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O SHOW DE TRUMAN

Marta Chagas

Assisti esse filme há algum tempo e desde então tive vontade de escrever algo sobre ele.

Para mim, trata-se de um filme altamente poético, fantasiosamente improvável e


realisticamente palpável. Ele dá margem à inúmeras abordagens, suscita muitas perguntas,
enfim, nos faz pensar.

Mas, o que mais me chama atenção é que ele não se situa em um campo específico: ele
trabalha nas margens, ele se des-dobra em vários aspectos.

Poderíamos começar abordá-lo do ponto de vista da estética cinematográfica.


Seria ele uma comédia, uma vez que o ator principal, Jim Carrey, é considerado o sucessor do
grande cômico americano, Jerry Lewis? Seria um drama, uma vez que o personagem principal
sofre e se posiciona frente à sua vida? Quem sabe, estivesse mais perto da tragédia-drama-
comédia, assim como a vida de todos nós...

Segundo a classificação de um site sobre filmes, a IMDB, pertecenceria aos seguintes gêneros:
drama, comédia, romance, ficção científica.

Passemos à história narrada. O filme fala de uma vida. Apenas isso. Aqui, já começam a surgir
questões como: o que é apenas uma vida? Quem a viveu?

No começo do filme, entram alguns créditos, aparecendo os nomes: Truman, como Truman;
Christof, como diretor. Como podemos entender isso? O nome próprio como personagem? Ou
personagem como nome próprio? Já aparece aí uma colocação em abismo, mise-en-abîme,
"um filme dentro de outro filme", onde ele afirma sua categoria de filme, através da utilização de
procedimentos esperados pelos espectadores, como a
apresentação de personagens e diretor. É o 30º ano ininterrupto de transmissão do "show" da
vida de Truman. Trata-se da estória sobre a história de um homem chamado Truman Burbank.
Sua vida foi filmada continuamente, desde que nasceu, sendo transmitida
para o mundo, sem interrupções, como a primeira experiência de um "show real", pois Truman
desconhece ser um personagem. Truman é casado, trabalha com seguros, possui um amigo
de infância, que sempre chega em sua casa com cervejas. Todos os dias cumprimenta seus
vizinhos, da mesma forma; vai ao jornaleiro comprar revistas para sua
mulher, encontra dois senhores que sempre prometem procurá-lo na seguradora.

Tudo acontece num grande estúdio/cenário: as ruas, as casas, os automóveis, o mar, o céu, a
lua, o anoitecer, a chuva... Tudo se passa dentro de uma enorme cúpula, de uma redoma, mas
Truman não conhece esses limites: ele nunca viajou, nunca saiu de sua cidade, nunca
ultrapassou suas margens.

E isso também foi planejado pelo diretor de sua vida/show: Truman sofreu um trauma na
infância, ao perder seu pai, em acidente no mar. Esse trauma o impediu de querer ter um barco
para navegar, onde se encontrava uma das saídas do estúdio, não controlada pelo elemento
humano. Ali, o mar fazia fronteira com o abismo, como nas fantasias dos antigos
navegantes. Mas, Truman nem imaginava isso!

A vida de Truman é pacata, satisfatória, tranqüila e, principalmente, rotineira - com rotina e com
roteiro desconhecido, traçado pelo Deus/diretor, ele vive sua vida real, sem saber do voyerismo
dos telespectadores, que acompanham cada respiração sua.

Assim se passam quase 30 anos...

Mas, como na vida real, e ainda mais por ser a história de uma vida real, eventos acontecem,
arrastando o roteiro/destino do personagem/pessoa para lados imprevisíveis, sem que
autoridade e vontade do diretor/Deus possa intervir eficientemente: em um dia bastante
comum, Truman encontra seu pai! A partir de então, nada mais permanece estável.

O ator/personagem-pai-de-Truman resolve, para aparecer em um show de grande audiência,


voltar à cidade. Com essa quebra de roteiro, os contra-regras, sob as ordens do diretor, cercam
esse ator, para tirá-lo de cena. MasTruman que busca por seu pai, morto há tantos anos, corre
por todos os lados e acaba por entrar em um prédio em que nunca havia entrado antes,
naquele horário, flagrando o estúdio: por trás do cenário
de elevadores, havia um pessoal almoçando.

Daí o filme começa a mostrar o despertar de Truman para a realidade! Mas a saída de seu
estado de sonolência acontece um tanto lentamente. Truman começa a se dar conta de que
seu "paraíso" tem aspecto de cenário: ele comeu, sem querer, do fruto da árvore do Bem e do
Mal - ele se tornou, inexoravelmente, consciente.
A partir de então, o Deus/diretor não consegue mais manobrar seu destino, sua vida. Segundo
Sartre, em sua peça As Moscas, os homens livres e os deuses são universos diferentes, que
às vezes se tocam, mas que não se subordinam uns aos outros. Em um momento dramático, o
diretor no papel de Deus (ou será o contrário?), fala do alto, sobre as águas (que Truman
acredita se tratar de um mar real), que não deixará Truman
partir, nem que para isso ele tenha que tomar medidas drásticas. E Truman, como Jó, diz que
ele terá que matá-lo, pois sua não voltaria atrás em sua decisão de sair desse grande
espetáculo. E o diretor, assumindo o papel do Pai, chega a cogitar sobre essa hipótese, mas a
divindade existente acima do Deus, a grande, poderosa e irrepresentável Môira, a Mídia, não
deixa que isso aconteça, não por concordar com a humanidade defendida por Truman, nem
pelos conceitos americanos de liberdade, mas por uma questão de possível queda de
audiência e da não aceitação popularesca.

E, assim, o show deve parar!... Com a saída de Truman do grande cenário, cúpula, redoma,
paraíso, acaba o grande show de sua vida pública: Truman, ao contrário de Getúlio Vargas,
deixou a história para entrar em sua vida, se tornando um homem invisível ao grande controle
das câmeras de televisão.

Finalmente, como acontece tragicamente na vida do homem, assim como demonstrado no final
de Metamorfose de Kafka, as pessoas, os telespectadores que, após 30 anos acompanhando
esse show, lamentam um pouco e... mudam de canal.

O filme acaba, então, agora, aparecendo créditos trazendo Jim Carrey como Truman, Ed Harris
como Christof, etc. - Seria esse um ritual de saída para a realidade? Quais questões podemos
levantar com esse procedimento?

Uma vez que Truman aceita o desafio de sua consciência, ele passa a não ser mais dirigido
por Christof; no entanto, Jim Carrey continua a ser dirigido por Peter Weir... Essa duplicidade
de liberdade e confinamento do destino não seria uma boa expressão do assim chamado Livre
Arbítrio?

Será que toda nossa vida faz parte de um grande roteiro, como o que carrega o personagem
Destino, um dos Perpétuos, da obra de Neil Gaiman - Sandman? Somos um sonho de alguém?
Somos livres?

A dádiva de Prometeu, o fogo, a consciência, nos arranca da ingenuidade de sermos vítimas


de nossa história, para colocar-nos não no controle dela, mas a seu lado, ora por dentro, ora
mais superficialmente, ora nos afogando, ora navegando em águas mais tranqüilas, ora em
terra firme, ora apenas com cabelos ao vento...

Para Truman sair da prisão, ele teve que enfrentar seu pior trauma: o mar.

Psicologicamente, ao aventurarmo-nos através de nossas mais terríveis feridas, enchemo-nos


de esperança de encontrar a saída de nosso inferno, da eterna repetição de nossa dor. Às
vezes não a achamos e nos afogamos em nosso medo; mas, às vezes encontramos uma
saída, que não tem garantia de ser boa, nem ruim, mas, que abre para um outro lugar, que até
pode ser um outro cenário, mas, que nos dá a chance de
vivermos um outro papel.

Cabe também a pergunta: por que esse filme não ficou entre os cinco candidatos a receber o
Oscar de melhor filme? Ele não é suficientemente americano? Ele não tem a linguagem
hollywoodiana? A mídia não gosta de ataques à mídia? Continuamos sob o controle dela?
Posso dizer que trata-se de um filme realmente fantástico!...

Para conhecer mais sobre o filme:


www.thetrumanshow.com
martachagas@rubedo.psc.br

SEXO (Capítulo 1)

André Sant'Anna
Este é um trecho do romance Sexo, de André Sant'Anna. A Rubedo agradece a
gentileza da Sette Letras que autorizou sua reprodução em nossas páginas. Visite
aRevista de Literatura para conhecer detalhes das publicações da editora.

As caixas de som, no teto do elevador, emitiam a música de Ray Coniff. O negro, diante da
porta pantográfica, fedia. A gorda, que pisava no calcanhar do negro, fedia. O negro fedia a
suor. A gorda fedia a perfume Avon. O ascensorista, de bigode, cochilava. O Executivo de
Óculos Ray-Ban conversava com O Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais
Alaranjadas. Os dois executivos eram brancos. A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon era
branca.

O Executivo de Óculos Ray-Ban falou para o Executivo De Gravata Vinho Com Listras
Diagonais Alaranjadas:

- O hotelzinho era o the best. Não deixe de passar alguns dias na Normandia quando você for
à França outra vez.

No quarto andar, a Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol , entrou no elevador. O Executivo De
Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas olhou para a bunda da Secretária Loura,
Bronzeada Pelo Sol. O negro continuava fedendo. A Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol,
não fedia. O Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas cutucou, com o
ombro, o Executivo de Óculos Ray-Ban. O Executivo de Óculos Ray-Ban também olhou para a
bunda da Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol. A Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol,
percebera que o Executivo de Óculos Ray-Ban e o Executivo De Gravata Vinho Com Listras
Diagonais Alaranjadas olhavam sua bunda. A Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, fingia que
não percebera que o Executivo de Óculos Ray-Ban e o Executivo De Gravata Vinho Com
Listras Diagonais Alaranjadas olhavam para sua bunda. O Negro, Que Fedia, roçou um dos
peitos da Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, com o seu cotovelo. A Secretária Loura,
Bronzeada Pelo Sol, afastou o seu peito do cotovelo do Negro, Que Fedia. A Gorda Com
Cheiro De Perfume Avon encostou, levemente, um de seus braços em um dos braços do
Negro, Que Fedia. A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon tinha uma película de suor sobre o
braço. O Negro, Que Fedia, estava totalmente suado. A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon
sentiu nojo do suor do Negro, Que Fedia.

No segundo andar, uma jovem mãe, com seu bebê, entrou no elevador. O bebê babava e sua
baba escorria pelo queixo. A Jovem Mãe virou as costas para o Negro, Que Fedia. O Negro,
Que Fedia, ficou com o pau encostado na bunda da Jovem Mãe. O Negro, Que Fedia, não
tinha a intenção de encostar seu pau na bunda da Jovem Mãe. É que o elevador estava lotado
e não havia espaço para o pau do Negro, Que Fedia. O Negro, Que Fedia, respeitava mães. O
Negro, Que Fedia, estava constrangido, pois percebera que seu pau estava encostado na
bunda da Jovem Mãe. A Jovem Mãe fingia que não percebera que o pau do Negro, Que Fedia,
estava encostado em sua bunda. A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon, empurrada pelo
cotovelo do Executivo de Óculos Ray-Ban, encostou seus peitos nas costas do Negro, Que
Fedia. O bebê continuava babando no colo da Jovem Mãe. Sem abrir os olhos, o Ascensorista
De Bigode falou "térreo" quando o elevador parou no andar térreo.

A Jovem Mãe, com seu bebê babando, saiu rapidamente do elevador, libertando o pau do
Negro, Que Fedia. O Negro, Que Fedia, roçou mais uma vez o cotovelo no peito da Secretária
Loura, Bronzeada Pelo Sol, que saiu do elevador depois de olhar com o canto do olho para o
Executivo de Óculos Ray-Ban e para o Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais
Alaranjadas. O Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas era jovem. O
Executivo de Óculos Ray-Ban falou para o Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras
Diagonais Alaranjadas:
Que rabo, hein!!!!
Ao ouvir o comentário do Executivo de Óculos Ray-Ban, o Ascensorista De Bigode levantou a
cabeça e sorriu. O Ascensorista De Bigode era nordestino. O Ascensorista De Bigode nunca
fizera sexo com secretárias louras, bronzeadas pelo sol. O Jovem Executivo De Gravata Vinho
Com Listras Diagonais Alaranjadas fazia sexo com sua Noiva Loura, Bronzeada Pelo Sol, nos
finais de semana, quando os pais de sua Noiva Loura, Bronzeada Pelo Sol, iam para a casa de
praia da família, nos arredores de Ubatuba.

A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon, depois de empurrar o Negro, Que Fedia, para fora do
elevador, começou a andar, com as pernas afastadas uma da outra, na direção da farmácia do
shopping center. No caminho, a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon passou bem no meio do
casal de adolescentes meio hippies, que andava de mãos dadas. A Adolescente Meio Hippie
se irritou com a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon e falou:
Puta que pariu!
O Adolescente Meio Hippie falou para a Adolescente Meio Hippie:
Não esquenta. Ela é feia, A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon.
A Adolescente Meio Hippie estava sem sutiã e seus róseos mamilos podiam ser vistos sob o
fino tecido branco de sua camiseta. O Adolescente Meio Hippie era magro e tinha uma
barbinha rala sobre o queixo. O Casal De Adolescentes Meio Hippies estava no shopping
center para comprar um fogareiro. O Casal de Adolescentes Meio Hippies estava se
preparando para acampar em Trindade, perto de Parati, onde, pela primeira vez, faria sexo. Os
dois adolescentes meio hippies eram virgens e chegaram à conclusão de que era hora de
ambos perderem a virgindade. A Adolescente Meio Hippie tinha medo de que a penetração do
pênis dO Adolescente Meio Hippie, em sua vagina, doesse. O Adolescente Meio Hippie tinha
medo de que A Adolescente Meio Hippie achasse o seu pau muito pequeno. O Adolescente
Meio Hippie tinha dezesseis anos. A Adolescente Meio Hippie tinha quatorze anos.

A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon ia à farmácia do shopping center para comprar Diet
Shake, O. B.* e Aspirina importada. A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon sofria de uma
enxaqueca crônica terrível. A enxaqueca da Gorda Com Cheiro De Perfume Avon só passava
quando a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon tomava Aspirina importada dos Estados
Unidos.

O Negro, Que Fedia, também passou pelo Casal De Adolescentes Meio Hippies. O Negro, Que
Fedia, olhou para os róseos mamilos dA Adolescente Meio Hippie, sob o fino tecido branco da
camiseta. O Negro, Que Fedia, tinha apenas o dinheiro suficiente para pagar a passagem do
ônibus que pegaria no final da tarde. O Negro, Que Fedia, era faxineiro e limpava os banheiros
masculinos do shopping center todos os dias. O Negro, Que Fedia, era amigo do vendedor da
banca de revistas que ficava em frente ao shopping center. O Negro, Que Fedia, depois de
passar pelo casal de adolescentes meio hippies, foi até a banca de revistas, em frente ao
shopping center, e pediu, para o Vendedor Da Banca De Revistas, Em Frente Ao Shopping
Center, uma revista Anal Sex emprestada. O Vendedor Da Banca De Revistas, Em Frente Ao
Shopping Center emprestou a revista Anal Sex para o Negro, Que Fedia. O Negro, Que Fedia,
se sentou no murinho ao lado da banca de revistas, em frente ao shopping center. O Negro,
Que Fedia, ficou com o pau duro enquanto folheava a revista Anal Sex.

A Jovem Mãe, com seu bebê babando no colo, saiu do shopping center e viu o Negro, Que
Fedia, folheando a revista Anal Sex. A Jovem Mãe nunca fazia sexo anal com seu jovem
marido. O Negro, Que Fedia, nunca fazia sexo anal. A Jovem Mãe fazia outras modalidades de
sexo com seu jovem marido. O Negro, Que Fedia, não fazia sexo há muito tempo. Mas, o
Negro, Que Fedia, estava quase conquistando a Trocadora Do ônibus No Qual ele, o Negro,
Que Fedia, Voltava Para Casa Todos Os Dias, Às Seis Horas Da Tarde. O Bebê Que Babava,
filho da Jovem Mãe, nem sabia o que era sexo, mas já sentia desejos sexuais inconscientes
pela Jovem Mãe. O Negro, Que Fedia, nem sabia o que era mãe e, por isso, sentia desejos
sexuais inconscientes pela irmã mais velha que o criou. A Irmã Mais Velha Do Negro, Que
Fedia, havia sido prostituta e cobrava um pouco mais caro, de seus fregueses, quase todos
negros, que fediam, para fazer sexo anal. O Negro, Que Fedia, queria muito fazer sexo anal
com a Trocadora Do ônibus No Qual ele, Negro, Que Fedia, Voltava Para Casa Todos Os Dias,
Às Seis Horas Da Tarde.

A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon gostava de fazer sexo anal. A Gorda Com Cheiro De
Perfume Avon gostava muito de fazer sexo, mas raramente a Gorda Com Cheiro De Perfume
Avon fazia sexo, já que a maior parte dos homens não gosta de fazer sexo com mulheres
gordas.

A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon trabalhava numa firma. De vez em quando, a Gorda
Com Cheiro De Perfume Avon fazia sexo com o Chefe Da Expedição Da Firma, cujo salário era
de trezentos Reais por mês. O salário da Gorda Com Cheiro De Perfume Avon era de
oitocentos Reais por mês. Antes de fazer sexo com o Chefe Da Expedição Da Firma, a Gorda
Com Cheiro De Perfume Avon sempre levava o Chefe Da Expedição Da Firma para tomar
alguns chopes e comer algumas porções de calabresa e queijo provolone à milanesa. A Gorda
Com Cheiro De Perfume Avon comia apenas um pouquinho de calabresa e queijo provolone à
milanesa, quando levava o Chefe Da Expedição Da Firma para tomar alguns chopes e comer
algumas porções de calabresa e queijo provolone à milanesa, antes de fazer sexo. A Gorda
Com Cheiro De Perfume Avon comia pouca calabresa e pouco queijo provolone à milanesa
porque tinha medo de engordas ainda mais. Depois das porções de calabresa e queijo
provolone à milanesa, a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon e o Chefe Da Expedição Da
Firma iam fazer sexo no Motel L'Amour. O Chefe Da Expedição Da Firma não sentia muita
atração sexual pela Gorda Com Cheiro De Perfume Avon. O Chefe Da Expedição Da Firma
não sentia muita atração sexual pela Gorda Com Cheiro De Perfume Avon porque a Gorda
Com Cheiro De Perfume Avon era gorda. O Chefe Da Expedição Da Firma fazia sexo com a
Gorda Com Cheiro De Perfume Avon porque gostava muito da companhia dela. A Gorda Com
Cheiro De Perfume Avon sabia muitas coisas que o Chefe Da Expedição Da Firma não sabia,
além de pagar chopes e porções de calabresa e queijo provolone à milanesa para ele, Chefe
Da Expedição Da Firma. A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon, lia poemas da Bruna
Lombardi para o Chefe Da Expedição Da Firma. O Chefe Da Expedição Da Firma adorava
tomar banho na banheira de hidromassagem do Motel L'Amour. A Gorda Com Cheiro De
Perfume Avon e o Chefe Da Expedição Da Firma gostavam de assistir aos filmes de sexo
explícito do canal privé do Motel L'Amour. Uma vez, A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon
assistiu a um filme, no do canal privé do Motel L'Amour, no qual uma mulher era penetrada por
dois homens ao mesmo tempo. Um dos homens colocava o pau na boceta da mulher,
enquanto o outro homem colocava o pau no cu da mulher. A Gorda Com Cheiro De Perfume
Avon adoraria ser penetrada por dois homens ao mesmo tempo. A Gorda Com Cheiro De
Perfume Avon não amava o Chefe Da Expedição Da Firma. O Chefe Da Expedição Da Firma
não amava a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon.

Depois que saíram do elevador, o Executivo de Óculos Ray-Ban e o Jovem Executivo De


Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas foram até o restaurante japonês, no subsolo
do shopping center, onde encontraram o Gerente De Marketing Da Multinacional Que
Fabricava Camisinhas. A multinacional que fabricava camisinhas estava num período de alta
lucratividade, já que novos comerciais de televisão, produzidos e veiculados gratuitamente,
embora não mostrassem a marca da multinacional que fabricava camisinhas, já que faziam
parte de um esforço coletivo da sociedade para evitar a propagação da AIDS, estavam gerando
um grande aumento na venda das camisinhas. As camisinhas fabricadas pela multinacional
que fabricava camisinhas eram as mais conhecidas do mercado. Os comerciais de televisão,
que faziam parte de um esforço coletivo da sociedade para evitar a propagação da AIDS,
produzidos e veiculados gratuitamente, não tinham fins comerciais. A agência de publicidade,
na qual o Executivo de Óculos Ray-Ban e o Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras
Diagonais Alaranjadas trabalhavam não havia faturado dinheiro algum com a campanha de
prevenção contra a AIDS, produzida e veiculada gratuitamente. No entanto, a dupla criação da
agência de publicidade, na qual o Executivo de Óculos Ray-Ban e o Jovem Executivo De
Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas trabalhavam, ganhou o Leão de Prata, no
Festival de Cannes, com a canpanha de prevenção contra a AIDS, produzida e veiculada
gratuitamente. Mas o melhor de tudo é que a multinacional que fabricava camisinhas, através
do Gerente De Marketing Da Multinacional Que Fabricava Camisinhas, entregou a conta
publicitária de sua linha de shampoos infantis para a agência de publicidade na qual o
Executivo de Óculos Ray-Ban e o Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais
Alaranjadas trabalhavam. A multinacional que fabricava camisinhas também fabricava
shampoos.

Durante o almoço de negócios, o Executivo de Óculos Ray-Ban, o Jovem Executivo De


Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas e o Gerente De Marketing Da Multinacional
Que Fabricava Camisinhas falaram de sexo, enquanto comiam sushis e sashimis. O Gerente
De Marketing Da Multinacional Que Fabricava Camisinhas disse que adorou fazer sexo com
uma secretária loura, bronzeada pelo sol, que tinha a boceta totalmente depilada. A uma
secretária loura, bronzeada pelo sol, que tinha a boceta totalmente depilada, não era a
Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, cuja bunda foi admirada pelo Executivo de Óculos Ray-
Ban e pelo Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas, no
elevador do shopping center. O Executivo de Óculos Ray-Ban achava a que coisa mais linda
do mundo era observar uma secretária loura, bronzeada pelo sol, fazendo sexo oral nele,
Executivo de Óculos Ray-Ban. O Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais
Alaranjadas não falou para o Executivo de Óculos Ray-Ban, nem para o Gerente De Marketing
Da Multinacional Que Fabricava Camisinhas, que ele, Jovem Executivo De Gravata Vinho Com
Listras Diagonais Alaranjadas amava sua Noiva Loura, Bronzeada Pelo Sol. O Gerente De
Marketing Da Multinacional Que Fabricava Camisinhas era branco e tinha a mesma idade que
o Executivo de Óculos Ray-Ban.

Depois de passar pelo Negro, Que Fedia, a Jovem Mãe, com seu bebê babando, reparou em
um O Negro, Que Fedia, que não fedia, usando uma túnica estampada e um gorro colorido. A
Jovem Mãe, com seu bebê babando, também reparou nas Cinco Negras, Que Não Fediam, ao
redor do Negro, Que Não Fedia. As Cinco Negras, Que Não Fediam, também usavam túnicas
estampadas. As Cinco Negras, Que Não Fediam, tinham contas coloridas em seus cabelos
delicadamente trançados. A Jovem Mãe, com seu bebê babando, achou que o Negro, Que Não
Fedia, e as Cinco Negras, Que Não Fediam, eram figuras muito interessantes. O Negro, Que
Não Fedia, e as Cinco Negras, Que Não Fediam, depois de passarem pela Jovem Mãe, com
seu bebê babando, entraram no shopping center. Todo mundo, no shopping center, olhava
para o Negro, Que Não Fedia, e as Cinco Negras, Que Não Fediam. O Negro, Que Não Fedia,
era um astro de reggae e estava em São Paulo para fazer um show. As Cinco Negras, Que
Não Fediam, eram esposas do Negro, Que Não Fedia. O Negro, Que Não Fedia, fazia sexo
com todas as Cinco Negras, Que Não Fediam. O Adolescente Meio Hippie e a Adolescente
Meio Hippie eram fãs do Negro, Que Não Fedia. O Adolescente Meio Hippie, que estava
aprendendo a tocar saxofone, sonhava em viver na Jamaica, fumando maconha, tocando
reggae e fazendo sexo com cinco adolescentes meio hippies, que não federiam. Uma das
cinco adolescentes meio hippies, que não federiam, e fariam sexo com O Adolescente Meio
Hippie, seria A Adolescente Meio Hippie. O Adolescente Meio Hippie amava A Adolescente
Meio Hippie. O Adolescente Meio Hippie e A Adolescente Meio Hippie só não iriam ao show do
Negro, Que Não Fedia, porque, no dia seguinte, iriam fazer sexo pela primeira vez, numa
barraca na praia de Trindade, perto de Parati, e queriam dormir cedo.

A Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, achou que a roupa do Negro, Que Não Fedia, era
ridícula. A Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, não tinha atração sexual por negros. A
Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, não gostava de reggae. A Secretária Loura, Bronzeada
Pelo Sol, preferia morrer a fazer sexo com um negro. A Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol,
faria sexo orla com o Executivo de Óculos Ray-Ban numa boa. A Secretária Loura, Bronzeada
Pelo Sol, acharia lindo se o Executivo de Óculos Ray-Ban achasse lindo observá-la fazendo
sexo oral nele, Executivo de Óculos Ray-Ban.

A Irmã Mais Velha Do Negro, Que Fedia, se ainda fosse viva, acharia lindo o Negro, Que Não
Fedia. A Irmã Mais Velha Do Negro, Que Fedia, foi assassinada por um freguês branco, que
fedia. O Freguês Branco, Que Fedia, Da Irmã Mais Velha Do Negro, Que Fedia, cortou o
pescoço da Irmã Mais Velha Do Negro, Que Fedia, com uma navalha. O Freguês Branco, Que
Fedia, , Da Irmã Mais Velha Do Negro, Que Fedia, ficou nervoso porque a Irmã Mais Velha Do
Negro, Que Fedia, não quis fazer sexo anal com ele, Freguês Branco, Que Fedia. A Irmã Mais
Velha Do Negro, Que Fedia, sentia muito nojo do cheiro do Freguês Branco, Que Fedia.
Depois de matar a Irmã Mais Velha Do Negro, Que Fedia, o Freguês Branco, Que Fedia, , Da
Irmã Mais Velha Do Negro, Que Fedia, disse:
Sua preta nojenta!
Pela vitrine do restaurante japonês do shopping center, o Executivo de Óculos Ray-Ban viu o
Negro, Que Não Fedia, e as Cinco Negras, Que Não Fediam. O Executivo de Óculos Ray-Ban
falou para o Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas e para o
Gerente De Marketing Da Multinacional Que Fabricava Camisinhas:
Olha só que crioulo metido à besta.
O Gerente De Marketing Da Multinacional Que Fabricava Camisinhas falou para o Executivo de
Óculos Ray-Ban e para o Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais
Alaranjadas:
Mas uma negona dessas eu até comia.
O Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas lera no caderno
Mais!, da Folha de São Paulo, que dois americanos, que não fediam, tinham feito uma
pesquisa científica sobre a inteligência dos seres humanos. Baseados em testes de Q. I., os
dois americanos, que não fediam e eram inteligentíssimos, chegaram à conclusão de que os
seres humanos brancos eram mais inteligentes do que seres humanos negros. Quando o
Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas viu o Negro, Que Não
Fedia, e as Cinco Negras, Que Não Fediam, ele realmente acreditou que era mais inteligente
que o Negro, Que Não Fedia, e muito, mas muito mesmo, mais inteligente que as Cinco
Negras, Que Não Fediam. O Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais
Alaranjadas falou para o Executivo de Óculos Ray-Ban e para o Gerente De Marketing Da
Multinacional Que Fabricava Camisinhas:
Comer, eu comia. Mas só com camisinha. Esse pessoal da África é um puta d'um grupo de
risco. Há há há há há há.
Na verdade o Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas estava
querendo fazer uma piada inteligente em homenagem ao produto fabricado pela multinacional
que fabricava camisinhas, cujo gerente de marketing era o Gerente De Marketing Da
Multinacional Que Fabricava Camisinhas.

O Negro, Que Não Fedia, e as Cinco Negras, Que Não Fediam, não eram africanos, já que
eram da Jamaica. O Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas
achou que o Negro, Que Não Fedia, e as Cinco Negras, Que Não Fediam, eram africanos
porque o Negro, Que Não Fedia, e as Cinco Negras, Que Não Fediam, usavam túnicas
estampadas, sendo que o Negro, Que Não Fedia, usava um gorro colorido e as Cinco Negras,
Que Não Fediam, usavam contas coloridas nos cabelos delicadamente trançados. O Jovem
Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas vira muitos africanos, que não
fediam, com túnicas estampadas e gorros coloridos, no metrô de Paris, durante suas férias-
prêmio. Que descolou as férias-prêmio para o Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras
Diagonais Alaranjadas foi o Executivo de Óculos Ray-Ban, que era o superior direto do Jovem
Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas e estava muito satisfeito com o
Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas, que conduziu de forma
brilhante as negociações com a multinacional que fabricava camisinhas, conquistando a conta
publicitária da linha de shampoos infantis da multinacional que fabricava camisinhas. Quando
esteve da França o Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas
achou as mulheres muito bonitas. A única coisa, nas mulheres francesas, que incomodou o
jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas era que a maioria delas,
mulheres francesas, não depilava as axilas. O Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras
Diagonais Alaranjadas não foi à Normandia, quando foi à França. Quando o Jovem Executivo
De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas for à França outra vez, em lua-de-mel
com sua Noiva Loura, Bronzeada Pelo Sol, ele irá à Normandia e se hospedará no hotelzinho
the best indicado pelo O Executivo de Óculos Ray-Ban.

O Negro, Que Não Fedia, já fizera sexo com várias mulheres francesas. Todas as mulheres
que fizeram sexo com o Negro, Que Não Fedia, adoraram fazer sexo com o Negro, Que Não
Fedia. O Negro, Que Não Fedia, já fizera sexo de tudo quanto é jeito: sexo oral, sexo anal,
sexo grupal, ménage à trois etc...

O Negro, Que Fedia, nem sabia o que era França. O Negro, Que Fedia, nas raras vezes em
que fazia sexo, era um pouco bruto com as mulheres com as quais fazia sexo. As mulheres
que faziam sexo com o Negro, Que Fedia, nunca atingiam o orgasmo. O Negro, Que Fedia,
não sabia pronunciar a palavra "orgasmo".
O pau do O Negro, Que Não Fedia, era maior que o pau do o Jovem Executivo De Gravata
Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas, que era maior que o pau do O Executivo de Óculos
Ray-Ban, que era mais ou menos do mesmo tamanho que o pau do Gerente De Marketing Da
Multinacional Que Fabricava Camisinhas. O pau do Negro, Que Fedia era maior que o pau do
Negro, Que Não Fedia, que o pau do o Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras
Diagonais Alaranjadas, que o pau do O Executivo de Óculos Ray-Ban e que o pau do Gerente
De Marketing Da Multinacional Que Fabricava Camisinhas. O menor pau de todos era dO
Adolescente Meio Hippie.

Na banca de revistas, em frente ao shopping center, havia, além da revista Anal Sex, várias
revistas de sexo: Hot (com sexo grupal), Black and Blondie (na qual homens negros faziam
sexo com mulheres louras), As Raspadinhas (com fotos de mulheres cujas bocetas são
totalmente depiladas), Sexo Animal (com mulheres que fazem sexo com cachorros, cavalos e
jegues), Teen Sex (mulheres fantasiadas de colegiais fazendo sexo), Extravagance (para
sadomasoquistas), Busty (mulheres com peitos gigantescos), Alone (homens musculosos nus
com os paus duros), Fat Chicks (mulheres muito gordas mostrando suas bocetas), Young
Porno Gay (sexo entre homens), Elas & Elas (sexo entre mulheres).

O Adolescente Meio Hippie tinha vergonha de comprar qualquer uma dessas publicações. Mas,
ligeiramente envergonhado, O Adolescente Meio Hippie comprava, mensalmente, as revistas
Playboy e a revista Ele & Ela, que mostravam os peitos, as bundas e os pêlos pubianos das
mulheres. As mulheres que apareciam nuas na revista Playboy eram atrizes de televisão,
cantoras, apresentadoras de programas infantis, atletas, amantes de políticos, amantes de
jogadores de futebol, modelos famosas ou americanas louras, bronzeadas pelo sol. As
mulheres que apareciam nuas na revista Ele & Ela não tinham nada de especial além dos
peitos, das bundas e dos pêlos pubianos. O Adolescente Meio Hippie lera uma vez, numa
sessão de consultoria sexual da revista Ele & Ela, que o tamanho do pênis do parceiro sexual
não interferia no prazer obtido pela mulher que fosse penetrada. O artigo, cujo título era
"Tamanho Não É documento", dizia que o importante era que o parceiro sexual fosse carinhoso
com a mulher e que ele, parceiro sexual, não fosse egoísta e procurasse sempre estimular as
zonas erógenas da mulher. Segundo outro artigo da revista Ele & Ela, chamados "Ponto de
Prazer Total", as zonas erógenas da mulher eram: orelhas, nuca, pés, seios, coxas, nádegas e
clitóris.

A Adolescente Meio Hippie sentia muito nojo das revistas de sexo expostas na O Vendedor da
banca de revistas, em frente ao shopping center. A Adolescente Meio Hippie ficaria
decepcionada se descobrisse que O Adolescente Meio Hippie comprava a revista Playboy e a
revista Ele & Ela mensalmente. Para A Adolescente Meio Hippie, a revista Playboy e a revista
Ele & Ela eram "coisa de adolescente". O Adolescente Meio Hippie também achava que a
revista Playboy e a revista Ele & Ela eram "coisa de adolescente". Por isso O Adolescente Meio
Hippie ficava ligeiramente envergonhado quando comprava a revista Playboy e a revista Ele &
Ela. No entanto, O Adolescente Meio Hippie comprava a revista Playboy e a revista Ele & Ela
assim mesmo.

A Adolescente Meio Hippie comprava, mensalmente, a revista Capricho. A Adolescente Meio


Hippie ficava ligeiramente envergonhada quando comprava a revista Capricho, que era
direcionada a adolescentes nada hippies. A revista Capricho, segundo o perfil traçado pelo
departamento de mídia da agência de publicidade na qual o Executivo de Óculos Ray-Ban e o
Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas trabalhavam, era
dirigida a adolescentes do sexo feminino, das classes B e C+, virgens, que usam roupas de
griffe, gostam de ouvir Madonna e Guns'n Roses, estudam em colégios particulares e fazem
parte da "tribo" dos "mauricinhos" e "patricinhas". Segundo o perfil traçado pelo departamento
de mídia da agência de publicidade na qual o Executivo de Óculos Ray-Ban e o Jovem
Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas trabalhavam, "patricinhas" são
adolescentes do sexo feminino, da classe B e C+, que usam roupas de griffe, gostam de ouvir
Madonna e Guns'n Roses e estudam em colégios particulares. A Adolescente Meio Hippie era
uma adolescente do sexo feminino, de classe B ou C+, virgem, que estudava num colégio
particular. Adolescente Meio Hippie não usava roupas de griffe, nem gostava de ouvir Madonna
e Guns'n Roses. Por isso, A Adolescente Meio Hippie não era uma "patricinha" (A Adolescente
Meio Hippie odiava as "patricinhas".) (A Adolescente Meio Hippie gostava de reggae.) (A
Adolescente Meio Hippie usava roupas descontraídas, principalmente camisetas de fino tecido
branco.) Por isso, A Adolescente Meio Hippie ficava ligeiramente envergonhada quando
comprava a revista Capricho. No entanto, A Adolescente Meio Hippie comprava a revista
Capricho assim mesmo. A Adolescente Meio Hippie estava muito interessada por sexo e a
revista Capricho sempre publicava artigos dirigidos a adolescentes do sexo feminino, virgens,
muito interessadas por sexo. Uma vez, A Adolescente Meio Hippie leu um artigo, na revista
Capricho, chamado: "Virgindade. O Momento Certo de Perdê-la". O artigo ("Virgindade. O
Momento Certo de Perdê-la".) dizia que o mais importante na primeira relação sexual de uma
adolescente virgem era que o parceiro sexual da adolescente virgem amasse a adolescente
virgem e que adolescente virgem amasse seu parceiro sexual. A Adolescente Meio Hippie
também lera no artigo ("Virgindade. O Momento Certo de Perdê-la".) que a dor sentida por uma
adolescente virgem, no momento em que fosse penetrada pela primeira vez, era relativa. Que,
se o parceiro sexual fosse carinhoso, a primeira relação sexual poderia ser maravilhosa. Como
advertência, o artigo ("Virgindade. O Momento Certo de Perdê-la".) explicava que a
adolescente virgem deveria tomar certas precauções, como exigir que o parceiro sexual usasse
camisinha. O artigo ("Virgindade. O Momento Certo de Perdê-la".) também aconselhava, às
adolescentes virgens, que elas, adolescentes virgens, se preparassem emocionalmente, já
que, muitas vezes, a primeira relação sexual pode ser traumática, causando sérios danos para
a vida sexual das mulheres. A Adolescente Meio Hippie amava O Adolescente Meio Hippie e,
por isso, estava segura e se sentia pronta para ser penetrada.

Foi uma pena que a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon não estivesse na banca de revistas,
em frente ao shopping center, no momento em que o Japonês Da IBM atravessou a larga
avenida, em frente ao shopping center, e entrou discretamente, na banca de revistas, em frente
ao shopping center, e entrou, discretamente, na banca de revistas, em frente ao shopping
center. O Vendedor Da Banca De Revistas, Em Frente Ao Shopping Center, sabia ser discreto
com os fregueses. O Japonês Da IBM, discretíssimo, nem precisou abrir a boca para receber,
embrulhado num saco plástico opaco, o seu exemplar de Fat Chicks (mulheres muito gordas
mostrando suas bocetas). O Japonês Da IBM era um japonês bem apessoado. O Japonês Da
IBM era um japonês bonito. O Japonês Da IBM era um japonês rico. O Japonês Da IBM era um
japonês culto. O Japonês Da IBM era um japonês moderno. O Japonês Da IBM não era
japonês, nem brasileiro. O Japonês Da IBM era o homem mais poderoso da IBM do Brasil.

Foi uma pena que o Japonês Da IBM não tivesse visto a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon
saindo do shopping center. Se o Japonês Da IBM tivesse visto a Gorda Com Cheiro De
Perfume Avon, com certeza teria se apaixonado instantaneamente. O Japonês Da IBMdiria,
com sotaque americano, para a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon:
Você é o mulher do meu vida!!!
A princípio, a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon ficaria desconfiada. Mas, depois de um
jantar, numa casa de jazz, ao som de um quinteto de negros, que não federiam, a Gorda Com
Cheiro De Perfume Avon aceitaria o pedido de casamento do Japonês Da IBM. Na mesma
noite em que a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon aceitasse o pedido de casamento do
Japonês Da IBM, o Japonês Da IBM levaria a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon ao Motel
Taj Mahal. O Motel Taj Mahal seria muito melhor do que o Motel L'Amour, onde a Gorda Com
Cheiro De Perfume Avon fazia sexo com o Chefe Da Expedição Da Firma. O Motel Taj Mahal,
além de oferecer banheira de hidromassagem e um canal privé com filmes de sexo explícito,
também oferecia sauna; piscina aquecida com cascata artificial; câmera Polaroid para que o
Japonês Da IBM fotografasse a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon nua; acessórios sexuais
como pênis de borracha, vaginas artificiais e chicotes diversos; cama vibratória; luzes
estroboscópicas; fôrmas de gelo em forma de pênis; papel de parede com figuras do Kama
Sutra. No Motel Taj Mahal, o Japonês Da IBM faria sexo anal com a Gorda Com Cheiro De
Perfume Avon. No Motel Taj Mahal, a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon faria sexo orla no
Japonês Da IBM. No Motel Taj Mahal, o Japonês Da IBM lamberia todo o corpo da Gorda Com
Cheiro De Perfume Avon. O Japonês Da IBM adoraria o gosto de suor nas dobras entre as
camadas de gordura da Gorda Com Cheiro De Perfume Avon. Depois de casado, o Japonês
Da IBM levaria a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon para passar a lua-de-mel em Los
Angeles e, na noite de núpcias, o Japonês Da IBM contrataria um travesti negro, que não
federia, para compartilhar da cama do casal e realizar o desejo secreto da Gorda Com Cheiro
De Perfume Avon. O Travesti Negro, Que Não Federia, colocaria seu pau na boceta da Gorda
Com Cheiro De Perfume Avon ao mesmo tempo que o Japonês Da IBM colocasse seu pau no
cu da Gorda Com Cheiro De Perfume Avon. O Japonês Da IBM também faria sexo anal com o
Travesti Negro, Que Não Federia, enquanto lambesse o suor nas dobras de suor entre as
camadas de gordura da Gorda Com Cheiro De Perfume Avon. Depois de Los Angeles, o
Japonês Da IBM e a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon iriam para New York, o Japonês Da
IBM compraria um frasco de perfume Chanel N°5 para a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon,
que se transformaria na A Gorda Ainda Mais Gorda Com Cheiro De Chanel N°5. A Gorda Com
Cheiro De Perfume Avon amaria o Japonês Da IBM. O Japonês Da IBM amaria a Gorda Com
Cheiro De Perfume Avon.

Foi uma pena que a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon não estivesse na banca de revistas,
em frente ao shopping center, no momento em que o Japonês Da IBM atravessou a larga
avenida, em frente ao shopping center, e entrou, discretamente na banca de revistas, em frente
ao shopping center.

A Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, que não reparara no Japonês Da IBM saindo da
banca de revistas, em frente ao shopping center, estava saindo do shopping center, quando
encontrou sua melhor amiga: a Vendedora De Roupas Jovens Da Boutique De Roupas Jovens.
A Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, e a Vendedora De Roupas Jovens Da Boutique De
Roupas Jovens andaram pela calçada, em frente ao shopping center, até a rotisserie da
esquina. Enquanto a Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, comia uma coxinha de galinha com
Catupiry e bebia chá mate gelado, a Vendedora De Roupas Jovens Da Boutique De Roupas
Jovens narrava sua aventura sexual da noite anterior:

-Para mim, homem tem que ter pinto grande. E o Marcelo, coitado, tem um peruzinho deste
tamaninho. Se eu soubesse, não teria dado para ele. Mas, você sabe, a gente só pode conferir
na hora agá, quando já é tarde demais. Imagina só, ficou sobrando uns dois dedos de
camisinha para fora do peru. Só deu pra gozar quando o Marcelo usou a língua. Mesmo assim,
foi um orgasmo supermixuruca. Orgasmo de clitóris não me satisfaz. Eu sou vaginal, meu
negócio é o pintão lá dentro.

Marcelo não tinha o pau tão pequeno assim. O pau do Marcelo era até um pouco maior do que
o pau do Jovem Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas. A Vendedora
De Roupas Jovens Da Boutique De Roupas Jovens não tinha motivo algum para mentir sobre
o tamanho do pau do Marcelo. A Vendedora De Roupas Jovens Da Boutique De Roupas
Jovens mentiu sobre o tamanho do pau do Marcelo sem motivo algum. Marcelo estava
apaixonado pela Vendedora De Roupas Jovens Da Boutique De Roupas Jovens.

O Balconista Da Rotisserie, que ouvira a narrativa da Vendedora De Roupas Jovens Da


Boutique De Roupas Jovens, ficou com o pau duro, imaginando o seu pau enorme (quase do
mesmo tamanho que o pau do Negro, Que Fedia) dentro da boceta da Vendedora De Roupas
Jovens Da Boutique De Roupas Jovens. Antes de servir mais uma coxinha de galinha com
Catupiry para a Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, o Balconista Da Rotisserie alisou seu
pau enorme com a longa unha afiada de seu dedo mindinho da mão direita, por sobre a calça.

A coxinha de galinha com Catupiry da rotisserie, na qual o Balconista Da Rotisserie trabalhava,


era deliciosa.

Marcelo era o jovem marido da Jovem Mãe e o pai do Bebê Que Babava no colo da Jovem
Mãe.

SONHO DE UMA FLAUTA


Hermann Hesse
Este é um conto do livro Sonho de Uma Flauta, de Herman Hesse. A Rubedo
agradece a gentileza da Editora Record que autorizou sua reprodução em nossas
páginas.
- Toma - disse meu pai, e entregou-me uma pequena flauta de osso - leva isso e não esqueças
teu velho pai, quando alegrares com tua música as pessoas nas terras distantes. Já é tempo
de agora veres o mundo e aprenderes alguma coisa. Mandei fazer a flauta para ti, porque não
sabes nenhum outro ofício e só gostas de cantar. Mas pensa também em só tocar sempre
canções bonitas e agradáveis, senão seria pena pelo dom que Deus te concedeu.

Meu querido pai entendia pouco de música, não era um sábio; pensava que eu tinha apenas de
soprar a linda flautinha e tudo estaria bem. Eu não queria decepcioná-lo, por isso agradeci,
botei a flauta no bolso e me despedi.

Nosso vale era conhecido até o grande moinho; depois então começava o mundo, e ele me
agradou bastante. Uma abelha cansada do vôo pousou na minha manga, e eu a levei comigo,
afim de que no meu primeiro descanso tivesse um mensageiro para mandar de volta, como um
cumprimento à minha terra.

Bosques e prados acompanhavam meu caminho, e o rio corria junto, vigorosamente; eu vi, o
mundo deferia pouco da minha terra. As árvores e flores, as espigas de trigo e as moitas de
avelã falavam comigo, cantei com elas suas canções e elas me compreendiam, exatamente
como lá em casa; com isso minha abelha também despertou, subiu devagar até meus ombros,
voou e tornou a cruzar duas vezes comigo, com seu zumbido profundo e doce, e então voltou
para minha terra.

Aí apareceu diante do bosque uma mocinha, que carregava uma cesta no braço e um largo e
sombrio chapéu de palha na cabeça loura.

- Bom dia - disse-lhe eu - aonde vais?

- Devo levar a comida aos ceifeiros - disse ela, e caminhou ao meu lado. - E para onde
quereres ir ainda hoje?

- Vou para o mundo, meu pai me mandou. Ele acha que devo tocar flauta para as pessoas,
mas isso ainda não sei direito, preciso primeiro aprender.

- Bem, bem. E que sabes então direito? Alguma coisa é preciso saber.

- Nada de especial. Sei cantar canções.

- Que canções?

- Canções de todo o tipo, sabes, para a manhã e para a tarde e para todas as árvores e bichos
e flores. Agora, por exemplo, eu poderia cantar uma bonita canção de uma mocinha que vem
saindo do bosque e traz comida para os ceifeiros.

- Podes fazer isso? Então canta um pouco!

- Sim, mas como te chamas mesmo?

- Brigite.

Então cantei a canção da linda Brigite com o chapéu de palha, o que ela traz na cesta, e como
as flores olham para ela, e a trepadeira azul da grade do jardim sente saudades dela, e tudo o
que se podia dizer. Ela prestou atenção seriamente e disse que estava bom. E quando lhe
contei que estava com fome, ela levantou a tampa de sua cesta e apanhou para mim um
pedaço de pão. Como mordi um pedaço e continuei firmemente a andar, ela disse:

- Não se deve comer andando. Uma coisa depois da outra.


Nos sentamos na grama e eu comi meu pão e ela cruzou as mãos morenas em volta da perna
e ficou me olhando.

- Queres cantar ainda coisa para mim? - perguntou então, quando terminei.

- Quero, sim. Que deve ser?

- Sobre uma moça que está triste porque o amado partiu.

- Não, isso não posso. Não sei como é isso, e a gente também não deve ficar tão triste. Eu só
devo cantar canções gentis e alegres, disse meu pai. Vou cantar para ti sobre o cuco ou a
borboleta.

- E do amor não sabes nada? - perguntou ela, então.

- Do amor? Ora, claro, isso é o mais bonito de tudo.

Imediatamente comecei a cantar sobre o raio de sol que ama as papoulas vermelhas e como
ele brinca com elas e fica cheio de alegria. E sobre a fêmea do tentilhão, quando espera por
ele e quando ele vem, ela voa para longe e parece amedrontada. E continuei a cantar sobre a
menina dos olhos castanhos e sobre o rapaz que chega, canta e por isso recebe um pão de
presente; mas agora ele não quer mais pão, ele quer um beijo da donzela e quer olhar os seus
olhos castanhos, e continua a cantar tanto tempo e não termina, até que ela começa a rir e lhe
fecha a boca com seus lábios.

Aí Brigite debruçou-se e fechou-me a boca com os lábios e fechou os olhos e tornou a abri-los
e eu olhei as estrelas castanho-douradas bem perto, eu próprio refletido ali dentro e um par de
brancas flores do prado também.

- O mundo é muito bonito - disse eu - meu pai tinha razão. Mas agora quero te ajudar a
carregar isso para que cheguemos até tua gente.

Tomei-lhe a cesta e continuamos a andar, seu passo combinava com o meu e sua alegria com
a minha, e o bosque suave e fresco falava da montanha em volta; eu nunca havia caminhado
com um prazer tão grande. Durante longo tempo cantei alegremente, até que tive de parar de
tanta satisfação; eram coisas demais que rumorejavam e contavam-se sobre o vale e a
montanha e a grama e a folhagem e o rio e a floresta.

Aí pensei: se pudesse compreender e cantar ao mesmo tempo essas mil canções do mundo,
das gramas e flores e gente e nuvens e tudo, da floresta velha e do pinheiral e também de
todos os bichos, e além disso ainda canções dos mares longínquos e montanhas, e as das
estrelas e luas, e se tudo isso pudesse ressoar e cantar em mim ao mesmo tempo, então eu
seria o querido Deus, e cada nova canção deveria ficar no céu como uma estrela.

Mas enquanto eu assim pensava, estava silencioso e maravilhado, porque aquilo antes nunca
me ocorrera, Brigite parou e segurou a alça da cesta.

- Agora devo ir lá em cima - disse ela - lá no campo está nossa gente. E tu, para onde vais?
Vens comigo?

- Não, ir contigo não posso. Preciso ir pelo mundo. Obrigado pelo pão, Brigite, e pelo beijo; vou
pensar em ti.

Ela segurou a cesta de comida, e sobre a cesta seus olhos novamente se inclinaram para mim
em sombras castanhas, e seus lábios prenderam-se aos meus e seu beijo foi tão bom e
carinhoso, que quase fiquei triste de tanto prazer. Então gritei rápido:
- Vai com Deus - e marchei apressadamente pela estrada acima.

A moça subiu devagar a montanha, e sob as folhas de faia pendurada na orla do bosque,
parou e olhou na minha direção, e quando lhe acenei com o chapéu, ela tornou a balançar a
cabeça e desapareceu silenciosamente, como uma miragem, para dentro da sombra do
bosque.

Eu, porém, continuei tranqüilamente meu caminho, e estava imerso em meus pensamentos,
quando a estrada dobrou num curva.

Lá havia um moinho e, perto, um barco na água; dentro estava sentado um homem sozinho e
parecia apenas esperar por mim, pois quando tirei o chapéu e entrei no barco, este, em
seguida, começou a andar e deslizou rio abaixo. Eu estava sentado no meio do barco, e o
homem atrás, no leme, e quando lhe perguntei para onde íamos, ele levantou os olhos
cinzentos e encarou-me com um olhar velado.

- Para onde quiseres - disse, com uma voz abafada. - Rio abaixo e para o mar, ou para as
grandes cidades, podes escolher. Tudo me pertence.

- Tudo te pertence? Então és o rei?

- Talvez - disse ele. - E, ao que me parece, tu és um poeta, não? Então canta-me uma canção
de viagem!

Fiz um esforço, estava com medo do homem grisalho e sério, e nosso barco deslizava rápido e
silencioso pelo rio. Cantei sobre o rio, que carrega o barco e reflete o Sol e rumoreja mais forte
nas margens dos rochedos e completa alegremente seu passeio.

O rosto do homem continuou impassível, e quando prestei atenção, ele balançava a cabeça
como um sonhador. Então, para meu espanto, ele próprio começou a cantar, e também
cantava sobre o rio, e sobre a viagem do rio através dos vales, e sua canção era mais bela e
poderosa que a minha, mas tudo soava diferente.

O rio, tal como ele cantava, vinha como um destruidor vacilante montanha abaixo, escuro e
selvagem; furioso, ele se sentia dominado pelos moinhos, coberto pelas pontes, detestava
cada navio que precisava carregar, e, em suas ondas e nas longas e verdes plantas aquáticas,
rindo, balançava os corpos brancos dos afogados.

Isso tudo não me agradou, e entretanto era tão belo e cheio de um acento invisível, que fiquei
completamente desorientado e angustiado e me calei. Se era certo o que esse velho, sensível
e inteligente cantor, cantou com sua voz velada, então todas as minhas cantigas não
passavam de tolices e brincadeiras bobas de criança. Então o mundo, por causa delas, não era
bom e luminoso como o coração de Deus, e sim escuro e triste, mau e sombrio, e quando os
bosques murmuravam, não era de alegria, e sim de martírio.

Seguimos adiante, e as sombras foram longas, e de cada vez que comecei a cantar, meu canto
sova menos claro, e minha voz tornava-se mais baixa, e de cada vez o cantor desconhecido
respondia com uma canção que tornava o mundo ainda mais enigmático e penoso, e me
tornava ainda mais tímido e triste.

Minha alma doía e eu me arrependia de não ter ficado em terra, perto das flores ou da linda
Brigite, e para sentir-me seguro no crepúsculo que crescia, recomecei a cantar e cantei na luz
vermelha da tarde a canção de Brigite e de seu beijo.

Aí o crepúsculo começou, e eu emudeci, e o homem no leme cantou, e ele também cantava


sobre o amor e a alegria do amor, sobre os lábios vermelhos e úmidos, e era lindo o que ele
cantava, cheio de dor, sobre o rio escurecido, mas em sua canção também o amor se tornara
sombrio e temível, e um segredo mortal, no qual os homens aflitos e feridos tocavam com seu
desejo e sua saudade, e com o qual se martirizavam e se matavam uns aos outros.

Escutei e fiquei tão cansado e aflito, como se estivesse viajando desde muito tempo e
houvesse passado por grande miséria e desgraça. Vinda do estranho, sentia cair sobre mim
uma torrente silenciosa e fria de tristeza e receio, a penetrar no meu coração.

- Pois bem, a vida não é o que há de mais elevado e mais belo - gritei afinal amargamente - e
sim a morte. Então te peço, rei triste, canta-me uma canção da morte!

O homem do leme cantou somente sobre a morte, e cantou melhor do que eu jamais ouvira
cantar. Mas a morte também não era o que havia de mais elevado e mais belo, nela também
não se encontrava consolo. A morte era vida e a vida era morte, e elas estavam entrelaçadas
numa perpétua e furiosa luta de amor, e isso era a última coisa e o sentido do mundo, e dali
vinha um clarão, que parecia querer valorizar toda a miséria, e de outro lado vinha uma sombra
que perturbava toda a alegria e beleza e as envolvia na escuridão. Mas para além da
escuridão, a alegria ardia mais íntima e bela, e o amor queimava mais profundamente nessa
noite.

Escutei e fiquei bem quieto, não tinha mais nenhuma vontade dentro de mim além da vontade
do estranho. Seu olhar repousou sobre mim, tranqüilo e com uma certa bondade triste, e seus
olhos cinzentos estavam cheios da dor e da beleza do mundo. Ele me sorriu, e então achei
nele um coração, e pedi na minha dor:

- Ah, vamos voltar! Sinto medo aqui na noite e queria retornar para onde posso encontrar
Brigite, ou para a casa de meu pai.

O homem levantou-se e espiou a noite, e sua lanterna iluminou claramente seu rosto magro e
firma.

- Para trás não há caminho - disse sério e amável. - A gente precisa ir sempre para a frente,
quando quer penetrar no mundo. E da garota dos olhos castanhos já tiveste o melhor e o mais
belo, e quanto mais longe estiveres dela, melhor e mais lindo isso vai se tornar. Ainda assim,
segue sempre para onde quiseres, vou te ceder meu lugar no leme!

Eu estava triste demais, e, entretanto, vi que ele tinha razão. Cheio de saudade pensei em
Brigite e na minha terra e em tudo que me fora próximo e luminoso e que pertencera, e que eu
agora havia perdido. Mas queria tomar o lugar do desconhecido e dirigir o leme. Assim devia
ser.

Por isso levantei-me em silêncio e fui andando pelo barco até o lugar do leme, e o homem veio
em silêncio ao meu encontro, e quando já estávamos perto um do outro, olhou-me firmemente
no rosto e entregou-me sua lanterna.

Entretanto, quando me sentei ao leme com a lanterna do meu lado, estava sozinho no barco;
percebi isso com profunda estranheza, o homem desaparecera, e, contudo, eu não estava
amedrontado, já pressentira isso. Pareceu-me que o lindo dia da caminhada e Brigite e meu pai
e minha terra tinham sido apenas um sonho, e que eu era velho e aflito, e que desde sempre e
sempre viajava sobre esse rio noturno.

Compreendi que não devia chamar pelo homem e a percepção da verdade atingiu-me como a
geada.

Para certificar-me do que imaginava, debrucei-me sobre a água e ergui a lanterna, e do escuro
espelho de água um rosto duro e sério me olhou com olhos cinzentos, um rosto velho, sábio, e
vi que aquele era eu.
E como nenhum caminho voltava atrás, continuei seguindo sobre a água escura dentro da
noite.

SOBREVIVERÃO OS PÓS-JUNGUIANOS?

Andrew Samuels

Este texto foi traduzido mediante expressa autorização do


autor. A Rubedo agradece a gentileza e a amabilidade
com que Andrew Samuels vem apoiando nosso projeto.

Introdução

As pessoas que lêem ou escutam pela primeira vez o título deste capítulo, tendem a
imaginar o que aconteceria se a resposta à pergunta fosse "não". Será que isso,
meramente, poderia significar a sobrevivência dos junguianos? Ou, se hoje em dia
todo mundo é pós-junguiano, que ninguém associado à psicologia analítica
sobreviveria? Se a resposta para essa pergunta fosse "sim", continuaria havendo
junguianos sobrevivendo lado a lado com pós-junguianos? Ou a sobrevivência dos
pós-junguianos significaria o fim dos junguianos?

A ambigüidade e a tensão plena de nuâncias na relação entre as psicologias


analíticas jungiana e pós-jungiana não é algo que eu deseje resolver de forma
simplista, seja lamentando o fato de que a psicologia analítica padece de carregar o
nome de seu fundador, ao contrário da psicanálise, – ou, inversamente,
considerando-o como força ou característica especial da psicologia analítica.
Aqueles que se orgulham de ser junguianos, freqüentemente acabam por denegrir
o que quer que o termo pós-junguiano signifique, e vice-versa. Partilho da
frustração daqueles que desejam ser de outra linha que não a jungiana, mas que
possa ter empatia pela convicção daqueles que procuram reter uma espécie de
filiação a Jung, o homem, e àquilo a que, por vezes, chamam de seus
"ensinamentos".

Não sei até que ponto deve-se levar a sério a presente questão da sobrevivência.
Quero fazer soar uma nota alarmista, porque tanto sinto quanto percebo ser
necessário. Talvez o título exagere o sentido de estar-se numa encruzilhada,
porém, como disse Adorno, certa vez, a respeito da psicanálise, os momentos
importantes de algo podem residir nos exageros.

Para começar, deixem-me dizer algo a respeito do espírito com que escrevi este
capítulo. Daí, seguirei na tentativa de fazer uma espécie de amplo balanço para a
psicologia jungiana no mundo, em termos de créditos e débitos. A terceira seção
será uma descrição do que veio a se chamar "a década pós-jungiana", ou seja, os
dez anos ou mais desde que publiquei Jung e os Pós-Junguianos, em 1985. De lá,
partirei na tentativa de dizer algo sobre o cenário pós-junguiano de hoje,
atormentado por conflitos, intrincado e diversificado. Depois disso, discutirei o
árduo problema de prantear a morte de Jung, o homem, que servirá de base para a
discussão de se podemos, de verdade, fazer com que a teoria e a prática jungianas
sejam "suficientemente boas". A seguir vem uma seção sobre Jung na
universidade. Finalmente, apresentarei, para debate e discussão, tanto quanto para
qualquer tipo de esquema de sobrevivência, uma "carta de intenções junguiana"; e
concluirei explicando de que modo eu pessoalmente tento "empacotar" Jung.
No que diz respeito ao espírito deste capítulo, preciso desculpar-me de antemão
pela quantidade de generalizações aqui contidas. Estarei, inevitavelmente,
violentando diferenças individuais valiosas e sinceras. Entretanto, acredito que se
possa preservar as diferenças individuais através da utilização de uma
generalização judiciosa. O que tenho a dizer baseia-se em minha experiência
pessoal: minhas inúmeras viagens como conferencista a muitos países; minha
amizade com analistas junguianos e futuros analistas em vários países; conexões
com psicanalistas em muitos destes países; aquilo que aprendi através das
conversas com acadêmicos de diversas disciplinas.

Desejo trazer a público, tão francamente quanto possível, os tipos de questões que
os analistas costumam discutir em segredo. A questão não é se estou certo ou
errado a respeito dessas coisas, mas se os leitores percebem aonde estou querendo
chegar. Robert Musil disse certa vez: "Estou convencido não apenas de que o que
eu digo está errado, mas de que o que se disser em contrário também estará."
Assim o espírito do capítulo envolve erro por todo lado. Como realmente me sinto,
sendo junguiano? No congresso internacional de psicologia analítica de 1995, fiz
uma apresentação juntamente com Polly Young-Eisendrath, intitulado "Por que é
difícil, no mundo de hoje, ser um analista junguiano?" É difícil por razões que vou
explicar. Mas eu não disse que fosse impossível. Ser um analista junguiano na
prática clínica tem me provido de uma base extraordinariamente útil, flexível e rica
para trabalhar em áreas afins – política, serviço social e outras. E sou imensamente
grato.

Um balanço para a psicologia pós-junguiana

Deixem-me prosseguir, falando a respeito desse balanço. No lado dos créditos,


encontríamos a tremenda penetração cultural da psicologia junguiana em alguns
países, até um ponto em que fica quase impossível falar de mulheres, homens,
casamento, alma, política, sem se ter em mente alguma idéia proveniente do
corpus ou tradição jungiana, ou pós-jungiana. Este é um sucesso extraordinário
que trouxe consigo seus problemas particulares. Também do lado dos créditos,
acho que podemos discernir uma certa aceitação, até o momento negada aos
"junguianos" nos círculos clínicos, culturais e acadêmicos. Não é uma acolhida de
braços abertos, mas há uma aceitação, estimulada não apenas pelos argumentos
irresistíveis e pelo progresso no comportamento dos junguianos, mas também por
mudanças no processo cultural e no modo como compreendemos tanto o trabalho
clínico quanto a natureza do conhecimento mesmo na cultura contemporânea.

Um outro crédito deriva do fato de que a psicologia analítica opera


internacionalmente. Não tenho como exagerar a importância, para a psicologia
junguiana, de que tenha havido, a nível internacional, uma livre troca de idéias e
de práticas. Em particular, o que é chamado ironicamente de "áreas fronteiriças"
para a psicologia analítica, tem-se provado fonte de todos os tipos de boas idéias e
energia criativa. Nos antigos países comunistas, no Extremo Oriente, na América
Latina e Australásia, estudiosos e analistas pós-junguianos estão fazendo e dizendo
coisas que adquirem valor em proporção direta a sua tendência para chocar os
veteranos na Europa e na América do Norte.

No lado dos débitos, os analistas junguianos não conseguem contornar o


argumento do "culto a Jung", lançado por Richard Noll (1994), simplesmente
atacando seu autor. Os argumentos de seu livro são bastante falhos: a análise
jungiana não é um sistema de vendas piramidal e o trabalho clínico não depende de
um caminho apertado sobre uma versão particular da teoria do inconsciente
coletivo. Porém, às vezes, há uma excessiva deferência, visível em grupos
junguianos, para com os analistas em geral e, em particular, aos analistas mais
antigos; uma deferência é, às vezes, difícil de se justificar em termos da
produtividade efetiva desses indivíduos. Talvez deva observar que também fui, por
vezes, o receptor, até mesmo beneficiei-me por um breve período, de
transferências idealísticas e positivas, verdadeiramente injustificadas e, tenho que
confessar que algumas vezes não tive auto-crítica suficiente, ou não fui assíduo o
bastante, para perguntar-me: estarei eu, aqui, conduzindo uma onda de culto? Há
também um problema gerontocrático, o qual definitivamente é preciso abordar. Isto
significa que alguma coisa foi incorporada à senioridade – cronológica tanto quanto
profissional – que precisa de uma crítica urgente.

Também no lado dos débitos, encontra-se a aparente inabilidade do nosso ramo


particular da profissão de psicoterapeutas, em convencer o grande público de que
os analistas junguianos não têm desvios de conduta sexual em maior proporção
que os membros de qualquer outra escola de psicoterapia. Há vinte e cinco anos
atrás isso era um problema explícito na análise jungiana. Porém, já colocamos
nossa casa em ordem. Não obstante, em parte por causa do legado de Sabina
Spielrein, Toni Wolff e Christina Morgan – todos analisandos com os quais supõe-se
que Jung tenha tido relações sexuais –, tem sido difícil convencer aos outros de que
não somos piores que as outras escolas de psicoterapia.

Um aspecto adicional do lado dos débitos, diz respeito ao que vejo como a
inabilidade contínua dos analistas junguianos em lidar com os "truques sujos" da
psicanálise praticados contra si. Há uma história a esse respeito, é claro: o "comitê"
secreto de Freud, organizado nos começos da psicanálise, para garantir que não se
reconhecessem os desertores como contribuintes sérios ao empenho psicanalítico.
O legado desse comitê é a tendência tão comentada dos psicanalistas de ignorarem
completamente as contribuições pioneiras de Jung (as quais serão referidas com
mais detalhes no momento devido), assim como as dos pós-junguianos. Por
exemplo, um livro recente chamado Freud and Beyond: A History of Psychoanalytic
Thought (1995), de Steven Mitchell e Margaret Black, excelente, abrangente,
contém duas referências a Jung. Acontece de serem referências bastante positivas.
Por exemplo, Mitchell e Black ressaltam que foi Jung quem antecipou a
espiritualidade como uma séria preocupação psicanalítica. Mas, sem dúvida, não
haveria muitas outras coisas em que Jung pudesse ser visto como pioneiro?
Em Jung e os Pós-Junguianos (1985), citei dezessete avanços específicos em
psicanálise, desde a Segunda Guerra Mundial, que podem ser atribuídos a Jung
como figura presciente e pioneira. Não é meu propósito levantar novamente estas
questões para me queixar, mas sim para sugerir que esse estado de coisas merece
uma entrada na coluna de débitos da folha de balanço.

Há mesmo evidência de que a situação esteja piorando. Recentemente, apareceu


na International Journal of Psycho-Analysis, uma crítica a respeito de um livro
escrito por um analista junguiano, feita por um psicanalista de Londres, o qual fora
anteriormente analista junguiano, desaprovando neste e em outros livros
junguianos o tom queixoso e lamuriento que diz: "Olhem para nós. Pensamos nisso
primeiro."

Alguns analistas junguianos consideram que isso não importa. Eu, porém, não
tenho esse grau de desprendimento e "maturidade".

Do mesmo modo, em 1988, no Congresso Internacional da Associação Psicanalítica,


o então presidente Robert Wallerstein fez uma palestra intitulada "Uma psicanálise
ou muitas?" (Wallerstein 1988). Ele concluiu, dizendo que se deveriam realmente
referir a "muitas psicanálises". Assim, todos estavam incluídos: Klein, Kohut,
relações objetais, interpessoal, interacional, relacional, feminista. Mas os
junguianos não, porque, argumenta Wallerstein, os junguianos negam "os fatos da
transferência e da resistência". Como é que Wallerstein sabe disso? Porque ele lera
e fizera citações extensas do artigo de William Goodheart (1984) sobre o
comportamento de Jung em relação a sua jovem prima, enquanto fazia um trabalho
de pesquisa para sua dissertação de doutorado em psicologia do oculto. Naquela
época Jung tinha 21 anos. Ele nunca ouvira falar de Freud e, muito menos, da
possibilidade de se tornar psicanalista. Wallerstein manipulou este material de
modo a torná-lo uma afirmação clara, ou apoio para a afirmação de que os
junguianos rejeitam as idéias de transferência e resistência. O que vem a ser
particularmente triste neste problema é que, ao invés de caminhar lado a lado com
nossos colegas psicanalistas e defender a psicologia profunda contra o assalto da
revolução administrativa dos planos de saúde – e de outros movimentos anti-
psicoterapêuticos em muitos países – ficamos esganando uns aos outros, em vez
de unirmos nossas fileiras.

A imagem pública da análise jungiana não é boa. De certo modo, isso é estranho.
Vende-se livros aos milhões, mas quando se pede a estudantes universitários que
façam um simples jogo associativo à palavra Jung (e eu o pedi a mais de 300), a
avassaladora maioria das reações à palavra-estímulo "Jung" é ou "Freud", ou
alguma coisa que se refira a anti-semitismo, nazismo, Alemanha, Hitler. Arquétipos
vêm em terceiro lugar e misticismo, com conotação pejorativa, em quarto. Essas
reações sugerem que temos um problema de identidade. Somos uma profissão?
Somos uma comunidade? Somos um movimento? Chegamos a ter uma história
estabelecida com a qual todos concordam? Sonu Shamdasani, um estudioso de
Jung, publicou uma série de documentos (por exemplo, 1990, 1995) que tornam
impossível para os junguianos concordarem com os fatos de sua história. Miss
Miller, o pseudônimo de que Jung se utiliza no quinto volume de suas Obras
Completas (1956), não era um pseudônimo. Havia mesmo uma Miss Miller, a qual
de forma alguma ignorava o material cultural e mitológico que naquele tempo
constituía a versão de Jung sobre o inconsciente coletivo. Miss Miller era uma
artista de palco, cuja especialidade era vestir-se como membro de um exótico
grupo étnico e recitar poesia germânica para aquele agrupamento cultural em
particular. Você poderia dizer que ela conhecia tudo sobre a idéia de inconsciente
coletivo muito antes de ter ouvido falar em Jung. Shamdasani mostrou também
que a autobiografia de Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões, é um texto
dramaticamente incompleto, cuja maior parte não foi escrita por ele e continha
capítulos concernentes a Toni Wolff, omitidos por insistência da família de Jung. O
principal capítulo sobre seu débito a William James também foi omitido, o que
distorce totalmente a perspectiva da história intelectual.

A década pós-junguiana

O que quer dizer o rótulo "pós-junguiano"? Não cunhei este termo na esteira do
"pós-moderno". Na verdade, foi parodiando um livro bem conhecido da Penguin
chamado Freud and the Post-Freudians(Brown 1961). Talvez tenha sido apenas um
tanto de meu complexo de inferioridade junguiano. (Ou talvez leve cerca de vinte
anos a partir da morte do pioneiro para que tais livros sejam escritos – vinte e um
anos para Freud, vinte e quatro para Jung [Casement 1985].) Contudo, posso ver
agora que interpretações do termo pós-junguiano baseadas em interpretações do
pós-modernismo fazem sentido, porque assim como não se pode, absolutamente,
ter pós-modernismo sem a modernidade, não se pode ter psicologia e análise pós-
jungianas sem as psicologia e análise jungianas. Quero expressar com isso uma
conexão com Jung e, ao mesmo tempo, distância crítica de Jung. A palavra-chave é
"crítica"; e se eu fosse escrever meu livro de novo e tivesse total liberdade com
relação ao título, gostaria de chamá-lo Psicologia Analítica Crítica.

Eu precisei achar uma maneira de descrever o campo porque o que existia antes
como classificação era bastante problemático. As pessoas costumavam falar de
"Londres" e "Zurique". Mas, mesmo nos anos 80 e, com certeza, nos 90, há o que
costumávamos chamar analistas "londrinos" em Chicago e em São Francisco, e
analistas "de Zurique" pelo mundo todo que nunca chegaram perto de Zurique.
Além do que, como hoje em dia existem quatro sociedades jungianas bem
estabelecidas em Londres, referir-se ao que diz respeito a todas elas como
"londrino" é, realmente, impossível em termos de semântica e mesmo de polidez.

Uma outra crença que já estava arraigada em mim antes que começasse a elaborar
os modos pós-junguianos, foi a de que havia, na verdade, uma divisão entre as
abordagens clínicas e simbólicas à psicologia analítica. Acho que Louis Zinkin
acertou quando disse que esta divisão era uma armadilha, pois nenhum analista
junguiano que se prezasse diria não ser "simbólico" e, sim, "clínico" (comunicação
pessoal, 1983). E quais profissionais iriam concordar que não eram "clínicos"?

O que eu fiz em Jung e os Pós Junguianos foi assumir que todas as escolas de
psicologia analítica sabem a respeito, e fazem uso, de todas as idéias e práticas a
sua disposição, sob o título de psicologia jungiana. Meu método foi dizer que,
atualmente, há mesmo uma prioridade e uma ponderação acontecendo dentro de
cada uma dessas escolas tão diversas, conectadas em virtude do fato de serem
competitivas entre si.

Também admiti que as escolas sejam ficções criativas, porque existe uma grande
quantidade de sobreposições e que, em muitos aspectos, foram os pacientes que
construíram as escolas, tanto quanto os analistas.

Para resumir, eu disse que havia três escolas: (1) a escola clássica, trabalhando
conscientemente na tradição de Jung, com foco no Si-Mesmo e na individuação. Fiz
questão de mostrar que não se pode igualar clássico com empacado ou rígido.
Existem evoluções dentro de algo clássico que são bem possíveis. (2) A escola
desenvolvimentista, que tem uma abordagem específica sobre a importância da
infância na evolução do caráter e personalidade do adulto e, igualmente, uma
ênfase aguda na análise das dinâmicas da transferência-contratransferência no
trabalho clínico. A escola desenvolvimentista tem relação íntima com a psicanálise,
embora a palavra rapprochement, usada com freqüência, esteja totalmente errada
porque a psicanálise não rapproche com a psicologia analítica, ao passo que a
psicologia analítica faz tentativas freqüentes a um rapprochement com a
psicanálise. (3) A escola arquetípica explora e joga com as imagens na terapia. Sua
noção de alma sugere o aprofundamento que permite a um evento tornar-se
uma experiência.

Era essa, basicamente, a tríplice classificação: clássica, desenvolvimentista e


arquetípica. Certa vez, Joseph Henderson, um colega de Jung, fez troça de mim, se
bem que gentilmente, numa conferência em 1991. Ele disse que gostava muito
dessa classificação e a achava bastante confiável, mas gostaria de declarar que ele
pessoalmente era pré-clássico! Acho que o que escrevi em 1985 era confiável.
Porém, também dou-me conta de que fosse uma coisa provocativa por causa do
investimento junguiano na individualidade e autenticidade – uma característica de
nossa tradição. Além disso, há a história folclórica que temos de que Jung não
estava interessado em ser um líder e, portanto, todo junguiano poderia fazer o que
quisesse; e, ao fazer o que lhe apraz, torna-se um verdadeiro junguiano. Existe
todo tipo de "slogans" atribuídos a Jung ("Graças a Deus sou Jung e não
junguiano"). Eu achava isso uma tolice, pois pra mim não tinha problema nenhum
Jung ser um líder e tentar influenciar outras pessoas. No fim das contas, é apenas
parte da natureza humana. Eu podia ver muitas maneiras nas quais Jung fosse um
líder, muitas maneiras em que todas as escolas poderiam até ser vistas como
aspectos de Jung e de sua forma de pensar; portanto, para mim não havia
problema com um exercício de auto-reflexão profissional que na época,
provavelmente, era necessário.

Sem dúvida, meu próprio elemento da sombra encontrava-se presente no livro –


talvez houvesse uma fantasia sincretista ao fazer uma classificação como aquela.
Espero que, através dos anos, a utilidade dele tenha prevalecido sobre os aspectos
da sombra. Na verdade, não escrevi o livro a partir de uma clareza olímpica;
escrevi a partir da confusão de ser um analista recém-qualificado, que precisava
entender a respeito daquilo sobre que meus antecessores e superiores tanto se
agitavam. Se o livro estava sob a influência de um deus, seria antes a de Hermes,
mais do que a de Zeus.

No livro e, subseqüentemente, tomei uma postura muito menos literal em relação


às escolas. O que eu diria agora, é que dentro de cada analista junguiano existe um
analista da escola clássica, um analista da escola desenvolvimentista e um analista
da escola arquetípica. Isso quer dizer que fica potencialmente em aberto para
qualquer candidato ou analista junguiano, ou psicoterapeuta junguianamente
orientado, acessar o amplo espectro de idéias, práticas, valores e filosofias que
constituem o campo total da análise e psicologia pós-junguianas. Isto nos permite
saudar o emergir do que chamo, agora, de "novo modelo de analista junguiano". É
aquele que, graças ao trabalho de diferenciação que eu e outros fizemos, consegue
saber, quando trabalha de qualquer maneira particular, quais idéias e práticas
específicas são formuladas: clássicas (Si-Mesmo e individuação);
desenvolvimentistas (infância, transferência-contratransferência); arquetípicas
(alma, imagens particulares). Pode estar trazendo consigo todas elas, algumas
delas e, como discutiremos daqui a pouco, nenhuma delas. Pode variar a mistura
durante toda a sua prática; pode variá-la na análise de um indivíduo; e pode variá-
la dentro dos limites de uma única sessão clínica de análise. Se bem que eu ainda
pense ter dito algo válido num nível factual, literal, acadêmico e de história das
idéias, também acho que o modelo diz algo de válido quanto à experiência interna
de ser um analista e à crise de escolha que os analistas cada vez mais bem-
educados de hoje em dia enfrentam a todo momento no contexto clínico.

Os pós-junguianos hoje

Eu poderia parar por aqui, com tudo parecendo ótimo. Mas é claro que as coisas
não estão ótimas – daí o título do capítulo. Quero prosseguir, discutindo certos
problemas que vejo afligir e afrontar hoje em dia os pós-junguianos. O que quero
oferecer neste momento é uma classificação atual das escolas de psicologia
analítica pós-jungianas.

Como entendo agora, existem quatro escolas de psicologia analítica pós-jungianas.


As escolas clássica e desenvolvimentistas têm permanecido praticamente como
eram. A escola arquetípica tem sido integrada ou eliminada como entidade clínica –
talvez, um pouco dos dois. Mas, há duas novas escolas a se considerar, cada qual
uma versão extrema de uma das duas escolas até aqui existentes, a clássica e a
desenvolvimentista. Chamo a essas duas versões extremas de fundamentalismo
junguiano e de fusão jungiana com a psicanálise. As quatro escolas poderiam ser
apresentadas num espectro: fundamentalista, clássica, desenvolvimentista,
psicanalítica.

Como todos os fundamentalismos, o fundamentalismo junguiano deseja controlar


quem ou o que faz parte e/ou não faz. Daí tende a ser cruel e estigmatizante.
Ouve-se, às vezes, numa avaliação das circunstâncias de treinamento: "Ele (ou ela)
não tem mente psicológica," dizem. Ou a tipologia é utilizada para estabelecer
situações sociais, culturais ou interpessoais complexas, de um modo inteiramente
improdutivo e oracular. Mulheres intelectuais podem ser sumariamente executadas.
O fundamentalismo junguiano nega seu papel no mercado de trabalho – tenta
convencer-nos de que ele apenas é, que não tem um projeto persuasivo,
procurando influência, como o resto de nós. Há uma tentativa de negar seu aspecto
comercial, inclusive o financeiro. O fundamentalismo junguiano enfatiza a pessoa
de Jung e suas palavras proféticas, que, às vezes, chegam até mesmo a alegar
serem inspiradas pelo divino. Mas o que enfatiza, particularmente, é como vivia
Jung. Às vezes isso é chamado de "o caminho junguiano". Tenho horror à essa
noção de haver "um" ou "o" caminho junguiano, mas o fundamentalismo junguiano
joga com isso.

O fundamentalismo junguiano exagera nossa inegável carência de ordem, de


padrão, de significado e de um mito que nos governe. Não digo que estas carências
não existam. O que estou dizendo é que elas estão sendo exageradas e exploradas;
e congeladas ou fossilizadas. Outras feições da psicologia humana, que tem a ver
com sua natureza evanescente, inconstante, anti-fundacional, anti-essencialista e
travessa, não podem encontrar lugar na Weltanschauung do fundamentalismo
junguiano. Além disso, é uma visão de mundo que tende a ignorar tudo o mais que
acontece na psicoterapia em geral, ou no mundo das idéias, da política, das artes
ou da religião. Nunca vou esquecer de uma conversa que tive sobre o famoso caso
de Freud, Dora, com uma eminente analista a quem considero fundamentalista
jungiana, que disse pra mim: "Que Dora?"

O aspecto positivo do fundamentalismo junguiano é que existe algo de bom e


compensador na idéia de se viver de acordo com princípios psicológicos, e buscar,
talvez contra todas as probabilidades, a autenticidade da experiência.

Deixem-me prosseguir, fazendo uma crítica semelhante à tendência jungiana atual


em direção à fusão com a psicanálise. Quero deixar bem claro que não sou contra o
uso da psicanálise pelos junguianos, como é o caso da escola desenvolvimentista.
Como foi que apareceu no mundo junguiano, essa tendência atual de fundir-se com
a psicanálise? Em primeiro lugar, acho que, muitas vezes, baseou-se em alguma
coisa excessivamente pessoal, visto que vários junguianos que fizeram análise
pelas escolas jungianas clássica ou desenvolvimentista não ficaram satisfeitos com
suas experiências ali. Daí a fusão jungiana com a psicanálise pode estar baseada,
em minha opinião, na raiva e numa idealização da psicanálise como sendo, de
alguma forma, clinicamente melhor, como possuindo requintada e superior
habilidade clínica, quando comparada com a nossa.

Isto leva os junguianos a fecharem os olhos às enormes contribuições clínicas que


têm sido feitas pelos próprios junguianos. Não estou fazendo a queixa costumeira
(referida acima) de que ninguém reconhece que "nós" pensamos nisto primeiro.
Minha queixa aqui é a de que os próprios junguianos da escola psicanalítica não
atentam para certas idéias que são nossas por direito de nascença e por herança.

Penso na importância do relacionamento real na análise, a aliança terapêutica, e na


inelutável natureza internacional do trabalho analítico. "Você não pode exercer
influência alguma, a menos que esteja aberto à influência." "A contra-transferência
é um órgão de informação muito importante." Estas são as afirmações pioneiras
feitas por Jung nos anos 20. Ou existe a compreensão não-literal da regressão na
situação clínica como implicada em processos de crescimento e maturação
psicológica; não necessariamente regressão à infância num sentido literal, mas
regressão a "alguma outra coisa" que é difícil de designar com precisão. Ou o papel
da personificação na psique humana, do qual depende o trabalho de tantos
psicólogos humanistas e transpessoais. E a idéia jungiana quintessencial de que
existem outros estilos de consciência além egóica? Ou a noção de que há uma
psicologia da totalidade-da-vida – não apenas uma psicologia do jardim de infância,
dos primeiros três anos, dos primeiros seis meses, pré-parto, nascimento, o que
quer que seja? A noção de uma psicologia da totalidade-da-vida nos daria uma
estrutura sobre a qual discutir alguns dos pontos da psicologia coletiva e cultural,
envolvidos nas principais alterações no local de trabalho e na conexão com
condições de bem-estar e pensões que têm lugar atualmente no mundo inteiro.

Não deveríamos nos esquecer de que existe uma abordagem hermenêutica


jungiana ao material clínico: o material clínico não se torna vivo devido a sua
natureza causal, nem a uma compreensão determinística da situação em que o
paciente se encontra, mas sim por causa da maneira com que o sentido emerge a
partir de trilhar os traumas e as dificuldades do passado que tem lugar na análise.

Um número demasiadamente grande de analistas estão envolvidos na fusão


jungiana com a psicanálise em certos países – Alemanha, Grã Bretanha, Estados
Unidos. Eles colocaram a construção analítica acima do relacionamento analítico e,
algumas vezes, colocaram uma versão profissional do relacionamento analítico,
chamada transferência-contratransferência, acima de prestar um mínimo de
atenção a conteúdos psicológicos, tais como as imagens da fantasia. O
relacionamento analítico é entendido principalmente em termos da díade mãe-
criança – que eu chamo de mamocentrismo – onde a nutrição e o relacionamento
boca e seio, ou boca e mamilo, é encarado como o paradigma para a compreensão
do que está acontecendo entre o par analítico.

Nessa escola de psicanálise existe uma fuga, por parte do analista, do uso
disciplinado do auto-revelar-se para o paciente; seus sentimentos fantasias e
reações corporais àquele paciente. Não é meramente medo de processos por
imperícia. Nós fomos, na verdade, em direções completamente opostas àquelas que
sustentam nossa tradição. Nós adotamos os dogmas psicanalíticos de neutralidade
e abstinência como regras para governar nosso trabalho. É a isto que me refiro
como uma fusão com a psicanálise.

Preciso ressaltar um ponto positivo no exposto acima. Eu treinei na escola


desenvolvimentista. Era diferente de qualquer fusão com a psicanálise. Envolvia a
utilização da psicanálise por analistas junguianos como analistas junguianos; não a
fusão de nossa identidade como analistas junguianos com a identidade maior e,
portanto, altamente sedutora, dos psicanalistas.

A psicanálise aprendendo com os pós-junguianos

Pode ser que hajam maneiras em que uma perspectiva pós-junguiana permitisse
esclarecer dificuldades dentro da psicanálise contemporânea. Por exemplo, existe
na psicanálise um debate intenso com respeito às categorias de "o bebê" ou "a
infância", no tocante à compreensão e interpretação de material clínico. Será o
bebê, no paciente, um bebê de carne e osso, cujas experiências examinadas
cultivaram e coloriram (e, talvez, causaram) os traços principais da personalidade
adulta com a qual o analista está engajado? Ou será o bebê um símbolo de
renascimento e regeneração, um bebê metafórico como numa das ilustrações da
alquimia que Jung apresentou? Ou uma combinação de ambos? A questão do que
fazem os analistas quando introduzem, ou estendem a introdução, do bebê do
paciente é uma questão perene.

Pode ser que a idéia de Jung da amplificação, não seja familiar a alguns leitores. Foi
mencionada especificamente pela primeira vez em 1908, num ensaio em uma
coleção editada por Freud (Jung 1908: 186-8), onde Jung declarava não desejar
que o processo de interpretação se encaminhasse "inteiramente no subjetivo". Em
1935, Jung falou da necessidade de encontrar "o tecido no qual a palavra, ou a
imagem, está incrustada" (1935: 84). Alegava ali, que a amplificação segue uma
espécie de "lógica" natural. Já em 1947 encontra-se o valor da amplificação no fato
de que ela nos permite alcançar, por inferência, as estruturas arquetípicas da
mente inconsciente que, por definição, são representativas em si e de si mesmas,
tem que ser distinguidas de suas representações na cultura e que, portanto, só
podem ser acebadas por meio de técnicas tais como a amplificação. Como muitos
outros leitores têm conhecimento, a amplificação é uma técnica que envolve o uso
dos paralelos míticos, históricos e culturais de forma a esclarecer, tornar mais
amplo e, por assim dizer, aumentar o volume do material factual, emocional e de
fantasia que pode ser obscuro, tênue e difícil de tratar. Os analistas esperam por
associações às imagens oníricas para alcançar seus significados pessoais. A
amplificação segue em outra direção. Através da amplificação o analista torna
possível ao paciente alcançar para além do conteúdo pessoal, implicações coletivas,
culturais e sociais mais amplas e/ou mais profundas do material. O paciente sente-
se menos só e pode localizar sua neurose pessoal dentro do sofrimento global da
humanidade e sua produção.

Para Jung, o método da amplificação era também uma forma de demonstrar a


validade do conceito de inconsciente coletivo. O modo como Jung compreendia o
inconsciente coletivo inicialmente, era de que este se compunha de imagens
primordiais que eram, em grande medida, consistentes através das épocas e
culturas. Como a amplificação envolve a reunião de paralelos provenientes de
fontes diversas, poder-se-ia considerá-la como executando esta função evidente.
Os analistas junguianos atuais, especialmente aqueles em contato com o pós-
modernismo e sua abstenção de metanarrativas, estão muitíssimo menos convictos
de que existam imagens eternas e universais.

Retornemos à questão sobre a categoria epistemológica de infância na


interpretação do trabalho clínico. Sugiro que o pensamento por trás da idéia de
amplificação (não sua utilização clássica como técnica, que pode às vezes ser
demasiado acadêmica) pode ser estendida para aplicar-se ao que os analistas
fazem quando interpretam em termos de infância. O procedimento cotidiano,
ordinário, de interpretar o material do paciente, especialmente os conteúdos de
transferência, em termos de infância, pode também ser visto como uma espécie de
amplificação. Isso seria diferente tanto de aparições hermenêuticas quanto de
positivísticas-causal (sejam duras ou suaves). Digamos que o paciente esteja
perturbado pela perspectiva das férias do analista. Seja a interpretação edípica ou
pré-edípica, esteja ela expressa em termos de abandono, inveja ou ciúme, isso
pode ser visto como uma amplificação do conteúdo emocional de um material
ordinário, relativamente silencioso – como quando o paciente meramente fica com
vontade de saber para onde vai o analista, sem lágrimas, súplicas ou produção de
sintoma. Além disso, relacionar o material aos modelos gerais de funcionamento
inconsciente e desenvolvimento da personalidade tem efeito muito semelhante
àquele da amplificação em seu sentido clássico, junguiano: expandir os horizontes
e aprofundar a experiência do paciente no aqui-e-agora, tornando os eventos de
análise em experiências na análise. Camadas de significado mais primitivas e
infantis podem ser descobertas e compreendidas, levando a uma redução da
sensação de isolamento e perseguição do paciente.

De luto pela morte de Jung

Será que já fizemos luto bastante pela morte de Jung? E por que essa pergunta? É
óbvio que a função sentimento nos diz que devemos honrar Jung como pessoa
concentrar-nos em Jung como um grande homem, a fonte de uma enorme
sabedoria e o fundador da escola de psicologia e psicoterapia. Mas concentrar-se
nele e honrá-lo demais é também uma deficiência da função sentimento. Se a
função sentimento se refere a equilíbrio, avaliação, julgamento, então dar muita
ênfase a Jung é tanto uma deficiência do sentimento, como também desconsiderar
e abandonar o velho homem. Acho que temos mesmo um problema de luto. Não
somos os únicos. Não apenas nós. Robert Wallerstein, naquela palestra presidencial
aos psicanalistas citada anteriormente, disse: "Para muitos de nós Sigmund Freud
permanece nosso objeto perdido, nosso gênio inalcançável, por cuja passagem
talvez não tenhamos jamais feito o luto apropriado, pelo menos em plenitude
emocional." Que coisa inacreditável, vinda do mesmo presidente que se utilizava de
grosseiras lealdades tribais e deturpações ultrajantes dos fatos para excluir aos
junguianos, de forma que pudesse incluir a todos e livrar a própria cara! Em 1988
ele teve mesmo a coragem de dizer a seus colegas psicanalistas, que não haviam
chorado apropriadamente um homem que morrera em 1939.

Se não houvéssemos feito luto adequado por Jung, estaríamos deprimidos. E


realmente acho que exista uma depressão no mundo junguiano de hoje que torna
difícil valorizar-nos suficientemente para abrirmo-nos a outros psicoterapêutas e
intelectuais em geral. O que significaria estar de luto por Jung? Significaria pôr-se
além de uma divisão idealização-depreciação em relação a ele, uma divisão que
sinto contaminar algo de nossos pensamentos e, certamente, de nossas práticas.

Tornando bastante boas a teoria e a prática jungiana

Aqui, minha investigação diz respeito a se temos lidado, ou não, tão bem quanto
deveríamos com os problemas notórios de Jung: elitismo, discriminação sexual,
racismo e anti-semitismo – não em termos da pessoa de Jung, mas em termos de
nós, analistas junguianos, com nossas próprias responsabilidades. Não o
problema dele, mas o nosso. Em minha opinião a resposta é "sim e não". A coisas
estão avançando; existe um espírito crítico revisionista por toda parte. Deixem-me
dar um exemplo do meu próprio trabalho. Comecei a escrever sobre Jung e seu
anti-semitismo em 1988. Isso quase custou minha conexão emocional com o
movimento junguiano pelo mundo afora. De início as pessoas ficaram muito
agitadas com o que eu tivesse a dizer. Pode bem ser que um tanto disso tenha sido
por falhas de estilo ou de tato de minha parte, mas parecia realmente que eu havia
cometido uma séria traição. (Este material pode ser encontrado nos capítulos 12 e
13 de A Psique Política, 1993a.) Quase dez anos depois, é extraordinária a
mudança de reação. Não apenas as pessoas de fora do mundo junguiano olham-
nos com mais simpatia (pois não se deu apenas comigo) por termos abordado essa
questão; dentro da comunidade jungiana há sinais de gratidão e aprovação por
termos mexido, particularmente, nesta casa de marimbondos. Como sabemos,
enfrentar a sombra costuma trazer resultados produtivos.

Deixem-me fazer uma rápida colocação. É o bastante dizer, quando olhamos o


racismo de Jung, a discriminação sexual, o anti-semitismo e assim por diante, "Ora,
ele era apenas um homem de seu tempo". O problema aí, especialmente com
relação ao anti-semitismo, é que ele não era. Existe um amplo e acrimonioso
debate sobre o que ele dizia e fazia na época a respeito dos judeus e dos alemães.
Em 1936, quando se propôs conferir-lhe um título honorário em Harvard, foi um
verdadeiro pandemônio. Henry Murray defendeu-o. Gordon Allport, outro grande
psicólogo, atacou-o. Portanto não era como se Jung não tivesse podido fazer nada
de diferente. As pessoas daquele tempo sabiam que ele tinha várias opções diante
de si.

Jung na universidade

Se existe um ambiente onde vejo uma esperança clara de sobrevivência para a


psicologia analítica pós-jungiana, ele se encontra nas universidades.
Testemunhamos, atualmente, um crescimento substancial do interesse acadêmico
por estudos junguianos e pós-junguianos em muitos países.

Existem muitas possibilidades. Uma delas diz respeito ao resultado dos estudos e
das abordagens quantitativas ou qualitativas com relação à questões de eficácia
clínica. A maioria dos centros de estudo de psicologia profunda, como
presentemente constituídos e com os recursos de que dispõem, não poderiam
tomar a seu cargo os esforços necessários. Contudo, reparo nas propostas e
boletins publicados por pesquisadores de psicoterapia, ao fazer um estudo crítico e
comparativo de seus vários protocolos ou declarações de intenção, numa
interessante perspectiva. Podemos explorar de um ponto de vista de meta-pesquisa
algumas das pressuposições clínicas (que, como Jung insinuou, são, usualmente,
imagens de um certo tipo) que sustentam os projetos de pesquisa. Colocar a
desnudo essas pressuposições é de interesse, não apenas em si mesmo, mas
também em termos do estabelecimento de séries de estudo que terão conseqüência
quanto à eficácia da psicoterapia analítica de longo prazo. Em geral concorda-se
que tais estudos estão insuficientemente representados na literatura.

A segunda linha de investigação em pesquisa clínica tem relação com a pesquisa


dentro do processo clínico. Seria de interesse, principal mas não exclusivamente,
para os clínicos e enfocaria, por exemplo, como é que os profissionais empregam os
conceitos teóricos que possuem, ou como respostas a tipos específicos de material
com que se vêem confrontados pelos pacientes, são conduzidas de várias formas
pelos diversos profissionais, com base na orientação teórica e nas variáveis
pessoais (por exemplo, o substrato étnico e sexual do profissional e do paciente).

Uma terceira via de pesquisa possível diria respeito (em termos gerais) a questões
práticas globais, tais como se seria recomendável e desejável por parte do
profissional, explicar ou descrever para o paciente a provável natureza, evolução e
progresso do processo que está empreendendo. A psicanálise, classicamente, tem
estado relutante em oferecer explicações para os paciente quanto aos princípios e
prognósticos terapêuticos, por muitas e irrefutáveis razões. Quando propus
(Samuels 1993b) que os clínicos pudessem levar em consideração uma verificação
controlada, na qual se empregaria ou não procedimentos explanatórios iniciais,
houve uma manifestação de interesse. A possível utilidade de tal pesquisa residiria,
também, na criação de caminhos confiáveis e claros de informar ao público em
geral (não apenas aos pacientes) sobre o alcance e a experiência dos tratamentos
psicoterápicos.

Afirma-se que a pesquisa em áreas "difíceis", tais como a análise e a psicoterapia,


está entrando numa nova era. Em seguida à pesquisa quantitativa e qualitativa,
chegamos agora ao estágio de "pesquisa colaborativa". Esta subentende o (mas
não se restringe ao) envolvimento de pacientes na pesquisa, a cada ponto e a cada
nível. A pesquisa empírica feminista e a pesquisa histórica oral podem também
inspirar um projeto semelhante, o que seria congruente com as tradições dialéticas
e dialógicas da análise jungiana.

Muitas das idéias centrais de Jung sofreram revisões extensas no curso de trabalho
de sua vida. Contudo, porque ele estava menos interessado que Freud em
sistematizar seu pensamento, fica difícil destrinchar, por exemplo, a evolução
histórica da teoria dos arquétipos. As Obras Completas de C. G. Jung apresentam
com freqüência textos importantes de maneira a tornar uma leitura
histórico/variorum muito difícil. Por isso na universidade, ao contrário do contexto
clínico, poder-se-ia enfatizar os elementos mutáveis e históricos dentro da análise
das teorias de Jung. O ensino de psicologia analítica deveria incluir comparações
com teorizações análogas em todos os tipos de psicanálise (kleiniana, relações
objetais, psicologia do Self, lacaniana e pós-lacaniana, laplanchiana, etc.) assim
como com abordagens humanísticas e existenciais. Além disso, há uma teoria de
grupo esquecida nos escritos de Jung que pode ser recuperada e avaliada em
comparação com abordagens psicanalíticas de processos de grupo. Em muitos
centros de estudos psicanalíticos, grande quantidade das pesquisas são históricas,
fato que atua como salutar inibição sobre quaisquer alegações que a psicanálise
possa fazer de natureza universalística e totalizante.

Dentre as aplicações da psicologia analítica noutros campos, podemos incluir as


explorações de possíveis interseções da psicologia analítica com a teoria social e
política, com a aplicabilidade geral da contribuição psicanalítica ao estudo dos
processos e instituições políticas. Estou interessado, por exemplo, na crítica
multidisciplinar dos modelos existentes de liderança e cidadania; também, na
investigação de se se podemos, ou não, falar justificadamente em termos de uma
psicologia das relações sociais, assim como de uma psicologia fundada em noções
de carência, ruptura e castração. Ainda há que se trabalhar nos aspectos sociais do
conceito de Jung do "inconsciente psicóide".

Assim, a psicologia analítica pode também contribuir à crítica literária e à história


da arte. Da mesma forma, a psicologia analítica pode contribuir para estudos sobre
os gêneros, estudos culturais e estudos sobre lésbicas e gays. Embora se conteste,
hoje em dia, a teoria de animus e anima, há um crescente interesse acadêmico em
como se explorar as imagens de homens e mulheres mantidas por homens e
mulheres, tomando-as como indicadores de medos e fantasias atuais. Na psicologia
analítica pós-jungiana existe uma boa dose de trabalho sobre teorias da construção
de gênero e diferença sexual, ao passo que a rejeição, por parte de Jung, da idéia
de que a orientação sexual homossexual seja pervertida ou patológica em si
mesma, fornece uma base bastante útil para uma contribuição ao estudo de
sexualidades dissidentes.

Muitos analistas junguianos têm tido esperança em estender a psicologia analítica


até uma explicação do fenômeno social de etnia e "raça". Preciso admitir que tenho
algumas dúvidas a esse respeito. Em lugar disso, eu rearticularia esta questão em
termos de uma consideração do papel dos discursos universalizantes dentro da
psicologia analítica e da psicanálise, na prevenção da formação de abordagens
transculturais à psicologia e à psicoterapia.

Tradicionalmente, a psicologia analítica têm sido de interesse para acadêmicos


trabalhando no campo dos estudos religiosos. Minha experiência em várias
universidades foi a de que é aí que se tem uma boa chance de encontrar leituras
cuidadosas e críticas dos textos de Jung.

Outras possibilidades de trabalho colaborativo e multidisciplinar nas aplicações da


psicologia analítica podem dar-se na filosofia, no direito na antropologia e na
psicologia. No que concerne à psicologia, minha experiência tem sido de que ainda
existe interesse no papel de Jung como aquele que deu origem ao Teste de
Associação de Palavras e à teoria dos tipos psicológicos, como também sua
influência sobre Henry Murray na evolução dos Testes de Apercepção Temática e
sobre os testes projetivos em geral.

Uma carta de intenções jungiana

Como tantas outras cartas de intenções, a minha tem dez itens. Se pareço estar
colocando uma veia um tanto polêmica e propagandística, é proposital. Minha
intenção é mesmo a de colocar uma carga energética.
1 Os pós-junguianos deveriam ser os porta-vozes do elo que existe entre os
mundos interior e exterior, especialmente em relação ao que parecem questões do
mundo exterior, tais como problemas sociais e políticos. Deveríamos nos apoiar no
ótimo impulso dado pela psicologia jungiana em engajar-se com questões
prementes do mundo atual. Michael Vannoy Adams, em seu livro sobre a
racialidade do inconsciente intitulado The Multicultural Imagination (1996), é um
bom exemplo.

2 A premente questão atual de multiculturalismo versus monoculturalismo universal


absorve virtualmente a atenção de todas as democracias ocidentais. Nossas idéias
aqui possuem enorme relevância; estamos em boa posição para desenvolver o que
chamo de uma "psicologia suficientemente universal". A generalização judiciosa
abre espaço para a diversidade e a diferença individuais. Precisamos tentar evitar
nossa tendência de predefinir as experiências culturais das pessoas: judeus são ...;
alemães são ...; homossexuais são ...; freudianos são ... Em lugar disso, podíamos
tentar falar sobre aexperiência de ser um judeu, um alemão, um homossexual, um
freudiano. Será que podemos estar focados na experiência, ao invés de na
definição? Temos também de aprender a não fazê-lo em termos complementários,
de forma que fiquem judeu e alemão, homem e mulher, heterossexual e
homossexual, junguiano e freudiano, todos divididos entre os dois lados por uma
linha imaginária, e venhamos ter essas suspeitosas oposições binomiais tão
certinhas. A complementaridade e a predefinição não vão ajudar no debate do
multiculturalismo.

3 Há uma desilusão geral, em diferentes níveis de teoria, com a noção de um Si-


Mesmo autônomo, desconectado, separado. Há uma crítica feminista de que este
Sim-Mesmo esteja enraizado na patologia masculina e não tenha nada que ver com
a saúde feminina. Mas há igualmente uma importante crítica política. Os Si-Mesmos
humanos não precisam se esforçar para conectarem-se uns com os outros. Eles
têm potencial para estarem num estado primário de conexão, do qual as
sociedades capitalistas patriarcais muito suspeitam, porque esse estado de conexão
primária é a mais importante base da imaginação radical, a qual, com toda razão,
assusta os donos do capital e do poder. Acho que a psicologia jungiana pode
tornar-se uma psicologia transpessoal socializada, reconhecendo que o espiritual e
o social são dois lados da mesma moeda, um novo tipo de nível psicóide do
inconsciente. Charles Péguy, o teólogo francês do século dezenove, disse: "Tudo
começa no misticismo, mas termina na política."

4 Deveríamos juntar-nos à celebração da grande mudança cultural em nossa


compreensão de que consiste o conhecimento. Às vezes, embora eu não goste do
termo, fala-se disso como a "feminização" da ciência, ou a feminização do
conhecimento. A divisão sujeito-objeto, como base do paradigma científico, tem
sido questionada cada vez mais. Acho que não só a psicologia jungiana, mas a
psicoterapia em geral, é um caminho epistemológico de conhecimento que não
depende desta divisão sujeito-objeto. Portanto, não estamos unicamente aptos a
nos unir ao movimento que vem acontecendo nas universidades e na sociedade em
geral, podemos liderá-lo, pois nosso próprio trabalho sempre dependeu de ir além
da divisão convencional sujeito-objeto da ciência cartesiana clássica.

5 "O trabalho multidisciplinar é bom para a alma." Os junguianos talvez devessem


se retirar do que chamo de "síndrome do amador expert". Um escritor junguiano
conhece um bocado a respeito de uma tribo obscura, ou de um conto de fadas em
particular, ou de um mitologema específico, ou da física sub-atômica, e parece ser,
no mundo junguiano, uma grande autoridade no assunto. Mas quando você
realmente sai e encontra acadêmicos que estão dentro dos contos de fadas, ou
daquela tribo em especial, ou daquele mito particular, ou da mitologia em geral, ou
da física, o que eles têm a dizer sobre o nível ou o tipo de conhecimento e
sofisticação demonstrado pelo junguiano é deveras arrasador. Eu tive essa
experiência com relação ao meu trabalho em política. O que eu gostaria que
fizéssemos, seria criar parcerias multidisciplinares com pessoas de outras
disciplinas, de maneira que pudéssemos contribuir com nossa "parcela" psicológica.
Em meu próprio trabalho, nos campos social e político, minha imagem de fantasia é
a de um spectrum de experts disponível para todo grupo que faz política ou político
que tenta maquinar uma política. Num extremo do spectrum encontraremos um
estatístico ou um economista, ou alguém do tipo. No outro extremo teríamos um
psicólogo da psicologia profunda, ou um terapeuta – um dentre muitos
especialismos engajado na produção de novas idéias.

6 Acho que a psicologia jungiana poderia desenvolver mais sua famosa percepção
moral da realidade do mal, mas não de um modo fundamentalista. Quando duas
crianças de 10 anos jogam uma de 5 pela janela, para citar um caso, pensamos
freqüentemente na realidade do mal. Será que poderíamos utilizar a noção do mal
como uma realidade de forma sóbria, séria, investigativa, ao lado de observações
psiquiátricas e sociológicas? Acho que isso é algo em que devíamos estar pensando
em fazer.

7 Deveríamos valorizar nossa excelência clínica. A análise jungiana hoje combina


rigor com visão, respeito pelas aspirações do paciente e uma procura de
significado. Desde que o façamos sem prejudicar ninguém em termos de sexo,
classe social, religião, fatores raciais ou étnicos, ou questões de diversidade e
orientação sexual, acho que a análise jungiana é, com certeza, boa o bastante.

8 Deveríamos "sujar" nossas mãos envolvendo-nos em política profissional, local,


nacional e internacionalmente. Vamos parar de reclamar do sucesso das
campanhas de truques sujos de outros grupos de psicoterapêutas e psicólogos e
montar nossa própria.

9 Está na hora de parar de se queixar dos ataques à psicoterapia, seja pela crise no
gerenciamento dos planos de saúde nos Estados Unidos, ou o assalto furioso da
mídia na Grã Bretanha. O caso dos planos de saúde, em que as empresas
seguradoras recusaram-se a pagar por psicoterapias de longo prazo é, em certo
sentido, um desastre. Mas, é também uma ótima oportunidade para os analistas
junguianos da América, redefinirem suas identidades profissionais e, além disso, no
meu ponto de vista, fazer algo que será bom para suas almas. O preço das
consultas nos Estados Unidos ficou muito alto; daí a receita de alguns analistas
ficou muito grande. Este não é um problema só dos junguianos, é um problema
psicanalítico. Ele tem a ver com o fato de que a auto-imagem profissional dos
psicoterapêutas está vinculada à auto-imagem profissional, e conseqüentemente às
expectativas de rendimento, dos ginecologistas, oftalmologistas, cirurgiões e
outros. Será mesmo este o lugar que ocupam os analistas em termos de cultura e
sociedade? Não seria de fato mais saudável, útil e acurado dizer que caminhamos
lado a lado com os conselheiros pastorais, ministros da igreja, assistentes sociais,
acadêmicos e assim por diante? Acho que se se houvesse redução dos honorários,
as pessoas nos Estados Unidos continuariam a procurar terapias jungianas e
mesmo outras formas de terapia profunda, a despeito do fato de suas contas não
estarem sendo pagas – ou pelo menos não em proporção significativa – pelos
planos de saúde. Eu diria também, que deveríamos fazer mais do que
simplesmente reduzir os honorários. Precisamos pensar em termos de uma ação
afirmativa para a análise jungiana, devido aos custos enormes de treinamento e da
impressão de eurocentrismo que a análise jungiana passa para os pacientes.

10 Tenho a esperança de que os pós-junguianos estarão abertos à crítica dos


outros, mas também gostaria de que nos orgulhássemos quando esse for o caso.
Gostaria de sugerir que pensássemos em caminhos onde o mundo junguiano em
geral – analistas, futuros analistas, psicoterapeutas que não são analistas, e o que
se refere como público leigo – pudesse relaxar e desfrutar mais uns dos outros.
Eros poderia ser trazido para nossas instituições, onde quer que fosse possível, sem
nos esquecermos ou negarmos que a tendência humana para a competição é algo
de incorrigível.

Empacotando Jung

Mencionei, anteriormente, meu pequeno experimento de associação com


estudantes universitários em reação à palavra "Jung". Como conclusão deste
capítulo, quero relatar minha abordagem ao estudo daqueles temas que figuraram
tão proeminentemente nas repostas à minha solicitação por associações a "Jung".
Quanto ao relacionamento com Freud e seus resultados, procurei mostrar (1) que
havia um Jung pré-freudiano ou não-freudiano (por exemplo, podemos vê-lo em
suas Conferências de Zofingia de 1895); e (2) que há um fenômeno impressionante
de se observar, no qual a psicanálise se apodera e torna consensual muitas idéias e
práticas que eram controversas quando pela primeira vez foram introduzidas e
teorizadas por Jung. Eu não o faço no intuito de mostrar Jung como se fora um
"gênio" profético. A estrutura intelectual básica foi um estudo do modo pelo qual,
dentro de uma profissão, idéias e práticas são separadas em hierarquias com base
em filiações e envolvendo questões de poder e liderança/discipulado. Em outras
palavras, a proposição de que a psicanálise adotou um elenco "junguiano" sempre
crescente, é apresentada em termos da história das idéias, mais do que um "bom
resultado" para os junguianos. Considero a competição, a inveja e a distorção de
pontos de vista antagônicos como os motores da produção intelectual dentro do
campo da psicologia profunda.

Quanto às alegações de anti-semitismo e nazismo, fiz um estudo extenso desta


questão como um todo, envolvendo muitas publicações que apresentam novas
evidências e material histórico (Samuels, 1993a). Em resumo, acredito que os
críticos de Jung estão certos em pedir aos psicólogos analíticos atuais que explorem
esta parte específica da história de sua profissão. Concluo que, ao fazê-lo, a
psicologia analítica poderá, não apenas, restabelecer suas credenciais éticas, mas
que há muita coisa que Jung esteve experimentando, com resultados desastrosos
em seu caso pessoal, no estudo psicológico do nacionalismo, na psicologia nacional
e na psicologia cultural, que poderia formar parte de uma abordagem atual dessas
questões. Se bem que existam diferenças importantes, também acho que os fatos
estabelecidos por filósofos e historiadores quanto à necessidade de se continuar a
estudar os textos de Heidegger (tanto no contexto de sua filiação ao nazismo
quanto, digamos, relativamente independente desse contexto) aplica-se à
psicologia analítica e aos estudos sobre Jung. Em ambos os casos, uma tarefa seria
a de examinar até que grau o envolvimento nos eventos sociais dos anos 30,
influenciou o pensamento destes dois homens.

Quanto à noção de que Jung fosse um "místico" ou adepto de algum caminho


"oculto" (ou mesmo, como se argumentou recentemente, que tenha iniciado um
"culto"), e como dei a entender neste capítulo, minha tendência é abordar essa
noção do ponto de vista das atitudes mutáveis para a epistemologia e apoiá-la com
interpretações coligidas da história da ciência. A abordagem de Jung da psicologia
desafiou a linha divisória observador/observado e colocou em primeiro plano a
"subjetividade" no processo de pesquisa. Não o vejo como o empirista que alegava
ser, antes vejo-o promover uma análise sistemática, ou auto-análise pelo
observador, de suas reações aos fenômenos que vivencia no mundo da experiência.
A teorização clínica atual sobre a contra-transferência do analista estende
amplamente o estudo "científico" de Jung da subjetividade, conduzindo ao possível
emprego de uma tal abordagem em relação à temáticas políticas e sociais (cf.
Samuels 1993a: 24-50)

Outra reação problemática quanto ao "Jung como místico", foi a de pesquisar


porque a simples idéia provoca reações tão fortemente negativas (salvo, talvez,
dentro de departamentos de estudos religiosos). Pode-se ver que o mundo secular
não abandonou completamente a receptividade religiosa que observamos emergir
no ocidente e, mais além, nas formas (amplamente diversas) dos
fundamentalismos religiosos de um lado, e do fenômeno "Nova Era" do outro.
Espiritualidade parece ser o que muitos estudantes desejam estudar, e confesso
ainda não ter desenvolvido uma resposta completa ao problema de como tratar isso
do ponto de vista da psicologia analítica pós-junguiana.

Talvez esta seja uma nota condizente para terminar o capítulo: uma nota de
desconcerto, da parte de alguém que, a despeito do pensar rigoroso e do
sentimento apaixonado com que tomou parte no projeto pós-junguiano, ainda não
consegue tornar claro o que sua relação com Jung tem sido, será ou deveria ser.

Referências

Brown, J. Freud and the Post-Jungians. Harmondsworth, Penguin,1961.

Casement, A. Artigo sobre Samuels, A., Jung and the Post-Jungians. "The
Economist", April, 1985.

Goodheart, W. C. G. Jung's First "Patient": On the Seminal Emergence of Jung's


Thought. "Journal of Analytical Psychology", 1984.

Jung, C. G. The Zofingia Lectures. Collected Works. Supplementary Volume A.

McGuire, W. (ed.), London, Routledge & Kegan Paul, 1895; Princeton, NJ, Princeton
University Press.

Jung, C. G. The Content of the Psychoses. Collected Works, vol. 3. Londres,


Routledge & Kegan Paul, 1908; Princeton, NJ, Princeton University Press, 1960.

Jung, C.G. The Tavistock Lectures. Collected Works, vol. 18. London, Routledge &
Kegan Paul, 1935; Princeton, NJ, Princeton University Press, 1977.

Jung, C. G. On the Nature of the Psyche. Collected Works, vol. 8. London,


Routledge & Kegan Paul, 1935; Princeton, NJ, Princeton University Press, 1960.

Mitchel, S. and Black, M. Freud and Beyond: A History of Modern Psychoanalytic


Thought. New York, Basic Books, 1995.

Noll, R. The Jung Cult: Origins of a Charismatic Movement. Princeton, NJ, Princeton
University Press, 1994.

Samuels, A. Jung and the Post-Jungians. London and Boston, Routledge & Kegan
Paul, 1985.

Samuels, A. The Political Psyche. London and New York, Routledge, 1993a.
Samuels, A. Some Reflections on NHS Psychotherapy. "Free Associations", nº 39,
1993b.

Shamdasani, S. A Woman Called Frank. "Spring", 50, 1990.

Shamdasani, S. Memories, Dreams, Omissions. "Spring, 57, 1995.

Vannoy Adams, M. The Multicultural Imagination: "Race", Color and the


Unconscious. London and New York, Routledge, 1996.

Wallerstein, R. One Psychoanalysis or Many? "International Journal of Psycho-


Analysis", 69:1, 1988.

TRADUÇÃO: ANDRÉ ZANETTI

O ENCONTRO DE DOIS MUNDOS

Iza G. C. Chain
Este texto corresponde ao capítulo 2 da dissertação de mestrado intitulada "O Diabo nos Porões
das Caravelas: Mentalidades, colonialismo e reflexos na constituição da religiosidade brasileira nos séculos XVI e XVII."
Visite a seção Teses para obter outras informações.

2.1 Empreendimentos de Além - Mar e Mentalidades

Processo que teve seus contornos mais definidos a partir do século XV e que atravessou os
umbrais da Idade Moderna para engendrar importantes transformações sócio-político-
econômico-culturais como também para se configurar em um dos maiores feitos da História , as
Descobertas Ultramarinas revelaram aos olhos estupefatos dos navegadores europeus do
período quinhentista -- estupefação que perdurou pelos séculos subsequentes -- as terras e
humanidades ignotas ao sul do Equador , porção do planeta também chamada àquele
momento de " Mundo Austral " .

Dado característico deste movimento de expansão ultramarina, o acentuado interesse na


existência de populações e locais que até então se ocultavam ao conhecimento euro -
ocidental não se restringiu, no entanto, aos primeiros momentos das Grandes Navegações .
Desde a Antiguidade, partes desconhecidas do Globo e povos insólitos geravam inúmeras
especulações, dentro das quais podemos ressaltar as maravilhosas Ilhas de Ogígia e a Ilha
dos Feáceos na " Odisséia " de Homero , os hiperbóreos ( humanidades do Pólo Norte ) e os
hipernotos ( humanidades do Pólo Sul ) nos tratados de Heródoto, as Ilhas Afortunadas na
" Olímpica " de Píndaro e a massa continental denominada Antictônia pelo gramático Crates de
Mallos ,1 só para citarmos alguns exemplos.

A travessia do grande mare oceanu innavigabile que descortinou para as civilizações européias
que se lançaram ao mar as terras e humanidades encontradas abaixo da linha equatorial
realizou-se, certamente, na concorrência de uma pluralidade de fatores que , ora se
completavam sincronicamente , ora se tornavam inconciliáveis. Dentre eles podemos ressaltar
o crescimento mercantil e econômico, os progressos técnico-navais notórios, a demanda
crescente de metais preciosos e das especiarias de gênero alimentício, especiarias estas que
tiveram seus preços elevados com a tomada de Constantinpla pelos turcos, o fortalecimento
político das Coroas peninsulares, o fim da Reconquista contra os mouros pela Coroa de
Castela, uma reapropriação dos relatos -- elaborados desde a Idade Média -- de viagens a
países fantásticos, uma expansão significativa do gênero literário épico-narrativo, a majoração
da temática do maravilhoso e uma presunção de superioridade religiosa e moral da civilização
euro - cristã. 2 Concomitantemente, tínhamos um empreendimento ancorado em
conhecimentos geográficos e cartográficos bastante rudimentares, meios de comunicação
francamente deficientes 3 — eficientes para sermos otimistas, mas na verdade eram quase
inexistentes -- e em um patrimônio imaginário 4 totalmente ébrio de medievalidade no qual
figurava a presença de impérios formidáveis , fortunas inauditas, reinos prodigiosos, seres
anômalos, demônios abomináveis , monstros pavorosos e paraísos fantásticos , 5 patrimônio
que , por sua vez , esforçava - se por descrever mundos dessemelhantes, não enfatizando,
contudo , sua realidade ou irrealidade. Neste ponto, mais uma vez , nos deparamos com as
ambiguidades e situações incôngruas que se fizeram presentes no alvorecer do Mmundo
Mmoderno , haja visto que acontecimentos de cunho marcadamente moderno alimentavam-se
de componentes essencialmente medievais.

Para investigarmos as inúmeras correlações entre a empresa ultramarina, o contato com povos
desconhecidos e a configuração das mentalidades daqueles que realizaram tais feitos , não
podemos nos furtar a tecer algumas considerações rápidas , porém necessárias, ao
reconhecimento do campo semântico de um maravilhoso que foi sendo construído e articulado
desde o período medieval , já que este foi , sem dúvida , ingrediente fundamental na façanha
dos Descobrimentos , chegando mesmo os seus idealizadores e realizadores a serem
denominados -- com perspicácia invejável -- de " Viajantes do Maravilhoso ". 6

Seguindo as pistas deixadas por Jacques LE GOFF, percebemos que não poderíamos nos
referir ao maravilhoso do Ocidente medieval -- do qual o imaginário dos séculos XVI e XVII se
alimentou -- com o nosso instrumental intelectual de hoje , ou seja , definindo-o como um
princípio estruturante de uma categoria, mas deveríamos lê-lo como os homens do Medievo o
fizeram : uma coleção, um universo de situações e objetos aptos a suscitarem admiração ,
temerosa estupefação , " [ ... ] coisas perante as quais se arregalam os olhos ... "
. 7 Mirabilis, mirabilia ( maravilhoso, maravilha ) no seu sentido mais estrito.

Como outros elementos de uma cultura, o maravilhoso também faz parte de um patrimônio
hereditário e , mesmo que cada sociedade , em cada momento, possa criar um maravilhoso
específico, este se alimenta sempre de um maravilhoso anterior com o qual não pode evitar o
confronto. Uma "hereditariedade" 8 continuada , que pode ser aceita , modificada e até mesmo
recusada, mas sempre significando, de qualquer forma, tomada de posições tanto individuais
quanto coletivas. Esta herança vai , progressivamente, assumindo várias funções dentro de
uma sociedade sem , contudo, quase nunca, abdicar de contaminações anteriores.

O maravilhoso, ilustrado nos vários elementos que o compõem , tem a capacidade de se


movimentar fluidamente entre a realidade e a irrealidade, apropriando-se de ambas para
engendrar mundos miríficos, corroborados pelo desconhecimento daquilo que se tenta
construir. 9 De um modo geral, a produção do maravilhoso se apóia tanto nos mistérios do
vislumbrado quanto no desejo imaginário de fecundar algo diferente.10 Cada formulação
histórica do mirífico assume, via de regra , formas específicas e desempenha tarefa importante
no contexto ao qual se articula e se integra.

Seria de grande utilidade para as considerações às quais nos propusemos , precisar alguns
princípios que caracterizam o maravilhoso. 11 São eles : estar sujeito a mutações e hibridações
contínuas, situar-se fora do que é considerado familiar , ter como zonas privilegiadas os
espaços geográficos desconhecidos , unir antigos modelos com traços inovadores e deslocá-
los territorialmente, magnificar aquilo que é vislumbrado e tocado através de excessos com
consequente empobrecimento da alteridade , adquirir forma em função do sujeito que alcança ,
revelar mais sobre a ideologia que o está engendrando e consumindo do que sobre a realidade
que declara contactar, expressar-se como ausência de intimidade, distinguir o diverso e ser
inesgotável enquanto instrumento de representação.

Logo, tudo aquilo que conseguisse maravilhar , dando a certeza de estarmos diante do
extraordinário e do incomum , foi utilizado -- no caso do encontro europeu com outras
civilizações -- para expressar um critério de diferenciação cultural entre valores referenciais
distintos, a princípio não aproximáveis. O maravilhoso poderia , assim , ser desencadeado pelo
ingresso de uma "estranheza" mais ou menos acentuada em um contexto habitual 12e , ao
mesmo tempo, se constituiria em uma ferramenta de incrível utilidade para o resgate de
contextos ignotos à familiaridade.13 Dentro deste quadro, -- necessidade de identificar ,
aproximar , nomear e classificar -- a travessia de oceanos desconhecidos com a consequente
descoberta de mundos e seres humanos insuspeitados pôde revigorar nos homens dos
Descobrimentos toda a carga de um maravilhoso que já havia sido gestado em tempos
anteriores, impelindo-os , através deste mesmo maravilhoso , a buscarem referências em
contextos " tranquilizadores " , mesmo que irreais. 14

Vejamos, um pouco mais de perto , então , a "bagagem" , isto é , o patrimônio mental herdado
do Medievo, do qual vários quesitos , inclusive com a evidência do quesito diabólico ,
confluíram para a elaboração e constituição do patrimônio mental dos homens que realizaram a
expansão civilizatória da Europa Ocidental a partir do final do século XV , contexto este
bastante conturbado e que produziu fortes abalos nas possibilidades e formas de percepção e
relacionamento daqueles homens com a multiplicidade de realidades que surgiam , com a
heterogeneidade cultural que se impunha à homogeneidade humana.

Na Idade Média, as representações cosmográficas que tentavam ordenar a Terra e o Universo


retratavam , inegavelmente , as tradições bíblicas e os ensinamentos dos Santos Padres da
Igreja. O mundo e seus elementos se articulavam numa escala de valores que lhes atribuía
posições tanto materiais quanto espirituais. Todos aqueles elementos eram percebidos como
produto de um ato criativo do Deus soberano, espelhando a mais perfeita ordem daquela
Criação. 15 A perfeição da ordem terrestre, reflexo de atos divinamente ordenados, reservava ,
porém, inúmeras surpresas a todos os que decidissem investigá-la.

No arcabouço mental do Medievo , todo enigma que não pudesse ser decifrado dentro dos
limites da Ratio Christiana era tomado como subvertor dos planos divinos , encarado como
antítese radical , como mistério assustador , como monstruosidade . Aliás, para o medievalista
Claude KAPPLER , o monstro constitui-se num dado do qual não pode se esquivar aquele que
pretende fazer uma leitura do imaginário medieval e o seu legado para os séculos posteriores
, 16 estando presente nos grandes tratados sobre o mundo natural , nas grandes obras
literárias, nas narrativas de viagens e na urdidura das experiências cotidianas daquele período.

Uma das principais características do Cosmos no decorrer da Idade Média assentava-se na


gradação dos valores no espaço, isto é, conceitos positivos ou negativos relacionados,
respectivamente , ao alto e ao baixo , ao superior e ao inferior. 17 Dentro deste assunto, é o
historiador Carlo GINZBURG que não nos deixa esquecer que a realidade, apreendida pela
linguagem e pensamento humanos, regula-se por categorias substancialmente antitéticas, não
havendo pares de opostos tão universalmente aceitos como os de alto e baixo. Em todas as
sociedades conhecidas e analisadas pelas ciências histórica, sociológica, psicológica e
antropológica é intenso o valor cultural atribuído a essa contraposição do espaço. 18 Tratadistas
medievais ancorados em pressupostos aristotélicos que preconizavam a oposição entre os
céus incorruptíveis e o mundo sublunar, isto é , terreno, afirmavam que a parte habitável da
Terra deveria ser a sua mais luminosa fachada , aquela que estaria voltada para a " dianteira
do céu " . A hipótese preferida por tais tratadistas e cosmógrafos , com base na valoração das
posições, era a de que a parte de cima configurava-se em espaço nobre e correto, sendo o
hemisfério inferior parte impossível de ser habitada, estragada e corrompida pelo " monstro dos
monstros " : Satã ! 19

Na verdade, as regiões abaixo da linha equatorial suscitavam inúmeros questionamentos,


sendo assunto muitíssimo delicado para os tratados cosmográficos e cartográficos medievais.
Às teorias disponíveis naquele momento impunham-se problemas que , à primeira vista ,
pareciam insolúveis. Seria o hemisfério sul povoado ? E se fosse, tratar-se-ia de seres
humanos? A "zona tórrida" com suas águas ferventes seria transponível ou seria o fim da
viagem ao " caldeirão infernal " ? Estes eram alguns dos mais controvertidos questionamentos
de então. 20

Outra questão que se fazia presente nas elucubrações dos homens do período medieval --
principalmente ao nível erudito, mas também encontrada na esfera popular -- era a
irremediável separação entre os hemisférios e as funestas consequências teológicas daí
advindas . Tomando por base o livro 16, capítulo IX da " Cidade de Deus " de Santo
Agostinho 21 , texto do qual os autores medievais não se afastavam, insistia-se na idéia de que
a Palavra do Senhor havia sido pregada em todos os recantos do mundo pelos apóstolos e
outros mártires da Era Cristã. Ora , se a "zona tórrida" ainda não havia sido transposta por
nenhum mortal, -- por mais especial que fosse esta personagem -- a Palavra Sagrada do
Evangelho de Cristo e da Igreja não teria chegado aos eventuais ocupantes do hemisfério
inferior, sendo, portanto , inadmissível a existência de uma humanidade que não fosse
submetida a Roma e que, principalmente , não fosse culpada por não pertencer a tal condição.

A argumentação teológica neste caso era peremptória: o mundo estava dividido entre cristãos
e infiéis , não havendo , em hipótese alguma , espaço para outra categoria de não - cristãos ,
isto é , para aqueles que não merecessem ser punidos por seu paganismo ou que, até mesmo,
desconhecessem a sua condição de pagãos. 22 Por conseguinte , seria mais prudente frente às
questões dogmáticas, crer e afirmar categoricamente que o hemisfério inferior encontrava-se
inteiramente recoberto por águas escaldantes onde somente criaturas extraordinárias -- leia-se
não humanas -- poderiam sobreviver. Quem sabe, não estaríamos aqui , presenciando os
primeiros movimentos do mecanismo de desvalorização, desumanização e demonização 23 dos
habitantes de além - mar , vivenciado pelos povos americanos séculos mais tarde ?

Entre o alto sublime e o baixo " fétido ", corrompido , entre os muitos "buracos" que poderiam
levar ao Inferno, entre as maravilhas da porção oriental da Terra e entre as regiões
segregadas, inóspitas e possivelmente subjugadas pelo Anticristo transitava o imaginário
medieval. A estrutura do Globo construía-se , assim , com uma germinação incessante do
maravilhoso , 24 processo que invadia todos os espaços, todo o conhecimento e modelava a
geografia a seu bel - prazer. Este imaginário medieval, graças à mencionada Ratio
Christiana, não só se encarregava da geografia terrestre como também lançava-se à
configuração geográfica dos espaços de além - mundo : o triunfo teológico, dogmático, literário
e popular do Purgatório -- o chamado "terceiro lugar" -- nos séculos XII, XIII e XIV 25 seguido de
perto pela constante preocupação com as características das paragens infernais e
paradisíacas, nos atesta bem isto. Apesar de uma aparente separação entre os assuntos da
geografia deste mundo e a geografia do além, as elucubrações relativas a esta segunda
modalidade, contudo, se interpenetravam , se imiscuiam à realidade sem nehum pudor ou
crítica.

Se houve, por conseguinte, lugares "terrestres" pelos quais as mentalidades medievais


desenvolveram predileção, estes foram as ilhas fabulosas, -- já encontradas no decurso dos
séculos pré-cristãos , como mencionamos anteriormente -- os reinos extraordinários povoados
por seres monstruosos e diabólicos, países miríficos povoados por raças mais evoluídas e o
paraíso adâmico com o seu venturoso jardim edênico. As ilhas, ao contrário de uma porção de
terra continental , eram consideradas um universo fechado, circunscrito em si mesmo, alheio
ao mundo exterior e com códigos próprios. Por excelência, o lugar do arbitário, de uma outra
natureza, locus extremamente propício à ebulição do maravilhoso. 26

Quando os viajantes medievais se depararam com as numerosíssimas e exuberantes ilhas do


Oceano Índico, fizeram-nas fabulosas aos olhos euro-ocidentais, multiplicando-as ad
infinitum por espaços diversos. Em importantes mapas-múndi confeccionados a partir do
século XII, "encaixavam-se" inúmeras ilhas no mar Mediterrâneo e , de acordo com o influxo
fecundo do imaginário, eram dispostas como no formato de um colar de pérolas em oceanos
circulares 27 de maneira quase inteiramente arbitrária.

As ilhas pareciam ser , para os cartógrafos medievais , instrumentos eficazes para representar
e situar terras desconhecidas em mares e oceanos, também em grande parte , desconhecidos.
Elas proliferavam desmedidamente nos documentos cartográficos, chegando-se a enumerar
12.000 ( ! ) ilhas naquelas porções índicas dos oceanos 28 e outros tantos milhares em oceanos
igualmente ignorados.

Dentre a vultuosa proliferação insular nos mapas medievais, tinham lugar de destaque as Ilhas
Afortunadas e a Ilha de São Brandão. As primeiras estavam associadas à tradição poética
greco-romana que situava, para além do gigantesco Atlas, ilhas de vegetação encantadora, de
clima sempre temperado,de brisas perfumadas e onde os homens não tinham necessidade de
trabalhar para sobreviver. Com o amálgama promovido pela Cristandade envolvendo aquela
tradição, doutores da Igreja deram novo ímpeto à crença naquelas ilhas, transformando-as em
lugares abençoados para o descanso dos justos, junção esta que influenciou de maneira
duradoura toda a cultura ocidental.29 Em fins da Idade Média, um cardeal chamado Pierre
d'Ailly assim escrevia sobre as Ilhas Afortunadas em sua obra intitulada Ymago Mundi : " [...]
significam , pelo seu nome, que encerram todos os bens. [...] estão cheias de aves e
arborizadas de palmeiras, nogueiras e pinheiros, encontrando-se ali mel em abundância. As
florestas estão cheias de animais e as águas extravasam de peixes. [...] " 30

Outro motivo que conheceu enorme êxito e perdurou por séculos no imaginário medieval, além
da ilha que levava seu nome, foi o relato da viagem de São Brandão, abade irlandês, morto ao
fim do sexto século de nossa era. O périplo do santo e seus companheiros por entre diversas
ilhas ao norte da Escócia tomou corpo na " Navegação de São Brandão ", um dos relatos de
viagens fantásticas mais famosos da Idade Média, seguido de perto pelas "Voyages" do
cronista Jean ( ou John ) de Mandeville. As venturosas ilhas daquele relato de viagem eram
designadas , sugestivamente, pelos nomes de " Planície do Prazer ", " Terra da Felicidade " e "
Terra dos Bem - Aventurados ". 31 A cartografia medieval deu lugar de destaque a estas ilhas,
inserindo-as, como a tantas outras , nos mais famosos mapas - múndi de então.

Não seria demasiado mencionarmos que existiu , por vezes , -- como demonstra Jean
DELUMEAU -- uma estreita relação entre a Fabulosa Ilha de São Brandão e um outro lugar
lendário denominado Ilha Brazil, Bracile ou Bracir, situado ora no hemisfério norte, ora ao sul.
Sem nenhuma relação com a terra descoberta alguns séculos mais tarde por Pedro Álvares
Cabral, -- terra que só desfrutaria deste nome a partir da segunda metade do século XVI -- o
nome daquele lugar tinha sua origem em um vocábulo irlandês, Hy Bressail, significando " Ilha
Afortunada ". Daí , sua relação com a ilha de São Brandão. 32

Por mais quiméricos e portentosos que fossem todos os lugares fabulosos criados e
alimentados pelo imaginário medieval, estes não se encontravam , como destacamos
anteriormente , inabitados. Uma plêiade de seres anômalos, transfigurados e monstruosos ,
recobertos por vários elementos do maravilhoso , foi elaborada para habitar os confins
desconhecidos do planeta, contribuindo , certamente , para a organização e estruturação do
insólito, do exótico, do incomum, do diferente, enfim , de tudo aquilo que se desviasse da
estrita normalidade de um mundo conhecido. 33

As viagens ao Oriente, ao mundo "além - Mediterrâneo" e a força das narrativas de viagens


que começavam a aproximar as regiões ignotas da realidade ocidental do Medievo,
enriqueciam o vasto campo das maravilhas cultuado pelos homens de então. Dentro deste
quadro feérico , o clímax de uma experiência de viagem era o encontro com as criaturas
monstruosas, chegando mesmo a provocar sentimentos de decepção e de grande frustração
caso não se realizasse a aproximação entre os viajantes e os imaginados seres anômalos.

O encontro com monstros era, assim , o "tempo forte" , a "pedra de toque" de toda viagem ,
chegando mesmo a dar margem à assertiva : "quem não viu monstros, não viajou !
" 34 Evidentemente, não poderíamos apresentar a procura de monstros como o aspecto
determinante das viagens que foram empreendidas para lugares desconhecidos no decorrer da
Idade Média e dos séculos seguintes , mas deveríamos lê-la como uma tentativa --
apresentada, por vezes, em um tom acentuadamente etnocêntrico -- de descrição dos novos
contextos que se descortinavam para o continente europeu.

Mapas - múndi, documentos cartográficos, relatos impressos de viagens, calendários, tratados


teológicos e obras de filosofia natural apresentavam uma catalogação pormenorizada dos mais
variados seres fantásticos, ora humanos, ora animais ou vegetais, ora um misto de todos estes
reinos. Note-se que para as cabeças pensantes da Idade Média e , como veremos adiante,
para as da Renascença , o ponto de vista dominante era o de que todas as criaturas
monstruosas eram obra de Deus 35 e não apenas um exercício fútil da imaginação humana.
Dentre as monstruosidades mais frequentes , eram encontrados os "blêmios" ( monstros sem
cabeça ) , os "panotos" ( seres com hipertrofia das orelhas ) , os "ciópodes" ou "ciápodes" (
seres com um único pé gigantesco que, suspenso, poderia proteger todo o corpo do sol ) , os
"ciclopes" ( seres com um único olho ) , os " duplos " ( duas mãos, dois pés, duas cabeças ,
dois corpos ligados, quatro asas, dois bicos, etc ) , os gigantes em contraposição aos pigmeus
( homens com três palmos de comprimento ) , os anciãos ( homens com 400 ou 500 anos ) , as
galinhas lanosas, a "planta - animal" (grandes melões que, ao amadurecerem , expeliam
pequenos carneirinhos) , gansos que cresciam em árvores, os andróginos , os "híbridos" (
seres que eram metade homem ou mulher e metade animal ) , os "cinocéfalos" ( homens com
cabeça de cão ) , os monstros com corpo de animal e cabeça humana (considerados por
eruditos e populares como sendo o próprio símbolo do mal, a verdadeira encarnação de Satã )
, seres humanos com cabeças de diversos animais , os " peixes-cavalos " , os unicórnios , os
dragões , os antropófagos , as sereias, as amazonas , as "mulheres - serpentes" , as princesas
dragiformes , os homens providos de rabos, os diabos selvagens das grandes florestas e ,
finalmente , os antípodas. 36 Estes últimos, de forma especial, remetiam os viajantes, sábios e
escritores medievais ao grande enigma de como permaneciam ligados ao globo terrestre, já
que como os insetos andavam pelo teto, -- este era o estilo de comparação utilizado para as
humanidades do hemisfério sul -- eles caminhariam sobre o avesso da Terra, de cabeça para
baixo. A hipótese que conquistava o imaginário dos doutos homens e das populações em seu
conjunto , associava poderes magnéticos à retenção dos antípodas ao chão, como o ímã
retinha o ferro.

De meados do século XIII ao fim do século XIV , missionários e mercadores cruzaram as rotas
transasiáticas e perso-siríacas em busca de convertidos e aliados comerciais, até que os
habitantes da região da Tartária aniquilaram os sonhos cristãos de "apropriação" e converteram
-se ao Islamismo, fechando, desta forma, as portas do Oriente para o afã conquistador e
evangelizador do Ocidente. Neste breve episódio de contato com a porção oriental do planeta,
estiveram inscritas as aventuras comerciais do viajante veneziano Marco Polo e as aventuras
ficcionais do cronista Jean de Mandeville que , lembremo-nos, foi um dos relatos de viagens a
lugares fantásticos que mais sucesso conheceu. Mesclando relatos de viagens verídicas -- 143
no caso de Polo -- com relatos imaginários, -- mais de 250 no caso de Mandeville -- 37 as
mentalidades medievais expandiam, reiteravam e consolidavam sem muito esforço o universo
do maravilhoso. Testemunho e ficção, observação pessoal e intercalação fabulosa favoreciam-
se da inexistência de métodos críticos que questionassem a produção de conhecimentos e,
simultaneamente, confundiam-se para criar mundos e personagens inauditos.

Nem só de morbidades, imagens fantasmagóricas e seres diabólicos, na verdade , alimentou-


se o imaginário da Idade Média. As imagens de felicidade, prazer e bem - aventurança -- já
associadas às ilhas, países e outros enclaves fabulosos -- também estiveram retratadas na
busca e curiosidade sem limites acerca do Paraíso Terrestre e seu jardim do Éden. Este tema
seria, aliás, um dos maiores legados deixado ao patrimônio mental das coletividades dos
séculos XVI e XVII, demonstrando de forma inegável a "cumplicidade" entre o imaginário
renascentista e medieval. Nas palavras do historiador Jacques LE GOFF, " [ ... ] a Idade Média
do século XV é um outono exasperado , de modo nenhum morto , pelo contrário: de
extraordinária vitalidade e de tal modo vivo que continuará profundamente e se manterá
presente em pleno século XVI [ ... ] . E do mesmo modo , e inversamente , em pleno século XV
faz-se já pressagiar o século seguinte." 38

Um extenso processo de fusão entre as tradições greco - romanas, o livro hebraico


do Gênesis e os ensinamentos teológicos dos primeiros séculos da Cristandade renderam ao
Ocidente medieval uma longa sequência de escritos sobre o Paraíso e seus venturosos jardins
edênicos. Todos as obras reatualizavam, de geração em geração , o anseio pelo paraíso
perdido e reuniam de forma indissociável as influências bíblicas e pagãs. 39 Apesar do
amálgama de tradições, a maioria dos textos foi , em larga medida , influenciada pelos séculos
da Patrística, onde teólogos e doutores de peso tais como Teófilo de Antioquia, Irineu, Hipólito,
Epifânio e Agostinho de Hipona abordaram de frente a questão da realidade histórica do
Paraíso Terrestre, enfatizando o caráter simultaneamente "corpóreo" e espiritual do mesmo.
Para várias gerações de cristãos ocidentais, as afirmações daqueles doutos homens --
principalmente as de Santo Agostinho -- constituíram declarações infalíveis e foram
instrumentos decisivos para moldar as convicções coletivas no sentido da literalidade do locus
amoenus no qual habitaram nossos primeiros pais.

No decurso dos séculos posteriores, outras grandes autoridades intelectuais e dignatários


eclesiásticos opinaram no mesmo sentido , qual seja , o do realismo em relação à existência
das paragens paradisíacas. O erudito anglo- saxão Beda, cognominado o Venerável , o
dominicano Tomás de Aquino, Pedro Lombardo, Isidoro de Sevilha, Abelardo, o franciscano
Boaventura e o já mencionado cardeal Pierre D'Ailly ( avidamente lido alguns séculos mais
tarde por Cristóvão Colombo ) envidaram grandes esforços para tornar crível a realidade física
do Paraíso, não havendo, para eles, nenhuma impossibilidade de estabelecê-lo em uma
localização geográfica determinada .40 Ora ao sul, ora em terras orientais, ora ao norte, o que
importava para as mentalidades medievais, das quais as mentalidades dos séculos
subsequentes foram herdeiras , é que, mesmo estando em lugar de difícil acesso,o Jardim das
Delícias não havia desaparecido da superfície terrestre.

As crenças no Paraíso Terrestre, nos reinos, ilhas e países miríficos e nas criaturas
monstruosas que evocavam o reino do Diabo surgiram, portanto, como a grande configuração
do maravilhoso e do patrimônio mental da Idade Média que não estiveram, como continuamos
a enfatizar, vinculados somente àquele período. As afirmações e especulações relativas a
esses temas mantiveram-se, mais do que nunca , presentes nas preocupações, nos sonhos e
na movimentação dos melhores intelectos no início da Modernidade,41 mobilizando tesouros de
erudição da cultura renascentista e inspirando grandes obras artístico - literárias das quais
o Adão e a Eva de Albert Dürer (1507 ) juntamente com o épico Paraíso Perdido de John Milton
( 1667 ) são grandes exemplos.

Os nascimentos de seres híbridos monstruosos conheceram enorme sucesso no século XVI


através das obras de naturalistas renomados como André Thevet e as histórias de plantas -
animais despertaram o interesse de um grande número de cronistas e viajantes até fins do
século XVII. Nesses mesmos séculos, a inquestionável existência de criaturas anômalas
despertava curiosidades e produzia interrogações que preenchiam infindáveis páginas de
centenas de tratados. A atmosfera de satanismo, como vimos no primeiro capítulo desta
dissertação , também intensificava-se e atingia seus paroxismos naesta chegada da Idade
Moderna, fazendo com que as obras que traziam um "rei dos Infernos" com patas de bode e
grandes orelhas vermelhas pontiagudas experimentassem, igualmente, enorme repercussão. 42

Noutro pólo do mirífico -- o da felicidade e beleza ilimitadas -- , autores protestantes dos


séculos humanistas aconselhavam que se deveria seguir exatamente as descrições bíblicas
que Moisés legou à posteridade sobre a localização do Éden, no que foram seguidos de perto
pela posição católica oficial e seus representantes. Para estes, tudo o que havia sido produzido
e professado sobre a criação do hortus deliciarum deveria ser entendido e interpretado em
sentido literal, não havendo dificuldades de comprovação devido às inúmeras referências
contidas nas Sagradas Escrituras.43 Numerosos comentadores renascentistas do livro
do Gênesis tentaram avidamente perscrutar o mistério dos primeiros tempos paradisíacos,
desenvolvendo refinamentos cronológicos inimagináveis para determinar com exatidão, por
exemplo , o dia e hora exatos em que Adão teria dado nome aos animais ou qual teria sido a
hora exata do "repasto mortífero" oferecido por Eva. 44 Escritos portugueses do início do século
XVI narravam viagens imaginárias empreendidas pelos soberanos lusos a um exuberante
enclave cristão defendido por um magnânimo imperador , situado ora na Ásia ora em terras
africanas e denominado " Reino do Prestes João". Os ingredientes dessa narrativa que
conheceu nada menos que 111 ( ! ) edições, apresentavam-se na estranheza de humanidades
insólitas, no caráter aterrorizante de seres monstruosos, nas riquezas fabulosas, na
proximidade das paragens paradisíacas e nas aves e animais exóticos. 45 A obsessão pela
temática paradisíaca foi tão intensa no período nos séculos da Renascença que historiadores e
literatos mencionam que no período de 1540 a 1700, o tema do Paraíso Terrestre forneceu
assunto para mais de cento e cinquenta obras literárias 46 redigidas quer em latim, quer nas
diferentes línguas do Ocidente europeu.

As imagens dos portentos orientais com seus países, costumes e civilizações fabulosas
guardavam para o imaginário dos europeus todo o seu esplendor quando, na madrugada de 03
de agosto de 1492, uma pequena expedição de apenas três naus comandada pelo navegador
genovês Cristóvão Colombo e financiada pela Coroa de Castela zarpou do porto de Palos, sul
da Espanha, rumo à Ásia pela rota do poente, desembarcando, dois meses mais tarde, em
uma das ilhas da América Central, no arquipélogo caribenho, significativamente batizada nos
primeiros instantes do desembarque com o nome de San Salvador. Oito anos depois, ao
entardecer do dia 22 de abril de 1500, marinheiros de uma extraordinária esquadra portuguesa
comandada por Pedro Álvares Cabral -- que tentava navegar pelo Atlântico meridional rumo a
Calicute, na Índia , -- divisaram no horizonte uma extensa porção de terra à qual o comandante
do poderoso grupamento de embarcações prontamente denominou Vera Cruz.

A partir daí, seriam as Américas, o Novo Mundo, o receptáculo primeiro de


toda mirabilia produzida pelo imaginário da civilização euro - ocidental cristã . Mais do que
nunca , a percepção das imagens 47 inéditas que se descortinavam aos olhos dos
descobridores lusitanos e espanhóis manifestar-se-ia através de uma revisitação do patrimônio
mental erigido há séculos, patrimônio este que auxiliaria a desvendar os novos enigmas
propostos pela realidade, transformando-se em instrumento de abordagem e conhecimento
dentro de um universo de significação totalmente distinto. 48 Não obstante, a América
"encontrada" pelos navegadores ibéricos em meio a "mares nunca dantes
navegados" 49 incorporou -se ao imaginário renascentista travestida de uma série de atributos
que já haviam sido delegados àquele continente muito antes de ser tocado pelos extensos
braços do projeto expansionista das Coroas católicas da Ibéria. Fato é que, quatrocentos anos
antes das Grandes Descobertas uUltramarinas, São Tomas de Aquino evocava a " hipótese
equatorial " acerca do Paraíso Terrestre, aventando a possibilidade deste enclave paradisíaco
estar situado em lugares muito temperados, abaixo da linha do Equador.

Como indicam pesquisas recentes na área de História Cultural e História da Ciência , os


ibéricos do século XVI e XVII fizeram sua entrada na Modernidade de uma forma um tanto
diferente daquela que se deu para o restante da Europa, optando, assim, pela manutenção de
padrões culturais e políticos essencialmente medievais bem como por uma retomada, por
um revival aristotélico -tomista.50 Estando vinculada aos interesses e à ideologia de uma das
Coroas Ibéricas, a empreitada ultramarina castelhana comandada por aquele que realizou os
primeiros contatos com as terras Americanas, o almirante Cristóvão Colombo, ao mesmo
tempo em que revelava para a humanidade a inexorável redondeza da Terra , -- indicado aí um
dos traços de modernidade do empreendimento -- procurava " tomisticamente " encontrar o
caminho para o lugar da perfeição, da liberdade, da paz, da felicidade, da abundância e da
exuberância sem limites, o verdadeiro Paraíso Terrestre, revelando pari passu o caráter
medieval daquela realização. Observações da realidade e as articulações conclusivas davam-
se , portanto, ora através da técnica, ora através das crenças daquele comandante e de seus
homens , baseadas nos ensinamentos da Santa Madre Igreja. 51

Logo, para as mentalidades ibéricas, o projeto expansionista dos séculos XVI e XVII deitava
sua marca fundamental na necessidade de difundir o orbe cristão. Mais do que a expansão das
fronteiras políticas e mercantis -- realmente necessária aos europeus somente em fins do
século XVII -- os portugueses lançaram-se aos oceanos rumo aos continentes africano, asiático
e americano movidos por um desmedido ideal de realização da epopéia cristã. O intento
primordial era o de ampliar até os confins do mundo os ideais da Igreja Católica e do Cristo
num verdadeiro espírito de cruzada medieval. A propósito, é o historiador José Luis DEL ROIO
que não nos deixa esquecer em sua análise sobre as batalhas lusas contra os mouros no
século XI que " [ ... ] a gênese da unificação e expansão de Portugal localiza-se neste espírito
de cruzada, [ ... ] " , 52 espírito inflamado que contou com acolhimento favorável dos intelectuais
e da sociedade em geral nos séculos dos Descobrimentos.

O aparato mental português se defrontou, inexoravelmente, com a indisciplinada realidade de


que o "anti-mundo" poderia incorporar-se ao mundo conhecido, ampliando assustadoramente
as possibilidades não só da própria facticidade como também dos orbes imaginados. A clássica
doutrina difundida por séculos no Ocidente cristão sobre a unidade fundamental do gênero
humano estava, agora, perdida para sempre, frente a tão caótica e incontrolável
multiplicidade. 53 Não havia mais como negar que os tão decantados antípodas também
caminhavam sobre seus próprios pés e as águas borbulhantes do hemisfério austral não
derretiam embarcações. A terra ignorada mostrava-se por inteira. O choque e a ruptura foram,
então, se delineando como inevitáveis.

Embora o desvelamento da realidade do hemisfério sul propiciado pelas explorações


ultramarinas não tenha abalado as crenças dos homens ibéricos no valor do sobrenatural, do
extraordinário, enfim, do maravilhoso, a tão badalada questão paradisíaca e sua misteriosa
localização não teve acordes muito profundos nas mentalidades portuguesas , 54 o que não
equivale a dizer que esta mesma questão tenha estado ausente do imaginário quinhentista
daquela nação, pois de acordo com Sérgio Buarque de HOLANDA em seu clássico livro Visão
do Paraíso , " [... ] não se poderá dizer que a sedução do tema paradisíaco tivesse sido menor
para os portugueses, durante a Idade Média e a era dos Grandes Descobrimentos, do que o
fôra para outros povos cristãos de toda a Europa [ ... ] ". 55

Apesar da " psicose do maravilhoso " 56 que se impunha ao imaginário dos cidadãos lusos e,
principalmente, ao imaginário daqueles envolvidos com os empreendimentos de além - mar , a
expansão ultramarina realizada pela Coroa de Portugal avivou nos espíritos daquele povo o
sentimento de uma missão cristã não cumprida, exacerbando a relação entre expansão do
Império e propagação da fé cristã , chegando mesmo a ser chamada de " [ ... ] uma vasta
empresa exorcística [ ... ] dos demônios e fantasmas que, através de milênios, tinham povoado
aqueles mundos remotos [ ... ] ". 57 Portanto, o alargamento geográfico e humano inflamou nos
portugueses -- e esta foi uma faceta de fundamental importância na colonização lusitana -- a
existência de um dever de apostolado por realizar, estimulando-os à valorização do
proselitismo religioso e ao combate às tão temidas e abominadas forças satânicas 58 que
subjugavam as terras apartadas à Cristande, reservando um espaço relativamente reduzido às
outras vertentes das maravilhas -- mas sempre presentes e ativas ! -- que alimentavam o
imaginário dos homens daqueles tempos. Mesmo assim , vinculados como se achavam a
concepções nitidamente medievais, podemos supor que, em face das terras recém -
descobertas , cuidassem em reconhecer, com os próprios olhos, o que em seu patrimônio
imaginário pudesse traduzir por maravilhoso e extraordinário os medos, terrores, as angústias
e obessões, sonhos , fantasias , desejos e expectativas coletivas tecidas há séculos.

2.2 O Olhar Eurocêntrico e o Novo Mundo

Não seria arriscado afirmar que nenhuma terra desconhecida ou vagamente suspeitada pelo
homem branco cristão ocidental foi tão radicalmente transformada, tão completamente
submetida aos padrões das matrizes européias e sua visão-de-mundo como as terras
Americanas.

Se formos em busca do significado básico e imediato do vocábulo olhar nos deparamos com o
exercício de ver ou, noutro sentido , com a atitude de atentar, dar-se conta, considerar e
imputar atenção a alguém ou a algo. O que teria, no entanto , significado olhar para os
navegantes que aportaram em terras americanas, territórios incomensuravelmente distintos da
realidade que tinham deixado para trás?

Olhar significou enxergar apenas aquilo que o ardor da fé cristã -- fé católica no caso dos
países ibéricos -- permitia. As percepções acerca do Novo Mundo se deram, em larga escala ,
dependentes do crer e poder europeus, isto é, da íntima relação entre a leitura cristã da
realidade e poder real absolutista, sendo que o outro civilizacional que então surgia aos olhos
do Velho Mundo não foi percebido como sujeito diferenciado, como outro mesmo, mas como
objeto passível de uma leitura através do saber cristão e da pretensa supremacia racial
européia.59 Frente às características aparentemente ilimitadas do novo orbe que se desvelava
como também à aparente inferioridade sócio-econômica-cultural de seus habitantes, delineou-
se para os homens envolvidos com as Grandes Descobertas de além - mar do período
quinhentista o que Tzvetan TODOROV muito a propósito denominou de "pulsão de
domínio" 60 , ou seja, pareciam se concretizar para a Cristandade e para a realeza as ilimitadas
possibilidades do papel de dominadores da natureza e de outras humanidades, partindo-se de
um inflamado otimismo antropocêntrico que, fatalmente, acabaria por degenerar em um
etnocentrismo absolutizador. 61
O ineditismo das terras e gentes encontradas na América colocou o europeu diante de um
gigantesco dilema que acolhia em seu bojo duas opções: reconhecer o outro, inventariando a
alteridade desvelada para legitimá-lo enquanto diferente e essencial à reconstrução da
identidade cristã ocidental -- há muito desgastada -- ou afirmar o " ego civilizacional " ,
hierarquizando as diferenças , exaltando a supremacia do " branco cristão colonizador " e
rejeitando o desconhecido por meio da bestialização e consequente demonização. 62 A História
das Grandes Descobertas e subsequente colonização do Novo Mundo parece nos permitir a
identificação da segunda opção como tendo sido a escolhida , opção que mesclou êxtase ,
deslumbramento, inexperiência frente à diversidade humana, desejo de posse, ignorância e
desprezo frente ao pluriculturalismo, fervor religioso, estabelecimento de relações de poder,
ambição e velamento da heterogeneidade autóctone. 63

Embora a descoberta de um continente desconhecido tenha obrigado os tratadistas e


experientes cosmógrafos a registrar as falhas do antigo conhecimento e a reformular o campo
do saber empírico, isso não implicou em uma alteração profunda dos paradigmas
interpretativos utilizados pelos homens do início da Idade Moderna. O nefasto obscurantismo
teológico que se imiscuia em todos os meandros da existência da civilização euro - cristã --
situação válida inclusive para a Península Ibérica -- 64 continuou sendo perpetrado nas terras
de além - mar, mesmo que a estonteante novidade de terras e gentes tenha vindo
acompanhada de um intenso questionamento das verdades tradicionais que , a esta altura dos
acontecimentos, se desconjuntavam sem conserto. A intermediação da doutrina cristã como
leitura de mundo, mais do que constituir um obstáculo direto para a compreensão do fenômeno
americano, continuaria fixando os limites conceituais e definindo as possibilidades de
reconhecimento e aproximação daquela nova realidade.65

Para os europeus do final da Idade Média e início da Época Moderna, o devassamento dos, até
então, ignotos espaços trazia consigo, inevitavelmente, sua cristianização e ordenação
segundo padrões culturais únicos e hegemônicos,66 numa tentativa de " exorcisar " a ameaça
que a irrupção súbita do desconhecido imputava às mentalidades que engendravam os
Descobrimentos, legitimando, com essa atitude, a cosmovisão européia e reificando seu
sistema de valores. 67 A única forma de abordar e tentar compreender tamanha diversidade
constituía-se na imposição universal de uma verdade regionalizada , na inserção da novidade
radical no interior de uma cosmovisão totalizadora que lhe conferisse sentido, no controle do
estranho pela analogia, 68 no mecanismo de lançar mão dos padrões mentais e do acervo
cultural disponíveis -- grande parte deles construídos, instituídos e sistematizados pela ótica
cristã -- que auxiliariam na decodificação do Novo Continente em toda sua temerosa amplitude,
estranheza e especificidade.

Se considerarmos o caso português , veremos que as tensões entre pensamento laico --


eivado de magismo, preconceito aos chamados infiéis e de práticas pagãs -- e pensamento
religioso, entre os poderes de Deus e as artimanhas do Diabo, enfim, entre as forças do Bem e
do Mal, marcaram de forma indelével as concepções acerca do Novo Mundo. 69 Para os
primeiros representantes da nação lusa que desembarcaram em tão novas e enigmáticas
terras, fechados às fragmentações religiosas que dilaceravam outras nações da Europa, o
recurso ao discurso doutrinal católico não era utilizado como simples retórica, mas mostrava-
se, sim, como um retrato das mentalidades para as quais o plano religioso ocupava lugar de
destaque para se ler as almas de todos os viventes como também se transformava numa
poderosa "lupa" para enxergar o mundo circundante. Para a glória e plena satisfação de um
imaginário eminentemente cristão, a nação lusa estaria no mundo para realizar os planos do
Criador. Como aludimos anteriormente, ao lado da expansão de posses e mercados, os
portugueses objetivaram , com a chegada às " Índias Ocidentais ", difundir a fé nas Sagradas
Escrituras, no " Lenho Sagrado" 70 e na Santa Madre Igreja de Roma, dando plenos subsídios
ao espírito cruzadístico, ao missionarismo do qual aquele povo se imbuiu.

As atitudes mentais que tornaram o mundo menos opaco à epoca das Grandes Navegações --
reproduzidas em documentos cartográficos, na literatura e na iconografia -- informam àqueles
que sobre eles se detêm que os homens de então não foram capazes, senão à superfície, de
se abrir e dialogar verdadeiramente com o outro. Se formos em busca do significado da palavra
encontro, -- como o exercício feito com o vocábulo olhar -- nos deparamos com a origem
latina incontra que, por sua vez, significa " em contra". Seria o choque, o efeito de olhar para
um outro homem ou ser vivente de uma maneira mais ou menos hostil ou, no mínimo,
desconfiada. Encontrar algo ou alguém num contexto totalmente inédito seria, num primeiro
momento, sentir que o outro estaria em contraposição. 71

É o historiador português Antônio Ferronha que nos remete ao caráter dificultoso e ambíguo
dos primeiros contatos e do reconhecimento de novas terras pelos navegadores lusitanos. Diz
ele que " [ ... ] esse encontro foi marcado por esta ambiguidade : alteridade humana
simultaneamente revelada e recusada." 72 No movimento entre revelação e recusa, o
reconhecimento e a aceitação da diferença foram se tornando tarefas difíceis de se
empreender, pois o postulado da diferença acabaria por engendrar facilmente o sentimento de
superioridade, sentimento este que , mais uma vez e sempre , tinha em sua base a
inquestionável obediência e pertença à Cristandade, já se fazendo presente no combate aos
"outros internos" do Império luso, isto é, aos infiéis e hereges de todo o tipo que " infestavam" o
solo europeu: bruxas, árabes e judeus, todos eles, segundo a ótica religiosa vigente,
macomunados com o Diabo.

No período dos primeiros contatos com a realidade americana, os representantes da civilização


católica não tinham como característica somente uma postura encarniçadamente hegemônica
e egocêntrica, mas uma tendência obsessiva de difusão e dispersão universal do Evangelho de
Cristo e dos preceitos doutrinais da Santa Sé de Roma, imbuindo-se, como nos coloca Arnold
TOYNBEE , 73 em ampliar permanentemente a autoridade espiritual, um plano mais elevado do
que qualquer prerrogativa territorial , imersos em uma persistente " embriaguez da vitória ".

Discípulos aplicados desta cosmovisão, os portugueses construíram uma tipologia das


relações entre eles e a nova realidade baseados em valores axiais para o seu aparato mental
essencialmente cristão, na aproximação simulada visando, na verdade, um distanciamento e
na "doação" de uma identidade à América lusitana e seus habitantes totalmente atrelada às
suas próprias concepções de mundo. Tudo aquilo que, portanto, não fosse ditado pelo padrão
cultural europeu era visto como inferior. 74 Numa atitude claramente etnocêntrica, os
portugueses, através de seu olhar, procuraram encontrar nas novas terras que se
descortinavam à realidade padrões e modelos de semelhança com as coletividades euro -
cristãs para implementar a totalidade de seu orbis, o que levava à desastrosa e equivocada
confluência entre diferença de identidade e ausência da mesma.75

Não poderíamos, no entanto , sob o risco de sermos anacrônicos, exigir dos homens dos
Quinhentos lusos uma postura crítica e desvinculada de juízos e valores etnocêntricos, pois, no
contato e observação do outro civilizacional , os quadros mentais da época -- influenciados
pelo investimento num poder político absolutista e por uma Igreja que se considerava a
representante exclusiva do poder divino -- determinavam, sem exceção, uma atitude fechada
ou, no mínimo, suspeita frente à diversidade, um culto à própria cultura civilização como
medida de todas as outras.

Fundamental para nos aproximarmos do olhar eurocêntrico lançado às novas terras e seus
habitantes, mais especificamente, do olhar que os "descobridores" lusitanos lançaram à Terra
de Vera Cruz é a chamada "certidão de nascimento" ou primeiro relato "etnográfico" 76 de
nossa terra brasílica, qual seja, a Carta do Achamento de Pero Vaz de Caminha 77 datada de
10 de maio de 1500, mas só reencontrada e impressa em larga escala a partir do século XIX.
Juntamente com a Carta do bacharel - mestre João, enviada ao Rei D. Manuel I com a mesma
data e a Relação do chamado Piloto Anônimo, publicada em 1507, compõe o primeiro corpo de
testemunhos escritos sobre as primeiras imagens do Brasil e daqueles que o habitavam.

Atentando para o texto de Caminha que teve o início de sua redação aos 21 de abril e o seu
término no primeiro dia de maio de 1500, não encontramos nenhuma menção direta aos dotes
paradisíacos da novíssima terra que, através de seus olhos e punhos, ia sendo descrita. O
imaginário edênico que acompanhava os navegantes que deixavam o solo europeu para se
lançarem a novas paragens transoceânicas não teve lugar de destaque nas linhas do escrivão-
chefe do comandante Cabral. Somente em uma comparação com condições climáticas
européias, quase ao fim da Carta , é que um elogio aos ares e à abundância de água se fez
presente. 78 Em relação aos novos habitantes, porém, a referência aos tempos adâmicos deu-
se de maneira explícita na seguinte passagem : " [ ... ] Assim, Senhor, a inocência desta gente
é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor. " 79 Foi , sem dúvida, o
componente humano, aquele que mais atenção mereceu por parte do observador Caminha,
fazendo com que o componente natureza ficasse, realmente,em segundo plano.80

A alteridade radical daquela humanidade foi o foco da atenção, no entanto, não por sua
singularidade, diferença e ineditismo ou por suas qualidades, -- salvo raras exceções no
documento -- mas pela possibilidade vislumbrada e intensamente desejada de torná-la cristã,
dando corpo ao projeto evangelizador do qual a Coroa portuguesa e, posteriormente, seus
funcionários eclesiásticos, os jesuítas, estavam cegamente imbuídos, -- além do projeto
mercantil, é claro -- e do qual não se esqueciam um só minuto No domingo, 26 de abril de 1500
, Caminha escrevia : " [ ... ] Acabada a missa , desvestiu-se o padre [ ... ] e no fim tratou da
nossa vinda e do achamento desta terra referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos,
lembrança que veio muito a propósito e fez muita devoção [ ... ] ". 81 Em outras duas clássicas
passagens da Carta, o ardor missionário dos homens enviados pelo Império português fica
patenteado, não deixando dúvidas sobre um dos principais e mais ardorosos objetivos daquela
missão de além - mar.82

Caminha foi hábil o bastante para passar de uma ligeira visualização da terra encontrada , com
a sua fauna e flora exuberantes , à incidência de um olhar seletivo sobre os habitantes daquele
novo espaço que, indiscutivelmente, despertaram um enorme interesse aos nautas lusos.
Empenhado em cumprir da melhor maneira possível seu papel no gigantesco cenário histórico
da apologia aos povos viajantes, aos grandes feitos marítimos, ao Rei, à Igreja e à Nação
lusitana , o autor da Carta de Achamento das terras brasileiras praticamente só conseguia ter
diante de seus olhos a incorporação das mesmas ao universo europeu, ou melhor, ao universo
católico da Ibéria.

Os primeiros contatos dos portugueses com a nova realidade natural e social revelaram-se,
pelo menos num primeiro momento, pacíficos e promissores. Entretanto, o relativo desinteresse
da Coroa Portuguesa pelas novas terras durante as três primeiras décadas do século XVI fez
com que se tornassem relativamente raros e empobrecedores os resultados dos encontros
iniciais entre os cidadãos lusitanos e os autóctones da América. Noutra faceta do encontro , --
a da produção documental -- também não se deu a proliferação dos textos de caráter
descritivo, que só se mostraria significativa após a chegada dos missionários jesuítas em 1549
e, através destes religiosos e de outros importantes cronistas, se intensificaria no último quartel
do século XVI, adentrando o século XVII. Este quadro colocou, portanto, a Carta de Caminha
em posição isolada no ranking dos documentos iniciais acerca da América lusitana.

Neste intervalo transcorrido entre a descoberta e a intensificação dos registros documentais, as


características magistrais do projeto expansionista foram se diluindo, como também se diluiu
paulatinamente o impacto da maravilhosa diversidade do trópico e de seus habitantes,
preparando o caminho no qual se abriria um enorme fosso entre a extraordinária multiplicidade
de espaços , gentes, religiosidades e culturas do Novo Mundo e a necessidade de
homogeneidade e posse da sociedade católico-lusitana. As imagens de entendimento,
compreensão da diferença e colaboração mútua foram, pouco a pouco, se delineando como
ilusórias e fugazes.

Alimentado, dentre outras dificuldades e obstáculos, pela narrativa dos rigores, perigos e
precariedade das condições de sobrevivência em alto mar que faziam parte da singradura
transoceânica , 83 percalços estes que incrementavam as narrativas dos grandes naufrágios, o
olhar do europeu sobre a América foi gradualmente marcado por uma decepção , se desviando
dos atributos edênicos da beleza tropical -- se é que realmente a enxergaram algum dia ! --
para incidir sobre a face irregular do continente americano, estampada irremediavelmente na
face da alteridade. Frente ao outro, frente à nova realidade cultural jamais imaginada, a
maravilha de se poder olhar e compreender algo radicalmente inédito encontraria sua
derrocada ou , no mínimo, a inconteste afirmação das assimetrias.
2. 3 Do Paradisíaco ao Inferno de Gentes Inviáveis

Diz uma antiga expressão popular que uma moeda sempre tem duas faces. No caso da
descoberta e subsequente colonização da América lusitana o dito nos vem à memória em
momento bastante oportuno. Deixando o âmbito dos ditos populares e retornando às
formulações acadêmicas, é Laura de Mello e Souza quem, mais uma vez , abre o caminho
para nossa linha de argumentação. Segundo a historiadora, " [ ... ] componentes do universo
mental nunca estiveram isolados uns dos outros, mantendo entre si uma relação constante e
contraditória : na esfera divina não existe Deus sem o Diabo, no mundo da natureza não existe
Paraíso Terrestre sem Inferno e, entre os homens, alternam-se virtude e
pecado." 84 Pretendemos ressaltar, neste sentido, que o empreendimento ultramarino do século
XVI, tendo como um de seus momentos culminantes a chegada dos portugueses ao Brasil , se
desenrolou sob a inconteste influência do aparato mental euro-cristão tanto em sua vertente
positiva quanto em seus aspectos mais tenebrosos. A empreitada de atravessar mares
desconhecidos, encontrar povos considerados bizarros ou até mesmo dados como inexistentes
e aportar em terras até então ignoradas passou rapidamente do caráter idílico proporcionado
pelos atributos exuberantes da nova natureza ao caráter infernal proporcionado pelo encontro
com humanidades inéditas que sequer suspeitavam dos padrões de ser e de agir cristãos. Em
oposição à percepção da esfera natural, portanto, o domínio do humano foi infernalizado,
bestializado e animalizado " [ ... ] em proporções jamais sonhadas por toda a teratologia
européia [ ... ] " 85 desenvolvendo-se no imaginário daqueles que tomavam contato com os , até
então , ignotos seres humanos das incorretamente denominadas " Índias Ocidentais", a infeliz e
devastadora certeza de uma humanidade inviável.

Mesmo que a diversificação do mundo natural e social revelada pelas Grandes Navegações
intentasse atestar a grandeza e ilimitado poder da obra divina, dentro dos padrões católicos e,
sobretudo, dos padrões apostólicos dos empreendimentos ultramarinos portugueses era
simplesmente inconcebível que algum ser humano conseguisse viver sem a " luz " do
Evangelho. Se o conseguisse, certamente humano não haveria de ser ou , quando nada ,
estaria envolto em " trevas ". Mesmo depois de um século da chegada às terras americanas e
de um acúmulo de experiências nos contatos com diversas culturas, intelectuais portugueses
propagavam -- já no limiar do século XVII -- que " [ ... ] as alegres novas do Evangelho até os
últimos termos e ilhas mais apartadas do oceano [... ] foi a salvação e liberdade de almas sem
conto, criadas e nascidas nas trevas e cativeiro da idolatria e grande triunfo e glória de Jesus
Cristo [ ... ] " . 86 Desse modo, as qualidades pelas quais a Europa renascentista ansiava
ardentemente -- inocência , abundância e magnanimidade de espírito -- ia, para os
portugueses, se desfazendo pouco a pouco na medida em que a dinâmica da alteridade
americana se constituía.

O fato de não nos determos pormenorizadamente no processo de edenização da América


lusitana não significa , no entanto, que esta demanda não tenha deixado suas marcas no
contato com as novas terras, como aliás, já ressaltamos anteriormente. Para os portugueses,
conceber traços edênicos para a América , ou melhor , para o Brasil -- mesmo que esses traços
não tenham sido incisivos como o foram para outras parcelas do Globo 87 -- significava, de
certa forma, estabelecer com aquele novo território uma quota de cumplicidade, dando a ele a
capacidade de manifestar-se através de uma revisitação do antigo, em uma leitura de mundo
ditada pelo arcabouço mental de todo cristão europeu , -- leitura forjada desde tempos
medievais -- possibilitando que se visse naquele novo território o que já tinha sido concebido há
muitos séculos : a possível corporeidade do Paraíso e de seus encantos edênicos. Entretanto,
conforme emergia a face do outro, da alteridade e da diferença, outras páginas de um mesmo
texto tornavam-se possíveis e as carregadas tintas dos traços diabólicos imputados ao homem
americano iam se evidenciando , fazendo com que , consequentemente, a edenização se
tornasse ameaçada e -- porque não dizer -- progressivamente abandonada. No encontro entre
os dois mundos, transitou-se, portanto, da edenização à detração e demonização da América
lusitana.

Os habitantes das terras longínquas que os europeus concebiam como sendo fabulosas, foram
se configurando aos olhos e mentes daqueles que travavam contato com a nova realidade
como uma humanidade igualmente fantástica, mas também diabólica, monstruosa e disforme.
Diante da estonteante novidade que se descortinava para o Velho Mundo era preciso identificar
a anormalidade para definir e confirmar a norma. Se, para a cultura dirigente e os poderes que
delineavam a irrupção das Grandes Descobertas, a norma estava assentada em códigos de
civilidade e Ccristandade, inscreveríam-se no pólo da anormalidade e da monstruosidade,
portanto, os códigos da barbárie e da infidelidade a Cristo, ou seja , da participação na tão
abominada esfera diabólica.

A percepção dos primeiros homens do Brasil instaurada pela mentalidade lusitana propiciou
formulações que se iniciavam ao nível de uma outra humanidade e seguiam o caminho das
comparações com animais, monstros e seres diabólicos, havendo uma alternância nestes
níveis perceptuais.88 Voltando à Carta de Achamento de Caminha, podemos observar que a
radical diferença da humanidade ameríndia dá margem à comparação com os animais. O autor
da Carta deduz que são " gente bestial " e fica convencido que " são como aves ou animais
montesinos ". 89

Décadas depois, nos idos de 1570 , o cronista português Pero de Magalhães Gândavo, em
defesa da colonização do Brasil, imputava aos autóctones traços negativos adicionais. Para
ele, " a língua deste gentio toda pela Costa é uma: carece de três letras, não se achando nela
F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei e nem Rei e
desta maneira vivem [ ... ] desordenadamente" , ou ainda , em relação aos rituais
antropofágicos de alguns grupos indígenas que foram sendo contactados, " [ ... ] não apenas
matam todos aqueles que não são de seu rebanho como também os comem, usando nesta
parte de cruezas tão diabólicas que ainda nelas excedem aos brutos animais [ ... ] ". 90

Enquanto a Igreja Católica esboçava uma tentativa de desmobilização e tranquilização frente


aos implacavelmente perseguidos " agentes infernais " na Europa, ( feiticeiras e seus sabbats ,
muçulmanos e judeus ) os cidadãos daquele continente que começavam a travar contato com
novas terras e gentes surpreendiam-se -- nos contornos de sua mentalidade, é claro -- quanto
à amplitude do império do Diabo, concebendo-o muito mais vasto do que se poderia imaginar
antes de 1492.

A elite católica dos países ibéricos, em sua maioria, aderiu à tese expressa pelo padre
Acosta, 91 segundo a qual , desde a vinda de Cristo e a expansão da verdadeira e pura religião
pelo Velho Mundo, Satã haveria se refugiado em terras distantes, de além - mar , territórios dos
quais fez um de seus tesouros. Mesmo que o Inimigo do gênero humano continuasse a grassar
ferozmente em solo cristão, ali existiria a Santa Madre Igreja que velaria pelas almas dos
homens e repeliria suas investidas. Em terras americanas desprotegidas e distantes dos
influxos de Roma , ao contrário , o "Maligno" reinaria como mestre absoluto.

Sendo assim, a face do olhar europeu que imputava ao ameríndio traços de uma humanidade
inviável e diabólica foi sendo inevitavelmente ressaltada, possibilitando que conjecturas como
as do padre Acosta, descritas anteriormente, e as do frei Vicente de Salvador -- nas quais o
Diabo teria se instalado vitorioso entre os homens do Brasil, esbravejando às tentativas de
evangelização -- fossem formuladas a mancheias . 92

Nos moldes do aparato mental dos séculos XVI e XVII, dentro dos quais a presunção de
superioridade religiosa e moral se fazia destilar por todos os meandros da vida e da história
daquelas sociedades , inclusive nos empreendimentos ultramarinos , a expressão "encontro
entre dois mundos" pode, num certo sentido, não ser a mais adequada para definir a
confluência -- ou choque, como preferem certos autores -- da civilização lusitana com a nova
realidade americana que se delineava pois, a priori, um encontro pressupõe simetria de
desejos e ideais, simetria esta que teria sido aniquilada desde os primeiros momentos por um
desmedido fervor proselitista, uma postura etnocêntrica além de uma necessidade obsessiva
de se combater o que se julgava ameaçador à fé cristã, cedendo lugar , portanto , a um terreno
repleto de assimetrias.93

Na epifania, nos arroubos intransigentes da catolicidade lusa, o componente humano das


terras brasílicas perdeu, paulatinamente, sua dignidade e brilho primitivos, degenerando-se em
besta bruta e parceiro do Demoo. Cancelava-se, sem embaraços nem constrangimentos , o
discurso do paradisíaco para dar ênfase ao discurso do diabólico e infernal. Passagem da aura
de benignidade para o reino da malignidade.

1
DUVIOLS, Jean Paul. " O Terceiro Mundo Austral " in CHANDEIGNE, Michel ( org ) Lisboa
Ultramarina 1415 - 1580 : a invenção do mundo pelos navegadores portugueses. Rio de
Janeiro. Jorge Zahar Editor, 1992. p. 168

2GIUCCI, Guillermo.Viajantes do Maravilhoso. O Novo Mundo. São Paulo. Companhia das


Letras, 1992. p. 11

3 idem ibid. p. 12

4Aqui, continuaremos a utilizar as mesmas definições acerca do vocábulo imaginário para a


expressão patrimônio imaginário. Ver a nota de pé-de-página número 6 do primeiro capítulo
desta dissertação e cf. DUBOIS, Claude G.O Imaginário da Renascença ... op. cit. p. 12 - 47

5 GIUCCI , G. op. cit . p. 13

6Título da obra de Guillermo Giucci à qual fizamos referência na nota de pé-de-página número
2 deste capítulo da dissertação.

7 LE GOFF, Jacques. O Maravilhoso ... op. cit. p. 18. O autor chama a atenção para a
importância à referência visual, colocando que todo o imaginário de uma sociedade pode
organizar-se em torno de imagens e metáforas visuais.

8 LANCIANI,Giulia. "O Maravilhoso como Critério de Diferenciação entre Sistemas Culturais"


in Revista Brasileira de História. Vol. 11 número 21. São Paulo, set. 90 / fev.91 p. 21

9 GIUCCI, G. op. cit. p. 14

10 idem ibid. p. 15

11 Para uma mais detalhada caracterização do maravilhoso ver GIUCCI, G. op. cit. p. 16

12 LANCIANI, G. op. cit. p. 23

13 idem ibid. p. 24

14 SOUZA, Laura de M. e Inferno ... op. cit. p. 26. Sobre a utilização de referenciais
tranquilizadores para apropriação do não - familiar, a historiadora Laura de Mello e Souza
também lança mão da análise de Giulia Lanciani sobre o maravilhoso e suas funções nos
sistemas culturais.

15
KAPPLER, Claude. Monstros , Demônios e Encantamentos no Fim da Idade Média. São
Paulo. Martins Fontes, 1993. p. 14. Eram os bispos, teólogos e doutores da Igreja os grandes
encarregados de redigir a maioria das obras que descreviam a Terra e o Universo e , mesmo
que não fossem redigidas por tais homens , os tratados cosmográficos tinham a
obrigatoriedade de se adequar às teses eclesiásticas vigentes.

16 idem ibid. p. 15

17 idem ibid. p. 23
18GINZBURG, Carlo. Mitos , emblemas e sinais : morfologia e história. São Paulo. Companhia
das Letras, 1991. p. 98

19KAPPLER, C. op. cit. p. 32. Para este autor , as maravilhas inauditas e os demônios são dois
pólos inseparáveis do monstruoso, do apelo ao disforme no contexto medieval.

20 idem ibid. p. 28

21AGOSTINHO, Santo. "La Cité de Dieu" in Oeuvres de Saint Augustin. Paris. Desclée de
Brower, 1960. apud KAPPLER, C. op. cit. p. 29

22 KAPPLER, C. op. cit. p. 29 - 30

23A idéia da demonização das humanidades americanas será retomada por nós em momento
oportuno no texto.

24 KAPPLER, C. op. cit p. 36

25 LE GOFF, J. O Nascimento ... op. cit. p. 343 e ss. O autor elege a Divina Comédia ( 1320
) de Dante Alighieri e os seus três cantos -- Inferno, Purgatório e Paraíso -- como a "sinfonia"
que, magistralmente , reuniu grandes temas presentes no imaginário medieval.

26 KAPPLER, C. op. cit. p. 36

27 idem ibid. p. 37

28 idem ibid. p. 38

29DELUMEAU, Jean. Uma História do Paraíso. O Jardim das Delícias. Lisboa.Terramar


Editores, 1992. p. 121

30 D'AILLY, Pierre. Ymago Mundi II Paris. Ed. Buron, 1930 p. 389 - 390 apud DELUMEAU,
J. Uma História do Paraíso ... op. cit. p. 123

31 cf. DELUMEAU, J. Uma História do ... op.cit p. 126

32 cf. idem ibid. p. 128

33 KAPPLER, C. op. cit. p. 159 - 161

34 idem ibid. p. 159

35 idem ibid. p. 163

36 idem ibid. p. 166 - 249, correspondentes à primeira parte do quarto capítulo do livro,
intitulada "Tipologia do Monstro" .

37 GIUCCI, G. Viajantes do ... op. cit. p. 87

38 LE GOFF, J. O Maravilhoso e o ... op. cit p. 238

39 DELUMEAU, J. Uma História do Paraíso ... op. cit. p. 23

40 idem ibid. p. 51 - 68
41Já que a datação da Modernidade é assunto controverso entre historiadores e filósofos,
deveríamos destacar que a nossa opção de datar a Modernidade no início do século XVI
fundamenta-se na tese de Stephen Toulmin, na qual a postura de afirmação e valorização do
antropocentrismo dos humanistas é incluída como característica essencialmente moderna. Ver
TOULMIN, Stephen. Cosmopolis. The Hidden Agenda of Modernity. New York. The Free Press,
1990.

42 KAPLLER, C. Monstros ... op. cit; cf. p. 187 - 202 , 349 e 350 , 355 - 419.

43 DELUMEAU, J. Uma História do ... op. cit. p. 181

44 idem ibid. p. 214

45 idem ibid. p. 112

46 KIRKCONNEL, K. Celestial Cycle. New York. Gordian Press, 1967. p. 541 - 639 apud idem
ibid. p. 170

47 Em seu trabalho sobre a fenomenologia da imaginação, Sartre nos remete à questão de que
um dos fatores essenciais da consciência capacitada a perceber um objeto como imagem é
a crença. Por este motivo, diz , " [ ... ] é impossível encontrar na imagem algo mais do que
aquilo que colocamos nela. [ ... ] em consequência, é impossível que a compreensão se opere
sobre a imagem uma vez construída." O autor conclui serem extraordinárias as distâncias e
diferenças que separam a imagem produzida da realidade. cf. SARTRE, Jean Paul. O
Imaginário. São Paulo. Ática, 1996. p. 120 - 139. Certamente, o universo cognitivo e as
mentalidades européias com todo o seu conteúdo imagético alteraram profundamente a
percepção da realidade para aqueles que aportaram em novas terras.

48 LANCIANI, G. op. cit. p. 26

49Utilizamos, aqui, a célebre frase de Luís de Camões como mero recurso metafórico, posto
que os "mares nunca dantes navegados" , em seu sentido original , referem-se ao Oceano
Índico. Ver CAMÕES, Luis de. Os Lusíadas. São Paulo. Abril Cultural, 1979. Canto Primeiro p.
29.

50
DOMINGUES, Beatriz Helena. Tradição na Modernidade e Modernidade na Tradição. A
Modernidade Ibérica e a Revolução Copernicana. Rio de Janeiro. COPPE/UFRJ, 1996. p. 10

51SILVA, Janice Theodoro da. "Colombo: entre a Experiência e a Imaginação" in Revista


Brasileira de História. Vol. 11 número 21 São Paulo. set.90 / fev.91 p. 30 . O historiador Jean
DELUMEAU também é categórico ao afirmar que Colombo cria como um homem medieval,
fazendo de sua crença não apenas um sentimento religioso, mas um método que se aplicava
indistintamente a todos os domínios do espírito. Em sua biblioteca particular, historia o autor
supracitado, Colombo teria possuído exemplares das viagens fantásticas de Mandeville, das
rotas de Marco Polo e , como destacamos algumas páginas atrás, a Ymago Mundi do cardeal
Pierre D'Ailly , obra na qual é descrita minuciosamente a origem das nascentes dos quatro rios
paradisíacos. cf. DELUMEAU, J. Uma História do Paraíso ... op. cit. p. 67 - 68

52 DEL ROIO, José Luis. Igreja Medieval. A Cristandade Latina. São Paulo. Ática, 1997.

53BARRETO, Luís Filipe. Descobrimentos e Renascimentos: formas de ser e pensar nos


séculos XV e XVI. Lisboa. Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1983. p. 184, atentando para a
nota de pé-de-página. Ver também DIAS, José Sebastião da S. Os Descobrimentos e a
Problemática Cultural do Século XVI. Lisboa. Editorial Presença, 1982. p. 120

54HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e


colonização do Brasil. São Paulo. Cia Editora Nacional, 1977. p. 10
55 idem ibid. p. 167

56 idem ibid. p. 201

57 idem ibid. p. 15

58 DIAS, J. S. op. cit. p. 48

59 BARRETO, Luis F. op. cit. p. 178

60TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro. São Paulo. Martins


Fontes, 1983. p. 143

61 DIAS, José S. op. cit. p. 123

62cf. VAINFAS, Ronaldo. A Heresia dos Índios. Catolicismo e Rebeldia no Brasil Colonial. São
Paulo. Companhia das Letras, 1995. p. 23

63 GIUCCI, G. op. cit. p. 239

64A historiadora Beatriz H. DOMINGUES ressalta a motivação essencialmente religiosa das


colonizações, sobretudo no caso da colonização ibérica, que tinha o intuito de expandir sua
ortodoxia e converter os nativos. cf. DOMINGUES, Beatriz Helena op. cit. p. 44

65É novamente a historiadora Beatriz H. DOMINGUES quem nos remete ao caráter


eminentemente cristão da Modernidade Ibérica e, por extensão, da Modernidade
Iberoamericana que não separou claramente conhecimento e religião. idem ibid. p. 36

66 SOUZA, Laura e M. e. Inferno ... op. cit. p. 24

67GIUCCI, Guillermo. Sem Fé, Lei ou Rei. Brasil 1500 - 1532. Rio de Janeiro. Editora Rocco,
1993. p. 31

68 idem ibid p. 123

69 SOUZA, Laura de M. e. Inferno ... op. cit. p. 22

70 Referência à Cruz. idem ibid. p. 30

71FERRONHA, Luís Antônio ( org ) O Confronto do Olhar. O encontro dos povos na época das
navegações portuguesas séculos XV e XVI Lisboa. Editorial Caminho, 1991. p. 12

72 idem ibid. p. 13

73 TOYNBEE, Arnold. Um Estudo da História. São Paulo. Martins Fontes, 1987. p. 208 - 209

74cf. LOUREIRO, Rui Manuel. " A visão do índio brasileiro nos tratados portugueses de finais
do século XVI " in FERRONHA, L. A. ( org ) op. cit. p. 266

75 idem ibid. p. 268

76Assim se referem ao documento os supracitados historiadores Luís Antônio Ferronha e


Laura de Mello e Souza.

77Os trechos que utilizaremos a seguir são do documento publicado em História da


Colonização Portuguesa no Brasil, vol. II, p. 86 - 99 Porto, 1923 em linguagem atualizada por
Carolina Michaelis de Vasconcelos, professora de Filologia da Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra. Reproduzido em CALMON, Pedro. História do Brasil vol. I. Rio de
Janeiro. José Olympio, 1959. Apud PENJON, Jacqueline e QUINT, Anne Marie. " Pedro
Álvares Cabral descobre o Brasil " in CHANDEIGNE, Michel ( org ) op. cit. p. 143 - 165

78idem ibid. p. 164 " [ ... ] muito formosa. [ ... ] a terra em si é de muitos bons ares, frescos e
temperados como os de Entre Douro e Minho. [ ... ] águas são muitas, infinitas. Em tal maneira
é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por causa das águas que tem ! [ ... ]

79 idem ibid. Ainda na p. 164

80Valeria a pena destacar neste contexto que Colombo, ao contrário de Caminha, teria
formulado opiniões muito mais argutas sobre a natureza da nova parcela descoberta do Globo
do que sobre os autóctones, incluindo observações " rarefeitas " sobre os mesmos no meio de
inúmeras anotações sobre a fauna, flora e possibilidade de encontrar riquezas. Ver TODOROV,
Tzvetan. op. cit. p. 18 - 33

81 PENJON, J. e QUINT, A. M. " Pedro Álvares ..." in CHANDEIGNE, M. ( org ) op. cit. p. 153

82 idem ibid. p. 161 e 164 " [...] se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza
Nosso Senhor que os traga [...] E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhes
quiserem dar [...] e Ele para aqui nos trazer, creio que não foi sem causa. E, portanto, Vossa
Alteza, pois tanto deseja acrescentar à Santa Fé Católica, deverá cuidar da salvação deles.
Prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim! " Noutro momento, Caminha reproduz de
modo explícito a mentalidade dos Reis e de toda a sociedade portuguesa. Assim escreveu: "
Contudo, o melhor fruto que dela [ da terra ] se pode tirar parece-me que será salvar esta
gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não
houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para a navegação de Calecute, [
isso ] bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto
deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé! "

83MICELI, Paulo. O Ponto Onde Estamos. Viagens e Viajantes na História da Expansão e da


Conquista. São Paulo. Scritta, 1994. p. 174

84 SOUZA, Laura de M. e O Diabo e a Terra de Santa ... op. cit. p. 29

85 idem ibid. p. 32

86LUCENA, João de. História da vida do Pe. Francisco Xavier e do que fizeram nas Índias os
mais religiosos da Companhia de Jesus. Lisboa, 1600. p. 25 - 39 apud DIAS, José S. da S. Os
Descobrimentos ... op. cit. p. 49

87 Para Sérgio Buarque de Holanda, os portugueses não lançaram mão de toda a sua
capacidade de edenizar em relação ao Brasil sobressaindo-se, neste caso, uma visão mais
utilitarista e realista do que fantástica, o que não significa, contudo, que aquela capacidade não
tenha sido ativada no imaginário luso. cf. HOLANDA, Sérgio B. de Visão do Paraíso ... op. cit.
p. 8 - 14

88 Sobre esses níveis de percepção ver SOUZA, L.M. O Diabo e a ... op. cit. p. 56

89apud PENJON, J. e QUINT, A.M. " Pedro Álvares ..." in CHANDEIGNE, M. ( org ) op. cit. p.
157

90GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província de Santa Cruz ( 1570 ) Belo


Horizonte. Itatiaia/EDUSP, 1980. p. 124 - 137 apud GIUCCI, G. Sem Fé, ... op. cit. p. 206
91
ACOSTA, José de. História Natural e Moral de las Indias. Vol. I , 1590. p. 140 apud
DELUMEAU, Jean. História do medo ... op. cit. p. 261

92SALVADOR, Frei Vicente de. História do Brasil ( 1500 - 1627 ) 3a edição revista por
Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia. São Paulo. Melhoramentos, s.d. apud SOUZA, Laura de
M. e O Diabo e a ... op. cit. p. 67 - 68

93 GIUCCI, Guillermo. Sem Fé, Lei ... op. cit. p. 30

Para enviar e-mail para a autora:


Iza G. C. Chain
izachain@jfa.zaz.com.br

PSICOLOGIA ARQUETÍPICA E
O TRATAMENTO DA ADIÇÃO
John E. Burns, PhD, CEAP
A Psicologia arquetípica pode ser útil a adictos? Em Vila Serena, um centro para tratamento de
dependência química em São Paulo, Brasil, a resposta é "sim", apesar do fato que não foi fácil
chegar a essa conclusão. Uma equipe profissional altamente motivada e inspirada cria um
ambiente terapêutico com calor humano no qual os dependentes podem encontrar uma
perspectiva de vida mais profunda e abrangente, conseguindo dessa forma viver sem o uso de
qualquer substância psicoativa. Nós criamos o clima e os dependentes encontram seu
caminho. O desafio está em motivar os terapeutas a se envolverem com o problema complexo
da dependência.

No Brasil, temos sido capazes de manter elevado o nível de entusiasmo e dedicação entre o
pessoal de nossos centros de tratamento1, através de um programa pragmático tendo por base
nosso conhecimento de psicologia arquetípica. O resultado obtido consiste na baixa
rotatividade de funcionários, alta taxa de ocupação e redução das recaídas. Quando
começamos o tratamento da dependência química no Brasil há dezesseis anos, fazíamos a
recomendação ao dependente de entregar sua vontade e sua vida aos cuidados de um "Poder
Superior" ou a "Deus na forma em que O concebíamos", (como sugerido pelos Doze Passos
dos Alcoólicos e Narcóticos Anônimos), assistir às reuniões de grupo de ajuda-mútua2 e ler a
literatura indicada. Isto nos permitia uma taxa de sobriedade em cerca de trinta por cento. 3

Gradualmente fomos percebendo que a sobriedade era estabelecida pelo fato de o dependente
repetidamente contar sua estória4 aos outros dependentes dentro de um ambiente humano.
Embora apreciássemos a importância da estória do paciente e compreendêssemos que ela é a
base da teoria popular dos sistemas de família5 precisávamos de confiança para enfocar nosso
programa na estória, uma vez que não percebíamos os fundamentos filosóficos para este
procedimento. Também, apesar do fato que a natureza monoteísta Cristã do programa de
Doze Passos seja rejeitada por um número crescente de dependentes de álcool e outras
drogas, especialmente entre os adolescentes,6 não abandonamos os programas de Doze
Passos porque eles proporcionam reuniões livres ao redor do mundo e enfocam temas
religiosos e espirituais de formas diversas que a maioria dos programas psicoterapêuticos.
Conseqüentemente sobrecarregávamos o programa com atividades numa tentativa de
proporcionar algo para todos, o que levava à insatisfação do paciente e à exaustão da equipe
terapêutica.

As reuniões semanais da equipe eram cansativas, de forma que introduzimos treinamentos ao


invés de falarmos somente de trabalho e isto revelou-se ser nossa salvação. Buscando por
algo novo, examinamos os fatores genéticos e ambientais, especialmente a influência da
família e infância como determinantes para a dependência. Rebuscamos dados científicos e
exploramos abordagens alternativas com cristais e visualização para desafios além dos limites.
Dentro de uma visão macro, elaborei uma tese de doutorado sobre a "Teoria Geral de
Sistemas e o Tratamento de Dependência Química", mas minha contribuição foi pequena.
Novas análises trouxeram mais complexidade ao programa de tratamento.

A primeira luz chegou através do estudo das obras de M. Scott Peck, A Trilha Menos
Percorrida e na seqüência Prosseguindo na Trilha Menos Percorrida7. Não achamos relevante
a introdução da espiritualidade na psiquiatria, mas a sutil mudança da visão da saúde mental
de analítica para holística, de literal para poética foi revigorante, embora não nos sentíssemos
confortáveis abandonando a psicologia analítica em prol de uma abordagem mais humanística.
Foi quando o livro de James Hillman, We've Had a Hundred Years of Psychotherapy and the
World's Getting Worse 8(Tivemos Cem Anos de Psicoterapia e o Mundo Está Ficando Pior),
irrompeu em nossa cena e, pela primeira vez, questionamos abertamente a eficácia da
psicologia ou psiquiatria para tratar a dependência química. Alguns profissionais se sentiram
ofendidos e os perdemos.

Demos início então a um longo e árduo estudo sobre a psicologia arquetípica utilizando o difícil
e denso sumário, Psicologia Arquetípica - Um Breve Relato.9 Para compreender a psicologia
arquetípica "que pode ser vista como um movimento cultural, onde parte de sua tarefa é a
revisão da psicologia, da psicopatologia e da psicoterapia de acordo com a imaginação do
Ocidente"10, é necessário o questionamento de nossas crenças fundamentais. Uma vez que
esta abordagem é designada "psicologia" arquetípica, a tendência foi utilizar conceitos
populares correntes da psicologia acadêmica e terapêutica como pontos de referência, o que
foi muito frustrante. Até percebermos que estávamos lidando com um ponto de vista filosófico
abrangente, não tínhamos condições de avançar. Fácil de entender essa perspectiva, porém
difícil de implementar e prever suas implicações. Alguns profissionais resistiram, de modo que
fizemos a leitura e estudamos os textos em grupo, capítulo por capítulo.

As primeiras discussões se concentraram no uso da alma por Hillman e isto foi complicado
porque utilizamos o trabalho de Thomas Moore, que era muito acessível, mas nos retornava
repetidamente para a singularidade da alma cristã como objeto. É de difícil compreensão a
idéia da alma como "uma perspectiva ao invés de uma substância, um ponto de vista em
direção a coisas em vez da coisa em si"11 e "tentar ver a alma, não como singular, mas um
múltiplo de si mesma" 12. Ainda lutamos com isto e precisamos lembrar-nos sempre de que
esta intensa batalha é alma.

Gastamos tempo discutindo o arquétipo da dependência, mas foi Rafael López-Pedraza quem
ressaltou que o uso compulsivo não é arquetípico, mas titânico, "sem lei, sem ordem, sem
limites."13Isto nos salvou da cilada de usar o arquétipo como um tipo ou categoria de
diagnóstico. A verdadeira transformação aconteceu quando começamos a focalizar na "base
poética da mente."14 Considerar o tratamento da dependência química sob o aspecto poético,
intuitivo, estético, holístico, em contraposição a um aspecto literal, analítico, científico ou
acadêmico, causa uma profunda e relutante mudança pessoal e profissional, uma mudança
monumental.

Quando solicitados a considerar o tratamento sob uma perspectiva poética, os terapeutas


geralmente respondem que já fazem isto, uma vez que o objetivo do tratamento é a melhoria
da qualidade de vida ou ter os valores espirituais renovados. Ainda assim, um exame rápido
demonstra que os Doze Passos de AA/NA, em especial os primeiros cinco, são usados como
instrumentos para "penetrar a negação", evocar "entrega" e "aceitação" de alguma causa da
dependência. Algo muito analítico, muito literal.

O desenvolvimento de uma base mental poética é um trabalho longo e árduo, uma nova
filosofia, pois questiona todas as hipóteses da terapia atual. As patologias são tidas como
"existencialmente humanas e, assim sendo, fundamentalmente normais". 15 É difícil para alguns
aceitarem que "cada vida é formada por sua imagem única, uma imagem que é a essência
dessa vida que a chama para um destino" 16 e ver cada imagem tão diferente quanto a
totalidade do "contexto específico, humor e cena"17. A Regra de Ouro da terapia é "aderir à
imagem", 18que apresenta ao invés de representar, conota ao invés de denotar, evoca ao invés
de descrever.19 A terapia consiste em aprofundar-se, não mudar a imagem, mas ganhar
perspectiva e apreciação, de tal forma que o uso compulsivo de uma droga psicoativa não mais
combine com o quadro.

A observação de James Hillman é aplicável: "Seu objetivo terapêutico não deve ser nem a
adaptação social ou a individualização pessoal, mas ao inverso, um trabalho a serviço da
restauração da realidade imaginal do paciente." 20 "A personalidade saudável, madura ou ideal
irá, então, mostrar que conhece sua situação ambígua e dramaticamente mascarada. Ironia,
humor e compaixão serão a sua marca, uma vez que estes traços indicam uma consciência da
multiplicidade de significados e destinos e a multiplicidade de intenções incorporadas por
qualquer sujeito a qualquer momento."21 O objetivo não é mais o crescimento na direção da
perfeição.

A porta principal para a imagem é a estória. Fazemos uso da arte, música, esportes e poesia,
mas a estória da vida relatada numa reunião de pessoas com uma experiência similar é o
acesso mais econômico à imagem. Devemos nos lembrar de que a estória é a ficção do
momento, a ilusão necessária e não a imagem, mas que revela a imagem. 22 A tendência é ver
a estória como a imagem que conduz à interpretação, o que destrói a narrativa e a imagem.
Quando uma sessão de estória se torna monótona, normalmente é o que está acontecendo.

Foi difícil abandonar as sessões individuais de terapia, que consumiam muito tempo, eram
caras e causavam divisão, até que fomos direcionados ao capítulo final do livro de Robert
Stein, Incesto e Amor Humano: "O uso da transferência como instrumento terapêutico é mau
para a alma."23 "A ausência de experiência grupal representa uma infeliz omissão na análise
ortodoxa."24 "Tentar dizer ao outro qual é a percepção que ele tem de mim reflete uma certa
dose de arrogância científica bastante destrutiva."25

A mescla da psicologia arquetípica com o tratamento de Doze Passos tem gerado um produto
melhor. Resultados melhores a um custo mais baixo. Profissionais super qualificados têm sido
substituídos por assistentes sociais que administram um programa simplificado. Pela manhã,
acontece uma apresentação didática e uma estória é contada ou repete-se uma estória
pessoal. À tarde, há um grupo de sentimentos seguido por diversas atividades comuns tais
como: arte, música ou esportes. As noites são livres para freqüência às reuniões de Alcoólicos
ou Narcóticos Anônimos. Deixamos um tempo livre para os dependentes trocarem suas
estórias informalmente. Aprendemos a abrir espaços e a confiar os pacientes uns aos outros.

O produto vende bem. Para apresentar esta posição ao público, organizamos eventos artísticos
como "Rei Lear" de Shakespeare, " A Divina Comédia" de Dante, os mitos de Psyche e Eros, I
Ching, Os Sete Pecados Capitais, Contos de Fadas, "Fausto" de Marlowe, análise de sonhos,
música popular, festivais de música folclórica e os analisamos sob o ponto de vista da
psicologia arquetípica. Os participantes saem com um sentimento de que estamos fazendo
algo diferente e profundo.

A taxa de recuperação é o primeiro indicador de eficiência. Sabemos que pacientes de


empresas como Johnson & Johnson, Caterpillar, Goodyear, Avon, do sistema público de
transportes e da indústria petrolífera têm entre 60 a 80% de recuperação, medidos através de
uma melhoria do desempenho no emprego. Só podemos acompanhar o sucesso de pacientes
particulares através da sua freqüência às sessões de pós-tratamento e reuniões de ajuda-
mútua, que também apresentam uma média de 60 a 80% de índice de recuperação. Quando a
estória é o foco, há uma transição suave e natural entre o tratamento e cuidados do pós-
tratamento. Também deve ser mencionado que o Brasil favorece uma experimentação
inovadora, já que possui uma cultura poética e politeísta 26 sem a ameaça de litígios, licenças
obstrutivas e certificações, sem que haja necessidade de uma obediência ao DSM ou
"managed care".

Este processo não tem sido fácil. Estudei os artigos publicados de Hillman, assisti a algumas
de suas palestras, escutei as fitas do Festival de Psicologia Arquetípica conduzido na
Universidade de Notre Dame em 1992, li os Spring Journals de 1970 até hoje, e os importantes
trabalhos de Adolf Guggenbuhl-Craig, Charles Boer, David Miller, Edward Casey, Ginette Paris,
Greg Mogenson, Mary Watkins, Rafael Lopez-Pedraza e Roberto Stein. Somos especialmente
gratos a Jay Livernois, Cindy Sebrell, Charles Boer, Ben Sells e Rafael López-Pedraza que,
pacientemente, nos conduziram através de longas e intensas discussões para a configuração
da psicologia arquetípica para o tratamento da dependência química.

A citação abaixo da literatura de psicologia arquetípica ressoa com a abordagem de Doze


Passos dos Alcoólicos Anônimos que melhor expressa o objetivo de nosso programa:
Um novo sentimento de perdoar-se e aceitar-se, começa a espalhar e circular. É como se o
coração. . . estivesse aumentando sua influência. Aspectos sombrios da personalidade
continuam com seu peso negativo, mas agora dentro de um contexto de uma "estória" mais
ampla, o mito de si mesmo, e o começo de um sentimento de que eu sou como eu devo ser.
Meu mito transforma-se em minha verdade; minha vida torna-se simbólica e alegórica. Perdoar-
se, aceitar-se, amar-se e mais, perceber-se como pecador mas sem culpa; agradecido por
seus pecados e não pelos pecados dos outros, amando seu destino até o ponto de sempre
estar desejando ser como é e manter esse relacionamento consigo mesmo. 27

1 Operamos dez centros que utilizam o Modelo Minnesota em regime de internação,


ambulatorial e programa para familiares, com aproximadamente 250 empregados e temos
tratado mais de 25.000 dependentes e seus familiares. Vide: http://www.vilaserena.com ou
http://www.vilaserena.com.br.

2 Reconhecemos uma contradição interna aqui.

3 Apenas 5% dos que freqüentam as reuniões de Alcoólicos Anônimos permanecem após um


ano. Vide: Bragg, John, (1990) Comment's On AA's Triennial Survey, New York, AA General
Service Office. Para uma exaustiva discussão deste tema, subscrever ao listserver Addict-L:
listserv@listserv.kent.edu e "subscreva addict-l" no corpo da mensagem sem "dois pontos" e
sem assunto.

4 Sabemos que a ortografia brasileira utiliza "história" e não "estória". Fazemos uso da palavra
"estória" de forma técnica porque "história" contém uma infinidade de elementos os quais
jamais iremos nos lembrar, enquanto que a "estória" conta aqueles fatores que recordamos
dependendo de nossos valores, memória, intenção, momento e platéia.

5Também chamada hermenêutica, vide Parry, A. e Doan, R., Story Re-Visions - Narrative
Therapy in the Postmodern World, 1994, Guilford Press, New York.

6Grupos de auto-ajuda de ateus tais como o Rational Recovery (http://rational.org/recovery/)


estão em crescimento.

7 Editora Imago, RJ, 1978 e 1993.


8Hillman, J. e Ventura, M., We've Had a Hundred Years of Psychotherapy and the World's
Getting Worse, 1992, Harper, San Francisco.

9Desenvolvi um guia com 30 páginas para a equipe terapêutica com alguns destaques do livro
Psicologia Arquetípica - Um Breve Relato, de James Hillman, 1983, Cultrix. Este documento
pode ser adquirido através de nossa home-page http://www.vilaserena.com ou
http://www.vilaserena.com.br, clicando em "Downloads". James Hillman o leu e fez alguns
comentários que estão inclusos no texto.

10 Hillman, J., Psicologia Arquetípica - Um Breve Relato, p. 22.

11 Hillman, J., Re-Visioning Psychology, 1976, Harper Perennial, New York, p. xvi.

12 Correspondência pessoal de James Hillman para John Burns, Maio 1998.

13Vide López-Pedraza, R., Cultural Anxiety, 1990, Daimon Verlag, Einsiedeln, Switzerland,
Chapter I "Moon Madness—Titanic Love."

14 Hillman J., Psicologia Arquetípica - Um Breve Relato, p. 27.

15 Ibid, p. 72.

16 Hillman, J. O Código do Ser, Objetiva, 1996 p. 51.

17 Hillman, J. "An Inquiry into Image", Spring 1977, Spring Publications, p. 62.

18 Atribuído a Rafael López-Pedraza, Veja Berry, P., "An Approach to the Dream", Spring 1974,
p. 61.

19 Hillman, J. "An Inquiry into Image", Spring 1977, Spring Publications, p. 84.

20 Hillman, J., Psicologia Arquetípica - Um Breve Relato, p. 24.

21 Ibid, p. 89.

22Por que recontar a estória a um grupo é tão eficaz é raramente questionado porque seu
impacto é óbvio, mas a explicação mais profunda e técnica pode ser encontrada na brilhante
contribuição ao estudo do alcoolismo e AA de Gregory Bateson em seu capítulo: "The
Cybernetics of Self: A Theory of Alcoholism", a ser encontrado em seu livro "Steps to an
Ecology of the Mind", 1972, Ballantine Books, NY e no periódico Psychiatry, Vol. 34, No. 1, pp.
1-18.

23Stein, R. Incesto e Amor Humano - A Traição da Alma na Psicoterapia, 1973, Símbolo, SP, p.
201.

24 Ibid, p. 204.

25 Ibid, p. 201.

26Vide John Burns, "A Twelve Step Meeting of the Afro-Brazilian Gods", Spring 61, 1997,
Spring Publications, pp. 113-124.

27Hillman, J., Insearch – Psychology and Religion, 1994, Spring Publications, Woodstock,
Connecticut, 2nd Revised Edition, p. 119.
De: "Lost Souls – Spring 65 – A Journal of Archetype and Culture", Spring and Summer, 1999,
Spring Journal, Woodstock, Connecticut, página 15:

O HOMEM QUE IMITAVA PASSARINHO

(homenagem a Bertolt Brecht)

Miguel Coelho
A sala transpirava. O ventilador era um monstro ronronante desanimador sobre a estranha
mistura de tipos naquele gabinete de produção para o programa de variedades mais popular da
TV: palhaços, engolidores dos mais incríveis objetos, mulheres barbadas, contorcionistas,
mágicos, malabaristas. Amadores e profissionais. Anõezinhos diversos, pra mais de sete e sem
Branca de Neve.

Da janela escancarada, o som surdo da rua aumentava ainda mais a irritação do auxiliar de
produção e a expectativa dos candidatos à mediocridade semanal. Era difícil aparecer um
número interessante, o público daquele programa classe C não exigia muito, mas, mesmo
assim, o animador , também o dono do sistema de TV, queria sempre algo de novo e aí
choviam as broncas.

A fila de "artistas penados" minhocava em círculo lento pela sala. A mocinha funcionária ia
tomando os dados de cada um para a programação, sonhando, quem sabe, ser algum dia uma
estrela reluzente pulando para a fama (até agora só pulara para a cama do homem).

Lá pelas tantas da fila, surgiu um tipo comum, sem fantasia – quase todos estavam fantasiados
com seus melhores trapos –, melancólico e desnutrido.

– O que faz o senhor? gritou o aprendiz de produtor.

– Imito passarinho, respondeu tranqüilamente o candidato.

– Ora essa, meu amigo, imitador de passarinho... Isso é o que dá mais por aqui. É o tipo de
habilidade idiota que o chefão não quer nem ouvir falar. Todo mundo nessa cidade imita
passarinho. É araponga, sabiá, tico-tico. Chega de passarinho!

– Mas eu imito passarinho, balbuciou timidamente o homem.

– Eu não quero mais saber de seus "predicados". Olha só o tamanho da fila! O senhor está
tomando o meu tempo. Vamos circular! Vamos circular!

O homem, desconsolado, afastou-se da mesa do produtor, aproximou-se da janela aberta e


saiu voando.