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Comarca de Ijuí

3ª Vara Cível
Rua Tiradentes, 671, Caixa Postal 361
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Processo nº: 016/1.13.0007232-4 (CNJ:.0014806-79.2013.8.21.0016)


Natureza: Redibitória
Autor: Luiz Francisco Tabille
Réu: S PLETSCH REVENDEDOR
Juiz Prolator: Juiz de Direito - Dr. Nasser Hatem
Data: 27/04/2018

Vistos.

LUIZ FRANCISCO TABILLE ajuizou ação redibitória em face


de S. PLETSCH REVENDEDOR (SIDI VEÍCULOS), aduzindo que o veículo
NISSAN FRONTIER SE, ANO 2011, PLACAS JAI 7213, estava no
estabelecimento da requerida para venda, sendo que a empresa detinha
procuração para venda e transferência do bem. Afirmou que, durante a
negociação para compra e venda do imóvel, a requerido passou-lhe a
informação de que o bem se encontrava íntegro, em perfeitas condições.
Disse que após a transferência do veículo para o seu nome, tomou
conhecimento de que o veículo foi recuperado de acidente de trânsito, o que
comporta vício oculto, estranho ao comprador, visto que não foi informado
no momento da aquisição do veículo sobre o acidente nem sequer constava
no documento do veículo. Requere a antecipação dos efeitos da tutela para
o fim de determinar a rescisão contratual atinente ao veículo. Postulou a
procedência dos pedidos para que seja confirmada a liminar, condenar a
requerida à devolução do valor pago pelo veículo, condenar a requerida ao
pagamento dobrado do valor pago a maior quando da compra do veículo,
bem como condenar a requerida ao pagamento de indenização por danos
morais. Pediu AJG. Juntou documentos (fls. 20/35).
Determinada a intimação da autora para comprovação da
carência financeira (fl. 36).
Manifestação da autora (fls. 38/41).
Indeferida AJG ao autor (fl. 42).
Pagas as custas (fl. 45).
Indeferida a liminar (fl. 46).
A ré apresentou contestação (fls. 49/59). Alegou
preliminarmente ilegitimidade passiva. Frisou quanto a ocorrência de
prescrição e decadência. No mérito, afirmou que desconhecida a condição
de acidentado do veículo, inexistindo má-fé, em virtude de que não
concorda com a rescisão contratual. Salientou que o autor utiliza o veículo
diariamente, o que demonstraria as perfeitas condições de uso do
automóvel, razão pela qual não há de ser restituído ao autor o valor pago
pelo bem. Afirmou que o evento não constitui restrição e sim mera
informação que não possui o condão de desnaturar o valor e o estado do
veículo. Frisou que o veículo está em perfeitas condições de uso. Afirmou
que descabe a repetição de indébito, visto que o veículo está em perfeitas
condições de uso, bem como que o réu não cobrou quantia indevida do
autor, tendo sido ajustado o preço em concordância com o seu estado de
conservação. Salientou que não são devidos danos morais, pois esteve de
boa-fé durante a relação contratual estabelecida, bem como, afirmou que
não há comprovação de dano. Postulou o acolhimento das preliminares ou a
decadência ou a improcedência do pedido inicial. Pediu AJG. Juntou
documentos (fls. 60/64).
Réplica (fls. 66/69). Juntou documentos (fls. 70/73).
Instadas as partes para produção de provas (fl. 74). Parte
autora requereu a produção de prova testemunhal (fl. 76).
Designada data para audiência de instrução (fl. 77).
Parte autora apresentou rol de testemunhas (fl. 78).
Realizada audiência (fls. 87/89).
Parte autora desistiu da oitiva de duas testemunhas (fl. 95).
Parte ré concordou com a desistência de apenas uma das
testemunhas (fl. 99).
Manifestação da parte autora (fls. 102/103).
Determinado à parte ré que justifique o interesse na oitiva
da testemunha (fl. 104).
Precatória de Inquirição (fls. 105/114).
Justificação da ré (fl. 116).
Deferida a prova testemunhal (fl. 117).
Carta precatória de inquirição (fls. 129/ 138).
Manifestação do autor (fls. 140/141).
Indeferida a expedição de ofícios (fl. 142).
Manifestação do autor (fl. 144).
Deferido o pedido de expedição de ofício (fl. 146).
Retornou carta precatória de inquirição cumprida
positivamente (fls. 155/177).
Não houve manifestação do réu (fl. 178).
Manifestação do autor (fls. 179/180).
Declarada encerrada a instrução (fl. 181).
Aberto o prazo para apresentação de memoriais (fl. 181).
Parte ré apresentou memoriais (fls. 183/197).
Parte autora apresentou memoriais (fls. 198/197).
Determinada a renumeração das folhas que constituem o
presente feito (fl. 198).
Cumprida a determinação, vieram os autos conclusos.

É o relatório.
Decido.

Trata-se de ação redibitória c/c indenizatória em que o


autor postula a condenação da demandada pelos danos materiais e morais
sofridos, em razão da compra de um veículo que já teria sido acidentado.
A questão vertente dos autos se trata de evidente relação
de consumo, regida pelas disposições do Código de Defesa do Consumidor.
Passo à análise da preliminar de ilegitimidade passiva
arguida pela ré. Não merece acolhimento. Em que pese o vício alegado pelo
autor não seja consequência de atitude da ré, no contrato de compra e
venda, anexado aos autos à fl. 28, contata-se que a empresa ré atuou como
vendedora do veículo objeto da presente lide, em virtude de que possui
legitimidade para compor o polo passivo da presente demanda.
Com relação à prescrição ou decadência, entendo que não
restaram configuradas. Considerando que a informação da condição do
veículo não era possível de ser conhecida ao tempo da realização do
negócio (fl.27), que o autor somente teve conhecimento do evento com o
certificado de registro de veículo (fl. 34), datado de 04/07/13 e, levando em
conta que a presente demanda foi protocolada em 25/09/2013, não houve o
decurso do prazo decadencial previsto no art. 26, §3º, do CDC, em virtude
de que afasto a preliminar de decadência.
Superadas as questões prejudiciais, passo à análise de
mérito.
Sustenta o autor que realizou contrato de compra e venda
com a empresa ré em 04/03/2013, fato indubitavelmente comprovado a
partir do Contrato de Venda de Automóvel juntado aos autos (fl. 58). Em
sequência, afirmou a transferência do veículo, que se deu ao quinto mês
subsequente à formalização do contrato, tomou ciência de que o veículo
participou de acidente de trânsito, informação que não constava nos
documentos do veículo ao tempo da perfectibilização do negócio jurídico
entre as partes.
Em contrapartida, asseverou a empresa requerida que a
informação do acidente era desconhecida ao tempo da negociação e venda
do veículo, bem como que a informação não possui o condão de desnaturar
o bem, diminuir-lhe o valor ou alterar a finalidade à que se destina. Frisou
quanto ao seu estado de boa-fé durante a relação contratual estabelecida,
em virtude de que afirma ser descabido a rescisão contratual, repetição do
indébito ou indenização por danos morais.
Pois bem.
Dispõe o Código de Defesa do Consumidor:

Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo


duráveis ou não duráveis respondem
solidariamente pelos vícios de qualidade ou
quantidade que os tornem impróprios ou
inadequados ao consumo a que se destinam ou
lhes diminuam o valor, assim como por aqueles
decorrentes da disparidade, com a indicações
constantes do recipiente, da embalagem,
rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas
as variações decorrentes de sua natureza,
podendo o consumidor exigir a substituição das
partes viciadas.

No caso dos autos, restou claro que o objeto do contrato de


compra e venda perfectibilizado entre as partes portava vício oculto, qual
seja, a falta da informação de que o veículo teria sido sinistrado, consertado
e posto à venda no estabelecimento da ré, mediante análise do documento
de fl. 27, datado de 10/10/2017, no qual não há informação aceca do
acidente, em conjunto com o documento de fl. 34, datado 04/07/2013, que
anuncia o envolvimento do veículo em sinistro.
Contudo, em que pese seja de conhecimento popular que o
envolvimento de veículo em acidente de trânsito causa diminuição no valor
comercial do objeto, assim como no poder comercialização do bem, a parte
autora não coligiu aos autos documentos que demonstrem a proporção da
desvalorização do bem, o que poderia ter sido auferido com produção de
prova pericial, que não foi produzida pelo autor, embora tenha sido
oportunizado (fl. 74).
Portanto, improcede o pedido do autor para condenar a ré
ao pagamento de indenização por danos materiais, face a não comprovação
efetiva do valor da depreciação, ônus que lhe incumbia, nos termos do
artigo 373, I, do CPC, do qual não se desincumbiu. Consequentemente,
improcede o pedido de restituição dobrado do valor pago a maior.
De outra banda, com relação ao pedido de danos morais,
entendo ser cabível a fixação do quantum indenizatório em favor do autor,
considerando que o desconhecimento do evento depreciativo influenciou no
poder de decisão do consumir, interferindo na sua liberdade realização do
negócio.
Em relação a fixação do valor indenizatório, é cediço que a
fixação do dano moral tem caráter subjetivo, não havendo critérios
preestabelecidos para o arbitramento do dano. Assim, cabe ao juiz, por seu
prudente arbítrio e, tendo sempre em mente, os princípios da
proporcionalidade e da razoabilidade, estimar, no caso concreto, um valor
justo a título de indenização. Com efeito, a dificuldade na mensuração do
valor do ressarcimento, que, por óbvio, não pode ser tarifado, exige que o
magistrado busque em seu senso prático, atentando às peculiaridades de
cada caso concreto, estabelecer critérios para embasar sua decisão,
devendo sopesar especialmente as condições econômicas e sociais do
ofendido e do ofensor, as circunstâncias do fato e a culpa dos envolvidos, a
extensão do dano e seus efeitos, sem esquecer que a indenização deve ser
suficiente para reparar o dano, não podendo importar em enriquecimento
sem causa.
Desta forma, entendo que, para o caso, adequado se
mostra a indenização no valor R$ 4.000,00 (quatro mil reais), a fim de
compensar os transtornos que a parte autora teve de suportar, já que
recebeu cobranças indevidas e não conseguiu a interrupção das mesmas
após longo lapso temporal.
Assim, ao meu sentir, não se mostra nem tão baixo –
assegurando o caráter repressivo-pedagógico próprio da indenização por
danos morais – nem tão elevado – a ponto de caracterizar um
enriquecimento sem causa, já que visa impedir que se repita situação como
a apontada nos autos.

DIANTE DO EXPOSTO, julgo parcialmente procedente o


pedido referente à partilha de bens proposto por LUIZ FRANCISCO TABILLE
em face de S. PLETSCH REVENDEDOR (SIDI VEÍCULOS), nos termos do artigo
487, I, do CPC, para condenar a requerida ao pagamento de R$ 4.000,00, a
título de danos morais em favor do autor, devidamente corrigido
monetariamente pelo IGPM, a partir do arbitramento, e juros legais de 12%
a contar do evento danoso. a partir da data do ato de compra e venda
Diante da sucumbência verificada, condeno ambas as
partes ao pagamento de custas e honorários advocatícios, na proporção de
50% para cada um. Fixo honorários em 20% do valor da condenação, tendo
em vista o trabalho dispendido, a complexidade da causa e o tempo de
tramitação processual, com base no artigo 85 § 2º do CPC, sendo que cada
parte pagará 50% do valor ao procurador da parte contrária.
Havendo interposição de apelação pelas partes, dê-se vista
à parte contrária para contrarrazões e após, remetam-se os autos ao
Tribunal de Justiça, na forma prevista o art. 1.010 do Novo CPC.
Caso a parte apelada venha alegar preliminar ao recurso
de apelação prevista no § 2º do art. 1.009 do Novo CPC, proceda-se vista à
parte contrária/apelante no prazo de 15 dias, com posterior remessa do
recurso ao Tribunal de Justiça.
Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

Ijuí, 27 de abril de 2018.


Nasser Hatem
Juiz de Direito