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DIREITO I NTERNAC IONAL

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RESUMO
Examina o conceito de soberania, sua ori-
Kleber Sales
gem e desenvolvimento, e confronta-o
com o fenômeno da globalização, para in-

O CONCEITO
vestigar em que medida esta afeta a inde-
pendência dos Estados nacionais.
Afirma que a teoria da soberania absoluta
já não é aceita na atualidade, o que signi-

DE SOBERANIA
fica vislumbrar as mudanças sofridas pelo
conceito para adaptar-se à realidade jurí-
dico-social. No entanto, tal fato não é sufi-
ciente para admitir que a soberania do

PERANTE A
Estado tenha chegado ao fim com o pro-
cesso de globalização.
Considera esse entendimento insustentá-
vel, ao se analisar o sistema mundial de

GLOBALIZAÇÃO
direitos, que reconhece às nações o direi-
to de governar-se soberanamente e ao
qual a globalização não se sobrepõe.

PALAVRAS-CHAVE
Liziane Paixão Silva Oliveira
Estado-nação; soberania; globalização;
Estado; Direito Internacional; ONU.

Revista CEJ, Brasília, n. 32, p. 80-88, jan./mar. 2006


1 INTRODUÇÃO ras das relações intergovernamentais, essa tório determinado; c) governo; e d) a ca-
O estudo do conceito de “sobera- premissa é refutada. Não será necessaria- pacidade de entrar em relação com os
nia” ganha importância perante a mente a globalização, como fenômeno demais Estados.
globalização, visto que, para alguns es- integralizador, que mitigará a soberania na- De modo diverso, estudiosos da teo-
tudiosos, como Matteucci, aquela já está cional, mas a forma como os governantes ria geral do Estado entendem que não é
em via de extinção. A fundamentação se colocam diante dela? a população, mas o povo que constitui o
está na mudança do paradigma de Esta- Nas considerações finais, faz-se um elemento humano do Estado. Alguns es-
do adotado pelo constitucionalismo, pois apanhado dos conhecimentos pesqui- tabelecem a soberania como poder pe-
as fontes de produção normativa, cujo sados acerca de tão vasto e complexo culiar do Estado, pois existem sociedades
controle sempre foi visto como primor- tema, uma vez que, das leituras realiza- formadas por território, povo e governo,
dial para a existência de uma nação so- das, surgiram questionamentos teóricos mas não se constituem em Estados por
berana, não mais pertencem ao Estado, que, longe de levarem a pensamentos faltar a soberania. Além disso, uma cor-
mas a organismos internacionais. O Es- exatos, conduzem à “crise”, no sentido rente minoritária inclui o quarto elemen-
tado, sob esse ângulo, perde sua auto- etimológico de risco e oportunidade. to, a finalidade, pois, para ela, o Estado
nomia e sua independência. Todavia, tem o fim específico e essencial de regu-
alguns teóricos, como Hirst e Thompson, 2 SOBERANIA DO ESTADO: lamentar as relações sociais.
acreditam que a organização política dos ESCOLHENDO UM CONCEITO Neste momento, é indispensável
Estados é favorecida pela existência de As reflexões sobre a relação entre estabelecer a divergência entre popula-
um sistema mundial de direitos, ou seja, soberania e globalização objetivam es- ção e povo. A primeira significa um con-
a globalização amplia e aperfeiçoa a coo- clarecer aspectos importantes acerca do junto de pessoas instaladas de modo
peração entre os Estados soberanos sem instituto da soberania em sua acepção permanente em um território, sejam elas 81
inviabilizar a independência das nações. político-jurídica ante o processo de nacionais ou estrangeiras residentes no
Antes de afirmar se a globalização globalização, sem, contudo, prenderem- Estado. Para Pellet, população é enten-
extingue ou não a soberania, é imperio- se a análises profundas de suas impli- dida, sobretudo, como a massa dos in-
so verificar se esse processo é realmen- cações no campo econômico, social, cul- divíduos ligados de maneira estável ao
te vislumbrado. A palavra “globalização” tural, ou qualquer outro. No decorrer da Estado por um vínculo jurídico, o víncu-
tornou-se comum no vocabulário dos reflexão, pretende-se responder a uma lo da nacionalidade2.
cientistas sociais, uma máxima central questão necessária ao desenvolvimen- O conceito de povo é jurídico, mais
nas prescrições dos economistas, um to deste artigo, qual seja: como o pro- restrito que o de população. Para Marce-
slogan para jornalistas e políticos. Vive- cesso de globalização afeta o conceito lo Caetano, o termo “população” tem um
mos uma era em que a maior parte da de soberania? significado econômico, que corresponde
vida social é determinada por proces- ao sentido vulgar, e que abrange o con-
sos globais, em que culturas, economi- 2.1 ELEMENTOS FORMADORES DO junto de pessoas residentes num territó-
as e fronteiras nacionais estão-se dis- ESTADO MODERNO rio, quer se trate de nacionais ou estran-
solvendo. É possível, nos contextos so- Existe divergência quanto aos pres- geiros. Ora, o elemento humano do Es-
cial, econômico, tecnológico e político supostos essenciais para a formação do tado é constituído unicamente pelos que
contemporâneos, verificar a isonomia Estado. Os doutrinadores de Direito In- a ele estão ligados pelo vínculo jurídico
tão falada pelos defensores da era glo- ternacional1 entendem, em concorde que hoje chamamos de nacionalidade3.
bal? Vive-se realmente um momento de unanimidade, que os elementos essen- Seguindo o mesmo ponto de vista,
uniformização? Seria esta a melhor pa- ciais para a existência do Estado são: o encontram-se Kelsen4, Borja y Borja5 ,
lavra para expressar o significado a que território como elemento físico, a popu- Sanguinetti6, Del Vecchio, Groppali7, en-
se pretende remontar? lação como elemento humano e o go- tre outros. Em resumo, o termo “popu-
Paulo Nogueira Batista Jr., no prefá- verno soberano. lação” é mais abrangente que povo; este
cio da edição brasileira do livro Globa- Em conformidade com essa corren- é um conceito jurídico, enquanto aque-
lização em questão, declara que, segun- te, reza a Convenção Panamericana de le é demográfico.
do as versões mais exaltadas, os países Montevidéo, de 1933, sobre Direitos e De- O território é consagrado por todos
em desenvolvimento estariam indefesos veres dos Estados, promulgada pelo Bra- os doutrinadores como elemento físico
diante de movimentos irreversíveis, só sil (Decreto n. 1.570, de 13/04/1937), que fundamental de um Estado, local no qual
restando a submissão e a aceitação pas- O Estado, como pessoa de Direito Inter- tem validade a ordem jurídica. É forma-
siva das imposições feitas. Não obstante nacional, deve reunir os seguintes requi- do por solo, subsolo, ilhas marítimas, flu-
tais idéias vigorarem em algumas esfe- sitos: a) população permanente; b) terri- viais e lacustres, plataforma continental8,

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mar territorial9, mares inferiores, espaço apenas introduzir sua marca na tradi- critica a idéia de Aristóteles de separar a
aéreo, representações diplomáticas10 e ção que remonta aos antigos13. Ele con- administração pública da doméstica, por
embarcações e aeronaves militares em sagrou-se ao publicar, em 1576, Les Six entender que não é possível separar a parte
qualquer lugar. Livres de la République, além de ter principal (família) do todo (República) 22.
O Estado é uma pessoa jurídica e, sido o primeiro a afirmar que a sobera- A coisa pública será o terceiro elemen-
como tal, necessita do governo para nia era uma característica do Estado14. to, pois, para a existência da República, é
representá-lo. O Direito Internacional No primeiro livro da obra Os seis li- necessário que algo seja compartilhado por
considera o Executivo, o Legislativo e o vros da República, Bodin define a Repú- todas as famílias. Bodin expõe: é preciso
Judiciário como partes constituintes do blica15, detalha seus elementos e diferen- que haja alguma coisa em comum e de
governo, que deve ser independente e cia-a da família. Segundo o autor, Repú- caráter público, como é o patrimônio pú-
autônomo, ou seja, soberano para que blica é um correto governo de várias fa- blico, o tesouro público (...). Não existe
o Estado se constitua. A soberania é um mílias, e do que lhes é comum, com po- república se não há nada público 23.
elemento essencial para a existência do der soberano16. Ela surge a partir da lenta O quarto elemento indispensável é
Estado e, com base em conceito jurídi- multiplicação das famílias e estabelece- a soberania. O autor utiliza a metáfora
co tradicional, é o poder exercido por se mediante a violência dos mais fortes e do navio para explicitar a importância
uma entidade estatal que tem como ca- o consentimento dos demais17. que a soberania tem na República. Do
racterística a conjugação de autonomia O primeiro elemento da República mesmo modo que o navio só é madei-
e independência. a ser explicitado foi o justo governo, que ra, sem forma de embarcação, quando
serve para diferenciá-la de um bando de lhe é suprimida a quilha que sustenta
2.2 ORIGEM E DESENVOLVIMENTO ladrões e piratas com os quais não se os lados, a proa, a popa e o convés,
DO CONCEITO podem estabelecer relações de comércio assim também a República sem poder
O conceito de soberania apareceu nem fazer alianças, atividades respeitadas soberano, que une todos os membros
em um momento histórico específico, nas repúblicas organizadas18. No enten- e partes, e todas as famílias, corpos e
apresentando características que, com o dimento de Bodin, ela deve buscar terri- colégios, não é República 24.
passar dos séculos, incorporaram novos
elementos. A análise conceitual da sobe- A soberania é um elemento essencial para a existência do
rania deve estar atrelada às condições his- Estado e, com base em conceito jurídico tradicional, é o poder
82 tóricas em que surge o conceito. exercido por uma entidade estatal que tem como característica
O termo “soberania” era utilizado a conjugação de autonomia e independência.
na Idade Média distintamente da forma
como será interpretado no século XVI. A tório suficiente para abrigar os seus habi- 2.2.1 A SOBERANIA EM BODIN,
noção de soberano que qualificava a tantes, uma terra fértil, animais para ali- ROUSSEAU E HOBBES
pessoa do rei passa, na Idade Moderna, mentar e vestir os súditos, céu e tempe- No capítulo VIII do Livro I, Jean
a caracterizar o Estado moderno, apre- ratura agradáveis, boa água e material Bodin formula uma definição de sobe-
sentando novo significado. para construção das casas. Posteriormen- rania. Ninguém, até então, tinha-se sub-
No que diz respeito à origem te, seriam satisfeitas as comodidades me- metido a isso. Dispõe que a soberania
epistemológica da palavra “soberania”, os nos urgentes19. é um poder absoluto e perpétuo de uma
teóricos contrapõem-se. Segundo A família foi o segundo elemento a República em relação aos que manipu-
Paupério, Sahid Maluf, Oliveira e Ribeiro ser considerado para conceituar a Repú- lam todos os negócios de Estado de
Júnior, o termo provém do latim medie- blica, pois ela é a sua fonte, seu principal uma República. Observam-se dois as-
val superamus, que significa “aquele que elemento, sem o qual ela não existiria. pectos destacados por Bodin para carac-
supera”. Para Menezes, vem do latim clás- Para Bodin, as sociedades políticas for- terizar o poder soberano. São eles: ab-
sico super omnia11. Mas configurou-se mam-se pela reunião natural de várias fa- soluto e perpétuo.
pelo vocábulo francês souveraineté, que, mílias, seja mediante o medo ou a vio- Segundo o autor, a soberania é ab-
no conceito de Bodin, expressa o poder lência. Os antigos chamam república soluta porque o seu exercício é livre e não
absoluto e perpétuo de uma República 12. uma sociedade de homens reunidos para pode ser interrompido por nenhum obs-
Foi inquietante iniciar o estudo da viver bem e felizmente. Dita definição, táculo de natureza política. Absoluto sig-
teoria da soberania pelo conceito esta- sem embargo, contém mais ou menos o nifica incondicionado, mas não arbitrário.
belecido por Bodin, pois, reconhecida- necessário. Faltam, nela, três elementos Pode-se dizer que ao governante confe-
mente um dos formuladores do con- principais, é dizer, a família, a soberania re-se poder absoluto e soberano, não es-
ceito moderno de soberania e, embora e o que é comum em uma república 20. tando subordinado a nenhuma lei ulteri-
seja sempre citado, nunca se fez uma Em suma, a diferença entre a famí- or ou posterior; está acima do direito in-
análise profunda de sua obra. Jean lia e a República reside no fato de a pri- terno. Ele teria o monopólio do direito,
Bodin escreveu livros sobre variados meira ser o reto governo de vários sujei- mediante o poder legislativo25.
temas, porém, como bem explica Bar- tos sob a obediência de um chefe de fa- Com Hobbes, a idéia de sobera-
ros, não reivindicava a originalidade, mília e do que lhe é próprio, enquanto a nia fica dissociada da pessoa do
no sentido de ser inédito, de apresen- segunda é o reto governo de várias famí- governante; é impessoal. O Estado pas-
tar algo totalmente novo. Pretende lias e do que lhes é comum21. O autor sou a ser conceituado como fenômeno
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independente dos governantes e governados, uma pessoa linha de argumentação dos referidos autores, quando afirmam:
artificial, o Leviatã. Regimes de regulação, agências internacionais, políticas comuns
A essência da soberania, que, segundo Bodin, identifica o sancionadas por tratado, tudo isso chega a existir porque os
poder de fazer e anular leis, para Hobbes devem ser estabeleci- principais Estados-nação concordam em criá-los e em conferi-
dos, no poder de impor, mediante a força, determinados com- lhes legitimidade, compartilhando sua soberania. A soberania
portamentos. Ambos os autores têm a necessidade de identifi- é alienável, os Estados cedem poder para agências supra-Esta-
car fisicamente o detentor do poder26. Sobretudo Hobbes de- do, mas não se trata de uma qualidade fixa. A soberania é
senvolve a noção de soberania estatal e, posteriormente, Locke alienável e divisível33.
e Rousseau difundem a idéia de soberania popular 27. É forçoso interpretar essa afirmativa à luz da soberania brasi-
Em 1762, Jean-Jacques Rousseau, o cidadão de Genebra leira frente aos inúmeros tratados ratificados. Com fulcro na con-
que viveu o fenômeno da democracia direta, escreve O contrato cepção dos autores supramencionados, propõe-se uma questão
social e, nesse tratado, transfere a titularidade da soberania do crucial que norteia todo o desafio sugerido pelo tema, fruto de
governante para o povo. De acordo com Rousseau, a soberania reflexões posteriores. Quando o Estado brasileiro assina um trata-
é expressão da vontade geral; equivale ao interesse comum, e é do aliena ou divide a sua soberania?
sempre constante, inalterável e pura28. Não se trata da vontade Num primeiro momento, a alienabilidade34 da soberania
de todos, pois esta é a soma das particulares, das minorias coleti- pode ser compreendida como a possibilidade que o titular tem
vas e equivale-se ao mal. Em suma: a vontade, ou é geral, ou não de alienar, de ceder o seu poder soberano. Desde o tempo de
o é; ou é a do corpo do povo, ou unicamente de uma parte. No Bodin, essa possibilidade já era remota, pois a maioria dos reis
primeiro caso, essa vontade declarada é um ato de soberania e detinha a soberania como usufruto, e não como propriedade.
faz lei; no segundo, não passa de uma vontade particular ou de Rousseau, por defender a soberania popular, não concebia tal
um ato de magistratura; é, quando muito, um decreto 29. hipótese. O Brasil referenda a inalienabilidade da soberania
Para esse teórico suíço, a soberania tem duas qualidades: a popular no art. 1º, parágrafo único, da Constituição Federal de
da inalienabilidade e a da indivisibilidade. Ambas estão explicadas, 1988, uma vez que os governantes do Estado brasileiro são
respectivamente, nos capítulos I e II do Livro II da obra mencio- representantes do povo, não detêm a titularidade do poder
nada. Quanto à inalienabilidade, escreve: a soberania, sendo soberano. Lupi explica que a soberania tem diversas facetas,
apenas o exercício da vontade geral, nunca pode alienar-se, e entre elas a territorial35, largamente combatida, que pode ser
o soberano, não passando de um ser coletivo, só pode ser re- alienada, como ficou demonstrado na compra da atual região
presentado por si mesmo; pode transmitir-se o poder – não, do Acre pelo Brasil à Bolívia36. 83
porém, a vontade30. No que tange à indivisibilidade, a razão é A indivisibilidade defendida por Bodin estava fundada na
que a vontade só é geral se houver a participação de todos, não impossibilidade de partilha do poder entre o rei, os aristocra-
sendo necessário, porém, que seja unânime. tas e o povo. Segundo Rousseau, não podia ser dividida por-
A necessidade de conceituação leva Bodin a apontar como que pertencia ao povo. Dallari explica que, hoje, compreende-
características fundamentais da soberania o poder absoluto, se que o titular da soberania é o Estado, e, mesmo assim, é
indivisível, perpétuo, inalienável e imprescritível. Acerca dos dois inadmissível existirem partes separadas da mesma soberania37.
primeiros, cabe a lição de Ribeiro Júnior, quando sugere que o Ainda com relação à afirmação feita por Hirst e Thompson,
poder soberano deveria concentrar-se na mão de um só homem, verificam-se alguns equívocos. Quando o Estado assina um trata-
pois, segundo alega, a família, que é verdadeira miniatura da do internacional, não está cedendo o poder soberano, pois cada
República, tem apenas um chefe, e o cosmos tem somente um membro dos organismos internacionais permanece com esse
Deus soberano. Assim, de acordo com as suas idéias, inspiradas poder, podendo retirar-se quando desejar. O que diferencia o Es-
principalmente em Aristóteles, não existem limites jurídicos para tado das demais pessoas jurídicas de Direito Internacional público
o poder, sendo o soberano o indivíduo a quem o povo atribui, é o fato de só ele ser soberano. Desta forma, mesmo as organiza-
perpetuamente, autoridade ilimitada e absoluta 31. ções de vocação universal, como a ONU, não formam super-Esta-
Para Hauriou e Azambuja, as idéias do contratualista são dos, por não possuírem o poder soberano 38. Destarte, o Brasil não
eivadas de contradições, principalmente no que tange à qualifi- alienou nem dividiu a sua soberania ao assinar tratados.
cação da vontade geral, que, em determinados momentos, é Os qualificativos temporais da soberania são a perpetuida-
expressa como a vontade comum de todos os membros da co- de e a imprescritibilidade. Para Lupi, quando Bodin tratou da
letividade; em outros, é a vontade de um pequeno grupo, e perpetuidade, atrelou-a à vida do soberano39. Diferentemente
confunde-se com vontade legislativa, muito embora esta não interpretou Matteucci, estabelecendo que a perpetuidade é um
tenha sido mencionada por Rousseau 32. atributo intrínseco ao poder de organização política e não coin-
cide com as pessoas físicas que o exercem. Assim, na monar-
2.2.2 CARACTERÍSTICAS DA SOBERANIA: quia, a soberania é uma qualidade da Coroa e não do rei40. Com
UMA ABORDAGEM ANALÍTICA base na interpretação dada por Lupi, a soberania não seria mais
Numa síntese das reflexões sobre a soberania e suas caracte- perpétua, se é fato que a maioria dos Estados adotam sistema
rísticas, praticamente a totalidade dos estudiosos reconhece-a como representativo, como é o caso do Brasil. Na análise de Rousseau,
inalienável, indivisível, imprescritível, perpétua e absoluta. Pode- a soberania é perpétua porque pertence ao gênero do povo,
se assegurar que essas características sejam válidas atualmente? que nunca padece.
No entendimento de Hirst e Tompson, a soberania adquire No que concerne à imprescritibilidade, o poder soberano
características de alienabilidade e divisibilidade. Atente-se para a não se extingue com o passar do tempo. Essa característica, como
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todas as outras, permanece válida nos dias atuais. Um exemplo Miguel Reale, ao estudar o significado do termo, concebeu-
fornecido por Lupi é o da Argentina, que, mesmo não exercen- o como o poder de organizar-se juridicamente e de fazer valer
do efetivamente a soberania sobre as Malvinas, não concorda dentro de seu território a universalidade de suas decisões, nos
com a legitimidade de outro soberano41. limites dos fins éticos de conveniência47. A observação de Reale
O adjetivo “absoluto”, atribuído à soberania, não é mais con- demonstra que a soberania não é só um poder de fato, nem um
cebido, nos moldes pensados por Bodin e Hobbes, como o poder poder jurídico, pois encontra seus limites na exigência de não
ilimitado, incontrolável do Estado. Conforme Lupi, absoluto, neste burlar os fins éticos.
sentido, é uma ficção instituída para separar as unidades do en- Complementando a definição anterior, Francisco Rezek
torno, deixando os Estados, ao seu arbítrio, exercerem seu poder entende a soberania como atributo fundamental do Estado, a
sobre uma população situada num território sem a interferência soberania o faz titular de competências que, precisamente
de outrem. Tal ficção, em raras oportunidades, talvez em nenhu- porque existe uma ordem jurídica internacional, não são ili-
ma propriamente, correspondeu à realidade 42. mitadas, mas nenhuma outra entidade as possui superiores48.
O Estado é soberano para determinar o próprio destino, Juridicamente, o instituto da soberania nunca foi desafiado
interna e externamente, mas essa liberdade é pautada por com- desde a Carta das Nações Unidas até os documentos interna-
promissos internacionalmente assumidos. Assim, a soberania é cionais mais recentes.
analisada sob duas óticas: a interna, tida, no Direito Público in- O Estado soberano é independente, na medida em que
terno, como soberania nacional, e a externa, que é a soberania dispõe de poderes para atuar no cenário nacional e internacio-
do Estado ante os demais. nal. Porém, quando o Estado determina a extensão de suas obri-
A primeira, na concepção de Azambuja, refere-se à autorida- gações internacionais, o poder fica limitado, o que não repre-
de do Estado, às leis e ordens que edita para todos os indivíduos senta a divisão da soberania.
que habitam o seu território e as sociedades formadas por esses Levando em consideração as distintas acepções do termo,
indivíduos; predomina sem contraste, não pode ser limitada por entende-se a soberania como um poder de decisão atribuído
nenhum outro poder 43. A segunda significa que, no cenário inter- juridicamente ao Estado, que se traduz em independência e
nacional, as relações recíprocas entre os Estados são de igualdade autonomia, tanto em dimensão externa quanto interna, sendo a
e respeito; não há dependência, do mesmo modo que não há liberdade pautada por fins éticos.
elementos que identifiquem a formação de um “mega-Estado”. As interpretações conceituais distorcidas ensejam a má uti-
Os teóricos franceses Le Fur e Carré de Malberg44 enten- lização dos termos “independência” e “autonomia” e são
84 dem não existir uma soberania externa e outra interna indepen- comumente usadas como palavras sinônimas para qualificar a
dentemente, pois, assim, deixa de ser una. Para ambos, nos soberania49, o que é equivocado. De modo geral, a independên-
domínios do poder soberano, o máximo que se pode aceitar é cia, como elemento jurídico indispensável para a existência do
uma divisão formal de funções, uma função externa e uma Estado, é o aspecto formal da soberania. Tem-se a autonomia
função interna da mesma e única soberania45. como o aspecto material que pode ser graduado conforme a
Desde já, sem conferir validade a argumentos que qualifi- situação e a atitude desempenhada pelo Estado.
quem o Estado e a globalização como paradoxos, a avaliação é Na atualidade, alguns estudiosos, como Matteucci, defen-
no sentido de contemplar as duas dimensões como indispensá- dem a existência do “eclipse da soberania”; outros, a crise da
veis e complementares da realidade do Estado contemporâneo. soberania frente à globalização, como Bonavides. Tais teorias
As dimensões interna e externa da soberania são essenciais para fundamentam-se na expansão e no fortalecimento das institui-
a organização moderna do Estado, mesmo que esporadicamen- ções internacionais no mercado mundial mais integralizado para
te se apresente uma tensão entre elas. estabelecer suas premissas.

2.3 CONSTRUÇÃO DE U M CONCEITO CONTEMPORÂNEO 3 AS PERSPECTIVAS DA GLOBALIZAÇÃO


A definição concebida por Matteucci merece ser o pon- No início, era apenas um segredo sussurrado entre um grupo
to de partida para a elaboração do conceito contemporâneo de intelectuais bem informados. Em seguida, foram publicados
de soberania: alguns artigos sobre o assunto em revistas especializadas.
Em sentido lato, o conceito jurídico-político de soberania Contemporaneamente, uma vasta literatura foi escrita acerca do
indica o poder de mando de última instância numa sociedade assunto, a globalização, que atrai a atenção de políticos, sociólo-
política, e, conseqüentemente, a diferença entre esta e as de- gos, juristas, historiadores, entre outros grupos. Contudo, falta a
mais associações humanas, em cuja organização não se en- esse debate um pouco de precisão 50.
contra este poder supremo, exclusivo, e não derivado. Este con- A expressão adquiriu importância bastante peculiar nos
ceito está intimamente ligado ao de poder político: de fato, a últimos tempos. Teve início com as grandes navegações
soberania pretende ser a racionalização jurídica do poder, no européias dos séculos XV e XVI, quando os marinheiros se lan-
sentido da transformação da força em poder legítimo, do po- çavam em busca de novos territórios para serem colonizados.
der de fato em poder de direito46. O mundo era descoberto por meio da expansão transoceânica51.
O estudo do poder soberano perpassa por uma esfera fática O segundo estágio da globalização ocorreu com a Revolução
e outra normativa, muito embora a soberania pretenda ser a Industrial no século XIX, período marcado pelo desenvolvimento
racionalização jurídica do poder. Segundo a conceituação de das telecomunicações, por investimentos no exterior, pela co-
Matteucci e com base em outras definições, é possível selecio- lonização da África, da Ásia e do extremo Oriente. As décadas
nar elementos que auxiliem na formação de um conceito. do pós-guerra abrigaram o terceiro estágio da globalização.
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Nessa fase, destacam-se a descolonização globalização permanecem concentradas a comunicação instantânea de notícias
da Ásia e da África e a modernização da num pequeno número de países, no inte- que diminuem as distâncias entre os Es-
América do Sul, que contribuíram para a rior dos quais estão compartilhadas de tados. A fantasia está em considerar tal pro-
implantação de determinadas indústrias, modo desigual. Se, com a globalização, a cesso de fato global, pois só uma parcela
não aceitas nos países ricos pela rigorosa economia passa a condicionar o universo diminuta da população mundial tem aces-
legislação ambiental por eles adotada. da produção, o mesmo não se aplica aos so a esse tipo de informação por falta de
O vocábulo “globalização” surge do valores éticos. O grande desafio imposto é condições financeiras, ou intelectivas. Ven-
radical “global”, que significa integral, in- lidar com o vazio ético que brotou da ido- tila-se, entre os “globalistas”, a morte do
teiro, total. Ante essa afirmativa, uma per- latria exacerbada do mercado de capital. Estado, mas o que se observa é o fortaleci-
gunta se impõe: o que se faz integralizado É sempre oportuno, nesse sentido, mento deste, como único ente capaz de
na globalização? lembrar o posicionamento do Secretá- gerir as desigualdades.
Conforme Magnoli, globalização é o rio-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan: b) Como realidade perversa – seus
processo pelo qual o espaço mundial ad- Se a globalização oferece grandes efeitos já podem ser notados por muitos
quire unidade52. Todavia, não se encon- oportunidades, o que é certo é que, até e verificados por alguns. Segundo Annan,
tram, na análise deste processo, a unifor- hoje, os seus benefícios foram distribuí- mais de 25 milhões de brasileiros vivem
midade, a igualdade, a homogeneidade dos de uma forma muito irregular, en- abaixo da linha de miséria, e há, no mun-
mencionada pelo ilustre geógrafo e pela quanto o seu custo é suportado por to- do, 1,2 bilhões de pessoas com renda diá-
grafia do termo: a realidade demonstra dos. (...) Assim, o grande desafio que ria inferior a um dólar 60. Essas pessoas
grande diferença entre a prosperidade dos enfrentamos hoje é certificarmo-nos de sofrem diretamente os efeitos nefastos da
países abastados e a pobreza extrema em que, em vez de deixar para trás milha- globalização. Conforme Paulo Bonavides,
outras partes do globo. res de milhões de pessoas que vivem essa seria a versão hegemônica e maléfi-
ca da globalização neoliberal do capita-
O Estado soberano é independente, na medida em que lismo sem pátria61.
dispõe de poderes para atuar no cenário nacional c) Como deve ser – voltada a satisfa-
zer as necessidades essenciais a uma vida
e internacional. Porém, quando o Estado determina humana digna, relegando a posição se-
a extensão de suas obrigações internacionais, o poder fica cundária necessidades fabricadas 62. É im-
limitado, o que não representa a divisão da soberania. perioso utilizar os avanços tecnológicos e 85
econômico-financeiros advindos desse
Concorde com a mesma idéia está na miséria, a globalização se torne processo para melhorar, significativamen-
Sposati, segundo o qual o processo de uma força positiva para todos os po- te, a qualidade de vida da população
globalização não é uniforme, não atin- vos do mundo. Uma globalização que mundial. A Declaração Universal dos Di-
ge todos os países da mesma maneira, favoreça a inclusão deve assentar na reitos Humanos, no art. III, declara: toda
e não atinge os que vivem no mesmo dinâmica do mercado, mas esta, só por pessoa tem direito à vida, à liberdade e
país do mesmo modo53 . Continua: a si, não é suficiente. É preciso ir mais à segurança pessoal; todavia, a globa-
globalização, que pode surgir de imedia- longe e construirmos juntos um futuro lização, nos moldes em que se processa,
to, como um processo de homoge- melhor para a humanidade inteira, em infringe diretamente esse dispositivo e ou-
neidade, é, de fato, um processo hetero- toda sua diversidade56. tros, como o inc. XXIII, que consagra o
gêneo sob múltiplos aspectos54. Pretende-se demonstrar que um seg- direito ao trabalho.
Seguindo essa perspectiva, de acor- mento relevante da população mundial No mesmo sentido posiciona-se
do com Held e Mcgrew estão Beetham, não tem acesso aos adventos da Annan, para o qual o ser humano deve
Falk, Gill, Bradshaw e Wallece, Castells, globalização, ficando excluído de seus ser colocado no centro de todas as ativi-
Greider, Hoogvelt, Gray, para os quais as benefícios e relegado aos malefícios, de dades. E afirma: não há aspiração mais
análises canalizam para a globalização em modo que as desigualdades decorrentes nobre, nem responsabilidade mais im-
perspectiva econômica. Como conseqü- direta ou indiretamente deste processo periosa do que ajudar os homens, as
ência, observa-se que a globalização eco- garantam que não seja uniforme, não seja mulheres e as crianças do mundo inteiro
nômica (...) é diretamente responsável, global. Como preleciona o jurista Paulo a viverem melhor. Só quando isso acon-
por aumentar as disparidades de opor- Bonavides, seria apenas um compêndio tecer é que saberemos que a
tunidade de vida no mundo inteiro - há de ambigüidades 57. globalização está de facto a favorecer a
um aprofundamento da polarização da O geógrafo Milton Santos não con- inclusão, permitindo que todos compar-
renda e da riqueza 55. cebe a globalização como um fenôme- tilhem as oportunidades que oferece 63.
O processo de internacionalização dos no58, mas como um período com variá- A globalização é alardeada como um
fatores produtivos, impulsionado pela re- veis que perdem o vigor, surgindo outras processo de internacionalização dos fa-
volução tecnológica e pela internacio- para substituí-los. Pode-se analisá-la sob tores produtivos e do capital, impulsio-
nalização dos capitais, não culminou com três eixos. São eles: nado pela revolução tecnológica. Deve ser
a unificação, com a homogeneização dos a) Como fábula59 – a comunidade entendido como um processo histórico
padrões de consumo, como o prometido. passa a acreditar em fatos fantasiosos que conduz a disparidades, e não à
Pelo contrário, as benfeitorias advindas da como verdadeiros. Um exemplo disso é equidade, como pode ser constatado por
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uma observação, mesmo que singela, da sociedade mundial. A externos perdem eficácia69. Nesse sentido, alerta Magnoli para
globalização possibilitou a algumas nações o enriquecimento, o fato de que as tendências integradoras e globalizadoras da
mas, para a maioria, ensejou a depredação de seus recursos economia contemporânea colocam novos desafios para os
naturais e o agravamento da mazela social. Desse modo, tor- Estados nacionais. A resposta a tais desafios evidencia não
nou-se um desafio refletir sobre como a globalização, que sina- uma suposta fraqueza dos Estados, mas, pelo contrário, sua
lizava para o progresso unificado dos Estados, não logrou êxito, força e vitalidade70.
e como a idolatria do mercado conduziu a humanidade a um Sendo assim, o Estado passa a atuar, em algumas situa-
vazio ético. ções, com exclusividade como intermediário entre as aspirações
políticas externas e internas e deixa de desempenhar funções
3.1 O ESTADO EM FACE DA GLOBALIZAÇÃO eminentemente locais. A questão ambiental passa a ocupar a
Com efeito, a questão crucial apresentada pela globalização 64 agenda do Estado na medida em que as conseqüências dessas
aos Estados nacionais é se eles se manterão independentes e questões são globais, entre as quais destaca-se a diminuição da
autônomos. Para alguns estudiosos entusiastas, a globalização biodiversidade. Entendida como um problema transfronteiriço,
colocaria a soberania no museu da História. Outros, no entanto, cujo combate definirá o futuro da humanidade, o reconheci-
afirmam que o sistema mundial de direitos contribui para o for- mento da extensão do problema e do seu caráter coletivo fez
talecimento dos Estados. com que o Estado atuasse diretamente na solução da questão.
Idéias díspares são defendidas por Oliveira, Ribeiro e Desta feita, o Estado, para responder aos novos padrões mundial-
Bonavides. Para os dois primeiros, a soberania está em crise em mente implantados, abdica de algumas funções e avoca outras,
decorrência da globalização. Observam também que os países consolidando a sua autoridade e seu poder soberano.
periféricos têm a soberania limitada. O terceiro revela que os
neoliberais pretendem extinguir a soberania interna e externa e 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
menciona que só sabem conjugar cinco verbos: desnacionalizar, O termo “soberania” tem sido manipulado por estudiosos
desestatizar, desconstitucionalizar, desregionalizar e desarmar. e governos para determinar diferentes conceitos, a depender
Dando continuidade a esse pensamento, encontram-se os dos interesses e dos atores envolvidos. Em alguns momentos, é
globalistas, segundo os quais a globalização “esvaziou” os Esta- tido como absoluto, em outros, como relativo, e, ainda, como
dos, enfraquecendo a sua autonomia e soberania, uma vez que inexistente. Formar um conceito independente de correntes pré-
não têm capacidade para contrapor os ditames da economia fixadas foi uma das tarefas deste artigo.
86 global, nem de proteger a comunidade do seu território. Os pro- A teoria da soberania absoluta de Bodin não é mais aceita
cessos econômicos, ambientais e políticos regionais e globais no contexto mundial. Neste ponto, a teoria da erosão, do eclip-
redefinem profundamente o conteúdo das decisões nacionais 65. se, está coberta de razão, mas, daí a conceber-se um Estado
Assim, na concepção desses teóricos, há o declínio do Estado- supranacional é muito diferente. Para vislumbrar a existência de
nação e o aumento do multilitarismo. um supra-Estado, é preciso defender que os Estados deixaram
Acrescenta-se a essa corrente a posição de Torres: esse en- de ser soberanos, embora continuem sendo chamados de “Es-
fraquecimento do Estado nacional, vale ressaltar, dá-se de duas tado”, e que o novo Estado global vai ser dotado de soberania. A
formas: voluntariamente, quando o Estado delega competên- maior organização universal, a ONU, apesar de ser uma pessoa
cias deliberadamente a instâncias supranacionais, fortalecen- jurídica de Direito Público Internacional, não é soberana, e é
do organismos mundiais, e/ou de forma involuntária, decor- formada pelos Estados, que continuam independentes e autô-
rente do próprio processo de globalização66. nomos, mesmo integrando-a.
Não se concebe, na atual conjuntura, a idéia de que um Aceitar a soberania como poder ilimitado e absoluto do
Estado tenha o poder soberano enfraquecido por vincular-se a Estado no seu território é não vislumbrar as mudanças sofridas
organismos internacionais, já que o pensamento dominante pelo conceito para adaptar-se à realidade jurídica e social. A so-
durante a assinatura da Paz de Westfália67, de que os Estados berania será um conceito contemporaneamente válido se por
soberanos tinham liberdade absoluta para governar um espaço ela entender-se a qualidade ou o atributo da ordem estatal, que,
nacional, não é atualmente aceito, pois a Carta das Nações Uni- embora exercida com limitações, não foi igualada a nenhuma
das estabelece um limite consensual ao arbítrio dos Estados no outra no âmbito interno e nem superada no externo. Reafirman-
exercício da soberania68. do essa idéia, Souza entende que soberania não significa poder
total, ilimitado71.
Aceitar a soberania como poder ilimitado e O Estado é autônomo na medida em que é livre para deci-
absoluto do Estado no seu território é não dir no âmbito do seu quadro de competência; é independente,
vislumbrar as mudanças sofridas pelo conceito por não estar subordinado a nenhum outro Estado. Assim, a
para adaptar-se à realidade jurídica e social. liberdade estatal não é ilimitada para fazer o que se desejar, sem
nenhuma restrição. A teoria da soberania exige de um Estado
Em sentido diametralmente oposto, posicionam-se os cé- que ele respeite a soberania dos demais, pois nenhum Estado
ticos Hirst e Thompson. Eles acreditam que o Estado perma- tem o direito de alargar suas competências por decisão unilate-
nece soberano, sem ser onipotente na base territorial. Ele é ral, sob pena de atentar contra a soberania do outro.
fortalecido pelos processos de internacionalização, uma vez Por independência externa compreende-se que o Estado não
que é o Estado nacional, em última análise, que detém o está subordinado a nenhum outro, pois, com base no Direito In-
monopólio das normas, sem as quais os poderosos fatores ternacional, são considerados iguais. Ela é um atributo essencial
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do Estado; para Lupi, condição sine qua 21 Idem, p.18-19. não se vêem mais que duas faces de uma úni-
22 Jenofonte y Aristóteles han separado, sin razón, ca soberania. (PAUPÉRIO, op. cit., p. 28)
non para a sua existência72. Por todos os a mi juicio, la economía doméstica de la polí- 46 BOBBIO, op. cit., p. 1.179.
motivos elencados, propõe-se que a sobe- tica, lo que puede hacerse sin desmembrar la 47 REALE, Miguel. Teoria do Direito e do Estado.
rania não seja absoluta, todavia não se pre- parte principal del todo. Idem, p. 16. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1960. p. 127.
tende estabelecer o seu fim como um todo, 23 Idem, p. 17: Es preciso que haya alguna cosa Apud DALLARI, op. cit., p. 80.
en común y de carácter público, como el 48 REZEK, op. cit., p. 226.
mas, apenas, a qualidade de absoluta. patrimonio público, el tesoro público, (...). No 49 Para Walker (1990), existem quatro interpreta-
existe república si no hay nada público. ções para o significado de soberania. O primeiro
24 Idem, p. 17: Pero del mismo modo que el navío é a “codificação do princípio da igualdade en-
sólo es madera, sin forma de barco, cuando tre os membros da comunidade internacional”,
REFERÊNCIAS se le quitan la quilla que sostiene los lados, la e, nesse ponto, Lupi afirma que a soberania é
1 PELLET, Alain; DAILLIER, Patrick; DINH, Nguyen. proa, la popa y el puente, así la república, sin um conceito juridicamente vazio, porque não
Direito Internacional público. Lisboa: Fundação el poder soberano que une todos los miembros há Estados com características iguais, sendo a
Colouste Guebentian, 1999. p. 374; REZEK, José y partes de ésta y todas las familias y colegios isonomia apenas formal. O segundo significa-
Francisco. Direito Internacional público: curso en un solo cuerpo, deja de ser república. do seria como “codificação entre universalida-
elementar. 7 ed. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 153; 25 BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; de e diversidade cultural”. Em terceiro, estaria
ACCIOLY, Hildebrando. Manual de Direito Inter- PASQUINO, Giafranco. Dicionário de política. a concepção “legal”, que é tratada como inde-
nacional público. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 67; Trad. de Carmen C. Varriale et al. 7. ed. Brasília: pendência. Por fim, o “princípio político”, que
SOARES, Guido Fernando Silva. Curso de Direito Universidade de Brasília, 1995. p. 1.183. é similar ao aspecto da autonomia discutido.
Internacional público. 2. ed. São Paulo : Atlas, 2004. 26 Idem. (R. B. J. WALKER, Sovereignty, identity,
p. 144; JO, Hee Moon. Introdução ao Direito In- 27 Conforme Ribeiro Júnior, Rousseau sustenta a community:reflections on the horizons of
ternacional. São Paulo: LTr, 2000. p.198. teoria da soberania popular. Todavia, Paupério e contemporary political pratice. In: WALKER, R.
2 DINH; DAILLIER; PELLET, op. cit., p. 375. Azambuja colocam-no como membro da dou- B. J., MENDLOVITZ. Contending sovereignities.
3 CAETANO, Marcelo. Manual de Ciência Política e trina da soberania inalienável. Tais expressões, London: Rienner e Boulder, 1990. Apud:
Direito Constitucional. 6. ed. Lisboa: Coimbra, embora diferentes, são conceituadas por ambos ALBAGLI, Sarita. Geopolítica da biodiversidade.
1972. p.123. da mesma forma como a impossibilidade que Brasília: IBAMA, 1998. p. 81.)
4 KELSEN, Hans. Teoria geral do Direito e do Es- tem o indivíduo de transferir, alienar a outrem a 50 Para os céticos, entre eles Hirst e Thompsom, o
tado. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 334. soberania da qual é depositário. Cabe advertir termo mais apropriado para denominar esse
5 BORJA Y BORJA, Ramiro. Teoría Geral del que, segundo Paupério, a soberania popular, que período seria “internacionalização”, pois que
Derecho y del Estado. Buenos Aires: Depalma, antecede a nacional, foi por ela substituída his- seriam as ligações crescentes entre economias
1977. p.63-64. tórica e praticamente (...) por uma imposição ou sociedades nacionais diferentes. Defendem
6 SANGUINETTI, Horacio. Curso de Derecho Polí- jurídica de ordem política, e está submetida à a continuidade da preservação do território, das
tico. 2. ed. Buenos Aires: Astrea de Alfredo, 1986. razão, e não ao povo (PAUPÉRIO, A. Machado. fronteiras e dos governos locais.
7 GROPPALI, Alexandre. Doutrina do Estado. 2. O conceito polêmico de soberania. 2. ed. Rio de 51 MAGNÓLI, Demétrio. Globalização: Estado
ed. São Paulo: Saraiva, 1968. p. 111. Janeiro: Forense, 1958. p. 91). nacional e espaço mundial. 9. ed. São Paulo: 87
8 É o prolongamento das terras sobre o mar até 28 ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social. Moderna, 1997. p. 7.
a profundidade média de 200 metros. Trad. de Antonio de Pádua Danesi. 3. ed. São 52 Idem, p. 7. Por unidade entende-se: “Qualidade
9 É a projeção de 12 milhas náuticas a partir Paulo: Martins Fontes, 1996. p. 127. do que é um ou único ou uniforme.
da costa. 29 Idem, p. 34-35. Homogeneidade, igualdade, identidade, unifor-
10 Tratado de Versalhes. 30 Idem, p. 33. midade. Ação coletiva orientada para um mes-
11 No baixo latim, teria ensejado o superlativo 31 RIBEIRO JÚNIOR, João. Teoria geral do Esta- mo fim; coesão, união. (FERREIRA, Aurélio
supremitas (caráter dos domínios que não de- do e ciência política. 2. ed. Bauru: Edipro, Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI: o
pendem senão de Deus), com o significado de 2001. p. 191. dicionário da língua portuguesa. 3. ed. rev. e ampl.
superior (MENESES, Anderson de. Teoria geral 32 As considerações feitas acerca desse decano da Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 1.738).
do Estado. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense, Faculdade de Direito de Toulouse são basea- 53 SPOSATI, Aldaíza. Globalização: um novo e ve-
1999.p. 148). das no estudo de Farias. lho processo. In: DOWBOR, Ladislau; IANNI,
12 MALUF, Sahid. Teoria geral do Estado. 23. ed. 33 HIRST, Paul; THOMPSON, Grahame. Octávio; REZENDE, Paulo-Edgar A. Desafios
rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 1995. p. 30. Globalização em questão. Trad. de Wanda Cal- da globalização. 3. ed. Petrópolis: Vozes,
13 BARROS, Alberto Ribeiro de. A teoria da so- deira Brant. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 294. 2000. p. 43.
berania de Jean Bodin. São Paulo: FAPESP, 34 Alienação, para a legislação civil, compreende 54 Idem, p. 44.
2001. p.199. a perda da propriedade por parte do alienante. 55 HELD, David; MACGREW, Anthony. Prós e con-
14 HELLER, Hermann. La Soberanía: contribución Também indica o ato de transferência a título tras da globalização. Trad. de Vera Ribeiro. Rio
a la teoría del Derecho Estatal y del Derecho gratuito ou oneroso do direito pertencente de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 72.
Internacional. México: Fondo de Cultura àquele que transfere. 56 ANNAN, Kofi. Nós, os povos: o papel das Na-
Económica, 1995. p. 80. 35 A origem histórica da soberania territorial re- ções Unidas no século XXI. New York: Publié
15 Como se vê, o termo “República” equivale ao monta à Paz de Westfália. par l’Organisation des Nations Unies–
moderno significado de Estado. (DALLARI, 36 LUPI, André Lipp Pinto Basto. Soberania, OMC Département de l’Information, 2000. p. 6-7.
Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria geral do e Mercosul. São Paulo: Aduaneiras, 2001. p. 280. 57 BONAVIDES, Paulo. A globalização e a sobera-
Estado. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 77). 37 A soberania é um direito; sendo assim, seu nia: aspectos constitucionais. Revista do Insti-
16 BODIN, Jean. Los seis libros de la república. titular é uma pessoa jurídica (DALLARI, op. tuto dos Advogados Brasileiro v. 34, n. 92, p.
Trad. de Pedro Bravo Gala. 3. ed. Madrid: cit., p. 82-83). 26, abr./jun. 2000.
Tecnos, 1997. p. 9. No original: República es un 38 Idem, p. 263-273. 58 Tanto David Held e Anthony Mcgrew como a
recto gobierno de varias familias, y de lo que 39 LUPI, op. cit., p. 274. mestranda Rosenely Peixoto, na sua disserta-
les es común, con poder soberano. 40 BOBBIO, op. cit., p. 1.181. ção, tratam a globalização como fenômeno da
17 Idem, p. 165. 41 LUPI, op. cit., p. 278. sociedade contemporânea. O termo
18 Idem, p. 9. 42 Idem, p. 290. “globalização” não será tratado neste trabalho
19 Idem, p. 13. 43 AZAMBUJA, Darcy. Introdução à ciência políti- como fenômeno, algo extraordinário, maravi-
20 Idem, p. 11. No original: los antiguos llamaban ca. 13. ed. São Paulo: Globo, 2001. p. 63. lhoso, mas como processo, uma sucessão de
república a una sociedad de hombres reunidos 44 A concepção de ambos os teóricos foi retirada mudanças, seguindo a concepção de Milton
para vivir bien y felizmente. Dicha definición, sin de PAUPÉRIO, op. cit., p. 28. Santos.
embargo, contiene más y menos de lo necesario. 45 OLIVEIRA, Nelci Silvério de. Teoria geral do 59 Para Hirst e Thompson, ela também possui essa
Faltan en ella sus tres elementos principales, es Estado. Goiânia: Cultural e Qualidade, 1999. p. feição fantasiosa que denominam de mito, o
decir, la familia, la soberanía y lo que es común 27. É de grande valia acrescentar a opinião de mito da globalização.
en una república. Carré de Malberg: na ordem interna e externa, 60 ANNAN, op. cit., p. 21.

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61 Na lição do jurista Paulo Bonavides, na época contemporânea, há duas ver-
sões básicas de globalização: uma hegemônica e satânica, que é a
globalização neoliberal do capitalismo sem pátria, sem fronteiras, sem es-
crúpulos; outra a globalização da democracia, de caminhada lenta.
(BONAVIDES, op. cit., p. 35).
62 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à cons-
ciência universal. São Paulo: Record, 2001. p. 148.
63 ANNAN, op. cit., p. 7.
64 O conceito de “interdependência” foi um dos precursores da noção de
globalização que é empregada, nos últimos dez anos, como seu sinônimo. A
interdependência é fundamentada na sensibilidade e na vulnerabilidade dos
Estados. A sensibilidade corresponde à rapidez com que as mudanças em um
país acarretam mudanças nos demais. Já a vulnerabilidade é compreendida
como a capacidade de os Estados implementarem políticas que contornem
as alterações desencadeadas em outros Estados. (PEIXOTO, Alexandre Kotzias.
A erosão da soberania e a teoria das Relações Internacionais. 1997. 134 f.
Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Departamento de Rela-
ções Internacionais, Brasília, Universidade de Brasília, 1997. p. 53-56.).
65 HELD, David, op. cit., p. 86.
66 TORRES, Igor Gonçalves. O enfraquecimento do Estado nacional como enti-
dade reguladora do comércio exterior. [1997?]. 134 f. Dissertação (Mestrado
em Relações Internacionais) – Departamento de Relações Internacionais,
Universidade de Brasília, [1997?]. p. 34.
67 Segundo Held, o modelo de Westfália apresenta as seguintes características:
1) o mundo é composto por Estados soberanos, que não reconhecem auto-
ridade superior; 2) o processo legislativo, de solução de contendas e de
aplicação da lei concentra-se nas mãos dos Estados individualmente; 3) o
Direito Internacional volta-se para o estabelecimento de regras mínimas de
coexistência; 4) a responsabilidade sobre atos cometidos no interior das fron-
teiras é assunto privativo do Estado envolvido; 5) todos os Estados são vistos
como iguais perante a lei e regras jurídicas não levam em consideração
assimetrias de poder; 6) as diferenças entre os Estados são, em última ins-
tância, resolvidas a força; 7) a minimização de impedimentos à liberdade
do Estado é prioridade coletiva. (HELD, David. Democracy and Global Order:
from the Modern Sate to Cosmopolitan Governance. Stanford: Satanford
University Press, 1995. p. 78. Apud PEIXOTO, op. cit., p. 19-20).
68 Idem, p. 4.
88 69 SANTOS, op. cit., p. 76-77.
70 MAGNÓLI, op. cit., p. 41.
71 SOUZA, José Pero Galvão et al. Dicionário de política. São Paulo: T. A. Queiroz,
1998. p. 205.
72 LUPI, op. cit., p. 294.

REFERÊNCIA COMPLEMENTAR
GRUPPI, Luciano. Tudo começou com Maquiavel. Porto Alegre: L&PM, 1980.

Artigo recebido em 26/9/2005.

ABSTRACT
The authoress examines the concept of sovereignty, its
origin and development , and confronts it with the globalization
phenomenon, to investigate to which extent it affects the
independence of the national States.
She affirms that the theory of absolute sovereignty is no
longer accepted nowadays, which means to foresee the changes
suffered by the concept in order to adapt itself to the social
juridical reality. However, such matter is not enough to admit
that the State’s sovereignty has come to an end with the
globalization process.
At last, she considers that this point of view is unacceptable,
by analyzing the rights world system, which acknowledges the
nations’ right to rule themselves in a sovereign way, which
globalization does not surpass.

KEYWORDS
State-nation; sovereignty; globalization; State; Liziane Paixão é membro do grupo de estudo em Relações
International Law;UNO. Internacionais e Meio Ambiente da UnB e do UniCEUB.

Revista CEJ, Brasília, n. 32, p. 80-88, jan./mar. 2006

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