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KARL POPPER – OS LIMITES DO CONHECIMENTO

A teoria de Xenófanes do saber humano compreende, pois, os seguintes pontos:


1. O nosso saber consiste em asserções.
2. As asserções são verdadeiras ou falsas.
3. A verdade é objetiva. Ela é a concordância entre o conteúdo da asserção e os factos.
4. Mesmo quando expressamos a verdade mais absoluta, não o podemos saber; ou seja, não o podemos
saber com segurança, com certeza.
5. Porque o "saber" no pleno sentido da palavra é o "saber certo", o saber não existe, mas tão só o
saber conjetural (…).
6. Existe, todavia, no nosso saber conjetural uma progressão no sentido do melhor.
7. O melhor saber é uma melhor aproximação da verdade.
8. No entanto, permanece sempre um saber por conjetura (…).

Para o completo entendimento da teoria da verdade de Xenófanes é particularmente importante


acentuar que Xenófanes distingue a verdade objetiva da certeza subjetiva. A verdade objetiva é a
concordância entre uma afirmação e os factos, quer o saibamos – com certeza – ou não. A verdade não
pode, portanto, ser confundida com a certeza ou com o saber seguro. Todo aquele que souber algo com
certeza, conhecerá a verdade. Mas acontece frequentemente conjeturarmos algo sem o sabermos com
certeza, e essa conjetura ser, efetivamente, verdadeira. Xenófanes insinua, com toda a razão, existirem
muitas verdades (…) que ninguém sabe com certeza; e que ninguém pode saber, ainda que sejam
suspeitadas por muitos. Insinua também que existem verdades de que ninguém sequer suspeita. (…)
Quando aqui se afirma que a ciência da natureza sabe muitas coisas, isto é realmente correto, mas a
palavra "saber" é usada num sentido, aparentemente inconsciente (…) que se conserva ainda hoje na
linguagem corrente. Porque nós, por "saber", entendemos sempre o "saber certo" (…).
Todavia, o saber científico não é precisamente um saber certo. É suscetível de ser revisto (…).
Trata-se de um saber hipotético, de um saber conjetural.
(…) Mesmo quando exprimimos a verdade perfeita, não podemos saber se aquilo que afirmámos é
verdadeiro.
O segundo aditamento que tenho que fazer à objeção de que sabemos hoje muita coisa, é o seguinte:
por cada novo progresso científico, por cada solução hipotética de um problema do domínio das ciências
da natureza, aumenta o número e a dificuldade dos problemas em aberto, e a um ritmo muito mais
rápido do que o das soluções encontradas. Dir-se-á que, enquanto o nosso saber hipotético é finito, o
nosso não-saber é infinito. E não é tudo: para o cientista autêntico das ciências da natureza, que se
interessa pelos problemas em aberto, o universo é sempre, num sentido muito concreto, misterioso.
(…) Trocámos determinadas teorias, determinadas hipóteses, determinadas conjeturas por outras,
muitas vezes melhores – melhores no sentido de mais próximas da verdade. Ao conteúdo destas teorias,
hipóteses e conjeturas podemos designá- lo por saber em sentido objetivo, em contraposição ao saber
subjetivo ou individual.
K. Popper, Em Busca de um Mundo Melhor, Fragmentos, 1992, pp. 176-179.