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AS JÓIAS DOS NEGROS: USUÁRIOS E ARTÍFICES NAS MINAS GERAIS DO SÉCULO XVIII

1. INTRODUÇÃO

Luiz Ozanan

Nos doze meses de trabalho, previsto no projeto inicial, investigamos a documentação manuscrita do século XVIII produzida pelos cartórios de Sabará em busca de inventários e testamentos que acusassem a posse de jóias ou amuletos usados pelos negros e pardos, de melhor condição social, tentando assim mapear o uso, determinando sua importância como fator de resistência, ao mesmo tempo como peça híbrida na cultura brasileira do século XVIII. Foi consultado também um significativo número de livros e revistas, listados na referência bibliográfica, bem como foram coletados alguns depoimentos orais de antigos moradores de Sabará e especialistas em joalheria e história. Pesquisamos ainda junto ao Arquivo Público Mineiro, local de fácil acesso e órgão mantenedor de um acervo considerável de documentos manuscritos, produzidos pela antiga Capitania. O volume de informações encontrados no referido arquivo foi bem maior que o previsto inicialmente, proporcionando um maior embasamento sobre a matéria pesquisada, porém não encontramos muitos inventários de negros libertos e pardos neste último, restringindo-nos somente ao Arquivo de Sabará e aos diversos livros que tratam da História Social. O corte temporal utilizado na pesquisa justifica-se pelo fato de com Minas Gerais do século XVIII, o Brasil conseguiu suprir as necessidades econômicas de Portugal, que já desde a segunda metade do século anterior apresentava dificuldades oriundas da União Ibérica e o governo Nassoviano.

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2. O NASCIMENTO DAS MINAS GERAIS

Minas Gerais, no século XVIII, foi responsável pelo reaquecimento do tráfico internacional de escravos para o Brasil, que até então estava praticamente voltado para o Caribe e para a América do Norte (KLEIN, 1978). Assim como o tabaco nos Estados Unidos da América do Norte e o açúcar cubano que propiciaram a inserção do africano e a necessidade de reposição das “peças”, a mineração em Minas Gerais abriu caminho para a aquisição de novos escravos, desta vez necessitavam de escravos especializados. Os escravos que vieram para Minas Gerais, na sua grande maioria eram procedentes da região de Angola, além de “Benguelas, Cabindas, Congos, Dahomeyanos, Fulas, Gegês, Haussás, Mandingas, Tapas, Nagôs, Yorubás, Moçambique e os Minas-Yorubanos ou Negros Minas” (SENA, 1977). Boa parte destes escravos veio em função de sua experiência com metalurgia e mineração. Em terras mineiras, os africanos recém chegados, juntamente com os crioulos, formaram uma massa significativa de escravos que, durante todo o século XVIII, contribuiu, não só para a cultura mineira, mas também para a formação de uma nova economia. Se no início da colonização no século XVI, os africanos eram tratados como “escravos da Guiné” ou “negros da Guiné”, ou seja, não era levada em consideração a especialidade do negro e nem mesmo as diferenças étnicas, o mesmo não se pode afirmar no século XVII, onde a crescente demanda da lavoura canavieira levou em conta vários fatores, entre eles a utilidade e a “resistência desses povos às relações de dominação e exploração exercida pelos colonizadores” (REIS, 1999, p. 168). Com o advento da mineração, muda o enfoque do colonizador, que agora passa a perceber não só as habilidades como também a inteligência do negro. A escolha da mão de obra africana respeita as experiências que os escravos apresentam na metalurgia, na mineração, no comércio entre outras. Uma organização colonial foi exigida para que o Reino português pudesse aumentar suas riquezas e também para que os senhores de escravos lucrassem. Não

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chega a ser uma organização tal qual foi promovida no Sul dos Estados Unidos 1 , mas era necessário um mínimo para que o Estado português não perdesse o controle da situação.

Nesse contexto, deparamo-nos com uma complexidade social e o que Sérgio Buarque de Holanda chamou de “plasticidade social” (HOLANDA, 1994). A mistura das raças, que já existia na própria metrópole, agora ganha dimensões fantásticas em Minas Gerais. Além disso, ganha mais força o escravo como agente histórico, que constrói sua vida através do trabalho, acordo e outros meios – como a sexualidade, por exemplo, que deve ser mais estudada. Em Minas Gerais, a escravidão tomou um rumo bastante diferente daquele que perpassa o nosso imaginário. O conhecimento técnico fez do negro africano um trabalhador que poderia comprar sua liberdade. Também em Minas Gerais, a economia caminhou por outras direções. Diversificou-se e dinamizou, causando um afluxo de homens e mulheres livres, além dos escravos nascidos no Brasil. Nas Minas Gerais de tantas diferenças, onde a mobilidade física, cultural e social se fez presente,

[…] o encontro de tradições culturais muito diferentes ocorreu intensamente e assumiu dimensões extraordinárias. A população mestiça era grande e o hibridismo cultural atingiu todos os grupos sociais, embora a impermeabilidade de certos costumes também se fizesse presente, ainda que camuflada. (PAIVA, 1999b).

Desta maneira, há de se destacar o papel importante dos negros e dos mestiços para a composição social de Minas Gerais, já que ainda são muito tímidos os estudos sobre a cultura africana, podendo ser resumidos somente a gostos musicais, danças folclóricas e comidas típicas. Uma maneira para se levantar questões sobre a etinicidade africana, sua contribuição para a formação e poder escapar do mito da inferioridade racial é a proposta que apresento neste, estudando as jóias e os amuletos feitos e usados pelos negros e mestiços na colônia na época da mineração. O estudo das jóias e amuletos, que são mais que ornamentos, podendo ser considerados símbolos de conquista (além da proteção contra o mal olhado) é muito

1 Que possibilita trabalhos de pesquisa fantásticos como o Tempo da Cruz, pelos autores FOGEL, Robert William e ENGERMAN, Stanley, ainda sem tradução mas que mostra em seu volume primeiro,

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interessante quando observado pelo lado da aceitação do branco por tais ornamentos, mesmo que não tenham a mesma investidura nos negros e mestiços, pois demonstra uma certa forma de resistência e em alguns casos, demonstra uma vitória dos costumes de várias nações, permanecendo no Brasil quase que inalterados. As questões que foram estudadas nesta pesquisa mostram tanto a impermeabilidade quanto o hibridismo cultural presentes no cotidiano escravista da colônia – notadamente em Minas Gerais do século XVIII. Foi nossa companheira na pesquisa, que ora apresentamos o relatório final, a preocupação de dar vozes aos que produziram e consumiram jóias típicas de negros, como os amuletos que em pouco tempo de divulgação na então Colônia passaram a ter a aceitação da Igreja católica que ,num primeiro momento, condena e persegue quem utiliza de tal ornamento.

3. AS JÓIAS DOS NEGROS; USUÁRIOS E ARTÍFICES NAS MINAS GERAIS DO SÉCULO XVIII

A descoberta de ouro nas Minas Gerais ,no final do século XVII, fez com que, durante o século XVIII, boa parte do tráfico interno de escravos fosse direcionada para esta região, que chegou ao final dos setecentos? com uma população de escravos e libertos superior a outras partes da colônia. 2 A sociedade formou-se com a ajuda das tradições culturais de vários personagens, alcançando dimensões fantásticas. A particularidade mineira reside exatamente neste hibridismo cultural, apesar das impermeabilidades fazerem-se presentes. Condições interessantes o negro aqui encontrou, como a mobilidade social e cultural e a formação do pecúlio para a compra da liberdade (PAIVA, 1995). Nossa pesquisa apontou para um nome:Bárbara Gomes de Abreu e Lima, crioula forra – provavelmente através de coartação 3 - que deixou em testamento no ano

entre outras coisas, a condição material do escravo no Sul dos Estados Unidos, com uma base documental muito boa. 2 Em 1776, a Capitania contava com uma população total de 319.769 indivíduos. A Bahia contava com 288.848 habitantes. No fim do período colonial, Minas possuía 23,6% de brancos, 33,7 africanos e mestiços livres, 40,9% eram escravos e 1,8% da população mineira era de índios. Ver ALDEN, p.286. 3 Coartação significa o pagamento parcelado da alforria, efetuado pelo próprio escravo.

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de 1735, alguns bens, entre eles a casa onde residia (em Sabará, no Largo da Matriz) e uma interessante descrição de suas jóias e amuletos, abaixo transcrito:

[…] seis cordões pesando cento e uma oitavas, um se acha empenhado na mão de Thereza de Jezus mulher de Antônio Alves por vinte oitavas e três na mão de Jozé Ferreira Brazam donde se acham dois cordões emendados que fazem um, quarenta oitavas, um cordão com uma águia, um pente, uma estrela, uma argola solta, um coração, tudo em ouro, também empenhado na mão de Jozé Ferreira Brazam, um cordão de ouro, um feitio de menino Jesus de ouro pesando quatro oitavas, uma senhora de feitio de Nossa Senhora da Conceição pesando três oitavas e meia, uns brincos de aljôfar e uns botões de ouro, umas argolinhas de ouro pequenas, uma bola de âmbar, uma volta de corais engranzados em ouro, um coral com uma figa pendurada, tudo em ouro, quatro colheres de prata pesando oito oitavas cada uma, quatro garfos de prata e uma faca com cabo de prata, duas memórias de emberessadeiras

[ ]

4

Imaginamos que Bárbara Gomes desmembrou uma penca de balangandã para fugir da Inquisição. A igreja já passara por ali a captura de Luzia Pinta, uma angolana forra que fora acusada de heresia e presa pela inquisição 5 . Explica-se isso pelo fato da protagonista ter experimentado uma ascensão social e econômica notável, não necessitando por isso desfazer de seus bens, ou seja, não desmembrou sua penca por necessidades financeiras. O uso de balangandãs à cintura servia para proteger contra maus olhados a portadora e alguns podem ter sido usados segundo preceitos religiosos (devoção ou proteção), mas este adorno sem importância para uns é um indicador da condição sócio- econômica para nós. Esses penduricalhos eram representações de fertilidade, sexualidade e de poder exercido pelas mulheres sobre o processo de formação da família e dos grupos sociais. A figa latina, representada por uma mão humana com o polegar colocado entre os dedos indicador e médio, pode significar um ato sexual ou o órgão sexual feminino,por isto, foi usada para combater a esterilidade e lhe são atribuídos poderes contra o mau-olhado. Thomas Ewbank, viajante norte americano que esteve no Rio de Janeiro no século XIX, observou as jóias-amuletos usadas, não só pelos negros e mestiços, como também pelos brancos (preferencialmente crianças).

4 MO/CPO-TEST – códice 2, ff. 86v-91. Testamento de Bárbara Gomes de Abreu e Lima – Sabará,

12/07/1735.

5 Ver MOTT (1994) para saber mais sobre o processo de Luzia Pinta em Sabará.

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Escreveu ele:

Mais ou menos todos os tipos de jóias clássicas podem ser encontradas nas nações latinas; grande parte dela é comum no Brasil. Antigos fetiches e

amuletos, inclusive a figa, são tão comuns quanto eram em Tebas, Éfeso ou

Roma. (

Além das cruzes, crucifixos, coroas, palmas, glórias e outras

pequenas peças de bijuteria religiosa, cada estojo contém verdadeiros amuletos de ouro, prata, pedra, marfim etc. (EWBANK, 1976, p. 132).

)

de ouro, prata, pedra, marfim etc. (EWBANK, 1976, p. 132). ) FIGURA 1: Gravura de Thomas

FIGURA

1:

Gravura

de

Thomas

Ewbank,

mostrando

alguns

amuletos utilizados na época de sua estada no Brasil.

Como o nosso viajante estava no século XIX, a Igreja católica já havia providenciado a conversão desses amuletos em artigos religiosos. Bastava benzê-los, tornando-os assim dignos de serem usados pela população em geral. Pais apreensivos protegiam seus filhos com tais amuletos, porém não são os mesmo amuletos que aqui chegaram com os escravos (preferencialmente os muçulmanos) e sim, santificados pela Santa Igreja Católica. Retomando nosso tema inicial, as jóias-amuletos utilizadas pelos negros e mestiços, escravos e libertos na colônia foram feitos , segundo Herbert Klein, por negros, pois:

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os negros e mulatos livres chegaram a transformar-se em ourives, embora

este ofício, extremamente importante e sensível, fosse especificamente proibido à sua classe, já que os ourives eram cruciais à fundição ilegal de

ouro [

[ ]

]

(KLEIN, 1987, p. 85).

Realmente, muitos negros e mestiços tornaram-se peças fundamentais para a continuidade dos tratados e ritos africanos através de sua profissão. A confecção de jóias-amuletos era restrita a uma parcela de ourives com conhecimento técnico e cultural sobre a peça produzida. Relata Eduardo França Paiva:

Não foram poucos os africanos artífices de ouro que entrava escravizados

e trabalhavam em várias regiões da Colônia. O trabalho de todos eles possibilitou a injeção de valores culturais, de objetos e de material africano e afro-brasileiros na ourivesaria colonial e facilitou também,a apropriação de emblemas e representações e estéticas européias pela população negra e mestiça. (PAIVA, 1999a, p. 17).

[ ]

Nossa pesquisa foi muito proveitosa, pois podemos contribuir para uma melhor compreensão das jóias-amuletos. Podemos perceber também a forte carga cultural e resistente por trás de um amuleto, a ponto da Igreja que tanto o combateu no início da colonização, passa a aceitá-los em sua gente, desde que devidamente benzido. Esta pesquisa é um ponto de partida para uma reflexão mais aprofundada sobre o sincretismo e a impermeabilidade culturais no Brasil. Sabemos também que muitos costumes africanos foram preservados na América Portuguesa, quase que inalterados, mas que parece ter passado desapercebido pelos olhares europeizados durante a colonização. Após a introdução de tais amuletos e jóias no Brasil pelos africanos, tais peças recebem outra investidura, passando de um simples ornamento feminino para significar uma conquista social ou econômica. Os usos seculares (e até milenares) os costumes e as representações arraigadas entre os povos Yorubá, Fon, Asanti, do Congo, de Angola e de Moçambique, atravessaram o Atlântico e se instalaram mais uma vez nas mãos dos negros que souberam tirar proveito de uma situação pouco vantajosa. Ainda sobre a investidura, O professor Eduardo França Paiva (1999b), em sua tese de doutorado, levanta tal questão. Ele escreve “Mas será que os objetos de coral tiveram significados idênticos para seus diversos usuários?” Segundo consta, a base do uso dos amuletos era africana, mas o uso pode ter adquirido outras conotações com o passar do tempo e variou também de pessoa a pessoa. Um cristão só usaria um amuleto se este fosso devidamente benzido pelo padre.

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Não obstante o valor material da peça utilizada, para os negros e mestiços seu valor era bem maior do que podemos atualmente pensar. Vários africanos artífices que entraram escravizados no Brasil e trabalharam em várias regiões conseguiram, através das jóias que faziam, injetar valores culturais e objetos de materiais africanos, tornando afro-brasileiros na ourivesaria colonial.

4. AS JÓIAS-AMULETOS

Exemplos de jóias-amuletos usados pelos negros, mestiços e alguns brancos nas Minas Gerais do século XVIII.

e alguns brancos nas Minas Gerais do século XVIII. FIGURA 2 FIGURA 3 FIGURA 4 No

FIGURA 2

e alguns brancos nas Minas Gerais do século XVIII. FIGURA 2 FIGURA 3 FIGURA 4 No

FIGURA 3

brancos nas Minas Gerais do século XVIII. FIGURA 2 FIGURA 3 FIGURA 4 No mesmo ornamento

FIGURA 4

No mesmo ornamento feminino, podemos encontrar representações judaicas, africanas, as figas e a face da lua, como mostra a FIGURA 2. Ornamentos mais ousados pediam pela fertilidade (ou potência sexual) que poderiam ser representados por uma Romã, ou explicitamente como mostra a FIGURA 3. A grande variedade da joalheria africana está mesmo por conta das Pencas de Balangandãs, como mostra a FIGURA 4. O sincretismo religioso está presente nelas. Mostram também a questão da resistência e pedido de união entre os mais fracos. Nas pencas, podemos encontrar facilmente os seguintes objetos estilizados:

berimbau – balangandã evocativo que lembra o amor dos negros pela música;

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cabaça – usada como panelinhas pelas crianças escravas. Simboliza os IBEJIS ou ERES, espíritos infantis irreverentes;

figa – objeto fálico, atraente do amor. Com a chave dentro da mão, simboliza XANGÔ e seu poder de abrir portas. Quando isolada, serve de proteção contra mau-olhado e inveja;

pinha – Fruta do conde, representa a união dos negros. OGUM, o grande guerreiro, está relacionado com esta fruta;

caju – A castanha lembra um pequeno falo, simboliza masculinidade;

romã – Fertilidade, pela abundâancia das sementes. O escarlate do seu interior evoca a guerreira IANSÃ (conhecida como Santa Bárbara);

concha d’água – Evoca OXUM, rainha das águas doces;

abacaxi – OMULU é evocado por esta fruta. É o orixá curador de doenças. Conta a tradição que tal orixá teria tido varíola, por isso é representado com o rosto coberto com tiras de palha. Foi associado ao abacaxi por causa de sua casca espinhosa;

pombas – Simboliza o Espírito Santo, a Paz.

• pombas – Simboliza o Espírito Santo, a Paz. FIGURA 5 FIGURA 6 OZANAN, Luiz. As

FIGURA 5

pombas – Simboliza o Espírito Santo, a Paz. FIGURA 5 FIGURA 6 OZANAN, Luiz. As jóias

FIGURA 6

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FIGURA 5 e 6: Exemplos de balangandãs baianos em ouro. Século XVIII/XIX. Acervo do Museu Carlos Costa Pinto – Salvador.

5. OS VALORES CULTURAIS: CONTRIBUIÇÕES.

– Salvador. 5. OS VALORES CULTURAIS: CONTRIBUIÇÕES. FIGURA 7 FIGURA 8 FIGURA 7 e 8: Debret,

FIGURA 7

Salvador. 5. OS VALORES CULTURAIS: CONTRIBUIÇÕES. FIGURA 7 FIGURA 8 FIGURA 7 e 8: Debret, Jean

FIGURA 8

FIGURA 7 e 8: Debret, Jean Baptiste. Pranchas do século XIX, retratando o cotidiano escravista.

A influência das jóias produzidas em Minas Gerais, no século XVIII, é tão forte que vários viajantes europeus e norte-americanos narraram em seus livros e desenharam em suas pranchas os diversos badulaques e penduricalhos usados pelas negras forras no século XIX. Jean Baptiste Debret (1768-1848) foi um deles. Nascido em Paris a 18/04/1768, Debret integrou a Missão Artística Francesa, chegando ao Rio de Janeiro em 26/03/1816. Podemos notar em seu trabalho a preocupação de relatar tudo o que via,. Ppreferencialmente, o cotidiano e a mistura das raças. Retratou índios, negros, brancos, mamelucos, cafuzos, mestiços em geral. O já também citado Thomas Ewbank passou pelo Brasil e notou que as mulheres negras utilizavam-se dos penduricalhos, chegando a pronunciar que “pode haver uma sugestão filosófica no brinco” (EWBANK, 1976, p. 105). Correto em sua

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análise, Ewbank também notou que havia amuletos, colares e pulseiras que “mais parecem amuletos contra a fome do que contra a feitiçaria”. Arguto observador, continua escrevendo: “Um destes, que vejo diante de mim, é feito do ouro, e reproduz facas, garfos, um cadeado e chave, caçarola, jarra d’água, pratos, travessas, jarros e bacia e mais vinte outros artigos culinários e domésticos” (EWBANK, 1976, p. 133). Retrocedendo no tempo mais um pouco, deparamo-nos com outro viajante. O local é Pernambuco e o tempo entre 1637 a 1644, ou seja, no tempo do Brasil Holandês, temos a figura de um pintor que chega em Recife a pedido de Johan Mauritiz von Nassau-Siegen, o príncipe indicado pelas Cia. das Índias Ocidentais para governar aquela capitania. O pintor em questão é Albert Eckhout, dinamarquês que veio ao Brasil para retratar o modo de vida dos habitantes da Capitania de Pernambuco. No Brasil

nassoviano, Eckhout retratou vários indivíduos, sendo a figura mais interessante para o nosso estudo o da Mulher africana, de 2,67 x 178cm, feita em 1641. A Mulher Africana

era uma escrava vinda de Angola e que, segundo consta, “o primeiro esboço (

retratada sem chapéu, nem cesta ou jóias; esses acessórios foram acrescentados

posteriormente ao quadro”. 6

foi

)

foram acrescentados posteriormente ao quadro”. 6 foi ) 6 Cátálogo de exposições: Albert Eckhout e seu
foram acrescentados posteriormente ao quadro”. 6 foi ) 6 Cátálogo de exposições: Albert Eckhout e seu

6 Cátálogo de exposições: Albert Eckhout e seu tempo. Brasil Holandês 1637 – 1644. MASP, 1991

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FIGURA 9

FIGURA 10

FIGURA 9: Mulher africana. A. Eckhout, 1641. FIGURA 10: Detalhes do quadro Mulher africana, A. Eckhout, 1641.

Intrigante isso não? Será que o uso das jóias não era permitido no Brasil do século XVII? Notamos que tais jóias parecem com as usadas por qualquer mulher

européia. O pintor deve ter colocado as requintadas jóias para demonstrar riqueza da terra aos soberanos europeus, uma vez que essas obras de arte seriam vistas nos palácios

e museus da Europa. Não queremos dizer que Eckhout inventou tais ornamentos. Notamos uma preocupação em realçar as jóias, mas dando ao europeu uma visão que ele estava acostumado. Como deveria ter sido a reação dos espectadores europeus se o pintor mostrasse uma penca de balangandãs, uma figa ou uns corais engranzados em ouro? Minas Gerais não foi a pioneira, como notamos. Os melhores trabalhos de

pencas de balangandãs estão na Bahia. Minas Gerais foi um importante centro difusor destas tradições, preservou a cultura e impulsionou ainda mais a contribuição africana na formação da identidade cultural brasileira, justamente por ter sido o local da colônia onde um maior número de escravos concentrou, uma maior variedade de nação africana

e o maior índice de miscigenação já conseguido na colônia até o século XVIII. A importância de Minas Gerais no circuito cultural africano resume-se no fato de para essas terras terem sido deslocado milhares de negros e mestiços, dezenas de tribos africanas, criando um universo cultural sem precedente na Colônia. Vários relatos apontam a mistura das raças praticadas em Minas Gerais. Vários relatos dão conta da presença de negros especializados no serviço de ourives. Lembrando novamente o professor Eduardo França Paiva, que estudou a fundo a sociedade setecentista mineira, que nos brinda com uma passagem muito intrigante a respeito dos ourives em Minas Gerais. Conta ele que um hábil ourives, possivelmente mestiço, nascido no Rio de Janeiro, declarava em seu testamento:

Que em poder do doutor Manoel Lobo se acha outro crédito meu, da quantia de uma quarta de ouro, cujo lhe passei para patrocinar uma causa, haverá cinco anos, de Manoel Correa Neves, com que mandara eu um pleito, pediu- me o dito Doutor, logo em princípio da demanda, que lhe fizesse uma

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corrente, digo, que lhe fizesse e vendesse uns corais engranzados em ouro trancelim. (PAIVA, 1999b, p. 295).

Thomas Ewbank, conta que o primeiro dinheiro que um escravo ganha era para comprar uma figa, que às vezes era esculpida em raiz de pau-rosa. Sendo assim, o artífice dessa figa só poderia ser um de sua espécie, ou seja, uma pessoa que conhecesse bem a investidura e a importância de tal amuleto.

Usados por pessoas de ambos os sexos e de todas as idades, os fetiches e amuletos da Igreja afastam o mau-olhado, mantêm à distância os demônios, e detêm o curso natural dos acontecimentos desfavoráveis a quem os usa, exatamente como faziam a ignorância e a credulidade dominavam o mundo. (EWBANK, 1976, p. 227).

Os amuletos acima citados podiam circular livremente no Brasil do século XIX, pois naquele tempo e lugar os amuletos eram divididos em leigos e religiosos. Mas a Igreja não conseguia dominar através de amuletos (benzendo-os), justamente por desconhecer ao certo a investidura de tais penduricalhos. Por isso, persegue e acusa os usuários e artífices desses amuletos de hereges, pois incentivam as supertições que ela deveria erradicar. O fato é que as representações incorporadas nesses objetos nunca foram facilmente apreendidas por observadores leigos. Essas jóias-amuletos ajudam a esclarecer o imaginário e o comportamento dos grupos, ao mesmo tempo em que demonstram outras formas de sociabilidade e de distinção social. Várias jóias-amuletos podem conter também as maquiagens culturais e que não autorizam ao leigo penetrar e decifrar seu conteúdo, tornando ainda mais fascinante a sociedade setecentista mineira.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em um mundo globalizado, o diferencial é o retorno às origens, o que justifica o “design retrô” e o “etno design”. Na joalheria, não poderia ser diferente e cada vez mais busca-se uma identificação do produto com grupos vivos ou extintos mas sempre com homogeneidade cultural e lingüística. No Brasil, este momento deu-se através do hibridismo cultural, bem como de sua resistência. Esses processos culturais híbridos chegaram até os nossos dias,

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provando sua força durante a ocupação portuguesa no Brasil, também durante as centúrias após. Houve também a imposição de valores e costumes, assim como a resistências a mudanças, como por exemplo, o sincretismo religioso. Minas Gerais vai trabalhar melhor este hibridismo e esta resistência, quando assimila a cultura judaico-cristã ,mas não se esquecem de suas tradições, nascendo assim uma jóia sincrética, cercada de mistérios, com toque de supertição que provém exatamente dos cultos religiosos afro-brasileiros e o que é mais interessante, totalmente feita pelos negros, mas que nem sempre o uso é privilégio dos mesmos. Quando se debruça sobre os inventários e testamentos setecentistas mineiros, tem-se uma noção desta harmonia entre o sagrado e o profano concernente ao uso e confecção das jóias,exemplos como os da já citada Bárbara Gomes de Abreu, além de Joana da Silva Machada, preta forra que se acha inventariado entre outros bens:

[ ]

quatro cordões, vários botões, imagens de Nossa Senhora da Conceição e do

três voltas de corais engranzados, uma continhas de pescoço (sic) e mais

menino Jesus, uma cruz de filigrana e outras miudezas de prata.

A lista ainda continua com “uma breve marca com seus trancelim” e “cadeados com aljôfares e diamantes.” 7 Com técnicas de fundição introduzidas pelos negros “Malês”, as jóias ganham as ruas e as residências, saindo da senzala ou dos terreiros de candomblé. Essas jóias são originalmente feitas na África pelos negros conhecidos por “ferramenteiros de santos” já que produziam ferramentas para os orixás como as figas, colares, pulseiras e outros atributos, e o material escolhido para este fim era quase sempre o ferro. Também eram produzidos objetos corporais femininos como os ibós e idés (pulseiras), copos (punhos), braçadeiras e outras jóias que funcionavam como emblemas, símbolos de cada entidade divina nas danças ritualísticas. No Brasil, as jóias africanas mais difundidas foram as pulseiras escravas (punhos) os colares de contas enfeitadas com filigranas, colares com contas coloridas e os colares de coral. Sobre os corais, deve ser debruçada uma maior atenção. No Brasil colonial, muita gente possuía corais, seja negra, parda ou branca. Transportado da África para o Brasil, estes objetos de coral foram muito bem assimilados pelos colonos, já que

7 MR/INV - -caixa 145. Inventário post-mortem de Joana da Silva Machada

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serviam de amuleto para os escravos, mas com certeza não tinha o mesmo significado para os seus diversos usuários. Catherina Pereira Barboza lista no inventário “dois fios de corais da Costa da Mina”, bem como outra preta forra Izabel Pinheyra lista que Dom Mayor de Castro devia-lhe 15 oitavas de ouro “precedidas de um cabeção e uns corais da Costa da Mina engranzados em ouro”. 8 Os corais eram largamente utilizados na África desde o século XV. Feitos particularmente no antigo reino de Benin, (de onde boa parte de negros saíram para trabalhar no Brasil) era possível encontrar peças feitas com corais polidos, engranzados e sob a forma de cilindros. Como observa Eduardo Paiva:

Às vezes, toucas de coral com fios do mesmo material pendendo delas, tudo molhado em cobre, cobriam as tradicionais cabeças feitas pelos artistas de Benin, essa região que, a partir do século XVI, forneceria grande número de escravos ao Brasil. (PAIVA, 1999a, p. 17).

Das jóias mais conhecidas e difundidas no Brasil setecentista, sem dúvida, o amuleto foi o mais utilizado. Eram freqüentemente encontrados nos colares, pulseiras e em molho nos argolões que as negras traziam à cintura, cuja origem na religião africana representa Ogum, o orixá dos que trabalham com o ferro. Popularmente, estes molhos ficaram conhecidos como “Penca de balangandãs”. Sua origem é incerta, se criada na Bahia ou em Minas Gerais, mas são amuletos, feito por negros artesãos escravos ou forros inicialmente para os negros e mais tarde cai no gosto popular. Essas pencas de balangandãs surgem da necessidade da proteção contra o mau olhado ou da evocação de um bem material. Serve também como ex-voto, agradecimento de uma benção e que pode conter vários berloques com o figas, bolas de louça, berimbau, cabaça, caju, romã, pomba e medalhas de vários santos além dos diversos tipos de crucifixos, ou seja, juntam os imaginários africanos e os cristãos em uma única peça.

8 MO/CPO-TEST – códice 4, ff. 79v-83. Testamento de Izabel Pinheira

OZANAN, Luiz. As jóias dos negros: usuários e artífices nas Minas Gerais do século XVIII. Revista da FADOM, Divnópolis, n. 13, p. 61-77, 1º semestre de 2003.

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