicar
o acesso dos mais jovens aos serviços de saúde ou se este problema não
poderia ser solucionado ensinando às pessoas a ter algum tipo de controle
sobre sua saúde.
Julgamos que a primeira interrogação foi suficientemente respondida no
capítulo II sobre Ciência e Paradigma e no capítulo III sobre Paradigma Holístico
ou da Transdisciplinaridade. É difícil discordar do núcleo da análise histórica da
ciência de Thomas KUHN: o desenvolvimento da ciência se dá pela invenção de
novas teorias e pela afirmação sucessiva de paradigmas, o novo explicando as
anomalias, ou descompassos entre teoria e natureza, que aparecem sob a égide
do antigo paradigma. Também, parece-nos aceitavel afirmar que Holismo ou
152

Transdisciplinaridade é um conjunto de proposições teóricas abraçado por um


grupo cada vez mais amplo de estudiosos, teóricos e cientistas, que merece ser
considerado, na medida em que é uma proposição plausível para a superação das
dificuldades advindas do atomismo explicativo da natureza e da realidade,
decorrente da visão dominante cartesiana.
A segunda interrogação foi respondida por nossa pesquisa, ao menos
no que diz respeito ao grupo de idosos pesquisados: há idosos, possivelmente
ainda uma parte minoritária da população idosa total e, provavelmente, em maior
número entre os menos velhos, que possuem uma visão holística clara e definida
da saúde e da assistência à saúde. Nossa pesquisa não se ateve apenas a
perceber indiretamente, através do uso das chamadas terapias alternativas, se os
velhos possuem uma visão holística de saúde; esta visão é algo estruturado, que
procura explicar tanto a saúde e a assistência à saúde, como a busca de sua
manutenção, tanto o enfrentamento das enfermidades como a busca da cura e a
relação com os terapêutas e com a própria morte. Vimos que o uso de terapias
alternativas é mais freqüente no grupo que possui uma visão holística, mas não é
exclusivo deste grupo. Assim, não daria para inferir a existência de uma visão
holística de saúde apenas a partir da prática dessas terapias. Um nível mais
elevado de renda e um grau maior de escolaridade parecem ser condições
facilitadoras do desenvolvimento de uma visão holística de saúde.
Com relação à terceira indagação, o mais relevante é a observação que
a identificação das pessoas pesquisadas com a visão de tipo biomédico se dá
principalmente por concordância com proposições do mesmo tipo, enquanto a
identificação com a visão de tipo holístico resulta mais da discordância com
relação às expressões de teor biomédico do que da concordância com relação às
proposições de tipo holístico. Este fato sugere que a visão holística vem se
firmando no mundo de significações das pessoas através de um embate contínuo
com a visão biomédica dominante, embate este que tanto pode ser apenas interior
à própria pessoa como ocorrer no mundo externo por meio da recusa das
explicações ou ações que essa visão costuma oferecer. A pesquisa ofereceu
dados que nos permitiram hipotizar a existência de um grupo de pessoas que
parece estar em fase de desestruturação, com relação à visão biomédica e em
fase de estruturação com relação à visão holística e reage aos estímulos do
153

ambiente (no caso, nosso questionário) com um comportamento de insegurança:


preferem não se expor, não se definir e respondem que não sabem. Imaginamos
que pessoas que estejam sendo continuamente bombardeadas com estímulos,
proposições, exortações, imagens e ameaças de cunho biomédico devem sentir-
se um tanto abaladas quando vivenciam algum fato que destoe desse tipo de
visão.
Não sabemos qual é o caminho (ou quais são os caminhos) das
pessoas para integrar uma educação baseada na visão biomédica a uma visão
holística ou para superá-la. Sabemos, porém, que pode haver condicionantes –
internos e externos, para o desenvolvimento de uma visão holística, tais como
depressão, acesso limitado à educação formal e não formal e limitações
financeiras.
Respondendo às nossas quarta e quinta indagações, na megalópolis de
São Paulo, o perfil majoritário dos idosos por nós pesquisados revela que eles
cuidam de sua saúde cultivando hábitos de higiene e outros hábitos saúdáveis de
vida (ou estilos de vida), tomando vacinas, fazendo exames períodicos,
especialmente com médicos especialistas, utilizando terapias “alternativas” e
praticando exercícios . E há, também, uns poucos que dispensam cuidados, por
demasiado saudáveis. A visão biomédica não é limitante para o comportamento
clássico de prevenção (hábitos de higiene e vacinas), mas a visão holística parece
favorecer ou coexistir melhor com estilos de vida saudáveis.
Sobre a sexta indagação, devemos admitir que nossa reflexão e nossa
pesquisa não nos trouxeram dados suficientemente elucidativos para uma
resposta consistente. No entanto, crenças como as que a maioria dos idosos
pesquisados revelaram acerca da importância de se considerar a morte como algo
significativo a ser vivido, impulsiona-nos a ousar formular a hipótese que
percepções sobre saúde podem ser sim tão poderosas a ponto de orientar as
ações das pessoas que buscam a solução de seus problemas de saúde,
ajudando-as a superar, de forma consistente, as duras dificuldades em que as
doenças podem colocar os velhos, até os mais desamparados.
A sétima indagação remete-nos ao significado da promoção e da
prevenção primária da saúde dos idosos. Abordamos este assunto, de forma
razoavelmente ampla, nos capítulos sexto, sétimo e oitavo deste trabalho sobre
154

saúde dos idosos numa visão biomédica arejada, uma visão holística do
envelhecimento saudável e sobre o que julgamos deva ser uma saúde integral
para os idosos. Apenas gostaríamos de ressaltar aqui quais seriam as dimensões
mais importantes para o bem-estar na velhice, segundo a maioria dos idosos por
nos pesquisados: ser espontâneo consigo mesmo e com os outros, sentir o corpo
disponível para as atividades diárias e ter alimentação equilibrada, sentir-se
satisfeito consigo mesmo, manter-se ocupado com algo útil de forma satisfatória e
saber enfrentar a vida de forma realista.
A última indagação refere-se a duas questões principais: uma previsão
de futuro (se a população idosa, ao aumentar exponencialmente nos próximos
anos, irá levar à falência os sistemas de saúde) e uma questão educacional (se
podemos ensinar às pessoas, com sucesso, como ter algum controle sobre sua
própria saúde). De certa forma, a resposta à segunda destas duas questões trará
a resposta à primeira.
Nos tópicos sobre aquisição de hábitos saudáveis de vida (p. 96) e sobre como [T6] Comentário: verificar pagina no
fim
mudar os próprios hábitos de vida (p. 98) oferecemos a abordagem de Albert [T7] Comentário: verificar pagina no
fim
BANDURA sobre esses temas, a qual mostra a possibilidade de se aprender
hábitos de vida, bem como as condições em que esta aprendizagem pode ocorrer,
embora com as possíveis restrições de críticos dos estudos e programas de ação
social empreendidos, segundo os quais apenas as pessoas já orientadas para a
construção de hábitos ou estilos de vida saudáveis seriam passíveis de serem
efetivamente educadas.
Não sabemos, mas talvez haja alguma “salvação” para os “refratários“.
Se ela ocorrer, deverá ser vivencial. ALVES e RABELO (1998) tecem
considerações com relação à experiência da doença que, a nosso ver, podem ser
aplicadas à vivência da reeducação dos hábitos de vida. Eles consideram que, ao
se propor um determinado fim (adquirir um novo hábito, por exemplo), nem
sempre as pessoas têm um domínio reflexivo sobre todas as fases de sua ação,
assim como não agem apenas por simples automatismo, pois elas têm um projeto
a realizar. Freqüentemente, então, as pessoas atuam com “uma capacidade pré-
reflexiva do corpo” de se ajustar e de se engajar ativamente na situação. Dizem os
autores que não se trata de deslocar o “domínio das idéias para o domínio do
155

habitus” sobre a ação. Eles apontam, antes, a relação “entre a experiência pré-
reflexiva de ser-em-situação e a definição reflexiva de novas situações (fins)”.
Para adquirir um novo hábito, as pessoas precisam recorrer a uma série
de representações e estas, segundo os mesmos autores, não constituem um
conjunto fechado de conhecimentos que determinam suas práticas, mas um
conjunto “aberto e heterogêneo que comporta zonas de imprecisão e elementos
contraditórios e que é continuamente refeito”. Assim, é possível entender por que
tanto a experiência do adoecer como a da aquisição de um novo estilo de vida, é
marcada por dúvidas, incertezas, incoerências, ambigüidades, indecisões, que
costumam desaparecer quando o sujeito consegue colocar a doença ou o hábito
sob seu controle.
Ao atuar em programas de educação para a saúde, normalmente, os
agentes educacionais se relacionam com maior freqüência com as pessoas-alvo
destes programas de uma forma discursiva. ALVES e RABELO apontam, então,
para a necessidade de superar a análise do discurso das pessoas para dar lugar à
manifestação das “determinações e contextos das pessoas, dos lugares, dos
momentos e das razões que levaram os indivíduos a proferir uma fala.” É no ato
da fala, e não na fala em si, que é possível ultrapassar um conjunto dado de
significações: o sentido da fala se revela e se completa no próprio ato do falar.
Mais do que isso, “toda fala é sempre parte de um diálogo em curso; seu sentido
se forma e é compreendido no diálogo”.
Com isto, os autores alertam para a dificuldade de se enquadrar a
experiência das pessoas em esquemas ou modelos, ou representações,
previamente moldados e concluem que todo empreendimento que as pessoas
levam a cabo para resituar-se no mundo social exige dos operadores sociais
“atenção para o transcurso temporal de organização e reorganização do cotidiano”
que marca a experiência da reeducação (mudança de hábito).
As dificuldades de modificação de comportamentos expressas pelas
pessoas não advêm de uma compreensão das prescrições e orientações médicas,
mas sim “da experiência de uma resistência imposta pelo corpo, enquanto assento
do hábito.” Como ”o hábito expressa um conhecimento radicado no corpo”, as
ações que visam a mudanças de hábitos não deveriam ser de tipo reflexivo, mas
sim de tipo vivencial (uma compreensão corporal).
156

De qualquer forma, os idosos ouvidos em nossa pesquisa, ainda que


aceitem a afirmação que os sistemas de saúde poderão falir por causa do
envelhecimento populacional, rejeitam qualquer responsabilidade por esta
eventual ocorrência. Em qualquer situação, os que tiverem aprendido a ter algum
tipo de controle sobre as condições favoráveis para a manutenção da saúde serão
favorecidos, pois não dependerão apenas de um sistema falido de assistência.
O “resituar-se” contínuamente no mundo aplica-se, também, às
pessoas da amostra de nossa pesquisa. Os dados aqui apontados retratam um
momento de suas vidas e certamente irão se modificar à medida que novas
experiências com relação à saúde e à doença forem sendo incorporados a. suas
existências. Entre as coisas novas frente às quais os idosos deverão resituar-se
está um novo papel social para a terceira idade.
Os nascidos no período pós-segunda guerra mundial estão liderando as
mudanças tecnológicas e políticas de nosso mundo atual. Eles chegarão, nos
próximos anos, à idade da aposentadoria e da velhice “estatística”. Em nosso
país, estas pessoas são as que desfrutaram dos benefícios que a ideologia do
Estado de Bem-Estar pôde a elas proporcionar; entre esses benefícios, uma
aposentadoria. Por minguada que seja, sabe-se que ela representa algum grau de
poder econômico, até para quem recebe apenas um salário mínimo e que acaba
sendo o principal esteio da família, em nosso mundo cada vez mais carente de
empregos “não precarizados”.
A estas pessoas, principalmente, caberá construir um novo sentido para
o papel dos idosos em nossa sociedade. Desempenhar um papel reconhecido
pelo grupo social é um fator de equilíbrio psicofísico, importante para a saúde das
pessoas. A gerontocracia já foi uma realidade em várias regiões do globo. O poder
dos velhos voltará a firmar-se nas sociedades envelhecidas? Será este o
novo/velho papel dos idosos? O papel de “sábio” também já foi um papel
reconhecido em muitas sociedades. A reverência à sabedoria dos idosos, perdida
nas sociedades modernas que vêm substituindo a memória psíquica pela memória
física (de silício), ainda subsiste em alguns lugares deste planeta. Este papel
continuará vingando no futuro? Acreditamos que sim, porque os velhos sempre
poderão oferecer a experiência das coisas vividas (que nenhuma fala ou imagem
gravada pode reproduzir) e, sobretudo, a sabedoria “das coisas mortas”. Embora a
157

morte não seja uma prerrogativa das pessoas idosas, todas elas enfrentam o
desafio da morte, durante anos a fio (o tempo todo em que a morte se colocar
diante de cada uma como sendo a busca de um significado). À medida que a
idade avança, a morte se afigura como a meta do significado da vida: se houver
algum significado, a morte o revelará. Toda sociedade precisa que os velhos
continuem a ensinar os outros a viver e a morrer, já que eles sabem viver,
inclusive, morrer.
158

XII. BIBLIOGRAFIA

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p. 140-8.
161

XIII. ANEXOS

I. ESCALA DE TIPO THURSTONE, SOBRE ATITUDES EM


RELAÇÃO À SAÚDE, APRESENTADA AOS JUÍZES

II. ESCALA DE TIPO THURSTONE (texto explicativo)

III. DIMENSÕES RELACIONADAS COM A ATITUDE FRENTE À


SAÚDE

IV. LISTA DOS JUÍZES QUE RESPONDERAM AO QUESTIONÁRIO

V. QUESTIONÁRIO SOBRE SAÚDE DOS IDOSOS (PRÉ-TESTE)

VI. QUESTIONÁRIO SOBRE SAÚDE DOS IDOSOS (VERSÃO


DEFINITIVA)

VII. RESPOSTAS ÀS PERGUNTAS ABERTAS DO QUESTIONÁRIO


162

XII. TABELAS E FIGURAS

TABELA 1 - RESPOSTAS DOS JUÍZES: VALORES DE MEDIANA E


DESVIO-PADRÃO DOS ENUNCIADOS DA ESCALA DE
TIPO THURSTONE
163
164
165
166
167
168
169
170
171
172
173
174
175
176
177
178
179
180
181
182
183
184
185
186
187
188
189
190
191
192
193
194
195
196
197

XIII.
198

XIV. NOTAS

1
AGÊNCIAS INTERNACIONAIS. Jovens e velhos vão superpovoar o mundo. Folha de S. Paulo,
São Paulo, 2 set. 1998. Mundo, p.9.
2
Seguindo uma praxe comum no mundo da demografia brasileira, consideraremos, neste trabalho
velha ou idosa, a pessoa com 60 ou mais anos de idade. Ressalte-se, porém, que as demografias
européia e americana consideram velha a pessoa com mais de 65 anos. Isto significa que, à
medida que a população como um todo vai envelhecendo, vai-se postergando a entrada oficial na
categoria de “velho”. Este é um dos aspectos desta categoria, o de ser socialmente ou
culturalmente definida, além de o ser bio e psicologicamente.
3
Apud NERI e SILVA, 1993, p. 217.
4
Fritjof CAPRA é Philosophy Doctor pela Universidade de Viena, físico e conferencista, autor de
vários trabalhos sobre as implicações filosóficas da ciência moderna. Os conceitos sobre saúde, de
sua autoria, foram extraídos de seu livro O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura
emergente.
5
Everardo Duarte NUNES. Saúde coletiva: história de uma idéia e de um conceito. Saúde e
sociedade, São Paulo, 1994, 3 (2), p. 5-21.
6
Após a introdução do novo paradigma, a comunidade científica deve redefinir-se, aceitando ou
não o paradigma.
7
Quebra-cabeças, para KUHN, são problemas que têm soluções asseguradas, no contexto de um
paradigma aceito, e que obedecem a regras "que limitam tanto a natureza das soluções aceitáveis
como os passos necessários para obtê-las" (KUHN, 1998, p. 61).
8
A holografia é uma técnica de fotografia sem lentes, baseada na propriedade de interferência das
ondas luminosas; a imagem resultante chama-se holograma; nele, cada parte parece conter o
todo, visto que, quando uma parte é iluminada, ela reconstrói o todo, embora de forma menos
completa do que a imagem toda iluminada possa fazer.
9
Mencionado por CAPRA (1997, p. 277). Lynn MARGULIS e Dorion SAGAN, em seu livro Micro-
cosmos: quatro biliões de anos de evolução microbiana (Lisboa: Edições 70, 1990) explicitam este
conceito da seguinte forma: “ (...) a vida se torna limitada e rígida à medida que se estende pelo
seu curso eucariótico (adquirindo a forma de células providas de núcleo – n.d.a.). Trocamos a
flexibilidade genética pelo tamanho macrocósmico, pela energia e pelos corpos complexos de que
desfrutamos. Mas, sendo a transferência genética apenas possível durante o processo reprodutivo,
achamo-nos confinados à nossa própria espécie, aos nossos corpos e à nossa geração. (...)
procedemos à troca de genes „verticalmente‟ – por intermédio das gerações – enquanto os
procariotas (bactérias cujas células não são nucleadas – n.d.a.) o fazem „horizontalmente‟ com os
seus vizinhos da mesma geração. O resultado disto é que enquanto, do ponto de vista genético, as
bactérias fluidas são funcionalmente imortais, nos eucariotas o sexo vem associado à morte”.
(p. 90).
10
Esta hipótese foi formulada pelo químico James LOVELOCK e pela microbióloga Lynn
MARGULIS, ambos citados por CAPRA (1997, p. 277). O livro de James LOVELOCK intitula-se
Gaia: um novo olhar sobre a vida na terra (Lisboa: Edições 70, 1989) e o de Lynn MARGULIS em
co-autoria com Dorion SAGAN foi citado na nota anterior. Ver citações da hipótese de Gaia às
páginas 23, 42 e 50.
11
D' AMBROSIO (1997, p. 166) observa que a luta pela sobrevivência individual e pela
continuidade da espécie é uma característica de todos os seres vivos; portanto, ela existe também
no ser humano. No entanto, nele, esta característica é submetida à sua vontade, de modo que lhe
é peculiar um comportamento de poder decidir sobre seu próprio comportamento. E continua: "Este
é um princípio essencial, chamado, nas diferentes tradições, de espírito, alma, ânima, carma e
várias outras denominações. A vontade gera a necessidade essencial de explicar, entender,
transcender a própria existência da pessoa, extraí-la de seus ancestrais, projetá-la nas gerações
futuras. Assim, o homem adquire um senso de passado e futuro –o senso do tempo. O impulso
para a sobrevivência é, desse modo, associado ao que se orienta para a transcendência. Os dois
juntos configuram a essencialidade da vida humana."
199

12
CAPRA acolhe uma expressão de George COGHILL, o qual desenvolveu uma concepção
sistêmica dos organismos vivos e da mente muito antes do surgimento da teoria geral dos
sistemas: “mentação” significa a auto-organização dos organismos de níveis inferiores.
13
Sobre a hipótese de Gaia, ver citações às páginas 42 e 50.
14
Sobre o tema da cartografia da consciência numa chave intercultural, oriente-ocidente, consultar
o livro de Ken WILBER O espectro da consciência. São Paulo: Cultrix, 1995,.292 p.
15
Jonathan GOLDMAN escreveu um livro intitulado Os sons que curam (São Paulo: Editora
Siciliano, 1994), em que trata “dos harmônicos vocais como ferramenta de cura e
autotransformação”: “Como descobrimos, existe um princípio básico para o uso dos sons como
modalidade de cura, que é o conceito de ressonância. Ressonância é a base de todas as terapias
sonoras que já analisei. Como você deve estar lembrado, a ressonância é a freqüência vibratória
básica de um objeto. Tudo no universo está em vibração. Isso inclui o corpo humano. Cada órgão,
osso, tecido e outras partes do corpo têm uma freqüência de ressonância saudável. Quando essa
freqüência se altera, aquela parte do corpo vibra em desarmonia, e é a isso que damos o nome de
doença. Se fosse possível determinar a freqüência de ressonância correta de cada órgão
saudável, projetando-a sobre essa parte doente, o órgão deveria voltar à freqüência normal,
ocorrendo a cura.” (p. 88-9).
16
O teorema que GÖDEL demonstrou em 1931 afirma que “um sistema de axiomas
suficientemente rico nos leva, inevitavelmente, a resultados quer indecidíveis, quer contraditórios.”
(NICOLESCU, 1999, p. 53).
17
Segundo WEIL, esta é a idade da história humana em que não havia separação entre os
conhecimentos artístico, filosófico, científico e religioso (é uma fase pré-disciplinar). Exemplos
desta fase indiferenciada, marcada pela "não separatividade" entre sujeito e objeto, são as
cerimônias indígenas de celebração da harmonia com a natureza e a vida integrada em torno da
expressão do sagrado, ainda hoje florescente em alguns lugares da Índia, da China e do Tibete,
em monsteiros cristãos e centros sufis.
18
Diga-se de passagem que o texto de WEIL é anterior ao texto de NICOLESCU e, portanto, é
possível que a separação entre holopraxis e holologia (esta sendo a abordagem intelectual do
holismo), na transdisciplinaridade, tenha sido superada por uma reflexão posterior sobre a
formulação deste mesmo paradigma.
19
Para uma interpretação da representação social, ver a obra de Serge MOSCOVICI já citada e o
capítulo deste trabalho sobre resultados da pesquisa (p. 115 e seg.).
20
ILLICH cita o livro de Talcott PARSONS Illness and the role of the physician (original de 1948) e
o livro de Miriam SIEGLER e Humphrey OSMOND Models of madness: models of medicine,
editado por Macmillan em Nova York em 1975.
21
Ultimamente, a psicopatologia parece estar contribuindo para uma intensificação da
medicalização de nossas sociedades, esmerando-se na definição de novas doenças. Michelle
COTTLE, em artigo do The New Republic, publicado no jornal Folha de S. Paulo (Sociofobia: o
comércio da timidez, 28 mai. 2000, Mais, p. 14-7), historia os esforços da comunidade médica para
definir uma nova doença: a sociofobia. A este respeito ela diz: "As definições de doença e de
saúde não pertencem exclusivamente ao reino da ciência pura. São também fenômenos sociais,
culturais e econômicos. Não são inventadas, exatamente, mas incutidas e moldadas para
aceitação pública por um conjunto de pesquisadores médicos, profissionais de saúde mental,
laboratórios farmacêuticos e grupos de opinião, todos atuando em graus variados de ambição,
conhecimento científico, oportunismo e boas intenções. Em geral é um processo longo e penoso.".
O psiquiatra e psicanalista Contardo CALLIGARIS escreveu um artigo, no mesmo jornal Folha de
S. Paulo (Invenções para policiar a vida, 9 dez. 1999, Ilustrada, p. 4-9), no qual descreve o que ele
chama de "uma das últimas maluquices da psicopatologia comportamental americana": a raiva do
ar (doença comportamental de pessoas que manifestam raiva em situação de viagem aérea). Ele
afirma que "A invenção de entidades psicopatológicas a partir de puras descrições
comportamentais está sempre a serviço de uma paixão de policiar a vida".
22
Segundo CAPRA (1997, p. 317), um organismo que, além de manter sua autonomia, não sabe
integrar-se nos vários sistemas que compõem seu meio ambiente não pode ser saudável.
A capacidade de integração depende da flexibilidade de cada organismo, isto é "de quantas de
suas variáveis se mantêm flutuando dentro de seus limites de tolerância" (1997, p. 316).
23
Vários enunciados de nossa escala de tipo Thurstone (Anexo III) foram extraídos deste texto.
200

24
Steven POLGAR. Salud. In: Enciclopédia Internacional de las Ciencias Sociales. Madrid: Aguilar,
1974, v. 9 p.451-6 (apud MOURA, 1989).
25
Ver o título "os pilares da transdisciplinaridade e o novo princípio da relatividade", p. 28.
26
Priscila KUPERMAN. (Centro de Educação em Saúde do SENAC-SP). Comunicação pessoal,
abril 2000.
27
Segundo CAPRA (1997, p. 316), estas forças adaptativas são inatas e constituem processos de
automanutenção, como a homeostase, a adaptação, a regeneração e a auto-renovação.
28
Segundo CAPRA (1997, p. 316), a estabilidade dos seres vivos, devida à sua capacidade de
auto-organização, não é estática e sim dinâmica, isto é "caracterizada por flutuações contínuas,
múltiplas e interdependentes." A flexibilidade significa existência de diferentes opções para a
interação com o meio ambiente e é essencial para a saúde.
29
SOGYAL Rinpoche (1999, p.52-3) afirma que "as crises que ameaçam a vida, por exemplo as
causadas por doenças graves, podem gerar transformações de profundidade semelhante" (à das
experiências de quase-morte - n.d.a.) e cita a experiência de uma médica que, enquanto morria de
câncer, escreveu em seu diário: "Tenho tido experiências que nunca havia tido, o que devo
agradecer ao câncer: humildade, conciliação com minha própria mortalidade, conhecimento de
minha força interior -que continuamente me surpreende- e mais coisas a meu respeito que
descobri porque tive de interromper meus passos, reavaliar tudo e prosseguir."
30
Vide o título "Mente e consciência", p. 22.
31
Ver citações sobre a hipótese de Gaia às páginas 20, 23e 50.
32
Vide o título " A zona de não-resistência ou do sagrado", p. 29.
33
Vide o título "Em busca de um sentido para a saúde", p. 38.
34
CAPRA (1997, p. 315) diz que saúde é um processo contínuo e não um estado estático de bem-
estar: "(...) o conceito sistêmico de saúde subentende atividade e mudança contínuas, refletindo a
resposta criativa do organismo aos desafios ambientais."
35
O autor ficou sabendo, há tempos, de uma pessoa que, em um momento de desespero, havia
augurado para si mesma morrer de câncer, em virtude de uma situação familiar difícil que estava
vivendo, e acabou morrendo mesmo de câncer. Há pessoas que criam sintomas de doenças para
merecer atenção, carinho e cuidados médicos, conforme relata o psiquiatra e psicanalista Contardo
CALLIGARIS no jornal Folha de S. Paulo: é a chamada síndrome de Munchausen, que ocasionaria
1% das hospitalizações nos países chamados do primeiro mundo (Ser vítima é bom e explica tudo,
22 jun. 2000, Ilustrada, p. E 10).
36
Vide definição de saúde da OMS sob o título "O que é saúde?", p. 39.
37
Vide título "Como ser uma velha ou um velho saúdável e com boa qualidade de vida", p. 73.
38
Vide título "Como ser uma velha ou um velho saudável e com boa qualidade de vida", p. 73.
39
Marco Túlio CÍCERO, escritor e orador latino da Roma antiga, afirmava isso em sua obra sobre a
velhice (De senectute), no século I a.C.
40
A teoria dos telômeros, espécie de feixes de DNA que seguram os cromossomos em suas
extremidades, segundo a qual a cada divisão celular as células normais encurtariam os telômeros,
até a morte das células, sugere que estes funcionam como um relógio biológico da vida, ou um
relógio para a longevidade. Este fenômeno expressaria mais um fator crítico para a manutenção da
vida, a nível celular.
41
Mencionado por CAPRA (1997, p. 277). Vide citações do mesmo autor à p. 20 e 55.
42
De acordo com HAYFLICK (1997, p. 39-41), animais (como a paramécia) e plantas (como
bactérias e fungos) unicelulares não são imortais, embora possam parecer sê-lo. Se forem
seguidas as linhagens de células em seu processo de reprodução, daria para verificar que elas
morrem após uma série de fissões. De fato, se isso não fosse verdade teríamos milhões de
toneladas de células. Após cerca de 22 gerações só existe uma fração de protoplasma da bactéria
original no novo indivíduo gerado. Assim, não podemos dizer que se trata do mesmo indivíduo!
43
Ver citações sobre a hipótese de Gaia às páginas 20, 23 e 42.
44
Sobre este tema, consultar, também, ILLICH (1977).
45
Thomas MCKEOWN (1976). The role of medicine: mirage or nemesis. Londres: Nuffield
Provincial Hospital Trust.
46
CAPRA (1997) reconhece que a medicina ocidental estuda, através da psicossomática, a
relação entre os aspectos psicológicos e biológicos do organismo saudável e doente - a união do
sistema mente/corpo, mas esta visão ainda é marginal na prática médica ocidental.
201

47
De acordo com CAPRA, os poderes curativos do paciente, por meio de sua atitude mental,
fazem-se everntes nos casos classificados como “efeito placebo” ou como “remissões
espontâneas”. Nos primeiros casos, a cura é atribuída às expectativas positivas do paciente em
conseqüência de sua fé no médico ou no tratamento. Nos demais casos, ocorre o que se costuma
chamar de autocura, sem qualquer intervenção médica. Existe, também o que se denomina “efeito
placebo inverso”, a saber, a influência prejudicial sobre a saúde de atitudes negativas expressas
pelo próprio paciente, pelo médico ou por familiares; ela costuma ser realmente exicial, isto é,
mortífera. Sempre segundo CAPRA, a arte de curar do futuro, inspirada no paradigma holístico,
permitirá “reconhecer o potencial do indivíduo para a autocura direta, sem necessidade de
quaisquer sucedâneos conceituais, como também o desenvolvimento de técnicas psicológicas que
facilitem o processo de cura.” (CAPRA, 1997, p. 324).
48
Para uma análise da medicalização da vida em nossa sociedade, ver o livro já citado de Ivan
ILLICH (1977).
49
Segundo CAPRA (1997), as pessoas recusam-se muitas vezes a aceitar que têm participação
tanto no processo de doença como no de cura; isto porque esta participação assume tonalidades
de culpa. Esta dificuldade das pessoas assumirem uma responsabilidade por sua própria saúde
parece ser crucial para as ações de prevenção das doença e de promoção da saúde. É necessário
que se mostre às pessoas que não há, usualmente, culpabilidade nas ações que podem
determinar o desenvolvimento de uma doença, já que dificilmente alguém pode ter consciência
clara da influência de inúmeras ações do dia a dia sobre a saúde, tanto no sentido de nos
expormos a situações estressantes, quanto no de reagirmos ao distresse de forma inadequada.
Mas, isso não nos tolhe a capacidade de influirmos sobre nossas disfunções e nossos
desequilíbrios patogênicos, no sentido de desenvolvermos a doença ou de superá-la. Mais do que
isto, às vezes podemos chegar a entender claramente que certas situações conduzem à doença e,
então, nossa responsabilidade sobre nossa saúde fica patente e, portanto, ineludível. Nesses
casos, mudanças de estilo de vida e de visão do mundo são necessárias ao processo de cura.
50
Ubiratan D' AMBROSIO. Saúde Integral no limiar da era da alta tecnologia. Texto de palestra
proferida no simpósio "Saúde Integral no limiar da era da alta tecnologia", realizado por SENAC-SP
em 10-12 de maio de 1996 no Palácio das Convenções Anhembi, em São Paulo (Programa do
simpósio, p.40-3).
51
Procedimento de pesquisa "duplo-cego" é aquele em que tanto o aplicador como o sujeito da
pesquisa não sabem que tipo de procedimento está sendo posto em ação, para que se evite
fraude. Trata-se de um procedimento necessário apenas nas pesquisas em que for cabível.
52
Informação prestada por Rosaly Corrêa de ARAÚJO, pesquisadora dos National Institutes of
Health, dos Estados Unidos, em sua palestra ("O status atual dos métodos de saúde alternativos
nos Estados Unidos") proferida no simpósio "Saúde Integral no limiar da era da alta tecnologia",
realizado por SENAC-SP em 10-12 de maio de 1996 no Palácio das Convenções Anhembi, em
São Paulo (Programa do simpósio, p.38-9).
53
BRASIL. Portaria Nº 1.395, 9 dez. 1999. Determina que os órgãos e entidades do MINISTÉRIO
da SAÚDE adeqüem planos, projetos e atividades às diretrizes e responsabilidades estabelecidas
em seu anexo sobre Política Nacional de Saúde do Idoso. Diário Oficial da União, Brasília, n. 237-
E, 13 dez. 1999, p. 21-4. Seção 1.
54
Helena E. RESTREPO e Elías ANZOLA PÉREZ. Promoción de la salud de los ancianos. In
OPAS, 1994, p.383-8.
55
J. BRODY. Enfermedades relacionadas com la edad y el envejecimiento. In: Taller la salud de la
niñez, la adolescencia y juventud, y de la Mujer. Washington DC, 9-12 abr., 1990.
56
Aquiles R. SALAS. Los programas de prevención. In OPAS, 1994, p.330-8.
57
KING EDUARD'S HOSPITAL FUND FOR LONDON. Promoting health among elderly people.
A statement from a working group. Londres, 1988.
58
Esta afirmação merece ser ressaltada, pois manifesta uma visão de grande abertura, para além
de um olhar medicocêntrico, com relação à problemática da saúde dos idosos.
59
Alex KALACHE. ¿Qué repercusiones tiene el envejecimiento de la población en el futuro
previsible? In OPAS, 1994, p.453-67.
60
David GALINSKY. Atención progresiva. In OPAS, 1994, p.319-29.
61
Aquiles R. SALAS. Los programas de prevención. In OPAS, 1994, p.330-8.
202

62
AMERICAN COLLEGE OF PHYSICIANS, Medical Practice Committee. Periodic Health
examination: guide for designing individualized periodic health care in the asymptomatic patient.
Ann. Inter. Med., v. 94, p. 729, 1981.
63
No contexto, esta consulta seria o exame periódico de saúde.
64
Segundo Marialcira QUINTERO O., autora do capítulo sobre programas de detecção na obra já
citada da OPAS (1994, p. 339), a prevenção primária procura evitar o aparecimento de novos
casos de doenças, enquanto a secundária propõe-se a deter a transformação da doença precoce
em doença avançada.
65 65
Marialcira QUINTERO O. Los programas de detección. In OPAS, 1994, p. 339-42.
66
Para o MINISTÉRIO da SAÚDE (1999), conforme definição contida na Política Nacional de
Saúde do Idoso, cuidador é "a pessoa, membro ou não da família, que, com ou sem remuneração,
cuida do idoso doente ou dependente, no exercício de suas atividades diárias, tais como
alimentação, higiene pessoal, medicação de rotina, acompanhamento aos serviços de saúde ou
outros serviços requeridos no cotidiano –por exemplo, ida a bancos ou farmácias–, excluídas as
técnicas ou procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas, particularmente
na área de enfermagem."
67
Victor K.R. MATSUDO. Vida ativa para o novo milênio. Revista de Oxidologia, São Paulo,
set/out, p.18-24, 1999.
68
Joan M. ERIKSON (apud ERIKSON, 1998) afirma a este propósito: "Eu estou convencida de que
se os anciãos solitários tivessem massagens regulares, se não diárias, isso seria espantosamente
benéfico, confortador e relaxante. Nós precisamos perceber a distinção entre o toque de
manutenção - isto é, o toque a serviço da higiene e do manejo (por exemplo, limpar, erguer,
alimentar) - e o toque comunicativo - isto é, o toque a serviço da conexão humana (por exemplo,
esfregar as costas e os ombros, segurar a mão).
Para entender o valor do toque na vida das pessoas e, especificamente dos idosos, ver Ashley
MONTAGU. Tocar - o significado humano da pele. São Paulo: Summus, 1988, p. 427.
69
Ver EUROLINK AGE (1996, p. 25).
70
"Escorados no argumento da falta de recursos, os gestores dos serviços públicos no Brasil -
falsos sanitaristas - pouco têm feito para mudar efetivamente o modelo hospitalocêntrico,
medicalizante e dispendioso e sem controles e acompanhamento dos resultados como o que ainda
hoje está implantado no país" (André Cezar MEDICI. Hiistória e políticas de saúde no Brasil - um
balanço do processo recente de descentralização. São Paulo, 213p. Tese (Doutorado em História
Econômica) - Instituto de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,
1998.
71
PAFFENBARGER, R.S. Jr. et al. [Tit. não disponível.] N. Engl. J. Med., Londres, v. 314, p. 605-
13, 1986 (apud WITMER, J.M. e SWEENEY, T.J. ,1992).
72
O artigo de Victor K.R. MATSUDO (1999), anteriormente citado (nota nº 62) retoma este tema e
cita, também, um trabalho publicado em Londres em 1993 por PAFFENBARGER, R. e
Colaboradores (The association of changes in physical-activity level and other lifestyle
caracteristics with mortality among men. N. Engl. J. Med. v. 328, p. 538-45), para afirmar que os
indivíduos fisicamente ativos apresentam menor deterioração da aptidão física, diminuindo seu
risco de vida, e que os mais ativos apresentam aumento na expectativa de vida. Outro estudo por
ele citado, publicado em Londres em1998, de WANNAMETHEE, G. e Colaboradores (Physical
activity alterations, mortality and coronary disease prevalence in older men. Lancet, v. 351,
p. 1603-8, indica que "o hábito de realizar atividades físicas leves ou moderadas reduz a taxa de
mortalidade total e de mortalidade por causa cardiovascular em homens de idade avançada".
Os benefícios da atividade física para a saúde são antropométricos e neuromusculares
(incremento da densidade óssea, da massa e da força muscular e da flexibilidade, etc.),
metabólicos (aumento do volume sistólico, da potência aeróbica e da ventilação pulmonar, etc.) e
psicológicos (melhora de auto-conceito, auto-estima, imagem corporal, de funções cognitivas e
sociabilização, diminuição de estresse e ansiedade, de consumo de medicamentos etc.).
Os efeitos gerais dos exercícios tem tido um papel importante no controle, tratamento e prevenção
de várias doenças –diabetes, enfermidades cardíacas e respiratórias, hipertensão, arteriosclerose,
varizes, artrose e artrite, dor crônica e desordens psíquicas.
MATSUDO conclui que as evidências da literatura indicam que qualquer atividade da vida cotidiana
é valida, seja realizada de forma contínua ou espaçada, desde que se acumulem ao menos 30
minutos ao dia de atividade na maior parte dos dias da semana.
203

Baseadas nessas evidências, entidades internacionais –ORGANIZAÇÃO MUNDIAL da SAÚDE


(OMS), Conselho Internacional do Esporte e Educação Física (ICSSPE), Centro do Controle e
Prevenção de Doença dos EUA (CDC), Colégio Americano de Medicina Esportiva (ACSM),
Federação Internacional de Medicina Esportiva (FIMS), Associação Americana de Cardiologia, têm
recomendado programas de promoção da atividade física nas populações em geral e nas mais
sedentárias especificamente.
Em São Paulo, em 1996 tem sido lançado o programa "Agita São Paulo" com a finalidade de
aumentar o envolvimento da população do Estado de São Paulo com a atividade física. Este
programa encontra-se em andamento e seus resultados ainda estão sendo computados e
analisados.
73
Segundo Albert Bandura.(1986, p.335-63) há nas pessoas mecanismos de auto-regulação, que
as mobilizam para alcançarem metas de acordo com as normas de cada sociedade. As pessoas
aprendem a observar a qualidade, a freqüência, a quantidade e a originalidade de seus
comportamentos, assim como sua sociabilidade, sua moralidade e a regularidade e a precisão de
seus desempenhos. Aprendem a julgá-los de acordo com critérios pessoais e sociais e a avaliá-los
de forma positiva ou negativa, provendo a si mesmas auto-recompensa ou autopunição.
74
Por exemplo, é possível compensar perda de memória imediata, organizando sistemas de
referência (agendas, listas de consulta rápida) ou organizando conjuntos em subclasses,
facilitando assim seu reconhecimento ou localização. NERI (1993) cita estudo de 1984 de
SALTHOUSE T., no qual ele refere que idosos podem compensar a perda de velocidade na
datilografia de um texto, olhando menos vezes para ele, graças à sua capacidade mais
compreensiva de leitura.
75
Ver capítulo VII "saúde dos idosos numa visão biomédica arejada", p. 56.
76
O próprio documento da Política Nacional do Idoso (MINISTÉRIO da SAÚDE, 1999, p. 20 c.3),
afirma: "A maior parte dos idosos é, na verdade, absolutamente capaz de decidir sobre seus
interesses e organizar-se sem nenhuma necessidade de ajuda de quem quer que seja. Consoante
aos mais modernos conceitos gerontológico, esse idoso que mantém sua autodeterminação e
prescinde de qualquer ajuda ou supervisão para realizar-se no seu cotidiano deve ser considerado
um idoso saudável, ainda que seja portador de uma ou mais de uma doença crônica."
77
A visão sobre assistência à saúde da ORGANIZAÇÃO MUNDIAL da SAÚDE é certamente mais
ampla do que os sistemas de saúde, em geral, conseguem realizar; quem sabe, porque eles sejam
dominados por pessoas, cujas visões são mais estreitas. Na Carta de Ottawa (EUROLINK, AGE,
1996, p. 32), de 1986, a OMS assim definia promoção da saúde: "Entende-se como promoção da
saúde o processo que permite às pessoas exercer maior controle sobre sua própria saúde e
melhorá-la. Para conseguir um estado de completo bem-estar físico, mental e social, o indivíduo ou
o grupo devem ter condições de identificar e realizar suas próprias aspirações, satisfazer suas
necessidades, modificar o ambiente ou a ele se adaptar. A saúde, portanto, considerada como
recurso de vida cotidiana e não como objetivo de vida: um conceito positivo, que insiste não
apenas nas capacidades físicas, como também nos recursos sociais e pessoais. Por conseguinte,
a promoção da saúde não é responsabilidade exclusiva do setor sanitário e, para aspirar ao bem-
estar, ultrapassa também a mera proposta de modelos de vida mais sadios." (t.d.a.).
78
Ver no fim do título "Como ser uma velha ou um velho saudável e com boa qualidade de vida",
p. 77.
79
FUCHS, V. Who shall live? Health, economics, and social choice. New York: Basic Books, 1974
(apud BANDURA, 1986).
80
O texto original da obra citada de Ivan ILLICH foi publicado em 1975.
81
FRIES, J.F., CRAPO, L.M. Vitality and aging: implications of the rectangular curve. San
Francisco: Freeman, 1981 (apud BANDURA, 1986).
82
Existem evidências que pessoas deprimidas têm dificuldade de engajar-se na obtenção de
mudança de hábitos de vida (O boletim Agita News de junho/julho de 2000, do Programa Agita São
Paulo, menciona estudo de James SALLIS e colaboradores sobre a "revisão dos determinantes da
atividade física de crianças e adolescentes". Este estudo mostra uma associação negativa da
depressão com a atividade física de adolescentes. Minha observação pessoal sugere-me que
também pessoas narcisistas possuem, por motivos diversos, esse tipo de dificuldade. Estas
pessoas deixam-se atrair por exercícios físicos que prometem moldar o corpo de acordo com o
figurino da moda, mas encontram dificuldade de entender sua saúde como um movimento interior,
de equilíbrio dinâmico, conforme a visão holística de saúde.
204

83
Ver a este propósito, as prescrições de CAPRA para a implementação de um sistema holístico
de assistência à saúde -item "c (ii)", p. 53.
84
Seminário “Pensar o corpo II”, organizado pelo SENAC-SP em 28/04/00.
85
Carlos Alberto, LIBÂNIO CHRISTO (frei Betto). A mitologia do corpo. Folha de S. Paulo, São
Paulo, 22 jun. 2000. Opinião, p. A3.
86
Ver título "Como mudar os próprios hábitos de vida", p.84.
87
O relatório EUROLINK AGE (1996, p.18) corrobora nossa posição: "As oportunidades que se
nos apresentam durante a juventude podem condicionar nossa saúde ao longo do restante de
nossa vida; eis por quê, neste capítulo, estão incluídas estratégias de promoção da saúde também
para as pessoas mais jovens. É necessário que também os jovens invistam em sua própria saúde
e aproveitem os frutos disso em sua velhice." (t.d.a.).
88
Ver Carta de Ottawa de1986 (EUROLINK AGE ,1996, p. 34).
89
Estas ações educativas são sugeridas pelo documento EUROLINK AGE (1996, p. 19).
90
Joan M. ERIKSON menciona este conceito apresentado por Lars TORNSTAM e seus colegas na
Uppsala Universitet da Suécia. Segundo este autor, gerotranscendência é "uma mudança de meta
perspectiva, de uma visão materialista e racional para uma visão mais cósmica e transcendente,
normalmente seguida por um aumento na satisfação de vida. A "paz de espírito" de muitos velhos
seria um conceito semelhante ao de gerotranscendência (ERIKSON, 1998, p.103).
91
Ver informações sobre o SESC mais adiante, à p. 104.
92
Não é pacífica a definição do que sejam idosos autônomos. Há autores que consideram
autônomo o idoso que tem condições de utilizar os meios públicos de transporte do lugar onde
mora. Assim, um paraplégico poderia ser autônomo se ele tivesse acesso normal aos locais da
cidade , podendo utilizar meios públicos de transporte. No nosso caso, como fizemos contato com
pessoas que já estavam fora de suas casas em locais públicos e todas tinham condições de
responder por escrito ou verbalmente às perguntas do questionário da pesquisa, todas essas
pessoas foram consideradas autônomas. O fato dessas pessoas freqüentarem habitualmente
grupos de encontro ou de atividades era suficiente para que as considerássemos, também,
"socialmente ativas".
93
GUIA BRASILEIRO DA TERCEIRA IDADE 2000: edição São Paulo. São Paulo: hb, 200 p.
hermínia@originet.com.br.
94
Darnício de ASSIS. Trabalho social com idosos no SESC de São Paulo: realizações e
perspectivas. In: Cadernos da Terceira Idade. SESC: São Paulo, agosto 1979, p. 37-9.
95
Ver SESC. Trabalho social com idosos: 36 anos de realização. SESC: São Paulo, 1999, p. 228.
96
Todos os dados coletados em nossa pesquisa e citados neste e no próximo capítulo foram
processados estatisticamente por meio do software conhecido como SPSS, versão 8 for Windows.
97
Ver SESC. Trabalho social com idosos: 36 anos de realização. SESC: São Paulo, 1999, p. 228.
98
Lizete Emília PRATA. Como vivem os idosos no estado de São Paulo. In: SEADE. Conjuntura
demográfica Nº 18. São Paulo: SEADE, 1993, jan/mar 1992, p. 1-16.
99
Estes dados também foram extraídos da publicação do SESC citada na nota 94.
100
Ver capítulo IV "Conceitos de Doença e Saúde", p. 35.
101
Madel T. LUZ. Estudo comparativo das medicinas ocidental contemporânea, homeopática,
tradicional chinesa e ayurvédica em programas públicos de saúde. In: VI Seminário do Projeto
Racionalidades Médicas. Rio de Janeiro: UERJ, IMS, 1996, 47 p. (Série estudos em saúde
coletiva, n. 140).
102
Esta categoria foi construída pela autora e sua equipe "ao estilo de um tipo ideal weberiano"
(ver Madel T. LUZ. Cultura contemporânea e medicinas alternativas: novos paradigmas em saúde
no fim do século XX. In: Physis: Revista Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, jul., vol I, p. 13-43, 1997.
103
Ver descrição destes três grupos no tópico "As visões de saúde e assistência à saúde das
pessoas da amostra" à página 115.
104
Dado confirmado telefonicamente com pesquisador do Centro de Estudos do Laboratório de
Aptidão Física de São Caetano do Sul (CELAFISCS) em 02/05/01.
105
Ver mais adiante o título "O que você fez nos últimos seis meses para cuidar de sua saúde?", à
página 131.
106
Ver citação de Madel T. LUZ à pagina 112.
107
Ver descrição destas dimensões à página 75 e seguintes.

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