Tânia Gonzales

Doutor Eliseu
1ª edição

São Paulo Edição da Autora 2011

Gonzales, Tânia, 1971 Doutor Eliseu / Tânia Gonzales – São Paulo, 2011. 1.Literatura Brasileira CDD-B869

Copyright © 2011 Tânia Gonzales
contato com a autora: gonzalestania.gonzales@gmail.com http://romancegospel.blogspot.com

É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio, sem a autorização prévia da autora. Obra protegida pela Lei de Direito Autoral nº 9610/98. As citações bíblicas são extraídas da edição Revista e Atualizada- AlmeidaSociedade Bíblica do Brasil.

Sumário
Prólogo ♥ 12

1-O sonho ♥ 14 2-A mulher ♥ 20 3-Expulso ♥ 29 4-Desprezo ♥ 38 5-São Paulo ♥ 46 6-Roubo♥ 54 7-“Pipoca” ♥ 59 8-Uma oportunidade ♥ 68 9-“Vida Transformada” ♥ 78 10-Pizzaiolo ♥ 88 11-Murilo e Manuella ♥ 97 12-Estudante de medicina ♥ 105 13-Um pneu furado ♥ 113 14-Aulas de boliche ♥ 123 15-Conhecendo melhor ♥ 137 16-Com o Álvaro ♥ 148 17-A aposta ♥ 160 18-Macarrão alho e óleo ♥ 169 19-Envergonhada ♥ 176 20-Aborto? ♥ 188 21-Dia dos pais ♥ 200

Sumário

22-Vinte e dois de setembro ♥ 207 23-Até que enfim ♥ 214 24-Padrinho ♥ 226 25-Dia das crianças ♥ 232 26-Aniversários e casamento ♥ 241 27-Rever a família? ♥ 255 28-Um cheque ♥ 263 29-Nandinho ♥ 271 30-Beijo inesperado ♥ 283 31-Um beijo e um sorriso ♥ 295 32-Surpresas ♥ 306 33-Susto ♥ 315 34-Reencontros emocionantes ♥ 323 35-Reencontro? ♥ 332 36-Você? ♥ 344 37-Tristeza ♥ 356 38- Viagem para Porto Alegre ♥ 365 39-A verdade ♥ 376 40-Permissão para namorar ♥ 386 41-Formatura e “bom samaritano” ♥ 393 42-Acabou? ♥ 401 Epílogo ♥ 410

Minha gratidão a Deus, minha família e a você querido leitor.

Com amor para duas princesinhas

"A verdadeira medida de um homem não é como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas como ele se mantém em tempos de controvérsia e desafio." (Martin Luther King)

Prólogo

_Como você pôde fazer isso? Está colocando o meu nome no lixo. O que as pessoas vão pensar de mim? Seu moleque sem-vergonha! Saia daqui, não quero vê-lo nunca mais. _Pai, eu não fiz nada, por favor, acredite em mim! Eu... _Cale a sua boca! Não quero ouvir a sua voz. _Pai, foi ela que... _Eu não sou mais seu pai. _Não fale assim, por favor. Pai, eu juro que não fiz nada, ela está mentindo! Ela queria que eu … _Você acabou comigo. Com essa cara de menino bonzinho, sempre tão prestativo! Você não vale nada, tenho vergonha de você. Vá embora daqui, esta casa não é mais sua, e você não tem mais família, esqueça que um dia você teve um pai, porque eu vou esquecer que tive um filho. _Pai... eu imploro, acredite em mim! _Não quero mais vê-lo aqui.

Doutor Eliseu

Capítulo 1 -O sonho Eliseu estava lavando o chão do bar que pertencia ao pai, José Luís; era segunda-feira seis horas da manhã, sempre havia muita sujeira por causa do grande movimento do dia anterior. Ele trabalhava com o pai no bar durante o dia e à noite cursava o último ano do ensino médio. Era um rapaz de estatura mediana, pele ligeiramente morena, cabelo castanho-escuro e os olhos eram como duas jabuticabas. Dono de um sorriso encantador, Eliseu era um rapaz obediente e sempre prestativo. Morava com o pai e a irmã em Diamantino, Mato Grosso. Assim que terminou, foi para a cozinha preparar o café. Colocou a água para esquentar, pegou o coador de pano, pois o pai não tomava se fosse feito com o de papel, colocou o pó e esperou a água começar a ferver. Enquanto isso, foi até o armário e pegou um porta-retrato, era uma foto do casamento de seus pais. Ele nunca cansava de admirar a beleza de sua mãe. Colocou a foto no lugar e limpou os olhos com os dedos. As lágrimas sempre vinham, não havia como impedi-las. _Bom dia, já vi que o bar está limpinho! Parabéns, filho. Menino bom! - disse José Luís ao ver o filho. _Bom dia, pai. O café já está quase pronto. _Ótimo, eu vou sair rapidinho, preciso comprar algumas coisas. _Quer que eu vá com o senhor? _Não precisa. Eu quero que você leve a sua irmã para a escola e depois vá até a casa do seu avô e dê uma mãozinha lá, ele inventou que precisa pintar a casa de novo, velho teimoso! Pode deixar que o João cuida do bar e depois eu busco a Jessica. _Tá bom, pai. O senhor está bem? Ontem abusou da bebida e chegou só de madrugada. _Não comece com isso, eu sei o que faço, sou dono do meu nariz. _Você estão brigando? - perguntou Jessica, a irmã de Eliseu. _Não, queridinha, estamos conversando- explicou Eliseu dando um beijo na irmã. _Ah, bom. Não quero ver os dois brigando. _Garotinha do papai, ninguém está brigando aqui, é que o seu irmão às vezes se intromete onde não deve, é só isso. Toma o seu café com leite, tem bolo de fubá, quer? Eles tomaram o café e depois cada um foi para as atividades do dia. Na cada do avô Francisco, ou “seu Chico “ como era conhecido na vizinhança, Eliseu tinha muito 14

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o que fazer, pois o avô queria pintar a casa inteira. _Vai ficar lindo, Liseu, lindo, como a sua vó gostava. _Está certo, vô, vamos começar? Passaram a manhã conversando, trabalhando e ouvindo Beethoven; Chico tinha um CD e nunca cansava de ouvi-lo. Eliseu adorava estar com o avô, porque sempre podia conversar sobre a mãe com ele, que era filha de Francisco. Na casa de Eliseu era um assunto proibido. _Ah, Liseu, ela faz tanta falta! _É muito difícil suportar a ausência dela. Hoje eu estava olhando para a foto dela, aquela do casamento, e acabei chorando, ainda bem que meu pai chegou depois e nem percebeu. _Como ele mudou! O Zé não é mais o mesmo, a começar pelo bar... se a Rute estivesse viva ele nunca teria adquirido um bar. _E nunca ficaria bêbado, nunca. Agora virou rotina. _É muito triste. O pior de tudo são as mulheres, é por isso que ele não me visita mais, ele sabe muito bem o quanto eu desaprovo tudo isso. _Cada dia ele sai com uma mulher diferente. Sábado ele nem voltou para casa. _Que coisa! O seu pai nunca foi disso, eu sei que ele precisa de alguém, mas então que arrume uma pessoa decente, que não fique por aí saindo com qualquer uma só porque deu uma piscada para ele. _Eu não posso falar nada, ele vira uma fera. _Está sendo um péssimo exemplo para você. Eu sei que a dor é grande, já perdi minha esposa e depois foi a minha querida filha, mas não é assim que se reage, não mesmo. Vamos almoçar, não vai adiantar nada ficar aqui lamentando. José Luís sempre foi um homem trabalhador e muito dedicado à família, mas após a morte de sua querida esposa, Rute, tudo havia mudado, começou a beber e resolveu mudar de ramo; antes ele era proprietário de um mercadinho. Às vezes ele mencionava para a esposa o desejo de adquirir um bar, mas ela sempre foi contra e ele respeitava a decisão, mas, quatro meses após a morte da esposa, ele vendeu o mercadinho para um grande amigo dele, Agnaldo; construiu mais um cômodo, dividindo a ampla garagem e abriu o bar. Começou a beber, coisa que ele não fazia e também a sair com várias mulheres. E, como ele às vezes ficava dias sem aparecer em casa, Eliseu precisava tomar conta de tudo, por causa disso ficou um ano sem poder estudar. José Luís ficou revoltado, não conseguiu aceitar a morte da esposa, que tinha apenas 36 anos. Rute descobriu a leucemia após passar muito mal. Foi levada para um hospital, fizeram exames e ela

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recebeu o triste diagnóstico; na época tinha 33 anos. Aquela notícia, como não poderia deixar de ser, abalou toda a família. Algum tempo depois, Rute recebeu a visita de algumas mulheres que pertenciam a uma igreja próxima a casa dela, aquela visita a animou e ela passou a recebê-las uma vez por semana. Um dia, Rute ouvia atentamente uma das mulheres falando a respeito do sacrifício de Jesus e então tomou a importante decisão de recebê-lo como Salvador. O marido não gostou da novidade, mas, para não contrariar a esposa, não disse nada. José Luís percebeu que Rute havia melhorado após conhecer aquelas senhoras. _ Zé, eu creio que Jesus pode me curar, ele fez muitos milagres no passado e continua fazendo hoje. A irmã Geni me disse que recebeu a cura, ela tinha câncer no pulmão e... _Rute, Rute, cuidado. Elas inventam histórias para impressionar. Não se iluda. _Zé, leia a Bíblia e você entenderá. _Eu, ler a Bíblia? Você só pode estar brincando! E assim Rute sempre recebia a visita das irmãs da igreja, às vezes também comparecia aos cultos e levava os filhos. Um dia ela chegou com uma notícia muito importante: _Zé, eu vou ser batizada no próximo domingo e gostaria muito que você fosse. _Batizada? Que história é essa, Rute? Pra quê? _Zé, quando cremos em Jesus o natural é desejar ser batizada nas águas. E isso é uma ordem dele, está escrito na Bíblia. Escute, eu vou ler para você: “ Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.1 _Só me faltava essa... Rute, você está indo longe demais com tudo isso, eu acho que... _Zé, por favor, não me impeça, eu desejo me batizar... eu preciso. _Ah... que coisa! Tudo bem, Rute, mas não me peça para ir. E assim Rute foi batizada. Infelizmente ela não conseguiu convencer o marido, mas ela teve a presença dos filhos , do pai e de alguns vizinhos. Após voltarem do culto, durante o almoço, Eliseu disse que também gostaria de se batizar. _O quê? Para com isso, esquece, você é muito novo. Eu não vou permitir. _Mas, pai, eu vi vários rapazes da minha idade lá e... _Não me interessa os outros, você não vai fazer essa besteira.
1 Mateus 28.19

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_Zé, o Liseu está tão animado, ele está gostando de participar dos cultos e... _Rute, chega! Eu quero almoçar em paz. O meu filho não vai se batizar. _Ele também recebeu Jesus como Salvador. Ele crê e para ser batizado é necessário... _Rute, eu já falei e não vou mudar de ideia. Que droga! Não dá nem para almoçar em paz em minha própria casa! _Tudo bem, Zé. Após o almoço Rute teve uma conversa com o filho. _Querido, não fique triste. Você terá muitas oportunidades para o batismo. Vamos esperar um tempo até o seu pai se acostumar com a ideia. Poucos dias antes de Eliseu completar 13 anos, Rute passou muito mal e precisou ser internada. O médico comunicou que ela estava muito fraca e que não havia mais nada que ele pudesse fazer. _Filho, eu sei que vou embora em breve e.... _Mãe, não fale assim, precisamos da senhora. Eu não quero que vá. Jesus pode curá-la, eu sei. _Querido, às vezes Jesus simplesmente nos leva para perto dele e eu sinto que está chegando a hora. Não perca a fé, eu sei que não vai ser fácil, mas se esforce e cuide de sua irmã. Seu pai vai precisar muito da sua ajuda e o vovô também. Meu filho amado... eu sei que posso confiar em você. _Mãe, eu te amo tanto, não me abandone. _Meu filho, Liseu, eu também te amo, você não pode nem imaginar o quanto, querido! Eu peço a Deus em minha orações que ele te guarde. Eu sei que você terá um futuro maravilhoso. Filho, nunca pare de estudar, aconteça o que acontecer. _Mãe... eu não estou gostando do jeito que a senhora está falando, parece uma despedida e... _Filho, prometa que vai ser alguém na vida. Eu já sonhei várias vezes com você. Querido, em um dos meus sonhos você estava usando roupa branca e escutava o coração de um bebê. Foi tão lindo! A mãe do bebê dizia: Muito obrigada, doutor Eliseu- ao dizer estas palavras os olhos de Rute encheram de lágrimas. _Doutor Eliseu! Ah, mãe... _É isso mesmo, por que não? Você vai ser um pediatra, é isso. O meu filho vai cuidar da saúde de crianças. Doutor Eliseu, meu filho! Três dias depois, Rute fechou os olhos e não os abriu mais. Era o dia do aniversário de Eliseu, ele estava com o coração despedaçado mas se mostrou forte para consolar a irmã.

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Após ajudar o avô, Eliseu foi para casa, tomou banho, jantou e foi para a casa de sua namorada, Mônica, que era um ano mais nova que ele e estava cursando o 2° ano do ensino médio. Eles iam juntos para o colégio. _Chegou cedo, Eli, dá até para namorar um pouquinho. _Oi, baixinha. Hoje eu não ajudei meu pai no bar, por isso que cheguei mais cedo. Fui na casa do meu vô; passamos o dia inteiro pintando a casa- disse Eliseu dando um beijo na namorada. _Que bom! Já estava com saudades, sabia? _Hum... não sei não. _Como não? _Calma, minha baixinha linda! E o seu pai já voltou? _Chegou hoje, minha mãe não aguentava mais, afinal foram 20 dias. _Mas deu para resolver tudo por lá? _Ele deixou tudo encaminhado. Neste momento o pai de Mônica apareceu na janela. _Olá, Eliseu! Como vai o Zé? Namorando muito? _Oi, seu Mário, o meu pai está na mesma vida. Tudo bem com o senhor? _Tudo ótimo. Consegui vender minhas terrinhas, graças a Deus, ter propriedade muito longe é complicado! Então o seu pai continua o paquerador do bairro, hein? _Pai, para com este assunto, o senhor sabe que o Eli não gosta. _Desculpe, Eliseu, mas você não pode fazer nada. _O pior é que o senhor tem toda a razão. É melhor nós irmos agora. Tchau, seu Mário. _Você ficou triste. _Não, está tudo bem, baixinha. _Não está. Ah, eu sei que é difícil ver o seu pai assim, mas o meu pai está certo, infelizmente. _É, infelizmente. Na manhã seguinte, Eliseu estava tomando café quando José Luís entrou na cozinha todo animado. _Bom dia! O dia está lindo hoje, não está, meu filho? Simplesmente maravilhoso! _Bom dia, pai! Nossa que animação! _É... hoje é um grande dia. Eu tenho uma novidade. _Eu adoro novidade! Oba! - disse Jessica ao se aproximar da mesa para tomar café.

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_Você nem sabe o que é, maninha. De repente é algo que você nem vai gostar- foi o comentário de Eliseu. _Que pessimismo, meu filho! Você acha que eu vou trazer uma notícia ruim para vocês? Não é, pode ficar tranquilo, é uma notícia maravilhosa. _Então diz logo, pai- pediu Jessica sem esconder a ansiedade. Eliseu olhava desconfiado para seu pai, alguma coisa dizia que ele não iria gostar nada da novidade. _Tudo bem, eu vou falar. Meus filhos queridos, eu vou fazer um pequeno discurso antes. Não foi fácil ficar sem a mãe de vocês, ainda dói, eu sei disso, e é claro que nada e nem ninguém poderá substituí-la, mas a vida continua, não é mesmo? Então, a partir de hoje não seremos somente nós três nesta casa. Hoje à tarde eu vou trazer uma pessoa muito especial para morar conosco. _Já sei, já sei, o vovô Chico! _Não, filhinha linda! O vovô gosta da casa dele. Hoje eu vou trazer a Silmara para morar conosco.

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Capítulo 2 –A mulher _Quem? Você conhece, Liseu? _Não, mas o nosso pai vai explicar quem é ela. _A Silmara é a minha nova esposa! Casamos sábado. _O quê? O senhor teve a coragem de casar e nem nos avisar antes? - perguntou Eliseu sem esconder a revolta. _Avisar para quê? Foi só no cartório mesmo; chamei dois amigos para testemunha e... _Pai, o senhor acha que isso é certo? Somos seus filhos, tínhamos o direito de saber. _Vocês estão sabendo agora. _Quem é ela? Há quanto tempo vocês se conhecem? E... _Quantas perguntas! Vocês vão conhecê-la hoje; vou levar a Jessica para a escola. Você fica cuidando do bar, eu só volto no final da tarde. Ah, não se esqueça de buscar a sua irmã e avise o seu avô, fale para ele jantar aqui. Vovô Chico foi até a casa dos netos perto do horário da saída de Jessica, por isso acompanhou Eliseu até a escola. _O quê? O Zé casou? Meu Deus! E você conhece a mulher? _Não, vô! E ele nem deu detalhes, só disse o nome dela. É Silmara. Será que o senhor conhece? _Silmara... eu acho que não. Bom, agora ele já está casado... tomara que ela seja uma mulher direita. _Ah, vô, estou tão preocupado! Ele quer que o senhor jante conosco hoje. _Ele quer que eu conheça a esposa dele! Tudo bem. Poucos minutos antes das oito horas da noite, José Luís chegou com a esposa. Ela tinha 25 anos, era alta, loira e muito bonita. Após as apresentações todos se sentaram para jantar. Silmara falou durante todo o tempo, era bem extrovertida. Quase dez horas, Chico se despediu de todos e Eliseu acompanhou o avô até a casa dele. _Meu neto, não precisa, eu posso ir sozinho! _Para com isso, vô, eu estava louco para sair um pouco. _É... o Zé, hein? Arrumou uma mulher bem mais nova! Ela deve ser uns 20 anos mais nova que ele, com certeza! 20

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_É isso mesmo, vô! Ela tem 25 anos. _Como ela fala, né? Não parou um minuto! _Ah... eu sei que é cedo para julgar, mas... _Mas o quê? Pode falar. _Vô, eu não gostei do jeito que ela me olhou. Achei tão estranho! _Liseu, calma! Vamos torcer para que ela seja uma boa pessoa e que faça o seu pai feliz. _Ela ficou me encarando... _Meu neto, é só curiosidade. Seu pai deve ter falado muito sobre você. No dia seguinte, logo pela manhã, José Luís avisou que Silmara iria levar e buscar Jessica na escola. _Ela acha que assim as duas se tornam amigas mais rápido. Tudo certo, Liseu? _Tudo bem, pai. Eliseu estava em seu quarto arrumando o material para ir ao colégio quando Jessica deu duas batidinhas na porta. _Pode entrar. _Liseu, eu posso falar um pouquinho com você? _É claro, maninha! O que foi? _É... você promete que não conta para o papai? _O que você fez? _Prometa! _Depende... tudo bem, eu prometo! _É que eu fiquei com muita vergonha _Vergonha do quê? _No caminho para a escola sempre tinha algum homem assobiando para a Silmara. _Assobiando? _É... você entende. Ela fala alto, vira para todos os lados e conversa com todo mundo. _Ah, maninha! O que eu posso fazer? Eu bem que gostaria de levá-la para a escola, mas... _Não conte para ele. _Pode ficar sossegada. Eu preciso ir agora. Eliseu já estava saindo para o colégio quando Silmara o chamou.

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_Eliseu, eu fiz um bolo especialmente para você, vem até aqui comer. _Eu preciso ir senão vou chegar atrasado. Quando eu voltar... _Não, nem pensar! Vem comigo- ao dizer isso Silmara puxou o braço de Eliseu e o levou até a cozinha- Preparei com o maior carinho; você vai perder só uns minutinhos. Senta aqui, eu vou colocar um pedaço bem grande para você. Minutos depois... _E então, o que achou? _Estava delicioso, obrigado. Agora eu preciso ir. _Como você demorou! Vamos precisar voar... _Oi, baixinha, me desculpe, mas a mulher do meu pai fez um bolo e não me deixou sair sem experimentar. _Nossa, estão se dando bem. _Não é isso. Eu nem gostei. _O bolo não estava gostoso? _O bolo era bom, mas eu não estou gostando de ter uma estranha lá em casa. _Vai precisar se acostumar. Meu pai só fica dizendo que o grande amigo dele é um homem de muita sorte. Minha mãe não gostou nadinha! _Não estou gostando deste assunto, chega. _Nossa, você não foi mesmo com a cara dela, hein? Dois dias depois, Eliseu estava em seu quarto estudando quando Silmara entrou sem bater. Estava enrolada em uma toalha de banho. _Oi, querido! Me desculpe atrapalhar os seus estudos, mas o chuveiro está com problema, dá uma olhadinha pra mim? O meu Zezinho não está. _Eu vou. Você ligou e … _Não está esquentando. Eliseu ligou o chuveiro e percebeu que ele estava funcionando perfeitamente. _ Está normal. _Você já arrumou? _Eu nem mexi, só liguei. _Quando eu liguei só saiu água fria. Bom... vou tomar meu banho, obrigadinha, meu querido, você

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é um fofo. Eliseu não estava gostando nada da maneira que Silmara o tratava. Ela sempre fazia algo para ele comer, sempre o chamava de meu querido e de fofo, ela até insistiu para lavar as roupas dele mas ele recusou, o que provocou uma discussão com o pai. _Como você é ingrato! A Sil quer ajudar e você não aceita. _Não é isso, pai. Eu posso muito bem lavar as minhas roupas. _A Sil lava as roupas da sua irmã, as minhas e vai lavar as suas também e não se fala mais nisso. _Pai... _Liseu, conversa encerrada. Nos dias seguintes as coisas só pioraram. Silmara usava sempre roupas provocantes e fazia tudo para se mostrar ao enteado. Mesmo não querendo deixar a irmã com aquela mulher, Eliseu resolveu ter uma conversa com seu pai. _O quê? Não estou entendendo. Liseu, que ideia é esta de morar com o seu avô? _Pai, ele fica muito sozinho lá e... _ Liseu, o que as pessoas vão pensar? Que nossa família está com problemas. Que não estamos nos dando bem. _É claro que não, pai. O vovô precisa de companhia. _Esqueça isso. O seu avô está muito bem e o seu lugar é aqui. A Sil ficaria muito triste e iria pensar que é por causa dela. _Pai... _Assunto encerrado. _Você pensou que ele iria concordar? _Ah, vô... e agora? _Calma, meu neto, não é o fim do mundo. Ela vai cansar deste joguinho. _Vô, eu sempre adorei chegar em casa, mas agora... _Tenha paciência, a sua irmã precisa de você. _O senhor acha que eu deveria falar com meu pai sobre o verdadeiro motivo para eu querer sair de lá? _Liseu, eu acho melhor você não dizer nada, ele vai ficar uma fera e é até capaz de colocar a culpa

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em você. Silmara ficou sabendo que o aniversário do enteado estava chegando, por isso combinou com o marido de fazer uma festa surpresa para ele. Ela fez questão de convidar todos os amigos de Eliseu. Comprou duas camisas, uma calça jeans e um tênis para o enteado. Eles conseguiram manter tudo em segredo. Naquele último sábado do mês de novembro, quando entrou em casa, Eliseu teve uma grande surpresa. Ele ficou todo sem jeito diante das demonstrações de afeto de Silmara e não via a hora daquela festa acabar. _Fiquei até com vergonha de dar o meu presente- disse Mônica. _Baixinha, eu adorei a camiseta. _Depois de todos aqueles presentes da sua madrasta.... _Para com isso e ela não é nada, eu não gosto que você a chame assim. _Como você quer que eu fale? A Sil? _Baixinha, chega, por favor. Eu não via a hora de tudo terminar. Ela não deveria ter comprado todos aqueles presentes, fiquei tão sem graça! _Ela só fica te chamando de queridinho, fofo, meu querido... e é um tal de pegar em seu braço. Eu não gosto. _Você acha que eu gosto? Se não fosse pela Jessica eu moraria com o meu avô. Na segunda-feira, Eliseu precisou suportar as gozações do amigo Ricardo que estudava com ele e também participou da festa. _E aí, cara! Que madrasta, hein? Ela preparou uma grande festa para comemorar o aniversário de 19 anos do enteado amado! _Ricardo, pode parar! _Eliseu, ela gosta mesmo de você! Meu querido, fofo... e o que mais? _Parou. _Quantos presentes! Eu tenho que falar uma coisa, você não vai gostar, mas a sua madrasta é muito gos... _Ricardo! Se você quiser continuar meu amigo não fale isso ou melhor, não fale mais nada sobre ela. _Ei, calma, é que a sua madrasta é mesmo muito... _Eu vou entrar.

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_Ninguém subiu pra sala ainda. _Você vai parar? _Tudo bem. Parei. Na sexta-feira... _Meu amor, como eu vou ficar sem você? _Sil, minha linda, faz tempo que eu não vou pescar com os meus amigos... _Tudo bem, eu entendo, mas não vai se acostumar, tá? Olha quem chegou! Vem aqui, querido, eu fiz uma torta de frango, você vai adorar! _Liseu, amanhã eu vou pescar com o Agnaldo e mais alguns amigos, volto domingo à tarde. _Eu posso ir? _É claro que não! Você precisa ficar aqui cuidando do bar, não dá para deixar o João trabalhando sozinho. _É que eu nunca mais fui e... _Em uma outra oportunidade você vai. Não podemos deixar as mulheres desta casa sozinhas, não é mesmo? _O papai foi mesmo pescar?- perguntou Jessica, sábado durante o café da manhã. _Foi, só volta amanhã à tarde. _Eu ia pedir para ele deixar eu dormir na casa da Dri... _Você dorme um outro dia. _Mas é aniversário dela e não vai ter festa, então a mãe dela convidou as três melhores amigas dela para dormir lá, nós vamos assistir filmes até tarde e... _Maninha, não vai dar. _Por quê? _Não vai dar para avisar o papai e ele não iria gostar e... _Deixa, vai! Por favor! _Não vai dar. _Ah... você está muito chato! Ele bem que queria deixar a irmã dormir na casa da amiga, mas havia um grande problema: Silmara.

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Eliseu fechou o bar, entrou na sala e ao ascender a luz viu que Silmara estava deitava no sofá. _ Que bom que você chegou, querido! Detesto ficar sozinha. _Sozinha? E a Jessica? _Ela foi dormir na casa de uma amiga. _Mas eu falei que não era para ela ir. _Fofo, ela estava tão triste, eu dei permissão. Você precisava ver a felicidade dela! _Você não deveria ter feito isso, meu pai... _Pode ficar tranquilo, eu me entendo com o seu pai. Eu vou preparar algo para você comer. _Não precisa, eu já comi no bar. Vou dormir, boa noite. _Já? Fica aqui comigo, só um pouquinho, vamos conversar. _Não, eu estou muito cansado, boa noite. _Boa noite, meu fofo. Eliseu entrou em seu quarto e fechou a porta com a chave. Estar sozinho com Silmara na casa era algo que ele, no momento, não podia evitar, mas pelo menos tinha a opção de se trancar no quarto. Eram duas horas da manhã, Eliseu acordou por causa das insistentes batidas na porta de seu quarto. _O que foi? Aconteceu alguma coisa? _Abra, por favor, estou com medo, eu acho que entrou alguém aqui, escutei um forte barulho na cozinha!- gritou Silmara. Eliseu levantou-se rapidamente, mas antes de abrir a porta colocou uma camiseta. _Barulho na cozinha? Não deve ser nada. _Vá até lá, mas tome cuidado! Ele entrou na cozinha, ascendeu a luz e verificou o local, estava tudo normal. _Silmara, pode ficar tranquila, não há ninguém aqui. _Tem certeza? E se ele foi até o quarto da Jessica ou no meu? Por favor, dê uma olhada... _Tudo bem, eu vou. Eliseu entrou no quarto da irmã e depois foi até o outro quarto. _Tudo certo. Foi só impressão sua, você deve ter sonhado. _Que alívio! Fiquei com tanto medo. _Eu vou voltar a dormir. Eliseu se encaminhou até a porta mas antes de conseguir sair foi barrado por Silmara. _Para que tanta pressa, querido? Já que estamos acordados podemos conversar um pouquinho, eu

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sei que agora vou demorar para dormir. _Eu estou com muito sono, podemos conversar amanhã. _Não, nem pensar, precisa ser hoje, meu fofo. Silmara colocou uma das mãos no ombro de Eliseu e começou a acariciá-lo. _Você está tão tenso, eu posso fazer uma massagem, tenho certeza que você vai adorar. _Não... eu vou voltar para o meu quarto. _Querido, não seja tão tímido. Você é um rapaz tão bonito, tem ombros largos, eu adoro isso... está tão quente aqui, não acha? Vou tirar a sua camiseta, assim você fica mais à vontade e eu posso admirar o seu físico. _Silmara, eu preciso descansar. Eliseu tentava em vão sair do quarto, logo percebeu que só conseguiria isso se a empurrasse, mas tocar nela era algo que ele não queria. _Meu fofo, por que estamos perdendo tanto tempo? Estamos sozinhos aqui, podemos aproveitar bastante. Você não imagina o que eu posso fazer por você, meu querido! _Eu nem quero imaginar; eu sabia que você não era mulher para o meu pai, você... _Tem toda a razão querido, eu sou mulher para você, seu pai apesar de só ter 45 anos, anda muito cansado, deve ser por causa da bebida. Eu preciso de alguém com mais vigor. _Você deveria se envergonhar, acha mesmo que eu vou ter alguma coisa com você? Você é casada com o meu pai. _E daí? Não vejo problema algum nisso! Vem querido, ninguém vai saber, será um segredo nosso. _Saia da minha frente ou terei que... _O que você vai fazer se eu não sair? Vai tocar em mim? Estou ansiosa por isso. _Por favor, deixa eu passar. _Por favor? Meu fofo, não tenha medo. Você já se deitou com uma mulher antes? Será que não? Pela sua cara de assustado... tudo bem, eu ensino para você. _ Não quero aprender nada com uma mulher que não sabe nem respeitar a ausência do marido- ao dizer isso, Eliseu a empurrou e saiu do quarto. _Não pense que pode fugir de mim- gritou ela indo atrás dele. Antes de Eliseu conseguir entrar em seu quarto, Silmara o alcançou e o puxou pela camiseta, fez isso com tanta força que chegou a rasgá-la. _Você está louca? Me solte! Eliseu conseguiu se afastar dela, entrou no quarto e trancou a porta. Tirou a camiseta rasgada,

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colocou uma camisa e trocou a bermuda por uma calça jeans. Pegou a carteira e ao verificar que Silmara não estava por perto, se encaminhou até a porta da sala. Havia resolvido ir para a casa do avô. Abriu a porta e saiu, mas ainda deu tempo de ouvir a ameaça de Silmara. _Pensa que vai ficar assim? Você me desprezou e vai se arrepender por isso! _Liseu? O que aconteceu?- perguntou o avô assustado ao se deparar com o neto. _Desculpe, vô, eu não queria assustá-lo. _Entre e me explique, você está tão agitado! Foi assaltado? _Que sem-vergonha! Como ela pôde fazer isso?- disse o avô após ouvir o neto. _Vô, desde o primeiro dia eu não fui com a cara dela. O jeito que ela me olhava... _ Como é que o Zé teve a coragem de levar para casa uma mulher sem caráter? Uma mulher que fica se oferecendo para o enteado. Vamos descansar agora, amanhã você vai precisar ter uma conversa muito séria com o seu pai.

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Capítulo 3 -Expulso _Meu amor, que bom que você chegou! _Resolvemos voltar antes do almoço, não conseguimos pegar nada que preste, só uns míseros peixinhos, nem trouxe, dei para o Agnaldo. _Ah... foi Deus que te trouxe aqui mais cedo, eu estava desesperada! _O que foi? Aconteceu alguma coisa com meus filhos? _Meu amor, eu sinto muito, a culpa é toda minha. Eu quis ajudar, pois você me contou o quanto seus filhos sofreram com a morte de sua esposa, eu queria ser uma mãe para eles, quis dar todo o meu carinho, mas infelizmente ele confundiu as coisas. _O que aconteceu? Quem confundiu as coisas? Vocês tiveram uma briga? _Antes fosse isso... _Mulher, você está me deixando preocupado, o que aconteceu? A Jessica não está aqui? E o Liseu? _A Jessica dormiu na casa de uma amiga dela, a Dri, ela pediu quase chorando, eu deixei. _Ah... tudo bem, na casa da Dri não tem problema. E o Liseu? Já sei, ele não gostou que você deu permissão sem falar com ele, foi isso, não foi? _Também. Mas se fosse só isso... Silmara começou a chorar e José Luís ficou apavorado. _O que aconteceu? E o Liseu? _Não sei, ele saiu ontem de madrugada. _O quê? Mas o Liseu não é de sair assim. _Ele deve ter ficado com muita vergonha. _Vergonha? _Não culpe o menino, ele não fez por mal. _O que ele fez? _Eu... acho que não vou conseguir contar. _Fale! Silmara, o que ele fez? Ele te maltratou? Silmara foi até o quarto e segundos depois voltou com uma camisola e uma camiseta, ambas estavam rasgadas. _O significa isso? _Não o castigue, por favor, prometa que não vai castigá-lo. _Eu não vou prometer nada. O que ele fez? 29

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_Ele... ele... não posso falar. _Silmara! Estou perdendo a paciência. _Ele... ele queria se deitar comigo. Eu disse que era uma loucura, mas ele ficou insistindo, falou que me achava muito bonita e que eu era muito nova para você. _O quê? O Liseu disse isso? _Sim. Me perdoe. _Vocês dois... _Não, isso não. Eu disse que era errado fazer isso e que ele não podia nem imaginar fazer uma coisa dessas com a esposa do pai dele. Ele... ele ficou muito nervoso e me puxou, rasgou a minha camisola, e eu, para fazê-lo se afastar, acabei rasgando a camiseta dele. Foi horrível, pensei que ele fosse me violentar. _Não pode ser... aquele moleque! _Ele saiu com muita raiva. Mas antes me fez prometer que não ia contar nada para você, na hora eu concordei porque estava com muito medo. Zé, não faça nada, ele é o seu filho, já deve estar arrependido. _Aquele moleque... vai pagar por isso. _Zé, por favor, não faça nenhuma loucura, ele é o seu filho. Eu acho melhor sair desta casa. _O quê? Quem sair? _Eu. Não quero ser a responsável por causar uma briga entre pai e filho. _Nem pense nisso, você não vai sair daqui. Pai e filho? Não, agora eu só tenho uma filha. _Liseu, eu fui até o mercadinho e fiquei sabendo que eles já voltaram da pescaria. Eu conversei com o próprio Agnaldo e ele me disse que os peixes estavam de férias. Seu pai já está em casa. Vamos lá? _Ah, vô... estou com medo. _Medo? _Medo e vergonha. Como eu vou contar para o meu pai que a esposa dele não vale nada? _Você precisa ter coragem! Aquela mulher não pode ficar lá nem mais um dia. A minha neta não pode conviver com ela. _Tem razão. Tomara que a Jessica não tenha voltado ainda da casa da Dri. _Zé? Você poderia vir até a sala?

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_O que foi Chico? O que você quer? Não estou para conversinhas hoje! _É um assunto muito sério. O Liseu precisa falar com você. _Ah... então ele tomou coragem e veio até aqui. Aquele moleque! _Calma, Zé, ouça o que seu filho tem a dizer. _Meu filho? Não tenho filho, só tenho uma menina chamada Jessica. _Pai, eu quero muito falar com o senhor. _Pai? Agora você vem todo mansinho? Na hora de rasgar a camisola da minha esposa você não estava assim, não é? _Rasgar a camisola? Pai... foi ela que rasgou a minha camiseta, eu... _É claro que sim, ela queria que você se afastasse dela. Não foi suficiente para você ter uma namorada, não é? Tinha que querer a esposa do seu pai. Eu disse pai? Não, eu não sou pai de um sem-vergonha como você! _Zé, ouça o seu filho. _Chico, fique fora disso. _Pai, me escuta, por favor. _Como você pôde fazer uma coisa dessas? Está colocando o meu nome no lixo. O que as pessoas vão pensar de mim? Seu moleque, sem- vergonha! Saía daqui, suma, não quero vê-lo nunca mais. _Pai, eu não fiz nada, por favor, acredita em mim! Eu... _Cala a sua boca! Não quero ouvir a sua voz... _Pai, foi ela que... _Eu não sou mais seu pai. _Não fale assim, por favor, pai, eu não fiz nada, eu juro, ela está mentindo! Ela queria que eu … _Não fale mais nada, seu moleque. Você acabou comigo. Você com essa carinha de menino bonzinho, sempre tão prestativo! Você não vale nada, eu tenho vergonha de você. Vá embora daqui, esta casa não é mais sua, e você não tem mais família, esqueça que um dia você teve um pai, porque eu vou esquecer que tive um filho. _Pai... eu imploro, acredita em mim! Não faça isso. _Não quero mais vê-lo aqui. _Pai, ela queria que eu... _Cale a sua boca. A Sil até me implorou para não castigar você, ela disse que ia embora daqui porque não queria afastar pai e filho, mas eu falei para ela que você não é mais meu filho. _Pai... eu nunca faria algo assim, ela é a sua esposa e eu respeito isso, por favor acredite em mim.

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_Suma daqui. _Pai, pela memória da minha mãe, eu imploro. _Chega, agora você foi longe demais. Como você pode colocar a sua mãe nisso? A sua mãe era uma santa, não a envolva neste lixo. Ela teria muita vergonha de você. _Zé, a minha filha acreditaria no Liseu, com certeza. _Chico, eu já disse para você ficar fora disso. Agora, moleque, saia daqui, antes que eu faça isso usando a força. E ouça bem: nunca mais eu quero olhar para você, nunca mais! E não se aproxime da minha filha. _Pai, não faça isso! Vocês são a minha família- os olhos dele estavam marejados ao dizer isso. _Família? Por que você não pensou isso antes de colocar os olhos em minha esposa, hein? _Eu não fiz isso. Aonde ela está? Ela precisa dizer a verdade. Silmara, Silmara, diga a verdade!gritou dele em desespero. _Eu disse para ela ficar longe de você. Ela está muito mal. _Mal? Silmara, apareça e conte a verdade, por favor! Tenha coragem de assumir o que você fez. _Cala a sua boca, eu deveria dar um soco nesta sua boca imunda, mas tenho nojo até de me aproximar de você. Pela última vez, saia da minha casa e nunca mais volte aqui. _Pai... _Liseu, não adianta, ela o envenenou, você não percebeu ainda? _Vô, ele precisa acreditar em mim, eu sou inocente. _Inocente? Só rindo! Eu acho que terei que chamar a polícia. _Zé, o que é isso? Ele é o seu filho! _Chico, você não tem jeito mesmo, não é? Fora... fora daqui seu imundo, fora daqui traidor!- ao dizer isso José Luís empurrou Eliseu até a porta. _Você vai se arrepender, está cometendo uma grande injustiça com o seu filho. Prefere acreditar em uma mulher que você mal conhece. _Vá embora você também, seu velho. _Liseu, meu neto, acalme-se, vamos para casa. Não vai adiantar, ele está cego e surdo. _Vô, meu próprio pai não acredita em mim. Ele me chamou de traidor. _Ele vai se arrepender. _Não sei não, vô, meu pai é muito teimoso, é cabeça dura. Ele nunca vai acreditar em mim. Vô, ele me expulsou de casa. _Ah, Liseu, eu sei que isso dói muito. Está doendo em mim também. Vem aqui, me dá um abraço.

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Você não merece isso, não merece. _E o Liseu? Está tarde, já vou dormir e nem vi meu maninho hoje, ele deve estar muito bravo comigo. _Não querida, não é isso. O Eliseu e seu pai brigaram. _A culpa é toda minha. Se eu soubesse... o Liseu falou que eu não deveria dormir na casa da Dri, ele falou e eu... _Não, Jessica. Não tem nada a ver, o problema é outro, depois o seu pai conversa com você. Durma, amanhã você precisa acordar cedo. Boa noite. _Boa noite, Silmara. _Você pode me chamar de Sil.

Naquela noite Eliseu não conseguiu dormir. As palavras de seu pai não saíam de sua cabeça: “ Fora...fora daqui seu imundo, fora daqui traidor!” _Bom dia, pai! _Oi, minha filha, bom dia! _Pai, o que aconteceu com o Liseu? _É complicado e você é muito nova ainda. Você só precisa saber que não tem mais irmão. Ele está proibido de entrar nesta casa e de falar com você. _Mas pai... _Jessica, o Eliseu não pode chegar perto de você, ele está proibido, entendeu? _Não, eu não entendi. Ele é o meu irmão. Se foi porque eu dormi na casa da Dri... _Jessica, não é nada disso. Ele fez algo muito feio e não pode mais morar aqui, é isso e ponto final. _Pai, o que ele fez? _Acredite em mim, você não deve se aproximar dele. Ele não presta, ele me traiu, é só isso que você precisa saber.

_Eu só estou com a roupa do corpo, vô. E o meu material do colégio? Não posso faltar, tenho prova hoje, é a última do ano.

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_Eu vou até lá pegar as suas coisas. Quero tentar falar com a Jessica.

_O que aconteceu com as roupas do meu neto? O que você fez? Você não vale nada- disse Chico para Silmara, ao ver as roupas de Eliseu rasgadas. _Olha aqui, se veio até a minha casa para me insultar... _Sua casa? Como você pôde fazer isso? Como teve a coragem de colocar um pai contra seu próprio filho? _Chico? O que faz aqui?- perguntou José Luís. _Ele está me insultando, meu amor. _Chico, respeite a minha esposa. _Respeito? Isso é uma coisa que ela não tem. _Velho, cuidado! _O que vocês fizeram com as roupas dele? _Vô, meu vô querido! E o Liseu?- disse Jessica entrando no quarto que pertenceu ao irmão. _Minha neta linda. Ele está lá em casa. _Me leva lá. _Nem pense nisso, Jessica. A Sil vai sair com você- disse José Luís. _Eu não quero sair com ela, quero ver meu irmão. _Isso é uma ordem. Jessica deu um beijo em seu avô e saiu contrariada. _E então, quem fez isso com as roupas dele?- perguntou Chico mostrando as roupas rasgadas. _Eu. _Mas, Zé... _Chico, não há nada aqui que pertença àquele moleque. _Zé, como você deixou que uma mulher o separasse do seu filho? Você sabe que ele é um bom rapaz, que sempre foi obediente e trabalhador. _Terminou? Chico, é o seguinte: ele está lá com você, certo? Então, enquanto você der abrigo para aquele traidor, está proibido de ver a sua neta. Entendeu bem? _O quê? Você não pode fazer isso! _Posso e estou fazendo. _Meu Deus, nunca pensei que viveria para ver isso.

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_Pois é, nem eu. Nunca passou pela minha cabeça que seria traído pelo meu próprio filho. _Zé, ele não fez nada. O Liseu saiu daqui para fugir dela. _Chico, não vamos recomeçar. É melhor você ir embora. _O Liseu precisa do material dele da escola. Não me diga que destruiu também? _Não, esqueci do material, mas... _ Zé, ele precisa. Faltam poucos dias para ele terminar o colégio. _Pode pegar, mas só isso. E depois vá embora. Chico conseguiu pegar a mochila do neto e um tênis que ainda estava intacto. _Ele rasgou todas as minhas roupas? _Liseu, eu sinto muito, mas o seu pai está irreconhecível. Ele me proibiu de ver a sua irmã, você acredita nisso? _Por quê? O senhor não tem nada a ver com tudo isso. _Só porque você está aqui. _Ah, vô... então eu tenho que sair daqui. _Não, nem pense nisso. Eu não deveria ter falado isso para você. _E a Jessica? O que ela disse? _Ele não contou para ela. Só disse que você não morava mais lá e que ela não pode vê-lo. _Minha vida virou de cabeça para baixo... nem sei o que vou fazer. Preciso ir para o colégio, tenho prova, mas nem tenho roupa para ir. _Liseu, dá uma olhada nas minhas, quem sabe você acha alguma. Talvez sirva alguma camisa polo. Agora, calça será um problema. _Tudo bem, a camisa já ajuda, eu uso a mesma calça. Amanhã eu compro alguma coisa. _Você tem dinheiro? _Um pouco, dá para me virar pelo menos por uns dias. _Eu recebi a minha aposentadoria semana passada. Posso... _Não, vô! Eu não quero que o senhor gaste o seu dinheiro, sei que é pouco. _Pare com isso. Vamos dar uma olhada em meu guarda-roupa. Poucos minutos antes das sete horas da noite, Eliseu chegou à casa da namorada. _Oi, baixinha, me desculpe por não ter vindo ontem, é que tive alguns problemas, depois eu conto.

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Vamos? _Eli, é que meu pai... _Quem está aí? Mônica, com quem você está conversando? _É o Eli. _O que foi que eu disse? Não avisei que... _Boa noite, seu Mário. _Boa noite? Péssima noite, rapaz. O que você está fazendo aqui? _Vim buscar a Mônica, hoje temos aula. _Pois pode sair, ela não vai hoje. _Pai! _Entre, Mônica. _Seu Mário, eu... _Não quero ouvir nada. A partir de hoje você não é mais namorado da Mônica e eu quero que você fique bem longe dela. Entendeu? _Pai! _Mônica, eu não disse para você entrar? _Seu Mário, isso é por causa da... _É por causa da sua falta de vergonha. Você acabou com seu pai. Ele está arrasado. _Seu Mário, eu não fiz nada. Aquela mulher está mentindo. _Aquela mulher é a esposa do seu pai e você não a respeitou. Eu não quero um rapaz como você para minha filha, não mesmo. _É tudo mentira dela. Acredite em mim. _Pai, escute o Eli, por favor. _Mônica, entre agora e nunca mais fale com ele. _Pai, o Eli é meu namorado. _Não é mais. Rapaz, fique longe da minha filha, se o seu pai não acredita em você, por que eu deveria? _Seu Mário, eu não... _Chega, saia daqui. _Eli, eu acredito em você- disse Mônica entre lágrimas. Mário puxou o braço da filha e fechou o portão, impedindo a entrada de Eliseu. Ele começou a andar bem devagar em direção ao colégio; ao chegar lá, logo encontrou-se com o amigo Ricardo

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que é filho de Agnaldo, amigo de José Luís e dono do mercadinho. _E aí, meu amigo, como você está? Fiquei sabendo que a gos... quer dizer que a mulher do seu pai aprontou uma com você. _Oi, Ricardo, como as notícias correm! Quem contou? _A minha mãe e você não vai acreditar quem falou pra ela. A própria, a sua madrasta. Ela foi até o mercadinho hoje cedo e começou a chorar, a minha mãe perguntou o que estava acontecendo e ela disse. _O que ela disse? _Que você foi expulso de casa porque queria ir para cama com ela. _Ela é pior do que eu imaginava! Ela mesma quer espalhar a história para acabar comigo. Quer jogar todos contra mim e está conseguindo. O seu Mário proibiu a Mônica de falar comigo, nosso namoro está terminado. _Que barra, cara! _Ninguém acredita em mim. _Eu sei que você não fez o que aquela... coisa está dizendo. Bem que você falou que achava a mulher muito estranha, que não estava gostando nadinha dela morar lá com vocês. _Obrigado, amigo. Eu estou na casa do meu vô, mas não sei até quando; meu pai não vai deixar meu avô ver a Jessica novamente enquanto eu estiver com ele. _Cara! O meu pai também acredita em você. Desde o começo ele também não foi com a cara da mulher. Ele até tentou falar com o seu pai, mas não deu. Seu pai simplesmente não quer saber de conversar sobre o assunto. _Fico feliz por saber que o seu pai acredita em mim. Eu só vim hoje por causa da prova, mas também nem sei se vou conseguir tirar uma boa nota. _Amigão, vamos lá, você consegue. _Oi, Liseu, como foi lá no colégio? _Ah... é melhor nem contar. _Fale comigo, vai, desabafar faz bem. Eliseu contou sobre a desagradável conversa com o pai de Mônica. _Meu neto, eu sinto tanto. Isso tudo é uma grande injustiça. Aquela mulher vai pagar, a justiça divina não falha.

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Capítulo 4 -Desprezo Naquela manhã de terça-feira, Eliseu foi até o centro da cidade para comprar algumas roupas. Quando desceu do ônibus avistou seu pai que estava entrando na padaria do bairro onde moravam, resolveu entrar também. Eliseu se aproximou com receio, mas sabia que deveria aproveitar a oportunidade. _Pai... José Luís nem se mexeu. _Pai, posso falar com o senhor só por um instante? José Luís estava imóvel. _Pai, por favor, eu preciso que o senhor me ouça. _Zé, seu filho está falando com você- disse Nelson, o dono da padaria. _Você está enganado, Nelson, não tem ninguém falando comigo. E você não sabia que eu só tenho uma filha? _Se você está dizendo... Eliseu não pôde mais suportar os olhares das pessoas que estavam ali, por isso saiu rapidamente. Antes de chegar na casa do avô, ele encontrou-se com Mônica e a mãe. _Eli... _Filha, seu pai avisou... _Mãe, deixa eu falar só um pouquinho com ele. _Não posso deixar, seu pai proibiu. _Eli, me desculpe. _Tudo bem, baixinha, eu entendo. Ao chegar na casa do avô... _O Zé ignorou a sua presença? _Foi isso mesmo, vô. Eu me senti como um lixo, como algo que ninguém quer nem chegar perto. _Liseu... eu nem sei como consolá-lo, eu não suporto vê-lo assim. Vô e neto se abraçaram. Os dois estavam com os rostos molhados. Era impossível segurar as lágrimas. Naquela tarde, Agnaldo foi até o bar do amigo, queria muito conversar com ele. 38

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_Será que você tem um tempinho? _Agnaldo, se o assunto é o mesmo de ontem, pode esquecer. _Zé, me escuta, homem! O Eliseu sempre foi um bom menino, você não pode deixar que uma mulher que você mal conhece... _Ela é a minha esposa, Agnaldo, não se esqueça disso. Eu não quero perder a sua amizade, mas se esta conversa continuar, é isso que vai acontecer. _Zé, o seu filho sempre foi obediente, ele... _Agnaldo, eu já avisei! Que droga! Eu não tenho mais filho, entendeu? _Você nem parece mais o mesmo, eu não conheço mais o meu amigo. _Eu não sou mais o mesmo. Agora eu tenho uma esposa e uma filha. E, infelizmente, tenho que suportar a zombaria de alguns por causa de um certo rapaz. Você não imagina o que eu ouço por aí: “E então Zé, precisou da ajuda de seu filho? Ela é muito nova pra você, né? “ _Isso é conversa de quem não tem o que fazer, Zé! Quer que eu marque um encontro com o seu filho? Assim vocês podem conversar sem a interferência de ninguém. Pelo menos dê uma oportunidade para que o Eliseu conte a versão dele. _Agnaldo, esqueça. Eu preciso trabalhar; aquele rapaz sabe que eu não o considero mais como filho e assunto encerrado. Agnaldo saiu de lá muito desanimado. Resolveu ir até a casa de seu Chico. _Então você esteve com o meu pai. Obrigado, Agnaldo, por você tentar. _Eu queria ajudá-lo. E o seu avô? _Foi até a padaria; ele está tão triste. Eu mesmo ia até lá, mas depois do que aconteceu esta manhã, fiquei com vergonha. _O Zé te ignorou! Que coisa! _Agnaldo, eu tenho que fazer alguma coisa, não dá para ficar de braços cruzados. Não quero que a minha irmã more com aquela mulher. Eu vou até lá, vou conversar com ela, ela vai dizer a verdade. _Eliseu, ela não vai confessar. Você acha mesmo que ela vai querer perder a “mordomia”? Não tente falar com ela, as coisas podem piorar. _Mais ainda? Como? Eliseu faltou à aula naquela noite e foi até a casa de seu pai, precisava ver a irmã e tentar convencer Silmara. Aproveitou que José Luís estaria ocupado no bar.

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_Liseu, meu maninho, que saudade! _Maninha, eu também estava louco para vê-la. Abraçaram-se... _Maninha, eu preciso falar com a Silmara, você poderia entrar em seu quarto e só sair de lá quando eu chamar? _Liseu, o que está acontecendo? As pessoas estão dizendo que você fez algo muito feio, mas eu não acredito. _É tudo mentira, maninha, eu não fiz nada de errado, cuidado com esta mulher. Agora vá para o seu quarto. O vovô está com muita vontade de vê-la, acho que amanhã ele vai dar um jeito nisso. Fique atenta na hora que você sair da escola. Eu te amo, minha maninha querida. _Eu também te amo. _Eu preciso falar com você- disse Eliseu ao entrar na sala e ver Silmara. _Como você tem a cara de pau de entrar na minha casa? _Sua casa? Você é tão cínica! Como você consegue dormir, depois de tudo o que fez, hein? _Eu? Não fiz nada. Você é o culpado de tudo isso, quis ser tão certinho, viu no que deu? _Fale a verdade, não é só por mim, meu avô está sofrendo e a minha irmã também. _Fofo, você escolheu, eu avisei. Falei que você ia se arrepender, lembra? _A sua consciência não pesa? _Consciência? O que é isso? Meu querido, eu ia fazê-lo tão feliz! _Eu tenho nojo de você! _Não tem, meu fofo, eu sei que você me quer, o que você tem é medo. Agora vá embora daqui antes que meu marido chegue, ele não vai gostar nada de encontrá-lo aqui, pode até acontecer uma tragédia. _Fale a verdade, confesse. _Saia daqui, Eliseu, eu vou tentar convencer o seu pai a aceitá-lo de volta, mas agora é melhor você ir. _É isso mesmo, saia daqui, seu moleque! _Pai! _Como você teve a coragem de vir até aqui novamente? Nunca mais, está ouvindo, nunca mais apareça aqui.

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_Pai, por favor, me ouça, ela é uma mentirosa! Ao ouvir isso José Luís deu um soco em Eliseu que com o impacto, caiu no chão. Ele então o empurrou até que estivesse fora da casa. _Suma daqui, por que você não vai embora desta cidade, hein? Seria um alívio para todos, até para o seu avô. Por sua causa ele não pode mais ver a Jessica. José Luís fechou a porta deixando Eliseu deitado no chão com a boca sangrando. _Liseu, o que aconteceu? Quem fez isso com você? _Vô, me desculpe chegar assim. Eu até pensei em ir para a casa do Agnaldo, não queria que o senhor me visse neste estado. _Vem aqui, deixa eu cuidar de você. Mas quem fez isso? _Eu fui até lá, eu tinha que pelo menos tentar fazer aquela mulher falar a verdade. Eu estava conversando com aquela falsa quando meu pai chegou, ele ficou muito bravo, me deu um soco e me expulsou de lá. _Meu Deus! O seu pai passou dos limites. Como ele pôde bater em você? _Ele não gostou de ouvir que a mulher dele é uma mentirosa. Pelo menos eu vi a Jessica. _Pensar que a minha neta mora com aquela mulher é muito triste! _É terrível, vô! Eu tenho que fazer alguma coisa. A Jessica precisa morar aqui. _O Zé nunca permitiria. _Eu vou pensar, preciso encontrar uma solução. Amanhã eu vou até o mercadinho do Agnaldo pedir um emprego para ele. _Liseu, eu tenho medo, e se o seu pai não gostar? Eles são amigos. _Vô, eu preciso trabalhar e para ele eu não existo mais, que diferença vai fazer o local? Tendo um salário as coisas ficam mais fáceis, eu posso alugar um quarto para mim, assim o senhor pode ver a Jessica. _Que ideia! Não vou permitir que você saia daqui. _Vô, ela precisa do senhor. Não podemos deixá-la sob a influência daquela mulher. No dia seguinte, bem cedo, Eliseu foi até o mercadinho de Agnaldo. _Eliseu, bom dia! Você aqui tão cedo, aconteceu mais alguma coisa? A sua boca está inchada...

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_Desculpe, Agnaldo. Eu posso conversar com você? Depois de contar o motivo de estar com a boca inchada, Eliseu falou sobre o emprego. _É claro que sim, Eliseu. Eu estava mesmo precisando de alguém para ajudar o Gomes nas entregas. Quando você pode começar? _Agora mesmo. _Que disposição! Ah, tem um detalhe: quando não tiver entrega eu vou precisar dos seus serviços aqui no atendimento ou em outra coisa qualquer. Certo? _Certíssimo. _Então você já começou! _É isso mesmo, vô! Só vim almoçar. _Que bom, pelo menos agora eu estou vendo um pouco de animação em você. À noite, Eliseu foi até o colégio. Teria aula só até a próxima semana. _E aí, cara! Está trabalhando no mercadinho e nem me avisou, né? _Oi, Ricardo, beleza? O seu pai foi muito legal comigo. Pensei que fosse encontrá-lo lá. _Minha mãe inventou de fazer algumas mudanças lá em casa e precisou de mim. Estou só o pó. É que os meus avós vão morar com a gente. Mas o que aconteceu com a sua boca? Era quinta-feira, Eliseu estava arrumando alguns produtos na prateleira quando José Luís e Silmara entraram no mercadinho. _Agnaldo, meu amigo! _Oi, Zé. Tudo bem com você? _Oi, mas eu não estou sozinho, você não percebeu? _Boa tarde, Silmara- disse ele secamente. _Boa tarde, Agnaldo. Amor, eu vou pegar o que preciso, fica aí conversando com o seu amigo. _Tudo bem, Sil. _Agnaldo, terminei. Precisa de ajuda aí? - perguntou Eliseu.

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José Luís olhou para ele e depois para o amigo Agnaldo. _Nossa, meu amigo, eu não sabia que você empregava pessoas deste tipo. Cuidado com a sua esposa, viu? _Zé, por favor. _Sil, vamos embora. Agnaldo, enquanto você manter um empregado assim eu não piso mais aqui. _Mas eu nem escolhi nada ainda... _Meu amor, vamos para outro lugar, aqui está com um cheiro horrível, você não percebeu? _Que cheiro? Ah... tem razão, estou sentindo- disse ela ao avistar Eliseu. _Eu ouvi direito? Caramba!- disse Ricardo que estava no caixa. _Ricardo, sem comentários. _Me desculpe, Agnaldo. _Eliseu, eu não entendi. Você está me pedindo desculpas pelo quê? _Eu estou com vergonha. _Quem precisa tomar vergonha na cara é aquela... _Ricardo, calma! _Pai, é verdade. Isso é um absurdo! _Vamos trabalhar.- disse Agnaldo encerrando o assunto. Eram sete horas e Eliseu ainda estava trabalhando. _Eliseu, o que você está fazendo aqui ainda?- perguntou Agnaldo. _Eu não vou para o colégio hoje. As aulas encerram na semana que vem e... _As coisas estão complicadas lá também? _É... Agnaldo, eu não estou aguentando os olhares e as brincadeiras. _Ah, Eliseu, se eu pudesse fazer alguma coisa por você... _Você já está fazendo. Agnaldo, meu pai disse que eu deveria sair da cidade para que meu avô possa ver a Jessica novamente e eu estive pensando muito sobre isso. _Eliseu, não tome uma decisão assim. _Eu não estou suportando tanto desprezo. Eu perdi parte da minha família, perdi a namorada, as pessoas me olham de um jeito estranho, meu avô está com saudades da Jessica, e ela está morando com aquela mulher e... _Está muito difícil, não é, filho? Ah... Eliseu.

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_Agnaldo, o Ricardo me disse que você vai para São Paulo na próxima semana buscar os seus pais... _É verdade. Vou na sexta-feira. Eles estão muito velhinhos e não podem morar sozinhos. E aqui é mais tranquilo. _Agnaldo, você me levaria para São Paulo? _Eliseu, qual é a sua ideia? _Se eu for embora, meu avô pode conseguir que a Jessica more com ele. E você e meu pai voltam a ser os amigos de antes. _Eliseu, que absurdo! Você nunca saiu daqui. São Paulo é muito grande e você não conhece ninguém lá. _Por favor, Agnaldo! _Você já conversou com o seu avô sobre isso? _Eu pretendo falar com ele hoje. _Então fale, depois voltamos a conversar. Durante o jantar... _O quê? São Paulo? Liseu, nem em sonho. _Vô, vai ser melhor para todos. _Liseu, eu não vou deixar você ir, é muito perigoso. Você é tão ingênuo! _Vô, preciso de seu apoio. Pense na Jessica. _Deve haver outra solução. _Não há. Meu pai me despreza e isso não vai mudar. O senhor sabe como ele é cabeça dura, como é orgulhoso. Vô, mesmo que aquela mulher fale a verdade, o que é quase impossível, ele não daria o braço a torcer. _Liseu, eu não posso perdê-lo. _Vô, o senhor não vai me perder, assim que eu estiver com uma certa estabilidade eu entro em contato. _O Zé vai acabar reconhecendo, ele... _Vô, não se iluda, meu pai não vai reconhecer o erro, ele não sabe pedir perdão e muito menos perdoar, infelizmente. Ele morre, mas não muda de opinião. _Liseu, o Natal está chegando. Olha, vamos combinar uma coisa: você fica até o final do ano e... _Vô, eu não vou aguentar. E se eu ficar, a Jessica terá que passar as festas de fim de ano só com o

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meu pai e aquela mulher. Vô, pelo menos ela terá a presença do senhor. _Liseu, como vai ser? desconhecido... _Vô, eu já me decidi. Vou para São Paulo com o Agnaldo. Pense bem, meu neto. Passar o Natal em um lugar totalmente

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Capítulo 5 -São Paulo _Zé, preciso falar com você, urgente!- disse Chico ao entrar no bar naquela tarde de sábado. _Chico, eu já vou avisando que se a sua intenção é falar sobre... _É sobre o Liseu e você vai me ouvir. _Velho, cuidado... _Zé, perdi a paciência com você. Se a minha filha estivesse viva... _Não coloque a Rute nesta história. _Pois bem, o Liseu está com uma ideia fixa de ir embora para São Paulo. _Ótima notícia. _O quê? Como você pode falar assim? Ele não conhece nada lá e nem ninguém. _Quem mandou ele não dar valor ao que tinha aqui? _Zé, o Liseu é uma vítima. _É mesmo? A vítima aqui sou eu. Você não sabe o que eu suporto por culpa daquele moleque. Gozação em cima de gozação. Adoram fazer piadinha usando o meu nome. Chico, eu sempre fui respeitado aqui e agora o Eliseu sujou o nome da nossa família. Ele não podia fazer isso comigo, não podia. Confiava nele, eu colocava a mão no fogo por ele. _Zé, acorda, antes que seja tarde demais. Aquela mulher mentiu para você, ela estava de olho nele desde o primeiro dia. _Chico, para com isso. Você está insinuando que eu não sou homem para ela? Que ela precisava olhar para o meu filho? _Então é isso, o orgulho ferido! Você não pode admitir que aquela mulher tenha desejado estar com o seu filho, não é? Se você admitir que o Liseu está falando a verdade é o mesmo que dizer que você não foi homem suficiente para ela, não é? Meu Deus, é pior do que eu pensava. Então o Liseu tem toda razão ao dizer que você nunca vai reconhecer. _Chega, você foi longe demais. Deixe aquele moleque ir embora, vai ser melhor para todos. A sua neta está com muitas saudades e você já sabe quando poderá vê-la novamente, certo?

_Agnaldo, está decidido. Eu só não vou para São Paulo se você não quiser me levar. _Eliseu, eu não sei. O seu avô está tão preocupado! Ele conversou com o seu pai. _Eu sei e ele ficou feliz com a minha decisão. É um alívio para ele. 46

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_Eliseu, não fale assim. _É verdade, Agnaldo. E então? _Você tem certeza disso? _Tenho, eu não vejo a hora de sair daqui. Agnaldo, eu quero andar de cabeça erguida, estou cansado de ser motivo de piadas. _As pessoas vão esquecer. Logo aparece outro assunto e... _Não. Eu quero ir embora. Você não imagina a dor que eu sinto ao ver o meu pai. O desprezo dele dói muito mais do que aquele soco que ele me deu. A semana seguinte voou. Eliseu esteve muito ocupado com os preparativos para a sua viagem. _Eu não acredito que você vai mesmo embora. _Vô, pense que o senhor poderá rever a Jessica ainda hoje. _Liseu, quando é que eu o verei novamente? Eu tenho muito medo do que possa acontecer com você. _Não se preocupe, vai dar tudo certo. Eu vou trabalhar e se Deus quiser vou poder ajudar o meu avô querido e a minha maninha. _Pegue isso. _O que é isso? Não, eu não posso aceitar. Eu já tenho algum dinheiro e o senhor vai precisar. _Por favor, aceite. _Vô, o senhor tirou da poupança. Não deveria ter feito isso. _Você não sabe se vai conseguir um emprego logo que chegar e as coisas são caras lá. E eu quero que você leve isso também. _O seu CD preferido? Vô, não. _Eu quero que você leve e que ao ouvir, ou simplesmente olhar para ele, você lembre que é o meu favorito, assim você vai saber o quanto eu te amo. _Vô, eu não preciso disso para saber que o senhor me ama. _Mas eu quero que você leve e tem mais uma coisa. Esta foto de sua mãe. _Obrigado, vô. Em casa eu tinha várias fotos dela, mas... _Ouviu a buzina? O Agnaldo chegou. Me dá um abraço bem forte. _Meu avô, eu te amo muito, viu? Ei, não chore. _Olha quem fala! _Ah, vô... dê um beijo na Jessica e diga que eu a amo. Queria tanto vê-la...

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_O Zé viajou de propósito, só para você não se despedir da sua irmã. _Preciso ir agora. Vô, faça de tudo para que a Jessica more aqui. _Está certo. Liseu, não me deixe sem notícias, por favor. _Vô, eu não sei se vou conseguir manter contato, mas não se preocupe. _Dê um jeito. Você tem o telefone do Agnaldo e eu marquei o número do Antônio, o meu vizinho. Eliseu saiu com o seu avô até o portão, deu mais um longo abraço nele e entrou no carro de Agnaldo. _Eliseu, ver o seu avô se despedir de você é de cortar o coração. _Eu sei, Agnaldo, mas não tinha outra solução. _Teremos uma longa viagem pela frente. _Agnaldo, os seus pais irão aguentar percorrer a distância de São Paulo até aqui? _Com toda a correria eu não contei para você que eu não volto com o carro. Meu irmão vai comprálo. A situação lá está bem complicada. Ele está se separando da esposa e usava o carro da família para trabalhar, ele é vendedor autônomo. Com a separação, a minha cunhada vai ficar com o carro e como eu devo um certo valor para meu irmão, nós vamos fazer um negócio com o carro. Com tudo isso meus pais estão meio perdidos. Não sabem o que fazer, pois eles moram com o meu irmão, então eu sugeri a mudança deles, fiquei bem surpreso com a rápida decisão. _É, a situação lá está bem complicada mesmo. _Volto de avião com os meus pais. Eles estão com muito medo, precisei conversar muito para convencê-los que seria melhor. De ônibus seria muito cansativo. E então, Eliseu, o que você pretende? _Agnaldo, para ser sincero, eu não sei. Para o meu avô eu passei muita segurança, mas estou bem temeroso quanto ao meu futuro. _Rapaz... pena que eu não possa fazer mais nada por você. Sinceramente eu não sei se você tomou a decisão certa. Não é possível que o seu pai vai continuar cego e surdo em relação àquela mulher. _Agnaldo, você já está fazendo muito e eu agradeço. Quanto ao meu pai... eu sei que ele não vai mudar. Não adianta me iludir. _É... será um longo caminho. Para nós e depois para você. _Falando nisso, quando tempo de viagem? _Muito tempo. Eliseu, agora são oito horas... faremos uma parada a cada 4 horas mais ou menos e passaremos a noite em um hotel. Depois do almoço você dirige. Eu sei que apesar de ter carta há

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menos de um ano, você pilota bem. Pararam meio-dia e após uma hora continuaram o caminho. Às 16h30 fizeram mais uma parada. Durante o lanche... _Sei que terei ótimas notícias suas, mas se você estiver em dificuldades, não se acanhe, ligue para mim. _Valeu, Agnaldo. _O Ricardo ficou inconsolável, vocês estavam sempre juntos. _Eu vou sentir muita falta dele. Após o rápido descanso eles retornaram para a estrada. Às nove horas pararam em um hotel. _Amanhã sairemos às cinco horas- avisou Agnaldo após o jantar. No dia seguinte percorreram mais alguns quilômetros até as dez horas. Comeram um lanche e descansaram. _Agora falta pouco, Eliseu. Se você concordar nós agora vamos direto até chegar. Já liguei para o meu irmão e avisei que chegaremos mais ou menos às quatro horas. Pensando bem... é melhor nós pararmos daqui a duas horas para o almoço. _Concordo. Agnaldo estacionou o carro em frente à casa do irmão quando faltavam dez minutos para as seis horas. _Graças a Deus chegamos em paz. Que canseira!- falou Agnaldo. _Naldo, meu irmão! _Como você está, Beto? _Estou bem e quem é o rapaz? _Vou apresentá-lo para você. Eliseu, este é o meu irmão, Adalberto. _Oi, Eliseu, pode me chamar de Beto. Como foi a viagem? _Oi, Beto. Cansativa, mas com o seu irmão foi bem agradável. _Disso eu tenho certeza, ele é muito simpático, herdou isso do irmão mais velho.

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_Certo. E a Rosa? - perguntou Agnaldo. _A Rosa está cheia de espinhos. Ela foi até a casa da irmã dela. O clima aqui está bem pesado, eu já estou avisando para não assustar vocês. Me desculpem, mas ela não vê a hora de ficar sozinha. _Não precisamos de explicações, Beto. E o papai e a mamãe? _Vamos entrar, eles estão na cozinha preparando o jantar para vocês. Quando eu avisei que vocês não chegariam para o almoço a mamãe ficou desapontada. _Naldinho, meu menino! _Mãe, como a senhora está linda! _Pare com isso! Você está mais magro? _Mais magro? Só a senhora mesmo! Olhe bem para mim... pai, como vai esta força? _Meu filho, eu estou bem, com a graça de Deus. Mas não estou conseguindo dormir direito só de pensar na viagem. Avião? Não sei, eu acho que não vou conseguir entrar. _Calma, pai. Não pense nisso agora. Vamos viajar daqui a 4 dias. Este é o Eliseu, ele é neto do Chico. _Eliseu, seja bem-vindo, pena que a casa não é minha. Gostaria de recebê-los melhor- disse João. _Não se preocupe, seu João. O cheirinho está delicioso. _Então, venha se alimentar, rapaz. Você deve estar com fome. Depois vocês precisam descansarforam as palavras de Elvira a mãe de Agnaldo. Rosa, a ex-esposa de Adalberto, só chegou depois das nove horas da noite. Cumprimentou a todos secamente e entrou em seu quarto. _Estou muito envergonhado. Eu sei que ela não aguenta mais olhar para mim, mas bem que ela podia tratá-los melhor, afinal vocês não têm culpa de nada. _ Beto, pare de se preocupar com isso, serão só 4 dias, depois ela ficará tranquila. _Eu também vou sair daqui no mesmo dia que vocês. Ela queria que eu fosse antes, mas eu não vou deixá-los aqui com esta mulher cheia de ódio. _Agnaldo, amanhã eu vou procurar um lugar. Não quero dar trabalho, a situação aqui já não anda nada bem e... _Calma, Eliseu. Enquanto eu estiver aqui você pode... _Agnaldo, eu não quero abusar. Só preciso de algumas informações, acho que o seu irmão pode me

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ajudar. _Amanhã nós cuidamos disso, agora descanse. No dia seguinte, Agnaldo perguntou para o irmão se ele sabia de um quarto para Eliseu alugar. _Quem pode ajudar nisso é o Luizinho. Ele conhece tudo por aqui. Ele trabalha com o Alfredo na feira. O Alfredo é meu vizinho. _O Luizinho? Só você mesmo, para indicar aquele moleque!- disse Rosa com ironia. _Rosa, você resolveu falar? Nossa! O que você tem contra o Luizinho? _Você não tem jeito mesmo, Adalberto. O Luizinho é uma péssima companhia. Ele não vale nada e você sabe muito bem disso. O Alfredo só está com ele por conveniência. Paga uma mixaria e... _Vamos sair daqui, Naldo. Esta aí não fala nada de bom sobre ninguém. Naquela tarde de segunda-feira Eliseu conheceu Luizinho, um rapaz de 20 anos. _Eliseu, é claro que eu posso te ajudar, gente boa. Eu conheço todos aqui no bairro. Vou te levar em um lugar que é bem baratinho. E é uma beleza de lugar! _Valeu, Luizinho Eu não conheço nada por aqui. _Então está com a pessoa certa. Eu vou ajudar, gente boa. Nós dois juntos andando por aí, vai ser “dá hora”. Luizinho levou Eliseu até a pensão de dona Jussara. _Aqui é assim: você paga R$70,00 por semana pelo quarto. Todas as refeições estão inclusas e o banho também, só que você vai precisar dividir o banheiro com alguns moradores. A única coisa que você precisa pagar separado é se precisar de alguém para lavar e passar as suas roupas. A Mercedes faz isso; só depende de você- explicou dona Jussara, a proprietária do local. _Entendi, dona Jussara- disse Eliseu. _Eu assino um recibo quando você fizer o pagamento. Não aceito atraso. Se não pagar precisa sair imediatamente. _E então, gente boa, gostou do quarto?- perguntou Luizinho _É... para mim está bom. Eu não posso gastar muito, preciso arrumar um emprego primeiro, depois eu alugo uma casa. _Então, beleza. Vou nessa.

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_Obrigado pela dica. O quarto era bem pequeno. Os únicos móveis eram: Uma cama, uma mesa e uma cômoda. Eliseu voltou até a casa do irmão de Agnaldo para pegar sua mala e a mochila. _Eliseu, se algo der errado, não fique com vergonha de ligar. Eu ficarei aqui até quinta-feira e depois é só entrar em contato comigo em Diamantino. Se precisar ligar à cobrar, não tem problema- disse Agnaldo ao se despedir do rapaz. _Agnaldo, muito obrigado por tudo e faça uma boa viagem. _E aí, tudo beleza? Eu precisava mesmo falar com você. Será que você pode me ajudar? _Oi, Luizinho Tudo bem. O que foi? Você está com algum problema? _”Tô” até com vergonha... é que hoje eu não tenho um lugar para dormir. A minha mãe mora com um homem que não gosta nada de mim e hoje ele avisou para eu não voltar lá, disse que vai dar uma surra em mim. Será que... não, esquece. _Pode falar, Luizinho _Eu posso dormir só uma noite em seu quarto? Eu durmo no chão mesmo. _Por mim tudo bem, mas e a dona Jussara? _Pode deixar comigo. Eu falo com ela, gente boa. _Luizinho, o que você aprontou? _Não fiz nada, dona Ju, aquele homem é uma peste! _Luizinho, Luizinho! Bom... se o rapaz aceitou, tudo bem. Mas é só por uma noite. Aqui não é casa de caridade, não, entendeu? _Valeu mesmo, Eliseu. Amanhã eu vou sair bem cedinho. Você sabe que eu trabalho na feira, né? É uma barraca de frutas. _Falando nisso... eu estou pensando em ir com você. Quem sabe eu consigo um serviço por lá. _Não quero te desanimar, mas lá não adianta você ir. Outro dia o homem quase me mandou embora, disse que o movimento “tava” bem devagar e... _Amanhã eu vou sair bem cedo também, preciso arrumar alguma coisa. Não posso gastar todo o dinheiro que eu trouxe, preciso guardar. Quanto antes eu conseguir um emprego, melhor.

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No dia seguinte, Eliseu acordou às seis horas da manhã e percebeu que Luizinho já havia saído. Tomou o café e saiu. Como encontrou as lojas fechadas, resolveu ir até a feira. Poucos minutos depois encontrou-se com Luizinho. _Bom dia, Luizinho. _Oi, gente boa. Você por aqui? _É, eu estou esperando as lojas abrirem. Para ser bem sincero, não sei nem por onde começar. _Pergunte em cada porta que você encontrar, de repente... _Tem razão. _ É melhor você ir agora, se o meu chefinho me pegar batendo papo, eu vou perder o emprego. _Eu vou embora. Até mais. _Até, gente boa. Foi a última vez que Eliseu viu Luizinho. Eliseu seguiu a sugestão de Luizinho. Entrou em todas as portas, mas ouvia sempre as mesmas coisas: não estamos precisando no momento, nosso quadro de funcionários está preenchido e coisas do gênero. Em uma loja de roupas, o gerente explicou: _Se fosse há algumas semanas atrás, você não teria tanta dificuldade para conseguir uma vaga, por causa das que surgem com o movimento de final do ano, mas agora só falta uma semana para o Natal. Você vai precisar esperar o ano iniciar. Muitas empresas entram em férias coletivas. Você disse que não tem carteira assinada. Isso é um problema. Eliseu retornou para o quarto alugado só no final da tarde. Estava bem desanimado. _É isso mesmo, rapaz. Você pegou uma época bem complicada. _Mais eu preciso trabalhar, dona Jussara. _Por que você não compra alguns produtos e vende nas ruas? Pelo menos até o novo ano começar. Há muitas pessoas nas ruas, e isso é ótimo para quem vende. Você pode vender água e refrigerantes, por exemplo, eu posso dar umas dicas. Você vai precisar comprar um isopor. _Eu vi algumas pessoas fazendo isso. Deitado, sem conseguir pegar no sono, Eliseu estava pensando sobre o que poderia vender. Olhou para a mesa e notou que Luizinho havia esquecido a jaqueta.

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Capítulo 6 -Roubo Naquela manhã, Eliseu conversou com Jussara e ela deu algumas dicas de lugares para comprar os produtos. Eliseu ainda conversou com um dos moradores que era vendedor de doces e pôde aprender mais um pouquinho. Ele foi até o quarto, pegou R$200,00 e deixou o restante bem guardado no fundo da mala. Colocou a mala embaixo da cama e saiu. Encontrou os endereços com uma certa dificuldade, após comprar o que precisava, foi até a pensão para almoçar e saiu trinta minutos depois para aproveitar que o dia estava bem quente. Venderia água e refrigerante. Retornou no final da tarde. Não havia vendido tudo. Ele percebeu que a concorrência era grande, mas estava apenas começando. Entrou no quarto para pegar roupa limpa e depois entraria na fila para poder tomar banho. Ele não havia esvaziado a mala ainda. Resolveu aproveitar para arrumar as roupas nas gavetas da pequena cômoda. Colocou a mão embaixo da cama para puxar a mala. Olhou e notou que não havia nada. “ Que estranho!” - pensou- “ Eu tinha colocado a mala aqui.” Como o quarto era bem pequeno, logo Eliseu percebeu que a sua mala não estava ali. Ao sair naquela manhã ele havia levado só a mochila. Ficou apavorado porque na mala, além das roupas, tinha R$1.900,00. Foi então que ele notou que a jaqueta de Luizinho não estava mais em cima da mesa e que o CD que o avô havia lhe dado estava lá. Eliseu o havia deixado na mala. Resolveu conversar com Jussara. _Dona Jussara, o Luizinho esteve aqui hoje? _O Luizinho.. ah, esteve sim. Ele veio buscar uma jaqueta. Ele disse que havia esquecido em seu quarto. _Dona Jussara, a senhora viu quando ele saiu? _Não, Eliseu. Por quê? Você parece que está tão preocupado! _É que a minha mala sumiu. _O quê? Meu Deus! Você tem certeza? _Infelizmente sim. Eu não gosto de acusar ninguém, mas será que alguém além do Luizinho entrou lá? _A sua chave fica aqui na recepção. Olha, Eliseu. Eu acho que nem o Luizinho entrou lá. A 54

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Silvinha deve ter buscado a jaqueta. Espera aí, eu vou falar com ela. Cinco minutos depois, Jussara retornou muito assustada. _Ah... não pode ser! _O que foi, dona Jussara? _A Mercedes me disse que a Silvinha saiu e disse que não voltaria mais. E o pior é que ela estava com o Luizinho e a Mercedes viu que eles saíram com uma mala mas ela nem imaginou que poderia ser de alguém daqui. _Meu Deus, dona Jussara, o meu dinheiro estava dentro da mala! _Dinheiro? Quanto? _R$1.900,00. _O quê? Eliseu, e agora? _A senhora sabe o endereço da Silvinha ou do Luizinho? _Eu não sei, foi o Luizinho que a trouxe para fazer a limpeza dos quartos. _Mas a senhora não pega o endereço dos funcionários? _Ah, Eliseu! Funcionários? A pessoa fica aqui por algum tempo, é um bico, entende? Eu pago pouco. _E o Luizinho? _Eu não sei. Toda terça-feira ele trabalha na feira aqui do bairro. Na banca do Alfredo das frutas, é só isso que eu sei. _Dona Jussara, eu não posso ficar de braços cruzados. Eu só fiquei com o dinheiro que eu tinha na carteira. Na noite que o Luizinho dormiu aqui eu mostrei um CD que era o preferido do meu avô. Eu disse para ele que aquele CD tinha um valor muito grande para mim. Ele deixou o CD em cima da mesa, eu o havia guardado no fundo da mala. _Então o Luizinho é um ladrão! Meu Deus, eu deixei um marginal entrar aqui... o que eu posso fazer? Eliseu, eu não sei o que fazer. _Eu tenho que encontrar o Luizinho. Há quanto tempo a Silvinha trabalhava aqui? E há quanto tempo a senhora conhece o Luizinho? _Há uns três meses e o Luizinho aparece por aqui há algum tempo. Sei lá... talvez há um ano. _Eu preciso encontrá-lo. Eu já sei... Eliseu não queria ir até a casa da ex-esposa de Adalberto, mas ele não tinha outro jeito. Ele sabia

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que Alfredo, o dono da banca de frutas, era vizinho dela. Tocou a campainha e ficou aguardando. _O que você quer? O Agnaldo já voltou para o Mato Grosso. _Dona Rosa, me desculpe, eu não queria incomodá-la. Eu sei que o Agnaldo já foi. É que eu preciso saber o endereço do Alfredo da banca de frutas. _O Alfredo mora naquela casa do portão azul. _Muito obrigado, dona Rosa. Eliseu bateu palmas várias vezes mas não saiu ninguém. Quando já estava desistindo, uma Kombi estacionou bem em frente da casa. _Pois não? _Alfredo? _O que é? Sou eu mesmo. _Eu preciso do endereço do Luizinho. _Luizinho? Você está brincando, né? Aquele garoto irresponsável! Não apareceu hoje, mandou um recado por um amigo dele dizendo que não vai mais trabalhar comigo. Também, nem adianta ele aparecer amanhã, eu já arrumei outro. _O senhor tem o endereço da casa dele? _Eu não. Nem sei se ele tem endereço. É bem provável que fique pelas ruas. _Eu preciso falar com ele, urgente! _O que foi, ele aprontou com você também? Aquele malandro! _O senhor poderia dar o endereço da feira de amanhã? _Tudo bem, mas eu acho que você vai perder o seu tempo. No dia seguinte, Eliseu foi até o endereço que Alfredo havia anotado. Logo encontrou a banca de frutas. _Bom dia, rapaz. Ele não apareceu. _Eu posso esperar um pouco? _Tudo bem. Mas não tenha muitas esperanças. O que ele aprontou, hein? _Eu preciso conversar com ele. Eliseu esperou por três horas e nada. Voltou desanimado para a pensão de dona Jussara. No dia

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seguinte, domingo, foi para outra feira e ficou lá por mais de três horas. Andava de banca em banca perguntando por Luizinho, mas ninguém tinha informação do rapaz. Segunda-feira ele saiu para vender água e refrigerante, mas no dia seguinte e foi até a feira próxima à pensão. Permaneceu lá por algumas horas e nada. Eliseu só tinha R$90,00; precisava pagar o aluguel do quarto e comprar mais produtos. E ele também tinha que comprar pelo menos uma camiseta, uma calça e roupa íntima. Luizinho havia levado praticamente tudo. _Olha, vamos fazer o seguinte: como você foi roubado aqui, eu só vou cobrar a metade do valor para esta semana, assim você pode usar o seu dinheiro para comprar mais produtos para vender. Mas, eu não posso fazer isso de novo, eu preciso do dinheiro. Você entende, né? Eliseu vendeu água e refrigerante nos dois seguintes. Na véspera de Natal ele participou de uma ceia na pensão. Pensou muito em sua família, era o primeiro Natal que passava sem eles. Pensou em conversar com o avô, mas só ligou rapidamente para Agnaldo e desejou um feliz Natal para todos. Se ele falasse com o avô, com certeza ele perceberia que havia algo errado. Agnaldo ainda insistiu para Eliseu ligar após alguns minutos, assim ele poderia ir até a casa de Chico, mas ele explicou que estava em um orelhão e que seria difícil conseguir ligar novamente. No dia do Natal, Eliseu recebeu um par de meias de Jussara e uma caneta de Mercedes. Ele comprou uma caixa de bombons para uma e um vaso de flores para a outra. Antes das nove da noite foi para o seu quarto. Todo aquele clima de comemoração o deixava mais triste ainda. A terça-feira chegou novamente e ele só tinha R$60,00. Teria que sair da pensão, mas qual seria o seu destino? _Ah, Eliseu, eu sinto muito, mas tem um rapaz que precisa do quarto. Converse com ele, quem sabe ele concorda em dividir com você. Eu coloco um colchão. Eliseu bem que tentou um acordo, mas o rapaz foi irredutível. Queria o quarto só para ele. _Dona Jussara, obrigado por tudo. Eu só gostaria de pedir um favor. A senhora poderia guardar este CD? Quando eu tiver um lugar para morar eu pego de volta. É que depois do que me aconteceu eu não quero correr o risco de ficar sem ele. Tem um valor sentimental muito grande para mim. E... tem esta foto também. É da minha mãe. Guarde para mim, por favor. _Ah... assim eu vou chorar. Eu guardo sim. Pode ficar sossegado. Eu espero que em breve você

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possa buscar. Se você quiser, pode dormir esta noite aqui no sofá, é bem desconfortável e as pessoas ficam para lá e para cá, mas... _Obrigado, mas é melhor eu ir. _E o isopor, você não vai levar? _Não, dona Jussara. Eu não sei o que vou fazer, então quanto menos peso melhor. _Você quer levar um cobertor? Eu tenho uma manta bem leve, coloque em sua mochila. _Eu vou aceitar. Muito obrigado.

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Capítulo 7 -”Pipoca” Ele começou a andar sem destino pelas ruas. Andou durante mais de uma hora. Eliseu só sabia que estava no bairro da Liberdade em São Paulo, tinha R$30,00 e precisava comprar alguns doces para vender. Antes de sair da pensão resolveu guardar os outros R$30,00 na meia. Comprou bala de goma e alguns pacotes de pipoca doce. Gastou R$18,00. Ficou observando o movimento das ruas. Logo vendeu três sacos de pipoca. _Ei, rapaz? Eu quero comprar um saco de pipoca. Quanto é? _R$1,00. Eu tenho também bala de goma. _Não, eu só quero pipoca. Tenho somente R$1,00 e não resisto a uma pipoca doce. Não é à toa que o meu apelido é “pipoca”. _ Pipoca? Então eu estou vendendo o produto certo para a pessoa certa. _Com certeza, rapaz. E como estão as vendas? _Estou começando agora. _Então, boa sorte. Eu vou ficar sentadinho naquele banco ali saboreando as pipocas. _Obrigado, senhor. Eliseu andou por aquelas ruas desconhecidas mas fez algumas anotações para se localizar. Após duas horas, voltou ao local onde havia encontrado “pipoca”. Ele ainda estava sentado no mesmo banco. _Posso me sentar? _É claro, rapaz. A pipoca já acabou faz tempo. _Então pegue mais um pacote. É de graça. _Não me tente, rapaz. Eu comi o saquinho inteirinho. E então, vendeu bastante? _Um pouco. É que eu não tenho experiência nisso e há tantas pessoas por aqui vendendo. _Tem razão. A concorrência aqui é grande. Então você é novo no negócio... bom, eu posso dar algumas dicas. Conheço bem a região. _Seria ótimo. _Você está vendo aqueles três ali, que estão próximos àquela árvore? _Estou. _Fique longe deles. Há muitas pessoas corretas nas ruas, mas há também alguns malandros. Aqueles três ali, são os malandros. Eles assaltam as pessoas. Ficam pra lá e pra cá, só esperando uma boa 59

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oportunidade. Como o movimento por aqui é bem grande, logo eles conseguem roubar a carteira ou a bolsa de algum distraído. _Obrigado pelo aviso. _Você notou que há uma garota entre eles, pois fique longe dela também. Geralmente eles não mexem com o pessoal que trabalha ou mora nas ruas, mas a garota pode colocar os olhos em você. Ela tem uma doença grave e não está nem aí com os outros. Ela quer mais é passar a doença porque é uma revoltada. Entende? _Entendi. O senhor mora aqui perto? “ Pipoca” deu uma gargalhada antes de responder. _Moro aqui, ali, lá...eu moro em qualquer cantinho. _O senhor mora na rua? _É isso mesmo, rapaz. Qual é o seu nome? _Eliseu. E o seu? _Eliseu é um nome bíblico que eu gosto. O meu eu já disse: “pipoca”. _Eu gostaria de saber qual é o seu nome de verdade! _Amadeus. Meu pai era fã de Mozart. _Amadeus, que interessante! O meu avô gosta muito das músicas de Beethoven _Bom gosto. Ah... faz tempo que eu não ouço nada do gênero. _Há quanto tempo o senhor mora na rua? _Há 16. _16 semanas? Antes de responder, Amadeus deu outra gargalhada. _16 anos, Eliseu, 16 anos! _16 anos é muito tempo! _Sim, é um longo tempo. E você, mora onde? Aqui por perto com certeza não é, hoje foi a primeira vez que nos encontramos. _Eu moro na rua, a partir de hoje. _Hoje? O que aconteceu, rapaz? Brigou com os seus pais? _Eu vim do Mato Grosso. _Mato Grosso? Veio de longe, Eliseu. Resolveu tentar a sorte aqui? _Mais ou menos. _Bom... se você não quiser contar não tem problema. Mas eu, se você quiser ouvir, gostaria de falar

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um pouco sobre a minha vida. _Eu estou com fome, vamos almoçar. _Pode ir, eu fico aqui, depois nós conversamos. _Venha almoçar comigo, eu pago. _Rapaz, é melhor você economizar. _Por favor, senhor Amadeus, aceite. _Então, tudo bem, mas só se você parar de me chamar de senhor Amadeus. Me chame de “Pipoca” ou de Amadeus. _Tudo bem, Amadeus, vamos almoçar. Próximo dali, Eliseu avistou uma placa que dizia: “ prato feito: R$4,00”. Enquanto almoçavam, Amadeus contava a sua triste história. _É isso, Eliseu. Eu tinha uma família linda, um bom emprego, amigos... e perdi tudo por causa da bebida. Coitada da Teresa, minha esposa. Todo o dia de pagamento era a mesma coisa: eu chegava bêbado e ela sabia que mais da metade do salário havia ficado no bar. _Quantos filhos? _Três lindos filhos, dois meninos e uma menina.. Eu só fazia a minha família passar vergonha. Um dia eu ouvi a minha esposa conversando com uma vizinha. Ela dizia o quanto estava triste. Eu mesmo ouvi quando ela disse que meus filhos sentiam muita vergonha de mim. Ah, Eliseu, naquele dia eu não entrei em casa. Abandonei tudo. _Amadeus, você não deveria ter saído de casa. Imagine o quanto eles sofreram! _Eles sofriam muito mais comigo morando ali. Eliseu, eu tentei parar de beber por várias vezes e nada. Era muita decepção para eles e muita vergonha. Eu era motivo de piadas até entre os amigos dos meus filhos. _Quantos anos os seus filhos têm hoje? _Bruno, o mais velho, está com 30 anos; Daniella, com 26 anos e o caçulinha, Paulo, 23 anos. _ Nunca pensou em procurá-los? _Para que, Eliseu? Depois de todos estes anos eu só iria atrapalhar. _Amadeus, dê a oportunidade para que eles possam conviver com o pai. _Não, Eliseu. Eu fiz uma escolha e foi a mais acertada. Dois anos depois eu fui até o bairro onde

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nós morávamos e consegui algumas informações. Fiquei sabendo que a Teresa estava trabalhando em uma papelaria e o Bruno estava fazendo bicos com um pedreiro bem conhecido no bairro. _É uma pena. Ficar longe dos filhos deve ser muito difícil. _Muito. Eu continuo bebendo para esquecer, mas não adianta, eles não saem dos meus pensamentos. Paguei um preço bem caro por causa de um vício maldito. Saíram do restaurante e Amadeus aproveitou para dar mais algumas dicas para Eliseu. _Agora eu vou até o meu cantinho para tirar uma soneca. Vem comigo para você conhecer, se depois você quiser passar a noite lá também... Poucos minutos depois, Eliseu conheceu o “cantinho” de Amadeus. Era em um buraco debaixo de um viaduto. _Este aqui é o Manoel. Ele também mora aqui. Nós cuidamos das coisas um do outro. Enquanto um sai o outro fica. Se você quiser... _Oi, Manoel. Se não tiver problema para você, mais tarde eu volto. _Para mim, garoto? Não, pode ficar aqui o quanto quiser. É até bom ter mais um para revezar. _Então, obrigado. Eu vou tentar vender mais um pouco. _Até mais, Eliseu. No início da noite, Eliseu parou em uma padaria, comprou alguns pães, mortadela e uma garrafa de refrigerante, depois foi até o “cantinho” de Amadeus e Manoel. _Boa noite. Que tal um lanchinho? _Eliseu, pare de gastar o pouco que tem! Não se preocupe com dois velhos. _Vamos comer. Vocês teriam uma faca para cortar o pão? E copos? _Eu tinha uma faca até a semana passada, mas sumiu- explicou Manoel- Temos duas canecas de plástico e um potinho. Dá para usar como copo. _Então é só rasgar o pão com a mão mesmo. _É isso mesmo, Eliseu. Aqui é assim. Após o lanche, conversaram por alguns minutos, mas logo Eliseu percebeu que estava falando sozinho: Manoel e Amadeus haviam adormecido. Demorou para ele pegar no sono, era a primeira vez que ele não tinha uma cama quentinha para dormir. Se enrolou na manta que havia recebido de

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dona Jussara e agradeceu a Deus por ter encontrado Amadeus e Manoel. Pelo menos não ficaria sozinho em sua primeira noite nas ruas. “ Agora eu também sou um morador de rua, nunca passou pela minha cabeça que isso pudesse acontecer”- pensava Eliseu enquanto o sono não vinha. “ Estou tão longe da minha família, longe dos amigos, da minha casa... casa? Que casa? Agora eu moro nas ruas. São tantos sons... carros, vozes e tantos outros que eu não consigo identificar... como é possível fechar os olhos? E se aparecer alguém mal intencionado aqui? Como esses dois conseguem dormir assim tão tranquilamente?” Foram horas e mais horas sem conseguir dormir. Quando amanheceu, Eliseu havia adormecido há apenas duas horas. _Bom dia, Eliseu. E então, como foi a sua primeira noite?- quis saber Amadeus. _Já amanheceu? Bom dia! _Você passou a noite inteira acordado, rapaz?- foi a pergunta de Manoel. _Quase. Não sei como vocês conseguem dormir tão sossegados! _É que ontem nós tivemos um vigia noturno- brincou Amadeus. _Com o tempo você acostuma. _Será? Não sei, não, Manoel. Vamos tomar um café? _Que luxo! Eliseu, Eliseu, pare de gastar o pouco que tem. Ontem eu comi um pão e guardei o outro. O Manoel fez o mesmo. É assim. _Vamos lá. Um café com leite bem quentinho, que tal? _É uma oferta tentadora, mas o “pipoca” tem razão. Guarde o seu dinheiro. _Eliseu, hoje à noite nós vamos até uma praça, eles servem uma sopa lá. Você e o Manoel vão primeiro e eu fico aqui cuidando das coisas, depois eu vou pegar a minha. É assim, rapaz. Você não pode esbanjar. _E banho? Como vocês fazem? _Banho? Para quê? Brincadeirinha. Bom... eu não vou dizer que tomo todos os dias, mas às vezes vamos até um abrigo. Dá para tomar banho, comer e dormir. _Abrigo? E por que vocês não passam a noite lá? _Eliseu, se nós sairmos do nosso cantinho, logo aparece outro e pega o nosso lugar. Não dá para dormir todas as noites em um abrigo. Nem sempre há vagas e eles têm horários rígidos e normas. Por exemplo: eu gosto de tomar uma bebidinha e lá sem chance. Se você quiser, eu posso levá-lo até lá depois do almoço, só para você conhecer. Agora o Manoel vai sair e eu tenho que ficar aqui.

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_Eu quero sim, Amadeus. Agora eu vou trabalhar. _Boas vendas, rapaz. Eliseu andou bastante e conseguiu vender tudo o que havia comprado. Era uma hora, resolveu voltar, comprou três marmitex e foi para o “cantinho” de Amadeus e Manoel. _Espero que não tenham almoçado ainda. _Eliseu, você gastou o seu dinheiro de novo com dois velhos? _Amadeus, eu já vendi tudo o que eu tinha hoje. Não se preocupe. _Rapaz, você é mesmo um anjo, estou com uma fome!- disse Manoel. _Então, vamos almoçar. _Uma para cada um! Que luxo, rapaz!-brincou Amadeus. Após o almoço, Amadeus levou Eliseu para conhecer um abrigo não muito distante dali. _Eliseu, o problema é que nem sempre há vagas. Mas agora você já sabe o endereço. _Amadeus, eu vou até a pensão da dona Jussara, preciso ter uma conversa com ela, você vem comigo? _Não, vou andar por aí, quero ver se consigo algumas latinhas. Vou fazer uma inspeção em alguns lixos. Não se esqueça do nosso compromisso... vamos jantar fora, lembra? _Certo, Amadeus. Até mais tarde. _Rapaz, como é bom vê-lo. Como você está?- perguntou dona Jussara assim que ele entrou na pensão. _Boa tarde, dona Jussara. Estou bem. Eu gostaria de pedir um grande favor. _Olha, se você quiser um quarto, eu sinto muito mas estão todos ocupados. _Não é isso. Eu preciso tomar banho. Eu pago. _Ah, é isso! Tudo bem, rapaz. _Eu não quero atrapalhar, a senhora me diz o melhor horário e... _Qualquer horário entre as nove horas da manhã e cinco da tarde. Eliseu, você dormiu aonde? Ele contou sobre “ Pipoca” e Manoel. _Arrumou dois amigos! Mas você não está pensando em trazê-los também, né? _Não. Pode ficar tranquila. _Então tudo bem, mas esqueça esta história de pagar e você pode lavar a sua roupa também. Deixa

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secando e depois você pega no dia seguinte. _Obrigado, dona Jussara, mas eu insisto em pagar. _Se isso o faz se sentir bem. Eu quero R$1,00 por banho e você pode lavar as suas roupas de graça. _Dona Jussara, a senhora poderia guardar estes documentos para mim? Não quero correr o risco de ficar sem eles. _Sua carteira de motorista e o CPF. Certo. _Só vou ficar com o RG. _Se você quiser, pode tomar o banho agora. Eu vou dar dois presentes para você: uma toalha e um sabonete. Naquela noite, Eliseu foi até a praça e entrou na fila junto com Manoel para pegar o sopão que era oferecido por uma associação religiosa. Quando eles voltaram para o “cantinho”, Amadeus foi buscar a dele também. _Amanhã é dia 31 de dezembro. É mais um ano que se finda- disse Amadeus. _Eu não poderia imaginar que passaria o final de ano assim... me desculpem, eu não deveria ter falado isso. _Nós entendemos. Não vou dizer que para mim agora é fácil, mas eu sei muito bem que no início é pior. Para você é muito mais difícil. Isso é que se pode chamar de mudança radical. _É rapaz, a vida nas ruas é triste e cruel- completou Manoel- Eu já vou dormir, “Pipoca”, eu ainda tenho um golinho, quer? _Se eu quero? Quem pergunta para o macaco se ele quer banana, hein? E você Eliseu, quer um gole? Nós podemos dividir com você. _Eu não bebo. _É uma bela ajuda para esquecer as misérias da vida, rapaz. _O que adianta, Amadeus? Esquecer os problemas por alguns momentos não muda nada, amanhã eles ainda estão aqui. _Bom, é com você. Se quiser um pouco... _Eu nunca bebi. Me desculpem, eu não estou... _Eliseu, você está certo, se eu pudesse, não beberia mais. É justamente por causa desta maldita que eu estou aqui, mas se eu ficar sem ela as coisas se complicam. Fico com dores no corpo e dá uma tremedeira terrível.

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_A minha mãe sempre me dizia para ficar longe da bebida e das drogas. Enquanto ela vivia, meu pai só bebia de vez em quando, mas depois... _Foi por isso que você saiu de casa? Que velho curioso! Esquece, Eliseu. _Tudo bem, Amadeus. Você contou a sua história, eu também vou contar a minha. Eliseu começou falando sobre a doença de sua mãe e terminou com o roubo de sua mala na pensão. _Rapaz, que coisa! O seu pai não acreditou em você? É uma pena mesmo, mas você deveria ter ficado com o seu avô! _Amadeus, eu não estava aguentando mais tanto desprezo e o meu avô ficou proibido de ver a minha irmã. _É, você tem razão. Quando um homem fica enfeitiçado por uma mulher... _Enfeitiçado, Amadeus? _É isso mesmo, só pode ser feitiço. Que mulherzinha safada! E aquele ladrão, como é o nome dele mesmo? _Luizinho. _Que malandrinho! Ah, Eliseu, você aprendeu da pior forma que não se pode confiar nas pessoas. _Também não é assim, Amadeus. Não dá para confiar em algumas pessoas. _Continua com fé na humanidade? _Não podemos perder, não é? _Você é inacreditável. Foi vítima de uma calúnia terrível, foi desprezado, humilhado e o que mais? Roubado. Eliseu, você teve a sua vida virada de cabeça para baixo, mas eu, por incrível que possa parecer, acredito na justiça divina. Deus vai fazer justiça. O sonho da sua mãe pode muito bem ser uma revelação. _Amadeus, você acredita nisso? Doutor Eliseu? Olha só para mim! _Estou olhando e posso vê-lo com uma roupa branca e um este... como é o nome? Aquele aparelho que os médicos usam para ouvir o coração... _Estetoscópio. _É isso mesmo. Eu posso vê-lo assim. _Amadeus, Amadeus, você tem um ótimo senso de humor. _Não estou brincando. Rapaz, você pode ser um doutor, sim. Um pediatra, como o sonho da sua mãe. _Olha, depois de tudo o que eu passei nestes últimos dias, é bem legal ouvir isso. _O seu pai ainda vai reconhecer o erro e você voltará para casa.

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_É mais fácil acreditar que serei um médico. O meu pai é muito orgulhoso e teimoso. Amadeus, eu contei que ele me deu um soco que doeu bastante, mas passou. Agora, a dor do desprezo... esta não vai passar nunca. Ouvir o meu próprio pai me chamando de traidor, doeu muito. Você acabou de me conhecer e acreditou em mim e o meu pai que.. _Eliseu, talvez seja porque para mim não custa nada acreditar. Agora, para o seu pai, acreditar significa reconhecer que não foi homem o bastante para aquela mulher e isso é bem humilhante. _Que isso, Amadeus. O problema não estava em meu pai. Aquela mulher que é uma sem-vergonha. _E tem mais: eu acredito em você porque se não fosse verdade, para que você abriria o seu coração desta maneira? Poderia muito bem inventar outra coisa. Rapaz, o sonho da sua mãe pode se tornar realidade sim e não pense que estou falando isso porque tomei uma bebidinha, não é por isso. Você tem um bom coração, será um excelente pediatra. Eu acredito nisso. Acredite também, não deixe de sonhar. Deixar de sonhar é o fim. _E você, Amadeus, continua sonhando? _Para mim, meu bom rapaz, só restaram os pesadelos, não permita que aconteça isso com você também.

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Capítulo 8- Uma oportunidade Era 31 de Dezembro, faltavam 15 minutos para a meia-noite. Dona Jussara havia convidado Eliseu para participar de uma festa na pensão, mas ele preferiu ficar com Amadeus e Manoel. Naquela noite, um grupo de religiosos fez uma refeição especial para distribuir aos moradores de rua. O três amigos jantaram e depois foram para o “cantinho”. _Um novo ano está chegando, Eliseu! _Um novo ano, Amadeus. O que eu posso esperar dele? _Rapaz, hoje você está tão desanimado. Eu disse para você não deixar de sonhar. Aproveite e deseje algo do fundo de seu coração, faltam poucos minutos. _Amadeus, você tem cada uma! Você acredita que se eu desejar de todo o coração, o meu sonho vai se realizar? _Não custa nada. Fé, Eliseu, a fé não pode faltar, é até engraçado ouvir isso de mim, não é? Mas apesar de tudo, eu ainda tenho fé em Deus e em algumas pessoas. Só não tenho mais fé em mim mesmo. _O quê? Amadeus, como é isso? _Eu confio na justiça de Deus, eu sei que ainda existem pessoas boas e sinceras neste mundo, mas em mim eu não confio. Eu sei, isso é terrível, mas é a verdade. Eliseu, eu tentei parar com o vício, não consegui. Sempre tinha a maldita recaída, sempre. Eu olhava para a minha família e dizia para mim mesmo: “ Faça isso por eles, eles merecem. Se esforce, lute, por eles. Não existe nada mais precioso na sua vida do que eles.” Adiantou? Eu tive coragem e força de vontade suficiente? Não. _Os fogos, os fogos, é meia-noite- gritou Manoel- Feliz ano novo, Eliseu, feliz ano novo, “Pipoca”! Cumprimentaram-se apertando as mãos e depois ficaram calados observando os fogos de artifício que iluminavam o céu. Após alguns minutos, Manoel foi dormir. _Amadeus, você é uma pessoa muito especial. Eu agradeço a Deus por tê-lo conhecido. Não deixe de acreditar. Você é um homem corajoso. _Corajoso? Ah, Eliseu, eu sou um covarde. Eu deixei a minha família entregue à própria sorte. Eu abandonei um bom emprego. Deixei tudo para trás por causa do vício. Seria até engraçado se não fosse trágico, não é assim que dizem por aí? Eu perdi tudo por causa do maldito vício e ele continua comigo. Ele sempre me acompanha e será assim até o fim. 68

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_Você pode reverter esta situação. Você é um bom homem. Você já me disse palavras tão bonitas, que me animaram e... _É fácil falar para os outros e mais fácil ainda é ver um futuro brilhante para os outros. Eliseu nunca perca a confiança em você mesmo. Todos podem perdem a confiança em você, mas você não. Isso sim seria a sua ruína. Se hoje tudo está perdido, creia que amanhã será diferente. Você tem uma vida inteira pela frente. _Você também pode crer. _Eu não, minha oportunidade já passou. Eliseu, não deixe que a oportunidade passe por você, mas se isso acontecer, faça de tudo para alcançá-la. Corra atrás dela. Tem uma passagem na Bíblia que eu gosto muito. Meus pais me ensinaram a Palavra, mas eu, depois que cresci, achei que aquilo tudo era coisa só para velhos e ignorantes. _Que passagem? Eu sei só um pouquinho sobre a Bíblia. Eu contei que a minha mãe até se batizou na igreja dos crentes e eu queria também, mas meu pai não deixou. _ Jesus estava entre dois ladrões, na cruz. Eliseu, dá para você imaginar como o rosto de Jesus estava? Será que era agradável olhar para ele? É claro que não. Deveria estar todo sujo de sangue misturado com o suor. Jesus estava ali para receber a mesma condenação que os outros dois. Os três iriam morrer crucificados, certo? _Certo. Em uma das reuniões que eu fui com a minha mãe, o sermão do pastor foi sobre isso. _Ótimo. Bom, um dos ladrões começou a zombar de Jesus e o outro não gostou e chamou a atenção dele. Eliseu, aquele homem ia morrer e Jesus também, mas mesmo assim aquele homem viu algo especial em Jesus e nasceu a fé. Ele disse: ” Lembra-te de mim quando vieres no teu reino”2; que reino? Como o homem conseguiu enxergar Jesus como um rei? Eliseu, isso é fé! E Jesus prometeu que aquele homem estaria com ele. É incrível, não é? Quem me dera uma fé dessas! _Mas você disse que tem fé. _É, eu disse. Será que isso não é o efeito do álcool? _Não, Amadeus, não é. E sabe de uma coisa? Se aquele homem teve fé em seu último momento de vida, por que nós dois não a teremos? _Rapaz, é por isso que eu digo que tenho fé em Deus. Ele me enviou o Eliseu, um bom rapaz, que vende o quê? Pipoca. E se não bastasse, ele gosta de me ouvir, me dá atenção. Dá valor às minhas palavras. Ah... o que eu posso querer mais? _Amadeus, eu posso te dar um abraço?
2 Lucas 23.42

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Os olhos de Amadeus neste momento ficaram marejados, há muito tempo que ele não era abraçado por ninguém. Ele não conseguiu responder, mas abriu os braços. Os dois amigos ficaram abraçados, sem nada dizer, por um longo tempo. No dia seguinte, Eliseu resolveu ligar para Agnaldo. Queria notícias de sua família. _Eliseu, Feliz ano novo! Que bom poder ouvir a sua voz. O seu avô vai ficar tão feliz! Ligue daqui a quinze minutos. _Não, Agnaldo, não vai dar. Eles estão bem? _Estão com muita saudade de você. Hoje nós vamos almoçar todos juntos. Até o seu pai virá aqui. Faremos um churrasco. Ligue mais tarde, assim você fala com o Chico e a Jessica. _Mande um grande abraço para eles e diga que eu estou bem.

_E então, como foi? _Amadeus, eles vão almoçar juntos hoje. Se eu estivesse lá, isso não aconteceria. Eu fui embora na hora certa. _Eliseu, não fale assim, me corta o coração. Não puderam continuar com a conversa porque dois rapazes e uma garota se aproximaram. _”Pipoca”, amigão! Ano novo e amigo novo também, né? _Oi, Nil. Este é o Eliseu. _Eliseu, que nome legal! Eu preciso de um favor seu. _Um favor? _É isso mesmo, cara, não ouviu o meu amigo Nil falar não? _Calma, “Chuveiro”, ele é um cara legal, dá para ver, ele vai ajudar, não vai? _Legal e bonito. Depois eu quero ter uma conversinha com você, “tá”? - disse a garota. _Qual é a sua, gata, “tá” querendo o que com ele, hein? _É só um papo, Nil, não me enche! _Cuidado garota... Eliseu, eu preciso de “vintão”, será que eu posso contar com você? Eliseu olhou rapidamente para Amadeus que piscou bem discretamente. _Espera um pouco, eu volto já com o que você precisa. _Eu vou esperar, mas você não “tá” pensando em enrolar o Nil, né? _É claro que não, eu volto logo.

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Cinco minutos depois Eliseu voltou com duas notas de dez reais. _Amigão, é isso aí. O Nil está feliz com você, muito feliz. Continue assim. Após eles se afastarem... _Eliseu, você fez a coisa certa. Por um momento eu fiquei com medo. Se você dissesse que não, eles levariam a sua mochila e te virariam de cabeça para baixo. Eu já avisei sobre eles, lembra? Infelizmente, de vez em quando, você terá que dar uns trocados para eles. _É assim que funciona? _É assim. Eles assaltam e são viciados em drogas. Estar perto deles é confusão na certa. _Então, sempre que eles me pedirem dinheiro eu tenho que dar? _Não há outro jeito. Se você se recusar, eles ficam com raiva e você fica marcado. Eles não costumam usar de violência com pessoas como nós, mas é bom não abusar. _Já não é muito o que eu consigo e ainda tenho que dividir com malandros! Isso não é justo. O mês de janeiro passou rapidamente. Eliseu continuou vendendo doces pelas ruas do centro de São Paulo e morando no “cantinho”, junto com os amigos Amadeus e Manoel, mas ele sabia que para mudar o rumo de sua vida, ele teria que se afastar deles, porque os dois se recusavam a ir para algum abrigo e a esperança de Eliseu era justamente arrumar emprego através de um assistente social. Todos os dias ele pensava nisso, mas a ideia de abandonar os amigos o desanimava. Então o mês de fevereiro iniciou e depois março, abril e maio. Nil, sempre aparecia e pedia dinheiro para Eliseu que, para não se envolver em confusão, arrumava R$10,00 ou R$20,00. Ele também continuava tomando banho e lavando as suas roupas na pensão de dona Jussara. Enquanto vendia os doces, Eliseu aproveitava para entrar em alguma loja e perguntava se estavam precisando de alguém para trabalhar, mas a resposta era sempre negativa. Depois daquela ligação no primeiro dia do ano, ele só entrou em contato com Agnaldo por três vezes. Foram ligações rápidas, só para saber notícias de Jessica e do avô. Eliseu não queria falar com nenhum dos dois enquanto não resolvesse a sua situação; para Agnaldo ele dizia que era vendedor, sem dar maiores detalhes. Era sábado, nove horas da manhã, final do mês de maio, Eliseu estava vendendo chocolate para uma menina que passeava com a mãe, quando viu Nil e “Chuveiro”, se aproximando de um carro

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que estava estacionado. Ele viu Nil apontando uma arma e sem pensar começou a andar em direção a eles. _ Coroa, passa o celular, o relógio e a sua carteira. Não tente nada, senão... _Calma, não precisa apontar o revólver para mim- o homem estava tão nervoso que deixou cair o celular. _O coroa “tá” bancando o engraçado, eu vou te apagar, eu vou... _Nil, vamos só pegar as coisas e cair fora daqui- pediu “Chuveiro”. _Não, o coroa “tá” zuando comigo, dá isso logo, coroa, antes que eu te apague. _Por favor, eu só vou pegar o celular- o homem se abaixou e com o movimento Nil ficou mais nervosa ainda. _Levanta agora, coroa, chegou a sua hora- ele apontou o revólver para a cabeça do homem. _Ei, amigos, é melhor vocês correrem, eu vi dois policiais vindo para essa direção. Rápido! - disse Eliseu ao se aproximar. _O quê? Polícia? “Vamo” dar o fora, Nil, deixa o coroa pra lá- dizendo isso, “Chuveiro” começou a correr. Nil olhou para o homem e para Eliseu, depois, sem dizer uma palavra, saiu em disparada. O homem ficou parado sem qualquer tipo de reação. _Senhor, é melhor sair daqui, eles podem voltar. _Hã? É tem razão. Rapaz, você salvou a minha vida. _Por favor, saia daqui. Sérgio sabia que seria sensato sair dali o mais rápido possível, mas não conseguia ligar o carro, estava nervoso e ao mesmo tempo queria conversar com aquele rapaz. _Rapaz, muito obrigado, que Deus lhe recompense. Sérgio ficou olhando para Eliseu por alguns segundos e depois sem pensar no que estava fazendo, pegou a carteira e de lá tirou um cartão. _Pegue isso, se você precisar de alguma coisa é só me ligar. Depois disso ele ligou o carro e saiu rapidamente. Eliseu olhou para aquele cartão por um breve momento e depois o guardou no bolso de sua calça.

_Aqueles dois malandros! Mas, Eliseu, você se arriscou muito. E se eles percebessem que você

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estava mentindo?- disse Amadeus ao saber da história. _Sei lá, Amadeus, eu nem pensei. Me aproximei de lá e disse a primeira coisa que me veio na cabeça. _Ah, Eliseu, cuidado. O homem deu um cartão para você? Ele é outro que nem pensou no que estava fazendo. Ainda bem que ele foi imprudente com a pessoa certa. E você pensa em ligar? _O que eu vou falar para ele? Amadeus, eu não posso pedir nada, fiz a minha obrigação. _Rapaz, você não existe! O homem não disse que era para ligar se você precisasse de alguma coisa? Você precisa de muitas coisas. Deixa eu ver o cartão. _Aqui está. _Vejamos: Sérgio Coimbra. Ah, meu Deus! Eliseu, você leu o cartão? Eu acho que não. _Eu só olhei rapidamente. Na verdade eu nem li, acho que foi por causa do nervosismo do momento. Por quê? _Pois então leia. _Sérgio Coimbra, reitor- abaixo havia o nome da faculdade, o endereço e o telefone. _Rapaz! Ele é um reitor! _É... reitor! _Você salvou a vida de um reitor! Meu Deus! E ele disse para você ligar. _Amadeus, é isso mesmo. _Você sabe muito bem o que pedir, não sabe?- disse Amadeus sem esconder a empolgação. _Eu sei, eu sei, Amadeus! Mas será que eu devo? _O quê? Eliseu, Deus coloca um reitor na sua vida, assim sem mais nem menos e você ainda diz se deve falar com ele? Você só pode estar brincando comigo. _Amadeus, Amadeus! Eu só tenho um pedido para fazer, um único pedido, mas... _Então faça. _Eu não posso ligar amanhã, é muito rápido. Ele vai achar que eu sou um interesseiro, talvez nem queira me atender. É isso... ele estava muito nervoso, nem pensou no que estava fazendo e... _Pare com isso, agora! Você vai ligar sim. Eu vou te encher tanto, vou falar o tempo todo sobre isso, até você agir. Agora, esconda o cartão em um lugar seguro, que Deus nos livre, mas já imaginou se o Nil coloca as mãos nisso? _Não, nem pensar. Vou guardar na meia.

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_Sérgio, colocaram uma arma na sua cabeça, meu Deus, meu Deus! _Calma, Marta, já passou. _Eu quase fico sem marido e você só me diz isso? _Não exagere, Marta, Deus mandou um anjo para me salvar. Aquele rapaz chegou na hora certa. Os dois bandidos eram muito jovens e estavam drogados, com certeza. O rapaz pensou rápido, se não fosse por ele... espero que ele não tenha problemas por isso. Peço a Deus que ele me ligue. _Ligue? Como assim, Sérgio? _Eu dei um cartão para ele. _O quê? Sérgio, você entregou o seu cartão para um desconhecido na rua? _Marta, ele salvou a minha vida. _Sérgio, e se ele... _Marta, se ele o quê? O rapaz salvou a minha vida. O que você acha que ele pode fazer com o meu cartão? _Não sei, Sérgio, mas você agiu por impulso, nem pensou. _Marta, eu senti algo muito forte dentro de mim, eu tinha que fazer alguma coisa. Eu quero que ele me ligue, quero muito. Eliseu esperou três dias para ligar. _Bom dia. Por favor, eu gostaria de falar com o sr. Sérgio Coimbra. _Quem gostaria de falar com ele? Por alguns segundos Eliseu ficou sem saber o que dizer. Não adiantava nada falar o nome. Como ele se apresentaria? _Eu... diga que é sobre sábado. É o rapaz que ele... conversou sábado pela manhã. _Um minuto, por favor. “ Será que ele vai me atender? É melhor não me iludir; é bem provável que ele nem queira falar comigo”- pensava ele enquanto aguardava. _Aqui é o Sérgio, quem fala aí? _Bom dia, senhor. Me desculpe, eu não quero atrapalhar. É... o senhor me deu um cartão... sábado. _Sim. Você é o rapaz que salvou a minha vida! Como você está? _Estou bem e o senhor?

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_Estou vivo, graças a Deus que o enviou na hora certa. _Me desculpe mais uma vez, é que... bem... eu... _Qual é o seu nome? _Eliseu. _Eliseu, o companheiro de Elias. Muito bem, Eliseu, Deus realizou milagres pelo profeta Eliseu no passado e no presente ele usa você para me salvar. _Senhor, eu não quero que me interprete mal. Não estou ligando para receber alguma coisa em troca, não é... _Eliseu, você quer almoçar comigo, amanhã? _Almoçar com o senhor? _É isso mesmo. É possível? Marcaram o horário e o local para se encontrarem. Eliseu chegou com trinta minutos de antecedência. Ficou parado um pouco distante da entrada do restaurante. Sérgio estacionou o carro e logo avistou o rapaz. _Eliseu, e então, vamos almoçar? O garçom entregou um cardápio para Eliseu e outro para Sérgio. O rapaz começou a ler as opções mas não sabia o que pedir. Ele ficou com receio de exagerar, então esperou por Sérgio. _Já escolheu? _Para dizer a verdade, eu estou meio perdido. _O que você gosta de comer, Eliseu? Peça. Fique à vontade. _Eu posso pedir feijoada? _É claro! Vou pedir também. Durante o almoço, Sérgio fez algumas perguntas para Eliseu. Ele respondeu todas, mas não contou o real motivo de sua vinda para São Paulo. _Então, você ficou praticamente sem dinheiro, que coisa! Agora vive nas ruas e vende doces. É, Eliseu, a vida está bem difícil para você. Mas, eu disse que se você precisasse de alguma coisa era só me ligar, e então, como eu posso ajudá-lo?

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_Senhor Sérgio, eu não quero que pense que eu estou buscando uma recompensa, não é isso. Eu fiz o que qualquer pessoa faria em uma situação como aquela... _Não é bem assim. Mas, continue. _O senhor é um reitor. _Sim, eu sou. _Eu tenho um único pedido, não sei como funciona, não sei se é possível, mas... _Fale, Eliseu. _Eu gostaria de estudar. _Estudar? _Medicina. Eu gostaria de ser um pediatra. _Que pedido! Eliseu, o valor da mensalidade de um curso de medicina é bem alto, eu não sei se você tem uma ideia de preço. _Eu imagino. _Muito bem. Uma bolsa integral vai ser difícil, mas verei o que posso fazer por você. Em primeiro lugar eu preciso saber sobre o seu histórico escolar. Está com você? _Não, mas eu posso resolver isso. _Ótimo. Faça isso e depois nós conversamos novamente. Eliseu, você precisa sair das ruas, independente de tudo. Eu sou membro de uma igreja evangélica que tem uma casa de recuperação para alcoólatras e drogados, não é o seu caso, mas eles sempre estão precisando de ajuda lá. Você teria um lugar para morar até se estabilizar. Eu só preciso fazer um telefonema para ver se seria possível, mas e você, o que pensa disso? _Seria ótimo. _Então, eu vou ligar agora mesmo. Durante alguns minutos, Sérgio conversou com um homem que ele chamava de “pastor Antônio”. Após desligar, disse: _Agora só depende de você. Se quiser, pode ir para lá hoje mesmo. _Eu preciso conversar com meus amigos e também tenho que ir até a pensão para pegar alguns pertences. Poderia ser amanhã? _Tudo bem, Eliseu. Eliseu precisava de um tempo para convencer os amigos a irem também. Ele havia comentado com Sérgio sobre o vício deles. _Casa de recuperação? Ah, Eliseu, para você será bom. Você vai para lá como um ajudante, só por

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um tempo e ainda tem a possibilidade de estudar medicina, mas eu não quero. _Amadeus, é uma chance para você se livrar do vício. E para o Manoel também. Pense bem. _Eu não vou, mas fico feliz por você. Agora eu não posso responder pelo Manoel. _Eu também não vou. Sei muito bem como é a rotina destes lugares. _Por favor, façam uma tentativa pelo menos. O senhor Sérgio me disse que a pessoa só fica se quiser. _Eliseu, nós agradecemos a sua preocupação. Rapaz, vá em paz e estude bastante. Você será um ótimo médico. Nós aqui somos dois casos perdidos. _Não fale assim, Amadeus. Foi muito difícil para Eliseu dormir naquela noite, pois seria a última ao lado daqueles dois homens que nos últimos meses foram sua família. Ficou olhando para os dois, que estavam dormindo profundamente, e lamentou por não conseguir convencê-los a sair das ruas.

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Capítulo 9 -”Vida transformada” _Não fique triste, rapaz- pediu Amadeus no dia seguinte logo pela manhã. _Seria tão bom se vocês fossem também. _Eliseu, eu e o Manoel estamos acostumados a viver assim. O Manoel pediu para que eu lhe dê um abraço bem forte, ele não gosta de despedidas, saiu bem cedo. Ah, Eliseu, eu sei que você vai conseguir uma vaga e daqui a alguns anos será um médico. O sonho de sua mãe vai se realizar: Doutor Eliseu. _Amadeus, eu nunca vou me esquecer de você. _Vamos parar com isso. Vem aqui, me dá um abraço e vai embora logo, você tem muitas coisas para fazer. Os dois amigos abraçaram-se. Após alguns segundos Amadeus começou a andar, pois precisava sair dali o mais rápido possível, antes que Eliseu visse as suas lágrimas. Eliseu ficou ali por mais alguns segundos; passou a mão no rosto para enxugar algumas lágrimas e saiu em direção à pensão da dona Jussara. _Eu agradeço por tudo, dona Jussara. _Eu não fiz nada. Estou muito feliz por você sair das ruas e espero que tudo dê certo para você. Às dez horas daquela manhã de sexta-feira, o carro de Sérgio parou em frente à pensão e duas horas depois já estavam na casa de recuperação: “Vida Transformada”. _Pastor Antônio, este é o Eliseu. Tenho certeza que ele será muito útil. _Eliseu, você é bem-vindo aqui, eu vou lhe mostrar o quarto. Você ficará com o Rubens. Ele está aqui há quatro anos. Ele viveu nas ruas durante muito tempo e chegou aqui em um estado terrível. Era um viciado em drogas, mas graças a Deus tudo mudou e agora ele nos ajuda muito. _Eu quero agradecer ao senhor por me receber aqui, eu também vou ajudar bastante, pode estar certo disso. _Ótimo, rapaz. _Bom, agora preciso ir- disse Sérgio- Eliseu, assim que tiver alguma novidade eu aviso. Despediram-se e Eliseu foi conhecer seu quarto e em seguida foi levado até a cozinha. Lá ele foi apresentado à irmã Clarice, que é a cozinheira, ao seu companheiro de quarto, Rubens e a todos os 78

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internos. No momento eles estavam com 28 rapazes; após as apresentações todos participaram de um apetitoso almoço. Rubens e Eliseu se deram bem desde o início. Um contou a sua história de vida para o outro. Eliseu ficou sabendo que Rubens desde que tinha 13 anos viveu nas ruas; logo começou a se envolver com más companhias e se viciou nas drogas. Viveu uma vida miserável até que um dia, quando estava com 19 anos, ele conheceu o pastor Antônio, a princípio ele não aceitou o convite para viver na “Vida Transformada”, mas o pastor foi persistente e em um belo dia Rubens cedeu. _No começo foi muito difícil, eu pensava que ia enlouquecer. Todos aqui tiveram muita paciência comigo. Eliseu, sair do mundo das drogas é complicado. O seu corpo implora por elas, é triste. Eu tinha muitas alucinações, gritava e cheguei até a tentar fugir daqui. Eu sou muito grato a Deus por tudo. Agradeço sempre pela vida do pastor Antônio e também pelo pastor Moisés que é o presidente da igreja responsável por tudo aqui. A casa de recuperação recebeu o mesmo nome da igreja: “ Vida Transformada”. Qualquer dia desses nós vamos participar de um culto, sei que você vai gostar do pessoal da VT, é assim que os jovens de lá falam. Depois que fui liberto resolvi ficar para ajudar outros. É muito recompensador ver alguém entrar aqui derrotado, totalmente entregue aos vícios, e depois ter a sua vida transformada. É benção pura, amigo. Uma semana após a sua chegada ali, Eliseu resolveu ligar para Agnaldo, pois precisava pedir um favor para ele. Contou que era ajudante de cozinha, mas resolveu não entrar em detalhes. _Pode ficar tranquilo, eu vou conversar com seu avô sobre o histórico escolar. Assim que estiver em nossas mãos, enviamos para você. Eliseu, o Chico ficaria muito feliz em poder falar com você, porque não liga mais tarde ou então dê o número para entrarmos em contato. _Hoje não, Agnaldo. Eu preciso desligar. Dou o endereço assim que você estiver com o histórico. Dê um forte abraço em meu avô e diga que eu estou bem. E... é... peça para ele dizer para a Jessica que eu a amo muito e estou com muitas saudades. Não... esquece, é melhor não dizer nada. Obrigado Agnaldo, tchau. Eliseu desligou o telefone e limpou algumas lágrimas que insistiam em cair. _Tudo bem, Eliseu?- perguntou Rubens ao se aproximar. _Tudo. Eu... eu vou terminar de limpar a cozinha.

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Mais duas semanas se passaram. Era uma tarde de quinta-feira quando o reitor Sérgio chegou à casa de recuperação. Ele veio com a esposa e com mais três pessoas, que também eram membros da VT. _Eliseu, hoje é a“quinta da pizza”. Uma vez por mês a irmã Lourdes vem até a casa de recuperação. Ela prepara pizzas deliciosas e nós a ajudamos- explicou Rubens. _Lourdes, como é bom tê-la aqui conosco mais uma vez. Eu preciso apresentar uma pessoa para você. Ele ainda não conhece as suas maravilhosas pizzas- disse o pastor Antônio- Eliseu, venha até aqui rapaz. Lourdes, este é o nosso mais novo ajudante. Eliseu esta é a nossa pizzaiola favorita. Você precisa conhecer a pizzaria dela, é simplesmente a melhor. _Para com isso, pastor Antônio. É um prazer conhecê-lo, Eliseu, o Sérgio me falou muito sobre você. _Eu fico feliz em conhecer a senhora. Estou pronto para ajudá-la. _Que rapaz mais prestativo! Gostei. Então, vamos por as mãos na massa. Eliseu também conheceu a esposa do reitor Sérgio, Marta e outro casal: Moacir e Clarice. _O Moacir é professor da EBD 3, ele dá aulas para a classe de discipulado- explicou pastor Antônio. Eliseu, após ajudar na cozinha, foi conversar com o reitor Sérgio. _Não pense que eu esqueci de seu pedido. Estou trabalhando nisso. Acho que em breve terei novidades. O pastor Antônio me disse o quanto você tem sido útil. Ele está muito satisfeito. _E eu também. Todos aqui são muito amáveis comigo. _Ótimo, ótimo. O que você achou da Lourdes? _ É muito simpática. Eu gostei muito dela e foi muito legal ajudar nas pizzas. _Bom mesmo vai ser saborear. O reitor Sérgio deixou alguns livros e apostilas para Eliseu estudar. Julho chegou e passou sem novidades para Eliseu, a não ser por um dia em especial, o dia 15, por ser o dia do aniversário de sua irmã. Jessica completou 13 anos. Eliseu ligou para Agnaldo e pediu para ele dizer que não havia se esquecido dela. Agnaldo bem que insistiu para Eliseu conversar com ela, mas ele não quis por ter certeza que ela e o avô teriam muitas perguntas. Ele não queria
3 Escola bíblica dominical

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entrar em detalhes sobre a sua nova vida, pelo menos até começar a estudar. Passou agosto e setembro, Eliseu continuava ajudando na casa de recuperação. Toda última quintafeira do mês recebiam a dona Lourdes. Era um dia muito especial para todos. Era a “quinta da pizza” e Eliseu gostava muito de trabalhar na cozinha com aquela simpática senhora. Moacir, o professor da EBD, ia até lá a cada 15 dias e Eliseu gostava muito de conversar com ele. Conversavam sobre a Bíblia, mas nas últimas visitas eles também começaram a falar sobre a família de cada um. _Família é algo muito precioso, Eliseu, é necessário cuidar bem, dedicar tempo, o que infelizmente eu não fiz. _Você não deveria se culpar, Moacir. _Se eu não estivesse sempre tão ocupado com o trabalho, teria percebido que meu filho estava com sérios problemas. O Pedrinho, era um rapaz infeliz, apesar de ter tudo do bom e do melhor, e eu não percebi. Ele procurou os amigos... não me procurou porque sabia que eu não teria tempo para ele; e infelizmente, aqueles “amigos” apresentaram as drogas para o meu filho. _Isso é muito triste... eu vejo a dificuldade que os rapazes daqui enfrentam. Cada dia sem as drogas é uma grande vitória para eles. _E é uma grande vitória para a família deles. Meu filho morreu tão jovem! Eu sempre fico imaginando o que ele estaria fazendo... hoje teria 25 anos. O tempo passa tão rápido! Pedrinho nos deixou há 7 anos... mas chega de falar nisso. E a sua família? Ah... não deveria ter perguntado, não é? _Tudo bem, Moacir... eu vou contar como eu vim parar aqui em São Paulo. Após ouvir a triste história de Eliseu... _Eliseu, você é tão jovem e já passou por tantas coisas! Rapaz, eu sinto muito. Tenha fé que um dia o seu pai vai se arrepender... creia que ele vai dizer o quanto lamenta por tudo o que ele disse e fez. _É muito difícil crer nisso. O orgulho não permitiria. _Deus faz milagres, Eliseu. Ele transforma as pessoas. O reitor Sérgio também aparecia com frequência e sempre dizia para Eliseu ter paciência que logo ele teria novidade. E a novidade chegou no final do mês de outubro. _Rapaz, eu tenho uma ótima notícia para você- começou o reitor Sérgio.

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_É mesmo? Eu vou poder estudar? _Calma, Eliseu. Na verdade eu tenho duas novidades. Uma é para agora a outra é para o próximo ano. _O senhor está me deixando muito ansioso... _Eu vou acabar com esta ansiedade agora. Eliseu, a Lourdes está precisando de uma pessoa para trabalhar na pizzaria dela e ela pensou em você. _Eu? E... _E é o seguinte: a casa dela é em cima, a pizzaria embaixo e nos fundos ela tem um quarto que está vago. A ideia é você morar lá e trabalhar na pizzaria. O que você acha? _Eu acho ótimo. _Nem quer saber sobre o salário? _Salário? Claro, eu quero saber sim, é que eu fiquei tão surpreso que... _Surpreso? Mas, eu nem terminei ainda! Bom, o salário você combina com ela, eu tenho outra novidade, rapaz. Você pode se preparar para estudar medicina no próximo ano. É só passar no vestibular. _É sério? _É claro que sim. _E como... _Ah, Eliseu, Deus preparou alguém muito especial. _Alguém especial? _É isso mesmo. Eliseu, você vai estudar na faculdade onde eu sou reitor. _O senhor conseguiu! _Eu consegui alguém que vai pagar a mensalidade e todas as despesas que você tiver com os seus estudos. _O quê? Mas, quem? É o senhor não é? _Não sou eu. É uma pessoa muito especial, mas ela tem uma condição. _Condição? _Sim. Ela quer se manter no anonimato. O desejo desta pessoa é ajudá-lo sem revelar quem ela é. _Mas eu nem vou poder agradecer? _Você pode sim. É só falar comigo e eu entro em contato com ela. _Ela? _A pessoa. Eu não vou dar nenhuma dica, não adianta insistir. Na verdade, ela tem duas condições

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para bancar os seus estudos. A primeira eu já falei. _Uma ajuda anônima. _Isso mesmo. E a outra é a seguinte: que você estude muito, que se esforce bastante. Dedicação, é isso que ela espera de você. Você pode chamá-la de “bom samaritano”. _Pois então pode dizer para o “bom samaritano” que eu vou fazer isso. Pode ter certeza. Reitor Sérgio, eu vou ser o melhor aluno daquela faculdade e isso não é orgulho não, é um compromisso que eu estou assumindo. _Que maravilha! Ah, mas você terá que passar no vestibular. Você fará a inscrição na próxima semana. A prova será em dezembro. _Tudo bem e diga a esta pessoa que eu nunca terei como agradecer, eu nem sei o que dizer, estou tão feliz...- Eliseu não terminou pois as lágrimas embargaram as suas palavras. _Ah, Eliseu, rapaz... não chore, quando a pessoa me contou eu fiquei sem palavras também, foi muita emoção e agora com você aqui... _Obrigado por tudo, muito obrigado- Eliseu deu um apertado abraço em Sérgio. Pastor Antônio chegou bem na hora e disse emocionado: _Que benção! Deus é fiel... teremos um doutor entre nós. O doutor Eliseu! _Pastor Antônio, então o senhor já sabe da novidade? _Eu sei, o Sérgio me contou. Parabéns! Mas você fará muita falta. _Obrigado, eu também ficarei com saudades, mas eu posso vir aqui, para visitar, não posso? _É claro, que pergunta! Você pode vir sempre que quiser, mas eu sei que o seu tempo será bem escasso. _Mesmo assim eu dou um jeito nisso. Três dias depois, Eliseu se despediu de todos. Rubens ficou triste e feliz ao mesmo tempo. Ele sabia que teriam poucas oportunidades para se verem, mas a felicidade pela conquista do amigo era bem maior do que a tristeza. Eliseu aproveitou o caminho, para contar o motivo de sua vinda para São Paulo. Ele achou importante não esconder nada. Sérgio ficou muito impressionado com tudo o que aconteceu e Eliseu se sentiu aliviado por ele ter acreditado. Assim que chegou, Eliseu conheceu Gabriella de 15 anos, a filha de dona Lourdes, e um dos funcionários da pizzaria, Geraldo. _O Álvaro saiu, mas não deve demorar; depois você vai conhecê-lo também, mas agora venha, eu

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vou te mostrar o quarto. Álvaro, o filho de dona Lourdes, tem 23 anos, é um rapaz loiro de olhos azuis, de estatura alta e segundo a opinião da maioria das garotas é um gato. O passatempo preferido dele é namorar. Às vezes “ajuda“ na pizzaria. _Eu sei que é um quarto pequeno, mas tem tudo o que você precisa, eu até coloquei uma mesinha para você poder estudar tranquilo. O banheiro é o mesmo que usamos na pizzaria, mas ele tem chuveiro, pode ficar tranquilo. _É perfeito. Eu agradeço muito a oportunidade que a senhora está me dando. _Que isso, Eliseu. Eu estou precisando do seu trabalho, não estou fazendo favor algum. _Dona Lourdes, o que eu vou fazer aqui? _Pizza! Mas não precisa se preocupar, vamos ensinar tudo para você. Tenho dois pizzaiolos, mas o Mauro só vai ficar aqui mais um mês. A família dele é de Pernambuco e ele vai voltar para lá. O outro é o senhor que você acabou de conhecer, o Geraldo. Dona Lourdes explicou que a pizzaria não abria às segundas-feiras, que a cada quinze dias havia outra folga e que Eliseu também a acompanharia algumas vezes nas compras. Conversaram também sobre o salário e mais alguns detalhes. Depois ela o convidou para almoçar. _Eu não quero incomodar, posso comer um lanche na padaria e... _De jeito nenhum. Pode ficar tranquilo com as suas refeições. Estão todas inclusas. _Não, eu não quero abusar. _Não é abuso nenhum. Se não for assim eu vou precisar aumentar o seu salário... _Tudo bem, mas eu prefiro comer em meu quarto, se a senhora não se incomodar. Pode ficar tranquila que eu vou deixar tudo limpinho e... _Eliseu, pare com isso, almoce com a gente. _Então, só hoje, está bem? Eu vou me sentir bem melhor se for assim. _Tudo bem, mas eu acho um absurdo. Me diga mais uma coisa, você só trouxe esta mochila? _Só. Tenho poucas coisas. _Precisamos cuidar disso. Eu vou dar um adiantamento de seu salário. _Não precisa, eu nem trabalhei ainda e... _Então não será um adiantamento, será um presente. Depois do almoço nós vamos em uma loja, é aqui pertinho.

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_Não faça isso, por favor, eu ficaria com muita vergonha. Olha, eu aceito como um adiantamento e se a senhora me der o endereço, eu vou sozinho. Não fique chateada comigo. _Chateada, eu? Não, é claro que não. Está tudo bem, eu entendo. Vamos almoçar. Após o almoço, Eliseu foi até a loja indicada por dona Lourdes e comprou duas camisetas, uma calça jeans, meias e mais algumas coisas que estava precisando. Quando retornou, Álvaro, o filho de dona Lourdes, havia chegado. _E então você é o mais novo contratado da pizzaria: “ Gaal sabores”! Que legal, cara. Eu sou o dono daqui, se você tiver algum problema, é só falar comigo que eu resolvo. _Valeu. _Menos Álvaro, menos, até parece que você manda alguma coisa aqui- disse Gabriella. _Gabi, é claro que eu mando, principalmente em você, menininha linda e fofa! _Mãe, olha o Álvaro! _Parem com isso. O que o Eliseu vai pensar de vocês? _Vai pensar que somos uma família unida, não é Eliseu? _É claro que sim. _Viu? E tem mais, eu entendo de tudo, pode perguntar que eu respondo. _Nossa! Agora você extrapolou! Eliseu, ele não sabe de nada. _Gabi, é melhor você ficar bem quietinha, que é isso no seu rosto? _O quê? _Vai entrar em erupção, cuidado! _Para com isso! Mãe... Gabriella saiu e foi direto para o seu quarto. Precisava de um espelho urgente. _Agora que não há nenhum risco de uma erupção, vamos conversar- brincou Álvaro. Eliseu e Álvaro se deram muito bem. Eliseu achou-o muito divertido e logo encontrou semelhanças entre ele e Ricardo, o amigo que deixou em Diamantino. Naquela noite, dona Lourdes pediu para o novo funcionário só observar o movimento da pizzaria. Eliseu prestou atenção em Mauro, o pizzaiolo, pois ele iria substituí-lo. Era meia-noite quando a pizzaria “Gaal sabores” fechou.

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_E então Eliseu? _Tenho muita coisa para aprender, dona Lourdes. _Não se preocupe, eu sei que você vai conseguir. Você leva jeito pra isso, percebi quando trabalhamos juntos lá na casa de recuperação. Nós vamos ensinar tudo o que você precisa saber. O Mauro tem um mês para isso e depois eu continuo. Ah, tem o Geraldo também. Ele é um ótimo funcionário. No dia seguinte Eliseu saiu com dona Lourdes para fazer compras. _Para mim é ótimo que você tenha habilitação, eu detesto dirigir, só faço quando não há outro jeito. O Álvaro me leva às vezes, mas ele é tão impaciente. Só fica me apressando e eu não gosto de fazer as coisas correndo. _A senhora pode ficar tranquila, eu sou bem paciente. Dona Lourdes, lá na casa de recuperação eu participava todos os domingos da escola bíblica, o pastor Antônio dava as aulas, e ele me explicou que na igreja há várias classes, que há uma especialmente para o novo convertido. _É isso mesmo. _ e eu sei que o irmão Moacir dá aula nesta classe; bom... eu quero passar pelo batismo em breve e gostaria de aprender mais, será que... _Que maravilha, Eliseu! É claro que você pode participar. Eu também faço parte de uma classe de senhoras. No culto noturno só vai dar para você participar uma vez por mês. _Está ótimo. Eu quis me batizar quando tinha 12 anos, mas meu pai não deixou, e depois da morte dela, o assunto igreja era proibido lá em casa. Ele ficou muito revoltado. _Que pena. É muito difícil aceitar que uma pessoa tão querida parta deste mundo, eu perdi o meu marido há 10 anos e pensei que não ia suportar, mas Deus me deu forças para cuidar dos meus filhos e também da pizzaria. Ah, Eliseu, eu nunca imaginei que teria que continuar sem o Ronaldo, nós abrimos a “Gaal sabores” um ano depois do nascimento da Gabriella. Trabalhamos juntos durante 4 anos e de repente ele sofre um infarto. Foi muito triste. _A vida muitas vezes nos traz coisas tristes, mas mesmo assim precisamos seguir em frente. Eu sinto muita saudade da minha mãe, ah... se ela não tivesse morrido, eu... _Querido, fale, é bom desabafar. _Não quero deixá-la triste, acho melhor mudarmos de assunto. _Não, eu gostaria de saber mais sobre você. O Sérgio me disse que você veio do Mato Grosso, foi assaltado e acabou morando alguns meses nas ruas.

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_Ele disse sobre o motivo da minha vinda para São Paulo? _Falou que você veio procurar emprego aqui. Eliseu resolveu contar tudo para dona Lourdes. _Eliseu, o seu pai acreditou naquela mulher? Meu Deus! Como você deve ter sofrido! O seu avô e a sua irmã devem sentir tanto a sua falta... _E eu a deles. Mas eu não podia ficar lá, estava insuportável. O desprezo doía muito. _Mas, o que mais incentivou a sua partida foi o fato do seu avô não poder ver a sua irmã, não é? _É isso mesmo. _E depois você ainda passou por tanta coisa aqui. _É, eu nem podia imaginar. Agora eu estou no céu, dona Lourdes. _Achei lindo o sonho da sua mãe. Sabe do que eu lembrei agora? Da história de José. Ele foi mandado para longe de tudo e de todos que ele conhecia, foi caluniado pela mulher de Potifar, assim como aquela mulher fez com você. Passou por coisas terríveis mesmo sendo inocente, assim como você, mas ele foi exaltado. Eliseu, você também será exaltado, tenho certeza disso. Deus tem muita bençãos para sua vida, pode esperar. _Um dia o pastor Antônio leu sobre isso e conversou comigo. Dona Lourdes, José sofreu muito, mas tem uma coisa que eu o invejo. _É mesmo? _O pai dele o amava muito. Após dizer isso, Eliseu se afastou porque já não dava para segurar as lágrimas. Lourdes se aproximou também com lágrimas nos olhos e colocou a mão no ombro dele. Ela queria muito dizer algo para consolá-lo mas não conseguiu. O que ela poderia dizer? No caminho de volta para casa, os dois ficaram em silêncio a maior parte do tempo, só quando estavam bem próximos foi que Lourdes quebrou o silêncio. _Eliseu, eu quero agradecer por compartilhar a sua história comigo. _Eu que agradeço pela senhora ter me ouvido e também por ter contado um pouco da sua vida.

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Capítulo 10- Pizzaiolo Naquele mesmo final de semana, Eliseu começou a participar da escola bíblica da igreja “ Vida Transformada”. A classe dele era a de novos discípulos e o professor era o irmão Moacir, que o recebeu com muito carinho. _Espero que tenha gostado da aula de hoje, Eliseu. Olha, se você tiver alguma dúvida é só perguntar. Fiquei muito feliz ao saber que você está trabalhando com a Lourdes, ela é uma pessoa muito especial. _Ela é sim. Eu gostei muito da aula e tenho uma pergunta. _Pois diga. _Quando é o batismo? _Ótima pergunta. No final de dezembro. _Eu gostaria de me batizar. _Que maravilha. É uma sábia decisão. Jesus disse: “ Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.”4 _Moacir, eu quero aprender tudo sobre a Bíblia. _Que disposição! Eliseu você vai aprender muito, mas tudo não. É impossível aprender tudo sobre o livro de Deus. Nós precisamos saber o suficiente para o amarmos sobre todas as coisas e jamais nos afastarmos deste Caminho maravilhoso. _O senhor ainda não me disse há quanto tempo está neste Caminho... _É verdade, já conversamos tanto lá na casa de recuperação e não mencionei isso. Eu ouvi sobre Jesus pela primeira vez quando tinha 10 anos e fiquei muito impressionado. Hoje eu estou com 58 anos e continuo impressionado. Aprendi muito desde aquele dia feliz e ainda tenho muito que aprender. _Gostei muito de saber disso. O senhor tem muito para me ensinar. _ O Senhor, Ele sim tem muito para nos ensinar- explicou Moacir apontando para cima. _Tudo bem, eu entendi. O Moacir aprende com Ele e me ensina, certo? _Certo, rapaz. _Então, até o próximo domingo. Eu vou ler a lição, agora eu tenho a revista. _Até domingo, Eliseu.
4 Mateus 28.19

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Naquela tarde, Eliseu perguntou para dona Lourdes se poderia fazer uma ligação para o Mato Grosso. Ele precisava falar com o avô, já estava na hora. _Tudo bem, Agnaldo, eu volto a ligar daqui a 15 minutos. _Está ansioso, Eliseu?- perguntou dona Lourdes ao vê-lo perto do telefone. _Muito. Desde que eu cheguei aqui em São Paulo, não falei mais com meu avô. Resolvi ligar agora porque estou trabalhando aqui e logo estarei estudando também. Não queria preocupá-lo com a minha situação, por isso só falei com um amigo nosso e mandava dizer que estava tudo bem. _Ligue, já passaram os minutos. _É verdade. O telefone tocou três vezes e em seguida Eliseu ouviu a voz de seu amado avô. _Vovô Chico, a sua benção- disse ele emocionado. _Liseu, Liseu! Ah, meu Deus... é você mesmo. Deus te abençoe, filho. Como você demorou para falar comigo! É uma pena que a Jessica já tenha voltado para casa, ela estava aqui desde sexta-feira à tarde. Foi embora logo após o almoço. _Ela está bem, vô? E o senhor? _Ela está bem, mas sente muitas saudades e eu também. Ah, Liseu! Após ouvir que o neto estava trabalhando e que provavelmente faria faculdade de medicina no próximo ano, Chico ficou aliviado. _Graças a Deus, você está bem. Mas eu não quero perder o contato. Qual é o número aí? _Calma, vô. Eu vou dizer o número aqui da casa da dona Lourdes. Manda um beijo grande para a Jessica. Vô? _Sim, fale. _E o meu pai? _Gostaria de ter boas notícias, mas não tenho e não vou mentir. Ele está bebendo muito e aquela mulher só gasta o dinheiro dele e eu tenho quase certeza que ela anda traindo o seu pai. Eu já conversei com ele, mas não adianta. Pelo menos ele deixa a Jessica ficar aqui todos os finais de semana. _Que bom, vô. Eu preciso desligar agora. _Liseu, eu amo você, amo muito, nunca se esqueça disso e a sua irmã também. _E eu amo vocês. Após dar o número do telefone, ele despediu-se do avô com lágrimas nos olhos.

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Era quarta-feira, logo pela manhã Eliseu foi até uma bomboniere e comprou alguns sacos de pipoca doce, pois iria fazer uma visita aos amigos: Amadeus e Manoel. Queria levá-los para almoçar. À tarde ele iria fazer a inscrição para o vestibular. No dia anterior havia conversado com Geraldo, um dos funcionários da pizzaria, e ele indicou o ônibus que Eliseu deveria pegar para chegar até ao bairro da Liberdade. Chegou quando faltavam dez minutos para as onze horas. _Olá! Amadeus, Manoel, sou eu, o Eliseu. Eliseu olhou pelo buraco do “cantinho” dos amigos mas não os encontrou. Ao virar-se se deparou com um homem bem alto e forte. _O que você quer? Veio até aqui para me roubar, é? _Não, estou procurando meus amigos, eles moram aqui. _Eu moro aqui. _Mas... _Mas? Vá embora antes que eu encha a sua cara de... _Acalme-se, senhor. Eu só estou procurando pelo Amadeus e o Manoel. _Saia daqui, saia, agora! Eliseu se afastou ao ver uma faca na mão do homem. Andou alguns metros e parou ao ver um mendigo sentado em um banco. _Me desculpe incomodar, mas o senhor conhece o Amadeus? _Quem? _O Ama... quero dizer, o “Pipoca”, é isso. O senhor conhece o “ Pipoca”? _Sim, eu conheço. _Eu fui até o “cantinho” dele e do Manoel, mas não os encontrei. _Espera um pouco, eu preciso pensar... é... faz tempo que eu não encontro os dois. _Havia um homem lá. Um homem bem alto e forte. _É mesmo. É verdade, meu rapaz, agora eu lembrei. Aquele corpulento expulsou o “Pipoca” e o Mané de lá. Falou que se eles não sumissem, ia cortar cada pedacinho deles. É isso. _E o senhor sabe onde eles estão? _Não, eu gostava do “Pipoca” e do Mané... gostava sim. _Obrigado. O senhor gosta de pipoca?

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_Eu gosto. _Então aceite estes pacotes. _Obrigado, rapaz. Eliseu procurou pelos amigos por mais de uma hora, sem obter sucesso. Como já passava de meiodia resolveu almoçar. _E então, como foi reencontrar os amigos?- perguntou dona Lourdes. Ele explicou o que havia acontecido. _Que pena! Eu vou esquentar o seu almoço. _Eu já almocei, dona Lourdes. Fiz a minha inscrição para o vestibular também. Aproveitei que estava cedo e fui direto. _Oi, Eliseu, eu estou com uma lição de matemática aqui bem difícil, será que você não poderia me ajudar?- perguntou Gabriella. _É claro que sim. Eliseu e Gabriella passaram as duas horas seguintes ocupados com matemática. _Gabi, como você é folgada! Deixa o Eliseu em paz, garota! Se prestasse mais atenção nas aulas...implicou Álvaro ao vê-los estudando. _Álvaro, você não tem nada a ver com isso. O Eliseu está me ajudando, coisa que você nunca faz. _Se você deixar, ela vai te encher todos os dias com esse papo de lição de casa, estou avisando, ela é preguiçosa. _Mãe, olha o Álvaro! _É gostoso estudar- disse Eliseu. _Gostoso? Só você mesmo... _Você não quer voltar a estudar? _Eu? Fiquei aliviado quando terminei o médio. Pra mim chega. _Depois eu que sou a preguiçosa! Vou fazer faculdade. _Vai nada, menina! E chega de alugar o Eliseu. _Já terminamos, “tá”? Chatinho! _Vem Eliseu, deixa a menininha insuportável aí sozinha, quero falar com você. _Cuidado, Eliseu, esse aí só pensa em namorar... _Tem coisa melhor? _Eliseu, se você andar com ele, vão pensar que você é igualzinho. A fama do Álvaro não é nada boa

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na VT. _Cala boca, menina. Vai embora, vai... vai “pro” seu quarto, vai, vai... Gabriella saiu contrariada, mas antes deu um empurrão em seu irmão. _Que menina, chata! Você tem muita sorte. _Eu? _A sua irmã está bem longe. _Eu gostaria que ela estivesse aqui comigo. _Para com isso! _Você adora a sua irmã. _Ah... e como! Ela é uma chatinha. _ E a sua fama de namorador? _Bom, isso é verdade. Mas, aqui entre nós, é bom demais. Eu namoro mesmo. Não sou de perder tempo não. A vida é curta. As meninas merecem um pouco de carinho, não é? Se você quiser conhecer alguma garota, é só falar comigo. Lá na igreja, por exemplo, eu posso te apresentar para qualquer uma. É só você me dizer quem. _E se for sua namorada? - brincou Eliseu. _Amigão do meu coração, eu não tenho uma namorada fixa, entendeu? Eu fico. Você pode se interessar por qualquer uma. Ou melhor, só tem uma que não. _Ah, então você gosta de alguém! _Segredo...tem uma garota que se ela não fosse tão teimosa e orgulhosa...bem, eu até que faria um sacrifício. Ficaria só com ela. _Apaixonado! _O nome dela é Rebeca. Ela também era da “VT”; agora mora em Porto Alegre. Ela fez 20 anos há alguns dias. Eu até liguei para dar parabéns. E olha que é difícil eu gravar datas. No aniversário de 15 anos eu dei um presente inesquecível para ela. _Que presente? _Um beijo. O primeiro beijo dela. Ela era maluquinha por mim. Ficava me olhando de longe e sempre com um sorrisinho nos lábios. Aí, durante a festa, eu consegui levá-la para um cantinho bem discreto e dei um beijo que ela ficou tonta. _E... _Eu ouvi uma conversinha dela com uma amiga, ela dizia que tinha certeza que eu estava apaixonado por ela. Cara, não dava para namorar sério. O pai dela é muito chato. Só porque tem

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dinheiro acha que pode tudo. Eu não ia me meter em confusão por causa de uma garota de 15 anos, eu não. Ela ficou muito chateada só porque me viu com outra garota. Dias depois eles foram para Porto Alegre. O pai dela é dono de concessionária de automóveis, tem uma aqui e outra lá, então ele está sempre viajando. _ E depois você se arrependeu de não ter assumido um namoro. _ Não é bem assim...ela ficou algum tempo sem visitar São Paulo, mas o pai dela vem todos os meses, fica alguns dias depois volta pra lá. O irmão dele toma conta da concessionária daqui. Há um ano ela esteve aqui e...está tão gata! Aqueles olhos cor de mel... aqueles cabelos castanhos... a Bequinha deve ser quase da sua altura. Meu amigo, me apaixonei, mas ela nem me deu bola. _Ela voltou a morar aqui? _Não, só ficou uns dias. Eles têm um apartamento aqui todo mobiliado. Um big apartamento. É, amigão, é isso. _E enquanto a sua Rebeca não volta você namora com todas, é isso? _ Eu não vou ficar aqui sem ninguém, só esperando a boa vontade dela, concorda? _Sei lá, eu sou meio antiquado para este tipo de coisa, apesar da idade. Na minha opinião, para namorar alguém, é necessário gostar da garota, gostar mesmo, sabe? _Para com isso, Eliseu. Com quantas garotas você já namorou? _Namorei só com uma, a Mônica. _Que isso! Uma? Bom, mas você já ficou com várias, certo? Por favor, não me decepcione... _Eu não. _Você não o quê? _Não fiquei. Além da Mônica, uma menina me beijou quando eu tinha 14 anos, só isso. _Só? Você está me dizendo que só beijou duas bocas até agora? Não posso acreditar. _Eu ainda vou completar 20 anos. _Pois é... vinte anos e só beijou duas? Eliseu, eu nem sei quantas eu já beijei. Precisamos resolver isso. _Resolver? Álvaro, eu acho que para beijar alguém é preciso sentir algo, não é só por beijar. _Nossa, você realmente está precisando de uma ajuda! Amigão, beijar é bom demais. Você não gosta? _É claro que sim, mas é algo bem íntimo, olha Álvaro, para mim é assim. Beijar alguém sem qualquer tipo de sentimento não dá. _É claro que dá, você vai se acostumar rapidão. Nós vamos sair juntos e você vai ver.

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_Eu acho que não. _Você com esta carinha de bom moço vai conquistar as garotas fácil, fácil. Elas vão olhar para você e vão se derreter. Eu vou te apresentar para uma garota, o nome dela é Samanta, ela beija muito. É isso aí. Hoje mesmo. _Álvaro, é melhor não. Não entra na minha cabeça ser apresentado para uma menina já com esta intenção. _Eliseu, você precisa urgentemente de algumas aulas básicas sobre paquera. Vou dar umas dicas ótimas. Você vai aprender do que as meninas gostam. Elas querem carinho, muito carinho. Você não pode ser egoísta. _Egoísta? _É isso mesmo. Você pode muito bem realizar o sonho de várias garotas. Você sabe que há muito mais mulheres do que homens no mundo, então você estará praticando uma boa ação. Naquela noite, Álvaro levou Samanta até a pizzaria e assim que teve uma oportunidade, apresentoua ao amigo, como o movimento estava grande, Eliseu não pôde conversar mais com ela. Poucos minutos antes da meia-noite, Álvaro levou Samanta para casa, voltou trinta minutos depois. _E então, o que achou da Samanta? Ela disse que você é uma gracinha e que quer sair com você. _Sério? Ela é bonita, mas eu não sei... _Não sabe? Terça nós vamos sair. _Sair à noite? E a pizzaria? _A minha mãe vai dar folga para você. Eu já falei com a Samanta e vou chamar a Aninha. Vamos ao cinema. _Álvaro, você foi muito rápido. _Eu sou assim, vai se acostumando. Domingo, Eliseu foi mais uma vez para a sua aula da escola bíblica. O irmão Moacir falou sobre a importância de estar em comunhão com Deus: “ Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade.”5 _Meus queridos alunos, devemos a cada dia nos afastar do que não agrada a Deus. Ele é santo e se quisermos ter comunhão com Ele, devemos ser santos também. Mas é possível? Em um mundo tão cheio de maldades, é possível ser santo? Queridos, eu sei que isso assusta, mas não pensem que é
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algo impossível. O que significa ser santo? Separar-se. Do quê? respondessem. _Da mentira – foi a resposta de Paulo.

Eu gostaria que vocês

_Muito bem, Paulo. Há muitas pessoas que acham bem mais fácil mentir do que dizer a verdade; mas vocês devem conhecer o ditado: “a mentira tem perna curta”. Devemos a cada dia nos esforçar para dizer a verdade, mesmo que seja difícil. Quando alguém que está acostumado a mentir, diz uma verdade, ninguém acredita. Vira uma pessoa sem credibilidade. Por favor, outro exemplo de algo que devemos nos separar. _Sexo antes do casamento- disse Adriano. _Certo Adriano. Se abster da vida sexual é bem complicado, mas é necessário. Muitos acham isso um absurdo. Dizem que é preciso ter experiência nesta área para ser bem sucedido em um futuro casamento, mas se isso fosse verdade, não existiriam disse que vocês devem segui-las? _Professor Moacir, a pressão é grande e a nossa carne é fraca. Será que dá para sair vitorioso?foram as palavras de Leandro. _Sim, meu querido aluno. Se vocês só ficarem pensando em sexo o tempo todo, comprarem revistas pornográficas, verem pornografia na internet, ficarem em um cantinho escuro com as suas namoradas e outras coisas mais, é claro que será impossível; vocês precisam ocupar a mente com coisas saudáveis. Por isso que é tão importante os estudos, o trabalho, o envolvimento em alguma atividade na igreja, a prática de algum esporte, etc. O professor ainda conversou com seus alunos por mais vinte minutos e depois encerrou a aula. _Eliseu, qualquer dia eu vou até a pizzaria, faz tempo que não apareço por lá. Vou verificar se o novo pizzaiolo está se dando bem- disse Moacir. _Será um prazer, mas eu estou apenas começando. _Vou levar a Clarice. _ Estaremos esperando por vocês. _Certo. Então até lá. Logo após o almoço, Álvaro contou que havia acertado tudo com as meninas para a saída deles de terça-feira. _Sério? Eu pensei que você estivesse brincando. tantas separações. Saber esperar pelo momento certo é uma benção. Vocês só têm a ganhar com isso. O mundo dita regras mas quem

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_Eliseu, pode parar. Está tudo certo. Não vai furar, hein? O encontro não aconteceu porque Álvaro havia mentido sobre a folga de Eliseu.

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Capítulo 11- Murilo e Manuella No último domingo de novembro, dois dias antes do aniversário de Eliseu, dona Lourdes organizou uma festinha para ele. Foi uma verdadeira surpresa para o rapaz que ganhou um sapato, duas camisetas, uma jaqueta e um celular. _Tem mais este presente, Eliseu- disse Lourdes ao entregar um envelope para ele. _O que é isso? Não, eu não posso aceitar. A senhora já fez tanto por mim- disse ao verificar que havia R$300,00 no envelope. _Você precisa aceitar, não se preocupe, não é meu. Foi o seu avô que mandou. _O meu avô? _É isso mesmo. Ele me ligou sexta-feira e fez um depósito em minha conta. _Meu avô não deveria fazer isso, ele recebe tão pouco de aposentadoria! _Ele estava tão feliz. Deixe que ele o ajude. Eu adorei conversar com o seu avô, é muito simpático.

_Eliseu, Eliseu, acorde! Venha aqui atender ao telefone- chamou dona Lourdes. Era terça-feira e ainda faltavam vinte minutos para as sete horas. _Bom dia, dona Lourdes. Telefone para mim? _Você vai adorar. Atenda logo. _Alô? Quem? Jessica, ah, maninha...obrigado. Eu estou bem, é que eu não esperava. Jessica explicou que pediu ao pai para dormir na casa do avô naquela noite de segunda-feira. Ela combinou com Agnaldo para fazer a ligação antes de ir para a escola. O avô também falou com o neto, desejando-lhe felicidades. Quando Eliseu desligou o telefone, os olhos estavam marejados. _Que emoção logo pela manhã, hein? Parabéns, Eliseu! _Obrigado, dona Lourdes. Nossa, eu não esperava! Foi emocionante falar com a Jessica depois de quase um ano. Que presente! Dona Lourdes deu folga para Eliseu e Álvaro aproveitou para marcar remarcar o encontro com Samanta. Naquela noite no shopping...

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_E então, Eliseu, está gostando de São Paulo?- perguntou Samanta enquanto passava os trailers na grande tela. _Estou. _Você é sempre tão calado? _Não, é que eu... _Está com vergonha de mim? Ah, que fofo! Você é uma gracinha, Eliseu. Samanta se aproximou e antes que Eliseu tivesse tempo para qualquer reação, ela o beijou. _Hum... eu gostei, mas seria melhor se você tivesse começado. Olhe para o seu amigo, ele não perde tempo- disse Samanta. Álvaro e Aninha não paravam de se beijar e o filme já havia começado. _O Álvaro é bem diferente de mim. _É mesmo? Diferente como? _Eu prefiro conhecer a pessoa primeiro. Não fique chateada, Samanta, mas é que isso de sair e “ficar” não combina comigo. Eu acho que é bem melhor ter um relacionamento de verdade. _Que lindo! Então você não deveria andar com o Álvaro. Isso de relacionamento sério não é com ele, não mesmo. _Eu sei. Mas eu gosto dele, ele é um cara legal. _Você tem razão, ele é um cara bem legal, mas cuidado, as meninas podem pensar que você é igualzinho. Eu acho bacana você dizer isso, sabe, porque é bem difícil encontrar alguém com este pensamento. Eu conheço vários que só querem passar o tempo. _E você aceita isso? _Eu também gostaria de ter um namorado de verdade, mas enquanto ele não chega, eu aproveito para me divertir um pouco. Pela sua cara você não aprova isso, né? _Eu vou ser bem sincero com você, eu não gostaria de namorar uma garota que já “ficou” com vários rapazes. Não me leve a mal, eu não estou te criticando, mas esta é a minha opinião. _Não esquenta, eu até concordo com você, gracinha, mas é tão difícil encontrar alguém. Os “caras” que eu conheço não estão nem aí, querem mais é aproveitar o momento. Se eu não quiser nada com eles, têm várias que não pensam duas vezes. _Mas se você não se valorizar... _É verdade, mas eu não quero ficar sozinha. Passar um final de semana sem sair? Nem pensar. Eu estou assustando você, né? Olha, ainda existem aquelas que pensam como você, “tá”? Não fique preocupado. Mas se você quiser encontrar alguém especial, se afaste do Álvaro. Ele tem uma fama!

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Quando o filme terminou eles foram até a praça de alimentação. Depois que deixaram as meninas em casa, Álvaro quis saber detalhes do encontro de Eliseu. _E então, como foi? Tirou o atraso? _Nós conversamos bastante. _O quê? Como assim? _Você não sabe o que é conversar? _Você já está ficando engraçadinho, é? Eliseu, você não vai me dizer que ficou só na conversa, vai? _Ela me beijou uma vez. _Ah bom, mas espera aí... ela? E você? _Eu? Já disse, eu conversei com ela. Beijo foi só um mesmo e por iniciativa dela. _Nossa! É pior do que eu pensava. Eliseu, a Samanta saiu da casa dela para curtir um pouco. Tenho certeza que a vontade dela não era conversar, isso ela faz com uma amiga. Entendeu? _Ela gostou de conversar comigo. _Ela foi educada, isso sim. É... você vai precisar de um curso intensivo. _Esquece isso, Álvaro. Quando eu encontrar a pessoa certa... _Que papo é esse? _Você não está apaixonado pela Rebeca? Pois eu também quero me apaixonar. Quero sair com alguém por quem eu sinta algo e não ficar por aí só curtindo... _Eliseu, fala sério, cara! Eu gosto da Rebeca, você está certo, mas não vou ficar pelos cantos lamentando só porque ela está longe. Presta atenção: para você gostar de alguém é preciso conhecer primeiro, não é? _Certo. _Se você não sair com uma garota, como vai conhecê-la? Vai me dizer que acredita em amor à primeira vista, é isso? Diga que não, por favor! _Não é isso. Álvaro, eu posso sair com uma garota e conversar com ela, para mim esta é a melhor maneira de conhecer alguém. Eu não quero sair com a garota já pensando em aproveitar o tempo beijando e... _Eliseu, você não existe! Faz tempo que eu não converso com alguém como você. _Todos os rapazes da igreja pensam como você? _É que eu tenho mais amigos fora da igreja, entende? Eu já sei com quem você vai se dar bem.

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_Não vai me arrumar outro encontro, vai? _Não. Eu estou pensando em um cara lá da igreja. O Murilo. Ele é tão careta! Acho até que ganha de você. Ele é bancário. É caixa de um banco aqui do bairro mesmo. Pensando bem... não sei não... _O quê? _Será que é uma boa ideia? E se você ficar pior ainda? Porque o Murilo é terrível. Para ele mulher não deveria trabalhar fora. _Sério? Eu não penso assim. _Ele é uma figura, você vai ver. Quem sabe você não consegue fazê-lo mudar de ideia. Ele é muito radical, de repente com alguém um pouco parecido... não precisa fazer esta cara, eu não estou dizendo que vocês são iguais. Mas com relação a namoro vocês dois podem dar as mãos. Naquele final de semana Eliseu conheceu Murilo. _Eu vou deixar os dois conversando, porque tem uma menina sorrindo para mim e não posso decepcioná-la- disse Álvaro ao se afastar. _Ele não tem jeito mesmo, mas a culpa não é só dele, se as meninas não fossem tão fáceis... comentou Murilo. _Você também não concorda com esta moda de “ficar”? _É claro que não. Acho um absurdo total. Mas o seu amigo adora! Cuidado, viu? Você anda com o Álvaro vão pensar que você é igual a ele. As mulheres querem ser respeitadas, mas com um sorriso elas cedem. _Não é assim, Murilo. Você acha que todas agem do mesmo jeito? Há garotas que querem um compromisso sério. _A cada dia que passa, fica mais difícil encontrar alguém que queira mesmo namorar com a intenção de casar. Elas querem só curtir o momento. _Não concordo. O problema é que elas não estão encontrando alguém sério que queira assumir mesmo um relacionamento. _Eliseu, olhe bem discretamente para o seu lado esquerdo, tem uma garota ali perto da lanchonete, ela está com uma blusa verde. Viu? _Vi. Quem é ela? _Aquela é a Manuella. _Você gosta dela? _Eu? É claro que não. Só vou dar um exemplo. Olha, quando a garota não é dessa que sai com todos, é como a Manuella.

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_E como ela é? _Ela é daquelas garotas que se dizem independentes. Vivem dizendo que homens e mulheres têm os mesmos direitos. Feministas, entende? _E... _Você sabe qual é a profissão dela? _Eu não. _Mecânica de automóveis. Pode? _Bom, se ela gosta... _Eliseu, como é que pode uma mulher vestir um macacão, mexer com motor de carro e... _Murilo, eu acho que a pessoa tem o direito de escolher a profissão que mais gosta. _Uma mulher não pode querer entender de carro mais do que um homem. Isso não é certo. Mas o culpado disso é o pai dela. Ele tem uma mecânica e deixou que a filha aprendesse a profissão dele. Ela é filha única. No mínimo ele queria ter um filho para ensinar a profissão, mas nasceu uma menina... _Murilo, se ela gosta do que faz, qual é o problema? _Você ainda pergunta? É um absurdo! Ela deveria ficar na cozinha para aprender a cozinhar e cuidar de uma casa com a mãe dela. _Você está sendo machista! _Eu sou realista, Eliseu. Você acha que alguém vai querer casar com uma mulher assim? Depois elas reclamam que os rapazes não querem nada! Este tipo de mulher só quer mandar nos homens. Querem liderar e isso está errado. Deus fez o homem para dominar. O homem e não a mulher. _Você é bem radical! _Eu não, Eliseu. Quando você conhecer a Manuella, vai entender do que eu estou falando. Naquela mesma semana, Eliseu teve a oportunidade de conhecê-la. O carro de dona Lourdes deu um problema e ela pediu para que ele levasse até a oficina de Osvaldo, o pai de Manuella. _Oi, bom dia! _Bom dia! Em que posso ajudá-lo?- perguntou Manu. _Eu trabalho com a dona Lourdes, da pizzaria. Meu nome é Eliseu. O carro está com um barulho na roda. _Oi, Eliseu. Eu já o vi lá na igreja. O meu nome é Manuella, mas se você quiser pode me chamar de Manu. Eu vou dar uma olhada e depois eu ligo para dona Lourdes. Ah, o meu pai chegou. Pai, este

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é o Eliseu, ele trabalha na pizzaria da Lourdes. _Oi, rapaz, prazer em conhecê-lo. Eu sou o Osvaldo; a Manu já cuidou de tudo, não é? _É isso mesmo. Então eu já vou. _Pai, eu posso levá-lo até a pizzaria? _É claro, filha. _Não precisa, eu pego um ônibus, é pertinho... _Eu preciso sair para comprar umas coisas. Vamos, eu dou uma carona. _Então tudo bem. Durante o caminho, os dois conversaram bastante e Manuella ficou sabendo que no próximo ano Eliseu pretendia fazer medicina. _Que legal, então você quer ser pediatra! _É isso mesmo. E você gosta do que faz? _Com certeza. Você acha estranho uma mulher consertar carros? _Não. Acho bem interessante e pelo pouco que vi, já deu para perceber que você entende do assunto. _Obrigada. É uma pena que ainda existam alguns que não pensam o mesmo. Domingo eu notei que você estava conversando com o Murilo. Se o carro dele dá algum problema, ele também vai lá na oficina, mas se meu pai não estiver, ele nem deixa eu por a mão. Simplesmente volta em outro horário, sem disfarçar. _Eu acho isso uma bobagem. Se você está lá trabalhando é porque sabe o que está fazendo. _Ele não pensa assim. Ele falou sobre isso, não falou? Pode dizer. Eu conheço bem o Murilo, nós crescemos juntos na igreja. Participamos da mesma classe da escola bíblica quando crianças. Eu tenho 23 anos e ele também. _Bom... você conhece o Murilo há muitos anos e eu acabei de conhecê-lo, então sabe muito bem qual é a opinião dele. _E como sei. O Murilo é um ótimo filho, é trabalhador, é ativo na igreja, mas é um tremendo machista. É isso. Ele não se conforma com a ideia de uma mulher entender de carros mais do que ele. Bom, não que isso seja difícil, porque ele é bem fraquinho. Só sabe dirigir e para ser bem sincera... dirige mal. _Quando vocês dois se encontram deve sair faísca, certo? _É bem por aí. Eliseu, não dá para suportar um cara dizendo que lugar de mulher é na cozinha, fala

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sério! Ele deveria respeitar a minha escolha. Eu me esforço, eu fiz vários cursos e estou sempre me aprimorando. Mas ele não reconhece. _Não esquenta, Manu, o importante mesmo é você gostar do que está fazendo. _Que bom que você pensa assim. Só espero que a convivência com o Murilo não o faça mudar de ideia. _Não, pode ficar tranquila. No final da tarde, Manuella ligou dizendo que o carro estava com problema no rolamento e que ficaria pronto na tarde do dia seguinte. No domingo, após a aula da escola bíblica... _Você deixou a Manuella mexer no carro da dona Lourdes? Eliseu, quando você for lá, faça como eu, espere pelo Osvaldo. _Mas, por quê? Deu para perceber que ela entende mesmo. _A Manuella é e sempre será uma aprendiz. Quem entende mesmo é o pai dela, não se deixe enganar porque ela usa uns termos, é só para impressionar. _Foi ela que fez o conserto do carro. _Você viu? Acompanhou tudo? Foi nada. Foi o pai dela, com certeza, ou então ele ficou o tempo todo perto dando as instruções. _Eu não acho. Murilo, você está exagerando. E eu gostei dela. Ela é bem simpática. _Ela deveria usar toda a simpatia que tem para trabalhar na cozinha, isso sim. E, falando nela... _Oi, tudo bem, Eliseu? _Oi, Manu. Tudo ótimo. _E o carro ficou bom? _Ficou perfeito, você fez um ótimo trabalho. _Obrigada, é bom saber que não são todos os homens que têm uma péssima opinião sobre o meu trabalho. Oi, Murilo, tudo bem? _Tudo, Manuella. Eu acho que você deveria ser sincera com o Eliseu e dizer que foi seu pai que consertou o carro. _Murilo, Murilo, você não muda mesmo, né? Eu vi o seu carro lá no estacionamento e notei que você bateu de novo. Você deveria prestar mais atenção, ou melhor, eu acho que você está precisando de umas aulas, eu posso ajudá-lo.

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_Você? Está brincando! Você pode dar aulas de como pilotar um fogão e mesmo assim eu tenho minhas dúvidas se você é capaz disso. _Ah, Eliseu, você é tão legal, pena que não sabe escolher bem as amizades. Eu posso dar um conselho? _É claro. _Não pegue carona com o Murilo, você estará correndo um sério risco de parar em um hospital. E, Murilo, este cartão é de um amigo do meu pai, ele tem uma oficina de funilaria e pintura. É só você dizer que conhece o Osvaldo, ele vai dar um belo desconto para você. Antes que Murilo reagisse, Manu colocou o cartão no bolso da camisa dele e saiu rapidamente. _Que garota abusada! O que foi que eu disse, hein, Eliseu? _Estou pensando uma coisa... você e a Manu... _O quê? _Eu acho que existe algum sentimento que vocês não querem reconhecer. _Que absurdo! Você está viajando. Sentimento? Que sentimento? _Amor. _Amor? Eliseu, você só pode estar brincando. A Manuella seria a última garota por quem eu me interessaria. Eu disse a última? Na verdade ela nem entraria na minha lista. Eu quero uma mulher delicada e bem feminina. A Manu não é nada disso. _Eu acho que você está indo contra os seus próprios sentimentos. _Para com isso. Eu e a Manuella juntos? Nem pensar.

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Capítulo 12 – Estudante de medicina No início do mês de dezembro, Eliseu prestou vestibular e poucos dias depois ele ficou sabendo que foi aprovado. No final do mês ele se batizou. Foi um momento de muitas recordações para ele. Lembrou-se do dia do batismo de sua amada mãe e não conseguiu segurar as lágrimas. Naquela mesma tarde, ele recebeu uma ligação do avô e também conseguiu falar com Jessica. As aulas de Eliseu começaram em fevereiro. Durante todo o dia ele estudava e à noite trabalhava na pizzaria. Era bem cansativo, mas ele estava muito feliz. Aos domingos ele continuava frequentando as aulas do irmão Moacir. _E então, Eliseu, está gostando da faculdade de medicina? - perguntou Moacir no final de uma aula da escola bíblica. _Muito. Às vezes eu penso que tudo não passa de um sonho. Todos os dias eu agradeço a Deus por tudo, especialmente pela pessoa que está pagando os meus estudos. Eu gostaria de saber quem é, mas o reitor Sérgio me disse que foi uma das condições que a pessoa impôs. _Uma das? _É porque tem mais uma: me esforçar bastante. _Tenho certeza que você está fazendo isso. _Estou sim, Moacir. Ao sair da classe, Eliseu encontrou-se com Murilo. _Oi, Eliseu, quer uma carona? _Valeu, Murilo. No estacionamento Murilo notou que um pneu de seu carro estava furado. _Brincadeira, o pneu furou! Neste exato momento Manuella apareceu. _Está precisando de ajuda, Murilo? _Não mesmo. _Ah, já sei, o Eliseu vai resolver o problema para você, não é? _Não, eu mesmo resolvo isso. _Quer uma carona, Eliseu? O Murilo vai demorar séculos para trocar o pneu, isso se ele tiver estepe. Quer o meu? 105

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_É claro que eu tenho estepe, está pensando o quê? _Tudo bem, Manu, eu espero o Murilo. Quer ajuda, amigo? _Não, Eliseu, pode deixar que eu troco. _É claro que ele não vai aceitar ajuda, é orgulhoso demais. Eu vou embora, porque parece que o Murilo não vai começar o trabalho enquanto eu estiver aqui. Tchau, Eliseu. E Murilo? Depois que eu sair, você pode deixar o Eliseu cuidar disso para você. Após dizer isso Manuella se afastou. _E você ainda tem a coragem de defendê-la! Você viu como ela gosta de provocar? _Ela queria até ajudar! _Você também gosta de provocar, até parece que eu ia aceitar ajuda da Manuella para trocar um pneu! _Qual o problema? Seria muito humilhante? _Eliseu? A Manuella deveria se preocupar com coisas de mulher. Se continuar assim vai ficar solteirona, com certeza. _Se depender de você, eu acho que não- provocou Eliseu. Naquela mesma tarde, Álvaro chegou com uma novidade. _Amigão, você não imagina a notícia maravilhosa que eu recebi hoje. _Que notícia? _Foi a Manu que me contou. Ela é amiga da Rebeca. _Então eu já sei sobre quem é a notícia. _A Rebeca ligou para a Manu ontem e disse que chega quarta-feira. A minha gata estará aqui. Não é o máximo? _Que animação! _Eliseu, ela é a mulher da minha vida. _Será? Você sai com tantas que... _Eliseu, com a Rebeca é diferente. Você vai conhecê-la e entenderá. _Como você está apaixonado! Eu quero conhecer a garota que conquistou o seu coração, estou muito curioso. _Calma, não se empolgue, ela é minha.

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_Uau! Pode ficar tranquilo, é só curiosidade mesmo. No mesmo dia que chegou em São Paulo, Rebeca foi até a casa da amiga Manuella. _É tão legal ter você aqui novamente, eu espero que fique por muito tempo- disse Manu. _Não vai dar, terça-feira precisamos estar em Porto Alegre. Só viemos agora, porque meu pai precisa resolver alguns problemas da concessionária. E tem a faculdade, não posso perder tantas aulas...é meu último ano. _Que pena. Eu ainda tenho esperança que você volte a morar aqui em São Paulo. _Não é impossível. O meu pai até falou sobre isso. _Eu conheço uma pessoa que ficaria muito feliz se isso acontecesse. _É mesmo? Quem será? Estou tão curiosa!- disse Rebeca com ironia. _Precisa falar assim, Rê? _Se você está se referindo ao Álvaro, eu preciso falar com mais ironia ainda. _Nossa, que mágoa! _Manu? Você sabe muito bem que o meu interesse por ele foi há muito tempo... _Até parece que você já é uma senhora... _Eu tinha 15 anos, faz tempo sim, tá? _E agora você tem 20. Não é tanto tempo assim! _Eu não quero nem ouvir falar em Álvaro. _Ele quer muito ouvir falar em você e quer muito mais estar ao seu lado. _E ao lado de mais quantas garotas, hein? _Não seja maldosa. _Quando eu estive interessada nele, ele não quis nada e sabe de uma coisa? Eu agradeço a Deus por isso, porque o meu interesse por ele passou rapidinho. Era só empolgação, o Álvaro é muito bonito e tem uma lábia! Por isso é fácil ficar apaixonada, mas é coisa passageira. _Ele está louco para te ver. _Problema dele. _Você não vai dar uma chance? _Manu? Você só pode estar brincando, né? _Relaxa. É só brincadeira mesmo. Eu sou sua amiga e sei muito bem que o Álvaro não é o seu tipo, mas eu conheço alguém que... _Para com isso, eu não quero nem saber.

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_Deixa eu falar primeiro. O nome dele é Eliseu, ele é muito legal. Ele estuda medicina. Vai ser pediatra, não é uma graça? Ele só tem um problema. _Qual? _Não sabe escolher os amigos. Ele é amigo do Álvaro e do Murilo, pode? _Nossa, que tragédia! O primeiro não consegue ficar um dia sem uma namorada e o outro é um machista! E você quer que eu conheça o Eliseu? Nem precisa me apresentar. _Mas ele é um cara muito legal, apesar das amizades. Ele mora e trabalha lá com a dona Lourdes. Ele é muito esforçado. Estuda o dia inteiro e depois ainda trabalha na pizzaria. O Eliseu não é nem um pouco machista. Ele já trouxe o carro da dona Lourdes e aceitou que eu consertasse numa boa e até me elogiou. _Mesmo assim, se é amigo do Álvaro, eu quero distância. _Que radical! Vamos lá na pizzaria hoje à noite. _Nem pensar. Enquanto eu puder evitar um encontro com o Álvaro... _Vamos lá, a dona Lourdes vai ficar tão feliz! _Outro dia eu vou, hoje não. E esqueça desta história de me apresentar para o amigo do Álvaro. _Não mesmo, assim que surgir a oportunidade... _Para com isso Manu. E você? Será que um dia você e o Murilo vão se entender? _Agora é a sua vez de brincar, né? Eu e o Murilo? Não viaja, Rê! Com ele não dá nem para ter uma amizade. Ele é machista, orgulhoso, insuportável, chato, ignorante... _Isso é que é amor! _Se você não parar, eu vou falar sobre o Álvaro... _Já parei. Sexta-feira às 20h, os jovens se reuniram na igreja para um culto de oração e depois foram todos até o salão social para participar de um lanche. _Oi, minha gata! Estava louco para vê-la- disse Álvaro ao se aproximar de Rebeca. _Oi, Álvaro, eu não sou sua gata e não precisa me dar um abraço tão apertado, tá? _Minha gata, me desculpe, é que eu estava com tantas saudades que me empolguei, você está tão linda! _Devagar com a empolgação. Chegou agora, não foi? Duvido que você estava no período de oração. _Minha gata, eu só cheguei agora, não consegui chegar mais cedo.

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_Com certeza o motivo do atraso foi uma garota. _Garota? Minha gata, só existe você. _Me engana que eu gosto. _Manu, diz para ela o quanto eu estava ansioso para vê-la, diz. _Eu? Diz você. _Como você é má. Minha gata, minha Bequinha, vamos sair daqui para conversarmos? _Álvaro, não começa com essa história de me chamar de Bequinha e eu estou muito bem aqui. _Álvaro, e o Eliseu?- perguntou Manu. _Está na pizzaria, é óbvio. _Que pena, eu ia apresentá-lo para a Rê. _Pode deixar que eu mesmo apresento, é só a Bequinha me acompanhar até a “Gaal”, vamos? _Não mesmo. E eu não estou nem um pouco interessada em conhecer o Eliseu. _Nossa, por quê? _Por uma simples razão: ele é seu amigo. _Minha Bequinha, como a sua língua está afiada, eu preciso dar um jeito nisso. O que você acha de usar a sua língua para algo mais gostoso e interessante, hein? _Álvaro, como você é atrevido! Manu, vamos embora? _Já? Minha gata, fica mais um pouco. _Tchau, Álvaro- disse Rebeca se afastando. No estacionamento da igreja... _Como o Álvaro está insuportável! Pior do que antes. _Calma, Rê. Ele é assim mesmo. _E você ainda quer me apresentar para o Eliseu? Nem quero saber. _Rebeca, um não tem nada a ver com o outro. _Esqueça isso. Eliseu estava fechando a pizzaria quando Álvaro chegou. _E aí, grande Eliseu? Muito movimento hoje? _Normal. E a reunião da igreja? _Eu vi a minha Bequinha. _E aí?

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_Ela está se fazendo de difícil, mas logo isso muda. Ela está mais linda ainda e eu apaixonado!

mais

_Então vê se para de sair com qualquer garota que apareça na sua frente, senão a Rebeca nunca vai confiar em você. _Vai me dar conselho agora, é? Enquanto a Bequinha se faz de difícil eu vou ficar sozinho? Não mesmo. Eliseu, eu não consigo ficar longe das garotas, não consigo. Não sei como você pode, eu não posso. No domingo pela manhã, Eliseu participou da escola bíblica e ao sair de sua classe encontrou-se com Manu. _Olá, tudo bem, Eliseu? _Tudo ótimo e com você? _Tudo ótimo também. Eliseu, você vai estar aqui à noite? _Hoje não. _Que pena, eu queria apresentá-lo para uma amiga. _Uma amiga? _A Rebeca, ela não veio à EBD. _Ah, a Rebeca! O Álvaro está sempre falando dela. _O Álvaro é uma figura. Depois do culto eu vou tentar levá-la até a pizzaria. _Tudo bem. O Álvaro vai adorar. _E como vai a faculdade de medicina, hein, doutor Eliseu? _Eu estou adorando. _Já tem alguma matéria favorita? _Eu gosto de todas, mas a minha favorita é Anatomia. _Legal. Espero que você seja o pediatra dos meus filhos-brincou Manu. _Seus filhos? Você quer ser mãe? - perguntou Murilo ao se aproximar. _Que pergunta é essa, Murilo? _É que você gosta tanto de fazer serviço de homem, que eu nunca imaginei que você pensasse em ser mãe. _Eliseu, dá para suportar um cara assim? _Ele só está brincando, não é, Murilo? _Estou falando muito sério. Você não leva o menor jeito para ser mãe, Manuella, não mesmo.

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_O que você sabe sobre isso? _Mais do que você com certeza eu sei. Você só pensa em peças de carro, vive suja de graxa e... _Suja de graxa? Tem alguma graxa em mim, tem? Olha bem para mim, olha... seu insuportável. Tchau, Eliseu, eu quero distância desse machista incorrigível. _Tchau, Manu. Murilo, você pegou pesado. Não precisava falar assim com ela. _Eu só falei a verdade. Eu até pensei em dizer que seria impossível para ela ser mãe. _Impossível por quê? _Quem vai querer ser o pai? Só se for por outros meios... _Que isso! A Manu é bonita e muito simpática. _Casa com ela então. _Eu acho que você é que gostaria de casar com ela e não quer reconhecer isso. _Eu? Nem morto! A Manu não consegue me atrair. _Será? Após o culto noturno... _Vamos lá, Rê! _Não. Eu não quero falar com o Álvaro. _Não precisa falar com ele. Vamos lá comer uma pizza. _Não, Manu. _Eu queria tanto que você conhecesse o Eliseu... _Quem sabe da próxima vez. _Rê, até parece que você ainda sente algo pelo Álvaro... _Manu! É claro que não, ou melhor, eu sinto algo sim: raiva. _Precisa aprender a perdoar, viu? _Ah... eu sei lá... não é raiva, é que eu não suporto aquele jeito dele. Ele é tão convencido. O Álvaro pensa que eu ainda continuo gostando dele. Ele acha que o tempo parou naquele momento que ele me beijou. Isso é passado. _Então vamos lá. _Desculpe, amiga, mas não quero ir. Rebeca viajou para Porto Alegre na terça-feira. Naquele ano ela esteve em São Paulo mais duas vezes. Álvaro tentou sair com ela mas Rebeca estava irredutível. Manu, que queria muito apresentá-

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la para Eliseu, insistiu para que fossem até a pizzaria de dona Lourdes, mas não obteve sucesso. Eliseu encerrou o seu primeiro ano na faculdade com excelentes notas; falava com o avô e a irmã pelo menos duas vezes por mês. Um novo ano começou. Eliseu continuava com a mesma rotina: faculdade de medicina durante todo o dia e à noite pizzaria. Aos domingos participava da EBD e nas folgas comparecia ao culto noturno. _Não sei como você aguenta... estuda e trabalha, trabalha e estuda... que tédio!- disse Álvaro em uma tarde de sábado. _É necessário muito esforço para alcançar os objetivos. _Tudo bem, mas precisa arrumar um tempinho para curtir. Hoje, por exemplo, é um dia perfeito. Se você quiser eu ligo para uma amiga e... _Não. Eu preciso trabalhar na pizzaria. _A minha mãe se arranja sem você, ela precisa ir se acostumando porque depois você não vai poder mais ajudar na “Gaal”. _Eu sei mas enquanto eu posso... _Vamos sair com umas gatinhas hoje, vai? _Não dá, Álvaro. _Você não tem jeito... bom, eu vou aproveitar porque depois que a minha gata voltar a morar aqui em São Paulo... _A Rebeca? _É claro que é a Rebeca. Nossa, eu ainda não consegui apresentá-la a você. _É verdade, todas as vezes que ela esteve na igreja... _Você não estava, é lógico! Só trabalha e estuda, estuda e trabalha. _Alguém precisa ajudar aqui na pizzaria. _O que você quer dizer com isso, hein? Quando posso eu ajudo, é ou não é? _É... mais ou menos. _Cara, eu já vou. Tem certeza que não quer que eu arrume uma gatinha? _Tenho certeza. Hoje tem uma reunião com os jovens, você... _Hoje não, já tenho compromisso.

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Capítulo 13- Um pneu furado No domingo pela manhã, Eliseu foi até a escola bíblica e depois iria com a dona Lourdes para fazer compras. O professor Moacir havia oferecido uma carona, então Eliseu caminhou até o estacionamento enquanto o professor conversava com um rapaz novo na igreja. Ao se aproximar de um carro prata, ele ouviu uma voz: _Que ótimo, um pneu furado! Tenho que aprender a trocar pneu... e agora? _Oi, quer ajuda?- perguntou Eliseu. _Quero, obrigada. _O estepe? _Aqui está tudo o que você precisa. _Deixa que eu pego, pode ficar tranquila, eu troco rapidinho. _Vou prestar bastante atenção para aprender. Instantes depois o pneu estava trocado. Eliseu olhou para o lado e notou que Moacir já estava se aproximando. _ Bom... é isso. Problema resolvido- disse Eliseu olhando para a bonita garota. _Obrigada e... _Tudo bem, tchau. Eliseu se afastou e a bonita garota ficou pensando que deveria ter perguntado o nome dele. Naquela tarde na casa de Manu... _Tínhamos tanto serviço na oficina que nem deu para eu ir à EBD, justo hoje que você foi, Rê. _Fazer o que, né! Você faz muita falta e hoje então... _Por quê? _Um pneu furado. _Sério? _Ainda bem que eu estava no estacionamento da igreja. Apareceu um rapaz que prontamente se ofereceu para trocar. _Um rapaz? _Você acredita que eu nem perguntei o nome dele? _Nossa, que tragédia! 113

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_É... e eu preciso aprender a trocar pneu. _É melhor você não aprender. _Por quê? _O rapaz não teria a oportunidade de ser prestativo. Segundo o senhor MM, uma mulher trocando um pneu não é nada feminino. _Senhor MM? _Murilo Machista. _Só você mesmo, Manu. Eu vacilei... nem perguntei pelo nome dele! _A gente descobre... como ele é? Neste momento o celular de Rebeca tocou. _Mãe? Estou indo. Beijo. Manu, meu pai vai levar um casal de amigos dele para jantar lá em casa e eu preciso estar lá. _Que pena, então você não vai ao culto hoje. _Queria tanto ir... _E eu queria tanto que você conhecesse o Eliseu. _Esquece isso, Manu. Por que tanto interesse? _Porque eu acho que vocês dois vão se dar muito bem. _Não mesmo. Eu quero distância dos amigos do Álvaro.

Naquela noite, após o jantar com os amigos de seu pai, Rebeca foi para o seu quarto e ligou para uma grande amiga dela de Porto Alegre. _Oi, Isa! Tudo bem? _Oi, Beca, tudo. Eu queria mesmo falar com você, mas estou sem créditos e a minha mãe me proibiu de usar o computador por uma semana. Ligar do fixo para interurbano nem pensar. Estou entediada. _O que você fez para receber o castigo? _Horas e mais horas na net conversando com aquele gato que eu já te falei. Minha mãe disse que eu não fazia outra coisa, por isso ela me castigou, pode? _Você é muito exagerada, Isa! Por que você não cortou um pouco as conversas com o David? _Não conseguia, ele é tão fofo! Eu não me cansava de falar com ele. _E agora não pode falar nem um pouquinho.

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_Tudo bem, só faltam três dias... mas é tão difícil ficar todos estes dias sem saber do meu lindo... eu não sei se vou aguentar! Em nossa última conversa ele queria marcar um encontro comigo. _Isa, cuidado, é muito perigoso, vocês só se conhecem pela net e... _Relax, Beca, relax! Eu e o David nos conhecemos há quase dois anos! _Só pela net. Isa, como você pode ter certeza que ele foi sincero em tudo? _Eu não posso ter certeza, mas se eu não arriscar como é que vai ser? Ele quer muito me conhecer pessoalmente e eu também. _Eu tenho tanto medo... _Beca, o medo só atrapalha, às vezes é preciso de um pouco de ousadia, só para variar. Cansei desse tédio, já tenho 22 anos, está mais do que na hora de viver uma aventura. _Amiga, tenha muito cuidado. _O David é o meu príncipe, não tem erro. _Eu não sei... _Relax... minha amiga linda! Semana que vem eu vou conhecer o David, nada vai me impedir. _Isa, mas e se o seu pai... _O meu pai nunca vai saber. _Ele é tão... _Eu sei muito bem como meu pai é, ele é uma fera, mas ele nem vai suspeitar. _Pense bem, não faça nenhuma besteira. _Chega de falar da Isa, vamos falar sobre você, e então já encontrou aquele gato do Álvaro? _Não e nem quero. _Você é tão bobinha! Fica com ele só para curtir, vai? _Isa, até parece que você não me conhece! _Pior é que eu te conheço e sei muito bem que curtir e ficar não fazem parte do seu vocabulário, o que é uma pena. Mas, não tem um rapaz aí que chame a sua atenção? _Ah... por enquanto não. _Tudo bem, mãe. Beca, eu tenho que desligar, outra hora a gente conversa! Após desligar, Rebeca pensou na pergunta da amiga e lembrou do rapaz que trocou o pneu: “ Como eu fui boba, deveria ter perguntado pelo nome dele... foi tudo tão rápido! Mas não deve ser difícil encontrá-lo, afinal ele estava no estacionamento da igreja...”

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Era uma hora da manhã e Eliseu já estava deitado, começou a pensar na garota que ele ajudou naquela manhã: “ quem é ela? Será que eu vou encontrá-la novamente? Por que eu estou pensando nisso? Se ela me visse de novo será que me reconheceria? Com certeza não, foi tão rápido... ela nem deve ter prestado atenção em mim. Uma garota como aquela nem me notaria... mas mesmo assim eu gostaria de revê-la.” Na terça-feira, logo pela manhã, Eliseu ligou para conversar com o avô. _Eu estou bem, quero saber como vocês estão... a Jessica está na casa de uma amiga? O quê? Ah... ele deve estar sofrendo tanto... Depois de alguns minutos Eliseu desligou. _E então, como o seu avô está?- quis saber dona Lourdes. _As coisas estão bem complicadas por lá. Aquela mulher abandonou o meu pai, fugiu com outro e deixou meu pai arrasado. A Jessica está passando uns dias na casa de uma amiga e meu avô está fazendo companhia ao meu pai, mesmo contra a vontade dele. _Que coisa mais triste. Aquela sem-vergonha separou pai e filho e agora ainda apronta mais uma? _Ela não vale nada. Meu pai está sofrendo muito. _Se ele tivesse acreditado em você, não estaria passando por isso agora. _Eu me preocupo com a Jessica. Meu pai está bebendo mais ainda e não tem a mínima condição de cuidar dela. Se eu pudesse fazer alguma coisa... _Querido, agradeça a Deus por ela ainda ter o avô. Eliseu, mesmo que você já tivesse alguma estabilidade, o seu pai não iria permitir que ela morasse com você. _A senhora tem toda a razão. Eu só posso pedir a Deus que meu pai consiga superar isso e que meu avô viva muitos anos para cuidar da Jessica.

Rebeca voltou para Porto Alegre naquela mesma semana. _E então, conseguiu marcar com o David? _Ainda não. _Que bom que você colocou um pouco de juízo na cabeça... _Não deu para marcar. Ele tinha um compromisso. _Isa, cuidado! Você pode se meter em confusão...

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_Relax, Beca! Nos meses seguintes, todas as vezes que Isa tentava marcar um encontro, David tinha algum compromisso. _Ótimo, melhor assim. _Melhor assim? Não mesmo. Nós ainda vamos nos encontrar. _Isa, o cara queria tanto te conhecer e agora não consegue marcar nada? Aí tem. Se liga, amiga! _Beca, por que você não viaja para São Paulo, hein? _Por quê? _Para ver o Álvaro. Já que você não consegue arrumar um namorado aqui... _Isa, quem disse que eu quero? E o Álvaro? Nem pensar. _Ai, Beca, como você perde tempo. Seu pai até que tentou... _Não comece... _O Carlos Eduardo é um gato. _Um traidor, é isso o que ele é. Ai, Isa, fala sério! Álvaro, Carlos Eduardo... _O seu pai não gostou que você terminou com ele. _O que o meu pai queria? O Carlos Eduardo saía com mais duas garotas. _Para ele isso era normal. _Mas para mim não. _O seu pai ainda acha que ele é um ótimo partido. _Só porque o Carlos Eduardo é filho de um amigo dele. Rebeca foi para São Paulo só mais uma vez naquele ano. Manuella tentou levá-la até a “Gaal”, mas ela não queria correr o risco de encontrar-se com Álvaro. Eliseu terminou o 4° período com ótimas notas. Poucos meses depois... _Vamos combinar uma coisa? _O quê? _Vamos na “Gaal” terça-feira? _Manu, eu não quero ir até lá, eu gosto muito da dona Lourdes mas estou evitando encontrar com o

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Álvaro. _O Álvaro está viajando, ele foi para o litoral. Só volta quarta. Eu andei pesquisando. _Sério? Então eu posso aproveitar para fazer uma visita; a dona Lourdes é tão legal. _E eu vou aproveitar para apresentar o Eliseu. _Esquece isso, Manu. Por que tanto interesse? _Porque eu acho que vocês dois vão se dar muito bem. _Não mesmo. Já disse que quero distância dos amigos do Álvaro. _Veremos.

Às 19h Manu e Rebeca se encontraram novamente. _Hoje você vai conhecer o Eliseu. _Manu, que insistência! Não estou interessada... se o Eliseu é tão maravilhoso, por que você... _Eu gosto dele como amigo. _Então pare de ficar arrumando pretendente para mim. Tenho certeza que o Eliseu não vai me atrair nem um pouquinho. Na verdade eu gostaria de rever uma pessoa. _Sério? Quem? Me conta... vai, me conta logo! _Não vou contar. _Rê! Quem é ele? _Depois eu conto, agora vamos saborear uma pizza. _Chata!

Ao entrarem na “Gaal”... _Que surpresa boa, meninas! _Dona Lourdes, tudo bem? _Tudo ótimo. E seus pais, Rebeca? _Estão bem. Minha mãe mandou um abraço bem apertado e disse que qualquer dia aparece por aqui. _Fale para ela vir mesmo. Oi, Manu, tudo bem com você, querida? _Tudo maravilhoso. E o nosso pizzaiolo favorito está aí?

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_Com certeza e vai preparar uma pizza bem especial para vocês. Que pena o Álvaro ter viajado, ele iria adorar te ver aqui, Rebeca. _É... e a Gabi? _Foi ao shopping comemorar o aniversário de uma amiguinha. Sentem-se, meninas e aqui está o cardápio. Fiquem à vontade, daqui a pouco eu volto. _Eu vou falar com o Eliseu, volto já. _Fica aqui, Manu, por favor. _Eu vou conversar com ele só um pouquinho... _Não faça isso. _Tudo bem. Mas hoje você não escapa. Minutos depois dona Lourdes voltou e elas fizeram o pedido. _Hum, que delícia! - disse Manu ao saborear sua pizza portuguesa. _Tem razão, que massa! Hum.... _Você não quer conhecer o doutor pizzaiolo? _Doutor pizzaiolo? Ah, Manu, só você. _Ou pizzaiolo doutor, se você preferir. _E então meninas, estão precisando de mais alguma coisa? _Estamos sim, dona Lourdes, será que o Eliseu poderia vir até aqui só por um minutinho? Quero apresentá-lo para a Rebeca. Rebeca lançou um olhar fulminante em direção à amiga. _Vocês ainda não se conhecem, Rebeca? Vamos resolver isso agora mesmo, volto já.

_Manu, você não tem jeito mesmo... meu celular está tocando. Oi, Isa, vocês vão o quê? _O Eliseu está chegando, Rê. _Isa, só um minuto. Manu, eu vou lá fora para terminar a conversa. _Está fugindo. _Eu volto logo.

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Rebeca se afastou e poucos segundos depois Eliseu se aproximou de Manuella. _Oi, Eliseu. Senta aqui um pouquinho, a Rebeca já volta. _O Álvaro vai ficar muito bravo quando souber que a gata dele veio aqui justo hoje... _Eu não sou a gata de ninguém- disse Rebeca ao se aproximar. Neste momento, Eliseu, que estava de costas para ela, se virou. _Me desculpe, eu... Por alguns segundos eles ficaram se olhando sem dizer nada. _Oi, então o seu nome é Eliseu? Eu que peço desculpas por não ter perguntado naquele dia que... _Tudo bem, não tem problema. _Espera um pouco, eu estou aqui para apresentá-los mas parece que vocês já se conhecem... _Manu, o Eliseu é o rapaz que fez o favor de trocar o meu pneu. Lembra? _O Eliseu? Que legal! Bom... mesmo assim eu vou apresentá-los oficialmente: Eliseu esta é a Rebeca, minha grande amiga, Rebeca este é o Eliseu, um cara muito 10. _Oi, é um prazer conhecê-la- disse Eliseu com os olhos fixos nela. _Oi, Eliseu. Bom, pelo menos agora eu posso agradecê-lo corretamente. Eu sei que já faz um tempo, mas... _Não é necessário. _É sim, valeu mesmo, você chegou na hora certa. _Tudo bem. E então, gostaram da pizza? _Estava ótima, doutor Eliseu pizzaiolo- brincou Manu. _Estava mesmo deliciosa. _Eliseu, sábado vamos ao shopping com uma galera, você está convidado. _Valeu, Manu, mas eu tenho que trabalhar. Sábado o movimento é... _Sábado você estará de folga- disse dona Lourdes que estava passando e ouviu a conversa. _Não é minha folga. _Agora é. Ele pode ir sim, Manu. _Legal! _Mas... _Eliseu, sábado eu quero você bem distante daqui. _Dona Lourdes... _Entendeu? _Entendi. Agora eu vou voltar ao serviço. Então... até sábado.

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Depois que ele se afastou... _Eu não quero conhecer o Eliseu... para com isso, Manu, esquece isso... _Manu, para. _Para? Eu notei. _Notou o quê? _Os olhares dos dois. _Olhares? Que olhares? _Que olhares? Rê, você e o Eliseu ficaram se olhando de um jeito! _Você tem cada uma... eu não fiquei olhando para ele, é que eu fiquei bem surpresa e... _E gostou do que viu, confessa! E quer me agradecer pelo convite que eu fiz a ele, vai, agradeça. _Manu... ah, foi legal você ter convidado. O único problema é se certa pessoa resolver ir também. _O Álvaro? Será que ele... _Eu espero que não. _E quais as novidades da Isa? _Ela marcou um encontro com aquele cara da net. Sexta-feira eles vão se conhecer pessoalmente. _Isso é tão arriscado! _Eu já falei para ela mas não adiantou nada. Eles conversam pela net há algum tempo, então ela acha que já o conhece bem. _Pela net o cara pode inventar um montão de coisas... e se ele quiser se aproveitar dela? Isso acontece tanto... _É... eu só peço a Deus que a proteja porque a Isa não ouve, não adianta falar.

No dia seguinte, Álvaro estava ansioso para falar com Eliseu. _A Rebeca veio aqui justo ontem? Que azar! E aí, o que você me diz? Ela não é uma tremenda gata? _Ela é muito bonita. Só não sei dizer se ela tem olhos cor de mel, porque não consegui chegar tão perto... _Engraçadinho. Nem tente chegar perto dela. Eu não deveria ter viajado... mas estou sabendo que a Manu te convidou para sair com uma galera e a Rebeca também vai, então eu vou dar um jeito de

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aparecer. _Dar um jeito? _É que eu vou me encontrar com uma gata; ela é uma gracinha, não posso pisar na bola, mas vou tentar chegar pelo menos para ver a minha Rebeca. _Você não tem jeito mesmo. Se você gosta da Rebeca por que vai sair com outra? _Meu grande amigo, eu adoro você mas não dá para aguentar a sua ingenuidade. Eliseu, enquanto a Rebeca se faz de difícil, eu me divirto por aí, quando ela me aceitar a história muda. _Se você gosta mesmo dela deveria mudar antes. Desse jeito ela nunca vai aceitar e... _O que você sabe? Você é tão inexperiente! Só teve uma namorada. _Não precisa ter experiência para saber dessas coisas. Fidelidade é o que qualquer garota decente deseja. _Santo Eliseu! As garotas querem alguém que seja carinhoso como eu. Elas não querem ficar sozinhas e se para isso é necessário dividir, que mal há nisso? _Será que a Rebeca concorda? _A Rebeca é um pouco orgulhosa. Ela estava louca por mim e eu quis dar uns beijinhos nela, aí apareceu uma gata mais experiente e eu precisei dar atenção, a Rebeca não entendeu isso. _Então eu estou certo. _A Rebeca não vai resistir; eu vou deixá-la caidinha por mim novamente, escreva isso.

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Capítulo 14- Aulas de boliche Sábado à noite, Eliseu foi ao shopping com o amigo Murilo. Encontraram a galera da igreja na praça de alimentação. _Oi, Eliseu, pensei que você fosse furar- disse Manu- pena que você veio com péssima companhia. _Oi, Manuella, é bom te ver também- ironizou Murilo. _Oi, Manu, oi Rebeca, tudo bem? Eliseu cumprimentou as duas com um beijo, para os outros que já estavam sentados, ele apenas acenou. _Manuella, o Eliseu me convidou e eu resolvi aceitar mesmo sabendo que você estaria aqui. _Pois deveria ter recusado o convite. Eu estava tão animada, tão feliz e agora … _E agora está mais feliz ainda? _Você está tão engraçadinho hoje, Murilo. Vocês vieram como? _Com o meu carro. _Ah... agora entendi o motivo do atraso. _Que engraçado! Você me faz rir, Manuella. Rebeca aproximou-se de Eliseu e iniciou uma conversa. _Eles são sempre assim? _Sempre. Eu acho que um dia eles vão se entender. _Você é tão otimista! _Você não? _Nem tanto! E a faculdade? A Manu me contou que você vai ser pediatra, isso é muito legal! _É isso mesmo e você? _Eu fiz administração. Trabalho com meu pai na concessionária. _Você gosta do que faz? _É... bem... gosto, gosto sim. _Não foi muito convincente. _Não? É... tem razão. Vamos sentar? Se você quiser eu conto a minha história. _Vamos. Eu quero sim.

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Sentaram-se a uma certa distância do pessoal. _Eliseu, quando eu tinha 14 anos queria ser professora de inglês, um ano depois queria ser veterinária, depois advogada... deu para notar que eu era bem indecisa, né? _Isso acontece com muitos. _É, mas eu resolvi trabalhar com meu pai, depois que ouvi uma conversa dele com a minha mãe. Eu tenho um irmão, ele é filho do primeiro casamento do meu pai, o Rodrigo é 8 anos mais velho do que eu e … é que.. bom... ele e meu pai não se entendem. _Que pena. E ele é casado? _Não. O Rodrigo é fotógrafo e viaja muito, diz que por enquanto não dá para pensar em casar. _Fotógrafo? _Ele trabalha para uma revista. Ele fotografa paisagens, animais... _Deixa eu adivinhar: seu pai gostaria que o seu irmão trabalhasse com ele. _É isso mesmo. Para meu pai, o Rodrigo só perde tempo, ele não reconhece isso como profissão. Aí eu ouvi meu pai dizendo o quanto estava chateado por não ter o filho trabalhando com ele, então eu resolvi trabalhar na concessionária. _Mas você não gosta muito, não é? _Eu gosto, mas é que não é fácil trabalhar com meu pai, ele é do tipo que não aceita a opinião dos outros. _Nem da própria filha? _Nem mesmo da própria filha... só um minuto, Eliseu, preciso atender o celular. Oi, Isa, até que enfim você me ligou, eu já estava preocupada! Você está bem? Fale com calma, não estou entendendo nada. Nossa, que animação! É mesmo? É, mas tome cuidado. Tudo bem, eu ligo para você mais tarde. Beijo. Era minha amiga lá de Porto Alegre. _Você vai ficar aqui por quanto tempo? _Preciso voltar na próxima semana, tenho que retornar ao trabalho, o patrão é muito exigente, mas se tudo der certo, nós vamos morar aqui novamente. _Que legal! Isso é ótimo... é... quero dizer... o Álvaro vai achar isso ótimo. _O Álvaro? Olha, Eliseu, vamos combinar uma coisa? Não me fale sobre o Álvaro. _Não? Qual o problema? _Eu prefiro não falar porque eu sei que vocês são amigos. Neste momento Murilo se aproximou.

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_Desculpe atrapalhar o papo de vocês... Eliseu, eu já vou. _Já? Aconteceu alguma coisa? _Depois a gente conversa- dizendo isso se afastou. _O que será que aconteceu? Será que tem alguma coisa a ver com a Manu ?- perguntou Rebeca. _Só pode ser isso... eu não deveria tê-lo convidado, mas é que eu tenho esperanças... Eliseu e Rebeca não conseguiram continuar a conversa porque foram cercados pela galera. Após comerem, Rebeca conseguiu conversar com Manu em particular. _O que você fez com o Murilo? _Eu? A pergunta deveria ser: o que o Murilo fez? _E então? _Não dá para suportar, ele é muito chato. É um machista... _Calma, amiga. _Calma? Eu até que tentei, mas não dá para conversar com ele numa boa. Agora chega de falar do Murilo, eu quero saber sobre você e o Eliseu. _Nós só estávamos conversando. _E a conversa estava boa? _Muito, pena que... _Uau! Então você estava gostando da conversa, né? Eu sabia que você e o Eliseu iriam se dar bem. _Ele é um cara legal. _Só isso? Bom... eu acho que logo você vai ter outras coisas para falar sobre ele. _Manu, Manu, foi só uma conversa legal. _Tudo bem, agora vamos jogar boliche. A galera quer fazer uma competição. _Eu vou com uma condição: jogar no mesmo time do Eliseu. _Nossa! Ficou bem interessada, hein? _É brincadeirinha... e eu nem sei jogar boliche. _Sei... e o que quer dizer o sorrisinho? _É só um sorriso. _Então vamos, o pessoal está nos esperando. Após uma hora eles conseguiram duas pistas de boliche. _Vamos formar duplas para todos poderem jogar- disse Jefferson, um rapaz de 24 anos, integrante do grupo de louvor da igreja. Manu deu um jeitinho para que Rebeca formasse dupla com Eliseu. Ficaram em penúltimo lugar no

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placar geral. _Eu fui a culpada, eu assumo, jogo muito mal- disse Rebeca. _Até que você joga bem... _Eliseu, você é tão bonzinho! Eu sei que sou péssima nisso. Que vergonha, a bola sempre ia pela canaleta, fugia dos pinos...se você tivesse uma parceira melhor, com certeza não estaria quase em último lugar, porque você joga bem, fez “strikes”6 e eu fiz estragos. _Tive um ótimo professor. _Quem? _O Álvaro. _Ah... se eu tivesse jogado com o Álvaro agora ele estaria me xingando. _Duvido. _Quando ele era adolescente detestava perder, ficava uma fera. Eu lembro que ele não era muito de estudar a Bíblia, mas ao saber que tinha alguma competição ele se esforçava, lia muito e quase sempre ganhava. Uma vez a equipe dele estava na final de uma gincana bíblica e por causa de uma resposta errada, a equipe adversária venceu, ele ficou muito bravo, discutiu porque não se conformava com a derrota. _Eu não sabia disso. _É verdade. Ele não deve ter mudado... mas chega de falar nele. Bom... quem sabe um dia a gente combina para você me dar umas aulas. Pode ser? _Com certeza. Assim da próxima vez a gente arrasa. _Desculpe interromper... Eliseu, quer uma carona?- foi a pergunta de Jefferson. _Eu quero sim, valeu. _Eliseu, eu posso te dar uma carona- disse Rebeca meio sem jeito. _É melhor eu ir com o Jefferson. _Não aceita carona de uma mulher? Síndrome de Murilo? _Não é isso, é que eu ficaria muito preocupado com você, está muito tarde. _É isso mesmo? _Claro, eu não tenho esse tipo de preconceito. Já peguei carona com a Manu, pode perguntar para ela. _Então você está perdoado. É... tchau. _Tchau, Rebeca. Depois você me diz qual será o dia das aulas, tá?
6 Quando se derruba todos os pinos(11)

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_Tudo bem. No carro com a Manu... _Quando será o próximo encontro? _Encontro? Manu, que encontro? Isso hoje não foi um encontro, não com aquela galera toda. _É, mas vocês dois bem que conseguiram por alguns momentos se distanciar da gente... e então? Rebeca contou sobre as aulas de boliche. _Legal! Quando? _Não sei... logo terei que voltar para Porto Alegre. _Então marca para esta semana. _Não sei... _Liga para ele. _Ele não me deu o número e eu não quero ligar na casa do Álvaro. _Isso não é problema, amiga. Eu tenho o número do celular dele. Na casa da dona Lourdes... _Seu encontro foi muito bom, né? Nem apareceu para ver a Rebeca... _É amigão, não deu. A Gi me convenceu. Que gata, cara! Mas, me conta, como foi? Eliseu contou tudo, menos sobre as aulas de boliche. _A Rebeca só é boa em competições que usam a mente... ela nunca foi bem em esporte nenhum, mas é muito inteligente. _Mas foi bem divertido. Domingo Eliseu não pôde ir à EBD, precisou sair com dona Lourdes para fazer compras. Após o almoço ele estava estudando quando o celular tocou. _Oi? Rebeca? Tudo bem. _Me desculpe, você está muito ocupado? _Eu só estava estudando um pouco. _Então eu vou ser bem rápida. Será que nós podemos marcar uma aula para esta semana? É que eu não vou ficar muitos dias aqui em São Paulo. _Pode ser amanhã? É o dia que a pizzaria não abre.

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_Perfeito. _Eu saio da faculdade às 17h30. _Eu te pego lá. Eu vou desligar agora, ah... foi a Manu que me deu o seu número. _Ótimo. Então... até amanhã. Naquela noite, após chegar do culto, Rebeca ligou para a amiga Isa. _Como ele é, Isa? _Ele é um gato. Carinhoso demais, gentil... ele disse que está completamente apaixonado por mim. Eu não disse que ele era sincero? Eu disse. _Calma Isa, é muito cedo para... _Cedo? Rebeca, nós estamos muito íntimos... _O que você quer dizer com isso, Isa? _Íntimos... você entendeu. _Isa, vocês só se viram duas vezes! Não acredito, você só pode estar brincando... _Não estou... amiga, em qual mundo você vive? No segundo encontro não deu para resistir... ele me convidou para ir ao motel, eu aceitei e... _Isa! Você é louca? Como pode ser tão irresponsável? Se o seu pai ficar sabendo... _Ele não vai. _Isa, você foi tão fácil... _Pega leve, vai. _Sou sua amiga e tenho que falar a verdade. E se você ficar grávida? E se ele... _Para, Rebeca! Você está estragando tudo. Eu estava tão feliz... _Bom, já fez a besteira... mas pelo menos se preveniu? _Minha amiguinha linda, relax! Você não quer saber os detalhes? Você ainda é virgem, não é? _Eu não quero saber de nada. _Quer sim, mas está com vergonha. Eu conto mesmo assim. Nós chegamos no quarto e... _Para com isso, Isa! Não quero saber. Eu estou muito preocupada com você. Se este cara for daqueles que só querem se aproveitar e depois caem fora? _Como você é careta! Você deveria ficar feliz por mim. Ontem eu vivi a experiência mais emocionante da minha vida e você fica com esse papo chato... fique feliz por mim. _E ele tem 23 anos mesmo ou... _Bom... ele tem um pouco mais e eu adorei.

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_Quantos? _34 anos. _O quê? Viu só? Foi o que eu disse. Ele mentiu sobre a idade. _Ele disse que ficou com receio de dizer a idade verdadeira. Qual o problema? Eu gostei. _Gostou? Isa, se ele mentiu sobre isso pode muito bem ter... _Chega, se você vai passar um sermão, eu vou desligar. Eu queria contar tudo para você, mas... _Isa, por favor, cuidado! _Xô, neura! Bye, beijão, amiga! E vê se arranja algum namorado por aí, porque você está precisando muito. O dia na faculdade passou bem devagar, pelo menos para Eliseu que estava muito ansioso para reencontrar-se com Rebeca. Ele chegou até a comentar com um colega. _Danilo, você acha que eu estou errado? Será que eu deveria ter falado para o Álvaro? _É claro que não. Eliseu, pelo que você me contou, o Álvaro não tem nada com a Rebeca, então... _É, mas ele diz que está apaixonado por ela. _E além do mais você e ela só vão sair; vocês não estão namorando. _ Mas eu estou me sentindo um traidor e detesto me sentir assim. _Que exagero! O convite partiu dela, fique frio. Mas diz aí, você está interessado nela, não está? _Ela é uma garota legal, eu gosto muito de conversar com ela, é só isso. _Será? Eu acho que não é só isso. Não era só Eliseu que estava ansioso, Rebeca chegou trinta minutos antes; às 17h30 ligou para o celular dele, instantes depois ele já estava entrando no carro. _Oi, tudo bem? Está pronta para jogar muito? _Estou pronta para aprender. Você está muito cansado? _Não, eu estou bem. _Quer dirigir? _Não, eu estou bem à vontade com você no volante, pode ficar tranquila. _Então tá. Ah, antes eu vou atender o celular... é minha amiga Isa. Oi, estou na rua... pode falar, se for rapidinho. Tudo bem, eu não fiquei brava com você, só estou preocupada. Hoje, de novo? Isa, Isa... não brinque com isso. Outro, tchau. _Tudo bem?

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_Estou bem, é que a minha amiga está saindo com um cara que ela conheceu pela net. Eu estou tentando colocar um pouco de juízo naquela cabecinha, mas está difícil. _E você já saiu com alguém assim? _Não, prefiro os meios tradicionais. As pessoas mentem muito. A Isa conversava com o David pensando que ele tinha a mesma idade do que dela, agora descobriu que ele tem 34 anos. Vai saber no que mais ele mentiu... _Você tem razão. _Eu quero muito conversar com ela pessoalmente. Ela precisa parar com os encontros, se o pai dela descobrir nem sei o que pode acontecer... ele é uma fera. Vamos falar sobre as minhas aulas? Será que eu vou virar campeã de boliche? _Campeã eu não sei, mas você vai melhorar, com certeza. _Então eu jogo mal, né? Não foi você que disse que eu jogo bem? Te peguei!- disse Rebeca sorrindo. _Você me pegou. Você joga mal, muito mal- confessou sorrindo também. _Sinceridade, eu gosto disso. Pena que eu voltarei logo para Porto Alegre. _Então eu não posso prometer que você será uma campeã no boliche. _ Eu volto, professor. Talvez demore alguns meses, mas eu volto e se tudo der certo, desta vez será para ficar. _Ótimo. Então vamos só adiar as outras aulas, certo? _Certo, professor Eliseu. Minutos depois já estavam no shopping. _Como fui eu que inventei eu pago, ok? _Não. Pode deixar comigo. _Síndrome de Murilo? _Não mesmo, mas eu prefiro pagar. Você acha que eu não tenho condições? _Não é isso, me desculpe. Não era a minha intenção... _Rebeca, tudo bem. Você não tem esse tipo de conversa com outros caras que você sai, não é? Me desculpe. _Eliseu, você não precisa me pedir desculpas, eu fui infeliz ao propor isso, eu não queria criar esse clima chato, me desculpe. _Não tem problema, esquece. Vamos comer alguma coisa antes? Você só não pode exagerar, porque vai se exercitar bastante.

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_Tudo bem, vamos. Você paga- disse sorrindo. Na pista de boliche... _Vamos começar com bolas mais leves, a número 10, 11, 12... _Não pode ser a 6? _Você não é uma criança... vamos usar as bolas de tamanho médio, certo? _Certo professor, não fique bravo com a sua aluna. _Não estou bravo, isso seria impossível. _Impossível por quê? _Porque você é...é.... _Sou o quê? _Vamos começar com as aulas? É melhor. _Fiquei curiosa, eu sou o quê? _Vamos começar? _Tudo bem, mas não pense que eu sou esquecer, você vai ficar me devendo a resposta. _Segure a bola... não, assim não. O dedo médio primeiro e o anelar... que anel bonito, é... nos orifícios da bola e depois o polegar. _Gostou do meu anel? Obrigada, professor- disse com os olhos fixos nele. _Olhe para a bola, Rebeca. _Ok. _Você precisa apoiar com a outra mão... isso, ela deve estar bem firme. Me dê a bola, agora pegue outra... _Pode ser a 12? _Pode. Isso... você está segurando da maneira correta. Após mais algumas instruções... _Rebeca, você não pode dobrar o cotovelo... isso, muito bem. Vai, comece tudo de novo, agora eu vou ficar calado. Rebeca derrubou 6 pinos.

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_Parabéns, se continuar assim logo fará um “duque”. _Um o quê? _”Duque” : dois strikes seguidos. _Dois strikes seguidos? Eliseu, o máximo de pinos que consegui derrubar até agora foram 6. _Até agora. Tente novamente. _Tudo bem. Se eu conseguir um "spare"7, já vou ficar satisfeita. _Não, isso não. Você não pode se contentar com pouco. _Pouco? Você deve estar brincando. Alguns minutos depois... _E então, agora podemos competir?- perguntou Rebeca toda feliz por ter derrubado 8 pinos. _Calma, um outro dia... vamos? _Vamos professor, mas ainda são nove horas. _O que você quer fazer? _Podemos tomar um cafezinho e... conversar. _Certo, você manda. Minutos depois eles já estavam acomodados saboreando o café. _Você deve sentir muita saudade da sua família, não é, Eliseu? _É muito difícil ficar longe deles. _A Manu me disse que você tem uma irmã. _É a Jessica, no dia 15 de julho ela fará 16 anos. Também sinto falta do meu avô. Passo horas ouvindo um CD que ele me deu de presente, era o preferido dele: Beethoven _Você pretende voltar para o Mato Grosso algum dia? _Bom... eu não sei quando poderei ir, vai demorar, com certeza. _A Manu me contou que a sua mãe morreu há alguns anos. _É... ela morreu no dia do meu aniversário de 13 anos. _Me desculpe, eu não deveria ter começado este assunto. _Não tem problema, às vezes é bom falar. _Ela ficaria muito orgulhosa por saber que o filho vai ser um médico. _Ela sonhou com isso.
7 10 pinos derrubados.

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_Sério? Me conta. _Ela me viu com uma roupa branca. Eu estava com o estetoscópio, escutando o coração de um bebê. _Que lindo! O sonho dela vai se realizar. _Se Deus quiser e eu estou me esforçando para isso. Rebeca, eu estudo em uma faculdade cara e você já sabe que eu não tenho as mínimas condições para isso, mas Deus colocou o reitor Sérgio em meu caminho e outra pessoa que eu não sei quem é, mas que tem me ajudado muito. É claro que também tem a dona Lourdes, que é uma benção na minha vida. _Uma ajuda anônima? _É isso mesmo, o reitor Sérgio me contou que a pessoa não quer aparecer, ela só espera que eu estude muito e é isso que eu faço. _Que mistério! Se fosse eu, morreria de tanta curiosidade. _Eu gostaria muito de saber quem é, mas não tem jeito. Eu a chamo de “bom samaritano”. _Desconfia de alguém? _Às vezes eu penso no reitor Sérgio, mas ele me garantiu que não é ele. Eu só posso agradecer a Deus pela vida desta pessoa e sempre orar por ela. _E o seu pai? _O quê? _Você não falou dele. _É verdade, meu pai... _Não quer falar? _Talvez um outro dia... me desculpe. Rebeca percebeu que os olhos dele ficaram marejados, então resolveu mudar de assunto. _O Murilo falou qual o motivo da discussão com a Manu? _O de sempre. Ele não aceita que a Manu seja mecânica de automóveis. _Como ele pode ser assim? _É o jeito dele. E o que ela disse? _Que ele é um machista incorrigível. _Quem sabe um dia ela consiga corrigi-lo. _Eliseu otimista! _Não é impossível. E você? Tem alguém em Porto Alegre para sentir saudades? No mesmo instante Eliseu se arrependeu de ter feito a pergunta.

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_Sim, eu tenho. _Ah... _Apesar dos poucos dias que eu fico longe, eu sinto falta de uma pessoa especial. _É mesmo? - perguntou sem graça. _É. Minha amiga Isa. _A sua amiga, que bom... quero dizer... é... _Eliseu, algum problema? Você gaguejou um pouco. _Não. Então, a sua amiga... _É que ela é cabecinha de vento, eu fico muito preocupada com ela. Se eu voltar a morar aqui... _Vai ser ótimo... é... quero dizer, para a sua outra amiga, a Manu, vai ser ótimo. _Mas vou ficar morrendo de saudades da Isa. Às 23h, Rebeca deixou Eliseu em um ponto de ônibus próximo à casa dela. _Você é teimoso, eu poderia muito bem deixá-lo... _Prefiro assim, fico mais tranquilo ao saber que você está pertinho de sua casa. Em poucos minutos eu chego. _Então... tchau e até a próxima aula. _Rebeca... _Sim? _Parabéns, você é uma ótima aluna. _Valeu, professor. _Boa noite. Rebeca entrou na ampla sala do luxuoso apartamento que eles mantinham em São Paulo e encontrou a mãe sentada, folheando uma revista. _Oi, mãe. Estava me esperando? Cheguei cedo. _Oi, querida, chegou mesmo e como foi? _Ótimo. _Só vai dizer isso? Quero detalhes... _Mãe? Eu saí com um amigo, conversamos bastante, jogamos boliche... ele está me ensinando _E qual o nome dele? _Eliseu, mãe eu disse com quem eu iria.

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_Você disse que era o rapaz que trabalha com a Lourdes mas não disse o nome dele. E então? _E então o quê? _Como ele é? Você gosta dele? _Mãe? Eu e o Eliseu nos conhecemos há pouco tempo. _Por isso mesmo que eu fiquei bem surpresa por você sair com ele. Qual foi a última vez que você saiu com um rapaz? _Sei lá... o Eliseu é um rapaz legal, eu gosto de conversar com ele, é só isso. _Os seus olhinhos não estão dizendo isso. _O que eles estão dizendo? _Que você gosta muito do Eliseu, que você está atraída por ele. _Mãe? O Eliseu é um cara que conversa bem, eu passaria horas e mais horas conversando com ele. _Nossa! Rebeca, aconteceu mais alguma coisa entre vocês? _É claro que não, mãe. Somos amigos, é só isso. _Filha, eu fico preocupada por causa de seu pai. Você sabe muito bem como ele é exigente. Este rapaz trabalha em uma pizzaria e se o seu pai souber que você está saindo com ele... _Mãe, o Eliseu estuda medicina, vai ser pediatra. _Isso não mudaria nada para o seu pai. Eu conversei com a Lourdes e ela... _Mãe? Você perguntou sobre o Eliseu? _É claro. Ontem quando você me falou que sairia com ele eu liguei para a Lourdes. Ela me afirmou que ele é um bom rapaz, que é trabalhador e... _Que coisa feia, mãe! Perguntou o nome dele só para disfarçar, né? _Você é minha filha e eu preciso saber com quem você está saindo. Rebeca, eu não me importo se o rapaz é de origem humilde, o importante para mim é que ele a respeite, que seja honesto... mas o seu pai não pensa assim e você sabe muito bem. Não quero que você sofra. _Não fale nada sobre o Eliseu para o meu pai. E nós só somos amigos. _Eu te conheço e sei que você está interessada nele. _Boa noite, mãe, durma bem, tá? _Vou tentar... _E o meu pai não chegou ainda? _Não. Foi jantar com um amigo. _Não quis ir? _Não, bem... na verdade eu não tive esta opção.

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_Ele não te convidou? _Não. _Mãe... tem algum problema entre vocês? _Nada... seu pai queria um momento só dele, sair com um amigo... essas coisas. _Ficou chateada, né? _Não... eu vou dormir, é melhor. Rebeca dividiu seus pensamentos entre o relacionamento de seus pais e os momentos que passou ao lado de Eliseu. Há vários meses ela percebeu que seus pais não estavam bem. Quase não saíam juntos, conversavam só o essencial e isso a preocupava muito. Para relaxar um pouco, pensou em Eliseu. “ Gostaria de sair com ele novamente e amanhã mesmo, mas não vou ter coragem de ligar. E nem se eu me enchesse de coragem adiantaria... amanhã a pizzaria abre.”- lamentou. Eliseu também dividiu seus pensamentos: entre Rebeca e Álvaro. “ Gosto tanto de estar com ela... adoro ouvir a voz dela. Se eu pudesse sair com ela amanhã... ah, se eu pudesse... caia na real, você não pode... não pode pensar nela. O Álvaro gosta dela, ele a conheceu primeiro e além do mais eu não tenho grana para bancar esses tipos de passeio. Eu não aceitaria que ela pagasse... não mesmo. Então a solução é esquecê-la...mas a Rebeca é tão bonita... eu gostaria de ter a coragem de dizer isso para ela. O sorriso dela é lindo, a voz... o jeito que ela gesticula... ela fala o tempo todo usando as mãos... para com isso, o Álvaro gosta dela e ele é meu amigo, não posso decepcioná-lo. Rebeca... Rebeca... adoro o nome dela.

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Capítulo 15- Conhecendo melhor _Ela não me escapa!- disse Álvaro no início da noite de terça-feira. _Quem? - perguntou Eliseu. _Quem poderia ser? A Rebeca, acorda Eliseu! Vou ligar para ela agora. _Para quê? _Que pergunta! Você está legal? Para sair com ela. Vou convidá-la para ir ao cinema comigo. _Ah... _Preste bastante atenção e aprenda. Vou ligar... está chamando... alô? Boa noite dona Cristina, a senhora está bem? Ótimo. Eu poderia falar com a Rebeca? Aguardo. Está bem atento, Eliseu? _Eu tenho que ver se está tudo pronto... _Não saia daqui. Você precisa de aulas práticas... oi, o quê? Ela não pode atender agora? Tudo bem. Boa noite, dona Cristina. _Posso ir agora? _Você acha mesmo que eu desisti? Já sei... tive uma ideia... me dá o seu celular. _Para quê? _Vou ligar para ela. A Rebeca não conhece o seu número, vai acabar atendendo. _Eu acho melhor não fazer isso. _Eliseu, vai pisar na bola? Me empresta, eu preciso sair com ela hoje. _Álvaro... _Eliseu, dá o seu celular. Você é meu amigo ou não? _Toma. _Ok... agora eu vou ligar para o celular dela. Quando o celular tocou, Rebeca estava na net conversando com a amiga Isa. Ao olhar para o visor um sorriso surgiu de seus lábios e o coração começou a bater mais rápido. “ É ele” - pensou e depois pediu um minuto para a amiga. _Alô? _Boa noite, minha gata... ouvir a sua voz é tão bom. Você não imagina a saudade que eu estou... _Álvaro? - perguntou Rebeca completamente decepcionada. _Você não esqueceu da minha voz, isso me dá esperanças!- ao dizer isso piscou para Eliseu- Linda Rebeca, Bequinha... hoje você quer fazer um homem muito feliz? _Álvaro, eu estou ocupada. 137

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_Bequinha.. saia comigo hoje, vamos curtir um cineminha. _Não posso, Álvaro. Agora eu preciso desligar. _Não faça isso, minha gata! Você tem coragem de despedaçar um coração que bate forte por ti? Eu sei que você não é assim. Saia comigo hoje, me dê uma chance, você não vai se arrepender. _Álvaro, não dá. Agora eu preciso mesmo desligar. Tchau. _Bequinha, minha gata... não acredito, ela desligou. _Dá meu celular. _A Bequinha está mais difícil do que eu pensava, mas eu não vou desistir. _Bequinha? _Ué? Rebeca... Bequinha, simples. _E você acha mesmo que ela gosta de ser chamada assim? Depois você diz que eu preciso aprender com você. _É claro que ela gosta, só não quer reconhecer. _De quem vocês estão falando?- quis saber Gabriela. _Isso não é da sua conta. _Eu vou falar para mamãe que você me respondeu mal. _Vai lá, corre... _Eliseu, de quem ele estava falando? _Da Rebeca. _A Rebeca não quer nada com você, se liga! Você é um chato... e ainda acha que arrasa? _Garota, cale a boca! _A Rebeca é bonita, rica, legal... e você? É chato, chato e chato! _Eu já disse para você calar a boca, sua ridícula, horrorosa... cheia de espinhas e cravos, nariz grande e boca pequena. _Para com isso, eu não sou assim- disse entre lágrimas. _Calma, Gabi, Álvaro, não fale assim com a sua irmã- pediu Eliseu. _Santo Eliseu da pizza medicina! Ela é tudo isso que eu falei e muito mais... tchau para vocês, vou ligar para uma gata que eu sei que não vai fazer docinho. _Eliseu, eu sou ridícula, horrorosa e cheia de espinhas? Meu nariz é grande? _É claro que não, Gabi. Seu irmão gosta de provocar. Você tem um rostinho lindo. _Verdade? _Você duvida de mim?

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_Não... é que o Álvaro diz cada coisa! Detesto ele, gostaria que você fosse meu irmão. _Lindinha... eu gosto muito de você, agora chega de lágrimas.

Após fechar a pizzaria, Eliseu ligou para se desculpar com Rebeca. Ao tocar o celular, Rebeca pensou: “ E se for o Álvaro novamente? Não vou atender. Mas se for o Eliseu? Então é melhor eu atender”- decidiu. _Alô? _Oi, Rebeca. Sou eu, o Eliseu. Posso falar com você ? _Oi, Eliseu, é claro que sim. _Eu quero me desculpar. O Álvaro pediu para usar meu celular. _Ah... tudo bem, não foi culpa sua, como você iria saber que ele ligaria para mim? _É... eu sabia. _Sabia? _Quando ele ligou e falou com a sua mãe, eu estava perto, então ele pediu meu celular. _Ahá! Então você é culpado, não deveria ter emprestado. _É que o Álvaro é persistente e sabe como convencer alguém. _Comigo ele não tem sucesso. _Eu já percebi. _Você está perdoado porque foi sincero, mas não faça mais isso, tá? _Certo. _Eu vou embora domingo. _Já? E as aulas? _Será que dá para marcar uma antes disso? _Pode ser sábado; eu só preciso estar de volta às 16h. _Então podemos nos encontrar no shopping às 11h, pode ser? _Perfeito. Ao desligar, Eliseu pensou: “ Se o Álvaro soubesse! Será que eu estou errado? Isso seria traição? Eu não deveria sair com ela...mas é tão bom estar com a Rebeca! O que eu faço? Vou ligar e desmarcar, é isso... por causa do Álvaro e porque eu não tenho como pagar o boliche de novo, eu não posso

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sair com a Rebeca...como eu sou idiota, não tenho condições e ainda quero sair com ela? Quero, eu quero muito. Não vou desmarcar.” Sábado, Rebeca acordou cedo, se aprontou e foi até a oficina da amiga Manu, iria para o shopping direto de lá.

_Então os pombinhos irão sair hoje? Que lindo! _Dois pombinhos? _Você acha melhor os gatinhos ou os apaixonados? _Para com isso, vai. _Os seus olhos estão brilhando, isso é tão legal! Só quero ver a cara do Álvaro quando descobrir que o Eliseu conquistou o seu coração. _Manu, o Álvaro não pode nem desconfiar, com certeza iria estragar tudo. _Ele é bem atrevido... pegou o celular do Eliseu. _Fiquei tão decepcionada quando ouvi a voz do Álvaro! Mas eu tenho que reconhecer que isso teve o seu lado bom. _É lógico, o Eliseu ligou para se desculpar e vocês marcaram um encontro. _Exatamente... e olha só quem está chegando aí. _O MM? Vou precisar suportar esse cara logo cedo? _Calma, Manu. Lá vem ele... _Bom dia, meninas! _Bom dia, Murilo- cumprimentou Rebeca. _Péssimo dia- foi a resposta de Manu. _Por quê? Ah.. me desculpe, já sei, foi porque eu disse meninas, não é? _Murilo, não começa! Hoje não estou com paciência para... _Já sei de novo! Você está com TPM, certo? _Que ridículo! O que você quer? _Quero falar com o seu pai. _Meu pai saiu. Problemas com a sua lata velha? Pode deixar que eu resolvo. _Você? Nem pensar. Aí sim ela vai se tornar uma lata velha. Eu volto mais tarde. Tchau, meninas! _Que sujeitinho insuportável! Por causa desses que a Bíblia diz: “ Se possível, quanto depender de

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vós, tende paz com todos os homens.”8 Com ele não dá! Com o MM é impossível. _Que versículo! _Eu li este versículo justamente hoje, até parece brincadeira! _Eu tenho que concordar com o Eliseu. Vocês dois ainda vão acabar juntos. _O quê? Você está passando bem? Eu vou te perdoar porque você está meio avoada estes dias, tá? Só por isso. Vem comigo, eu vou pegar a minha Bíblia...está aqui... isso, leia os versículos abaixo do 18. _Tudo bem, deixa eu ver. Após ler os versículos... _Terminei. _Aí diz que a vingança pertence a Deus, que é para alimentar o inimigo e que é para vencer o mal com o bem, certo? _Certo e... _É por isso que eu ainda suporto o Murilo, é por causa desse tipo de versículo, mas não é fácil, amiga, não é nada fácil. _Você é demais! O papo está bom mas eu tenho um compromisso muito importante, ligo mais tarde. Um beijo enorme.

Eliseu chegou vinte minutos antes do horário marcado; Rebeca chegou 15 minutos atrasada. _Oi, desculpe a demora, eu fiquei conversando com a Manu e me atrasei. Podemos começar as aulas? _Bom... eu tenho uma confissão a fazer. _Confissão? _Não vai dar para ter aulas hoje. _Por quê? _É meio embaraçoso, mas eu tenho que falar. _Fala logo. _Eu vou falar mesmo que morra de vergonha, porque você me perdoou ontem por causa da minha sinceridade.
8 Romanos 12.18

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_Eliseu, você está me deixando preocupada. _É que eu não tenho como pagar as aulas hoje, eu quase liguei para desmarcar. _Que isso, Eliseu, se você não se importar, eu posso pagar, estou com meu cartão aqui, afinal eu é que pedi as aulas... e sou mais velha do que você. Tudo bem que a nossa diferença é só um mês, mas sou. Precisa me obedecer- brincou ela. _Não, nem pense nisso. Você ficaria chateada se ficar sem as aulas? _Não, mas o que iremos fazer? _Eu só tenho R$30,00 na carteira, quem mandou você sair com um cara como eu? _Eliseu, para com isso! Eu não quero que você gaste o seu dinheiro comigo... você aceitaria dividir? Podemos almoçar e... _Não me interprete mal, mas não vamos dividir, olha, nós podemos almoçar, é só não gastar muito. _Concordo. _Me desculpe, Rebeca, você não merece sair com um cara assim... _Assim como? Legal, sincero, agradável e... bom, é melhor eu parar por aqui. _Você é uma garota incrível. _Sou mesmo? E o que mais? _Assim você vai me deixar sem graça. _Tudo bem, não vou forçá-lo, vamos andar por aí? Caminharam pelo shopping durante uma hora e depois foram almoçar. _Eliseu, posso fazer uma pergunta um pouco indiscreta? _Pode fazer a pergunta, só não sei se vou poder responder. _Você deixou alguém... quero dizer... você tinha namorada? _Tinha, o nome dela era Mônica. _Deve ter sido bem difícil para vocês se separarem, vocês ainda... _Não. Este assunto é bem complicado... mas e tu? Existe um namorado em Porto Alegre, guria? _Tu, guria... _Não é assim que se fala? _É, mas eu sou daqui de São Paulo mesmo, não tem jeito. E como a Isa também é paulistana...mas eu ainda não respondi a sua pergunta. Eu tive um namorado há três anos, mas ele me decepcionou muito. _O que ele fez? Ah, me desculpe. Que pergunta mais indiscreta! _Tudo bem, o assunto é complicado também, mas eu posso contar.

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Eu comecei namorar por insistência do meu pai. Ele dizia que o Carlos Eduardo era o rapaz ideal para mim por ser filho de um grande amigo dele, por ele pertencer a uma excelente família. Para o meu pai isso quer dizer família rica, entende? _Entendo, mas foi só por isso que você começou a namorar? Não gostava dele nem um pouquinho? _O Carlos Eduardo é um rapaz muito bonito, simpático, engraçado... então eu resolvi aceitar; foi um erro. No começo foi ótimo, porque o meu pai ficou super feliz, com ótimo humor, o que é raro, então eu pensei que com o tempo eu acabaria gostando dele, mas após 6 meses de namoro... descobri que ele ficava com mais duas garotas. _Que safado! _É... uma delas veio falar comigo. Eliseu, que vergonha! Fui questioná-lo e sabe o que ele me disse? Que era normal, que se eu achava que seria a única, estava muito enganada. Que há muitas mulheres para poucos homens, que eu não deveria ser egoísta. Pode? _Que cara de pau! _E ele ainda teve a coragem de dizer que se o pai dele, que era casado, podia fazer isso, por que ele não? _O pai estava dando um péssimo exemplo e ele resolveu imitar. _Quando eu fui falar com o meu pai, ele deu razão para o Carlos Eduardo. _Sério? _Meu pai disse que depois ele mudaria, que ele fazia isso por ser muito jovem. _Que isso! _Um absurdo! A minha mãe ficou revoltada. _E agora você não acredita mais nos homens. _Não é assim, Eliseu. Eu sei que existem rapazes corretos, não posso generalizar, mas foi uma grande decepção. Ainda bem que eu não estava apaixonada por ele, senão teria sido muito pior. E você, já teve alguma decepção amorosa? _Você contou a sua desagradável experiência, então eu terei que contar a minha, mas é bem diferente da sua. Rebeca, é algo que me machuca muito. _Então não precisa me contar, quem sabe um outro dia... _Não, eu quero falar. Eu vou contar como eu vim parar aqui em São Paulo. Eliseu começou com a morte de sua mãe e a mudança nas atitudes de seu pai, depois falou sobre a mulher que conseguiu separá-lo da família e de como foi a sua chegada em São Paulo, até conhecer o reitor Sérgio. Rebeca ficou com os olhos cheios de lágrimas.

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_Eu não queria fazê-la chorar. _Eu não podia imaginar que você tinha sofrido tanto! _Você entendeu que eu não podia ficar lá? _Não dava para aguentar o desprezo, não é? _Doía muito encontrar com meu pai e ele fazer que nem me conhecia, e os comentários das pessoas? Era terrível. E se eu ficasse lá, a Jessica não poderia ver meu avô; eles estavam sofrendo muito. _Você nunca mais falou com seu pai? Já tentou ligar para ele? _Meu pai é muito teimoso e orgulhoso. Só a minha mãe sabia dobrá-lo. Rebeca, ele nunca vai reconhecer o erro. _Mesmo agora que aquele mulher fugiu com outro? _Mesmo assim. _Como pode? Ele sabe que você morou nas ruas? _Não, nem meu avô sabe. Preferi não contar. A Jessica e meu avô, só sabem que eu conheci o reitor Sérgio quando estava vendendo doces e que ele me apresentou para dona Lourdes. _Ah, você não contou que foi roubado e... _Não. Meu avô já sofreu demais, seria muito duro para ele saber que eu vivi nas ruas. _Por isso que você é tão maduro; a vida não foi nada fácil. _Mas eu agradeço muito a Deus; Rebeca, Deus colocou pessoas incríveis na minha vida. Quando eu estava na rua com o Amadeus e o Manoel, não podia imaginar que o sonho da minha mãe seria possível. Hoje eu estou estudando medicina... isso é um milagre- ao dizer isso os olhos dele ficaram marejados. _Deus colocou pessoas maravilhosas na vida de alguém mais maravilhoso ainda- disse ela. Ficaram se olhando por alguns segundos, até que Eliseu quebrou o silêncio. _Eu acho incrível como as pessoas acreditam em mim sem questionar, pessoas que não me conheciam, e...o meu pai... Rebeca se aproximou dele e começou a acariciar-lhe os cabelos. _Ah... Eliseu, é complicado entender certas coisas. _Alguém que conviveu comigo, que me viu nascer, que me ensinou tantas coisas e... e quando eu precisei contar com a compreensão dele, quando eu precisei que ele acreditasse em mim... Rebeca, eu implorei para ele. Neste momento Rebeca o abraçou, ficaram por alguns instantes somente sentindo o calor um do

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outro. Após afastarem-se, um pouco constrangidos, Eliseu continuou... _Quando meu avô disse que aquela mulher fugiu com outro, eu não senti alegria nenhuma, porque eu sei que para o meu pai isso foi muito humilhante. Rebeca, você não imagina como ele é orgulhoso. _Mas foi justo. Aqueles que pensaram mal de você, certamente reconheceram que a mulher não valia nada. E eu acho que o seu pai, no fundo, bem lá no fundo do coração dele, sabe que você não o traiu. _Eu gostaria muito de acreditar nisso. Mas mesmo assim ele nunca me diria. _Eliseu, as pessoas mudam. _Eu sei, mas eu o conheço bem. Para que um dia ele reconheça o erro, precisa acontecer um milagre. Só se ele permitir que Deus o transforme. Ele nunca foi de acreditar nestas coisas, mas depois que a minha mãe morreu, piorou, aí que ele se tornou cético. _Mas você precisa acreditar. _É... viu só com quem você está saindo? Um rapaz desprezado pelo pai, que morou nas ruas, que depende da solidariedade de um anônimo para estudar e que não pode pagar a conta de um restaurante fino... _Estou saindo com um rapaz que foi muito injustiçado, mas que é um vencedor. Um rapaz com quem eu gosto muito de conversar e que eu o achava muito esforçado, mas agora eu o admiro. _Você é uma garota muito especial, Rebeca, e...e... o que você acha de um sorvete? _Eu acho perfeito.

Com os sorvetes nas mãos...

_Tem mais uma pessoa que perdeu muito com tudo isso que aconteceu. _Quem? _A Mônica. Ela deve ter sofrido muito, eu imagino que foi muito difícil para ela ser obrigada a se afastar de você. _Eu espero que ela seja feliz. A Mônica queria vir comigo para São Paulo. _Dá para entender o porquê. _É mesmo?

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_É... e você não quis trazê-la. _Rebeca, não poderia fazer isso, em primeiro lugar por respeitar a família dela e depois porque eu não sabia como seria a minha vida aqui; já imaginou eu e a Mônica andando pelas ruas de São Paulo? _Tem razão. _Você vai mesmo embora amanhã? _Vou. Tentarei voltar em julho. _E a possibilidade de vocês voltarem? _É grande. Se tudo der certo, daqui a alguns meses estaremos morando aqui novamente. _Seria ótimo. _Seria. Eliseu, eu posso ligar para você de vez em quando? _Pode. E eu posso? _É claro. _Ótimo. Nossa, já são quatro horas! Preciso trabalhar, hoje o movimento é grande na pizzaria. _Já são quatro horas? As horas passaram tão rápido! _Também achei e eu sei o motivo. _Me fale sobre isso. Ficaram se olhando e um sorriso logo brotou dos lábios dos dois. _É melhor nós irmos- disse Eliseu, simplesmente. _Vamos, mas você vai ficar me devendo esta resposta, tá? _Não sei não... outra vez? _Vai sim, eu vou cobrar.

Ao chegar em casa Rebeca encontrou os pais discutindo. _Otávio, você não tem jeito mesmo, não é? _O que você está falando, Cristina? Eu só vou sair um pouco, posso? _Não para em casa e também nunca me deixa acompanhá-lo, por que será? _Você está ficando insuportável; eu não quero que você me acompanhe porque você sempre reclama que eu bebo e... _E não bebe?

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_Bebo só socialmente, você acha que tudo é pecado, estou cansado disso. Se você quer ser crente, eu concordo, mas não queira me converter, porque isso nunca vai acontecer. Oi, filha. _Oi, pai. Vocês estavam brigando? _Só estávamos conversando, mas eu já estava de saída, faça companhia para sua mãe, está bem? Otávio deu um beijo na filha e saiu sem sequer olhar para a esposa. _Mãe, tudo bem? _Tudo bem, querida... e como foi o seu passeio? Se divertiu? _Muito. O Eliseu é uma ótima companhia. _Só isso? Quero detalhes. Vocês só conversaram ou fizeram mais alguma coisa? _Mãe? Só conversamos, somos amigos. _Cuidado, não vá se apaixonar. _Qual o problema se eu me apaixonar por ele? _Se? Ah, não! O seu olhar... Rebeca, você já está apaixonada. _É claro que não, mãe. Eu conheço o Eliseu há pouco tempo. _Mesmo assim. Rebeca, você está interessada nele, não adianta negar, está escrito na sua testa. _Não precisa se preocupar. O Eliseu é um cara muito legal e se eu por acaso me apaixonar por ele... _O seu pai não vai aceitar. Você sabe muito bem que ele vai dizer que o Eliseu não é um bom partido para você. _Não quero pensar nisso agora. Mãe, eu passei horas maravilhosas, não estrague tudo, tá?

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Capítulo 16- Com o Álvaro Após o retorno para Porto Alegre, Rebeca manteve contato com Eliseu pelo celular. Em julho ela viajou para São Paulo. Queria participar das atividades que os jovens da igreja fariam durante o mês de férias e, principalmente, desejava passar algumas horas na companhia de Eliseu. _Você e o Eliseu estão se dando tão bem! Eu sabia que isso iria acontecer. Será que desta vez você volta para Porto Alegre deixando um namorado aqui? _Manu, nós somos amigos. _Sei... me engana que eu gosto! Quer um conselho? _Conselho? Diz aí. _Você já deve ter percebido que o Eliseu é meio devagar para esse tipo de coisa, então você deveria demonstrar. _O quê? _O que você sente por ele. _Não mesmo. _Rebeca, por que não? _Você quer que eu faça o quê? Me atire nos braços dele e diga que eu estou apaixonada? _É uma boa ideia. _Manu, eu não vou fazer isso. Eu gostaria que a iniciativa partisse dele. _Amiga, o Eliseu é meio tímido, ele precisa perceber o seu interesse. _Eu sempre digo que gosto de estar com ele. _Mas isso não está funcionando. _E se ele só gostar de mim como amiga? _Não acho... que ótimo, lá vem o MM. Nesta semana eu consertei o carro dele. _E ele deixou? Então ele está melhorando. _Ele não sabe que fui eu. _Ih... então vai dar confusão. Lá vem ele. _Oi, meninas! Manuella, o seu pai está? _Ele saiu, tem algum problema com seu carro? _Não, meu carro está ótimo. Eu vim pagar pelo ótimo serviço que ele fez. Ontem o seu Osvaldo deixou o carro lá em casa, mas eu não estava. Bom... vou deixar o dinheiro com você. Diz para o seu pai que o carro ficou nota 10. Está muito macio, parece outro carro! 148

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_É mesmo? Então o serviço mereceu nota 10... _Nota 1000! _Que bom, fico feliz. Receber um elogio seu é um grande incentivo. Vou a cada dia me esforçar mais. _O elogio foi para o seu pai. _Não, você elogiou o serviço, não foi? _Sim, o serviço dele. _Mas quem fez o conserto fui eu. O meu pai precisou resolver algumas coisas e ficou longe da oficina quase a semana inteira. Como você disse para ele que o seu pai estava sem carro e iria usar o seu para trabalhar... _Você está brincando. _Não estou. Rebeca, ganhei o dia hoje, recebi um elogio do MM! _Eu não elogiei o seu trabalho e o seu pai sabe muito bem que eu não aceito que outra pessoa mexa em meu carro. Eu já falei com ele sobre isso. _Eu sei, Murilo, mas o seu pai estava precisando do carro; por que o stress? Qual o problema? Será que você não pode, pelo menos por uma vez, reconhecer que eu fiz um trabalho bem feito? _Você está precisando de elogios? Está se sentindo inferior? Se for isso, eu posso enchê-la de elogios só por caridade. _Que engraçadinho! Eu não preciso disso. _Pois eu acho que precisa sim. Mas eu não vou fingir que gostei do serviço só para que você se sinta realizada. _Murilo, você está com problema de memória? Você já disse que gostou, tenho até testemunha! Rebeca, o que o Murilo falou sobre o conserto do carro? _Eu preciso mesmo entrar nesta discussão? Tudo bem, não faça essa cara de brava... Murilo você disse que o carro ficou ótimo. _Eu só disse isso porque o seu Osvaldo é muito legal, mas o serviço não ficou grande coisa, eu até vou levar o carro em outra oficina. _Como você é falso, Murilo! Que cara de pau... deveria ter vergonha! - disse Manu com revolta. _Eu vou embora, percebi que você está naqueles dias... _Vai mesmo, seu cínico, insuportável, mentiroso... Neste momento o pai de Manuella chegou. _Manuella, isso é maneira de falar com o Murilo?

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_Ele provocou. _Desculpe, seu Osvaldo, eu só vim pagar pelo serviço. _Certo, mas qual o motivo da discussão? _Pai, é que o seu cliente não gostou nada de ter o carro consertado por mim. _Murilo, eu não pude fazer o conserto, mas tenho certeza que ficou muito bom, não foi? _Tudo bem, a Manuella já explicou, eu preciso ir. _Então eu vou acompanhá-lo, que tal tomarmos um café na padaria, hein? Após os dois se afastarem... _Eu acho que o Murilo está precisando de uma namorada. _Rê, quem vai conseguir suportar o péssimo humor dele? _Por isso mesmo que ele precisa de alguém. Quer se candidatar? _Você está delirando e eu sei o motivo: abstinência de Eliseu. Você precisa urgente encontrar-se com ele. _Tem razão, eu preciso urgentemente. _Uau! Liga pra ele e marca alguma coisa. _É melhor não, vou esperar que ele me ligue. _Por que isso agora? _É que nesta última semana eu liguei duas vezes. _Ele sabe que você chegou? _Eu avisei que chegava hoje. _Então espere. Rebeca não precisou esperar nem mais um minuto, o celular tocou. _Oi, estou bem e você? Hoje à noite? Eu vou sim. Você conseguiu uma folga em um sabadão? Legal. Estou na oficina com a Manu. Certo, um beijo, tchau. _Ele também deve estar ansioso para vê-la. _Ele vai participar do evento dos jovens hoje à noite. _Paulo, o líder dos jovens, vai montar grupos para trabalhar nos eventos que serão realizados nos próximos meses. Você vai participar, não vai? _Vou aproveitar as duas semanas que ficarei aqui e depois... _Eu espero que logo você se mude para cá, vai ser ótimo. Você e o Eliseu vão sair depois da reunião?

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_Vamos sim. _Que sorriso! Rê, você já imaginou a reação do Álvaro ao saber que você e o Eliseu estão saindo? _O Álvaro não tem nada a ver com isso. _Será que o Eliseu também pensa assim? _Não quero me preocupar com isso agora, afinal nós só somos amigos. _Por enquanto.

Eram quase 18h, Eliseu estava se vestindo para ir à igreja, quando Álvaro entrou em seu quarto. _Oi, amigo, preciso de um grande favor seu. _Pode falar. _Sei que a minha mãe deu folga para você hoje, mas será que … acho que não... é melhor não. _O quê? Fala aí. _Eliseu, meu irmão do coração, eu sei que furo bastante nos trabalhos da igreja, o Paulo está sempre me cobrando... e hoje eu estou com muita vontade de participar, mas se eu falar com a minha mãe, ela não vai deixar para não atrapalhar a sua folga e tem mais uma coisa, o Geraldo vai sair mais cedo hoje, então vai ficar bem complicado. _O Geraldo vai sair mais cedo? E quem vai fazer as pizzas? _Pois é... vai ser osso! _Por que a dona Lourdes não me falou nada? _Ela não quer atrapalhar a sua folga. _Você vai mesmo participar da reunião dos jovens? _É claro. Estou doido para ir, mas deixa pra lá... _Eu fico, pode ir. _Sério? Você é dez! Eu te amo, meu irmão do coração! Álvaro saiu rapidamente para não correr o risco de encontrar-se com a mãe. Eliseu colocou a roupa de trabalho e foi até a pizzaria. _Eliseu? O que você está fazendo aqui? Eu não disse que hoje era sua folga? _A minha folga pode ficar para um dia menos complicado. _Nem pense nisso! E o Álvaro? _Ele foi para a igreja.

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_O quê? Não acredito! Eliseu, o Álvaro te convenceu, não é? _Tudo bem, dona Lourdes, é bom ele participar do evento dos jovens. _O Álvaro não tem jeito! Eu falei que ele tinha que ajudar aqui hoje, fui bem clara. Vou ligar para o celular dele... Minutos depois... _Tentei por várias vezes, é claro que ele não vai atender, mas isso não vai ficar assim. Eliseu pode ir para a reunião dos jovens. _Não se preocupe, dona Lourdes, eu vou trabalhar hoje, o Geraldo vai precisar sair mais cedo... _O Geraldo? Não estou sabendo disso. _Não? _O Álvaro disse, não é? _É isso mesmo. _Aquele garoto vai se ver comigo! Eliseu, saia daqui agora, vá trocar a roupa, ainda dá tempo de você participar da reunião. _Não se preocupe comigo, dona Lourdes, eu vou trabalhar hoje. Se eu fosse agora, iria chegar atrasado e ainda por cima deixaria vocês aqui com muito serviço. _Eu só concordo se você prometer que amanhã vai ficar bem longe daqui. _Prometo. _Eu sei muito bem porque o Álvaro quis ir à reunião dos jovens hoje. Ele sabe que a Rebeca chegou de Porto Alegre e que estará lá. Eliseu também pensou isso, mas achou muito estranho ele não ter feito nenhum comentário sobre Rebeca. Já passavam das oito horas e Rebeca chegou à conclusão que Eliseu não viria, ela notou a chegada de Álvaro, mas felizmente ele não havia conseguido se aproximar dela ainda. _Ele não vem mais- comentou desapontada. _Vocês não combinaram sair depois da reunião? _Ele garantiu que viria à reunião. _Se vocês combinaram, com certeza ele não vai furar. _Não sei, Manu, mas eu não vou ligar pra ele. _Espera, logo ele aparece.

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Paulo, dividiu vários grupos para a organização dos eventos que teriam. _Pessoal, agora só falta formar um grupo: o que cuidará da alimentação. O Eliseu será o responsável, ele não está aqui hoje, mas eu já falei com ele. O Murilo e a Manuella ajudarão o Eliseu. E Rebeca, eu sei que você ficará por poucos dias, mas gostaria que você participasse do grupo. Após mais algumas instruções, a reunião terminou, faltavam dez minutos para as nove horas. No estacionamento... _Não acredito que o Paulo me colocou no mesmo grupo que o MM! _De repente ele percebeu que vocês estão precisando passar mais tempo juntos. _Não gostei do comentário, Rê. Trabalhar com o Eliseu tudo bem, mas com o Murilo? _E falando em Eliseu... ele não ligou e nem apareceu. _Deve ter acontecido alguma coisa, o Eliseu não faria isso com você. _Eu não vou ligar... é melhor irmos embora. _Rê, liga... _Não. Ao entrarem no carro de Manu, o celular de Rebeca tocou. _É ele- avisou Rebeca com um sorriso nos lábios- Oi, já terminou sim. Ah... não, eu entendi, tudo bem... é sério, eu não estou chateada. Amanhã? Combinado. Beijo. _E então? _Ele precisou ficar na pizzaria. Vamos almoçar amanhã. _Viu só? Mas você ficou com uma carinha tão triste! Ah, Rê... como você está apaixonada por ele! _Eu? Não é isso, é que... _É que você está apaixonada; não me venha com aquela: é que eu gosto muito de conversar com ele, ele é legal, é só isso... _Mas é isso mesmo. _Quem você quer enganar, hein? _Está tão óbvio assim?

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_Está. Não vire agora, mas tem um rapaz se aproximando do carro. _Não me diga que... _Ele mesmo. _Ah, não... Álvaro se aproximou e bateu no vidro do carro. _ Manu, que bom te ver. Bequinha, minha gata, por que você está me evitando? Eu te amo, você ainda não percebeu? _Álvaro, me poupe! Vamos embora, Manu. _Não faça isso, tenho muitas coisas para te dizer. Vem comigo... vamos sair para conversar. _Eu vou para casa da Manu. _Depois eu te deixo lá, por favor! Eu não sei mais o que fazer. _Que drama , Álvaro! Eu sei bem o que você vai fazer. _Sabe? _Sei. Vai procurar alguém que te queira. _Como você é insensível, o que aconteceu para você ficar assim? _Chega, Álvaro. Precisamos ir. Ah, fiquei muito surpresa ao vê-lo aqui hoje. Você detesta esse tipo de compromisso. _Eu mudei, gata. Só você que não percebeu ainda. _Tchau, Álvaro. _Bequinha, para com isso, me dá uma chance. Pra que guardar mágoa? Isso não faz bem. _Álvaro, será que você ainda não percebeu que não é nada disso? _Eu sei o que é... você não me perdoou ainda. Bequinha, eu sei que você gosta de mim. _Você só pode estar brincando...está " zuando " comigo, não é? _Não. Estou falando sério. Só depois é que eu descobri que estava completamente apaixonado por você. Acredita em mim. _Álvaro, por favor, para com isso. Todo mundo sabe que você sai com todas e... _É isso que te incomoda? Se você for minha namorada eu não terei motivos para sair com mais ninguém. _Nós precisamos ir. _Me dê pelo menos a oportunidade de conversar. Vamos sair?

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_Álvaro...tá, eu saio com você hoje para esclarecer tudo de uma vez por todas, mas você precisa me prometer que vai se comportar bem. _É claro. _Entra aqui. _Meu carro está logo ali. _Vamos com a Manu. _Bequinha... _Se não for assim... _Tudo bem, então vamos nos encontrar lá na “Gaal”. _Na “Gaal”? Por que lá? _Por que não? A Manu nem precisa ficar... você estará segura lá. _Tudo bem. Álvaro se afastou e Manu olhou para a amiga sem entender. _Rê, por que você concordou? Você vai chegar lá e conversar com o Álvaro? _Sei lá... eu nem pensei direito, mas foi melhor assim. Preciso resolver a situação. E tem mais uma coisa... _O quê? _Eu queria ver o Eliseu. _Que ótimo, você vai lá conversar com o Álvaro e o Eliseu vai estar lá trabalhando, que oportunidade você vai ter? _Eu quero vê-lo só um pouquinho. Estou com saudades. _Ah, amiga... então vamos lá. Álvaro chegou primeiro e ficou esperando sem entrar, não queria encontrar-se com a mãe, pois sabia que ela o receberia com um sermão, mas com Rebeca presente, com certeza, ela deixaria a bronca para depois. _Você vai me acompanhar, não vai?- perguntou Rebeca ao estacionarem. _Pra quê? Vai lá sozinha resolver os seus problemas sentimentais. _Manu! _Estou brincando, mas eu não acho que o Álvaro vai querer que... _Eu não vou ficar sozinha sentada com ele. O que o Eliseu vai pensar?

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Álvaro aproximou-se do carro. _Minha gata... podemos ir? _Podemos. A Manu também quer comer pizza. _Ah... legal. Eliseu terminou de montar uma pizza napolitana e levantou a cabeça para ver o outro pedido, só então ele viu Rebeca e Álvaro sentados, conversando. Sentiu algo estranho ao vê-los juntos. Estava tentando entender o que ela estaria fazendo lá, quando Manu se aproximou. _Oi, posso falar um pouquinho com o meu pizzaiolo preferido? _Oi, Manu, é claro. Geraldo, volto em um minuto. _Você fez falta na reunião. _Eu queria muito ir. O Paulo me encarregou de um grupo, né? _Isso mesmo e eu faço parte, a Rebeca também e o MM. _O MM? _O Murilo. Não sei se vai dar certo, mas eu vou me esforçar. _Você consegue. _A Rebeca veio porque o Álvaro queria conversar com ela. _Eu já vi os dois juntos. _Ela só veio porque ele insistiu... você conhece o Álvaro. _É...eu tenho que voltar ao trabalho. _Então depois você vai delegar? _Do que você está falando? _Alô, Eliseu, olá! O grupo. _Ah! Certo. É... depois eu vou marcar uma reunião. Eliseu deu mais uma olhada para a mesa onde estavam Rebeca e Álvaro e depois voltou ao trabalho. _Entendeu agora, minha gata? _Álvaro, você já me disse as mesmas coisas um milhão de vezes. Eu já disse que senti algo por você, mas foi há muito tempo. Isso não existe mais.

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_Você está me castigando. _Não é isso. Rebeca já estava arrependida por estar ali. Álvaro continuava com os mesmos argumentos e ela só conseguiu ver as costas de Eliseu. Não sabia se Manu havia conseguido falar com ele, pois ela estava em outra mesa mantendo uma animada conversa com Moacir e Clarice. _Álvaro, a pizza estava ótima, mas eu preciso ir, está tarde. Amanhã eu vou à EBD. _Ainda são onze horas! _Eu estou com sono. _Se você estivesse com outra pessoa estaria com sono?- perguntou irritado. _O que você quer dizer com isso? _Só estou perguntando. _Eu estou com sono e ponto final. Vou chamar a Manu. Elas estavam se despedindo de Moacir e Clarice quando dona Lourdes se aproximou. _Já vão? Está cedo, meninas. _Precisamos ir, a pizza estava maravilhosa- disse Manu. _O pizzaiolo vai gostar de saber disso. _Vamos falar isso para ele, vem Rebeca. Nós podemos, não é? _É claro, fiquem à vontade. Lourdes se afastou e olhou para os lados procurando o filho, mas Álvaro havia saído. _Será que podemos dar uma palavrinha com o nosso pizzaiolo favorito? _Oi, Rebeca- Eliseu deu um sorriso e ela retribuiu timidamente. _A pizza estava perfeita- disse Manu. _Estava mesmo- concordou Rebeca. _Obrigado. E a conversa foi boa?- perguntou Eliseu com os olhos fixos em Rebeca. _Para falar a verdade foi complicada, mas amanhã eu explico, tá? _Tudo bem. Até amanhã então. _Até.

_Achei interessante o Eliseu fazer aquela pergunta, parece que ele ficou com ciúmes- constatou

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Manu ao entrarem no carro. _Você acha mesmo? _Claro, você não percebeu? _Eu estava tão nervosa...obrigada por você me levar até ele, valeu! Pelo menos a minha ida até lá não foi em vão, porque com o Álvaro não obtive sucesso. Continua com o mesmo blá, blá, blá... _Esqueça o Álvaro, só pense que amanhã você vai almoçar com o seu amor. _Meu amor? Ah, se ele você o meu amor... _Rebeca, você precisa demonstrar o que sente por ele. _Ainda é cedo. Na verdade eu gostaria que ele tomasse a iniciativa. _Amiga, sei lá... se você esperar pelo Eliseu eu acho que vai ficar cansada. _Será? Meu celular está tocando... será que é ele? Não é. Oi, Isa! Tudo ótimo. O que você está aprontando agora? Amanhã? Juízo, hein? Isso você não tem. É claro que não. Se tivesse não sairia com ele. Já vai desligar? Não gosta de ouvir a verdade, né? Também te amo, sua maluca. Beijão. _A Isa ainda continua saindo com aquele homem? _Continua. Diz que está apaixonada. Manu, eu acho que a minha amiga está entrando numa fria. Aquele cara ainda vai fazê-la sofrer. _Por quê? _Eu tenho essa impressão. Espero que eu esteja errada. Eram duas horas da madrugada, Eliseu acordou com algumas batidas na porta de seu quarto. _Quem é? _Eu, Álvaro. _Álvaro? São duas horas... _Abra a porta. _O que foi? Aconteceu alguma coisa?- perguntou Eliseu já abrindo a porta. _Não. Eu só quero conversar um pouco. _Agora? _É rápido. _Então fala logo. _Eu só queria falar um pouco sobre a minha gata. Você viu? Ela saiu comigo. Tudo bem que foi aqui na pizzaria, mas já é alguma coisa. Agora eu sei que ela me quer. _É mesmo?

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_Com certeza. É só um joguinho. Amigão, logo ela será a minha namorada! Eu não te contei, mas nesta semana eu sonhei com ela duas vezes e sabe o que aconteceu em meu sonho? _Não tenho a mínima ideia. _Beijos e mais beijos. Foi bom demais! Escreva isso Eliseu: Eu vou beijar a Rebeca. _É só isso? Eu preciso dormir. _Que humor! Será que a minha mãe também está assim? _Você ainda não falou com ela, não é? _Consegui escapar, pelo menos por hoje. _Amanhã você não vai ter a mesma sorte. _Eu aguento mais um sermão da minha mãe. Tudo pela Rebeca. _Que tal você ir dormir agora, hein? Depois que Álvaro saiu, Eliseu não conseguiu dormir. “Eu tinha que gostar justo da Rebeca? E agora? Eu deveria dizer para o Álvaro que estou saindo com ela, mas é só amizade... vou falar o quê? Que situação!”

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Capítulo 17- A aposta _Queridos, é fácil perdoar? É fácil pedir perdão? O que é mais fácil: perdoar ou pedir perdão? Naquela manhã, Eliseu não conseguia se concentrar na aula do irmão Timóteo, o professor da classe “ Crescendo na fé “; ele não parava de pensar nas palavras de Álvaro. _Eliseu, o que você acha? _Hã? Eu não entendi a pergunta. _Não entendeu ou não escutou? _Me desculpe, eu não escutei. _Você está com algum problema, Eliseu? Quer compartilhar conosco para que possamos orar por você? Percebi que você está preocupado hoje. _Está tudo bem. Pode repetir a pergunta? _É claro. O que é mais fácil: perdoar ou pedir perdão? _Bom... para pedir perdão você primeiro precisa reconhecer o erro, o que é bem difícil, porque aí entra o orgulho que impede que você se aproxime do outro. E mesmo que reconheça o erro, é necessário ter coragem para chegar naquela pessoa que você magoou. Nos dois casos é necessário humildade. Então eu acho que nada é fácil. _Muito bem, Eliseu. Nada é fácil, porque nós estamos falando de perdoar de coração. Queridos, eu posso dizer que você está perdoado mas lá no fundo a mágoa continua, compreendem? Então eu preciso que Deus me ensine a perdoar de verdade. E também a pedir perdão com sinceridade. Nesta semana eu gostaria que vocês refletissem muito sobre isso. E se for necessário pedir perdão para alguém, faça. Se alguém chegar até você arrependido, perdoe. Após ouvir aquelas palavras Eliseu pensou em seu pai. O que mais desejava na vida era se reconciliar com ele.” Será que um dia meu pai vai reconhecer o erro? Ele nem precisa me pedir perdão. Basta que me chame novamente de filho. Basta que permita que eu o chame de pai. Um dia, quem sabe... um dia”. Quase meio-dia, Eliseu e Rebeca se encontraram no shopping. Foram até a praça de alimentação. _Como foi a sua aula hoje? _Muito legal. A professora Kátia falou sobre relacionamentos. E a sua? 160

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_Foi sobre o perdão. _É um assunto difícil. _É... eu pensei em meu pai. _Por que você não liga e tenta falar com ele? _Rebeca, ele não vai querer falar comigo. _Tenta, quem sabe? _Eu tenho medo. _Medo? _Medo da reação dele. _Eliseu, há sempre uma possibilidade. _Eu prefiro não arriscar. _Mas você pode ter uma surpresa agradável. De repente ele está esperando que você dê o primeiro passo. _Eu já dei vários passos e ele nenhum. _Mas já faz tempo... tente. _Eu vou pensar. Mas, me fale sobre a sua aula. _Foi sobre relacionamentos... sobre namoro. Nós conversamos sobre como está difícil arrumar um compromisso sério hoje em dia. _Você acha? _Nós constatamos que várias garotas estão sem namorado. Nós estávamos em 18 e só quatro estão namorando. Três estão conversando... outras estão interessadas em alguém mas não sabem se são correspondidas... _E a qual grupo você pertence? _Eu? Em dois, eu acho. _Quais? _Eu sou uma daquelas que estão conversando e... isso é difícil... deixa pra lá. _E... Rebeca lembrou da conversa que teve com Manu e resolveu ser mais ousada. _E eu estou interessada em alguém mas não sei se sou correspondida- “pronto, falei”- pensou. _Não sabe? Ele não demonstra? _Não, eu acho que ele é um pouco tímido. _E isso incomoda.

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_Um pouco. _Você gostaria que ele fosse mais... mais... _Eu gostaria que ele fosse direto ao assunto. _É mesmo? Eu sei que ele gosta muito de conversar com você... _Eliseu, eu estava com saudades de conversar com você pessoalmente- revelou Rebeca com um largo sorriso. _E eu estava com saudades do seu sorriso. Ao ouvir isso, Rebeca sorriu mais ainda, Eliseu se aproximou e tocou levemente no rosto dela com os dedos. Os olhares se encontraram e os lábios estavam bem próximos de se tocarem... Rebeca pensou se ele podia ouvir as batidas do coração dela. Ela só estava aguardando o momento que seria beijada. _Rebeca, que coincidência encontrar você aqui! A ouvir a voz que ela não conseguiu identificar, rapidamente. _Oi, Rebeca! _Oi, é... Célia? _Oi, querida, nunca imaginei encontrá-la aqui! E a Cristina? _A minha mãe está bem. Ela não veio. _Ela está em Porto Alegre? _Isso mesmo, eu vim passar uns dias na casa de uma amiga. _Ah... quem é o rapaz? É o seu namorado? _É... quero dizer... não. O Eliseu é um amigo. _Prazer em conhecê-lo. Meu nome é Célia e eu sou amiga da mãe da Rebeca. Estudamos juntas, moramos por vários anos no mesmo bairro. _Oi , Célia. _Rebeca, dê um grande abraço em sua mãe por mim. Diga para ela me ligar. Agora eu preciso ir. Célia deu um abraço apertado em Rebeca e saiu rapidamente mandando um tchauzinho para Eliseu. _Que coisa! Encontrar a Célia aqui? - “ e que momento para ela aparecer!” - pensou. _Vamos almoçar? _Vamos, mas antes eu gostaria de falar sobre... _Sobre o quê? _Ontem. Ficou um clima meio estranho... eu não deveria ter ido na pizzaria com o Álvaro, mas eu todo o encanto se foi. Eliseu afastou-se

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pensei que seria melhor resolver logo a situação, você sabe... ele não entende que meus sentimentos por ele mudaram há muito tempo. Mas, chega de falar nele; vamos almoçar. Durante o almoço os dois conversaram bastante, mas nenhum quis mencionar o “quase beijo”. Separaram-se poucos minutos antes das quatro horas da tarde. _Não! A amiga da sua mãe tinha que aparecer justo no momento que vocês estavam quase se beijando? Brincadeira! _Pois é, amiga. Depois que ela foi embora, me deu uma vontade de perguntar : “ dá para continuar de onde nós paramos?” _Nossa, o Eliseu se encheu de coragem... ia beijá-la! Uau! _Agora, até pintar aquele clima novamente... _Não esquenta, quando menos você esperar... _Quando menos eu esperar? Manu? Você acha que eu vou conseguir agir como se nada tivesse acontecido? Agora eu estou mais ansiosa ainda! _Calma! Se ele não agir logo, você pode tomar a iniciativa. _Eu? Nem pensar! _Então, tá. Se o Eliseu demorar, eu duvido que você vai conseguir permanecer tão passiva. Vamos para o culto, já são quase seis horas. Quando o culto terminou, Rebeca avistou Eliseu conversando animadamente com Murilo. _Quer que eu invente alguma coisa para você falar com ele?- perguntou Manu. _Eu não sei. _Vamos lá, eu vou dar um jeito de vocês dois conversarem. _Manu... _Vem comigo. _O que você pretende fazer? No momento que elas se aproximaram, Murilo indagava Eliseu sobre a programação dos jovens. _Preciso marcar uma reunião. _Reunião? Então chegamos na hora certa- disse Manu. _Que bom que vocês duas apareceram. Quando podemos nos reunir?- perguntou Eliseu. _Que tal hoje? Pode ser na minha casa.- foi a sugestão de Manu. _Para mim está perfeito e para você, Murilo?

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_Tudo bem, mas não posso demorar muito, amanhã é dia de trabalho. _Então estamos combinados. Você precisa de carona, Murilo? O seu carro está aqui, ou está com problemas como sempre? Ah, acabei de lembrar... é claro que o seu carro está bom, depois do excelente serviço que eu fiz... _Me poupe, Manu, me poupe. Vamos Eliseu.

_Por que você sempre precisa provocar o Murilo? _Ele faz o mesmo comigo. _Aqui entre nós, amiga, o que você realmente acha do Murilo? _Você quer mesmo saber? _Seja sincera. _Eu acho que o Murilo é um machista insuportável. _Só isso? _E que ele não é nada criativo, pois está sempre dizendo as mesmas coisas pra mim e que é desagradável. Ah... eu detesto a voz dele. É irritante. Aquele cabelo cheio de gel, é ridículo e os olhos dele... _Vai falar mal até daquele lindo par de olhos verdes? _É muito arregalado! _Arregalado? _Você não reparou como ele arregala os olhos quando fala? _Eu não, ultimamente eu só tenho notado um lindo par de olhos castanhos bem escuros. Manu, agora fala sério comigo, você não acha que o Murilo é um gatinho? _O Murilo? Só se for um ratinho. _Que maldade! Entre os rapazes da igreja o Murilo é um dos mais bonitos. _O quê? _É verdade. _Se é para falar em beleza... o Álvaro ganha de todos, concorda? _Beleza física, sim, mas no contexto geral ele perde. _O Álvaro é alto, loiro, olhos azuis, tem um corpo de atleta... _Mas não tem conteúdo. O Álvaro só tem embalagem. _Agora, o Eliseu...

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_O Eliseu, é o tipo de cara que passa por você a primeira vez e você nem repara, mas depois... _Depois você se derrete por ele. _Com certeza. Quando ele se ofereceu para trocar o pneu, ele não chamou a minha atenção, mas eu fiquei observando e no momento que ele se afastou eu fiquei com vontade de conversar com ele, de saber quem ele era. _E quando você o encontrou na pizzaria... _Foi uma agradável surpresa. Mas o melhor mesmo foi depois que nós começamos a conversar, aí sim aquele jeitinho de bom moço me conquistou. Eu gosto daquele cabelo castanho escuro, com aquele corte bem comportado, eu adoro aqueles olhos que parecem jabuticabas... _Jabuticabas? O amor nos faz dizer cada coisa! E a boca dele? Qual fruta você vai usar? _Você está se divertindo, né? Nós estávamos falando sobre o Murilo. _É melhor continuar falando sobre o Eliseu. Você não vai gostar das comparações que eu vou fazer. Imagine eu comparando o Murilo com alguma fruta... consegue imaginar? _Agora eu fiquei curiosa. _Rê, chega! Ah... lá vem eles, fui salva. _Mãe, nós vamos fazer uma reunião rápida, tá? _Então eu vou preparar um lanche para vocês. _Não precisa se preocupar, dona Irene. _Quem falou que eu vou me preocupar, Eliseu? Vou preparar um lanche- brincou. _Ela adora fazer isso, Eliseu, agora vamos começar a reunião? _Vamos. Nós precisamos cuidar de tudo o que se refere a alimentação. O primeiro evento será sábado. Teremos um momento especial de louvor e depois um festinha para comemorar os aniversários do bimestre. _Já? Teremos pouco tempo para organizar- constatou Manu. _Nós não vamos precisar cuidar de todos os detalhes, porque algumas coisas já estão em andamento. O bolo, por exemplo, já está encomendado, os descartáveis e refrigerantes também já foram comprados. _E a decoração do salão da igreja?- perguntou Rebeca. _Então... vocês duas podem cuidar disso? _Tranquilamente, certo Rê? _Tudo bem. _Vocês só precisam pegar o dinheiro com o Paulo. O que vocês sugerem para lanche?

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_Alguém falou em lanche? Aqui estão- disse dona Irene- Estou feliz por vocês estarem aqui, deveriam fazer isso mais vezes, principalmente você, Murilo. Manu reprovou o comentário da mãe com um olhar fulminante. _Obrigado, dona Irene. E o seu Osvaldo? _Já está dormindo. Agora, vou deixá-los à vontade. Boa noite. _E então, qual a sugestão de vocês? - perguntou Eliseu. _O que vocês acham de fazer lanche de metro? - sugeriu Murilo. _Gostei, e vocês meninas? As duas concordaram, mas Manu não resistiu e comentou... _Nossa, Murilo, agora eu fiquei impressionada! Você deu uma boa ideia. _Como você é irônica! Você nem imagina o quanto eu sou bom em dar ideias... _É mesmo? Ter ideias é uma coisa boa, mas será que você consegue agir também? Duvido. Porque o Paulo disse que o objetivo dos grupos é fazer com que todos participem. Para isso vai ser necessário colocar a mão na massa... não basta ter só ideias. Enquanto os dois discutiam, Eliseu e Rebeca trocavam olhares. _Manu, isso vai ser um problema para você, porque pelo que eu sei, não haverá nenhum evento relacionado a carros. _Você pensa que eu não mando bem na cozinha? _Tenho certeza que não. _Pois você está enganado. Eu sei fazer muitas coisas. _Duvido. _Quer apostar? _Eu não quero ser cobaia, me desculpe. _Covarde. _Manuella, eu duvido que você consiga fazer um macarrão alho e óleo mais saboroso que o meu. _Você sabe cozinhar? _Sei me virar muito bem na cozinha. _Hahaha! Você só pode estar brincando! O Murilo machista sabe cozinhar? _Eu não sou machista. _Você só não aceita que uma mulher entenda de carros mais do que você. _Será que vocês dois poderiam acabar com a discussão? _Eliseu, foi ele que começou.

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_Vocês viram como ela é covarde? - perguntou Murilo. _Eu sou covarde? _É sim, você não quer apostar. _Tudo bem. Vamos apostar. _O Eliseu e a Rebeca vão julgar. _Nós dois vamos o quê? _Rebeca, é o seguinte: eu e a Manuella vamos preparar macarrão alho e óleo e vocês vão escolher qual o melhor. _Vocês estão falando sério?- Rebeca indagou. _É claro que sim, certo Manuella? _Certíssimo. _Então nós seremos as cobaias, Rebeca. _Socorro! Mas... se não vamos conseguir escapar, podemos pelo menos saber na casa de quem será a competição? _Pode ser aqui. _Não, precisa ser um um local neutro, Manuella. _Eu não posso oferecer o meu apartamento porque meus pais não estão aqui- explicou Rebeca. _Eu posso resolver isso. Vou ligar para uma pessoa- disse Eliseu. _Eliseu, me desculpe, mas eu prefiro que não seja a casa da dona Lourdes. _Não é lá, Rebeca. Esperem só um minuto... alô, Moacir? Tudo ótimo. Eliseu explicou rapidamente e após alguns segundos desligou o celular. _Tudo acertado. _Você falou com o Moacir, o professor da classe de discipulado?- perguntou Murilo. _Isso mesmo. Ele adorou a ideia, podemos marcar. Pelo menos, Rebeca, nós não seremos as únicas cobaias. _O Moacir concordou? Que legal! - disse Manu. _Ele e a esposa ficam sozinhos naquela casa... o Moacir já me disse o quanto eles sofrem por ter perdido o filho. Vocês já devem ter reparado que eles sempre participam de todas as atividades da igreja. _É verdade. Foi muito triste o que aconteceu com o filho deles- constatou Manu- então, agora só falta o dia. _Eliseu? Qual é a sua próxima folga? - quis saber Murilo.

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_Amanhã... não me olhem assim, eu sei que segunda-feira não é um bom dia, mas não tenho escolha. Já vou precisar pedir o sábado para a dona Lourdes por causa da festa. Mas se for almoço, como eu estou de férias da faculdade, pode ser qualquer dia. _Almoço não dá, eu não posso. Meu horário de almoço é muito apertado... mas pode ser amanhã, afinal eu não preciso de treinamento e muito menos de procurar desesperadamente na internet ou perguntar para a minha mãe, como se faz um macarrão alho e óleo, mas eu acho que por causa da Manuella... _Por mim está tudo certo. _Então ótimo. Ligo para o Moacir quando chegar em casa. _Murilo, cada um leva os seus ingredientes. _Ok, mas você tem certeza que não quer desistir? _Está com medo? _Parem vocês dois! Eliseu, tem mais alguma coisa sobre a reunião? _Vamos fazer uma lista do que precisa para o lanche de metro.

_Você e o Murilo, hein? Só pode ser amor- provocou Rebeca assim que os rapazes foram embora. _Não viaja, Rê! Eu não suporto o Murilo; ele é tudo o que eu detesto em um homem. Ele não tem nada a ver comigo. _Os opostos se atraem... _Para com isso. E vocês, hein? Pensa que eu não vi? _Viu o quê? _O casal apaixonado trocando olhares. _Você só tinha olhos para o Murilo, até parece que viu alguma coisa... _Chega de falar nele. Amanhã você vai ver o Eliseu novamente e sábado nós vamos preparar os lanches... muitas oportunidades para um beijo. _Oportunidades? Manu, nós não estaremos sozinhos, mas eu pretendo sair com ele, só com ele, antes de sábado. _Uau! E ele já sabe disso? _Não. Tenho que pensar em alguma coisa até amanhã à noite.

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Capítulo 18- Macarrão alho e óleo Ao abrir o portão, Eliseu logo avistou dona Lourdes que estava agitadíssima. _Aconteceu alguma coisa? _Você chegou na hora exata. A sua irmã está no telefone, venha rápido. _A minha irmã? Então deve ter acontecido alguma coisa muito séria. Alô, Jessica? Estou bem, mas e você? Algum problema? Você só queria falar comigo? É só isso mesmo? É claro que eu estou feliz por falar com você, mas por causa do horário, eu pensei que... entendi, eu sei. Você precisou esperar o melhor horário, eu compreendo. E o vovô? Ótimo. Dê um forte abraço nele por mim. Eu vou anotar, espere um minuto... pode falar. Eliseu estava anotando o número do telefone quando ouviu uma voz que lhe trazia lembranças alegres e tristes. Do outro lado da linha, seu pai estava questionando Jessica sobre a ligação. Eliseu colocou o fone mais perto do ouvido e ficou bem atento. _Você ainda não me disse, Jessica. Com quem você está falando? _Eu... é... pai... é o Eliseu- respondeu ela temerosa. José Luís ficou em silêncio por alguns segundos. Do outro lado da linha, Eliseu esperava com ansiedade as próximas palavras de seu pai. _Desligue isso, menina. Eu não conheço nenhum Eliseu. _Pai, fale com ele, tenho certeza que... _Eu já disse para você desligar o telefone... me dê isso. José Luís pegou o telefone e o colocou no gancho. Ao ouvir aquelas palavras, Eliseu sentiu um aperto no coração: “nada havia mudado”- pensou. _Algum problema, Eliseu? _Não... está tudo bem, dona Lourdes. A Jessica só queria me dar o número do telefone dela. Contar o ocorrido para dona Lourdes só faria ele sofrer mais, por isso Eliseu resolveu não dizer nada.

_E então, já pensou em como vai abordar o Eliseu?- perguntou Manu na segunda-feira durante o 169

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almoço. _Abordar? Que jeito de falar, Manu! Eu vou ser direta. Vou chegar nele e dizer: “ Eliseu, eu quero sair com você novamente, pode ser amanhã?” _Duvido! _E depois eu vou dizer: “ Eu quero que você me beije e desta vez nós não seremos interrompidos”. _Hahaha! Rê, se você tivesse coragem! _Duvida? Eu também. Ah... ele é uma gracinha! Quando ele comprime os lábios... ah, dá uma vontade de me aproximar e... _Ele comprime os lábios? _Você não reparou? Ele faz isso várias vezes. _É o amor... só pode ser amor! O que mais ele faz? _Quando fica envergonhado ele passa a mão nos cabelos. _Nossa! Rê, o jeito vai ser você tomar a iniciativa do beijo. _Ah, Manu! Eu gostaria que ele fizesse isso. _Então tenha paciência, muita paciência. _As suas perspectivas não são nada animadoras. E quanto ao jantar de hoje? Quem será o melhor? _O MM é tão arrogante! Eu vou colocá-lo no devido lugar; ele vai ver. Que sujeitinho convencido! _Você está tão confiante! _Você acha mesmo que ele sabe cozinhar? Hoje ele vai arrumar alguma desculpa, você vai ver. _Não sei não. E se ele realmente for um bom mestre cuca? _O MM só quer me provocar porque ele acha que eu não sei cozinhar. _É o que veremos. De uma coisa eu sei: hoje eu não vou beijar o Eliseu. _É... hoje vai ser difícil vocês ficarem sozinhos. _Não é só por isso. Teremos macarrão alho e óleo. E ainda por cima feito por você e o Murilo! _Engraçadinha! Naquela tarde, Eliseu recebeu uma ligação rápida de Jessica. Ela quis se desculpar pela grosseria do pai e deu a triste notícia para o irmão: ela estava proibida de ligar para ele. O pai a ameaçou dizendo que se ela o desobedecesse, ele a proibiria de ver o avô. Isso deixou Eliseu mais triste do que já estava. Na semana seguinte seria o aniversário dela e ele daria um jeito de cumprimentar a irmã pelos seus 16 anos.

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_Meninos e meninas, fiquem à vontade. Murilo e Manuella, a cozinha é de vocês. Nós vamos aguardar aqui com muito apetite- disse Moacir na maior animação. _Manuella, eu pensei que você daria alguma desculpa qualquer para cair fora da disputa. _Você até sonhou com isso, né? _Você deveria pelo menos poupar os amigos. Só de imaginar uma comida feita por você... _Você fica com água na boca. _Eu fico com a mão no nariz, isso sim. _Desagradável. _Vocês dois vão ficar aí conversando? Estamos com fome!- brincou Clarice. _Então comece, Murilo. _Primeiro as damas... mesmo que você não seja. _Chega de papo, vamos cozinhar os dois ao mesmo tempo. Eu não vou dar a oportunidade para você aprender como se faz um delicioso macarrão alho e óleo. _Concordo. Mas não vale ficar olhando o mestre trabalhar. _Mestre? Só se for o mestre do papo furado. _Eu e a Clarice vamos ficar de olho em vocês. Certo? _Legal. Ótima ideia, Moacir. Enquanto isso, Eliseu e Rebeca ficaram na sala de estar. _Você está tão calado hoje, está distante. Aconteceu alguma coisa? _Me desculpe, Rebeca, vou melhorar, eu prometo. _Algum problema? Se você quiser desabafar... _Não é nada. _Você está triste. _Vamos falar de você. Quantos dias nós ainda a teremos por aqui? _Daqui uma semana eu volto para casa. Eu se pudesse ficar... _ E a mudança? _Meus pais estão resolvendo, logo terei novidades. Vocês vão precisar colocar outra pessoa para ajudar no grupo. _Eu acho que não será necessário. _Então eu não faço diferença nenhuma no grupo. _Pelo contrário, não quero substituí-la, eu espero que você volte logo para...nós.

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Ao ouvir isso Rebeca sentiu uma vontade imensa de beijá-lo. Se eles não estivessem ali... _Que fofo! Eu adorei ouvir isso. Agora vou me empenhar ainda mais para estar aqui com... vocês. _Legal. _Estão sentindo o cheirinho? - perguntou Moacir ao entrar na sala. _Hã? É mesmo... está um cheiro muito bom- concordou Eliseu meio distraído. _Fomos expulsos de lá. Eles querem manter segredo- explicou Clarice. _Vão trazer os pratos sem identificá-los. Querem uma votação totalmente imparcial- completou Moacir. _Eles pensam em tudo- disse Rebeca. Minutos depois, Murilo e Manuella anunciaram que o jantar estava pronto. Identificaram os pratos com um número. Os jurados saborearam o jantar. Clarice havia feito uma salada para acompanhar e carne assada. _Clarice, não queríamos dar trabalho... era só uma brincadeira dos dois- disse Eliseu. _Eu amo cozinhar. Eu espero que vocês gostem. Após alguns minutos... _E então, qual o veredicto?- perguntou Murilo sem disfarçar a curiosidade. _A carne e a salada estavam deliciosas, concordam? Todos concordaram com Rebeca. _E o macarrão?- foi a vez de Manu perguntar com ansiedade. _Vamos votar?- perguntou Moacir. _Número 1 ou 2? Meu voto vai para o número... o número... _Sem suspense, Eliseu. _Calma, Murilo. Você não pode pressionar o jurado. Eu gostei dos dois, porém, o mais saboroso, pelo menos para mim, é o número... _Espera- pediu Murilo- é melhor cada um escrever, assim ninguém é influenciado pelo voto do outro. Moacir providenciou caneta e papel para todos e após poucos segundos, o resultado já estava em suas mãos. _O prêmio especialista em macarrão alho e óleo vai para... mas antes vamos aos nossos comerciais...

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_Moacir! Depois da reclamação em coro... _Muito bem, senhoras e senhores, o vencedor do prêmio macarrão alho e óleo é o número... devo dizer que a disputa foi bem acirrada... tudo bem, não me olhem assim... o vencedor é o número... devo dizer que na verdade houve... empate. _Ah, não acredito! _Murilo, você deveria ficar feliz e aliviado. _Aliviado por que, Manuella? _Por eles serem tão bonzinhos... eles ficaram com dó. O meu macarrão era o número 1. Rê, em qual você votou? _Isso não vale, Manuella- reclamou Murilo. _Sinto muito, amiga... eu votei no número 2. _Hahaha! Bem feito! _Fique quieto, MM. E você Eliseu? _No número 1. _Muito bem! O meu pizzaiolo favorito votou em mim. Clarice? _No número 1. _Então eu ganhei! Os dois que mais entendem votaram em mim. _É, Rebeca, nós dois fomos desprezados- brincou Moacir. _Vou chorar- disse ela, entrando na brincadeira. _Eu não quis dizer que vocês... _Foi exatamente o que você quis dizer, Manuella, agora não adianta querer se desculpar- provocou Murilo. _Você é mesmo insuportável. _Tudo de novo... os dois não vão chegar a um acordo nunca- lamentou Eliseu. Às 23h eles se despediram dos anfitriões, agradecendo a hospitalidade deles. Moacir e Clarice agradeceram aos jovens por terem compartilhado daquela disputa divertida com eles.

_Se o Murilo não estivesse com o carro, o Eliseu pegaria carona com a gente- lamentou Rebeca. _Que peninha! Mas, e aí? _Nada.

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_Mas vocês ficaram sozinhos... deu para conversar. _Só um pouco. Ele não estava bem. _O que aconteceu? _Não sei. O Eliseu não se abriu comigo. _Então vocês não combinaram nada? _Nadinha. Não consegui. Sabe quando não dá? Mas, pelo menos ele me disse algo que me deixou feliz. _O quê? Fala logo. _Ele disse que não vai me substituir no grupo, porque espera que eu volte logo. _Que coisa mais fofa! _Também achei. Ele falou bem assim: “ espero que você volte logo para”, aí ele fez uma pausa e completou com um “nós”. Ah, se ele tivesse dito para mim, eu acho que não ia resistir. Eu seria obrigada a dar um beijo nele. _Que sacrifício! Já imaginou ter que beijar o Eliseu? _Engraçadinha! E você e o Murilo, hein? _Aquele MM! Mas não é que ele manda bem mesmo? Leva o maior jeito! Mas isso só pode ficar entre nós. Neste momento o celular de Rebeca tocou. _Oi, Isa! Você está chorando? O que aconteceu, amiga? Calma, me conta... Depois de 15 minutos entre soluços e palavras da amiga Isa, Rebeca desligou o celular. _O que foi? _Eu sabia que tinha alguma cosia errada com aquele cara! Eu sabia! _O que, Rê? _O cara é casado. A Isa está saindo com um cara casado. O pior é que os dois estão bem íntimos. Ela se entregou para ele. E está com a menstruação atrasada. _Ai, ai, ai. Que confusão! _Quando o pai dela souber! Ele é muito bravo... a Isa morre de medo dele. _Ela já disse para o “bonitão”? _Vai falar com ele amanhã. _Que fria! _Eu falei tantas vezes para a Isa tomar cuidado... mas era um tal de “ estou apaixonada” e “ele é o amor da minha vida...”

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_O que ela pretende fazer? Vai contar para a mãe? _Ela disse que não. Por enquanto só vai dizer para o “bonitão”. Que sem-vergonha! Ele conversava com ela como se tivessem a mesma idade e dizia que estava se sentindo muito só... que precisava de alguém igual a ela. _Que lábia! Ela caiu direitinho! _A Isa está desesperada. Gostaria de poder ajudá-la. _Ore por ela, Rê. Precisamos orar por ela. _É... só Deus. Tenho medo da reação do pai dela. Eu lembro que uma garota do colégio ficou grávida, a Isa comentou na casa dela e eu estava lá. O pai da Isa disse que a menina merecia uma bela surra. Falou um monte... de repente ele olhou para a Isa e disse: “ Escute bem, se você aprontar algo parecido, eu acabo com a sua raça! “ _Meu Deus! No dia seguinte, Manu e Rebeca saíram para comprar alguns itens para decorar o salão de festas da igreja. Pararam para almoçar em um restaurante self-service; quando já estavam saindo, o celular de Manu tocou. Era Eliseu. _Pesquisar? Eu e a Rê? Eliseu, eu não posso, tenho que trabalhar. Já passei a manhã inteira fora da oficina, mas a Rê pode ir com você. Certo, eu falo para ela. Tchau. _O que foi? _Agradeça a sua amiga, vai, agradeça. _Pelo quê? _Você vai sair com o seu amado. _Vou? _Ele queria que nós duas fizéssemos uma pesquisa dos produtos que vamos precisar para o lanche de metro. Como eu não posso ir... vocês dois vão. Ele vai passar em casa às duas horas. Vamos embora. Será que eu ouvi um: “Valeu, amiga!”? _Valeu! Valeu mesmo! Obrigada, você é incrível e... _Chega. Não precisa exagerar.

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Capítulo 19 -Envergonhada Eliseu estava se arrumando para sair, Álvaro entrou no quarto do amigo e começou a contar um sonho. _Eu sonhei novamente com a minha Bequinha! Amigão, desta vez ela me beijou. Foi demais! Acordei com o sabor dos lábios dela. _É mesmo? _Eu vou beijar a Rebeca. Chega de esperar. Quando ela sentir o sabor dos meus beijos novamente, ela não resistir. Escreva isso. _Álvaro eu preciso sair. _Beleza. Eu só precisava contar para alguém... amigão, você é meu amigão, não é? _Sou, é claro. _Não, você é mais do que um amigo... você é o meu irmão. É isso. Por isso eu conto tudo para você. Irmão, vou confessar uma coisa. _Álvaro, eu preciso ir. _É rápido. A minha mãe gosta muito da Rebeca e ficaria feliz se ela fosse a minha namorada. Olha, se isso acontecesse, eu faria a minha mãe mais feliz ainda, porque com a minha Bequinha eu iria me esforçar nos trabalhos da igreja. Ela seria a minha inspiração. Seria um novo Álvaro. Participaria de todos os eventos dos jovens e até ajudaria na organização... a minha mãe sonha com isso. _ Álvaro, você não deveria depender de uma namorada para isso. _Mas eu preciso, Eliseu. Sozinho eu não consigo. A presença da Rebeca em minha vida seria um estímulo e tanto. _Bem... agora eu preciso mesmo ir. _ Valeu por me ouvir, meu irmão. Ah... posso pedir uma coisa? _ Claro. _Ore por mim.

_Vai sair, querido? _Preciso fazer uma pesquisa de preços para a festa de sábado, dona Lourdes. _É tão bom ver um jovem envolvido com as atividades da igreja... eu gostaria muito que o Álvaro 176

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fizesse o mesmo. _Um dia ele vai descobrir a importância disso, a senhora vai ver. Minutos depois Eliseu estava na casa de Manuella. _Eu prefiro que você dirija- disse Rebeca. _Tudo bem. Tchau, Manu e valeu por emprestar o carro. _Que isso. Podem demorar o tempo que quiserem, não vou usar o carro hoje. _Está melhor? - quis saber Rebeca assim que deixaram a oficina. _Estou. Me desculpe por ontem. _Não precisa se desculpar. Hoje sou eu que não estou muito bem. _É mesmo? Por quê? _Lembra da minha amiga Isa? Aquela que se correspondia com um cara pela internet? _É claro. O que aconteceu? O cara é um safado? Me desculpe falar assim. _É um safado mesmo. Ela descobriu que ele é casado. _Ih! Então ela se meteu em uma fria. _Fria? Tem mais: ela está grávida. _Não. _Sim. Ai, Eliseu, eu estou tão preocupada. _Nossa, e agora? _Ela está desesperada. Eles marcaram um encontro, ela disse que eles iriam almoçar juntos hoje. A Isa ia aproveitar a oportunidade e contar para o safado. _Que bomba! E os pais dela? _Não sabem nada ainda. Estou orando por ela e gostaria de pedir para você fazer o mesmo. _Certo. Você a Isa se conheceram como? _A família da Isa mudou-se para Porto Alegre poucos meses depois da minha. O pai dela recebeu uma proposta de emprego. Eles também moravam aqui em São Paulo. Eu conheci a Isa através de uma prima dela, a Simone, que estudava comigo. _Lá em Porto Alegre. _A Simone nasceu lá. Eu e a Isa nos tornamos grandes amigas e eu perdi o contato com a prima dela. _Aqui você tem a Manu e lá... _É isso aí. Tenho amigas muito especiais. Eu sempre quis ter uma irmã, Deus me deu duas.

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Pararam em um hipermercado e deram uma olhada rápida nos itens que eles necessitariam para o lanche. Passaram em mais dois locais. No estacionamento do último lugar, já dentro do carro... _Você me contou o seu problema, então é justo que eu conte o meu, assim você ora mais por mim. Domingo eu recebi uma ligação da Jessica... Eliseu contou sobre o desprezo de seu pai e o quanto aquilo o havia magoado. _Sexta-feira é o dia do aniversário da minha irmã, eu gostaria muito de poder falar com ela. _Eu acho que você deveria fazer mais do que isso. _Como? _Você deveria combinar um horário com a sua irmã para conversarem pela internet. Assim vocês poderiam se ver. Ela poderia ir em uma lan house. Ou ela tem conexão em casa? _Não tem. Poxa, é uma ótima ideia. Na casa da dona Lourdes tem...eu só preciso ligar na casa do Agnaldo e pedir para ele conversar com a Jessica. _Isso vai ser muito legal. _Vai ser ótimo. Quem sabe eu até consiga ver o meu avô. _É, quem sabe. Agora o sorriso voltou aos seus lábios. Eu não gosto de vê-lo triste. _Obrigado, Rebeca. Você... O celular dela tocou... _Isa? Amiga, espera, fale mais devagar. Ele o quê? Que canalha! Calma, não faça nenhuma besteira. Isa... o seu celular está descarregando? Ah... me liga mais tarde, ou melhor, eu ligo para você. Beijo. _Ele caiu fora, não é? _O canalha disse para ela resolver o problema sozinha. Pode? Não quer mais vê-la. Eu preciso voltar para Porto Alegre. Tenho que falar com a Isa pessoalmente. _Quando? _Vou só esperar a festa de sábado... isso se eu conseguir. _É uma pena que tenha que ir, mas você está certa, a sua amiga precisa de você. É melhor nós irmos

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embora- disse Eliseu dando partida no carro. _Eliseu, espera... eu... é que eu não sei quando nós teremos outra oportunidade para ficarmos sozinhos, então... Rebeca encheu-se de coragem e aproximou-se mais. Tocou a mão dele e por alguns segundos fixou o seu olhar naqueles olhos negros. Precisou de mais um pouco de coragem para aproximar os lábios. Logo ela tocou os lábios dele levemente, mas o desejo dela era que ele intensificasse o beijo. Rebeca continuou ali, na expectativa de alguma reação por parte dele. E após poucos segundos, o que para ela pareceu uma eternidade, Eliseu reagiu, mas não da maneira que ela desejava. Ele afastou-se abruptamente e disse: _Está tarde, precisamos voltar. Deu partida no carro e saiu dali sem dizer mais nada. Durante todo o caminho até a casa de Manuella, o silêncio reinou absoluto. _Oi, já voltaram? _É... valeu pelo carro, Manu. Agora eu preciso ir. Podem ficar sossegadas que eu e o Murilo vamos comprar as coisas sábado pela manhã e eu já conversei com mais alguns jovens para ajudar na cozinha. É isso. Tchau. _Tchau. O que deu nele? Por que tanta pressa? O que aconteceu? Rê, você está chorando? _Preciso entrar antes que mais alguém me veja... _Tá... vai para o meu quarto, eu só vou avisar o meu pai e já te encontro lá. Ao entrar em seu quarto, Manuella encontrou a amiga se desmanchando em lágrimas. _Rê, pelo amor de Deus, o que aconteceu? _Eu... eu... ah, Manu... como eu fui boba! _O que você fez? _Eu... fiz um papel ridículo, foi isso. Que vergonha! _Rê, me conta! _Eu segui o seu conselho e... ai, que vergonha! _Rebeca! Que conselho? Espera aí... não vai me dizer que você beijou o Eliseu? _Que ridícula! _O que aconteceu, caiu a sua dentadura? _Manuella, não é hora para piadinhas!

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_Me desculpe, eu só fiz isso para você relaxar um pouco. _Não funcionou. _Tudo bem,você beijou o Eliseu e... _Ele deve estar pensando que eu sou uma menininha boba, que não sabe diferenciar uma amizade de... _Para com isso e me explica. _Eu não vou conseguir encará-lo mais. _O que é isso, Rê? _Eu fiquei esperando ele me beijar... _Já sei, você fechou os olhos e ficou com aquela cara de boba, esperando um beijo que não aconteceu. _Pior. Eu fiquei enchendo o Eliseu de selinhos e ele... nada. _Não acredito. _Pois acredite. Ele disse que estava na hora de irmos e deu partida no carro. Simples assim. _O Eliseu fez isso? Que estranho, vai ver ele tinha comido alho ou cebola. _Manu? _Desculpe. Mas isso é bem esquisito. Naquele outro dia vocês foram interrompidos pela amiga da sua mãe e agora... _Eu confundi tudo. Ele não está interessado em mim. _Deve ser outra coisa. _O quê? Alho ou cebola? _Ele não esperava, deve ser isso. Você o deixou sem saber o que fazer. _Isso é para eu aprender. Eu nunca fiz nada parecido... resolvi dar uma de ousada e viu no que deu? _Rê, deve ter alguma explicação. Eu peguei o Eliseu olhando para você várias vezes. Não, você não confundiu as coisas. O ônibus estava demorando, então Eliseu resolveu ir a pé. Seriam só trinta minutos de caminhada. Aproveitou para se martirizar pelo que havia feito: “ Que idiota! O que será que a Rebeca está pensando? O quê? Que eu sou um idiota. Eu deveria ter correspondido àquele beijo, mas estava me sentindo como um traidor. As palavras do Álvaro não me saíam da cabeça. Eu não posso fazer isso com ele. Não quero que ele fique decepcionado comigo... meu pai me chamou de traidor e foi duro ouvir isso, principalmente por não ter feito nada; mas se o Álvaro me considerar um traidor eu terei que concordar. É... foi melhor assim... agora a Rebeca vai se afastar de mim. É melhor. Mas, como

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foi difícil resistir... como eu gostaria de tê-la beijado. Foi melhor. Eu não sou um bom partido para ela, mesmo que o Álvaro não gostasse dela. O que eu tenho para oferecer?” Á noite, Rebeca resolveu esquecer de seu problema e se concentrou nos de sua amiga, que eram bem mais sérios. Conversou com Isa e só desligou ao sentir que ela estava mais calma. Nos dias seguintes, Eliseu manteve contato por causa dos preparativos para a festa de sábado, mas só falou com Manuella. Quinta-feira, dia 15, Eliseu conseguiu conversar com Jessica pela internet, ela foi até a casa de uma amiga e levou o avô Francisco, para matar a saudade do neto. _Feliz aniversário, maninha! Você está linda!- disse Eliseu todo emocionado ao ver a irmã. _Você também está tão bonito... ah, Liseu, que saudade! - Jessica ao dizer isso estava com os olhos cheios de lágrimas. _Liseu, você está vendo esse velho feio?- vô Chico quase não conseguia falar de tanta emoção. _Eu estou vendo o avô mais maravilhoso do mundo. O senhor está ótimo. Como é bom vê-los; deveríamos ter feito isso antes. __Que coisa! Estamos tão distantes e … ah, sei lá... eu nem sei o que dizer... Liseu, como eu gostaria de poder abraçá-lo. _Eu também, meu avô querido, eu também gostaria de dar um forte abraço no senhor. _Você está bem de saúde, Liseu? Está estudando muito? _Estou bem, vô. Agora estou de férias da faculdade. _E você está namorando? _Não estou. _O que acontece com as meninas daí, hein? Elas ainda não perceberam que você é um ótimo rapaz? Mas existe alguém aí que faz o seu coração bater mais forte? _Vô? Para com isso. Falando em namorada... e a Mônica? _Ontem mesmo eu encontrei com ela no mercadinho do Agnaldo- foi Jessica quem respondeu- Ela perguntou por você. Disse que sente saudades. _E... _Você quer perguntar sobre o nosso pai, não é? _É. _Durante o dia ele consegue ficar sem beber, mas à noite não tem jeito. Não tem uma noite que ele

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não encha a cara. Eu falo com ele, peço para ele parar com isso, mas não adianta. Liseu, eu tenho medo que ele fique doente. _Ah, Jessica... e a mulher? _Sumiu. Aqui ninguém mais soube notícia dela. Ainda bem; já pensou se ela andasse com o outro homem por aqui? O papai era capaz de cometer uma loucura. _Jessica, naquele dia ele falou mais alguma coisa? _Ele desligou o telefone e me proibiu de ligar para você. Só isso. _Jessica, você ainda não tem celular? _Não, eu pedi de presente para o papai, mas ele disse que se eu tivesse um, seria quase impossível controlar as minhas ligações. Ele proibiu o vovô de me dar. Mas eu vou dar o número do celular da minha amiga, assim dá para você enviar mensagem para mim. _Ótimo. Ontem eu depositei um valor para você, na conta do vovô. _Liseu, não precisava. _Se eu tivesse condições, depositaria um valor maior. _Para com isso, maninho. Tem um presente que eu gostaria muito de ganhar. _O quê? Me diga, quem sabe da próxima vez... _O meu maninho aqui novamente, bem pertinho de mim. _Jessica, não chore. Um dia quem sabe eu possa estar aí com vocês. _Espero que seja logo. _Eu também. Olha, tenha um ótimo dia, que as bençãos de Deus estejam sobre a sua vida. Eu amo vocês. _Nós também te amamos... ah, temos uma novidade. Eu e o vovô estamos indo naquela igreja que a mamãe ia. O papai reclamou um pouco, mas... _Que ótima notícia. _Eu quero me batizar, mas primeiro preciso convencer o papai. Ore por mim, maninho. _Com certeza. Linda, tudo de bom. Manda um abraço para o Ricardo. _Mando sim. Ele sempre pergunta como você está. Liseu se cuida e vê se arruma uma namorada. Está na hora. _Vou ver o que eu posso fazer sobre isso. Amo vocês, amo muito! _Meu neto, alimente-se bem. E faça o que a Jessica pediu: namore. Mas escolha uma moça bem comportada. _Certo. Beijos para os dois. A dona Lourdes está mandando um abraço.

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Segundos depois eles desligaram. _Gabi, valeu! _Quando precisar, é só falar. Eu fiquei arrepiada quando vocês começaram. Vocês não conseguiam nem falar! Foi emocionante. _Foi mesmo. Mas, eu confesso que vê-los assim, me deu mais saudades ainda. _Eliseu, vamos orar para que vocês possam estar juntos novamente e que isso não demore. Eu já estou orando por isso. _Eu agradeço a sua preocupação, dona Lourdes. E as suas orações. Sábado, logo cedo, Murilo e Eliseu foram às compras. Antes do almoço deixaram os produtos na cozinha da igreja. Foram até o salão e encontraram Manuella, Rebeca e mais três garotas fazendo a decoração. _Olá meninas! Acordaram cedo, hein? Está muito bonito- disse Eliseu. _Valeu, chefinho!- brincou Manu. Eliseu evitou cumprimentá-las com beijo, por causa de Rebeca. esconder. _E então, compraram tudo?- perguntou Manu para quebrar o gelo. _Está tudo na cozinha, mais tarde nós voltaremos. Vocês não precisam chegar mais cedo para ajudar, porque a equipe da cozinha já está formada- informou Eliseu. _Hoje na cozinha teremos uma equipe totalmente masculina- completou Murilo. _É mesmo? De quem foi a ideia? Deixa eu adivinhar... MM. _Se o MM for eu, você está certa, Manuella. E agradeço por me chamar assim. Eu mereço. _Você bateu a cabeça, Murilo? _Estou só agradecendo a sua gentileza, mas não precisa ficar me chamando assim, eu sei que sou maravilhoso, ouço isso sempre. _Maravilhoso? Hahaha! Você definitivamente bateu com a cabeça em alguma pedra. Eliseu, não deixe que o MM dirija. _Vou tentar convencê-lo. Tchau para vocês e parabéns pelo trabalho. _Rê, pode parar de mudar os enfeites de lugar, ele já foi. _Manu, fale baixo, você quer que as meninas ouçam? _Elas estão bem distraídas do outro lado. Nossa, como você está vermelha! Rê, calma, até parece E ela queria sair dali e se

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que você cometeu um crime... _Eu nunca mais vou conseguir olhar para ele. _Que drama! _Drama? Diz isso porque não foi com você. _Quem me dera... pelo menos você teve alguma emoção forte na sua vida sentimental. _Que consolo! _Melhor do que não acontecer nada, dia após dia vivendo um TST. _TST? Isso é uma droga ou alguma doença? _Um estado de espírito. TST: Tédio Sentimental Total. _Nossa! Você está legal? _Esquece. Hoje à noite você precisa falar com o Eliseu. _Você está maluca? Está delirando? Eu acho que você não está bem. Eu não posso falar com ele. _Rê, você não quer saber o que aconteceu? _Eu já sei. A bobona aqui confundiu tudo. Ele me via como uma amiga e eu só olhava para ele com os coraçõezinhos nos olhos. Bobinha! _Amanhã você vai para Porto Alegre, precisa falar com ele hoje. _Hoje eu só preciso evitá-lo. Manu, por favor, não pergunte nada para ele. Seria muita humilhação ouvi-lo dizer o que eu já sei. _E o que você sabe? _Já disse. Manu, vai doer muito mais confirmar isso. _Que ele gosta de você como um amigo e você confundiu as coisas? _É. Para que eu vou obrigá-lo a dizer isso? _Você está enganada. Olha, se você quiser, eu posso fazer um sacrifício enorme e perguntar para o Murilo. _Não. Você acha que o Eliseu contou o que aconteceu para o Murilo? Era só o que faltava! _De repente ele se abriu com ele. _Espero que não. Manu, esqueça isso. _Antes de esquecer, me conta uma coisa... _O quê? _Como foi beijá-lo? Eu sei que foram só selinhos, mas qual o sabor, hein? _Manu, você tem cada uma! Só você para me fazer rir de uma situação ridícula como essa. Quer mesmo saber? Sabor de quero mais. Pronto, falei.

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_Uau! Então, mais um motivo para você falar com ele. _Manu! Às 19h, Paulo, o líder dos jovens, fez uma oração e anunciou que fariam um momento de louvor. O grupo começou com um louvor bem animado: “ Se tens a salvação, cante aleluia, se tens a salvação dê glória a Deus, se a sua vida está em Cristo o mal não pode te tocar, a alegria do Senhor é quem me faz glorificar”. 9 No momento de dizer.: “A alegria do Senhor, é quem me faz glorificar”, Manu cantava bem alto olhando para a amiga Rebeca, que estava com o semblante triste. Depois de algum tempo, ela foi contagiada pelo louvor e conseguiu esquecer a tristeza. O louvor seguinte dizia: “ Quando estou pronto a desistir, pensando que cheguei ao fim, a tua mão me sustenta, a tua voz me orienta, dizendo não temas, meu filho não temas...”10 Durante o louvor, Eliseu pensou em sua família e as lágrimas chegaram rapidamente. Ele começou a dizer bem baixinho: “ Ah, Pai, só Tu podes fazer o impossível... Senhor, faz um milagre na vida de meu pai... ah, Senhor... meus olhos estão em Ti. Eu agradeço, Pai, porque sempre estás comigo, porque a tua voz me orienta... “ Rebeca olhou bem discretamente para ele e percebeu as lágrimas. Ela pensou: “ Como ele é sensível... eu gosto disso nele. Deus, eu queria um presente especial vindo de Ti... eu nem se deveria pedir isso, mas eu gostaria que o Eliseu fosse meu namorado... ah, que oração? Ele nem gosta de mim. Esqueça, Senhor, esqueça. Mas, se fosse a Tua vontade, eu seria tão feliz! Se não for, então me ajude a esquecê-lo. É isso. Em nome de Jesus, amém.” Após mais dois louvores, Paulo chamou todos os aniversariantes do bimestre e fez uma oração especial. Depois todos foram para o salão de festas. Rebeca conseguiu evitar a aproximação de Eliseu durante quase toda a festa, mas na hora que todos estavam cantando o tradicional: “ Parabéns pra você”, ele aproveitou para falar com ela. _Rebeca, eu gostaria de conversar com você. Podemos ir até a cozinha? Aqui está muito barulho. Por um momento ela pensou em dizer que não, mas ao lembrar da oração feita durante o louvor, concordou. Ao chegarem na cozinha, ficaram por alguns segundos em silêncio. Rebeca, não
9 Ninguém vai me deter- Fernanda Brum 10 Meu filho, não temas- Diante do Trono- CD: Esperança.

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conseguia olhar para ele, por isso ficou mexendo em uma caixa que estava em cima da mesa. _Rebeca, só queria que você soubesse que eu falei com a Jessica ontem pela internet. Foi muito legal. Eu também vi o meu avô. _Que ótimo. O seu avô deve ter ficado muito emocionado. _Não foi só ele. É... quando você volta para Porto Alegre? _Amanhã. Se quiser comer bolo é melhor se apressar. Após dizer isso Rebeca afastou-se rapidamente. Minutos antes da meia-noite, Manuella e Rebeca estavam entrando no carro... _Oi, Bequinha. Fiquei sabendo que você vai embora amanhã. Isso cortou o meu coração. _Oi, Álvaro. Eu preciso voltar para minha casa. _O seu lugar é aqui, minha gata. Eu preciso de você ao meu lado. _Álvaro, me poupe, estou cansada. _Tudo bem, gata, eu vou deixá-la descansar, se você me der um presente. _Álvaro... para com isso. _Você nem quer saber qual é o presente que eu quero? _Dá para imaginar... _Minha gata, eu só quero levá-la até o aeroporto amanhã. Posso? _É isso? Tudo bem... esteja na casa da Manu às 8h. Agora nós precisamos ir, tchau Álvaro. _Valeu, gata! _Eu ouvi direito? Você concordou? Rebeca, o que você pretende com isso? Quer provocar o Eliseu? Quer que ele fique com ciúmes? _Que interrogatório! Ai, eu... sei lá. _Sei lá? Você está mal... está precisando ser beijada pelo Eliseu urgente. _Eu nem pensei direito... estou cansada. Mas, pelo menos você não precisa faltar à EBD amanhã. Vou com o Álvaro. _O Eliseu vai ficar sabendo. _E daí? _O seu subconsciente tramou isso. No fundo você quer saber se o Eliseu vai ficar com ciúmes. _Manu! Você tem cada uma. _Você está gostando disso... confessa! _Estou adorando! É o máximo fazer papel de boba.

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_Pelo menos você não está passando pelo TST. _Que legal! Acho que vou inventar uma também: DPB. _O que significa? _Desesperada por Beijo, não eu preciso mudar. Porque não é por qualquer beijo. Vejamos... DPBE ou DPE... sei lá. _Desesperada pelo beijo do Eliseu...desesperada pelo Eliseu. É isso, né? Que romântico! _Que ridículo! No quarto de Manuella, prontas para dormir... _Rê, liga para o Eliseu e diga assim: QSB! _O quê? _Quero ser beijada! _Boa noite, Manu. _Ou você prefere: QSBPV! Traduzindo: Quero ser beijada por você! _Boa noite, Manu. _Ou... _Boa noite, Manu. _Boa noite, Rê.

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Capítulo 20 -Aborto? _Bom dia, Eliseu, será que você poderia levar a Gabriella para a escola bíblica? Não posso ir hoje. _É claro, dona Lourdes. _Bom dia, pessoal! Está um belo dia, não acham? _Álvaro? Você madrugou! O que aconteceu? Está doente ou resolveu participar da escola bíblica? _Nenhuma das alternativas. Mamãezinha linda, hoje eu tenho uma missão muito especial. _Missão? _Vou levar a minha gata até o aeroporto. _Sua gata? Quem é ela, filho? _O Eliseu sabe, pergunte para ele. _Eliseu? _Você vai levar a Rebeca para o aeroporto? No mesmo instante Eliseu se arrependeu de ter feito a pergunta. _Não disse que ele sabia? _Se for mesmo isso eu acho ótimo. A Rebeca é uma boa moça, eu gosto dela. _E eu também, mãe. Agora tenho que ir, não posso deixá-la esperando. Bye!

Eliseu bem que tentou prestar atenção nas palavras do professor, mas pensar em Álvaro e Rebeca juntos estava tirando toda a concentração dele. “ Seria mesmo verdade? Preciso falar com a Manu.” - decidiu. Logo após o almoço, Eliseu estava em seu quarto, quando recebeu a visita de um Álvaro todo animado. _Amigão, ganhei o dia... só o dia? Não. Ganhei a semana, ganhei o mês, o ano... _Nossa, o que aconteceu? _Algo que eu queria muito! Levei a Bequinha até o aeroporto e na hora da despedida... _Na hora da despedida... _Aconteceu! Amigão, foi demais! O meu sonho se realizou. _Qual sonho? _Você é tão desligado... já contei para você que sonhava beijando a Rebeca. 188

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_Ah... é verdade. _Então... não é mais um sonho. _Você... você a beijou? _Yes, my brother! E foi demais! Yes! Que boca mais... _É... eu preciso ir até a casa do Murilo. Temos algumas coisas para resolver sobre o próximo evento dos jovens. _Quero conversar, estou tão feliz! A Bequinha é um doce...um doce delicioso. _Você não deveria falar assim. Não acho que ela gostaria... _O que você sabe, amigão? Só pensa em trabalho, faculdade, igreja... ou pensa em mais alguma coisa? Será que você anda pensando em mais alguma coisa que eu não saiba? _Álvaro, eu preciso ir. _Pode ir que eu fico aqui pensando no sabor dos lábios dela. Eliseu queria muito conversar com Manuella, mas resolveu esperar por uma oportunidade, pois ele não poderia aparecer na casa dela sem uma desculpa plausível. _Qual é o próximo evento?- perguntou Murilo. _O Paulo marcou uma festa em um orfanato, é só no dia das crianças, mas nós precisamos realizar alguns eventos para fazer uma festa bem especial. Teremos um almoço daqui a um mês. Precisamos organizar. Vamos preparar o cardápio e depois calcular o valor que será cobrado por prato. _A Manuella não vai participar da reunião também? A presença dela não faz a mínima diferença, mas como ela faz parte do grupo... _Sei. Precisamos marcar uma reunião. O Paulo, me deu uma listinha com o nome de algumas pessoas que ajudarão. Depois de conversarmos com a Manu, faremos uma reunião com todos, certo? _Certo. E a Rebeca? Será que ela volta logo? _Não sei. _Mas você espera que sim. _Por que você está dizendo isso? _Porque eu já notei o quanto você olha para a Rebeca e o quanto vocês dois conversam. Não adianta disfarçar. _É, você tem razão, mas isso não vai dar em nada.

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_Por quê? _A Rebeca não tem nada a ver comigo e também tem o Álvaro... _Não entendi. _Estou me referindo a parte financeira e você sabe que o Álvaro gosta dela, todo mundo sabe. _Gosta mesmo? O Álvaro gosta de todas...não, de todas não. Há uma exceção. _De quem você está falando? _Manuella. Aquela nem o Álvaro quer. E sabe por quê? Ela assusta os homens, a Manuella é muito independente, ela tem aquele jeitão... _Que jeitão? _Ela não é delicada, ela não tem aquela coisa que chama a atenção masculina. Esse negócio dela ser mecânica... _Que bobagem MM. _MM é? _É, agora eu tenho que concordar com ela. Você está sendo machista. _Não estou, Eliseu. Eu acho muito difícil a Manuella encontrar alguém que queira namorá-la. _Ela é muito simpática e bonita também. _Simpática só se for com você e bonita ela não é. A Manuella é muito alta, tem mãos enormes e os pés? Ela deve calçar 42. _Que exagero! Você só diz isso porque ela é mais alta do que você. _Não é por isso. E o cabelo? Cor indefinida. É uma mistura de laranja com amarelo e marrom _E também não aceita o fato dela conhecer mais sobre carros do que você. _De que lado você está afinal? Eliseu, dá um conselho para ela. _Qual? _Para ela mudar de profissão. Assim quem sabe ainda haja esperança para ela. _E também para ela não andar de salto alto? Assim você admite que está apaixonado? _O quê? Eu não estou apaixonado. Não sei de onde você tirou isso. _Do brilho de seus olhos. _O quê? Que piada! A Manuella não me agrada em nada. Ela não me atrai de forma alguma. _Então é melhor você ter uma conversa muito séria com os seus olhos, porque eles estão dizendo outra coisa. _Como você está engraçadinho, Eliseu. O assunto aqui era a Rebeca. Vê se quando ela voltar, você toma coragem e chega nela.

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_E você, quando vai tomar coragem? _Parei. É melhor conversarmos sobre o almoço especial. Eliseu saiu da casa de Murilo antes das 16h. Resolveu passar na casa da Manuella. Como não conseguiu ir direto ao assunto que o estava preocupando, ele conversou sobre os próximos eventos que teriam. Vinte minutos depois, ele tomou coragem e perguntou: _Manu, o Álvaro levou a Rebeca até o aeroporto? _Levou. _Por quê? _Ele se ofereceu e ela aceitou. _Você já conversou com ela? _Ela enviou um torpedo minutos antes de você me chamar. Disse que chegou bem. _Só isso? _É. Por que, Eliseu? O que exatamente você quer saber? _É que... esquece, é só isso mesmo. _Eliseu, por que você não liga para ela? _Eu acho que ela nem vai atender. _Será? Não custa tentar. _É verdade, só vai custar se ela atender. Piadinha sem graça, né? _Até que foi engraçadinha. Eu queria muito fazer uma pergunta para você, mas estou proibida. _É mesmo? Faça a pergunta mesmo assim. _Não posso trair a confiança de uma amiga. Eliseu, ligue para a Rebeca. É só isso que eu vou dizer. Manuella gostaria de perguntar: “ Por que você não a beijou? “ E Eliseu: “ Por que ela deixou o Álvaro beijá-la?” Em Porto Alegre, na casa de Isa... _Você está bem? Está tão pálida! _Eu vomitei. Não sei o que fazer. Logo eles vão perceber! _Calma, Isa. _Eu tentei falar com o David, mas ele deve ter desligado o celular. _Isa, você vai precisar contar para os seus pais. _Não posso! Meu pai me mataria.

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_Isa, não vai dar para esconder por muito tempo. _Eu sei, por isso que preciso resolver logo. Estive pensando muito e tenho só uma alternativa. _Qual? _Abortar. _Isa! Isso não é alternativa. Nem pense nisso. _Beca, o que você quer que eu faça? _Fale com os seus pais. Se você quiser que eu esteja junto... _Não. _Isa, o aborto é uma coisa horrível. Dentro de você existe uma vida. E você também corre riscos. _De morrer? Se eu contar que estou grávida para o meu pai, ele me mata. _Mesmo que tudo dê certo e que você não sofra nada fisicamente, você nunca vai conseguir se perdoar. Vai carregar a culpa pelo resto de sua vida. _Não tenho outra saída. _Isa, você errou ao se envolver com um cara casado, errou ao se entregar para ele, agora precisa sofrer as consequências. Uma delas é falar com os seus pais e a outra é ter o bebê. _Não posso. Eu não consigo me imaginar com uma barriga enorme e muito menos com um bebê nos braços. Ainda por cima sem o pai. Não vou suportar. _Se fizer o aborto, você não vai conseguir suportar a sua consciência. Isa, pelo amor de Deus, não faça uma loucura dessas! Isa começou a chorar e Rebeca a abraçou com carinho. _Amiga, é uma situação muito difícil, mas você precisa ser forte e enfrentar tudo de cabeça erguida. O erro já foi cometido, agora está em suas mãos não cometer um erro ainda maior. Isa, o aborto é um crime contra uma vida inocente, contra alguém que não tem a mínima chance de se defender. Pense nisso. _Eu vou pensar. _Estarei orando por você. Ore também, Isa. _Orar? Eu errei, pequei, não é assim que vocês falam? Deus não vai me ouvir. _É aí que você se engana. Deus está pronto a perdoar, basta que você se arrependa de todo o coração. Deus, não vai rejeitá-la. E ele dará forças para que você passe por tudo isso. Amiga, pense em como você irá conversar com seus pais e depois me avise, porque eu quero estar de mãos dadas com você, no momento que você contar. _Valeu, amiga. Eu vou pensar, mas agora me fale algo sobre você. Tem alguém em São Paulo que

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faça o seu coração bater mais rápido? _Tem uma pessoa sim. _Quem é? _O Eliseu. Isa ouviu Rebeca em silêncio, mas na hora que ela contou sobre o “quase beijo”, ela não conseguiu segurar. _O quê? Ele te dispensou? Que... _Cuidado, Isa, veja bem o que vai falar. E ele não me dispensou. _Não? Para com isso. Eu estava até gostando do cara, mas depois disso... que babaca! _Isa, ele não é um babaca, não fale assim dele. _Como você está apaixonada! Ele é um babaca sim. Ele teve a coragem de fazê-la de boba. _Obrigada, Isa, você está ajudando bastante. _Beca, eu estou certa. Você tomou a iniciativa, o que é incrível, e o carinha caiu fora? Babaca! Ele não merece uma menina doce e meiga como você. Nem o Álvaro conseguiu ser tão imbecil. _Isa, você não vai comparar o Álvaro com o Eliseu.

Rebeca foi para casa, meia-noite o celular dela tocou. _Isa? Aconteceu alguma coisa? _Amiga, estou perdida! Ele vai me matar! _Você contou? Eu não falei para … _Não, eu não contei. Escutei uma conversa dele com a minha mãe. Beca, ele estava dizendo que a filha de um amigo do serviço dele, está grávida e que ele ficou muito decepcionado porque era uma menina muito correta. O meu pai disse isso. O meu pai ficou decepcionado e não se conformou com a reação do amigo dele. _Calma, Isa. _Meu pai disse que o amigo dele está feliz porque vai ser avô. A menina tem 17 anos. Meu pai acha um absurdo, ele disse que ela merecia uma surra. Se ele disse isso de alguém que não tem nada a ver com ele, imagine o que ele vai dizer e fazer comigo. Rebeca, me perdoe, mas eu não vejo outra saída. Amanhã mesmo eu vou conversar com uma colega da época do colégio... eu sei que ela fez um aborto há um ano mais ou menos. Preciso pedir algumas informações para ela. Ainda bem que eu tenho algum dinheiro guardado...

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_Isa, não faça isso! Agora até parece a solução ideal, mas não é. Você não vai conseguir conviver com a culpa. Você gosta tanto de criança... _Gosto das crianças dos outros. Agora eu preciso desligar. _Não desligue, Isa. _Tchau, amiga. Me desculpe por preocupá-la com os meus problemas. _Isa... Isa... Rebeca bem que tentou falar com a amiga novamente, mas Isa desligou o celular. _Manu, eu sei que está tarde, mas eu precisava falar com alguém. É sobre a Isa. Manu, ela acha que o aborto é a melhor solução. Ela está desesperada... e eu não sei como posso ajudá-la. _Rê, você pode aconselhar, mas a decisão final é dela. Nós devemos orar para que Deus a ilumine. _Eu sei, Manu. Que situação! A Isa é muito sensível, tenho certeza que se ela cometer essa loucura, ela não vai conseguir conviver com isso. _O pior é que há muitas na mesma situação dela. Na hora que estão com o carinha dos sonhos, não pensam nas consequências. Querem é sentir a emoção daquele momento. Mas vamos mudar de assunto. Você quer uma boa notícia? _Quero, quero muito. _O Eliseu esteve aqui hoje e quis saber por que você deixou o Álvaro levá-la até o aeroporto. _Sério? _É. Ele ficou com ciúmes! Depois você diz que confundiu as coisas... _Manu, você não comentou nada sobre... _Não, mas fiquei morrendo de vontade. Ah, como eu gostaria de ter perguntado: “ Por que você não beijou a minha amiga, hein?” _Manu, por favor, não faça isso. _Eu não vou perguntar, pode ficar sossegada. Eu já sei o motivo. _Sabe? _Mas não vou contar, você não quer saber mesmo... _Manu! _Álvaro. O motivo é o Álvaro. Só pode. _E se for? O que eu posso fazer? _Esperar. Eu disse para o Eliseu ligar para você.

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_E... _Espere. _Eu não sei se vou conseguir falar com ele. _Vai sim. Se ele ligar, atenda, por favor, não seja boba.

Segunda-feira, logo pela manhã, Eliseu acompanhou Moacir até a casa de recuperação “ Vida Transformada”; passaram o dia lá e Eliseu teve a oportunidade de conversar com Rubens, o amigo que ele fez ali. No início da noite foram embora. Enquanto ainda estavam no caminho, Eliseu recebeu uma ligação de Manuella. _Eliseu, eu só estou ligando porque conversei com a Rebeca e ela estava muito preocupada com a Isa, você sabe do problema dela, não é? _Sei sim, Manu. Aconteceu mais alguma coisa? _É melhor a Rebeca contar. Ligue para ela hoje. Quer o número do telefone fixo? _Não sei se devo... _Deve sim. Anote aí... Eliseu comentou com Moacir que precisava fazer uma ligação para Porto Alegre e ele ofereceu a casa dele. _Não precisa, Moacir. _Vamos lá, assim você pode jantar conosco. _Não quero incomodar. A dona Clarice não está esperando... _Ela vai adorar.

_Que bom receber a sua visita hoje, Eliseu. _Me desculpe, dona Clarice. Ninguém gosta de receber visitas na segunda. _Quem disse isso? Eu gosto. _Vem comigo, Eliseu, enquanto a Clarice prepara um prato bem saboroso, você faz a ligação. _Tudo bem, mas assim que a conta chegar você me avisa. _Para com isso. Venha... aqui é o meu escritório. Pode ficar à vontade, eu vou lá ajudar a minha linda esposa.

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_Valeu, Moacir. Eliseu respirou fundo e depois discou o número. _Casa da família Andrade- disse Luísa, a empregada da casa. _Boa noite, a Rebeca está? _Quem gostaria de falar com ela? _ Eliseu, de São Paulo. _Só um minuto, por favor.

_Uma ligação para mim de São Paulo? Quem é, Luísa? _Eliseu. _O Eliseu? Tudo bem, Luísa, eu vou atender aqui. “ Espero que ele não toque naquele assunto, seria constrangedor mesmo pelo telefone”- pensou, depois respirou fundo e atendeu a ligação. _Alô, oi, que surpresa! _Oi, Rebeca, dá para falar agora? _É claro. Você não está ligando do celular, não é? _Não, eu estou na casa do Moacir. Rebeca, a Manu me falou que você está muito chateada. _A Manu disse isso?- “ Ai, Manu, não acredito!”- Eliseu, é melhor esquecer e... _Esquecer? Ela disse que você está preocupada com a sua amiga. _Ah... isso. Estou muito preocupada. Ela está pensando em... abortar- ao dizer isso Rebeca abaixou a voz- eu estou com muito medo que ela faça isso. Estou tentando convencê-la. _Você é uma grande amiga, tenho certeza que está usando as palavras certas. _Será mesmo? Às vezes eu nem sei o que dizer. _Sei que está orando para isso, então você está sendo guiada por Deus. _Obrigada, Eliseu. Ore por ela. _Eu já estava orando, agora vou intensificar as minhas orações. _Ótimo. _Rebeca...

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“Não fale nada sobre aquele assunto, por favor!” _Você já conversou com os seus pais sobre a mudança para São Paulo? _Pelo que o meu pai disse hoje, eu acho que até setembro nós estaremos morando aí. _Que bom. Então vamos ficar sem você no grupo por pouco tempo. _É, parece que sim. _Eu posso fazer uma pergunta? _É... pode. _Eu sei que não tenho nada a ver com isso, mas... Rebeca, por que você aceitou que o Álvaro... _Me levasse até o aeroporto? _É. Eliseu, na verdade, gostaria de fazer outra pergunta, mas se conteve. _Eliseu, eu ia com a Manu, mas como o Álvaro se ofereceu, eu achei melhor, assim ela não precisou perder a aula da EBD. _ Se você tivesse comentado comigo... _Eu... _Eu teria dado um jeito... bem, me desculpe. Eu vou desligar. _Tá. Então... tchau e obrigada por se preocupar. Continue orando pela Isa. _Certo. Tchau, Rebeca. Rebeca colocou o fone no gancho e enxugou uma lágrima: “Estávamos indo tão bem, eu tinha que estragar tudo! Se não fosse pela minha corajosa atitude de beijá-lo, tudo estaria normal. Era tão bom conversar com ele... agora está estranho. Não consigo agir com naturalidade e nem ele”. Na sexta-feira, Rebeca convidou a amiga Isa para dormir na casa dela. Separou alguns sites sobre aborto. _Isa, você sabe que a minha mãe perdeu um bebê no 5° mês de gravidez, era uma menina, eu tinha 10 anos e sofri muito, porque eu desejava ter uma irmãzinha. Eu lembro de ver por várias vezes a minha mãe chorando; foi muito triste mas ela não teve culpa de nada. Depois de alguns anos, a minha mãe comentou que mesmo após passar tanto tempo, ela ainda se pegava imaginando como seria a minha irmãzinha. Isa, se você for a responsável pelo fim desta pequena vida, que está aí dentro de você, a sua dor nunca passará. _Rebeca, eu não sei o que fazer.

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_Este site aqui mostra os métodos; há várias fotos. 11 Você está vendo como eles fazem o aborto? O feto sofre, Isa. Olha só esta técnica... eles cortam pedaço por pedaço e esta outra... _Para, Rebeca. Não quero ver. _Você precisa, Isa. Eu não posso acreditar que você vai ter a coragem de destruir o ser que está aí dentro de você. Olhe bem para as fotos, veja que absurdo! Isa, você não consegue nem olhar, vai ter coragem de fazer uma atrocidade dessas? _Eu não posso. _Por favor, Isa. Você precisa ler os depoimentos de mulheres que fizeram o aborto. Elas sofreram muito e ainda sofrem. Uma diz assim... _Eu não ouvir e nem ver isso. _Veja... é outro site, Isa: olha os bebês... veja que menininha mais linda! Não é uma graça? Já imaginou se o seu bebê tiver os seus olhos? _Rebeca, você deveria ter feito faculdade de psicologia. Tem razão, os bebês são lindos. _O seu pai pode até ficar um pouco bravo no início, mas depois ele vai ser o avô mais coruja do mundo. _Um pouco bravo? Você não está falando do senhor Fernando Caetano. Amiga, ele é capaz de apertar o meu pescoço. _Isso não vai acontecer. Isa, você já orou por isso? _Orar? Eu!? O que eu diria para Deus? _Diria para Ele que você precisa de forças, diria que você errou, mas que se arrepende e que agora deseja fazer o que é certo. Diria que sente muito por ter pensado que o aborto é uma solução para o seu problema e, finalmente, você diria que vai cuidar do bebê com muito carinho e amor. _Ah, Rebeca... As duas amigas se abraçaram e choraram muito. Nos dias seguintes, Rebeca não perdeu uma oportunidade. Quando não estavam juntas, mandava torpedos, E-mails e ligava para a amiga. Sempre tinha uma mensagem especial para Isa. Enviava fotos de bebês e quando elas saíam, Rebeca fazia questão de entrar em lojas de artigos para bebês. Orou por diversas vezes pela amiga e também junto com ela. Faltavam só três dias para o dia dos pais e Isa havia tomado a difícil decisão. _Terça-feira é o dia D.
11 http://aborto.aaldeia.net

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_Tem certeza? _Tenho. Só vou esperar para ele poder curtir o dia dos pais. _É isso aí, amiga. Vai dar tudo certo. Você tomou a melhor decisão. Estou orgulhosa de você e aliviada. Rebeca não recebeu mais nenhuma ligação de Eliseu. Só sabia notícias dele através da amiga Manu. _Ele sempre pergunta sobre a Isa e ficou muito feliz ao saber que ela resolveu ter o bebê- disse Manu. _Ele não disse mais nada? Ele me ligou há três semanas. _Perguntou se você confirmou a data da mudança. Só isso. Ele está bem calado nestes dias, dá para imaginar o motivo, né? Afinal amanhã é dia dos pais. _É verdade. É uma data bem triste para ele. O pai está vivo mas o Eliseu não pode falar com ele. _Liga pra ele, Rê. Nesta semana ele está de folga da pizzaria. Dona Lourdes resolveu fazer uma reforma lá. _Não sei... antes nós tínhamos tanta coisa para falar, a conversa fluía com muita facilidade, mas agora... e a culpa é toda minha. _Não fale assim, Rê. Você sente falta dele, então dê o primeiro passo. _Vou pensar. E o almoço especial? _Será na próxima semana. Se você pudesse vir... _Não vai dar, eu não quero deixar a Isa. Ela vai conversar com os pais terça-feira, não posso viajar agora. _Tem razão. Vamos continuar orando por ela. Amanhã, durante a aula da EBD, vou pedir para a professora Vera fazer uma oração especial. _Valeu, amiga.

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Capítulo 21 -Dia dos pais _A reforma da “Gaal sabores” veio em boa hora; deu para resolver quase tudo sobre o almoço do próximo domingo- disse Murilo sábado à noite após uma reunião dos jovens. _É...mas amanhã bem que eu gostaria de trabalhar. Não tenho nenhum motivo para faltar ao culto. _Você dizendo isso? _Murilo, digo isso por causa da data. _Ah... me desculpe, eu nem me toquei. _Tudo bem, não esquenta. O grupo de teatro preparou uma peça especial. O título é: “Reencontros marcantes”. Eu acho que na hora da apresentação eu vou aproveitar para resolver os últimos detalhes do almoço. Entro em uma da salas do 2° andar... _Eliseu, eu gostaria de saber o que dizer. _Não se preocupe. Você viu a Manu? Preciso falar com ela. _Eu acho que ela já foi embora. Ouvi quando ela comentou com a Vivi que tinha um compromisso. Deve ser alguma reunião de família, que outro tipo de compromisso seria? _Com um paquera, por exemplo. _A Manuella? Não mesmo. Eu já disse que aquela não consegue chamar a atenção de ninguém. _Murilo, você não pode estar falando sério. _Por que não? Eliseu, eu já comentei com você, mas vou repetir. A Manuella não atrai nem o Álvaro, que namora todas. Daqui a dez anos ela vai estar na mesma. _O que você quer dizer com isso? - perguntou Manu que se aproximou sem que eles percebessem. _Oi, Manu- disse Eliseu meio sem jeito- eu queria mesmo falar com você. _Oi, Eliseu, primeiro eu quero uma resposta do MM, se é que ele tem coragem para isso. _Eu estava falando que você tinha um compromisso. _Não foi isso. Você falou alguma coisa sobre nem o Álvaro... _Que coisa feia! Você estava escondida ouvindo a nossa conversa. Mais um defeito para a lista. _Quais os outros defeitos? _Quer mesmo saber? _Por favor. _Teimosa, intolerante, chata, impaciente, precipitada, autoritária, orgulhosa, egoísta, ignorante, intrometida... _Murilo, para com isso- pediu Eliseu. 200

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_Deixa ele falar, eu até estou surpresa, não pensei que você soubesse tantas palavras. Ficou estudando o dicionário? Decorou algumas palavras, mas duvido que saiba o significado de todas. Acabou? _Não. Mas eu acho que você não vai suportar ouvir tudo. _Pode falar. _É melhor você pararem. _Por que, Eliseu? Você não está curioso para ver até onde vai a sopa de letrinhas do MM? _Você pediu. Continuando: invejosa... _Invejosa? Eu? _Nossa, só agora você protestou? _Eu quero ouvir uma explicação. Por que eu sou invejosa? _Você morre de inveja da sua amiga Rebeca. Você que pediu... _Inveja da Rebeca? Seja claro. _Não, eu vou parar por aqui. _Covarde. Agora você vai falar. _Manuella, eu preciso falar com você. _Eliseu, espera só pouco. Vamos, Murilo, fale. _Você sente inveja porque ela consegue chamar a atenção... do Eliseu, por exemplo, e você não atrai nem o Álvaro. _Não me envolva nos assuntos dos dois, por favor- pediu Eliseu. _Como você é ridículo, Murilo! Cansei. _Viu como eu tenho razão? Toquei na ferida. _Eu sempre me pergunto como é que o Eliseu, que é um cara super legal, consegue ser seu amigo. _Está se declarando? _O quê? Você não bate bem. _O Eliseu é um cara super legal... _O que você está insinuando? _Manuella, você precisa se conformar... _Com o quê? Diz aí. _Ou então mude. Quem sabe você consiga conquistá-lo. _Murilo, você não sabe o que falando. _Eu sei, muito bem, Manuella. Eu vou colocar mais dois defeitos na sua lista: covarde e falsa.

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_Manuella, eu converso com você amanhã. Murilo, vamos embora, você está indo longe demais. Eliseu puxou o amigo, mas ele insistiu em ficar. _Eu não sou covarde. Ela quer ouvir... _Você é insuportável. _E você é... _Chega, Murilo... vem comigo. Eliseu conseguiu levar Murilo até o estacionamento. _O que foi aquilo, Murilo? _Eliseu, ela quis saber. _Você a ofendeu. Ela deve ter ficado bem chateada. _A Manuella? Ela é insensível. _Eu já entendi... você está com ciúmes. _Ciúmes? Ah... você só pode estar brincando! Eu com ciúmes da Manuella? _Você acha que ela está interessada em mim, não é? _Eu tenho certeza disso, mas eu não estou com ciúmes. Para isso eu teria que sentir alguma coisa por ela, além de pena. _Pena? Se abre com comigo, Murilo. Pode ficar tranquilo, a Manuella gosta de mim como um amigo. _Amigo, é? Sei. _Você está apaixonado por ela, mas não sabe como administrar isso. _Se a Manuella ouvir, acabará acreditando e irá se encher de esperanças. Ela ficará aliviada ao pensar que vai desencalhar; isso é pura maldade, vai criar uma expectativa que não se concretizará jamais. _Nossa, como você é convencido! Acha mesmo que ela iria gostar de saber do seu segredo? _Segredo? Não há segredo algum. _Tem razão, não dá mais para esconder. Está escrito na sua testa: “Estou apaixonado pela Manuella e não sei como vou me declarar”. _Que coisa mais absurda! _Ela ficará muito surpresa.

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_Se a Manuella ouvir isso, eu vou ser motivo de piadas e ela vai ficar toda orgulhosa. _É disso que você tem medo. Murilo, não tenha medo de ser feliz. _Ah... chega. Ao chegar em casa, Eliseu resolveu ligar para Rebeca. “ Pelo menos eu tenho uma boa desculpa”pensou. _Eliseu? Oi, tudo ótimo. _Rebeca, vou ser bem rápido, estou no celular e meus créditos estão acabando... você falou com a Manu hoje? _Falei com ela antes de almoço. Por quê? _Dá para você ligar para ela agora? Ela e o Murilo tiveram uma discussão feia, após a reunião dos jovens. _Grande novidade... aqueles dois só brigam! _Mas o Murilo exagerou, eu acho que ela ficou bem chateada. Ele insinuou uma coisa... é... fale com ela. Agora, eu vou desligar. Espero que tudo corra bem terça-feira. Estou orando pela Isa. Tchau, Rebeca. _Eu vou ligar para Manu agora mesmo. Eu agradeço as suas orações e...Eliseu...eu espero que amanhã você tenha um ótimo dia, apesar de tudo. Você e seu pai estão distantes um do outro... _Rebeca, se a distância fosse só física seria fácil, bastava um telefonema. Mas eu estou distante do coração dele e não vejo solução para isso. _Eliseu, eu sinto muito. Um dia... _Rebeca, eu preciso desligar agora. Tchau. A vontade de Rebeca, naquele instante, era estar ao lado dele e abraçá-lo. Dizer que um dia ele receberia um abraço do pai e um pedido emocionado de perdão. _Oi, Rê. Estou bem. _Tem certeza, amiga? _Que pergunta é essa? Ah... já sei. Você recebeu uma ligação, não foi? _Não consigo te enrolar, né? _Não mesmo. O Eliseu contou tudo? _Ele só disse que você e o Murilo discutiram feio. Sem detalhes. _Eu fiquei com uma vontade de...

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_De beijá-lo. _Beijar o Murilo? Que nojo! Vontade de arrancar o pescoço dele, isso sim. Que sujeitinho ignorante e abusado. Ele fez uma lista de meus defeitos, pode? E ainda insinuou que eu estou interessada sabe em quem? _Quem? _Eliseu. Pode? Disse que eu sinto inveja porque você consegue atrair o Eliseu e eu não. Ele disse mais: eu não consigo atrair nem o Álvaro. _Espera aí... o Murilo disse que o Eliseu... você vai me dizer as palavras exatas. _É mesmo, nem tinha pensado nisso... eu fiquei tão nervosa! Até que aquele insuportável disse algo interessante. Deixa eu pensar... ele disse que você consegue... eu vou lembrar... você consegue chamar a atenção, é isso. _Ele disse que eu consigo chamar a atenção do Eliseu? _É isso mesmo. _Se ele disse isso é porque o Eliseu comentou alguma coisa, certo? _É, faz sentido. Ou é dedução do Murilo. _Qual foi a reação do Eliseu? _Ele disse para não envolvê-lo... acho que foi isso. _Então ele não negou. _Não. Rê, pelo menos a minha discussão com aquele machista insuportável serviu para algo bom. _Manu, me desculpe. Estou sendo egoísta. O Eliseu disse que você chateada. _Eu nem ligo. Você acha mesmo que eu vou me preocupar com a opinião do Murilo? _Eu acho. Manu, seja sincera. _É claro que não é nada legal ser chamada de invejosa, teimosa, falsa e outras coisinhas... mas, vindo do Murilo, o que eu esperava? Agora, eu quero saber da Isa.

Eram cinco horas da manhã de domingo, dia dos pais. Eliseu, que não havia dormido direito, já estava acordado. Sua mente fazia uma viagem ao passado. Lembrava do último dia dos pais que passou ao lado de seu pai. Almoçaram em um restaurante. Estavam todos juntos: Vovô Chico, Jessica, ele e pai. Eliseu e Jessica compraram um rádio de presente para Chico e uma vara especial de pesca para o pai. Foi um dia muito feliz. “ Se ele pelo menos me ouvisse, se me desse uma chance para explicar o que realmente aconteceu... será que ele pensa em mim? Será que ele gostaria

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que eu estivesse com eles, hoje? Que vontade de estar lá e conversar com ele sobre a faculdade. Contar o quanto eu estou bem em meus estudos e falar sobre os amigos que fiz aqui...” O almoço na casa de dona Lourdes não foi nada animado. Eliseu ficou calado a maior parte do tempo, Gabriella, que desde cedo estava com um álbum nas mãos, falou sobre o pai o tempo todo, dona Lourdes bem discretamente enxugava as lágrimas, Álvaro comeu rapidamente e saiu dizendo que não estava aguentando mais aquela sessão nostalgia. Como a pizzaria estava em reforma, todos foram para o culto da noite, com uma exceção: Álvaro. Pastor Moisés iniciou o culto com uma leitura em Lucas 15.20-32. Após três louvores, o grupo de teatro apresentou a peça : “Reencontros marcantes”. A primeira história representada foi a de José e Jacó, em seguida contaram sobre o reencontro do filho pródigo e seu pai e por último eles apresentaram algumas histórias de irmãos da igreja que se reconciliaram com Deus, o nosso pai. Eliseu se emocionou muito, principalmente na hora do abraço que José deu em Jacó. Ele ficou imaginando se um dia teria a oportunidade de abraçar o seu pai novamente. Pastor Moisés deu uma mensagem especial: _Amados, como é bom ver filhos e pais em um reencontro tão marcante. Imagine como estava o coração de Jacó ao avistar o seu amado filho José. O filho que ele pensava estar morto, o filho que ele pensava que nunca mais poderia dar um abraço. Sim, aquele filho amado, estava vivo e ele ia ter a oportunidade de senti-lo bem pertinho novamente. Que emoção! Quais foram as primeiras palavras que Jacó disse a José? E José, o que disse ao pai amado? Certamente foram palavras cheias de amor. Imagine aí: “ Meu filho, meu filho amado! Como eu agradeço a Deus pela sua vida, meu filho, meu filho! José, meu amado filho!” E José? “ Pai, meu pai... pai, que saudades, pai! Como eu o amo, pai! Meu amado e querido pai!” Eu imagino que eles repetiram por várias vezes: “ meu pai” e “meu filho”, porque eles foram impedidos de falar estas doces palavras, por longos anos. Na leitura que fiz no início do culto, li sobre o retorno do filho pródigo; ele disse: “...já não sou digno de ser chamado teu filho”12; agora, você acha que o pai iria concordar com ele? É claro que não. O pai o recebeu de braços abertos, como filho. Por quê? Porque o seu coração de pai o perdoou. O que importava naquele momento era que o seu filho havia voltado. E o filho que ficou? Ao saber do retorno de seu irmão, ficou revoltado. Para ele, o pai não deveria tê-lo recebido. Ficou com inveja
12 Lucas 15.21

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do que estava sendo oferecido para aquele filho esbanjador. Mas, o pai também estava com os braços abertos para ele. O pai disse: “ Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu.”
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Aquele pai, ficou por um bom tempo, sem ouvir “pai”, daquele filho que se foi; agora, não queria

que acontecesse o mesmo com o seu outro filho. Querido pai, que está aqui hoje, se você é um que também não fala “filho” ou “filha” por muito tempo, seja por qual for o motivo, fale agora, desabafe, diga: “ Meu filho ou minha filha”, mas fale com o seu coração. E você, querido filho, que não diz “pai” há algum tempo, diga hoje: “ Meu pai “. Fale aqui, agora. Bem baixinho, ninguém precisa ouvir. Talvez você sinta a necessidade de dizer em voz alta, então o grupo de louvor vai cantar, assim você terá oportunidade. Você também pode falar com o nosso pai, que está no céu. Fale com Ele. É tão bom saber que por intermédio de Jesus Cristo, nos foi garantido o direito de chamar Deus de pai. Então use e abuse. Diga: “Pai”. Encha a boca e diga de todo o coração nesta noite: “Meu querido e amado pai”. O grupo de louvor começou: “ Pai, estou aqui, olha para mim, desesperado por mais de Ti... ”14 Eliseu acabou ficando; assistiu a peça, ouviu o sermão do pastor Moisés e aproveitou aquele momento para repetir aquela palavra que tinha um significado tão especial: “ Pai, pai... ah, pai. É tão bom poder dizer... pai. Meu Deus e pai. É maravilhoso poder chamá-lo de “Pai” e saber que nunca me proibirás de dizer. Pai... meu pai!”

13 Lucas 15.31 14 Nos braços do Pai- Diante do Trono

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Capítulo 22- Vinte e dois de setembro Enfim havia chegado o dia que Isa falaria com seus pais. Eram quase sete horas da noite, quando Rebeca chegou à casa da amiga. _Quer jantar conosco, Rebeca?- perguntou Marli, a mãe de Isa. _ Obrigada, eu aceito sim. _A Isa está no quarto, pode ir até lá. Eu aviso quando estiver tudo pronto. _Oi, amiga. E aí? Está tranquila? _Por incrível que pareça, sim. Eu até pensei que não conseguiria dormir a noite passada mas tive um soninho tão bom. E hoje trabalhei como se fosse um dia comum. Devem ser as orações. _Com certeza. Qual o horário que o seu pai chega? _Já deve estar chegando. Nós vamos jantar e depois eu aviso que tenho algo importante para falar. O jantar transcorreu tranquilamente. _Se eu soubesse que você viria aqui hoje, Rebeca, teria preparado um pudim de leite- disse Marli. _Ah, então nós não merecemos um pudim de leite, não é?- brincou Fernando. Rebeca sorriu e deu uma olhada para a amiga. Isa também sorriu e disse com o olhar: “ É agora”. _Pai, mãe, eu preciso contar uma coisa muito importante para vocês. Enquanto isso, Rebeca fazia a sua oração silenciosa. _Coisa importante? O que seria?- perguntou Marli com ansiedade. _Menina, veja lá o que vai dizer- disse Fernando em um tom nada encorajador. _Eu... bom... não vou enrolar. Eu cometi um erro muito grave. _Isabel! O que você fez?- perguntou Fernando e em seguida se levantou. Marli não disse nada, só ficou olhando para filha, estava bem apreensiva. _Eu... eu estou grávida. _O quê? Você só pode estar brincando. _Calma, Fernando- pediu Marli. _Calma? A sua filha diz que está grávida e você pede calma? Isabel, diga que isso é uma brincadeira de mau gosto. _Pai, me escuta, por favor. Eu sei que errei... 207

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_Sabe que errou? Quem é o sujeitinho covarde que fez isso com você? Ele deveria estar aqui agora. _Ele não quer saber e eu nem tenho como entrar em contato com ele. _Como é que é? Me fale logo o nome do safado. Você sabe quem é, Rebeca? _Não conheço. _Pai, eu conversava com o David pela internet... _Internet? Está vendo só, Marli? Ela passava horas no computador e você nunca fez nada, nunca colocou limites, e não venha me dizer que ela é maior de 21. Qual é o endereço dele? _Eu não sei, pai. _Você não sabe? Você está me dizendo que está grávida de um cara que você nem conhece direito? _Pai, eu pensei que conhecesse. _Ah, pensou. Você não pensou nada, menina, se tivesse parado um pouquinho para pensar, não teria... _Fernando, fique calmo, você pode passar mal- pediu Marli. _Qual a idade do infeliz? _Pai, o que importa agora? _Qual a idade? _34 anos. _O quê? 34 anos... o sujeitinho se aproveitou de você. Como você foi boba. Ele deve ser até casado. _Pai, eu peço que me perdoe... _Ele é casado, não é? _É. Eu juro que não sabia. Ele só contou depois... _É claro. Isabel, eu pensei que você fosse mais inteligente. Você caiu direitinho. _Eu fui uma boba. Pai, mãe, eu gostaria que vocês me perdoassem. Eu errei e ia cometer um erro maior ainda se não fossem os conselhos e o apoio da Rebeca. Ela orou comigo e... _Você pensou em abortar?- perguntou Marli- Filha, pelo amor de Deus... _Pensei, mãe. Eu estava desesperada. _Só faltava essa! Graças a Deus que você não cometeu essa barbaridade. Aborto é crime, menina! E você poderia morrer ou sair machucada disso. _Eu sei, pai. Eu estava com muito medo da reação de vocês. _Eu estou muito chateado com você, Isabel, mas se você tivesse cometido um aborto, eu estaria completamente decepcionado e nem sei se a perdoaria. _Obrigada, Rebeca, por colocar um pouco de juízo na cabeça da Isa.

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_Não precisa me agradecer, Marli, é para isso que servem as amigas, não é? _Agora eu estou entendendo o que o seu Marcos me disse na semana passada. Ele é evangélico e trabalha na empresa há mais de vinte anos. Ele disse bem assim:”Fernando, eu sempre oro por você e pela sua família, mas nesta semana estou orando muito mais. Você vai precisar de muita paciência nos próximos dias. É só isso, agora pode continuar o seu almoço”; ele estava certo, haja paciência! _Quantos meses você está? _Eu não sei, mãe. Acho que três. _Fernando, ela precisa ir ao médico. _Eu sei. Pode marcar a consulta. Isabel, eu quero saber mais sobre o tal... _David, pai. _É isso. Isabel, a notícia de você nos deu hoje foi uma bomba, mas não precisa ficar com medo de mim. Eu imagino que você já sofreu muito com tudo isso e agora terá uma grande responsabilidade pela frente. Nós podemos ajudar, mas não se esqueça que o bebê é seu. Trinta minutos depois, Rebeca se despediu de todos. Isa, deu um forte abraço na amiga e agradeceu muito pela força. No dia seguinte, Rebeca ligou para a amiga Manu e contou a novidade. Agradeceu a oração de todos, pois sabia que a amiga havia mencionado o nome de Isa em uma das aulas da EBD. _Ligue para o Eliseu, Rê, ele vai ficar feliz. _Não. É melhor você contar para ele. Diga que Deus agiu de maneira maravilhosa. O pai dela ficou bravo, é claro, mas depois reagiu muito bem. Deus usou alguém para conversar com ele alguns dias antes. _Foi benção! Mas, Rê, aproveite a oportunidade, ligue para o Eliseu. _Não. Eu estraguei a amizade que havia entre nós. Agora não consigo mais conversar com ele. _Que bobagem, Rê. _Manu, eu sei muito bem do que estou falando. E o almoço especial? _Está chegando. Teremos feijoada. _Hum, que delícia! Faz tempo que eu não saboreio uma feijoada. _Então voe para cá. Você vai perder a chance de estar ao lado do Eliseu a manhã inteira? Ele vai trabalhar na cozinha e você pode fazer parte da equipe também. E depois... feijoada! _É uma oferta tentadora, mas eu não posso.

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_Rê, está tudo bem com a Isa. _Eu sei, mas mesmo assim não vai dar. _Você não quer enfrentar o Eliseu, é isso. Não se preocupe, ele é bonzinho. _Engraçadinha! Eu tenho outra novidade. _É sobre a mudança? _Isso mesmo. Será no dia 22 de setembro. _Que legal! Vai ser ótimo ter você aqui com a gente. _Ah, o meu irmão veio nos visitar. Fiquei tão feliz! Fazia tempo que ele não aparecia.

O almoço especial organizado pelos jovens foi um sucesso. Os outros grupos montaram barracas. Algumas vendiam doces e outras artigos de artesanato, feitos pelas senhoras e senhores da terceira idade. Havia até lindos barquinhos de madeira, feitos com o maior capricho. Manu contou as duas novidades para Eliseu. _Graças a Deus! Eu estava muito preocupado com a amiga da Rebeca. _Você não vai comentar nada sobre a outra novidade? _A mudança da Rebeca? Será ótimo tê-la aqui; ela poderá participar de todas as atividades dos jovens. _Só por isso? _ É... vai ser ótimo. _Eu não deveria falar sobre isso, mas não vou conseguir ficar calada. Eliseu, eu sei o que aconteceu entre vocês dois. A Rebeca está com muita vergonha. Ela diz que a atitude dela estragou a amizade de vocês. _Eu pensei que ela estivesse chateada comigo. _Não está. Eliseu, ela acha que confundiu as coisas. Ela confundiu? Não precisa me responder, eu já sei a resposta e se eu estiver certa, assim que ela chegar, você é que vai tomar uma atitude. Naquela noite, Eliseu pensou muito nas palavras de Manu. Resolveu conversar com Rebeca, mas esperaria ela chegar. Não queria falar pelo telefone, aquele era um assunto para se falar olhando diretamente nos olhos dela. Também decidiu que falaria com Álvaro após a conversa com Rebeca.

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_Murilo, eu reparei que você e a Manu não estão brigando mais- disse Eliseu em uma tarde de sábado. _Sabe por quê? Porque só estamos conversando o essencial. Na reunião que você fez, com o pessoal que vai trabalhar no próximo evento, ela nem falou comigo. _Está com saudades. _Saudades? Para com isso, Eliseu. É uma situação chata. Logo vão perceber que há alguma coisa errada. _Você que procurou isso. _E ela provocou. _Converse com a Manu. Alguém precisa ceder. _ Não serei eu. A Rebeca chega na próxima semana, não é? _É isso mesmo. _Está ansioso? _Eu? Por que estaria? - Eliseu sorriu ao dizer isso. _ Porque você está apaixonado. Confessa. _Só se você confessar o seu amor pela Manu. _Esquece.

Rebeca chegou na tarde de sexta-feira e à noite foi até a casa da amiga Manu. _Você saiu com a Isa para comprar roupinhas de bebê? Que legal! É ótimo ouvir isso. _É mesmo. Ela está toda preocupada se vai ser uma boa mãe. Comprou várias revistas, daquelas de bebês. Se for menino, o pai dela vai escolher o nome, se for menina, a decisão será da mãe dela. A Isa fez ultrassom há uma semana e ainda não deu para ver. _Com quantos meses ela está? _Quase cinco meses. _Você comentou que o Rodrigo esteve lá. Ele veio com vocês? _Meu irmão? Ele não anda com meu pai. Os dois não se entendem. Um é mais teimoso que o outro. Fiquei feliz em vê-lo. Ele quase não aparece em casa, porque as conversas com meu pai quase sempre acabam em discussão. _Com a sua mãe ele se dá bem, não é?

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_Muito bem, ele diz que ela é a mãezinha do coração dele. Minha mãe faz de tudo para pai e filho se entenderem, mas é tudo em vão. Não sei qual é o mais teimoso. _E o trabalho dele? _É o principal motivo da briga dos dois. O Rodrigo estava me mostrando algumas fotos que ele tirou na África, meu pai chegou bem na hora e começou a criticar. Foi muito chato. _Que pena. Rê, amanhã eu preciso ir ao shopping, quero comprar uma sandália, você pode ir comigo? _É claro. Podemos almoçar lá, o que você acha? _Perfeito. Manuella fez uma ligação para Eliseu assim que a amiga saiu. _Cristina, você está ficando cada dia mais insuportável- dizia Otávio quando Rebeca chegou ao apartamento da família. _Se dizer que você precisa ser mais compreensivo com seu filho é ser insuportável, então eu sou mesmo. _Isso não é assunto seu. O filho é só meu. _Agora você diz isso, mas quase nunca lembra que tem um filho. _Eu não vou mais discutir com você, preciso sair. _Já são quase onze horas... _E daí? Vou sair e não precisa me esperar acordada. E a Rebeca? _Estou aqui. Vocês estavam discutindo? _E você estava escondia atrás da porta, menina? Que coisa feia! Cristina, você deveria usar o seu tempo para ensinar algo para a sua filha. E onde você estava? _Na casa da Manu. _Tem certeza? Cuidado, Rebeca, não vá se envolver com qualquer um por aí; viu o que aconteceu com a sua amiga Isabel? _Pai? Eu só fui na casa de uma amiga. _Eu espero que sim. Boa noite para vocês, agora eu preciso sair. _Mãe, está chateada, não é? _Ah, filha... eu gostaria que as coisas fossem diferentes. Seria tão bom se o seu pai e o Rodrigo se entendessem...

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_Seria maravilhoso. _Você saiu com aquele rapaz? _Não. Eu estava com a Manu. Amanhã vou ao shopping com ela.

Após receber a ligação de Manuella, Eliseu não conseguiu mais se concentrar no serviço. Confundiu dois pedidos de pizza. No dia seguinte, ele teria uma conversa muito especial com a garota que fazia o seu coração disparar. Ficou aliviado quando a pizzaria fechou. Agora ele podia pensar com tranquilidade: “ Rebeca, eu fui um idiota, não... eu fui um bobo... não. Rebeca, eu não sei o que deu em mim. Eu também queria beijá-la, mas na hora eu... não... está difícil. Vou começar novamente. Rebeca, me perdoe, eu fui tão... tão o quê? Babaca, bobo, covarde... tímido? Não. O que eu vou falar? Rebeca, eu... eu vou beijá-la agora. É isso. Não, eu não posso falar isso logo de cara. Rebeca, eu estou apaixonado por você e naquele dia eu queria, desesperadamente, beijá-la, mas não parava de pensar no Álvaro. Que ridículo! Eu acho que estou precisando da ajuda do Álvaro... que irônico! “

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Capítulo 23- Até que enfim Eram 10h quando Rebeca chegou na casa da amiga. _É melhor irmos com o seu carro- disse Manu. _Tudo bem. Vamos? _Rê, ontem eu percebi que você não mencionou o nome do Eliseu uma única vez, por quê? _Por nada. Eu não tenho nenhum motivo para falar nele, é só isso. _Se estar completamente apaixonada não é um... _Não começa, Manu. Eu não quero me encontrar com ele, pelo menos por alguns dias. Preciso me preparar primeiro. _Preparar? Você está ótima assim. _Não tem graça. Preciso me preparar psicologicamente. _Como? Vai ficar repetindo coisas do tipo: Não posso gostar do Eliseu, tenho que esquecê-lo, não deveria tê-lo beijado, ele é só um amigo, ele é só um amigo, preciso aceitar isso... _Manu, hoje você está impossível. E o Murilo? _Não começa. _Ahá! Então é assim, né? Você me aluga, mas eu... _Rê, você gosta do Eliseu, eu não suporto o Murilo, notou a diferença? _Isso é o que a sua boca diz, mas o seu coração diz algo bem diferente. _O meu coração está mudo há muito tempo. Não seria por causa do Murilo que ele voltaria a falar. E aí? Que tal o: ele é só um amigo, ele é só um amigo... será que funciona? _Parei com você. _Magoou? Ah, preciso te contar uma coisa... _Se é sobre o Eliseu... _Em nossa última reunião, a Karine não tirava os olhos de uma certa pessoa. _E eu com isso? _E depois ela ofereceu uma carona para ele. _E daí? _Não quer saber se ele aceitou? _Eu não. _Mentirosa. 214

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_Ele aceitou? _Ele quem? _Manu? O Eliseu. _Quem estava falando nele? _Você está me provocando. _A Karine estava olhando para o Murilo... brincadeirinha. Era para o Eliseu mesmo. Ele recusou, mas foi bem educado. _Ele demonstra algum interesse nela? _Ele quem? _Ai Manu, às vezes você é tão chata! _Para que tanto interesse? Você vai esquecê-lo.. _Desisto. _Não. Ele demonstra um interesse enorme por você, isso sim. _Tanto que na última vez que saiu comigo, me deixou com a boca aberta, literalmente. _Não esquenta, hoje... é... quero dizer, um dia ele fecha a sua boca da maneira que você deseja.

As duas amigas começaram olhar as vitrines das lojas de sapatos. Manuella, aproveitou a distração de Rebeca para enviar um torpedo; poucos minutos depois... _Não acredito, isso só poder ser coisa sua... _Do que você está falando?- perguntou Manu. _Olha só quem está se aproximando. _Quem? O Eliseu está aqui? Que coincidência! _Coincidência? Eu não acho. Isso tem um dedinho seu. Ou melhor, tem a sua mão inteirinha, isso sim. _O shopping é um local público, amiga. _Sei... depois vamos ter uma conversinha bem séria. _Oi, Eliseu? Você por aqui? _Oi, Manu. Rebeca, tudo bem com você? _Tudo ótimo. Eu e a Manu precisamos entrar na loja... Rebeca já ia se afastando quando Manuella a puxou pelo braço.

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_Rê, eu lembrei que tenho algumas coisas para resolver na oficina. _O quê? Você não ia comprar uma sandália? E o nosso almoço? _A sandália fica para um outro dia. Eliseu, você pode almoçar com a Rebeca? _É claro que sim. _O quê? Manu, eu vou com você. _Nem pensar... preciso correr, tchau. _Manu, como você vai? _Ônibus, metrô... tchau. _Manu! Manuella afastou-se rapidamente deixando a amiga sem tempo para uma reação. _É... a Manu tem cada uma! Eliseu, não se preocupe comigo, eu já vou embora. Pode fazer o que... _Eu vim para almoçar com você, Rebeca. _É mesmo? _Será que nós poderíamos ver alguns CDs; quero mandar um presente para o meu avô. Ainda está cedo. _Tudo bem. É o aniversário dele? _Não, ele só faz em janeiro. Ele gosta muito de Beethoven e quando eu vim para São Paulo ele me deu o CD preferido dele, então eu vou escolher dois ou três CDs Quero mandar de Mozart também. _Legal. Então vamos. A Manu falou sobre a Isa? _Falou sim. Eu fiquei muito feliz. _Outro dia eu saí com ela para comprar umas coisinhas de bebê. _Legal. Rebeca... _É cada roupinha mais linda que a outra. É tão bom ver a Isa animada com a gravidez! _É... Rebeca, eu... _E a sua irmã? _Ela está bem. Rebeca... _Você tem falado com ela frequentemente? _Tenho sim. Rebeca, nós precisamos conversar. _E o evento no orfanato? Tem alguma coisa que eu possa fazer? _Depois você conversa com a Manu. Ela ficou de comprar algumas roupas para levar. Vários jovens estão fazendo isso. Alguns compram brinquedos... _Então eu vou falar com a Manu, assim eu compro algumas coisas também. Vamos entrar aqui?-

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perguntou ela apontando para uma loja. _Vamos. Durante alguns minutos eles olharam os CDs Eliseu escolheu 2 de Beethoven e 1 de Mozart. Rebeca estava com um CD gospel nas mãos. _Posso comprá-lo para você?- perguntou ele. _Se você quiser... _Eu quero. Saíram da loja e foram até a praça de alimentação. Durante o almoço Rebeca falou sobre a visita do irmão dela e sobre a mudança. _ É bom saber que agora você está morando aqui. Rebeca, nós precisamos conversar. _E o Murilo? Você ainda acha que... _Rebeca, me desculpe, mas você não parou de falar desde o primeiro minuto que ficou sozinha comigo, eu adoro ouvir a sua voz, mas você não está sendo espontânea. _É claro que estou. _Não está. Você sempre usa as mãos enquanto fala e hoje você não está fazendo isso. _Eu? _É isso mesmo. Rebeca, você está fugindo de um assunto... _Não estou. _Eu quero conversar sobre nós dois. Ao ouvir isso ela desviou o olhar. _Rebeca, eu tentei ensaiar o que falaria para você, mas não consegui, então eu vou deixar que o meu... _Eliseu, eu não quero ter essa conversa. Naquele dia já foi bem constrangedor... _Eu espero que você me perdoe por aquele dia. _Perdoá-lo? A culpa foi toda minha. Eu não deveria... _Você não confundiu nada, Rebeca, eu... _É melhor nós irmos embora. _Rebeca... _Por favor. Caminharam em silêncio até o estacionamento.

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_Quer dirigir?- perguntou ela. _Não. Rebeca, nós precisamos... _Eliseu, esqueça isso. Rebeca colocou a chave na ignição mas Eliseu segurou a mão dela, impedindo que ela desse a partida. _Rebeca, olhe pra mim... _Eu não posso. Eliseu colocou a mão no queixo dela e bem delicadamente levantou a cabeça de Rebeca que estava abaixada. Ele segurou o rosto dela com ambas as mãos e começou a acariciar-lhe as bochechas. _Rebeca, como você é linda! Aproximou-se e murmurou no ouvido dela: _Como eu desejei beijá-la... Rebeca... Rebeca, eu vou beijá-la agora. Ao sentir aquele toque e ao ouvir aquelas palavras, Rebeca pensou que não iria suportar tanta emoção, o coração estava acelerado e ela não conseguia evitar que o seu rosto tremesse. Eliseu afastou-se um pouco, e, por alguns segundos, ficou com os olhos fixos nos lábios dela. Após aqueles segundos, que para Rebeca duraram uma eternidade, finalmente os lábios se encontraram. E eles esqueceram de tudo, naquele momento só estavam os dois ali, completamente apaixonados. _Rebeca... _Eliseu... Beijaram-se novamente. _Eu estava com muitas saudades de você. Eu fiquei brava comigo mesma, por ter provocado a situação que nos afastou. Não conseguia conversar com naturalidade. Quis ligar, mas... _Eu também estava louco para falar com você. _Por que você não correspondeu ao meu beijo naquele dia, hein? _Antes de responder eu preciso fazer uma pergunta. _Faça. _Você e o Álvaro se beijaram no aeroporto? _O quê? É claro que não. De onde você tirou isso? _É... o Álvaro disse. _Que mentiroso! Na hora de se despedir ele até que tentou, mas eu fui mais rápida e desviei. _Que bom saber disso. Eu achei bem estranho... você quer mesmo saber por que eu não a beijei

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quando você tomou a iniciativa? _Eu acho que já sei: Álvaro. _É. Ele sempre me fala sobre você, diz o quanto está apaixonado e... _Ele não está. _Não sei, Rebeca. Naqueles dias ele cismou que ia beijá-la, disse que sonhou, então eu fiquei sem saber o que fazer. Não queria ser um traidor. Ele é meu amigo. Rebeca, por que eu fui me interessar justo por você? Eu sei. Porque você é maravilhosa, é meiga e eu adoro estar com você. _Gracinha. Eu também adoro estar com você. _Eu vou ter uma conversa séria com o Álvaro. Tenho que ser sincero. _Eliseu, espere, não tenha esta conversa agora. _Mas como é que nós dois... _Eu não quero que ninguém atrapalhe o nosso namoro. Nós estamos namorando, não é? Ou você é daqueles que dão um beijinho em uma hoje e em outra amanhã. _É isso mesmo. _O quê? _Eu quero um beijinho amanhã também. Na verdade eu quero um beijo agora. Mas eu só quero uma boca... a sua. Eliseu a beijou apaixonadamente. _Rebeca, eu preciso falar para o Álvaro, antes que ele descubra. _Ele não vai descobrir. Eliseu, amor, posso chamá-lo assim? _O que você acha, hein? _Amor... que legal poder chamá-lo assim! _E eu já sei como vou chamá-la: Bequinha. _Eliseu! _Estou brincando. E como nós vamos fazer? _Por enquanto o nosso namoro vai ser um segredo. _Por que isso? _Não me olhe assim... é só por um tempo. Não é só por causa do Álvaro, na verdade é mais pelo meu pai. _Ele não vai aceitar, não é? _Eu não quero arriscar. Vamos curtir o nosso namoro um pouco, sem a interferência dos outros. Você não concorda, né?

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_Ah... eu entendo mas vai ser complicado. _Será por pouco tempo. _Tudo bem, mas enquanto for um namoro secreto, eu vou chamá-la de Bequinha. _Eliseu... não tem graça. Eu detesto ser chamada assim. _Tudo bem, meu amor.

_Vocês estão namorando?! Que legal, Rê! _Ai, Manu, ele é um fofo. Eu ia brigar com você por me deixar lá sozinha com ele, mas depois dos momentos que eu vivi hoje, eu só tenho que agradecer pela grande amiga que você é. _Para com isso ou eu vou acabar chorando! - brincou Manu- Vocês dois formam um belo par. Só quero ver a cara do Álvaro... _Isso vai demorar um pouco. _Não vai me dizer que vocês não vão assumir o namoro? _Agora não. Vamos esperar. Manu, eu sei muito bem que o meu pai não vai concordar, é bem capaz que ele me proíba até de ver o Eliseu. Preciso de um tempo, tenho que pensar bem antes. Orar... _Manter um namoro em segredo deve ser algo bem complicado. _Eu nunca fiz isso antes, mas não deve ser nada fácil. Nós tivemos uma pequena amostra de como vai ser: tive que deixá-lo no metrô. Pelo menos eu posso contar para a minha mãe. Eu sei que ela vai entender. Na manhã seguinte, Rebeca foi à EBD junto com a mãe e aproveitou o caminho para falar sobre o namoro. _Você está namorando? Eu sabia. Ontem você chegou com um sorriso enorme; não perguntei nada porque o seu pai estava perto. É aquele rapaz que trabalha com a Lourdes, não é? _É ele mesmo. O nome dele é Eliseu, mãe. _A Lourdes sempre fala muito bem dele. Mas, quando ele vai conversar com seu pai? _Nós vamos esperar por um tempo. _Namorar escondido? E eu vou fazer parte disso; se o Otávio descobre... _Mãe, eu preciso de sua ajuda. O papai vai colocar uma série de defeitos nele. Eu quero aproveitar um pouco... estou tão feliz! O Eliseu é tudo o que desejo em um rapaz.

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_Rebeca, Rebeca... só peço que vocês não demorem muito, porque se ele descobre... _Ore por mim, mãe. Ore por nós. _Vou orar muito, porque vocês vão precisar. Naquele domingo, Eliseu e Rebeca só se viram de longe, mas no dia seguinte eles teriam uma excelente oportunidade: uma reunião do grupo. _A reunião tinha que ser na casa do Murilo? _Manu, já está na hora de vocês conversarem. _Conversar com o MM? Nem pensar. Eu só falo quando não tem outro jeito. _Que coisa feia! Vocês fazem parte do mesmo grupo. Você sabe que o Paulo usa os grupos justamente para promover a união. _Eu sei, mas você lembra daquele versículo? _Qual? _Aquele que diz para ter paz com todos. Lá diz “se possível” 15. Com o Murilo é impossível. Rê, você cedeu o seu apartamento para a noite da pizza, sábado? _Isso mesmo. Ontem o Paulo mencionou a noite da pizza e eu disse que poderia ser lá em casa. Serão quinze pessoas. Vai ser bem legal. Todos vão participar e a melhor parte: professor Eliseu. _Ele vai tomar conta da sua cozinha? _Vai. Já avisei a Nádia, a nossa cozinheira, ela adorou. Perguntou se poderia ficar para aprender. _A ideia é bem legal, né? Sábado serão vários grupos se reunindo em casas diversas para fazer diferentes pratos. O Paulo quer que os jovens estejam mais juntos. Fazer as pizzas, ao invés de comprar tudo pronto, é uma ótima oportunidade para todos trabalharem juntos e depois... atacar! Não podiam ter escolhido um professor melhor, não é amiga? Ele vai sondar o terreno? _É... e eu já estou nervosa só de pensar nisso. _Seu pai vai estar lá? _Não. Ele vai viajar na quinta e disse que só vai voltar segunda. Vamos para casa do Murilo, está na hora. _Suportar o Murilo em plena segunda-feira ninguém merece- reclamou.

15 Romanos 12.18.

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_Seus pais estão bem, Manuella?- perguntou Sofia, a mãe de Murilo. _Estão sim. O pessoal já chegou para a reunião? _Estão na sala, podem ir até lá. Rebeca, diz para sua mãe que é ótimo tê-la morando aqui novamente. Eu queria conversar com ela ontem, após a escola bíblica, mas ela saiu tão rápido. _Obrigada, dona Sofia, eu digo sim. Ela precisou ir logo, porque nós tínhamos um compromisso. Ao entrar na sala, a única pessoa que Rebeca enxergou foi Eliseu. Ela deu um largo sorriso e ele retribuiu. Olharam-se por alguns segundos, até que Murilo acabou com o momento mágico. _Agora dá para começar a reunião, não é, Eliseu? _Oi? É... vamos começar. _Manuella, você vai ficar em pé? Que tal uma trégua?- disse Murilo bem baixinho apontando para o único lugar desocupado. _Prefiro ficar em pé. _Rebeca, mude de lugar comigo, assim a sua amiga pode sentar-se ao seu lado. _Agora que estão todos acomodados... pessoal, daqui a duas semanas faremos uma grande festa no orfanato “ Pequenos Anjos”; somos responsáveis pela alimentação: café, almoço e lanche. Para tornar as coisas mais fáceis, eu dividi o nosso pequeno grupo em três. Cada trio vai se responsabilizar por uma refeição. Exemplo: Murilo, Carlinha e Manuella, que fazem parte do grupo 1, cuidarão do café da manhã. Vocês deverão comprar tudo que for necessário e também escolher, entre os jovens que ainda estão disponíveis, alguns para ajudar no dia. Para saber quem são, é só conversar com o nosso líder. _Posso mudar de grupo?- perguntou Manu. _Não pode. _É só substituir o Murilo pela Rebeca. _Manu, não dá. A Rebeca está no grupo 2. _Não consegue trabalhar comigo? Tem medo de não resistir ao meu charme? _Charme? Você nem sabe o que é isso. _Pessoal, brincadeiras à parte, já está tudo resolvido. Os grupos já estão montados. Agora eu gostaria que vocês mudassem de lugar. Sentem-se perto dos outros dois membros do grupo. Vamos aproveitar a oportunidade para resolver algumas coisas. Manu fez uma careta, mas sentou-se ao lado de Murilo e Carlinha.

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Rebeca logo descobriu que o segundo grupo era composto por ela, Karine e Eliseu. _O que vocês sugerem para o almoço de 50 crianças?- perguntou Eliseu. _Muitas pessoas para ajudar- brincou Karine e ao dizer isso colocou a mão no ombro de Eliseu. _Disso nós vamos precisar mesmo. Rebeca? _As crianças gostam muito de macarrão, o que vocês acham? perguntou Rebeca olhando para a mão de Karine que não havia saído do ombro de Eliseu. _É fácil e rápido de fazer. Eu acho ótimo. Karine? _É... eu também. Eliseu, eu posso pedir um favor? _É claro. _Depois eu falo... vamos terminar a reunião primeiro. _Tudo bem. E a carne? O que vocês duas acham de filezinho de frango grelhado, cortado em pedaços bem pequenos? _Legal. E o que mais?- foi a vez de Rebeca perguntar. _Salada, suco, porque refrigerante será no horário do lanche. E de sobremesa? _Gelatina, toda criança adora gelatina. É fácil de fazer e deliciosa. Eu gosto! Concorda Eliseu? _Gostei, Karine. Então vamos falar sobre a salada... Enquanto isso, no grupo 1... _Cachorro-quente no café da manhã? Só você mesmo, Murilo. _No mínimo o grupo 3 vai escolher isso para o lanche, mas mesmo que não escolhessem, não dácompletou Carlinha. _Vocês duas não sabem de nada. Então pode ser coxinha ou pastel. _O quê? Carlinha, diz pra ele. _Murilo, para com isso. _Será um dia diferente para elas. Vocês duas querem levar o quê? Pão com manteiga? Isso as crianças comem todos os dias. _Nós podemos fazer pão com frios. É só esquentar na sanduicheira. Na cozinha da igreja tem duas. Eu posso levar a minha, se precisar- disse Manuella. _Manu, podemos montar uma mesa de frutas. _Legal, Carlinha. _As crianças não estão nem aí para frutas... elas querem é chocolate, bolo... _Vai ter bolo também e chocolate quente- disse Carlinha.

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_Chocolate quente? As crianças querem é refrigerante. _Murilo, refrigerante no café da manhã? _Vai me dizer que você nunca tomou, Manuella? _Se liga! Está vendo como eu estava certa... você não deu uma ideia coerente. Se fosse outra mulher aqui ou o Eliseu, já estaria tudo resolvido- provocou ela. _O Eliseu, é? Você está caidinha por ele. Pena que ele nem olha para você. E por que olharia? _Gente, podemos continuar? _Nós duas, Carlinha, porque o Murilo não faz mais parte do grupo. _Quem é você, garota, para dizer isso? _Por favor, parem com isso! Dá para vocês dois trabalharem juntos? Se esforcem, é por uma boa causa- pediu Carlinha. _Tudo bem, mas vou precisar de muita força. Aguentar a Manuella não é fácil. _E você, hein? Trinta minutos depois Eliseu encerrou a reunião. Karine o puxou pelo braço. _Lembra que eu disse que precisava de um favor seu? _O que é? _Você poderia me levar para casa? Meu pai me deixou aqui e eu disse que depois um de vocês me levaria. _Eu faria isso se tivesse um carro, Karine. Vou pedir para a Rebeca. _Não. Você pode me levar de ônibus mesmo. Tem um ponto aqui pertinho. _Karine, você está precisando de carona? Eu e a Rebeca deixamos você na sua casa, é caminho. _É... tá, legal. Então... tchau, Eliseu. _Tchau, Karine. Rebeca e Eliseu despediram-se com um beijo no rosto. Após Karine sair do carro... _Que menina abusada! Ai que vontade de dizer para ela que o Eliseu é o meu namorado. _Ciumenta! _É claro! Você precisava ver... durante a reunião ela não parava de colocar a mão no ombro dele. Que raiva! _Você ficou louca para dizer: “Ei, tira a sua mão do meu homem!”

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_Ai, Manu! Meu homem? Fica feio falar assim... dá uma péssima impressão. _Ui! Estou brincando. Namorar em segredo é barra! Nem dá para brigar com a rival. _Rival ela não é . O Eliseu é o meu namorado, só meu, tá? _Uau! A Karine também quer o Eliseu, então ela é a sua rival. _Parece uma coisa... só porque agora ele está namorando. _É assim mesmo. _Você e o Murilo, conseguiram conversar numa boa? _O Murilo é totalmente sem noção. Ele dava cada ideia. _Um dia vocês ainda vão... _Vamos o quê? Rebeca, eu estou muito feliz por você e o Eliseu, mas não queira arrumar o Murilo para mim, não tem nada a ver. E sabe aquele velho ditado? “ Antes só do que mal acompanhado” ? _Você já conheceu alguma namorada do Murilo? _Eu só me lembro da Deise. Foi um namoro bem curto. Quem é que consegue aguentar o Murilo?

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Capítulo 24 -Padrinho _Você não deveria ter me colocado no grupo da Manuella. _Está mais do que na hora de vocês dois se entenderem. _Não sonhe. Que menina insuportável, intratável, impossível... _Isso é amor. _Só porque você está apaixonado! Eu não. Não adianta, eu não quero fazer caridade. _Caridade? _É. A Manuella está sem namorado há um tempão, a não ser que ela faça como você e a Rebeca. Mas eu tenho quase certeza que não. Se existisse alguém ela não estaria com aquele péssimo humor. _E você? Por que está assim? _Assim como? Eu estou ótimo. Só perco a paciência com a Manuella. _E você não consegue enxergar o motivo disso. Ou não quer. _Da Manuella eu quero é distância. _”Como conseguir isso se ela mora em meu coração? Se ela não sai dos meus pensamentos? Isso só seria possível se eu arrancasse o meu coração e o lançasse para bem longe... mas como isso é impossível...” _Eu hein? É sempre que dá isso? Você está falando da Rebeca, né? _Deixa eu terminar: “ mas como isso é impossível, te quero para sempre ao meu lado.” Gostou? _Não mesmo. _Confessa. Você pode terminar assim: “ Manuella, Manuella, você é tão bela!” _Ai, ai, ai! Isso doeu...mas eu vou perdoá-lo, só porque você está apaixonado. O sábado chegou e uma galera ia se reunir no apartamento de Rebeca para fazer as pizzas. _Eu cheguei primeiro?- perguntou Manu- mas já são cinco horas... _Calma, assim nós podemos conversar um pouquinho. Você acredita que eu não consegui marcar nada com o Eliseu nesta semana? _Se todos soubessem sobre o namoro, vocês não teriam esse problema. E eu fiquei sabendo de uma coisa ontem, que você não vai gostar. _O quê? _Você está sabendo que a filha do pastor Moisés vai casar? 226

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_É claro, a Giovanna. Sei também que o noivo é de Belo Horizonte. E que ela vai morar lá, por causa do trabalho dele. Bem que podia ser a Karine, né? _A Karine vai ser madrinha e adivinhe quem ela vai chamar para ser o par dela? _Diz que não é o Eliseu. _Sinto muito. Eu fiquei sabendo porque ela me ligou hoje. Ela queria saber se eu tinha o número do celular dele e aí ela me contou. _Você deu? _O que você queria que eu fizesse? _Ela não tem outra pessoa para convidar? _A Karine disse que um primo faria par com ela, mas pensou bem e resolveu chamar o Eliseu. _Eu preciso falar com ele, eu não quero que o meu namorado entre de braço dado com outra. Não mesmo. Ainda mais ela que está de olho nele. _O casamento será daqui a dois meses. _Eu quero ter uma conversa séria com ele; a campainha tocou, vamos para sala, preciso receber o pessoal. Após quinze minutos todos estavam reunidos. Cristina, saiu de seu quarto, pois queria ver o namorado da filha. _Oi, Cristina, estamos fazendo muito barulho?- perguntou Manu. _Não, Manu, fiquem à vontade. Eu só vim cumprimentá-los. Estou sabendo que tem alguém aqui que faz uma pizza maravilhosa... _Mãe, este é o Eliseu. É ele que vai tomar conta da cozinha hoje- explicou Rebeca meio sem jeito. _Boa tarde, dona Cristina. Eu tenho permissão para mexer na sua cozinha? _Oi, Eliseu. A cozinha é mais da Nádia do que minha e ela só tem uma condição: quer aprender o segredo de uma boa pizza. _Então está tudo certo. Obrigado por ceder o seu apartamento. _Que isso, é um prazer. Eu também tenho uma condição: me chamem depois que a pizza estiver pronta. Cristina voltou ao seu quarto para deixar os jovens mais à vontade. _Depois eu preciso conversar com você- disse Rebeca quase murmurando para Eliseu. As horas seguintes foram de muito trabalho e diversão na cozinha. Eles estavam em quinze, por isso

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tiveram que fazer um revezamento para não tumultuar a cozinha. Nádia, a cozinheira da família, também participou de tudo. Às nove horas chamaram Cristina. _Eu estava sentindo o cheiro... que cheirinho bom! Hum... e estão com um aparência maravilhosa!disse ao chegar à sala de jantar. Rebeca aproveitou que estavam todos ocupados para levar Eliseu até o escritório de seu pai. _O que foi? Não gostou da pizza? _Sem brincadeirinhas... o assunto é sério. _E meu beijo? Não conseguimos ficar um minuto sozinhos nesta semana. Estou com saudades. _Eu também. Mas não temos muito tempo. Após o beijo... _Qual é o assunto? _A Karine ligou para você? _Ela ligou para avisar que tinha um compromisso hoje, por isso que ela não está aqui. _Só isso? _E... ela me fez um convite. _Eu já sei. _Já? Como as notícias correm. _E o que você respondeu para ela? _Eu aceitei. _O quê? Eliseu, eu não quero dar uma de namorada ciumenta e possessiva, mas porque você não falou comigo antes? _Rebeca, eu só serei o padrinho, não o noivo. _Eliseu, pare de brincadeira, deixe isso para o Álvaro. _Eu só disse isso para descontrair um pouco. Não precisa ficar chateada. _Que garota abusada! _Ela não sabe que estamos namorando. _Você já percebeu que ela está te paquerando, né? _Rebeca, eu também não queria. Não me agrada nada ter que entrar em uma igreja lotada com todos me olhando. _Então por que você não recusou? _Depois que a Karine disse que não viria aqui hoje, ela passou o telefone para o pai dela e foi ele

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quem me convidou. _Ela usou o pastor Moisés para pedir isso? _Ele disse que duas primas dela entrarão com os namorados, então a Karine está com vergonha de fazer par com um primo. Ela mencionou o meu nome e o pastor disse que a noiva adorou a ideia. Eu e a Giovanna já conversamos várias vezes, porque ela também faz medicina. _A Karine está se aproveitando. Que espertinha! _Não fique assim... agora é melhor voltarmos. Eles já devem ter notado a nossa ausência. _Depois eu quero conversar mais sobre esse assunto. É melhor você ir primeiro. Eliseu e Rebeca não tiveram mais nenhuma oportunidade para conversar. Minutos antes da meianoite, foram todos embora. No dia seguinte, logo após a EBD, os jovens se reuniram para organizar o evento do dia das crianças. _Pessoal, o grupo responsável pelas brincadeiras, já alugou cama elástica, piscina de bolinhas e outros brinquedos- avisou Paulo- Estou sabendo que os presentes já estão todos comprados. Só falta fazer os pacotes. Cada criança irá receber um brinquedo e roupas. O legal é que vai dar para colocar mais de uma peça de roupa em cada pacote, porque conseguimos muitas doações. Além das doações de vocês, vários irmãos ajudaram. Entre eles, tivemos dois que são donos de lojas que vendem roupas para crianças. Paulo falou ainda sobre as refeições que teriam e após mais alguns avisos, terminou a reunião. Eliseu combinou com Murilo para saírem. Iriam fazer compras para as três refeições do dia 12 de outubro porque os componentes do grupo acharam que assim seria melhor. No estacionamento da igreja... _Vamos comprar só algumas coisas, as outras precisamos esperar até quinta. _Você não convidou mais ninguém? _Quer que eu chame alguém? _Não, é que eu pensei que você fosse convidar a sua... você sabe. _E a sua? Quer que eu... _Eliseu, de quem você está falando?

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_Quem? Da Manu. _Eliseu, eu já disse que não vou fazer caridade. Seria muito sacrifício. A Manuella não me atrai em nada. Ela não é feminina. Eu gosto de garotas delicadas, meigas... que sabem o seu lugar. A Manuella é tão grossa! Ela nem sabe conversar. _Que isso! Não estamos falando da mesma pessoa. _Você é muito bonzinho. Eu já comentei com você que nem o Álvaro chega na Manuella. Isso é uma coisa para se pensar. O destino de garotas como a Manuella, é ficar sozinha. Escreva isso. _Ela é uma pessoa excelente. _Tudo bem. Ela como amiga até que vai, é claro que comigo nem isso, mas como mulher, aí não dá. E aquele cheiro de oficina que ela tem? _Cheiro de oficina? _Nunca sentiu? Aqui para nós... não há como se sentir atraído por uma garota como a Manuella. Você deveria conversar com a Rebeca, para ela dar uns toques para a amiga dela; quem sabe assim... _Murilo, eu acho que você diz estas coisas para ficar na defensiva. Não é possível que você pense assim. _Pois eu penso. Eliseu, pergunte para o Álvaro se ele já beijou a Manuella, ou pelo menos tentou. Tenho certeza que a resposta é não. Eu acho que a boca dela deve ter sabor de graxa. _Não acredito que você disse isso. _Garotas como a Manuella só querem comandar e isso não dá certo. Os homens não gostam disso. Só se for um banana. Vamos às compras. Eliseu e Murilo não perceberam que Manuella e Rebeca escutaram toda aquela conversa. _ O Murilo merece uma bela resposta. _Rê, podemos ir agora? Rebeca percebeu que desta vez as palavras de Murilo magoaram a amiga; no final da tarde, antes de ir ao culto, ela ligou para Eliseu. _Oi, amor. Me desculpe por ontem, sei que fui uma chata. _Rebeca, você não está errada por não gostar. Se fosse com você, eu também ficaria assim. _ Eu preciso falar sobre outro assunto: Murilo.

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_O que foi agora? _Eu e a Manu estávamos no estacionamento e escutamos a conversa de vocês dois hoje. Não foi intencional, aconteceu. _Sério? Vocês ouviram tudo? _Tudo. Eliseu, eu nunca vi a Manu se importar com o que o Murilo diz, mas hoje... _Ela ficou chateada? _Ficou muito magoada. _Mas ele sempre fala as mesmas coisas. _Hoje ela estava mais... carente, eu acho; foi por isso. Mas ele também exagerou. _E o que você quer que eu faça? _Converse com ele. _Eu posso dizer que vocês ouviram a conversa? _Não. Mas dê alguns toques, sei lá... _Eu sempre falo pra ele... mas tudo bem, eu vou tentar. Será que amanhã eu posso ver a minha namorada? _Pode. Estamos precisando de um tempinho só para nós dois, né? Eliseu aproveitou que Murilo foi até a pizzaria após o culto, para conversa com ele. _Murilo, eu estive pensando e... bem que você podia ter uma conversa com a Manu. _O que eu tenho para falar com ela? _Seria bom se vocês dois fizessem as pazes. Estamos trabalhando no mesmo grupo e... _Eu sei que é chato, mas o que você quer eu faça? _Trate a Manuella como uma amiga. Seja educado e gentil. _Não sei se isso vai dar certo... mas vou tentar.

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Capítulo 25 – Dia das crianças Às seis horas da manhã, os grupos já estavam reunidos na igreja para cuidarem dos últimos preparativos para visita ao orfanato. Saíram uma hora depois; precisavam chegar cedo para preparar o café. Seria um dia das crianças muito especial para todos. _Quer uma ajuda?- perguntou Murilo ao ver Manuella com as mãos cheias. _Não preciso da sua ajuda- disse ela secamente. Na cozinha a agitação era total. Vários jovens trabalhando juntos com o mesmo objetivo: fazer o melhor para aqueles pequenos. Eliseu foi até o refeitório e logo se viu cercado por várias crianças. Uma puxou a camisa dele e disse abrindo os bracinhos: _Tio, me pega! _Qual é o seu nome? _Felipe. _Oi, Felipe, quantos anos você tem? _Três – disse mostrando os dedinhos. Ele pegou Felipe nos braços, mas logo sentiu outro puxão, olhou para baixo e viu uma menininha que deveria ter também 3 anos. _Olá, você também quer colo? Ela balançou a cabeça afirmando. _Será que eu aguento? - dizendo isso a pegou também. _Qual é o seu nome, menina bonita? _Jessica. _Jessica é o nome da minha irmã, ela é linda como você- disse emocionado. _Olha só o seu amado- disse Manu. _Ele fica tão lindo com criancinhas no colo! _Lá na igreja você já deve ter reparado o quanto as crianças gostam dele. As netinhas do pastor Moisés, a Juliana e a Caroline, ao vê-lo vão logo dando os bracinhos. _Elas estão com 10 meses, né? 232

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_É. São tão engraçadinhas! _E são gêmeas idênticas. Eu acho lindo. _O doutor Eliseu leva o maior jeito com crianças. Juliana e Caroline, eram filhas de Raquel, a filha mais velha do pastor Moisés. Logo vários jovens estavam com crianças no colo. Após o café, houve uma apresentação de fantoches. As crianças ouviram uma história sobre Jesus, em uma linguagem especial para elas. Depois foram brincar no escorregador, cama elástica, piscina de bolinhas, balanço e outros brinquedos. Na cozinha... _Que cheirinho bom!- disse dona Ana, a diretora do orfanato- as crianças estão se divertindo bastante; estão gastando muita energia, vão devorar tudo. _Estamos muito felizes por proporcionar isso a elas- disse Paulo. _Eu agradeço muito a vocês. _Nós é que agradecemos pela oportunidade. As crianças vão receber presentes e nós vamos receber muitos sorrisos, aliás, já estamos recebendo. Manuella estava se encaminhando até o refeitório com uma caixa. _Manuella, pode deixar que eu carrego. _Murilo, você acha que eu não consigo? Acha que só porque sou mulher... _Calma, eu só quero ajudar. Não precisa ficar assim. _Você querendo ajudar? Aí tem. Você quer é me humilhar, que eu sei. Depois vai falar que não aguento nem segurar uma caixinha... _Não é isso. Manuella, e se eu falar que você ficou bem com essa roupa, o que você vai achar? _Que está " zuando " comigo. _Não estou. Você ficou bem mesmo, parabéns. A Rebeca deu umas dicas para você? _Saia da minha frente! _O que foi que eu fiz agora?- perguntou ele olhando para Eliseu e Rebeca que estavam próximos e viram tudo. _Ai, Murilo, você não acerta uma!- disse Rebeca. _Eu disse alguma coisa errada? _É claro que não, você se saiu muito bem- ironizou Eliseu.

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Após o almoço, as crianças participaram de várias atividades e brincadeiras. O dia terminou com um lanche especial com direito a um grande e delicioso bolo de chocolate e com a entrega de presentes. Os jovens se despediram dos pequenos, poucos minutos depois das 17h. Saíram felizes e exaustos, mas é claro que muito mais felizes do que exaustos. _Manuella, posso conversar com você?- perguntou Murilo quando chegaram à igreja. _Não, não pode. _É só por um minuto. _Para você nem um segundo- disse afastando-se. _Você viu, eu tentei o dia inteiro ser gentil. _Podia ter se esforçado mais. _Eliseu, o que você queria que eu fizesse? Só faltou eu beijar o chão que ela pisou. _Pense em alguma coisa. _Não sei se quero. De repente é até melhor assim. Eu e ela só brigamos mesmo. _Você quer sim. Tenho certeza que vai encontrar uma maneira de amansar a fera. _Deixa a Manuella ouvir isso, ela vai ficar com raiva de você. _Foi você que provocou a transformação. Ela era uma gata... _Agora virou uma onça. Eu, hein, vou manter distância. _Covarde! _Agora é você que está provocando. _Estou mesmo. Aposto que você não consegue domar a fera. _Eu não quero, é diferente. _Não consegue. _Se eu quisesse, conquistaria a Manuella fácil, fácil. _Duvido. _Quer apostar? _Quero. _Qual será o meu prêmio? _A Manuella. _Quem disse que eu a quero. _Seus olhos.

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_Você é péssimo nisso, Eliseu. Eu não sinto nada por ela. _Vai desistir da aposta? _Não, mas quero um prêmio melhor. _Deixa eu pensar... você vai poder me jogar na cara que conseguiu. _Só isso? _Só isso. E então, vai amarelar? _Você é terrível! Tudo bem. Eu vou ter o gostinho de dizer: Consegui! _Combinado. _Manu, faça isso por mim, vai? _Nem em sonho. O Murilo está pior do que antes. Fica se fazendo de gentil... prefiro o Murilo sincero. Aquele que me ofende o tempo todo. Me desculpe, mas não posso. _Serão só duas horas, eu prometo. Você não precisa ficar grudada nele. _Não sei para que isso? Eu e você podemos sair juntas e no shopping você se encontra com o seu amor e eu fico andando por lá. Quem precisa do Murilo? Vocês não estão aprontando nada, né? _É claro que não. Eliseu e Rebeca combinaram de se encontrarem no shopping às 20h. _Oi, amor. Será que dá para deixar os dois sozinhos?- Rebeca disse bem baixinho. _Vamos sair de mansinho- respondeu Eliseu quase murmurando. _Aqueles dois... se afastaram sem dizer nada- reclamou Manuella- Eu vou andar por aí e não quero e nem preciso de companhia. _Espera um pouco... eu vou com você. _Murilo, você é surdo? Disse que não quero companhia. _Mas eu quero, detesto andar sozinho. _Problema seu! _Calma... eu preciso ter uma conversa com você. _Eu não tenho nada para conversar com você- disse afastando-se. _Manuella, eu tenho que perguntar uma coisa... é sobre o carro do meu pai. _O quê? O MM vai fazer uma pergunta sobre carros para mim? Pergunte para o seu Osvaldo.

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_Manuella, pare de andar, isso está ficando chato. _Está é engraçado. O MM correndo atrás de mim? _Para com isso, vai. Vamos conversar como duas pessoas civilizadas. _Não vai dar, porque aqui só há uma pessoa assim. Murilo mordeu a língua, mas não falou que aquela pessoa era ele. _Manuella, eu preciso que você me tire uma dúvida. O carro do meu pai está... _Não quero saber. Você não vive dizendo que eu não entendo nada? _Talvez eu esteja enganado. _O quê? Você recebeu algum diagnóstico? Vai morrer em pouco tempo? _Não brinca, vai. _O MM disse que pode estar enganado? Não...Senhor, eu nunca pensei que viveria para ouvir isso. _Você tem senso de humor. _E você não. _Vamos comer alguma coisa? _O MM está convidando a Manuella grosseira, indelicada e que cheira a graxa? Não pode ser. _Vamos? _Eu só vou se você deixar que eu pague. _É... tudo bem, eu deixo. _Não pode ser, espera... não, você não está com febre- disse colocando o dorso da mão na testa dele. Murilo segurou a mão dela. _Que mão macia... nunca pensei que a sua mão fosse assim. _O quê? Solta... eu sabia, sabia que você estava de brincadeira. _Não, eu só pensei que por você ser mecânica... _Nunca mais pegue na minha mão, entendeu? E sabe de uma coisa? Vou comer sozinha. _Manuella, espere por mim. Ela fez que não ouviu e continuou andando. Chegou à praça de alimentação, pediu um lanche e foi procurar um lugar para sentar-se. _Eliseu, eu não acredito! Você apostou com o Murilo? A Manuella vai ficar muito brava. _Rebeca, você não vai contar. Foi uma ideia que eu tive. Eu tenho certeza que o Murilo gosta dela. _E se você estiver enganado, hein? Depois ele vai jogar na cara dela, bom... isso se ele conseguir

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conquistá-la. _Você também acha que ela gosta dele, não é? _É, mas... sei lá. E o convite da Karine? _Não vamos mais conversar sobre isso. Temos poucas oportunidades para estarmos juntos, vamos aproveitar. _Você está certo, amor. _Eu tive uma ideia. Na próxima semana você vai conhecer o meu avô e a Jessica. _Vamos viajar? Ah, se eu pudesse! _Vamos até uma lan house. Eles podem saber que estamos namorando. _Legal. Vou adorar conhecê-los. _Rebeca, depois daquele dia que o grupo foi até o seu apartamento, é que eu vi como somos diferentes. _O quê? Eliseu, não fale nada. _Que apartamento é aquele? Você está tão acostumada ao conforto e... _Para com isso. _Você sabe que eu... _Não quero falar sobre isso. Você não disse que o nosso tempo é curto? _Mas é que você deve frequentar tantos lugares... chiques e eu não posso... _Amor, eu sei muito bem o que você pode. _Rebeca, se nós tivéssemos a mesma situação financeira, por exemplo, eu até concordaria em rachar a conta às vezes, mas você precisa saber que eu não vou aceitar isso. Não que eu seja machista, mas... _Eu sei. Não estou reclamando, estou? _É que eu me sinto mal com essa situação. Será que o nosso namoro não é um erro? _Não acredito que eu estou ouvindo isso. _Eu tenho um longo caminho até me tornar um médico, e depois eu não vou chegar nem perto do que você está acostumada. _Amor, nós podemos crescer juntos. Eu trabalho e... _Com seu pai. Você acha que ele vai concordar que você se prive de... _Para. _Qualquer pessoa que ficar sabendo do nosso namoro, vai pensar que eu sou um oportunista, isso sim.

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_Se você for ligar para o que as pessoas pensam não vai conseguir viver. O que vale mesmo são as pessoas que te amam e elas não vão pensar mal de você, porque elas te conhecem. _O que eu tenho para oferecer? _Você me faz feliz. Eliseu sorriu pela primeira vez desde o começo daquela conversa; acariciou o rosto dela e em seguida a beijou. _Quem disse que você podia sentar aqui? _Manuella, não seja intransigente. _Estou aqui só por causa da Rebeca, não quero você perto de mim, entendeu? E você também não quer. Eu tenho cheiro de graxa, lembra? _Então é uma graxa com um cheiro ótimo. Não sabia que agora estavam fabricando graxa com aroma floral. _Não, eu não ouvi isso. Que ridículo! _Eu gosto do seu perfume- disse aproximando-se dela. _O quê? Afaste-se de mim. O que está acontecendo, hein? O seu professor da EBD deu alguma missão para os alunos? _O quê? Uma missão? _É, sei lá... de repente ele usou o versículo: “Segui a paz com todos...”16 _Não falei que você tem senso de humor? Eu gosto disso. _Cansei. Vou embora. _Já? Posso pagar um sorvete? _Só se for para jogar na sua testa! _Que violência! “ Segui a paz com todos”, lembra? _Insuportável! Manu pegou o celular e ligou para a amiga- Oi, Rê, desculpe atrapalhar, mas eu não aguento mais o mala do Murilo. Ótimo, nos encontramos no estacionamento. Murilo a seguiu, mas manteve uma certa distância. _Tchau, Eliseu e desculpe por interromper o namoro de vocês, mas eu aguentei o máximo que pude. Pode ter certeza disso.
16 Hebreus 12.14

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_Sem problemas, Manu. Eliseu e Rebeca se despediram com um beijo, só então Murilo se aproximou do amigo. _O que você aprontou desta vez? _Nada. Fui gentil. Até elogiei o perfume dela! Não entendo.

_Manu, o que aconteceu? _Você ainda pergunta? Eu disse que o Murilo estava pior, não disse? _Pior como? _Agora ele quer dar uma de cavalheiro. _E isso é ruim? _É péssimo. Assim é mais difícil brigar com ele, mas eu consegui. _Manu, você gosta dele. _Não. _ Você está apaixonada por ele. _Isso é a coisa mais sem noção que eu já ouvi na vida. _O problema vai ser você reconhecer isso. Na semana seguinte, Eliseu levou Rebeca até uma lan house e ela conheceu Jessica e o vô Chico. _Que moça linda, Eliseu. Eu estou tão feliz com o namoro de vocês. Rebeca, o seu namorado é o rapaz mais maravilhoso do mundo inteiro, pode ter certeza disso. _Para com isso, vô. _Eu sei, vô Chico, é por isso que eu me apaixonei por ele. Jessica o seu irmão é uma manteiga derretida. Semana passada nós fizemos um evento em um orfanato e tinha uma criança com o seu nome, precisava ver a carinha que ele ficou. _Meu maninho é um doce. _Parem com isso, estou ficando com vergonha. _Rebeca, gostaria de conhecê-la pessoalmente. Convença o meu neto para trazê-la aqui- pediu vô Chico. _Eu também gostaria. E o Eliseu sente muitas saudades de vocês. Podem ter certeza disso.

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Dois dias depois, Eliseu estava estudando ouvindo o CD de Beethoven, Álvaro deu uma batida na porta e entrou sem esperar resposta. _Você está estudando ouvindo isso? Como é que pode? _Eu gosto. O que você quer? _Eu só vim aqui bater um papo, mas você está muito ocupado... _Não, tudo bem, eu já ia parar. E então? _Eliseu, você já parou para pensar sobre a pessoa que manda a grana para você pagar a faculdade? _Muitas vezes. Por quê? _Outro dia eu até perguntei para minha mãe se não era ela. _Sério? _Do jeito que ela gosta de você... _O que ela disse? _Que se ela tivesse condições, faria com a maior alegria. Mas você já pensou se de repente a ajuda falhar? Você não vai poder terminar a faculdade e falta muito tempo ainda. _Eu sei, mas eu confio em Deus. Ele preparou alguém muito especial e com certeza isso vai durar até eu conseguir o meu diploma. _Nunca se sabe, amigão. A pessoa pode ter algum problema financeiro ou até mesmo morrer, e aí? _Se acontecer alguma coisa assim, Deus vai providenciar outro meio. _Que confiança! Se eu fosse você ficaria muito preocupado, pois o que vai valer uma faculdade incompleta? _Eu não posso ficar pensando nisso, Álvaro. Eu tenho que estudar e deixar que Deus cuide do resto. Eu já contei o sonho da minha mãe... _Sonho? Eliseu, você acredita nisso? _Não foi um sonho qualquer. _Não quero desanimá-lo, mas se eu fosse você me preocuparia mais. _O que eu ganho com isso? Ansiedade? Não, Álvaro, Deus proverá. _Que papo careta! É melhor você estudar...

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Capítulo 26 – Aniversários e casamento _Manu, eu estou desconfiada que a minha mãe vai fazer uma festa surpresa para mim. _Então não será uma festa surpresa, né? _Ela não consegue disfarçar. Marcou um jantar. Só eu, ela e o meu pai. É muito suspeito. Você está sabendo de alguma coisa? Pela sua cara... estou certa, não estou? _Como você é desagradável! _Eu sabia! Eu quero que você convide o Eliseu. _Eu? Porque você não pede para sua mãe? _Manu? Ela vai ficar chateada. É para ser uma surpresa, lembra? Espera... tive uma ideia: ligue para minha mãe e peça para ela convidar o Eliseu. _Não sei se vai dar... _Por quê? _É... vou ver. A festa surpresa de Rebeca seria na “Gaal sabores”, por sugestão do pai dela. Ele combinou tudo com dona Lourdes. Naquela noite de sexta-feira a pizzaria estaria fechada para os outros clientes. Eliseu estaria presente... trabalhando. _Aonde nós vamos?- perguntou Rebeca sem disfarçar a curiosidade. _Calma, logo você saberá- disse o pai. _Estou conhecendo o caminho... _Rebeca, espere. O local que vamos jantar é uma surpresa- disse Cristina. _Então vocês deveriam ter providenciado uma venda para os meus olhos. _É verdade, nem pensei nisso- brincou Otávio. _Está animado hoje, hein, pai? _É o aniversário da minha filha. Instantes depois já estavam na “Gaal sabores”. _Ih, filha, pensamos em trazê-la para jantar aqui, mas está tudo apagado...disse Otávio. _Até parece! _Vamos?- perguntou Cristina. 241

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Assim que entraram... _Parabéns, pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida... Rebeca, Rebeca, Rebeca! Lá estavam alguns jovens da igreja e a amiga Isa, que veio com a mãe. Isso sim foi uma grande surpresa para Rebeca. _Isa, eu não acredito! Estou tão feliz por tê-la aqui, amiga. _Beca, parabéns! Eu também estou. Quando o seu pai apareceu com as passagens de avião, eu nem acreditei. _Foi ideia dele? Uau! _Aqui entre nós... a ideia foi da sua mãe- disse baixinho. _Ah... é claro, mas ele concordou. _Eu quero conhecer o … você sabe quem. _Ele deve estar trabalhando... dê uma olhada lá na frente. Lá está ele... atrás daquele vidro. _Ah... mas nem dá para ver direito. _Depois eu dou um jeito de apresentá-lo para você. Ah, Isa, eu não queria que fosse assim... estamos comemorando o meu aniversário e ele está trabalhando- lamentou no ouvido da amiga. _Não fique triste, afinal hoje é o seu dia. Depois vocês dão um jeito de fazer uma comemoração a dois. _Você está linda! A barriga está crescendo rápido. _Não dá mais para esconder, né? Mas eu estou bem. _Bequinha, feliz aniversário! Você está maravilhosa. _Oi, Álvaro, obrigada. _Não vai me apresentar para sua amiga? _Isa, este é o Álvaro. _Oi, Álvaro, tudo bem? _Ela fala muito em mim? Antes que ela respondesse, Rebeca deu um jeito de afastá-la. _Isa, preciso dar um beijo em sua mãe.

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Eliseu ficou sabendo com antecedência que a festa seria na “Gaal”, mas não podia estragar a surpresa. Ver a namorada e não poder estar ao lado dela era algo bem difícil. Logo pela manhã, ele conversou com ela pelo celular, foi o primeiro a parabenizá-la, mas agora só podia olhá-la de longe. _Manu, estava louca para conhecê-la, a Beca sempre fala sobre você. _É mesmo? Rê, cuidado, hein? Brincadeira. Eu também queria muito conhecê-la, Isa. E como você está? Enjoando muito? _Todos as manhãs. Pensei que fosse passar, mas até agora... _Você já está com quantos meses? _No início de novembro vou completar seis meses. _A Rê me contou que ainda não deu para saber o sexo do bebê. _Está se escondendo da mãe maluca dele, mas eu espero que no próximo ultrassom ele mostre tudobrincou Isa. Meia-noite, Rebeca cortou o bolo. Sentiu uma vontade imensa de entregar o primeiro pedaço ao namorado, mas para evitar especulações, deu para sua mãe. _E aí, não vou conhecer o seu amor? _Isa, fale mais baixo. Diga que você quer conhecer o pizzaiolo. Fale em voz alta, assim eu posso levá-la até lá. _Que pizza deliciosa! Será que eu posso conhecer o pizzaiolo? _É claro, vamos lá... Eliseu, naquele exato momento, estava saboreando um pedaço de bolo que Gabi trouxe para ele. _Oi. _Oi, aniversariante! _Eliseu, esta é a Isa. _Que prazer, Isa! Já ouvi tanto sobre você que até parece que já nos conhecemos. _Concordo. Deixa eu falar bem baixinho, o que para mim é um sacrifício enorme... a Beca só fala em você. _Cuidado Isa, fale mais baixo- pediu Rebeca. _Eu falei baixo! Quase que o Eliseu não ouviu.

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_E como vocês estão?- perguntou ele apontando para a barriga dela. _Estamos bem. Pena que eu more longe, senão eu ia adorar ter você como o pediatra do meu bebê. _Eu ainda tenho um longo caminho pela frente, mas agradeço. _Eliseu, porque você não sai e aproveita o finalzinho da festa, hein? - perguntou Rebeca com um certo receio. _Eu não estou vestido de maneira apropriada. _Eu... eu... _Você está linda! - sussurrou ele. Otávio se aproximou, olhou para Eliseu e puxou o braço da filha, dizendo: _Filha, venha se despedir de seus amigos- antes de se afastar olhou novamente para Eliseu e disse: você é o pizzaiolo? _Sou. _Até que as pizzas estavam boas. _Pai, o Eliseu estuda medicina. Vai ser pediatra. _Ah, é? Interessante. Um pizzaiolo que quer ser médico. Sonhar não custa nada, não é? _Pai, ele está estudando pra isso- disse Rebeca sem esconder a irritação pelo tom usado por seu pai. _Muitas coisas podem acontecer. Ele pode até desistir... _Não, senhor. Desistir nunca. Eu vou ser um pediatra. _Que confiança! Rebeca, vamos. _Eliseu, adorei conhecê-lo- disse Isa. Rebeca não conseguiu se despedir do namorado porque Otávio não desgrudou mais dela. _Murilo, perdeu alguma coisa?- perguntou Manu ao vê-lo parado em frente à “Gaal”. _Não, Manuella. Só estava esperando. _Esperando por quem? Agora fiquei curiosa. _Por você. _Por mim? Que honra. E o que você quer de mim? _Uma carona. _Você só pode estar brincando! _Estou falando sério. _O que aconteceu com o seu carro?

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_Emprestei para minha irmã. Ela me deixou aqui e eu disse que depois arrumava uma carona. _O MM está me pedindo carona? O mundo vai acabar! _E então? _Tudo bem, mas eu não estou acreditando nisso... Murilo não disse uma palavra até chegarem em frente à casa dele. _Prontinho, mercadoria entregue!- brincou Manu. _Muito engraçado! _Você está bem? Ficou calado o tempo todo. Estava com medo? _Medo? Manuella, dá um tempo. Eu só queria observá-la. _Me observar? _Para uma mulher, até que você dirige razoavelmente bem. _O MM está me elogiando? Partindo de você foi um elogio e tanto, devo reconhecer. _Manuella, você fica bem de verde. Hoje nós estamos combinando. _Nós? _A sua blusa combina com os meus olhos. _Nossa, que emocionante! Agora é melhor você entrar. Está tarde, é perigoso. _Que pena! Estava gostando de ficar aqui com você. _MM, me poupe! Eu ainda vou perguntar para sua mãe se você recebeu algum diagnóstico. _Manuella, eu estive reparando e... até que você não é feia. _Murilo, agora chega! Saia do meu carro. _Calma, eu estou sendo sincero e gostaria que você também fosse comigo. Manuella, há quanto tempo que você não dá um beijo? _Murilo, saia daqui! _Tudo bem... é só uma dúvida básica. _Dúvida básica você vai ter se não sair daqui agora. Não vai saber o que foi que te acertou. _Nossa, não vai ser necessário usar de violência, estou saindo... só vou dizer mais uma coisa: Se você fosse mais razoável, teria saído do jejum hoje mesmo.

A vontade de Rebeca era ligar para Eliseu assim que chegasse em casa, mas foi impossível. Isa,

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Marli, Otávio e Cristina se reuniram na sala de estar para conversar, ela até que tentou ir direto para o quarto, mas Otávio pediu para que ela se sentasse ao lado dele. Eram quase três horas da manhã quando conseguiu ficar sozinha. _Desculpe o horário, mas só deu para ligar agora. Queria muito falar com você. Amor, eu sinto muito... _Por quê? Por agora ter 23 anos? _Eliseu, você ainda consegue brincar? Era a festa do meu aniversário e você estava trabalhando nela. Eu não podia imaginar que seria na “Gaal”. _É claro que não, era uma festa surpresa. _E eu não gostei nada do comentário que meu pai fez. _Rebeca, não fique chateada; eu nem liguei. _Me deu uma vontade de dizer para ele que você é meu namorado! _Você teria escolhido um péssimo momento pra isso. Eu tenho um embrulho bem pequeno para te entregar. _Ah, amor, sabe o que eu mais gostaria de ganhar? _Nem imagino... _Você deve imaginar sim... gostaria de poder gritar para todo mundo ouvir que você é o meu namorado. _Isso você decide, só peço que me avise antes. Preciso conversar com o Álvaro. Será que você vai ter um tempinho para nós, amanhã? _Você quer dizer hoje, não é? Esqueceu que horas são? _É verdade. E então? _A minha vontade é ficar com você o dia inteiro. _Mas... _Eu não posso sair e deixar a Isa aqui. Ela vai embora domingo à tarde. _Isso significa que... _Eu vou dar um jeito. Preciso passar um tempinho com você. Nem que seja uma hora. Eu vou combinar com a Isa. Vai ser fácil, porque com certeza ela vai querer comprar alguma coisa. O único problema é se a mãe dela e a minha resolverem nos acompanhar. _Eu aguardo uma ligação sua. Agora é melhor você descansar um pouco. _Eliseu, eu... tem razão; durma bem. Um beijo.

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“Me deu uma vontade de dizer que o amo, mas acho que está cedo ainda. Ele também não disse... será que ele pensa como eu? Pode ser que isso nem passe pela cabeça dele. Eu gostaria que ele sentisse o mesmo. Ah, Rebeca, como você é boba. Eu vou esperar que ele diga primeiro... espero que ele não demore muito.”

_Ainda bem que você conseguiu convencer a sua mãe- disse Rebeca ao entrarem no carro. _Fiquei com um aperto no coração... ela queria nos acompanhar. _Eu sei, Isa, mas se ela fosse... _Tudo bem, Beca. Eu sei que você precisa ver o seu gato. Está louca para namorar, né? _Ah, Isa, namorar escondido não é fácil. _É, amiga, você precisa resolver isso. Ainda bem que a Manu vai com a gente, não ia ser nada legal segurar vela. Encontraram com Eliseu no shopping. Isa e Manu se afastaram rapidamente. _Ah, amor, que saudade! Quero meu beijo de aniversário, agora! _Que mandona! Não sei se vou atender...hum, pensando bem... Eliseu atendeu ao pedido da aniversariante. _Isso é para você. É simples, mas comprei com o maior carinho. _Tenho certeza disso, amor. Deixa eu ver... ah, que delicada!Dois corações? De quem são? _Eu vou mostrar a quem esses dois corações pertencem. _Eles abrem? _Olha... Rebeca viu a letra R em um dos corações e a letra E no outro. Eliseu colocou a delicada pulseira em sua namorada. _É lindo! Amei. _Você não pode deixar que os outros abram. É o nosso segredo. _Principalmente o segundo. Como eu vou explicar a letra E? _Diga que é “E” de eterno. _Pode ser também de especial, encantador, excelente, empolgante...Eliseu.

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_Uau, gostei. _Eliseu, o nosso namoro não vai ficar em segredo por muito tempo, tá?

Durante o mês de novembro Eliseu e Rebeca conseguiram passar mais tempo juntos. Ela o buscava na faculdade pelo menos duas vezes por semana. Uma semana antes de seu aniversário, Eliseu recebeu uma visita do reitor Sérgio. _Eu sei que está quase na hora da pizzaria abrir, por isso vou ser bem rápido. Tome, isso é para você. _Para mim? - perguntou Eliseu ao pegar um envelope das mãos do reitor. _Presente de aniversário adiantado. É do “bom samaritano”. _Aqui tem R$ l.000,00! _É? Parabéns! _Eu não posso aceitar. _”Aquela” pessoa disse que não aceita devolução. _Mas... _Eliseu, receba o seu presente e pare de se preocupar. _Então, obrigado. Diga que eu sempre oro por ela... por ele... sei lá. Eu vou fazer melhor... você pode entregar uma carta? _É claro. _Hoje, depois do trabalho, eu vou escrever.

Logo após a “Gaal” fechar, Eliseu foi até o quarto e começou a escrever uma pequena carta para aquela pessoa especial. Para o “bom samaritano”: “ Amigo ou amiga, não sei quem você é, mas sei algo muito importante: você tem um coração cheio de amor. A sua ajuda é muito especial para mim. O sonho da minha amada mãe, daqui a alguns anos, se transformará em realidade graças a você. Pode ter certeza que tenho me esforçado bastante e serei um grande médico. Sempre oro por você. Agradeço a Deus todos os dias por você

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existir. Espero que um dia possa dar um forte abraço nessa pessoa tão especial. Pense com carinho na possibilidade de nos encontrarmos, isso sim seria um presente de aniversário incrível. Amigo(a), fique com Deus. Daquele que admira a sua bondade: Eliseu.”

A pessoa especial recebeu a carta de agradecimento no final da tarde do dia seguinte. No dia do aniversário de 23 anos, Eliseu recebeu uma ligação do avô e da irmã. À noite, dona Lourdes o dispensou do serviço. Ele e Rebeca saíram juntos para comemorar. _É um relógio lindo, obrigado, mas é alguma indireta?- perguntou Eliseu brincando com a namorada. _É claro que não, você é bem pontual! É que eu também gostaria que você tivesse algo em seu pulso, assim como eu. Eu olho para a minha pulseira e penso em você. _Acha mesmo que eu preciso de algum lembrete para pensar em você? _Ai, assim você me deixa sem jeito... eu também não preciso, é que... _Eu entendi, meu amor, só estou brincando. Estou feliz, muito feliz. _Ah, bom! E aí, você recebeu alguma resposta daquela pessoa? _Ainda não. O reitor Sérgio me disse que a pessoa não fez nenhum comentário sobre isso. _Que mistério! Vamos tentar adivinhar? Vamos pensar... eu tenho um suspeito. _Quem? _Na verdade é uma suspeita. _Quem? _Dona Lourdes. _Eu também já pensei nisso, mas acho que não. A pizzaria tem um ótimo movimento, mas a dona Lourdes também tem muitas despesas e... _É, mas quem sabe? E o reitor Sérgio? _Pode ser, mas ele garante que não. _É claro, né. Se ele quer manter segredo... _Eu só posso esperar. Quem sabe um dia o mistério seja desvendado. Agora, eu quero desvendar

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outro mistério... _É mesmo? Qual? _Preciso saber se os seus lábios estão mais macios do que há alguns minutos... _Isso é tão fácil de desvendar... _E tão agradável...

Alguns dias depois... _Nossa, como você está cafona- disse Álvaro ao ver Eliseu vestido para o casamento da filha do pastor Moisés. _Ele ficou maravilhoso. Isso é um fraque e é muito chique. Eu adoraria ver o meu filho vestido assim. _Não viaja, mãe. Só se for em meu funeral! _Não fale assim, Álvaro! Vá se arrumar. _Eu não vou. Detesto casamentos. Olha só o que eles obrigam a pessoa vestir!- disse ele apontando para Eliseu. _Todos os padrinhos irão assim- explicou Eliseu. _E isso é tão ridículo! Vê se sai de lá namorando a Karine, tá? Ou pelo menos aproveite para ficar com ela. Faça que pagar esse mico vale a pena. _Álvaro, isso é jeito de falar? _Mãe, o Eliseu entendeu perfeitamente. _E você acha que eu não entendi? Vá tomar um banho e coloque aquela roupa nova que eu comprei. _Aquela camisa social? Está brincando, né? Mãe, se eu resolver ir, pode ter certeza que não colocarei aquela roupa. Tchau para vocês. De repente eu até apareço por lá mais tarde, só para ver a Rebeca. Assim que ele saiu... _Ah, Eliseu, eu gostaria tanto que o meu filho fosse mais ajuizado. Se ele namorasse a Rebeca eu acho que ele melhoraria bastante, você não acha? _Eu? Sei lá... dona Lourdes, eu preciso ir. Tenho que pegar a Karine na casa dela. E obrigado por

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me emprestar o carro. A senhora combinou mesmo com a Clarice? _Pode ficar tranquilo. Daqui a pouco o Moacir e a Clarice passam aqui. Preciso apressar a Gabriella, ela ainda deve estar tomando banho.

_Ah, Manu, o meu amor vai levar a Karine para a Igreja. Eu sou a namorada dele e é ela que vai chegar lá com ele. Isso é tão... _Rê, que drama! O Eliseu é um dos padrinhos, é só por isso que ele vai com ela. Pode ter certeza que ele queria entrar com você. _Meu amor de fraque e eu bem longe dele! _Ai, ai, ai...já deu para perceber que vou ter que aguentar você reclamando o casamento inteiro. Vamos, eu não quero chegar atrasada, isso é só para a noiva. Ainda faltavam vinte minutos para as 19h e a igreja já estava lotada. Ninguém queria perder o casamento de Giovanna, a filha do pastor Moisés. Rebeca só viu Eliseu quando ele entrou ao lado de Karine. Ela sentiu um aperto no peito ao vê-lo. _Ah, Manu! Olha só o meu amor... como ele está fofo! Tão lindo e de braço dado com outramurmurou no ouvido da amiga. _Calma... pense que ele é o seu namorado e logo estará com você. _Até parece! Nem na festa eu vou conseguir chegar perto dele. _É claro que vai. Olha só o MM... _Ele está usando terno e gravata! Como ele fica bem vestido assim! Concorda? _Eu? Não mesmo! Ficou ridículo e... _Manu, você não está sendo sincera. _É claro que... _Não. _Rê, eu não suporto o Murilo! Você sabe muito bem disso. _Sei? Ih ...não olhe agora, mais ele está se aproximando... _Bem típico do Murilo, se levantar e ficar andando em plena cerimônia de casamento... _Oi, meninas! _Murilo, o que você quer? Aqui não tem lugar para você. _Agora tem- disse Rebeca ao levantar-se- vou tomar água e depois eu arrumo outro lugar.

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_Rê, a igreja está lotada e... _Valeu, Rebeca, eu estava querendo mesmo me sentar ao lado da Manuella. _O quê? _Tchau para vocês, estou com uma sede!- disse ela saindo. _O que você está tramando, hein?- perguntou Manu após a saída estratégica da amiga. _Só quero ficar perto de você. _Por quê? _Porque eu gosto de... _Não começa. _Manuella, eu... _Eu vim até aqui para assistir a cerimônia, posso? _É claro que você pode, princesa. _Princesa? O que deu em você? Isso já está ficando ridículo. _O que eu posso dizer? Você é uma princesa. _Murilo, fique calado.

Assim que a cerimônia terminou Manuella saiu rapidamente, Murilo até que tentou acompanhá-la, mas não conseguiu por causa do grande número de pessoas que se locomoviam. _Que amiga, hein? _Não entendi. _Entendeu sim, Rê! Foi uma péssima ideia me deixar com o Murilo. Você acha mesmo que pode acontecer algo entre nós? _Tenho certeza. _Pode esquecer. Eu detesto o Murilo. E você já conseguiu falar com o seu amor? _Fale baixo, Manu! _Desculpe. E então? _Ainda não. A Karine deve estar pensando que o Eliseu também faz parte do aluguel. Promoção: alugue um vestido e ganhe um rapaz bonito e simpático para ser seu acompanhante. _Nossa, que maldade! E que humor! _Estou insuportável, eu sei. Ah, Manu, eu preciso resolver isso. Tenho que conversar com meu pai

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sobre o Eliseu. _Concordo. Olha lá... ele está tentando se aproximar de você. _Estou vendo... mas veja quem não desgruda dele. A Karine está abusando, eu... _Calma. Acho que agora ele consegue... lá vem ele e a Karine ficou. Alguns segundos depois... _Manu, tudo bem? - perguntou Eliseu. _Tudo. Você fica muito bem de fraque! _Obrigado. Rebeca ficou de costas assim que Eliseu se aproximou. _Será que há alguém aqui que está brava?- perguntou ele. _Brava? Tem alguém aqui que está com ciúme, isso sim- disse Manu. Eliseu falou bem próximo ao ouvido de Rebeca: _Você está linda; pensei em você a cerimônia inteira. _É? Eu não pensei nem um pouquinho em você- disse ela sem se virar. _Que pena, pensei que você também queria estar ao meu lado. _Eu...me desculpe. Estou mentindo- revelou virando-se e olhando para ele- Eu também queria estar com você. _Ufa, que alívio! Rebeca, eu tenho que tirar uma foto com a noiva, volto assim que... _Pode ir, eu vou embora daqui a pouco. _Não vá. _Eu... _Eliseu, vem comigo, precisamos tirar foto com os noivos- disse Karine ao se aproximar- Oi, Rebeca, oi Manu; me desculpe mas preciso levar o meu par. Ao dizer isso Karine puxou Eliseu pelo braço e ele a acompanhou, mas antes olhou para Rebeca com um pedido de desculpas mudo. _”Me desculpe, preciso levar o meu par...” ai, como eu gostaria de dizer algumas coisas para aquela garota! _Rê, que ciumenta! Eu não sabia que você era assim. _Manu, sem brincadeiras. _Eu posso brincar com você. Depois do que você fez hoje...

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_O que eu fiz? Tem alguma coisa a ver com o Murilo? _Você sabe muito bem o que fez. Rê, nunca mais me deixe sozinha com ele. _Está com medo de ceder? _Sem graça. _Não sei o que você fez, mas ele não se aproximou mais. _Ótimo.

Quando faltavam poucos minutos para a meia-noite, Cristina chamou a filha para irem embora. No dia seguinte, Eliseu e Rebeca se encontraram para almoçar. _Eu sei que a culpa é toda minha. _Que isso agora?- perguntou Eliseu. _Ah, Eliseu, o namoro secreto foi ideia minha. Eu tenho que falar com meu pai. _Eu preciso falar com ele. _Prefiro ter uma conversa sozinha com ele, antes que você enfrente a fera. _Que isso, não deve ser tão ruim assim. _Meu pai dá tanto valor à coisas materiais...não sei se ele vai entender. Estou orando, e você? _Também estou, mas temos que orar e depois partir para a ação, concorda? _Você está certo. Hoje meu pai disse que prefere passar o Natal lá em Porto Alegre. Eu queria tanto ficar aqui com você... seria o nosso primeiro Natal juntos, mas como? Tenho que ir. Natal em família, você compreende? Ah... desculpe, não deveria ter falado assim. _Tudo bem, Rebeca. Não se preocupe. Vamos combinar uma coisa: assim que vocês voltarem, eu vou ter uma conversa com o seu pai, e se você quiser adiantar alguma coisa para ele, fique à vontade. _Combinado. O nosso namoro vai deixar de ser secreto antes de terminar o ano.

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Capítulo 27-Rever a família? No dia 22 de dezembro, Rebeca foi para Porto Alegre com a família. Eliseu, dona Lourdes e Gabi, passaram a véspera de Natal com Moacir e Clarice. Álvaro deu um jeito de não participar. _E então, Eliseu, muita expectativa para o próximo ano?- perguntou Moacir enquanto saboreavam um pavê. _Com certeza. O próximo será melhor do que este, embora eu não possa reclamar. Foi um ótimo ano, eu até... _Você... _Tenho uma novidade para contar, mas é segredo. _Um segredo, eu adoro segredos. _Eu...estou namorando. _Olha só, que maravilha! Parabéns! E quem é a felizarda? _Eu sou o felizardo. _Quem é ela? Eu conheço? _Conhece. É a Rebeca. _Oose! Quem diria! Então vocês dois são felizardos. Ela é uma ótima moça. Mas qual o motivo do segredo? É por causa do pai dela? _Você o conhece bem , não é? _Sim, nós crescemos no mesmo bairro, brincamos e estudamos juntos. _E qual será a reação dele ao saber que a filha está namorando um cara como eu? _Bom, Eliseu, se eu tivesse uma filha e ela me apresentasse você como namorado, eu ficaria muito feliz. _Você é muito bom, Moacir. _Você é um ótimo rapaz. Agora, como eu não sou o pai de sua namorada... Eliseu, se o Otávio tiver a oportunidade de conhecê-lo, eu tenho certeza que ele vai gostar de você. _Você é bem otimista, não é Moacir? _Aprendi a ser. Eu entendo o seu receio. A família da Rebeca é bem financeiramente, mas você é um rapaz que está batalhando... _Será que isso vai ser suficiente para o pai dela? _Espero que sim. Vou orar para isso. Quando você vai falar com ele? Assim eu intensifico as 255

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orações. Eliseu sorriu, mas em seguida ficou bem sério. _Quando a Rebeca voltar, mas eu preciso conversar com uma outra pessoa antes disso. _Com quem? _Com o Álvaro. Ele diz que gosta dela... _Ah... é um problema. Vocês são amigos e você não sabe como falar para ele. _É isso mesmo. Eu sei que preciso ser bem sincero com ele. Vou cuidar disso assim que a Rebeca voltar.

No dia de Natal, Rebeca e Eliseu conversaram alguns minutos pelo celular. Ele ficou sabendo que o pai dela havia resolvido que a família ficaria lá até o início do ano. _Meu pai fez uma coisa incrível, nem minha mãe está acreditando. _É mesmo? _Ele ligou para o Rodrigo e o convidou para o almoço de ano novo. Meu irmão aceitou. Isso é maravilhoso. Os dois ficam meses sem trocar uma única palavra. Quando meu irmão liga, só fala comigo e com a minha mãe. Vai ser ótimo tê-lo aqui. _Fico feliz por você. _O que me deixa mais feliz é que o convite partiu do meu pai. Ah, Eliseu, você não imagina o quanto os dois são teimosos. _Quem sabe agora as coisas começam a mudar. _Assim eu espero. É muito triste quando pai e filho não... me desculpe. Vamos mudar de assunto? A Isa está tão linda, mas está muito preocupada com o peso. _Ela engordou muito? _Dois quilos em menos de um mês. Ela diz que está com uma fome incontrolável. No início da gravidez ela passou muito mal, enjoou bastante. Agora quer compensar. _Ela precisa se controlar. _Eu já disse isso para ela. E você? Ligou para o seu avô? _Vou ligar mais tarde. Eles iam passar o dia em uma chácara com alguns amigos. _Legal. E o jantar na casa do Moacir? _Foi ótimo. _Amor, eu preciso desligar, mas antes eu gostaria que você soubesse que estou com muitas

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saudades e que o meu desejo era estar aqui com você. _Eu também, mas não se preocupe comigo, curta bastante os momentos que você passará com o seu irmão. _Aonde você vai almoçar? _Aqui mesmo. A dona Lourdes está assando peru e pernil.

No início da noite, Eliseu ligou para o avô. _Um feliz Natal para você também, meu neto. Ontem eu estava conversando com Deus sobre você. Preciso muito vê-lo, meu neto. Estou com tantas saudades. _Eu também, vô. Por que o senhor não vem para cá? _Eu? Ah, Liseu, não tenho coragem de deixar o seu pai aqui. Eu sinto muito dizer isso, mas ele está piorando a cada dia. Só se alimenta com muita insistência. Bebe quase o dia inteiro. _E a Jessica? Ela deve ficar tão triste ao vê-lo assim! _Muito triste. Ela chora quase todos os dias. Ainda bem que o seu pai deixou que ela fosse passar uns dias com a amiga dela em Cuiabá. _Ela viajou? _Isso mesmo. A Dri tem uma tia que mora lá. Só voltam dia 5 de janeiro. _Que bom. Assim a Jessica se distrai um pouco. Vô, eu penso em ir até aí, mas para isso eu preciso que o senhor me faça um favor. _Faço qualquer coisa para vê-lo. Pode pedir. _Pergunte ao meu pai se eu posso ir. _Liseu, isso não. _Vô, por favor. Eu quero que o senhor pergunte e depois me fale exatamente o que ele disse. Seja o que for. _Liseu, venha por mim e por sua irmã. _Eu amo vocês, mas se o meu pai não quiser a minha presença aí, não vou forçá-lo. Não diga nada para a minha irmã. Só vamos mencionar o assunto se ele concordar. Pergunte hoje mesmo. Amanhã eu ligo novamente. _E quando você pretende vir? _Se ele concordar, eu viajo uma semana depois do retorno da Rebeca. Preciso passar um tempo com

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ela. _É claro. _Vô, por favor, seja sincero. _Tudo bem. Liseu, eu amo você, meu neto, amo muito. _Eu também amo vocês. Se a Jessica ligar, diga que eu mandei um beijo. A ideia de viajar para o Mato Grosso havia surgido alguns dias antes, mas Eliseu não comentou com ninguém. Agora ele estava ansioso pela resposta de seu pai. Eliseu queria muito rever a sua família. No dia seguinte, ele foi até a oficina levar o carro de dona Lourdes para uma revisão. _A Rê está tão feliz, né? Desta vez o pai dela acertou- disse Manu. _Tem razão. Ela está muito ansiosa para rever o irmão. _E está louca para ver pai e filho novamente juntos. _Tomara que dê tudo certo. _Eliseu, a dona Lourdes vai viajar? _Ela pretende ir para Sorocaba dia 30. Tem uma grande amiga dela que mora lá. _E quando ela volta? _Acho que até o dia 5 ela está de volta. _O Álvaro vai? _Vai, por incrível que pareça. A dona Lourdes pediu para ele levá-la. Até que ele concordou rapidinho. Depois ele me disse que tem uma gata lá. Eles não se encontram há algum tempo. _Ele vai quebrar a cara se ela estiver namorando. _Você acha mesmo que o Álvaro vai correr o risco? Ele já entrou em contato com ela. A gata está livre. _Homens! E a Gabi? _Também vai. _Como será o seu final de ano? _A dona Lourdes me convidou para ir junto, mas eu prefiro ficar por aqui mesmo. _Olha, nós vamos preparar algumas coisas aqui em casa. Virão alguns parentes, se você quiser... _Manu, não se preocupe comigo. Eu vou ficar bem. _Vem almoçar conosco no dia de ano novo. _Eu agradeço, mas não.

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_Você recebeu algum convite do Murilo? _Não, ele está viajando. Foi com a família para Curitiba. _Ah, por isso que ele sumiu. Então passe o ano novo conosco, Eliseu. _Manu, valeu, mas eu prefiro ficar sozinho. Eu seria uma péssima companhia. Nesta época eu penso muito na minha família e... ah, é melhor ficar sozinho. E tem mais uma coisa: o Moacir me também convidou e eu recusei, então não posso aceitar nenhum convite. _Entendi. Bom, logo a sua amada estará de volta e aí a sua tristeza termina.

Eliseu esperou até 21h para ligar. Estava ansioso para saber a resposta e também com muito medo. E se a resposta de seu pai fosse negativa? _Vô? Sua benção. _Deus que o abençoe, meu neto. E então, você está bem? Ontem, depois que você desligou, eu falei com a sua irmã. Ela mandou um beijo enorme para você, e... _Vô, o senhor falou com ele? _E ela está se divertindo muito lá. A Jessica disse que... _Vô, depois o senhor me conta sobre a Jessica. O que meu pai disse? _O quê? _Vô... _Ah... é … ligue amanhã, eu vou perguntar e... _Vô, o senhor ainda não perguntou? _É que ele não estava muito disposto e... _Perguntou? _Ah, Liseu... como você é insistente! _Vô, por favor! Não minta para mim. _Eu perguntei, mas ele nem prestou atenção. _Qual foi a resposta? _Liseu, eu disse que ele não prestou atenção e... _Vô, eu já entendi. A resposta foi não, certo? _Liseu... _Quais foram as palavras dele?

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_Para que isso? _Vô, por favor. _Ah, meu Deus, meu Deus...ele disse que não quer vê-lo. Liseu, mas pense em mim e em sua irmã. Nós queremos muito... _Eu sei, vô, mas o desprezo é algo que eu não vou suportar. Aquele olhar... ah, vô, não dá, me perdoe. _E nós? Liseu, eu quero muito dar um abraço em você, venha... _Meu vô querido, me desculpe. Não posso. Vou desligar agora. Amo vocês. Chico colocou o fone no gancho e enxugou as lágrimas. Ele bem que havia pensado em mentir, mas não conseguiu. “Bom... pelo menos eu não precisei repetir as palavras cheias de mágoa do Zé.” Naquela tarde, José Luís estava na cozinha lavando a louça do almoço. Chico aproveitou para conversar. Demorou um pouco para tomar coragem e falar sobre Eliseu. _E então, Zé, a Jessica... _O que foi, Chico? Já percebi que você está querendo dizer alguma coisa, mas está enrolando... _É que a Jessica sente muitas saudades do irmão e... _Ah, eu sabia. Chico, me diz uma coisa: como ela pode sentir saudades de um irmão que ela não tem? _Zé, por favor, não fale assim. _Como você quer que eu fale? _Zé, me escute, eu falei com o Liseu ontem e... _Liseu? Não conheço. _Zé, para com isso. Eu quero rever meu neto e... _E o que eu tenho a ver com isso? _Tudo a ver. Ele me disse que se você concordar... _Chico, acho melhor você parar... _Ele vem passar uns dias aqui. _O quê? _É isso mesmo. Zé, será uma excelente oportunidade para vocês dois se entenderem. _Ah, Chico, para com isso. Eu não quero me entender com ninguém. _Zé, o Liseu está namorando. O nome dela é Rebeca, parece ser uma boa moça e ele vai ser médico.

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Doutor Eliseu. Já imaginou? O nosso Liseu será um doutor. _Nosso Liseu? Só se for seu. Bom, se depende de mim a vinda dele para cá... _Zé, por favor, pense na Jessica. _Não. Eu não o quero aqui. Assunto encerrado. E... velho, vê se diz a verdade para ele, porque se o “seu Liseu” aparecer aqui... _Não acredito nisso, se a minha filha ainda estivesse viva... _Ah... não comece. Eu vou dormir, é isso que eu vou fazer. Só assim eu tenho sossego.

Logo após falar com o avô, o celular de Eliseu tocou, era Rebeca, ele resolveu não atender. Estava muito triste e com certeza ela perceberia. Uma hora depois ele ligou para a namorada, foi fácil esconder a tristeza porque Rebeca estava muito feliz com a chegada do irmão. Ela contou que ele havia resolvido passar uma semana com eles. Na manhã do dia 31 de Dezembro, Eliseu andou pelas ruas na esperança de reencontrar-se com o amigo Amadeus. Voltou ao “cantinho”, mas não havia mais ninguém lá, nem mesmo aquele homem que tinha expulsado os amigos: Amadeus e Manoel. Foi então que ele teve a ideia de ir até a casa de recuperação “Vida Transformada”; ligou para o pastor Antônio que ficou muito satisfeito ao saber que Eliseu iria para lá. Rever o amigo Rubens foi um momento muito especial para Eliseu. À noite eles participaram de um culto de agradecimento a Deus por mais um ano e depois também puderam saborear um delicioso jantar. Ficaram cantando e conversando até 3h da madrugada. No dia seguinte, Eliseu ajudou no churrasco. Foi embora na manhã do dia 2 de janeiro.

_Ah, amor, eu estava tão preocupada com você. Foi uma ótima ideia ir para lá- disse Rebeca ao falar com Eliseu pelo celular. _O culto foi maravilhoso; alguns rapazes contaram as suas experiências. Um rapaz chamado Davi, recebeu a família lá para o almoço, ele disse que há muito tempo eles não conseguiam se reunir para fazer uma refeição juntos. Logo ele voltará para casa. Foi emocionante vê-lo com a família. _As drogas destroem as famílias, é tão bom saber que ainda existem histórias assim. Aqui também foi ótimo. Meu pai e o Rodrigo conversaram bastante. Não discutiram uma única vez. Eu fiquei bem surpresa com a atitude do meu pai. Ele realmente se esforçou para que tudo desse certo.

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_Que ótimo. E a Isa? _Comeu tanto neste final de ano! Amanhã eu vou acompanhá-la à consulta mensal. _A sua presença é muito importante para ela. _Eu sei, mas preciso ir embora, não aguento mais ficar longe de você. Já conversei com a minha mãe. Até domingo eu quero estar aí. Amor, assim que eu chegar nós vamos marcar para você conversar com o meu pai. Chega de namoro secreto. Cansei. _Tudo bem, mas eu preciso falar com o Álvaro antes. Ele deve chegar de viagem daqui a dois ou três dias. _Vamos combinar uma coisa? _O quê? _Não fale nada para o Álvaro. Vamos aproveitar para passarmos um tempo juntos. Depois você conversa com o seu amigo e só então você enfrenta a fera. Que tal? _Certo, mas você mesmo disse que está cansada de... _Eu sei, serão poucos dias. _Está com medo da reação dos dois? _Ah... é que eu estou com saudades... você vai deixar que eu tenha um tempo com o meu namorado, sem pensar nos outros? _Vou, com certeza. Também estou com saudades.

Dona Lourdes chegou com os filhos na sexta-feira à tarde. No sábado, logo pela manhã, ela saiu com Eliseu para fazer compras. _Pensei que a senhora só iria reabrir a “Gaal” na próxima semana- disse Eliseu. _Eu tinha até pensado nisso, mas não dá para ficar tantos dias sem faturar. Imagino que hoje não teremos um grande movimento, mesmo assim precisamos recomeçar. Não posso deixar meus fregueses experimentarem outros sabores por aí... _Tem razão. Eu até que estou com saudades de colocar a mão na massa. _Ah, eu sei que tenho que pensar em alguém para substituí-lo, a faculdade vai ocupar todo o seu tempo. Logo você vai precisar fazer estágio. Você vai fazer muita falta, mas é por um excelente motivo, doutor Eliseu.

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Capítulo 28 -Um cheque Eram quase 23h e o movimento na “Gaal” estava bem devagar, assim como dona Lourdes havia imaginado. Rebeca havia avisado que chegaria na tarde do dia seguinte só com a mãe, pois o pai já estava em São Paulo há dois dias. _Eliseu, a minha mãe pediu para te avisar que tem uma pessoa querendo falar com você- disse Gabi. _Comigo? Quem? _Não sei. Pode deixar o Geraldo aí sozinho; a minha mãe foi inventar de abrir justo hoje, está um tédio! Dez minutos depois, Eliseu se aproximou de dona Lourdes. _A Gabi disse que tem alguém... _Ah, ele está lá fora. Achei tão estranho... mas ele disse que precisa falar com você. Pode ir tranquilo. Não precisa mais trabalhar hoje. O movimento está tão fraco... _Quem quer falar comigo? _O Otávio; não sabia que vocês se conheciam, tudo bem que ele já esteve aqui na festa da Rebeca, mas... será que ele tem algum emprego para você? Ih, acho que posso perdê-lo antes do que eu imaginava. _Não deve ser nada disso.

Ela entrou na casa e estranhou encontrá-lo lá em plena noite de sábado. _Foi você, né? _Eu? _Não faça essa cara de inocente! _Você venceu, garota, culpado!

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Eliseu avistou Otávio assim que saiu da “Gaal”. O pai de Rebeca era um senhor de 57 anos com uma aparência bem imponente. Tinha quase 1,90 de altura. Os cabelos bem pretos com alguns fios grisalhos davam um charme à mais. _O senhor quer falar comigo? _Eu quero sim. Você pode me acompanhar? Meu carro está logo ali. _O senhor poderia adiantar o assunto? _O assunto? Bom, você já deve imaginar...é sobre a minha filha. Ao entrar no carro, Eliseu imaginou se Rebeca teria se adiantado e contado sobre o namoro, mas logo descobriu que não. _Eliseu, eu sou um homem que gosta de ir direto ao assunto. Não vou ficar aqui enrolando. Bom... a minha filha não sabe que eu estou aqui e nem pode imaginar que nós tivemos esta conversa. Tenho certeza que você não vai abrir a boca. Eu sei que você e a minha filha estão namorando... _Nós iríamos falar... _Agora é a minha vez, depois você fala. Rapaz, você é bem pretensioso, hein? E atrevido. Quem você pensa que é? Você acha que pode namorar uma garota como a minha filha? Você é um ninguém. _O senhor não pode falar assim comigo. Nem me conhece e... _Eu sei tudo sobre você. Sei que o seu pai o expulsou de casa e como ele não queria vê-lo por perto, você precisou sair do Mato Grosso. Veio para cá e morou na rua. _Eu fui roubado e... _Você mereceu. Traiu o próprio pai! _Eu não fiz isso. Aquela mulher mentiu. _Rapaz, o seu pai não acreditou em você, por que eu acreditaria? Você foi desprezado por seu próprio pai e acha que pode almejar entrar em minha família? Você morou na rua e só Deus sabe o que você fez, o que você usou e... _Eu não fiz nada errado. _É claro que você vai dar uma de santinho, mas comigo não cola. Eu sei também que você estuda medicina e que deseja ser um pediatra, mas depende de ajuda alheia

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para isso. Se a pessoa bondosa que paga a sua faculdade não bancar mais os seus estudos, você fica com um curso incompleto e você sabe muito bem que não dá para ser um médico... _Eu sei muito bem que vou conseguir me formar. Eu serei um médico. _Nossa, que confiança! Mas não se iluda, falta muito tempo ainda, tudo pode acontecer. Mas eu não tenho nada a ver com isso e muito menos a minha filha. A Rebeca é tão bobinha... ela confia em qualquer um. Mas, ela tem um pai que cuida dela. Rapaz, é tão conveniente namorá-la, não é? _Eu gosto dela. O senhor acha que eu... _Rapaz, eu tenho certeza que você está interessado em dinheiro e vou resolver isso. Você não precisa envolver a minha filha nisso. Aqui está- disse ele entregando um envelope. _O que é isso? _Abra e verá. _Um cheque? Um cheque de R$200.000,00? O que o senhor pretende? Está pagando para eu me afastar da Rebeca? _Não. Você entendeu errado. Eliseu, eu estou lhe proporcionando a oportunidade de terminar os seus estudos. Se a pessoa bondosa falhar, você tem como continuar. Caso contrário você pode usar o dinheiro para outra coisa. É claro que eu vou pedir um pequeno favor em troca. _É claro. _Você termina o namoro e estamos quites. E é claro que você não vai comentar nada com a Rebeca. Você inventa um motivo para terminar. Tenho certeza que você vai usar a sua criatividade para isso. _Não acredito. _Acredite, rapaz. Você tirou a sorte grande. Se envolver com a minha filha foi um erro, mas vai ser bem lucrativo para você. _Eu não quero o seu dinheiro, não me envolvi com a Rebeca por causa dos bens que a família dela possui. Ela é uma pessoa maravilhosa, eu amo a sua filha; não preciso do seu dinheiro. _Que romântico! Rapaz, você acha mesmo que consegue me convencer? Pare com isso. Fique com o cheque, eu sei muito bem o que você está fazendo... mas eu não vou aumentar o valor. _Eu não vou aceitar. _Ai, ai, ai... então vou precisar mudar a minha estratégia, bem que me avisaram... _Quem? _Não importa. _Como o senhor ficou sabendo do namoro? _Eu descobri. Rapaz, eu passei momentos maravilhosos com a minha família. Foi um final de ano

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perfeito. A Rebeca está tão feliz. Eu tinha alguns probleminhas com o Rodrigo, ele é o filho de meu primeiro casamento e nós fizemos as pazes, isso não é lindo? A minha esposa também ficou muito feliz e surpresa com a minha atitude. Família significa algo para você? _É claro que sim. Família é tudo. Eu já disse que não tive culpa, eu não sou um traidor. Aquela mulher mentiu e infelizmente o meu pai acreditou nela. _Que triste! Então eu acho que você não vai querer destruir a minha família, certo? _É claro que eu não quero destruir a sua família. _Ótimo. Eliseu, se o namoro continuar eu vou ficar muito aborrecido e sabe quem vai pagar por isso? A minha esposa. Eu e a Cristina temos algumas diferenças, mas ultimamente eu tenho sido bem flexível. Quero que haja harmonia e paz em meu lar. A Cristina sabe do namoro de vocês, mas não me disse nada. Eu não gostei da atitude dela, mas se o namoro terminar, eu nem vou lembrar mais disso. Estamos vivendo um momento tão especial... eu até convidei meu filho para passar alguns dias conosco. Bom...agora depende de você. _Eu espero que o senhor esteja se aproximando de seu filho com sinceridade. Não consigo acreditar que tudo isso foi só para... _Ah, rapaz! Vamos acabar com isso. Eu pensei que você fosse aceitar o cheque e tudo ficaria resolvido, mas você quis dar uma de orgulhoso. Me diz uma coisa: se eu aceitasse o namoro e vocês, daqui a alguns anos, resolvessem se casar, você aceitaria uma bela casa toda mobiliada como presente de casamento? _Não. _Sério? _Eu não me sentiria bem. _E então como seria? Minha filha teria que viver de acordo com o seu salário? Coitada dela! Você já esteve em minha casa? Já viu como é o nosso estilo de vida? Rapaz, a minha filha está acostumada ao luxo. O conto de fadas terminaria muito rápido. Rapazinho, você já viveu na rua, já deve até ter passado fome... a minha filha nem imagina como é isso. Existe uma diferença enorme entre vocês dois. _Não precisa me humilhar. _Ah, me desculpe. Amanhã a minha filha chega e você já sabe o que fazer. Rapaz, a união da minha família depende de você. A nossa conversa amigável deve ser mantida em absoluto segredo. Entendeu? _Eu entendi que o senhor não pensa na felicidade de sua filha. A Rebeca vai sofrer e o senhor não

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está nem aí. _Isso passa. Eu quero o melhor para ela. Me desculpe, mas você está bem longe disso. Nem que você consiga se formar... nem assim. _Eu não vou mais ficar aqui ouvindo isso- disse ele abrindo a porta do carro. _Rapaz, não se esqueça: Termine o namoro ou então você será responsável pela destruição de mais uma família. Eliseu saiu do carro sem dizer uma palavra. Entrou na "Gaal" e ficou aliviado ao ver dona Lourdes ocupada; foi direto para o quarto. Sabia que seria questionado, mas precisava de um tempo para pensar. Uma hora depois ele ouviu uma batida na porta. _Quem é? _Oi, querido, só queria saber se você já estava aí. Pode ficar deitado, amanhã eu converso com você. Boa noite. _Boa noite, dona Lourdes. " Tenho que mentir. Detesto isso. Vou precisar inventar uma história para dona Lourdes. O pior vai ser terminar o namoro. O que eu vou dizer para a Rebeca? Como o pai dela foi cruel! Ele sabia tudo sobre a minha vida. Com quem ele andou conversando? Com a Rebeca? Não. A mãe dela? Não. Ele não se arriscaria. Foi com outra pessoa. Quem? Poucas pessoas sabiam do namoro. O Murilo, a Manu...a Isa e ...o Moacir. Será? Não. Ah, meu Deus, o que eu vou dizer para ela? Preciso pensar em alguma coisa. Vou precisar dizer coisas que não quero... vou precisar mentir. Como posso colocar um ponto final em algo que eu quero que continue?" Eliseu dormia e acordava. Pensava em Rebeca, voltava a dormir, mas logo estava acordado novamente. Foi assim a noite inteira. _Bom dia, Eliseu. Está com uma cara! Não dormiu direito? _Bom dia, dona Lourdes. Não tive uma boa noite de sono. _Aconteceu alguma coisa? Me desculpe, mas o que o Otávio queria? _Ah...ele me ofereceu um emprego. _É mesmo? E você... _Eu agradeci, mas não aceitei. Não dá... eu expliquei a situação. Falei sobre a faculdade e disse que continuarei aqui com a senhora enquanto puder.

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_Bem que ele podia oferecer o emprego para o Álvaro. Ele não faz nada aqui mesmo. _Eu ouvi. _Já acordou? _É, já. E aí, cara. Que emprego? _O Otávio ofereceu um emprego para o Eliseu. Por que você não conversa com ele e... _Eu? Não posso deixar a minha mãe querida. A "Gaal" precisa de mim. _Sei. Acho que é o contrário. _Mãe! O pai da Bequinha ofereceu um emprego para você? Que estranho. _Preciso sair, mas se a senhora precisar de mim... _Não, querido, pode ir. Se eu precisar o Álvaro está aqui, afinal ele mesmo disse que a "Gaal" precisa dele, não é mesmo?- dona Lourdes piscou ao dizer isso.

Eliseu sabia que precisava sair dali rapidamente. Queria conversar com alguém. Quem? Resolveu procurar um amigo. _Que bom encontrá-lo, não tinha certeza se você estaria aqui. _Chegamos ontem à noite. Hoje eu até pensei em ir à escola bíblica, mas estava tão cansado- disse Murilo. _Como foi a viagem? _Foi ótima, mas estava com uma vontade de voltar, adivinha o motivo. _Manuella. _Exatamente. Mas e você? Me conta como foi... _Murilo, eu preciso falar com você. É algo muito sério. _Nossa, a Manuella está bem, né? _Está sim. _Ótimo. O que foi então? _Eu tenho que terminar o namoro. _O quê? _Murilo, eu vou contar uma conversa que eu tive com uma certa pessoa, mas eu preciso que você prometa que não vai comentar com ninguém. _Prometo, é claro.

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Murilo ficou revoltado ao ouvir a história de Eliseu. _Que absurdo! Ele foi terrível. _Você precisava ver o jeito que ele falava. A intenção dele era me humilhar. Eu só não entendo como ele ficou sabendo. _E ele estava bem informado sobre você. _Será que o Moacir... não pode ser. Ele disse que me ajudaria orando. _Será que ele resolveu agir? De repente ele pensou que poderia convencer o Otávio. Sei lá... ao saber da sua história ele poderia se comover e... _Aquele homem ficar comovido? Não mesmo. Bom.. só tem uma maneira de descobrir. Vou perguntar para o Moacir. Eu espero que ele não tenha feito isso. _E a Rebeca está chegando. _É. Eu até desliguei o celular. Eu não sei como fazer isso. _Você deveria desmascarar o pai dela. _Não posso, Murilo. Eu não conseguiria conviver com isso. A Rebeca ficaria muito magoada com o pai. Eu não posso acabar com o relacionamento deles. Afetaria até a mãe e o irmão dela. Eu acho que o pai dela foi bem falso neste final de ano. Já imaginou se o Rodrigo fica sabendo? _Então é com você que ela ficará magoada. _É isso mesmo. _É tão injusto! _É amigo. Terei que me afastar mais uma vez de quem eu amo. Isso cansa. E eu que cheguei até a pensar que havia acabado a fase ruim... não contei para ninguém, mas pensei em ir para o Mato Grosso, só ia esperar a Rebeca chegar. Queria aproveitar as férias para passar alguns dias com a minha família. _É mesmo? Você mudou de ideia por causa da conversa com o pai dela? _Não. Depois de tudo, para mim seria ótimo viajar. Murilo, eu pedi ao meu avô para perguntar ao meu pai se ele concordava com a minha ida. _Ah, Eliseu! _Péssima ideia. Ele não me quer lá. Sabe de uma coisa? O pai dela está certo. O que eu posso oferecer? Nem o meu pai me suporta. É isso mesmo. E se o “bom samaritano” mudar de ideia, ou morrer, ou sei lá... o que eu vou fazer? Ele tem razão. Mesmo sendo um médico eu não posso chegar nem perto do que ela está acostumada. E tem mais, o Álvaro gosta dela, que amigo sou eu?

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Eu mereço. Sou um traidor. O cara me fala da garota meses e meses e eu faço o quê? Me interesso por ela, começo um namoro, escondo de todos e... _Eliseu, para com isso. O pai dela está errado. Se ele te conhecesse saberia que não há ninguém melhor para a filha dele e sabe por quê? Porque ela te ama. Ela te escolheu. É isso o que importa. Cara, eu nunca conheci ninguém tão esforçado como você; chegou aqui sozinho, foi roubado por um pivete, mas está fazendo o quê? Faculdade de medicina. _Valeu, Murilo, mas eu ainda tenho que terminar o namoro. Ela vai me odiar, mas eu não tenho escolha. _Já orou? _Não adianta. Acho que Deus falando assim:" Filho, o que você está pensando? Eu já preparei a dona Lourdes para ajudá-lo, providenciei alguém para pagar a sua faculdade e agora você quer a Rebeca? Está querendo muito. Chega. Tenho outros para cuidar." _Agora você quer colocar palavras na boca de Deus? Pois você pode muito bem ter tudo sim. Você vai ser um pediatra e terá a Rebeca ao seu lado. E digo mais: o seu pai ainda vai te dar um abraço bem apertado, dizer que te ama muito e pedir perdão. Ao ouvir isso, Eliseu não conseguiu segurar as lágrimas. Murilo se aproximou do amigo e o abraçou.

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Capítulo 29 -Nandinho Rebeca chegou às 15h. Tentou por várias vezes falar com o namorado pelo celular, mas não conseguiu. Tomou banho, descansou um pouco e resolveu se arrumar para ir ao culto de domingo. Lá encontrou-se com Manuella. _Que saudade, amiga! Ah, Rê, você fez tanta falta...e aí, já viu o seu amor? _Ainda não. Nem consegui falar com ele. Meu pai nos buscou no aeroporto. Fez questão. Minha mãe disse que nós iríamos pegar um táxi, mas não, ele insistiu. Ele nunca gostou de buscar ninguém, sempre dizia: Se eu posso pagar um táxi, para que vou me estressar dirigindo? Meu pai está tão diferente. Precisava ver como ele tratou o Rodrigo. Pediu para ver algumas fotos que ele tirou. Nem acreditei. Ele nunca se interessou pelo trabalho do meu irmão. _Legal. Nunca é tarde para mudar. Mas e a Isa? _Ela está enorme! Vai ser um bebezão... vou tentar falar com o Eliseu. Queria tanto vê-lo ainda hoje. _Depois do culto podemos comer uma pizza. _Ótima ideia. Após o culto... _Olha só quem veio me visitar! Que saudade, minha Bequinha, eu... _Oi, Álvaro. Manu, vamos sentar? _Espera aí, gata. Vou colocá-las no melhor lugar da "Gaal". _Rebeca, como vai? E a sua mãe? _Oi, dona Lourdes, a minha mãe está muito bem, obrigada. Já estava com saudades das pizzas da "Gaal". _Que bom. Eu sei que ele sempre faz isso, mas vou pedir para o Eliseu caprichar ainda mais. _Bequinha, quando nós vamos sair? _Álvaro, não comece. Eu vim aqui para saborear uma pizza e... _Eu sei, gata, mas estou cansando do seu joguinho. _Quem disse que eu estou jogando, hein? Eu acho que a sua mãe está precisando de você, vai lá... _Depois eu volto, gata. 271

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_Ai, Manu... só vim aqui porque quero ver o meu amor, mas se o Álvaro continuar com isso eu vou embora. _Calma. Vamos até lá cumprimentar o Eliseu. Como quem não quer nada... _Vamos. _Eliseu, a Manuella e a Rebeca estão aqui. Vou lá pegar o pedido delas e você vai caprichar, não é? _Elas estão aqui? Pode deixar comigo. _Eu acho que elas querem garantir que a pizza será maravilhosa... vieram aqui para conversar com o pizzaiolo. _Oi, Eliseu. _Oi, Manu. Oi, Rebeca, como foi a sua viagem? _Oi, Eliseu, foi ótima, mas estava louca para voltar. _É mesmo? _Com certeza. Os dois ficaram se olhando fixamente. Dona Lourdes achou estranho, mas não comentou nada. _Eu estou com uma fome!- disse Manuella- Vamos escolher a pizza, Rê? _Oi? _A Pizza. _Ah... _Querem fazer o pedido?- perguntou dona Lourdes. _Manu, pode escolher- disse Rebeca ainda olhando para Eliseu. _Baiana. _Hã? Só se for sem pimenta. _Eu não entendo, você não disse que eu podia escolher? Quero com muita pimenta. É brincadeira. Lombinho? _Pode ser. _Suco ou refrigerante? _Suco de acerola, dona Lourdes, para a Rebeca também. Ela está um pouco distraída hoje; vamos voltar para o nosso lugar, Rê? _Vamos.

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_Rê, do jeito que vocês dois ficaram se olhando vai ser difícil manter o namoro em segredo. _Não gostei da atitude do Eliseu. _Não entendi. _Você viu o jeito que ele falou comigo? _O que você queria que ele fizesse? Você estava esperando um beijo na boca? _Não, mas ele não parecia nada feliz por me ver. _Rê, quando vocês estiverem sozinhos, o Eliseu vai poder demonstrar toda a felicidade... _Não sei. Tem alguma coisa errada. Ele nem me ligou... _Depois ele explica o que aconteceu. _Meninas, aqui está o suco. A pizza não vai demorar- avisou dona Lourdes. _Obrigada, dona Lourdes. Assim que ela se afastou... _Manu, eu preciso falar com o Eliseu. Me dê alguma ideia. _Rê, mais tarde você liga para ele. _Que ideia brilhante! _Sinto muito. Rê, ele está trabalhando. Dez minutos depois a pizza chegou. _Ainda bem que o Álvaro está bem ocupado. _Até que enfim eu vejo o Álvaro trabalhando. Ele sempre dá um jeito de escapar. Acho que você é a inspiração dele, Rê. _Manu! Ele deve estar querendo alguma coisa da mãe. Ele é bem espertinho... vê se ele quer ficar servindo... está lá sentadinho atendendo o telefone. _Você não dá um ponto para ele, hein? Vai tentar falar com o seu amado? _Como? Eu não vou lá só para dizer tchau. Deixa. Vamos embora. As meninas se despediram de dona Lourdes. Rebeca deu uma olhada na direção de Eliseu, mas ele estava de costas para ela. _Preciso ter uma conversa séria com o Eliseu, chega de segredo. _Rê, de quem foi a ideia de manter o namoro em segredo? _Você gosta de provocar, né? Manu, eu só queria ter um tempo com ele sem interferências, mas não dá. Vou resolver isso em poucos dias.

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_Parabéns! Eliseu, assim que entrou em seu quarto, ligou para Rebeca. _Resolveu me ligar... _Que tom é esse? _O que aconteceu? Por que o seu celular estava desligado? Por que você não me ligou antes? _Nossa! Me desculpe, mas meu celular estava descarregado, eu nem percebi- mentiu. _É mesmo? No dia que a sua namorada vai chegar de viagem, você esquece do celular... _Rebeca, para com isso. _Eu não gostei do jeito que você falou comigo lá na "Gaal". _Que jeito? O que você queria que eu fizesse? _Você não gostou que eu apareci lá, não é? _Foi uma surpresa. É claro que gostei, mas eu não podia demonstrar, ou podia? Como você está brava hoje. _Não me pergunte se é TPM. _Não vou perguntar. É isso? _Eliseu! Ah... me desculpe. É que eu... sei lá. Está tudo bem? _Está, é claro- mentiu novamente. _Eu estava com tanta vontade de vê-lo... acho que fiquei desapontada. Não foi como eu imaginei. Será que amanhã nós podemos almoçar juntos? _Podemos. Prometo que amanhã você não vai se decepcionar comigo. _A culpa não é sua. O culpado é o namoro secreto. _É. A culpa é toda dele. _Estou com saudades. _Eu também- sentiu-se aliviado por dizer a verdade naquele momento. "Eu sei que preciso terminar o namoro, mas não posso fazer isso amanhã."- pensou assim que desligou o celular. No dia seguinte, na casa de Rebeca... _Você vai almoçar com ele?_ perguntou Cristina. _Eu preciso matar a saudade, mãe.

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_A minha filha está tão apaixonada! _Estou. Mãe, vá se preparando... eu acho que o Eliseu vai conversar com meu pai nesta semana. Estou pensando... será que é uma boa ideia convidá-lo para almoçar aqui no próximo domingo? _Já? Filha, eu não sei se... _Meu pai está mudando. Eu quero aproveitar o momento. Fazia tempo que nós não tínhamos um Natal tão bom. Mãe, quem diria que ele faria as pazes com o Rodrigo? Meu pai se esforçou. Ele foi bem simpático e demonstrou um interesse sincero pelo trabalho do meu irmão. _É verdade. Ele me surpreendeu. _As minhas meninas estão conversando sobre quem? _Ah, pai, é segredo. _Segredo? _Brincadeira, Otávio, estávamos falando de você e do Rodrigo. De como vocês estão se entendendo. _E se depender de mim a cada dia vamos nos entender melhor. Ontem eu até liguei para ele. _Que legal, pai! _Eu quero que nossa família seja mais unida, minha filha. E falando em união... você vai comigo para a concessionária? As férias acabaram. _Pai, hoje eu tenho algumas coisas para resolver. Amanhã eu recomeço com tudo. _Então eu já vou. _Viu como ele está bonzinho? Eu vou combinar hoje com o Eliseu. É o momento perfeito. _Não sei, Rebeca. Acho que você deveria orar mais. _Mãe! É hora de ação. Manter um namoro em segredo é barra. E também não está certo. Meu pai precisa saber. _É, tem razão.

Eliseu, antes de encontrar-se com Rebeca, foi até a casa de Moacir. _Olha só quem veio almoçar com a gente, Clarice. _Não, eu agradeço, mas eu já tenho outro compromisso. Moacir, eu posso conversar um pouco com você? É rapidinho.

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_É claro. _Eu tenho que arrumar algumas no quarto... Eliseu, pareça qualquer dia para almoçar conosco. _Pode deixar, dona Clarice. _E então? Você está com uma cara de preocupado... _Estou com um problemão- Eliseu olhou para uma das muitas fotos que decoravam a parede- Não lembro de ter visto esta. _A Clarice colocou há poucos dias. Ela estava olhando os álbuns e não resistiu, pediu para fazer uma ampliação. _Quantos anos ele tinha aqui? _Seis anos. Ele adorava fazer pose. O nosso menino...às vezes eu penso que tudo seria perfeito se vocês não crescessem. Ah, que bobagem. Você está com um problema.. problemão, como você mesmo disse, e eu aqui... _Que isso, Moacir. Eu gosto da maneira como você fala dele. Dá para sentir o quanto você o amava. Ou melhor, o quanto você o ama. _Ah... vamos parar com isso. Me conte o que aconteceu. _Moacir, eu preciso perguntar uma coisa. _Pergunte. _Você comentou com alguém sobre o meu namoro? _Não. Você pediu para eu manter segredo. Eu e a Clarice conversamos muito, mas nem para ela eu contei. _Ele descobriu. _O Otávio? _É. Ele me procurou. _E... Moacir escutou atentamente e só se pronunciou após Eliseu terminar o relato. _Não pode ser. Eu nunca poderia imaginar que o Otávio jogasse tão sujo! Eliseu, ele chegou ao ponto de oferecer dinheiro? _É isso aí. _E depois, ao perceber que você não ia mesmo aceitar... ele jogou mais baixo ainda. O Otávio sempre foi um garotinho difícil de suportar. Era convencido e orgulhoso. Mas que adulto ele se tornou! Ah, Eliseu, como eu posso ajudá-lo? _Não pode. Bom... você pode orar por mim. Eu preciso de coragem para terminar o namoro.

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_Você não deveria fazer isso. Procure o Otávio e diga que não vai terminar com a filha dele. _Eu não posso fazer isso. Moacir, você conhece a minha história...não posso acabar com a harmonia de uma família. Imagine como vai ficar o clima entre a Rebeca e o pai dela, se ela ficar sabendo o que ele fez. Ele vai brigar com a esposa e tem o Rodrigo também. _Uma pena ele ter se aproximado do filho com falsidade. _Moacir, eu preciso ir, vou almoçar com a Rebeca. Se você quiser falar para a sua esposa, tudo bem, não quero que você tenha que mentir para ela. Só peça para ela manter segredo. Moacir, eu estou me sentindo tão mal. Detesto mentir. A Rebeca já percebeu que há alguma coisa errada e eu tive que fingir. _Eu sinto tanto, gostaria de fazer alguma coisa. Se o Otávio soubesse o rapaz que você é... _Para ele o que vale é uma conta bancária cheia de dígitos.

Rebeca e Eliseu se encontraram em um shopping às 12h30. _Vamos combinar uma coisa? Faz de conta que eu acabei de chegar de Porto Alegre. Assim você nem vai lembrar o quanto eu fui chata. _Combinado. Eliseu acariciou o rosto dela com carinho e a beijou. _Agora está muito melhor. Ah, amor, que saudades!- disse Rebeca- Estava precisando tanto do seu carinho. _Linda! Ficar sem você é muito ruim. _Amor, eu disse para minha mãe que nós vamos conversar com o meu pai. Eu até sugeri um almoço no domingo. Que tal? _É... domingo não vai dar. _Por quê? _Rebeca, me fale sobre a Isa. _Eliseu, por que você não quer conversar sobre... _Não é isso, é que nós ficamos tantos dias longe um do outro... para que falar disso agora? É um assunto... delicado. E a Isa? _Ela está bem. Eliseu, o que foi? Você está com receio por causa do Álvaro? _Não é isso. Vamos almoçar? _Vamos, mas não pense que você vai conseguir fugir do assunto.

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Durante o almoço, Eliseu contou sobre o final de ano na casa de recuperação e Rebeca falou como foram os dias com o irmão dela. Ele percebeu o quanto ela estava animada reaproximação de Otávio e Rodrigo. _Meu pai está irreconhecível e isso é ótimo. Amor, a mudança dele vai facilitar as coisas para nós. Já estava na hora dele dar valor... _Você quer um sorvete? _Quero. E o Murilo, hein? _O que você quer saber? _Sobre a Manu, é lógico. _Você que deveria me contar sobre ela. _Eliseu? _Não estou certo? E aí, ela fala dele? _Do mesmo jeito de sempre. Bom... mudou um pouco. _O que mudou? _Ela diz que o Murilo está muito gentil e que ela preferia quando ele era sincero. _Não acredito. Ela pensa que ele está fingindo. _Exatamente. _Como é difícil... _Você precisa conversar com ele. Vai ser necessário uma mudança de tática. E já que estamos falando em mudança... Eliseu, posso marcar com a minha mãe? _Marcar o quê? _O almoço de domingo. _Ah... não. Vamos esperar mais um pouco. _O que está acontecendo com você? Antes da minha viagem... _Rebeca...seu celular está tocando. _Vou atender... oi, Marli, estou bem e a Isa? Sério? Amanhã. Sei... ela está descansando agora. Manda um beijão para ela e qualquer novidade me avisa, tá? Beijo, tchau. _Algum problema? _A pressão da Isa está um pouco alta. _E ela está no final da gravidez... precisa cuidar disso. _Ela vai ao médico amanhã. por causa da

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_E você não vai sossegar enquanto não souber que está tudo bem, não é? _Você sabe que a Isa é com uma irmã para mim. _Seria bom se você estivesse lá com ela. _Sim e não. Seria bom estar com ela, mas eu teria que ficar longe de você, novamente. Eu fiquei alguns dias fora e olha só como você está. _Como eu estou? _Muito estranho. Antes você queria conversar com o meu pai, mas agora... _E o sorvete? _Não adianta disfarçar. _Será que um beijo vai adiantar? _Um beijo... talvez. Eliseu acariciou os cabelos dela, pegou a mão direita de Rebeca e a beijou. _Não pensei que você estivesse se referindo a um beijo na mão. _É só para começar. _Ah... Ele contornou os lábios dela com um dedo, se aproximou bem devagar e deu um beijo na bochecha dela. _Você está me provocando... _Estou mesmo? E agora? - perguntou ao tocar os lábios dela levemente. _Piorou... ou melhorou, eu não sei bem... _Vou ajudá-la. Ele a beijou apaixonadamente.

_Rebeca, você falou com o Eliseu sobre o almoço? _Falei, mãe. _E... _Ele ainda não me deu uma resposta. _Vocês vão sair hoje? _Vou almoçar com ele novamente. Mas teremos pouco tempo juntos. Hoje a "Gaal" abre. _Você não vai trabalhar? Seu pai saiu antes das sete e disse que está contando com você. _Eu vou agora para a concessionária. Vou encontrar com o meu amor às 13h.

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_Vê se consegue uma resposta dele. _Vou tentar. Durante o almoço... _E a Isa? _A mãe dela ficou de me ligar logo após a consulta. Estou aguardando. Amor, e o almoço, posso confirmar com a minha mãe? _Rebeca, eu preciso ter uma conversa muito... _O celular... é a Marli. Espera um pouco, eu vou atender. Oi, Marli. E então? Ela vai falar comigo? Tudo bem. Isa? Oi, amiga. Como vocês estão? É mesmo? Fique tranquila. Repouso. Muito repouso. Então vê se obedece. Ah, amiga... o médico disse? Eu também quero estar aí com você. Não chore, amiga, vai dar tudo certo. Você está com medo? Não fique assim. Estamos orando por vocês. O bebê vai ficar bem e você também. Pare de chorar, Isa, isso não vai fazer bem. Eu vou tentar. Preciso conversar com os meus pais. Ele está aqui comigo. Tudo bem, não se preocupe. Descanse, mais tarde eu ligo. Um beijo enorme. Te amo, amiga. _Ela não está bem? _O médico disse para fazer repouso. Ele quer esperar mais alguns dias; ela está com 35 semanas. Ela precisa ficar atenta à pressão. Verifica várias vezes ao dia. Quer que eu vá para ficar com ela. Ah, Eliseu, ela está com medo de acontecer alguma coisa com o bebê. Eu vou precisar deixá-lo novamente. _Eu entendo, a Isa precisa de você. Não se preocupe comigo. _Eliseu, eu... te amo. Rebeca ficou olhando para ele, esperando ouvir o mesmo, mas ficou decepcionada. Alguns segundos depois ele disse: _Com você lá, a Isa vai ficar mais tranquila. Ela queria questioná-lo, mas ficou com receio de sair ainda mais desapontada. _É... tem razão. _É melhor nós irmos; você precisa se preparar para a viagem.

Mais tarde Rebeca ligou para a amiga Manuella. _Você está certa, Rê. Nada como uma grande amiga ao lado. A Isa vai se sentir bem melhor quando

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você estiver lá. E o bebê apressadinho vai ser muito saudável, tenha certeza. Estarei orando por eles. Você está com uma voz tão triste. É por causa dele, não é? _É. Se eu pudesse... _Levaria o Eliseu na mala. _Levaria. Ah, Manu... tem alguma coisa errada e justo agora eu terei que me afastar. _Por que você está falando isso? _O Eliseu está muito estranho. Hoje eu me precipitei. _O que você fez? _Eu me declarei. Eu disse que o amo. _Grande novidade. _Foi a primeira vez; a reação dele ou melhor a falta de... _O que ele disse? _Nada. Desconversou; foi como se eu tivesse falado alguma coisa sobre o tempo ou sobre a bolsa de valores. _Não exagere, Rê. _É verdade. Nossa, eu fiquei tão sem graça. Eu abri o meu coração e ele nem ligou. Eu me lembrei daquele dia que eu resolvi ser corajosa e comecei um beijo. Eu não posso tomar iniciativa com o Eliseu, é decepcionante. _Rê, esquece isso, vai lá ficar com a Isa, quando voltar, você esclarece as coisas com ele. _Vou fazer isso, mas senti que ele ficou aliviado com a minha viagem. _Não fala assim. _O Eliseu mudou. Ele não consegue fingir. Eu vou descobrir o que aconteceu, mesmo que eu saia machucada disso tudo.

Naquela noite, Eliseu pensou muito no último encontro com Rebeca. O olhar de decepção dela não saía da cabeça dele e aquelas três palavras também não. Ele queria dizer que também a amava, mas como? Como dizer algo tão profundo e depois terminar o namoro? Na manhã do dia seguinte, Rebeca e a mãe viajaram para Porto Alegre. _Por minha culpa você precisou se afastar do seu amor, me desculpe, amiga, mas é tão bom tê-la

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aqui. _Não precisa se desculpar, eu não ia conseguir ficar longe em um momento tão importante para você. _Você é a minha irmã do coração. Meu Nandinho vai saber que a mãe dele tem uma amiga muito especial. Nandinho nasceu alguns dias depois. Pesou 2550grs e mediu 47cms.

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Capítulo 30 – Beijo inesperado As aulas de Eliseu recomeçaram no dia 02 de fevereiro; no dia seguinte Rebeca chegou de Porto Alegre; os dois se falaram pelo celular e ela combinou de pegá-lo na faculdade. Era uma quartafeira e ele havia pedido uma folga para dona Lourdes. _Oi, amor! Como foi o seu segundo dia de aula, doutor Eliseu? _Já deu para perceber como será o 4° ano... mas e o Nandinho? _O Nandinho é uma gracinha! Tirei muitas fotos. Quer dirigir? _Não. Você dirigi e eu vejo as fotos. _Ah, não, eu tenho que fazer os devidos comentários. _Então eu vejo enquanto nós comemos alguma coisa. Estou com fome. Vamos? _Você não quer dirigir? _Está cansada? _Não é isso... é que eu gosto quando você dirigi. _Então tudo bem. Quinze minutos depois eles paravam em uma lanchonete. _Olha que gracinha! O seu Fernando está bobo com o neto. Ele fala o nome com tanto orgulho! A Isa fez uma bela homenagem. _Ele é mesmo uma graça. Que legal... você aproveitou bastante. Tia coruja. _É, eu sou tia sim, do coração, mas sou. _Isso é o mais importante. _Que lindo! Amor, é tão bom poder estar aqui com você... _Mas foi ótimo você participar do momento mais importante da vida de sua amiga, certo? _Você está certo, mas ficar longe do meu amor é tão difícil... _Quer pedir mais um suco? _Não. Eliseu, eu preciso ter uma conversa muito séria com você. _ Eu falei com o Murilo e... _Depois você me fala sobre o Murilo, agora eu preciso saber o que está acontecendo com você. _Comigo? 283

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_É. Você está muito estranho. Qual o problema? _Rebeca, você chegou hoje, vamos conversar sobre a Isa e o Nandinho. Agora a sua amiga é mãe. Como ela... _Eliseu, pare com isso. Eu quero falar sobre nós dois. _Então fale. _Posso marcar um almoço para domingo? Vamos conversar com o meu pai? _Não. _Por quê? _Eu não vou conversar com o seu pai. _Não vai? E o nosso namoro vai ficar em segredo até quando? _Rebeca... eu não queria ter essa conversa hoje, mas está muito complicado... você já percebeu que há alguma coisa errada, então... _É claro que eu percebi. O que é? Qual o problema? _Bom... não tem uma maneira fácil de dizer isso, então... Rebeca, eu quero terminar o nosso namoro. _Você só pode estar brincando. _Nós não podemos continuar com isso, nosso relacionamento não tem futuro. Somos muito diferentes. De classe social... _Não me fale sobre classe social. _É verdade. Eu não posso, não me sinto bem. _Não pode ser. _Me desculpe, eu não quero magoá-la, você é maravilhosa, mas... _Mas o quê? Eu já sei... é o Álvaro. _Não, Rebeca. _É claro que é. Você não quer magoar o seu grande amigo. Você não tem coragem de dizer que a sua namorada é aquela que ele pensa que gosta. Eliseu, você sabe muito bem que o Álvaro cada dia está com uma namorada diferente, você conhece a figura, como você pode terminar comigo por causa dele? _Isso não tem nada a ver com ele. _Você está mentindo. Terminar comigo para ser leal ao Álvaro? Isso é tão... _Rebeca, você sabe muito bem o quanto nós somos diferentes. _Diferentes? Ah, Eliseu, as diferenças também aproximam as pessoas. Mas nós temos muitas coisas

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em comum, bom... pelo menos era o que eu pensava. _Eu não queria falar sobre isso hoje, mas você começou e eu não quero mais fingir que está tudo bem. _Fingindo? Você estava fingindo o tempo todo? _Não, é claro que não. Rebeca, me entenda, é difícil para mim... _Para você? Nossa... como eu fui ridícula! Eu estava esperando... que boba! Eu queria tanto ouvir que você me amava... eu acabei dizendo antes e o que você fez? O que você disse? Foi humilhante! Eliseu, eu nunca pensei que você me magoaria tanto... eu não podia imaginar que... _Rebeca, eu sinto muito, mas eu não posso continuar. _Você é um covarde ou então não sente nada por mim, ou as duas coisas. _Rebeca, não torne as coisas mais difíceis. _Eu estou fazendo isso? Eu pensei que você fosse sincero, pensei que havia encontrado alguém especial e dói saber que eu me enganei. Eu me enganei, não foi? Você quer mesmo terminar? _Eu... tenho que fazer isso. _Então...tome. _O que você está fazendo? _Estou devolvendo a pulseira. _Foi um presente. _Um presente que agora não significa nada- disse ela com lágrimas nos olhos. _Eu não vou aceitar. _Então ela vai ficar bem aqui. Eu gostaria de dizer o mesmo com relação aos meus sentimentos... se fosse possível eu os deixaria aqui também, isso não vai ser fácil, mas eu vou esquecê-lo. Pode ter certeza que eu vou me esforçar bastante. Rebeca colocou a pulseira na mesa e levantou-se. _Aonde você vai? Rebeca, é melhor você não dirigir assim. Eu dirijo até a sua casa e depois... _Não. Pode ficar tranquilo, Eliseu, eu não vou sair daqui e dirigir como uma louca, eu sou bem responsável. Vou deixar para desabar quando chegar em casa- disse quase num sussurro. _Rebeca... Ele ainda ficou alguns minutos ali sozinho com a pulseira na mão.

_Rê, você está chorando?

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_Me desculpe, Manu, mas eu não queria aparecer em casa desse jeito. _O que aconteceu? _Ele terminou o namoro. Eu não disse que tinha alguma coisa errada? _O Eliseu terminou o namoro? Mas, por quê? _Por causa do Álvaro. _Não acredito. Ele disse isso? _Ele veio com um papo sobre classe social... disse que não se sentia bem. Eu sei que não é nada disso. O Eliseu não quer ter problemas com a família da dona Lourdes. Ele prefere ser leal ao Álvaro... _Rê, não acho que ele terminaria por causa do Álvaro. _ Manu, está doendo tanto...eu não esperava por isso. _Ah, Rê, como eu posso ajudá-la? Quer que eu tenha uma conversa com o Murilo? _O que vai resolver? _Eles são amigos e ... _Não, Manu. Por favor, não pergunte nada. _Rê, o Eliseu gosta de você.... _Manu, não quero mais falar sobre ele. _Rê... _Por favor.

Eliseu também precisava conversar com um amigo. _Estou atrapalhando? _Não. Só estava assistindo TV. É cada notícia que nem dá para acreditar; mas e aí? _Eu terminei o namoro. _Hoje? _É. Murilo, eu nunca vou esquecer o jeito que ela me olhou... a Rebeca está com raiva de mim. Ela pensa que é por causa do Álvaro. _Eu ainda acho que você deveria contar a verdade para ela. _Eu não posso. _Então você vai deixar que ela pense mal de você? Vai permitir que ela fique com raiva e que ache que você não quer continuar o namoro por causa do Álvaro?

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_Eu não tenho escolha. Olha, Murilo, é melhor assim, eu preciso esquecê-la. Ela disse que vai fazer de tudo para me esquecer. Para ela vai ser mais fácil... a raiva vai ajudar. _Não me conformo com isso. É muita injustiça! O pai dela é um cara preconceituoso e orgulhoso. Poxa, ele nem te conhece... _Murilo, eu agradeço o seu apoio, valeu mesmo. Ao chegar em casa, Rebeca fez de tudo para não ser notada, pensou que havia conseguido, mas antes que ela entrasse no quarto, a mãe apareceu. _Oi, filha, e então o almoço está confirmado? _Mãe, podemos conversar amanhã? Estou com uma dor de cabeça... _Rebeca, olhe para mim- Cristina colocou a mão no rosto dela e o virou com delicadeza- você andou chorando? _Mãe, eu preciso dormir. _O que foi? Algum problema? _Não foi nada. _E o Eliseu confirmou o almoço? _Não. Mãe, esqueça isso. _Como assim? _Não vai haver nenhum almoço porque nós não estamos mais namorando. _Não estão? _É isso mesmo. Mãe, eu preciso descansar. _Antes você vai me contar o que aconteceu. _O namoro acabou, é só isso. _Por quê? _Porque o Eliseu quis. _Rebeca, mas... _Ah, mãe, ele não quer perder um amigo. O Álvaro acha que gosta de mim e o Eliseu não quer contar pra ele sobre nós. _Ele disse isso? _Inventou umas coisas, mas é isso mesmo. O Eliseu tem uma dívida de gratidão com a família da dona Lourdes... a verdade é uma só: ele não gosta de mim o suficiente para enfrentar isso. Mas não precisa se preocupar.

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_Não? _Eu vou esquecê-lo. Pode ficar tranquila que eu não vou ficar chorando pelos cantos. _Ah, Rebeca, eu... _O que as duas tanto cochicham, hein?- perguntou Otávio ao se aproximar. _Nada, pai, eu vou dormir, boa noite. _Segredinhos? _Otávio, a Rebeca está com dor de cabeça. _Eu ouvi alguma coisa sobre um namoro que terminou... _Você estava escondido? Que coisa feia, Otávio! _Cristina, eu estava passando... _Passando? _De quem vocês estavam falando? _De uma amiga minha, pai. Boa noite.

Uma semana depois, Manuella resolveu ter uma conversa com Murilo. Ela não aguentava mais ver a tristeza da amiga. Domingo, após a escola bíblica, ela aproveitou que ele estava sozinho e se aproximou. _Oi, Manuella, quer falar comigo? _Quero. _Que bom, eu sabia... _Murilo, não começa, o assunto aqui não tem nada a ver com você. Podemos sair? _Você está convidando? _Só porque eu preciso conversar com você. É um assunto muito delicado. _Uau! _Murilo! _Calma. Quer almoçar comigo? _Não. Só preciso de alguns minutos. _Tudo bem. Vamos tomar um refrigerante então... _Certo. Vamos com o seu carro, depois você me deixa aqui. Vou participar do ensaio do grupo de louvor. _Se eu não cantasse tão mal...

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_Podemos ir? _Claro. Por favor - disse ele abrindo a porta do carro. Após saírem do estacionamento... _E então, o que você quer comigo? Será que é melhor eu parar o carro? _Por quê? _Não sei... e se você quiser me beijar? _Murilo! O assunto é sério. _Então diz logo. _É sobre o seu amigo. _Sabia. _O que está acontecendo com o Eliseu? _O que exatamente você quer saber? _Por que ele terminou o namoro? _Ele não disse para a Rebeca? _Murilo, ele foi um... _Cuidado, não fale nada porque você pode se arrepender. _Ele magoou a Rebeca. _Você acha que foi só ela que saiu magoada? _Ele terminou. _Ele teve seus motivos. _Quais? Álvaro? Diferença de classe social? _Eu vou estacionar aqui para tomarmos um refri. _Tudo bem, mas será que dá para responder ou você precisa de toda concentração para estacionar em uma vaga enorme? _Você não perde a oportunidade... pronto, carro estacionado, o que você quer saber? _Eu já disse. _Manuella, o Eliseu é um cara legal e... _Eu também pensava isso, mas depois do que ele fez com a minha amiga... _Eu só posso dizer uma coisa: isso tudo é muito mais difícil para ele do que para ela. _Sei...como você é machista! O Eliseu terminou porque quis, foi uma decisão dele, ninguém obrigou e...

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_Manuella, fique quieta, senão eu vou dar um jeito de... _Do que, hein? O seu amigo não pensou nem um pouco... Ela foi interrompida por um beijo inesperado. Demorou alguns segundos para ela reagir. _O que você pensa que está fazendo? - perguntou ela afastando-o. _Estou fechando a sua boca. Conhece alguma outra maneira mais agradável? _Cínico. Eu quero voltar. _Vamos tomar um refrigerante. _Não quero nenhum refrigerante. _Suco? _Murilo! _Café? _Atrevido, como você teve a coragem de... _Manuella, por que você está brava? Deveria me agradecer. _Agradecer pelo quê? _Por tirá-la do jejum. _Jejum... _É. Há quanto tempo você não... _Murilo, não fale mais nada. _Eu só vou me calar porque quero pensar no nosso beijo. _Nosso beijo? Que beijo? Você chama aquilo de beijo? Foi tão... _Gostoso. _Horrível, nojento e... _Ah, Manuella, você não sabe mentir. _Eu quero voltar. _Certo. Alguns segundos depois... _Você está pensando no que eu estou pensando? _Dirija, só dirija. _Está? _Estou pensando que eu deveria ter dado uma bofetada nessa sua cara de pau. Ele sorriu. _Pronto, chegamos.

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_Ótimo e... _Já sei o que você vai pedir, mas aqui não, Manuella, alguém pode ver e... _Não fale nada sobre... _Sobre... _Você sabe. _Tudo bem é o nosso segredo. Quer sair comigo depois do culto? _Não. Após o culto da noite Rebeca saiu com Manuella para tomar um sorvete. _Manu, vou com meus pais para Porto Alegre. _Vai viajar de novo? _Vamos de mudança. _Não estou entendendo. Vocês mudaram há poucos meses... _Meu pai sugeriu e eu achei ótimo. _Quer ficar mesmo longe dele... _Preciso. _Por que o seu pai resolveu isso agora? _Sei lá... mas eu gostei da ideia. A minha mãe não aceitou muito bem, mas depois que eu conversei com ela... _Será que você precisa ser tão radical assim? _Ah, Manu, já que tenho a oportunidade de ficar bem longe dele, eu vou aproveitar. _Já tem data? _Daqui a uma semana. _Tão rápido? _Você sabe que nós não precisamos fazer uma grande mudança... só as roupas mesmo e alguns objetos pessoais. _Vou sentir saudades. _Você pode me visitar. _E você também. _Depois de um longo período longe daqui. _A Isa vai adorar. _Vai ser bom, vou acompanhar cada fase do Nandinho.

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_Rê... eu preciso te contar uma coisa. _Manu, você não falou com o Eliseu... _Não. Falei com o Murilo. _Ah, Manu... _Pode ficar sossegada, eu só perguntei o que estava acontecendo com o amigo dele. _E... _Ele não não disse muita coisa. Só falou que era difícil para o Eliseu também e... _É? Que engraçado! Manu, não quero falar mais sobre isso. _Eu tenho outra coisa para contar. _Não quero saber. _Não tem nada a ver com o Eliseu. _Então tudo bem. _Eu não ia contar, mas... _O que foi? Por que a sua bochecha ficou vermelha? _É que o Murilo... _O que ele disse? _Ele fez. _Agora eu fiquei curiosa. _Você acredita que ele me... _Fala, Manu! _Me beijou- disse ela em um sussurro. _Fale mais alto. _Você ouviu, Rê. _Ouvi. Ele te beijou! Que máximo! Eu sabia que... _Pode parar. Foi horrível e ele me pegou de surpresa. Que raiva! _Foi horrível e você ficou com raiva? Conta outra. _É isso mesmo. Ele não sabe nem beijar direito. _Manu, seja sincera. _Ah... é melhor esquecer isso. _Como você é... _O Murilo foi atrevido, isso sim. _E você gostou.

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_Não gostei. Foi uma eca de beijo. _Eca? _É. _Não adianta, você não vai dar o braço a torcer. Gostou, mas não vai dizer. _Eu não gostei.

Ao colocar a cabeça no travesseiro naquela noite, Rebeca pensou que se ainda estivesse namorando, o beijo de Murilo e Manuella seria um assunto muito interessante para comentar com Eliseu. Ele iria adorar saber da novidade. Se...

Na manhã de terça-feira... _Manuella, venha até aqui. _O que foi, mãe? Vou escovar os dentes. _Venha aqui. _Que pressa, mãe. O que foi? E o papai? _Já está na oficina. Olha só o que chegou para você. _Flores, para mim? _É. Tem um cartãozinho... vai logo, veja de quem é. _Mãe, espera... _Que flores lindas! _São mesmo, mas... _Leia o cartão. _Calma, eu vou ler... "Manuella: É uma pena que as flores durem tão pouco, elas são tão lindas! Ainda bem que vocês só têm duas coisas em comum: o perfume e a beleza. Com carinho: Murilo".

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_Manuella, leia em voz alta- pediu a mãe. _Hã? _Leia, eu quero ouvir. _Mãe! Eu não vou ler. _Por quê? De quem é? _Ah, sei lá... é de algum engraçadinho que não tem o que fazer. _Vai esconder de mim? _Mãe... é do Murilo. É uma brincadeira dele. Quer saber de uma coisa? Pode ficar com as flores. _Manuella, Manuella... e o cartão? _Vou jogar fora. Durante aquele dia, as palavras escritas no cartão não saíram da cabeça de Manuella. Não teve coragem de jogá-lo fora. Era um delicado cartão em formato de flor. À noite ela fez uma ligação. _Oi, Manuella, ouvir a sua voz... _Murilo, eu só quero que você diga para o seu amigo... _Pensei que você queria falar comigo. _Pensou errado. Diga para o Eliseu que a Rebeca vai embora para Porto Alegre no próximo domingo. _Verdade? _É. Diz pra dele. Quem sabe... ah, sei lá. E... eu não sei o que deu em você para mandar aquelas flores, mas fique sabendo que eu... _Você não jogou no lixo... _Não. Dei para minha mãe. _E o cartão também? _Que cartão? Não esqueça de falar com o seu amigo. Tchau.

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Capítulo 31 -Um beijo e um sorriso Na manhã de domingo, Rebeca viajou para Porto Alegre. Eliseu ficou sabendo três dias antes, mas não podia fazer nada para impedir. _A minha Bequinha foi embora, não acredito. Agora que eu estava pensando... _Pensando o que, filho? Se você não fosse tão namorador... _Eu? Mãe, eu ia falar com a Rebeca... _Demorou muito, não é, Eliseu? _Eu não sei, dona Lourdes. _Eliseu, eu tenho notado que você anda tão triste, está com algum problema? _Não se preocupe comigo. _Eu também notei, o que foi? Alguma gatinha deu o fora em você?- perguntou Álvaro. _Eliseu, será que você pode me levar ao cinema?- perguntou Gabi. _Gabriella, o que deu em você? _Qual o problema, mãe? _A minha maninha tem razão. Bem que o Eliseu podia levá-la para sair um pouco. _É que as minhas amigas ficam dizendo que eu não tenho ninguém para sair comigo. _Elas não saem com você?- perguntou dona Lourdes. _Mãe, estou falando de garotos. _Ah, Eliseu, olha só o que estão te arrumando. _Gabi, hoje não dá, vamos deixar para um outro dia... _Eliseu, deixa de ser chato, a minha maninha quer sair... _E por que você não sai com ela, hein? _Eu sou irmão dela, não vale. As amigas iriam alugá-la o tempo todo. _Ah, Eliseu, por favor. _Se a dona Lourdes deixar, tudo bem. _Mãe... _Só porque é com o Eliseu. _Valeu, mãe. Eu vou me arrumar... _E eu também. Tem uma gatinha me esperando- disse Álvaro.

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Gabriella estava quase pronta quando ouviu uma batidinha na porta. _Posso entrar? _Pode. Está tão educadinho...o que você quer? _Que você agradeça. _Estamos quites. _Será? _Eu fiquei com a boca fechada, não fiquei? A minha parte já terminou, mas a sua... _Você disse que estávamos quites. _Errei. A sua parte começou agora. Nós só vamos ao cinema. _Cuidado, se você abrir a boca, eu vou precisar ter uma conversa com a nossa mãe e ela não vai gostar nada de saber que... _Já entendi.

_As minhas amigas vão ficar morrendo de inveja- disse Gabi quando estavam à caminho do shopping. _Você combinou alguma coisa com elas? _É claro, Eliseu! Que graça teria eu sair com você se elas não vissem. Se eu só contar, elas não vão acreditar. _Gabi, o que você está aprontando? _Nada. Só quero que elas fiquem com muita inveja. Eu disse que você faz medicina e que é uma gracinha. _Menina... _Eu menti? Poucos minutos depois, Gabi encontrou as amigas na fila do cinema. _Oi, Iara, oi, Fê e a Talita? _Saiu com a mãe dela. _Este aqui é o Eliseu. _Oi, meninas. _Ele não é um fofo? - perguntou Gabi. _Gabi, eu vou comprar os ingressos.

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Assim que ele se afastou, Gabi disse: _Ele é um pouco tímido. _Mas ele é uma gracinha- disse Iara. _Vocês estão namorando? _Estamos começando alguma coisa, Fê. _Legal.

_Você deve estar detestando, não é? - perguntou Gabi vinte minutos após o início do filme. _Detestando não, mas não é meu gênero de filme. _É que eu adoro este tipo de filme. Turminha de escola, namoros...briguinhas... mas pode ficar mais interessante, sabia? _Como? Gabriella se aproximou dele e quando estava quase encostando os lábios nos dele, é que Eliseu percebeu o que ela pretendia. _Gabi, acho melhor você prestar atenção no filme- disse ele afastando-se. _Por quê? _Estamos aqui para isso. _Não. Estou aqui porque... _Gabi... _Eliseu, porque você não me beijou? _Menina, não vamos conversar sobre isso. _Por quê? Você acha que eu ainda sou criança? _Não é isso. Gabi, eu vim aqui com você como um amigo, não confunda as coisas. _Ela é mais bonita? _Ela quem? _Você sabe muito bem. Ela não serve pra você. Vocês não combinam. _Gabi, de quem você está falando? _Deixa pra lá. Gabriella não tocou mais naquele assunto, mas Eliseu achou aquele comentário muito estranho.

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Em Porto Alegre... _Estou super feliz com o seu retorno, mas não gostei do motivo. _Ah, Isa, eu não voltei só porque o Eliseu terminou o namoro. _Me engana que eu gosto. Você concordou rapidinho com seu pai. _É...ele mencionou que precisava dar mais atenção à concessionária daqui porque em São Paulo o meu tio se vira bem sem ele. _E como você não quer correr o risco de se encontrar com o Eliseu... _É. _Beca, eu não me conformo, como é que o Eliseu teve a coragem de terminar o namoro por causa do Álvaro? _É minha amiga, lealdade entre homens. _A família do Álvaro ajudou muito o Eliseu, não é? _A Dona Lourdes o recebeu de braços abertos, mas o Eliseu é o braço direito dela na pizzaria. Ele vai fazer muita falta quando não puder mais trabalhar lá. _E você prometeu que vai esquecê-lo. _E eu vou conseguir. Olha só quem acordou... coisa fofa. Ele está tão lindo! _É meu filho, só podia ser maravilhoso! _Convencida! Que mãe coruja, hein? _Somos uma família de corujas. Minha mãe baba pelo neto e meu pai, nem preciso falar... _E agora chegou uma tia coruja. _O Nandinho é um sortudo. Pode pegar, Beca. _Vem aqui, fofinho, vem para o colo da tia Beca.

_E aí, Eliseu, como foi sair com a minha maninha? _Por quê o interesse? _Ela é a minha irmã, quero saber quais são as suas intenções. _Álvaro, eu gosto muito da Gabi. _Legal. Minha mãe vai adorar saber disso. _Você não entendeu. Eu gosto dela como uma irmã. _Ah, mas ela não gosta de você como irmão, não mesmo. Você já deve ter percebido. _Vamos parar com isso? Não quero que a Gabi pense...

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_Amigão, deixe que ela pense o que quiser. A minha irmã é uma garota bonita, inteligente e você é como se fosse da família. _Eu não estou gostando disso. Eu já disse que a Gabi é como uma irmã... _Eu não sou sua irmã. _Maninha, você estava ouvindo nossa conversa? _Eu estava passando e ouvi o que o Eliseu disse. _Gabi, eu não quero que as coisas mudem entre nós, eu sou um amigo. _Eu não te quero como amigo. _É melhor eu sair e deixar os pombinhos conversando. _Álvaro... _Resolva, amigão, eu preciso sair. Tem uma gatinha me esperando. _Gabi, me entenda... _ Eliseu, me apaixonei por você desde o primeiro dia, mas eu era muito nova, mas agora... _Gabi, você está confundindo os sentimentos. _Não estou. _Você é uma garota linda que vai encontrar alguém especial e... _Eu já encontrei. _Gabi, por favor, não complique as coisas. _Eu quero saber o motivo. Por que você não quer nada comigo? _Eu olho para você e vejo a minha irmã. _Eu já disse que não sou sua irmã. _Não fique chateada comigo. _Ela não vai mais voltar. _Gabi, de quem você está falando? _Você sabe muito bem. E mesmo que ela volte... você não pode ficar com ela. _Gabi, por que você está dizendo isso? _Por nada. Eu vou pra casa da Iara, se a minha mãe chegar, você avisa, tá? _Eu aviso. Nas semanas seguintes, sempre que tinha uma oportunidade, Gabriella se aproximava de Eliseu. Fazia de tudo para ficar à sós com ele. Para evitar maiores complicações, Eliseu decidiu alugar uma casa.

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_Você tem certeza? Eu sei que o seu quarto é pequeno, mas pelo menos você não precisa se preocupar com a sua alimentação e... _Eu não quero que a senhora fique chateada comigo. A faculdade está ocupando todo o meu tempo. Estou ficando sem jeito. A senhora percebeu como está difícil? Não estou conseguindo ajudar mais como antes e a tendência é só piorar. _Eliseu, eu sabia desde o início que seria assim. Não quero que você saia daqui. _E eu convidei o meu avô e a Jessica para virem aqui, então eu quero ter um lugar para recebê-los. _Ah, Eliseu, eu não teria problema nenhum em recebê-los aqui. Se for por isso...

_Você vai sair da casa da dona Lourdes? _ Murilo, não dá para continuar. Outro dia eu entrei em meu quarto e adivinha quem estava lá? _O Álvaro. _Não. A Gabi. Ela pegou a chave da dona Lourdes e simplesmente entrou lá. Quando eu cheguei da faculdade ela já estava esperando por mim. Disse que queria conversar. Eu abri a porta e falei para ela sair. Não comentei com ninguém. _Isso está me cheirando a complicação. _Não sei o que aconteceu, mas ela mudou. Eu percebo que a Gabi quer me provocar. Quer chamar a minha atenção. Quero distância desse tipo de coisa. Você sabe como a minha vida mudou depois que uma determinada mulher colocou os olhos em mim. Não quero problemas com a dona Lourdes. Não tenho interesse na Gabi, ela é como uma irmã para mim, por isso eu preciso sair de lá logo. _Tem razão. Se continuar assim, qualquer dia desses... _É. Preciso ficar bem esperto.

Naquele mesmo dia Eliseu encontrou Gabriella novamente em seu quarto. _O que você está fazendo aqui? _Eliseu, eu preciso fazer uma pergunta. _Gabi, é melhor você sair. _Você me acha bonita? _Você é muito bonita, mas saia daqui, Gabi.

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_Eu estou apaixonada. _Gabi, você é como uma irmã pra mim, eu já disse isso. _Não sou sua irmã. Você não quer nada comigo porque tem esperança que ela volte, não é? _Gabi, de quem você está falando? _Até parece que você não sabe. Eliseu, vocês não podem ficar juntos, você precisa esquecê-la e eu posso ajudá-lo. Estou tão apaixonada. _Gabi, saia daqui, por favor. _Gabriella, o que você está dizendo para o Eliseu?- perguntou dona Lourdes entrando no quarto. _Mãe? _O que está acontecendo aqui? “Pronto- pensou Eliseu- mais complicação. Agora sim.” _Dona Lourdes, a Gabi só queria conversar um pouco, mas sabe que não deveria ter entrado aqui. _Eu escutei você dizendo que está apaixonada por ele. Gabriella, o Eliseu é um irmão para você. Já entendi... é por isso que você veio com aquela história de alugar uma casa, não é? Ela está te incomodando... _Dona Lourdes, eu só não quero ter problemas. A senhora tem me ajudado muito e... _Eliseu, pode ficar tranquilo. Eu terei uma conversa bem séria com ela. Gabriella, você está proibida de chegar perto deste quarto. _Mãe... _E Eliseu, nós podemos colocar um colchão para você, assim o seu avô dorme na sua cama e a Jessica fica com a Gabi. O que você acha? _Eu não quero atrapalhar. _Vai dar certo. Você não precisa alugar casa nenhuma. Para quê? Vai arrumar contas para pagar justo agora? Você precisa se preocupar só com os estudos. _Dona Lourdes, eu não vou poder ajudá-la aqui. _Eu sei e isso não muda nada. Você continua morando aqui e não se fala mais nisso.

Naquele domingo, Eliseu foi à escola bíblica, como chegou cedo foi até a lanchonete da igreja para tomar um café, lá encontrou-se com Moacir. _Eliseu, quero muito conhecer o seu avô e a sua irmã. Quando eles estiverem aqui nós vamos

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combinar um almoço ou jantar. _Então ore para que tudo dê certo. _Pode deixar comigo. E a faculdade? _Está uma correria e eu gosto disso. Estou para iniciar um estágio. _Aí sim vai ser uma maratona. Você não vai mais conseguir trabalhar na “Gaal”. _Estive conversando com a dona Lourdes sobre isso. Ela vai contratar outra pessoa. Eu já estou faltando muito. _É isso aí, doutor Eliseu. _Ah, Moacir, às vezes eu penso que estou sonhando. Deus colocou pessoas tão especiais em minha vida. A dona Lourdes, o reitor Sérgio, aquela pessoa que eu não sei quem é, o pastor Antônio que me recebeu com tanto carinho na casa de recuperação, o pastor Moisés que sempre tem uma palavra de ânimo para nos dar, o Murilo que é um grande amigo e você. Moacir, você é uma benção na minha vida, pode ter certeza disso. _Faltou alguém na lista. _Faltou? _Uma certa garota. _Ah...ela é muito especial, mas eu precisei riscá-la da minha lista. _Foi obrigado. É uma pena, vocês formavam um belo par.

Alguns dias depois... _Você acha que o seu avô e a Jessica vêm mesmo para cá? _Eu já convidei, mas depende de duas coisas: se meu avô vai querer ficar longe do meu pai, e principalmente, se o meu pai vai permitir que a Jessica venha. _O seu pai sabe que não está bem, mas não larga da bebida, né? _É. E o meu avô está sempre ajudando. Insisti para ele comer... _E você teve alguma notícia da Rebeca? _Nada. Outro dia eu quase perguntei para a Manu, mas depois eu pensei melhor e mudei de ideia. E vocês? _Mandei flores e ela deu para mãe dela, você acredita? Depois disso eu... _Já desistiu?

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_Não, mas dei um tempo. Quer que eu pergunte para a Manuella sobre a Rebeca? _Só se for como desculpa para você se aproximar dela. Murilo, é melhor eu não saber de nada. _Tudo bem, eu vou perguntar, se você não quiser saber, eu não falo.

Murilo não perdeu tempo, foi direto para a casa da Manuella. Estava ansioso para vê-la, só precisava de uma desculpa. _O você quer comigo, Murilo? _Posso falar? _Cuidado, pense bem no que vai dizer. _Manuella, você tem pensado em mim? _Não. _Mentirosa. _Se você veio aqui para... _Não fique brava. Você pensa muito em nosso beijo? _Beijo? Eu já disse que aquilo não foi um beijo. _Quer outro? _Não. _Está com medo. _Do quê? _Está com medo de gostar do beijo e eu perceber isso. _Não viaja, MM. _MM... fazia tempo que eu não ouvia você me chamar assim. _O que você veio fazer aqui? _Eu quero saber da Rebeca. _O seu amigo pediu? _Não. Eu vim aqui porque quis. _Ela está curtindo o sobrinho. _Sobrinho? _O Nandinho. A Rebeca e a Isa são como irmãs. _Entendi. E você, curtiu?

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_Curti o quê? _O nosso beijo. _Murilo, você está precisando ouvir alguma coisa? Está carente, é isso? _Para minha carência terminar só depende de você. _Ai, Murilo... você diz cada coisa. _E o cartão? _Que cartão? _Você sabe. Gostou do eu escrevi? Eu confesso que as palavras vieram na minha cabeça com muita facilidade. Eu sei bem o motivo. _É mesmo? _É porque elas já estavam em meu coração. _Nossa, agora você arrasou na cafonice. _Será que você lembra? _Eu lembro, mas sabe por quê? Porque foi hilário. Foi algo mais ou menos assim: "As flores são lindas ou belas, sei lá... é uma pena que elas durem tão pouco. Vocês só têm duas coisas em comum... a beleza e o perfume". Eu acho que é isso. _Você lembra... gostei de saber disso. _É que foi muito engraçado. _Eu fui sincero. _Você adora me provocar. _E o beijo? _Murilo, para com isso. _Está com medo que eu perceba que também está interessada em mim. Eu entendo porque eu também tive medo. Eu te provocava, falava sobre a sua profissão, dizia que não era coisa de mulher, mas era porque eu não queria admitir o meu interesse por você. Manuella ficou olhando para ele sem saber o que dizer. _E então? _O quê? _Posso beijá-la? Quer provar que eu estou errado? _Tudo bem, Murilo, eu vou ajudá-lo; você está precisando de um beijo, eu já entendi. Então, vá em frente, mas depois não reclame, porque para mim não vai significar nada.

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Murilo foi se aproximando bem devagar. O coração dela acelerou. Ela não teve a oportunidade de sentir-se assim antes, porque ele a pegou de surpresa, mas agora Manuella estava ansiosa. Murilo se aproximou, mas não acariciou o rosto dela e nem tocou nos lábios dela com os dedos, simplesmente capturou os lábios dela e a beijou. Manuella se assustou com a intensidade dos sentimentos que a invadiram. Segundos depois, ele afastou-se e foi embora sem dizer uma palavra. Ao entrar em casa, Manuella estava com um sorriso nos lábios.

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Capítulo 32- Surpresas _Você e a Manuella se beijaram? Que legal, Murilo! Estão namorando ou ela continua com aquela teimosia? _Eu vou esperar um pouco, não quero pressioná-la, mas agora eu sinto que vai dar tudo certo. Eu perguntei sobre a Rebeca, quer saber? _Se disser que não, estarei mentindo. _Ela só disse que a Rebeca está curtindo o sobrinho. _Legal. Foi uma ótima ideia ela voltar para Porto Alegre. _Ótima ideia para quem? Só se for para o pai dela. _Chega de falar nela... eu conversei com o meu avô hoje, está quase tudo certo para eles virem passar alguns dias comigo. _Que ótima notícia. _Só falta a Jessica pedir ao meu pai. _Só? Moleza. Eliseu sorriu.

_Rebeca, você morando aqui novamente é tão bom! A Isa está feliz porque agora você vai acompanhar o crescimento do Nandinho- disse Marli. _Eu também estou gostando muito. Nunca tive a oportunidade de participar do dia a dia de um bebê. _É, foi uma pena a sua mãe ter perdido o bebê, mas agora você pode aproveitar bastante. _Dona Marli, pode ter certeza que eu estarei sempre aqui. Vou incomodar, mas não quero nem saber. _E desde quando você incomoda, hein? Olha só quem acordou... a mãe do bebê. _Só a mãe, o Nandinho está dormindo como um bebê. Beca, você já tomou café? _É claro, Isa, já são 11h! _É que amamentar dá um soninho... _E você precisa se alimentar direito... vamos lá, eu te acompanho, mas só quero um cafezinho. _Meninas, eu vou sair para comprar frutas e legumes- avisou Marli- Rebeca, fique de olho na Isa, 306

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não deixe que ela tome café puro. _Pode deixar. Ela vai tomar muito leite. _Beca, eu vou tomar leite, vou comer frutas e nós duas vamos conversar. Nos últimos dias nós temos conversado sobre tudo, mas principalmente sobre bebês. _Normal. _E também seria normal você falar sobre uma certa pessoa. _Ah, Isa... _É isso mesmo. Você pensa que não mencionar o nome dele vai ajudar? _É claro que vai. Eu tenho que esquecê-lo. _Beca, você está se segurando... amiga, pode desabafar. Isso é bom. Os seus olhinhos já estão cheios de lágrimas. _Quem mandou você começar? _Eu duvido que você não pense nele todos os dias. _Isa, eu queria tanto deixar de pensar nele. Queria apagar da memória todos os momentos que passamos juntos. _Não queria. Você queria é que aquele momento que ele terminou o namoro fosse apagado, isso sim. Você pensou que a distância resolveria? _Ajuda. Eu não podia ficar lá. Ah, Isa... está doendo. _É isso que eu queria ouvir- disse ela abraçando a amiga- Isso, chore, chore bastante. Guardar aí dentro não é nada bom.

_Manuella, são para você- disse a mãe, entregando uma cesta de café da manhã- E tem um cartão... _É mesmo? Pode deixar aí, depois eu vejo. _Tudo bem, mas tem cada coisa gostosa aqui... por que você não aproveita para tomar o seu café? Dê uma olhada na cesta. _Tudo bem. _Não vai ler o cartão? _Depois... _Já entendi... eu vou arrumar a minha cama. _Até parece que ainda não arrumou.

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_Será que eu já arrumei? Vou lá confirmar. Manuella pegou o cartão e por alguns segundos só ficou olhando para ele. Desta vez ele tinha o formato de coração. " Manuella, será que dá para você devolver o meu coração?" MeM Ela sorriu. Naquela noite, Rebeca recebeu uma ligação da amiga. _Você quer a minha opinião? _É claro, Rê! Estou com medo. E se ele estiver brincando? _Não acho que o Murilo faria isso. _É estranho... tudo mudou assim tão de repente. Eu não suportava o Murilo e ele também... _Isso é o que você diz. Manu, eu o ...Eliseu já havíamos percebido que vocês dois se gostavam. Aliás, ele percebeu primeiro. _O Murilo está me surpreendendo. Cartão em formato de flor, de coração... e aquelas coisas que ele escreve? Se ele estiver brincando comigo... _Ele não está. Amiga, seja feliz. _Eu vou conversar com ele, mas se eu perceber alguma coisa... _Manu, vá com calma, ah... e não leve pedras. _Eu sou assim, é? _Com o Murilo. _Tenho uma novidade sobre o Eliseu. _Não sei se quero saber. _Aí é com você. _Ah, não me diga que ele está namorando... _É claro que não, que ideia! Ele vai receber visitas lá do Mato Grosso. A dona Lourdes contou para a minha mãe; faz tempo que eu não converso com ele. _Então a irmã e o avô dele... _É isso aí. A dona Lourdes disse que o Eliseu está muito ansioso. _Eu imagino.

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_Mas ainda não é certeza. _Tomara que dê tudo certo. _Seria bom se você estivesse aqui para conhecê-los, ah, desculpa, Rê, eu não... _Você está certa, eu ia adorar se...isso fosse possível. Se... _Um "se" muita tanta coisa, né? _E como, mas vê se você procura pelo Murilo e começa um namoro. _É assim? Tá bom, até parece que as coisas são tão fáceis... _Depende de você.

Naquela mesma noite... _Pai, eu tenho algo muito especial para pedir. _Jessica, Jessica, pense bem no que vai pedir. _Eu pensei muito. Pai, eu quero um presente... _Ainda estamos no início de abril, já quer garantir o presente? _É um presente muito especial e... _Não vai me dizer que você quer um carro? _Não pai, o senhor não vai precisar gastar. _Agora eu não entendi nada. _Pai, eu quero ver o meu irmão. José Luís ficou olhando para a filha sem dizer nada. _Pai, eu quero visitar o Eliseu com o vô Chico. Faz tanto tempo. Estou com muitas saudades. José Luís continuou calado. _Tudo bem, eu vou para o meu quarto, quando o senhor decidir... _Não... _Pai... _Não precisa ir para o seu quarto, eu já me decidi. _Pai, é o único presente que eu... _Tudo bem, você pode ir. _Hã? Eu posso? _Pode.

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Jessica o abraçou e deu vários beijos nele. _Meu paizinho lindo, obrigada, eu sabia que o senhor... _Chega, chega! Tudo bem. _O senhor que ir também? O Eliseu ficaria tão... _Não. Boa noite. Jessica não aguentou esperar até o dia seguinte para contar a novidade ao avô. _Alô? Jessica? Aconteceu alguma coisa com o seu pai? _Não, vô, me desculpe pelo susto, mas é que eu tenho uma ótima notícia. _Me conte logo. _Ele deixou, vô! Nós vamos ver o Eliseu, vô! _Você falou com o Zé? _Acabei de falar. _Ele permitiu? _É isso mesmo,vô. _Deus é bom. Eu estava orando tanto! Ah, Jessica...eu tenho que ligar para o meu neto agora. _Ele deve estar trabalhando. _É, tem razão. Amanhã eu ligo. _Vai conseguir segurar a ansiedade? _Vou tentar. _Vô, o senhor está chorando? _Estou... eu posso. _É claro que pode. _E pela sua voz... _Eu também posso. Meia-noite, Chico resolveu ligar para o neto. Tinha certeza que seria impossível dormir sem contar a ótima notícia. _Oi, vô, sua benção. _Deus que te abençoe, meu neto. _Está tudo bem aí? _Está maravilhoso. Liseu, eu não aguentei esperar até amanhã... tinha que ligar. Você não vai acreditar...

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_O que foi, vô? O senhor está tão eufórico, acalme-se, olha o coração! _Você tem certeza que quer duas pessoas aí te visitando? São duas pessoas que te amam muito e que não estão aguentando mais de tanta saudade. _Vocês... _O que foi? As palavras não saem? Olha o coração! _Vô, vocês falaram com o meu pai? _A Jessica conversou com ele e está tudo certo. Deus ouviu nossas orações, o Zé concordou. _Vô, eu... é... ah, vô, eu nem estou acreditando. _Pode acreditar, Liseu, em julho nós estaremos aí.

No dia seguinte, Murilo ficou sabendo da grande novidade assim que Eliseu chegou da faculdade. Logo após o amigo sair, ele recebeu outra visita. _Manuella? _Oi, Murilo, você está ocupado? Deve ter chegado agora do trabalho, né? _Tudo bem, eu até já recebi uma visita. O Eliseu acabou de sair daqui. Estava tão feliz. Você precisava ver, a alegria dele era contagiante. _É mesmo? O que aconteceu para ele estar assim? _A irmã e o avô vêm para cá em julho. O Eliseu está contando os dias... _Que legal, Murilo. Eles estão separados há muito tempo...devem ter tanto para conversar... que bom. É, Murilo, eu vim aqui porque quero saber o que você está pretendendo ao me mandar flores, cestas de café da manhã e cartões melosos. Vamos, estou esperando. _Como você é direta, hein? _Eu quero saber e ai de você se mentir. _Você é tão meiga! _Vai brincar ou... _Calma, minha flor, meu coração... _Para com isso. _E então, será que você veio aqui para devolver o meu coração? Eu, sinceramente, espero que você tenha vindo até aqui para me dar o seu. Manuella adorou ouvir aquilo, mas conseguiu disfarçar. _Você assinou como M e M...

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_Manuella e Murilo. Simples. _Você está brincando comigo? Está fazendo isso para depois rir da minha cara? _Não. Estou fazendo isso porque percebi que você é muito especial. Quer ser minha namorada? Manuella estava com os olhos fixos nele, mas não conseguia responder. _Manuella, responda a minha pergunta. _Murilo, você jura que não está de brincadeira? _Preciso jurar? Manuella, eu estou apaixonado por você. Diz que também está, diz, minha flor. _Minha flor... você sempre dizia que eu... _Esqueça o que eu dizia, Manuella. Eu não queria reconhecer que gostava de você, mas cansei disso. Acredita em mim, minha flor. _Uma flor cheia de espinhos? _Espinhos, beleza, perfume... você é completa. Você me completa. _Ai, Murilo, você está tão piegas. _Não me importo. Manuella... Ele se aproximou e quase a beijou, mas Manuella afastou-se. _Vamos sair daqui? _Vamos, minha flor e você dirige.

Pararam no estacionamento de uma conhecida lanchonete. _Vamos conversar um pouco aqui no carro mesmo. _Você manda. _Você dizendo isso... quem diria! _Estou te surpreendendo? _Muito. _Então por que você não faz o mesmo, hein? Ele sorriu e piscou para ela. Manuella chegou bem perto e o surpreendeu com um beijo apaixonado. _Será que você ainda precisa daquela resposta?- perguntou ela ao afastar-se um pouco. _Você já respondeu e da melhor maneira possível, minha flor. _Então nós estamos namorando? Isso é inacreditável...eu e o MM... _M e M, não se esqueça, minha flor. _Tudo bem, mas eu não sei se quero que você me chame assim. Minha flor... acho que é muita

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pieguice. _Meu coração? Minha Manuella? Você escolhe. _Manu. _Ah, não, não posso chamá-la assim. Comum demais; seus amigos a chamam assim. _Mas eu posso chamá-lo de MM? _Não. Eu não sou machista. _MM: Meu Murilo. _É... gostei, mas você pode melhorar isso. _Não estou acreditando... _Acredite, Deus fez você para mim, Ma. _Ma? _Mamor? Manuella deu uma gargalhada.

Ela ligou para Rebeca assim que chegou em casa. _Agora sim, Manu! Resolveu ouvir o seu coração, né? O coitado estava desesperado, ele já estava gritando e você nem aí. _Quem estava desesperado? O Murilo ou o meu coração? _Acho que os dois. _Eu ainda não acredito que nós estamos namorando. É algo que eu não podia imaginar. “Deus escolheu as coisas loucas do mundo...”17 _O versículo que você usava quando falava nele era outro... _Nem lembro mais. _Sei. Vou refrescar a sua memória: “Se possível, quando depender de vós, tende paz...”18 _Eu me esforcei bastante. Estamos numa “paz”... _Paz e amor. Ah, Manu, é muito bom saber que você está feliz. _Tem uma pessoa que também está muito feliz, você vai gostar de saber. _É mesmo? _O Eliseu vai receber visitas em julho. _O avô e a irmã?
17 1 Coríntios 1.27 18 Romanos 12.18

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_É. Não é o máximo? O meu namorado que me contou. Ouviu isso? O meu namorado. _Ah, Manu! Eu imagino como ele deve estar. O Eliseu merece. Tomara que dê tudo certo. Eles vão curtir bastante. Quando eles estiverem juntos vai ser emocionante, eu... _Gostaria de ver isso? _Gostaria. Muito. Se tudo fosse diferente... se nós ainda estivéssemos juntos, se...se... mas tudo mudou. Chega. Vamos falar sobre o seu namoro. Murilo também contou a novidade para o amigo na primeira oportunidade que teve. Você e a Manu estão namorando? Até que enfim! Legal, legal mesmo. _E você ajudou muito. _Eu? Não fiz nada. _Não? Foi você que abriu meus olhos. Abriu os olhos do meu coração. _Como você está romântico! _Estou piegas, como diz Mamor. _Mamor? _Não deveria ter falado assim, se ela souber... _Pode ficar tranquilo. _E você, está contando os dias, as horas... _Estou super ansioso. Eles vão ficar dez dias aqui e eu estarei de férias da faculdade; vai ser ótimo. Me fale mais sobre: “Mamor”.

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Capítulo 33 -Susto Abril, maio e junho, foram meses que passaram voando para Eliseu. Muitas atividades na faculdade e muitos preparativos para a visita da irmã e do avô. Rebeca também se ocupou bastante. Estava se dedicando ao trabalho mais tempo do que deveria; Otávio estava satisfeito em ter a filha o dia inteiro na concessionária com ele, mas Cristina sabia muito bem o motivo de tanta atividade. Ao sair do trabalho, Rebeca ia para a casa de Isa e passava algumas horas com Nandinho. Nos finais de semana, ela participava ativamente dos trabalhos da igreja. Entrou para o grupo de jovens e como eles tinham uma equipe que realizava visitas especiais à orfanatos, hospitais e outras entidades que abrigavam crianças, ela resolveu fazer parte do grupo de fantoches. Era algo que a deixava feliz. _Estou muito preocupada com você, Rebeca. _Por quê? _Filha, você só pensa em trabalhar. _Não é verdade. Eu estou sempre com a Isa e o Nandinho e... _Rebeca, desde que nós voltamos você tem se dedicado muito ao trabalho... _E isso não é bom? Meu pai está gostando. _É claro que ele está, mas eu não. Você nunca sai para se distrair... _Mãe, o grupo "Vida feliz" está sempre saindo... _Eu acho lindo o trabalho de vocês. Contar histórias usando fantoches... eu sei que as crianças adoram, mas você precisa... _Mãe, eu estou bem. _Está se ocupando para não pensar nele. Filha, isso não vai resolver. Você pensa que eu não reparei que você traz trabalho para casa? Quando você chega da casa da Isa logo pega o seu notebook e começa... _Mãe, estamos com muito serviço. _E depois pega a sua bonequinha de fantoche e fica ensaiando. _Isso não é bom? A sua filha está se dedicando. _Se fosse isso, tudo bem, mas eu sei o que você está fazendo. Rebeca, você nunca mais saiu só para se distrair. A Isa sempre convida. _Eu saio com ela e o Nandinho. _Para levar o Nandinho ao pediatra, ao posto para vacinar...Rebeca, os jovens saem para comer, vão ao shopping e você nunca vai. Só sai com o grupo de fantoches. 315

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_Mãe, eu estou bem. _Quer falar sobre ele? _Não. Um beijinho, preciso ensaiar, amanhã vamos fazer uma apresentação especial.

_Eliseu, já compramos as passagens. Estou tão ansiosa! _Está com medo? _Medo de avião? Eu não, mas o vovô está. Só que ele diz que a vontade de ver o neto dele supera tudo. _Ainda falta uma semana. Já sei que esta semana vai demorar para passar. _As suas aulas já terminaram? _Amanhã é o último dia. Ah, Jessica, nós vamos conversar muito, vamos sair. Quero mostrar tanta coisas para vocês. E vocês vão conhecer algumas pessoas muito especiais. A dona Lourdes está toda animada. O Moacir quer vocês na casa dele para um jantar especial e... _E nós queremos conversar com você, abraçá-lo... ah, maninho, eu quero muito estar com você. _Maninha linda, eu também. Te amo. _Te amo, Eliseu. A saudade é imensa. _Nós vamos dar um jeito nela.

Três dias depois... _Minha mãe pediu para você conversar comigo, não é? _Beca, ela está preocupada e com razão. _Isa, eu não entendo. Se eu estivesse pelos cantos chorando, me lamentando... _Eu acho que você está precisando um pouco disso. _O quê? Não mesmo. _Você está se segurando. Beca, às vezes é necessário deixar as emoções... _Quer que eu deixe que as minhas emoções me controlem? _Quero que você extravase. Guardar não faz bem. _É engraçado. Se eu estivesse chorando, se eu só falasse nele, vocês estariam fazendo de tudo para que eu parasse com isso, mas só porque eu estou bem e... _Você não está bem. Não vejo um sorriso faz tempo.

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_Não é verdade, estou sempre me divertindo com o Nandinho e... _Beca, um bebê distrai bastante, alegra o ambiente, mas eu não estou falando disso. Rir para o Nandinho é fácil. Minha amiga querida, você está triste. Por favor, grite, xingue o Eliseu se for preciso, mas faça alguma coisa. _Eu gostaria de estar lá. Eu gostaria de participar da alegria dele. A Jessica e o avô vão visitá-lo e eu... eu queria ver isso. Como eu queria. Rebeca estava com os olhos cheios de lágrimas. _Agora sim, Beca, agora sim. As duas amigas se abraçaram. No início da noite, Luísa, a empregada da casa, atendeu ao telefone, era para Rebeca. _Quem é, Lu? _É um rapaz, me desculpe mas a ligação está tão longe, eu não entendi o nome, mas uma coisa eu entendi: é de São Paulo. O coração de Rebeca disparou. _Tudo bem, eu vou atender no meu quarto. Nunca a distância da sala até o quarto foi tão grande. Ela respirou fundo e … _Pronto. _É a Rebeca? Nossa, não reconheci a sua voz, está gripada, Bequinha? Ouvir a voz do Álvaro naquele momento, era o mesmo que jogar um balde de água fria em Rebeca. _Álvaro? O que você quer? _Oi, Bequinha, eu estava com saudades e aí pensei: Por que não ligar? Como você está? _Bem, mas estou muito ocupada. _Não dá para conversar nem um pouquinho? _Agora não- “ e nem nunca”- pensou ela. O que ela queria mesmo era dizer muitas coisas para ele, mas se segurou. Com certeza não seria uma conversa nada agradável. _Bequinha, você está planejando vir para cá? _Não. _Por quê? _Álvaro, eu preciso mesmo desligar- “ antes que eu fale poucas e boas para você”.

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_Bequinha, por que nós dois não podemos conversar? Você sabe o quanto eu gosto de você e... _Álvaro, mande um beijo para sua mãe. Tchau. “Quer mandar um para o Eliseu também?”- pensou ele ao desligar.

E o Eliseu? Ele deve estar muito ansioso, né? _Está. Ele pediu para avisá-la que vai preparar um almoço no sábado e nós estamos convidados, meu "Mamor". _Legal. Nem vou comentar nada com a Rebeca. Eu sei o quanto ela gostaria de estar aqui. _Por que ela não vem? _Ah, "Amuri", é muito complicado. _Espero que o nosso relacionamento nunca se complique. _A complicação foi antes. _Melhor assim, Mamor. _Fica só entre nós, hein? _O quê? _Essa história de Mamor e Amuri. _Sério? Eu pensei em dar um testemunho na reunião dos jovens. Seria um grande estímulo para muitos. Quem sabe há alguns lá na mesma situação e eu acho que contar os detalhes seria bem interessante. _Murilo!

Faltando dois dias para a chegada do avô e da irmã, Eliseu recebeu um telefonema de Ricardo, o amigo de infância. _Não acredito! É você mesmo? Que surpresa, Ricardo! _É cara. Como estão as coisas por aí? _Está tudo pronto para a chegada deles. Eu nem estou acreditando que quinta-feira eles estarão aqui comigo. _É... Eliseu, meu pai pediu para ligar, é que eu não tenho uma notícia boa para dar. _Aconteceu alguma coisa com o meu pai?

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_Não. Foi com o seu avô. Ele está internado. _O que aconteceu com ele? _Ele estava com dores no peito e a pressão subiu muito, mas agora ele está bem. O médico disse que é an... _Angina. Quando aconteceu? _Ontem à noite. _Por que vocês não me ligaram ontem? _Foi uma correria... todos foram para o hospital. Meu pai está lá agora, a Jessica e o seu pai também. _Ah, meu Deus... eu... eu vou até aí. Ricardo, vou desligar, eu preciso saber qual o primeiro voo... eu... avise a Jessica. Eu tenho que ver o meu avô. _Ligue para dizer o horário que você vai chegar. _Certo. Eu ligo. Eliseu conseguiu uma passagem para o primeiro voo do dia seguinte. _Ah, querido, nós estaremos aqui orando por ele. Foi mesmo uma benção você ter conseguido uma passagem nesta época do ano. O Álvaro vai levá-lo até o aeroporto. _Não se preocupe, dona Lourdes, o Moacir se ofereceu para me levar. Eu precisei ligar para ele. A Clarice havia programado um almoço para domingo. _É querido, nós fazemos os planos, mas nem sempre... ah, vai dar tudo certo. Deus vai fortalecer o seu avô. Durante o caminho até o aeroporto, Eliseu ligou para Murilo para cancelar o almoço de sábado. _Havia uma programação bem especial esperando por eles, não é, Eliseu?- perguntou Moacir assim que ele desligou. _É, Moacir, mas... _Bom... isso pode ser um plano de Deus. Agora você vai se encontrar com todos. _É. Até com o meu pai. _Está com medo? _Estou ansioso e com um certo receio. Não sei como ele irá me receber. _Fique tranquilo, confie em Deus.

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Durante o voo, Eliseu não parava de pensar em como ele encontraria o avô, esperava do fundo do coração que ele estivesse bem. A sua maior preocupação era se Ricardo havia dito mesmo a verdade. E se o estado de saúde do avô fosse grave? Pensou muito também em como ele seria recebido pelo pai. A ansiedade era grande por ter a oportunidade de rever todos, mas em relação ao pai, Eliseu estava bem temeroso. Jessica ficou feliz ao saber que veria o irmão naquele mesmo dia, mas a preocupação também era grande por dois motivos: pela reação de seu pai e de seu avô. Ele estava tão ansioso para rever o neto. Chico deu um enorme susto em todos, mas já estava melhor. E agora? Será que o coração iria aguentar tanta emoção?

_Oi, Manu. Estou trabalhando, mas tudo bem, dá para falar. Sou a queridinha do patrão. _Isso eu sei. Rê, o Murilo acabou de me ligar. _Que gracinha! Vocês estão tão apaixonados... isso é lindo, amiga. _Estamos sim, Rê. Mas, é que o Murilo me disse que o Eliseu viajou para o Mato Grosso hoje. _Ele viajou? Mas a Jessica e o ... _O avô dele está internado. _O que aconteceu com ele? _Ele sentiu dor no peito e a pressão subiu... _Ah... que coisa! E o Eliseu? _Ele pegou o primeiro voo para lá. É uma pena, o Eliseu tinha programado tudo. Ele estava tão animado porque ia recebê-los aqui. _É mesmo uma pena. Vamos orar para que o avô dele fique bem. E...que ele consiga conversar com o pai dele. Nossa... ele deve estar tão ansioso e preocupado. Eu... _Rê, liga pra ele. _Eu? Não, Manu. _Rê, vai ser ótimo para ele conversar com você. _Não posso. Estarei orando por ele.

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_Eliseu, como você cresceu! _Sem brincadeira, Ricardo. _É verdade. E aí, amigão, quanto tempo, hein? Em breve meu amigo será um doutor, que chique, hein? _Ricardo, nós podemos ir direto para o hospital? _É claro, mas fique tranquilo, o velho Chico está bem, só não pode abusar. Precisa de muito repouso. Chegaremos lá em tempo recorde. Você sabe que eu sou um ótimo piloto, não sabe? _Sei, mas quero chegar inteiro. E o meu pai? _Hoje ele não passou no hospital, pelo menos até a hora que eu falei com a Jessica. Liguei para ela minutos antes de você chegar. _Ela dormiu no hospital? _Dormiu as duas noites. _Meu pai falou alguma coisa sobre a minha vinda? _Nada. Nem uma palavra. Mas, não esquenta, quando ele olhar para você não vai resistir. Com certeza ele vai correr para o abraço. _Não me iludo.

Ao chegarem ao hospital... _Eliseu, é melhor você conversar com o médico. Talvez o Chico precise de algum preparo antes de vê-lo. Esperaram quase 30 minutos para conversar com o médico. O doutor Célio recomendou que Eliseu conversasse primeiro com a irmã fora do quarto. _Eu vou fazer companhia ao Chico enquanto você conversa com a Jessica. _Valeu, Ricardo. Aqueles minutos esperando por Jessica pareciam durar uma eternidade. Eliseu andava de um lado para o outro, olhava o movimento na recepção e em seguida olhava para o elevador. Quando Ricardo entrou no quarto, Chico estava dormindo, por isso foi fácil falar para Jessica que o

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irmão a estava esperando na recepção. _Ai, Ri, estou tão nervosa! Você falou sobre... nós? _Não. Deixei isso para você. Nem para o seu pai você falou ainda. _Então eu vou lá. O Eliseu está esperando por mim, ai, até parece mentira.

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Capítulo 34 -Reencontros emocionantes Quando Jessica saiu do elevador, Eliseu estava olhando para a recepção. Ela aproximou-se com um pouco de receio pois a recepção estava lotada, mas assim que ele virou-se, ela o reconheceu. Imediatamente os olhos dela encheram de lágrimas. Eliseu olhou para aquela linda garota e sorriu. Os dois percorreram a pequena distância que o separavam sem tirar os olhos um do outro. Ao ficarem frente a frente, se abraçaram. Nenhum dos dois conseguiu dizer qualquer palavra. Simplesmente permaneceram abraçados e deixaram que as lágrimas rolassem. _Desculpe interrompê-los, mas o doutor Célio pediu para que eu acompanhasse o seu irmão até o quarto, Jessica. _Ah, é verdade. Eliseu esta é a Isabela, ela é enfermeira. Acho que é melhor eu entrar primeiro e conversar com ele. _Certo, maninha. Você está tão linda! Cresceu tanto! _E você está um gato! _Ah, que isso!

Jessica entrou e piscou para Ricardo. Ele saiu do quarto. Chico estava com os olhos fechados. _Vô, está dormindo ou meditando? _Estava pensando em nossa viagem. Eu estraguei tudo. Meu neto deve estar tão preocupado. _Vô, você promete que vai se controlar se eu contar uma coisa? _Que coisa? _Vô lindo, prometa primeiro. _Bom, no que depender de mim... eu prometo. _É que eu estou tão feliz! O seu neto amado está lá fora aguardando permissão para entrar aqui. _Hã? Você está dizendo que o Liseu está aí fora? _É isso mesmo, vô. _E por que ele não entra logo? _Vô, o senhor está bem? _Nunca estive tão bem. Jessica, diz para ele entrar, por favor. _A enfermeira vai entrar primeiro e examiná-lo, depois o Eliseu entra. 323

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_Mas, para que tudo isso? _Vô! _Certo, certo. A enfermeira examinou Francisco e constatou que ele estava bem. Jessica foi buscar o irmão. Francisco não tirou os olhos da porta e sorriu quando o neto entrou. _ Meu neto está mais bonito do eu, como é que pode? _Vô, a sua benção. _Deus que o abençoe, meu neto. Liseu, se aproxime, eu estou bem, pode ficar tranquilo que não vai me dar nenhum piripaque, o meu Deus não faria isso comigo, não agora. Eu preciso de mais um tempinho só para poder olhar para você e abraçá-lo... ah, não é só isso, precisamos conversar muito, muito mesmo. Venha aqui perto de mim. Eliseu aproximou-se e ficou olhando para o avô. _Liseu, e o meu abraço? Eu não vou quebrar. Neto e avô deram o tão esperado abraço. Chico não queria mais desgrudar de Eliseu. Senti-lo assim tão perto era algo que ele sonhava diariamente. Para Eliseu todo aquele carinho o fez sentir-se em casa, depois de um longo tempo de ausência. _Se eu soubesse que era tão fácil fazê-lo voar para cá, teria providenciado isso antes. _Ah, Vô, quando fiquei sabendo não pensei duas vezes, tinha que vê-lo. _Uma pena não ter dado certo a nossa viagem, não é Jessica? _É. Mas o Eliseu está aqui. _Deve ser providência divina. Agora todos podem vê-lo; só eu e a Jessica teríamos este privilégio. Você já viu o seu pai? _Ainda não. _Hoje ele não esteve aqui. Você deve estar ansioso para encontrá-lo, não é? _Estou ansioso, preocupado, nervoso...estou na maior expectativa. _Calma, senão vai acabar fazendo companhia para mim aqui. Entendeu, né? _Entendi, vô. Então foi só um susto que o senhor nos deu, não é? _Acho que foi um susto que o Senhor me deu- disse Chico apontando para cima- Ah, Liseu, Deus tem os seus caminhos. Ele diz em sua Palavra:” Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor.” 19
19 Isaías 55.8

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_ É, vô, aqui estou eu. _Liseu, você engordou. Anda comendo muita pizza? _Eu sou pizzaiolo e não degustador. E para falar a verdade, nem pizza eu ando fazendo ultimamente. _Não sei não. Você está mais bonito, já está com pinta de doutor. _Ah, vô. Ainda falta muito. _Falta menos do que antes. Liseu, quando eu penso no que Deus fez na sua vida... Deus é fiel. Ele vai cumprir o desejo da sua mãe. Depois de tudo o que você passou... outro dia eu ouvi um sermão sobre José, sei que as circunstâncias foram outras, mas assim como Deus cuidou de José, tem cuidado de você também. Você será exaltado. _Amém. _Quando você receber aquele diploma, vai lembrar de tudo o que passou. De todas as humilhações, frustrações, privações que você passou nas ruas e com certeza vai dizer que valeu a pena. Ah, você passou por tantas coisas e está aqui, firme e forte. Foi até roubado... _Vô, por que o senhor está falando isso. Como... _Ah, escapou. Ela pediu para não dizer nada. _Ela quem? _A dona Lourdes. É que uma vez eu liguei para ela e nós começamos a conversar sobre você e ela acabou me contando tudo. Pediu para não comentar com você, mas hoje eu acabei entregando aquela senhora tão simpática. Não fique bravo com ela. Você deveria ter me contado. _Ah, vô, eu não queria preocupá-lo com os meus problemas. _Me desculpem, mas o senhor Francisco precisa descansar- avisou a enfermeira Isabel. _Eu vou... _Você não vai... quero que fique aqui comigo, Liseu. _Vô, é só para o senhor descansar um pouco. _Eu prometo que vou ficar quietinho. _Tudo bem, mas então feche os olhos e tente dormir. _Não quero dormir, prefiro aproveitar cada segundo de sua presença aqui. Chico tentou não dormir, mas adormeceu minutos depois. _Eliseu, vamos até a lanchonete, você deve estar com fome- disse a irmã. _Eu não estou com fome, mas lá nós podemos conversar melhor. Vamos deixá-lo descansar.

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Na lanchonete... _Maninha, hoje você pode dormir em casa, eu vou ficar aqui. _Tudo bem, mas você vai lá em casa comigo. Vou preparar um jantarzinho para nós. _Não se incomode. _Eu sei cozinhar muito bem, viu? _Não duvido. _Está com receio de encontrar-se com o pai? _Será que ele não vai aparecer por aqui? _Eu acho que não. E sabe de uma coisa? É melhor que o reencontro de vocês seja lá em casa. _É melhor. _E a Rebeca? _Está bem, eu acho. _Você acha? _É que ela voltou para Porto Alegre. _Ih, namoro à distância não deve ser fácil. _Jessica, nós não estamos mais namorando. _Não? Ah, Eliseu, por quê? _Eu não quero entrar em detalhes, mas foi melhor assim. Incompatibilidade de finanças. _Que pena. Você ainda gosta dela, né? _Não vou mentir. Eu gosto muito. _Vocês voltam. _Acho que não, mas e você? Tem interesse em algum rapaz? _É... _Ficou vermelha por quê? _Eliseu, isso fica só entre nós... estou namorando. _Namorando? Maninha, você está namorando escondido? _Nós ainda não contamos para ninguém. Você é o primeiro a saber. _Jessica! Quem é ele? Eu conheço? _ É o Ricardo. _O Ricardo? Mas ele tem a minha idade. _E qual o problema? _Me desculpe, eu não tenho direito de me intrometer na sua vida.

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_Ah, Eliseu, eu que peço desculpas. Você tem direito sim. Estou tão feliz por vê-lo novamente, senti tanta saudade. Só fiquei sabendo do que realmente aconteceu com você porque o Ricardo me contou. Logo que você foi embora, eu ouvi alguns boatos, mas eu precisava saber o motivo. O vovô não me contou tudo para que eu não ficasse com raiva do nosso pai. Há uns dois anos, eu e o Ricardo começamos a conversar em uma festa de aniversário e ele falou tudo. Chorei muito. A partir daquele dia, sempre que tinha uma oportunidade eu conversava com ele. Estamos namorando há três meses. _Certo. Mas você precisa contar para o nosso pai. _Eu sei, mas agora tem uma coisa muito mais importante para acontecer. _O quê? _A reconciliação de vocês. Eliseu, vocês precisam conversar. _Eu quero muito conversar com ele, Jessica. Quero que ele me ouça. Espero que ele me receba como filho. Jessica e Eliseu voltaram para o quarto. Estavam conversando quando ouviram uma batida na porta. O coração de Eliseu disparou. _Posso entrar? _É claro, Agnaldo. Entre, entre e veja só quem está aqui- disse Chico. _Estou sabendo, o Ricardo já me contou. Rapaz, você está ótimo. _Oi, Agnaldo, é um prazer revê-lo. _Eliseu, você está muito bem. Chico, o seu neto está com cara de doutor. _Foi o que eu disse. _Agnaldo, você vai ficar aqui com o meu avô? Está com tempo? _Estou sim, Jessica. O Ricardo vai fechar o mercado. _Então eu vou aproveitar para ir com meu irmão até em casa. _Podem ir tranquilos. _Vô, eu volto. Passarei a noite aqui- avisou Eliseu. _Certo. Agnaldo, você viu o Zé? _Hoje não, Chico. Querem que eu leve vocês para casa?- perguntou olhando para Jessica e Eliseu. _Não precisa, Agnaldo. Tem um ponto de ônibus em frente ao hospital. Uns 15 minutinhos e estamos em casa. _Então podem ir sossegados, eu fico fazendo companhia ao meu velho amigo.

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Dentro do ônibus... _Maninha, e a Mônica? _Casou e mudou. _Você está brincando ou... _É isso mesmo. A Mônica casou-se há seis meses. Em julho do ano passado ela viajou com os pais para a Bahia, lá conheceu o filho de um amigo de infância do pai dela e começaram a namorar, mas como a distância é grande eles resolveram casar logo. _E por que eu só estou sabendo disso agora? _Coisas do nosso avô. Ele achou que você ia ficar chateado. _Só porque eu fui namorado da Mônica? Faz tanto tempo... _Foi o que eu disse, mas ele achou melhor assim, então eu respeitei a opinião dele. _Desde que você foi embora, a Mônica não havia namorado mais ninguém, ela tinha esperanças que você voltasse logo. Sempre que me encontrava queria falar sobre você. _Espero que ela seja feliz. E o nosso pai? Perguntou alguma vez sobre mim? _Ah, Eliseu, ele.. _Tudo bem, eu já sei. _Quando eu fiquei sabendo o que aconteceu de verdade, eu disse ao vovô que eu ia ter uma conversa muito séria com o meu pai, mas ele implorou para eu não fazer isso. Falou que eu só ia piorar as coisas. Que eu ia acabar brigando com o meu pai. _Ele estava certo. Foi melhor assim. _Vamos descer no próximo ponto. Está reconhecendo? _Com certeza. Você nem precisava dizer que era o próximo ponto. Andar pelo bairro fez Eliseu relembrar o passado. Lembranças boas e ruins passavam pela sua mente. _O bar está fechado, que estranho- constatou Jessica. Jessica abriu a porta da casa e fez uma mesura para o irmão entrar. _Fique à vontade, afinal a casa também é sua. _Valeu, maninha, mas você sabe muito bem que eu não ficarei à vontade. _Tente pelo menos. Você só trouxe esta mochila?

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_Só. Jessica, por que o bar está fechado? _Não pense bobagens. Ele precisou sair...deve ser isso. _Quem está ajudando o nosso pai? Uma vez você mencionou que o João mudou-se para Cuiabá. _O Limão, o nome dele é Silas, nem me pergunte o motivo do apelido. Eu... espere aí, tem um recado na geladeira. Jessica leu as poucas palavras e tentou disfarçar a decepção, mas Eliseu percebeu que havia alguma coisa errada. _O que está escrito? _Nada de importante, é só... uma lista de compras. _Jessica, me dê o papel. _Para quê? Quer fazer compras? _Jessica, você acha que me engana? Eu estava olhando para você e vi a sua reação ao ler. _Ah, Eliseu... eu... Ela entregou o pedaço de papel. "Filha, não se preocupe. Precisei viajar. Um abraço de seu pai." _Qual a última vez que ele viajou? _Ele sempre sai para pescar, mas... _Mas isso não conta. É claro que ele saiu só para não me ver. _Eliseu, não deve ser isso; eu vou até a casa do Limão, ele deve ter mais alguma informação sobre a viagem. _Eu vou com você. _Por que você não fica aí descansando? Eu volto logo. _Não, eu... _Espera aí, tem alguém me chamando no portão- Jessica olhou pelo vitrô da sala- É o Limão. Vou falar com ele. Eliseu a seguiu. _Oi, Jessica. O seu pai pediu para eu fechar o bar e entregar a chave para você. _Por que vocês fecharam tão cedo? _Ele disse que ia viajar e me deu férias.

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_Meu pai disse para onde? _Não. Ah... este é o seu irmão? _Me desculpe, Limão. Este é o Eliseu, o meu maninho querido. E este é o Silas, mas conhecido como Limão. _Oi, Silas, como vai? _Estou bem. A sua irmã não falava em outra coisa. Estava querendo tanto viajar para vê-lo, mas agora você está aqui. _É. Silas, quais foram as palavras exatas que o meu pai falou? - perguntou Eliseu ansioso. _Ele só disse que precisava viajar com urgência. Pediu para que eu fechasse o bar. Dois fregueses estavam bebendo e o seu Zé disse que não podia esperar. Foi só isso. _Obrigado Silas. Limão entregou a chave e foi embora em seguida. _Eliseu, não fique pensando que foi por sua causa. Deve ter acontecido alguma coisa. _Jessica, para que se iludir? Ele não quer nem olhar para mim. Não mudou nada. O meu pai me odeia. _Não fale assim, Eliseu. _Para você eu posso falar, mas vou precisar fingir quando estiver com o vô Chico. Eu queria muito ver vocês, estava sempre pensando em vir, mas ao lembrar do desprezo e da humilhação, eu desistia. Ah, me desculpe, não deveria falar essas coisas com você. _Deveria sim, eu sou sua irmã. Você pode desabafar comigo. Eu sempre pensei em como seria bom tê-lo aqui para conversar e agora você está aqui. Sinto muito pelo cabeça dura do nosso pai. Ah, por que ele é tão teimoso e orgulhoso? _Maninha, não discuta com ele por minha causa, eu peço isso para você, ou melhor, eu imploro. Seria muito triste se vocês dois brigassem também. _Nem isso eu posso? Eu tenho vontade de dizer o quanto eu gostaria de ter o meu irmão aqui comigo, eu queria que o tempo voltasse. Eliseu aconchegou a irmã em seus braços. _Ah, eu queria tanto que as coisas fossem diferentes; que aquela mulher horrorosa nunca tivesse colocado os pés aqui. Ou então que o nosso pai não duvidasse de você. _Maninha, pare de chorar. Infelizmente não dá para voltar no tempo. _Eu gosto de assistir filmes assim. Aqueles que a pessoa volta e conserta as coisas. Se eu tivesse este poder, eu voltaria naquele dia que o nosso pai chegou e avisou sobre o casamento dele. Eu seria

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totalmente contra. Não, que bobagem! Tem outra data muito melhor. Eu riscaria da nossa vida o dia em que a mamãe morreu. Isso resolveria tudo. Eliseu, que até então estava conseguindo segurar as lágrimas, afastou-se da irmã, virou o rosto para a parede e desabou. Jessica aproximou-se e começou a acariciar os cabelos dele. Minutos depois... _Bom... eu tenho o poder de mudar uma coisa: o ronco do meu estômago. E o do seu também- disse Jessica. _É. Chega de choro. Vamos para a cozinha. Os dois prepararam a refeição juntos. Às 20h Eliseu foi para o hospital.

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Capítulo 35 -Reencontro? Eliseu ficou aliviado porque ele estava há mais de duas horas com o avô e ele não havia perguntado sobre José Luís. _Liseu, você quer sofrer sozinho, é? _Por que o senhor está perguntando isso? _Você pensa que eu não sei? _O quê? _Sobre o João teimoso. _João teimoso? _Ou melhor: José teimoso. Liseu, eu sei que ele viajou. Ou melhor: Inventou uma viagem. _Vô, nós não teremos esta conversa. _Teremos sim. _O senhor não pode se emocionar. _O Zé não sabe mesmo aproveitar as bençãos que Deus dá. O filho dele está aqui e o que ele faz? Se afasta. _Como o senhor ficou sabendo? _Ele esteve aqui. Chegou assim que vocês saíram. O Zé está com medo de vê-lo. _Medo? Ele está com ódio. Vô, vamos conversar sobre outra coisa. _O Zé teve a coragem de mentir para mim na cara dura. Disse que um amigo pediu para acompanhá-lo em uma viagem. Só que o amigo não tem nome e sobre o destino da viagem? Nada. Ele não disse nada. Só desconversou. Que vergonha! _Vô, o que importa mesmo é que o senhor está bem. Já sabe quando vai sair daqui? _Que mudança de assunto, hein? Tudo bem. O doutor Célio disse que vai me dar alta daqui a dois dias, mas eu preciso prometer que vou me comportar bem. É... eu já tenho 77 anos. _O senhor vai viver muito ainda. _Um segredinho: Pedi a Deus para me deixar nesta vida pelo menos até você se tornar o doutor Eliseu. Depois... _Ah, vô, então eu acho que vou estudar menos. _Isso não. _É só eu demorar mais alguns anos para me formar. _Liseu, tê-lo aqui parece um sonho. 332

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_Vô, é bom estar aqui. Eliseu ficou com o avô no hospital até o dia da alta. Só saía para fazer as refeições e tomar banho. Aproveitou cada momento. Os dois conversaram muito. Vô Chico quis saber de todos os detalhes da vida do neto desde o dia que ele saiu de lá. Eliseu mostrou algumas fotos. Através delas, o avô conheceu dona Lourdes e a família dela, Moacir e Clarice; até Murilo e Manuella estavam em uma que tiraram no dia do casamento da filha do pastor Moisés e é claro que Rebeca também aparecia nela.

_Como é bom estar em casa novamente. Preciso... _Vô, não fique muito animado, viu? O senhor precisa descansar e muito- avisou Jessica. _Liseu, a sua irmã não deveria ter ouvido as recomendações do médico. _Vô, ela tem razão. Queremos que o senhor viva muitos anos ainda. _Não preciso de muitos, você sabe que eu tive uma conversa séria com o meu Deus. O telefone está tocando. _Pode deixar que eu atendo- disse Jessica. _Liseu, e a Rebeca? Você já ligou para ela hoje? _Não. _Tem alguma coisa errada? Todas as vezes que eu pergunto dela você fica tão calado. Muitas saudades? _Muitas, vô. Quem ligou?- perguntou Eliseu ao ver a irmã. _O Agnaldo. Ele disse que o nosso pai ligou, avisou que está bem e que voltará assim que resolver tudo por lá. _Ele vai voltar assim que eu for embora. _Maninho, não fale isso. _Vamos preparar o jantar? Vô, seguiremos as recomendações médicas à risca. _Ah, Liseu, você acha que eu esperava que fosse diferente? Tendo um neto que está a alguns passos de se tornar um doutor e uma neta que é super atenciosa e exigente... _Pare de reclamar. O jantar será servido às 18h em ponto- avisou Jessica. Eram 21h, após terem certeza que o avô estava dormindo, Jessica e Eliseu foram para sala.

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_Você vai prestar vestibular no próximo ano? Letras? _Com certeza. Serei uma professora, você vai ver. _Não tenho dúvida. E será uma professora excelente. Maninha, e o namoro? _Pode ficar tranquilo que o Ricardo vai falar com o sogrão. Só espero que ele seja bem compreensivo. _Eu também e espero que um dia você possa me visitar . _Eliseu, se eu não conseguir ir antes da sua formatura, pode ter certeza que eu estarei lá no dia que você receber o diploma de doutor. _Seria maravilhoso. _Eu vou me programar para isso porque eu acho que vai ser difícil ir antes. Você ouviu o que o médico disse. O vô não vai poder viajar. Eliseu passou mais uma semana na companhia do avô e da irmã. No dia 15 eles comemoraram o aniversário de Jessica. José Luís ligou falar com a filha, mas foi uma ligação rápida, ela nem conseguiu perguntar nada. _Não acredito que você comprou passagem para amanhã. Liseu, por que você vai embora tão rápido? _Eu preciso ir. _Você ainda tem duas semanas de férias. _Vô, eu tenho que ir. _A culpa é do Zé. _Vô, ele precisa voltar. Nem sabemos o lugar que ele está? Precisa retornar para a rotina dele. O bar está fechado há dias. E ele nem esteve aqui no aniversário da Jessica. _Problema dele. Eu quero que você fique mais uma semana. _Não posso. _Liseu, quando eu poderei vê-lo novamente? _Vô, não me olhe assim. Prometa que vai seguir a dieta direitinho e obedeça a sua neta. _O mundo está virado. Agora eu tenho que obedecer a minha neta- disse Chico sorrindo.

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Despedir-se foi uma difícil missão para Eliseu. Precisou controlar a emoção por causa do frágil coração do avô. Ricardo e Jessica estavam esperando na sala. _Maninha, fique com Deus. Estude bastante, cuide do nosso avô, do nosso pai e do seu namoradoao dizer isso Eliseu sorriu. _Não necessariamente nesta mesma ordem, certo? Não vou dizer para você estudar bastante, por motivo óbvio, mas vou pedir para você reatar o namoro. Maninho, você está apaixonado, não negue. Não permita que os obstáculos o separem do seu amor. Seja feliz. Prometa que vai reatar o namoro. _Não posso prometer isso. Não depende de mim. Jessica, eu quero que você esteja lá quando eu receber o meu diploma. _Estarei. Tem algum recado para... _Não. Mas, eu tenho um recado para o seu namorado... Ricardo, aproxime-se. _Eu pensei que já estava livre de um sermão... _Não será um sermão. Não tenho tempo para isso agora. Ricardo, cuide bem dela. Ela é um tesouro. _Eu sei, amigão. Eliseu, tudo de bom para você. E volte para a Rebeca. Eliseu abraçou o amigo e após aproximou-se da irmã. _Está na hora. Maninha, amo você. _Eu amo você. Eu... Eliseu deu um forte abraço na irmã e depois afastou-se sem olhar para trás.

Jessica e Ricardo bem que se ofereceram para levá-lo, mas ele preferiu ir de ônibus porque a distância era grande e além disso ele não queria despedir-se deles no aeroporto. Mesmo faltando poucos minutos para o embarque, Eliseu não perdeu a esperança de rever seu pai. Ficou olhando para os lados o tempo todo. “ Nos filmes há aqueles encontros no último momento... nos filmes.”pensou lamentando.

José Luís foi à casa de Francisco duas horas depois da saída de Eliseu. _Zé? Não acredito! Como você teve a coragem de fazer isso? Coragem? Você foi é um covarde, isso sim.

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_É, Chico, já deu para perceber que você está bem. _Pai, o senhor viajou para onde? _Para um lugar qualquer. _Zé, isso não é resposta. _Chico, acalme-se. Eu estava em uma cidade bem próxima daqui. _Estava na casa de alguma mulher? _Chico, a minha filha está aqui. Mas, eu não estava na casa de mulher nenhuma. Fiquei alguns dias hospedado em uma pensão. Tirei férias. Estava precisando. _Zé, como você pôde? Você estava por aqui espionando, isso sim. Foi só o Liseu sair e... _Tenho meus informantes, Chico. _Já sei, o Limão, só pode. _Você acertou, Chico. Filha, passou dias agradáveis? Aproveitou bastante? _Foi ótimo, pai, mas se o senhor estivesse aqui... _Então é isso que importa. Bom... vou cuidar da vida. José Luís saiu sem dizer mais nada. Ao chegar em casa, ele deitou-se no sofá, ficou descansando por mais de uma hora; ao levantar-se foi até a cozinha preparar um café. Não estava encontrando o coador que sempre ficava em cima da pia. Olhou para a mesa e lá estava ele perto de algumas fotografias. Pegou-as e a primeira que viu foi a de um rapaz de avental com uma pizza nas mãos. Em outra havia o mesmo rapaz, mas agora ele estava elegantemente vestido ao lado de mais três jovens. Olhou as outras cinco fotos e foi fazer o café. Instantes depois ele passou pela mesa novamente, pegou uma das fotos e a guardou no bolso da calça. Eliseu, ao conversar com aos amigos, omitiu a viagem inesperada de seu pai. Preferiu dizer somente que não aconteceu a tão esperada reconciliação. Ele aproveitou o restante das férias para participar das reuniões diurnas da “VT”. Estava precisando fortalecer o espírito. Seis meses depois... _Eliseu, por que você não vai? _Murilo, eu achei muito legal você preparar uma festa surpresa para a Manu, mas eu não vou. _Mas... não entendo, eu disse que convidei a Rebeca e ela confirmou presença e mesmo assim você está dizendo que não vai?

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_Por isso mesmo. _Você está com saudades dela, é claro que está. Há quase um ano que vocês não se encontram. Eu até pensei que ela viria para cá no final do ano. _E ela fez muito bem em não vir. Murilo, eu não quero vê-la, ou melhor, eu não posso. Seria pior. _Eliseu, quer que eu peça de joelhos? _Seria engraçado vê-lo assim, mas não ia adiantar. Murilo, se preocupe com os preparativos da festa. Foi muito legal você ter convidado a Rebeca, a Manu vai ficar muito feliz. _Vai mesmo, a última vez que elas estiveram juntas foi em outubro. _Quando a Manu foi passar uma semana lá em Porto Alegre. A Manu esteve presente no aniversário da Rebeca e agora vai ter a amiga aqui. Vai ser legal. _E seria muito mais se você não fosse tão teimoso. _Agora eu preciso ir. _Não vai ficar para o ensaio dos jovens? _Não, eu só vim para a escola bíblica. É que hoje é aniversário da Clarice e o Moacir me convidou para um churrasco. _Só você tem esses privilégios. _Não será nenhuma festa. É só um almoço mesmo. _E você é o convidado especial. Espera aí, meu celular está tocando e adivinhe quem é? _Não consigo nem imaginar- brincou Eliseu. _Oi! Que menina preguiçosa. Nem para o ensaio? Não vou perdoá-la. É mesmo? Então está perdoada. Outro maior para você. Eu também. _Que gracinha! _Ela é uma gracinha! E você nem imagina o que a minha linda namorada me contou. _Não mesmo. _Ela não veio para aula hoje porque não conseguiu acordar e adivinhe o motivo. _Sei lá... _Porque ficou conversando com uma amiga dela até altas horas da madruga. Que amiga? Pergunta aí. _Como você é chato. _A sua Rebeca. _Minha? Ela está aqui? _Chegou ontem à noite e dormiu na casa da Manuella.

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_Pensei que seria uma surpresa a presença dela no aniversário da |Manu. _É, seria. Eu acho que ela precisou chegar antes. Mas a festa de sábado ainda é uma surpresa. Como que o seu coração deve estar, hein? É hoje! _É hoje o quê? _O dia do reencontro. _Não mesmo. _Por que não? Depois de tanto tempo, você acha que a Rebeca não vem ao culto hoje? _Ela talvez, mas eu... _Eliseu, deixe de ser criança. Vai ficar fugindo dela? _Murilo, eu preciso... estudar. É isso. Vou aproveitar para estudar. _Não seja covarde.

_Ansiosa? _Por que estaria? _Vai reencontrar-se com o seu amor. _Que amor, Manu? _Preciso mesmo falar o nome? Desde que você chegou nós já conversamos tanto e nenhum comentário seu sobre ele. Estava esperando pelo menos uma pergunta, mas já que não... _Manu, eu não quero falar sobre ele e muito menos vê-lo. _Rebeca, o seu coração não está dizendo isso. _Está sim. _Duvido. Nos últimos meses eu vi o Eliseu raras vezes e cada dia vai ser mais difícil. No mês que vem ele vai começar outro estágio em um hospital no centro de São Paulo. A dona Lourdes já contratou outro pizzaiolo. _Ele não está mais na “Gaal”? _Eu tentei dizer isso pra você, mas estava proibida de falar o nome dele. Desde novembro do ano passado que ele não trabalha mais lá, mas ele continua morando. A dona Lourdes não quer que ele vá embora. O Eliseu pensou em alugar uma casa, mas ela disse que ficaria muito chateada. _Vamos mudar de assunto?

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Na casa de Moacir... _Um pizzaiolo fazendo churrasco, isso é perfeito. _Um ex-pizzaiolo ajudando a fazer churrasco, Moacir. _Um doutor ajudando- disse Clarice. _Isso mesmo, um doutor. No próximo mês você estará no 5° ano! _Estarei iniciando o 9° período. O tempo passa depressa, até parece que o meu encontro com o reitor Sérgio foi ontem. _Aquela “coincidência” divina. _É, aquela feliz “coincidência” divina. _É melhor dizer aquela “providência divina”, não é?- perguntou Clarice. _É verdade, dona Clarice. Deus providenciou tudo para mim. _Deus é bom. Esperem aí, a campainha está tocando. _É muito bom tê-lo aqui, Eliseu.-disse Moacir assim que a esposa afastou-se- A Clarice está tão animada! Depois que o nosso filho se foi, ela nunca mais quis comemorar o aniversário. Eu sempre compro um presente e a convido para sair, mas ela agradece, diz que prefere ficar em casa e se tranca no quarto. No dia seguinte é pior ainda porque é o dia do aniversário do Pedrinho. _Datas assim trazem muitas lembranças; sei bem o que é isso. Não continuaram o assunto porque Clarice apareceu com uma visita. _Olha só quem está aqui! _Cristina, que surpresa! Quanto tempo! _É, Moacir, quase um ano. Eu vim dar um abraço na Clarice. Lembrei do aniversário dela. Oi, Eliseu, como você está? _Estou bem e a senhora?- "e a Rebeca?"- pensou. _Bem, graças a Deus. Você por aqui? _Ah, Cristina, o Eliseu veio participar de um churrasquinho. Quando tem um tempinho ele aparece por aqui para conversarmos, só que o dia a dia do nosso futuro doutor é muito corrido. _Eu imagino. _Moacir, você pode me ajudar lá na cozinha? O Eliseu faz companhia à Cristina e olha o churrasco, não é? _É claro. Clarice e Moacir afastaram-se estrategicamente.

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_Eliseu, você está sabendo da festa surpresa para a Manuella? _Estou sim- disse ele sem tirar os olhos da churrasqueira. _É claro que sabe, que pergunta! Você e o Murilo são amigos. Ele convidou a minha filha. Chegamos uma semana antes porque o Otávio precisava resolver algumas coisas e também porque assim nós aproveitamos um pouco mais. Vamos embora domingo pela manhã. A Rebeca está ajudando a Isa com os preparativos para a festa de 1 aninho do Nandinho. _E como ele está? _Está muito esperto. Eu acho que ele vai começar a andar antes da festa. O Nandinho é um doce. Adora a Rebeca. _Que bom. _Ela passa horas brincando com ele. Eliseu, eu não consigo entender o motivo... _Eu preciso tirar a carne, vou buscar algum recipiente para colocá-la. Com licença, dona Cristina. Eliseu voltou instantes depois trazendo o recipiente. Moacir veio logo atrás dele. _Eu preciso ir. _Almoce conosco, Cristina. _Agradeço, Moacir, mas o Otávio está me esperando. Bom almoço para vocês. Hoje nós vamos participar do culto- disse ela olhando para Eliseu.

Eram quase 19h e Eliseu estava mergulhado nos livros. Havia decidido não ir ao culto. Rebeca olhou para o celular mais uma vez, ao verificar o horário concluiu que ele não viria. Dizia para si mesma que era melhor assim, mas sentia o coração apertado. Sentia um desejo enorme de olhar para ele, ouvir a voz, aconchegar-se nele e esquecer que um dia eles estiveram separados.

Eliseu aproveitou a semana para estudar. Murilo continuou insistindo para ele ir à festa, mas não conseguiu uma resposta satisfatória. Quinta-feira, no dia do aniversário de Manuella, Murilo a levou para jantar, deu uma enorme cesta de chocolates e dois CDs de uma cantora que ele sabia que a namorada gostava. A estratégia deu

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certo porque nem passava pela imaginação dela que teria uma festa surpresa no sábado. Sábado pela manhã Eliseu ajudou Murilo com os preparativos. A festa seria na casa dele. _Nós combinamos ir ao shopping, mas assim que ela entrar no carro, eu vou dizer que esqueci a carteira. Aí venho com ela para cá. É um plano perfeito e ai de você se furar. _Murilo, eu não sei se... _Sabe sim. Eliseu, você vai perder a oportunidade de vê-la?

_Se você e o Eliseu estivessem juntos, os dois casais sairiam hoje. _Manu, divirta-se. _Você tem mesmo um aniversário para ir junto com a sua mãe ou está me enrolando? _Enrolando? Já estou até pronta! A minha mãe ficou de passar aqui. Seus pais vão demorar um pouquinho para sair. _Hoje eles também resolveram sair. Vão jantar fora. Rê, você está decepcionada, não é? Vai embora amanhã e nem... _Manu, eu acho que ouvi uma buzina. _Eu não ouvi. Agora ouvi. Pensei que você estava querendo fugir da conversa. _Também e o Murilo me ajudou. Rebeca e os pais de Manuella foram para a casa de Murilo assim que ela saiu. Dez minutos depois... _Ah, não! Não pode ser!- disse Murilo colocando uma das mãos no bolso. _O que foi, Amuri? _Esqueci a carteira. _Esqueceu? Ah, tudo bem, eu pago. _Não, nós precisamos voltar. _O MM está renascendo? Hoje eu pago. Você não vai se incomodar com isso, vai? _Precisamos voltar por causa do documento do carro. _Ah, tudo bem. Agora, se fosse por causa do dinheiro...

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_Você anda com dinheiro, por quê? Está saindo com o seu namorado e eu sei que ele tem grana! _Também sei- disse ela sorrindo. Na casa de Murilo estava tudo certo para a chegada deles. _Vai logo, eu espero aqui. _Não vou deixar a minha linda e doce namorada aqui sozinha. Vem comigo, Mamore. _Ai, como você é fofo! Tenho que dar um beijo em você. _Concordo. Após o beijo... _Os seus pais esqueceram de ascender a luz de fora. _Tem razão. Assim que entraram, Manuella ouviu: _Surpresaaaa! _Não acredito- disse ela escondendo-se no namorado. _Não se esconda, a festa é sua! _Você me enganou direitinho! Rê, você, hein? _Eu não disse que ia para uma festa de aniversário? Uma hora depois... _Está faltando alguém aqui- sussurrou Manuella no ouvido de Murilo. _Eu convidei. Insisti muito. _Ele sabia que a Rê estaria aqui? _É claro. _Não acredito que ele não vai aparecer. Liga pra ele. _Não sei se vai adiantar... _Tente. Murilo tentou por várias vezes, mas não conseguiu falar com Eliseu. _E então? _Nada. Ele deve ter desligado o celular. _Vou lá falar com a Rê.

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Rebeca, com um copo de refrigerante na mão, olhava de um lado para o outro. Queria ser indiferente, mas era impossível. A ausência dele doía muito. _Oi, amiga. Vocês me pegaram direitinho, hein? _Assim que é legal! Festa surpresa é surpresa, dã! _E você gostaria de uma surpresa? _Manu, curta a sua festa e deixe a sua amiga aqui se afundando neste copo de refrigerante. _Rê, eu... _Ele foi convidado, não foi? _Foi- disse Manuella com pesar. _Então ele está perdendo uma big festa.- disse ela forçando um sorriso. Rebeca voltou para Porto Alegre um dia depois. _Ah, Isa, fiquei tão decepcionada! Não consigo explicar o que está acontecendo comigo. Não queria vê-lo, mas esperava que ele aparecesse. Estou tão confusa! _Você está apaixonada, Beca. _O Eliseu não quer me ver e tenho que admitir que isso dói muito. Nos dias seguintes, Rebeca dedicou-se ao trabalho ainda mais e ajudou a amiga Isa a organizar a festa de Nandinho.

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Capítulo 36 -Você? Eliseu e Jessica ligavam um para o outro pelo menos uma vez por semana. O avô estava seguindo a dieta médica e sentia-se bem. José Luís continuava bebendo muito, isso deixava a filha cada dia mais preocupada, principalmente porque ele frequentemente deixava-se de dores e não aceitava conselhos para ir ao médico. Na última ligação, Jessica contou duas novidades: O namoro dela e de Ricardo agora era oficial e ela havia conversado com o pai sobre a formatura de Eliseu e para surpresa dela, o pai disse que pagaria as despesas da viagem.

Nossa, pelo que você me contou, Rê, o aniver do Nandinho foi bem divertido. Você até contou história com fantoches! Legal. _Foi mesmo, Manu. E ele estava tão fofo! _E você amiga, como está? _Estou bem. _Rê, não fiz esta pergunta só por fazer. A maioria das vezes que alguém pergunta se você está bem, é só por costume. Perguntam por perguntar, mas na verdade nem estão interessados na resposta. Mas eu quero saber como você está realmente. _Eu sei, Manu, mas não quero falar nele. _Tem certeza? _Ele deve estar tão envolvido nos estudos que nem lembra que eu existo. Tudo bem. Foi melhor assim. Ele não teria tempo pra mim mesmo. _Ah, Rê! Que tristeza na voz. Mas eu não concordo com você. Tenho certeza que o Eliseu ainda pensa em você. _Não pensa e eu deveria fazer o mesmo em relação a ele. _Você ainda está se afundando no trabalho? Tem saído para se divertir? Está indo à igreja? _Estou trabalhando muito, só saio se for com o Nandinho e a Isa. Participo dos cultos aos domingos e quando o grupo de fantoches tem alguma apresentação eu também vou. _E os jovens? O pessoal não sai junto? Tem eventos? _Tem vários, mas eu não quero me envolver. Vamos falar sobre o seu namoro? _Vamos. Eu tenho esperança que você e o Eliseu serão nossos padrinhos de casamento. _Nossa, já estão falando nisso? 344

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_Só conversando. _Eu e o Eliseu, padrinhos? Vá sonhando. _Há sonhos que se transformam em realidade.

Três meses depois... _Álvaro, você não está com nada. Se arrependimento matasse! _Está arrependida? _De ter ajudado você; o que eu ganhei? Ele me trata como uma irmã, nada mudou. Você tinha prometido... _Ah, minha irmãzinha querida, você é muito bobinha, não sabe conquistar. Eu disse que ia ajudar, mas não consigo. _Você não fez nada. Eu já sei como conquistá-lo. Vou contar tudo para ele. _Não seja ridícula. _Vou dizer para o Eliseu que foi você que contou tudo sobre a vida dele para o pai da Rebeca. _Não vai mesmo. _Vou sim. Ele vai saber o quanto você é invejoso. O quanto você ficou mordido ao saber do namoro dele. Ficou com raiva, só porque o Eliseu conquistou a Rebeca e você não. _E foi você que me contou. Ele não vai gostar de saber que você andou espionando. Que ficou ouvindo conversas... _Não acredito! Vocês fizeram o quê? _Mãe? Não é nada, eu estava aqui conversando com a minha... _Eu ouvi tudo, só não estou conseguindo entender. O Eliseu namora... _Mãe, é uma brincadeira que eu fiz com o Álvaro. _O que você falou para o pai da Rebeca, Álvaro? _Eu? Nada. _Vocês vão me contar tudo. Após ouvir a história dos filhos, dona Lourdes chamou Eliseu. Ela fez os filhos repetirem todo o relato. _Você? Como que eu não pensei nisso? _Eliseu, você não foi sincero comigo. Eu sempre falava sobre a Rebeca, dizia que estava

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apaixonado e o que você fez? Me traiu. A Gabi começou a tirar sarro da minha cara porque eu não tinha conseguido conquistar a Rebeca e você sim, aí eu fiquei muito bravo. Quando você ia me contar sobre o namoro, hein? _Álvaro, eu sei que errei. Deveria ter contado logo, mas eu estava dando um tempo. Contaria para você e depois eu iria conversar com o pai dela. Quando o seu Otávio me procurou sabendo tudo sobre a minha vida, não me passou pela cabeça que você... _E nem na minha!- disse dona Lurdes indignada com a atitude do filho- Estou cansada de tanta irresponsabilidade. Quando você vai crescer, meu filho? Eu também queria que você e a Rebeca se entendessem porque ela é uma boa moça, mas não é desse jeito que se resolve as coisas. _Só sobra pra mim! A Gabi me contou sobre o namoro porque ficou bisbilhotando e a senhora não diz nada? O Eliseu começa um namoro com a garota que eu gosto e a senhora não diz nada? _Depois eu terei uma conversa muito séria com a Gabriella. E o Eliseu não cometeu nenhum crime. Ele disse que só estava esperando o momento certo para contar. _Ah, claro, santo Eliseu! _Álvaro, eu não estava me sentindo bem com a situação. Teria uma conversa séria com você. Entendo que tenha ficado chateado ao saber do namoro, mas deveria ter falado comigo. Procurar o pai dela não foi uma boa atitude. Ele ficou sabendo sobre o namoro da pior maneira possível. E você ainda caprichou ao contar a história da minha vida. _Você não abriu o jogo comigo. _Álvaro, estou decepcionada com você. Errei muito na sua educação. Deveria ter sido mais rígida. Eliseu, eu sei que você precisa ir. Depois nós continuamos. Você e o Álvaro precisam conversar. _Eu preciso mesmo, está quase no horário do plantão, mas só quero dizer que vou alugar uma casa. Não quero criar problemas para vocês. _Eliseu, não decida nada com a cabeça quente. Vá agora, você não pode se atrasar.

Assim que ele saiu, dona Lourdes teve uma conversa muito séria com os filhos. Dois dias depois, Eliseu estava estudando em seu quarto quando ouviu uma batida na porta. _Posso falar com você? _É claro. _Bom, cara, minha mãe passou o maior sermão. Vou precisar pegar pesado na “Gaal” senão ficarei sem grana. E se você sair daqui, aí é que o bicho vai pegar. Então cara nem pense em mudar.

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_Álvaro, eu não quero ter problemas com vocês. A sua mãe é uma pessoa maravilhosa. Ela me ajudou muito. _Por isso mesmo. Fiz bobagem? Fiz. Mas concorde comigo que você pisou feio, não é mesmo? _Álvaro, eu sei disso, mas você deveria ter me procurado. Falar com o pai dela não foi legal. _Tudo bem, peguei pesado, mas você tinha que ver a Gabi me "zuando". Não aguentei. E tem outra coisa: de qualquer maneira o Otávio não ia te aceitar. Ele é jogo duro. Nunca que ele aceitaria alguém como você. E quer saber? Nem eu. E olha bem pra mim. Se eu não passaria no teste, imagine você. _Você não tem jeito. _Eu me cansei da Bequinha. Cansei daquele joguinho.... estou namorando firme. _É mesmo? _Por que essa risadinha? _Preciso explicar? _Agora a coisa é séria. Tem uma gata lá em Santos, a Sabrina. Estamos namorando. Contei para minha mãe e vou trazê-la aqui. A Sabrina também é evangélica. Minha mãe vibrou com isso. _Que bom pra você. _Eu acho que estamos quites. Você mentiu pra mim. _Não menti. Omiti. _Que seja. E eu... _Você não omitiu nada para o pai da Rebeca. _Eu só contei a verdade. Enfim, você aprontou comigo e eu aprontei com você. _Cara de pau. _Você não pode sair daqui. A minha mãe me deu uma missão. _É mesmo? _Tenho que convencê-lo a ficar. _Álvaro, eu acho melhor sair. A Gabi... _Minha mãe já conversou com ela e pode ficar tranquilo porque ela vai ter que esquecer a a paixonite. Minha mãe quer que você fique pelo menos até terminar a faculdade. Cara, me ajude. _Está certo.

_Amuri, por que você sempre desconversa quando eu pergunto sobre o Eliseu?

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_Porque sou ciumento. _Até parece. _Tanto interesse só porque em breve ele será um doutor. _Murilo, pare de brincadeira. Hoje você não me escapa. _Eu disse alguma vez que gostaria de escapar das suas garras, Mamore? _Pare com isso. Estou falando sério. Quero saber porque o Eliseu terminou o namoro. _Por que isso agora? _Outro dia você não gostou nadinha quando eu disse que o Eliseu pisou feio. Que ele não pensou nos sentimentos da Rebeca. Eu lembro muito que você disse que ele está sofrendo muito mais do que ela. Depois disfarçou mudando de assunto. _Que tal nós conversarmos sobre uma data para o nosso casamento, hein? _Como muda de assunto... e você não acha que está muito apressadinho? _Está me enrolando... vou contar para minha mãe que você só quer passar o tempo comigo. E depois vou ter uma conversinha com o seu pai. _Não estou achando a menor graça. Mas, tudo bem, você quer uma data... então conte o que eu quero saber. _Fazendo chantagem? _Um acordo. _Acordo? Manuella, se a Rebeca contasse um segredo, o que você faria? _Guardaria segredo. _Assunto encerrado. Alguns meses depois... Depois do aniversário de Manuella, Rebeca só foi para São Paulo mais uma vez. Ficou 10 dias na casa da amiga. Participou das atividades na “VT”, mas não viu Eliseu. Ele estava na fase de internato por isso ter tempo livre era algo quase impossível. Precisava cumprir a carga horária. A rotina era exaustiva, mas ele não reclamava. O dia a dia nos hospitais era fascinante para ele. Quando o final do ano estava próximo, Manuella convidou Rebeca para passar as festas em São Paulo, mas ela recusou. Preferiu ficar com a família. No dia 19 de janeiro, Nandinho completou dois aninhos. E mais uma vez Isa e Rebeca organizaram tudo.

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Eliseu começou o último ano da faculdade de medicina com um pedido muito especial. _Você quer convidar o "bom samaritano" para sua formatura e gostaria de fazer o pedido pessoalmente?- perguntou o reitor Sérgio. _Exatamente. _Eu posso comunicar o seu pedido, mas não garanto nada. _Reitor Sérgio, eu quero conhecer a pessoa que está transformando o meu sonho em realidade. Preciso olhar nos olhos de quem acreditou em mim e agradecer. Três dias depois... _Você não vai poder fazer o pedido pessoalmente, mas nem será necessário. A pessoa já confirmou presença em sua formatura. _Finalmente eu vou conhecer quem... _Eu não disse isso. A pessoa estará lá, mas não significa que você saberá quem é. _Assim não vale.

_Ontem eu conversei com a Rê. Ela tenta disfarçar mas continua pensando muito no Eliseu. Eu queria tanto poder ajudá-la. Estou tão feliz com você, gostaria que ela também estivesse. _Eu entendo, mas o que você pode fazer? Eu também gostaria que tudo fosse diferente, que o pai dela não... _O pai dela não o quê? _Eu disse o pai dela? Eu me confundi. Eu queria falar o pai dele... é, do Eliseu. _Murilo, não estamos falando sobre o pai do Eliseu. Agora eu quero saber... eu estava falando sobre a Rebeca e você... _Eu não disse nada. _O pai dela? O pai da Rebeca? O que... _Esqueça isso... escapou. _Não mesmo. Você vai me dizer agora. Estou querendo uma resposta há meses... _Sobre o nosso casamento?

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_Você sabe muito bem que não é isso. O pai da Rebeca tem alguma coisa a ver com... _Não viaja, Mamore. _Hoje você vai me contar tudo. Manuella insistiu até descobrir o segredo. _Como o pai da rebeca teve a coragem de fazer isso? Coitado do Eliseu. _Você não pode comentar com a Rebeca. Prometa. Ele confiou em mim. _Não posso prometer. Ela ficaria feliz por saber que o Eliseu só terminou o namoro porque foi obrigado... _Você não pode contar. Eu e a minha enorme boca... _A Rê é minha amiga. Se fosse comigo, eu gostaria de saber a verdade. _O Eliseu é meu amigo e confiou em mim. Você é minha namorada e eu confio em você, sei que vai guardar segredo. _Assim não vale.

Dois meses depois... Apesar de estar apresentável, ele chegou à secretaria da faculdade com um certo receio; alguns anos antes com certeza ele seria barrado. "Será que um homem tão importante vai querer falar comigo? Ele é a minha única esperança. Eu ainda lembro das palavras daquele cartão. Se o reitor falar comigo e confirmar que o Eliseu estuda aqui, como será que o rapaz vai me receber? Pode ser que nem lembre mais de mim ou nem queira falar comigo. Quem gostaria de lembrar de um passado tão triste?" _Qual é o nome dele?- perguntou o reitor Sérgio. _Amadeus. Disse que gostaria de falar sobre o Eliseu. _Tudo bem, Márcia, vou falar com ele. Enquanto aguardava, Amadeus pensava em como encontraria o rapaz que dividiu um espaço no “cantinho” com ele. Esperava que ele estivesse firme no propósito de ser médico. Desejava do fundo de seu coração que tudo estivesse caminhando para que o sonho da mãe de Eliseu se transformasse em realidade.

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_Boa tarde, senhor Amadeus. _Boa tarde, o senhor é o reitor Sérgio? _Sim. Como posso ajudá-lo? _Desculpe incomodá-lo, mas preciso encontrar uma pessoa e lembrei do nome da faculdade e também do senhor. _Está procurando por quem? _Um rapaz chamado Eliseu, eu não sei se ele estuda ou estudou aqui. É que eu o conheci em uma época difícil da vida dele e... _Amadeus, você está com sorte, ele estuda aqui. _Ah, que maravilha! Ele está bem? _Muito bem. É o último ano. _Graças a Deus ele conseguiu!- disse Amadeus com os olhos cheios de lágrimas. _Você gostaria de falar com ele? _Sim, mas eu não quero atrapalhar. E, bom... será que ele vai querer falar comigo? É que... sei lá, talvez ele não queira lembrar de épocas tão difíceis, ainda mais agora que ele é quase um doutor. _Amadeus, pode ficar tranquilo, o Eliseu continua do mesmo jeito. Tenho certeza que ele ficará muito feliz. Só que você terá que esperar. Ainda são 14h, ele ainda tem mais de três horas de aula. _Certo. Eu posso voltar mais tarde? Mas como que eu vou fazer para vê-lo? _Deixe isso comigo. Esteja aqui novamente às 17h. Mandarei um aviso para o Eliseu me procurar assim que as aulas terminarem. Ao retornar, Amadeus foi levado até uma confortável sala. Após 15 minutos um rapaz entrou. Olharam-se por alguns segundos. _Você? Meu Deus, eu não acredito que você está aqui! _Eu acho que você estudou muito hoje, rapaz, está delirando, não sou Deus, mas sou um dos filhos dele- ao dizer isso Amadeus deu uma gargalhada. _Amadeus, como você está bem! Está bonitão! _É, você está pior do que eu pensava. Bonitão, eu? Você que está ótimo, Eliseu. Doutor Eliseu. _Amadeus... Os dois amigos abraçaram-se. _Amadeus, eu estive no "cantinho", mas havia um homem lá. Era um sujeito tão esquisito. _Ele nos expulsou de lá; quase enfiou uma faca na barriga do Manoel. Mas, sabe de uma coisa? Foi

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a melhor coisa que aconteceu. Estava tão acomodado! Me acostumei com aquela vida. O sujeito esquisito nos avisou para sumir da área, disse que se nos encontrasse por ali nós teríamos que dar adeus à vida. Eliseu, você tem tempo para uma conversa? _Eu quero muito conversar com você, mas tenho pouco tempo. Entro no hospital às 19h. _Doutor Eliseu. _Ainda sou um estagiário, Amadeus. Vamos sair daqui para comer um lanche, assim podemos conversar mais um pouco. Em uma lanchonete próxima à faculdade... _Amadeus, queria tanto ter mais tempo para conversarmos. Eliseu falou sobre o local do estágio. Amadeus ficou feliz por ser um importante hospital da região. _Boa ideia, Amadeus. Você me acompanha até lá, assim podemos conversar. Vamos até o ponto de ônibus. Você precisa me dar detalhes do que aconteceu com você após deixar o "cantinho". _Dois dias depois de sairmos, o Manoel disse que estava sentindo fortes dores no peito. Procuramos um hospital e infelizmente, após três dias de internação, o nosso amigo faleceu. _Sinto muito, Amadeus. Você deve ter sofrido tanto... _Ah... foi terrível. O Manoel era como um irmão para mim. Passamos tanta coisa juntos. Eliseu, a morte dele me fez pensar muito. As suas palavras não me saiam da cabeça. _Minhas palavras? Os dois entraram no ônibus. Após passarem a catraca, Amadeus continuou sua história. _Você disse que eu deveria procurar por minha família; que eu deveria dar o direito de escolha aos meus filhos. Só que eu não podia aparecer do jeito que estava. Lá no hospital, uma assistente social falou sobre um centro de reabilitação. Eu fiquei 5 meses lá. Foi uma fase muito difícil. Ficar sem beber dói muito, amigo. Os sintomas da abstinência são terríveis, mas com a ajuda de Deus, eu sobrevivi. Após sair de lá eu resolvi procurar a minha família. _Foi uma ótima decisão. _Mas foi a decisão mais difícil da minha vida. Tinha muito medo de ser rejeitado. Eu ensaiei por várias vezes o que iria dizer para eles e também pensava nas possíveis reações deles. E isso estava mexendo com os meus nervos. Estive a um passo de voltar ao vício. _Amadeus, você está me deixando ansioso. _Calma. Você sabe que eu adoro conversar. Bom... eu fui até lá. Descobri que a minha esposa

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morava no mesmo lugar e que os nossos três filhos casaram-se. Tenho 4 netos, Eliseu! _Mas, como foi o reencontro? _A primeira pessoa que eu vi foi a Teresa. Ela me recebeu friamente, mas disse que não ia se envolver entre meus filhos e eu. me deu o endereço do Bruno, o meu filho mais velho. Eliseu, ele não sabia o que fazer. Ficou me olhando por um bom tempo. De repente ele aproximou-se de mim e me abraçou. Depois ele me contou que sempre pedia a Deus por mim. Que há muito tempo havia feito uma oração pedindo que eu retornasse. O Bruno disse que tinha certeza que um dia isso aconteceria. _Viu só? E você dizia que eles nem lembravam do pai. _É verdade. Bom... naquela noite eu dormi na casa dele e no dia seguinte ele me levou até a casa da Daniella. É uma mulher linda e muito inteligente. É professora universitária! O Paulo me recebeu da mesma maneira que a mãe. Demorou algum tempo para ele conversar comigo. Resumindo: hoje eu tenho um bom relacionamento com os meus filhos. Trabalho com o Bruno; ele tem três bancas de jornal. A Teresa já me recebe para um cafezinho, às vezes me convida para o almoço. Ela sofreu muito. Criou os três filhos sozinha e fez isso muito bem. Ainda há muita mágoa, mas ela mesma diz que Deus está tratando das feridas. _E os netos? _Ah, é a melhor parte. O que eu estava perdendo! A minha neta mais velha tem 10 anos, é a Priscila; depois tem o Davi com 8 anos; a Isabelle tem 5 anos; o caçulinha é o Gustavo, que tem só 1 aninho. _Que maravilha, Amadeus. Ah, que pena, o meu ponto está chegando. _E eu nem deixei você falar sobre a sua vida... _Amadeus, vou anotar o meu endereço e meu número de telefone. E você vai anotar os seus dados pra mim também. Os dois amigos despediram-se com um forte abraço. _Amadeus, você ainda gosta de pipoca? "Pipoca" deu uma gostosa gargalhada. Em uma tarde do mês de agosto... _Tia Beca, “qué” suco- disse Nandinho. _Vou pegar pra você, querido. Espere só um pouquinho. _Aí estão vocês! Quero um beijo enorme do menino mais lindo do mundo inteiro- disse Isa.

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_A tia Beca deu suco, “tá gotoso”... _Hum... também quero. Oi, Beca, resolveu largar o trabalho mais cedo? _Estava com a cabeça quente... tanta coisa pra fazer! Aí eu falei: Quer saber? Vou lá brincar com o Nandinho. _Ele nem deve ter gostado, né? E eu saí trinta minutos depois do horário. Aguentar reclamação de cliente, ninguém merece. _Não mesmo. _Você falou com a Manu ontem, né? _Isa, por que você não faz logo a pergunta que tanto quer, hein? _E o Eliseu? _Está ocupadíssimo. _Não poderia ser diferente. É o último ano. _Último entre aspas, depois ele precisa enfrentar mais dois de residência. _Quando será a formatura dele? De repente eu até vou com você. _Você acha que eu serei convidada? Enquanto as duas conversavam, Nandinho estava brincando com o último presente que o avô Fernando comprou: um carro de bombeiro. _Eu espero que sim. _Ah, Isa, eu também. Não posso mentir pra você. Gostaria muito de estar presente neste momento tão especial da vida dele. _Quer que eu ligue pra ele? _Isa, prometa que você não vai fazer isso. _Só se você me prometer uma coisa. _O quê? _Sábado eu tenho uma festa para ir. Será a despedida de solteira de uma amiga lá do trabalho. _Ah, não! _Beca, por favor, não quero ir sozinha e você precisa de um pouco de diversão. _E o Nandinho? _Não é festa para criança. Será em uma chácara. Primeiro teremos o chá de panela com todas aquelas brincadeiras e depois um churrasco. _Que chatice. _Será super legal. Os homens chegarão na hora do churrasco.

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_Homens? Isa! _Os amigos do noivo. _Ah, que alívio. _Você vai comigo, precisa se divertir. _Me divirto tanto com o Nandinho. _E na igreja com os fantoches, né? Beca, você precisa conhecer pessoas. O pessoal da igreja sai bastante mas você nunca participa. _Estou bem assim. _Não está. Lá na igreja você só se envolve com crianças. Está ficando no berçário durante os cultos. _Isso não é legal? Eu gosto. _Você está fugindo. Outro dia eu reparei que o Caio se aproximou e começou a conversar, segundos depois você escapuliu. Que coisa feia, Beca. _Como você viu isso? Está me vigiando, é? _Não. Eu estava conversando com a mãe da Amanda. Ela estava me dizendo da importância de ensinar a palavra de Deus para os nossos filhos... _E você estava de olho em mim, né? _Tenho dois olhinhos, mas voltando ao assunto da festa... _Não quero ir, Isa. _Beca, então vá só porque é a minha melhor amiga. _Assim não vale, Isa!

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Capítulo 37 -Tristeza Nandinho estava olhando a mãe arrumar o cabelo. Ficou muito bravo ao saber que não poderia acompanhá-la. _Amanhã, após a escola bíblica, nós vamos ao shopping. O que você acha? _”Quelo bincar” lá. _Você vai brincar muito e eu vou chamar a Beca para ir também- Isa verificou que já passavam das 14h- Ela está atrasada. _Oi, demorei? _Beca, eu já estava pensando que você ia furar comigo. Vamos chegar atrasadas! _Você já viu chá de panela começar no horário? _Beca, amanhã nós vamos ao shopping com o Nandinho. _Legal. Vem aqui, Nandinho, dá um beijo bem grande na tia Beca. _Tá bonita. _Obrigada. _Mamãe bonita. _Ah, bom, já estava ficando com ciúmes- disse Isa dando um beijo e um forte abraço em seu filhoQuerido, seja bem bonzinho com a vovó. Mamãe te ama muito. E não faça biquinho, amanhã vou ficar o dia inteiro com você. _Tá bom.

Eliseu aproveitou uma folga e ligou para o amigo Amadeus. Marcaram um almoço. Durante o almoço, Amadeus ficou sabendo de tudo o que aconteceu na vida de Eliseu. _De tudo o que você me contou, só duas coisas que eu gostaria muito que mudassem. _Será que preciso perguntar quais? _Acho que não. Ah, Eliseu, eu espero que um dia o seu pai chegue bem perto e diga: Me perdoe, meu filho. E depois lhe dê um forte abraço. E espero que você e a Rebeca se casem. _Amadeus, eu também gostaria, mas... _Eliseu, não duvide. Depois de tudo o que aconteceu comigo nestes últimos anos, eu não me atrevo a duvidar. Que você seja assim também. Creia. Eu estou frequentando uma igreja evangélica. 356

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Estou aprendendo muito. Um dia o pastor Hugo falou sobre os dois ladrões que estavam com Jesus na cruz. Aquela nossa conversa logo veio em minha mente. Aquele homem creu no último momento da vida dele. Creu que o homem que estava ali na mesma condenação, era inocente, e principalmente, ele viu um rei ali ao lado dele. Eliseu, a fé nos faz ver o que os olhos dos outros não alcançam. A fé nos leva por caminhos que muitas pessoas não trilham. _Amadeus, mesmo naquela época que nos conhecemos você já era um homem de fé, agora só está aprimorando. Você olhou para mim e viu um doutor, não foi? _É verdade, mas eu não conseguia enxergar um futuro feliz para mim. Você lembra que eu cheguei até a dizer que só me restavam os pesadelos? _É. Mas hoje você pode sonhar. Amadeus, eu não sei quando, mas eu gostaria de conhecer a sua família. _Com certeza.

Quando as duas amigas chegaram, o chá de panela estava começando. Isa apresentou Rebeca para todas as amigas do trabalho. Elas fizeram a noiva, Renata, “sofrer” muito. Precisou pagar muitos micos. Foi bem divertido. Às 18h o noivo chegou com os amigos. _Não faça isso, Isa. _Beca, só vou te apresentar para alguns gatinhos lá do serviço. _Não quero. _Por quê? _Eu não quero conhecer ninguém. _Você não quer conhecer ninguém e também não me deixa ligar para o Eliseu, o que pretende fazer? _Isa, para com isso. _Vou chamar o Kleber, ele é bem legal. _Isa... Rebeca protestou muito, mas foi em vão. Minutos depois, Isa apareceu com um rapaz alto, cabelos escuros e de pele bronzeada. _Este é o Kleber. _Oi, Rebeca, a Isa fala o tempo todo sobre você.

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_Oi, preciso descobrir o que ela anda dizendo. _Coisas ótimas. _Eu vou conversar uma coisinha com a Renata... _Isa... _Ela não é nada discreta, né? Queria nos deixar à sós e fez isso rapidinho. _É a Isa. _Rebeca, você é linda. Kleber deu uma piscada e Rebeca sentiu-se bem desconfortável. _Eu sou bem direto. Gostei de você. Vamos dar uma volta? Em uma chácara sempre há ótimos lugares. Ele piscou novamente e deu um sorriso. _Kleber, eu estou bem aqui. _Pode ficar muito melhor, vamos? _Eu preciso dizer uma coisinha para a noiva também. Rebeca saiu rapidamente. Encontrou Isa conversando com uma amiga. _Isa, posso falar com você? _Beca, o que você está fazendo aqui? E o Kleber? _Isa, você deixou a sua amiga com o Kleber? _Qual o problema, Renata? _Você ainda pergunta? Rebeca, dá um puxão de orelhas nela, porque ela merece- ao dizer isso ela afastou-se. _O que você está fazendo, Beca? Isso dói. _O que a sua amiga sugeriu. Você merece mesmo. Isa, como você pôde me deixar com aquele cara? _Ele é tão gracinha! _Ele é cheio de gracinhas mesmo. _Não gostou dele? _O cara queria me levar para um lugarzinho isolado. Ele nem quis conversar comigo. _Podia ter enrolado um pouco, batido um papinho básico... _Isa, nunca mais faça isso. _Tudo bem, não precisa se estressar. Vou ligar para o Nandinho. _Diz para ele que a tia Beca mandou um beijinho.

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_Alô, mãe. Está tudo bem? Ah, que peninha! Diz para o meu menininho lindo que a tia Beca mandou um beijinho e que a mãe dele já está com saudades. Dê um beijo enorme nele, mãe. Não vamos chegar tarde. Beijo. O Nandinho está tirando uma soneca- disse Isa para a amiga. _Sortudo. Ah, se eu pudesse! _Beca, aproveite para fazer novas amizades. A festa está super animada e você querendo dormir? _Vamos embora? _Está cedo. _Já são quase oito horas. _Só mais um pouquinho. Você não gostou mesmo do Kleber? _É claro que não. Ele é muito atrevido. _Beca, você acha que todos os caras precisam ser como o Eliseu? Não esqueço daquela vez que você queria beijá-lo e ele... _Você precisava lembrar disso? _Vou ligar para ele, assim vocês resolvem isso. _Ligar? Você nem tem o número. _Tenho sim; está aqui registradinho na agenda do meu celular. _Não mesmo. _Beca, outro dia eu peguei o seu celular e... _Isa, que coisa feia! Você mexeu nas minhas coisas? _Só peguei o número dele. _Não me diga que você ligou... _Ainda não, mas vou fazer isso agora. _Isa, para com isso. _ Está chamando... _Isa, desliga isso. _Está chamando... acho que o doutorzinho anda muito ocupado. Eu não ligo mais se você prometer que vai conversar com o Adriano. _Adriano? _Ele também trabalha comigo. Você lembra dele, ele esteve na festinha do Nandinho. O Adriano também é evangélico. _Eu lembro dele sim. _Outro dia ele perguntou sobre você. Converse com ele, você não vai morrer por isso.

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_Tudo bem, Isa, mas não ligue para o Eliseu. _Legal. Vou até desligar meu celular. Ao entrar em seu quarto, logo após o banho, Eliseu ouviu o celular tocar, mas não deu tempo para atender. Ao olhar o visor viu um número desconhecido. Mesmo assim retornou a ligação. Foi em vão. Rebeca manteve uma conversa agradável com Adriano por quase uma hora. _Já ficando tarde, vou chamar a Isa para irmos embora. _Vou você. Rebeca e Adriano procuraram por Isa, mas não a encontraram. Ao verem a anfitriã, resolveram perguntar para ela. _Renata, você viu a Isa? _Ela já foi. _Como assim? Ela não me disse nada. _Rebeca, ela me disse que você ia mais tarde com o Adriano. _Ah, Isa! Faz tempo? _Faz mais de trinta minutos, com certeza. _Valeu, Renata. _Rebeca, eu posso levá-la para casa. _Nós sabemos que é exatamente isso que ela pretendia, não é? _Acho que sim. _Podemos ir agora? Eliseu, ficou pensando naquela ligação perdida. “Seria Rebeca? Ela pode ter mudado o número. O DDD é de Porto Alegre. Vou tentar novamente.”

Rebeca e Adriano conversaram durante todo o percurso de quase uma hora e meia. _Não consegui falar com a Isa, acho que ela esqueceu de ligar o celular novamente. _Ela já deve estar em casa- disse Adriano ao estacionar em frente à casa de Rebeca. _Com certeza. Adriano, valeu.

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Tânia Gonzales

_Rebeca, eu gostaria de sair com você. Podemos marcar alguma coisa? _Adriano, você é um cara legal... _Mas... _Eu terminei um relacionamento há pouco tempo e ainda não estou preparada. _Você fica com o meu número, se um dia você estiver com vontade de sair, é só ligar. E quem sabe eu apareça lá na sua igreja. _Legal. Obrigada pela carona.

Marli olhou para o relógio; estava preocupada. Já passavam das 23h e a filha não havia chegado. _Fernando, a Isa ligou há mais de duas horas e disse que já estava saindo. Demora tanto tempo assim para chegar aqui? _Mais de uma hora. Marli, elas podem ter ficado mais um pouquinho. Já tentou ligar? _É claro que sim. _O telefone está tocando. Deve ser a Isa dizendo que resolveu ficar mais um pouco. Enquanto você fala com ela, eu vou até o quarto do Nandinho. Ele queria tanto esperar pela mãe, mas o sono foi mais forte. _Oi, Rebeca. A Isa? Ela não está aqui. Vocês não vieram juntas? Sei... eu também tentei falar com ela. Tudo bem, eu falo assim que ela chegar. Agora Marli estava mais preocupada ainda. O telefone tocou novamente. Ela atendeu pensando que fosse a filha. _Alô? Sim. Não estou entendendo. O quê? Hospital? Ah, meu Deus! Fernando, Fernando... Fernando correu ao ouvir os gritos da esposa. _O que foi, Marli? _Ah, Fernando, tem uma pessoa aqui dizendo que é do hospital e... _Calma, Marli, me dê o telefone... alô, quem está falando? Sei... entendi. Qual hospital? Conheço. E como ela está? Ah, entendo. Certo, obrigado. _O que aconteceu? _Fique calma, Marli, aconteceu um acidente com ela, mas só dão maiores informações

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pessoalmente. Você fica aqui com o Nandinho que eu vou até lá e assim que souber o que ocorreu, eu ligo. _Um acidente? Ah, meu Deus! Fernando, eu quero ir com você. _Marli, não dá para levar o menino. _Mas, eu preciso saber o que aconteceu com a minha Isa. _Você saberá. Vou trocar de roupa. Marli resolveu ligar para Rebeca. _Cristina, a Isa sofreu um acidente. Eles não disseram nada... ai, estou tão aflita! Ah, Cristina, espero que ela esteja bem, que seja só um susto. É, tem razão, precisamos confiar em Deus. O Fernando vai até o hospital e eu ficarei aqui com o Nandinho. Você quer o endereço? Certo. Vou passar para o Fernando, assim ele explica direito. Assim que desligou, Cristina foi até o quarto da filha. _Um acidente? Como ela está? _Não disseram nada pelo telefone. O Fernando está indo para lá. _Então vamos também, mãe. _Certo. Vou avisar seu pai.

Otávio, Cristina e Rebeca foram até o hospital. Viram Fernando aguardando na recepção. _Oi, Fernando. Já teve alguma notícia?- perguntou Otávio. _Nada. Não estou aguentando isso. Disseram que eu preciso esperar pelo médico. Já estavam impacientes quando uma enfermeira se aproximou deles. _Boa noite, sou a enfermeira Lívia. O doutor César vai conversar com o senhor agora. _Até que enfim- disse Fernando. Os meus amigos podem me acompanhar? _Sinto muito, mas eles precisam esperar aqui. _Certo. Assim que puder, volto aqui para informar como ela está. _Não demore, por favor- pediu Rebeca. Fernando acompanhou a enfermeira até o elevador. Subiram até o 5° andar. Após andarem por um longo corredor, ela abriu uma porta. _Boa noite, senhor, sou o doutor César. O senhor é o pai da Isabel?

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_Sim, doutor. Eu não aguento mais. Como ela está? Quero vê-la. _Senhor Fernando, sente-se por favor. _Certo, estou sentado. Como a minha filha está?

Rebeca não suportava mais ficar ali sentada esperando. Já fazia mais de uma hora que Fernando havia acompanhado a enfermeira Lívia. Cristina até recebeu uma ligação de Marli. Ela não conseguia falar com o marido e estava muito aflita por não ter notícias da filha. Após mais vinte minutos de espera, Fernando apareceu. Rebeca e Cristina haviam saído cinco minutos antes para irem ao banheiro. _Fernando? _Otávio... a minha filha se foi para sempre. _O que você está dizendo? _Otávio, a minha filha... a minha filha se foi. E agora? E o Nandinho? Como ele vai ficar sem a mãe? O menino nem tem três anos ainda... Isa estava em alta velocidade e trafegava pela contramão, bateu em um caminhão. O impacto foi muito forte e como Isa estava sem o cinto de segurança, foi arremessada, teve morte instantânea. Quando o resgate chegou ao local do acidente, os paramédicos perceberam que não havia mais nada a fazer. _Olha, mãe, o Fernando está conversando com o papai. Até que enfim. Quero tanto ver a Isa! Ao chegarem mais perto, elas perceberam que as notícias não eram boas. Fernando virou-se para Rebeca e ela viu que o pai de sua grande amiga estava sofrendo muito. _Ah, Rebeca... nunca mais veremos a nossa Isabel. Nunca mais. _Pai, do que ele está falando? _Rebeca, eu sinto muito, filha, mas a Isa sofreu um grave acidente e não resistiu... _Não, não pode ser. É um engano. Não... mãe, isso não pode ser verdade... ela é minha amiga. A Isa, é minha irmã do coração... não posso ficar sem ela. _Filha.. ah, querida! Sinto tanto. _Não, mãe, não, não... Cristina abraçou a filha. A cabeça dela girava... tudo girava... Rebeca desmaiou.

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Fernando foi para casa com a mais difícil missão de sua vida: anunciar para uma mãe a morte de sua filha. Marli havia ligado várias vezes, mas ele não atendeu. Tinha que conversar com a esposa pessoalmente. Ao entrar em sua casa, encontrou Marli esperando por ele. Ela notou que o marido havia chorado e no mesmo instante teve a certeza que algo terrível havia acontecido com a filha. _Fernando, a Isa... Fernando... não diga que ela... por favor, não diga... ah, meu Deus, não, nãoooo!gritou ela ao vê-lo abaixar a cabeça.

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Capítulo 38-Viagem para Porto Alegre Manuella recebeu uma ligação de Porto Alegre, conversou com os pais e ligou para o namorado. Isa foi sepultada às 16h; era domingo, o dia que ela havia planejado ir ao shopping com o filho e a amiga. Parentes e amigos estavam bem agasalhados para suportar o vento gelado que soprava no cemitério. Rebeca olhava para o caixão sem acreditar que aquela era a Isa cheia de vida, cheia de sonhos... que aquela pessoa que estava ali inerte era a sua grande amiga. Não dava para acreditar que não ouviria mais a voz dela, que não sairiam juntas, que não ririam juntas. Doía muito saber que Nandinho não teria a mãe para acompanhar o seu crescimento. Que ela não levaria o filho para o primeiro dia na escola, que ela não ouviria o pequeno Nandinho lendo pela primeira vez... Marli não esteve presente durante o enterro, só permaneceu no velório da filha por algumas horas. Neste período, a irmã dela ficou com Nandinho. O garoto foi informado sobre a morte da mãe, pelos avós que preferiram não levá-lo para vê-la daquele jeito. _Fernando, que Deus conforte o seu coração. Você e a Marli precisam ser fortes pelo Nandinho. Ele depende totalmente de vocês. _Você tem razão, Cristina. Contar para ele sobre a morte da mãe foi muito difícil. Nós falamos que a mamãe dele ficou muito machucada, então o papai do céu a levou para morar com ele porque não queria que ela sofresse. Ah, Cristina, meu neto disse que queria a mãe pertinho dele. Foi triste. Doeu, como doeu! À noite, Rebeca foi visitar o pequeno Nandinho. Cristina acompanhou a filha. _Marli, eu não tenho certeza se é uma boa ideia ter vindo aqui hoje, mas eu precisava ver o Nandinho. Se você preferir que eu volte outro dia... _Rebeca, vai ser bom para ele vê-la. Ele já perguntou por você. Venha, ele está brincando de carrinho com o avô. Cristina, eu já volto para conversarmos. Enquanto acompanhava Marli até o quarto de Nandinho, Rebeca pensava em como era estranho estar ali sabendo que não veria a amiga nunca mais. O sentimento era tão novo, era algo tão dolorido que dava até vontade de sair correndo de lá e chorar em em algum lugar distante... longe de todos. 365

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_Tia Beca, tia Beca... “qué” minha mamãe- disse o menino assim que Rebeca entrou no quarto. Ao ver aqueles olhinhos tristes, ela percebeu que seria muito mais difícil do que ela havia imaginado. Antes de sair de casa havia prometido a si mesma que não choraria na frente do menino, mas agora não sabia se isso seria possível. _Nandinho, querido... você está brincando com o vovô? Nossa, que carrinho lindo! _Rebeca, vou deixá-la com ele por alguns minutos- disse Fernando encaminhando-se para a porta. Ela quase pediu para que o pai de Isa ficasse. Tinha medo de não saber o que dizer para o garotinho que não tirava os olhos dela. _Nandinho, e aquele carrinho novo? _Tia Beca, sabia que a mamãe foi “emola” com o papai do céu?- perguntou ele com sua voz infantil. _Sabia, Nandinho. _E “agóia”? Rebeca não estava preparada para aquela pergunta. Era uma pergunta que ela também gostaria de fazer. E ela tinha mais uma: Por quê? _Nandinho, pegue o carrinho. Vamos brincar. O garoto levantou-se, foi até uma mesinha, mas não pegou nenhum carrinho. Voltou em seguida com uma fotografia nas mãos. Era do aniversário de 2 aninhos. Isa estava ao lado dele. Nandinho sentou-se no tapete novamente e abraçou a fotografia. Rebeca segurou as lágrimas e abraçou o pequeno garoto. Quando Fernando retornou, os dois ainda estavam abraçados. Rebeca voltou para casa depois que Nandinho adormeceu. Ao entrar no quarto, ela pegou alguns álbuns de fotografia e CDs Ficou relembrando os momentos vividos com a amiga. Ela só conseguiu dormiu horas depois. Quando Cristina entrou no quarto da filha, a luz ainda estava acesa, Rebeca havia adormecido com uma fotografia de Isa nas mãos. Desligou o aparelho de DVD que mostrava vídeos das amigas se divertindo na festa de Nandinho, cobriu a filha com o edredom e ficou ali por alguns minutos. Quando estava para sair, ouviu Rebeca dizendo: _Isa, não quero conversar com outro. Me desculpe... eu ainda penso nele. Eliseu... Eliseu...

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Manuella chegou na tarde de quarta-feira. Otávio foi buscá-la no aeroporto. _Manuella, eu nem sei como agradecê-la. Você deixou o seu trabalho e... _Tudo bem, Cristina. Não precisa agradecer. Eu tinha que estar aqui neste momento tão difícil para a Rebeca. Meu pai consegue ficar sem mim por alguns dias. Posso vê-la? _É claro. Você sabe o caminho. É melhor vocês ficarem sozinhas. Manuella entrou no quarto da amiga, após uma leve batida na porta. Rebeca, em frente ao computador, estava revendo alguns vídeos feitos por ela e Isa. _Rê... _Manu? Manuella aproximou-se da amiga e a abraçou. _Rê, sinto muito. _Ah, Manu! Por que tinha que acontecer justo com ela? Poderia ter sido eu. Não tenho um filho que depende de mim, eu... _Não fale assim. _É verdade. É tão injusto! Não consigo entender como Deus permitiu isso. Por que, Manu? Não tem sentido. A Isa tomou a decisão certa ao continuar com a gravidez... ela se arrependeu de ter pensado em aborto. Para quê? Para acabar assim? Ela não merecia isso. _Rê, eu acho que a morte de alguém querido é a coisa mais difícil de entender, mas nós ainda assim devemos confiar em Deus. Precisamos aceitar que... _Aceitar? Nunca. Eu não me conformo. _Rê, o seu celular está tocando, quer que eu atenda? _Deve ser alguém da igreja. O pessoal do grupo de fantoches já me ligou e... atenda pra mim, Manu. Não quero falar com ninguém. _Certo. Vou atender. Alô? Oi. Aqui é a Manu. Cheguei há pouco tempo. É muito difícil. Está sim. Foi passar para ela. _Quem é? _É o Eliseu. _Eliseu? Eu não quero falar com ele. _Rê... _Não quero. Pode dizer isso pra ele. _Atenda, Rê.

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_Não quero. Manuella, mesmo contrariada, fez o que a amiga pediu. _Ele pediu para dizer que sente muito e que está orando por você. _Cínico. _Rê, você sabe que o Eliseu... _Ele não sente nada. Aliás, o único sentimento que existe é o de lealdade ao amiguinho dele. O Eliseu só se preocupa com os sentimentos do Álvaro e com ele mesmo. Quer ser médico e é só isso que importa. Não quero e nem preciso falar com o ocupadíssimo doutor Eliseu. _Rê, você está sendo injusta, mas é melhor não falarmos mais sobre isso. Descanse. _Injusta? Ah, Manu... eu não disse para ninguém, mas o Eliseu é o culpado. É isso. Foi por culpa dele que a Isa morreu. _Rê, que absurdo! É melhor você se deitar... _É isso mesmo. Se o doutor Eliseu não fosse tão leal ao Álvaro, se nós ainda estivéssemos juntos, a minha amiga não teria morrido. Ela cismou que eu tinha que conversar com um amigo dela e foi embora sozinha. Se eu estivesse com ela... _Rê, eu sei que você está sofrendo muito, mas culpar o Eliseu pela morte da Isa... _A Isa estava preocupada comigo. Enquanto eu estava conversando com o Adriano, a minha amiga estava morrendo. O Eliseu é o culpado. Ele é um egoísta, é isso que ele é. _Rê, não é justo falar assim dele. Ele... _Ele o quê? Manuella, naquele momento, desejou contar tudo o que sabia, mas com muito esforço conseguiu se segurar. Precisava falar com o namorado primeiro. _Eu não podia imaginar que a minha vida mudaria tanto. Agora mais nada faz sentido. Ah, Manu, se você tivesse visto os olhinhos do Nandinho, entenderia. _Rê, deite-se um pouco. Rebeca deitou-se e Manuella ficou acariciando os cabelos da amiga, até ela adormecer. Assim que teve uma oportunidade, Manuella ligou para Murilo. Instantes antes de desligar, ela fez o pedido. _Você não está pensando nas consequências. Imagine como vai ficar o clima entre a Rebeca e o pai? É um péssimo momento. Ela já está arrasada por perder a amiga... _Murilo, você não ouviu o que ela disse sobre o Eliseu. A Rebeca precisa saber a verdade.

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_Não faça isso, por favor. Prometa. _Eu não posso prometer. Vou tentar, mas não posso prometer nada. Após desligar, Manuella foi conversar com Cristina. As duas falaram sobre o acidente, a situação de Nandinho e a tristeza de Rebeca. _Manuella, você acha que o Eliseu ainda gosta da Rebeca? _Tenho certeza. _Enquanto dormia ela chamou por ele. Pensei em ligar e pedir para ele vir aqui. O que você acha? _Cristina, eu não sei se ele conseguiria. Faltam poucos meses para o Eliseu terminar a faculdade. Os horários dele são uma loucura. _Eu imagino, mas se pelo menos ele pudesse vê-la. Se os dois tivessem a oportunidade de conversar... _Eu entendo, mas será que a Rebeca o receberia? _Ela disse alguma coisa? _Ela está muito magoada- disse Manu sem entrar em detalhes. _Eu acho que a presença dele aqui ajudaria muito, mesmo que fosse por poucos dias. Eles precisam se encontrar. Você tem o número dele? Não quero mexer no celular da Rebeca. Naquele dia, Cristina tentou por várias vezes falar com Eliseu, mas só conseguiu na manhã do dia seguinte. _Eu entendo, dona Cristina, mas eu não sei se é possível. E mesmo que fosse, talvez a Rebeca não queira me ver. Ela não quis falar comigo pelo telefone. _Pessoalmente vai ser mais complicado para ela dispensá-lo; Eliseu, eu não quero que você se sinta ofendido, mas eu me responsabilizo por todos os seus gastos. _Dona Cristina, não será necessário. O problema é conseguir uma folga. _Tente, por favor. Eliseu, ela chamou por você durante o sono. Minha filha precisa vê-lo, mesmo que ela diga o contrário. Ela está sofrendo muito. _Vou tentar, eu preciso verificar meus horários. Aviso se tiver qualquer novidade.

Na primeira oportunidade que teve, Eliseu procurou o amigo Murilo. _Eu sei que está tarde, mas eu precisava falar com você.

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_Que isso, ainda nem é meia-noite! Diz aí, meu amigo. Após ouvir sobre o pedido da mãe de Rebeca... _E você vai? E o pai dela? _Murilo, eu sinto que preciso ir até lá, mas ao mesmo tempo eu não sei se devo. _Imagine a cara do pai dela ao vê-lo. _Nem quero imaginar. E também não sei se consigo tempo para uma viagem rápida. Meus horários estão tão complicados. _É um dilema. Ir ou não ir? Ter ou não ter? _Ter ou não ter? _Tempo. _Ela chamou por mim. _Chamou por você? Você me disse que ela nem quis conversar pelo telefone. _Dormindo. A mãe dela me disse. Isso mexeu comigo. _Eu entendo, mas será que a sua presença lá não vai complicar mais as coisas? Você está pensando em abrir o jogo com ela? _Não. Ela perdeu a amiga. Já está tão difícil. Você acha que eu vou provocar uma briga entre pai e filha? Não vou entrar no assunto. Irei como um amigo.

Rebeca visitava Nandinho todos os dias. Passavam horas brincando e conversando sobre Isa. Manuella a acompanhou todas as vezes, mas após ficar alguns minutos na companhia deles, logo se afastava para deixá-los à vontade. Conversava com Marli, enquanto esperava pela amiga. Domingo, o irmão de Rebeca chegou. Otávio havia ligado para o filho um dia após o acidente, mas Rodrigo estava viajando por causa do trabalho. _Minha irmãzinha, eu queria ter palavras certas para consolá-la, mas... _Não existem palavras, Rodrigo. _Mas eu posso abraçá-la... ah, minha irmãzinha, se eu puder ajudá-la de alguma forma. Quer falar sobre a Isa? _Eu não estou conseguindo conversar muito. Só falo sobre a Isa com o Nandinho porque ele pede, mas é muito bom tê-lo aqui e eu fiquei feliz ao saber que foi o papai que o avisou sobre o acidente. _E ele me buscou no aeroporto. Dá pra acreditar? _Pelo menos está acontecendo alguma coisa boa; espero que continuem assim.

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Quinta-feira, poucos minutos depois das 10h, Cristina recebeu uma ligação de Eliseu. Ele estava no aeroporto de Porto Alegre. Ela só avisou para Manuella. _Ele não aceitou que alguém fosse buscá-lo? Eu mesmo poderia... _Não quis. Pediu o endereço e disse que não precisava se preocupar com ele. _Ele deve demorar uns 20 minutos se vier de táxi, não é? _É mais ou menos isso, Manuella. Ai, eu estou tão ansiosa! Como será que a Rebeca vai recebê-lo? _Estou com medo. Ela não tocou mais no nome dele. _Estou pedindo a Deus que tudo dê certo. Espero que eles conversem bastante e que reatem o namoro. Seria ótimo para ela. Mesmo com a distância e ele tão ocupado, eu acho que ela ficaria melhor. A Rebeca gosta muito dele, eu sei. Ele ajudaria a minha filha superar este momento tão difícil da vida dela. Manuella queria muito contar a verdade para Rebeca. Se ela soubesse de tudo, com certeza receberia Eliseu e conversaria com ele, mas era tudo tão complicado. Ela estava proibida de falar no assunto. Murilo havia sido bem claro quanto a isso. “Pelo menos o pai dela não está aqui. Ainda bem que ele está trabalhando. O Eliseu vai ter tempo para ver a Rebeca sem interferências. Isso se ela quiser vê-lo”- pensou. Quarenta minutos depois... _Ele chegou, Manuella. A Rebeca está no quarto? _Está. Depois que tomou o café ela entrou lá e não saiu mais. _Vamos lá falar com ele. _Boa dia, dona Cristina. Oi, Manuella, tudo bem? _Boa dia, Eliseu, agradeço por ter vindo. Sei que você se esforçou para estar aqui hoje- disse Cristina cumprimentando-o com um aperto de mão. _Oi, Eliseu, É bom te ver. Manuella e Eliseu cumprimentaram-se com dois beijos no rosto. _Fez boa viagem? Foi fácil chegar até aqui? _Fiz uma ótima viagem. E aqui eu só dei o endereço para o motorista. Foi bem tranquilo, dona Cristina.

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_Então... vou levá-lo até o quarto da Rebeca. _Não seria melhor se ela viesse até aqui? Eu não sei... _Não se preocupe. É que eu não quero falar que você está aqui. Quero que ela o veja. _O seu marido não vai... _O Otávio está trabalhando. Vou levá-lo até o quarto dela. A ansiedade de Eliseu aumentava a cada passo que dava em direção ao quarto de Rebeca. Nem notou os detalhes da confortável e luxuosa casa. Cristina abriu uma porta, era um corredor largo onde havia portas do lado esquerdo e direito. A mãe de Rebeca bateu na terceira porta à esquerda. _Espere aqui- disse ela antes de entrar- Filha, você está bem? Não saiu mais do quarto- antes de continuar, Cristina tirou o fone do ouvido da filha- O que quer comer? Vou buscar para você. Você comeu tão pouco na hora do café. _Não estou com fome. _Rebeca, você precisa comer. Vou preparar uma salada de frutas e mais tarde você vai almoçar. Cristina saiu do quarto, fez sinal para Eliseu entrar. _Dona Cristina, tem certeza? Eu não sei se é uma boa ideia. Pegá-la de surpresa... _É melhor assim. Ela está com o fone de ouvido, vai demorar um pouco para perceber que você entrou. Eliseu entrou no quarto e viu Rebeca deitada de costas para a porta. Demorou alguns segundos para ela perceber que havia alguém no quarto. Ela tirou o fone do ouvido direito e perguntou sem mudar de posição: _A salada já está pronta, mãe? _Eu não sei. O coração de Rebeca disparou. Ela reconheceu a voz imediatamente, mas continuou de costas para ele. _Quer que eu pergunte para sua mãe? Demorou alguns segundos para ela responder. _Que-quero que você saia daqui. _Rebeca, eu... _Saia. _Eu só queria que você soubesse que eu sinto muito. Sei o quanto você a amava e...

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_Você não sabe de nada. Ah... eu estou enganada, é claro que você sabe. Sobre medicina, sobre lealdade a um amigo, só não sabe nada sobre o amor. _Rebeca, se eu puder ajudar em alguma coisa... _Você pode. É só você sair daqui e não voltar nunca mais. _Você quer mesmo que eu vá embora? _É o que eu mais quero. Ele saiu sem dizer mais nada. Rebeca virou-se e ficou olhando para a porta. _Já? O que aconteceu? _ perguntou Cristina. _Ela não quer falar comigo. _É só esperarmos um pouco para que ela se acostume com a ideia. _Eu já vou. _Você não pode ir, acabou de chegar. Almoce conosco. _Não quero incomodar a Rebeca. Ela precisa de tranquilidade e a minha presença vai atrapalhar. Vou para um hotel. _Não. Você vai ficar aqui. Vou levá-lo até o seu quarto. _Dona Cristina, eu agradeço, mas não posso ficar aqui. _Manuella, me ajude. _Eliseu, ela tem razão. Você chegou agora, a Rê só precisa... _Manu, eu preciso ir. _Eu vou falar com ela. _Tem algum hotel aqui perto? Neste momento o irmão de Rebeca apareceu. Após apresentá-lo a Eliseu... _Você não conhece nada por aqui, é melhor que eu o leve- disse Cristina ao perceber que não conseguiria convencê-lo. _Eu agradeço. _Pode deixar comigo, Cristina. _Então tudo bem, Rodrigo. _Dona Cristina, eu vou embora domingo no primeiro voo para São Paulo. _Já? É pouco tempo. Eu tinha esperanças que vocês conversassem e... _Eu não posso forçá-la. Ela nem olhou pra mim. A Rebeca está muito fragilizada agora, eu não deveria ter vindo.

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_Não fale assim. Ela precisa de você. Vou conversar com ela. _De qualquer maneira eu tenho que ir embora mesmo que ela queira me ver. Tenho que estar na faculdade segunda à tarde e à noite eu tenho um plantão. Não posso faltar.

_Rê, posso entrar? _Você está sozinha? _Estou. _Tudo bem. _Você não quis falar com o Eliseu? _É claro que não. Não sei por que ele veio aqui. _Ele veio porque eu pedi- disse Cristina entrando no quarto da filha. _Não acredito! Por que não me disse nada? Eu não quero vê-lo. Não quero falar com ele. Não preciso dele. _Rebeca, o seu irmão foi levá-lo até um hotel. Ele não quer ficar hospedado aqui. _Deveria levá-lo para a rodoviária ou para o aeroporto. _Ele se esforçou para estar aqui... vai embora segunda. _Isso é problema do ocupadíssimo doutor Eliseu, não meu. Eu não o quero aqui, já disse.

Manuella queria muito contar a verdade para ela, mas não tinha certeza se deveria. E se as coisas se complicassem ainda mais? A revelação provocaria uma briga entre Rebeca e o pai. A mãe dela, com certeza, ficaria muito desapontada com o marido. E ainda havia o relacionamento entre pai e filho. Rodrigo pensaria que Otávio só reaproximou-se para convencer Eliseu de que terminar o namoro era a melhor solução. E quanto a isso, Manuella tinha algumas dúvidas porque o pai de Rebeca demonstrava sinceridade ao falar com o filho. Só se ele fosse um ótimo ator. Revelar ou não revelar? Eis o dilema.

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Durante o almoço, Rebeca ficou calada. Na primeira oportunidade que teve, foi refugiar-se no quarto. _Manuella, estou muito preocupada. Ela está se fechando. A Rebeca ainda não chorou. _Eu percebi isso. Ainda não a vi chorando. E ela sempre foi tão emotiva. _Isso não é bom. Ela precisa desabafar. Eu pensei que ao rever o Eliseu ela finalmente colocaria os sentimentos para fora, mas...

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Capítulo 39 -A verdade _Rê, preciso conversar com você. _Manu, agora não. _Ele vai embora domingo. Você precisa falar com ele. _Eu não quero. Pode dizer para o ocupadíssimo doutor Eliseu que ele perdeu o precioso tempo dele vindo até aqui. _Pense bem... _Manu, ele terminou o namoro e quando eu estive lá para o seu aniversário, o que ele fez? Nada. Ele nem apareceu. Depois eu fui para lá novamente e fiquei dez dias com você e ele? Nada. O que ele quer agora? Se o Eliseu pensa que eu estou precisando do ombro dele para chorar, ele está muito enganado. _Eu não tenho escolha... o Murilo não vai me perdoar, mas... _Do que você está falando? _Vamos sair. _Sair? Não estou com vontade. Hoje eu não vou nem na casa do Nandinho. _Tenho que contar algo muito importante e não pode ser aqui. _Manu, você acha que me engana? Está tramando alguma coisa. Não vou sair daqui. _Você precisa saber a verdade. _Verdade? _Manu, do que você está falando? _Hoje você vai saber por que o Eliseu terminou o namoro. _Eu já sei. _Não sabe. Rê, o seu pai está envolvido. _Meu pai? _Vem comigo. Minutos depois as duas amigas saíram. Cristina tinha certeza que Manuella levaria Rebeca até Eliseu. Principalmente porque ela perguntou o endereço de um parque que ficava próximo ao hotel onde ele estava hospedado. _Você dirige, Manu. _Certo. 376

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_Agora me conte tudo. _Só quando chegarmos. Tem um parque bem legal e não é longe daqui, se eu não estou enganada... _Tem sim. Pode deixar que eu sei o caminho. Manuella, antes de sair da casa de Rebeca, ligou para Eliseu e pediu para que ele aparecesse no parque às 17h. _Manu, estamos em um local bem tranquilo, agora será que você pode me dizer o que o me pai tem a ver com o término do meu namoro? _Rê, eu fiquei sabendo porque insisti muito com o Murilo. Ele não vai me perdoar, mas você precisa saber. Não é justo você pensar que o Eliseu terminou por causa do Álvaro, eu sei o quanto isso a machuca. _Manu, o que o meu pai fez? Rebeca ouviu o relato de Manuella sobre a conversa de seu pai com Eliseu e ficou indignada. _Como o meu pai pôde fazer isso? Ele humilhou o Eliseu e tocou na ferida. Primeiro ofereceu um cheque e depois como viu que ele não aceitaria, disse que a harmonia da nossa família dependia dele? Que absurdo! O Eliseu sofre tanto por causa do pai e o meu faz uma coisa dessas? _Rê, ele só contou para o Murilo porque precisava desabafar. O Eliseu nem imagina que eu sei desta história. Eu tinha que te contar, não dava mais. Você estava com tanta mágoa, isso não era justo. _Manu, agora eu entendo. E é engraçado como os sentimentos mudam de um momento para o outro. Estava com tanta raiva dele e nem queria olhar para ele, mas agora... _Agora o que você mais quer é estar com ele. _É. Eu fui tão dura com ele. Eu não podia imaginar que meu pai faria algo assim. Então ele se aproximou do Rodrigo... _Rê, eu acho que o seu pai está sendo sincero com o seu irmão, pelo menos agora. _Tomara que você esteja certa. Para quem você está ligando? _Para o seu amor. Ele deve estar perto. Disse para ele chegar às 17h; só preciso dar a nossa localização para ele. _Mas você disse que... _Eu só disse para ele vir até aqui. O Eliseu nem imagina que você já sabe de tudo. Espera um

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pouco... está chamando. Oi, Eliseu... _E agora? - perguntou Rebeca após Manuella desligar o celular. _Agora você vai esperá-lo. Ele está bem próximo. Eu vou deixá-los à vontade. Mais tarde eu volto para buscá-los. Vou ligar antes porque não quero atrapalhar nada. _Manu, obrigada. E depois eu peço para o Eliseu ter uma conversa com o seu amor. _Eu agradeço. Ele vai ficar uma fera. Enquanto se aproximava do local onde encontraria Rebeca, Eliseu pensava em como ela o receberia. Manuella havia dito que agora ela queria conversar com ele, mas como ocorreu uma mudança tão rápida? Rebeca estava ansiosa pelo reencontro. Ela queria olhar novamente para o rosto dele. Precisava pedir perdão pela maneira que o havia tratado. Queria muito estar com ele, senti-lo bem perto... Eliseu, ao avistar Rebeca, foi se aproximando devagar porque não sabia qual seria a reação dela. Quando estava bem próximo, parou, ficou olhando para ela e esperando por ela. Não sabia o que dizer, não sabia o que fazer. Rebeca percorreu a pequena distância que a separava de seu amor e, sem hesitar, aconchegou-se nos braços dele, porque era o que ela mais queria, era o que ela mais desejava. Eliseu não esperava por aquela reação, mas era o que ele mais queria. Os dois ficaram abraçados sem dizer nada. Rebeca acariciava os cabelos dele e Eliseu os dela. Permaneceram assim por um tempo, até que ela quebrou o silêncio. _Eu não sabia. Me perdoe. _Rebeca, eu... _Você foi humilhado... eu sinto muito por isso. Me perdoe, meu amor. _Rebeca, eu não sei... _Eu já sei de tudo. _Você sabe sobre o quê? _Você não terminou o namoro por causa do Álvaro. Meu pai foi o culpado. _Ah, não, o Murilo não podia... _Não o culpe. Ele acabou contando para Manu, mas pediu segredo. _E ela não guardou segredo. Rebeca, eu não quero que você brigue com o seu pai, ele fez isso porque a ama...

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_Você vai defendê-lo? Meu pai deve ter falado coisas absurdas, ele até ofereceu um cheque... _Ele é o seu pai. Rebeca, se você brigar com ele agora, todo o meu... _O seu sacrifício? _É, acho que podemos dizer assim. Rebeca, a sua mãe já está sabendo? _Ainda não. _Então não fale nada. E nem para o seu irmão. _Eliseu, meu pai fez chantagem. Como ele sabia tudo sobre você? _Isso não importa agora. Rebeca, você não pode brigar com ele... _Eu não quero mais falar com ele. _Por favor, não faça isso. Se você mudar com o seu pai, a sua mãe vai perceber e... _Como você pode me pedir para agir normalmente depois do que eu fiquei sabendo? _Você sabe que eu visitei o meu avô? _Sei. _Eu não contei para ninguém, mas eu nem vi o meu pai. Ele viajou no mesmo dia que eu cheguei. Rebeca, meu pai só voltou depois que eu fui embora. Nem para o Murilo eu contei isso. Só disse que ele não falou comigo. _Ah, Eliseu... _Eu fiquei com tanta vergonha de dizer isso. Meu próprio pai não quer nem olhar pra mim- os olhos de Eliseu encheram de lágrimas- Ele nunca viaja, só sai para pescar. Rebeca, ele ficou dez dias longe de casa, só para não reencontrar-se com o filho dele. Por favor, olhe bem para mim, não destrua o relacionamento de vocês. _Meu amor... eu gostaria de poder ajudá-lo. Se eu pudesse conversar com o seu pai- disse ela acariciando o rosto dele. _Você pode me ajudar conversando amigavelmente com o seu pai. _Eliseu, eu vou ter uma conversa séria com ele. _Tudo bem, mas que seja só entre vocês dois e que depois vocês continuem com um bom relacionamento. _Eliseu, será que você imagina o quanto eu sofri, pensando que você não se importava com os meus sentimentos? Que você terminou o namoro para evitar problemas com o Álvaro? Sabe o que eu cheguei a pensar? Que você não sentia nada por mim. _Rebeca, eu amo você. _Eu...

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Antes que ela falasse, Eliseu colocou a mão na boca dela. _Não fale. Um dia você disse que me amava e eu não pude dizer o mesmo. Como eu poderia? Eu tinha que terminar o namoro. Naquele dia a minha boca não pôde dizer, mas o meu coração sim. Rebeca, o meu coração falou o mesmo, logo depois, mas... _Faltou um alto-falante. _Eu amo você. _E eu... _Não fale- disse ele, colocando novamente a mão na boca dela. _Eu preciso- disse ela ao tirar a mão dele Eliseu, eu a... Rebeca não conseguiu falar porque Eliseu a impediu. Mas esta vez ele não usou a mão. Os lábios se uniram em um beijo apaixonado. _Eliseu... eu amo você. _Assim não vale, eu nem tive tempo... _Ah, meu amor, senti tanta saudade. Eu preciso de você... ah, como eu preciso, ainda mais agora que... ah, Eliseu, a minha amiga se foi para sempre. Ela queria tanto me ver bem. _Eu sinto muito. Você e a Isa eram como irmãs...eu gostaria de ter palavras para consolá-la. _Tê-lo aqui ajuda tanto, você nem imagina o quanto. Eu me sentia totalmente perdida. Pensei que Deus devia estar muito bravo comigo. Estava tudo desmoronando. Primeiro eu perdi você e depois aconteceu o acidente com a Isa. Parecia surreal. Como que a nossa vida muda de um momento para o outro? E agora você está aqui. Se a Isa também pudesse voltar... Finalmente as lágrimas chegaram. Eliseu aconchegou Rebeca em seus braços. Não disse nada. Só a amparou e deixou que ela chorasse o quanto fosse preciso para acalmar aquele coração que ele tanto amava.

_Você acha que eles estão conversando?- perguntou Cristina com ansiedade. _Com certeza. Fique tranquila, eles vão se entender. _Estou pedindo tanto a Deus que isso aconteça. _Cristina, a Rebeca está no quarto?- perguntou Otávio ao aparecer na sala de estar. _Não, ela não voltou ainda. _Mas a Manuella está aqui.

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_É que ela está com um... amigo, que veio de São Paulo- disse Manu. _Amigo? Quem? Cristina, eu conheço? _Você o viu uma vez lá na pizzaria da Lourdes. Otávio sabia muito bem quem era o amigo e ficou muito preocupado. _Ah... eu vou sair com o Rodrigo- disse ele antes de sair da sala. _Espero que o Otávio saiba receber o Eliseu. _Também espero, Cristina- disse Manu pensando em outro motivo.

Rebeca e Eliseu sentaram-se em um banco para continuarem a conversa. _Amor, você sabe muito bem o que é perder alguém querido. Ficou sem a sua mãe no dia do seu aniversário de 13 anos! _É muito difícil aceitar que alguém tão próximo partiu. Perder dói muito. A saudade é imensa. Outro dia o grupo de louvor cantou: “ Quero trazer à memória aquilo que me dá esperança” 20; eu estava tão desanimado. Só conseguia pensar em coisas tristes. Lembrei da doença da minha mãe, na morte dela, pensei nas duras palavras de ouvi da boca do meu pai e de todo o desprezo dele. Não tinha como compartilhar aquela tristeza com você. Como eu desejei tê-la ao meu lado. Ao ouvir isso, Rebeca acariciou os cabelos dele. _Enquanto eles cantavam, mudei de atitude. Eu comecei a enumerar cada coisa boa que havia acontecido comigo, depois que cheguei em São Paulo. Foi como se passasse um filme na minha cabeça. Pensei em cada pessoa que Deus colocou em meu caminho para me ajudar. Lembrei de cada nome e agradeci a Deus pela vida deles. É um ótimo exercício. Dá um novo ânimo. Saí bem leve daquele culto. Após alguns dias eu tive uma surpresa. _Surpresa? _O Amadeus me procurou. _O “Pipoca”? _É ele mesmo. Rebeca, foi maravilhoso revê-lo. Ele se encheu de coragem e procurou a família dele. Até está trabalhando com um dos filhos. _Que ótima notícia! _Ele me disse que pensou muito nas conversas que tivemos, resolveu arriscar e deu certo. Ele conheceu os netinhos. Está tão mudado. Vê-lo feliz reavivou a minha esperança. Mais uma coisa
20 Deus de amor- Diante do Trono

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boa para minha lista. E agora eu estou aqui com você. Com certeza o nosso reencontro vai para o topo da lista. _Que lindo! Adorei ouvir isso. _Rebeca, há coisas que nós nunca vamos conseguir entender. Enfrentei muitos obstáculos para que o sonho da minha mãe se transforme em realidade. E isso é apenas o começo. Sabe quando José reencontra os irmãos e diz “ intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem”21? _Sei. Você gosta tanto da história de José, né? _Gosto muito. Principalmente quando José reencontra o pai. Rebeca, eu penso assim, não sei se estou correto, mas Deus permite que certas coisas aconteçam em nossas vidas por causa de outras que precisam realmente acontecer. Você está conseguindo entender? _Mais ou menos. Continue, doutor Eliseu. _No meu caso, a mentira daquela mulher me separou da minha família, mas “Deus tornou o mal em bem”; se não tivesse ocorrido toda aquela mudança na minha vida, será que hoje eu estaria a poucos passos de me tornar um médico? Eu acho que não. _Você está dizendo que Deus planejou a calúnia daquela mulher para que... _Não estou dizendo que Deus planejou isso e sim que Ele usou isso para o meu bem. Entendeu? Deus transformou uma situação de derrota em vitória. Outro exemplo: como eu conheceria a garota linda e maravilhosa que está olhando para mim agora, se eu morasse em Mato Grosso? Rebeca sorriu. _Eu precisei passar por tantas coisas para chegar até você. _Eliseu, pensando assim, eu posso dizer que o acidente da Isa... não, eu não quero pensar isso. _Meu amor, o acidente da Isa foi algo terrível, mas... _Eliseu, não fale o que você está pensando. _Rebeca, a morte da Isa foi uma fatalidade. Deus não permitiu que acontecesse para que hoje nós estivéssemos aqui, não é isso. Ele me trouxe aqui para amenizar a sua dor. Eu sinto que a minha presença aqui traz conforto a você. E mesmo contra a minha vontade, você acabou sabendo de toda a verdade. Percebeu? É Deus agindo. _Com certeza. É que é tão difícil falar sobre essas coisas...você quer conhecer o Nandinho? Nós podemos caminhar até lá, vai demorar uns 15 minutos. _Eu quero muito conhecê-lo. _Então vamos. Depois nós podemos ir para casa andando também, nem precisamos ligar para a
21 Gênesis 50.20

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Manu. _Tudo bem. É melhor nós irmos mesmo porque eu já falei muito. _É tão bom poder conversar com você novamente. _Fiquei tanto tempo sem você que agora eu quero falar tudo. Preciso me controlar senão você vai enjoar de ouvir a minha voz. _Não mesmo. Você não imagina o tamanho da minha saudade. _Vou dar uma pequena amostra do tamanho da minha- disse ele antes de beijá-la. Após o beijo... _Espera um pouco- disse Eliseu tirando a carteira do bolso. _O que... _Estou com algo que não me pertence. _A minha pulseira! Que gracinha... você guardou na carteira desde... _Desde o dia que você me devolveu. Que coisa feia devolver um presente! _Coisa feia foi terminar o namoro, isso sim, mas agora eu entendo. Você acredita que eu me arrependi de tê-la devolvido? _Acredito. _Mas agora ela é minha novamente. E o mais importante: você é meu novamente. _É tão bom ouvir isso.

Quando Eliseu e Rebeca chegaram à casa de Nandinho, ele já havia perguntado várias vezes por ela. Marli ficou aliviada ao vê-la. _Nandinho, olha só quem chegou. _Tia Beca, tia Beca! _Oi, querido! Tenho uma surpresa para você. Uma pessoa muito especial veio até aqui para conhecer o garotinho mais lindo do mundo inteiro. _Ah... da foto- disse Nandinho ao ver Eliseu. _É ele mesmo. Eu mostrei algumas fotos suas- explicou Rebeca. _Oi, Nandinho, eu também já vi uma foto sua, mas você era pequeno! Como você cresceu tão rápido? _É? “Queci” mumumuito. _Cresceu mesmo. Está um garotão. Nossa, quantos brinquedos!

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_”Qué bincar” _Quero. Você tem um caminhão de bombeiro? Que legal! _Pode “bincar” com ele. _Obrigado. Você também tem uma ambulância... _Nandinho, você lembra o que eu disse sobre o tio Eliseu? Que ele estava estudando para quê? _Médico. Ah... você vai “bincar” com “bulância”. _Tudo bem. Então vamos trocar. Rebeca deixou os dois meninos brincando e foi ajudar Marli na cozinha. _Quando ele chegou? _Hoje mesmo. _O seu semblante mudou. Você está sorrindo. Vocês voltaram? Que pergunta! _Estamos juntos novamente, mas ele precisa retornar para São Paulo domingo. _Que viagem rápida! _Ele está na maior correria. É o último ano da faculdade. Minutos depois elas chamaram os dois “meninos” para lanchar. Marli havia explicado a ausência de Fernando para Rebeca. Desde a morte da filha ele estava com muita dificuldade para dormir, principalmente de madrugada. Deitou-se mais cedo para tentar descansar um pouco. _Já? Fica, tia Beca...”decha” o tio Liseu “bincar” mais. _Nandinho, você também precisa dormir. Amanhã nós podemos sair juntos. Quer ir ao shopping? O pequeno garoto sorriu e depois abraçou a tia Beca. _O tio “tamém” vai. _E nós vamos brincar muito lá- disse Eliseu. _”Sovete”! _Sorvete? Está frio! Mas pode ser chocolate. Você gosta de chocolate? _”Goto” _Então durma bastante. Amanhã vamos passear com a tia Beca. _Tá, tio “dotô”. _Tio “dotô”? Gostei. Nandinho abraçou Eliseu, depois fez sinal para ele esperar, voltou segundos depois com uma foto. _Mamãe não pode “passiá” mais.

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_A sua mamãe estará sempre com você aí dentro- disse Eliseu colocando na mão sobre o peito de Nandinho. Eu carrego a minha sempre dentro do meu coração. _”Tamém”? _Também, Nandinho. E sabe o que é legal? Ninguém pode tirá-la de mim. Ela fica sempre aqui. E a sua mamãe Isa também ficará bem pertinho de você, sempre. É um lugar secreto. Ninguém pode mexer. _”Dodói” aqui não- disse o garotinho colocando a mão no peito- Mamãe não fica “dodói” aqui. _Você está certo. Aí ela está muito bem. É o melhor lugar do mundo inteiro. _É. Marli e Rebeca ficaram em silêncio observando o diálogo entre dois “meninos” que guardaram as mamães dentro do coração. Alguns minutos depois... _Você poderia ter me ligado- disse Manuella- Eu teria buscado vocês, Rê. _Foi bom caminhar um pouco. Agora vamos levar o Eliseu até o hotel. _Tudo bem. Ele não quer entrar um pouco? _Não. Só vou avisar a minha mãe. Manuella e Rebeca levaram Eliseu até o hotel. No dia seguinte teriam uma conversa séria com Otávio. Iriam até a concessionária para não correr o risco de Cristina descobrir o que o marido havia feito.

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Capítulo 40- Permissão para namorar _Você vai levar o Eliseu até lá? Ele pode conversar com o seu pai durante um jantar aqui em casa. _Mãe, eu prefiro levá-lo até lá, mas eu vou convidá-lo para jantar conosco, tá? Fale para o meu irmãozinho não sair hoje à noite ; não vou acordá-lo. Ele chegou tarde ontem. _Tudo bem eu falo com ele. Ah, pode ficar tranquila que eu e a Manu vamos sair também. Pensa que é privilégio só de vocês? Vão levar o Nandinho ao shopping e nem nos convidaram. _Mãe, eu já expliquei pra Manu. _Eu sei, estou brincando.

Rebeca e Eliseu chegaram ao escritório de Otávio poucos minutos depois das 9h. _Pode deixar, Cléo, vou fazer uma surpresa para o meu pai- disse Rebeca para a secretária. Otávio estava ao telefone quando a filha entrou com o namorado. _Certo, certo, agora preciso desligar, depois nós resolvemos isso. Certo. Amanhã? Tudo bem, Rodolfo. Um bom dia para você também. Otávio olhou para a filha e deu um sorriso, depois mudou o semblante ao ver Eliseu. _Pai, precisamos conversar. _O que ele está fazendo aqui? _Ele é o meu namorado. _Ah... e eu sou o último a saber disso. _Pai, eu já sei de tudo. _Tudo? Então o rapaz aí andou falando mentiras... que coisa mais feia, rapaz. Está se aproveitando da situação. É um momento tão difícil para ela e você está usando... _Pai, por favor, já chega. Ele já foi muito humilhado por você. _É mesmo? E você acredita nele? Você deveria se envergonhar, rapaz. _Eu não contei nada. _Não? _Pai, fiquei sabendo de tudo ontem e por outra pessoa. 386

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_Então ele contou para alguém. Rebeca, ele mentiu. _Pai, vai ter coragem de dizer que não ofereceu um cheque para ele? Que não usou o problema familiar dele para fazer chantagem? _Você quer mesmo acabar com a minha família, rapaz. _O nome dele é Eliseu. _O que importa? Ele quer que você me odeie. _Isso nunca. Eu não quero causar problemas. Vim até aqui como um amigo porque sei o quanto a Rebeca está sofrendo. _Veio complicar ainda mais as coisas, rapaz. _Pai, o Eliseu me pediu para não contar nada para a minha mãe e nem para o Rodrigo. E também pediu para que eu não brigue com você. Disse que você fez tudo por me amar. Por querer o melhor para mim. Pai, eu preciso dele na minha vida e se você der uma oportunidade para o Eliseu, tenho certeza que vocês dois, futuramente, podem se dar muito bem. _Ele não tem nada. Ele estuda porque alguém financia... _Pai, o que você fez é errado, mesmo tendo a melhor das intenções. Concorda? _Bom... eu fiz isso por você. _Senhor Otávio, eu conheço muito bem as minhas limitações, mas eu amo a sua filha, espero que um dia o senhor acredite em mim. Não quero de maneira nenhuma prejudicar o relacionamento de vocês. _Pai, eu fiquei muito magoada, mas eu não quero ficar guardando isso dentro de mim. A vida é tão curta. Eu já perdi a minha amiga e agora eu só quero viver da melhor maneira possível. A minha mãe não vai saber disso, mas eu quero fazer uma pergunta e preciso que fale a verdade. É sobre o Rodrigo. _Pode perguntar. _Você está sendo sincero com ele? _Estou sim. No começo eu confesso que me aproximei porque precisava de mais um argumento para convencer uma certa pessoa. _Pai, o nome dele é Eliseu. _Eliseu, certo. Mas eu tenho que dizer que me reaproximar do meu filho foi a melhor coisa que eu fiz. Nós estamos nos entendendo. Eu percebi que perdi muito tempo querendo mudá-lo. _Ah, pai, eu fico tão feliz ao ouvir isso. _Você gosta mesmo dele?- perguntou Otávio apontando para Eliseu.

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_Muito. Com um pouquinho de força de vontade, você também vai gostar. _Pouquinho? Bom... Eliseu, eu já peguei bem pesado com você, eu sei, não será mais assim, só que não pense que eu vou dar moleza. Ficarei de olho em você. _Eu amo a sua filha. Pode ficar tranquilo que não vou decepcioná-lo. _Assim eu espero. E, Rebeca, fique sabendo que você terá uma vida bem difícil ao lado dele porque ele é bem orgulhoso. _Pai... _Eu sei o que estou dizendo. Ele recusou aquele cheque por puro orgulho. Vai ser difícil convencêlo a aceitar alguma coisa. _Aquele cheque foi pura chantagem. _Você está certa. _Que tal vocês dois apertarem as mãos. Futuramente será um abraço. _Não exagere- disse Otávio. Os dois deram um aperto de mão. Rebeca abraçou Otávio. _Eu sei que você tem um grande coração, pai. Agora nós vamos deixá-lo trabalhar. Ah... o Eliseu vai jantar lá em casa hoje. _E o que eu digo para sua mãe? _Diz que você deu permissão para o nosso namoro. _E vocês pediram? _Pai... _Rebeca, você pode sair um pouco? Quero conversar com o Eliseu. Não me olhe assim... pode ficar tranquila. _Certo. Amor, qualquer coisa dê um grito- brincou Rebeca.

_Eliseu, sente-se. Nós começamos mal, eu sei, mas eu me preocupo muito com a minha filha. Ao saber sobre você, eu não fiquei nada satisfeito. Pensei que você era um interesseiro. E você precisa concordar que não tinha como eu pensar diferente. _Eu sei quem falou sobre a minha vida para o senhor. _Ah, é? _O Álvaro. _Ele mesmo. Para mim você era um oportunista que estava se aproveitando da ingenuidade da

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minha filha, mas eu vi o quanto ela ficou triste com o rompimento de vocês. E também pude conhecê-lo um pouco. Você se preocupou com a minha família, então não podia ser um qualquer. Eu e meu filho começamos a nos entender e isso mexeu muito comigo e depois aconteceu a tragédia com a Isa. A Rebeca a amava muito. Não quero que ela sofra. Ela te escolheu, o que eu posso fazer? Preciso apoiá-la. Você a faz feliz e isso para mim é o mais importante. Não pensava assim, mas é bom mudar, faz bem. É isso.

Rebeca e Eliseu se divertiram muito com Nandinho. Foram ao shopping para almoçar, depois preferiram levá-lo até um parque público, mas antes voltaram para casa dele. Pegaram o triciclo e uma bola. O garotinho brincou tanto que acabou dormindo nos braços do tio “dotô”. À noite, Eliseu participou de seu primeiro jantar com a família de sua namorada. Ele e Rodrigo conversaram bastante. O irmão de Rebeca queria saber sobre a faculdade de medicina e Eliseu adorou ouvir as histórias das viagens e também viu algumas fotos. Otávio participou ativamente da conversa e surpreendeu Cristina ao receber muito bem o namorado da filha. Rebeca aproveitou o sábado para mostrar alguns pontos turísticos de Porto Alegre para o namorado. Foram ao Parque Farroupilha e após o almoço Eliseu ainda conheceu o Jardim Botânico. No finalzinho da tarde, Rebeca o levou à Usina do Gasômetro para ver o lindo e famoso pôr do sol às margens do Guaíba. No dia seguinte, ela despediu-se de Eliseu com lágrimas nos olhos. Uma semana depois foi a vez de Manuela despedir-se da amiga. _Você fez uma coisa muito feia que acabou se transformando em algo lindo- disse Murilo. _Como é que é? _Você sabe muito bem do que eu estou falando. _Sei. Você está chateado comigo? _Fiquei um pouco, mas já passou. Só que eu nunca mais conto um segredo para você. _Eu não me arrependo. Não dava mais para ver a minha amiga daquele jeito. Ela já estava sofrendo tanto por perder a Isa... _Eu entendo, mas que casal perfeito nós formamos: não sabemos guardar segredo.

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_Não fale assim. Foi por uma boa causa. _Você é uma sortuda. _Sou? _Tem um namorado que não gosta de perder tempo. _Perder tempo? _Com mágoas. Poderia muito bem dar um gelo em você, mas eu seria diretamente prejudicado, então vem aqui pertinho de mim, estava morrendo de saudades. Eliseu e Rebeca conversavam todos os dias pelo celular. Só se encontraram novamente um mês depois. Como Marli viajou com Nandinho para casa de uma tia, Rebeca voou para São Paulo. Eliseu aproveitou para apresentá-la a Amadeus e também pôde conhecer a família do amigo em um almoço na casa de Bruno, o filho mais velho. Um dia antes do retorno de Rebeca para Porto Alegre, eles saíram com Murilo e Manuella. _Outro dia eu achei um versículo perfeito para minha namorada- disse Murilo enquanto eles saboreavam uma pizza. _Versículo perfeito para mim? Cuidado com o que vai dizer, hein? _Deixa o Murilo falar, Manu- pediu Rebeca. _Prestem bastante atenção: “ Põe guarda, Senhor, à minha boca; vigia a porta dos meus lábios.”22 Eliseu e Rebeca sorriram, Manu ficou séria. _Não gostou? _Preciso responder? Você deveria usar o mesmo versículo. _Tem razão, tudo começou comigo. _Você está errado, Murilo, tudo começou comigo- disse Eliseu. _Mas você confiou em mim. _Tenho um versículo para isso: “ Maldito o homem que confia no homem...23- disse Rebeca. _Rebeca, você pegou pesado- disse Eliseu- Eu sei muito bem que a Manu obedeceu à voz do coração. Ela só queria o melhor para a amiga dela- completou apontando para ele mesmo. _Convencido- brincou Rebeca. _Eu ainda não terminei. Mas enquanto a Manu ouviu o coração, o Murilo deu com a língua nos dentes. Todos riram.
22 Salmo 141.3 23 Jeremias 17.5

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_Eu vou ignorar isso. Manuella, você já contou pra eles? _Ainda não. _Agora está guardando segredo? _Não, Murilo. Bom... vocês estão convidados para serem padrinhos do casal mais boca-aberta do planeta. _Vocês vão casar quando?- perguntou Rebeca. _Daqui a um ano. Eu estava tão aflita por vocês estarem separados...já estou avisando para não haver surpresa. _Apressadinha, hein? _Sabe qual o motivo disso, Rebeca? É que a Manuella não quer correr o risco de perder o MM. _MM? _Murilo Maravilhoso. Todos riram. Rebeca retornou para Porto Alegre. Alguns dias depois ela voltou com Marli e Nandinho. Passaram duas semanas em São Paulo. Apesar de toda a correria, Eliseu conseguiu separar um tempo para a namorada e para Nandinho. _Agora eu só volto alguns dias antes da sua formatura- disse Rebeca durante a despedida. _Você vai conhecer a Jessica. Ela pretende chegar uma semana antes. _Que bom. Amor, ela pode ficar comigo. _Com você? _É. Vai ser ótimo. Posso sair com ela. Levá-la para fazer compras, conhecer lugares. É a primeira vez dela aqui, não é? E você não vai ter tempo. _Tem razão. Vai ser ótimo. Você pensa em tudo. _Penso em você. _E eu estou pensando... nisso. Eliseu a beijou. Vinte dias antes da formatura... _Um carro? _É isso mesmo. _Reitor Sérgio, eu não posso aceitar.

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_É um presente do “bom samaritano”. _Não. _É um presente de formatura. _Reitor, esta pessoa já me ajudou tanto... eu não posso aceitar. _Eliseu, o “bom samaritano” já contava com a sua recusa, por isso ele pensou em um outro presente. _Outro presente? _Você já contou para a Rebeca sobre a residência? _Ainda não. Eliseu pretendia se inscrever para fazer residência em Porto Alegre. _Está esperando o quê? _Eu não quero deixá-la animada e depois... _Depois o quê? Você tem todas as condições para conseguir a vaga. Com certeza será bem concorrido, mas você passa. É um excelente aluno. E inscrições só abrem em setembro do próximo ano, até lá... _Vou continuar lá no hospital, o doutor Clóvis já me informou. _Que bom. _E eu já estou sabendo que os horários serão mais apertados... _E nós sabemos que a remuneração não é satisfatória, mas eu tenho algo para você. _Tem? _Você não quer o carro. Tudo bem, mas o “bom samaritano” pretende depositar o mesmo valor da mensalidade na sua conta. _Como assim? _Eliseu, durante um ano ele depositará direto na sua conta. Será o mesmo valor da mensalidade. Ele quer que você tenha condições de se manter até iniciar a residência. Você terá tempo para estudar. E como você já está trabalhando no hospital, será perfeito. Teoria e prática. _Reitor Sérgio, eu preciso saber quem é o “bom samaritano”; ele estará na formatura? _É claro. _Então eu tenho uma condição para aceitar o presente. _Lá vem... _Quero conhecê-lo. Eu só aceito com esta condição. _Certo. O “bom samaritano” será informado sobre isso. terá bastante tempo para estudar. As

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Capítulo 41 -Formatura e “bom samaritano” _Está tudo certo, maninho. Sábado estarei aí. O vovô não se conforma. Eu disse que depois conto todos os detalhes. Prometi que vou tirar muitas fotos. _É uma pena que ele não possa vir. Dê um abraço e um beijo nele por mim. Jessica, eu não poderei buscá-la na rodoviária, mas a Rebeca estará esperando por você. Ela quer que você fique hospedada no apartamento dela. Eu passo lá assim que sair do hospital. _Tudo bem, mas não quero incomodar... _Ela está muito ansiosa. É claro que você não vai incomodar. E o nosso pai? _Só fica falando que eu deveria ir de avião, que é um absurdo ter medo. Que a viagem é muito longa... _Mas ele não conseguiu convencê-la. _Não mesmo. Prefiro olhar as paisagens... _Sei. E ele falou alguma coisa sobre mim? _Falou que vai ser bom os irmãos passarem um tempo juntos. Disse que eu posso ficar o tempo que quiser, mas ele sabe que eu não posso ficar mais do que duas semanas. Eu já avisei que vou passar o Natal com você, mas volto para o ano novo. _Você está certa. Eles precisam de você.

Na sexta-feira, Eliseu saiu do hospital e foi direto encontrar-se com Rebeca na concessionária. _Que fofo! Ah, amor, você fica tão bem assim! _É mesmo? _É. Doutor, eu estou com uma dorzinha bem aqui- disse ela apontando para a boca. _Tem certeza? _Tenho. Será que você pode me examinar? _Não sei, já terminei por hoje. _Está doendo... _Vou dar uma olhada, mas você está me confundindo, eu não sou dentista. _É que não é uma dor que dói mesmo, sabe? _Que estranho. _É dor de saudade. 393

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_E será que eu consigo resolver isso? _Só você consegue. _Gracinha, você me olhou de um jeito que não dá para resistir. Ele a beijou apaixonadamente. _Hum... doutor, como você examina bem. _Passou a dor? _Está doendo só um pouquinho agora... ah, meu celular... vamos precisar interromper a consulta. Oi, Manu. Tudo bem. Está tudo certo. Eu passo na sua casa às... espera um pouco, amor, a Jessica chega às três, não é? _É isso mesmo. _Manu, eu passo na sua casa antes das duas. Beijo para você também. Tchau. A minha mãe não quer que eu ande sozinha, por isso chamei a Manu para ir comigo. Amor, pode ficar tranquilo que a sua irmã estará em ótima companhia. _E eu não sei disso? Vou tentar chegar antes das oito, assim podemos levá-la para a “Gaal”, a dona Lourdes está contando as horas. _Vamos comer lá? _Algum problema? _Não. Por mim tudo bem. Ai, ai... _O que foi? _A dor voltou.

Jessica, Manuella e Rebeca conversavam na maior animação quando Eliseu chegou. _É aqui o local da festa?- brincou ele. Jessica correu para os braços do irmão. _Maninha, é tão bom tê-la aqui, até parece que estou sonhando. _Eu também. Estava com tanta saudade! _E aquelas duas ali, cuidaram bem de você? _Muito bem. Estou me sentindo em casa.

Duas horas depois todos estavam na “Gaal” saboreando uma pizza. Dona Lourdes não sabia o que

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fazer para agradar Jessica. A irmã de Eliseu já estava até sem jeito por ser o centro das atenções. _Você viu o Álvaro?- perguntou Manu bem baixinho. _Não. Ele deve estar paquerando alguma garotinha. O tempo passa mas o Álvaro continua o mesmo- disse Rebeca. _Eu fiquei sabendo que ele está namorando sério agora. Ela é do litoral. _Será? _Vocês duas estão cochichando, que coisa feia!- provocou Murilo. _Estamos conversando e você está curioso, mas não adianta insistir, nós não vamos contar- disse Manu devolvendo a provocação do namorado. _Eu já sei. Você estava dizendo para sua amiga o quanto eu estou irresistível hoje. _Ah, com certeza. E a Rê estava me dizendo que para ela só há um irresistível. _Agora eu estou gostando- foi a vez de Eliseu entrar na brincadeira- Será que dá para você falar o nome dele? _Eu posso falar, mas só se for no seu ouvido- disse Rebeca. _Ai, ai, ai... pena que o meu namorado está tão longe- lamentou Jessica.

Domingo, Eliseu e Rebeca levaram Jessica para almoçar na casa de Moacir e Clarice. À noite ela conheceu a V.T. Durante o culto, os jovens cantaram:” Quando tudo diz que não, Sua voz me encoraja a prosseguir, quando tudo diz que não ou parece que o mar não vai se abrir...”24 Eliseu pediu uma oportunidade para dar um testemunho. _Eu conversei com o pastor Moisés e pedi para falar hoje, sei que tenho pouco tempo, então serei sucinto, ou pelo menos tentarei. Eu já vivi dias que tudo dizia que não e havia um mar de dificuldades à minha frente, mas Deus usou pessoas que me deram forças para continuar. Passei por muitas humilhações, por desprezo, mas Deus nunca me deixou só. Ele sempre tinha alguém. Quando eu pensava que estava sozinho, aparecia alguém. Foi sempre assim. Deus cuidou de mim. Ele usou muitas pessoas para me ajudar, e quase todas estão aqui hoje. Não vou citar nomes porque não quero ser injusto, mas cada um que aqui está, sabe muito bem o que representa na minha vida. Vocês acreditaram em mim e isso tem um valor que vocês não podem calcular. A minha formatura é daqui a três dias; após seis anos de muito estudo, eu serei um médico. Minha amada mãe sonhou
24 Deus do impossível- Ministério Toque no Altar

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que eu seria um pediatra. Ainda tenho alguns passos para percorrer, mas agora estou mais próximo disso. A minha irmã está aqui hoje e eu estou muito feliz por isso. Agradeço a todos que acreditaram em um rapaz desconhecido. Eu nunca cantei sozinho mas hoje eu preciso fazer isso. Tenho que louvar para agradecer àquele que cuida de mim. Eliseu cantou: “ Eu preciso aprender um pouco aqui, eu preciso aprender um pouco ali, eu preciso aprender mais de Deus, porque ele é quem cuida de mim, se uma porta se fecha aqui, outras portas se abrem ali, eu preciso aprender mais de Deus, porque ele é quem cuida de mim, Deus cuida de mim.”25 Aquele foi um momento inesquecível para Eliseu. Há muito tempo que ele desejava fazer um agradecimento. Ali estavam reunidas pessoas que acreditaram nele e que o ajudaram: Dona Lourdes, reitor Sérgio, pastor Antônio e o amigo Rubens da casa de recuperação, Moacir e Clarice, Murilo, Manuella, até Amadeus havia comparecido atendendo ao convite do amigo e é claro que Rebeca também estava ali toda orgulhosa. A presença de Jessica, justamente naquele dia, tornava tudo ainda mais especial. Era quase perfeito. Faltavam três pessoas. Pelo menos era isso o que Eliseu pensava, mas na realidade, só faltavam duas: o avô e o pai, porque o “bom samaritano” estava presente e exibia um largo sorriso.

Quarta-feira foi o dia da colação de grau e Eliseu pôde contar novamente com a presença daquelas pessoas que fizeram toda a diferença na vida dele. No dia seguinte eles teriam um jantar de formatura e Eliseu estava muito ansioso porque o reitor Sérgio havia prometido que ele enfim conheceria o “bom samaritano”. _Rebeca, amanhã eu vou conhecer a pessoa que transformou o meu sonho em realidade. Amanhã é o dia. _Será que você vai conseguir dormir? Você precisa descansar, está tão agitado. _Eu estou ansioso. Que semana maravilhosa! Eu acho que não vou conseguir dormir. É muita emoção para uma pessoa só. Tenho amigos maravilhosos, a minha irmã está aqui e vocês estão se dando tão bem. E... tem uma mulher linda olhando para mim... você é maravilhosa, amo você,
25 Deus cuida de mim- Kleber Lucas

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Rebeca. Ela também queria dizer que o amava, mas foi impedida por um beijo.

Durante o jantar, Eliseu ficou olhando para os lados tentando descobrir alguma coisa sobre o “bom samaritano”. Já passavam das 23h e nada. O reitor Sérgio se aproximou uma única vez da mesa deles para cumprimentá-los e depois disso Eliseu não o viu mais. _É, parece que foi alarme falso- lamentou ele ao entrarem no estacionamento do elegante Buffet. _Não vão faltar oportunidades para você conhecê-lo, amor. _O que será que aconteceu? _Depois você pergunta ao reitor Sérgio- disse Murilo. _Eu gostaria de perguntar agora, mas não quero incomodá-lo e nem sei se ele ainda está aqui. _O seu celular está tocando- avisou Jessica. _Alô? Reitor Sérgio? Ah... um almoço. É claro que eu posso. Certo. Se eu estou ansioso? Muito. Eu agradeço. Até amanhã. _Amor, agora você ficou aliviado, né? _O bom samaritano quer almoçar comigo amanhã. Ele preferiu assim. _Legal. Então vê se dorme hoje, tá?- pediu Rebeca. _Não sei não, mas eu acho que agora é que ele não vai conseguir nem fechar os olhos- disse Manu.

Após pensar muito, ele conseguiu adormecer. Sonhou com o “bom samaritano”. Eliseu estava esperando pelo reitor Sérgio, de repente ele apareceu ao lado de uma pessoa mascarada e disse: _Eliseu, aqui está a pessoa que acreditou em você. Em seguida ele tirou a máscara. Eliseu olhou para aquele rosto conhecido que ele não via há muito tempo. Era o seu pai.

_Eu espero que o meu maninho tenha conseguido dormir pelo menos um pouquinho- disse Jessica na manhã de sábado. _Eu também. Estava pensando em ligar para ele, mas ainda são nove horas, não quero acordá-lo.

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Acho que é melhor eu esperar por uma ligação dele. Eliseu ligou às onze horas, já estava saindo para encontrar-se com o reitor Sérgio. _Já? Ele marcou às 13h, não foi? _É isso mesmo, mas eu não quero correr o risco de chegar atrasado. _Calma, amor. Quer ouvir o nosso palpite? Eu e a Jessica temos quase certeza que você vai almoçar só com o reitor Sérgio. _Vocês acham que é ele? _Exatamente. _Eu tive um sonho tão estranho. Sonhei que o meu pai era o “bom samaritano”. Rebeca contou para Jessica sobre o sonho, assim que Eliseu desligou. _Rebeca, o meu maior sonho é vê-los novamente juntos. _O seu pai nunca fala nada sobre o Eliseu? _Nunca. Antes, eu e o meu avô não podíamos nem mencionar o nome dele e meu pai não deixava eu ligar para o meu irmão, mas depois as coisas mudaram. Só que ele nunca faz perguntas sobre o Eliseu e nem faz qualquer tipo de comentário. _Eu tenho pedido tanto a Deus por seu pai. O Eliseu deseja tanto falar com ele. _Preciso te contar uma coisa, mas não comente com o meu irmão. Quando esteve lá para visitar o meu avô, o Eliseu levou um álbum de fotografias para nós. Eu fiquei com algumas e dei outras para o meu avô. Depois que o Eliseu foi embora, eu deixei as minhas em cima da mesa, fiz isso de propósito. No dia seguinte eu percebi que faltava uma. Tenho certeza que o meu pai pegou. _E por que você não quer que o Eliseu saiba? _Porque ele pode pensar que o meu pai pegou e jogou fora. Não quero que ele fique mais triste ainda, mas eu acho que ele queria ter uma foto recente dele para guardar. Eu imagino que meu pai, quando está sozinho no quarto, pega aquela foto e fica olhando para matar a saudade do filho.

Eliseu chegou com uma hora de antecedência ao local marcado pelo reitor Sérgio. Pediu um suco e ficou esperando. Olhou para a entrada do restaurante por várias vezes. Verificou o horário mais uma vez e constatou que o reitor Sérgio já estava dez minutos atrasado. Será que o “bom

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samaritano” havia desistido? _Boa tarde, Eliseu. Será que podemos nos sentar com você? _Moacir... Clarice? Que coincidência! É claro que podem, eu estou aguardando uma pessoa. O reitor Sérgio marcou comigo aqui e... _É mesmo? Você está esperando pelo “bom samaritano”? _Estou sim. _Eliseu, você está esperando por uma pessoa, mas na realidade são duas. Um casal para ser mais exato. Eliseu ficou olhando para aquele casal que ele tanto admirava e após alguns segundos a ficha caiu. _Ah, meu Deus! São vocês? _É isso mesmo. _Moacir e Clarice. Não posso acreditar... nunca me passou pela cabeça que poderia ser vocês. _Ah, Eliseu, somos nós- disse Moacir sorrindo. _Moacir... Clarice, como eu posso agradecê-los? Eu ensaiei tanto. Pensei em tantas coisas e agora estou sem saber o que dizer. _Eliseu, a nossa maior alegria foi vê-lo em sua formatura. Ficamos tão orgulhosos- disse Clarice. _É verdade. Foi maravilhoso vê-lo ali vestido com aquela beca. Foi o nosso momento de vitória, Eliseu. Eliseu levantou-se e abraçou aquele casal amigo. _Vocês gastaram tanto comigo. _Nós investimos em você. Temos certeza que você será um grande médico. Foi a Clarice que teve a ideia sobre o anonimato. As condições... lembra? _É claro que sim, como eu poderia esquecer? _Nós sofremos muito quando perdemos o nosso Pedrinho para as drogas. Você sabe que ele só tinha 18 anos, foi uma tragédia. Quando ficamos sabendo sobre você e o conhecemos lá na casa de recuperação, nós percebemos que Deus estava nos dando uma oportunidade. Eu e a Clarice nos sentíamos culpados. Aquele sentimento de ter falhado com o nosso filho era algo que nos machucava muito. _Eu não me conformava por ter demorado tanto para notar que ele não estava bem. Quando percebi o que estava acontecendo com o meu filho, já era tarde demais- disse Clarice com os olhos marejados. _Eliseu, saber da sua história e ter todas as condições para ajudá-lo foi o que nos arrancou do luto.

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Nos deu uma nova razão para viver. Você nos deu isso. Como é que você ainda deseja ter palavras para agradecer? Não há necessidade. Nós é que precisamos agradecer. _Moacir, Clarice... é claro que eu preciso. Vocês acreditaram em mim. Vocês foram usados por Deus. Eu fiz medicina. Aquele rapaz que chegou aqui em São Paulo sem saber o que seria da vida dele, hoje é um médico. _Você ainda tem um sonho e nós estamos orando muito por isso: A reconciliação entre você e o seu pai. _Moacir, eu ainda acredito nisso e espero que não demore muito para acontecer. _Eliseu, agora que você sabe quem é o “bom samaritano”, você pode aceitar aquele presente. Você precisa de um carro. _Ah, Moacir, isso não. Vocês já fizeram tanto por mim. Se fizermos as contas do que vocês gastaram comigo... _Não pense nisso. Eliseu, nós temos alguns imóveis alugados, isso não é problema. Nós pagamos a mensalidade da faculdade só com o aluguel de um imóvel comercial que temos no Tatuapé- disse Moacir quase sussurrando. _Meus amigos, eu agradeço por tudo o que fizeram por mim, mas eu não posso abusar da bondade de vocês. Não me sentiria bem. _Você não quer o carro, tudo bem, mas não se esqueça que nós só estamos aqui porque fizemos um acordo. Vamos depositar o valor da mensalidade na sua conta durante um ano. Acordo é acordo. _Tudo bem, eu aceito. Você são incríveis. _Somos persistentes e teimosos também. Ah, e estamos com fome. Podemos almoçar agora?perguntou Moacir.

Eliseu só se separou dos amigos no final da tarde. Antes de se despedirem, eles combinaram que somente mais duas pessoas saberiam sobre a identidade do “bom samaritano”: Jessica e Rebeca. Elas ficaram surpresas ao saberem e prometeram guardar segredo.

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Capítulo 42 -Acabou? A última semana de Jessica em São Paulo foi bem agitada. Saiu com Rebeca, fez compras, conheceu vários lugares e viu as diferentes decorações natalinas. Faltando dois dias para o Natal, ela participou do culto na V.T; Jessica se emocionou com a apresentação de uma cantada sobre a vida de Jesus. Eliseu também esteve presente após os dias de muito trabalho no hospital. Passaram a véspera de Natal na casa de Moacir e Clarice. No dia 25 de dezembro, a festa foi no apartamento de Rebeca. Cristina, Otávio e Rodrigo chegaram um dia antes. Jessica voltou para casa no dia 27; Rebeca também viajou dois dias depois, para passar o final de ano com Nandinho.

Um novo ano começou. Eliseu estava cada dia mais fascinado com a rotina do hospital. Ter tempo livre era uma raridade, porque ele também entrou para um curso de residência médica que frequentava três vezes por semana e em casa dedicava-se aos estudos cada oportunidade que surgia. Não havia falado para Rebeca sobre a intenção de se inscrever para a residência em Porto Alegre. Só revelaria quando a data estivesse mais próxima. Passou janeiro, fevereiro e março. Rebeca vinha uma vez por mês para matarem a saudade. Ficava uma semana, mas os dois se falavam todos os dias pelo telefone. Eliseu, uma vez por semana, conversava com a irmã e com o avô. Em fevereiro, ele soube que o pai já estava há um mês sem colocar uma gota de álcool na boca. Isso o deixou muito feliz. Mas no início do mês de abril, ele recebeu uma inesperada ligação de Jessica. Era uma terça-feira, nove horas da manhã, ele havia acabado de chegar de um plantão. _Oi, maninha. Algum problema com o nosso avô?- perguntou preocupado. _Não, Eliseu, é com o nosso pai. Ele está muito mal. Eu o encontrei caído na cozinha. Agora estamos no hospital. Ele chamou por você. _Ah, meu Deus! Jessica, o que os médicos disseram? _Que foi infarto. O estado dele é grave. Eliseu... _Eu... tenho que vê-lo. Jessica, eu estarei aí com você o mais rápido que eu puder. Não sei o que vou fazer, mas eu tenho que estar aí. Eliseu ligou para Rebeca em seguida. Ela estava em São Paulo há três dias. 401

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_Rebeca, eu preciso ir imediatamente, será que consigo um voo assim tão rápido? _Calma. Vou fazer uma pesquisa pela internet. Preciso de alguns dados seus. Eliseu ligou para o hospital e explicou a situação, mas ele sabia muito bem que não poderia se ausentar por muitos dias. Conversou com dona Lourdes e depois colocou algumas roupas em uma mala. Ele já estava impaciente porque havia falado com Rebeca há mais de trinta minutos. Precisou esperar mais dez minutos. _Conseguiu um voo direto para Cuiabá? Amanhã às 10h35? Você pagou com o seu cartão? Ah... Rebeca, tudo bem, depois eu acerto isso. Eu vou chegar no aeroporto de Cuiabá às 13h e depois tem mais três horas de ônibus até Diamantino, sem contar os atrasos. Vai demorar muito... você vai comigo? Rebeca, tem certeza? Você já falou com os seus pais? Após desligar, ele cuidou dos últimos detalhes para a viagem. Tentou dormir um pouco, mas não conseguiu, apesar de todo o cansaço de uma noite de plantão. Ele só pensava em seu pai. Eliseu pedia a Deus que desse tempo para vê-lo com vida. Ligou para a irmã e avisou sobre o horário de chegada. Ricardo iria esperá-lo no aeroporto. Eliseu sentiu-se aliviado. Não precisariam depender de horários dos ônibus. De carro eles gastariam um pouco mais de duas horas. Precisava muito conversar com alguém, mas dona Lourdes já estava muito preocupada, Rebeca idem e Murilo estava trabalhando. Eliseu resolveu ir até a casa de Moacir. _Ah, Eliseu, confie em Deus. _Tenho medo de chegar tarde demais. Moacir, eu preciso falar com o meu pai. Preciso que ele acredite em mim. Se você soubesse o quanto eu desejo isso. Quero ouvir da boca dele que ele acredita em mim. _Eliseu, tenho certeza que ele acredita. _Não quero que meu pai morra pensando que o filho dele é um traidor. Que é alguém sem moral, que é um sem-vergonha. _Ele não pensa isso. Acalme o seu coração. _Eu precisava estar lá agora. Dependo do horário de uma companhia aérea enquanto o meu pai... _Calma. O seu avô também esteve mal e continua lá até hoje. Pense que é uma oportunidade para vocês se reencontrarem. A sua irmã não disse que ele chamou por você? _É. Você tem razão. Moacir, meu pai chamou por mim, você não imagina o que isso significa. _Estou vendo nos seus olhos, Eliseu.

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Durante o voo, os pensamentos de Eliseu voltaram para o triste dia que o pai o expulsou de casa. Lembrou de todas as palavras duras que ouviu dele e de todo o desprezo. Naquele momento, tudo o que Eliseu desejava era ouvir a voz de seu pai dizendo uma simples palavra: filho. Enquanto isso, Rebeca, que estava há algumas poltronas atrás dele, só pedia a Deus que namorado finalmente tivesse a chance de reconciliar-se com o pai. o

Em Cuiabá... Eliseu, ao entrar no carro de Ricardo, ligou para Jessica. _Ela não atende. _Eu falei com ela há uma hora mais ou menos. _Vou tentar novamente... por que ela não atende? Será que ele piorou? Eu falei com ela antes de embarcar e ele estava na mesma. _Ligue para o meu pai- sugeriu Ricardo. _É mesmo. Vou fazer isso. _Enquanto isso, eu tento o número da sua irmã- disse Rebeca pegando o celular na bolsa. _Ele também não atende. Rebeca não conseguiu falar com Jessica. _O meu avô... vou ligar para a casa dele. _Boa ideia. O Chico não está no hospital. Ele não aguenta ficar lá- disse Ricardo. _Nada. Não consigo falar com ninguém. _Calma, Eliseu. Vamos chegar ao hospital em menos de duas horas. _É muito tempo. Eliseu e Rebeca, durante o caminho até o hospital, ligaram para os todos os números, mas foi em vão. Não conseguiram contato. Ricardo mal estacionou o carro e Eliseu já estava do lado de fora. Entrou apressadamente. Foi até a recepção para obter alguma informação. Precisou aguardar alguns minutos. De repente a irmã apareceu. Ao ver aquele rosto triste, ele soube no mesmo instante o que ouviria da boca dela.

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_Ah, Eliseu, nosso pai morreu. Ele ficou olhando para a irmã sem acreditar no que estava ouvindo. _Não pode ser, ele chamou por mim. Ele queria falar comigo... _Infelizmente ele não teve tempo para isso- disse Jessica com os olhos cheios de lágrimas. _Deve ser algum engano... eu preciso vê-lo- disse ele virando-se para Rebeca. Ela não sabia como podia caber tanta tristeza em um único olhar. Poucos minutos depois, o filho estava diante de seu pai, mas o pai não podia mais estar diante de seu filho. Ele ficou olhando para aquele corpo inerte e desejou do fundo de seu coração que tudo não passasse de um pesadelo. Foram mais de sete anos sem poder conversar com o seu pai e agora Eliseu podia falar tudo o que sempre desejou, mas não teria uma resposta, ali não havia sequer um ouvinte. Só havia um filho olhando para o corpo sem vida de seu pai. Jessica, Ricardo e Rebeca conversavam na recepção do hospital. Eliseu aproximou-se. A irmã o abraçou e os dois choraram a morte do pai. De repente ele afastou-se um pouco, olhou para eles e perguntou tristemente: _Acabou? Então é isso? Acabou? _Amor... eu sinto tanto- Rebeca o abraçou. _Rebeca, eu não posso acreditar que acabou. Ele queria falar comigo e eu precisava muito ouvi-lo. E agora? Rebeca lembrou-se que há alguns meses ouviu de um garotinho esta mesma pergunta.

Foram até a casa de Agnaldo. O avô estava lá. _Liseu, meu neto querido... quanta tristeza. _Vô... Eliseu não conseguiu dizer mais nada. Ficou ali abraçado com o avô como se fosse um garotinho. O enterro de José Luís foi na tarde do dia seguinte. O culto fúnebre foi conduzido pelo mesmo pastor que anos atrás havia realizado o de Rute, a mãe de Eliseu. Ele contou que José Luís o procurou há um mês e que expressou o desejo de se batizar, mas que antes precisava resolver algo.

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Eliseu ficou muito surpreso ao ouvir aquilo. Após jantarem na casa de Agnaldo, Eliseu quis ir até a casa de seu pai. O avô tentou fazê-lo mudar de ideia. _Deixe para amanhã, Liseu. Você precisa descansar um pouco. Vamos para a minha casa. _Eu quero ir agora. Preciso ficar perto das coisas dele. _Isso vai entristecê-lo ainda mais. Vamos para a minha casa. _Leve a Rebeca para descansar, eu vou até lá. _Então vamos com você -disse o avô. _O senhor precisa descansar. _Ah... para com isso. Vamos.

Eliseu entrou na casa de sua infância. Foi até a cozinha. Eram tantas lembranças... a mãe preparando um delicioso pão caseiro... o pai sorrindo para ela. Depois da morte dela era raro vê-lo sorrir. Tudo mudou depois da morte de sua amada mãe. Ela era a única que conseguia controlar aquele homem de coração duro. Com ela por perto ele era um outro José Luís; mas um dia ela se foi e o melhor daquele homem também. Na sala, Jessica, Rebeca e o avô conversavam. _Por poucas horas o reencontro daqueles dois não aconteceu -sussurrou o avô- Faltou tão pouco. Como eu pedi a Deus por isso...eu não entendo, mas o que podemos fazer? _Ele estava tão desesperado para chegar aqui. Sonhava com a reconciliação. _É, Rebeca, eu nem sei o que dizer para o meu irmão. _Mas eu sei- disse Eliseu aparecendo de repente- Jessica, eu quero saber quais foram as palavras exatas dele. O que ele dizia ao me chamar? _Ele repetia o seu nome. _Como? Eu preciso saber se ele... se... _Ah, meu Deus... como eu fui esquecer de algo tão importante? _O que, Jessica? Você não lembra o que ele falava? _Não é isso. No final do ano passado, assim que eu cheguei aqui depois de passar aqueles dias com vocês, ele me entregou uma chave. Ele me fez guardar segredo sobre isso- disse ela olhando para o avô.

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_Uma chave? _É, Eliseu. Ele entregou a chave e me levou até o quarto dele. Abriu o guarda-roupa e me mostrou uma caixa de madeira que estava fechada com um cadeado. Ele disse que eu deveria entregá-la para você depois da morte dele. _Ele disse isso? _Eu fiquei preocupada. Perguntei se ele havia recebido algum diagnóstico, mas ele disse que eu não deveria pensar nisso. Disse estava tudo bem e me fez prometer que guardaria segredo. Ele nunca mais tocou no assunto. _Você está com a chave?- perguntou Eliseu com ansiedade. _Estou sim. Vou pegá-la. Está bem guardada em meu quarto. Eliseu seguiu a irmã. _Está dentro da última gaveta- disse ela ao aproximar-se de uma cômoda com quatro gavetas. Eliseu ficou olhando enquanto Jessica retirava uma pequena bolsa da gaveta. _Coloquei aqui dentro. Jessica abriu a bolsa, retirou uma chave de lá e entregou-a ao irmão. Os dois foram até o quarto do pai. Ela abriu o guarda-roupa e após retirar algumas roupas, ela achou a pequena caixa de madeira. _Aqui está. Eu vou para sala. _Não quer ver o que há dentro da caixa? _Eu acho que você deve fazer isso sozinho. Jessica trancou a porta ao sair.

Eliseu ficou olhando para aquela pequena caixa por alguns segundos. Estava ansioso para abrí-la, mas também com um certo receio. Após hesitar por mais alguns segundos, ele abriu o cadeado. Na pequena caixa de madeira havia: um envelope comum de carta e duas fotografias. Uma dele com a mãe; Eliseu deveria ter uns 10 anos de idade e a outra era recente. Ele estava vestido de fraque. Era o dia do casamento da filha do pastor Moisés. Rebeca, Manuella e Murilo estavam com ele. Eliseu abriu o envelope. Havia uma folha de caderno universitário dobrada em duas partes, um cartão de banco e um pequeno pedaço de papel. Ele abriu a folha e leu:

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Para: Doutor Eliseu Filho, sei que depois de tudo o que eu fiz, não tenho nenhum direito de chamá-lo assim, mas preciso. Espero que você consiga esquecer o desprezo. Você precisa saber que antes mesmo da sua partida, eu já sabia que você era inocente, mas o orgulho tomou conta de mim e depois foi a vez da vergonha, não de você, de mim. Por isso que me ausentei quando você esteve aqui. Me ausentei por não conseguir olhar em seu rosto, por me sentir indigno. Filho, sei que não tenho o direito de chamá-lo assim, mas o meu coração deseja. Meu filho, se fosse por mim você não seria um homem honrado e honesto, se fosse por mim você não seria um doutor... sinto tanta tristeza por tê-lo afastado das pessoas que você amava, mas também sinto orgulho de você, sei que não mereço sentir isso, por permitir que um outro orgulho, aquele que só prejudica, aquele que só destrói, tomasse conta da minha vida. O orgulho foi mais forte do que o amor. Isso não pode acontecer. Filho, nunca permita que o orgulho seja maior do que o amor. Sei que nunca fará isso porque “puxou” a sua mãe. Já pedi perdão a Deus. Agora peço perdão a você por carta porque sou um covarde. E você sabe que eu nunca falaria tudo isso pessoalmente. Você sabe porque me conhece muito bem. Outro dia eu conversei com um pastor e ele me disse que eu precisava aprender a perdoar a mim mesmo. Ele tem razão. Eu sei que o meu maior erro foi nunca ter aceitado a morte de sua mãe. Depois disso foram só erros em minha vida. Um atrás do outro. Não consegui prosseguir sem ela e por isso fiz vocês sofrerem. Filho, você nunca foi um traidor. Eu sei. Perdão, mais uma vez. Filho, eu espero que você aceite um humilde presente deste pai que não soube amá-lo como você merecia. Deixo um valor para você comprar um carro. É o seu presente de formatura, doutor Eliseu. Meu filho, amo você e no momento que escrevo esta carta eu estou com uma foto sua na mão esquerda e agora ela está bem próxima do meu coração. Estou te abraçando, filho. Estou te abraçando, meu filho. De seu pai.

Eliseu leu a carta mais quatro vezes e enxugou as lágrimas muitas vezes. Não queria molhar aquelas letras. Ali estava escrito tudo o que ele queria ouvir da boca de seu pai.

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Na sala os três estavam apreensivos. Eliseu estava trancado no quarto há mais de uma hora. Após mais alguns minutos, ele saiu de lá com a pequena caixa em suas mãos. Deu a carta para Rebeca. _Leia em voz alta, por favor. Enquanto ela fazia a leitura, Jessica, Eliseu e o avô se abraçaram. _Ah, Liseu, o Zé se arrependeu. É uma pena que ele não tenha falado com você. _Ele falou, vô, ele falou- disse Eliseu pegando a carta das mãos de Rebeca- Quando eu vi o meu pai sem vida, pensei que tudo estava acabado. Tive a certeza que nunca iria saber o que meu pai pensava de mim. Ah, meu vô, como isso doeu. Como eu poderia conviver com isso? Perguntei para Deus e eu recebi a resposta através desta carta. Eu agradeço tanto a Deus pela existência deste pedaço de papel. Ele até me abraçou. Ah, como eu desejei abraçá-lo! Quando eu estava no quarto dele lendo as palavras que ele escreveu, foi como se o meu pai estivesse me abraçando, foi como se ele estivesse falando diretamente para mim. _Deus tocou no coração duro do nosso pai para que ele escrevesse isso. Olha só a foto que você me deu. Eu percebi que havia sumido, mas não disse nada por não saber o que realmente tinha acontecido com ela. _Tem um cartão de banco, Liseu, e tem um papel também. _Eu nem olhei ainda. O que é? _É um extrato de banco. Veja o que está escrito, eu estou sem o óculos. _O cartão está com o meu nome e... isso é um extrato mesmo. Tem um saldo de R$26.285,00 e atrás tem alguns números que estão escritos a lápis. É a senha da conta. _É o seu presente de formatura, Maninho.

Dois dias depois, Jessica mencionou o desejo de vender a casa e o comércio do pai. Ela se mudaria para a casa do avô. _Você acha que é muito cedo para falarmos sobre isso? É que eu não quero deixar a casa abandonada, mas também não quero morar aqui. _Por mim tudo bem. É melhor mesmo que você more com o vovô. E quando você pretende se casar? _O Ricardo resolveu fazer faculdade primeiro e eu concordo com ele. Sou nova ainda. _Tem razão. E quanto à venda da casa, eu vou deixar uma procuração com você, podemos ir ao

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cartório ainda hoje. O que você fizer, para mim está ótimo. Quando os papéis estiverem prontos, você manda por Sedex. _Pode deixar que o meu sogrinho cuida de tudo para nós. Ele tem um amigo que é corretor... _O Agnaldo vai cuidar disso muito bem, tenho certeza. _Assim que estiver tudo certo, eu aviso e deposito o valor na sua conta. _Desconte o valor do presente de formatura, tá? _Não. De jeito nenhum. Foi um presente dele para você, Eliseu. Entre nós dois não tem rivalidade. Você foi privado de tanta coisa, enquanto eu estive aqui sã e salva. Não quero mais falar sobre isso. Eliseu e Rebeca ficaram em Diamantino até domingo. Ao chegar em São Paulo, Eliseu mostrou uma cópia daquela carta para todos aqueles que estavam orando pela reconciliação entre pai e filho, guardou a original, porque para ele era como se fosse o tesouro mais precioso do mundo inteiro.

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Epílogo Rebeca só ficou sabendo que Eliseu pretendia fazer residência em Porto Alegre quando ele se inscreveu. Enquanto esperavam por Manuella e Murilo ele contou a novidade. _A prova será em outubro. _Não acredito! Estava guardando segredo... _Eu achei melhor esperar pelo momento certo. Se eu conseguir a vaga, o problema da distância ficará resolvido. Você não vai precisar ficar dias longe do Nandinho. Sei que continuarei a não ter muito tempo livre, mas vai ser bom saber que você está por perto. O que achou da novidade? _O que eu achei? Ah, sei lá, eu não gostei muito... eu amei! É maravilhoso! Você é um fofo, sabia? Eliseu sorriu. _Amor, o Nandinho vai adorar. _Rebeca, é melhor esperar para contar a novidade. E se eu... _E se o quê? Não existe “se”; você já está aprovado. _Depois de tudo o que já aconteceu comigo eu não posso duvidar. _É isso aí. _Rebeca, ter um namorado que quase não tem tempo para você, não é nada fácil, mas tenha paciência comigo, tá? Eu amo você. _Vale a pena esperar por você, meu amor. Eu estive pensando uma coisa, mas não sei se devo dizer. _É claro que deve. _O que você acha de nós ficarmos noivos? _Eu acho uma ótima ideia. _Mesmo? _Você tem alguma dúvida? Rebeca, o que eu quero mesmo é que você seja minha esposa, mas é melhor nós esperarmos mais um pouco. _Um pouco? _Uns dois anos mais ou menos. Nós podemos ficar noivos na data que você desejar e enquanto eu faço a residência nós planejamos o nosso casamento. É claro que você vai cuidar de todos os detalhes. _Adorei ouvir isso. Dois anos é um bom tempo para planejar um casamento. _Também acho. Até que enfim- disse Eliseu ao ver Murilo e Manuella. 410

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_Desculpe a demora. É que tivemos um problema com o carro. _Conseguiram resolver o problema?- perguntou Rebeca. _Com certeza- respondeu Manuella. _E quem solucionou o problema?- foi a vez de Eliseu perguntar. _Quem você acha que foi? O grande Murilo, é lógico. _Amuri! - protestou Manuella. _Amuri?- Eliseu e Rebeca perguntaram juntos. _Não era um segredo nosso, Mamore?- foi a vez de Murilo. _Mamore? - Rebeca e Eliseu repetiram o apelido. _Esqueçam isso. Ninguém disse nada. Ou melhor: acabamos de chegar. Murilo, quem resolveu o problema do carro? _É claro que fui eu... que ajudei a minha linda, maravilhosa, perfeita e competente mecânica. _Aprendeu, hein, Amuri? - brincou Eliseu. _Será que agora nós podemos sair para jantar?- perguntou Rebeca.

No restaurante... _Manu, você disse que tinha uma novidade. Qual é?- perguntou Rebeca. _Temos sim. Amu... quero dizer, Murilo, mostre para eles. _Certo. Aqui está. Padrinhos, este é o convite para o mais espetacular casamento de todos os tempos. _Convite? Para quando? - perguntou Eliseu. _Novembro. _Novembro, Manu? Vocês dois, hein? Disseram que ainda ia demorar... _Ah, Rê, o Murilo não aguenta mais ficar longe de mim. _Eu? Quem foi que me procurou há alguns meses com os olhinhos cheios de lágrimas, hein? _Cheios de lágrimas? _É isso mesmo. Agora eu vou contar tudo para os nossos melhores amigos. Ela me procurou desesperada. Disse que tinha que sair da minha casa com uma data. _Murilo, menos- pediu Manuella. _Então, como eu sou muito bonzinho, eu concordei com ela. Afinal ela é uma gracinha e ainda por cima conserta o meu carro. Só vantagens.

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_Eu mereço. _Eu ainda não contei a melhor parte. _Murilo, chega. _Nós queremos saber, não é amor? _Com certeza- respondeu Eliseu. _Só vou contar porque vocês me pediram. Depois que eu concordei e nós marcamos a data, ela cantou para mim. _Murilo! _Não fique com vergonha. Ela cantou assim: “Não consigo ver defeitos, por mais que eu procure, não consigo26. _A música fala de amizade, tá? _E qual o problema? Eu sou o seu amigo e namorado. _Eliseu, você não acha que o amor é lindo?- perguntou Rebeca. _O amor é lindo, você é linda e nós temos os melhores amigos do mundo. É isso o que eu acho. Eu lembrei de um louvor que tem tudo a ver com vocês: “Amigo é muito mais, do que alguém pra conversar, alguém pra abraçar. Amigo é uma bênção, que vem do coração de Deus pra gente cuidar.27

Fim 28

26 Só o amor- Fernanda Brum. 27 Amigo- Fernanda Brum 28 Ou o início?

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