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DIÁRIO

DA EXAUSTÃO
ISOLADA DA FAMÍLIA,
A MÉDICA BRUNA VILLELA
REGISTROU POR
DOIS MESES SUA ROTINA
DE DESALENTO,
DOÍDAS DERROTAS —
E PEQUENAS VITÓRIAS
por João Paulo Saconi

EPOCA
O CORONAVÍRUS
E A FUGA
“ALGO EM MIM
SE APAGOU”
OS BARRAQUEIROS
DE BRASÍLIA
11.05.20

DO CAPITAL A ESCRITORA LYA LUFT QUEM ESTÁ EPOCA.GLOBO.COM


EM UTIs AÉREAS, RICOS FALA SOBRE A DOR POR TRÁS DA TURMA Nº 1139

DE BELÉM ESCAPAM DE PERDER O FILHO DOS PROTESTOS CARGA TRIBUTÁRIA FEDERAL


APROXIMADAMENTE 4,65%

DO COLAPSO E DO NOVO LIVRO ANTIDEMOCRACIA EXEMPLAR DO ASSINANTE


por Guilherme Amado por Vinicius Sassine VENDA PROIBIDA
por Ullisses Campbell
4

dos editores

A FORTALEZA
DAS INSTITUIÇÕES
O aspecto mais daninho de toda a lamen-
tável fala de Jair Bolsonaro do alto da
rampa do Palácio do Planalto no domingo
algumas graves crises econômicas e a inves-
tidas pontuais do petismo. Tornou-se um
criticado clichê afirmar que “as instituições
passado foi o que se aproximou, retoricamen- estão funcionando”, como se isso fosse uma
te, de 1964. Ao dizer que “chegamos ao limi- espécie de política de “appeasement” mo-
te” e que “não só exigiremos, faremos cum- derna. Nada mais equivocado.
prir a Constituição”, o presidente emulou a Bolsonaro rosna e ameaça justamente
mesma lógica distorcida que amparou o gol- porque as instituições limitam, e muito, a
pe de mais de meio século atrás. Também na- amplitude de seu arbítrio. São os freios e
quela época os militares — esses que o presi- contrapesos manejados com firmeza pelo
dente afirma levianamente estarem a seu lado Supremo Tribunal Federal e pelo Con-
— diziam apenas estar resguardando a Cons- gresso Nacional que enfurecem o presi-
tituição, e não violentando a Lei Máxima do dente e o levam vez ou outra a ameaçar
país, que foi o que de fato aconteceu. veladamente atropelá-los. Só que, enquan-
Felizmente, tudo o mais é diferente. Pela to a sociedade, os demais Poderes e a im-
segunda vez em uma quinzena, as Forças prensa se mantiverem atuantes, ele jamais
Armadas vieram a público reforçar seu pa- terá força para tanto.
pel de guardiãs da Constituição e institui- Assim, a outra alternativa sempre tão ci-
ções de Estado, não de governo. Traduzin- tada para a “morte da democracia”, pelo ca-
do, estão a serviço do Brasil, não do presi- minho do enfraquecimento das instituições,
dente de turno. Ainda assim, não depõem a pouco a pouco, diante das seguidas investi-
favor da instituição as seguidas “avaliações” das do aspirante a déspota de plantão, tam-
de generais sobre a atuação do Supremo bém se encontra firmemente bloqueada no
Tribunal Federal ou do Congresso, institui- país. Não se vislumbra um Judiciário submis-
ções a que devem obediência, e que não es- so ao presidente ou aparelhado por juízes
tão sujeitas a seus julgamentos sobre se ex- que só carimbam seus atos, tampouco um
trapolaram ou não seus papéis. Legislativo que sancione sem questionar to-
A democracia também se fortaleceu em das as suas iniciativas. Muito pelo contrário.
todo o continente ao longo das últimas déca- Enquanto isso, o Brasil enfrenta uma
das, e ditaduras, como a horrenda na vizinha mortífera pandemia feroz que já matou qua-
Venezuela, tornaram-se a exceção, não a regra. se 10 mil de seus cidadãos, e não dá sinais
A brasileira resistiu a dois impeachments, de arrefecer.
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do leitor
escreva para
epoca@edglobo.com.br

ÉPOCA 1138
aceitar. Aliás, tanto no Supremo Bolsonaro é irresponsável, sem em-
quanto no Congresso e no Senado, patia. Minimiza o perigo e insufla o
tem muita gente querendo Moro povo a desrespeitar os governadores
longe. Infelizmente, os interesses e prefeitos. Quem continua bolsona-
pessoais e a tão desejada reeleição, rista é cego ou sem caráter.
para qualquer cargo que seja, distan- Elílio Júnior, via Facebook
ciam o bem e o desenvolvimento sa-
dio da nação brasileira. Enquanto KIM YO-JONG
não houver consciência por parte Quem é a irmã do ditador
dos políticos e da população de que norte-coreano que pode vir
precisamos acabar com a legalização a assumir o governo de seu
da corrupção no Brasil, qualquer luta país caso ele desapareça
será inglória. Moro tentou, mas não É verdade que a irmã do implacável
teve apoio suficiente. Uma pena. ditador coreano, Kim Jong-un, ja-
A TURMA DO “E DAÍ?” Mônica Delfraro David, Campinas, SP mais deu qualquer sinal de reprova-
Os bolsonaristas que ignoraram ção às atrocidades cometidas pelo ir-
a saída de Moro e seguem firmes Não eram a favor do Moro e nem mão. Mas, mesmo que quisesse, deve-
com o governo contra a corrupção. São a favor dos se levar em conta que ela não teria a
Pode-se considerar que o apoio incon- próprios interesses, que é o que Bol- menor condição de ir contra esse
dicional a Bolsonaro restringe-se, atual- sonaro está defendendo. Basta ele pa- DNA opressor e falastrão da família.
mente, a 30% do eleitorado, isso numa rar de defender os interesses dos em- A afirmação de que a Coreia do Sul é
visão otimista após a saída de dois mi- presários e o abandonarão. um “cão assustado que ladra”, em
nistros com elevado prestígio popular. Isaias Goes, via Facebook resposta a um exercício militar norte-
Por esse motivo, haverá uma tendência coreano, em tempo de pandemia, po-
declinante, principalmente em função Foi só averiguar os fatos e a postura de ser uma sinalização de que a bela
do agravamento da situação financeira do Moro para todos entenderem coreana, com traços orientais, com-
do país com a crise da Covid-19, o que quem realmente ele é e principalmen- preende bem a situação atual do país
impossibilitará a agenda liberal sonha- te descobrirem o caráter e a índole, que poderá governar.
da por Paulo Guedes. Talvez tenhamos que, infelizmente e para surpresa de Abel Pires Rodrigues, Rio de Janeiro, RJ
o retorno da inflação, o que afetará milhões, foi uma grande decepção.
inevitavelmente o prestígio do gover- João Luiz Dutra, via Facebook O FUTURO DO GOVERNO
no e o sonho da reeleição. Os rumos do Executivo depois
Dirceu Luiz Natal, Rio de Janeiro, RJ Se retirarem apoio ao governo, perdem que Bolsonaro ficou nas mãos
dinheiro, coisa que Moro não tem. do STF e do Congresso
Além de o presidente não cumprir a Jorge Portugal, via Facebook A cerimônia de assinatura do termo
promessa de carta branca contra a de posse de Rolando Alexandre de
corrupção, foi enfraquecendo o mi- O INSTANTE DECISIVO Souza para o comando da Polícia Fe-
nistério dia a dia e, por fim, já queria Para os editores, a imagem de deral foi realizada de forma velada,
que Moro compactuasse com inte- Bolsonaro contra a corrupção desaba sem nenhum prévio anúncio. O pre-
resses particulares do presidente. O após o depoimento de Moro e a sidente da República, Jair Bolsonaro,
que Moro fez muito bem em não tragédia da doença vira seu legado não conseguiu manter Alexandre
7

DIRETOR-GERAL Frederic Zoghaib Kachar


DIRETOR DE NEGÓCIOS Ricardo Rodrigues
DIRETOR DE DESENVOLVIMENTO COMERCIAL Tiago Afonso
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Lamentável. É triste ver que a ignorân-


cia do brasileiro tem ajudado nesse
aumento. Pediu-se tanto para manter ÉPOCA É UMA PUBLICAÇÃO SEMANAL DA EDITORA GLOBO S.A. Avenida 9 de Julho, 5229 01407-907 São Paulo SP
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o isolamento, mas muitos estão pre- Av. Marcos Penteado de Ulhoa Rodrigues, 700 06543-001 Tamboré, São Paulo, SP

ferindo seguir uma onda de loucos O Bureau Veritas Certification, com base nos processos e procedimentos descritos no seu Relatório de Verificação,
adotando um nível de confiança razoável, declara que o Inventário de Gases de Efeito Estufa — no 2012, da Editora Globo
S.A., é preciso, confiável e livre de erro ou distorção e é uma representação equitativa dos dados e informações de GEE

que dizem ser conspiração para tirar sobre o período de referência, para o escopo definido; foi elaborado em conformidade com a NBR ISO 14064-1:2007 e
Especificações do Programa Brasileiro GHG Protocol.

o pseudopresidente. E nessa irres- VENDAS CORPORATIVAS


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28. SAÍDA PELO AEROPORTO
A FUGA DE BELÉM
Os ricos do Pará pegam
jatinhos para buscar
ajuda médica em São Paulo

34. VIVI PARA CONTAR


O CIENTISTA CONTRA
AS FAKE NEWS
O médico líder da pesquisa
sobre a cloroquina vira
alvo de lobistas e da
10. PERSONAGENS DA SEMANA extrema-direita nas redes
OS ANTIDEMOCRÁTICOS sociais ao contrariar
Vários pequenos grupos eficiência do remédio
de apoiadores do
presidente Jair Bolsonaro 38. CONCORDAMOS
se radicalizam e fazem EM DISCORDAR
ameaças às instituições MARGARIDA GUTIERREZ ×
ALEX AGOSTINI
LEO MARTINS / AGÊNCIA O GLOBO
Os economistas divergem
sobre a ideia de o governo
imprimir dinheiro para
financiar suas contas,
agora pressionadas
pelo socorro a empresas
e vulneráveis

42. DENTRO DAS QUATRO LINHAS


O GOL CONTRA DO VÍRUS
A pandemia afeta as
transferências internacionais
de jogadores numa
mudança histórica
no esporte

46. 17 PERGUNTAS PARA...


52. O ETERNO COOL
O QUE RESTARÁ DO JAZZ
LYA LUFT A morte de grandes nomes
A escritora fala sobre o novo da música em meio
livro, As coisas humanas, à pandemia deixa um vácuo
e a perda do filho André difícil de ser preenchido

14.
MANU DIBANGO; FOTO: VALERIO PENNICINO/GETTY IMAGES

HERÓIS DE MÁSCARA
DIÁRIO DE DENTRO
DE UMA UTI PÚBLICA
As vitórias e os dissabores
da médica Bruna Villela,
que se isolou da família
por dois meses para
se dedicar a salvar vidas
de vítimas da Covid-19
60.
TRANSPORTADA
FICÇÃO

PHILIP ROTH E O BRASIL


DE BOLSONARO
A série Complô contra
a América, inspirada
em livro do escritor
americano, lembra
a atmosfera opressiva
que estamos vivendo

DIVULGAÇÃO/HBO

LEO MARTINS/AGÊNCIA O GLOBO

56.
BRILHANTE
VERDADEIRO
COLUNISTAS
26. GUILHERME AMADO
O ódio como método
GLOSSÁRIO DO ALDIR
De A a Z, os versos 41. MONICA DE BOLLE
do compositor Por que precisamos
que fizeram história de bancos?

51. HELIO GUROVITZ


Por que perdemos
as batalhas para o vírus

65. ALLAN SIEBER

66. LARRY ROHTER


Aquele abraço

sumário 11.05.20 capa: Leo Martins / Agência O Globo


PERSONAGENS DA SEMANA
por Vinicius Sassine

EVARISTO SÁ/AFP

OS ANTIDEM
PERSONAGENS DA SEMANA 11

Cada vez mais radicais,


microgrupos de apoio
a Jair Bolsonaro se
mobilizam e promovem
atos contra as instituições

N o fim da tarde da terça-feira 5, um gru-


po de quatro pessoas, quase escondido
sob as copas das árvores de um amplo es-
mini, de 27 anos, ex-militante de um grupo
feminista ucraniano, o Femen, e que há al-
guns anos passou a se rotular como ex-fe-
tacionamento à margem do Eixo Monu- minista. Ela ganha dinheiro dando pales-
mental, bem em frente ao Estádio Mané tras sobre essa “conversão”.
Garrincha, em Brasília, cumpria sua fun- Sara Winter, como se autodenomina, tem
ção: receber; registrar nomes e dados pes- ideias extremistas e já ocupou um cargo de
soais num caderno de anotações; e encami- confiança no ministério de Damares Alves.
nhar apoiadores radicais do presidente da Durou menos de um ano na pasta. Ela pas-
República, Jair Bolsonaro, a um acampa- sou a ser o principal rosto do movimento,
mento montado em Brasília. Haviam che- convocando as pessoas a viajar para Brasília
gado ali no começo da manhã e permane- a fim de integrar o acampamento e fazer um
ceriam até o começo da noite. “treinamento com especialistas em revolu-
A pauta principal desse coletivo, intitu- ção não violenta e táticas de guerra de infor-
lado “Os 300 do Brasil”, é antidemocrática mação”, como consta numa página na inter-
— com ataques diretos ao Congresso Nacio- net que promove uma vaquinha virtual para
nal e ao Supremo Tribunal Federal (STF) e patrociná-los. O grupo já arrecadou R$ 60
a defesa da intervenção militar. A existên- mil, doados por 640 apoiadores.
cia dos 300 do Brasil ajuda a explicar o que O barulho feito na internet não se conver-
ocorreu no domingo, dia 3, quando um ato te em mobilização numerosa. Na terça-feira,
em frente ao Palácio do Planalto, com a por exemplo, foi rara a procura no ponto de
presença de Bolsonaro, voltou a pregar o recepção do Eixo Monumental. Uma faixa
fim da democracia. São esses grupos ruido- avisava sobre a presença dos representantes
sos — ainda que sem uma expressiva capa- dos 300 do Brasil. Uma van e dois carros fi-
cidade de mobilização — que vêm garan- cavam estacionados, aguardando o compare-
tindo a trilha autoritária explorada cada cimento de apoiadores de Bolsonaro para se-
vez mais pelo presidente. rem conduzidos. Mas ninguém foi transpor-
Os quatro funcionários confirmaram à tado no período em que a reportagem esteve
reportagem a existência de um acampa- por lá. Sara é bem taxativa em seus vídeos
Apoiadores de Bolsonaro mento, mas não quiseram revelar onde ele nas redes sociais: quem chegar à capital, deve
se reúnem em frente está localizado. Os 300 são agitadores da comparecer àquele ponto em frente ao está-
ao Palácio do Planalto
pregando ataques extrema-direita, atuantes nas redes sociais, dio, fornecer dados pessoais para uma varre-
ao STF e ao Congresso com uma porta-voz: Sara Fernanda Giro- dura e, então, ser levado ao dormitório.

OCRÁTICOS
12 PERSONAGENS DA SEMANA

Para os líderes desses grupos radicais, tudo parece


ser muito maior do que efetivamente é. Qualquer
imagem aérea de uma manifestação do tipo revela
seu tamanho diminuto. Mas não é dessa forma
que promovem nas redes seus vídeos — que nem
sempre são reais e aludem a protestos do passado

O festações de apoio a Bolsonaro de for- G Brasil passaram a ser comuns no dia a


s extremistas fazem protestos e mani- rupos difusos e radicais como os 300 do

ma esporádica: em frente ao STF, no Palácio dia de Brasília desde a chegada de Bolsonaro.


da Alvorada, em frente ao Palácio do Planal- São impulsionados tanto pelos filhos do pre-
to (como ocorreu no domingo). São poucas sidente quanto por entusiastas do partido
dezenas de pessoas, muitas delas idosas. O que a família tenta fundar, o Aliança pelo
movimento tem o apoio de pelo menos duas Brasil. No domingo, esses grupos demonstra-
deputadas federais bolsonaristas, Bia Kicis ram disposição para a violência física. Repór-
(PSL-DF) e Caroline de Toni (PSL-SC), que teres foram agredidos em frente ao Palácio
gravaram vídeos com o grupo no dia do ato do Planalto e precisaram deixar a cobertura
antidemocrático em frente ao Planalto. dentro de um carro da PM. A Procuradoria-
Um assessor parlamentar de Kicis Geral da República (PGR) pediu que o Mi-
acampou com o grupo no acampamento nistério Público do DF investigue o caso.
escondido dos “300”. Já o acampamento Outra agressão, dois dias antes da violência
de barracas em frente ao Congresso foi perpetrada contra jornalistas, teve como alvo
desmobilizado pela polícia, por se tratar de um grupo de enfermeiros que fazia um pro-
um local inapropriado para esse tipo de testo silencioso e pacífico na Praça dos Três
atividade. Para tentar protegê-los, a depu-
tada buscou uma interlocução entre os 300 VINICIUS SASSINE/AGÊNCIA O GLOBO
do Brasil e a Secretaria de Segurança Pú-
blica do Distrito Federal. A parlamentar
disse a ÉPOCA que, após a manifestação
no domingo, reuniu-se com o secretário
Anderson Torres para tratar de interesses
do movimento. Os integrantes haviam tido
desavenças com a Polícia Militar (PM), em
razão da insistência em manter barracas
armadas em frente ao Congresso. “Falei
com o secretário que se trata de um grupo
pacífico, para ele ter boa vontade com
eles.” Ainda segundo Kicis, “são pessoas
desarmadas”. Contudo, a deputada disse
não pertencer ao grupo. “Meu assessor
ajudou na chegada das pessoas. Como ci-
dadão, ele tem liberdade para apoiar. Mas
ele não está mais lá. Eu também não man-
tenho ligação com o acampamento, especial-
mente depois de receber no WhatsApp
mensagens com agressões à PM, suposta-
mente de autoria de integrantes do acam-
pamento. Não admito xingamento aos po-
liciais”, afirmou a deputada.
PERSONAGENS DA SEMANA 13

NURPHOTO VIA GETTY IMAGES

À esquerda, Poderes. Com jalecos brancos e cruzes de pa- sença constante no cercadinho na porta do Pa-
estacionamento pelão nas mãos, 60 profissionais de enferma- lácio da Alvorada, onde Bolsonaro para quase
à margem
do Eixo Monumental gem lembravam a morte de 55 colegas da área diariamente — e Marluce Carvalho de Oli-
onde manifestantes da saúde no enfrentamento ao novo coronaví- veira Gomes, que apagou todas as suas redes
são recebidos rus. E reforçavam a importância do isolamento sociais depois de ser reconhecida nos vídeos
e encaminhados
a dormitório social neste momento, quando o Brasil se em que aparece ofendendo os enfermeiros.
em Brasília aproxima do pico do contágio. O grupo foi in- Aos poucos, os atos criminosos come-
terpelado por dois bolsonaristas radicais, um tidos pelas franjas radicais do bolsonaris-
Acima, o presidente
Jair Bolsonaro homem e uma mulher. O homem chegou a mo começam a ser investigados. A pró-
comparece agredir uma enfermeira. A mulher fez a seguin- pria manifestação em frente ao Planalto
aos protestos te afirmação a uma das manifestantes: “Quan- poderá ser objeto do inquérito aberto no
pelo fechamento
do Congresso, do a gente sente o cheiro da pessoa, não passa STF para apurar um ato antidemocrático
no domingo um perfume, a gente entende o que você é”. anterior, em frente ao Quartel-General do
A PGR também pediu que esse caso seja Exército, em Brasília, também com a pre-
investigado. Pelo menos 12 profissionais que se sença do presidente da República. A PGR
sentiram agredidos registraram ou vão regis- avalia fazer essa inclusão.
trar boletins de ocorrência na polícia. E o Con- Nas redes sociais dos líderes desses gru-
selho Regional de Enfermagem (Coren) do DF pos radicais, tudo parece ser muito maior
entrou com uma representação contra os dois do que efetivamente é — qualquer imagem
bolsonaristas junto ao Ministério Público do aérea de uma manifestação do tipo revela o
DF, além de ter oficiado a Polícia Civil. tamanho diminuto desses atos. O extremis-
Segundo o Coren, os dois agressores são mo, porém, é imprevisível e ganha novos
Renan da Silva Sena — um militante com pre- contornos a cada tombo de Bolsonaro.
14 HERÓIS DE MÁSCARA

O DIÁRIO DAS DERROTAS E VITÓRIAS


DA MÉDICA BRUNA VILLELA, QUE HÁ
QUASE DOIS MESES SE ISOLOU DA FAMÍLIA
PARA DAR PLANTÃO EM UM HOSPITAL
PÚBLICO QUE SÓ RECEBE PACIENTES
VÍTIMAS DO NOVO CORONAVÍRUS
por João Paulo Saconi

MINHA VIDA
NA UTI
HERÓIS DE MÁSCARA 15

A neurologista Bruna
Villela, médica da linha
de frente do Instituto
Estadual do Cérebro
Paulo Niemeyer,
transformado em unidade
de referência para o
tratamento de Covid-19
no Rio de Janeiro
FOTO: LEO MARTINS /
AGÊNCIA O GLOBO
LEO MARTINS/AGÊNCIA O GLOBO

A
té menos de dois meses atrás, transformado, desde março, em referência Bruna teve de
a médica neurologista Bruna para o tratamento de Covid-19 no Rio. Outro se separar da filha,
de 5 anos, como
Villela, de 42 anos, dividia seus truque para perseverar diante da nova reali- medida de segurança
dias entre seu consultório, em dade é cobrir os móveis de sua casa vazia para evitar a infecção.
Niterói, e o Instituto Estadual com um lençol, para evitar o acúmulo de po- Há quase dois meses,
as duas só se veem
do Cérebro Paulo Niemeyer, na eira. Nas poucas horas que sobram entre os por chamada de vídeo
Lapa, no Rio de Janeiro, onde dava expedien- plantões e a desinfecção de seus pertences,
te. Com quase 15 anos de carreira, frequen- Bruna não quer perder tempo fazendo limpe-
tar uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) za. Prefere conversar, por meio de chamadas
era atividade corriqueira decorrente de sua de vídeo, com sua filha, de quem se separou
profissão e também das histórias ouvidas de desde o início da pandemia. Tanto a menina
seu pai, que é médico intensivista, hoje apo- quanto seu marido tiveram de sair do aparta-
sentado. Casada e mãe de uma menina de 5 mento em Icaraí, Niterói, e passaram a viver
anos, Bruna tinha uma vida estável. Tinha. com o pai de Bruna, enquanto durar o caos.
Hoje, as marcas em seu rosto começam Para aguentar a barbárie que presencia diaria-
pouco a pouco a sumir. Vão-se os últimos mente na UTI do instituto, Bruna foi aconse-
resquícios de mais de uma dezena de plan- lhada, pela psicóloga que atende a equipe, a
tões trabalhados sob rigoroso esquema de externar sua experiência na pandemia e resol-
paramentação. Para amenizar a dor da pele veu escrever um diário como forma de aliviar
ferida pelas máscaras de uso contínuo, Bruna a angústia. “Não tenho com quem falar em
tentou subterfúgios. casa. Então, comecei a escrever”, explicou.
Comprou ela mesma um estoque de um Reunidos nesta edição de ÉPOCA, os relatos
modelo mais confortável do que o usado na foram escritos, em geral, à noite, quando ela
rede pública, encontrado numa rara oferta na se deitava para dormir, depois de um longo
internet. Para amortecer a fricção dos movi- processo profilático. Em algumas ocasiões,
mentos da face ao respirar com a superfície vencida pelo cansaço, Bruna dormiu enquan-
dura do equipamento, colou protetores de to digitava. A médica descreve desde suas
calcanhar na parte mais rígida. Resultado: expectativas com a nova rotina, logo no início
menos marcas. Truques de sobrevivência nu- da pandemia, até a dor e o desespero que se
ma rotina quase diária de 12 horas ininterrup- instalam enquanto os fracassos se empilham
tas salvando e perdendo vidas no hospital na forma de vidas perdidas.
HERÓIS DE MÁSCARA 17

19 de março não ia suportar por muito tempo. O oxigênio


faltava. Não tinha jeito: precisava ser intuba-
do e acoplado à ventilação mecânica. Enquan-
Hoje foi meu primeiro dia de atendimento to isso, eu pensava: “Ele não viu a família, ele
aos pacientes com Covid-19. Havia, nos pro- não viu a família! Há quantos dias que ele não
fissionais de saúde, um semblante de medo e vê alguém que conheça?”. Cheguei a jogar no
tristeza. Todos eles — médicos, enfermeiros, ar a ideia de fazer uma chamada de vídeo pa-
técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, fo- ra a família dele. São minúsculos segundos
noaudiólogos, pessoal da limpeza e técnicos em que a emoção fala mais que a razão. Mas
de laboratório —, todos estavam diferentes. eu sabia que não era permitido, já que o celu-
Tudo estava diferente. Treinamento para uti- lar pode se tornar um transmissor do novo
lizar equipamentos de proteção individual, coronavírus e infectar outras pessoas.
treinamento de técnicas especiais de ventila- Voltei à realidade. O momento chegou. E
ção do paciente, uma explosão de informa- ali, minutos antes de ser intubado, vi nos
ções diferentes a cada minuto. olhos dele o medo de “dormir” e nunca mais
Nos pacientes sedados e intubados, a ex- acordar. Tinha pavor naquele olhar. Tinha en-
pressão de plenitude trazida pela sedação. trega. Ele estava lúcido, só não conseguia
Nos que respiram em ar ambiente, o rosto do mais respirar adequadamente. Às vezes, olha-
medo. Medo de a falta de ar piorar e de não va para o teto, como se estivesse falando com
conseguir se despedir dos familiares. Sim, as Deus. E foi, então, sedado... Pensei: “Ora! Já
visitas são proibidas. Uma vez internados, passei por isso tantas vezes! Intubar um pacien-
eles não veem mais ninguém. Só aqueles pro- te em terapia intensiva não é nada especial!”.
fissionais aos quais eles entregam suas vidas. Mas em se tratando de uma unidade com tra-
Nos médicos, falando por mim, há um tamento para a Covid-19, será que esse proce-
medo grande de também adoecer, de não dimento se tornará regra e não exceção?
saber o que essa doença reserva para nós. Como percebi no primeiro dia, tudo esta-
Acima de tudo, um medo enorme de levar a va diferente. Tudo tinha proporções diferen-
doença para nossa casa, para nossa família. tes: o medo do incerto, de não saber quantos
Mas, apesar de todo o pavor, há ainda um pacientes perderemos para esse vírus, quan-
outro sentimento: o de dever a ser cumpri- tos pacientes virão. Naquele momento, rece-
do. Ele transborda em nossa consciência e bemos a informação que mais dois pacientes
temos a certeza de que ali é o nosso lugar. estavam chegando, muito graves. Já em venti-
Foi o primeiro dia de atendimento e meu lação mecânica. E começamos tudo de novo.
primeiro dia de isolamento também. Lateja Um dia trabalhoso, cheio de reflexões, mas
o tempo todo na minha cabeça a pergunta contornável. Sei que daqui a alguns dias não
da minha filha, quando nos despedimos on- será assim. Dias piores, muito piores, virão.
tem: “A mamãe vai morrer?”. Assim como Hoje, o medo de me contaminar já não é
eu, muitos de meus colegas estão isolados, mais o mesmo que ontem. De tanto colocar
longe de suas famílias, para tentar protegê- e retirar os equipamentos de proteção indi-
las da infecção. Nós sabemos que a probabi- vidual, e diante do aumento do número de
lidade de sermos infectados é enorme. É doentes, o meu “eu” fica meio esquecido.
iminente. E assim seguimos, enquanto pu- Nós pensamos mais “neles”. Isso é ser profis-
dermos. Seguimos honrando nosso jura- sional da saúde. Deus nos abençoe e nos
mento. Que Deus nos abençoe. ajude a enfrentar os dias piores.
Hoje vi minha filha de longe...

20 de março
Corri para ver o paciente que ontem estava
com falta de ar. A respiração dele havia piora-
23 de março
do. O exame mostrou que o pulmão esquerdo Saí do hospital e observei, logo ao lado, um
já não funcionava mais. Ele estava cansado e bar onde um grupo de pessoas se aglomerava
18 HERÓIS DE MÁSCARA

em torno de uma mesa jogando baralho. Hoje meu nariz dói mais, está calejado
Cartas de papel passavam de mão em mão, pela máscara. Minhas mãos estão ásperas,
justo com a superfície na qual o coronaví- de tanto álcool e sabão. Unhas bem curtas,
rus sobrevive por mais tempo. Se eles sou- sem esmalte, para não esconderem
bessem o que se passa por trás da parede nenhum vírus. Nós estamos feios e cansados.
do hospital, estariam escondidos em suas Só espero não sairmos derrotados
casas. Lá dentro, todos os doentes, com exce-
ção de um, estavam intubados. Os pacientes
necessitavam de ventilação mecânica, mui-
tos com ambos os pulmões tomados pela in-
fecção, em estado grave. “meia” médica, praticando “meia” assistên-
Dois deles me chamaram a atenção. Há cia. É frustrante. Insisto: é tudo muito dife-
uma mulher de apenas 37 anos, contrarian- rente. Ao mesmo tempo, penso: “Será que a
do a maioria dos casos de Covid-19. Ela de- família desse paciente soube que ele veio pra
ve ter filhos pequenos, como eu, que estão cá? E saberá para onde ele vai?”. O isola-
sentindo a falta dela, como a minha. Outro mento é cruel, para ambos os lados.
me chama a atenção pela gravidade, pelo Vi no noticiário que, na Espanha, um
semblante sem vida. Ele tem pulmões grave- médico fez uma chamada de vídeo para a fa-
mente acometidos e quase se despediu de mília do paciente antes de intubá-lo. Quero
nós hoje. Mas conseguimos reverter, só não poder fazer isso também. Isso é humanizar a
sei por quanto tempo... medicina. Eu queria ter feito isso naquele
Graças a Deus, o número de pacientes dia! Eu queria!
ainda não é grande e conseguimos dar a Hoje meu nariz dói mais, está calejado
atenção que eles necessitam. Meu medo é pela máscara. Minhas mãos estão ásperas,
que o número cresça a ponto de não poder- de tanto álcool e sabão. Unhas bem curtas,
mos atender a todos adequadamente. sem esmalte, para não esconderem nenhum
Permanece entre nós o medo da infecção. vírus. Nós, profissionais da saúde, estamos
Passamos horas sem ir ao banheiro, sem be- feios e cansados. Só espero não sairmos der-
ber água, com fome. Só nos permitimos fa- rotados. A epidemia só está começando.
zer tudo isso uma vez ao dia, para evitar re- Mais três pacientes graves chegaram. E a
tirar repetidas vezes os equipamentos de saudade de abraçar a família só aumenta.
proteção individual. É a hora em que mais
comumente a infecção acontece. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL
Em um momento do plantão, recebi fo- Nas imagens feitas
tos de minha filha. Meus olhos se encheram por Bruna durante
os plantões, materiais,
de lágrimas. Lágrimas de saudade. Mas não equipamentos de
pude chorar: as lágrimas prejudicariam os proteção e máquinas
óculos e a máscara de proteção. Desliguei o são apenas uma parte
do essencial para tratar
celular e tentei não pensar. Ao longo do dia, pacientes que muitas
o nariz doeu e ficou machucado, imprensa- vezes já chegam
do pela parte rígida da máscara. em estado gravíssimo
no hospital

26 de março
Hoje um paciente foi transferido para outro
hospital. Nunca conheci a família e a histó-
ria dele. Sempre gostei de colher a trajetória
dos meus pacientes. Assim, o diagnóstico e a
assistência são mais eficientes. Mas, quando
se trata da Covid-19, com a maioria deles in-
tubada e sedada, nada conhecemos além de
seus pulmões gravemente doentes. Me sinto
HERÓIS DE MÁSCARA 19

2 de abril para sempre. E já são três corações que se fo-


ram em apenas 24 horas. Só aqui. Um peque-
no pontinho no meio da epidemia mundial.
Já esperava por isso, mas preferia estar erra- A pergunta que não cala em nosso cora-
da. Era uma esperança. Em apenas uma se- ção é: “Quantas vezes mais seremos inúteis?”.
mana de pandemia, o cenário piorou muito. As notícias dos óbitos têm de ser dadas
Muito mesmo. Antes, tínhamos vários casos por telefone. Ouvimos choros desesperados.
suspeitos, com apenas algumas confirma- Barulhos de quedas, de quem não suportou
ções. Agora, quase todos são Covid-19 e uma saber. Não podemos nem ao menos expres-
minoria é apenas suspeita. Todos graves. Ape- sar nossos olhares de compaixão. Repito, o
nas um deles não precisava de ventilação mecâ- isolamento é cruel: para todos os lados, em
nica hoje. Bom para ele, espero que continue todos os sentidos. E sabe o que é pior? É sa-
assim, e daí para melhor. Mas triste para nós, ber que dias piores virão.
que ouvimos que o pai desse paciente havia A doença evolui muito rápido para os mais
morrido dias antes, também vítima da Co- graves. Aquele único paciente que não depen-
vid-19. A mãe dele também está gravemente dia de ventilação mecânica, em apenas poucas
acometida em outra instituição. E ele conos- horas, já não conseguia mais respirar sem aju-
co, lutando para respirar. Não tive coragem da. Os pulmões iriam entrar em falência em
de perguntar se ele tinha filhos. A doença es- breve. Foi quando pensei: “Não! Dessa vez,
tá exterminando famílias inteiras. não”. Resolvi tentar mais uma vez a possibili-
Logo um coração parou de bater. Foram dade de ligarmos para a família antes de intu-
mais de 20 minutos de ressuscitação. Para bá-lo. Não sei se ele vai sobreviver a esse vírus
quem esquece rapidamente do ocorrido, maldito. Tenho de tentar. Ele tem de ter a opor-
amanhã cada músculo nos fará lembrar, atra- tunidade de se despedir. E nós podemos fazer
vés da dor, do esforço de tentar trazer alguém isso. Agora é inevitável, temos de perguntar
de volta à vida por tanto tempo. Dói, dói bas- mais sobre a família. Ele tem filhos e esposa.
tante. Mas foi inútil, infelizmente. Aquele pa- Conseguimos! Eles se falaram por chamada
ciente não apresentava mais nenhum reflexo de vídeo. Mesmo com os olhos carregados de
de tronco cerebral, mostrando-nos que a lágrimas e medo, ele avisou aos parentes: “Vou
morte estava rondando por ali. Pouquíssimas ser intubado”. Falou com a família. E conse-
horas depois, o coração dele parou de bater guiu conversar com eles por um curto espaço
20 HERÓIS DE MÁSCARA

de tempo. Tempo esse que pode aliviar a alma


deles, não sei. Nesse momento, tive mais um
pensamento: “Seria melhor que pudéssemos
deixá-los conversando sozinhos”. Nossa pre-
sença inibe os sentimentos do paciente. Talvez
ele quisesse dizer algo e não disse por estar-
mos ali. Vou pensar sobre isso também.
E assim aconteceu. Ele foi sedado e in-
tubado. Agora a máquina faz o que o pul-
mão dele não estava mais conseguindo fa-
zer. Agimos no tempo certo: os exames
mostraram que realmente os pulmões esta-
vam à beira da falência total.
Não quero acreditar neste momento nas
taxas de mortalidade dos casos graves. Que-
ro acreditar que fizemos algo bom. Que fize-
mos aquilo que nosso juramento exige. Mas
que também fizemos algo a mais: aquilo que
nosso coração manda. Todos nós nos bene-
ficiamos com aquela atitude. Todos nós.
E caiu o dentinho de leite da minha filha.
Mas, devido ao meu isolamento, bate a tris-
teza de não poder dividir esse momento
com ela. Mas darei um jeito de a fada do
dente ir visitá-la. Só que ainda havia mais
seis pacientes graves para chegar.

6 de abril
FOTOS: LEO MARTINS/AGÊNCIA O GLOBO
A cada dia de trabalho, o número de pacien-
tes aumenta e o número de profissionais da
saúde diminui. Com as várias baixas de nos- ções de óbito era exceção. Agora, se tornou Os turnos de 12 horas
sos soldados (que é como temos chamado regra. Não fomos treinados para isso. Fomos de plantão no hospital
transcorrem, em geral,
nossos colegas), os que ainda não foram treinados para salvar vidas. A impressão é sem que Bruna tire
abatidos pela doença trabalham ainda mais de que o vírus não poupa ninguém. Gente o equipamento de
para compensar a falta dos outros. A deman- saudável, doente, idosa e jovem. Ele mata proteção, para
economizar as trocas
da é enorme e a gravidade dos doentes exige qualquer um. Triste constatação.
muito de nós. Ao final do dia, as pernas doem Ao sair do hospital, deparei com uma filha
absurdamente. Os equipamentos de prote- aos gritos. Desesperada, ela implorava por no-
ção individual ferem nossa pele. E, mesmo tícias de sua mãe e dizia não ter nenhuma
com todos os esforços, esse maldito vírus ideia se havia chance de sobrevivência. Ela
ainda consegue nos vencer. tem toda razão. Isso logo me faz pensar nos
Hoje a nossa unidade só não está com- que reclamam de estarem isolados com suas
pletamente lotada porque o número de in- famílias, no aconchego de seu lar. Nada sabem
ternações se igualou ao número de óbitos. sobre isolamento. Isolamento de verdade...
Meu Deus! Que peso tem essa constatação.
Causa revolta liberar várias declarações de
óbito descrevendo a causa da morte: Co-
vid-19, Covid-19, Covid-19... Estamos per-
dendo muitas vidas para um inimigo invisí-
9 de abril
vel e desconhecido. Antes dessa pandemia A cada dia que passa saio mais tarde do traba-
assolar o mundo, um dia emitindo declara- lho, tentando dar conta de todos os cuidados
HERÓIS DE MÁSCARA 21

Saí do hospital e observei, logo caneta no capote uns dos outros os nossos
ao lado, um bar onde um grupo nomes, para que pudéssemos ter uma iden-
de pessoas se aglomerava em torno tidade. Parece que somos mesmo soldados
de uma mesa jogando baralho. lutando em uma guerra, todos iguais e uni-
Se eles soubessem o que se passa formizados, lutando contra o tal coronaví-
por trás da parede do hospital, rus. Cada um fazendo a sua parte e até mais
estariam escondidos em suas casas do que isso. Muito mais.
No único horário do dia em que nos des-
pimos de nosso uniforme, vemos os rostos
de derrota de cada profissional da saúde. É
um misto de exaustão física e psicológica. É
muito difícil. Ninguém está preparado para
ver um hospital inteiro acometido pela mes-
ma doença, com pacientes muito graves e
muitos óbitos diariamente. Ninguém está
preparado para isso. Dói no corpo pelo tra-
balho ininterrupto horas a fio. Dói na alma
ver tantas vidas indo embora.
Internamos hoje um único paciente que
não estava intubado. Um vovozinho fofo e
lúcido, que só estava precisando de um pou-
co de oxigênio para respirar. Logo pensei:
“Que Deus o conserve assim, que isso não
evolua como a maioria aqui. Que Deus olhe
por ele!”. Hoje recebi uma foto da minha fi-
lhota fazendo um suco verde. Mal tive tem-
po para ver, mas foi o suficiente para o cora-
ção apertar e eu chorar de saudade.
Peço a Deus todo dia para ter força física
e psicológica para poder voltar para minha
família logo.

de que cada paciente precisa. Mas sinto não


ser suficiente. Para muitos, esse vírus é mais
cruel e não adoece só os pulmões, mas tam-
13 de abril
bém os rins. Máquinas para respirar. Má- Continuamos com os leitos lotados. Per-
quinas para substituir os rins. E isso é só demos pacientes todos os dias para o ví-
apenas parte do que muitos necessitam: tu- rus, mas em poucas horas novos pacientes
do que fazemos não parece ser o bastante ocupam os leitos esvaziados para continu-
para enfrentar esse vírus. arem conosco a sua luta pela vida. Nunca
E os pacientes não param de chegar. Tan- antes uma instituição inteira foi substituí-
to não param que ocupamos todos os leitos da para se tornar unidade de uma doença
disponíveis no hospital. Todos. Estávamos feli- só. Isso demonstra a infectividade brutal
zes pois, pela primeira vez, iríamos completar desse vírus.
um dia sem perder ninguém. Mas o vírus ven- Ao olhar para um lado, vemos uma paci-
ceu mais uma vez, e, logo após chegar, um pa- ente em provável morte cerebral, esfregando
ciente se foi. Mais uma batalha perdida. Ainda em nossa cara a vulnerabilidade da vida e
não tivemos a alegria de ver um paciente vol- nossa impotência diante da doença. Mas
tando para casa. Sonho para esse dia chegar. agora, já com algumas semanas de casos da
Enquanto estamos paramentados (a Covid-19, alguns poucos sobreviventes come-
imensa maioria do tempo), somos todos çam a apresentar melhora e isso nos enche
iguais. Fica até difícil reconhecermos uns de esperança. Estamos acostumados a avaliar
aos outros. Tanto que tivemos de escrever à várias vezes ao dia a função pulmonar de
22 HERÓIS DE MÁSCARA

cada paciente. Tratando-se dessa doença, a tinha cerca de 40 anos e já havia perdido o
regra é decepção atrás de decepção. pai para a Covid-19. A mãe estava internada
Mas hoje — pela primeira vez após sema- e não sabemos se ela sobreviveu ou não. A
nas — um paciente, apenas um paciente, de- morte dele deixa claro que o coronavírus
monstrou um grau de melhora nunca visto não poupa ninguém. Por outro lado, nosso
antes em seu exame. Espontaneamente, vi- vovozinho teve alta e pôde retornar ao seu
bramos, aplaudimos e até batemos na mesa casamento de 55 anos. A luz no fim do túnel.
de tanta alegria. Como nós, profissionais da Seguimos esperando por dias melhores.
saúde, somos bobos... Vibramos com cada Hoje fiz um novo teste de sorologia para a
pequena conquista do paciente. E vibramos Covid-19. Tive sintomas gripais há cerca de
de verdade. Também começamos a diminuir 15 dias, mas o primeiro exame deu negativo.
a sedação do paciente, na tentativa de permi- Às vezes, o primeiro exame pode ser um fal-
tir que ele comece a respirar por si próprio. so negativo. Faço outro agora, na esperança
Logo ao lado, o vovozinho da semana de avaliar se já fui infectada e se desenvolvi
passada já consegue respirar sem ajuda ne- anticorpos contra a doença.
nhuma, nos dando mais uma alegria. Ele Ficar longe da minha filha já está causan-
nos contagiou com a sua conversa por vídeo do um sofrimento desumano para mim e
com a esposa. Eles têm 55 anos de casados e para ela. Faço o exame na esperança de po-
ela diz estar com saudades do marido, espe- der trazê-la para perto de mim novamente.
rando ansiosamente a volta dele. Que espe-
rança na vida eles nos deram! E assim, com
pequenas batalhas vencidas, nos permitimos
ter alguma alegria em meio à guerra. 20 de abril
A neurologista bem arrumada, de salto alto,

16 de abril maquiada, cabelos bem arrumados e unhas


feitas teve de dar lugar a uma médica de pi-
jama de hospital, com um coque muito bem
A exaustão física e psicológica me venceu e preso no cabelo, unhas bem curtas e sem es-
dessa vez não consegui escrever meu diário malte, tudo escondido por equipamentos de
ao final do meu dia de trabalho. A gravidade proteção contra um vírus desconhecido. An-
e a complexidade dos pacientes nos conso- tes apaixonada pela especialidade que esco-
mem física e tecnicamente, e torna tudo caó- lheu, agora se dedica a fazer algo que não
tico. Há também o fato de que estamos can- escolheu, em nome da Medicina.
sados, às vezes com fome, sede, vontade de Eu, assim como a maioria dos meus cole-
ir ao banheiro e usando equipamentos que gas, tive de me “reinventar” para cuidar dos
nos machucam. doentes com Covid-19. Deve ser por isso
Nenhum médico está preparado para isso. que a frustração é tão grande. Parece que es-
Mesmo nos piores dias de uma UTI, o cená- tamos entrando em um jogo para perder.
rio nunca é tão devastador quanto o que es- Até já passou pela minha cabeça a possi-
sa pandemia vem nos apresentando. Tive- bilidade de desistir. Meu pai já conversou
mos altas de pacientes menos graves. Mas, sobre isso comigo, e disse que me apoiaria
desde que tudo começou, ainda não tivemos a em qualquer decisão que eu tomasse. Mas
alegria de dar alta a nenhum paciente que te- esse pensamento logo desaparece. Como
nha necessitado de ventilação mecânica.
Eles são os mais graves. Para esses, nosso
empenho continua incansável, dia após dia. Deparei com uma filha aos gritos.
Lutamos pela vida de cada um deles, espe- Ela implorava por notícias de sua mãe e dizia
rando que vençam o vírus e todas as com- não ter nenhuma ideia se havia chance
plicações a ele relacionadas. de sobrevivência. Ela tem razão. Isso logo
Logo cedo, soube da morte daquele pri- me faz pensar nos que reclamam de estarem
meiro paciente que se comunicou com a fa- isolados com suas famílias, no aconchego
mília por videochamada antes de ser intuba- de seu lar. Nada sabem sobre o isolamento.
do. A notícia nos arrasou. Ele era saudável, Isolamento de verdade...
23

FÁBIO VIEIRA / FOTORUA / AGÊNCIA O GLOBO

Taxas de isolamento vou desistir no momento em que a Saúde e Vimos olhares de agradecimento e esperan-
caem nas grandes minha equipe mais precisam de mim? Com ça em seus familiares durante a chamada de
cidades, pressionam
os números da doença tantos profissionais da saúde afastados e infec- vídeo após sua melhora. Isso nos fortalece!
e, consequentemente, tados, como abandonar tudo e colocar o traba- Assim como ele, em outras unidades nos-
elevam o risco para os lho da equipe em risco? Não tenho coragem. sas, outros poucos pacientes estão melho-
profissionais de saúde
Hoje, durante o round (tempo em que os rando. Eles nos permitem vencer algumas
profissionais se reúnem para discutir o caso batalhas, mesmo que sejam a minoria.
de cada paciente), era desesperadora a ex- Eu também ganhei uma chamada de ví-
pressão de tristeza dos meus colegas ao cons- deo. Nela, minha filha perguntava chorando
tatarmos que tínhamos coisas boas para con- se eu não me importo mais com ela. Hora
tar sobre apenas um de nossos 12 pacientes. É em que o coração de mãe sangra mais uma
muito frustrante lutar horas, dias, semanas e vez. É isso que a pandemia tem para nós.
um mês inteiro para perceber que, além de
perder alguns, a maioria dos pacientes não
está melhorando. Foi um momento triste e
de reflexão. Saímos diferentes dali. Somos
médicos e pessoas diferentes depois daquilo.
24 de abril
Uma equipe inteira trocando olhares de Chego em casa cada vez mais tarde e mais
derrota. É isso que essa pandemia faz com a cansada. Há dias em que não consigo escre-
gente. Foi a primeira vez que participei de ver meu diário ao final da jornada de traba-
uma cena dessas em minha carreira. Defini- lho e tenho de postergar para o dia seguinte.
tivamente, isso nos mudou para sempre. A angústia não passa, mesmo após horas de
Graças a Deus, não presenciamos só tris- descanso. Este diário é um desabafo. Uma
tezas. Esse único paciente se livrou da venti- forma de terapia.
lação mecânica e está quase curado da Co- Quando cheguei ao trabalho dessa vez, já
vid-19. Uma razão para seguir em frente. na frente do hospital vi familiares chorando,
24 HERÓIS DE MÁSCARA

desesperados. Pensei: “Perdemos mais uma vi- familiares dos doentes com Covid-19?”.
da. O que será que o dia de hoje reserva para Olho para o lado, engulo a reclamação e me
nós?”. Mas, apesar das perdas diárias, hoje tive sinto grata por estar saudável.
notícias maravilhosas. Três pacientes muito A procura por vagas de UTI aumenta ca-
graves foram curados e tiveram alta do hospi- da vez mais e a minha preocupação com a
tal. Que felicidade! Que força para continuar! saúde da população lá fora também. A saúde
Por mais dias assim, por favor! pública no Brasil sempre foi um caos. Al-
Conversei com parte da equipe, durante guém tinha dúvidas que a pandemia seria
nosso horário de almoço, sobre minhas angús- catastrófica aqui? Eu não. Aqui em nossa
tias e a quantidade de doentes que temos per- instituição, mais médicos, enfermeiros e fisio-
dido. A conversa me ajudou a acreditar que es- terapeutas se unem a nós na tentativa de
tamos fazendo nosso melhor, oferecendo todo melhorar os cuidados aos doentes. Mas sei
cuidado e o tratamento que nossos doentes ne- que lá fora não é assim. Aqui, somos uma
cessitam. Os pacientes, no entanto, já estão instituição pública, mas privilegiada por
chegando para nós muito, muito graves. Talvez uma coordenação consciente, profissionais
por isso, junto com a gravidade da infecção, competentes e dedicados.
perdemos tanto para o coronavírus. Triste constatar que lá fora muitas vezes
Isso tranquilizou minha alma, pois tenho não é assim. E vivo isso a cada dia que rece-
sempre comigo a interrogação: “Estamos fa- bo os pacientes vindos de outras institui-
zendo o nosso melhor? O suficiente?”. Com ções. Dá vontade de chorar. Entre eles, o ín-
a ajuda da equipe, acho que sim. dice de mortalidade é altíssimo e, por isso,
continuamos a perder muitos.
Cada vez mais vemos que esses pacientes

30 de abril graves têm seu pulmão quase que totalmen-


te atingido e necessitam de ventilação mecâ-
nica. Depois, seus rins necessitam de hemo-
As marcas e a dor da paramentação já não diálise. Ainda há disfunção do coração, que Soldados são como os
somem mais no dia seguinte e tenho de precisa de drogas para poder funcionar ra- profissionais da saúde se
aprender a conviver com elas. Ao mesmo zoavelmente. O sistema nervoso também autodenominam no front
da pandemia. Muitos
tempo, penso: “Quanto egoísmo! O que é não escapa. Temos visto vários casos de aci- acreditam estar em uma
uma pele machucada perto dos pacientes e dente vascular cerebral (AVC) relacionados guerra “para perder”

ARQUIVO PESSOAL
HERÓIS DE MÁSCARA 25

Era desesperadora a expressão de tristeza tamento e que o levaria a morte em minu-


dos meus colegas ao constatarmos que tos. Por isso, sei que aquela vida não seria
tínhamos coisas boas para contar sobre apenas salva em qualquer instituição, nem com
um de nossos 12 pacientes. É muito frustrante quaisquer profissionais. Tudo foi possível
lutar horas, dias, semanas e um mês inteiro porque tínhamos uma equipe. Não sei se a
para perceber que, além de perder alguns, Covid-19 vai deixá-lo viver, mas tenho certe-
a maioria dos pacientes não está melhorando za que lutaremos até o fim. Ao voltar para
casa, soube que a esposa desse paciente tam-
bém está com a doença, lutando pela vida
em outra instituição. Repito: esse vírus está
à complicações da Covid-19. Tudo em um exterminando famílias inteiras.
mesmo paciente.
Maldito vírus. Lá fora, o grupinho de jo-
go de cartas em frente ao barzinho ao lado
do hospital sumiu. Será que a Covid-19 ga-
nhou um nome e um rosto?
4 de maio
Quando eu falei, lá atrás, que sabia que dias
piores viriam, eu realmente sabia. Mas isso

2 de maio não significava que eu estaria preparada pa-


ra eles. Voltei para casa com um aperto no
peito, com o som do carro tocando alto,
Na véspera do plantão, um paciente recebeu muito alto, na tentativa de não escutar a voz
alta com toda pompa e circunstância que a que insistia em vir do coração. O som era
vitória merece. Ouviu aplausos da equipe, para me poupar da dor e evitar que as lágri-
feliz com aquele momento. Mas seu leito ra- mas caíssem. Pela primeira vez em meus re-
pidamente foi ocupado por outro paciente. latos não consigo encontrar palavras para
Pensei: “Vamos salvar esse também! Vamos expressar exatamente o que senti hoje.
salvar esse também!”. Era um caso grave, Havia quatro profissionais da saúde in-
mas seguíamos nossos cuidados incansáveis. fectados. Um deles era médico da nossa ins-
De repente, uma piora súbita se iniciou. Um tituição e estava em estado gravíssimo. Ele
quadro que nunca tínhamos visto antes em trabalhou muito mais nas últimas semanas
nossa unidade: uma embolia pulmonar ma- para compensar a falta dos outros. Percebe-
ciça, com potencial para causar graves com- mos que, por mais que fizéssemos, aquela
plicações, incluindo uma parada cardíaca. batalha muito provavelmente estava perdi-
Nem a ventilação mecânica, nem as drogas da. Foi quando, às 16h30, ele nos deixou. E,
comuns salvariam aquele paciente. Tínha- com ele, levou parte de nossa coragem e de
mos de agir muito rápido. nossa esperança. Ver um dos nossos ser le-
Quando olhei em volta, havia mais de vado pela Covid-19, bem debaixo dos nos-
dez profissionais ao redor do leito. Corren- sos olhos, em nossas mãos, desconfigurou a
do, lutando para salvar aquela vida. Nova- equipe inteira. A unidade ficou cinza. Dali
mente, percebi orgulhosa a importância de em diante, nossas falas tinham pausas. Pau-
trabalhar naquele lugar. Somos um time e sas para respirar fundo e engolir a seco o
todos são necessários. que aconteceu. Por vezes, as pausas eram
Havia uma intensivista que, com seu ul- seguidas de palavras de pesar e de sofrimen-
trassom, visualizava o coração do paciente to. Nada descreve o significado de perder
com o lado direito parado. Ao lado dela, um dos nossos. Mas, como somos profissio-
uma neurologista, com experiência na única nais da saúde, não temos direito a luto.
droga que poderia salvá-lo naquele momen- Mesmo calados e arrasados, seguimos cui-
to: o trombolítico. Na luta, enfermeiros e dando dos que ficaram.
técnicos corriam para preparar a medicação. Resolvi abrir o quartinho da minha filha
E, com a ajuda de todos, demos ao doente o que estava trancado desde o dia em que nos
cuidado de que ele precisava. separamos. Quando senti que havia o chei-
Como médica, sei que a complicação que rinho dela lá dentro, chorei. Será que dias
ele teve é de difícil diagnóstico, de difícil tra- ainda piores virão?
G.A.
26

guiamado@edglobo.com.br

GUILHERME AMADO
É JORNALISTA
O ÓDIO COMO MÉTODO

A escalada do autoritarismo de Bolsonaro tem sido num


ritmo tal que pode fazer parecer, ao menos aos que
acreditaram numa equivalência nesse quesito entre ele e o
com o Prêmio da Paz, como uma forma de apelo à to-
lerância. A Alemanha descrita por Emcke quatro anos
atrás muito se parecia com o Brasil de então e mais ainda
PT, que tudo isso é novo. O ódio sempre foi método para com o de agora. “Algo mudou na Alemanha. Agora se
Bolsonaro. Foi por meio dele que se destacou na multidão, odeia de forma aberta e descarada. Às vezes com um sor-
indo a programas de TV popularescos. Foi por meio do riso no rosto e às vezes não, mas na maioria das vezes
ódio que conseguiu se diferenciar de Ciro, Alckmin, Amoê- sem nenhum escrúpulo. As cartas de ameaças, que sem-
do, Marina e de outros que batiam em Lula, mas não tanto pre existiram, hoje são assinadas com nome e endereço.
quanto ele, não da maneira como fazia, de forma que trans- Delírios violentos e manifestações de ódio expressos na
mitisse a quem estava exaurido, espumando como ele, que internet se escondem cada vez menos atrás de um pseu-
só Bolsonaro poderia derrotar Fernando Haddad. Tem sido dônimo”, escreveu a intelectual, uma das mais importan-
por meio do ódio que o presidente tem trazido o país até tes hoje na Europa, surpreendendo-se com o renascimen-
aqui. Nos 16 meses de governo, não houve uma semana em to do ódio num país que deu aula sobre o assunto.
que o presidente não expressou sua raiva. Um adversário, O mesmo vale para o Brasil. Podia-se pensar que uma
uma minoria, um antigo aliado, um artista, um jornalista. ameaça autoritária não chegaria aonde chegou, mas agora
Odiar é sua profissão de fé. E isso não brota do nada, como vê-se que ela continuava ali, submersa. Aliás, o ódio não é
se em geração espontânea. O ódio é cultivado. Bolsonaro é uma exclusividade da direita, nem de ditadores. Lula tam-
consequência de um ódio coletivo, ruminado nos anos do bém incitou o ódio, em grau infinitamente menor do que
petismo e de seus erros atrozes que fizeram aumentar a ira Bolsonaro, e lucrou eleitoralmente muito mais quando foi
dos que sempre rejeitaram a esquerda e despertar, entre os mais paz e amor do que raivoso. Mas nenhuma comparação
que apoiaram Lula, o rancor por terem sido enganados. Mas é justa nesse ponto. Não houve governante recente no Brasil
o presidente também é causa. Ao perceber que algum tema que tenha feito do ódio seu modus operandi, como o atual.
pode dividir mais o país, atiçar o fígado de seus apoiadores, As redes sociais do presidente e de seus filhos — Flá-
pinça-o e, com sua tropa digital, mobiliza parte do país em vio Bolsonaro menos, registre-se — destilam raiva. Entre
torno daquilo — da cloroquina ao golden shower. obsessões, teorias da conspiração ou simples implicâncias
A Editora Âyiné lançou em abril no Brasil o livro com o objetivo de debochar, difamar, humilhar, eles têm
Contra o ódio, um dos mais prestigiados da filósofa alemã alvos permanentes e circunstanciais. Carlos Bolsonaro pos-
Carolin Emcke, premiada em 2016 na Feira de Frankfurt ta quase diariamente uma foto de João Doria dançando

O presidente faz da raiva uma maneira de governar, e a usou como instrumento para chegar ao poder e ascender do baixo clero
27

com uma calça colada, querendo insinuar sabe-se lá o De novo, sem novidades no front. O acervo de ex-
quê. O vídeo gera diariamente ondas de comentários ho- pressões preconceituosas e por vezes criminosas do presi-
mofóbicos. A jornalista Patrícia Campos Mello, que foi à dente é vasto, em três décadas vivendo da política. Sempre é
Justiça para processar Jair Bolsonaro pela ofensa de tê-la bom relembrar, embora tudo tenha sido sempre noticiado.
chamado de prostituta, foi perseguida por bolsonaristas Contra os gays. “A maioria é fruto do consumo de
incitados pelas ofensas do presidente. O mesmo ocorreu drogas”, disse em 2014 ao jornal El País. “Seria incapaz de
durante anos com Maria do Rosário e Jean Wyllys. Goste- amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipó-
se ou não dos dois, Bolsonaro e seus comentários odiosos crita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente
transformaram a vida de ambos em um inferno. Jean do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele
Wyllys perdeu sua liberdade. Maria do Rosário até hoje vai ter morrido mesmo”, afirmou, em 2011, à revista
sofre constrangimentos públicos e é vítima na internet de Playboy. “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, le-
difamação devido ao ódio engendrado. va um coro ele muda o comportamento dele”, disse, em
Criou-se uma atmosfera de repúdio ao respeito pelo 2010, à TV Câmara.
outro. A coisa virou de cabeça para baixo. Parece que Contra os negros. “Fui num quilombola (sic) em Eldo-
quem desrespeita os outros, vocifera insultos e precon- rado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava 7 ar-
ceitos, deve se orgulhar. robas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores
servem mais”, disse, em 2017, numa fala contra quilombo-
Quem sente ódio passa uma segurança las que o levaria a ser denunciado por racismo no Supre-
mo Tribunal Federal, acusação que foi recusada na Pri-
muito maior hoje do que quem meira Turma com os votos de Luiz Fux, Marco Aurélio
defende a tolerância e o respeito. Mello e, veja só, Alexandre de Moraes.
Bolsonaro não titubeia em sua raiva. Contra seus adversários políticos. “Deveriam ter sido
fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente
E mostrou isso na semana passada. Na terça-feira 5, a em- Fernando Henrique Cardoso”, afirmou, em 1999, mesmo
presária Marluce Gomes, uma das que agrediu os enfer- ano desta: “Pau de arara funciona. Sou favorável à tortura,
meiros na Praça dos Três Poderes, foi à porta do Palácio da tu sabe disso. E o povo é favorável também”. “O erro da
Alvorada para assistir ao stand-up de horror que o presi- ditadura foi torturar e não matar”, disse em 2016. Dois
dente faz todos os dias. A empresária é a que, nas imagens anos depois: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”.
da agressão aos enfermeiros, aparece com uma bandeira do Erra quem prega o olho por olho. Serenidade e razão
Brasil como capa de super-heroína. Naquele dia, já sabendo são mais poderosos. Em seu Contra o ódio, Emcke lem-
que é formalmente investigada pelo Ministério Público do bra que quem enfrenta o ódio com mais ódio já foi ma-
Distrito Federal, foi ao palácio pedir apoio de Bolsonaro. nipulado, aproximando-se daquilo que aqueles que
“Se houve agressão, foi verbal, coisa que eles fazem odeiam desejam que a pessoa se torne. “O ódio só pode
o tempo todo conosco. Houve zero agressão”, disse o ser combatido com o que escapa aos que odeiam: obser-
presidente a ela. vação cuidadosa, diferenciações contínuas e dúvidas so-
Não é possível saber a que ato em específico Bolso- bre si mesmo. Isso requer desmontar o ódio pouco a
naro fazia referência ao falar na agressão. Entre 1º e 3 de pouco em todas as suas partes.” Requer racionalidade,
maio, profissionais de diferentes áreas apanharam todos fatos, debate inteligente. Sem omissão.
os dias de bolsonaristas. Lima Duarte nesta semana emocionou os brasileiros
No Dia do Trabalho, uma enfermeira foi sacudida por que tem vísceras, ao falar nisso. O ator de 90 anos homena-
um irado apoiador do presidente. No sábado 2, em frente geou Flávio Migliaccio, o brilhante colega que, aos 85 anos,
à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, um se matou na segunda-feira 4. Lima lembrou o “hálito putre-
cinegrafista de uma afiliada da TV Record foi empurrado. fato” de 1964, o “bafio terrível de 1968” e, sem dar nome ao
No domingo, as vítimas foram os jornalistas Dida Sam- miasma do Brasil de 2020, em que o vírus e o ódio se
paio, Orlando Brito, Fábio Pupo, Nivaldo Carboni e o aliam, lembrou Bertolt Brecht e Os fuzis da senhora Carrar,
motorista Marcos Pereira, integrante da equipe de repor- escrita em 1937 em meio à Guerra Civil Espanhola. Teresa
tagem do jornal O Estado de S. Paulo. Sampaio levou um Carrar não quer que os filhos sigam para a guerra e te-
soco no estômago. Brito, de 70 anos, foi empurrado. nham o mesmo destino do marido, morto anos antes. Por
Bolsonaro, na mesma conversa com os apoiadores, à isso, esconde seus fuzis. Lima, como se cobrasse posiciona-
porta do palácio, defendeu-se dizendo que não é responsável mento de quem se cala, citou a frase de Pedro Jáqueras, ir-
pelas agressões físicas — à verbal, em sua própria fala, ex- mão da Senhora Carrar, que ele interpretou no Teatro de
pressou apoio. Mas o presidente tem responsabilidade, sim, Arena: “As pessoas que não querem assumir nenhuma
na agressão física. Ela é resultado de sua permanente perse- culpa acabam lavando as mãos em bacias de sangue”.
guição a de quem dele discorda ou a quem o incomoda. COM EDUARDO BARRETTO E NAOMI MATSUI
FOTO: PABLO JACOB/AGÊNCIA O GLOBO
A
FUGA
DO Contaminados pela
Covid-19, ricos

VÍRUS de Belém contratam


UTIs aéreas para fugir

PELOS
do caos da cidade
e buscar tratamento
nos melhores

ARES hospitais de São Paulo


por Ullisses Campbell
A
família do empresário Jonas balho e sempre manteve uma alimentação O empresário Kleber
Rodrigues, de 41 anos, é uma saudável. Ao descumprir as recomendações Ferreira de Menezes
e a mulher, Lastênia,
das mais ricas do Pará. Ela é de distanciamento social, foi infectado pela pouco antes
proprietária da maior rede de Covid-19 e agonizou com a doença, deixan- de embarcarem
supermercados do estado, o do familiares muito apreensivos. na UTI aérea que
os levou de Belém
Grupo Líder. Mesmo com as O empresário Kleber Ferreira de Menezes a São Paulo para se
recomendações das autoridades sanitárias pa- foi secretário de Transportes do Pará. Quan- tratarem de Covid-19.
ra ficar em casa, ele saía diariamente sem do esteve no cargo, chegou a ser denunciado O voo dura três
horas e meia
máscara, como se a pandemia do novo coro- pelo Ministério Público por improbidade ad-
navírus não tivesse chegado a Belém, onde ministrativa e crime contra o Erário, envol-
mora. “Não era muito adepto do álcool em vendo valores na casa dos R$ 20 milhões em
gel. Estava trabalhando todos os dias no es- contratos com sérias suspeitas de fraude. Ele
critório, sem home office, passeava pela cida- refuta todas as acusações (“Não sou ladrão!”).
de e ia às compras mesmo sendo dono uma Menezes também não dava a menor bola para
rede de supermercados. Adoro visitar merca- o novo coronavírus e levava uma vida em Be-
dos pelo país afora”, contou. Não deu outra. lém como se nada estivesse acontecendo. Teve
Ele, o pai e a mãe contraíram Covid-19. “Se tosse enquanto assistia à televisão e, em pou-
arrependimento matasse...”, comentou. cos dias, ficou perto de morrer.
Outro supermercadista afortunado do Mas o que Rodrigues, Oliveira e Menezes
Pará, José Santos de Oliveira, de 77 anos, têm em comum além do teste positivo para
achava que estava imune ao vírus. Atleta, Covid-19 e da conta bancária milionária?
exercitava-se todos os dias em casa e no tra- Para fugir da morte, os ricos de Belém —
FOTOS: REPRODUÇÃO
30

REPRODUÇÃO

Os profissionais que como o trio de empresários — estão abrindo a do Santos, a maior referência paraense em
integram o voo são carteira, correndo para o aeroporto e embar- coronavírus, há pacientes definhando em
os mesmos de uma UTI,
como um médico cando em jatinhos de luxo equipados com macas à espera de uma vaga na UTI. Sem
intensivista e um UTI. Eles seguem rumo aos melhores hospi- capacidade de atender à demanda, Belém vi-
enfermeiro (acima). tais de São Paulo em busca de sobrevivência. ve uma situação inédita no país: os pacientes
O medo de
contágio é grande Rodrigues foi socorrido no Hospital Alemão estão saindo de casa em busca de atendi-
Oswaldo Cruz, Oliveira no Hospital Israelita mento médico, dão com a cara na porta e
Em Belém, o sistema Albert Einstein e Menezes no Sírio-Libanês, acabam sucumbindo no meio da rua. Com o
de saúde colapsou,
e doentes são recusados todos na capital paulista. Os três estavam em estado de calamidade e com uma adesão de
em hospitais. Já há cenas estado grave quando fizeram a viagem. 45% ao isolamento social na capital, o gover-
de doentes caindo no foi obrigado a decretar lockdown (blo-
pelas ruas (à dir.), como
aconteceu nos lugares
mais atingidos U m levantamento de ÉPOCA atesta que
são embarcados diariamente oito pa-
cientes de Covid-19 em jatos com UTI de
queio total) na quinta-feira 7 em dez muni-
cípios da Região Metropolitana de Belém.
Jonas Rodrigues, o dono de mercados,
Belém para outros estados e até para o exte- contou que o primeiro a pegar o novo coro-
rior. A maioria segue para São Paulo. Os pa- navírus na família foi o pai, José Corrêa Ro-
raenses endinheirados não fogem do Pará à drigues, de 70 anos. Rapidamente a doença
toa quando são contaminados pelo coronaví- avançou, e sua mãe, Ana Célia, de 67 anos,
rus. A nova doença está devastando a capital também foi contaminada. Ele chegou a ligar
numa velocidade assustadora. Em duas se- para alguns hospitais particulares de Belém,
manas, os casos de mortes pela Covid-19 au- mas não havia leito de UTI disponível nem
mentaram 900% no estado. Até a quarta-fei- no mais aparelhado da capital. “Se não ti-
ra 6, o Pará já computava 5.295 casos confir- véssemos embarcado na UTI aeromédica,
mados e 406 mortes, uma taxa de 4,2 óbitos meu pai teria morrido, pois essa doença
por 100 mil habitantes. Na média do Brasil, evolui numa rapidez impressionante. Gra-
esse índice está em 3,7 por 100 mil. ças a Deus, ele apresentou melhoras”, agra-
A maioria dos casos se concentra em Be- deceu. “Olha, eu assumo que subestimei es-
lém, que vive um clima de terra arrasada. sa doença. Achava que ela era algo distante.
Todos os hospitais — tanto da rede pública Até que vi meu pai passando mal como
quanto da privada — estão lotados e ope- nunca vi antes. Aí passei a achar que era
rando acima do limite. No Hospital Abelar- coisa de idoso. Foi preciso eu sofrer uma
31

RAIMUNDO PACCÓ

súbita falta de ar para atestar que não dá pa- um vídeo pelo celular e postar no grupo de
ra brincar com isso”, descreveu. Jonas Rodri- WhatsApp do condomínio, todo paramenta-
gues se curou e teve alta hospitalar, mas re- do com equipamentos de proteção individual.
solveu ficar em São Paulo para cuidar do A ideia, segundo disse, era mostrar aos vizi-
pai. “Só saio daqui com ele”, avisou. nhos que estava bem. No vídeo, ele tosse lo-
Kleber Menezes achava que iria morrer go na introdução e faz uma narração na se-
quando sentiu os piores efeitos da Covid-19. quência: “Oi gente! Estou embarcando agora
Ele chegou a se internar em um hospital parti- de Belém para São Paulo. Estamos eu e mi-
cular em Belém, mas correu de lá tão logo nha esposa, a doutora Lastênia. Estamos en-
conseguiu contratar a UTI aérea e reservou trando na UTI aeromédica. Se Deus quiser,
duas vagas nos apartamentos do Sírio-Libanês. vai dar tudo certo. Um forte abraço a todos”.
Uma para ele e a outra para sua mulher, a ci- O vídeo, lógico, migrou do WhatsApp para
rurgiã plástica Lastênia Menezes, uma das todas as redes sociais e rapidamente virali-
mais requisitadas da capital paraense. A médi- zou. Menezes recebeu críticas por todos os
ca também pegou o vírus e adoeceu de Co- lados. Alguns comentários maldosos insinua-
vid-19. Apavorada, escapou de Belém com o ram que o ex-secretário pagou a UTI aero-
marido na mesma UTI aeromédica. médica e as diárias do Sírio-Libanês com di-
No Pará, Kleber Menezes é uma figura nheiro supostamente desviado dos cofres pú-
polêmica. Além das acusações feitas pelo Mi- blicos. “Jamais!”, defendeu-se. “Quando assu-
nistério Público, ganhou fama pelos vídeos mi cargo público eu já era rico, pois atuava na
que posta em suas redes sociais ostentando área portuária. (...) Meu sangue é nordestino.
riqueza. Quando embarcou na UTI aérea, no Na minha terra, pode até chamar alguém de
aeroporto de Belém, fez questão de gravar corno, que se leva na brincadeira. Agora, de la-
drão? Nunca!”, argumentou ele, que é baiano.
Um dos empresários gravou e enviou um vídeo
pelo WhatsApp, que logo viralizou: “Oi gente! P egar uma UTI aérea de Belém para São
Paulo custa caro. ÉPOCA levantou uma
Estamos embarcando agora de Belém para cotação com três empresas que fazem esse ti-
po de transporte. O valor é calculado pela
São Paulo, eu e minha esposa, a doutora Lastênia. quilometragem. Em tempos de pandemia, as
Estamos entrando na UTI aeromédica” tarifas sofreram aumentos de até 30% por
32

RUBENS CHAVES

Uma das maiores festas causa da alta demanda e do risco de contami- Godoi. Ele também disse que a equipe voa
religiosas do país,
atraindo mais de
nação a que a tripulação é submetida ao trans- com muito medo de ser contaminada, mes-
2 milhões de pessoas portar doentes com o novo coronavírus. O mo que o paciente siga a viagem todo “em-
todos os anos, o Círio custo médio para levar um paciente entubado brulhado” num plástico de polietileno. Já
deverá ser cancelado
pela primeira vez
da capital do Pará até São Paulo gira em torno os profissionais de saúde e o piloto vestem-
de R$ 120 mil. Uma das maiores empresas que se com roupas impermeáveis, incluindo ga-
atuam com pacientes de Covid é a Brasil Vida. lochas de borracha, duas máscaras e mais o
Na cotação feita no sábado 2 pela reportagem protetor facial de plástico conhecido como
com essa empresa, o transporte de um pacien- face shield. Isso é proteção para contami-
te de Belém para o Sírio-Libanês custaria R$ nação biológica, a de nível III. Mesmo as-
118 mil. Na quarta-feira 6, esse valor estava em sim há casos de profissionais de Saúde que
R$ 125 mil. O funcionário encarregado de fazer se contaminaram com coronavírus durante
a cotação, Tiago Pinheiro, justificou o aumento o voo numa UTI. Algumas empresas de tá-
alegando a alta procura e os custos de manter xi-aéreo, inclusive, vêm se recusando a
médicos e enfermeiros em casa à disposição 24 transportar pacientes com Covid-19 por
horas para uma possível emergência. “Eles rece- causa do risco de contágio.
bem diárias de plantão mesmo estando em casa Na UTI aeromédica, há todos os equipa-
sem fazer nada”, ponderou. E garantiu que não mentos que uma UTI hospitalar possui. To-
há aumento no preço quando o paciente tem dos os voos são feitos com um médico inten-
Covid-19. “Tanto faz se ele foi contaminado sivista e um enfermeiro especializado. Se o
com coronavírus ou se quebrou a perna. O pre- paciente de Covid-19 embarcar respirando e,
ço é o mesmo”, assegurou. durante a viagem, enfrentar problemas pul-
O voo numa UTI aeromédica é algo deli- monares, ele será entubado durante a via-
cado quando o paciente tem problemas res- gem. Caso o estado de saúde se agrave com
piratórios por causa do aumento da pressão risco iminente de óbito, o piloto decidirá se
atmosférica nas alturas. “O risco de óbito é volta para a cidade de origem ou se faz um
muito maior. Os pacientes precisam de mui- pouso de emergência no aeroporto mais pró-
to cuidado, até porque o voo de Belém para ximo. Segundo todas as empresas consulta-
São Paulo é muito longo (dura três horas e das por ÉPOCA, no valor cobrado pelo
meia) para um paciente que segue entuba- transporte aéreo dos doentes estão inclusos
do”, explicou o enfermeiro de UTI aérea João os transportes em ambulâncias do hospital
A SAÍDA DO CAPITAL 33

de origem em Belém até o avião e do avião dência de que a rede privada no Pará também
em solo paulistano até o hospital onde o pa- saturou”, disse o prefeito.
ciente será internado. No voo é possível le- Ricos e pobres do Pará costumam recor-
var até dois acompanhantes. rer a Nossa Senhora de Nazaré para alcançar
a cura de doenças graves, como câncer. No dia

O médico intensivista César Collyer atua


na linha de frente no combate ao novo
coronavírus em Belém no Hospital Ophir
do Círio, no segundo domingo de outubro, os
fiéis costumam pagar pelas graças alcançadas
ao longo do ano. Em 2020, os promesseiros
Loyola. Pertencente à rede estadual, a entida- poderão não ter como quitar a dívida com a
de é especializada em câncer, mas as 30 UTIs Santa. Como o Círio de Nazaré se constitui na
do hospital estão abarrotadas de pacientes maior aglomeração de gente — a procissão do
com Covid-19. “Nunca vi nada igual em meus ano passado reuniu mais de 2 milhões de pes-
20 anos de carreira. Ontem, um médico de soas —, não há a menor possibilidade de a
minha equipe morreu contaminado por esse festa religiosa ser realizada daqui a cinco me-
vírus. Estamos esgotados fisicamente e psico- ses, conforme o previsto. A Igreja Católica, que
logicamente. Me sinto com as mãos atadas organiza o evento, ainda não sabe como comu-
por ver pessoas morrendo todos os dias sem nicar esse fato a seus fiéis. Duas cerimônias con-
ter o que fazer”, desabafou. “Quem tem di- corridas (a apresentação do cartaz do Círio e o
nheiro tem mais de procurar atendimento fo- ritual de descer a imagem de Nossa Senhora do
ra de Belém porque a rede particular também altar-mor no mês de maio) serão feitas virtual-
está colapsada”, avisou. mente até o fim do mês. No entanto, 90% das
reservas feitas para o período da festa foram
canceladas, segundo o Sindicato dos Hotéis do
O preço de um voo nessas UTIs, de Belém Pará. Esse dado indica uma evasão em massa
dos turistas. “Pelo andar da carruagem, está
a São Paulo, custa em torno de R$ 120 mil. bem difícil ter Círio em 2020. Embora eu seja o
A tripulação viaja paramentada e protegida, prefeito da cidade e devoto de Nossa Senhora de
mas ainda assim teme o alto risco de infecção Nazaré, vou deixar a decisão pelo cancelamen-
to ou por um possível adiamento para a Igreja
Católica”, disse o prefeito. “Mas, pelo caminho
O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho que estamos seguindo com essa pandemia, não
(PSDB), também aconselha os ricos a pro- vejo cenário para uma aglomeração de cente-
curarem tratamento fora da cidade que admi- nas de milhares de pessoas nas ruas. Não vis-
nistra, pois a situação no Pará está num nível lumbro a possibilidade de haver Círio”, avisou.
de colapso nunca visto antes. Ele disse que O arcebispo de Belém, Dom Alberto Tavei-
nunca viu nada parecido em 40 anos de vida ra Corrêa, presidente do Conselho Consultivo
pública. “Aqui, a situação é dramática. A po- do Círio de Nazaré, ficou irritado quando se
pulação não deu muita bola para a pandemia. cogitou o cancelamento da festa religiosa. “Es-
As feiras e os supermercados ficam lotados tamos mantendo todo o calendário do Círio.
no fim de semana. Nos bairros mais popula- No momento oportuno eu anuncio se vai ter
res, as pessoas vão para as ruas e fazem aglo- Círio ou não ou se ele será adiado, suspenso
merações sem usar máscara. O paraense não ou mesmo cancelado. Por ora, estamos traba-
acredita no que vê na TV todos os dias. Parte lhando com todas as forças para fazer uma
da população também sai de casa porque pre- festa bonita para os paraenses. Mas vamos
cisa trabalhar para sobreviver”, avaliou o pre- procurar as autoridades para decidirmos jun-
feito. Ele também atribuiu o pouco-caso dos tos”, ponderou. Como os fiéis atribuem a Na-
paraenses em relação à pandemia às fake zaré curas milagrosas, um padre de Belém pe-
news disseminadas na internet. “Muita gente gou a imagem de Nossa Senhora usada no Cí-
não acredita no avanço da doença porque se rio e fez um sobrevoo de helicóptero pela cida-
informa nas bobagens publicadas em redes de no início de abril, na tentativa de alcançar
sociais”, concluiu. Ele disse que entende que um novo milagre: exterminar o novo corona-
os ricos estejam procurando tratamento em vírus da maior metrópole da Amazônia e, sem
outros estados. “Os muito ricos vão para on- ele, conseguir uma autorização sanitária para
de há as melhores tecnologias. Isso é uma evi- realizar o Círio. Até agora, não deu certo.
COMO
AS FAKE NEWS
MUDARAM
A VIDA DE
UM CIENTISTA
VIVI PARA CONTAR 35

Especialista em Saúde Pública


da Fiocruz-Amazônia conta como
virou alvo de ataques ferozes
ao mostrar problemas
do tratamento com a cloroquina
por Marcus Lacerda
em depoimento a Johanns Eller

N
inguém sabe bem o que é abaixo da dose na China. Além disso, no
ser vítima de uma fake news Brasil, o remédio foi dado por cinco dias,
até passar pela experiência. também para garantir a segurança. Nosso
Do dia para a noite, tudo projeto foi aprovado pelo Comissão Nacio-
muda. A sensação de injusti- nal de Ética em Pesquisa. Todos os pacientes
ça e de revolta é muito gran- assinaram termos de autorização e consenti-
de. Sou médico e pesquisador. Nos últimos mento. Eles e suas famílias sabiam dos riscos.
meses fiz parte de uma equipe que pesqui- Nunca tomamos decisão alguma de for-
sou os efeitos da cloroquina. Em meados ma individual. Sempre fomos acompanha-
de abril, publicamos os dados preliminares dos por um comitê independente externo.
de nossa pesquisa. Isso é praxe. Permite Essas pessoas avaliavam dia a dia o que esta-
que outros pesquisadores revisem o traba- va acontecendo no estudo. Houve um mo-
lho e apresentem sugestões. Nossa conclu- mento em que perceberam que as pessoas
são preliminar foi que doses mais altas de que recebiam doses mais altas estavam apre-
cloroquina para os pacientes graves da Co- sentando arritmia cardíaca. Paramos o estu-
vid-19 são muito tóxicas. do e, na primeira avaliação, identificamos
Nosso trabalho foi o primeiro estudo que sete pessoas morreram no grupo da do-
controlado e randomizado com a cloroquina se alta e quatro no grupo da dose baixa. Por
para a Covid-19. Escolhemos as doses que isso, repito, nossa conclusão na versão preli-
seriam dadas aos pacientes com todo o cui- minar do estudo foi que doses mais altas de
dado. Os primeiros trabalhos na China mos- cloroquina para os pacientes graves da Co-
traram que a cloroquina só matava o coro- vid-19 são muito tóxicas.
navírus em doses mais altas. Os chineses Até o estudo preliminar se tornar público,
usaram a cloroquina durante dez dias. Nós em meados de abril, tudo que aconteceu é
optamos pela maior dose possível desde que praxe na área científica. O que veio depois,
fosse segura para o paciente, o que ficou não. No mesmo dia da publicação, houve
ARTE SOBRE FOTO DE: BUDA MENDES/GETTY IMAGES
ÉRICO XAVIER/INSTITUTO CARLOS BORBOREMA

É uma sensação de injustiça e de revolta muito


grande. A vida muda muito com esses ataques.
Quando você percebe que sua profissão pode
impactar a vida de sua família, é aterrorizante

uma repercussão muito forte na imprensa ças, e nós começamos a tentar combater
americana. O canal de TV CNN e o jornal as notícias falsas. Instituições da socieda-
The New York Times divulgaram amplamente de científica se manifestaram a nosso fa-
o artigo como um sinal de cautela. No dia vor, como a Academia Brasileira de Ciên-
seguinte, tivemos uma retaliação de um lo- cia, a Academia Nacional de Medicina, a
bista americano que publicou no Twitter Sociedade de Medicina Tropical Brasilei-
uma mensagem nos acusando de termos fei- ra, que obviamente conhecem o trabalho
to coisas absurdas no Brasil. Disse que a pes- que a gente faz em Manaus. Temos uma
quisa era antiética, que usamos doses muito tradição de quase duas décadas de pes-
altas e que tínhamos matado 11 pessoas. Foi quisa muito séria.
uma fake news de quem não leu o artigo. Mais para o final de abril, quando rece-
bemos as análises de nossa pesquisa feitas

E m seguida, houve uma enorme repercus-


são no Brasil. A partir do momento em
que o deputado federal Eduardo Bolsonaro
por outros pesquisadores, ganhamos no-
vamente grande visibilidade nos Estados
Unidos. Ficou claro que tínhamos feito
(PSL-SP) disse que pagaríamos pelo que fi- um trabalho sério. As ameaças, então, de-
zemos, comecei a receber muitas ameaças de ram uma freada. Nosso trabalho acabou
morte direcionadas a mim e a minha família motivando a Food and Drug Administration
no Facebook e no Instagram. Foi um mo- (agência de regulação americana equivalen-
mento de muito medo. É uma sensação de te à Anvisa no Brasil) a fazer uma nota de Marcus Lacerda liderou
injustiça e de revolta muito grande. A vida cautela em relação ao uso da cloroquina. a pesquisa sobre
a cloroquina tentando
muda muito com esses ataques. Quando vo- No começo da pesquisa, nossa intenção encontrar uma solução
cê percebe que sua profissão pode impactar era ver se a cloroquina era uma saída para para a Covid-19.
a vida de sua família, é aterrorizante. os pacientes graves de Covid-19. Infeliz- Ao descobrir que não
funcionava, virou alvo
A polícia do Amazonas está investi- mente, os resultados não provaram isso. do deputado Eduardo
gando o perfil de cada um que fez amea- Mas é assim que funciona a ciência. Bolsonaro (PSL-SP)
T ER. . . . .
..
ET

...
WS L

... . . . . . .......
. NE
...

...
..............

Ele está
mamando o
suficiente?

Parece mágica! Mas a newsletter de 0 A 3 ANOS DA CRESCER vai chegar até


você respondendo às dúvidas que mais surgem em cada fase da vida do seu filho.
Descubra como aliviar as cólicas, qual o melhor jeito de colocar o bebê para dormir,
como introduzir os alimentos sólidos e muito mais. É assim que queremos estar ao seu
lado: nos momentos divertidos e naqueles mais desafiadores. Conte com a gente!

CADASTRE-SE EM
crescer.globo.com
38 CONCORDAMOS EM DISCORDAR

Os economistas divergem
sobre a ideia de o governo
imprimir dinheiro para fechar
o rombo nas contas públicas
provocado pela pandemia
por João Sorima Neto

GUTIERREZ×AGOSTINI

MONTAGEM SOBRE FOTOS: DIVULGAÇÃO | GUSTAVO LIMA/TV CÂMARA/DIVULGAÇÃO

MARGARIDA GUTIERREZ, 63 anos, fluminense ALEX AGOSTINI, 45 anos, paulista


O que faz e o que fez: professora do Instituto Coppead O que faz e o que fez: economista-chefe da agência de
de Administração, escola de negócios da Universidade classificação de risco Austin Rating. Tem MBA
Federal do Rio de Janeiro. Tem doutorado em economia em gestão estratégica pela Fundação Getulio Vargas
CONCORDAMOS EM DISCORDAR 39

Faz sentido a emissão de moeda neste momento para finan-


ciar a dívida pública?
MARGARIDA GUTIERREZ Faz sentido. Vamos ter um déficit primário
de 12% a 13% do PIB. A dívida deverá subir de 75% para 90% do PIB. E
não dá para pensar em um ajuste fiscal neste ano. Então, essa não será
uma opção para financiar a dívida. O Banco Central, que foi autorizado
a comprar títulos públicos no mercado secundário pelo Orçamento de
Guerra, pode usar recursos da conta única do Tesouro, que tem R$ 570
bilhões, para fazer essa operação. Ou pode pedir à Casa da Moeda que
imprima dinheiro, se não houver papel-moeda disponível. Isso não faz
diferença. A impressão de moeda faz parte da política monetária.
ALEX AGOSTINI Isso não faz nenhum sentido. Ao emitir moeda, num
cenário econômico difícil, o Banco Central perde credibilidade e esti-
mula fuga de capitais. Neste momento, não é recomendável a emissão
de moeda para pagamento de dívida pública. O Banco Central já tomou
várias medidas, como a redução do compulsório dos bancos (dinheiro
que as instituições são obrigadas a deixar parado), oferecendo liquidez.

A emissão de moeda pode gerar inflação?


MG Pode gerar inflação. Mas, para que isso não aconteça, o Banco
Central tem de “esterilizar” esse aumento de moeda na economia. O
Banco Central faz isso lançando títulos públicos no mercado interban-
cário, nas chamadas “operações compromissadas de curto prazo”. Enxu-
ga essa liquidez. Ou seja, “empresta” títulos ao mercado por determina-
do período e depois desfaz essa operação e evita que a inflação suba.
AA Sim, há risco de inflação futura. Agora, estamos num período de
deflação (queda de preços), o que aumenta o poder de compra das
pessoas. Além disso, estamos com juro muito baixo. Esse cenário
traz o risco de empoçamento de liquidez. Ou seja, os bancos ficam
receosos de emprestar, diante de um cenário de maior risco de de-
semprego, e seguram o crédito. Então, emitir mais moeda traz o ris-
co de termos inflação no futuro.
40 CONCORDAMOS EM DISCORDAR

É difícil imaginar hoje um cenário de inflação alta, tendo em


vista que o Banco Central acabou de reduzir os juros de
3,75% para 3%, não?
MG Exatamente. O Banco Central reduziu os juros exatamente para
sinalizar que não está preocupado com a inflação. Ele mostra que
está preocupado com o impacto da pandemia sobre o crescimento
da economia.
AA Não há risco de inflação agora. Aliás, o Banco Central reduziu os
juros exatamente para que a inflação não fique abaixo da meta (4%
neste ano e 3,75% em 2021). Ele quer elevar a demanda nas famílias.
Mas não se pode pensar apenas no presente para emitir dinheiro. O
Banco Central tem de olhar o futuro. Com tanto dinheiro parado
nos bancos, existe o risco futuro de inflação. Por isso, seria irrespon-
sável emitir mais dinheiro agora.

As reservas internacionais também não poderiam ser utiliza-


das para financiar a dívida pública?
MG Essa é uma discussão, embora a finalidade das reservas não seja
essa. Elas são um seguro para que o país enfrente situações adversas
no mercado de câmbio, como a atual, em que o mercado internacio-
nal está fechado para países emergentes como o Brasil. O Banco
Central já gastou mais de R$ 50 bilhões em moeda e em contratos
de swap cambial para controlar a excessiva volatilidade do dólar.
Ainda assim o câmbio se apreciou.
AA Não, essa não é uma alternativa. Não precisa usar as reservas in-
ternacionais para financiar a dívida pública. Neste momento, a dívi-
da pública está sendo paga. E as reservas internacionais estão sendo
usadas para absorver a crise e reduzir a volatilidade do dólar. Se
usarmos as reservas para financiar dívida pública, ficamos sem esse
colchão de amortização da crise, e o real vai perder ainda muito
mais valor. Não é assim que funciona.

Quando será possível retomar o ajuste fiscal para reduzir a


dívida pública?
MG Pode esquecer corte de despesas para este ano. Todas as regras
fiscais foram relaxadas para combater a pandemia, como teto de gas-
tos, Lei de Responsabilidade Fiscal. Entre os países emergentes, o Bra-
sil é o que está gastando mais para enfrentar a pandemia, algo como
5% do PIB. Quando as regras fiscais voltarem a valer em 2021 e tiver-
mos um cenário melhor para a economia, o Congresso poderá apro-
var a PEC do pacto federativo e a emergencial. Seria um sinal de que
a trajetória da dívida voltaria a cair, gerando confiança no mercado.
AA A grande expectativa é que, passando essa pressão, o ministro
da Economia, Paulo Guedes, retome sua agenda de ajuste fiscal. O
ministro sabe que, se não fizer isso, será um grande retrocesso em
todas as conquistas já obtidas até agora. Mas ele sabe também que
as coisas não acontecem da noite para o dia. Então, depois que
passar esse período de crise que exige mais gastos, espera-se que o
governo retome o controle dos gastos e dê continuidade à redução
do tamanho do Estado. Essa sinalização de que os pilares fiscais
serão mantidos é muito importante aos investidores, para que seja
possível retomar o investimento com o programa de concessões à
iniciativa privada do governo.
M.B.
41

mbolle@edglobo.com.br

MONICA DE BOLLE É PESQUISADORA SÊNIOR POR QUE PRECISAMOS


DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS
E PROFESSORA DA UNIVERSIDADE JOHNS HOPKINS DE BANCOS?

B ancos. Todo mundo tem uma opinião formada sobre


os bancos. Geralmente, essa opinião não é das melho-
res. “Os bancos têm lucros excessivos e não deveriam rece-
exemplo, ficarem desempregadas antes de o projeto se
concretizar? Uma vez investido o dinheiro, não há como
o empreendedor devolvê-lo — a isso damos o nome de
ber dinheiro do Banco Central.” “Os bancos esfolam as “iliquidez”. O projeto, em suma, é ilíquido.
pessoas; por que estamos dando dinheiro para eles?” Mui- Entra o banco. O banco recolhe depósitos de todos, mas
tos bancos têm, sim, lucros excessivos. Muitos bancos pra- guarda em caixa uma fração do que coleta para aquelas pes-
ticam, sim, spreads bancários elevados, ou seja, trabalham soas que possam precisar de dinheiro antes da fábrica de res-
com uma diferença grande entre a taxa sobre o passivo piradores operar a pleno vapor. O restante, o banco empresta
(depósitos) e os ativos (empréstimos). Essas são distorções ao empreendedor. Vejam o papel social duplo que o banco
existentes no mercado bancário brasileiro, que sofre de cumpriu: para a sociedade, agora haverá uma nova fábrica de
elevado grau de concentração. Contudo, elas não justifi- respiradores. Para os depositantes que podem esperar, have-
cam afirmar que o Banco Central não deve exercer seu rá uma renda em forma de retorno que talvez não houvesse.
papel de garantidor da estabilidade financeira, sobretudo A existência do banco permitiu que o investimento fosse
em momento de crise sem precedentes, como o atual. feito, gerando ganhos para a economia. Sim, esse exemplo é
Dia desses resolvi dar, em meu canal do YouTube, reducionista, mas capta a essência do papel do banco.
uma explicação técnica sobre o papel dos bancos. O tema Agora vejam: por construção, o banco nunca tem em
é árido e não há como torná-lo sedutor, aprazível, palatá- caixa todo o estoque de depósitos nele depositado, já que
vel, ainda que possa dar gosto entendê-lo. É verdade que, empresta uma parte. Essa parte não tem liquidez. Se ocorrer
ao contrário do papel, o vídeo permite usar recursos vi- algo na economia que faça todos acreditarem que o banco
suais para tornar o tema mais atraente. Por exemplo, é não será capaz de ressarcir os depósitos antes de terminar o
possível recorrer a desenhos, em meu caso manuais, para prazo de maturação do investimento, haverá uma corrida
explicar um conteúdo teórico denso. Mas tentarei des- bancária. Por definição, algumas pessoas receberão seu di-
crever o cerne do argumento teórico aqui. nheiro de volta; outras, não. É para evitar isso que o Banco
Central faz o que chamamos de “injeções de liquidez”, ter-
Considerem uma situação mo que, em bom português, significa “dar dinheiro para os
em que não há bancos. bancos”. Se o Banco Central nada fizer, perdem os bancos,
sim. Mas sabem quem mais perde? O pequeno depositante
Há alguém — um empreendedor — com uma ideia boa na que havia colocado lá seu dinheiro. Ou seja, perdem todos.
cabeça, mas sem dinheiro na mão. Esse empreendedor Há mais. O papel do Banco Central nessas horas é sistê-
quer, por exemplo, fabricar respiradores mecânicos em es- mico, isto é, ele tem de preservar o ecossistema bancário,
cala e precisa de um empréstimo para isso. Evidentemente, que inclui bancos grandes, pequenos e médios. Como es-
o projeto trará ganhos para a sociedade. Sem um banco, crevi no início do artigo, o sistema bancário brasileiro já é
esse empreendedor dificilmente conseguirá obter junto às muito concentrado. Na ausência de um Banco Central atuan-
pessoas o volume de recursos de que necessita. Por quê? te em meio a uma crise de magnitude inédita, o risco de
Porque há o que chamamos de assimetria de informação: o concentração aumenta brutalmente. Afinal, as primeiras
empreendedor sabe mais sobre a chance de sucesso de instituições a quebrar serão as pequenas e médias. Se a con-
seu projeto do que o punhado de pessoas que o venha centração bancária aumentar, adivinhem o que acontece?
financiar diretamente. Há outro problema: o projeto é de Os lucros bancários pós-crise serão ainda maiores, os spreads
longa maturação. Isso significa que quem decidir financiar ainda mais elevados, as distorções ainda mais severas.
o empreendedor terá de deixar o projeto chegar ao final Portanto, é um argumento falacioso aquele que vê na
para receber o retorno esperado. Portanto, o financiamen- superfície uma apelação tentadora, sedutora, até. Em se
to direto exigiria das pessoas a capacidade de nada receber tratando de bancos, não há sedução possível. Fujam de
por um tempo maior do que elas talvez possuam. E se, por tudo que lhes pareça óbvio demais.
Estádios sem torcida
podem ser tornar comuns
quando os campeonatos
forem reiniciados
O GOL
CONTRA
DO
VÍRUS
A PANDEMIA PODERÁ
GUITO MORETO/AGÊNCIA O GLOBO

SER RESPONSÁVEL
POR UMA DAS MAIORES
TRANSFORMAÇÕES
JÁ VISTAS NO MUNDO
DA BOLA — NO BRASIL
E NO EXTERIOR
por Carlos Eduardo Mansur
AURELIEN MEUNIER/PSG/PSG/GETTY IMAGES

P
resos em casa e obrigados a ver clube recebe uma quantia muito alta por um
um sem-fim de jogos reprisados, atleta, geralmente, sai logo comprando outros
os fãs do futebol podem ter cer- jogadores. Depois de embolsar € 222 milhões
teza de que a volta dos campeo- pela venda de Neymar para o PSG em 2017, o
natos, quando acontecer, será Barcelona tirou Philippe Coutinho do Liver-
sob uma nova realidade. Diri- pool e Antoine Griezmann do Atlético de Ma-
gentes, empresários e jogadores estão con- drid, criando um efeito cascata que foi longe.
victos de que o novo normal do futebol será “Sem essas grandes negociações acima de
um mercado de transferências internacio- € 100 milhões, não há efeito do topo da pirâ-
nais em baixa, o que muda completamente a mide para a base”, disse Pedro Daniel, diretor
vida de clubes — aqui e no exterior. executivo da consultoria Ernst & Young.
A recessão econômica, que o Fundo Mo- Nessa nova conjuntura, não está descar-
netário Internacional (FMI) prevê como a tada a hipótese de que os clubes brasileiros
pior em quase 100 anos, não vai deixar nin- se vejam forçados a vender mais atletas, o
guém imune. Sem tanto dinheiro em caixa, que, à primeira vista, pode parecer uma
os clubes europeus deverão reduzir os valo- contradição. Num mercado que está pagan-
res oferecidos por jogadores tanto no mer- do menos, faria sentido esperar para vender
cado dos consagrados que já jogam a Liga mais caro quando os preços subirem. O pro-
dos Campeões quanto no dos jovens impor- blema, porém, é que os clubes brasileiros
tados da América Sul, uma péssima notícia não têm caixa para esperar a conjuntura
para os clubes brasileiros, dependentes das mudar. O mais provável é que vendam mais
transferências para fechar as contas. jogadores para fazer receita. “Os clubes bra-
É cada vez maior o consenso em torno sileiros terão de rever seus orçamentos. O
de que, enquanto a economia global estiver patamar de preços, mesmo para os jovens,
encolhendo, serão raras as transações de no- tinha subido muito nos últimos tempos”,
ve dígitos e de que, sem as grandes vendas, avaliou Eduardo Uram, um dos agentes de
o mercado todo tende a perder. Quando um jogadores mais atuantes do país. Gabigol
ENTRE QUATRO LINHAS 45

GABIGOL DEVERÁ SAIR DO FLAMENGO?


IGOR GOMES TEM OS DIAS CONTADOS
NO SÃO PAULO? NINGUÉM SABE AINDA.
O CERTO É QUE OS CLUBES BRASILEIROS
ENFRENTARÃO UMA PRESSÃO
FINANCEIRA HISTÓRICA

ção de patrocinadores e projetos de sócio-


torcedor com viés de baixa. “É possível que
demore para vermos os valores astronômi-
cos de TV e marketing que tínhamos até an-
tes da pandemia”, disse César Grafietti, con-
sultor de gestão e finanças do esporte.

H oje até a saída chinesa está em xeque. A


China se consolidou nos últimos anos
como um destino de jogadores de porte mé-
dio — aqueles que nunca seriam titulares
nos melhores times espanhóis nem ingleses,
mas são destaques no Brasileirão. “A ques-
tão da China amedronta. Eles terão uma ja-
nela de transferências agora? Não se sabe”,
disse um dirigente de clube brasileiro que
preferiu não revelar o nome.
STRINGER/GETTY IMAGES
Assim como no Brasil, na Europa há
uma queda de braço entre ligas e governos
pela retomada das competições. Para os clu-
Transações de nove deverá sair do Flamengo? Igor Gomes tem bes europeus, o ano contábil habitualmente
dígitos em euros, os dias contados no São Paulo? Ninguém sa- termina em 30 de junho, com o fim das
como a de Neymar
em 2017, serão mais be dizer quais jogadores os clubes vão que- temporadas. É quando as vendas de jogado-
raras com a recessão rer vender e se haverá demanda por eles. res são usadas para equilibrar balanços e sa-
da economia mundial O certo é que nenhum time está em situa- tisfazer regras do Fair Play Financeiro da
O mercado chinês tem ção totalmente tranquila. Nem Flamengo, Uefa (sigla da Union of European Football
se firmado como destino nem Palmeiras, líderes de arrecadação no Associations). A transição de um ano espor-
de jogadores brasileiros, país. No caso do atual campeão brasileiro, tivo para outro também traz receitas extras
mas agora até isso
se tornou incerto até houve um esforço recentemente para de patrocinadores, bônus e vendas de in-
melhorar as finanças, com redução do endi- gressos para o ano seguinte. Como não há
vidamento e tentativa de equilíbrio nas con- fim de temporada nem perspectiva de início
tas. Mas o clube segue sendo dono de um de outra, cria-se um vácuo de receitas.
dos elencos mais caros. Para os dirigentes, a Ao fim desta temporada — seja lá quan-
recente desvalorização do real é outro fator do isso acontecer —, vários jogadores im-
de preocupação. Além da perspectiva de portantes vão encerrar seus contratos, tor-
transferências menores em euros e dólares, nando-se “agentes livres”. Nomes como Da-
a cotação do real ante as duas moedas vem vid Silva, Cavani, Thiago Silva e Götze esta-
caindo. “Os valores vão mudar, inclusive pa- rão nesse grupo. Em circunstâncias normais,
ra jogadores top. Haverá menos dinheiro seria um dos últimos momentos da carreira
circulando e os clubes, até os de melhor si- para fazer uma grande quantidade de di-
tuação, vão sentar à mesa ao receberem nheiro numa transação. Sem precisar pagar
qualquer proposta”, disse Anderson Barros, pela rescisão de contrato, o novo clube remu-
executivo de futebol do Palmeiras. nera o atleta dono de seu destino com altas
Para os demais grandes clubes do Rio de somas a título de luvas ou prêmio pela assi-
Janeiro e de São Paulo e os de Minas Gerais natura do novo compromisso. Com a pande-
e do Rio Grande do Sul, o cenário também é mia, nem craques consagrados têm alguma
de bilheterias em queda, possível renegocia- certeza sobre o que vai acontecer.
46

Aos 81 anos, a escritora Lya Luft


lança As coisas humanas,
seu 31º livro, o primeiro após
a morte de seu filho André
por Guilherme Amado

17 PERGUNTAS PARA LUFT

LEONARDO CENDAMO/GETTY IMAGES


17 PERGUNTAS PARA LUFT 47

1. Não estamos programados para a perda de um filho.


Como foi essa experiência para a senhora?
É a coisa mais indizível, intraduzível. Fica a imagem dele, que era um
homem muito grande, muito bonito. Olhos impressionantes. Azul-
claros impressionantes. A voz, a fala, ele tocava e cantava muito bem.
Chegava e dizia “E aí, dona Lya” (ela engrossa a voz, como se imitando).
Passou os últimos anos na África com a mulher, administrou uma
imensa fazenda em Moçambique, eu o chamava de gigante gentile, por
ser muito alto. Muito amoroso comigo, com a família (André teve uma

2. parada cardiorrespiratória surfando, em novembro de 2017).


Outros livros seus foram influenciados
por acontecimentos marcantes em sua vida,
como o acidente de 1979, certo?
As parceiras, romance que saiu quando eu tinha 42 anos, foi marcado
por um acontecimento importante. O acidente me marcou, porque eu
era uma pessoa enérgica, fazia tudo para o marido, os filhos, traduzia
feito louca e, de repente, fiquei fragilizada. Tive uma convulsão cere-
bral, fiquei um pouco desmemoriada, ainda levou uns meses para vol-
tar. Eu era professora universitária, embora não gostasse muito. Nun-
ca fui boa na vida acadêmica. Sempre fui uma mulher que divaga, e aí
falei: “Agora vou fazer o que sempre sonhei, vou escrever um roman-
ce”. Desisti da faculdade pela dificuldade de memória e escrevi aquele
livro. Deu muito certo. Nem sabia ao certo se seria um romance ou
uma novela, mas, para minha surpresa, vendeu muito bem. Tive óti-
mas críticas e resenhas. Depois tive poucas coisas autobiográficas nos
30 livros que escrevi. Abriu ali a porteira de meu desejo de escrever
ficção. Depois da morte do Hélio Pellegrino (segundo marido de Luft,
de quem ela ficou viúva pela primeira vez), fiquei sem escrever seis

3. anos, só traduzindo.
Mas seu livro seguinte, A sentinela, também traz essa
marca autobiográfica, não?
Aí escrevi A sentinela e percebi que, pela primeira vez, uma persona-
gem, acuada por fatalidades como quase todas as minhas personagens,
dava a volta por cima. Havia sido um choque muito grande que eu ti-
nha levado com a morte do Hélio. Agora, As coisas humanas é a reunião
de artigos e crônicas que eu faço para jornais e revistas desde os 20 e

4. poucos anos e muitos que eu escrevi pela ocasião da perda de um filho.


A senhora sempre escreveu sobre perdas. E agora?
Eu perdi relativamente cedo meu pai, pessoa mais marcante de mi-
nha vida, quando eu tinha 35 anos. Depois perdi Hélio e, então, o pai
de meus filhos, com quem voltei a casar, Celso Luft, que adoeceu e
morreu. Eu tinha tido várias mortes, mas a coisa do filho é... Sobretu-
do porque ele era uma pessoa muito intensa. Nos primeiros meses,
fiquei catatônica. Depois, com o tempo, tenho filhos, Susana, médica,
e Eduardo, professor de filosofia, netos, meu companheiro, Vicente,
engenheiro e escritor. A vida chama. Há o que escrevi no livro O lado
fatal, poemas de quando o Hélio morreu. A melhor coisa que você
pode fazer para homenagear quem se foi é tentar viver direito de no-
vo sua vida. Não pode deixar que a morte destrua tudo que tem de
bom. Voltei a ser uma pessoa ligada na vida. Estou quase normalzi-
nha, estou bem, estou direitinha. Claro que tem alguma coisa em
mim que se apagou com a morte do filho, e isso qualquer pessoa que
passe pela experiência vai te dizer a mesma coisa.
48 17 PERGUNTAS PARA LUFT

5. O que se apagou?
Eu era mais alegre antes. Sempre fui... Eu tenho um olho alegre que
vive e convive e outro triste que observa e escreve. Você não passa im-
punemente por uma experiência dessas. Mas, enfim... Tenho minha
vidinha, minhas coisas. Pensando inclusive já num novo livro, e já
tem título: A alma dividida. Não sei ainda o que vai ser. Não vai ser
romance, vai ser meio Perdas e ganhos, O rio do meio ou Reflexões.
Primeiro quero que este pobre filho As coisas humanas aconteça (ri-

6. sos), em meio à pandemia.


O que há do André no livro?
Ponho no livro algumas coisas da infância dele, como o dicionário que
ele, criança, escreveu. Aquilo é verdadeiro. Tentei fazer um livro que
não fosse uma lamentação, sombrio, mas que tivesse alguma coisa da
realidade, que fosse a presença dele. No dia 29 de abril, ele teria feito 54
anos. No dia 2, fez dois anos e meio que ele morreu. Chamávamos ele
de Alemão. Pessoa muito presente, muito intensa, era o nosso Alemão.

7. Eu resolvi reunir esses textos e fazer novos e dedicar o livro a ele.


A senhora também teve um infarto em setembro. Afetou
seu dia a dia, seu trabalho, de alguma maneira?
Talvez tenha ficado mais quieta, mais preguiçosa, mas não acredito
que tenha influenciado. Foi inesperado. Tinha feito dois anos antes
todos os exames de coração, estava ótima. Depois os médicos acha-
ram que, embora todas as taxas fossem boas, colesterol, triglicerídeos,
tudo, provavelmente o infarto foi, o que não é raro, pelo choque da
perda do André. Por isso que o livro saiu só agora, infelizmente pe-

8. gando esta confusão de livrarias fechadas, tudo meio parado, falido.


Num texto do livro, a senhora diz que, depois de um
tempo longe das redes sociais, voltou e viu raiva, ódio,
insultos, calúnias, intolerância absoluta, mentiras,
laços desfeitos entre amigos e família por causa
de política. Como é sua relação com as redes sociais?
Tenho Face e grupos de WhatsApp, como o do ateliê de pintura que
frequento, outro de amigas, que se chama As Gurias da Lya, outro da
minha família. Eu acho que é um grande modo de você se comunicar
com as pessoas. É fechado, não deixo aberto para qualquer maluco en-
trar e encher minha paciência. Gosto de me comunicar. Sou mulher
da minha casa, gosto muito da minha toca, me comunico muito com
as pessoas, principalmente nesta época de quarentena, em que não
saio de casa. É muito bom, a gente se comunica, ri, conversa, troca no-
tícia. Fui um dos primeiros escritores brasileiros a usar computador,
porque, como eu traduzia muito, o computador me facilitou a vida
brutalmente. Tinha 20 anos ou pouco mais quando comecei. No A
sentinela, a personagem que dá a volta por cima é muito frágil. Tinha
chamado de Teresa e, quando o livro estava pronto, decidi por um no-
me mais frágil, doce. Pensei em Nora. Com o computador, fui só no

9. “substituir tudo” e troquei Teresa por Nora.


Mas até agora só vi o lado bom das redes,
diferentemente do que a senhora contou no texto do livro.
Não entro nessa parte negativa. Eu acho que as pessoas se aproveitam
muito de não ser olho no olho para xingar, para serem grosseiras. E isso
num momento tão grave como este que a humanidade está passando.
Não uso para isso. Uso para trocar ideias e afetos. Não me meto em
briga, no geral. Fico impressionada como as pessoas estão assustadas.
Para Lya Luft,
os aplicativos d
e comunicação
e as redes sociais
são para manter
contato com familiares
e amigos, não para
polarizar e xingar
MIGUEL MEDINA/AFP

Por assustadas, elas se xingam muito. Aqui no Brasil estamos assim há


tempos, pela coisa de esquerda, de ser ou não Lula. Xingam-se pelas

10. coisas políticas. Acho que estamos vivendo uma tragédia.


Como a política a afeta?
Não brigo por política. Há muitíssimos anos me desiludi. Acho que
são raros os políticos para os quais tiraria meu chapéu, e não vou no-
meá-los. Me entristece o que vejo por aí. Vejo mais politicagem, coisa
de poder, do que disposição de ajudar quem está sofrendo. Cemitérios
com valas comuns em São Paulo. Hoje vi foto com centenas de sepul-
turas em algum lugar do Amazonas, e o pessoal da política fica bri-
gando. Sou muito arredia, não gosto de política. Conheci alguns óti-
mos políticos, que também não vou nomear, mas acho que o poder, a
necessidade de entrar em certos jogos, vai desvirtuando a pessoa. Não
todos, quero deixar claro. Mas não entro em briga política, muito me-

11. nos pela internet. Tenho mais o que fazer.


A senhora ainda vota?
A gente nunca sabe a verdade toda, o que tem por trás, a postura das
pessoas versus a ação das pessoas. Votei até a última eleição. Estou pen-
sando em exercer meu direito de não votar mais, mas na hora acabo
votando. Estou muito preocupada. Quem está cuidando do povo bra-
sileiro neste momento? Não sei se sou mais cuidadosa por ser saúde,
mas vejo a mortandade na Itália, o choque econômico... Há algo me-
lancólico. A primeira vez em que ouvi falar desse vírus, em Wuhan,
não vou dizer que tive uma visão, mas tive uma impressão de uma coi-
sa ruim, como se fosse uma massa preta, pegajosa, cobrindo o mundo.

12. Sou boa de intuição. E está acontecendo...


Já refletiu sobre o significado social
ou filosófico da pandemia?
Acho que ainda vai piorar muito. Às vezes, acho que a humanidade
ainda vai sair melhor de tudo isso, vai aprender... Às vezes acho que
não... O problema da xenofobia é um problema gravíssimo. Essa coisa
do vírus chinês... Uma amiga que mora numa cidadezinha do interior,
onde tem uma casa de fim de semana, estava estacionando quando um
senhor passou por ela, viu a placa Porto Alegre e disse: “Volta para Por-
to Alegre e não vem mais para cá trazer doença”. Desde esses inciden-
tes pequenos até a coisa do vírus chinês, a xenofobia ainda vai piorar
muito, vai haver um grande isolamento. Não entendo nada de geopolí-
tica, sei lá o quê, mas acho que a humanidade ainda vai espernear, vai
sofrer muito ainda e terá de aprender. Reinventar o mundo econômico,
quanto tempo vai levar? É um momento da humanidade que lembra as
50 17 PERGUNTAS PARA LUFT

grandes pestes, a Idade Média, não sei quanto. Hoje um grande amigo
me disse algo engraçado. Que nunca pensou que entraria no banco
mascarado e sairia levando dinheiro tranquilamente. Não estou apa-
vorada, mas estou preocupada com tudo isso. A peste começa a che-

13. gar perto, a atacar um aqui, outro ali.


Como está sendo o isolamento?
Sempre fui de ficar quieta. O lado ruim é não poder conviver com
meus netos, netas, filho, filha. Estamos levando muito a sério essa qua-
rentena. Sou de alto risco, tenho 81 anos e infartei. A única que sai mes-
mo é minha filha, que é médica de emergência. Se paramenta toda com
aquela roupa de astronauta e a gente fica morrendo de medo. Não es-
tou disposta a morrer, mas, se tiver de ir, tudo bem. Tenho uma frase
bonita sobre a morte, de Sócrates: “Se morrer for um sono sem sonhos,
que bom, mas, se morrer for reencontrar todas as pessoas que eu ama-
va e que se foram, que bom. Então parem de se desesperar”. Mas não
poder ir a um enterro é tristíssimo. A dona do ateliê que frequento
morreu e não pude ir ao enterro. Um não pode ficar perto do outro.
Que humanidade vai sair daí? Fazendo uma metáfora meio boba, é co-
mo se a mãe natureza estivesse rangendo os dentes e dizendo: “Esse
pessoal está precisando de uma boa lição”. É claro que isso é uma bo-
bagem, mas estou fazendo esta figura. Não professo uma religião, mas

14. cada uma vai levar para um lado. Como se fosse o castigo...
Em termos de aprendizado?
Sim. Você vê foto de satélites ou drones e vê os canais de Veneza azuis, a po-

15. luição em cima da Terra muito menor, como se nós empesteássemos a Terra.
E as mudanças sociais, dentro das famílias?
As pessoas estão sendo obrigadas a conviver. É muito interessante saber
de pessoas que conviviam algumas horas descobrirem que se odeiam ou
se amam de verdade. A vida social, começando pela família, vai passar
por muita mudança. O home office... Minhas netas estão tendo aula pela

16. internet, o que é um privilégio, porque a maioria não pode ter isso.
No livro a senhora fala muito em fé. Como está sua
relação com a espiritualidade?
Fui educada pelo meu pai, que era maçom, um livre intelectual, advoga-
do, diretor de uma faculdade de Direito, de família luterana, que todo do-
mingo ia ao culto, e tal, mas fui influenciada por essa visão de que Deus
está em tudo, que coordena tudo, conduz. Não é o velhinho de barba
branca, que no fim de nossos dias vai nos medir e ver se fizemos besteiras
ou não, claro que não. Estamos mergulhados no transcendental e não
nos damos conta. Ontem eu vi uma frase muito bonita, que dizia que nós
não somos seres humanos tendo experiências espirituais, somos espíri-
tos tendo experiências humanas. Não sou espírita, mas tenho a visão de
que não é só nascer, crescer, viver, ganhar dinheiro ou não. Acho que

17. existe alguma coisa. É uma noção consoladora, claro, mas gosto dela.
Essa visão mudou com a morte do André?
Já tinha ficado viúva duas vezes. Apenas se solidificou com a morte do
André. Os mortos estão com a gente de alguma maneira, seja na me-
mória, seja nos espiando. Depois do primeiro horror, me veio uma
tranquilidade. Em algum lugar meu filho está, o pai dele está, uma
querida amiga que perdi há pouco está. Há coisas interessantes, de
cientistas da física quântica aventando a possibilidade de haver vários
registros de realidade. E, para algum deles, nós vamos. Mas o fato é que
acho a morte uma sacanagem.
H.G.
51

hgurovitz@edglobo.com.br
@gurovitz

HELIO GUROVITZ É JORNALISTA POR QUE PERDEMOS


E BLOGUEIRO DO PORTAL G1
AS BATALHAS PARA OS VÍRUS

V írus nem é ser vivo. Não passa de uma partícula de


matéria minúscula que, para gerar energia e se repro-
duzir, depende das outras formas de vida. É sempre para-
que surgiram os humanos — eles desenvolvendo novos
meios de ataque, e nosso sistema imune retaliando nu-
ma escalada armamentista. Como o tempo de cada gera-
sita. Ainda assim, é o organismo mais abundante no pla- ção viral é bem mais curto, a evolução da resistência
neta, aquele que mais convive com — e mais ameaça — humana é dolorosamente lenta. Com frequência, os ví-
seres humanos e demais espécies. Estima-se que haja na rus levam vantagem.”
Terra pelo menos 50 decilhões de vírus, no mínimo dez Apesar dos avanços da ciência, a humanidade só
vezes a quantidade de bactérias. “Há mais vírus no mundo venceu em definitivo a batalha contra o vírus duas ve-
do que todas as outras formas de vida somadas”, escreve a zes. A primeira foi na erradicação da varíola, meta esta-
virologista Dorothy Crawford no opúsculo introdutório belecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em
Viruses (Vírus). “São também atordoantemente diversos, 1966, quando a doença ainda causava 2 milhões de mor-
algo como 100 milhões de tipos diferentes.” Em cada litro tes anuais, alcançada enfim em 1980. A segunda nem foi
d’água do mar, há 10 bilhões de vírus, que matam todo dia contra um vírus que nos ataca. Foi na erradicação da
entre 20% e 40% das bactérias marinhas, lançando 650 peste bovina em 2010, mais de 20 anos depois de lança-
milhões de toneladas de carbono na atmosfera. Perto de da a campanha de vacinação global. O objetivo de erra-
20% dos cânceres diagnosticados todo ano são compro- dicar sarampo e poliomielite até 2020 fracassou. Verda-
vadamente provocados por vírus, embora se imagine que de que a incidência global da pólio caiu mais de 99%,
a proporção real seja bem maior. Para não falar nas 600 mas bolsões da doença resistem. Os casos de sarampo
mil crianças mortas por infecções intestinais ou nas 70 voltaram a crescer, em parte devido aos movimentos
mil que ainda sucumbem ao sarampo. Aids, hepatite, her- antivacinas. No Brasil, mesmo depois de erradicado,
pes, pólio, rubéola, malária, febre amarela, zika, chicun- voltou a matar. Enquanto tais batalhas prosseguiam,
gunha, caxumba, gripes e resfriados — a atual pandemia proliferaram novas infecções por vírus importados de
provocada pelo coronavírus sars-CoV-2 é só a última na animais, como HIV ou sars-CoV-2.
lista sem fim das moléstias virais, resultantes da capacida- “Embora saibamos que a maioria dos vírus emer-
de também infinita de mutação desses micróbios. gentes saltam dos animais para os humanos, estamos
O britânico Peter Medawar — aquele que teve de renun- longe de prever quando e onde aparecerá a nova ameaça
ciar à cidadania brasileira porque o então presidente Eurico viral”, constatava Crawford em seu livro. “A virosfera é
Gaspar Dutra se recusou a dispensá-lo do serviço militar e, imensamente diversa. Tal reservatório certamente re-
anos depois, ganhou o Nobel de medicina — definia vírus gurgitará novos patógenos humanos de tempos em
como “um pedaço de má notícia envolto por uma proteína”. tempos.” Antes da atual pandemia, ela formulava a
questão de modo preciso: “Estamos preparados? Mais
Para a humanidade, é recente especificamente, podemos prever, controlar, tratar e
prevenir novas infecções humanas por vírus?”. A res-
a descoberta de que, coletivamente, posta está hoje clara: não. Não soubemos — e ainda não
não somos a espécie sabemos — prestar atenção ao alerta do biólogo húnga-
mais poderosa do planeta. ro-sueco George Klein: “O vírus mais estúpido é mais
esperto que o virologista mais inteligente”.
“O estudo dos vírus tem menos de 100 anos, mas os pró-
prios vírus são parasitas antigos, cuja história e evolução
VIRUSES: A VERY SHORT INTRODUCTION
está estreitamente imbricada à nossa”, diz Crawford. “A Dorothy H. Crawford, Oxford University Press
batalha entre nós e esses micróbios está em curso desde 2018 | 176 páginas | US$ 12
O
QUE
RESTARÁ
DO
JAZZ
O ETERNO COOL 53

Os tempos de pandemia arrastaram


consigo os mestres do estilo,
que foram protagonistas e testemunhas
de transformações na música —
e não deixam herdeiros
por Silvio Essinger

D os gêneros musicais, nenhum outro foi


atingido de forma tão profunda e defi-
nitiva pela Covid-19 quanto o jazz. Fragili-
ultrapassou o jazz e frutificou no pop, ajudan-
do a inaugurar a disco music com o hit “Soul
Makossa”, de 1972. Igualmente, o contrabai-
zados pela idade avançada, foram-se nas úl- xista Henry Grimes (84 anos), uma meteóri-
timas semanas dois monumentos. Um, o pia- ca estrela do free jazz entre as décadas de
nista Ellis Marsalis Jr. (85 anos), apóstolo da 1950 e 1960, também teve em sua longevida-
renovação pelo bebop, educador e patriarca de uma desvantagem na luta contra a doença.
da mais famosa família de jazz do mundo, Mas a idade não foi o único determinante
os Marsalis. Outro, o guitarrista Bucky na democrática ceifa que o vírus desceu so-
Pizzarelli (94 anos), mestre da sutileza e da bre o jazz. Uma das primeiras vítimas da pan-
improvisação, que passou por orquestras, demia, ainda em março, foi Wallace Roney,
clubes e estúdios e só nos anos 1980 teve o trompetista de 59 anos que emergiu na década
reconhecimento devido, ao fazer duos com o de 1980 entre os Young Lions (jovens leões, na
filho, o também guitarrista, cantor e astro do tradução do inglês), músicos de 20 e poucos
jazz John Pizzarelli. Duas verdadeiras enci- anos que disputavam as glórias reservadas a
clopédias, testemunhas de seu tempo e figu- seus mestres. Uma turma da qual fizeram par-
ras de união de um estilo que depende igual- te ainda Wynton (trompete) e Branford (saxo-
mente do brilho individual e da interação — fone), filhos de Ellis Marsalis: novatos muito
diria-se até mediúnica — dos músicos. bem escorados nas conquistas de seus anteces-
Na surdina da pandemia, o coronavírus sores (Wallace, por exemplo, foi o único aluno
também levou um dos jazzistas que se desta- que Miles Davis teve), mas prontos para dar
caram não só nos improvisos, mas também seus passos adiante e atrair um público jovem
na assinatura que imprimiram a seu som: o para um estilo que alguns julgavam morto.
saxofonista Lee Konitz, de 92 anos, lembrado Jovem expoente do jazz nos anos 1990, o
nos obituários por ter aberto no jazz uma contrabaixista Christian McBride, de 47 anos,
avenida paralela à do sax transcendental de era um dos que mais se alarmavam com as
Charlie Parker e por ter sido o último músi- baixas que o novo coronavírus vinha provo-
co ainda vivo entre os que gravaram, em cando na cena. “Preocupo-me com a possibi-
1949 e 1950, Birth of the cool, um dos álbuns lidade de que isso venha a atingir mais músi-
com o qual o trompetista Miles Davis viria a cos, principalmente os mais idosos”, disse
O pianista Ellis Marsalis
Jr. em apresentação mudar os rumos do estilo. E apesar da jovia- McBride ao site BuzzFeed News, dias após a
no Festival de Jazz de lidade demonstrada em uma visita ao Brasil, morte do amigo Wallace Roney. “Preocupo-
Nova Orleans, em 2010. em 2016, a idade (86 anos) também teve pe- me com nossos tesouros, como (o baterista)
O músico, de 85 anos,
morreu em março, vítima so na morte, por Covid-19, do saxofonista Roy Haynes, que está na casa dos 90, (o saxo-
do novo coronavírus camaronês Manu Dibango, criador cuja obra fonista) Lou Donaldson, (o pianista) George
FOTO: DOUGLAS MASON/
GETTY IMAGES
54 O ETERNO COOL

Wein, Lee Konitz (que viria a morrer dias de-


pois) e (o pianista) Chick Corea, ou (os saxo-
fonistas) Wayne Shorter, Sonny Rollins... Te-
A partida de tantos luminares do jazz
em 2020, seja para a Covid-19 ou para
outras causas (como pode ter sido o caso
mos de embrulhá-los em plástico bolha!” de McCoy Tyner, um dos mais inventivos
“Eles são os criadores do que fazemos. pianistas do século XX, integrante do míti-
É muito assustador ver algumas dessas co quarteto do saxofonista John Coltrane,
pessoas irem, porque essa é nossa última que faleceu em março, aos 81 anos, de ra-
conexão com isso. Com o começo de nos- zões não divulgadas) abre uma questão:
sa música”, observou o baterista mexicano quem tomará o lugar dos mortos entre os
Antonio Sánchez, de 48 anos, membro da mestres do estilo? Desde bem pouco tem-
banda do guitarrista Pat Metheny e cria- po depois de o primeiro disco de jazz da
dor da premiada trilha do filme Birdman, história ter sido lançado (o da Original Di-
do diretor Alejandro González Iñárritu. Já xieland Jazz Band, em 1917), houve quem
o pianista mexicano e astro do latin jazz se apressasse em decretar o fim do “verda-
Arturo O’Farrill, de 59 anos, acrescentou deiro” jazz, a expressão da alma negra
à discussão no site: “Bucky Pizzarelli e Ellis americana, que foi assimilada por músicos Abaixo, à esquerda,
Marsalis Jr. foram fundamentais para meu do mundo inteiro, negros ou não. Depois o saxofonista Lee Konitz,
trabalho, era um pouco como assistir a de provocar um tanto de celeuma, revolu- em apresentação na
Holanda, em 1985.
um amado tio, pai ou mãe morrer. Eles fo- ções como o bebop, o spiritual jazz, o free Morto aos 92 anos,
ram exemplos de humanidade, gentileza e jazz e até mesmo o jazz fusion acabaram ele era um dos poucos
generosidade. Sinto como se tivéssemos passando de heresias a parte do cânone: ainda vivos a terem
gravado Birth of the cool,
perdido mais do que os músicos e ícones uma espécie de jazz clássico, encarnado disco revolucionário
que eles eram”. por músicos mais velhos, com a qual os de Miles Davis

FRANS SCHELLEKENS/REDFERNS HIROYUKI ITO/GETTY IMAGES

A partida de tantos luminares


do jazz em 2020, seja para a Covid-19
ou para outras causas, abre uma
questão: quem tomará o lugar
dos mortos entre os mestres do estilo?
ERIKA GOLDRING/GETTY IMAGES

O quarteto John novos talentos teriam de se medir antes de problema é quando há quem impeça as pes-
Pizzarelli (ao lado), partir para voos solo. soas de terem sua própria voz”, defendeu.
com a participação
de Bucky Pizzarelli De um jovem Ellis Marsalis Jr., numa “Quando as pessoas têm os fundamentos do
(sentado), no Café conservadora cena jazz de Nova Orleans jazz e a capacidade de levar a músicas para
Carlyle, em 2013. dos anos 1950, ao trompetista Christian outro lugar, é o que Wayne Shorter, (o pianis-
O guitarrista foi vítima
da Covid-19 em março Scott aTunde Adjuah — de 37 anos, da mes- ta) Herbie Hancock, Miles Davis e (o guitar-
ma cidade de Marsalis, hoje se firmando co- rista) George Benson fizeram. Você aprende
Christian Scott aTunde mo renovador do jazz ao incorporar hip- os fundamentos e depois faz de seu jeito.”
Adjuah (acima)
em apresentação nos hop e música tradicional africana a seu tra- Porém, para além da questão das referên-
Estados Unidos, em 2018. balho —, o estilo vai se mantendo vivo nu- cias vivas que se perdem, a pandemia cria
O trompetista tem ma relação conflituosa com a tradição. “Eu outras dificuldades para o jazz, como disse
inovado o jazz hoje,
misturando elementos cresci numa época em que a música era em entrevista o contrabaixista Christian
de hip-hop muito diversa, com todo tipo de hip-hop, McBride: “Ser músico de jazz significa, mui-
jazz, r&b, gospel, clássicos... eu gostava de tas vezes, ter de trabalhar por conta própria.
tudo isso, estudei todos esses estilos, e em E muitas pessoas por conta própria que per-
minha música eu quis misturá-los todos, co- deram muito dinheiro estão sentadas em ca-
mo se fosse um cozido, um gumbo”, anali- sa sem trabalho. Estão tentando descobrir
sou, em entrevista a ÉPOCA, o trompetista como fazê-lo”. Outra questão foi levantada
e nova estrela do jazz Keyon Harrold, de 39 pelo baterista Antonio Sánchez, na mesma
anos, cuja turnê brasileira, marcada para reportagem: sendo o jazz, até hoje, uma arte
março, foi adiada pela Covid-19. que sobrevive melhor na performance ínti-
“Para mim, Keyon, jazz é, antes de tudo, ma dos teatros e pequenos palcos, não há co-
expressão. Eu me oponho a qualquer coisa mo se virar em tempos de confinamento.
nele que não esteja mudando. A ideia de jazz, “Quando os músicos se sentirão à vontade
seja na improvisação ou no jeito que você novamente para viajar e trabalhar? E quando
monta seus acordes e usa as batidas, é indivi- as pessoas voltarão a se reunir em algum lu-
dual. É como a fala, todo mundo fala diferen- gar, bem próximas umas das outras, para ou-
te do outro. As pessoas têm formas diferentes vir música?”, pergunta-se Sánchez. “Isso vai
de dizer a mesma coisa. E muitas vezes o levar muito tempo, compreensivelmente.”
56

MELLO MENEZES

O ABC DE ALDIR BLANC


A ldir Blanc morreu na segunda-feira 4 após 23 noites lutando contra a
Covid-19. Fica uma obra de mais de 600 canções, construída, em grande
medida, com os pés na rua da realidade e a cabeça na lua da liberdade poéti-
ca. “O corona não tem como comer a obra dele”, disse seu parceiro Guinga.
“Quero cantar nossas canções até onde eu tiver forças”, prometeu outro par-
ceiro, João Bosco.
ÉPOCA montou um ABC inevitavelmente parcial, sem a audácia de propor
“o melhor de”. Muitos versos soberbos ficaram de fora. É uma compilação, à
guisa de homenagem, para exemplificar a excelência das letras de Blanc.
VERDADEIRO BRILHANTE 57

Amor Delírios
O amor é estar no inferno Estrela é só um incêndio na solidão
ao som da Ave Maria PRA QUE PEDIR PERDÃO?, COM LUZ

NEM CAIS NEM BARCO, COM GUINGA

A terra onde nasceu o Peter Pan/


O amor é a patada da fera fica entre a Vila e o Maracanã
na cara do domador RAMO DE DELÍRIOS, COM GUINGA

FALSO BRILHANTE, COM JOÃO BOSCO

No Rio: mar./Ouço Netuno assoviar/


Acho que o amor é a ausência Um Gershwin Clara Nunes/que faz
de engarrafamento vibrar feito flauta/os túneis
TRANSVERSAL DO TEMPO, COM BOSCO DELÍRIO CARIOCA, COM GUINGA

O amor é meu pastor:


tudo me faltará Elas
ORAÇÃO PERDIDA, COM JAYME VIGNOLI Bem que eu queria dar com fé uma
E LUIZ FLAVIO ALCOFRA cacarecada/Mas minha nega é maior
e vacinada
FEMINISMO NO ESTÁCIO, COM BOSCO

Boemia
Todo boêmio é feliz/Porque quanto Um mulherão, balangandãs,
mais triste, mais se ilude cerâmica e sisal/Língua assim, a
ME DÁ A PENÚLTIMA, COM BOSCO conta certa entre a baunilha e o sal
COISA FEITA, COM BOSCO E PAULO EMÍLIO
DE A A Z, UM Eu não resisto aos botequins
GLOSSÁRIO DE mais vagabundos/mas Fascínio tenho eu/por falsas louras/
VERSOS ÉPICOS não pretendia te envergonhar (ai, a negra lingerie)/Com sardas,/
ESCRITOS PELO PRA QUE PEDIR PERDÃO?, COM MOACYR LUZ sobrancelha feitas a lápis/
COMPOSITOR, e perfume da Coty
MORTO EM Mas a tarde começa a cair e eu MISS SUETER, COM BOSCO
DECORRÊNCIA DO perco o sossego/Sentindo correr
NOVO CORONAVÍRUS, no meu sangue de negro/O
NO RIO DE JANEIRO chamado do samba e do botequim Família
por Luiz Fernando Vianna MÃOS DE AVENTUREIRO (SEM PARCERIA) Mãe,/arranha o vidro da janela/onde
a sujeira vela/por nós dois/porque
eu não sei/quem anda mais sozinho./
Carnaval Aí eu perdi o ninho, a casa/o colo, a
Por um bloco que aumente/o crença/Só nossa doença não me
movimento/que sacuda e arrebente/ abandonou
o cordão de isolamento CHORO-RÉQUIEM, COM GUINGA

PLATAFORMA, COM BOSCO

Ponho a mão na testa do meu neto/


Carnaval, missa campal/ e é meu avô que está estendendo
do povo brasileiro/onde a hóstia a mão./Nessa comunhão dos três/
sagrada é o pandeiro eu sou avô do meu avô
VITÓRIA DA ILUSÃO, COM LUZ ACALANTO PROS NETOS, COM CRISTOVÃO BASTOS

Imaginar o Salgueiro,/lua sobre o


sangue de linda mulher.../é preciso
o universo inteiro/pra mostrar o que
o Salgueiro é
LUA SOBRE SANGUE, COM CLÁUDIO JORGE
58 VERDADEIRO BRILHANTE

Galos de briga Jobim


O rubro das brigas duras/dos galos Toco piano e a Virgem canta,/diz pro
de fogo puro/rubro gengivas de Menino: Tio Tom./Senta à vontade
ódio/antes das manchas no muro e a coxa santa me dá saudade
GALOS DE BRIGA, COM BOSCO do Leblon
JOBINIANA, COM GUINGA

Meu companheiro/tá armado até


os dentes/já não há mais moinhos/ O Jobim, sabiá, bem-te-vi
como os de antigamente QUERELAS DO BRASIL, COM TAPAJÓS

O CAVALEIRO E OS MOINHOS, COM BOSCO

Mas, ovelha negra me desgarrei/ Lua


o meu pastor não sabe que eu sei/ Estrela, no adeus/faz com que/tua
Da arma oculta na sua mão luz me proteja,/me beija de leve/azul
AGNUS SEI, COM BOSCO serenata ao luar Moonlight serenade,
versão para música de Glenn Miller
Mulher lunar,/hoje eu te louvo no
História negra momento em que te pões
Rubras cascatas/jorravam das MULHER LUNAR, COM LUIZ CARLOS DA VILA

costas dos santos/entre cantos


e chibatas/inundando o coração/
do pessoal do porão Machismo
O MESTRE-SALA DOS MARES, COM BOSCO Ele vai voltar tarde/Cheirando
a cerveja/Se atirar de sapatos
Preso,/marca a rebeldia/traz pra na cama vazia/E dormir na hora
senzala/a luz do amanhã murmurando: Dora/E você é Maria Oceanos
DA ÁFRICA À SAPUCAÍ, COM BOSCO BODAS DE PRATA, COM BOSCO Eu, teu corsário preso/vou partir
a geleira da solidão/E buscar
O escuro do negreiro/O açoite Eu não posso me queixar/ a mão do mar
pardo do feitor/E um clarão pra Delegacia da Mulher/ CORSÁRIO, COM BOSCO

enganador/A liberdade sonhada ninguém pra testemunhar/


ainda não chegou como é a violência em meu lar O dom de acariciar/Profundamente
RAINHA NEGRA, COM LUZ DELEGACIA DA MULHER, COM LUZ feito o mar,/Remexendo o que
naufragou/Lentamente na solidão
RESTOS DE UM NAUFRÁGIO, COM LUZ

Irmãos Noite
Perder um amigo/Perder o sentido/ Ah, vida noturna/eu sou
Perder a visão/As mãos, os ouvidos a borboleta mais vadia/na doce flor/ Pares
PERDER UM AMIGO, COM MAURÍCIO TAPAJÓS da tua hipocrisia Sentindo frio em minh’alma/
VIDA NOTURNA, COM BOSCO Te convidei para dançar/
Os irmãos Francisco, Herbert, A tua voz me acalmava/
Henrique/são muito engraçados./ Um cuba libre treme na mão fria/ao São dois pra lá, dois pra cá
São marujos de um navio/várias striptease da agonia/de cada um DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ, COM BOSCO

vezes posto a pique/nem por isso que deixa o cabaré/lá fora, a luz do
perdem o riso dia fere os olhos Nos dissemos/que o começo
QUATRO IRMÃOS, COM LEANDRO BRAGA CABARÉ, COM BOSCO é sempre,/sempre inesquecível/
e, no entanto, meu amor,
que coisa incrível,/esqueci nosso
começo inesquecível
LATIN LOVER, COM BOSCO
VERDADEIRO BRILHANTE 59

ALDIR BLANC E JOÃO BOSCO/ACERVO PESSOAL


Rio de Janeiro As sandálias, e eu batendo em teu
Brasil, Brasil/tua cara ainda é o Rio rosto/E a queda dos saltos tão altos/
de Janeiro/três por quatro na foto Sobre os nossos filhos
e o teu corpo/precisa se regenerar ALTOS E BAIXOS, COM SUELI COSTA

SAUDADES DA GUANABARA, COM LUZ E PAULO

CÉSAR PINHEIRO Meu catavento tem dentro o vento


escancarado do Arpoador/Teu
Um dia vi Iemanjá/cantando num girassol tem de fora o escondido do
dancing lá.../Me diz aí: que mal há/ Engenho de Dentro da flor
em ser da Praça Mauá CATAVENTO E GIRASSOL, COM GUINGA

PRAÇA MAUÁ: QUE MAL HÁ?, COM LUZ

Vila Isabel
Samba Os netos... o quintal... Vila Isabel.../
Meu samba é casa de marimbondo/ Todo o Brasil era sol, quarador
Tem sempre enxame pra quem mexer TEMPOS DO ONÇA E DA FERA — QUARADOR,

CASA DE MARIMBONDO, COM BOSCO COM BOSCO

Ele é um samba de quadra da Zune o vento e valsam os oitis/no


Mangueira/que Deus letrou,/ velho boulevard/bosques de Viena
dá aula sobre a cidade/e nessa VIENA FICA NA 28 DE SETEMBRO, COM BOSCO

universidade/é o reitor
FLORES EM VIDA PARA NELSON SARGENTO, COM LUZ

X do problema
Querelas do Brasil Tempo Entre amar e matar não sobra
O Brazil não merece o Brasil/O Brazil E o tempo se rói com inveja de mim,/ espaço/quanta lâmina rente
tá matando o Brasil me vigia querendo aprender/como ao meu abraço/e cristais
QUERELAS DO BRASIL, COM TAPAJÓS eu morro de amor/pra tentar reviver de arsênico em meu beijo/
RESPOSTA AO TEMPO, COM CRISTOVÃO BASTOS vão matar o que mais quero
Chora a nossa pátria, mãe gentil/ CANÇÃO DO LOBISOMEM, COM GUINGA

choram Marias e Clarices/ 50 anos são bodas de sangue/casei


no solo do Brasil com a inconstância e o prazer Num lance alguém se suicida/
O BÊBADO E A EQUILIBRISTA, COM BOSCO 50 ANOS, COM BASTOS e a marca de uma ferida/
não sai com o apagador
Grampearam o menino do corpo TABELAS, COM BOSCO

fechado/e barbarizaram com mais de Uniões estáveis


cem tiros./Treze anos de vida sem Se eu tô/Devendo dinheiro e vem um
misericórdia/E a misericórdia no me cobrar/Dotô, a peste abre a
último tiro porta e ainda manda sentar Zona Norte
TIRO DE MISERICÓRDIA, COM BOSCO INCOMPATIBILIDADE DE GÊNIOS, COM BOSCO Há quem não se importe/mas a
Zona Norte/é feito cigana/lendo a
Se alastra entre os gurus/visões Eu sou teu acaso/e por acaso tu és minha sorte
diluvianas/Carmen Miranda teme/ minha sina,/somos sorte e azar,/eu SÓ DÓI QUANDO EU RIO, COM LUZ

que não haja mais bananas sou tua relíquia/tu és minha ruína
DILUVIANAS, COM GUINGA SIAMESES, COM BOSCO Dirá um dodói que Tolstói era chuva
demais pra tão pouca planta./
Ô, trouxa, heroínas sem par
podem brotar na Rússia/
ou lá em Água Santa
LUPICÍNICA, COM VIGNOLI
60 ENSAIO

INSPIRADA NO LIVRO DE PHILIP


ROTH, A SÉRIE COMPLÔ CONTRA
A AMÉRICA, QUE PROPÕE UMA
REALIDADE ALTERNATIVA E OPRESSORA
NOS ESTADOS UNIDOS DA DÉCADA
DE 1940, REMETE DE CERTA FORMA
AO BRASIL ATUAL
por Jerônimo Teixeira

NEM
TÃO
DISTANTE
ASSIM
ENSAIO 61

O rabino Lionel
Bengelsdorf (interpretado
por John Turturro)
é entusiasta de políticas
do presidente americano
que estimulam
o antissemitismo
FOTO: DIVULGAÇÃO/HBO
62 ENSAIO

O
corretor de seguros Herman sem escalas entre Nova York e Paris — e que
Levin é um patriota. Acredi- foi um notório simpatizante de Hitler.
ta nos ideais de liberdade e Na verdade, Lindbergh jamais se candidatou
igualdade expressos em do- a um cargo político. O presidente americano
cumentos fundamentais dos em 1941, como todos sabem, era Franklin Dela-
Estados Unidos, como o no Roosevelt, que com firmeza conduziu seu
Discurso de Gettysburg — breve pronuncia- país na guerra contra as forças do Eixo na Eu-
mento que o presidente Abraham Lincoln fez ropa e no Pacífico. A cena descrita acima apare-
em uma cerimônia fúnebre no palco de uma ce no terceiro dos seis episódios de The plot
das mais cruentas batalhas da Guerra Civil against America (Complô contra a América),
americana. Nas férias escolares dos filhos, minissérie da HBO disponível pelo serviço de
Herman põe a família no carro e parte de assinatura da Net Now. Trata-se de uma exce-
Newark, Nova Jersey, para uma excursão cívi- lente adaptação do romance de mesmo título
ca pela capital federal, Washington. No impo- de Philip Roth (1933-2018), lançado em 2004,
nente Memorial Lincoln, o dedicado pai de no qual se imagina um passado alternativo em
família envolve-se em uma discussão política que Lindbergh derrota Roosevelt na eleição de
com outros turistas — e um deles chama 1940. David Simon, um dos criadores da série,
Herman de “judeu falastrão”. O insulto antis- adaptou o livro para a TV com a intenção, de-
semita cala mais fundo ao ser proferido no clarada em várias entrevistas, de representar a
monumento que traz em uma das paredes o ameaça à democracia que ele identifica no go-
Discurso de Gettysburg, com sua eloquente verno Donald Trump. Considerada a admira-
afirmação do princípio de que todos os ho- ção sabuja que Jair Bolsonaro demonstra pelo
mens são criados iguais. Herman acredita que presidente americano, seria inevitável que o es-
seu ofensor só ousara falar daquele modo pectador brasileiro encontrasse paralelos entre a
odioso porque a Casa Branca, naquele ano de estranha realidade política em que seu país
1941, era ocupada por Charles Lindbergh, o mergulhou e o passado imaginário criado por
popular aviador que realizara o primeiro voo Roth e recriado por Simon. E calhou de a série

DIVULGAÇÃO/HBO
ENSAIO 63

O LIVRO DE “HISTÓRIA ALTERNATIVA”


DE ROTH FOI ADAPTADO À TV
COM A INTENÇÃO DECLARADA
DE APONTAR O RISCO QUE
DONALD TRUMP NA CASA BRANCA
REPRESENTA À DEMOCRACIA

ser exibida no Brasil enquanto se desenrolava cargo máximo do Executivo conclamou a po-
uma escalada nacional de irracionalidade pro- pulação a enfrentar a Covid-19, que ele cha-
movida por um presidente que, mesmo de- ma de “gripezinha”, como “homem, não co-
pois de milhares de brasileiros mortos, mini- mo moleque”. Estava dada a senha para buzi-
miza a gravidade da pandemia do coronaví- naços em frente a hospitais. Em São Paulo,
rus. Essas circunstâncias tornam ainda mais uma carreata chegou a bloquear a passagem
assustadores os paralelos de Complô contra a de ambulâncias. A culminação espetacular
América, o livro e a série, com o Brasil atual. dessa onda bárbara se deu em Brasília, no fe-
Admirador da ditadura militar, Jair Bolso- riado de 1º de maio, quando enfermeiros em
naro é o político que, falando a apoiadores na protesto pacífico por melhores condições de
frente do Palácio do Planalto, no domingo 3, trabalho foram insultados e agredidos por
evocou a Constituição como uma espécie de um grupo pequeno, mas estridente, de mili-
carta branca para a total autoridade presiden- tantes bolsonaristas. No mundo todo, profis-
cial. Suas credenciais de democrata são duvi- sionais da saúde estão sendo aplaudidos por
dosas, na melhor das hipóteses. É bom que se seu esforço no combate à Covid-19. No Bra-
esclareça, porém, que não se está sugerindo sil, eles foram incluídos na cada vez mais
aqui que o presidente tenha afinidades com o abrangente categoria dos inimigos do povo
nazismo. As aproximações com a ficção são — na qual já se encontram jornalistas, tam-
menos óbvias. Dizem respeito não tanto à bém vítimas de agressão das hostes bolsona-
ideologia política que Lindbergh carrega para ristas (embora o presidente prefira culpar
o governo americano no mundo alternativo “infiltrados”), e governadores que reforçam
Patriota e admirador de Roth, mas à erosão de pactos de civilidade medidas de isolamento social.
dos valores de liberdade e ao aviltamento da vida cotidiana que uma O presidente incita antagonismos exata-
e igualdade americanos,
o judeu Herman Levin figura hostil à democracia causa ao ocupar a mente quando fala em “povo”, e esse discurso
leva o filho a Washington, Presidência. Voltemos à cena no Memorial divisivo também guarda pontos de contato
mas acaba alvo de Lincoln: Herman percebe que um chefe do com o Lindbergh de Complô contra a Améri-
insultos antissemitas
Executivo que faz acenos amistosos para os ca. “O Brasil como um todo reclama a volta
nazistas — oferecerá até uma glamourosa re- ao trabalho”, disse Bolsonaro em live na fren-
cepção, na Casa Branca, para Ribbentrop, o te do Planalto, no dia 3, com a manifestação
chanceler de Hitler — representa um tácito de sua claque ao fundo. A pesquisa então mais
sinal verde para que os antissemitas expres- recente do Datafolha informava que o apoio
sem seu ódio. Em momento posterior da tra- às medidas de isolamento, embora declinante,
ma, lojas de proprietários judeus são depre- ainda estava em 52%. O “Brasil como um to-
dadas, e sinagogas incendiadas. Episódios as- do” de Bolsonaro exclui, portanto, metade dos
sim, comuns na Alemanha dos anos 1930, pa- brasileiros. A retórica do presidente e de seus
reciam inimagináveis para Herman, que se associados transformou “povo” em uma cate-
recusa a abandonar seu país mesmo quando goria não inclusiva, mas excludente. Sempre
amigos judeus se mudam para o Canadá. ficaram de fora gays, ambientalistas, esquer-
Corte abrupto para o Brasil real do século distas, intelectuais, jornalistas, cientistas, artis-
XXI: sim, nossa história recente conheceu, tas e não cristãos — e a concepção militante
sobretudo a partir de 2013, uma boa dose de que os ideólogos próximos ao presidente têm
turbulência nas ruas, com episódios variados do cristianismo tende a excluir o fiel mais
de violência (tanto de manifestantes quanto apegado à caridade e ao amor ensinados nos
de policiais) e vandalismo. Mas até ontem Evangelhos. Recentemente, também foi cassa-
pareceria inimaginável que hospitais fossem da a brasilidade de médicos e enfermeiros, de
objeto de ódio político. Então o ocupante do João Doria e Wilson Witzel, e até de Sergio
64 ENSAIO

O BUZINAÇO DE APOIADORES RADICAIS


DE BOLSONARO EM FRENTE A HOSPITAIS
NÃO DEIXA DE SER UMA DEMONSTRAÇÃO,
À BRASILEIRA, DO ÓDIO AO ADVERSÁRIO
PRESENTE EM REGIMES AUTORITÁRIOS

THE LIFE IMAGES COLLECTION/GETTY IMAGES


judeu urbano seria sempre um corpo estra-
nho ao “país como um todo”. As iniciativas
claramente antissemitas do governo Lind-
bergh contam com o improvável apoio de
um rabino, Lionel Bengelsdorf, o que nos dá
mais um melancólico termo de comparação
com a realidade brasileira: mesmo no ápice
de sua virulência, Jair Bolsonaro segue con-
tando com o apoio de autopropalados libe-
rais. Houve baixas nessas fileiras, sim, mas
ainda vemos empresários, militantes de ins-
titutos liberais, blogueiros, comentaristas de
rádio e TV e velhos homens da imprensa fe-
chados em torno de um presidente que in-
centiva a irresponsabilidade sanitária e hos-
tiliza imprensa, Congresso e STF.
No final não de todo convincente do ro-
mance de Roth, Roosevelt afinal retorna à Ca-
sa Branca e os Estados Unidos entram, com
atraso, na Segunda Guerra Mundial. A minis-
série da HBO optou por um final em aberto, e
por isso mais incômodo. Complô contra a
América oferece, como se buscou demonstrar
aqui, certas balizas para melhor dar sentido à
mesquinha política do tempo presente. Mas
convém não descuidar do aspecto mais íntimo
da narrativa: a família que na minissérie foi
rebatizada como Levin se chamava Roth no
romance. E o caçula leva o nome de Philip.
Sim, é a própria família do autor que está
transfigurada no livro. O escritor que escan-
dalizou a direita reacionária e melindrou a es-
querda identitária com sua abordagem crua
da sexualidade masculina em obras como O
Autor que desagradou Moro. O Lindbergh histórico, na campanha complexo de Portnoy e O teatro de Sabbath
à direita e à esquerda, em que se engajou para que os Estados Uni- também dedicava um olhar terno à vida do-
Philip Roth lançou
Complô contra dos não se envolvessem na guerra contra a méstica. Dividida quando Sandy, irmão mais
a América em 2004 Alemanha, acusava seus adversários — ju- velho de Philip, se deixa seduzir pelas pro-
deus inclusive — de perseguir interesses “não messas de “assimilação” do rabino Bengels-
americanos”. O Lindbergh da literatura de dorf, a família Roth no entanto ainda conse-
Roth e da série de Simon vai além: seu gover- gue se amparar em meio ao terror que se ins-
no instaura um programa de “assimilação” tala em seu país (“Perpétuo medo” é o título
para adolescentes judeus, levando-os para do capítulo final). É um amparo generoso,
temporadas em grotões rurais. O pressuposto mas precário quando do lado de fora da casa
era que o fazendeiro do Kentucky representa- estão queimando sinagogas. Ou buzinando
ria o americano “autêntico”, ao passo que o em frente a hospitais.
65

ALLAN SIEBER
L.R.
66

epoca@edglobo.com.br

LARRY ROHTER, JORNALISTA E ESCRITOR,


É EX-CORRESPONDENTE DO NEW YORK TIMES NO
AQUELE ABRAÇO
BRASIL E AUTOR DE RONDON, UMA BIOGRAFIA

U ma das queixas mais comuns sobre Joe Biden, provável


candidato do Partido Democrata contra Donald Trump
na eleição em novembro, é que ele toca demais nas pessoas.
desses rituais — João Figueiredo e José Serra, por exemplo
—, mas o americano Biden, sorridente e afável, realmente
gosta das pessoas e de estar em contato físico com elas.
Abraços, beijos, mãos levemente encostadas nos ombros, o Sempre achei saudável essa informalidade da política
rosto quase colado no do interlocutor — todos são gestos brasileira, que também se expressa em outras formas, in-
praticados por ele, e nem sempre apreciados pelos recipien- clusive na maneira como o povo e a imprensa se referem
tes. “É reconhecido que ele gosta de pôr as mãos em homens aos presidentes. Os mais populares geralmente são conhe-
e mulheres, às vezes carinhosamente, às vezes inoportuna- cidos pelo primeiro nome ou apelido: Getulio, JK, Jango,
mente”, observou uma colunista do New York Times, en- Tancredo, FHC, Lula ou Dilma. Quando um presidente é
quanto um editorialista do mesmo jornal falou de “várias chamado pelo último nome, é um mau augúrio, um sinal
mulheres que reclamaram que o sr. Biden as abraçava ou se de que faltam a ele apoio e apego popular: Médici, Geisel,
aproximava delas de um jeito que as deixava incomodadas”. Figueiredo, Sarney, Collor, Temer e, agora, Bolsonaro.
Fico atônito quando leio declarações desse tipo, que
ilustram um dos abismos culturais mais evidentes que se- Desconfio de um político com aversão
param o Brasil dos Estados Unidos. No geral — ao menos ao contato físico com o povo.
até a pandemia do coronavírus impor o distanciamento
social — o brasileiro gosta de dar e receber manifestações Donald Trump, por exemplo. Antes de se candidatar em
físicas de amizade, carinho e simpatia. E o americano? Ca- 2016, nos vários livros supostamente “escritos” por ele
da vez mais é uma atitude de “não põe a mão em mim!”. (sempre com a “ajuda” de um escritor fantasma), reclama-
Ou seja, o significado de palavras como “inoportuno” e va do “nojento” costume de apertar as mãos, segundo ele
“incômodo” varia de uma cultura para outra. Claro que al- “uma das maldições da sociedade americana”. Um dos li-
guém que apalpa as nádegas de uma mulher num vagão de vros tem um capítulo chamado “Evite o aperto de mãos
trem na hora do rush está violando as normas de ambos os sempre que for possível” e, na campanha, seu guarda-cos-
países. Mas muitas vezes o que “incomoda” o americano — tas andava com álcool em gel, para o candidato poder de-
ou melhor dito, a americana — é para brasileiros absoluta- sinfetar as mãos depois de todo encontro com populares.
mente normal, e quem evita essas pequenas mostras de calor Mas o sentimento puritano (ou neurótico?) de “não me
humano é visto como mal-educado, distante ou estrangeiro. toque” nos Estados Unidos fica mais forte entre a geração
Quando cheguei ao Brasil, nos anos 1970, estranhei os mais jovem, os universitários, e já criou uma cultura de
abraços e beijos que abrem e fecham festas, reuniões de famí- afastamento. Tenho um amigo cearense que já foi profes-
lia, jantares e almoços ou até encontros de amigos na rua. sor visitante em faculdades americanas, mas me jura que
Mas logo aprendi a aceitar e depois a gostar disso — embora nunca mais vai voltar a dar aula nos Estados Unidos. “Sou
ainda hoje não me sinta completamente confortável entre brasileiro, pô”, ele me disse no ano passado. “Estou acostu-
multidões, tipo bloco de Carnaval ou torcida de futebol. Situa- mado a tocar nas pessoas, e não tem nada de assédio sexual
ções do tipo “Chuva, Suor e Cerveja”? Não é comigo, não. nisso.” Outro amigo professor brasileiro acabou resolven-
O problema de Joe Biden talvez seja que ele é um político do nunca se reunir em seu escritório com nenhum estu-
brasileiro disfarçado de americano. Ao longo dos anos, dante sem a porta aberta e uma terceira pessoa presente.
acompanhei muitos candidatos brasileiros em campanha, e Já se está especulando sobre como será o “novo nor-
há certos rituais exigidos dos postulantes. Eles precisam não mal” pós-pandemia. Estou torcendo para que o hábito
apenas apertar mãos e beijar bebês, práticas comuns nos brasileiro de abraçar e de beijar não seja mais uma vítima
Estados Unidos, mas também demonstrar que são povão do coronavírus. Seria uma tragédia viver num mundo em
por meio de abraços e beijos com populares e da inevitável que se pode apenas cantar “Alô, alô, Rio de Janeiro, aquele
parada para tomar um cafezinho numa lanchonete ou pé- abraço! Todo o povo brasileiro, aquele abraço”, sem poder
sujo. Existem políticos brasileiros que apenas fingem gostar executar o gesto. Viva o calor humano!
2020
Empresas que aposta m
em um ambiente mais favorável
para a mulher e sua carreira
merecem um prêmio.
A SUA PODE ESTAR ENTRE ELAS.

Vem aí uma nova edição da


premiação que destaca as
companhias com as melhores práticas
e políticas corporativas para a
equidade de gênero e a liderança
feminina no Brasil.

A pesquisa, realizada pelo Instituto


Ipsos, é uma iniciativa da WILL
(Women in Leadership in Latin
America) em parceria com O Globo,
Valor Econômico, Marie Claire
e Época Negócios.

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Pesquisa: Realização: Apoio metodológico:

Ipsos
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SE TEM UMA
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FONTE DE
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NUNCA
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COMBUSTÍVEL QUE
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Mãe que
. . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . troca
. fralda
. . . . .
a atende
. . . . . . . . . . . . . . . . . .
telefone
. . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

ACABA,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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O NOME DELA
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É MÃE.
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. . . . . . . . . . . . . . . Ser .mãe . é uma


. estrada
. . sem. fim. . . .

. . . . . . . . . . . . . . .
E neste
.
momento,
. . .
reconhecemos
. . . . .
que você, mais do que ninguém,
. . . . . . . . . . . . . . .
tem. feito. este
. .
caminho . .
brilhar. . . .

. . . . . . . . . . . . . . . Isso. nos .enche


. de. orgulho.
. . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Por isso, a nossa homenagem
. . . . . . . . . . . . . . . é para
. você.
. Por
. sua
. força,
. . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . dedicação,
. . paciência,
. . .disposição
. . . .

e por ser esse tanque cheio de


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
amor a todo e qualquer instante.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

COMBUSTÍVEIS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

COMBUSTÍVEIS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . COMBUSTÍVEIS
. . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . COMBUSTÍVEIS
. . . . . . . . .

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