Você está na página 1de 9

A Filosofia no Romance

Malavela, lembras-te daquele “e viveram juntos e felizes para sempre”? Na realidade, é


simplesmente uma introdução de romance e uma conclusão incerta da história.

Apresento-te, oh querido Malavela, o Mano, um jovem dessas zonas de Magude, igual e


diferente de muitos jovens dessa sociedade, pois é um jovem que sonha, diferentemente
de muitos que não sonham mas imaginam - O tema sobre sonho e imaginação, escrevo-
te noutra oportunidade, mas saliento desde já que, sonho é um olhar ao futuro, possível
de se realizar; imaginação, um colocar-se na situação do outro, não vê o amanhã, no
fundo é uma angústia, uma angústia que nos consome até à páscoa eterna - E também a
Mocinha, uma mulher bela, fascinante, sensacional e extraordinária que chama atenção
com os olhos, mesmo estando fechados! Carinhosamente, ele chamava-a de olhos de
berlindes para testar a pouca paciência dela; inteligente, eu é que digo, pois somos bons
amigos e, escrevendo a história dela, devo deixar curiosidade nas pessoas ao ponto de
quererem conhecê-la.

O Mano, meu caro, é um jovem daqueles diferentes. Tem uma diversidade de amizades.
Tem amigos com nomes tais como, Maxchungo, Nganhana, Munhai, Zunguene,
Ndjango e tu comigo fazes parte dessas amizades, bem o sabes. Mas também tem
amigos com nomes contemporâneos tais como, Príncio, Anatoli, Bertílio, Benedito,
entre outros (só para não falar do grupo de “os tais”). É intitulado de “o pegador”,
inicial e finalmente desta história. No início da história, recebe esse título por ser chefe
da turma e um estudante inteligente (entre nós, de inteligente, só vejo o bom uso da
imaginação), e no final, por oferecer uma adrenalina nas raparigas, pois torna-se algo
proibido para elas.

A mim, Malavela já conheces. Não sou historiador, nem sou romancista. Nunca escrevi
um artigo (além do “suicídio” que encontra-se preso nos computadores vicentinos). O
romance, não escrevo por ter lido Shakespeare ou Mia Couto que é a referência na
literatura moçambicana. Sabes bem que mesmo me dando tempo para ler romances,
posso cair inconscientemente numa leitura crítica (a filosofia já me moldou), ficando
nos aspectos superficiais. A poesia e o romance requerem um mergulho emocional,
melhor, uma (entextualização) encarnação. Escrevo agora pela quarentena e escrevo
desta maneira por estar mergulhado no mundo das novelas, estas que nos fazem
sentirmo-nos como poetas portugueses.
O começo. Tudo começa naturalmente, não como num romance das novelas onde as
pessoas esbarram-se, olham-se nos olhos e apaixonam-se, o famoso amor à primeira
vista mas como algo que se vai escorregar em nós a partir do sentir próprio ou dum
contar real da experiência vivenciada por um amigo. Aqui, duas pessoas conhecem-se e
tornam-se conhecidas. Conheceram-se na Igreja, na escola, na rua ou no mercado?
Ninguém sabe, nem elas sabem! Mas a simpatia começa na Igreja, obviamente, quem
reza e vai à Igreja devia ser simpático.

A linda donzela via aquele moço prestes a decepcionar a sociedade como uma
oportunidade de trilhar o caminho da felicidade. Ela já o amava e sabia. Quando falo de
decepcionar a sociedade soa como se ele estivesse preste a fazer algo malicioso, não é
isso. Decepcionar a sociedade é a coisa mais simples de acontecer, enquanto a
sociedade pensar como uma colectividade (pensamentos colectivos devem ser os mais
simples para até o mais ignorante compactuar), como, o homem deve crescer e formar a
sua família (falando do casamento); já é regra da vida. Ele decepciona a sociedade neste
aspecto, escolhendo o caminho de pertencer à uma família (espiritual), não o de formar
uma família como a sociedade julga como regra da vida. Eu digo, uma loucura e uma
decepção. A miúda era uma louca por deixar-se apaixonar por uma pessoa errada; o
rapaz era uma decepção por estar em excomunhão com a sua sociedade cultural.

Neste conhecimento de duas entidades, os encontros sociais fluíam mais que os


encontros de romance. Ambas pertenciam a um grupo, um da Igreja, aquele em que os
membros usam vestes sagradas. O Mano pertencera a este grupo e, de novo, estava
pertencendo ao grupo; no grupo era visto como o “malandro”, pois era aquela decepção
e não aparentava ser aquela decepção, e a linda, cada vez mais se apaixonava em
silêncio.

Agora, isto é entre nós Malavela. O Mano era um malandrão, pegava na bunda de todas
do grupo, menos uma. Não deixava escapar nenhuma oportunidade de paquera e todas
eram convidadas especiais quando se tratava delas estarem a sós com ele nos seus
aposentos. A bela dama via e esperava a vez dela, que nunca chegava. No meu ponto de
vista, ele estava se despedindo, pois no ano seguinte entraria numa intuição total
(religiosa), fruto das escolhas dele. Eu penso que ele tinha em mente que teria saudades
daquilo.
Entre as pegadas pelo Mano, existia uma magrinha bonita que lhe ensinou a sorrir, antes
dessa magrinha ele não sabia sorrir, nem para encantar as mulheres. Ele encantava-as
com outras coisas. Pegadas porque era simplesmente pegar e largar. Então, esta também
já estava largada. Mas de vez enquanto, as conversas fluíam e muitas das vezes para a
felicidade da bela dama, ela estava por perto e, os três conversavam como bons colegas.
A única coisa estranha era a inexistência da malandrice em frente à magrela (magrinha)
e à bela dama.

Malavela, permita-me acelerar a história. O jovem entrou na instituição e a jovem


donzela com a paixão silenciosa continuou com os estudos. Ela estava decepcionada
(não te esqueça que ela pertencia também àquela sociedade cultural decepcionada)
porque pensava que era apenas uma emoção da mocidade do amado mas que logo cairia
na realidade. Na instituição, cultivava cada vez mais a espiritualidade missionaria;
aprendeu a amar os pobres. Pela primeira vez, ele amava e sabia que estava amando.
Mas continuava a falar com a magrinha, numa outra perspectiva, de respeito. Ela
respeitava a decisão do homem que decepcionara a sociedade e ele sabia que já não
tinha direito àquilo que eu desejava.

Enquanto na instituição o amor crescia, a conversa com a magrela também crescia. E as


saudades inundavam o ser da bela dama e da família da decepção. A mãe, tinha dito sim
porque queria a felicidade do filho, mas a frase “quando casares” sempre fugia pela
boca da bela mãe, pois também pertencia a sociedade. As irmãs, não. O irmão, sim,
entendia mais a decepção pois, bem sabia o quão belo é seguir os caminhos do Senhor,
porque era um dos anciãos da comunidade cristã daquela época. A bela dama ainda
estava no tempo da bonança. Tinha a irmã por perto, a mãe, o irmão, até os vizinhos.
Ela selava os momentos que passara com o seu amado no coração e na mente (para mim
Malavela, não existia nenhum momento).

Férias e férias. As férias quando estavam prestes, as conversas com a magrinha


intensificavam. E a bela dama, mais ansiosa ficava para ver o seu amor e envolvê-lo
num romance oculto, tão oculto que o melhor palco seria a sua mente! As férias
chegaram e nada aconteceu entre o Mano e a Magrinha. No fundo eles tinham mudado,
inconscientemente eles tinham tomado a consciência da situação deles - Aqui a
providência actuou com certeza- Mas o ser nunca muda, ele é um malandrão, o ser
enquanto essência. O ser propriamente dito, pois agora distorce-se esse ser para
promover-se injustiças em perguntas tais como: “sabes quem eu sou?”. O ser até para o
autoconhecimento encontra-se corrompido. O facto de alguém dizer “eu sou…” nos
apavora, por não sabermos o que vem depois desse verbo.

Férias, férias e férias. A vivência na instituição torna-se mecânica, é um momento de


crise vocacional para o Mano e isso acontece na caminhada por ele escolhida. O Mano
torna-se uma máquina de caridade. E foram necessárias mais férias para ele se
encontrar. Encontra-se na instituição, tornando-se um instrumento de Deus e, em contra
partida, encontra-se na sociedade, como aquele que percebe as perspectivas e
expectativas da sociedade. O que vai ser dele? A sociedade tem, agora, uma expectativa
especial para ele, quer dizer, finalmente a sociedade entendeu os anseios daquele que
chamavam de decepção, melhor, a sociedade ficou conformada.

Nas férias um encontro realiza-se. Chegam as férias do final do ano, destes anos mais
recentes. Como sempre, o Mano encontra-se com os amigos da infância, antigos colegas
da caminhada académica, os das tramações. Continua participando no grupo.

Em um belo dia, desses encontros sociais (religiosos) na Igreja, ao terminar o mesmo, o


Mano decide fazer um bate papo com as antigas amizades. Nesse bate papo, uma coisa
surpreende-o. Coisa no sentido materialista. Era um empirista, pois tudo ele submetia a
experiência, até na gostosura sexual ele procurava usar o método comparativo, para
saber qual era a mais gostosa para permanecer um pouco mais na vida dele. Ele
resgatava o seu bate papo com a rotina antiga, com a magrela, só que a mocinha, como
futuramente a chamaria, bonita, baixinha, olhos indiscritíveis (daqueles que nem a
palavra inefável esgota na descrição), que estava dum vestido de capulana, de salto - ele
se lembra desses detalhes como se aquilo tivesse acontecido a segundos - estava tão sex
mas tão sex que não conseguia exprimir o que estava dentro do seu íntimo para a moça.!
O vestido de capulana era daqueles que não aperta as suas presas mas ele notou que até
a sua bundinha tinha crescido, coisas de profissionais mesmo. Antes, prestava mais
atenção a magrela, pergunte-o hoje como a magrela estava vestida naquele dia, só irá
dizer-te, oh Malavela, que ela não estava nua!

Num olhar fixado aos olhos da bela dama cumprimenta a magrela. Eu penso que aquele
estar daquele jeito era propositado, a bela dama tinha se ornada a vigor para chamar a
atenção do seu amor, pois não há nenhuma explicação em um homem mudar
repentinamente, muito mais o Mano. O jovem apaixona-se a partir daquele momento.
Agora, o amor estava prestes a ser descoberto, ele estava prestes a descobrir que amava
a bela dama, pois a amava. O amor é algo sério e complicado. É uma verdade que não
interessa como foi encontrada, pois na busca da verdade ela torna-se inacessível; mas
encontrada, no íntimo do ser, não interessa o caminho feito até a tal, isto é, não procure
fundamentos da verdade mas compreenda-a como ela é. Encontrada a verdade, não deve
ser questionada se ela é ou não é verdade mas procure-se saber o porquê deve/ e é
verdade. A verdade deve justificar e, não ser justificada. Ela espelha a realidade e, não é
espelhada totalmente pela realidade. Malavela, como um bom filósofo, nem o que te
escrevo vejo como uma certeza, daí que te convido a não tomar este pensamento como
uma verdade absoluta mas que procures compreendê-lo como tal. Enfim, por ser um
sentimento tão complexo, só ficou de boca aberta perante a bela dama na saudação.

Naquele dia, a bela dama era o centro das atenções. Recebeu xavecos, até elogios. Era
apreciada, pelo finto dos olhos nela, pelo jovem. Aqueles olhos escrutíniosos do jovem,
finalmente tinham encontrado algo que passara em todos os processos selectivos. Ela
era o presente da providência para a sua provação; ou já estava na provação e aquela
seria o triunfo.

No mesmo dia, ele só pediu um momento. Aquele que tinha a fama de ser um homem
momentâneo, pedira um momento para maquinar um projecto de vida. Esquece-se o
“viva agora, pois sabes que estás vivo, não amanhã por não saberes se estarás vivo”,
para viver o presente e o futuro. Presente, agora, o que experimento; futuro, o amanhã
presente no sonho. Este momento pedido, concedido pela bela dama torna-se eternidade,
pois era necessário um texto para alguém acostumado com uma frase: “qual é a ideia”.
Aqui, tinha que revisitar alguém que nunca tinha visitado, Shakespeare, por aquele
amor, enquanto projecto, ver-se na finalidade a impossibilidade, até mais que o de
Romeu e Julieta. Como um homem impedido pelas suas escolhas podia se expressar
sobre um sentimento tão grandioso como o amor? O homem era livre, enquanto a
liberdade se tratasse da escolha de um bem maior. E sobre o sentimento, era mais
prático repeli-lo mas não se pode tapar o sol com a peneira, mesmo no inverno.

Calculista nas palavras acompanhando a bela dama, quando chega a parte de dizer: “eu
gostei de ti”, prefere falar na língua “ni ku navelile” (numa tradução directa seria: “eu ti
cobicei”), isto é, cobiço possuir-te. É lógico. Não podia ser traído pelas palavras, porque
trairia em simultâneo a sua escolha. Mas como a caminhada era longa, investiu no verbo
gostar, com uma frase bem curta que deu início a nova relação de ambos, “eu gosto de ti
mocinha, melhor, gostei de ti”. O “melhor”, ele não colocava com a intenção de
aumentar a intensidade da declaração mas para ocultar o significado patente na
declaração. Declaração calculista.

Malavela, na declaração de amor de um filósofo, pouca coisa se capta. Ela também só


via interesse nele mas com a declaração já estava confusa, quem não estaria!? Por tanto
esperarmos alguém acabamos nos confundindo (Os Judeus são um exemplo disso). Ele,
sabia pela experiência no âmbito dos relacionamentos que no final cairia, nem se ela
tivesse marido da noite. Ainda, ele estava confiante mas apaixonado. A confiança não
estava relacionada com a paixão mas com as experiências vivenciadas no âmbito das
conquistas, ninguém nunca lhe tinha dito não.

Era nos últimos meses do ano e os encontros sociais religiosos eram mais frequentes,
em virtude da organização das festividades do natal, e os deles também. Um encontro
religioso era uma oportunidade para um encontro “amoroso”, de expressão de
sentimentos que se resumiam na famosa frase “eu gosto de ti mocinha”, repetida várias
vezes ao ponto de se enraizar no coração da Mocinha.

As conquistas já estavam surtindo efeitos positivos porque perguntas tais como “quem é
a N? a S? e a E?” eram feitas, e a mais importante: “o que existe entre vocês?”. Era uma
mocinha ciumenta mas sem motivos. Tu podes perguntar-me, como assim, porque ele
era um malandrão; o ciúme é justificável. Mas Malavela, ela nem era a namorada dele.
Eles tinham bem claro os conceitos namoro e amor. Se “amavam” mas não estavam
namorando. Eles tinham a experiência da feira dominical para o endurecimento desses
conceitos, nem todos que se amam estão namorando, de igual maneira que nem todos
que estão no mercado estão comprando, outros nem vão comprar.

Voltando à mocinha, ela amava aquele homem o suficiente para se mergulhar num
romance louco mas tinha que se conter, aquele período de tempo que a mulher banca a
de difícil. Eu não sei se elas ainda não notaram que nós já sabemos que aquilo é
momentâneo. Mas como ela seria vista pela sociedade… isso me preocupa até hoje.
Uma mulher que não respeita as escolhas, uma “Matias Damásio”, melhor, aquela que
nunca seria entendida mas que tinha entendido que no coração não se mandava. Enfim,
a gente não manda mesmo. Mas o agir pode ser controlado, evitado. O coração serve
para amar mas nem sempre temos que seguir o coração (confie o teu agir à consciência).
O amor no coração desperta na consciência a vontade de ficar com a pessoa amada mas
a consciência pode não te chamar a ficar com a pessoa amada porque ela escrutina o
agir. Eu não a julgo porque se uma pessoa me pedir um conselho, simplesmente vou
mandá-la a seguir o seu coração.

O sim esperado. A primeira admissão de amor. O, eu gosto de ti também. O sempre


gostei de ti mas pensava que não quisesses nada sério comigo. Tudo isto foi dito no dia
18 de Janeiro, dia guardado para a comemoração do primeiro aniversário de namoro que
nunca aconteceu, mas a lembrança persiste. Tudo isto numa mensagem só, feita no
telefone da irmã da mocinha. O coração do jovem exultou de alegria até ao ponto de não
notar que se tornara decepção a dobrar para a sua comunidade.

Eles já estavam namorando, pois o Mano tinha a conquistado e a Mocinha tinha


aceitado namorar com ele. Sabiam o que estavam a fazer? Aquele que decidira
excomungar-se dos padrões culturais para abraçar uma cultura mais universal já se
excomungava da universal. A Mocinha da família estava namorando um fora do mundo,
não num bom sentido. O amor estabelece suas próprias condições, não somos nós que
ditamos a intensidade do amor. Apesar da voz da consciência, ele influencia. Influencia
como se fosse a própria consciência, daí que é necessário um melhor discernimento
sobre a consciência e o coração. Era aquilo. Sair, voltar, ser acompanhada, acompanhar,
andarem juntos, falar pelo telefone, visitarem-se…

Todos eles disseram a alguém. O jovem para a mãe que até matou galinha para àquela
que via como a “futura nora”. Lembro-me desse dia Malavela, o jovem logo de manhã
empenhado pelas limpezas da casa e com coragem, pois foi naquele dia que pela
primeira vez avisou e recebeu uma visita pelo período da tarde (deixava de ser picado a
noite pelos mosquitos para apreciar uma borboleta flutuando livremente contemplando
o sol nascente e o calor da tarde). Correu como um atleta atrás daquela galinha que lhe
daria dois prazeres, o de comê-la e o de “comer” a quem a prepararia. Ela chegou como
relâmpago, calças Jeans e camisola Jeans. Eu já a tinha visto daquele jeito, ela estava
demais. Mataram a galinha e pediram-lha para cozinhar mas não sabia cozinhar ou foi o
que ela disse, era a primeira experiência com a “futura sogra”. E, se disse a verdade,
digo graças a Deus porque ela foi sincera e naquele dia não haveria almoço, jantar, até
pequeno-almoço no dia seguinte. Voltando, a mocinha disse ao pai que se consolou
simplesmente na existência do amor.
Naquele dia da galinha entraram no quarto. Não estive dentro da casa mas se algo
aconteceu foi bem calculado. Toques foram notórios. Toques que fizeram dos dois
pensarem muito bem sobre a situação de namoro que estavam envolvidos. Toques que
produziram pela primeira vez a frase: “eu te amo”. Toques de descobrimento. Toques da
penetração primeiríssima em terras de Canaã. Toques, de tão desejados, que levaram a
mocinha a matar a aula. Toques que levaram a mocinha a chegar tarde. Toques que
colocaram em dilema as escolhas do Mano. Não quero dizer que eles suaram muito.
Agora é consigo Malavela, o que aconteceu dentro daquelas paredes?

Aquilo que aconteceu naquele dia provocou repercussões que fez do jovem procurar
pela primeira vez passar um final de semana em casa com a mocinha. Não era o
costume dele, como sabes, férias e férias. Ele voltava no final de cada semestre mas
desta vez algo lhe impulsionou a procurar passar um final de semana em casa. Com a
mocinha mais uma vez no quarto, toques foram toques, toques que consolidaram o amor
deles até então. Eles se amavam e sabiam que se amavam, ainda, falavam-se. Namoro
igual a outro mas sem juramentos e promessas, e com toda razão, porque não estavam
assinando nenhum contracto de amor. Apenas estavam a realizar o projecto de amor,
não por eles provocado.

Ele foi e voltou à mocinha. Ela deixou-o ir e recebeu-o na volta. Mas só o que é Bom
dura para sempre… enquanto o jovem, já comprometido e assumido o amor da mocinha
estivesse na instituição, pelo telefone falavam. Horas e horas comunicando em
chamadas de voz e em algumas vezes compensadas pelas mensagens de texto.
Conversas no Whatsapp e curtidas no Facebook. Estavam felizes com o relacionamento
que se revelara frutífero ao ponto de desabar por si só. Desaba como uma bananeira que
no auge da felicidade da produção banana encontra o seu fim. Não era nenhuma traição,
pois as traições são perdoáveis e não havia nada imperdoável que acontecera.
Simplesmente houve um “o que achas da gente terminar a relação?” e terminou a
relação. Eles se amam…

Dias de inconsolações inundaram os dois jovens, pois tinham terminado mas não tinham
descoberto a razão do término da relação. Estavam tão apaixonados que queriam voltar
a namorar e nisto houve várias tentativas de recuperar o amor mas vou me focar em dois
desses: a famosa carta e a música. A carta está anexada; a música, envio-a com esta
carta. A música é dos Calema com o título: “Te Amo”. De arrependimento e de
declaração de ciúmes. Ambos com saudades mas separados. Ambos ainda se amando
mas separados. Ambos com ciúmes um para com o outro mas separados. Ambos
arrependidos por terem terminado o namoro mas separados. Escuta os Calema
Malavela.

A famosa carta: “…, nós já estivemos juntos, só terminamos porque uma e outra coisa
não dava para nos completarmos como namorados.

A nossa relação foi repleta de traições, em maior parte dos casos eu fui a culpada, e eu
sempre reconheci. Há muita coisa má que se pode dizer da nossa relação que eu não
me proponho escrever. Escrevo esta mensagem como o último recurso da nossa
reconciliação amorosa de namoro, deixando bem claro que eu não estou ti pedindo, em
nenhum momento, que voltes comigo (já que proponho na nova relação um “TU”,
“EU”, novo/a), mas que que estou aberto à relação que jamais tivemos: uma relação
de amor em namoro sério e sincero. Ainda, escrevo isto em vista a evitar
arrependimentos futuros da minha como da tua parte.

Com amor e carinho… de… para…”.

Enfim, é uma história que até agora está incerta do seu término. Uma história de
orgulhosos que nunca se encontram. Cada um deles tem a sua vez de tomar a
consciência. A mocinha foi a última a pedir intensivamente pela volta na relação de
amor mas o Mano também já pediu e várias vezes. Não foi bem a mocinha porque me
parece que o Mano virou poeta para reconquistar a amada.

Malavela, agora já não sei qual será o final desta História. As escolhas persistirão ou o
amor carnal vai triunfar. Eu estou confuso porque dizem que o amor sempre vence, mas
qual é este amor? Estamos num duelo de Amor contra amor, mas que tudo no fundo é
AMOR.

Ele continua na instituição total, fruto da sua escolha. Ela terminou o secundário, está
por aí ou por aqui mesmo. Mas na semana passada vi-os. E hoje, vi-os juntos no banco,
respeitando o distanciamento social mas juntos. Será que eles querem reavivar aquele
amor? Será que o sonho da reconciliação persiste? Eu estou mais confuso, oh Malavela,
porque eles se olhavam nos olhos, coisa de amor, mas qual amor?

De Manuel Fernando para Pedro Rodrigo. Manuel CHAMANGO

Você também pode gostar