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A alta tecnologia criando seres cibernéticos que se portam

como assassinos terríveis.

© 1967/1968 – Lou Carrigan


Publicado No Brasil Pela Editora Monterrey
Ilustração De Capa: Benício
JVS – 400617/401003
PARTE I
PRELÚDIO

Silenciosamente, como uma sombra, o homem deslizava


por entre prateleiras de cristal, balcões, armações de aço,
repletos de brinquedos... A luz tênue vinda da rua mal dava
para iluminar. De quando em vez, prudentemente, fazia
correr em torno o tacho de luz da lanterna de bolso
examinando minuciosamente tudo quanto o rodeava.
Tudo levava a crer que estava só. Mas devia ser muito
desconfiado, pois não se descuidou um só segundo, e em
sua mão direita o brilho fosco, azulado, de uma imponente
automática de nove tiros.
A loja era enorme e luxuosa, de muitas seções.
No fundo, a meia altura, encontrava-se uma sobreloja
para a qual se subia cômoda e seguramente por uma escada
com corrimão de tubos de alumínio e cristal.
Ao lado, havia um bar para crianças. Um bar
alegremente decorado, portanto: mesinhas, balcão onde o
barman fartava-se de servir coca-cola, leite, suco de laranja
ou tomate, chocolate, refrescos e sanduíches de queijo ou
presunto.
Ali, tudo era para crianças. Ou também para adultos que
gostassem de brincar com trens elétricos, bonecas, aros de
rodar... Certamente era um lugar agradável, que agora, sem
as crianças, parecia triste e abandonado. Na manhã seguinte
tudo voltaria à normalidade, quando as crianças
maravilhadas olhassem o gigantesco cavalo de pelúcia, os
enormes revólveres que o cow-boy empunhava, o disco
voador.
O homem da automática não pensava nisto, nem parecia
estar interessado nos brinquedos. Furtivamente, continuou
até alcançar o fundo da loja. Abriu uma porta que
desembocava num corredor comprido, com multas portas
laterais.
Abriu-as uma a uma, cautelosamente, focando o facho
de luz para dentro e, quando identificou o escritório, seu
duro olhar animou-se por instantes. Entrou, dirigindo-se
para trás da mesa, olhando para ambos os lados à procura de
algo.
Examinou os papéis com tal cuidado que tudo
permaneceu em seus lugares sem o menor sinal de haver
sido remexido. Suas mãos eram grandes, de nervos
salientes, fortes, bronzeadas. A automática continuava
firme, como se fosse soldada à direita.
Examinou alguns cadernos que encontrou nas gavetas,
bem como faturas de compra e venda.
Relação dos funcionários, despesas gerais... Os papéis
passavam pelos dedos ágeis do estranho vestido de negro
dos pés à cabeça.
Precisou de dez minutos para convencer-se de que ali
não iria encontrar nada de interessante. Permaneceu
olhando, de cenho franzido, o monte de etiquetas de
expedição, sobre o bloco de pedidos. Pegou uma delas e leu
o nome de um menino para quem enviariam, no dia
seguinte, um formidável pônei de armação de ferro e
forrado de veludo. Havia multas etiquetas, todas com o
nome do destinatário no verso e os brinquedos que seriam
enviados no reverso. Era fácil: as etiquetas eram remetidas à
seção de Empacotamento e Expedição. Lá, os brinquedos já
encomendados eram empacotados e, com as etiquetas
coladas, eram expedidos aos destinatários. A etiqueta era
bonita, azul e vermelha, com estrelas brancas. Lembrava a
bandeira dos Estados Unidos.
Subitamente, um sorriso aflorou ao rosto do
desconhecido. Um sorriso surpreendente, pois seu rosto
contraído pareceu mais jovem, amável e irônico. Um
simples olhar era mais do que suficiente para se perceber
que era perigoso e difícil de levar. Mas quando sorria,
parecia um bom rapaz. E sempre se sorri quando se vai
passar um trote.
Apanhou uma das etiquetas que estavam em branco,
escreveu um nome no verso e, no reverso, anotou: “Um
urso grande”. A seguir, ainda sorrindo, colocou a etiqueta
entre as outras que aguardavam expedição no dia seguinte.
Terminada a operação, o sorriso desapareceu, a
expressão dura, e seca ressurgiu em seu rosto. Saiu do
escritório, examinou ainda várias dependências... e
finalmente chegou aos fundos, no armazém, onde
evidentemente eram fabricados os brinquedos que depois
iriam deslumbrar o público na loja.
Examinou o armazém durante quase meia hora,
demonstrando um domínio dos nervos e uma serenidade
fora do comum, e que chegou às raias do inacreditável
diante da presença do vigia, um homem troncudo, que
aparecera caminhando pesadamente.
O primeiro ato do vigia foi acender a luz do armazém.
Mas o desconhecido foi tão rápido que, antes que ele o
visse, já havia saltado para trás de uma grande pilha de
armações metálicas de cavalos de brinquedo. Deixou-se
estar ali acocorado, encolhido, como se tivesse o poder de
diminuir o corpo atlético... E lá ficou como um boneco...
Absolutamente imóvel.
O vigia deu uma volta pelo grande armazém, que ficava
situado no centro de um conjunto de casas, anexas à luxuosa
loja. Depois de terminar a ronda, já convencido de que não
havia nenhum perigo de incêndio ou qualquer outra
catástrofe, dirigiu-se para um certo lugar, deu algumas
pancadas no chão, com o pé, baixando-se após examinar o
lugar em que batera.
Com isto, deu-se por satisfeito. Endireitou o corpo,
caminhou para a, entrada do armazém, apagou a luz e saiu.
O nosso desconhecido ainda deixou-se estar imóvel por
mais dez minutos. Assim fazendo, acabou de provar que de
fato tinha nervos de aço. Nada parecia capaz de perturbá-lo.
Passados os dez minutos, esgueirou-se até o local do
armazém em que o vigia havia batido o pé, inclinando-se
para examinar o chão. Iluminou o chão com a lanterna,
depois fechou a cara.
Não conseguia perceber nada especial ali. Apesar das
aparências, seu senso de lógica, sua experiência, sua prática
de veterano, tudo o levava a crer que era muito pouco
provável que o vigia fosse um pobre lunático, e que aquele
local em que batera não tivesse uma importância particular.
Não levou mais do que três minutos para encontrar o
alçapão. E menos de meia hora para abri-lo. Examinou
seriamente por alguns instantes os degraus de madeira que
desciam para as trevas. Um porão... Será que iria encontrar
algo importante? Quem sabe a chave de tudo o que estava
procurando?
Sem o menor medo, mas sempre com cautela, pôs-se a
descer as escadas. O fino facho de luz da lanterna apontava
para todos os cantos, vivamente, em rápidos movimentos.
O que viu pareceu-lhe uma grande oficina, mas sem
brinquedos. Tudo o que havia eram manequins, muitos
ainda por armar, ou com a armação descoberta. Havia uma
grande profusão de braços, pernas, cabeças, troncos, pés...
Alguns dos manequins estavam completamente vestidos,
muito elegantes, simulando atitudes joviais.
O nosso desconhecido acercou-se de um por de
manequins e pôs-se a examiná-los. Bateu com os nós dos
dedos em suas cabeças, que soaram como se fossem ocas.
Era natural. Encolheu os ombros, franziu a testa e pôs-se a
olhar pensativo para a entrada do porão. Tudo indicava que
aquele era um simples e vulgar recinto Onde se fabricavam
manequins e brinquedos. E isto era tudo.
Mas ele sabia muito bem que...
Ouviu claramente o barulho às suas costas. Voltou-se
prontamente, sacando a automática e a lanterna. A luz bateu
em cheio no rasto da pessoa que avançava para ele, com a
mão direita estendida.
— Dê-me sua automática, por favor — pediram-lhe.
O desconhecido teve um sobressalto; seus maxilares
contraíram-se fortemente. Sem vacilar um segundo, apertou
o gatilho da automática com silenciador.
Plop, plop, plop...
As três balas acertaram em cheio na figura que se
acercava com um ar amistoso, de mão estendida. Mas nada
aconteceu. Ou seja, nada relacionado com as conseqüências
lógicas de três balaços recebidos em pleno peito.
Ao contrário, aconteceu outra coisa: a figura que se
aproximava do estranho, levantou o braço direito,
esticando-o, em riste, para ele. E de sua mão esguichou
subitamente um jato finíssimo de fumaça, violentamente
lançado.
O desconhecido saltou para trás, tentando esquivar-se.
Evitou que o jato finíssimo lhe batesse em pleno rosto, mas
não conseguiu fazer nada mais.
Caiu de joelhos, largou a automática e a lanterna, e suas
mãos se crisparam na garganta. Um segundo depois, caia de
bruços no chão.
Então, o manequim que o havia atacado aproximou-se,
segurou-o pela cintura e arrastou-o até uma das bancas de
trabalho do armazém.

PRIMEIRO
Um pintor apaixonado.
“Eu te amo”
Um convite perigoso...

Somente uma Brigitte Montfort já era de fazer cair de


costas o sujeito mais equilibrado e indiferente do mundo.
Quando se possui um jeitinho sensacional, uns fabulosos
olhos azuis mais luminosos que o céu da primavera, uma
boquinha carnuda e doce e uma certa cara de anjo risonho, o
mínimo que uma mulher pode exigir é que a pintem, que a
coloquem numa tela onde — Ai, que desgraça! — sua
beleza dure muito mais tempo do que na realidade.
Devido a isto, em breve existiriam duas Brigitte
Montfort, por obra e graça do magnífico pintor que era
Samuel Dodecabro, um tipo raro, barbudo, de óculos,
cabeludo e sem dinheiro. Esta situação deveria melhorar
consideravelmente quando a espiã internacional mais
esperta e bonita do mundo lhe pagasse os honorários. Além
disso, seria recomendado por ela ao seu circulo de amigos,
o que talvez tirasse o pobre Dodecabro do anonimato
artístico em que vivia. Ela o encontrara durante um de seus
passeios relaxantes por Greenwich Village, a pintar uma das
pequenas, velhas e pitorescas casas desse bairro latino e
boêmio de Nova Iorque. Agradou-lhe seu modo de
trabalhar, e pareceu-lhe que Dodecabro tinha um olhar
inteligente e nobre, o que a fez propor-lhe que a pintasse.
E Samuel Dodecabro, que no fundo era tanto homem
quanto artista, disse-lhe que a pintaria “até de graça,
passando frio e fome, e mesmo na noite em que estivesse
condenado a morrer na forca”...
Resultado: nem o haviam enforcado, nem passava frio
ou fome, nem nada de parecido. Todo o mal estava em ter
diante de si, dias após dias, com aquela resplandecente
formosura, a agente “Baby”, que estava destruindo o
equilíbrio emocional do pobre Samuel Dodecabro,
condenado a não ver unia só Brigitte Montfort, mas duas, já
que para terminar o retrato faltavam somente alguns
retoques. Duas Brigitte Montfort. Era o fim.
— Falta muito, Samuel?
— Não... não, não... Acho que o terá para o Ano Novo.
— Ótimo. Vou convidar alguns amigos para uma festa
que darei aqui mesmo, e o apresentarei a eles.
— Você é muito amável comigo, Brigitte.
— Não, não... É que você é um bom pintor, Samuel. E
quando as pessoas são geniais, e têm capacidade
profissional, é preciso ajudá-las. Isto não é gentileza, é bom
senso.
Dodecabro dirigiu-lhe uma olhadela meio turva.
— É mesmo? Receio que haja muita gente no mundo
destituída de bom senso.
— Não é preciso ser ressentido nem amargurado,
Samuel. A luta é sempre difícil.
— Para alguns, não.
— Bem... Há quem tenha mais sorte ou menos sorte.
Mas o importante é ser artista, ter classe, talento, gênio. O
resto virá por si mesmo, mais cedo ou mais tarde.
— E se não vier?
— Bem... então foi a má sorte. Mas pela vida afora é
necessário seguir sempre com um sorriso de ânimo, de
confiança em ai mesmo e nos outros... Não concorda
comigo?
— Até agora, não — disse quase sorrindo o barbudo e
cabeludo pintor. — Mas é possível que você tenha
conseguido me fazer dar o primeiro passo. É preciso estar
doido para não ver a vida cor-de-rosa quando se tem você
diante de nossos olhos.
— Agora quem é o amável? É você, Samuel — riu-se
Brigitte.
O pintor olhou-a meio ironicamente.
— Dizer que você é capaz de fazer ver a vida cor-de-
rosa a uma pessoa como eu não é amabilidade: é bom senso.
— Grande resposta! — disse Brigitte rindo-se
novamente.
“Cícero”, o pequeno cãozinho “Chihuahua” que lhe dera
de presente seu admirador mais apaixonado, Frank Minello,
soltou um latido agudo, estremecendo de contentamento ao
ouvir a dona rindo. Depois, como querendo confirmar sua
alegria, pôs-se a fazer cômicas piruetas, esforçando-se para
chamar a atenção da dona, espalhando-se no tapete.
— Até o cãozinho já perdeu o juízo — comentou
Dodecabro.
— Isso não admira, porque já tem muito pouco... Que
foi, minha coisinha linda? Querendo dar uma volta no
Central Park, não é? Nós vamos é, nós vamos já...
— Por favor, Brigitte, não se mexa tanto...
— Perdão... Quieto aí, “Cícero”... Não, agora não! —
expulsou-o do colo. — Samuel te pintará o nariz de verde se
não te comportares direito... Não é Samuel?
— Verdade — murmurou Dodecabro sorrindo.
Fracamente, chegou até ao quarto da espiã o som da
campainha da porta do apartamento. Ela não se mexeu do
lugar, naturalmente; para isto havia Peggy, a fiel e simpática
empregada.
Brigitte Montfort continuou impassível, demonstrando
seu grande controle e boa têmpera, além da beleza de
sempre... Estava sentada numa poltrona vermelha, com um
vestido de noite decotado, negro, sério e de grande
elegância. Como de hábito, não trazia nenhuma jóia. Os
cabelos negros soltos, os olhos azuis muito abertos, os
lábios brilhantes como gotas de orvalho nas pétalas de uma
flor, tudo era prova de que a espiã de nada mais precisava.
A todo instante, além de sua beleza, era evidente o bom
gosto da agente “Baby”. Permitia-se usar algumas jóias
magníficas quando assistia a uma peça, um baile, uma
recepção, um espetáculo na ópera... Mas na intimidade,
Brigitte Montfort prescindia destes detalhes...
Peggy apareceu na sala, trazendo um grande embrulho.
Deixou-o sobre o tapete, junto a “Cícero”, que virou a
cabecinha de lado cheio de curiosidade.
— Trouxeram este embrulho para lhe ser entregue, miss
Montfort.
— Não disseram... Mas a encomenda é de uma casa de
brinquedos.
— De brinquedos? Por acaso você pediu algum? —
disse sorrindo.
— Não — respondeu também sorrindo a empregada. —
Talvez seja um presente de um admirador.
Samuel Dodecabro olhou meio espantado para Peggy,
mas não disse nada. Olhou para o embrulho e, finalmente,
para “Baby”.
— Se assim o deseja, podemos descansar alguns
minutos, Brigitte.
— Está bem, Samuel, obrigada... Tomaremos um café...
Está bem?
— Ótimo.
Brigitte levantou-se suspirando. Aproximou-se do
embrulho, depois de pedir a Peggy que providenciasse o
café.
— O que será? — disse baixinho.
— Se o abrir, nós logo veremos — disse mal-humorado
Dodecabro.
A espiã franziu ligeiramente a testa. Não gostava de
embrulhos. Mas é claro que Samuel Dodecabro não podia
fazer a menor idéia de que um embrulho daqueles poderia
conter uma bomba ou algo parecido, enviada com más
intenções para a agente “Baby”.
— Bem... Teremos de abri-lo, certamente.
Desmanchou o grande laço brilhante, de tom vermelho.
Depois, contemplou por instantes a etiqueta vermelha e
azul, com estrelinhas brancas... lembrou-lhe a bandeira doa
Estados Unidos.
Não podia haver dúvidas, ali estavam o seu nome e seu
endereço: Miss Brigitte Montfort, Cristal Building,
Manhattan, New York, N.Y.
Desembrulhou o pacote e contemplou a caixa, colorida,
com brinquedos estampados nela: cavalos, tambores,
cometas, bonecas, balanços, patins... de tudo.
Abriu a caixa, finalmente, e deu um grito de alegria.
Tirou o grande urso marrom, de barriga branca. Tinha uns
deliciosos olhos verdes, o focinho colorido, e orelhas
redondas, forradas de seda vermelha.
— Olhe só! Não é lindo, Samuel?
— É para crianças.
— Bem... Sim... mas... Não é lindo?
— Não tem o menor sentido estético. Jamais vi um urso
assim.
— Mas, homem, não seja tão sério — riu Brigitte. — É
apenas um brinquedo de criança!
— Você tem crianças?
— Bem... não. Mas algum dia terei quatro, de acordo
com o que me afirmou uma bruxa feiticeira1.
— O quê?... Ora!
Brigitte abraçou rindo o ursinho, e “Cícero” latiu,
ciumento daquela carícia em outro animalzinho que não ele.

1
Ver novela intitulada: FEITIÇO
— Mas é lindo, lindo, lindo! — insistia Brigitte. — E
você não passa de um homem amargurado, Samuel. Nunca
teve um ursinho?
— Nunca.
— Bem, sinto muito... Ah, parece que há um papel
dentro da caixa.
Apanhou-o. O conteúdo era simples, e não restava
dúvida que era escrito para crianças. Fazia parte da
encomenda, junto com breves instruções quanto à melhor
maneira de lavá-lo, penteá-lo e conservá-lo sempre em bom
estado. Ao centro, enquadrado numa cercadura de bordas
vermelhas, estava escrito: “Sou o ursinho Nicanor. Se me
puseres para dormir em teus braços, te direi um
segredinho”.
Rindo, Brigitte colocou em seus braços o ursinho, como
se fosse um bebê. E ao deitá-lo, Nicanor disse cantando em
som metálico: “Eu te amo”.
— Mas não é uma delícia? — exclamou Brigitte. —
Tenho que descobrir imediatamente quem me presenteou
Nicanor! Teve uma idéia tão simpática!
— Não tenho mais dúvidas, Brigitte — disse sorrindo
Dodecabro — de que você virou criança.
— E por que não? Há algo de mais nisto, Samuel?
— Não tenho opinião a respeito.
— Bem... Peggy! Veja só que delícia de ursinho!
— Mas que lindo! — exclamou Peggy.
Deixou a bandeja com o café e aproximou-se de Brigitte,
desprevenida.
— Chama-se “Nicanor”... Tome, ponha-o no colo e logo
te dirá um segredinho, experimenta...
Peggy obedeceu, excitada. Colocou o ursinho nos
braços...
— “Eu te amo”.
— Oh, que encanto de criatura!
— Criatura! — resmungou Dodecabro. — Não passa de
um urso de pelúcia, veludo ou sei a lã o que for...! Vamos
tomar o café?
Brigitte sentou-se rindo no sofá, embalando o ursinho,
que repetia incansavelmente: “Eu te amo”, enquanto
“Cícero” parecia meio triste, olhando para a dona com ar
súplice. Peggy serviu o café, fazendo comentários sobre o
ursinho.
— O mensageiro não disse quem o enviou, Peggy?
— Não, miss Montfort. Não deixou nenhum cartão, nem
nada. Perguntou se era aqui, me fez assinar o recibo e isso
foi tudo.
— Bem, logo aparecerá o simpático personagem que me
deu um presente tão bonito. Pode levar a caixa e os papéis.
— Pois não, miss Montfort.
— O café está bom — resmungou Dodecabro.
— O quê? Ah, sim. Peggy é uma excelente empregada.
— É ela só para todo o serviço deste enorme e luxuoso
apartamento?
— Ela só. Basta para mim. Nos entendemos muito
bem... Tocaram a campainha novamente.
— Na certa deve ser a pessoa que lhe enviou o ursinho.
Esta conclusão era absolutamente lógica. Mas, logo
depois, quando Peggy introduziu a pessoa que havia tocado,
Brigitte percebeu que Dodecabro havia falado à toa. O
visitante não era dos que costumam presentear ursinhos que
dizem “Eu te amo”. Se alguém era incapaz de tão delicada e
simpática lembrança, era Charles Pitzer, aliás “Tio Charlie”,
chefe imediato da agente “Baby” no setor nova-iorquino da
CIA...
— Bom-dia — cumprimentou o sisudo personagem.
— Oh, tio Charlie... Bom-dia.
— Que aconteceu? Parece estar desapontada com
alguma coisa.
— Um pouquinho... a menos que... Mas, não. Não, não.
— Isto é algum enigma? — resmungou Pitzer.
— Suponho que não foi você que me presenteou com
este ursinho.
— Naturalmente que não.
— Naturalmente... — sorriu Brigitte. — Apresento-lhe
Samuel Dodecabro. Um grande artista. Samuel, este é um
querido e velho amigo a quem chamo carinhosamente de tio
Charlie.
— Olá — disse Dodecabro entre dentes.
— Tudo bem? — resmungou Pitzer.
Aproximou-se do quadro, voltando as costas para
Dodecabro, que aproveitou a deixa para fazer um gesto
muito significativo à espiã, a qual o interpretou
perfeitamente.
— É uma obra magnífica — elogiou Pitzer.
— Ainda não esta terminada — advertiu Brigitte.
— Não importa... Já se pode perceber como ficará. O
senhor Dodecabro é de fato um grande artista. Mmmm... É
a primeira vez que ouço o seu nome, sr. Dodecabro.
— Fui eu quem o descobriu — disse Brigitte sorrindo.
— E posso afirmar que, daqui por diante, vai ouvi-lo com
freqüência, tio Charlie.
— Se é você quem o patrocina, não tenho a menor
dúvida. Você é como... como um Rei Midas feminino: tudo
quanto toca se converte em ouro, ou em alguma coisa
bonita.
Brigitte encarou estupefata Charles Pitzer. E disse
baixinho:
— Papagaio! Como diria o Frankie... Será que é você
mesmo, tio Charlie?
— Posso tomar café? — resmungou Pitzer.
— A vontade... Bem, Samuel, creio que é melhor
encerrarmos por hoje.
Dodecabro olhou com desagrado para Pitzer. Terminou
seu café e ergueu-se.
— Volto amanhã? — perguntou.
— Bem... — Brigitte percebeu o sinal que lhe fizera
Pitzer. — Bem, será melhor aguardar que eu o chame,
Samuel. Necessita algum adiantado?
— Não, adeus.
Recolheu o chapéu ensebado, de abas largas, e saiu do
recinto, aborrecido, seguido por Peggy, que regressou
Imediatamente.
— Já foi, senhorita.
— Obrigado, Peggy. Vai tratar de tuas coisas. Está bem,
miss Montfort.
A empregada saiu e Brigitte, olhando Irônica-mente para
Pitzer, voltou a embalar o ursinho nos braços.
— “Eu te amo”.
Pitzer encarou-a severamente.
— Para aquilo que vou lhe dizer, não vai precisar de
bonecas, Brigitte.
— Eu sei. Mas já que você não veio aqui para me dizer
“Eu te amo”, gosto de ouvir “Nicanor” dizê-lo.
— Quem?
— “Nicanor” — ergueu o ursinho. — Não é um ursinho
lindo?
— Muito.
Pitzer acendeu um cigarro, sob o olhar atento da espiã.
Depois, olhou-a fixamente por uns instantes.
— Suponho que já tenha algum programa para o Ano
Novo — resmungou.
— Acertou. Não acha que a última noite do ano é uma
boa ocasião até mesmo para os espiões se divertirem? Ou
não?
— Sim... claro que sim.
— Mas, naturalmente, você veio aqui para estragar...
— Somente em parte. Na verdade venho convidá-la para
uma festa de fim de ano formidável, com fantasias e tudo o
mais.

SEGUNDO
Um convite para a CIA
Aposta original
Um homem chamado Romeu

Brigitte acendeu também um cigarro e pôs-se a


pestanejar com afetação, como uma menina, abrindo e
fechando rapidamente suas longuíssimas e espessas
pestanas.
— Oh, tio Charlie, sinto-me emocionada. Como o
senhor é bondoso!
— Deixe de brincadeiras — resmungou Pitzer.
— Sei muito bem que não sou bonzinho, e também não
me importo nem um pouco com isto. Além do que, posso
esperar até a aposentadoria para ser bondoso, não acha?
— Claro, claro... Os espiões, até que alcancem a
aposentadoria, precisam ser maus como demônios. É
obrigatório. Mas, diga-me: que espécie de festa é essa?
— Veja você mesma.
Pitzer sacou do bolso interno do paletó um grande
envelope. Dele tirou um convite, estendendo-o a Brigitte,
que antes de lê-lo admirou a moldura a ouro e o desenho em
relevo.
Ao centro lia-se:
ALBERT ROCKINGHAM
Tem a honra e o prazer de convidar V.Ex. para o
baile de máscaras de Ano Novo, que terá lugar em
seu palacete da Quinta Avenida, no domingo
próximo, às nove horas da noite. É obrigatório
fantasia e será oferecido um magnífico prêmio à
mais original.
Nova Iorque, Dezembro, 1967.

Brigitte examinou o convite de um lado e de outro, antes


de olhar meio desconcertada para Pitzer.
— Não entendo... — admitiu em voz baixa. — Devo
entender que este senhor, Albert Rockingham, convidou-me
para a festa? Eu não o conheço, tio Charlie.
— Eu sei, eu sei... me não convidou especialmente você,
mas a CIA...
— Está falando sério? — disse Brigitte sorrindo.
— Sim, senhora. Ai onde está “convidar V. Ex. para o
baile de máscaras” haviam colado, por cima, a nossa sigla:
CIA. Ou seja, segundo parece, o senhor Rockingham não
utilizou o tom impessoal do convite, especificando:
“convidar a CIA para o baile de máscaras”. O papelzinho
com a palavra CIA pôde ser facilmente arrancado, para que
o convite ficasse em condições de ser utilizado
posteriormente por qualquer pessoa.
— Já compreendi... Enviaram a você este convite?
— Não. Chegou ontem à agência central, em
Washington.
— E o remeteram para Nova Iorque?
Pitzer confirmou com um gesto de cabeça.
— Com uma ordem expressa de Mr. Cavanagh: a agente
“Baby” irá como convidada a essa festa, como representante
da CIA. Naturalmente não será necessário que você se
identifique como enviada da CIA. Basta que esteja presente
à festa.
— Com que objetivo?
— Ainda não o sabemos.
— Ora... é bastante desconcertante, não é mesmo?
— Um pouco.
— Há alguma teoria a respeito?
— Nenhuma. Nada. Simplesmente recebeu-se o convite
e tomou-se a decisão de enviá-la. Só terá que comparecer,
ver, ouvir e calar. É tudo.
— Tudo! Eu tinha a intenção de dar uma festa aqui em
meu apartamento, para apresentar meu retrato e Samuel
Dodecabro a alguns amigos...
— Já mandou os convites?
— Deixe de bobagens. Bastam uns telefonemas...
— Já os fez?
— Não, porque não sabia se Dodecabro fria terminar
meu retrato a tempo. Nem ele mesmo o sabia.
— Ótimo. Assim você dará sua festa depois, querida.
Agora, trate de conseguir uma boa fantasia de máscara para
ir à festa do sr. Rockingham. Mas, por favor, não utilize o
seu excesso de originalidade e imaginação: não seria
conveniente que você ganhasse o prêmio.
— Não devo chamar a atenção — sorriu Brigitte. — Ou
seja, além de estragar meus projetos, você vai me obrigar a
ir de romana, ou algo assim... Quem sabe não vou de
Popéia?
— Popéia?
— Sabina Popéia, ou Popea Augusta, que foi amante de
Nero depois de estar casada com Rufrio Crispino e com
Oton. Popéia foi a instigadora da morte de Agripina, mãe de
Nero, e conseguiu que Otávia, sua esposa, fosse... afastada.
Finalmente, no ano 62, casou-se com Nero, do qual teve
uma filha, que morreu com quatro ou cinco meses.
Insistiram em ter filhos, mas um dia Nero enjoou da
hipócrita Popéia e matou-a com um pontapé no ventre,
enquanto ela esperava novamente a cegonha... Será que
devo temer que haja por ali algum Nero, tio Charlie?
— De qualquer modo, você resistiria melhor que Popéia
ao pontapé. E além do mais, o seu estado não é tão...
delicado. Mas está me parecendo que a fantasia de Popéia
não é do seu gosto.
— Pelo amor de Deus, tio Charlie. Em todos os bailes de
máscaras há sempre dez ou doze Popéias!
— Sério? Bem... Olhe, que diabo, não será necessário
que você se considere mais uma entre tantas. Digamos que
você escolha uma fantasia ligeiramente original, apenas.
— Hummm!... Já sei!
— Qual é?
— Não vou dizer — respondeu ela, rindo.
— Brigitte: eu te conheço. Você vai ganhar esse prêmio.
E não...
— Vou fazer o possível para não ganhá-lo. E agora me
fale desse Albert Rockingham. Suponho que já tenha sido
investigado.
— Imediatamente, como é natural. E as investigações
ainda estão prosseguindo, uma vez que ainda nos restam
dois dias. O senhor Rockingham é um rico industrial de
Pittsburgh.
— Aço?
— E o que mais poderia ser?
— Claro. Possui alguma relação com espionagem,
nacional ou internacional, amiga ou inimiga?
— Absolutamente. Pelo menos, até o momento. Tem
casa em Pittsburgh, Nova Iorque e Miami.
— Fiu-fiu!... — assobiou admirada Brigitte.
— É um homem jovem. Trinta e seis anos.
Multimilionário. Jamais teve nenhuma espécie de
complicação: nem com a lei, nem com o fisco, nem mesmo
uma simples questão trabalhista em suas indústrias. É
considerado pessoa generosa, honrada, cordial, muito
sociável — tem montes de amigos em todo o mundo. Se
fosse um pouco menos sério, poderíamos considerá-lo um
playboy. Mas, apesar de divertir-se muito é consciente,
comedido na medida do possível. Nada de escândalos, nem
extravagâncias, nem amantes, nem inimigos...
— Mas, querido tio Charlie! Já não é mais um homem: é
o próprio príncipe encantado!
— É isto que dizem os relatórios.
— Não! — riu Brigitte. — Os relatórios dizem que
Albert Rockingham é um príncipe encantado?
— Eles dizem apenas que é pessoa de toda confiança em
qualquer terreno — resmungou Pitzer. — Não comece a me
atrapalhar, Brigitte! Mmmm... Não vai me dizer qual a
fantasia que escolheu?
— Surpresa... Imagino que não estarei sozinha na festa,
não é, tio Charlie? Seria cruel de sua parte deixar-me
indefesa como uma pombinha num lugar talvez perigoso.
— Ora vejam! Indefesa como uma pombinha! É uma
boa piada, Brigitte! Olhe, prefiro não falar nisto. Para dizer
a verdade, você me aborrece.
— Eu? — espantou-se Brigitte. — Eu lhe aborreço?
— Claro. Quando envio um outro agente para alguma
missão, fico com o coração aos pinotes... Que acontecerá?
Pergunto-me. Porque pode acontecer qualquer coisa,
querida. Mas, filhinha, quando é você quem vai agir, seja
qual for o caso, ponho antecipadamente nas folhas em
branco do informe a inscrição: missão cumprida. É até
aborrecido.
— Procurarei dar-lhe mais emoção desta vez. Estarei
sozinha? — insistiu Brigitte.
— Farei com que Johnny possa estar próximo a você.
Ah: vá armada... por via das dúvidas.
— Eu sempre vou armada... ainda que não use armas.
Com minhas mãozinhas posso fazer qualquer coisa, tio
Charlie. Como, por exemplo, quebrar esta mesa de um só
golpe.
— Outra boa piada — brincou Pitzer.
— Não é piada, não. Quer apostar?
— Uma ceia — disse imediatamente Pitzer. —Uma cela
para nós dois sozinhos, em... Bem, digamos com muita
intimidade... em todos os sentidos.
— Se ganhar — riu Brigitte. — Fique sabendo, tio
Charlie, que ultimamente tenho aperfeiçoado muito o meu
caratê. O que pagará se eu quebrar a mesinha?
— O que você quiser.
— Outra mesinha. Peggy lhe dirá onde foi comprada.
Vamos à aposta. Quer ter a bondade de tirar o serviço de
café?
Pitzer obedeceu. Ficou olhando para a mesinha, cuja
aparência, apesar de fina e elegante, não podia ser mais
sólida. Depois olhou para a pequena mão direita de Brigitte,
rígida, levantada, pronta para desfechar o golpe.
— Acho melhor desistirmos — resmungou. — Se você
quebrar a mão, não poderá ir ao baile a fantasia.
— Irei de maneta — sorriu Brigitte. — Por favor, não
atrapalhe minha concentração. Fique quieto.
Pitzer calou-se. E apenas teve que esperar três segundos.
Aquela doce mãozinha, tão delicada, tão bonita, de unhas
pintadas num tom de vermelho suavíssimo, desfechou
subitamente um golpe seco e... a mesinha partiu-se
estalando em dois pedaços que caíram no tapete.
— Onde ponho a bandeja de café? — disse Pitzer, de
péssimo humor.
— Em qualquer lugar, querido — respondeu Brigitte de
modo angelical. — Já sabe que vai ter que me dar uma
mesinha, nova. E espero também que, antes da festa, eu
tenha informações complementares sobre o sr. Rockingham.
— Claro. — Pitzer colocou a bandeja sobre o sofá e
também o envelope de onde havia tirado o convite. — Aqui
estão algumas fotografias de Albert Rockingham e também
as informações iniciais.
Brigitte pegou o envelope, olhou o rosto de Rockingham
e deixou cair o queixo, maravilhada. Albert Rockingham
era um autêntico atleta, de cabelos louros, queixo sólido,
olhos claros, sorridente, elegante, simpático...
— Uma última pergunta, tio Charlie: o sr. Rockingham é
casado?
— É solteiro.
— Não me diga... Não é possível!
***
Não era possível, mas estava acontecendo. Havia
passado o dia estendido numa mesa onde se montavam
aqueles manequins, coberto com uma lona. Ouvira vozes e
passos desde que acordara. Quis mover-se, gritar... Mas
nada podia fazer, porque estava solidamente amarrado à
mesa e sua boca estava tapada com uma larga e sólida tira
de esparadrapo.
De vez em quando, alguém levantava a lona para dar-lhe
uma espiada. Mas ele fechava os olhos rapidamente.
Embora se sentisse fraco e enjoado, desde que voltara a si
dos efeitos do gás, não havia cessado de procurar uma
maneira de sair de tão difícil situação. E não o conseguiu. A
lona foi afinal retirada e viu-se levantado da mesa de
madeira e posto em pé, amarrado tão solidamente como
antes. Depois, com um puxão, arrancaram-lhe o
esparadrapo e o atlético desconhecido todo vestido de
negro, de camisa de jérsei, de gola alta, teve de usar muita
força de vontade para não gritar de dor. As lágrimas
afloraram-lhe aos olhos, involuntariamente, mas seus lábios,
seu queixo forte, permaneceram firmes, com uni esgar seco
e duro, que refletia grande coragem e autocontrole.
Diante dele estavam três homens. E de cada lado, um
daqueles manequins despidos, Imóveis, naturalmente...
Naturalmente? Será que tinha sonhado? Havia sonhado que
um daqueles manequins aproximara-se dele pedindo-lhe o
revólver e, depois de levar três tiros, lançara-lhe um jato de
gás?
Não, fora de qualquer dúvida, não. O desconhecido
conhecia-se muito bem. Nunca até então havia sofrido
falhas mentais de nenhuma espécie; nem o menor lapso ou
transtorno psíquico.
Portanto, era verdade que um daqueles manequins o
havia atacado...
Os três homens olhavam-no fixamente, em atitude de
expectativa. Deviam estar um pouco desconcertados por
não o conhecerem. Para eles, era um autêntico
desconhecido. E um desconhecido vivo, inteligente, astuto,
que já havia localizado a objetiva da câmara de televisão
que, meio camuflada na parede fronteira, enviaria Imagens
de tudo que ali ocorresse a... a alguém.
De repente, o mais alto dos três, de cabelos ruivos e
sardento, com um gesto brusco, perguntou:
— Quem é você?
O desconhecido franziu o cenho e não respondeu. Um
dos tipos avançou, dirigindo-se ao ruivo:
— Quem sabe não é estrangeiro? — sugeriu.
— Estrangeiro? — resmungou o terceiro. — Tem todo o
jeito de ser americano.
— Não diga besteira — respondeu atabalhoadamente o
outro. — Desde quando se pode ter certeza de que tal ou
qual individuo tem aspecto de americano... ou russo, por
exemplo? Fale em francês. E eu lhe falarei em espanhol e
alemão.
— Está bem.
E assim fizeram, perguntando sempre quem era ele. Mas
tudo o que conseguiram foi acender um brilho Irônico em
seus olhos negros.
— Está-se divertindo às nossas custas: é americano. Seja
lá quem for, está nos entendendo perfeitamente, isto é certo.
— Ah, é? Pois vamos tirar-lhe a vontade de brincar. Dê-
lhe uma lição, Bolowsky.
E Bolowsky deu-me em cheio no estômago um
tremendo soco, que ressoou surdamente pela oficina
subterrânea, O estranho encolheu-se violentamente, mordeu
os lábios, empalideceu... Mas nem um só gemido brotou de
seus lábios. Surpreendentemente, ao segundo soco reagiu
menos, suportando-o melhor. No terceiro, seu rosto era uma
máscara de cobre, imóvel, sem tremer um músculo sequer.
— Parece que estás frouxo hoje, Bolowsky.
— Frouxo? — resmungou ele. — Bati-lhe com toda a
força! Este sujeito é duro como pedra, Heston.
Heston, o ruivo, assentiu com a cabeça e, aproximando-
se do intruso, olhou perversamente.
— Sim... Parece muito duro. É alto, muito forte, sem
dúvida está bem treinado... É um profissional, Bolowsky.
Com certeza, neste momento, o estômago dói-lhe
atrozmente, mas continuará com cara de pau enquanto tiver
forças. E quando não agüentar mais, desmaiará, e isto será
tudo. Assim não poderemos mais interrogá-lo e ele ganhará
tempo... Não é assim, amigo?
O estranho não se alterou. Parecia surdo e mudo.
Somente seus olhos muito negros fuzilavam de ódio seus
três inimigos.
— Para quem trabalha? — perguntou brandamente
Mackenzie. — Para a CIA talvez? Ou para o FBI?
— Não creio que seja isso, Mackenzie — retrucou
Heston. — Ainda não fizemos nada nos Estados Unidos, de
modo que, se este sujeito sabe de alguma coisa, deve ter
vindo da Europa.
— Faça-lhe alguma pergunta, homem — debochou
secamente Bolowsky. — Quem sabe ele responde?
Heston amarrou a cara e, súbito, sua direita atingiu
fortemente a face do estranho e, de volta, com o dorso da
mão na outra. A cabeça do homem de negro tombou de um
lado para outro, sob o impacto dos tapas fortíssimos.
E esta foi a sua única reação.
— Vou mat...! — vociferou Heston.
— Calma — atalhou Mackenzie. — Este cara parece
uma pedra, mas não te esqueças que um homem pode
morrer das pancadas, e isto não nos interessa. Acho que o
melhor será levá-lo ilha. Lá poderemos “tratá-lo”
adequadamente.
— Tem razão. Lá, por mais duro que sei a, nos dirá tudo
o que quisermos. Vá consultar o chefe.
Mackenzie saiu do porão, enquanto Heston e Bolowsky
ficaram vigiando atentamente o intruso.
— Nós te pegamos bem, não acha? — disse-lhe de
chofre Heston. — Sabíamos que havia entrado, vimos seu
revólver e, em lugar de complicarmos as coisas com um
tiroteio, deixamos você bisbilhotar tudo. Sabíamos que
chegaria até o armazém de cima. Então, mandamos o vigia,
que examinou a entrada do porão, para que você entrasse
como um pobre cordeirinho ingênuo na armadilha. Para que
nos arriscarmos a receber um par de balaços se eles —
apontou os manequins — podiam detê-lo sem nenhum
risco?
O estranho sorriu secamente.
— Admito que foi bem bolado — disse.
— Bom! — exclamou Heston. — Agora sabemos que
você não é mudo e, além disso, parece que é americano...
Certo?
O estranho encolheu os ombros.
— Para quem trabalha? — perguntou Bolowsky. —
Quem é você?
— Podem chamar-me de... Romeu, por exemplo.
— Está muito seguro de si mesmo, não é? Queremos seu
verdadeiro nome e saber para quem trabalha...
— Vocês ficariam assustados se soubessem quem sou —
sorriu de novo o intruso.
— Verdade? Por que não tenta assustar-nos, Romeu?
— Não tenho necessidade. Vou assustá-los de qualquer
maneira, mais tarde.
— Oh! Segundo parece você tem esperanças de nos
escapar, não? Pois tire isso da cabeça. Sabemos que está
sozinho, Romeu. Estivemos esperando todo o dia por
alguém que viesse ajudá-lo. E nada. Não veio ninguém.
Tudo normal. Além disso, mantivemos vigilância em torno
do edifício e nada vimos que nos parecesse perigoso.
— Quando perceberem já será tarde demais. O que estão
tramando vocês?
— Esta é boa — resmungou Bolowsky. — Ele é que
está nos Interrogando!
— Eu disse que era um profissional — sorriu duramente
Heston. — Um desses espertos que pensam que sempre
saem ganhando. E assim é... até perderem. Não receberá
ajuda de ninguém, Romeu. E será mais difícil ainda a partir
do momento que o levarmos para a ilha.
— Que ilha?
Heaton deu uma gargalhada.
— Sujeito esperto! — exclamou. — Mas vamos lhe...
— Ai está Mackenzie.
Mackenzie acabou de descer os degraus da escada de
madeira, reunindo-se aos demais.
— Podemos levá-lo — disse. — Mas com as devidas
precauções. Uma lancha está nós esperando.
— Está bem. — Heston ficou olhando para o estranho.
— Que acha? Não quer livrar-se do pior, Romeu?
Asseguro-lhe que na ilha sua situação vai piorar ainda
mais... E, afinal, acabará por dizer o que queremos saber.
Romeu não se alterou. Somente, em seus olhos negros,
tornou a aparecer aquele brilho frio, irônico.
Disto não gostou Heston, que demonstrou seu desagrado
golpeando-o novamente no rosto, por mais quatro vezes. A
forte personalidade de Romeu, sua assombrosa capacidade
de suportar estoicamente aquele castigo, ainda o enfureceu
mais, e arremeteu contra seu estômago com os dois punhos,
até que aconteceu o inevitável: Romeu afrouxou as pernas
e, apoiando-se mal e mal na mesa de madeira, ficou
semidesmaiado.
— Afinal de contas, não é de pedra — arquejou Heston.
— Claro que não — grunhiu Bolowsky. — E acabamos
por matá-lo se continuarmos batendo-lhe assim. Vamos
levá-lo à ilha e assunto encerrado.
Foi desamarrado e sustentado quase que no ar entre os
três, já que suas pernas, de tão moles, se dobravam por
completo...
Súbito, aconteceu o inacreditável.
Desvencilhou rapidamente um braço, o direito, e suas
pernas recuperaram as forças. A mão direita partiu lançada
como um machado contra o rosto de Heston, que deu um
grito e quis saltar para trás.
Mas não teve tempo.
Aquela mão enorme, fortíssima, bronzeada, bateu em
cheio no seu nariz, em cima da cartilagem. Ouviu-se um
seco rangido e Heston saltou com força para trás, um jorro
de sangue esguichando do nariz.
Caiu de costas, rolando pelo chão, uivando, enquanto
Mackenzie tentava segurar os braços de Romeu por trás. E
conseguiu. Só que aquilo serviu para ajudar este, que o
obrigou a girar e, ficando suspenso pelos braços do outro,
jogou os dois pés contra o estômago de Bolowsky, que
atingido em cheio projetou-se para trás, caindo de joelhos,
com ambas as mãos no ventre, depois de bruços, ficando
numa posição bastante ridícula.
Mackenzie assustou-se. Súbito, teve a inquietante
sensação de que estava segurando um leão e não um
homem. Ou seja, pensou que estava louco... e realmente
seria preciso estar louco para tentar agarrar um leão à unha.
Um leão deve ser abatido com um tiro disparado de longe.
Pálido de medo, Mackenzie soltou Romeu e tentou
afastar-se dele, para sacar o revólver e derrubá-lo de
qualquer maneira... Mas a mão esquerda de Romeu prendeu
a sua, retendo-o junto dele, rodeando-o rapidamente.
Mackenzie estava quase sacando o revólver, quando seu
adversário o defrontou. Ao ver aqueles olhos negros, cruéis,
destilando fúria, todo o seu corpo estremeceu... e naquele
instante encaixou um swing tremendo no queixo e, tal como
seus companheiros, saiu voando de lado, para trás.
— Você é teimoso, Romeu — disse uma voz.
O estranho voltou-se como uma fera e fitou com
assombro o manequim que havia falado, e que se
aproximava dele. Olhou rapidamente ao seu redor. Heston
já estava em pé e, cambaleante, buscava covardemente seu
revólver debaixo do braço esquerdo. Bolowsky continuava
na mesma posição ridícula, fazendo força para erguer a
cabeça. Mackenzie jazia no chão, desmaiado pelo tremendo
swing recebido.
Romeu quis saltar sobre Heston, para tirar-lhe o
revólver, porém chocou-se com o outro manequim, de braço
erguido. Com uma força brutal, o braço desabou sobre sua
cabeça e ele caiu de joelhos, quase liquidado. Mal
conseguia sustentar a cabeça, com um dos lados escorrendo
sangue.
Quase não teve forças para balbuciar, um instante antes
de receber a baforada de gás disparado pelo manequim:
— Acautelem-se contra Julieta...
Foram as últimas palavras que Romeu conseguiu dizer.
TERCEIRO
A gueixa de olho azul
“Alo! Há alguém aí dentro?”
O Robô

A festa havia começado quando chegou um pequeno


automóvel azul, rutilante, da mais pura linha esportiva, no
qual vinha uma deliciosa criatura que fez sorrir de
satisfação a criadagem que aguardava na ampla escadaria de
mármore do palacete de Albert Rockingham, em plena
Quinta Avenida.
Dois dos imponentes criados em uniforme de gala,
flamejantes casacas, no estilo dos Luises da velha França,
disputaram a honra de abrir a porta. Um deles chegou na
frente, porém o outro teve mais sorte, pois foi quem
estendeu a. mão para ajudar a descer a maravilhosa gueixa,
de rosto de boneca. Diante dela, outros empregados
lamentaram não a terem visto antes para correrem a ajudá-
la. Na verdade, valia a pena vê-la de perto. Tinha uma
covinha no queixo e meio palmo de rosto delicioso, muito
pintado de um tom exatamente igual ao da pele das
japonesas; tom este conseguido, habilmente, com
maquilagem adequada. A boca mostrava um tom intenso de
vermelho e os olhos também estavam muito pintados,
excessivamente sombreados e enfeitados com longos sílios
postiços, sem dúvida, bastante carregados de rimmel. O
quimono era negro, com desenhos de flores e pássaros em
vermelho e verde, cruzando sobre o belo busto
delicadamente erguido, para cair, reto, até os pés, onde se
viam os clássicos sapatos de madeira. Na cabeça, os negros
cabelos, quase naturais, estavam penteados da maneira
clássica japonesa, adornados com bonitos alfinetes cujas
cabeças eram de jade e esmeralda. Um leque precioso
parecia mais um passaro, em suas delicadas mãos de gueixa.
Em resumo, era uma visão encantadora, inspirada no
mais puro e belo estilo japonês. O único contraste
surpreendente eram os olhos da gueixa que nada tinham de
nipônicos. Olhos azuis, celestiais, grandes, imensos,
profundos...
— Seja bem-vinda, madame — sorriu o criado,
inclinando-se.
— Sayonara — disse ela, e acrescentou rapidamente: —
Sei que não quer dizer “obrigado”, mas é a única palavra
japonesa que conheço.
O criado, com um ar aparvalhado, concordou. Ninguém
percebeu quando um outro carro parou. Todos os olhares
convergiam para a graciosa e doce criatura...
— Com sua permissão, eu levarei o carro para
estacionar, madame.
— Sim, sim... É muito amável. E outra vez, sayonara.
E como “sayonara” quer dizer adeus, desta vez a
palavra foi bem aplicada, já que ela se afastou dos criados,
subindo a escadaria com passinhos miúdos, tão graciosa que
até os recém-chegados perdoaram os criados por não terem
sido atendidos prontamente.
A gueixa subiu os amplos degraus de mármore branco e,
à entrada do palacete, entregou seu convite ao gigantesco
porteiro, que sorriu, inclinando-se e indicando o Interior da
casa, de onde vinha um grande alvoroço de risos, vozes e
música. Mas um alvoroço muito discreto, elegante, correto.
As duas grandes portas do imenso salão estavam abertas
de par em par e ali, no umbral, entre dois criados que
faziam o possível para permanecer indiferentes, deixou-se
ficar a doce gueixa, com os olhos azuis muito abertos. O
espetáculo merecia ser admirado. Ao fundo estava a
orquestra, composta nada menos que por 15 músicos; do
lado esquerdo, o bar, onde eram servidas qualquer classe de
bebidas e salgadinhos, que iam desde os diminutos canapés
de caviar russo, até azeitonas espanholas, passando por
camarões e lagostins do Pacífico e muitas coisas mais. O
mais assombroso de tudo era que o número de convivas não
parecia tão elevado como uma festa daquele gabarito faria
supor. Talvez umas quarenta pessoas, por isso era fácil
perceber que Albert Rockingham não se havia excedido em
enviar os convites, limitando-se, possivelmente, aos mais
íntimos. Naquele momento todos dançavam uma
animadíssima, agitadíssima polca. Viam-se fantasias de
todas as classes, entre as quais estavam duas “Popéias” e
dois “Centuriões Romanos”. Um “Palhaço”, uma “Maria
Antonieta”, um “Mosqueteiro” dos aguerridos tempos de
D’Artagnan, um “Astronauta”, um “Troglodita”, uma
“Bailarina Clássica” e mais o que era possível imaginar,
dentro do verossímil.
Porém a mais notável fantasia, sem dúvida, era a de um
indivíduo gigantesco que naquele momento caminhava
pesadamente em direção à orquestra. Muito natural sua
dificuldade em andar, com toda aquela indumentária
metálica por cima. Fantasiado nada menos do que de robô, e
com multa perfeição. A cabeça grande e quadrada, braços
de metal, articulações perfeitas nos cotovelos, assim como
nos joelhos, tudo muito bem arquitetado. Na cabeça, em
lugar de orifícios para os olhos, havia quatro lentes, com
objetivas de câmara fotográfica. Cada lente de um lado da
cabeça, como se o robô, olhando em todas as direções,
pudesse ver tudo o que acontecia ao seu redor. Uma fantasia
pesadíssima, certamente, e...
— Olá!
A gueixa virou a cabecinha para a, pessoa que a saudava
de forma tão jovial.
— Olá! — respondeu. — Quem é você?
O personagem estava fantasiado nada mais nada menos
do que de “Carrasco”, com um capuz cobrindo-lhe
completamente a cabeça, até o queixo. Através de dois
buracos, viam-se seus olhos brilhantes, alegres, divertidos...
não, já que, somente pelos olhos, é difícil saber se alguém
está alegre ou triste. Mas, como a saudação fora alegre, era
fácil Imaginar que estava se divertindo a valer.
— Quem sou eu? — perguntou, dando um par de
pulinhos. — Adivinhe! Adivinhe!
Usava calças negras, coladas às pernas. Uma camisa
vermelha aberta ao peito, mostrando uma penugem espessa
e loura. Era alto, forte, atlético. Em uma de suas mãos, um
gigantesco machado do carrasco que, certamente, não era de
mentira. Com um só golpe daquele machado podia-se
decapitar um elefante, no mínimo. Parecia antigo, mas ainda
válido numa emergência, de grosso cabo e enorme lâmina
recurva.
— Você é o “carrasco” — disse a gueixa.
— Sim, sim! E o meu nome? Adivinhe o meu nome?
— “Mata-sete”! — exclamou a gueixa.
— Não, não! — riu o carrasco.
— “Degolador”!
— Também não!
— Mmm ...“Corta-cabeças”?
— Não! Meu nome é “O Implacável”!
— Oh! É muito original.
Os dois desandaram a rir.
— E seu nome? Qual é o seu nome? — perguntou o
carrasco.
— Adivinhe.
— “Flor-de-Lótus”?
A suave gueixa olhou desconsolada para o simpático
carrasco.
— Como adivinhou? — protestou.
— Ah! Adivinhei de saída! Sou um gênio! Mas, querida
— disse-lhe baixinho ao pé do ouvido — não consigo
reconhecê-la com esta maquilagem. Perdoe-me a
indiscrição, pois ainda não é meia-noite. Não serás Agatha?
— Não, não.
— Mary?
— Também não!
— Deixe-me ver... Wendy?
— Nada. Está frio, frio...
— Desisto e confesso que estou intrigadíssimo. Já
consegui reconhecer todos os convidados menos o robô e
você.
— Pois quando chegar a meia-noite saberá, querido —
disse Flor-de-Lótus. — Até lá vou me divertir à sua custa
mantendo o incógnito.
— É um disfarce muito bom. E sabe de uma coisa? Você
parece realmente uma gueixa, doce e tímida... Não, está
claro que não é nem Mary, nem Agatha... Charlotte, talvez?
— Não seja malvado, carrasco — riu Flor-de-Lótus: —
está quebrando as regras do jogo.
— É verdade. Não vou mais insistir. Você quer dançar?
— Dançar uma polca com toda esta tralha? Oh, querido,
seria extremamente difícil e contraditório, não acha?
— Acho que vou pedir que toquem uma música
japonesa só para ver como você dança — disse o carrasco
rindo. — Bem, perdoe-me, mas estão chegando outros
amigos. Não vá se esconder de mim, ouviu?
— Estarei bem à vista — e a gueixa levantou uma das
mãos. — Confúcio é testemunha de que assim será, dou a
minha palavra.
O carrasco afastou-se em direção aos recém-chegados,
rindo, e a gueixa Flor-de-Lótus dirigiu-se ao bar, seguida
pelos olhares invejosos das poucas mulheres que não
estavam dançando. A polca chegou ao fim e, sem dar folga,
a orquestra atacou um Jerk, sob a gritaria dos convidados
mais jovens.
— Champanha gelado — pediu a gueixa. — Com uma
cereja, se for possível.
O barman fora apanhado desprevenido. Pediu licença e,
afastando-se, cochichou ao ouvido do maitre, que olhou
para a gueixa e alçou as sobrancelhas, intrigado. O garçom
de serviço naquele lado do bar sacudiu negativamente a
cabeça, mas o maitre pareceu aborrecido e apontou para a
porta dos fundos. O garçom tratou de sair e o maitre
aproximou-se de Flor-de-Lótus.
— Mil perdões, senhorita. Mmmm... esquecemos de
trazer as cerejas. Jerry foi buscá-las lá na cozinha... Espero
que as tenhamos.
— Não se preocupe. Enquanto isto pode servir-me o
champanha, puro.
— Como preferir, senhorita. Deseja alguma marca
especial?
Não havia dúvida de que o maitre tinha olho clínico e
psicologia: percebera que a gueixa era pessoa de bom-gosto,
de hábitos finos e definidos.
— “Dom Pierre Perignon”, da safra de 55, por favor.
— Mmm... Pois não, senhorita. Nós... nós iremos
providenciar. Com sua licença...
— Parece-me que estou complicando as coisas para
vocês — riu-se Flor-de-Lótus. — Sirva-me um bom
champanha agora e, mais tarde, trataremos da minha
preferida... e da cereja.
— Muito obrigado, senhorita. Por favor, não diga nada
ao sr. Rockingham.
— Não creio que o Sr. Rockingham entenda japonês —
sorriu a gueixa.
O maitre permaneceu ali, sorrindo aliviado. “Que
diabo”... pensou, “assim deviam ser sempre todos os
convidados”. Serviu-lhe champanha gelado, seco,
acompanhado de canapés de caviar, fez-lhe uma
amabilíssima reverência e afastou-se. Logo após, chegava o
garçom, vindo da cozinha. Tornou a cochichar no ouvido do
maitre, e Flor-de-Lótus percebeu quando este avermelhou
de raiva, apontando para a porta da rua, O garçom saiu
disparado, tirando o casaco de serviço pelo meio do
caminho.
Bem, qual dos dois seria Albert Rockingham? Voltou-se
olhando para o lugar em que se encontrava o carrasco, em
conversa animada com dois casais. Depois, olhou para o
robô. Eram os únicos convidados que tinham o rosto
completamente oculto. Todas as evidências levavam a crer
que o carrasco era Albert Rockingham, uma vez que ele
sempre se apressava em receber os convidados, Mas...
Ergueu a taça de champanha e aproximou-se do robô,
que estava imóvel como uma estátua de metal em um canto
do salão, abrangendo com seu olho frontal idêntico a uma
objetiva de câmara fotográfica tudo o que ocorria por ali. O
Jerk estava no máximo, e Flor-de-Lótus estava quase a
alcançar o robô, quando um convidado fantasiado de Bobo-
da-Corte pulou à sua frente, num salto, tilintando os guizos.
— Alô, alô! — exclamou. — Vamos dançar, dançar,
dançar...
— Não vamos dançar, dançar, dançar — riu-se a gueixa.
— Querido, seria impossível dançar com esta roupa.
— Nada disto! Não há nada, impossível! Venha e verá!
Tomou-a por uma das mãos e arrastou-a
impiedosamente até o centro do salão; ali, largou-a e pôs-se
a saracotear diante dela, que ainda hesitou um instante e,
afinal, encolhendo os ombros e sorrindo, abrindo o quimono
o justo e necessário para que suas pernas pudessem
movimentar-se facilmente. E que par de pernas! O Bobo-da-
Corte ficou embasbacado diante daquela perfeição nunca
vista...
— Vai dançar ou não? — atiçou-o provocadora a
gueixa, já rebolando entusiasticamente no Jerk.
Deu uma meia dúzia de passos inesperados, que fizeram
o Bobo-da-Corte abobalhar de vez. Dois “Romanos”, que
estavam por perto, abandonaram as suas Popéias para
aplaudir Flor-de-Lótus, que em cinco segundos tomou conta
do salão. O Bobo-da-Corte conseguiu recuperar-se e
procurou colaborar na medida do possível para que a
diversão dos presentes alcançasse o máximo, evitando olhar
para aquelas belíssimas pernas douradas, de ouro puro, e
aparentemente tão sólidas como o metal. Mas eram também
esguias, esbeltas, deliciosas...
Quando acabou o Jerk, foram brindados com uma salva
de palmas e um coro de alegres risadas. O Bobo-da-Corte e
a gueixa agradeceram fazendo reverências, de mãos dadas.
A seguir, um bando de cavalheiros fantasiados precipitou-se
para Flor-de-Lótus, tentando disputar a honra de dançar
com ela, mas esta ergueu as mãos e disse:
— Cavalheiros de Roma, senhor Bobo-da-Corte,
Homem das Cavernas, Mosqueteiros do Rei e demais
prezados convivas: não dançarei mais.
— Oooooooooo!... — protestaram todos.
— A menos — e levantou a mão — que um dos
senhores demonstre ser o melhor bailarino de todos. O que
mais me agradar, dançará comigo ao final da disputa. Serão
três músicas, e eu os estarei observando.
Ouviu-se um coro de risadas, brincadeiras, exclamações.
Flor-de-Lótus voltou para o bar e ali deixou a taça de
champanha bebida às pressas, que a animara a dançar o
Jerk.
Tornou a olhar para o robô, que permanecia inalterável,
no mesmo lugar. Parecia mesmo um robô de verdade.
Imperturbável, imóvel, infatigável.
O rosto de Flor-de-Lótus contraiu-se levemente. Ficou
ali examinando com atenção o personagem.
— Aceita outra taça, senhorita?
A gueixa voltou-se para o maitre, que sem dúvida
alguma demonstrava abertamente sua predileção por ela.
— Não, muito obrigada. Mais tarde, talvez. Sorriu e
tornou a aproximar-se do robô, sem que ninguém a
impedisse agora. Os convidados masculinos estavam muito
empenhados na dança, de olho no estupendo prêmio que
seria dançar com a gueixa de olhos azuis.
Esta se deteve enfim ante o robô, que permanecia imóvel
o tempo todo, com um ar impessoal, inalterável, um pouco
assustador com aquele olho frontal redondo, escuro, de
lente graduada.
Então, a gueixa sorriu, ergueu a delicada mão e bateu
várias vezes com os nós dos dedos na cabeçorra do robô.
— Alô! — disse alegremente. — Há alguém ai dentro?

QUARTO
O Robô e a Gueixa
Primeiro round
Apuros de Romeu

O Robô não se mexeu. Mas uma voz, sem sombra de


dúvida humana, surgiu da fenda que lhe servia de boca:
— Infelizmente, sim, há alguém aqui dentro. E esta é a
última vez que me fantasio de lata.
Flor-de-Lótus desandou a rir, divertida, aliviada ao
mesmo tempo.
— A propósito, não deve ser muito cômodo estar aí
dentro. Por que foi se meter numa fantasia tão complicada?
— Porque estou decidido a ganhar o prêmio de qualquer
maneira. Estou cansado de ver sempre meus amigos
vencerem. Desta vez ninguém vai me arrebatar o prêmio.
Mas estou me aborrecendo mais que um camelo num salão
de bilhar.
— O prêmio é tão importante assim?
— É uma questão de moral. Nunca consegui levar a
melhor em nada, na minha turma. Por isso desta vez estou
disposto a ganhar o prêmio de qualquer maneira... Ou acha
que minha fantasia não merece?
— Está aí uma coisa que não sei. Por mim ele seria seu,
só pela paciência que está demonstrando e pelos maus
pedaços que está padecendo. Ouça: Você consegue ver-me
de fato com esse... olho?
— Não muito bem, mas distingo alguma coisa. Estou
louco para que chegue a meia-noite para tirar este montão
de lata de cima de mim! Não é terrível? Nem ao menos
posso beber alguma coisa!
— Por quê?
— Porque se entornar champanha nesta boca metálica,
estarei dando um banho na minha própria cabeça. E ai, além
do sofrimento de estar aqui dentro, ainda ficarei todo
molhado...
Flor-de-Lótus pôs-se a rir, realmente divertida.
— Posso fazer algo por você? — ofereceu-se.
— Bem... Creio que seria muito incômodo. Já pensei em
conseguir um tubo de plástico, ou de borracha, e enfiá-lo
pela boca da fantasia, de maneira que pudesse tomar um
champanhe aqui dentro... Mas me parece complicado
demais, não acha?
— Desconfio que sim — tornou a rir Flor-de-Lótus. —
Tenha um pouco mais de paciência, querido. Não estará
melhor e mais cômodo sentado?
— Como? Depois não poderia mais levantar! Na
próxima vez, farei a fantasia com ar condicionado dentro...
Você não é japonesa, é?
— Não.
— Mas compreende alguma coisa, em japonês?
— Só sei dizer “Sayonara”!
O robô deixou escapar uma risada divertida.
— Você é muito simpática. E dança divina-mente, pois
eu a vi dançar. Este Bobo-da-Corte, bobão, fez um papel
ridículo ao seu lado. E, se me permite, direi ainda que é
proprietária de um par de pernas sensacionais.
— E eu que pensava que com seu olho de vidro não
enxergasse bem — disse rindo a gueixa.
— Há coisas que mesmo não querendo se é forçado a
ver. Eu também sei alguma coisa em japonês.
— Que coisa? Seria bastante interessante aprender uma
nova palavra!
— Bem... Não é uma só palavra, mas todo um verso.
Custou-me uma semana para decorar. Mas é muito bonito,
na verdade. Gostaria de escutá-lo?
— Claro, senhor... Mmmm... Qual é o seu nome? Bem,
quero dizer o seu nome suposto, é claro. O verdadeiro logo
saberei, quando chegar a hora.
— Certo. Eu sou, bela gueixa, o robô Alexandre. A seus
pés...
— Creio que é melhor ficar de pé. Não quero que lhe
aconteça alguma desgraça, robô Alexandre. Como é mesmo
o verso em japonês?
— Intitula-se “Hi Mo Tuki Mo Wazaku”, o que significa
mais ou menos “Não há diferença entre o Sol e a Lua”. Que
tal lhe parece?
— Bonito. E o resto?
— Vou recitar o verso completo:
Asahi tomo Tsuki tomo
Tsuka-no-ma mo
Kimi wo wasururu
Toki shi nakereba
— Bravo! — aplaudiu Flor-de-Lótus. — Bravíssimo!
Mas, Alexandre. Infelizmente não entendi uma só palavra.
— A tradução aproximada é:
O sol nascente ou a lua que morre
Não são diferentes para mim
Nunca, nem por um só instante,
Poderei me esquecer de ti.

— Mas, é lindo! — exclamou a gueixa. — São versos


tão delicados e românticos... Por favor, Alexandre, recite-
me mais alguns, recite-me mais alguns!
— Em japonês?
— Claro!
— Impossível! Estes eram tudo o que sabia. E assim
mesmo levei uma semana para decorá-los! Mas, se quiser,
posso recitar-lhe algo de nossos poetas...
— Ora, estes eu já conheço, Alexandre.
— Claro. Bem, suponho que não posso mais retê-la. Não
é nada divertido estar com um robô. Além do mais,
desconfio que o carrasco vem em seu encalço.
— O...?
— Espero que não tenha feito nada de mais — disse
Alexandre.
— Não tento muita certeza — disse sorrindo Flor-de-
Lótus. — Até logo, Alexandre.
— Tchau... Êi, um momento, um momento! Qual é
mesmo o seu nome?
— Flor-de-Lótus.
— Ora, um pouco vulgar, me parece. Enfim... divirta-se.
— E que você ganhe o prêmio. Flor-de-Lótus foi ao
encontro do “Implacável”. Este segurou-a pela mão e levou-
a para o meio da sala. Fez sinal para a orquestra, que
imediatamente parou de tocar.
— Senhoras e senhores — disse alegremente o carrasco
—, tenho o prazer e a honra de apresentar-lhes a belíssima
Flor-de-Lótus, que vai nos brindar com uma bonita dança
de seu país.
— Mas... — começou a protestar Flor-de-Lótus.
Porém seus protestos foram abafados pelo coro de
pedidos dos convivas. Um clamor geral tomou conta do
saião, suplicando que Flor-de-Lótus dançasse alguma
música japonesa.
Não restava alternativa. Apenas conseguiu balbuciar
“mas”, O coro era cada vez mais forte. Afinal, com um
sorriso simpático, Flor-de-Lótus ergueu seu leque, impondo
silêncio.
— Pois está bem, queridos amigos. Cavalheiros: música
japonesa, por favor.
A orquestra tocou uma música mais ou menos em estilo
japonês e a gueixa, sozinha no centro do salão, deixou-se
ficar imóvel por alguns segundos. Subitamente, abriu o
leque, jogou-o para cima numa pirueta e tornou a apanhá-lo.
Deu algumas voltas graciosas, movimentando as pequenas
mãos e o tronco, muito delicadamente, o rosto imóvel,
parecendo realmente uma deliciosa japonesinha. Jogou para
o ar mais uma vez o leque, ante a admiração dos
convidados, que a aplaudiram entusiasmados.
Logo após, com suavíssima música de fundo, elevou-se
a doce voz de Flor-de-Lótus:
— A doce Flor-de-Lótus eu sou. Gueixa eu nasci...
pobre de mim! Para servir aos homens eu vim. Eles me
chamam e aos seus pés eu estou...
Uma forte salva de palmas e um coro de gargalhadas
secundaram a intervenção de Flor-de-Lótus, que
permaneceu imóvel, a cabeça levemente inclinada, num
gesto delicado e gracioso. O carrasco “Implacável” foi o
primeiro a chegar junto dela, de enorme machado a tiracolo,
e tratou de passar o braço sobre seus ombros, sorrindo.
— Muito bem! — exclamou. — Esteve magnífica! Viva
Flor-de-Lótus!
— Viva!...
Os convidados riam a mais não poder. Todos elogiavam
abertamente a gueixa, cuja simpatia havia conquistado
inteiramente os presentes. Um dos que mais aplaudiam era
o maitre, rubro de satisfação. Até mesmo o robô Alexandre
fez ressoar suas mãos metálicas, bamboleando-se sobre os
enormes pés. Os dois Romanos começaram a jogar
punhados de confete e... em poucos segundos, estava
formada uma batalha de papeizinhos multicores e
serpentinas. O ambiente não podia ser mais animado e, no
entanto eram somente dez e meia da noite, O Ano Novo se
pronunciava feliz e divertido.
A orquestra havia iniciado um Twist, e Flor-de-Lótus
afastou-se da pista, acompanhada do “Implacável”, que
estava firmemente decidido a não deixá-la escapar pelo
resto da noite.
Pouco depois o maitre surgiu diante dela, portando uma
bandeja na qual se via uma só taça de champanha, com uma
cereja no fundo. Não disse nada. Flor-de-Lótus ergueu a
taça, provou um pequeno gole e sorriu amavelmente.
— Magnífico... Realmente magnífico. Muito obrigada.
— Em sua homenagem, senhorita.
O maitre afastou-se e o carrasco perguntou-lhe, meio
surpreso:
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada de mais. Eu pedi...
Calou-se bruscamente, o olhar fixo num ponto do grande
salão. O “Implacável” notou algo diferente na expressão de
seus olhos azuis, e olhou também para lá: o robô Alexandre,
no seu passo pesado, estava caminhando para o centro do
salão, abrindo caminho rudemente por entre os convidados
que dançavam o Twist. Afastava-os com grosseiros
empurrões, tão violentos que chegou a derrubar o
Troglodita e seu lindo par vestido de peles. Os convidados
ficaram estupefatos.
— Mas o que está ele querendo... — murmurou o
carrasco, irritado.
O robô alcançou finalmente o centro exato do salão e
ergueu o braço esquerdo. Um fino jato de fogo brotou de
sua mão, alcançando o teto. Gritos de espanto e medo
fizeram-se ouvir entre os convidados, que se afastaram
apressadamente, deixando Alexandre como dono absoluto
do centro do salão.
— Mas que espécie de maluco é este? — vociferou o
carrasco. — Vou...!
— Quieto... quieto, “Implacável” — recomendou
friamente a doce Flor-de-Lótus.
A orquestra havia deixado de tocar. O círculo ia se
alargando à volta do robô e todos os olhos estavam
arregalados, fixos nele, que agora lançava um novo jato de
fogo para o teto. Depois baixou o braço e voltou-se
rapidamente, começando a caminhar em passos firmes e
decididos até um certo ponto do salão. Ninguém se atreveu
a mover-se. Se aquilo era brincadeira, estava se
transformando numa pesada e aterradora.
Alexandre deteve-se finalmente frente a um grupo de
pessoas que se apertavam, encolhidas contra um canto do
salão. Então, seu braço direito ergueu-se, apontando
precisamente para uma delas: era um homem de estatura
mediana, vestido de “Cavaleiro Fantasma”, lenço preto
tapando a cara, revólveres no cinto... revólveres que deviam
ser de brinquedo.
O “Cavaleiro Fantasma” pareceu encolher-se ainda mais,
grudado de pavor contra a parede.
— Não — suplicou. — Não, não... nãaaaaaaao!
Da mão direita de Alexandre partiu em primeiro lugar
uma labareda avermelhada, azul-violácea. Logo a seguir,
mais duas. Nada se ouviu. Somente as labaredas, curtas,
brevíssimas. Talvez algumas das pessoas mais próximas
tenham ouvido três suaves “plops”, três sons idênticos aos
produzidos por um revólver com silenciador.
Três manchas pequenas, brilhantes, apareceram no peito
do “Cavaleiro Fantasma”, que crispou ambas as mãos sobre
elas, cravando as unhas na carne. Arregalou muito os olhos,
escancarando a boca... e foi deslizando lentamente para o
chão, apoiado contra a parede. A moça vestida de corista de
saloon, ao seu lado, soltou um grito agudo, que foi
interrompido bruscamente, quando Alexandre soltou novo
jato de fogo da sua mão esquerda, o qual passou rente a sua
cabeça, deixando na parede uma mancha negra, fumegante.
O silêncio era total. Um medo atroz paralisava a todos. Os
convidados estavam de lábios secos e o nervosismo fazia os
corações de todos palpitarem descontroladamente. Bem, de
quase todos...
Flor-de-Lótus arrancou o machado das mãos do carrasco
e partiu sem vacilar contra o robô, que estava de costas para
ela. Este se voltou instantaneamente, mal conseguira ela
segurar o machado nas mãos delicadas, aparentemente
incapazes de manobrar arma tão descomunal. Só
aparentemente...
A gueixa estacou diante do robô, a menos de três passos
de distância e, para surpresa geral, ergueu a pesadíssima
arma com ambas as mãos, acima da cabeça.
— Não se aproxime, Flor-de-Lótus — disse Alexandre.
— Não queremos inimizade com a CIA.
Flor-de-Lótus ignorou aquelas palavras amáveis. Deu
um passo à frente e desferiu uma tremenda machadada
contra o peito do robô, com uma força Inusitada. Este
cambaleou por momentos, mas Flor-de-Lótus, sentiu muito
mais. A vibração do golpe de ferro contra ferro transmitiu-
se violentamente pelo cabo de madeira, que saltou das mãos
da gueixa em fortíssima rebatida. A violência foi tamanha,
que Flor-de-Lótus caiu para trás, sentindo dores muito
fortes nos pulsos, quase desfalecida.
Alexandre encaminhou-se imperturbável para a saída do
salão. Os criados tentaram aproximar-se, especialmente
aqueles desprevenidos que haviam acudido lá de fora aos
primeiros gritos. Mas meia dúzia de jatos de fogo os
convenceram a manter distância prudente. Assim,
Alexandre, poucos segundos depois, deixava o salão,
alcançando a escadaria.
E atrás dele, a doce gueixa, de rosto contraído pela raiva,
trazia agora uma pequena automática na mão direita, com a
qual fez dois disparos contra as costas de Alexandre, mas
este continuou seu caminho sem demonstrar a mínima
alteração. Devido a isto, e também porque o ricochetear das
balas nas costas de Alexandre punha em perigo a todos,
Flor-de-Lótus desistiu de atirar contra o robô.
— Johnny! — chamou. — Johnny, olha o robô...
Cuidado com ele!
Alexandre já estava descendo as escadarias,
encaminhando-se diretamente para o homem que havia
surgido das sombras do jardim, e que parecia disposto a
cortar-lhe os passos.
— Não, Johnny! Não chegue perto dele! Não atire! É
invulnerável! É preciso derrubá-lo de longe!
Mas o homem que aguardava Alexandre ao pé da
escadaria parecia confiar demais em suas forças, porque se
aproximou dele, tentando alcançar suas costas, o que
conseguiu, porque este não lhe dava a menor confiança...
— Não, Johnny, não!
Mas Johnny estava mesmo decidido a derrubar o robô na
raça e saltou sobre suas costas, firmando bem os pés no
chão e passando o braço esquerdo pela garganta daquela...
geringonça.
Uma espécie de brilho azulado espalhou-se subitamente
pela superfície do corpo do robô e Johnny gritou, lançado a
vários metros de distância pelo choque elétrico que
recebera. E enquanto o robô prosseguia sua marcha
inalterável em direção às grades do jardim, Flor-de-Lótus
descia rapidamente a escadaria. Ajoelhou-se junto à
indefesa vítima de Alexandre.
— Johnny! Johnny!
Levantou-lhe a cabeça e tomou-lhe o pulso, que batia
quase normalmente. Estava apenas desfalecido. Olhou então
para o alto da escadaria, irritada. Viu o agrupamento de
convidados literalmente paralisados de terror. De fato,
depois de tão tremenda descarga elétrica, seria demais pedir
àquela gente que atacasse Alexandre.
Ajeitou cuidadosamente Johnny no chão e correu até o
carro mais próximo, torcendo para que a chave estivesse na
ignição. Estava. Deu velozmente a partida, manobrou,
saindo do estacionamento privado do palacete, e acelerou
em direção a Alexandre, que se afastava pelo longo
caminho de cascalho. Tinha certeza que, se conseguisse
atropelá-lo, o derrubaria. E, então, poderia tirar a prova de
existência ou não de um homem sob aquela roupa de ferro.
Calculou a distância até Alexandre em mais ou menos
treze metros. Estava fugindo em rápidas passadas, pesadas,
em direção ao portão principal do palacete. Acendeu os
faróis e calcou o acelerador até o fundo, mantendo o carro
em segunda, desenvolvendo um arranco brutal. Alexandre
nem sequer olhou para trás, mas, quando o carro estava
próximo, fez uma manobra simples e inteligente: saiu do
caminho e escondeu-se atrás de uma árvore. O carro passou
rente a ele, e foi tudo. Flor-de-Lótus freou violentamente,
engrenou a marcha-à-ré, enquanto Alexandre, tornando a
esconder-se atrás de uma grossa árvore, deixava o carro
passar. Então, já aborrecido com tamanha ousadia de uma
simples mulherzinha disfarçada de japonesa, levantou a
mão direita, de onde voltaram a saltar jatos breves e
violáceos... O pára-brisa do carro de Flor-de-Lótus
transformou-Se instantaneamente numa enorme e intrincada
teia de aranha, para logo saltar em milhares de estilhaços,
ao impacto das balas seguintes. Mas Alexandre não deixou
de atirar: mais quatro balas foram distribuídas pelos pneus
dianteiros, enquanto, dentro do carro, Flor-de-Lótus
acocorava-se no chão, coberta de cacos de vidro.
Quando conseguiu levantar-se, Alexandre já estava junto
ao portão de saída. Saltou do carro, precipitou-se atrás dele
e pôde ainda ver um automóvel aproximar-se do robô. Viu-
o entrar e pôs-se a correr, tentando tomar nota do número da
licença.
Mas o carro partiu a toda a velocidade e logo se perdeu
no tráfego da Quinta Avenida.
Pôde perceber ainda que o número da licença havia sido
apagado...
Os olhos azuis de Flor-de-Lótus cintilaram de raiva.
— Muito bem, Alexandre... Espero que tornemos a nos
encontrar. Este foi tão somente o primeiro round. A
conversa entre a gueixa e o robô está apenas no começo.
***
Mas esta última cena não chegou a aparecer na tela do
televisor. O “programa” havia terminado quando Alexandre
entrara no carro que o estava esperando junto às grades do
palacete da Quinta Avenida. Exatamente naquele instante, a
tela do televisor ficara escura, negra, apagada.
Até aquele momento, tudo quanto estava ocorrendo na
festa de Albert Rockingham havia sido televisionado, muito
particularmente, para gozo de alguns poucos espectadores.
Desde o instante em que a festa havia começado, até quando
o robô Alexandre entrara no carro, os distantes
telespectadores haviam presenciado tudo, como em
qualquer programa normal de televisão. Depois, uma vez
terminado o espetáculo, a bela mulher ruiva voltou-se para
Romeu, que solidamente amarrado havia assistido à festa de
longe. Sorria amavelmente, quase com simpatia. Seus belos
olhos cinzentos fitaram fixamente os olhos negros de
Romeu.
— Bem... Evidentemente esta gueixa chamada Flor-de-
Lótus é a enviada da CIA à festa de Albert Rockingham,
senhor Romeu. Para dizer a verdade, esperava que
mandassem alguém mais... perigoso.
— Não compreendi coisa alguma — murmurou Romeu.
Trazia a marca de vários golpes na cara, estava amarrado
a uma cadeira e seu aspecto era de um homem em estado
físico muito precário. Haviam-no surrado de muitas
maneiras, torturado com luzes, com jatos d’água fria, com o
silêncio e a escuridão, com a fome, com a sede...
E depois de submetido a tudo isto por quarenta e oito
horas, Romeu continuava duro como uma rocha que não
tivessem conseguido estourar nem com dinamite. Era
exasperante!... E admirável ao mesmo tempo; Heston,
Bolowski e Mackenzie estavam desesperados. A bela ruiva
de olhos cinzentos mal conseguia disfarçar sua contida
admiração por aquele homem varonil e silencioso,
indiferente, capaz de suportar tudo... pelo menos até o
momento.
Estavam em um pequeno quarto, à prova de som, no
qual existiam diversos aparelhos estranhos e várias telas de
televisão, quatro das quais haviam estado em
funcionamento o tempo todo, focalizando todos os ângulos
do salão de Rockingham. Ora numa, ora noutra das telas,
tudo o que ocorrera fora registrado.
— É verdade que não entendeu nada, Romeu? — disse
sorrindo a bela ruiva.
— Verdade.
Ela tornou a sorrir e voltou-se para o homem que, após
terminar o manejo de uma daquelas estranhas máquinas,
aproximou-se deles, informando sorridente:
— Tudo vai bem. Alexandre está de volta para casa.
Calculo que chegará daqui a pouco à ilha, sem maiores
novidades. Isto, apesar dos esforços dessa gueixa —
encarou o prisioneiro. — É natural que estejamos
convencidos de que ela é a enviada da CIA, Romeu. Que
pensa você?
— Não tenho nada que ver com a CIA.
O homem pegou uma cadeira e sentou-se diante dele.
— Não seja teimoso. Veja, já tínhamos todo este
trabalho preparado há três semanas, e todos nós tivemos que
nos dedicar a fundo para que tudo saísse perfeito. Somente
isto fez com que nos descuidássemos de você. Mas agora já
terminamos o trabalho e podemos dedicar-lhe nosso tempo
integral. Entende o que isto significa?
— Entendo.
— E mesmo assim não quer colaborar conosco? Veja,
Romeu, se você pertence à CIA, será de grande utilidade
que nos confesse. Como pôde perceber, nas quatro telas de
televisão, Alexandre teve a oportunidade de matar Flor-de-
Lótus várias vezes. Mas, na realidade, não queremos ficar
mal com a CIA, tanto que Flor-de-Lótus e o sujeito
chamado Johnny foram anulados pacificamente. Creio que
percebeu não haver nada mais fácil para Alexandre do que
matá-los com o lança-chamas ou a tiros. Mas, torno a
insistir que a nossa intenção é de manter boas relações com
a CIA. Quais os motivos? Relações... comerciais. Logo, se
você é de fato da CIA, o melhor a lazer é confessar, para
permanecer vivo.
— Continuo sem entender coisa alguma — insistiu
Romeu.
— Ele está mentindo, Percy — disse a bela ruiva,
sorrindo.
— Eu sei, Margot — concordou Percy Fowler. E está
mentindo de uma maneira muito estúpida. Mas não vamos
levá-lo a mal por lato. Afinal, é sua vida que está em jogo.
Já demos uma demonstração do que podemos lazer: enviar
um robô invencível para matar determinada pessoa, diante
de multas testemunhas, com a própria CIA presente... Nada
conseguiu deter Alexandre. E isto era exatamente o que
queríamos demonstrar à CIA. Eis a razão do convite.
— Com qual objetivo? — perguntou subitamente
Romeu.
— Desista da sua idéia de obter informações retrucou
asperamente Percy Fowler. — Nós é que fazemos
perguntas. Bem, afinal, não vejo inconveniente algum em
adiantar-lhe alguma coisa, Romeu. Uma informação que
você mesmo já conseguiu através dos televisores.
Naturalmente, percebeu que os quatro olhos de Alexandre
são câmaras de televisão, uma para cada lado do corpo, as
quais nos enviam as imagens à central de comando — e
apontou para a máquina em que estivera trabalhando. —
Por intermédio deste aparelho, controlamos Alexandre a
distância, com uma precisão e segurança absolutas. Você
teve a oportunidade de apreciá-lo, não?
— Sim, eu o vi. O homem que está lá dentro deve ser
um colosso.
— O que disse? — falou Fowler.
— Me refiro ao homem que move Alexandre por dentro.
Para levar todo aquele peso do mecanismo do robô, precisa
ser um colosso, um tipo de força descomunal.
Margot desatou a rir, mas Fowler interrompeu-a com um
gesto.
— Claro, Romeu. De fato, a nossa intenção era matar
dois coelhos de uma só cajadada. Eliminar certa pessoa que
nos foi indicada e, por outro lado, convencer a CIA da
eficiência e da invulnerabilidade de Alexandre. Você,
Romeu, sem dúvida, é um profissional da espionagem, não
é verdade?
— Talvez.
— Mas sim, claro que é! Sabemos muito bem distinguir
estas coisas. Aliás, ao nosso modo, até o admiramos. Pois
bem, reconheça que Alexandre, o robô, é muito mais
eficiente que você. Se alguém tivesse dado uma machadada
daquelas em seu peito, você seria partido em dois. E meia
dúzia de balas, pelas costas, o teriam detido. E até mesmo
um homem como esse Johnny, pendurado ao seu pescoço,
lhe teria dado muito trabalho... O tempo suficiente para que
Flor-de-Lótus chegasse em sua ajuda. Nem tampouco
conseguiria desvencilhar-se tão facilmente de um carro que
tentasse atropelá-lo. Enfim, Romeu: conseguimos o agente
perfeito.
— O agente perfeito, para quê?
— Foi claramente demonstrado: para matar. Para matar
sem risco de espécie alguma. E para convencer-se foi que a
CIA recebeu um convite. Enviaram Flor-de-Lótus e Johnny,
e ambos fracassaram, beneficiando os nossos planos. É
possível que muito em breve entremos em contato com a
CIA, para uma troca de impressões e de ofertas. Mas, com a
finalidade de evitar confusões, queremos antes saber como
resolver o seu caso. Se realmente é enviado da CIA, talvez
cheguemos a um acordo. Okay?
— Não tenho nada que ver com a CIA. — repetiu
Romeu.
— Então vamos supor que aceito o que disse, e que...
Uma das portas do pequeno quarto foi aberta e apareceu
outro homem. Era alto, gordo, meio calvo, com olhos
astutos, escuros. Aproximou-se dos aparelhos, examinou-os
rapidamente e logo encarou Percy Fowler, que fez um gesto
afirmativo com a cabeça.
— Tudo vai bem, Aaron — informou.
— Formidável! — respondeu o recém-chegado.
— Sinto muito haver perdido o espetáculo de Alexandre,
mas infelizmente tive que atender a outras coisas.
Conseguiram matar o “cliente”?
— Sem falha alguma, e diante de todo o mundo. Foi
magnífico! Estamos melhorando.
— Ótimo, ótimo! Seria bem conveniente que
abandonássemos a ilha, Percy. Margot, nós dois temos
muita coisa que fazer no continente. O Sr. Romeu ainda não
se decidiu a colaborar?
— Nada. É teimoso e forte como um elefante. Mas já o
adverti de que nos descuidamos um pouco dele devido ao
trabalho de Alexandre, e que daqui por diante vamos tratá-
lo com muito carinho. Continua a afirmar que não pertence
a CIA.
Aaron Chandler fitou fixamente Romeu por alguns
instantes. De um modo profundo, especulativo. Em nenhum
momento as negras pupilas do prisioneiro cederam ante o
olhar de Chandler.
— Creio que será melhor matá-lo e dar um sumiço no
cadáver — disse bruscamente.
— E se isto nos denunciar?
— Em que sentido?
— É muito provável que alguém esteja esperando
noticias dele.
— Pois que continuem esperando. Uma coisa é certa:
Romeu não possui companheiros que estejam a par de seus
movimentos. De outro modo, já teriam aparecido lá na loja
de brinquedos. E nada disto aconteceu. Não, Percy, não. Na
minha opinião, este é um pássaro solitário, um livre
atirador. Não trabalha com ninguém. Portanto, o melhor é
matá-lo tranqüilamente... e caso encenado.
— Talvez possa revelar-nos alguma coisa interessante
— murmurou Margot.
— Duvido muito — negou friamente Aaron Chandler.
— De qualquer maneira, não quero que percamos mais
tempo com ele. Tentem agora o último método, já que
liquidamos o caso de Roczac e, uma vez que estejam
convencidos, liquidem Romeu.
— Okay. Já vai?
— Preciso chegar a Nova Iorque, para assistir ao
desenrolar dos acontecimentos. Que aconteceu com a CIA?
Esteve presente?
— Desde o primeiro momento. Uma mulher disfarçada
em gueixa e um sujeito que rondava pelo jardim. Houve um
pouco de briga, mas nada de sério.
— Perfeito. E uma vez que a CIA já está ciente do que é
capaz de fazer Alexandre, o resto não interessa. Liquidem
logo com este sujeito.
Cumprimentou Romeu e foi-se embora. Margot e Percy
entreolharam-se. Foi Margot quem concordou primeiro,
inclinando a cabeça.
— Aaron está com a razão, Percy: será melhor que
tentemos o último método. Se Romeu for de fato perigoso
para nós de alguma maneira, não deixará de nos dizer. E
também responderá tudo o que lhe perguntarmos. Uma
coisa é negociar com a CIA à nossa moda, e outra muito
diferente é a CIA querer dominar a situação. Portanto, Sr.
Romeu — encarou-o amavelmente —, vamos tentar o
último método com você. E desta vez, asseguro-lhe, não
conseguirá ocultar nada. Heston, trate de preparar tudo.
Heston despachou-se, enquanto Percy Fowler, que
durante todo o tempo mantinha um estranho sorriso,
desandou a rir:
— Gostaria muito de saber que espécie de confusão.
Está ocorrendo lá pela casa de Albert Rockingham! —
exclamou, divertido.
QUINTO
Feliz Ano Novo!
O soro da verdade
Uma mulher perigosa

Albert Rockingham pousou o fone no gancho e voltou-


se para a gueixa, a quem havia habilmente atraído até ali.
— Advirto-a — disse-lhe, dedo em riste — que contarei
à policia sua atuação.
— Está-se referindo à minha dança japonesa? —
zombou Flor-de-Lótus.
— Refiro-me à sua surpreendente força física, ao dar
aquela machadada! E, acima de tudo, ao fato de que tenha
deixado escapulir aquele sujeito que apareceu no jardim...
— Eu não o deixei escapar. Simplesmente, ajudei-o a
recuperar-se, e então ele tratou de ir embora, sr.
Rockingham.
Este a encarou zangado. A festa havia terminado. No
salão estavam o cadáver do “Cavaleiro Fantasma” e os
convidados que, de tão assustados, não sabiam se ficavam
ou iam embora. Mas, enquanto não se decidiam, ainda se
encontravam ali quase todos. Era um final de ano horrível,
com aquele cadáver diante deles...
Albert Rockingham, no seu escritório, já havia retirado o
capuz de carrasco misterioso, surgindo tal como era na
realidade: olhos claros, cabelos louros, atraente. Mas
naquele momento não parecia nada simpático. Ninguém
parece simpático quando está furioso. E quando ainda por
cima está vestido de carrasco, fica até desagradável.
O dono do palacete apontou o dedo longo, aristocrático,
para a falsa japonesa.
— Nós dois sabemos que foi você quem o pôs em
movimento e o ajudou a fugir! Eu não estava tão assustado
como os outros, e pude ver.
— Por que não se acalma, sr. Rockingham? Procure
compreender que com gritos e atitudes intempestivas
ninguém vai conseguir nada.
— A polícia é que se entenderá com você!
— Duvido muito. Quando ela chegar, eu não estarei
mais por aqui, sr. Rockingham.
— É? Eu quero ver como vai conseguir escapar de mim!
— Deixe disso. E me responda, por favor: mandou por
acaso um convite à CIA? Tem por acaso amizades no
mundo da espionagem?
— Claro que não!
— Bem, é fora de dúvida que, esta noite, teve em sua
festa um assassino e uma espiã. A espiã, claro, sou eu. E,
sem dúvida também, se ambos entramos, foi porque
tínhamos convite. Não acredita?
— Vocês não passaram de penetras!
— Sim — murmurou Flor-de-Lótus. — Creio que tem
razão. Mas as coisas não acontecem pura e simplesmente. E
algo ocorreu. Algo... muito estranho e terrível. E foi
presenciado pela CIA, o que evidentemente era o desejo de
alguém. Pessoas que não respeitaram sua festa, Albert.
Receio que seu fim-de-ano vai ser bastante desagradável.
— Garanto que mais para você do que para mim.
— Refere-se à policia?
— Naturalmente, O homem que mataram era amigo de
uns amigos meus e, por isso, recebeu o convite. Mas você
não. Será um pouco difícil explicar este fato à polícia.
— Sim — murmurou Flor-de-Lótus. — Realmente seria
muito difícil... não, não precisamente difícil. Mas seria tão
complicado, que prefiro ir andando agora, antes da chegada
dos fiéis cumpridores da lei.
Albert Rockingham fechou a cara e colocou-se ante a
porta do escritório.
— Você não vai sair por esta porta — disse com
firmeza.
— Claro que não. Minha intenção era sair pela porta-
janela que dá para o jardim.
Dirigiu-se calmamente para ali, mas Rockingham
correu, cruzando velozmente o escritório, e cortou-lhe os
passos. Ao longe, ouviam-se já as sirenas da polícia.
— Você vai ficar aqui! — repetiu Rockingham.
— Por favor, sr. Rockingham, não me obrigue a
maltratá-lo. Seria penoso para mim... Vamos encerrar de
maneira cordial este encontro.
— Já disse que você não vai sair do escritório.
A gueixa encarou-o por alguns instantes, a testa
graciosamente franzida. Finalmente, soltou um suspiro de
desalento.
— Parece que você não me deixa alternativa, Albert.
Espero que mais tarde, quando refletir melhor, me perdoe.
Encaminhou-se para a porta-janela que dava para o
jardim. Rockingham segurou-a pela mão, fortemente. Sua
mão era grande, sólida, de atleta, quase três vezes a de Flor-
de-Lótus. Mas, como se costuma dizer em espionagem, nem
sempre dois e dois são quatro, e até mesmo muitas vezes
somam cinco. Com a mão que estava livre, a japonesinha
apertou, quase suavemente, o pulso de Rockingham: este
deu um grito e largou-a, mas imediatamente tentou segurá-
la pelos ombros. Para grande surpresa sua, aquela
mulherzinha delicada, que um segundo antes se encontrava
diante dele, estava já de costas, segurando um de seus
braços, que passou rapidamente pelos ombros, girando ao
mesmo tempo, ligeira, em direção ao meio da sala.
Inclinou-se violentamente. Albert sentiu um golpe no
estômago, um puxão violento no braço e viu-se atirado,
voando como uma flecha em direção ao sofá do escritório.
Caiu ali como um saco, revirou, foi ao chão, procurou
sentar-se e olhou desconcertado, quase aparvalhado, para
todos os lados.
Conseguiu, afinal, vislumbrar Flor-de-Lótus a ponto de
sumir pelo umbral da porta-janela que abria para o jardim.
Ela deu-lhe adeus graciosamente.
— “Sayonara” — disse sorrindo.
E logo se encontrava junto ao seu carro-esporte
estacionado rente à calçada, uma casa além do palacete,
depois de saltar as grades, conseguindo assim iludir
habilmente a polícia que já começava a invadir a casa.
A porta foi aberta e a gueixa sentou-se, soltando um
suspiro de fadiga. Encarou o homem que estava ao volante.
— Você está bem, Johnny?
— Perfeito — sorriu ele. — Achei que era melhor
afastar-me um pouco do palacete com seu carro, “Baby”. E
como tinha certeza de que não queria conversa com a
polícia, fiquei fazendo hora, a esperá-la. Dificuldades?
— Não sei. Parece que começaram a coisa a sério. Ora,
ora, ora... não é que o meu querido “tio Charlie” está aqui?
Charlie Pitzer, sentado ao lado da espiã internacional
mais esperta do mundo, soltou uns grunhidos como
resposta.
— Já estava aqui desde que você entrou no carro, não
viu?
— Claro que vi — riu Flor-de-Lótus. — Estava muito
preocupada com Johnny. Já contou para ele, Johnny?
— Já me contou tudo, enquanto esperávamos que
conseguisse fugir do palacete. Que diabo é esse robô? E
aquela descarga elétrica?
— É um caso muito especial. Pergunto a mim mesmo
que espécie de homem seria capas de agüentar ali dentro
naquele monte de ferro, caminhar, mexer com os braços,
lançar chamas, ver com as costas... Creio que preciso
meditar um pouco, tio Charlie.
— Pois pense. Tem... um minuto.
— Tanto tempo? — zombou a gueixa.
Tirou de debaixo do assento sua maleta vermelha com
flores estampadas. Da maleta, tirou um espelho, algodão,
um vidro com um liquido transparente. Fez Pitzer segurar o
espelho, molhou o algodão no líquido e passou rapidamente
pelo rosto, tirando a incomoda maquilagem. Em poucos
segundos, já se reconhecia quase completamente o rosto de
Brigitte Montfort. Mais algumas esfregaduras com o
algodão embebido e saíram os últimos resquícios. Tirou as
agulhas que prendiam o coque, deixando tombar os longos
cabelos negros, que ajeitou-os com os dedos. Em seguida,
tranqüilamente, despiu o quimono, ficando apenas de sutiã e
calcinhas. Guardou o quimono, tomou o casaco de peles que
estava no assento de trás e vestiu-o. Guardou a maletinha,
suspirou, e disse:
— Vamos para casa, Johnny!
— Com todo o prazer — disse rindo de admiração o
ajudante de Pitzer.
Mas este soltou outro grunhido.
— Já teve tempo de pensar?
— Um pouco — disse “Baby”. — Evidentemente,
queriam que a CIA estivesse presente durante a
demonstração de Alexandre. Ignoro por que. Outra coisa
evidente é que Alexandre e seus chefes não querem
inimizar-se conosco... Somente por isto, eu e Johnny
estamos ainda vivos.
— E tudo isto... para quê? Por quê? O que pretendem?
— Creio que teremos de esperar. E enquanto esperamos,
tio Charlie, quero que me descubra quem é o morto, a
vítima selecionada por Alexandre.
— Um convidado qualquer, não?
— Não acredito. Quero saber quem era este homem, se
americano ou estrangeiro, o que fazia nos Estados Unidos,
se tinha amigos... Tudo o que for possível saber sobre ele. E
com a maior urgência.
— E enquanto isto?
— Vou procurar celebrar da melhor maneira possível a
entrada do novo ano da graça de mil novecentos e sessenta e
oito... Que horas são?
— Vinte para a meia-noite — Informou Johnny.
— Tempo mais do que suficiente para chegar ao meu
apartamento, que está aqui perto.
— Vai passar o Ano Novo sozinha?
— Gostaria de divertir-me um pouco — concordou
Brigitte. — Mas, queridos, vocês dois têm muito que fazer,
para que possa saber logo quem era o “Cavaleiro
Fantasma”... Pode parar aqui mesmo, Johnny. E podem
levar o carro. Mais tarde, mando apanhá-lo.
O carro parou e Brigitte desceu, bem próximo ao
“Cristal Building”, onde era seu apartamento. Antes de
fechar a porta, sorriu para os dois.
— Feliz Ano Novo, é o que desejo!
***
Entrou no apartamento, fechou a porta, tirou o casaco de
peles, ficando só de calcinhas e sutiã, e dirigiu-se então para
o living.
— Peggy, já estou de volta. Prepare um... oh!
— Raios me partam! — gritou Frankie Minello,
deixando cair o copo que tinha nas mãos.
Estava de pé no centro da peça, com um cômico
chapeuzinho de plástico colorido. Parecia uma múmia todo
enrolado em serpentinas, e depois de soltar aquela
exclamação, tocou agudamente uma corneta que trazia.
“Cícero” estava deitado no sofá, com um grande laço de
seda vermelha no pescoço, enrolado também em serpentinas
e salpicado de confete, e logo se pôs a ladrar alegremente
quando viu sua dona. Peggy estava sentada em uma
poltrona e tratou de levantar-se, deixando uma taça de
champanha na mesinha.
— Miss Montfort... O senhor Minello entrou à força,
empurrou-me... Não pude impedi-lo, e disse que... que
preparasse tudo para a sua volta... E como não a ouvimos
entrar...
— Está bem, Peggy — disse sorrindo a espiã.
— Por que veio aqui, Frankie?
— Raios me partam!
— Raios te partam? É um novo método de viagem?
— Eu, eu, eu... Ora bolas! Puxa vida, estou tentando
dizer que vim apenas desejar Feliz Ano Novo. Feliz Ano
Novo!
E deu uma buzinada barulhenta. “Cícero” pôs-se a
ladrar, Peggy desandou a rir e Brigitte tapou os ouvidos.
— Está bem, está bem. Tomaremos uma taça juntos. É
preciso comemorar. Traz outra taça para o Frankie, Peggy.
— Pois não, miss Montfort.
— A televisão! — gritou Minello.
Correu para o aparelho e ligou-o. Peggy serviu mais
champanha para Minello, e encheu uma taça para Brigitte,
que a habituara a servir sempre primeiro aos convidados.
Naturalmente, não deixou de colocar uma cereja em cada
taça e Minello, erguendo a sua, saudou:
— Brindo à... — baixou a voz — espiã mais perversa de
todos os tempos!
Começaram a beber os três exatamente quando soou
meia-noite. Fim. Adeus a mil novecentos e sessenta e sete.
Um adeus alegre, já que, mais uma vez, a agente “Baby”
conseguira atravessar incólume, chegando viva àquela hora
final de um ano que morria. Aventuras em Benares, pelos
Estados Unidos de cima a baixo, na Venezuela, em Hong-
Kong, em Chamonix, na Guatemala, no Cairo, no Alasca,
nas ilhas do Caribe, num cruzeiro atlântico, na Turquia, em
Ausvânia, no Mississipi... Eram tantos os lugares, que não
conseguia recordar-se de todos. Tinha seus apontamentos, é
verdade, e qualquer dia... Sim. Qualquer dia desses,
terminaria de escrever seu livro intitulado “O Decálogo do
Espião”. E então contaria tudo, tudo...
Frankie Minello largou a taça e aproximou-Se de
Brigitte, segurando-a pela cintura nua.
— Solta-me, Frankie! — riu-se ela.
— Nada disto! É preciso receber o Ano Novo com um
beijo! Não tenho culpa se você me apareceu de calcinhas!
Abraçou-a com força e beijou-a nos lábios. Soltou-a e
pôs-se a tocar a cometa. “Cícero” tornou a ladrar, agitado de
alegria, quase histérico.
— Vou botar música na vitrola! — disse Minello.
— Frankie... Frankie, sinto muito. Mas você terá que ir
embora.
— Por quê? Apesar de estar quase nua e linda, não pedi
nada de mais, “Baby”. O resto virá depois, com o tempo.
Ei! Por que vai botar o casaco logo agora? Assim não vale!
Brigitte terminou de vestir o casaco de peles, ergueu a
taça e brindou:
— Feliz Ano Novo, Frankie... e boa-noite.
***

Pôs a camisola e deitou-se. Deixou-se estar ali,


pensativa. Um novo ano... Certamente devia agradecer por
estar viva ainda. Viveria parar celebrar o ano seguinte?
Acendeu um cigarro, refletindo. “Cícero”, como fazia
todas as noite, aconchegara-se num almofadão, a um canto
do espaçoso quarto, iluminado suavemente por uma leve luz
rosada. Era agradável estar ali. Celebrar um Ano Novo viva
e na companhia dos seres queridos. Era algo que valia a
pena. Entre os seres queridos? Por acaso estariam todos ali,
junto dela? Como teria sido diferente se, em vez de
enfrentar um robô chamado Alexandre, estivesse ali com
todos de seus amigos reunidos, em paz, sem nenhuma
missão a cumprir para a CIA, nem para ninguém! Como
seria bom se não fosse necessário existirem espiões no
mundo! Nem soldados, nem tanques, nem os mísseis e
antimísseis. Paz na terra aos homens de boa vontade... Seus
melhores amigos, cada um a seu modo, eram: John Pearson,
o melhor espião britânico, do MI5, apelidado “O
Fantasma”; Wilhem von Steinhell, vulgo “Alexandria”, o
mais fabuloso espião alemão de todos os tempos; Nataniel,
que ainda possuía seu pequeno país da América Central,
graças a ela. E Johnny — todos os Johnnies que em sua
companhia haviam arriscado a vida através do último ano.
Eram tantos! Muitos... muitos amigos. Bons amigos, que
dariam a vida por ela sem vacilar um momento.
Mas acima de todos... Acima de todos, o “Número Um”,
o homem que, traído pela CIA, vivia solitário no mundo,
sem outro amor senão o dela, sem amar a ninguém mais do
que a agente “Baby”. Por onde andaria naquele Instante?
Sozinho, sem ninguém para quem sorrir, sem ninguém a
quem amar...
Brigitte pegou a taça de champanha que estava na
mesinha de cabeceira e a levou aos lábios, murmurando:
— A todos! Por todos vocês, meus queridos amigos, o
primeiro gole do ano. A todos, estejam onde estiverem,
desejo felicidades, paz de espírito e longa e longa vida. —
Uma lágrima tombou na taça de champanha, mas a espiã
mais inflexível e dura do mundo estava sorrindo. — Para
todos vocês, com todo o meu amor... Feliz Ano Novo!
***
— Já estamos em 1968 — disse Heston.
Ninguém respondeu. Percy Fowler olhava turvamente o
homem estendido no catre da sórdida habitação subterrânea.
Aquele homem, duro como rocha, de rosto moreno, todo
golpeado e manchado, era o tipo mais surpreendentemente
difícil que encontrara. Tinha um queixo quadrado, sólido,
pétreo. E um ar vigoroso, varonil, duro. Sua atraente
masculinidade havia impressionado até a Margot, que,
como ele, olhava aquele rosto enigmático, agora recoberto
de uma finíssima camada de suor.
Junto à mesinha, ainda estava a enorme seringa com que
lhe haviam dado uma injeção na veia. Mas mesmo assim,
com aquele novo e potente soro da verdade, tinham lá suas
dúvidas a respeito dos resultados. Romeu conseguira
convencê-los de que possuía uma resistência física e mental
extraordinária. Já o haviam espancado até à exaustão,
submetido às mais diversas torturas e maltratado de todas as
maneiras possíveis... Mas não abrira a boca para dar um pio.
Era assombroso, incrível! Não poderia existir ninguém
assim tão fiel a seus amigos, à sua organização.
Um leve gemido escapou dos lábios de Romeu e Percy
Fowler consultou o relógio.
— Creio que está começando a fazer efeito —
murmurou.
— Penso que estamos perdendo tempo com ele — disse
Margot.
— É a última tentativa. Não podemos correr o risco de
alguém mais saber a respeito da loja de brinquedos e de nós
mesmos. Vamos lá ver o que está dizendo. Interrogue-o
você, Margot. E seja amável.
Ela concordou com a cabeça. Aproximou-se de Romeu e
passou a mão por sua testa, enxugando-lhe o suor.
— Romeu — murmurou. — Que está fazendo em Nova
Iorque?
— Nada, nada, nada...
— Romeu, não pode mentir para mim, que sou sua
amiga. Já se esqueceu de mim? Quem é você? O que está
fazendo em Nova Iorque?
— Romeu, viajante, turista... é isto que sou.
Percy Fowler cerrou as mãos.
— Está resistindo aos efeitos da droga! — disse irritado.
— Não é possível! Ele não passa de um ser
humano, Percy. Deixa-me prosseguir, por favor... Romeu,
está me ouvindo?
— Sim, querida. Sim, estou ouvindo-a muito bem...
— Não esqueceu de mim?
Um estranho sorriso, suave, que surpreendeu todo o
mundo, espalhou-se pelo rosto de Romeu.
— Você sempre... sempre com seu bom humor... Se me
recordo de você? Sabe muito bem que não me sal do
pensamento, em nenhum momento, durante toda minha
vida.
— Eu também só penso em você. Mas tenho receio que
esteja mentindo, que não se lembre mais quem sou.
— Está zombando de mim — riu com dificuldade
Romeu. — Você é a agente “Baby”, da CIA... A mais cruel
e perigosa mulher que existe, a invencível, a que nunca foi
humilhada. É cruel, fria como o gelo, dura como aço... É... o
meu amor. Meu único amor. Meu primeiro e único .......
— Veio a Nova Iorque para ver-me? — murmurou
Margot.
— Não exatamente... Mas antes de regressar a Malta,
desejo passar pelo seu apartamento, para vê-la mais uma
vez... pois você é a minha única alegria “Baby”...
— Por que veio a Nova Iorque?
— Em Viena... aconteceu um fato surpreendente... Uma
espécie de robô matou um funcionário da embaixada russa.
Foi... espetacular. Os russos me ofereceram cem mil dólares
para solucionar o caso, sem comprometê-los... Consegui a
pista de um homem e o segui até o aeroporto de Roma, em
Fiumicino. Consegui segui-lo até Nova Iorque e, aqui, até a
loja de brinquedos.
— Os russos, ou os austríacos, sabem alguma coisa
sobre este robô?
— Não. Não sabem nada... Toda a espionagem européia
está convulsionada com o acontecimento. Pensam que o
russo morto era um traidor... E a respeito do robô, ou seja lá
a que for... nada foi descoberto. Mas, eu estou em Nova
Iorque... Sim, estou em Nova Iorque e sei que... que o
acharei, que descobrirei tudo... Você conhece bem a vida de
espião, Brigitte... Um dia aqui, um dia acolá...
Aparentemente estamos desorientados... mas sempre
achamos uma maneira de seguir adiante... Os manequins...
havia uns manequins no porão... em um porão da loja de
brinquedos... Recebeu o ursinho? Um ursinho... grande —
sorriu abertamente Romeu. — Eu o enviei ao seu
apartamento em Nova Iorque.
— Tem certeza?
— Claro... Se algo me acontecer, sei que saberá... e
continuará meu trabalho... É maravilhoso poder estar
novamente com você. E é bem capaz que peça a sua ajuda.
Há uma ilha... mas não sei onde está... Uma ilha... Ah... eu
vi você pela televisão em circuito fechado. Fantasiada de
gueixa, e com o nome de Flor-de-Lótus — sorriu
novamente Romeu. — Como sempre, estava deliciosa, mas
claro, não conseguiu derrotar Alexandre... Alexandre é um
robô de verdade, “Baby” querida... Seus quatro olhos são
câmaras de televisão que, em circuito fechado, enviam a
imagem para a ilha de que falei... Há quatro telas que
recebem as imagens... Esse tal de Alexandre, o robô, é
uma... máquina destruidora que, controlada a distância,
envia instantaneamente as imagens para a ilha... Ora, eu já
falei isto antes... Há gente à minha volta... aquela espécie de
gente que você destruiria imediatamente... Tenho certeza de
que tudo será descoberto, que você descobrirá os seus
nomes. Eu já conheço Heston, Bolowsky, Mackenzie,
Margot Stevens, Percy Fowler... e um tipo chamado Aaron
Chandler, que parece ser o chefe... Tem ligações com a loja
de brinquedos... Agora me recordo...! Ali se constroem os
robôs e uns manequins extremamente perfeitos. São quase
idênticos a pessoas de verdade... e disparam gás... Sei que
vai encontrar a loja de brinquedos, eu sei...
Os interrogadores entreolharam-se alarmados. Percy
Fowler fez sinal para Margot prosseguir o interrogatório.
— Querido, diga-me exatamente quem sou eu.
— Outra vez? É claro que você é Brigitte Montfort,
trabalha para a CIA e no mundo da espionagem é conhecida
como a agente “Baby”...
— Sou de fato perigosa?
Romeu desandou a rir convulsivamente.
— É muito engraçado! — exclamou. — Se tem prazer
em que a elogiem, não tento nada a opor... Perigosa? Bem...
até agora ninguém conseguiu vencê-la, e você sabe muito
bem... nem ninguém a vencerá... como eu... Eu e você
somos invencíveis...
— O ursinho... Não recebi o ursinho, meu querido. Para
onde o mandou?
— Para o seu apartamento em Nova Iorque... para o
“Cristal Building”, ali no Central Par.... Talvez tenham
atrasado a entrega...
— Veio sozinho para Nova Iorque?
— Você sabe... que eu só ando sozinho, Brigitte. Sempre
só... com sua lembrança, com a sua imagem diante dos
meus olhos.
Margot Stevens afastou-se do catre e deixou que Romeu
prosseguisse delirando. Trocou um olhar de entendimento
com Percy Fowler.
— Bem, isto é tudo: Brigitte Montfort, aliás “Baby”,
apartamento no “Cristal Building”, em Nova Iorque. É
necessário recuperar a qualquer custo esse ursinho.
***
Brigitte deixou a taça de champanha na mesinha de
cabeceira e ficou contemplando o ursinho, colocado numa
cadeira.
— Você é um encanto, Nicanor! Espero que amanhã
venha me perguntar se eu o recebi. A você também desejo
um Feliz Ano Novo, naturalmente. Para todos, para todo o
mundo, Feliz Ano Novo!
E a agente “Baby’ adormeceu como uma menina.
SEXTO
Conversa violenta
Robôs de aluguel
“Baby” contra a CIA

Brigitte ergueu o olhar do livro, para dirigi-lo


amavelmente até aquele inesperado visitante matutino.
— Bom-dia, tio Charlie. Que tal está achando o Ano
Novo?
— Fatal — grunhiu Pitzer, jogando o chapéu para uma
cadeira.
— Viu? — disse sorrindo Brigitte. — Não se pode ser
espião! O que é que vai mal?
— Não consegui dormir toda a noite.
— Ora, muito bem, neste caso você está entre aqueles
que podem brincar dizendo que ficaram sem dormir por um
ano, ou sei a, de sessenta e sete a sessenta e oito.
— Eu não aprecio piadas tolas.
— Nem brincadeira de espécie alguma. De qualquer
modo, é necessário receber um novo ano sempre com
satisfação, pois é um ano a mais de vida. Mmmm... espero,
pelo menos, que esta noite de insânia tenha sido proveitosa.
Sente-se, por favor.
Charles Pitzer já havia sentado, no sofá, junto da espiã.
Soltou outro grunhido e encolheu os ombros, enquanto seus
olhos espertos não saiam das pernas de Brigitte, que estava
sentada à moda árabe, com uma camisola curta, azul-
celeste, embaixo da qual não trazia nada.
— Vou pedir-lhe um favor — resmungou Pitzer.
— Espero que não seja algum absurdo. Do que se trata?
— Quando eu vier visitá-la, não me receba com roupas
transparentes e coisas semelhantes... como este déshabillé,
por exemplo. Vejo quase tudo, e isto me deixa nervoso.
— Mas, na sua idade, ainda fica nervoso? —zombou a
espiã.
— Ainda estou vivo, não? — disse irritado Pitzer.
— Precisamente — “Baby” o advertiu, apontando-lhe
um dedo delicado. — Você ainda está vivo, tio Charlie.
Então, pelo amor de Deus, por que não procura apresentar
uma cara mais alegre?
Pitzer franziu o sobrolho e tentou sorrir,
desajeitadamente.
— Creio que você tem razão — admitiu. — Vou fazer o
possível para começar o Ano Novo sorrindo. Tem café?
— Eu tenho de tudo, Querido.
— Ora se tem! — e contemplou-a gulosamente na cama.
— Isto eu já sabia há muito tempo. Mas, como não acredito
que você me dê algo mais do que o café, quero é café
mesmo.
Brigitte sorriu e levantou o fone do gancho. Apertou um
dos botões e, quase imediatamente, fez-se ouvir a voz de
Peggy, gentil:
— Sim, miss Montfort?
— Mais café, Peggy, por favor.
— Estou justamente tratando disto no momento. Levo-o
agora mesmo.
— Ótimo. Obrigada, Peggy.
Pendurou o fone no lugar, acendeu um cigarro e deixou
o livro que estivera lendo sobre a mesinha. Encarou Pitzer,
desta vez seriamente.
— O homem morto chamava-se Roczac — começou a
contar Pitzer.
— Era conhecido por algum motivo especial?
— Sim. Fugiu da Hungria há mais ou menos um ano,
depois de pedir asilo político a uma das embaixadas
européias. É bastante provável que Vanio Roczac haja
desgostado profundamente os russos com esta fuga.
— Bem... Esta poderia ser uma das causas pela qual
Alexandre, o robô, o eliminou. Mas tenho minhas dúvidas
de que esta tenha sido uma operação russa, tio Charlie. Na
minha opinião, o assassinato de ontem à noite, de Vanio
Roczac foi... uma demonstração pública de força,
especialmente arranjada para a CIA. Quiseram
impressionar-nos, por alguma razão que não me ocorre no
momento. Naturalmente posso estar errada... O que acha?
Pitzer estava balançando a cabeça negativamente.
— Não, não está enganada, Brigitte. Na realidade,
convidaram a CIA especialmente para demonstrar-nos com
que facilidade e segurança é possível eliminar uma pessoa...
e fugir.
— Como sabe disto?
— Primeiro, vou contar-lhe um caso quase idêntico, que
aconteceu em Viena.
— Em Viena... Na Europa... Como soube disto?
— Pelos arquivos de Washington. O fato fora registrado
ali, mas naturalmente, não o haviam comunicado. Estariam
bem arranjados se tivessem que Informar todos os agentes
de tudo o que acontece na Central. Mas, deixe-me
prosseguir: Em Viena, Numa festa diplomática, um cidadão
russo, chamado Igor Polanov, foi assassinado diante de
mais de sessenta pessoas por um homem-manequim.
— Por um o quê? — exclamou Brigitte.
— Por um robô, mais ou menos parecido com
Alexandre, segundo a descrição que dele me fez Johnny. O
mais curioso do caso é que esse robô de Viena estava entre
os convidados, mas passeando pela biblioteca... Sempre em
lugares não muito movimentados. Súbito, no mais animado
da festa, foi diretamente para Igor Polanov e lhe meteu três
balas no coração. Depois, tranqüilamente, sem que ninguém
pudesse impedi-lo de maneira alguma, foi-se embora. Saiu
da embaixada, tomou um carro que passava justamente na
ocasião e desapareceu. Foi atacado com espadas
diplomáticas que acompanham os fardões e revólveres, mas
nada conseguiu feri-lo. Muito simplesmente, depois de
cometer o assassinato, foi-se embora.
— Um Instante, tio Charlie, um instante... Há um trecho
ai que não consegui entender. No caso de ontem à noite,
ninguém suspeitou de Alexandre ao vê-lo disfarçado de
robô porque estávamos numa festa a fantasia. Mas... em
Viena a festa também era a fantasia?
— Não.
— E ninguém percebeu que havia entre eles uma espécie
de robô, ou seja, um homem com armações metálicas ou
algo assim?
— Brigitte: o robô de Viena não possuía nada de
especial, era exatamente como uma pessoa.
— Bem... Talvez levasse debaixo da roupa um colete à
prova de bala...
— Acertaram vários tiros em sua cabeça e as balas
ricochetearam.
Brigitte inclinou a cabeça de lado, e passou uma
deliciosa lingüinha rosada pelos lábios macios, provocantes.
— E a cabeça do tal... homem parecia normal.
— Absolutamente normal.
Peggy entrou justamente naquele instante e Pitzer,
apesar de estar de cara amarrada, não desgrudou o olhar das
pernas da loura empregadinha, com as coxas a mostra ao
inclinar-se para servir o café. Brigitte lançou-lhe um olhar
irônico, mas não disse nada. Estava pensando... sem
conseguir chegar a nenhuma conclusão.
— Vamos deixar de lado os detalhes mais extravagantes
do caso, tio Charlie. No momento, parece-me o melhor.
Agora, explique-me esta história de que eu não estava
enganada, ao dizer que a demonstração foi feita sob
encomenda para a CIA.
— Em Washington receberam uma proposta.
— De quem?
— Não se sabem os nomes. Mas seguramente são os
proprietários de Alexandre.
— Ora vejam! Os proprietários do meu querido robô!
Que espécie de proposta foi essa?
— Bem... Façamos primeiro uma explicação preliminar.
Ouça: em certas ocasiões torna-se necessário, como você
sabe, eliminar determinada pessoa. E sabe muito bem, pois
você mesma em muitas ocasiões foi a agente indicada para
isso. Geralmente, são pessoas a quem convém eliminar,
quase sempre importantes em seu trabalho: políticos
perigosos, espiões, traidores, delatores... Todas essas
pessoas, naturalmente, estão a par do perigo que correm e
costumam tomar grandes precauções para continuar vivos...
Tais precauções dificultam o trabalho de eliminá-las. Não é
assim?
— Isto mesmo. E...?
— Suponhamos que a CIA enviou você para assassinar
um chefe de Estado. Vamos chamá-lo de X. Muito bem:
você recebe a ordem de matar X, vai para onde ele está,
dedica vários dias ao estudo do terreno, traça um plano... e
finalmente, com enorme risco de vida, põe o plano em ação.
Vamos deixar de lado as dificuldades que teria para chegar
até X. Vamos supor que já o matou. Mas... e depois?
— Depois?
— Sim, depois. Você sabe perfeitamente que, na maioria
dos casos, o maia difícil para o assassino é a fuga. Se é
morto durante a fuga, não acontece nada de mais, porque já
não poderá mais falar. Mas... se o apanharem vivo? Seria
catastrófico se de algum modo conseguissem fazê-lo
confessar que assassinara X, cumprindo ordens da CIA, não
está de acordo?
— Evidentemente.
— Muito bem: esse risco pode ser eliminado.
O rosto da agente “Baby” crispou-se momentaneamente.
— Enviando um robô? — perguntou.
— Exato — grunhiu Pitzer.
— Mas...
— Um momento. Procure compreender isto, Brigitte:
um robô é uma máquina dirigida a distância. Em primeiro
lugar, é quase invencível. Em segundo lugar, se for vencido
de alguma maneira, nada dirá, está claro. A conclusão
evidente é que cumpriu sua missão, sem nenhum risco
político ou pessoal.
— Pelo visto — disse Brigitte com voz tensa —, trata-se
de utilizar robôs para assassinar impunemente.
— Bem... realmente, é isto mesmo.
— Suponho que a CIA, a agência Central, haja recusado
a oferta. Em que termos foi feita?
— Aluguel dos robôs. Quando à CIA interessar a
eliminação de alguém, entrará em contato com um
representante dessas pessoas que os possuem, de uma
maneira que ainda não está decidida. A estas será informado
quem é a vitima, o nome de quem deve morrer, e lhes serão
pagos quinhentos mil dólares. É tudo. Evidentemente, a
CIA fica fora do assunto. Sem compromissos, sem perigo,
sem possíveis complicações diplomáticas.
— Entendo... Mas — tornou a insistir Brigitte, —
suponho que a CIA tenha repelido oferta tão monstruosa.
Charles Pitzer permaneceu calado. Encarou fixamente
Brigitte com um rosto inexpressivo, onde somente se viam
brilhar dois olhos astutos. A espiã pestanejou, abriu a boca,
tornou a fechá-la e seu rosto empalideceu visivelmente.
— Então aceitaram... — murmurou. — Aceitaram
tamanha monstruosidade!
— Até algo em contrário, sim — sussurrou Pitzer.
— Mas será que enlouqueceram? Tio Charlie, pelo amor
de Deus, entende o que isto significa?
— Não sei — grunhiu ele.
— Como, não sabe? Não refletiu nem um pouquinho
sobre isto?
— Meu trabalho não consiste em pôr em dúvida as
decisões de Washington.
— Você... você está-se convertendo num robô, também,
tio Charlie. Não entende como isto e estarrecedor?
Convidam a CIA para uma festa e lá, possivelmente pagos
por um serviçO de espionagem, que a esta altura já assinou
contrato com ele, eliminam Vanio Roczac, um homem cujo
único pecado foi escapar da Hungria. E aproveitam a
oportunidade para fazer uma demonstração gratuita diante
da CIA? E a CIA aceita contratar robôs para assassinar?
— Não sou eu quem toma as decisões.
— Mas eu sim! — disse quase gritando Brigitte, roxa de
raiva. — Eu tomo as minhas decisões! E vou...
— Você é uma agente da CIA. Sua missão é calar e
obedecer.
— Acredita nisso? — Brigitte pôs-se raivosamente de
pé, apontando para a saída do quarto. — Pode ir tratando de
dar o fora, tio Charlie! E peço que vá agora mesmo... Além
do mais, enviará a seguinte mensagem à Central, em
Washington: Esqueçam de mim para sempre. Assinado,
“Baby”.
Pitzer levantou-se, sombrio.
— Pense bem no que vai fazer, Brigitte!
— Pensar bem? Que entende você por “pensar bem”?
Admitir, por um instante sequer, a possibilidade de usar
robôs para assassinar? O senhor já imaginou o que ocorreria
no mundo se aceitássemos tal coisa?
— Você, sem ser um robô, já assassinou muitas pessoas.
— Mas coloquei minha própria vida em jogo. Matei,
mas estando disposta a morrer!
— Qual é a diferença?
— Arrisco algo que para mim vale muito, não é certo?
Ou acha por acaso que não aprecio minha vida, que não
tenho medo quando penso que vou morrer, que não
relembro em momentos críticos os meus amigos, o meu lar,
as douradas praias cheias de sol, a alegria de viver...? Está
me confundindo, por acaso, com um robô? E mais: você
sabe, melhor do que ninguém, que todas as pessoas que
morreram em minhas mãos mereciam morrer. Pode acusar-
me de haver feito justiça com minhas próprias mãos, de ser
muito pessoal nestes assuntos... pode me acusar de matar,
não de assassinar pessoas que não mereciam a morte.
— Estou de acordo com o que disse. Mas os robôs
também irão matar somente aqueles que merecerem.
— Tem certeza disto? — riu amargamente a espiã. —
Por favor! Não seja tão estúpido!
— Você já está passando dos limites, Brigitte — gritou
Pitzer.
— Não, senhor! Não estou passando de limite nenhum!
Estúpido, mil vezes estúpido! Quer que eu prove? É muito
simples: mande-me matar o Presidente dos Estados Unidos.
Acredita que eu aceitaria? Acredita que ele merece a morte?
Eu não o mataria, mas um robô, sim. Um robô receberia a
ordem e, friamente, iria à Casa Branca e mataria o chefe da
nação. E tudo isto porque alguém, seja lá quem for, pagou
quinhentos mil dólares pelos serviços de um Alexandre de
metal. Mas já não digo nem ao menos o Presidente dos
Estados Unidos... Qualquer louco, qualquer fanático,
poderia conseguir o que quisesse por quinhentos mil
dólares. Poderiam ordenar a morte de fosse lá quem fosse.
Do Papa Paulo VI, por exemplo. Também ele mereceria
morrer, porque um louco assim o determinasse?
Pitzer empalideceu. Pegou seu chapéu e encarou
soturnamente Brigitte.
— Eu obedeço ordens, e isto é tudo. A decisão de
contratar robôs para eliminar inimigos não é coisa minha.
— Já disse antes: você também se está transformando
em robô. Tenha cuidado tio Charlie já sabe que eu não
simpatizo com robôs. Em Buenos Aires, matei um homem
como você2.
Charles Pitzer empalideceu violentamente, ficou lívido
como um cadáver.
— Por acaso está me ameaçando... a mim, Brigitte? —
murmurou.
— Vá-se embora — a espiã deu-lhe as costas.
— Eu somente me limito a cumprir ordens, a decisão
não...
— Está bem. Mas vá embora. Não quero mais falar com
você... Nunca mais, a menos que esteja de acordo comigo e
me ajude a pôr abaixo esta decisão da CIA.
— Está ficando louca? — gritou Pitzer. — Será verdade
que pensa enfrentar a CIA?
Brigitte encarou-o. Seus lindíssimos olhos azuis, agora
frios como gelo, pareceram cravar-se nos dele.
— Eu sempre estarei contra quem não tiver razão, tio
Charlie. A mim, pouco importa que este alguém seja da
CIA, russo, chinês, ou você... Seja lá quem for que não
estiver com a razão, terá que se haver comigo, na medida
das minhas forças. Por isso sou espiã, por isso matei e
continuarei matando... Agora, vá-se embora. E diga a meus
queridos chefes de Washington que a agente “Baby” retira-
se da organização, a menos que eles desistam do propósito
de contratar robôs para, matar. Em vez disto, deveriam estar
me ajudando a localizar esses homens... e a destruí-los
completamente. Não deixarei escapar nem um só robô, nem
um só desses que os manejam, ou que têm alguma coisa a
ver com eles.

2
Novela intitulada OS ESPIÕES NÃO EXISTEM
— Pensa em prosseguir sozinha na tentativa de destruir
essa organização de aluguel de robôs? Pensa em enfrentar a
própria CIA?
— Se a CIA insistir em alugar robôs, lutarei contra ela.
Adeus, tio Charlie.
Pitzer acenou com a cabeça e saiu do quarto. Segundos
depois, ouviu-se fechar a porta do apartamento,
suavemente. Peggy, que ficara paralisada diante da
discussão, ornava estupefata para a espiã, que disse
zangada:
— O que é, Peggy?
— Mas, miss Montfort... contra a CIA! — murmurou
esta, em pânico.
— Se está com medo de alguma coisa, pode ir embora.
Não temo a solidão, Peggy.
— Eu... eu... sempre estarei ao seu lado, aconteça... o
que acontecer...
— Perdoe-me — disse sorrindo novamente Brigitte. —
Sinto muito, Peggy.
— Não precisa desculpar-se comigo.
— Por que não? Porque trabalha para mim? Isso não tem
importância... Eu também trabalho... ou melhor, trabalhava
para a CIA e acabo de abandoná-la. E se não está de acordo
comigo tem todo o direito de abandonar-me.
— A razão deve estar de seu lado, miss Montfort. Como
sempre. Eu só sairei daqui se me mandar embora.
— Bem... — disse quase rindo a espiã, já mais calma. —
Espero que dentro de alguns anos... muitos anos,
formaremos as duas um par de velhinhas resmungonas.
Mas, até o momento, nós duas somos jovens e bonitas. Não
é assim?
— É assim — sorriu Peggy, aliviada.
— Então, não vamos nos aborrecer com mala nada. Os
desgostos prejudicam a, beleza. Oh! Seria terrível que
surgissem rugas em nossa idade primaveril, você não acha?
Peggy pôs-se a rir, se bem que nervosamente. Mas, na
verdade, ter contato com a agente “Baby”, mesmo como
patroa, provocava sempre momentos de alegria!
— Vou para a cozinha...
Ouviu-se, então, a campainha da porta. As duas se
entreolharam.
— Vá abrir. E tomara que sei a o tio Charlie, que se
arrependeu e vem pedir desculpas de nossa conversa
tempestuosa.

SÉTIMO
Segundo round
A morte passa perto
O assassinato de Nicanor

Peggy saiu do quarto e Brigitte voltou a sentar-se no


sofá, retomando a leitura interrompida. Sua Irritação
diminuíra e agora somente permanecia na fria e firme
determinação de persistir em sua atitude, gostassem ou não
o tio Charlie e a CIA.
Ouviu as batidas dos tacos dos sapatos de Peggy
afastando-se e procurou abstrair-se na leitura, nem que fosse
por alguns segundos, para acabar de acalmar-se. Tinha um
grande domínio sobre si mesma e sabia que o conseguiria.
Nem ouviu o barulho da porta ao abrir-se.
Mas ouviu, sim, o grito bruscamente entrecortado de
Peggy. E, logo após, o ruído da porta batendo.
Pôs-se de pé num salto, saiu do quarto e ia chamar por
Peggy, mas a tempo, calou-se e correu ao quarto de dormir.
Abriu o armário, tirou da caixa sua pistolinha de cabo de
madrepérola e voltou a toda a pressa para o salão de
entrada, sem fazer o menor ruído. Estava já alcançando a
porta do corredor, quando parou de chofre.
Ouviu, então, passos meio lentos e pesados, e uni
homem surgiu no umbral. Ficou ali, imóvel, com seus
estranhos olhos fixos nela.
— Bom-dia, miss Montfort — cumprimentou.
Brigitte levantou o revólver e apontou-o para o peito do
homem. Do homem? Aquilo seria um homem? Nem sequer
havia movido os lábios ao falar. Seus olhos não tinham
expressão alguma. Seu rosto era liso, firme, frio... Vestia-se
corretamente, normalmente; trazia luvas... Estava
impecável. E tinha um chapéu escuro na cabeça.
Aquilo não era, o rosto de um homem, mas de um
manequim, de expressão rígida, olhos vítreos. O cabelo
podia convencer, mas não o rosto. Talvez na rua, se não
chegassem perto, pudesse passar por um homem normal.
Mas não ali em seu apartamento, com a luz do sol batendo-
lhe em cheio, vindo da enorme janela. Era um manequim.
Um robô.
“Baby” Montfort empalideceu e baixou lentamente o
revólver.
— Uma atitude inteligente, agente “Baby” — disse o
robô.
— O que aconteceu com minha empregada?
Está viva, não se preocupe. Só foi necessário dar-lhe um
golpe, se bem que receie ter que matá-la também, para
garantir o segredo.
— E quanto a mim?
— Lamento dizer-lhe que venho para matá-la — o robô
deu um passo adiante. — Esta é justamente a ordem
principal que meus circuitos receberam.
— Ontem à noite Alexandre teve oportunidade de matar-
me e não o fez, O que foi que aconteceu para mudarem de
idéia?
— Os fatos se modificaram, naturalmente. Ontem à
noite você não representava perigo algum para nós. Ao
contrário, nos interessava muito viva, para informar a CIA a
respeito do bom funcionamento e grande eficiência de
Alexandre. Mas, sem nenhuma dúvida, agora você se
constitui numa ameaça.
Brigitte recuou um passo.
— Numa ameaça? — murmurou. — Por quê? Segundo
sei, vocês já chegaram a um entendimento com a CIA. E eu
sou da CIA.
— Um acordo preliminar, somente. Parece que
aceitaram a nossa... colaboração, depois de discutirmos um
certo número de pontos do máximo Interesse. Um destes
pontos é justamente o sistema que a CIA terá que utilizar
para entrar em contato conosco. O outro é que jamais
tentarão localizar nossa base. Simplesmente, eles nos
chamarão e nós apareceremos... Um enviado especial
aparecerá, normalmente. Ou seja, um robô, senhorita
Montfort. Está convencionado que a CIA dará instruções a
este robô, a fim de que cheguem canvenientemente a ambas
as partes. Se a CIA tentasse apoderar-se do robô, este
explodiria e não serviria para mais nada. Creio que você
compreendeu perfeitamente. Nós somente os alugamos.
Não os vendemos.
— Até agora não me disse por que eu represento um
perigo para vocês.
— Porque poderia localizar-nos. E mesmo correndo o
risco de desgostar um pouco a CIA, teremos que eliminá-la,
para evitar a localização de nossa base.
— Está enganado — Brigitte retrocedeu mais um passo.
— Como poderia eu localizá-los? Não tenho nenhuma
pista...
— Mas nos falaram com demasiado entusiasmo de você,
Brigitte Montfort. A agente “Baby” é perigosíssima... Além
do mais, a vimos atuar ontem à noite contra Alexandre, com
o machado, com o revólver, com o carro... Parece ser
verdade que você é uma mulher perigosa.
— Se me matar, a CIA não vai gostar nada.
— Somente um pouco — admitiu o robô. — Mas os
nossos serviços substituirão amplamente os seus. Quando
começarmos a trabalhar para a CIA, a agente “Baby” será
então um elemento... obsoleto. Compreendeu?
— Quem á você? Onde está?
— Aqui, naturalmente — debochou o robô.
— Não... sua voz é a mesma de ontem à noite... A voz
de Alexandre. Você está escondido em algum lugar,
dirigindo por controle remoto essa... geringonça que tenho
diante de mim. Por detrás dos olhos do robô, estão câmaras
de televisão... como as quatro que Alexandre tinha ontem à
noite, uma de cada lado da cabeça... Então, pensava que
havia um homem dentro, mas não... Tenho diante de mim
um verdadeiro robô.
— Muito aperfeiçoado, certamente — disse ele. — Você
está percebendo tudo muito bem, Brigitte Montfort.
— Este robô também tem quatro olhos?
— Não, não... teria chamado atenção demais na rua.
— É igual ao utilizado em Viena?
Da boca do robô escapuliu uma exclamação de espanto:
— Oh, você está de fato muito bem informada!
— Nem tanto como desejaria, senhor... senhor...
— Alexandre... simplesmente, Alexandre. Não lhe
parece um belo nome para um robô?
— Qualquer nome é bonito, Alexandre. Quero dizer...
Sr. “Circuito Fechado de Televisão”. Você está me vendo
perfeitamente, a distância. Diga-me uma coisa: como
conseguiu localizar-me? E não me diga que ontem à noite
puderam me reconhecer de alguma maneira.
— Oh, não! Um amigo seu teve a amabilidade de nos
informar devidamente.
— Se fez isto, então não é meu amigo.
— Pois ele insiste que sim. E muito. E atida mais... ele a
ama profundamente. E, pelo que ouvimos ultimamente,
você também o ama, até o ponto de, em várias ocasiões, tê-
lo demonstrado de uma forma bastante real e completa.
Você já me entendeu, não necessito falar mais claramente.
— Quem é este homem? Você está mentindo.
— Disse chamar-se Romeu, mas naturalmente, não diz a
verdade. É alto, atlético, rosto bronzeado e viril, muito
atraente. Tem mãos grandes, de nervos salientes, que
parecem de um artista, mas são muito fortes. Cabelos cor de
cobre, olhos muito negros. Nem um só detalhe para
identificá-lo. Nem documentos, carteira de chofer, ou carta,
ou uma chave ao menos. É um profissional perfeito de
espionagem, pelo visto. Já conseguiu identificá-lo?
— Não — mentiu Brigitte.
— Sem dúvida que sim, pois ficou pálida... Estou
convencido de que já sabe quem é o homem que temos
prisioneiro.
— Mentira.
— Não acredita que o tenhamos prisioneiro? Por quê?
— Porque ele jamais diria como me encontrar. Nunca,
nunca!
— Pois a denunciou. Claro que, para não enganá-la
demais, direi que tivemos de recorrer a um novo tipo de
“soro da verdade”. Pela violência não conseguimos nada.
Acredita agora?
— Vocês não seriam capazes de mantê-lo prisioneiro.
Por isso, não pode ser a pessoa que penso. Deixe-me vê-lo
e, se for ele, confirmarei.
— Vê-lo? — riu o robô. — Impossível, miss Montfort.
Para tanto, teria que ir à nossa base e isto, precisamente, é o
que queremos evitar. Bem, creio que já conversamos
bastante. Por favor, o que fez do ursinho?
— O ursinho... — sussurrou Brigitte; e então sorriu. —
Agora compreendo tudo. Ele me enviou uma pista. Disse-
me onde poderia encontrá-lo, por intermédio do ursinho.
— Peço-lhe, por favor, que me entregue esse ursinho
imediatamente. Não me obrigue a matá-la primeiro e depois
destruir o apartamento. Vamos fazer as coisas com limpeza,
miss Montfort.
— Sim, tem razão. Vou buscá-lo no quarto.
— Eu irei junto.
— Não é necessário.
— Miss Montfort, não tenho medo de seu revólver, mas
sim de sua esperteza. Vou preveni-la claramente: no
momento em que tentar algo que não me agrade, eu a
matarei. Somente de sua conduta depende que façamos as
coisas bem ou de um modo... brutal.
— Suponho que devo agradecer-lhe — disse
ironicamente a espiã.
— E por que não? Afinal de contas, não é todo mundo
que tem o privilégio de poder escolher a maneira de morrer.
Acho-a bonita demais para morrer de uma maneira feia.
Antiestética.
— Um balaço é sempre antiestético.
— Certamente. Prefere gás venenoso?
— Não está mal.
— Ao menos sua beleza permanecerá intacta.
— É um detalhe muito delicado. Bem, vamos até o meu
quarto — voltou a olhar ironicamente para o robô. — É
uma pena que você não possa... bem, quero dizer, é uma
pena que você não passe de um robô. Assim poderíamos...
chegar a um acordo.
— Talvez. Por favor. O ursinho de pelúcia.
Entraram no quarto da espiã, o robô rente a ela.
— Ai está, na cadeirinha — apontou Brigitte.
O robô aproximou-se da cadeira e pegou o ursinho
Nicanor, “Cícero” pôs-se a ladrar alegremente, como
entendendo as intenções daquele desconhecido, de carregar
o ursinho, o que segundo pensava faria restar somente ele
no coração de sua ama.
— “Eu te amo” — disse Nicanor, nos braços do robô.
— Não é formidável? — exclamou Brigitte.
Mas ao mesmo tempo levantou o revólver. O robô já
havia dito que não temia o revólver, mas sim sua astúcia... e
sabia muito bem o que estava dizendo. Apenas acabou de
voltar-se de frente para ela, “Baby” apertou o gatilho de sua
pequena automática, agradecendo mais do que nunca o
maravilhoso dom natural que possuía: um pulso firmíssimo,
uma pontaria infalível.
E, com efeito, a bala acertou em cheio no olho direito do
novo Alexandre, estilhaçando-o em mil pedaços de cristal.
A resposta não se fez esperar: Alexandre levantou o braço
direito e três balaços partiram de sua mão, queimando e
perfurando a luva. Mas Brigitte já havia saltado até a porta
do quarto, deslizando pelo chão encerado.
As balas ricochetearam no parque brilhante e foram
cravar-se na parede. Já no umbral da porta, a espiã voltou-
se, fez mira rápida no robô e decidiu não disparar, porque
naquele momento o imperturbável Alexandre não estava a
jeito para que ela. pudesse atirar-lhe no olho esquerdo.
Arrastou-se para fora do quarto, pôs-se em pé e tratou de
correr, com o robô caminhando pesadamente atrás dela e
lançando jatos de chama, dos quais desviava-se agilmente.
Conseguiu alcançar o vestíbulo, ágil e veloz como um
pássaro. Tomou Peggy pela mão e levou-a de qualquer
maneira para o interior do apartamento, de chão
imaculadamente encerado. Sabia que podia carregar Peggy
no ombro, sair correndo e, assim, escaparem ambas do robô.
Mas isto não seria conveniente de maneira nenhuma.
Um argumento convincente contra aquela possibilidade
seria a presença de outros robôs, ou outros homens, no
edifício, à sua espera. E esta seria uma situação muito
perigosa.
O outro motivo, fundamental para ela, que havia
decidido cortar suas relações com a CIA, era recuperar o
ursinho Nicanor de qualquer modo, pois era a única, pista
que possuía. E o recuperaria, ainda que tivesse de lutar
contra um robô invencível. Era o segundo round.
Mas, antes de qualquer coisa, precisava deixar Peggy sã
e salva. A coitada estava com a cabeça coberta de sangue e
tinha o rosto muito pálido.
Recebera uma pancada, mais nada... Mas se Alexandre a
encontrasse agora, a mataria sem hesitação.
Continuava a ouvir os pesados passos do robô e tratou
de levar Peggy para a cozinha. Abriu a porta da despensa,
colocou a moça ali e, antes de fechá-la, apertou um pequeno
botão que estava rente ao solo com a ponta de sua exótica e
elegante chinela. Ouviu-se um curto ruído elétrico e de um
lado do batente da porta surgiu uma placa de aço, cuja
grossura não devia ser menor a um quinto de polegada. Pelo
menos uma vez estava prestando serviço aquele esconderijo
que mandara fazer para emergências. Instalado após a
desagradável experiência que tivera ao cortar o ultimo
tentáculo de “Octopus”3.
Esperou que a placa de aço fechasse por completo,
apesar de ouvir cada vez mais próximas as passadas de
Alexandre. Ao mesmo tempo, ouviu um chiado que
identificou imediatamente: gás. Bem dúvida nenhuma, gás
mortal.
De olhos muito abertos, realmente assustada com o que
parecia um desenlace fatal daquele encontro, ficou
paralisada por um segundo, incapaz de reagir.
Mas logo reagiu. Trabalhando ou não para a CIA, ela
continuava a ser a agente “Baby”. Precipitou-se para a
janela mais próxima, que dava para Manhattan. Abriu-a e

3
Novela O ÚLTIMO TENTÂCULO
passou rapidamente para fora, estremecendo de frio. O
primeiro dia de janeiro, em pleno inverno, não era o mais
apropriado para passear de camisola pela cornija de um
vigésimo sétimo andar. Uma rajada de ar gelado e úmido
fez esvoaçar a curta camisola transparente e os cabelos
negros da espiã mala valente do mundo, quando saltou para
a plataforma da escada de incêndio.
Estava de joelhos, quando viu de relance Alexandre
entrando na cozinha. Rapidamente, escondeu-se a um lado
da janela. Ouviu passadas que se aproximavam e pensou
que teria que descer velozmente, com risco de cair. Um
simples escorregão, fácil de ocorrer com aquelas pantufas
tão bonitas, mas tão pouco práticas para fugir, significava
uma espantosa morte vinte e sete andares abaixo.
Pela janela saiu um forte cheiro de gás, mau Alexandre
havia parado.
Brigitte procurou tapar o rosto de qualquer jeito,
levantando a camisola. Esperava que nenhum vizinho
tivesse a idéia de olhar para ali naquele momento, pois teria
uma grande surpresa e, com toda a certeza, interferiria,
levando em conta a situação da linda vizinha, miss
Montfort.
Sentiu-se tonta com o gás e compreendeu que, se não
escapasse logo dali, morreria ou do gás ou da queda causada
pela tontura. Mas, estranhando a passividade de Alexandre,
arriscou uma olhada rápida pela janela, até o Interior da
cozinha.
O monstro artificial estava parado diante da porta de
aço, e de sua mão brotava um fino jato de fogo, azulado,
dirigido contra a, placa.
Brigitte afastou-se imediatamente do gás que saía da
janela, e, mesmo tonta, conseguiu entender o que fazia o
robô. Havia visto a janela aberta, mas levando em
consideração sua esperteza, chegou à conclusão que não
havia escapado por ali, arriscando a vida, mas que abrira, a
janela para enganá-lo, escondendo-se em seguida por detrás
da placa de aço... que ele agora estava perfurando,
lentamente.
Bem... Não encontraria ali a agente “Baby”, mas sim sua
fiel empregada, a pobre Peggy. E o monstro ainda tinha um
olho. Se ela entrasse, seria vista e, então...
Os olhos azuis da espiã contemplaram a larga cornija
que rodeava o edifício. Podia escolher o caminho da escada
de Incêndio, descer até o outro apartamento e tornar a
subir... com a pistola na mão, de camisola, sendo obrigada a
dar explicações e deixando que o robô fosse visto por outras
pessoas. Se fizesse isto, miss Montfort, a simpática
jornalista do vigésimo sétimo andar, ganharia uma nova
dimensão para os vizinhos do “Cristal Building”. Haveria
comentários, falatórios... E a polícia...
Era ou não era uma agente secreta?
Pois, então, não restava mais que o caminho da cornija.
Grudou-se a ela, de costas, olhando para a frente. Não
queria, nem devia, olhar para baixo. O ar agitava seus
cabelos, suas roupas leves... O frio parecia materializado em
milhões de agulhas que se cravavam em sua carne. E se por
acaso soprasse uma rajada mais forte? Seria arrancada da
cornija? Mas agora já estava deslizando por ela, de lado,
lentamente. Deixara as pantufas na escada de Incêndio e
seus pés sentiam o frio intenso do cimento, sua aspereza.
Levou quinze segundos para alcançar a outra janela do
apartamento. Quinze segundos... ou quinze séculos?
Sem vacilar nem mais um segundo, quebrou o vidro com
a pistola, de maneira que sua mão e parte do braço
penetraram pelo buraco na janela no quarto de Peggy.
Cortou-se em alguns pontos do braço, mas nem ligou para
os pequenos filetes de sangue que escorriam. Tratou de
enfiar o braço e conseguiu abrir a janela, saltando para
dentro do apartamento.
Deixou o quarto de Peggy, cautelosamente. De imediato
notou o intenso cheiro de gás e fechou a porta. Arrancou um
lençol da cama de Peggy e dobrou-o várias vezes. Encheu
ao máximo os pulmões de ar e tapou a boca, o nariz e os
ouvidos. Saiu disparada do quarto, até o corredor,
alcançando o pequeno salão e logo chegando ao quarto de
dormir.
“Cícero” estava inerte a um canto. Ao que parecia, o gás,
se bem que com menor intensidade, havia chegado até ali.
Mas não podia perder tempo com o cãozinho “Chihuahua”,
mesmo a contragosto.
Abriu o armário, levantou o fundo falso e tirou uma
máscara contra gases. Foi até a janela, escancarou-a e
colocou a máscara rapidamente. Depois, já sem perigo de
vida no momento, pegou “Cícero” e pôs a mão sobre seu
coraçãozinho... que ainda batia fracamente.
Levou-o até a janela e deixou-o ali, para que recebesse
ar fresco. Depois abandonou o quarto, fechando a porta,
evitando a entrada de gás. E, protegida pela máscara,
dirigiu-se para a cozinha, sem vacilar. Não haviam passado
ainda quinze minutos desde que Peggy demonstrara sua
lealdade Irredutível. E isto, evidentemente, merecia uma
plena correspondência da parte dela, agente “Baby”.
Quando chegou à cozinha, com a pistola preparada, o
robô ainda estava utilizando o jato de fogo contra a placa de
aço, um objeto assustador e imóvel.
— Alexandre.
O fogo deixou de brotar da mão esquerda do robô, que
se voltou para a porta da cozinha.
Plop.
O outro olho saltou também em estilhaços pequenos de
vidro. Conseguira cegar seu inimigo!
O robô disparou várias vezes, mas a agente “Baby” já
havia sumido da porta da cozinha. E quando o robô,
tropeçando em tudo, surgiu no umbral, “Baby” chamou-o
docemente:
— Alexandre, querido...
O robô girou na direção da voz e tomou a disparar. Mas
com certeza estava cego, rebentadas que tinham sido pelos
balaços certeiros as objetivas de suas câmaras de televisão...
— Alexandre...
Voltou-se novamente o robô, disparando várias vezes.
Parecia furioso e também seu braço esquerdo entrou em
funcionamento, lançando chamas enormes que abrasavam o
papel das paredes.
— Estou aqui, robô.
A cadeira chocou-se contra as costas do robô, que
cambaleou levemente. Voltou-se e, sempre às cegas,
encaminhou-se outra vez para a cozinha, guiado unicamente
pela voz de Brigitte, pelos dois disparos que esta dera em
seu peito, mesmo sabendo que eram inúteis. E, já na
cozinha, a espiã o chamou, junto da janela, O robô cego
adiantou-se, imperturbável. Isto demonstrava que quem o
manejava dispunha de um perfeito domínio acústico e ainda
se utilizava dele. Queria eliminar a agente “Baby” a
qualquer custo.
Esta, depois de atraí-lo em direção à janela, esgueirou-se
silenciosamente pelo lado, em sentido contrário, rumo à
porta da cozinha, enquanto o robô encaminhava-se
inabalável para a janela. Chegando ali, tropeçou no peitoril.
Cambaleou por instantes, estremecendo-se todo... e recebeu
pelas costas um violento empurrão dado pela espiã. Uma
chama azulada percorreu todo o corpo de Alexandre, mas
Brigitte já havia afastado as mãos... e o corpo invulnerável
caía para a frente, em direção à escada de incêndio, num
movimento inevitável. A parte superior do robô pesava mais
do que a inferior e suas pernas, ao baterem contra o peitoril,
fizeram com que o tronco pendesse para fora. Seus pés
resvalaram, ergueram-se do solo... e o robô, incendiado de
azul, caiu na plataforma metálica, provocando uma vivida
luz, que relampejou acima e abaixo pelas paredes do
“Cristal Building”. Instantaneamente tudo terminara. O
robô pareceu saltar como uma rã, chamuscado, enegrecido
e, num arranco, tombou da plataforma para o vazio... da
altura de vinte e sete andares.
Mas não chegou a alcançar o solo, pois se desintegrou
violentamente no ar, espalhando fragmentos metálicos
contra as janelas e as paredes do prédio.
Brigitte tirou a máscara de gás e apoiou-se no peitoril,
resfolegando, exausta. Ouviram-se vozes, exclamações.
Retirou-se imediatamente dali, escondendo-se. Haveria
investigações, perguntas aos vizinhos. Pois muito bem. Ela
não sabia de nada. Como todos os moradores do “Cristal
Building”, havia notado o relâmpago azul, ouvira uma
explosão... e isto seria tudo. Trataria de disfarçar alguns
pontos do apartamento.
Apertou o botão da porta da despensa, e a placa de aço
abriu-se lentamente.
Tirou dali Peggy, que continuava inconsciente, e levou-a
de rastos para o banheiro. Quando chegou ali, “Cícero”,
cambaleando e ganindo baixinho, apareceu no corredor.
***
— Calma, Peggy — disse-lhe sorrindo Brigitte. — Já
está bem.
Peggy acordou e sentou-se no sofá. Levou as mãos à
cabeça, tocando as ataduras de gaze; uma dor aguda naquela
região fez com que retirasse rapidamente as mãos.
— Miss Montfort...
— Já está tudo bem, Peggy.
— Um homem... era um homem horrível...
(...)
[Brigitte corre para o ursinho e com uma faca começa a
abri-lo]4.

4
Na publicação digitalizada faltam as últimas páginas.

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