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As desigualdades multiplicadas

As desigualdades multiplicadas*

François Dubet
Université Segalen, Bourdeaux, France. CADIS, EHESS, Paris, France

Tradução : Maria do Carmo Duffles Teixeira


Revisão Técnica: Léa Pinheiro Paixão e Maria José Jacques G. de Almeida

Podemos assumir duas posições com relação às algumas se reduzem enquanto outras, ao contrário,
desigualdades: tentarmos descrever as desigualdades, se ampliam. Esse movimento não é simples conse-
suas escalas e registros, seu crescimento e sua redu- qüência da globalização e se encontra no centro de
ção, o que supõe, para não ficarmos em generalidades, nossa vida social e de suas tensões. É preciso tam-
escolhermos uma dimensão particular, como o consu- bém situá-lo na experiência dos atores ou de alguns
mo, a educação, o trabalho;1 ou também analisarmos deles, para que daí possamos tirar algumas conclu-
as desigualdades como conjunto de processos sociais, sões no âmbito da análise sociológica. Se quisermos
de mecanismos e experiências coletivas e individuais. escapar do simples recenseamento, ainda que críti-
No primeiro caso, corremos o risco de sermos preci- co, é preciso transformar as desigualdades num objeto
sos e sem perspectivas e, no segundo, de sermos va- sociológico, talvez mesmo num objeto de filosofia
gos, mesmo tentando esclarecer certos aspectos da política, já que, nesse campo, a relação com os valo-
natureza das sociedades em que vivemos. res e com a política está sempre vivamente presente
Escolhi a segunda perspectiva, tentando mostrar nas teorias.
a dupla natureza das desigualdades, dentre as quais
1. A dupla face da modernidade

Se consideramos a tradição sociológica como a


* “Les inégalités multipliées”, texto da conferência proferida
no XVI Congrès International de l’Association Internationale des
construção de uma representação e de uma descrição
Sociologues de Langue Française (AISLF), na Université Laval, da modernidade, é possível distinguirmos dois gran-
Québec, Canadá, em julho de 2000. Publicado posteriormente por des eixos, duas afirmativas gerais que transcendem
Éditions de L’Aube, França, em 2000. diferentes autores e que não são contraditórias na me-
1
Para um balanço desse tipo, cf. A. Birh, R. Pfefferkorn, dida em que evidenciam uma das tensões essenciais
Déchiffrer les inégalités, Paris, Syros, 1995. da modernidade.

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1.1 A primeira das descrições, representada por as sociedades democráticas, no sentido de Tocqueville,
Tocqueville, identifica a modernidade e o próprio sen- conseguiram, pouco a pouco, fazer recuar as desigual-
tido da história com o triunfo obstinado da igualda- dades de castas e ordens, a escravidão, a ausência de
de. Essa igualdade não constitui a descrição empírica direitos políticos, a marginalização das mulheres, as
da pura igualdade real das condições de vida, mas sim aristocracias de berço. O self made man só pode ver-
a extensão de um princípio: o da igualdade dos indiví- dadeiramente vencer nas sociedades igualitárias.
duos a despeito e para além das desigualdades sociais
reais. Isso equivale a dizer que, na modernidade, os 1.2 A segunda face da modernidade é representa-
indivíduos são considerados cada vez mais iguais e da por Marx. Para ele, as desigualdades de classes
que suas desigualdades não podem encontrar justifi- são um elemento fundamental, estrutural, das socie-
cativa no berço e na tradição. As castas e as ordens se dades modernas – quer dizer, das sociedades capita-
enfraquecem e as classes se impõem como um critério listas. À medida que o capitalismo repousa sobre um
de desigualdade produzido pela própria ação dos indi- mecanismo de extração contínua da mais-valia a par-
víduos no mercado. De outro modo, essa descrição re- tir do trabalho e, sobretudo, em que implica o investi-
mete à que propõe Louis Dumont quando distingue as mento de uma parte crescente das riquezas produzi-
sociedades holísticas das sociedades individualistas, das, a oposição entre os trabalhadores e os donos do
as primeiras privilegiando as desigualdades coletivas, investimento, entre o trabalho e o capital, faz das desi-
tidas como “naturais”, e as outras concebendo as desi- gualdades sociais um elemento funcional do sistema
gualdades como o produto da competição entre indiví- das sociedades modernas.
duos iguais.2 Essa análise é bem mais que uma simples denún-
Na prática, essa interpretação da modernidade cia, de resto banal, das desigualdades, porque acarreta
significa que as desigualdades justas, naturais, resul- uma abordagem da vida social a partir das desigualda-
tam do achievment, da aquisição de estatutos e não des e das oposições entre as classes sociais.3 Bem além
mais da herança e das estruturas sociais não igualitá- da simples filiação marxista, as classes e as relações
rias em seu princípio. Significa, também, que há uma de classes se tornaram o objeto central da sociologia.
tendência de os indivíduos se considerarem fundamen- As classes e as desigualdades de classes são não só
talmente iguais, podendo legitimamente reivindicar a aquilo que precisa ser explicado, mas são, sobretudo,
igualdade de oportunidades e de direitos, reivindica- o que explica a maior parte das condutas sociais e cul-
ções estas capazes de reduzir as desigualdades reais. turais. Durante aproximadamente um século, a expli-
Desse ponto de vista, a igualdade é um valor e as desi- cação das condutas pela posição social dos atores se
gualdades injustas, ainda por definir, aparecem como impôs como a prática profissional mais elementar dos
um escândalo. É claro que o cenário descrito por sociólogos. As classes e as desigualdades de classes
Tocqueville foi amplamente confirmado: as socieda- se tornaram, assim, uma espécie de objeto sociológico
des modernas são igualitárias, na medida em que es- total. As classes definem grupos de interesses objeti-
tendem o direito à igualdade, sobretudo o direito à vos e suscetíveis de superar o egoísmo dos interesses
igualdade de oportunidades, aceitando, em termos individuais através de uma consciência de classe. Essa
normativos e políticos, as desigualdades, desde que não superação tornou-se possível pelos modos de vida que
impeçam os indivíduos de concorrerem nas provas da
igualdade de oportunidades. Uma descrição otimista
da modernidade poderia mostrar, sem dificuldade, que 3
O duplo desprezo de Marx pela aristocracia ociosa e o
lumpemproletariado são suficientes para mostrar que as desigual-
dades, como tais, não estão no âmago de uma teoria centrada na
2
L. Dumont, Essais sur l’individualisme, Paris, Ed. du Seuil, 1983. exploração e na dominação.

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têm em comum; as classes são também seres culturais logia das sociedades industriais é a da participação
e comunidades. Finalmente, as relações entre as clas- conflituosa e, mais precisamente, das virtudes
ses são também consideradas como relações de domi- integrativas do conflito. Como são negociados, os con-
nação e as classes sociais vistas como movimentos flitos sociais provenientes das desigualdades engen-
sociais, como atores coletivos, graças a uma consciên- dram um modo de regulação política que os torna com-
cia dos conflitos sociais. Assim, as relações de classes patíveis com o princípio da igualdade dos indivíduos e
explicam, ao mesmo tempo, os modos de consumo, as com as desigualdades funcionais do capitalismo.
identidades coletivas e individuais (os habitus) e a pró- Em outras palavras, o encontro da igualdade de-
pria vida política parece estruturada por conflitos de mocrática com as desigualdades capitalistas engen-
classes e pelas orientações culturais que eles determi- dra a formação do Estado-providência e de um siste-
nam. Esse tipo de representação constituiu uma matriz ma de proteções e de direitos sociais. Como as
geral bastante compartilhada pelos sociólogos da so- principais desigualdades são oriundas do trabalho, a
ciedade industrial até a metade dos anos de 1960 e por sociedade salarial organiza a coesão e a integração
sociólogos tão diferentes, como Aron, Darhendorf, sociais a partir do trabalho que, ao mesmo tempo, opõe
Lipset ou Touraine. e une os indivíduos. Tal é o sentido da análise de Castel
Nessa perspectiva, – que convém sublinhar, vai bem que se coloca implicitamente numa perspectiva “du-
além das fileiras marxistas –, as desigualdades sociais rkheimiana” ao mostrar como o assalariado desenvolve
constituem mais que um objeto particular da sociolo- um conjunto de direitos que vão muito além do sim-
gia; elas são, de maneira mais ou menos direta, o objeto ples espaço do trabalho.5 Marshall adere a uma visão
da sociologia, irrigando a sociologia do trabalho, a so- próxima da democracia industrial ao propor um vasto
ciologia da ação coletiva, a sociologia dos modos de afresco histórico no qual os direitos do indivíduo fe-
vida, a sociologia da educação e, de maneira geral, to- cundam os direitos políticos que desembocam nos di-
das as sociologias que optam em graus variados por uma reitos sociais.6
visão crítica. Mas estiveram também presentes num Em suma, na maior parte das análises da socieda-
vasto espaço da sociologia funcionalista em que as aná- de industrial, a dupla face da igualdade é perfeitamen-
lises da estratificação e da ordem social se superpõem. te reconhecida, embora pareça, de certa maneira, su-
perável. Mais ainda, ela está na origem da dinâmica
1.3 Essa dupla representação das desigualdades social da modernidade, definida simultaneamente por
apareceu freqüentemente como não contraditória atra- uma aspiração fundamental à igualdade dos indivídu-
vés dos temas da divisão do trabalho e da integração os e por uma desigualdade estrutural ligada a sua
conflituosa. Se consideramos o funcionalismo como historicidade e aos mecanismos de desenvolvimento
uma filosofia social, como nos sugere o próprio do capitalismo. É claro que muitas utopias, muitas crí-
Durkheim em Divisão do trabalho social, as desigual- ticas e alguns movimentos sociais sonharam com o
dades de classe e a igualdade dos indivíduos aparecem rompimento dessa tensão em nome de uma igualdade
como compatíveis. Existem desigualdades funcionais pura e perfeita. É assim que Durkheim definia o co-
e o “socialismo”, quer dizer, as organizações sindi- munismo como uma utopia por oposição ao socialis-
cais e corporativas, transforma essa divisão em soli- mo, concebido como um movimento.7 Mas, no essen-
dariedade. Lembremos que Parsons tentou construir
uma teoria das desigualdades definidas a partir de cri-
5
térios funcionais.4 Uma das idéias centrais da socio- R. Castel, Les métamorphoses de la question sociale, Pa-
ris, Fayard, 1995.
6
T. H. Marshall, Citizenship and social development, Chi-
4
T. Parsons, Nouvelle ébauche d’une théorie de la stratification, cago, Chicago University Press, 1977.
7
Eléments pour une sociologie de l’action, Paris, Plon, 1955. E. Durkheim, Le socialisme, Paris, PUF, 1971 (1928).

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cial, a sociologia clássica se construiu mais nessa dia- a maioria dos “casais operários” é composta por um
lética que contra ela.8 operário e uma dessas trabalhadoras.10 Em 1993, a
mobilidade estrutural faz com que aproximadamente
2. Inversão de tendência? um de cada dois filhos de operário e mais de um de
cada dois filhos de quadro qualificado não permaneça
Na França, pelo menos, consideramos geralmen- na classe social de seus pais.11 Se os níveis de vida
te que os anos de 1945 a 1975, os “Trinta Anos Glo- não se igualaram, os modos de vida se alinharam em
riosos”, marcaram o apogeu do sistema de integração torno de uma norma definida pelas classes médias e
da sociedade industrial com o crescimento dos confli- pelo consumo de massa. A ampliação da influência da
tos de trabalho, das negociações coletivas e do Esta- mídia teve seu papel nessa evolução que se manifesta
do-providência em torno de um modelo qualificado, de nos vocabulários culto e corrente, nos quais a noção
maneira retroativa, de fordista. Acho essa reconstru- de classe operária foi substituída por noções muito mais
ção bastante artificial e francamente falsa, tendo, con- vagas como “camadas populares” ou “camadas desfa-
tudo e sobretudo, uma função dramatúrgica: colocar vorecidas”, o plural reforçando a imprecisão. O cres-
em evidência a ruptura de um modelo de integração. cimento de uma pobreza escandalosa, aprisionada em
Grande parte da vulgata sociológica francesa mostra a “bairros de exílio”, indica, ao contrário, que o movi-
evolução dos últimos 25 anos como uma longa crise, mento de “homogeneização” se manteve, já que tais
como uma decadência contínua, como um recrudesci- pobres não são mais pobres que os pobres de antiga-
mento, em todos os sentidos, das desigualdades sociais, mente, mas parecem estar reduzidos a esse estado.
como o triunfo de um capitalismo selvagem. Ora, se Com relação a um grande número de critérios, o
algumas desigualdades se aprofundaram, outras se re- acesso igualitário aos bens de consumo cresceu: auto-
duziram. Para entendermos o que aconteceu, voltemos móveis, moradia, equipamentos domésticos, estrutura
à dupla face da igualdade ou das desigualdades. de despesas das famílias, lazeres. É certo que esse cres-
cimento é bem mais contraditório do que nos faz crer
2.1 Apesar da crise econômica e da mundializa- uma leitura superficial dos indicadores sociais, como
ção, observamos uma ampliação da igualdade sob a mostra, de maneira exemplar, o acesso à educação.
forma de uma homogeneização da sociedade.9 Não é Com a massificação escolar, o acesso aos estudos se-
preciso ser ingênuo ou exageradamente otimista para cundários e superiores aumentou consideravelmente.
registrar a extensão da igualdade tocqueviliana. O traço Na França, o percentual de filhos de operários que
mais marcante é a mistura das comunidades e, reto- concluem o ensino médio, que fazem o vestibular ou
mando a expressão de Goblot, a substituição das bar- que obtêm um diploma universitário foi multiplicado
reiras por níveis. A classe operária não apenas se re- por mais de quatro nos últimos 25 anos. Mas, se olha-
duziu, mas também se fracionou e se fundiu no universo mos mais de perto, tal democratização é bastante
das classes médias inferiores com o “desenclave” do segregativa, pois os filhos das classes populares se
hábitat operário. Com a entrada massiva das mulhe- encontram nos setores e formações menos valorizadas
res no assalariado da atividade terciária e de serviços, e menos úteis, enquanto os filhos das categorias supe-

10
8
Politicamente, a maioria dos sociólogos da sociedade in- P. Bouffartigue, Le brouillage des classes, em P. P. Durand
dustrial se definirão como sociais democratas, progressistas, inte- e F. X. Merrien, Sortie de siècle, Paris, Vigot, 1991; J. P. Terrail,
lectuais de esquerda. Destins ouvriers : la fin d’une classe? Paris, PUF, 1990.
11
9
H. Mendras, La seconde révolution française, 1864-1984, A. Desrosières, L. Thevenot, Les catégories
Paris, Gallimard, 1988. socioprofessionnelles, Paris, La Découverte, 1996.

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riores adquirem uma espécie de monopólio das carrei- sas. A segmentação do mercado de trabalho não se
ras elitistas e rentáveis.12 A igualdade cresceu porque opera apenas em função de necessidades econômicas,
a educação não é mais um bem raro, beneficiando a ela ativa e exacerba diferenciações sociais em função
todos, mas ela se tornou um bem muito mais hierar- do sexo, da idade, do capital escolar, da origem étni-
quizado quando as barreiras foram substituídas pelos ca.14 Com qualificação igual, os salários dos homens
níveis. Um raciocínio idêntico poderia ser aplicado a e das mulheres atingem uma variação de 5 a 15%. Em
outros setores, quer se trate do consumo de bens ou de 1975, os “contratos de duração indeterminada” atin-
cultura, do lazer ou de marcas de roupa. Da mesma giam 80% dos trabalhadores, atingindo hoje apenas
maneira, as mulheres passaram a ter acesso a grande 65%. Entre o fim da vida profissional ativa e a apo-
número de setores que lhes eram, até então, fechados, sentadoria criou-se um período com estatutos os mais
sem que com isso a igualdade tenha sido reforçada. variados, o mesmo acontecendo, aliás, para os jovens,
Mas, se consideramos que o acesso aos bens e aos se- antes de entrar num emprego estável.15 Quanto ao de-
tores de atividade, até então raros ou proibidos, é um semprego, ele ainda é a mais flagrante das desigualda-
componente da igualdade, parece que a igualdade das des, atingindo grupos sociais bastante “específicos”.
esperanças e dos direitos tenha se reforçado apesar do Na realidade, já não podemos opor tão claramen-
que chamamos de “crise”. te, como acreditávamos, os assalariados aos proprie-
tários dos meios de produção, nem mesmo em razão
2.2 Em compensação, as transformações da es- da extensão do assalariado. Na maioria das socieda-
trutura social fizeram emergir outras configurações da des ocidentais, criou-se uma fronteira, mais ou menos
desigualdade além das presentes no modelo “clássi- visível, opondo os integrados aos excluídos. Mesmo
co” da sociedade industrial. Mais que as desigualda- que tal fronteira não esteja demarcada e que muitos
des propriamente ditas, é a fragmentação do mercado indivíduos circulem de um mundo para o outro, a es-
de trabalho que marca os últimos anos. Quando a inte- trutura social das nossas sociedades se “latino-ameri-
gração em torno de um estatuto estável e de direitos caniza” com o crescimento da pobreza, da incerteza,
aferentes parecia se tornar regra comum, vimos multi- da economia informal. O declínio da sociedade sala-
plicar os mercados de trabalho. Podemos não somente rial acarretou um deslocamento da questão social que
opor um mercado primário que oferece empregos está- se assemelha em vários pontos ao da época da entrada
veis, bem pagos, abrindo carreiras e direitos, a um na sociedade industrial, na medida em que o núcleo
mercado secundário, composto de empregos precários dos problemas desloca-se da fábrica para a cidade, para
e instáveis,13 mas ainda observar que cada um desses as periferias ou centros de cidade degradados, onde se
mercados parece se dividir ao infinito pelo jogo da concentram os grupos mais frágeis, mais pobres, mais
terceirização, da interinidade, dos estágios, dos dispo- estigmatizados. Há vinte anos, a França vem se habi-
sitivos de apoio social, do trabalho a domicílio. Em tuando às rebeliões urbanas, às violências escolares e
um mesmo conjunto produtivo e em um mesmo tipo de ao desemprego endêmico. As formas tradicionais do
atividade, encontraremos estatutos extremamente di- Estado-providência estão ameaçadas tanto no plano
ferentes segundo os graus de flexibilidade da mão-de- econômico, quanto sob o ponto de vista de sua legiti-
obra, os níveis de formação e as posições das empre- midade ideológica.

14
A. Perrot, Les nouvelles théories du marché du travail,
12
P. Merle, Le concept de démocratisation de l’institution Paris, La Découverte, 1992; M. Maruani, H. Mendras, op. cit.; E.
scolaire, Population, v. 55, n° 1, 2000. Reynaud, Sociologie de l’emploi, Paris, La Découverte, 1993.
13 15
S. Berger, M. J. Priore, Dualism and discontinuity, em In- S. Paugam, Le salarié de la précarité; les nouvelles for-
dustrial society, Cambridge, Cambridge University Press, 1980. mes de l’intégration professionnelle, Paris, PUF, 2000.

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A estrutura de classes das sociedades industriais tada à separação entre a estratificação e as relações de
passa por uma mutação que impõe a distinção entre dominação, à separação daquilo que a noção de classe
vários grupos constituídos a partir dos contratos de tra- “total” visava justamente unificar. As escalas de
balho, dos rendimentos e das posições dos setores de estratificação procuram combinar vários registros e
atividade na competição econômica.16 Relações de estabelecem fronteiras, muitas vezes incertas, como as
classes específicas se estabelecem no mundo dos com- que separam os operários dos empregados de servi-
petitivos entre setores econômicos atuantes no plano ços.18 As desigualdades de rendimentos variam sensi-
internacional. Outras se estabelecem no mundo dos velmente, se levamos em conta salários, rendas e ren-
protegidos, dos que obtêm seu estatuto por sua influên- dimentos indiretos. Dessa maneira, na França,
cia política, como os funcionários, o pessoal da saúde, enquanto as diferenças de salário diminuíram, 10% das
os agricultores generosamente subvencionados. A do- famílias continuam a deter metade do patrimônio e as
minação desses dois setores sobre o resto da socieda- desigualdades se tornam ainda mais marcadas, se le-
de engendra um movimento geral de externalização vamos em conta o critério de idade.19 Mais que nunca,
dos custos e de terceirização na direção de um setor não nos é possível construir escalas de estratificação
social precário, atingindo tanto os empregadores, quan- confiáveis a partir da idéia de classes antagônicas. As
to os empregados. Finalmente, constitui-se um setor relações de dominação nem por isso desapareceram,
excluído, assistido pelas políticas sociais, que se es- pelo contrário; mas já não permitem que as desigual-
força para conquistar certa autonomia dentro da eco- dades reais sejam descritas objetivamente. A domina-
nomia informal. Às desigualdades que opõem esses ção já não se insere nas relações de classes concretas
mundos se acrescentam as desigualdades internas a e estáveis. Os problemas da estratificação e da mobi-
cada um deles e, sob este aspecto, as pessoas vivem lidade se destacam dos conflitos estruturais e a análise
num duplo registro de desigualdades. Além disso, esse das desigualdades não conduz a uma visão organizada
tipo de representação das desigualdades ultrapassa, em e estruturada das relações sociais.20 Do mesmo modo
muito, o simples quadro das sociedades nacionais em que as desigualdades são múltiplas, os registros da
razão das implantações e deslocamentos das empre- dominação não são homogêneos, como deixa claro a
sas e da constatação de que os excluídos formam fre- teoria dos “capitais” de Bourdieu.21
qüentemente enclaves vindos do Sul pobre para o Norte
rico, enquanto que os pólos de riqueza e de desenvol-
vimento do Sul podem aparecer como enclaves do Norte
rico num Sul pobre.
Do ponto de vista analítico, o encontro de uma 18
A. Desrosières, L. Thevenot, op. cit.
19
igualdade tocqueviliana contínua com as transforma- A. Bayet, L’éventail des salaires et ses déterminants, La
ções da estrutura social acarretou o declínio das análi- société française, Données sociales, INSEE, 1996; F. Guillaumat-

ses em termos de classes. Os anos de 1970 foram do- Taillet, J. Malpot, V. Paquel, Le patrimoine des ménages: répartition

minados pela tentativa – e pelo fracasso – de uma et concentration, La société française, Données sociales, INSEE,
1996.
renovação da teoria de classes marxista.17 Hoje, a aná-
20
A. Touraine, La société postindustrielle, Paris, Denoël,
lise das desigualdades (não sua descrição) é confron-
1969.
21
O fato de que um destes capitais desempenha papel “deter-
minante” traz de volta uma postura , em última análise, marxista
16
Cf. P. N. Giraud, L’inégalité du monde, Paris, Gallimard, “clássica”. Se consideramos que eles são independentes, a questão
1996; R. Reich, L’économie mondialisée, Paris, Dunod, 1993. da ligação entre a dominação e a estratificação coloca-se novamen-
17
Na França, é o nome de Poulantzas que é o mais associado te. Parece que a análise de Bourdieu oscila entre essas duas posi-
a esse esforço. ções.

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As desigualdades multiplicadas

3. As desigualdades multiplicadas por uma sobrecarga de trabalho e por opressões “pri-


vadas”, já que a divisão do trabalho doméstico não foi
Por um lado, as desigualdades “pré-modernas” sensivelmente afetada por tal emancipação. Essa au-
continuam a se reduzir e a aspiração à igualdade de tonomia também aumentou consideravelmente a
oportunidades e direitos se fortalece. Por outro lado, vulnerabilidade das mulheres chefes de família, visto
as desigualdades “funcionais” não se reduzem e, fre- que são menos “protegidas pela tradição” e mais afe-
qüentemente, se consolidam, sobretudo nas duas ex- tadas pela pobreza em caso de dificuldades econômi-
tremidades da escala social. O encontro desses dois cas e de divórcio. De maneira geral, os domínios “pri-
processos exacerba a sensibilidade às desigualdades, vados” e “públicos” continuam bastante distantes e
como indica o desenvolvimento de novos movimentos específicos, sexualmente marcados.23 Quanto mais se
sociais: as lutas feministas, os movimentos comunitá- refinam os estudos, mais se evidencia a manutenção
rios ou os combates das minorias. Freqüentemente li- ou a consolidação de microdesigualdades. Assim, as
gada a esses movimentos, às vezes influenciada pela meninas são as grandes beneficiárias da massificação
sociologia anglo-saxônica, a sociologia francesa de- escolar; mas, ao mesmo tempo em que obtêm melho-
dicou inúmeros trabalhos ao estudo das novas desi- res resultados que os rapazes, elas não se orientam
gualdades. Tais desigualdades não são evidentemente para carreiras mais rentáveis, sobretudo as de forma-
novas, são mesmo, na maioria das vezes, menos pro- ção científica.24 Os estudos mostram que as mulheres
nunciadas que as de antigamente, como no caso das não ganharam em todas as frentes e que essa incontes-
desigualdades sexuais, mas constituem um novo obje- tável igualdade é “paga” por novas desigualdades, tanto
to de pesquisa e de análise. mais insuportáveis por entrarem em choque com uma
progressão “objetiva” da igualdade.
3.1 A posição dominante das análises, em termos As desigualdades étnicas sofreram um processo
de classe, foi abalada pela introdução de novos crité- semelhante. Na França, de maneira geral, os imigran-
rios de definição das desigualdades. Em trinta anos, a tes e, sobretudo, seus filhos se integram progressiva-
população ativa se feminizou consideravelmente al- mente à sociedade francesa.25 Mas tal integração,
cançando 44,7% em 1994. No entanto, todos os estu- construída a partir de indicadores bastante globais, não
dos mostram que essa ascensão das mulheres indo, in- impede que uma forte segregação se instale com a for-
contestavelmente, ao encontro de uma extensão da mação de zonas de exílio étnicas nos bairros mais po-
igualdade, não elimina, de fato, a maioria das desi- bres e, sobretudo, com a demonstração patente da se-
gualdades. Além das diferenças salariais, a diferen- gregação e do racismo nas esferas da moradia e do
ciação dos setores de emprego se manteve, diríamos emprego.26 Paradoxalmente, nesse domínio, a cons-
mesmo, se aprofundou. As mulheres dominam os ser- ciência das desigualdades está mais viva hoje que on-
viços, são majoritárias na educação e na saúde, mas tem porque, ao mesmo tempo em que são “integra-
não entram na produção, na política ou em outros se- dos”, os imigrantes são “destinados” a certos bairros,
tores que continuam predominantemente masculinos. a certos empregos e esbarram quotidianamente em inú-
Poderíamos falar de emancipação segregativa ou de
emancipação “sob tutela”.22 Pior ainda, a autonomia
das mulheres assalariadas freqüentemente se traduziu 23
F. Héritier, Masculin, féminin, la pensée de la différence,
Paris, Odile Jacob, 1996.
24
M. Duru-Bellat, L’école des filles, Paris, l’Harmattan, 1990.
22
R. M. Lagrave, Une émancipation sous tutelle. Education 25
M. Tribalat, De l’immigration à l’assimilation, Paris, La
et travail des femmes au XXe siècle, em G. Duby, M. Perrot (ed.), Découverte, 1996.
Histoire des femmes en Occident, Le XXe siècle, Paris, Plon, 1992. 26
P. Bataille, Le racisme au travail, Paris, La Découverte, 1997.

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meras manifestações de racismo. Esse paradoxo re- empregados com salários relativamente próximos aos
mete a um mecanismo, ainda novo para a França, o da dos adultos, hoje, o diferencial se aprofundou de for-
transformação dos imigrantes em minorias.27 Enquan- ma considerável.29 Tais desigualdades globais, entre
to os imigrantes eram acolhidos num processo de inte- as diferentes faixas de idade, não impedem, evidente-
gração econômica específica, associado às aspirações mente, que se formem ou se mantenham outras desi-
ligadas aos sonhos de volta, seus filhos são, de manei- gualdades dentro de cada grupo de idade, em função
ra considerável, assimilados à cultura do país que os dos sexos, dos tipos de formação, do emprego. A des-
acolhe, mesmo se sentindo excluídos da participação crição das desigualdades é inesgotável.
econômica e social. A geração dos pais era integrada
e não assimilada; a dos filhos, assimilada, não se sente 3.2 Poderíamos alongar indefinidamente a lista
integrada, percebendo-se como uma minoria excluída, das “novas” desigualdades, conscientes de que sem-
rejeitada, que pode devolver aos dominantes os estig- pre correríamos o risco de contrariar esse ou aquele
mas que lhe são atribuídos. Enquanto os imigrantes grupo por não reconhecê-lo como vítima de desigual-
constituem a faixa inferior da classe proletária, as mi- dades. Mas a análise dessas múltiplas desigualdades
norias se sentem definidas apenas por suas identida- transformou sensivelmente o olhar dos sociólogos,
des e “estigmatizações” étnicas e culturais. porque a maioria delas não se reduz nem ao berço nem
A distribuição das desigualdades entre as faixas à posição de classe, mas resulta da conjugação de um
de idade transformou-se profundamente durante os úl- conjunto complexo de fatores, aparecendo mesmo,
timos 30 anos, em função das políticas de emprego e muitas vezes, como o produto, mais ou menos perver-
das formas de redistribuição social. Enquanto os jo- so, de práticas ou políticas sociais que têm como obje-
vens dos “trinta gloriosos”, nascidos logo após a guer- tivo, justamente, limitá-las. Mesmo que a crítica dos
ra, beneficiaram-se de condições bastante favoráveis efeitos perversos do Estado-providência nunca seja
com relação aos mais velhos, houve uma inversão da desprovida de reservas, é forçoso admitir que alguns
tendência e a idade torna-se um fator importante das desses efeitos perversos não podem ser ignorados, es-
desigualdades. Os jovens são mais atingidos pelo de- pecialmente os efeitos de dependência e de estigmati-
semprego que os adultos e, sobretudo, estão condena- zação e, sobretudo, que tais políticas são freqüente-
dos a um longo período de incerteza e de precariedade mente favoráveis àqueles que são menos desfavorecidos.
antes de conseguirem um emprego estável. 28 A A análise dos mecanismos de transferências sociais
demografia, a situação econômica e as políticas so- mostra que, freqüentemente, são as classes médias as
ciais se conjugam para explicar essas novas desigual- principais beneficiárias no setor da educação ou da
dades, pois tudo acontece como se a França tivesse saúde, por exemplo.30
“escolhido” castigar os jovens. É claro que não se tra- A sociologia da educação ilustra bem tal trans-
ta verdadeiramente de uma escolha, mas, sim, da con- formação da visada sociológica. Por muito tempo, o
seqüência de múltiplas escolhas que acarretaram prin- paradigma da reprodução dominou a sociologia da
cipalmente uma desvalorização dos diplomas e um educação, atribuindo unicamente às desigualdades so-
crescimento do custo de entrada na vida adulta, defini- ciais a “responsabilidade” pelas desigualdades esco-
da como o momento em que se podem engajar projetos
de vida. Enquanto nos anos de 1960 os jovens eram
29
C. Baudelot, R. Establet, Avoir trente ans en 1968 et 1998,
Paris, Ed. du Seuil, 2000.
27 30
F. Dubet, Immigration, qu’en savons-nous? Paris, La Cf. X. Gaullier, La machine à exclure, em L’Etat-
Documentation Française, 1989. providence, Arguments pour une réforme, Paris, Le Débat/
28 Gallimard, 1996; préface de F.X. Merrien à G. Esping-Andersen,
L. Chauvel, Le destin des générations. Structure sociale et
cohortes en France au XXe siècle, Paris, PUF, 1998. Les trois mondes de l’Etat-providence, Paris, PUF, 1999.

12 Maio/Jun/Jul/Ago 2001 Nº 17
As desigualdades multiplicadas

lares. O paradigma do individualismo metodológico e poder como dimensões analiticamente independen-


propôs uma alternativa teórica que não mudava o ra- tes da posição de um indivíduo. A intuição “weberiana”
ciocínio nesse ponto. Nos dois casos, a escola era con- é hoje uma realidade.33 A organização das desigual-
siderada como uma caixa preta neutra que simples- dades em torno simplesmente das classes sociais apa-
mente gravava as desigualdades sociais sob a forma rece como um fenômeno historicamente contingente
de desvantagens culturais num caso e de agregação de em razão do predomínio da sociedade industrial, da
cálculos racionais socialmente situados no outro. Em manutenção das barreiras, das distâncias “aristocráti-
reação a teorias que podem levar a certo “fatalismo” cas” e da organização da vida política em termos de
político e sob a influência da “nova sociologia” da representações, mais ou menos grosseiras, dos inte-
educação inglesa, numerosos estudos se empenharam resses de classes. Quando essas diversas dimensões se
em mostrar que a escola desempenhava papel próprio dissociam, elas o fazem em cada grupo e em cada in-
na produção das desigualdades.31 Verificou-se primei- divíduo, cujas posições, nas diversas escalas, já não
ro que a oferta escolar estava longe de ser homogênea, são necessariamente congruentes. Uma pesquisa rea-
mesmo num sistema republicano, reconhecido como lizada nos anos de 1980, junto a operários america-
homogêneo: a oferta é de melhor qualidade quando nos, revela que os mesmos se definem como “traba-
destinada aos mais favorecidos, e isso apesar dos es- lhadores” em termos de identidade profissional, como
forços de discriminação positiva. Em seguida, toda uma “classe média” em termos de consumo e como “povo”
microssociologia da educação mostrou que as em termos de participação política.34 O ator está mais
interações escolares e as expectativas recíprocas por ou menos em condição de igualdade com os outros, em
parte dos professores e alunos beneficiavam os alunos função das diferentes esferas que constituem sua si-
oriundos das classes média e superior. Diversos “efei- tuação: seu sexo, sua idade, seu emprego, seu traba-
tos” não igualitários foram evidenciados: efeito clas- lho, sua formação e suas origens. À medida que tal
se, efeito estabelecimento de ensino, efeito professor. diversidade se depara com a afirmação da igual digni-
Dessa maneira, a escola acrescenta às desigualdades dade de todos como postulado central das sociedades
sociais suas próprias desigualdades. Por muito tempo, democráticas, entendemos perfeitamente porque a iden-
pensamos que uma oferta igual pudesse produzir igual- tidade aparece menos dada que construída e reivindi-
dade. Hoje percebemos que não só ela não é realmente cada pelos indivíduos. Segundo seus projetos e con-
igual, mas que sua própria igualdade pode também textos de ação, os indivíduos “optam” por mobilizar e
produzir efeitos não igualitários somados aos efeitos priorizar tal ou qual dimensão de sua identidade e de
que ela deseja reduzir. Deslizamos assim, sem nos sua experiência. Enquanto os operários podiam agir
darmos conta, para uma filosofia política menos como operários porque não tinham, então, outras iden-
centrada na igualdade que na eqüidade. tidades disponíveis, hoje, a “opção” é por agir e se
expor enquanto mulher, trabalhadores, “bretão”, reli-
3.3 Coloquemo-nos agora do lado dos atores so- gioso, diplomado. É também por tal razão que os te-
ciais e dos indivíduos. Se excluímos os grupos situa- mas dos estigmas e da imagem de si adquiriram tama-
dos nos dois extremos da escala social e das relações nha amplitude. A construção e exposição de si e de
de dominação, a incongruência estatutária torna-se a seu “visual” não se explica apenas pela submissão ao
regra.32 Sabemos que Weber distinguiu classe, status consumo de massa, mas também pela necessidade de

31 33
M. Duru-Bellat, A. Van-Zanten, Sociologie de l’école, R. Crompton, Class and stratification, Londres, Polity
Paris, Armand Colin, 1999. Press, 1993.
32 34
G. E. Lenski, Status cristalizations : a non vertical dimension E. Hobsbawm, Farewell to the Labor Movement?, Politics
of social status, American Sociological Review, XIX, 4, 1954. for a rational left, Londres, Verso, 1989.

Revista Brasileira de Educação 13


François Dubet

expor, constantemente, ao olhar dos outros, a identi- identidades, os mais dinâmicos, os mais qualificados e
dade escolhida. Com referência aos movimentos so- os mais capazes de exercer uma influência, deixam
ciais, também eles perderam o caráter “total” e a vo- esses bairros logo que podem.35
cação para englobar a totalidade de uma experiência e Do ponto de vista subjetivo, os moradores de tais
de um ser; eles se multiplicaram, assumindo tal ou qual bairros se definem como de classe média, partilhando
dimensão da identidade individual – o trabalho, a se- ou procurando partilhar o modo de vida das classes
xualidade, o status profissional, as escolhas éticas – médias. Essa identificação é ainda mais forte por es-
sem que nenhuma delas chegue a se impor às demais. tar no âmago das definições de normalidade emitidas
Esse trabalho de construção de si, através da mul- pela escola e pelos serviços sociais. Mas, ao mesmo
tiplicidade dos registros das desigualdades, é por sua tempo, esses atores não estão em condições de satis-
vez bastante desigual, pois mobiliza recursos também fazer tais aspirações devido a sua situação de pobreza
distribuídos de maneira muito desigual. Aliás, uma das e acabam interiorizando os estigmas que lhe são im-
características da expressão moderna das desigualda- postos, descarregando-os em seus vizinhos. A partir
des é a de ter tirado dos pobres a capacidade de cons- daí, sua experiência limite das desigualdades é vivida
truir plenamente para si uma identidade. Como nomear como “colonização” interna, “colonização” da expe-
os moradores dos conjuntos habitacionais de periferia riência vivida, já que se identificam com um ideal igua-
conhecidos como “difíceis”? Habitualmente, e no fun- litário que as invalida. Mesmo que sintam com inten-
do de maneira inaceitável, eles são caracterizados pe- sidade a distância que separa seu desejo de igualdade
los problemas tal como definidos pelas políticas so- de suas desigualdades reais, tais desigualdades estão
ciais que deles se incumbem: pobres, desempregados, muito fragmentadas para poderem reunificar sua ex-
imigrantes, famílias “desestruturadas”, quando não periência e para engendrarem uma mobilização con-
delinqüentes. Essas pessoas são definidas pelas cate- tra uma condição tida como intolerável. Na realidade,
gorias de uma “desvantagenlogia” que corresponde aos salvo a violência dos jovens, os mais desprovidos es-
programas das políticas públicas. A utilização das clas- tão praticamente privados de capacidades coletivas de
sificações objetivas já não resolve, pois esse mundo protesto.
comporta, ao mesmo tempo, operários e empregados,
desempregados, “famílias assistidas”, outros que “se 4. A experiência social das desigualdades
viram”, e se ninguém é rico, nem todos são pobres,
pois alguns fazem percursos de mobilidade ascenden- Nunca a contradição entre as duas faces da igual-
te, enquanto outros – a maioria – se sentem resignados dade (ou das desigualdades) foi tão aguda. Nunca o
com tal situação. Será que eles formam uma comuni- confronto entre a afirmação da igualdade dos indiví-
dade popular? Certamente não, pois esse mundo duos e as múltiplas desigualdades que fracionam as
fracionado numa hierarquia sutil e complexa não com- situações e as relações sociais foi tão violento e tão
partilha as mesmas normas. Ele põe em prática, de bom ameaçador para o sujeito.
grado, identificações negativas, recusando-se a se iden-
tificar com seus vizinhos, principalmente com os imi- 4.1 A obrigação de ser livre, de ser sujeito, de
grantes, cujos laços comunitários são estigmatizados ser o autor de sua vida, que caracteriza o próprio pro-
e geralmente considerados perigosos. A “homogenei- jeto da modernidade, é indissociável da afirmação da
zação” e, na França, as políticas públicas romperam
os mecanismos de formação das comunidades popula-
res, sem falar da mídia que apenas lhes devolve a ima- 35
C. Avenel et al., Le DSQ des Hauts de Garonne, analyse
gem de seus problemas. Finalmente, aqueles que po- sociologique, Bordeaux, CADIS, LAPSAC; F. Dubet, Lapeyronnie,
deriam desempenhar um papel na construção dessas Les quartiers d’exil, Paris, Ed. du Seuil, 1992.

14 Maio/Jun/Jul/Ago 2001 Nº 17
As desigualdades multiplicadas

igualdade de todos. Nas sociedades democráticas, os mente, os indivíduos da consolação inerente às socie-
indivíduos só podem aspirar à igualdade se são livres; dades legitimamente não igualitárias e não democráti-
se, como diz Rousseau, “todo homem nasce livre e dono cas. Os grandes sistemas de consolação, religiosos e
de si mesmo”. Esse domínio de si mesmo, essa capaci- políticos, que explicam e justificam as desigualdades,
dade de ser soberano, não é a garantia de igualdade independentemente da ação dos indivíduos, já não con-
real, mas a condição de igualdade de oportunidades e, seguem explicar, de maneira eficaz, as desigualdades
pois, de desigualdades justas, por decorrerem de uma sociais e os fracassos dos indivíduos. O indivíduo se
competição entre iguais. É neste sentido que a liberda- considera, então, responsável por sua própria infelici-
de e a igualdade, que podem estar freqüentemente em dade e se deixa invadir pela consciência infeliz. O triun-
oposição, podem estar também em harmonia. A igual- fo do princípio de igualdade dissocializa a experiência
dade engendra a obrigação de ser livre e de ser para si das desigualdades numa sociedade que permanece fun-
mesmo sua própria medida. Às falsas hierarquias só damentalmente não igualitária, mas que tende a pro-
podemos opor as hierarquias justas, fundadas no mé- duzir desigualdades através de uma série de provas
rito, na responsabilidade e na liberdade dos indivíduos. individuais e não mais de lutas coletivas ou, mais pre-
Da Reforma ao Iluminismo, a concepção moder- cisamente, que tende a diluir as lutas coletivas em pro-
na do indivíduo sempre afirmou o vínculo de necessi- vas pessoais.
dade da igualdade e da liberdade, o que gera uma defi- Observemos o caso da experiência das desigual-
nição “heróica” do sujeito que se constrói a si mesmo, dades escolares;36 durante muito tempo, o sistema es-
que se torna o autor de sua própria vida, de seus suces- colar francês foi estruturalmente não igualitário, es-
sos como de suas derrotas. O fato de tal ideal nunca tando o acesso às diferentes carreiras diretamente
ter sido plenamente realizado não impede, longe dis- determinado desde o berço: a cada categoria social um
so, que ele se imponha como a única norma da igual- tipo de escola e, conseqüentemente, um tipo de chance
dade suscetível de produzir desigualdades, também elas de sucesso. Assim, as crianças do povo iam à escola
aceitáveis. É, sem dúvida, porque o esporte é uma en- do povo, as crianças da burguesia ao liceu e alguns
cenação dramática deste confronto entre a igualdade indivíduos particularmente “dotados” e aplicados es-
dos competidores e a hierarquia justa dos desempe- capavam dessa canalização social das carreiras esco-
nhos, que ele aparece como o cenário principal no qual lares. Como, desde o nascimento, os indivíduos não
se confrontam os deuses da democracia (a igualdade) eram considerados iguais perante a educação, os
e os do capitalismo (o mérito e o trabalho). Mas a obri- insucessos escolares podiam ser facilmente explica-
gação de ser livre como condição da igualdade coloca dos por causas sociais, pela injustiça do sistema e, às
os indivíduos em uma série de situações subjetivas de vezes, pelas injustiças “naturais”, sendo as crianças
prova que são as provas da igualdade ou, mais exata- do povo consideradas menos “dotadas” e menos “am-
mente, as provas decorrentes do confronto entre o de- biciosas” que as da burguesia. A “vantagem” de tal
sejo de igualdade e as desigualdades reais. Quanto mais sistema era a de não questionar a auto-estima dos alu-
a liberdade e a autonomia do sujeito se impõem, mais nos sem acesso às carreiras mais valorizadas que, aliás,
essa prova expõe a pessoa e pode ser vivida como des- não eram feitas para eles. Cada um podia explicar seus
truidora. insucessos como conseqüência de causas sociais, de

4.2 As provas da igualdade podem ser demons-


tradas em uma série de configurações específicas. 36
F. Dubet, D. Martuccelli, A l’école; sociologie de
l’expérience scolaire. Paris, Ed. du Seuil, 1996; F. Dubet, Sentiments
4.2.1 A consciência infeliz. Como a igualdade de justice dans l’expérience scolaire, em D. Meuret (ed), La justice
exige a auto-responsabilidade, ela priva, progressiva- du système éducatif, Bruxelles, De Boeck, 1999.

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causas exteriores a ele e a seu próprio valor. Um ado- um jogo em que estão perdendo e a violência, a des-
lescente que se tornasse operário e uma jovem que se truição desse jogo. É porque as transformações dos
tornasse mãe e dona-de-casa, ao final da escolariza- mecanismos de formação das desigualdades individua-
ção, podiam culpar as injustiças sociais quando tal lizam as desigualdades, que as desigualdades levam à
destino lhes parecesse injusto, sem se verem, pessoal- perda de auto-estima e à consciência infeliz. A “meri-
mente, como a causa de tal percurso de vida. tocracia” escolar pode ser um princípio libertador, o
Tudo muda na escola democrática de massa que que não impede que legitime as desigualdades, na me-
se empenha, e não só formalmente, em oferecer condi- dida em que atribui sua responsabilidade às próprias
ções iguais de oportunidades. Os alunos já não são vítimas.38
selecionados na entrada do sistema escolar, mas, sim,
durante os estudos, em função unicamente de seu de- 4.2.2 O desprezo. O apelo a uma concepção he-
sempenho. É evidente que os sociólogos não ignoram róica do “sujeito igual” amplia a experiência do des-
que essa competição é socialmente determinada pelas prezo, já que a pessoa não conta mais com estruturas
desigualdades sociais, o que, contudo, não impede que, sociais e culturais não igualitárias que a impediriam
do ponto de vista dos indivíduos, seus sucessos e de ser livre e responsável. Quando cada um é respon-
insucessos dependam essencialmente de seu desempe- sável por sua própria vida, se expõe ao desprezo que
nho e de sua qualidade. Não fracasso na escola porque acompanha o fato de não ser digno dessa liberdade e
sou filho de trabalhador sem acesso ao liceu e conde- de não poder assumir essa igualdade.39 Ao mesmo tem-
nado a ganhar a vida precocemente, mas porque meu po que fizeram apelo à igualdade, os intelectuais da
desempenho é fraco. Então, como conciliar a afirma- modernidade manifestaram um gosto aristocrático pro-
ção da igualdade de todos com a desigualdade do mé- nunciado pelas vanguardas e um desprezo igualmente
rito de cada um, como tornar compatíveis as duas fa- pronunciado, pelas massas e preferências “pequeno-
ces da igualdade? burguesas”. De fato, se cada um deve ser autônomo,
Em um sistema republicano que afirma profun- importa primeiro que seja reconhecido como uma pes-
damente sua vocação democrática, como no caso fran- soa especial, original, capaz de construir sua vida sem
cês, é o trabalho que serve de mediador entre esses se submeter a outros princípios que não os seus pró-
dois princípios opostos. As desigualdades são justas e prios. Enquanto a vergonha vem do sentimento de ser
não colocam em dúvida a igualdade dos indivíduos se desmascarado, o desprezo vem do desejo de reconhe-
admitirmos que o desempenho dos alunos resulta do cimento de si, do seu caráter único; a vergonha surge
seu empenho voluntário durante a trajetória escolar.37 quando o indivíduo é destituído de seu papel, o des-
Enquanto os indivíduos pensam que suas desigualda- prezo, quando ele é reduzido a seu papel, quando não
des escolares decorrem do trabalho que realizam li- é reconhecido.
vremente, a igualdade fundamental está garantida. Como está, inevitavelmente, ligado ao princípio
Quando descobrem, o que é comum, que não são iguais de auto-responsabilidade, o desejo de igualdade traz
aos demais apesar do trabalho que realizam, só lhes
resta duvidar de seu próprio valor, de sua própria igual-
dade. Eles só podem se auto-responsabilizar, se sentir 38
É claro que esse tipo de raciocínio não vale apenas no espa-
inferiores, o que lhes deixa a opção entre a retirada de ço escolar. Pode também dizer respeito a todas as experiências que
colocam frente a frente a igualdade dos sujeitos e suas desigualda-
des de desempenho: o esporte, o trabalho, mas também o amor que
37
Dominique Méda insiste nesse papel do trabalho como prin- é uma forma de competição na qual cada um deve confirmar seu
cípio de justiça na economia política clássica, principalmente Adam próprio valor.
Smith, em Le Travail, une valeur en voie de disparition, Paris, 39
A. Honneth, La lutte pour la reconnaissance, Paris, Cerf,
Aubier, 1995. 2000.

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As desigualdades multiplicadas

consigo uma exigência contínua de reconhecimento. um jogo no qual acham que vão perder sempre. As-
Assim, a prova da dominação e das desigualdades in- sim, alguns alunos decidem que não vão se esforçar
justas é primeiramente vivida como uma manifestação para que seu desempenho não coloque em questão seu
de desprezo, de redução da pessoa ao seu papel e ao valor, sua igualdade fundamental; eles “decidiram”
olhar do outro. Os que afirmam que o triunfo do indi- fracassar na escola, o que lhes evita serem afetados
vidualismo democrático esvazia o trabalho de todo por seus insucessos. Enquanto um mau resultado numa
estado de conflito enfraquecendo as comunidades se tarefa é insuportável, ele se torna insignificante, quan-
enganam profundamente. Para além das reivindicações do o indivíduo decidiu não cumprir com seu dever. Mais
de salário, existem sempre lutas contra o desprezo, que tal forma radical de retirada, observamos na esco-
contra a ignorância do valor específico dos indivíduos. la e também nos bairros desfavorecidos todo um con-
Este é, freqüentemente, o ponto central dos protestos e junto de estratégias que consiste em fazer de conta. Os
articulações que escapam aos jogos sindicais tradicio- alunos negociam um conformismo escolar limitado em
nais. Os pobres não aceitam ser reduzidos ao status de troca de notas médias que lhes assegurem uma sobre-
casos sociais, ser ignorados e, sobretudo, ser obriga- vivência tranqüila no sistema. Ameaçando os profes-
dos a se afirmarem como sujeitos portadores de proje- sores de se retirarem completamente do jogo ou de se-
tos, no momento mesmo em que tal capacidade lhes é rem violentos, acabam obtendo um equilíbrio precário
tirada. Os alunos de liceu vêem as hierarquias escola- no qual uma boa vontade explícita lhes garante notas
res como cadeias de desprezo nas quais cada um des- médias. Da mesma maneira, os usuários dos serviços
preza o outro para se sentir menos desprezível. Basta sociais negociam certa boa vontade em troca de uma
observarmos a obsessão do semblante e do desafio que assistência indexada ao seu desejo de se “virarem”.
comanda a sociabilidade dos jovens da periferia, para Nesse caso, como na escola, ninguém se engana num
vermos até que ponto o desprezo é tido como o senti- jogo cuja forma se mantém, mas cujo conteúdo se es-
mento social elementar daqueles que esbarram na con- vazia, enquanto as aparências são mantidas.
tradição aguda entre igualdade fundamental e desigual- Outros alunos rompem o jogo pela violência que
dades sociais.40 Mas, enquanto a vergonha socializa a aparece como o único meio de recusar a imagem nega-
experiência social, o desprezo a dissocializa, trans- tiva de si, provocada por seu insucesso e sua liberda-
forma-a em um caso de pura auto-imagem, degradan- de. Os alunos invalidam o jogo escolar, agredindo os
do a experiência de classe em uma série de interações professores e transformando-os em inimigos. A vio-
narcísicas ou de afrontamento, como nas análises de lência possibilita salvar sua dignidade e também en-
Goffman, cuja sociologia é mais interessante quando grandecer seu autor perante o grupo de iguais. Pode-
concebida como uma antropologia da modernidade que mos, no entanto, nos perguntar por que tal violência
como expressão de um paradigma sociológico. não se transforma em conflito, por que não coloca em
questão os mecanismos estruturais das desigualdades
4.2.3 Retirada e violência. Nas situações domi- escolares. Justamente, o recurso à violência se explica
nadas pela consciência infeliz e pelo desprezo, sobre- por tal impossibilidade e pelo fato de as provas da igual-
tudo nos jovens, quando os valores individuais são dade serem provas individuais numa sociedade ao
colocados à prova, várias estratégias são delineadas mesmo tempo democrática e competitiva. No fundo,
conforme o modelo de Hirschman.41 Muitos atores pre- os alunos violentos rompem esse jogo porque acredi-
servam sua auto-estima, recusando-se a participar de tam nele tanto quanto os outros, se não mais. Na vio-
lência, eles invertem o jogo que os destroe, mas não
40
propõem nenhum outro, como o mostra a cultura do
F. Dubet, La galère, Paris, Fayard, 1987.
41
desafio que organiza a vida e o modo de consumo
A. Hirschman, Exit, Voice and Loyalty, Cambridge,
Cambridge University Press, 1970.
deles.

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4.3 Se admitimos os fundamentos de tal raciocí- das, exigindo o reconhecimento de características e de


nio, temos também de admitir sua conseqüência prin- experiências específicas. Peço que me respeitem en-
cipal, ou seja, a tensão entre os dois lados da igualda- quanto mulher, minoria cultural, comunidade de con-
de e o crescimento dessa tensão à medida que a vicção; peço que me reconheçam como tal para que eu
igualdade democrática se desenvolve e que o mercado não seja destruída pelo choque entre as duas formas da
e o mérito estendem seu reinado. Do ponto de vista igualdade. É por tal razão que o confronto entre o prin-
dos indivíduos e de suas experiências, tal contradição cípio de igualdade e as desigualdades “funcionais” faz
só pode ser superada pelo apelo ao respeito e ao reco- surgir uma reivindicação de reconhecimento como es-
nhecimento. O respeito se impõe desde que as desi- paço das identidades e da civilidade. É por tal razão
gualdades de mérito e de desempenho não devam afe- que os movimentos sociais igualitários estão também
tar a igualdade entre as pessoas. Desse ponto de vista, centrados no reconhecimento de particularismos. Nes-
o desprezo aparece como confusão entre as esferas de se contexto, a reivindicação de igualdade nunca está
justiça, quando as desigualdades de desempenho separada de uma reivindicação de reconhecimento e de
desqualificam os indivíduos enquanto sujeitos livres e especificidade.43 Se o princípio de igualdade consiste
iguais. Por exemplo, os alunos admitem as classifica- em ser dono de sua própria vida, o princípio de reco-
ções e as hierarquias escolares, desde que os piores nhecimento faz com que esse domínio se subtraia par-
alunos não sejam desprezados nem maltratados e que cialmente às provas do mercado e do mérito.
o julgamento da pessoa e o do desempenho sejam cla- A globalização provoca certamente o retorno das
ramente diferenciados. Isso é também o que esperam identidades, das culturas e das nações. Mas não pode-
os usuários dos serviços sociais, quando afirmam que mos explicar tal retorno, como o faz Huntington, pelo
nem a pobreza nem o desemprego devem tirar o valor caráter irredutível das diferenças ou pela defesa do local
da pessoa, nem afetar as condições de igualdade. e do específico contra o universal do mercado, confun-
O tema do respeito introduz uma mudança essen- dido, no caso, com o modelo norte-americano.44 De
cial na natureza dos princípios de justiça. A igualdade modo mais fundamental, o tema do reconhecimento das
de todos é uma norma universal, uma ficção, um postu- identidades surge necessariamente como o único modo
lado que não tem necessidade de ser fundamentado de “síntese” e de conciliação possível das duas faces
empiricamente: as raças são iguais, os sexos são iguais, da igualdade ou da igualdade dos indivíduos com as
os seres humanos são iguais por princípio. As desigual- desigualdades coletivas. Aliás, a maioria dos movi-
dades funcionais do mérito são também de natureza mentos sociais “clássicos”, de alguns anos para cá,
objetiva e universal; elas são a sanção dos mecanismos assumiram dimensão identitária e nacional.
impessoais do mercado de trabalho e dos concursos.42 O rompimento dos registros e das dimensões da
E mesmo sabendo que essas provas são sempre “um igualdade se traduz por multiplicação das escalas de
jogo de cartas marcadas”, sabemos também que per- hierarquização das desigualdades e por dissociação
manecem objetivas e justas em seu princípio, como o relativa da dominação e dos critérios de estratifica-
implica o tema da igualdade de oportunidades. Ao con- ção. Isso não significa que haja crescimento ou dimi-
trário, o tema do respeito é necessariamente indexado
às particularidades individuais, naturais ou reivindica-
43
É uma lógica que o universalismo republicano tem dificul-
dade de aceitar, convencido de que só o funcionamento das insti-
42
Geralmente, aqueles que não gostam do mercado de traba- tuições meritocráticas pode garantir a contabilidade da igualdade
lho gostam dos concursos, e vice-versa; mas este desacordo quanto de todos e das desigualdades justas. H. Mendras, op. cit.
44
aos procedimentos não os opõe com relação à crença nas desigual- S. Huntington, “The clash of civilization”, Foreign Affairs,
dades injustas. v. 72, n° 3, 1993.

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As desigualdades multiplicadas

nuição das desigualdades, pois se elas aumentam se- gunta Walzer. Como conciliar o reconhecimento e os
gundo alguns indicadores, se reduzem segundo outros. valores universais, interroga Taylor. Evidentemente,
E nada nos impede de nos indignarmos diante do cará- nenhuma dessas perguntas é diretamente sociológica.
ter escandaloso de muitas desigualdades. Contudo, do Mas seria tão difícil transformá-las em programas de
ponto de vista sociológico, aquela observação signifi- pesquisa sociológica, empírica e teórica? Fazendo tal
ca que as desigualdades já não formam um sistema, esforço, a sociologia não perderia sua alma, talvez
supondo que um dia tenha sido o caso, mas que for- mesmo a reencontrasse. Esse é o caminho se quiser-
mam um conjunto de tensões e de problemas em cada mos que ela não se reduza nem a um recenseamento
momento específicos. É inevitável constatar que o nem à descrição cada vez mais refinada de práticas,
marxismo não foi substituído por uma concepção es- elas próprias cada vez mais refinadas e, às vezes, cada
trutural homogênea e satisfatória das desigualdades que vez mais insignificantes. Os pais “fundadores” fize-
explique, ao mesmo tempo, as condutas dos atores e o ram da sociologia outra maneira de fazer política e
funcionamento de uma estrutura. Tal situação não deve, filosofia social e é por essa razão que ela nos interessa
no entanto, nos conduzir nem à negação das desigual- tanto hoje.
dades nem a sua simples denúncia que proporciona
mais benefícios morais que satisfações intelectuais.
Devemos, na melhor das hipóteses, nos satisfazer com
FRANÇOIS DUBET é professor da Universidade de Bordeaux
teorias ad hoc em função dos problemas estudados.
II, pesquisador do CNRS (École des Hautes Etudes en Sciences
Encontraremos questões e problemáticas globais Sociales/CADIZ). Autor de, entre outros: Sociologia da Experiên-
mais satisfatórias no âmbito da filosofia política, que cia, Lisboa, Instituto Piaget, 1994; De la Galère: jeunes en survie
se incumbe diretamente da diversidade dos critérios Paris, Fayard, 1987; A l’école: sociologie de l’expérience scolaire,
de justiça que comandam toda análise das desigualda- em colaboração com Danilo Martuccelli, Paris, Ed. du Seuil, 1996
des. Quais são as desigualdades justas, pergunta Rawls. e A formação dos indivíduos: a desinstitucionalização, Contempo-
Como manter a separação das esferas de justiça, per- raneidade e Educação, ano 3, n° 3, p. 27-33, março 1998.

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