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A Casa do Começo da Rua

15.03.2004
Toda essa baboseira de luz no fim do túnel...
no final das contas não é baboseira nenhuma.
Dedico essa história àquelas pessoas que têm a chave na mão.
E a porta na frente de seus narizes.

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Capítulo I

A Casa do Começo da Rua.

por Maven - mavenmusic@hotmail.com

Lá estava Eduardo, sentado na mesa da copa, tremendo e babando de tão


fulo que se sentia. Raiva pura. Sabe quando bate o mau humor
destampado e não tem jeito de desamarrar a cara? Pois é, igualzinho ao
que Eduardo experimentava, imprecando sentado. E as palavras iam de
“bastardo” até “diabo”.
A mãe do rapaz também estava na mesa.
Ela num canto e ele no outro.
A mulher, que beirava os cinqüenta anos, conservara muito de sua beleza
juvenil e aprendera a ser paciente também. Pelo menos disso ela poderia
tirar vantagem agora, Eduardo parecia estar impossível e ela sabia que se
seu filho chegasse em casa desse jeitinho e fosse direto sentar-se na mesa
da copa como havia feito, voando feito um furacão, passando, destruindo,
arrasando e ignorando tudo pelo caminho, era sinal evidente de que algo
não estava bem. Desde pequenino ele tinha esse gênio forte.
E ela, a mãe, teria que escutar horas e horas de lamentação.
Tempestade na certa.
E o garoto bufava agora:
- Foi ele mãe!!! Foi ele!!! Foi aquele cachorro! Maldito! Ai que ódio! Juro que um dia eu ainda me
vingo daquele desgraçado! Se eu o pego de jeito... ah! Ele vai ver só! Torço o pescoço do infeliz e
quero ver! – Eduardo tremia de raiva. Tinha o rosto tão vermelho que poderia ser confundido com
um veranista descuidado. Seus braços estavam cruzados, como uma criança que faz birras,
carantonhas e depois emburra – Ele implica comigo! Arranja sempre um jeito de me arruinar o dia!
- Quem? – Perguntou Sônia, a mãe de Eduardo, lixando as unhas da mão, com a pose muito ereta,
sentada do outro lado da mesa, tentando aparentar altivez e um pouco de descaso para amenizar
a situação e quem sabe tentar deixar o problema do filho não parecer grande coisa. Armada com
um estoque de paciência foi logo indagando – O que aconteceu?
O garoto estava descontrolado, sua cólera era tamanha que não podia nem raciocinar direito. Dona
Sônia estava acostumada com as explosões de seu filho e antigamente nem dava tanta
importância para os “barracos”. Mas Eduardo andava muito estressado por causa do vestibular,
então por mais fútil que fosse o motivo da irritação, ela procurava ajudar da melhor maneira
possível.
Mas sabia que não havia de ser nada de importante.
Provavelmente bobagem e pura ladainha.
Na maioria das vezes era.
Eduardo era um belo rapaz. Tinha a pele lisa e bem branca, pura culpa da falta de sol e excesso
de chuva que Curitiba costuma ter. Possuía olhos negros ladeados por pestanas longas e
sobrancelhas oblíquas. Seu nariz era do tipo normal, mas seus lábios... eram coisas de outro
mundo. Naturalmente rubros e úmidos. Sem contar seus dentes que eram perfeitos e muito
brancos.
Seus cabelos contrastavam com o branco da cara, pois eram de uma coloração negra reluzente
como piche e escorriam pela testa de tão lisos que eram.
Não havia melhor moldura para uma face tão bela.
Seus traços eram delicados, porém marcantes. A barba ainda não começara a crescer e ajudara
para manter seu aspecto de menino, apesar de ter dezenove anos.
Eduardo também possuía o porte atlético. Não chegava a ser musculoso, mas era bem forte, tendo
as coxas grossas, tórax delgado com os músculos do peito desenvolvidos.
Era orgulho do papai e da mamãe e dos quatro avós.
Garoto prodígio, filho único, tocava violão, se destacava nos esportes, colecionava medalhas e
troféus de campeonatos que participara na época de colégio, sem contar que sempre fora um dos
melhores alunos da instituição tendo sempre as notas impecáveis. Tirar algo abaixo de noventa era
um absurdo e motivo para desconfiar que Eduardo estava doente.
Mas doente ele nunca ficava.
Tinha a saúde de ferro instalada em um corpo de aço.
Seu sorriso perfeito derretia corações à distância. Causava sérias emoções quando passava perto
das garotas do cursinho, lugar onde ninguém conhece ninguém e todos especulam da vida de todo
mundo.
“...ouvi dizer que ele tem namorada...”, uma cochichava, “...a Fernanda já conversou com ele e
contou que ele é vesgo, mas só dá para perceber se você olhar bem de perto...”, outra dizia, “...o
nome dele é Edmundo, ou Eduardo... sei lá, algo parecido e que comece com Ed...”, ao passo que
outra garota confidenciava misteriosamente, “...eu já ouvi falarem que ele é casado, pois a minha
amiga conhece um primo do amigo dele, aquele que foi na festa da Silvana...”.
Comentários à parte, Eduardo era reparado, tanto pela sua beleza, quanto pela sua estatura, uma
vez que tinha um metro e oitenta e nove.
E não era vesgo.
Sabia-se notado, e por isso gostava de andar sempre arrumado. Trazia seus cabelos negros
alinhados e suas roupas impecáveis.
Não que fosse meticuloso e todo certinho como um compulsivo paranóico, isso não era, mas andar
feito um favelado estava fora de cogitação! Certa vez tentara aderir à moda grunge, meio skatista,
mas não deu certo, pois tinha que andar todo largadão e isso acabou lhe dando nos nervos.
Era bonito, era, sem dúvida alguma, mas tinha esse gênio ruim que azedava até Madre Tereza de
Calcutá!
Não havia quem dobrasse esse gênio ruim de cabeça dura. Tão teimoso que era, tão peste que
não adiantava rezar nem fazer novena para o mais poderoso de todos os santos do céu que
Eduardo não cedia nunca e nem dava o braço a torcer. Ou era ficar do lado dele, ou ficar quieto. Ai
de quem ousasse ir contra, arrumava dor de cabeça na certa. Os pais sempre pegavam leve
quando iam dizer alguma coisa que poderia, talvez, resultar em chateação. Mas felizmente, o
garoto respeitava muito os pais e jamais iria contra qualquer uma de suas vontades.
Mas fora isso, quem não o conhecesse de longa data iria querer esganá-lo quando o encontrasse
nesta fase horrorosa de gênio destampado em ebulição máxima.
Mas mesmo que sua índole fosse belicosa, ele não era um rapaz ruim.
Era só o seu jeito.
No mais estava sempre de bom humor, sempre sorrindo.
Adorava o barulho da chuva caindo. Podia ficar horas na janela vendo toda a poesia que um
temporal traz consigo. Todos aqueles pingos, todos os movimentos e as gotículas achando rumo
no vitral. Às vezes apenas encostava a cabeça no parapeito e fingia que a chuva caía dentro de
seu corpo e em questão de instantes em seu interior tudo se punha a dançar.
Ficava sempre emocionado ao final dos filmes, até dos de gosto e produção duvidosos.
Era um rapaz prestativo e sem medo de trabalho. Irresponsabilidade passava a quilômetros de
distância. Certa vez até trabalhara como voluntário em pleno inverno distribuindo agasalho e
comida para desabrigados.
Mas no momento... o inferno era formiga perto da revolta elefanta que o rapaz sentia.
E Eduardo seguia resmungando sentado em sua cadeira, com o sangue fervendo:
- É sempre assim... Sempre! Basta eu passar perto que isto acontece! Parece que eu fui o
escolhido daquele imbecil. Parece que eu sou a única diversão que aquele sádico tem!
Descruzou os braços e bateu com os dedos na mesa, enquanto balançava a cabeça em
indignação. Xingava com a boca cheia:
- Idiota infeliz! Que ódio! – e jogava a cabeça para trás loucamente feito um Judas sendo malhado,
fazendo-se de vítima maior do sofrimento existente na face da terra – mas ele vai ver! Um dia
aquele cachorro me paga! Ele há de ter o que merece!
- Ele quem meu filho? – a mãe insistia – É alguém do cursinho? Um garoto da sua aula de
redação? É o garoto...
Eduardo interrompeu a mãe com violência:
- Garoto? Mãe, quem falou em garoto aqui? Que garoto que nada! Eu já tô dizendo faz meia hora
que foi aquele cachorro maldito!
- Ca-ca-cachorro? – indagou a mulher, que agora estava confusa. Dona Sônia já sentia uma
dorzinha de cabeça surgindo do além. Arrumou sua postura e continuou – Que cachorro meu filho?
- Oras! – fez Eduardo, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo – Como assim que
cachorro??? – indignou-se mais ainda o rapaz, que a esta altura já estava batendo as mãos em
suas coxas de tão nervoso. Completou – Aquele cachorro daquela casa...
Sônia interrompeu:
- Casa? Cachorro?
- Ih... embestou é? O cachorro mãe! – Eduardo admirou-se da súbita lerdeza que a mãe
apresentava e foi explicando como alguém que explica algo a uma criancinha de dois anos –
Cachorro! Sabe? – e completou com a alma carregada de ironia – também conhecido como “o
melhor amigo do homem”, aquele bichinho babão que anda com quatro patinhas, abana o rabinho
e é besta pra dedéu... caninos...
Sônia ficou no ar.
Não sabia o que falar.
Pensara, na certa, que era um probleminha banal... mas não tão banal quanto um cachorro! Aliás...

– Que cachorro? – quis saber a mulher, que a esta hora já havia se esquecido totalmente de lixar
as unhas e encarava o filho com ar de intriga.
- Aquele do começo da rua – explicou Eduardo, apontando com o indicador a direção – aquele
daquela casa misteriosa – disse ele abaixando o tom de voz.
Referiu-se à casa “misteriosa” como alguém que confia segredos cabeludos. Havia um grande
enigma envolvendo a casa do começo da rua e era sempre assim que as conversas ficavam cada
vez que o local se tornava parte delas.
Era o seguinte: fazia tempo já, quase dez anos, que uma família mudara-se para lá, mas depois
disso, ninguém jamais viu um morador de perto. Nas raras vezes que alguém os via, faltava
coragem ou assunto para aproximações. Logo, não havia quem soubesse como eram estas
pessoas, o que faziam, aonde iam e porque sumiam.
Era verdade que eles não davam sinal de vida.
Poderia até se afirmar que o local estava vazio, se a casa não estivesse sempre bem conservada,
se não fossem as luzes acesas de noite, ocasionais aparições nas janelas e raríssimas, mas
raríssimas vezes em que alguém saía para o jardim da frente durante o dia.
Tamanha falta de sociabilidade gerava uma curiosidade geral naquela rua.
Quem seriam os moradores da casa do começo da rua?
- O cachorro daquela casa? – indagou Sônia muito pasma. Agora sua curiosidade fora aguçada... o
interesse era muito quando se tratava da casa do começo da rua.
- É! – respondeu Eduardo curto e grosso.
- Ah bom! – disse a mulher, que depois parou refletindo, franziu o cenho e comentou decepcionada
– Mas... meu filho... aquele cachorro é um pequinês!!! Um pequinês!!!
O rapaz ficou ainda mais vermelho:
- Um pequinês... um pequinês!!! – arremedou o garoto imitando a voz da mãe em tom de mofa.
Depois completou sério – É! Um pequinês que quase me atorou a perna fora! Se não fosse a
minha esperteza eu tinha morrido ali no meio da rua!!!
Dona Sônia nem respirava mais de tão impressionada que estava com o dramalhão que o filho
estava aprontando. Olhava para o rapaz – que não olhava de volta para ela.
A mulher parou com tudo e tentou imaginar a cena.
Tentava imaginar o pequinês correndo atrás do filho como um animal feroz.
Não conseguia formar essa imagem de jeito nenhum.
Achou graça até.
Finalmente sorriu e discordou do filho:
- Oras... É um cachorrinho tão bonitinho, tão pequenino que duvido que faça mal a uma mosca! –
voltou a lixar as unhas e continuou a falar incrédula – onde já se viu um pequinês causar risco de
vida? Um bichinho tão fofinho... com um focinho tão delicado, aposto que ele é tão frágil quanto um
cristalzinho!
Eduardo se contorceu inteiro. Segurou-se ao máximo para não xingar a mãe, tremia tanto que fazia
os bibelôs da mesa trepidarem, quase trazendo abaixo o arranjo de flores:
- Isso é o que você pensa! – retrucava indignado – Aliás, isso é o que ele quer que vocês todos
pensem! – completava parecendo um louco – Mas a mim ele não engana! Ele já mostrou quem ele
é! – e o rapaz seguia fazendo gestos – Aquela bocarra enorme cheia de dentes! É um bicho do
mal! É uma besta satânica!!!
- Nossa! – exclamou a mãe do garoto, que a esta hora já estava ficando farta de ouvir tamanhas
besteiras – Que exagero Eduardo! Que drama! Onde já se viu eu já perguntei!? Coitado do
cachorrinho! – e gralhava com o filho, até que perguntou, só para desencargo de consciência –
Que mal ele te fez? Ele te mordeu?
O garoto que já ia reclamar parou com a boca aberta e dedo a caminho de ficar em riste...

Putz!

...Agora estava desarmado...


- Não... – respondeu Eduardo sem graça – mordeu não... – Passados alguns segundos
acrescentou cerrando os olhos e espremendo os lábios como se fosse um herói de guerra
relatando como escapou da morte – Mas desta vez ele passou bem perto! Faltou isso aqui só! – e
aproximou o indicador do polegar deixando apenas um vãozinho de nada, representado a distância
que separou sua perna da boca trituradora do cão.
- Filho... – suspirou a mulher voltando a lidar com as unhas – só prá saber... o que você pretende
fazer?
- Eu? – o rapaz indagou, pego de surpresa – Bem... eu não sei! Talvez dê veneno para ele, não
sei!
O olhar fulminante da mãe sobre si fez com que Eduardo percebesse que ela não havia gostado
nadinha do comentário, o que o levou a remendar imediatamente:
- Ou... ou... talvez eu vá pedir para alguém daquela casa, bem, tem que ter alguém lá, né? Pois é,
eu vou pedir... eu vou pedir... para alguém prender o cachorro no quintal! É! Bem isso o que vou
fazer!
Sorrindo, Sônia exclamou orgulhosa:
- Agora sim, esta é uma solução mais adulta!
- Pois é! – concordou Eduardo – Onde já se viu deixar uma peste como aquela solta pela rua? É
um perigo! Uma ameaça para as crianças!
- Chega Eduardo! – a paciência da mulher era muita, mas tinha limite – Chega! Se fosse um Pitbull
vá lá! Mas estamos falando de um pequinês!!! Não dá nem para pensar que um cão tão pequeno
possa amedrontar um garoto do seu porte!
O rapaz ainda tentou:
- Mas mãe...
- Chega eu já disse! – sem pestanejar Sônia fez o filho se calar. Aquela ladainha já extrapolara
todos os limites – Amanhã vá falar com os vizinhos e por hora não solte mais nem um piu! Suba
pro seu quarto e quando o almoço ficar pronto eu te chamo!
Eduardo, que estava pronto para dizer mais coisas em sua defesa, diante das palavras autoritárias
da mãe teve que reprimir os sutis vocábulos na boca, mastigando-os bem, misturando com a saliva
e engoli-los de volta, muito amargos e cortantes. A testa do menino franziu-se de tal modo que
qualquer pessoa notaria de longe que o rapaz lutava para não cortar os pulsos fora.
Mas por fim, calou-se a contragosto.
Como a mãe podia encarar aquele problema tão pacificamente? Que espécie de mãe seria aquela
que não se preocupava sequer se o filho fosse devorado na rua por um cão selvagem?
Levantou-se e foi para o quarto muito indignado.

Cenário Cotidiano - Das brincadeiras para a faculdade


22.03.2004
"Puderam perceber que estavam mudando quando as brincadeiras de “casamento atrás da porta”
já não eram tão inocentes quanto eram em tempos idos..."

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por Maven - mavenmusic@hotmail.com

Assim que entrou no quarto Eduardo atirou suas coisas em cima


da cama como alguém que procura transferir a raiva para um
ponto só. Ai, se ao menos tivesse um João Bobo, poderia socá-lo
até descontar tudo! Mas não tinha e o jeito era mesmo tentar
relaxar naturalmente...
Mudou de roupa.
Colocou uma calça de moletom azul e uma camiseta da mesma
cor.
Gostava de se vestir à vontade para estudar. Ficava tranqüilo,
em paz e mergulhava então no mundo dos livros e apostilas.
Tirou o material da sua pasta vermelha. Tinha acabado de voltar
do cursinho, e faria as tarefas do dia.
Disso pelo menos ele gostava e serviria para desviar sua cabeça da situação pela qual passava.
Eduardo queria ser médico e para tal a concorrência era muito forte.
Era obrigado a viver estudando e fazendo todas as lições da apostila, mas essa obrigação não o
incomodava, pois desde muito cedo era acostumado com estudos. Não que os pais exigissem
notas impecáveis, mas ele sim as exigia, era uma espécie de autocobrança.
Muitas vezes ele deixara de comer, dormir e até de sair para festa de amigos, só para ficar
estudando.
Um pouco de neura, ele admitia, mas nada que o prejudicasse, pois sabia que no fim das contas ia
valer a pena. Estudaria com muito afinco e que os prazeres ficassem para depois! Fazia tempo que
não encostava no violão para tirar uma notinha musical sequer e sempre que se conectava à
internet, gastava horas e horas pesquisando sites de medicina, faculdades, fóruns sobre a vida
acadêmica e etc... Passava longe das salas de bate-papo que antes muito lhe faziam gosto.
.....

Eduardo crescera feliz naquela rua. Tivera muitos amigos de infância, mas todos agora já eram
crescidos e não brincavam mais. Logicamente Eduardo não queria brincar de queimada nem
esconde-esconde, mas sentia que era uma pena a turminha da rua ter se dissolvido assim que a
puberdade veio alcançando todos.
Puderam perceber que estavam mudando quando as brincadeiras de “casamento atrás da porta” já
não eram tão inocentes quanto eram em tempos idos. E pouco a pouco, as meninas, que sempre
amadurecem antes dos garotos, não se permitiam mais participarem de todas as ações conjuntas
da galerinha da rua.
Poderiam ainda estar amigos hoje e formar uma trupe legal, armando churrascos de fim de
semana, fazendo festas e agitando por aí.
Mas... cada um se arranjou como pôde e já não batiam um à porta do outro como antigamente
para fazer qualquer coisa, nem para conversas.
Realmente era mais uma dessas boas fases da vida que tinham se acabado.
Eduardo arrumou sua turma no colégio e no time de futebol da escola.
Desta época, sobraram apenas alguns poucos amigos e muitos apelidos em seus ombros, como
Duda, Dudú, Ed, Eddie, Dú, Edú ou o que ele mais odiava: Dado.
Essa sua turma o tinha acompanhado pelo segundo grau, até que ao término deste, todos
tentaram vestibular, inclusive Eduardo.
A maioria não obtendo êxito, entrou no cursinho.
Combinaram todos de entrar na mesma sede, para não se separarem e para poderem formar
grupos de estudos (que, diga-se de passagem, nunca chegaram a ser formados devido à falta de
interesse dos colegas de Ed).
Alguns de seus amigos do colégio antigo caíram na mesma sala que ele, e ali compartilhariam
juntos mais um ano de estudo e sofrimento. Encarar todas aquelas matérias em ritmo de cursinho
e suportar toda a pressão externa e interna não seria nada fácil!
O seu melhor amigo, Fábio, também ficara na mesma sala e com isso Eddie se alegrava, pois
sabia que se alguma vez chegasse a se abater, Fábio logo viria lhe dar uma boa injeção de ânimo.
Verdade era que Fábio andava um pouco distante, mas ainda sim Ed via no garoto um grande
amigo.
Mas Eduardo até que estava indo bem.
Ficava sempre entre os cinco primeiros colocados nos provões e simulados que seu cursinho
promovia. Achava isso bom, mas não excelente. Sabia que se estudasse mais e mais poderia
galgar os degraus dourados que levavam ao primeiro lugar do podium.
Tinha certeza que todo sacrifício teria sua recompensa e era isso o que ele esperava por tanto
empenho: passar na UFPR, que apesar de andar capengando, ainda tinha prestígio e fazia parte
do sonho de cada vestibulando de todas as sedes de Curitiba.
Ficou revisando as matérias do dia e conferindo as da véspera enquanto o cheiro do almoço quase
pronto vinha invadindo o quarto.
Sabia que não demoraria muito e a mãe iria vir chamá-lo para almoçar, estava com uma bruta
fome, mas pensara em não descer, só para provar como era fodão, birra pura, mas já que a mãe
não havia dado importância ao fato do cachorro lhe avançar, poderia muito bem não dar
importância para o almoço também!
O estômago roncou alto. Decidiu que era melhor não fazer isso.
Fechou as apostilas e ficou só aguardando.
Seus pensamentos começaram a fluir, sua imaginação era poderosa e ganhava asas até mesmo
quando Eduardo não queria.
Mas desta vez ele queria.
Estava lembrando de algo que ocorrera havia uma hora apenas e fora muito curioso.
Depois da saída do cursinho Eduardo pegou o ônibus para voltar para casa como costumava fazer
todos os dias, e estava muito tranqüilo imerso em pensamentos, quando, subitamente, percebeu
um garoto o encarando.
Encarando mesmo, na cara dura.
Olhou em volta para ver se não estava enganado, mas não estava, eram dirigidos a ele os olhares
do garoto.
Que será que o rapaz queria?
Eddie pôs-se a pensar e chegou à conclusão de que o garoto só podia mesmo era estar o
confundindo com alguém. Uma força nova vinda de não se sabe onde fez Eduardo levantar bem a
cabeça e retrucar o olhar. Talvez estivesse por demais intrigado pelo olhar perfurante e convicto do
outro rapaz que quisesse descobrir quais seriam as verdadeiras intenções por detrás dele. Estaria
o garoto com vontade de lhe falar alguma coisa?
E Edú não desviou os olhos.
Resolveu continuar encarar o rapaz, que a esta hora, já estava sorrindo.
Sorria com certo nervosismo, mas sorria.
Eduardo achou o rapaz muito simpático, sorrindo daquele jeito, mas não sorriu de volta.

TRRRRIIIIIMMM!!!! TRRRRIIIIIMMM!!!!
Arrancado subitamente de sua lembrança, Eduardo atendeu ao telefone bem depressa:
-Alô?
-Amoooooor!!! – bradou uma voz feminina e irritantemente melada do outro lado da linha.
Era Camila, a namorada de Eduardo.
Uma garota linda. Tinha dezessete anos, cabelos loiros longos e perfumados. Sua pele era pintada
por sardas que a deixava com um ar sapeca, e seus olhos, enormes e muito azuis, contribuíam
ainda mais para este aspecto se firmar.
Seu corpo era delgado, delicado, parecendo que o mínimo toque o faria se quebrar. Era rata de
academia, fazia ginástica aeróbica e adorava todas as novidades do mundo fitness.
Não era muito alta, mas se destacava no meio das outras garotas.
Edú a conhecera no baile do colégio onde estudava.
Ele, já estava no segundo ano do segundo grau e tinha dezessete anos, ela ainda estava na oitava
série, com quinze anos na época.
Era um baile à fantasia.
Todo ano os formandos do terceirão promoviam um, como uma forma de despedida, e este baile,
era aberto a todas as séries a partir da sétima.
Ela estava vestida de Fada Azul, meiga, com purpurina jogada sobre os ombros e cabelos, e ele
estava fantasiado de Zumbi do Mato, com as roupas todas rasgadas, cara pálida cheia de pó,
olheiras pintadas e folhas secas grudadas nos braços e pescoço. Estava mesmo era parecendo
um jagunço com anemia.
-Não acredito que você veio assim! – exclamou Fábio sorrindo – logo você, que vive todo certinho
e arrumado. Pensei que você vinha fantasiado de príncipe ou qualquer coisa do gênero, mas meu!
Tua fantasia tá muito engraçada!
-Ah... nem fala nada! – disse o rapaz que já estava se arrependendo por ter se vestido daquele
jeito. Pegou na aba da camisa de Fábio e indagou – E a sua fantasia? O que é? Me conta, porque
eu não estou conseguindo reconhecer!
-Como não??? – indignou-se Fábio.
-Bem... é um sapo?
-Que sapo o quê, Eduardo! Eu sou o Peter Pan!
-Ãhn... – fez Duda, erguendo a sombrancelha direita e meneando a cabeça como quem diz
ironicamente “Claro! É lógico que é Peter Pan, como não reconheci antes?”.
-Ah, tá! Deixa de onda! O que acontece é que nós dois estamos ridículos! Tanto você, que tá
vestido de “homem folha”, quanto eu, que estou de Peter Pan...
Eduardo bronqueou:
-Eu não sou um “homem folha”! Eu sou um zumbi do mato! E se você sabia que ia ficar ridículo
com sua fantasia porque a vestiu então?
-Simples caro amigo! – Fábio disse como se fosse algo muito evidente e ainda concluiu – É que as
garotas acham isso o máximo!
-É? – o outro rapaz indagou, adorava escutar as pirações do amigo. Cada vez que Fábio vinha
com uma idéia, Eduardo se deliciava prestando atenção.
-Claro! É lógico que elas gostam! Elas acham isso muito “fofo” – e desenhou as aspas no ar – Você
vai ver só, metade das garotas da festa vão estar caindo aos meus pés antes das nove e meia.
Ed respondeu em tom de mofa:
-Para cair aos seus pés, só dando altas doses de ponche para elas. Mas... se você diz... então tá
né? Fazer o que?
-Vai ter que se contentar com as sobras meu caro amigo – e riu de Eduardo.
-Ah tá garanhão!
Fábio parou de rir gradualmente, tocou a mão de Eduardo e disse:
-Não sei nem porque a gente tá falando disso... você sabe que sempre consegue ficar com quem
você quer. Você sabe que a gente sempre se arranja nestas festas.
-Eu sei, e eu não estou preocupado.
-Ainda bem que temos gostos bem diferentes! Assim nunca vamos brigar por conta de namorada.
-É verdade! Pelo menos isso! Tem para você, e tem para mim!
-É assim que se fala!
Eddie fez uma cara murcha:
-É, né? Mas Fábio, acredite se quiser, eu queria estar em casa dormindo. Eu não vim aqui pra ficar
agarrando ninguém.
-Não? – o outro arregalou os olhos.
-Não!
-E porque veio então?
-Porque eu ouvi o Carlos falar que ia colocar uma parada estranha no ponche da festa. Mais um
dos planos daquele cabeça-de-vento!
-Seu podre! – Fábio disse cobrindo a boca – E você veio só para ver o povo se estrepar?
-Claro que não! Eu vim para impedir que isso aconteça – Eddie respondeu indignado.
-E o que você vai fazer? Vai arranjar briga com ele?
-Não. Você sabe que não adianta pedir para ele não fazer porque é aí que ele faz mesmo... mas eu
vou fazer o seguinte: quando ele colocar a paradinha na bebida, eu vou lá e “sem querer” derrubo
tudo no chão.
-Sério? Você vai fazer isso? – quis saber o amigo, que admirou a coragem de Eduardo – você está
mesmo disposto a pagar esse mico?
-Sim, claro, foi para isso que eu vim!
-Ai, Eduardo! Você vai ficar mais popular ainda, mas desta vez vai estar conhecido como “o rapaz
que derrubou a única bebida alcoólica da festa”!
-Nem fale!
-Não é melhor nós dois deixarmos de beber o ponche e pronto? Para que criar alarde? Os outros
que bebam... nem dá nada!
-Não, a gente não pode fazer isso! Sabe-se lá o que o Carlos vai colocar lá dentro! Imagina se
alguma pessoa tem um pirepaque? Vai que tem gente alérgica a essas coisas? Alguém pode
morrer, sabia?
-Credo Eduardo! Você também hein? É o mestre da piração! Como pode ir tão longe sua cabeça?
Você acha que o Carlos ia colocar algo perigoso na bebida da festa? Ta achando que ele quer
matar o colégio inteiro é?
-Não, eu espero que não! Mas seja o que for que o Carlos queira colocar lá, eu vou derrubar o
ponche!
A festa continuou normal, todos dançando, até que pelo alto falante anunciaram a hora das
canções lentas. Assim que as luzes do salão se abrandaram e as músicas ficaram brandas e
românticas, Ed reparou que Carlos estava indo em direção ao grande recipiente de ponche.
Era essa a hora.
Ficou de matuto por perto. Carlos despejou o pó dentro da bebida e se retirou bem ligeiro dali.
Neste mesmo instante Eddie rumou para a mesa feito um pé-de-vento e quando estava chegando
perto do tacho, um braço branquelo e magrinho pegou a concha de vidro e já ia mergulhando na
bebida.
-Não! – gritou Eduardo.
-O que??? – a garota se assustou.
-Vo-você não pode beber isso!
-Não posso?
-Não.
-E porque? – indagou a garota, sem nada entender, com uma mão na concha e na outra um
copinho plástico bem fajuto.
-Oras! Porque serei eu quem vai beber! – disse o rapaz – Dá licença... – e ao terminar de dizer isso
ele tomou a concha da garota e arrancou o copo da mão dela também.
-Aaaai! – fez a garota, surpresa com o gesto de Edú.
-Doeu? – indagou o rapaz fazendo cara feia.
A menina armou uma cara de indignada que não tinha tamanho.
Ed fez que ia se servir e aproveitou para esbarrar fortemente contra o tacho, entornando todo o
ponche – na garota.
-Aaaah!!! Seu grosso!!!
-Desculpa, foi sem querer!
-Foi nada! Você derrubou o ponche de propósito!
-E-eeuuu? – ed apontou para o próprio peito, com a maior cara de pau – Claro que não! Mas isso é
um abuso!
-No mínimo é! Você é um abusado! Olha só! Arruinou o meu sapato!!! Você me lavou com esse
ponche!
-Desculpa... eu sou mesmo um desastrado...
-Argh! Agora já foi, seu mongo!
-Ok, tchau então!
Eduardo virou de costas e retirou-se dali.
Uma hora mais tarde as músicas lentas ainda estavam tocando, pois parecia que todos estavam
curtindo – exceto alguns poucos, que ficavam encostados pelos cantos, sentados em suas
mesinhas, fazendo caras e bocas, na esperança de que alguém viesse lhes pedir uma dança.
Eddie andava pelo salão tentando achar o amigo Fábio. Localizou-o abraçado com uma linda
garota de cabelos negros. Dançavam ao som do suave piano.
-E não é que ele se arranjou mesmo? – Eduardo comentou para si mesmo, sorrindo e cruzando os
braços – que danado esse rapaz!
Continuou vagando por entre as pessoas até que avistou a garota do ponche largada numa mesa,
apoiando a cabeça numa das mãos e com a nítida expressão do tédio em sua face.
-Posso sentar? – ele perguntou.
A garota olhou para cima e reconheceu Eduardo:
-Você tá é louco? Se você sentar é bem capaz de virar a mesa em cima de mim.
-Eu prometo que não – e dizendo isto, ele sentou-se à mesa – eu estraguei sua noite, não
estraguei?
-É... foi mesmo – disse a garota sorrindo apoiada em seus cotovelos.
-Meu nome é Eduardo. Qual é o seu?
-Camila.
-Desculpa pelo que aconteceu, tá?
-Esquece...
-Eu sou tão desastrado...
-Você é mal educado, isso sim! Se queria tomar o ponche devia ter esperado! Afinal eu havia
chegado primeiro, e mesmo que não fosse esse o caso... eu sou uma dama! Tinha preferência na
fila!
Eduardo achou graça e sorriu.
Mal ela sabia que ele a salvara de algo que ninguém, a não ser Carlos podia prever.
-É! Eu sou mesmo um mal educado.
Camila sorriu de volta.
Acabaram se beijando e arrancando comentários por todas as partes, pois sem querer, Eduardo
era o garoto mais cobiçado do colégio, e ela, era a menina mais desejada de seu pavilhão.
Desde aquele dia ficaram juntos.
Já se iam bem uns dois anos de namoro. E tudo parecia estar bem...
-Camila? – indagou Eduardo, ainda meio confuso, segurando o telefone bem próximo ao ouvido.
-Lógico que sou eu né Eduardo! Quem mais poderia ser? Se eu disse “oi amor” só posso ser eu
né? – exclamou a namorada irritada, do outro lado da linha, como se fosse a coisa mais óbvia do
mundo – Ed... – continuou ela desconfiada – ...tem mais alguém te chamando de amor???
-Não, é claro que não! – respondeu Eduardo mais que depressa, pois qualquer que fosse a técnica
usada para evitar ladainhas, essa era logo aplicada com muita felicidade pelo rapaz que detestava
as crises e churumelas da namorada – Tem ninguém me chamando de amor não.
A voz da garota se animou:
-Então tá bom!
Ele ficou mudo esperando a namorada continuar tagarelando. Não precisou ficar parado muito
tempo.
-Me conta, como foi no cursinho hoje?
-Foi normal, o mesmo de sempre... – disse Edú com desinteresse.
-Ah... nada de novo? Nenhuma novidade?
-Não... nada.
-Nada mesmo? – a garota insistiu.
A namorada ligava todos os dias.
Detalhe: várias vezes.
E queria novidades sempre!
Aquilo já estava enchendo o saco de Edú de tal modo que não sabia mais como iria agüentar. Se
havia uma coisa que ele não gostava era de chicletes grudados nos seus pés, atrapalhando os
movimentos.
-Não... não tenho novidade nenhu... – ele interrompeu a frase e voltou a falar, desta vez em tom de
fofoca – Ah! Tenho! Tenho sim! Aconteceu uma coisa estranha hoje no ônibus.
-Então conta! – suplicou a namorada já super curiosa.
-Pois é! Eu tava voltando prá casa, e no ônibus tinha um cara me encarando...
-Te encarando? – indagou Camila interrompendo a narração – Como assim? Ele queria brigar?
-Não Camila, acho que brigar era o que ele menos queria fazer... – respondeu Ed, ficando
vermelho e meio sem jeito (ainda bem que a namorada não o podia ver agora) – ...ele estava me
encarando... de outro modo!
-Que outro modo? – quis saber a namorada.
-Sabe... ele me olhava... do jeito que um garoto olha prá uma garota... do jeito que uma garota
encara um garoto... sabe?
-E... – fez Camila que precisava de mais informações pois aquelas ainda não bastavam para tirar
nenhuma conclusão.
-E... ele tava me paquerando! – finalizou Edú, agora, totalmente sem graça por ter que verbalizar o
que antes dizia sutilmente.
Agora a menina estava passada!
-Te paquerando??? Tem certeza??? – queria saber, muito pasma.
-Tenho!
-Não! Vai ver que era engano. Vai ver que ele tava olhando para outra pessoa, ou te confundiu
com alguém que ele conhec...
Eduardo interrompeu calmamente:
-Não, não foi engano nenhum. Deixa eu contar o resto.
-Vai logo! – Camila pediu impacientemente.
-Pois é, ele estava me encarando muito, ali, com o ônibus cheio de gente...
-E você? – Camila interrompeu novamente.
-Eu o quê? – quis saber Eduardo.
-O que você fez?
-Eu?
-É! – exclamou – Você!
-Nada! – concluiu naturalmente.
-Nada? – decepcionou-se a namorada – Porque simplesmente não catou ele na porrada?
-Camila – irritou-se o rapaz – você vai deixar eu terminar de contar a história ou não?
-Desculpa... – amuou-se a garota.
-Pois bem, o ônibus já estava entrando no bairro, quando eu vi que ele tirou um papel do bolso e
escreveu alguma coisa nele. Até aí tudo bem, só que antes de descer, ele veio e entregou o papel
para mim, sorrindo!
-Sorrindo?
-É! Ele tava sorrindo de canto de boca! Você não acha sorriso de canto de boca algo estranho? Eu
posso garantir que aquele rapaz sabia muito bem o que tava fazendo. Me entregou o papel com a
maior cara de pau!
-E você?
-Eu? – perguntou Edú e depois concluiu logicamente – Eu peguei o papel!
-E ele?
-Desceu do ônibus, ué! Não disse que ele tinha apertado o botão de parada?
-Não.
-Puxa... tá, mas o caso é que ele desceu do ônibus. Virou-se para trás para ver minha cara e tudo
mais!
-E o que estava escrito no papel? – perguntou Camila roendo-se de curiosidade.
-O nome e o telefone dele.
-Mas que sem vergonha!!! Que bicha descarada!!! Dando em cima do meu namorado, assim! Em
plena luz do dia!!! Isso é revoltan... – a garota parou de gralhar de repente e indagou – e você por
acaso guardou o papel?
Dudú, tentando fazer a voz natural, como se o fato não significasse nada para ele, respondeu:
-Guardei.
-Cadê? Pega lá e me dá o número que eu vou ligar e descer a boca nele, onde é que já se viu?
Vou dizer que você já tem dona! E que é muito do meu!
-Ok, ta no bolso da minha calça jeans... peraí que eu vou pegar... – levantou-se da cama e foi em
direção à calça que estava jogada a um canto do chão, vasculhou os bolsos até que encontrou o
bilhete. Voltou para o telefone:
-Tá aqui! – e leu o que estava escrito, mundando apenas o final do telefone, para a garota não
conseguir ligar – “Ligue para mim, 793- 5436, Tiago”.
Terminando de ler, dobrou o papel e guardou no meio da apostila.
-Logicamente você não vai ligar, né? – Camila quis saber.
-É claro que não! Até parece!!! – irritou-se o namorado.
-Como é que ele era?
-Como assim?
-Ele era bonito? – quis saber Camila.
-E eu vou lá achar homem bonito? – indignou-se Duda.
Ao mesmo tempo lembrou-se da cara de Tiago. O modo alinhado de se vestir e o seu porte. Era
bonito sim, mas nunca ele, Eduardo, iria admitir isso a ninguém.
-Que mal tem nisso? Um homem pode achar outro bonito sim! – exclamou a garota.
-É Camila!!! Isso eu já percebi! Tanto pode achar, como achou e veio me cantando!
-Pois é! Um descaramento... mas espera aí que eu vou ligar lá!
-Ok – concordou o rapaz, sabendo que ela não conseguiria.
Ed colocou o fone no gancho, nem bem passado um minuto, a namorada liga de volta:
-Não tem ninguém lá com nome de Tiago.
-Bom, vai ver que ele deu um nome falso – o rapaz comentou para dar mais veracidade à omissão
de informações.
-Não, porque disseram que nem morava garoto nenhum lá. O casal só teve filhas mulheres.
-Puxa, então ele só tava afim de tirar com a minha cara!
-Viu só Dú? Eu bem sabia que não devia de ser um gay te cantando, você é macho e eles sabem
quando podem ou não avançar o sinal. Realmente, ele só devia estar mesmo zoando!
-Verdade.
-Bem, mas então deixa eu contar...
A garota ainda falava quando a mãe de Ed o chamou para almoçar.
-Amor, tenho que desligar, tá? Minha mãe tá me chamando, o almoço já tá pronto. Depois eu te
ligo, ok?
-Ok!
-Um beijo!
-Outro.
.....

Na mesa da cozinha, lugar onde geralmente a família Braschi almoçava, a conversa girava em
torno de Eduardo.
Como sempre.
Talvez para fazer graça, a mãe de Edú mudou o rumo da conversa que levavam, comentando em
tom de troça:
-Pois é... seu filho agora deu para ter medo de cachorrinhos... – comentou dona Sônia para o pai
de Eddie, seu Antônio – diz ele, que o cachorro da vizinha quase arrancou a perna dele fora...
Eduardo olhou para a mulher com uma cara de “pára mãe!”, ao que o pai do rapaz comentou:
-Bem, confesso que até eu ficaria com medo se aquele monstro viesse para cima de mim – disse o
pai defendendo o rapaz – me passe o arroz, sim? – pediu o simpático homem à mulher, que
alcançou a travessa com arroz para o marido que acrescentou – mas eu pensei que os Souza
mantivessem aquela fera presa no canil...
-Ah não! Não! – exclamou a mãe de Eduardo – Não é o cachorro dos Souza! É o cachorro da casa
do começo da rua – corrigiu e depois acrescentou no mesmo tom de voz que Eduardo usou para
referir-se ao local – aquela casa, onde parece que não mora ninguém...
O marido entendeu:
-Aaahhhh... o cachorro daquela casa! – e voltou a comer. Depois de certo tempo, parou com os
talheres no prato, num momento de reflexão e exclamou – Mas aquele é um pequinês!!!
-É disso que estou falando! – continuou a mulher – Nosso filho tem medo daquele cachorrinho.
Seu Antônio olhou para o filho. Indagou:
-Isso é verdade?
-Não... – esquivou-se Eddie – não é bem assim... é só que... que... aquele cachorro me avança
sempre. Cada vez que eu passo na frente do portão, ele vem e me avança. Não tem uma única
que vez isso não aconteça. É perigoso, não acha? Ele pode ter raiva, me morder...
-Aquele cachorrinho?
-É... – confirmou Eduardo totalmente sem jeito.
-Impossível! – exclamou o pai totalmente incrédulo – Ele é bem cuidado. Não se parece em nada
com um cão de rua, que pode ter doenças e tudo mais. Aposto que tem todas as vacinas em dia! E
não é nada feroz. Sempre que vou e volto das minhas caminhadas diárias pelo bairro eu passo ali
e o bichinho até me abana o rabo, tão belo cãozinho! Ele vem todo contente pedir agrados...
-Mas pai... é verdade o que lhe conto! – defendeu-se o garoto – Ele gosta de todo mundo, menos
de mim!
-Filho... – disse o pai sério – ...você anda tomando drogas?
O pai de Eduardo era um senhor de cinqüenta e quatro anos, mas ainda com a aparência muito
jovem. Costumava caminhar todos os dias depois que voltava do trabalho.
Ele era sócio-presidente de uma empresa de arquitetura que não ficava muito longe do bairro onde
moravam. Por isso sempre vinha almoçar em casa e depois voltava para o serviço.
Não era liberal de todo, mas também não era muito severo, cobrava apenas os bons valores
morais que todos os pais cobram dos filhos.
Era simpático, sim, mas somente porque sua feição italiana lhe dava a simpatia plástica. Em seu
interior a coisa devia ser lapidada e seu coração conquistado para poder se mostrar dócil.
Costumava dar liberdade para Eduardo e Sônia agirem do jeito que bem entendessem, mas se
fizessem alguma coisa errada... se andassem fora da linha... bem... eles que arcassem com as
conseqüências depois.
Mas era um homem com o coração imenso e bondoso.
Detestava injustiça e se orgulhava de ter passado muitas das suas características “marcantes”
para o filho. Se Eddie cortava o joelho, era ele que sentia a dor e o garoto tinha que confortá-lo
dizendo: não foi nada pai! É só um arranhãozinho à toa! Já passa, ta vendo?
Antônio conhecia bem as pessoas a sua volta.
Bastava olhar para elas para saber se algo ia bem ou não. Muitas vezes seu sentido materno era
mais aguçado que o paterno. E cada vez que o filho aparecia com uma atitude diferente, uma
faceta meio desconhecida, ou apresentava uma idéia diferente do comum, seu Antônio logo lhe
perguntava se ele estava tomando drogas.
Eduardo já estava habituado a toda esta cena:
-Não pai... eu não estou tomando drogas... – respondeu o garoto, revirando os olhos, respirando
fundo e rodando a comida com o garfo de um lado para o outro no prato.
-Então – disse o homem, que cortava um bife, deixando grãos de arroz besuntados com molho
caírem na toalha sob os olhares da mulher que teve ímpetos de gritar “minha toalha que acabei de
lavar!” – meu filho, de onde você tirou a idéia de que aquele cachorro poderia te atacar?
-Olha pai, eu não tirei a idéia de lugar nenhum. Aquele cachorro avança em mim e pronto! Se não
querem acreditar, não acreditem!
-Ah... tá! – concordou a mãe, que juntou os grãos de arroz da toalha e recolocou no prato do
marido.
Para mudar de assunto, ela indagou:
-Quem era no telefone?
-Quem poderia ser? – retrucou Eduardo tendo certeza de que a mãe sabia e muito bem quem era.
-Camila, né?
-É!
-E o que ela queria?
-Nada. Só queria saber das novidades.
-E de onde ela quer que você as tire? – indagou a mãe, que apesar de gostar muito da namorada
do filho e achá-la um doce de pessoa, não sabia porque a garota ligava tantas vezes todos os dias.
-Boa pergunta mãe.
-De onde vocês tanto tiram assunto? – quis saber o pai.
-E quem disse que eu tiro assunto de algum lugar? Eu quase nem falo. Acho que ela confunde
telefone com microfone, porque cata o aparelho e fala, fala, fala. Aquela menina parece que
engoliu um rádio, sei lá... – respondeu o filho.
-Não fale assim de sua namorada – o pai advertiu.
-Não é por mal pai...
-Você bem sabe o gênio “bom” que ele tem, né? – Sônia tentou ajudar o filho e ainda acrescentou,
apontando para o prato do garoto – Eduardo Braschi, pare de brincar com a comida!
O rapaz revirou os olhos novamente:
-De qualquer modo, eu disse que ligava para ela depois...
-Sei... – concluiu o homem, que já terminava de comer.
Assim que todos almoçaram, Antônio foi para a sala e Sônia ficou arrumando a cozinha. Ed subiu
as escadarias e se jogou na cama.
Ficou olhando para o teto durante um bom tempo.
Se concentrou tanto no nada que chegou a sentir-se capaz de levitar.
Se pudesse, o faria. Iria voando para longe, esfriar a cabeça.
Não estava afim de ver nem falar com ninguém.
Não era de descumprir palavras, mas não queria telefonar para Camila.
E não o fez.
Não ligou.
Nem para Camila, nem para Tiago.

O Cursinho - Mudanças, descobertas e novas amizades


30.03.2004
Capítulo III

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por Maven - mavenmusic@hotmail.com

Eram seis e meia da manhã e Eduardo já estava de pé e pronto


para ir pro cursinho. Tinha que levantar cedo e pegar o ônibus,
pois o pai não o levava, uma vez que a empresa onde trabalhava
ficava no bairro vizinho e em direção oposta.
Mas Eduardo nem ligava, já estava acostumado com esta rotina.
Desde que fizera treze anos andava de ônibus para cima e para
baixo. Melhor assim, aprendera a se virar e saber ser menos
dependente dos pais no quesito “deslocamento”. Sabia o nome
das ruas da cidade de cor e salteado e jamais se perdia. Quando
a mãe ou o pai precisava achar alguma localidade, pediam à
Eduardo se ele não podia ir junto.
Logicamente Edú queria ter o seu próprio carro.
O pai já havia prometido um para quando ele completasse dezoito anos, mas o garoto recusou.
Disse que queria que fosse um presente por algo bom que ele fizesse, e não apenas por uma data.
O pai achou estranho, mas concordou.
Ficou combinado que o garoto ganharia o carro se passasse no vestibular da Federal, e desde
então o garoto tinha um motivo a mais para continuar estudando com tanto afinco. Cumpria seus
deveres com severidade.
E lá estava Eddie, em frente ao espelho do seu quarto, mirando-se para ver se a roupa estava
legal. Usava uma calça jeans que valorizava as formas das pernas e deixava a bunda marcada,
uma camiseta preta justa e tênis preto.
Bem normal, porém, insinuante.
Rumou para o banheiro, iria escovar os dentes e arrumar o cabelo. Olhou para o espelho e fez
uma careta.
Enquanto escovava os dentes, organizava seus horários do dia como se fossem tópicos em uma
mesa de reunião.
Iria para o cursinho... ia ficar pelo centro durante à tarde e à noite estudaria as matérias. Tirou
vantagem por ser sexta-feira e as matérias serem fáceis. Além do mais, se não terminasse de
estudá-las, poderia continuar no dia seguinte pela manhã.
Ajeitou o cabelo e saiu pro corredor.
Deu de cara com um vulto vindo em sua direção, todo de branco, com cara de buldogue, cabelos
desgrenhados e andar de morto-vivo.
-Bom dia mãe! – cumprimentou o rapaz.
-Hum... – balbuciou a mulher, que estava com muito sono para responder qualquer coisa que
fosse.
-Nossa! Parece que tá de ressaca!
-Hum... – fez ela novamente meia zumbi.
-Bem... hoje vou ficar de tarde no cursinho. Se você for para o centro, eu vou almoçar no mesmo
local de sempre. Se quiser passa lá. Mas deixa eu ir, senão chego atrasado! Vem cá me dá um
beijo!
Avançou para a mãe e a beijou na face com tanta rapidez, que a mulher quase tombou para trás.
Eduardo correu para o quarto, pegou a mala do cursinho e voou escadaria abaixo. Não quis nem
tomar café da manhã.
Comeria algo na hora do intervalo maior.
Ao sair para a rua, constatou que caía uma garoa finíssima, mas não quis voltar para se agasalhar
nem pegar guarda-chuva. A garoa era comum nesta época do ano em Curitiba e logo iria passar.
Para chegar no ponto de ônibus Eddie subia a rua e depois virava à esquerda.
Pelo menos esta vantagem ele tinha. Não precisava correr feito louco para alcançar o veículo, pois
a parada ficava quase em frente da sua rua. Mas se perdesse esse ônibus não precisava nem
entrar em pânico, pois naquele horário passava um atrás do outro de maneira que ficava difícil
chegar atrasado.
.....

Dentro do ônibus, que ia lotado de trabalhadores já a esta hora, Eduardo mergulhava em


pensamentos novamente. Devaneava com facilidade incrível e estava a pensar se o garoto do
bilhete, o Tiago, estaria no ônibus de novo, ao voltar para casa.
Se estivesse, o que faria Dudú?
Qual seria a reação dele ao vê-lo?
Ah não, não iria vê-lo hoje, pois ia ficar pelo centro mesmo... mas... e nos resto dos dias? Com
certeza iria vê-lo algum outro dia por aí... e o que faria?
Não conseguia formular plano algum.
Não saberia se seria capaz de reação qualquer.
O que diria à Camila? Ela iria perguntar na certa se Tiago voltou no mesmo ônibus que o
namorado. Sim, tinha este detalhe.
A namorada.
Eduardo não sabia explicar ao certo o que estava acontecendo, mas começara a sentir repulsa
pela namorada havia já uns três meses. Não se conformava de sentir isso, pois gostava muito dela,
mas o caso é que ele não suportava mais ouvir a sua voz, sentir o cheiro do perfume que ela usava
e ter que agüentar a sua presença, grudada o tempo inteiro cada vez que se encontravam.
Sem contar nos inúmeros telefonemas, que obviamente irritavam-no de tal modo que só faltava
explodir!

Estava deixando de amá-la.


Sentia-se culpado por isso, pois não havia nada que a garota tivesse feito de errado para ele ter o
sentimento diminuído. Ela não tinha nenhum defeito grave para ele por a culpa em cima. Ficaria
tudo tão mais simples se ela tivesse cometido algum deslize.
E nada tirava de seus ombros a sensação de que ele estava errado, de que ele era ruim e que
estava sendo egoísta.
Acabar o namoro?
É lógico que ele já pensara nisso milhares de vezes nestes últimos meses, mas... apenas pensara.
Não sabia nem como expôr esta idéia para Camila, pois tinha certeza, que a menor sombra do que
ele planejava para a relação, a garota sucumbiria. Sabia que a namorada gostava muito dele e que
crime maior não poderia ser feito contra uma pessoa tão boa, só por causa de um sentimento que
ele nem sabia de onde estava vindo.
Um sentimento que ele devia tentar ignorar...
...mas não conseguia.
Era bem mais forte.
Por mais que Eduardo gostasse de Camila, ele jamais conseguiria retribuir tanto afeto do modo
que ela queria. Não poderia oferecer mais que afeto fraterno. E fora assim desde o princípio do
namoro. Considerava-a sua melhor amiga, uma pessoa formidável a quem ele sempre poderia
recorrer.
Nunca se excitara ao beijá-la.
Beijava-a apenas por imitação, como uma criança se habitua a brincar de casinha por considerar
que é esse o exemplo certo a seguir.
Nunca tivera vontade de transar com ela, o que era estranho demais para um garoto da sua idade.
Camila já havia tentado de todos os jeitos chegar nos “finalmentes” com o namorado, mas ele
sempre a impedia e dizia que tinha que ir embora, tinha que ir ao banheiro, desconversava... e
essas atitudes preocupavam demais a garota. Agora ele estava usando o vestibular como
desculpa.
-Não posso te ver, tenho que estudar...
Ou:
-Não posso ficar mais Camila, ainda tenho os exercícios da apostila para completar...
E assim ia. Mas e depois?
E depois do vestibular?
Que desculpa viria? Que artifício usaria para evitá-la como vinha fazendo durante todo esse
tempo?

Um dia, bem um mês antes de fazerem um ano de namoro, Camila encheu-se e cobrou:
-Por que isso Eduardo?
-Por que isso o quê? – perguntou ele de volta com cara de santo, fingindo-se de besta surda, muda
e cega.
-Você sabe muito bem! – disse a namorada, muito séria. Camila olhava para o garoto como um
delegado de polícia olha um marginal – Não é de agora que eu percebo que você evita!
-E-evito? – gaguejou nervoso.
-É! – desembestou Camila – Você evita me tocar, evita continuar carícias... quando tudo está no
bem bom... quando tá esquentando... você me afasta ou se afasta, sei lá!!! Porra Edú! – a garota
explodiu – quero saber porque você evita transar comigo!
-E-eu? – e apontou para si mesmo.
-Bem o senhor! – dizia ela dando de dedo no focinho do rapaz – Eduardo, nós já temos quase um
ano de namoro... e você até agora... nada! – e bateu uma mão na outra para concluir – Puxa! Eu
tenho necessidades também!!!
O garoto ficou mudo.
-O que é? – indagou a namorada – Qual é o problema?
-Não... não tem problema... – esquivou-se.
-Então porque até agora nada?
-Camila, você é muito nova! É uma criança ainda!
-Eu não sou mais criança! Mas mesmo assim, e daí? Eu me sinto pronta e segura. É uma coisa
que eu sei que quero fazer! – e ela passou a mão no rosto do namorado, com os olhos carregados
de ternura – ainda mais com você, que é quem eu mais amo nessa vida.
-É que... é que... – ele estava tentando achar uma desculpa convincente – ...é que eu pensei que
você não queria!!!
A garota torceu a cara, duvidando:
-Pensou que eu não queria? – deu um pausa e continuou – Impossível Eduardo, eu dava todos os
sinais, só um burro não ia perceber...
-É! Talvez eu seja um burro mesmo. Mas é que mulher é um bicho complicado, sabia? Nunca a
gente sabe o que vocês querem! Vocês podem dar um mísero sinal, mas que pode significar
milhares de coisas... eu, por exemplo pensei... – e desculpou-se – ...puxa, eu queria te respeitar...
sabe? Perder a virgindade... é complicado...
-Mas eu sei que eu quero! – disse a garota em verdadeira convicção – Eu quero fazer isso com
você!
-Melhor esperar... pensar bem...
-Mas... eu tenho certeza!
A verdade era que o “negócio” não funcionava com a namorada.
Cada vez que a tocava, intrigava-se com o fato de sentir-se pecando, como se tocasse na mãe, ou
em uma irmã, pois era o que ele considerava que Camila fosse: uma irmã para ele.
E com irmã não se transa.
Sentia-se profundamente estranho com isso.
Sua cabeça fervilhava de grilos por conta deste problema.
-Veja bem: eu te amo – explicou Edú – e quero que o momento seja muito especial para nós dois.
Eu também tenho que estar preparado sabia?
-Você? – estranhou a garota – ...preparado? Prá quê?
-Prá... prá... – o rapaz gaguejou sem graça – ...ah! você sabe... – e ficou vermelho. Não gostava
desse tipo de conversa e ficava embaraçado com facilidade.
Neste ponto, a namorada, que olhava para ele, sorriu:
-Ohhh... que bonitinho! Você está planejando um momento especial para nossa primeira vez, não
é? – e beijou o namorado – Que tola eu fui apressando as coisas!
O rapaz sorriu e a namorada ainda suspirou:
-Você é perfeito meu amor! É tão romântico.
E a conversa ficou por isso mesmo.
Mas passado uns três meses Camila viu que tudo continuava do jeito que estava e Eddie não
apresentava planos de mudanças, então a cobrança reapareceu.
A garota ficou insinuando... bem sutil, como quem não quer nada... e Eduardo seguia fingindo que
não via nenhum dos sinais e não entendia as indiretas.
Toda vida Camila o convidava para ir dormir na casa dela.
Ela tinha uma avó muito doente que morava em Campo Largo e seus pais iam para lá quase todos
os finais de semana, para fazer uma dessas visitas de rotina.
Camila tinha uma irmã de vinte e um anos chamada Franciele e nenhuma das duas costumavam ir
junto com os pais para Campo Largo. Iam muito de vez em quando. Logo, Camila sabia que iria
ficar sozinha durante os finais de semana, ao menos enquanto a avó se mantivesse viva e por isso
sempre rezava para a velhota resistir firme e forte.
Mas Eduardo sempre recusava os convites da namorada para ir “dormir” em sua casa.
Para isso Edu tinha um esquema: ficava sábado o dia inteiro com a namorada, mas quando ia
caindo à noite, ele picava as mulas. Dizia que tinha que estudar, que tinha provas e etc., e saia de
fininho.
A namorada ficava revoltada com tudo isso, mas engolia e levava em frente, pois gostava de
Eduardo de tal modo que sexo não era tão importante assim...

Edu desceu do ônibus e pisou em uma poça d’água, formada pela fina, mas constante garoa:
-Merda! – o rapaz praguejou – Era tudo o que eu precisava! – e se pôs a balançar a barra da calça.
-Olha a boca mocinho! – uma beata que ia passando advertiu e comentou com a amiga mais
carola ainda – Essa juventude de hoje não tem mais respeito mesmo! Tá tudo mudado!
-É – a outra concordou gesticulando – viu só o palavreado desse menino?... uma pena, tão bonito
e falando essas coisas...
Ao que a outra beata exclamou:
-Aposto que anda tomando drogas!
Eddie parou de balançar a calça imediatamente.
.....

Ao chegar na sede do cursinho, passou a carteirinha na catraca.


Nada.
-Mas que droga!
Nova tentativa.
Nada.
Ficou tentando, até que o porteiro veio ajudar:
-Essa catraca não está funcionando.
Eddie só faltou pular no pescoço do homem:
-Mas porque não me avisou antes??? Porque não colocam uma droga de aviso nessa porra de
catraca dizendo que essa merda tá estragada?
O porteiro olhou espantado para o garoto, que já se dirigia para a catraca ao lado. Passou a
carteirinha, esperou o lead ficar verde e entrou.
Ia abrindo passagem no meio dos outros estudantes que tagarelavam alegremente por ser sexta-
feira e ter chance de descansar um pouco.
Ouviu alguém lhe chamar.
Era Marcos, um colega de classe:
-E aí cara? Tudo beleza?
-Meus pés estão encharcados! – disse o garoto, muito azedo.
-Massa! – disse o amigo que tinha o estilo bem skatista, de roupas largas e cabelo comprido –
você conseguiu fazer todos aqueles exercícios de física de ontem?
-Consegui – respondeu curto e grosso, acrescentando – e não tem nada de “massa” ficar com os
pés molhados.
-Só! – o amigo exclamou feliz – Como é que faz o número vinte e dois? O resto eu tirei de letra,
mas esse... eu não consegui resolver de jeito nenhum!
-Peraí – disse Ed, que abriu a mala e procurou a apostila com as matérias de exatas. Assim que a
encontrou, abriu na página dos exercícios do dia anterior e foi explicando como se resolvia o
problema.
Mais alguns colegas de Eduardo vieram se chegando. Logo uma rodinha estava formada, Eddie
sempre ajudava os colegas.
Ao findar a explicação, Marcos, que tinha a maior cara de mongo, sorriu e exclamou:
-Só!
“Que estúpido” pensou Eduardo, mas não disse nada.
Aliás Eduardo pensava muitas coisas de seus amigos ultimamente mas não as dizia. Quase todos
os seus colegas e amigos eram skatistas, ou surfistas, ou roqueiros... não tinha ninguém “normal”.
Pois ser normal para ele, era ser como ele era.
É assim com todo mundo.
E na turma que andava não achava ninguém que gostasse das mesmas coisas que ele gostava.
Não entendia porque um adolescente tinha que assumir um visual de uma tribo como se fosse um
uniforme de time de futebol, sem o qual não se pode jogar.
Talvez fosse desse modo porque simplesmente tinha que ser, e se ele não entendia o motivo, ao
menos ficava feliz que a moda não mandasse todos pularem na frente de um caminhão.
Claro que os amigos nem de longe desconfiavam do que se passava com Eddie. Julgavam-no
contente e realizado, mas a verdade era que Edú já não achava mais graça na companhia dos
amigos e já não ia a todos churrascos que eles faziam.
Pouco a pouco se distanciava.
Só não fazia tal coisa de uma hora para outra porque não tinha turma melhor para engajar-se.
E também por medo de ser rotulado como antipático.
O único amigo de verdade que ele tinha e de cuja companhia gostava era o Fábio, mas este
andava muito estranho ultimamente. Falava pouco com os outros, vivia cheio de mistérios e ia a
lugares que todos ignoravam.
-Ele tá metido com tráfico – palpitou Carlos (aquele do ponche...) – o Marcos que me contou que
contaram para ele que ele estava envolvido com a máfia...
-Máfia? – Ed indagou espantado com o absurdo da idéia. Certa vez Fábio experimentara drogas,
mas Ed tinha certeza que traficante o amigo jamais viraria.
-É, diz que ele se meteu à besta com um cara que dominava um ponto de venda ali na Marechal...
-Deixa de besteira! – interrompeu Eduardo. Irritava-se sempre que alguém falava de Fábio. Sabia
que se algo de errado estivesse acontecendo com o amigo, este certamente viria lhe contar.
Era o que fizeram a vida inteira.
Um confiando no outro.
-Então porque todo este mistério? – Carlos quis saber – Aonde ele tanto vai que não leva a gente
junto?
-Seja qual for o motivo – dizia Eduardo – deve ser forte e bom o suficiente para ele não nos revelar
nada.
-Motivo?
-É claro! – Eddie conclui – Ele deve ter um motivo para agir deste modo, vocês não concordam?
-Por mim – intrometeu-se Lucas, um surfistinha – bem, por mim ele tá é de rolo com uma mina e
não quer liberar informação!
-No mínimo deve ser isso – concordou Carlos – mas também deve ter droga aí no meio da
jogada...
-Será?
-Acho que ele engravidou essa mina e ainda tá se picando.
-Pois é! – Lucas disse enquanto enfiava o dedo no ouvido – Lembram da última mina que ele ficou
né? Era a mó maconheira!

Eduardo conhecia Fábio desde os treze anos. Eram colegas de classe e cresceram juntos feito
irmãos. Não sabiam ao certo como ficaram tão amigos assim, mas souberam desde o início que o
“clique” necessário para isso ocorrera.
Cansaram de aprontar peraltices juvenis e de mirabolar planos e mais planos para o futuro.
Planejaram montar uma fábrica de automóveis voadores, serem donos de empresas de andróides
e estas baboseiras futurísticas.
Agora, nada disso era visto com seriedade, ficara para trás junto com as brincadeiras do passado.

Eduardo seria médico e Fábio pretendia ser diplomata.


Um plantado e outro sem raízes.

Eduardo sentia falta do tempo em que podia ficar horas na casa do amigo, só jogando papo fora
sem preocupar-se com estudo, garotas, dinheiro, futuro ou qualquer outra coisa.
Sentia falta do tempo em que o amigo ia dormir em sua casa e ficavam vendo filmes até de
madrugada. Certa vez Fábio apareceu com uma fita pornográfica, mas Eduardo, com muito medo
de aparecer alguém e pegá-los vendo uma coisa tão feia, não quis ver.
Era uma amizade boa.
Volta e meia dona Sônia estranhava a ausência do rapaz e perguntava de Fábio, ao que Dudú
apenas respondia – vai bem...
Será que ia?
Ed desejava que sim.

Já era sexta-feira e Fábio não tinha nem pisado no cursinho a semana inteira. O que fazia tanto
Fábio que não podia contar nada para ninguém, nem para Eduardo, o seu melhor amigo? Isso
estava extrapolando e Edú estava decidido a ligar para Fábio e pedir explicações. É!
-É o que eu vou fazer! – o rapaz exclamou extasiado.
-O quê??? – perguntou Marcos intrigado.
-Ãh?! – acordou Duda de seu devaneio – Nada! Nada não!
Os colegas ainda o olhavam em silêncio.
-Vamos subir para a sala? – propôs Eduardo.
E foram-se todos escadaria acima, para terem as aulas de sexta.
.....

Na hora do intervalo, Ed, que geralmente ficava na sala de aula, resolvendo os exercícios com um
grupo de estudo, decidira descer para comprar lanche, pois saíra de casa sem tomar o café da
manhã.
Assim que pisou no pátio, seus colegas o chamaram:
-Eduardoooooooo!!! – fez o coro de vozes masculinas.
Edú apenas olhou e fez um gesto como quem diz, "já vou".
Rumou para a cantina e pediu um misto quente com guaraná.
Tratou de comer tudo antes de voltar para o grupinho de amigos, pois não estava nada a fim de
dividir seu desjejum com um bando de marmanjos que com certeza devorariam o seu café da
manhã em um segundo.
Enquanto mordia o pão, uma garota se aproximou dele e perguntou:
-Você é o Eduardo, não?
Ele concordou balançando a cabeça.
-Eu sou Rose.
Novamente balançou a cabeça para dizer “muito prazer”.
A garota prosseguiu:
-Eu sei que você é amigo do Marcos. Eu queria saber... ele tem namorada?
Eduardo fez que não com a cabeça e a garota virou puro sorriso e saiu de perto sem ao menos
agradecer a informação.
“Garota estranha...” Eddie pensou com seus botões enquanto engolia o lanche.
-Pois é Eduardo... o meio do ano já está quase chegando... – disse Marcos, com sua cara
irremediavelmente estúpida, assim que Eduardo entrou na roda – ...e a galera tá afim de ir viajar
nas férias.
-Viajar? Prá onde? – quis saber Edú.
-Para Quatro Barras – informou Carlos.
-Como? – Eduardo riu com desdém – Quatro Barras??? No inverno??? – e conclui como se os
demais fossem loucos – Não, eu não vou! – disse bem com tom de reprovação afim de deixar bem
clara a sua vontade de ficar em casa e quente durante Julho.
-Ah! Cara, deixa de ser embação! – protestou Marcos – A gente vai fazer camping durante quase
um mês inteiro. Vai ser demais!
-Nem vou...
-Putz cara! Já não basta o Fábio não dar mais nem sinal de vida, você também vai abandonar a
gente? Como vai ficar nossa gangue? – reclamou Marcos, que queria porque queria que Dudú
fosse acampar com o povo – vai ser que nem nos velhos tempos de colegial. Lembra?

E como poderia esquecer?


Dudú tinha cada lembrança cravada em sua mente e não sentia saudade alguma. Sempre
detestara acampar, isto lhe era sinônimo de dor nas costas por causa do colchonete fino e duro,
sem contar a falta de roupa limpa, falta de cama macia, ausência total de privacidade, chances
zero de um banho quente e digno de um ser humano e principalmente uma enorme carência de
comida que prestasse.
Comer miojo empapado durante um mês inteiro era pedir para morrer!
Isso para não mencionar que Ed não curtia os papos que rolavam ao redor da fogueira.
Era sempre a mesma coisa: garotas.
Sempre!
Eduardo não gostava de falar disso, pois sentia-se envergonhado de não ter uma história legal
para contar aos amigos, uma vez que todos ali já haviam transado com garotas, ao passo que ele
não.
Era virgem.
Só o pensamento que algum de seus amigos tivesse a mais leve desconfiança deste fato já
causava arrepios no garoto.
Conseguia ficar com a gata mais tesuda e cobiçada que aparecesse, mas transar que era bom
mesmo, isso ele não fazia. Não tinha como. Não que não quisesse ou que as garotas não
deixassem, mas sim porque simplesmente não se excitava.

Acontecera sempre e acontecia agora com Camila.


Logicamente seus amigos pensavam que ele era o bam-bam-bam do pedaço, que traçava todas e
que Camila não escapava ilesa de um encontro sequer entre os dois. Mas isso estava longe de ser
verdade.
O que acontecia é que Eduardo achava as garotas muito bonitas e atraentes, chegava a sentir
vontade de transar, de saber como era o que todo mundo falava e aplaudia sobre, afinal toda essa
apologia ao sexo não devia ser à toa.
Mas não tinha garota por mais erótica que fosse que fizesse o apito assobiar.
Simplesmente nada acontecia.
Era como se a atração fosse idólatra e não sexual se é que é possível dissociar uma coisa da
outra... pois Eddie achava linda a plástica feminina, mas não deseja comer a fruta.
Tudo isto deixava Eduardo muito confuso.
E para não dar na telha, acabava inventando histórias para não decepcionar os amigos. Algumas
delas até eram convincentes, mas outras... ficavam difíceis de engolir, pois nem Dom Juan seria
capaz de realizar tamanhas peripécias.

-Lembro – concluiu Edu sem sorrir, sem nada.


-Não era legal? – indagou Marcos, cujos olhos brilhavam.
-Ô... se era... acampamentos ótimos! – ironizou Dudú. E todos perceberam.
-Porra Duda! Deixa de ser mané, vai! Vamos acampar com a turma! – reclamou Jorge, outro rapaz
de Q.I. duvidoso, que até agora estava quieto.
-Não, eu já disse que não vou. Não neste ano.
-Porque? – quis saber Jorge.
-Porque é ano de vestibular – explicou Carlos e completou zoando – e a dondoca quer ficar em
casa estudando...
-É! É isso mesmo! – Dudú falou sem vergonha nenhuma – Neste ano a prioridade é o estudo e não
a diversão. Sair um final de semana ou outro vá lá, mas perder um mês inteiro? É muita
inconseqüência!
-Porra Ed, desestressa! – desembestou Marcos – Que é toda essa neura? Vestibular prá cá,
vestibular prá lá! A vida não é só isso...
E o rapaz ia gralhando, quando todos os garotos da roda, com exceção de Duda, começaram a
afinar a voz e gritar:
-Bicha!
-Mulherzinha!
-Veado sem vergonha!
Faziam isso porque Henrique passava entre a multidão.
Ele estudava na sala de Edú, mas este não o conhecia.
Aliás, nunca ninguém conversara com Henrique.
Todos o recriminavam e xingavam.
Era “a bicha do cursinho”.
Certeza mesmo ninguém tinha, mas disposição para humilhá-lo sobrava.
E cada vez que ele saia pro pátio, ou para ir pro banheiro, ou para comprar lanche, era sempre a
mesma coisa. Todo mundo tirava da cara dele. Uns gritavam histéricos, outros assobiavam.
Mas a situação era pior quando alguns machões atiravam coisas ou diziam nomes horrendos.
E tudo o que Henrique fazia era andar rápido, de cabeça baixa, driblando as pessoas e sumindo o
mais ligeiro que pudesse no meio da multidão.
Fingia que não ouvia nada e ia-se embora.
Fazia de conta que as ofensas e palavras amargas não eram para ele.
O que mais poderia ele fazer? Como enfrentar uma sede de cursinho inteira?
-Ai! Ai... – gemeu Jorge, fazendo voz afeminada – Este ano eu vou fazer vestibular para ser
decoradoraaaaa!!!
-Ai! Eu não! – gritou Carlos todo histérico – Eu vou ser estilista!!! Você não acha que meus
modelitos vão arrasar nas passarelas???
-Eu vou ser cabeleireira! – comentou Marcos, com a voz terrivelmente afetada – E você
Duduzinha? Vai ser o que, querida?
Eduardo apenas lançou um olhar para os colegas como quem diz “isto não tem a menor graça” e
depois olhou para Marcos e respondeu:
-Eu? Com certeza eu vou ser veterinário! – e acrescentou venenoso – e tem mais, vou ser
veterinário com especialidade em neurologia suína, assim talvez eu possa estudar o caso raro de
vocês!
Jorge estranhou:
-Ih! Qual é? Vai defender aquela bichinha?
-Como você sabe que ele é bicha? – perguntou Duda.
-Por causa do jeitinho...
-E se for só o jeito dele? – Eduardo defendia. Já se encontrava diluído em confusões e sentindo-se
tão contrário aos garotos da turma que talvez fosse só para criar confusão e provar que pensava
diferente que Eduardo resolveu entrar em conflito – pode ser que ele não seja nada disso que
vocês estão falando...
-Não pira moleque! – interferiu Carlos – É só olhar para ele prá saber que é uma florzinha louca!
Todo delicadinho... – e fez gestos com a mão requebrando-a toda de um lado para o outro
enquanto sua voz demonstrava asco - ...gente como ele devia sumir da face da terra! Ou melhor,
devia era estar debaixo da terra! Todos mortos!
-É! – ajudou Marcos – É que nem não sei quem falou por aí: homossexualismo é doença e AIDS é
a cura.
-Eu não acredito! – Eduardo estava boquiaberto diante dos colegas.
Realmente não acreditava no que ouvia.
-Pois é isso aí! Se uma bicha louca dessas vem se engraçar para o meu lado eu acho que mato ela
de tanto coió! – disse Lucas, demonstrando seu ódio concentrado, e falava com tanta raiva que
chegava a respingar gotas de saliva ao redor – dou porrada mesmo!
-Credo! Vocês têm noção do que estão falando? – indignou-se Eduardo que postou-se em feroz
defesa de Henrique – E daí se ele for veado? E daí? O que vocês têm a ver com isso? Desde
quando isso os interessa tanto? – e seguiu gralhando – O que foi que ele fez prá vocês? Por acaso
ele já falou com algum de vocês? Já deu motivo para vocês xingá-lo deste modo? – fez uma pausa
e continuou o sermão – Não! Ele não fez nada! Vocês nem o conhecem para falar a verdade! Tudo
o que sabem são boatos que ninguém a não ser o próprio Henrique pode dizer se são verdade ou
não...
-Mas... a Clara, da outra sala viu ele em uma boate... – defendeu-se Marcos que não teve nem
chance de prosseguir.
-A Clara viu, mas não pode provar! Pode? – perguntou Edú, interrompendo o colega bruscamente.
-Acho que não.
-Então é exatamente como eu disse: são boatos que ninguém sabem se são verdade ou não. E
isso não me interessa. Por isso eu não xingo. E mesmo se Henrique for bicha, o que eu tenho a ver
com isso?
-Nada... – disseram Carlos e Jorge ao mesmo tempo.
-E então, por que vocês têm? – Eduardo perguntou.
Carlos ficou levemente enrubescido.
Todos ficaram em silêncio e como ninguém se manifestara de volta, Eduardo deu de costas ao
grupo e subiu para a sala de aula.
.....

Mal soou o sinal de saída, a maior parte dos alunos se levantou. Todos pareciam desesperados
para ir embora e curtir o final de semana de uma vez. Parecia fim de catequese, com as crianças
loucas e impacientes que ficam olhando o sol brilhando pela janela mas nada podem fazer a não
ser esperar para estarem livres.
Eduardo ainda guardava seu material.
Não estava com muita pressa, pois como havia feito o roteiro do seu dia logo pela manhã, tinha
tudo programado na cabeça e sabia que tinha tempo de sobra para guardar o material, desguardar
e guardar de novo.
Ia almoçar pelo centro e pegar as aulas de revisão durante a tarde.
Sempre que podia fazia isso, pois revisava os tópicos de maior importância que foram expostos no
decorrer da semana. Tinha a vantagem de fazer isso porque os alunos que iam a essas aulas
estavam interessados em aprender de verdade, então a sala não ficava tumultuada.
Assim que acabou de guardar tudo, ficou observando as pessoas saírem e a sala ir se esvaziando.
Observou que poucos permaneciam sentados como ele, aguardando a multidão desaparecer.
Dentre os que ainda se encontravam em seus lugares, estava Henrique.
Provavelmente esperaria até a última pessoa sair e tudo ficar parecendo-se com um deserto, a fim
de evitar qualquer tipo de comentário.
Eduardo ficou o observando.
Sim, Henrique tinha trejeitos efeminados, mas nada que o garoto fizesse tornava evidente a sua
opção sexual. Achava babaquice o que faziam com ele e não via motivo para tratá-lo com tanto
preconceito.
Era um garoto magro, feio, de cabelos escuros bem curtos e olhões pretos brilhantes. Talvez fosse
por conta de sua aparência frágil que todos se aproveitassem para humilhá-lo. Se fosse alto e
forte, a história poderia ser diferente...
-Bando de covardes... – sussurrou Eduardo mordendo os lábios.
A sala já estava quase vazia.
Sobrara apenas Eduardo e Henrique, que continuava sentado.
Duda foi caminhando para a porta, até que parou e perguntou:
-Você não vai embora?
Os assustados olhos negros fitaram Eduardo.
-Daqui a pouco – disse Henrique timidamente, que de pronto desviou o olhar para as mãos – eu
sempre espero todo mundo ir embora.
-Pois é. De vez em quando eu também faço isso. Quando fico pelo centro não tenho pressa. Meus
amigos, alguns deles, ficam comigo também de vez em quando, mas muito de vez em quando, só
quando eu aviso que tal matéria é importante e vai cair com certeza na prova do fim do ano.
Henrique estava mudo.
-Eles não ligam para os estudos – foi dizendo Ed – e acho que tampouco se preocupam por ser
ano de vestibular. Tudo o que querem é fazer festa. Talvez por isso esse comportamento.
Silêncio.
-Imagine você que eles querem acampar em Quatro Barras em Julho!!! – Eddie confidenciou.
-Quatro Barras no inverno? – admirou-se Henrique – Por acaso seus amigos são loucos?
-São – o rapaz concordou – E querem que eu vá junto.
-E porque não? Se são seus amigos, vai ser divertido...
-Acontece – explicou Dudú – que eu não gosto dos meus amigos realmente. É um bando de
imbecis. Parece que ainda têm quatorze anos. Não amadureceram e nem querem amadurecer.
Isso me deixa muito revoltado.
-Eu tô vendo! – exclamou o rapaz.
Eddie olhou ao redor. Apurou os ouvidos:
-Bem, acho que o colégio inteiro já saiu – disse Eduardo, que depois olhou para o garoto sentado e
convidou – Vamos?
Henrique olhou para Eddie, que estava perto da porta de saída da sala e tinha uma expressão
curiosa na cara. Não acreditava que um hetero estaria sendo legal com ele, pois todos os garotos
que lhe dirigiam a palavra o faziam com o intuito de lhe ferir.
Mas Edu tinha a face tranqüila, expressão pura e natural de quem simplesmente está esperando
pelo amigo.
Henrique sorriu internamente, pegou a sua mala de cima da carteira e dirigiu-se para a porta.
-Eu sou Eduardo – apresentou-se.
-E eu sou Henrique.
-É, eu sei – Edú comentou sorrindo – você é bem famoso aqui no cursinho.
Eduardo referia-se ao fato de todos pegarem no pé do pobre garoto. Fizera o comentário sem
nenhum veneno na voz. Disse como quem está ciente da situação, como quem sabe que existem
inimigos, mas é do partido aliado.
-Cambada de idiotas. Mas eu não ligo.
-Claro! Quem não deve não teme!
-Não é esse o caso. Eu apenas não ligo. Finjo que não é comigo, pois se desse trela só iria me
estressar a cada provocação que recebo.
-Faz bem – ponderou Eduardo.
Henrique soltou uma risada de escárnio:
-Faço? – indagou em tom irônico – De vez em quando eu não acho que a coisa certa a se fazer é
ficar calado. Tem vez que eu quero é meter um soco na cara dos filhos da mãe!
-E porque não faz então?
Henrique olhou para Eddie e indagou:
-Por acaso tá escrito super-homem na minha testa?
.....
Eduardo ia descendo a rua de casa, em passos lentos.
Acabara de assistir as aulas vespertinas e agora o grande sol vermelho já estava se pondo,
deixando o céu nublado com um tom púrpuro, como se um grande manto de veludo alaranjado
manchado com vinho tivesse sido jogado em cima da cidade.
O garoto andava e lamentava que as réstias de sol do outono não estivessem ali para iluminar a
rua com poesia. Era tão belo quando a vida parecia uma pintura renascentista. E do modo que
Eddie estava se sentindo, meio melancólico, talvez o verde das folhas com gotas de sol pudessem
se refletir em seu interior acalentando-o.
Não conseguira prestar muita atenção no conteúdo das aulas, pois ficara pensando em Henrique.
Sentia pena por ele – e não dele.
Era um sentimento estranho, que começava pontiagudo e terminava arredondado, talvez fosse a
conformidade, tão temível por Eduardo mas latente na situação, pois o que poderia ele fazer?
Que tinha ele a ver com a vida de Henrique?
Mas de qualquer modo, aquilo incomodava.
Não conversara muito com o garoto, que foi logo embora para casa, mas constatara que ele era
gente boa prá caramba.
Não merecia estar passando o sofrimento à que o estavam submetendo.
Eduardo pôs-se no lugar do pobre rapaz e chegou à conclusão de que se fosse com ele, já teria
explodido há séculos. Não sabia como Henrique suportava aquela situação.

Eduardo sabia que não teria esta força.


E o garoto seguia andando.
De repente, surgindo das trevas...
-AU! AU!
O cachorro da casa do começo da rua avançou em Eduardo, que por estar imerso em seu mundo
de pensamentos, levara o maior susto. Com o coração disparado e as pernas bambas Eduardo
olhou para o cachorro vindo em sua direção, com a bocarra aberta, pronta para mordê-lo. Pôs-se
em desabalada carreira rua abaixo.
O cão o perseguira durante um bom pedaço do percurso, mas desistira.
Só o susto valera a pena.

Sem desculpas... A descoberta da atração pelo corpo masculino


07.04.2004
Eduardo descobriu-se atraído por homens na casa da namorada e não consegue aceitar...

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Capítulo IV

por Maven - mavenmusic@hotmail.com


Eduardo chegou em casa ofegante e bateu a porta detrás de si.
Estava puto da cara. Aquele cachorro era o fim da picada.
- O que foi? – perguntou o pai que passava em direção à sala de
estar, de chinelinhos de pano no pé, com o jornal dobrado em
baixo do braço e nas mãos uma vasilha com sopa bem quente.
- O que foi o quê? – respondeu Edu muito grosso e mal-
humorado.
- Nada... – desculpou-se o pai sumindo amuado para a sala.
“Melhor nem mexer” pensou.
O garoto foi sentar-se no lugar da mesa onde sempre se sentava
quando chegava naquele estado. A mãe, que já conhecia o
barulho da cadeira, foi logo gritando de dentro da cozinha:
- Hoje não Eduardo! Você tem visita!
O rapaz murmurou pesarosamente:
- Era tudo o que eu precisava!
Levantou-se com a alegria de um condenado andando para a cadeira elétrica e rumou pisando
forte para a cozinha, onde encontrou a mãe conversando com Camila.
- Oi filho! – sorriu a mãe.
- Amor! – derreteu-se a garota, ao ver o namorado entrar pela porta – Tudo bem meu docinho?
O garoto deu um sorriso de canto de boca pra lá de amarelo.
- Você deve estar morrendo de fome, não está? – perguntou a mãe, indo de encontro ao forno do
fogão onde guardara a carne assada do almoço – Tem mais comida na geladeira, eu esquento prá
você no microondas.
- Não precisa, não tenho fome – recusou Eduardo.
- Mas filho, você passou o dia inteiro fora de casa. Deve estar faminto e...
- Não quero comer nada – afirmou.
- Tem certeza? – a mulher insistiu. Oras, nada mais que obrigação de mãe encher o saco dos
filhos por conta de comida, agasalho e conselhos desgastantes...
- Certeza absoluta – reafirmou o rapaz.
- Tá bem querido, mas se daqui a meia hora você vier aprontar na cozinha, eu te espanco! –
gralhou a mãe, brincando.
Nessa hora Camila virou-se, toda melosa:
- Adivinhe só amor... – disse a garota tentando surpresa, toda sorridente, parecendo um
cachorrinho querendo agradar o dono.
- O quê? – perguntou Edú, com o mesmo sorriso amarelo apresentando elevado índice de
sarcasmo.
Seu humor caíra de vez no chão.
- Adivinha! – insistiu a namorada.
- Desembucha logo! – irritou-se o rapaz.
Não estava com ânimo para frescuras.
Estava cansado, tivera aula o dia inteiro e ainda há minutos quase fora morto por um cão
selvagem.
- Olha como fala com a sua namorada! – gralhou a mãe – Que falta de educação Eduardo!!! Não
foi assim que eu te ensinei! – a mulher conhecia o filho que tinha. Sabia o gênio ruim dele e
quando o sentia nessas condições especiais, tomava cuidado para não causar ataques no garoto.
Por isso explicou docemente – A Camila veio aqui para te buscar prá ir dormir na casa dela.
- Não posso! – respondeu Eduardo curto e grosso.
- Pode sim! – disse a mãe – Eu já deixei!
- Não é questão de você deixar ou não, mãe. O caso é que eu tenho oito matérias para estudar! –
tentou esquivar-se Ed, que não estava com a mínima vontade de ver a namorada, muito menos de
ir dormir na casa dela.
- Não meu filho, acho que você não tem que estudar! – Sônia foi falando, muito calmamente –
Você já passou o dia todo no cursinho hoje. Tem que desviar sua mente dos estudos, senão vai
acabar ficando louco! – e depois comentou, como fazem as mães quando querem passar a noção
de que são sábias, vividas, que seus conselhos são preciosos e nunca devem ser desobedecidos –
Ninguém agüenta este pique rapaizinho! Você precisa fazer algo mais relaxante do que estudar...
- Mas mãe...
- Não tem nem mais nem menos! Você vai dormir na casa da sua namorada e fim de papo! O seu
pai vai levar vocês.
Muda, Camila fitava o namorado.
Eduardo ia protestar, mas a mãe o cortou:
- Sem um pio! – e dobrou o filho.
O garoto calou-se.
Olhou para Camila, que agora estava radiante com um olhar de triunfo na cara, provavelmente
pensando “é hoje!”. O rapaz teve ímpetos de esbofetear a face da namorada. Estava com raiva.
Não queria ir dormir na casa dela, sabia muito bem em que tipo de situação iria acabar.
- Vou tomar banho – anunciou finalmente e saiu da cozinha do mesmo mode que entrara,
emburrado e pisando forte no chão.
- Viu só Camila? – falou a mulher – Eu não disse que ultimamente ele anda estressado? Só pensa
em estudar e estudar!
.....

Em seu quarto, de banho tomado e já vestido, Duda arrumava uma mochila com itens de
sobrevivência para levar para casa de Camila. Levava pijama, escova de dente, pente, e o
principal: suas apostilas do cursinho. Iria ignorar a namorada estudando, ou pelo menos fingindo
que estava fazendo isso.
Deitou-se na cama e pegou o telefone. Discou rapidamente os números.
- Alô? O Fábio está? – Ed foi perguntando assim que atenderam.
- Dudú? – perguntou a voz do outro lado.
- Oi Fábio! Puxa, tudo beleza? – indagou Eduardo super animado ao reconhecer a voz do amigo.
- Diga aí seu Eduardo! – festejou Fábio, igualmente feliz.
- O que aconteceu com você? Andou sumido a semana inteira!
- Pois é... andei ocupado... – o tom da voz do amigo era do tipo “sim, andei fazendo mil e uma
coisas, mas, por favor, não me faça falar delas...”.
Duda resolveu passar por cima disso:
- Ocupado com o quê?
- Com uns negócios aí... – esquivou-se o rapaz. Obviamente não queria comentar nada, e isso, de
certo modo incomodava Eduardo, que estava com a pulga atrás da orelha. Porque o amigo agia
deste jeito?
- Porque isso Fábio? – perguntou Ed.
- Porque isso o quê? – Fábio deslavadamente rebateu a pergunta com outra. Coisa típica dele
quando queria fazer-se de inocente. Mas Dudú não caía nessa, pois lançava mão deste mesmo
artifício quando as coisas iam apertando ao seu redor. Talvez tivessem desenvolvido a técnica
juntos.
Perguntou:
- Porque você anda misterioso? – em sua voz, fazia-se nítida a exigência de uma resposta
plausível. Mais nítida ainda era a impossibilidade de uma desculpa esfarrapada ser engolida
facilmente. Fábio teria que se explicar – e muito bem! Afinal Eddie era o seu melhor amigo e
sentia-se no direito de saber de seus passos – Faz tempo que a gente não têm uma conversa
decente. Faz tempo que você deixou de me contar as coisas. O que foi? – indagou como uma
mulher rejeitada que pergunta “o que aconteceu? Eu não te atraio mais? Estou caída? Você tem
outra?”.
- Foi nada não – respondeu Fábio, cruzando a linha vermelha – É só que não tenho novidades.
- Não Fábio – indignou-se Eduardo – Você sabe que não é isso. Não se faça de palhaço e não me
venha com desculpas.
Fábio estava mudo. Edú continuou:
- Você tá sabendo que a turma quer ir acampar no meio do ano?
- Não – o amigo respondera sinceramente. Realmente ignorava o fato. Agora, mesmo sabendo do
plano dos amigos, tampouco se animara com a idéia – Quem vai? – o desinteresse era claro em
sua voz.
Edú, sem graça, respondeu:
- A galera... – e foi citando os nomes – O Marcos, o Lucas, o Jorge, o Carlos, o Rodrigo e mais uns
outros. Eles pretendem se divertir prá caramba!
- Ah... – fez Fábio, como se raciocinasse algo a respeito do que se falava – o povinho de sempre!
- E aí? – perguntou Eduardo, com entusiasmo teatral. Sabia que Fábio já não demonstrava o
mínimo interesse pelo que se passava com a “turma” fazia bom tempo.
Talvez como Edú, Fábio já devia ter percebido o quão enfadonho era o grupo de “amigos” com que
andavam. A única diferença, porém é que Fábio já havia começado a fazer o que Edú queria ter
feito faz tempo: o afastamento do grupo.
- Nem estou afim... – respondeu o amigo, cuja resposta não surpreendera em nada Eddie. Já
esperava por algo assim. Foi o que ele fez ao recusar diretamente ao grupo.
- Não quer nem saber onde vai ser? – tentou novamente, revestindo o remédio intragável com uma
camada de mel.
- Diga.
- Em Quatro Barras.
Fábio se espantou:
- E você vai???
- Eu não! – exclamou prontamente Eduardo, como se só a idéia de ele ir fosse absurda.
- Então porque me chamou? – quis saber o amigo, encurralando o outro contra a parede.
“Não está sendo algo muito agradável falar com Fábio” pensou Edú, mas este apenas se
defendeu:
- Eu não chamei, só perguntei se você sabia do acampamento.
- Ah...
A conversa não estava levando ninguém à lugar algum.
Depois de um momento de um silêncio – de péssima qualidade – Eduardo mudou o tom de voz e
dessa vez perguntou super animado e carregado de interesse:
- Mas e aí Fábio? O que você tem feito de bom e proveitoso que possa ser comentado?
- Nada demais... – disse Fábio com naturalidade – saio de vez em quando, vejo um pessoal por aí
e pronto!
- A turma tá dizendo que você tá envolvido com drogas – desabafou Eduardo, que já não
agüentava mais de tanta preocupação com o amigo.
- Há, há, há, há! – riu gostosamente – Disseram mesmo?
- É! – afirmou Ed.
- Não, eu não estou envolvido com drogas – explicou o amigo, ainda rindo e depois esclareceu –
Mas confesso que já experimentei.
- Eu sei, seu mané! – comentou Eduardo – Eu lembro! Você me contou!
- Pois é! – e curioso indagou ainda – E o que mais o povo disse?
Ed sem rodeios:
- Que talvez suas saídas misteriosas escondam um belo par de pernas...
- Saídas misteriosas? Belo par de pernas???
- É isso aí! – afirmou Eduardo – Dizem que você tem namorada ou é amante de alguma coroa!
Pior, já até rolou comentário que você engravidou uma mina por aí... Fábio, todo mundo morre de
curiosidade para saber aonde você vai nos finais de semana, que não conta para ninguém!
- Ah, é? Ôrra, eu não sabia que era um mistério. Mas não sabem porque não querem. Ninguém
pergunta diretamente... – Fábio comentou com descaso.
- Ah é? Então não seja por isso. – Ed iria aproveitar a brecha que o amigo lhe abria – Aonde você
vai tanto?
Com naturalidade, o amigo lhe contou:
- Em boates gays!!!
Edú ficou paralisado.
Silêncio.
Não podia acreditar no que ouvira. Aquela notícia tinha caído feito bomba em seus ouvidos, que
agora zumbiam e incomodavam. Começara a sentir certa vertigem, quando, do outro lado da linha
Fábio explodira em gargalhadas:
- Há! Há! Há! Há! – e chorava de tanto rir – Eu tô brincando seu mané!!! Há! Há! Há!
Sem ao certo saber porque, uma sensação estranha percorreu a espinha de Eduardo. Era forte e
carregada com um misto de alívio e decepção.
Alívio porque seu melhor amigo não era gay.
De certo modo Eddie já sabia que Fábio não era, pois inúmeras vezes dormiram na casa um do
outro. Nadavam juntos e trocavam de roupa um na frente do outro. Tomavam até banho juntos e
Fábio jamais viera de papo-aranha para cima de Eduardo. Sem contar que em cada festa que iam,
Fábio agarrava praticamente todas as minas do pedaço.
Mas ainda não sabia porque se sentiu estranho ao ouvir tamanha brincadeira de mau gosto.
O que o incomodara? Aliás, porquê o incomodara?

Essa nuvem que se formava começava a tampar o sol.


Nunca nada perturbara Eduardo.
Não sabia porque agora perturbava. Só um pouco, é verdade, mas era como uma pedrinha no
sapato que por menor que seja, atrapalha para caminhar e fica incomodando...
Mas sentiu-se decepcionado também por outro lado, pois se o amigo fosse gay mesmo, Ed poderia
se abrir e revelar tudo o que estava sentindo e talvez Fábio pudesse até ajudá-lo, quem sabe?
Tentou desbaratinar:
- Ufa! Que susto você me deu!
.....
Franciele, irmã de Camila olhava para Eduardo e sorria.
O rapaz estava sentado na sala de estar junto com a garota de vinte e um anos, esperando o jantar
ficar pronto.
Era Camila quem estava cozinhando.
Queria fazer um prato sedutor para o namorado. Sabia que o ponto fraco do garoto era comida e
iria pegá-lo de jeito com uma receita afrodisíaca. Queria tirar a fome e o cansaço do namorado,
para conseqüentemente aproveitar a ausência dos pais e tirar outra coisa dele...
- Que lindos vocês dois juntos! – exclamava Franciele, parecendo uma gansa albina, de tão branca
que era, com seus cabelos cor de fogo e sorriso largamente exagerado – São tão bonitinhos!!!
Dudú não via nada de bonitinho.
Ficava quieto e apenas olhava de soslaio e sorria de vez em quando, como quem agradece o
elogio. Na verdade queria mesmo era chorar, de tão horrível que a situação se mostrava para ele.
- Minha irmã gosta muito de você! – dizia a garota – Acho que se acontecesse alguma coisa ruim
contigo ela iria morrer!!!
O garoto tinha ganas de mandar Franciele calar-se.
- Nada de ruim vai acontecer comigo – sorriu cordialmente o rapaz. Tentava tranqüilizar a irmã da
namorada. Só que paz não era o que ele conseguia nem para ele mesmo, como então podia
esbanjar para os outros?
- É lógico que não vai acontecer nada com você, e nem com ela, seu Eduardo bobinho! –
exclamava a gansa, que ao falar fazia dançar em sua cara todas as sardas cor de ferrugem – O
amor de vocês é abençoado. Seria uma violação da evolução natural interromper o que acontece
entre vocês dois!
“Eu não ouvi isso!!!” pensou Eduardo “Violação da evolução? Ai... Como ela é brega!!!”
- Que janta demorada, não é? – comentou Ed para desconversar.
Batia a mão de tempos em tempos nas coxas, deixando visível que não estava confortável.
- Pois é! – concordou a garota, que sorriu – E se bem conheço minha irmã deve demorar uma hora
ainda! Ela sempre capricha!!!
Olhando no relógio, Edú exclama teatralizando extrema preocupação:
- Mas então a gente só vai jantar lá pela meia-noite!!!
- E o que é que tem demais nisso? – quis saber Franciele, que resolveu tirar da cara do namorado
da irmã, apenas pelo tom de preocupação na voz – Não me diga que você vai virar abóbora
quando der meia-noite!!! – brincou.
“Que monga!” pensava o rapaz apenas olhando para a cara branquela e inexpressiva de Franciele
“Conseguiu ser pior que a irmã!”.
- Não Fran! – explicou Ed, tentando não azedar, tirando força do além para não escorregar para o
lado do seu gênio ruim – Não é isso! É que eu tinha que estudar! Acredita que ainda não revisei as
matérias de hoje?
- Ai! Que neura! Deixa disso! – protestou Franciele.
- Não posso! Neste exato momento tem milhares de outros concorrentes estudando e sabendo
detalhes a mais do que eu. Você sabe que são os detalhes que fazem a diferença!
- Exatamente! São pequenas coisas como, por exemplo, jantar na casa da namorada e dormir com
ela é que vão fazer a diferença! Pois quando o vestibular chegar, enquanto você saboreou da sua
responsabilidade com os estudos e da sua liberdade de detalhes, os outros vão é estar
estressados! Daí você passa esses milhares de pessoas que estão estudando hoje para trás!
Eduardo quis rir do sermão “deixa-de-ser-Nerds-e-vá-trepar-um-pouco!” que Franciele lhe passara.
Frases assim não o assustavam e sabia contornar a situação, ainda mais agora, que via o perigo
iminente, dando bote feito jaguatirica e precisava mesmo se safar:
- Fran, não se preocupe comigo! Eu vou jantar e vou dormir com a minha namorada. Só que eu
vou estudar também, ok? Depois do jantar eu vou dar uma pegada rápida nas apostilas, só para
lembrar as matérias e pronto!!! – e Eddie sorriu. Pretendia dar uma pegada nas apostilas e não
soltá-las até o sol raiar.
- Ok... se é isso o que você quer mesmo... cada um aproveita a noite como pode! Eu, por exemplo,
vou sair com minhas amigas para uma boate! A gente vai dançar a noite inteira e quem sabe até
descolar uns gatos!
- É isso aí! – disse o rapaz.
E Franciele, que sabia da falta de dar no couro que Eduardo estava proporcionando à irmã, soltou
uma direta:
- Se eu fosse você... preocupava-me em estudar anatomia humana esta madrugada!

Eduardo sorriu amarelo.


E BEEEEEM amarelo.

Será que elas só pensavam nisso?


SEXO! SEXO! SEXO!

Era uma conspiração!


A mãe de Camila devia estar mancomunada com a avó para que ela simulasse uma crise pior na
doença e precisasse da presença da filha e do genro que deixariam as filhas sozinhas em casa.
Isto é, fase um do esquema OK, casa território liberado.
Nesta hora então a namorada ligava para a mãe de Edú para avisar que a barra já estava limpa e
que o resto do plano poderia se desenrolar sem problemas. Passando para a fase três do
esquema, Sônia exigiria que o filho fosse dormir na casa da namorada sob base de seu poder
infinito de mãe. Chegando no território inimigo, fase quatro entraria em cena e a irmã de Camila
faria a guerra psicológica, dizendo coisas como “nossa! vocês são tão lindinhos juntos...” e
preparando o terreno, fazendo insinuações, e depois iria sair para a night, deixando a vítima
sozinha nas garras do assassino.
Aquele plano era maligno!
O desespero já estava tomando conta da imaginação de Eduardo!
- Puxa! É novo este bibelô? – o rapaz indagou, somente para a conversa tomar um outro rumo.
- Hein? – fez a garota.
- Esse aqui, ó! – e o garoto apontou para uma foca de cristal na mesinha de centro.
- Não, claro que não. Está aí desde sempre Eduardo.
- Ah é?
- É!
- Puxa, sabe que eu nunca tinha reparado?...
- Como não? Lembra quando colocou o pé na mesinha de centro e tudo veio abaixo?
- Não...
- Mas eu lembro sim, minha mãe teve que tomar dois copos de água com açúcar para não ter um
pirepaque!
- Pois é né?
Franciele apenas enrugou a testa, ao que Eddie comentou:
- Mas é um belo enfeite! – por quanto tempo mais iria agüentar ficar falando qualquer coisa que
distraísse a mente ignóbil de Fran ele não sabia, mas que estava disposto a tentar, isso ele estava.
- A JANTA TÁ MESA!!! – berrou Camila da cozinha.
.....
Quase do outro lado da cidade, já na cama, os pais de Eduardo estavam prontos para dormir. O
marido ainda terminava de ler o jornal.
- Benhê, o que será que nosso amado filhinho está fazendo agora na casa da namorada? –
perguntou Sônia, tirando alguns anéis de seus dedos. Veio se chegando para Antônio, encostando
carinhosamente a cabeça no ombro do marido.
- Não sei – respondeu o homem, sem desviar a atenção da leitura – mas seja lá o que for, espero
que não esteja fazendo sozinho!!!
.....
Eduardo olhava toda aquela comida na mesa.
Camila fizera moqueca de peixe com ervas finas, arroz branco com nozes, uma salada de folhas
“energéticas”, e para beber, comprara uma bela garrafa de vinho branco.
- Mas eu detesto vinho branco! – reclamou Eduardo fazendo pouco caso do esforço da namorada.
Ele sabia que devia haver algum motivo sórdido para ter uma bebida alcoólica em cima da mesa!
Ele sabia!
Sabia sim!
A namorada certamente o queria bêbado para depois abusar sexualmente dele!
- Você detesta tudo, eu sei bem disso e também sei muito bem que você não bebe e não gosta de
beber Eduardo – Camila foi discursando com certo medo em sua voz – mas esse vinho é para
combinar com o peixe...
- E quem disse que combina? – rebateu Ed, implacável.
- É... que... que... – gaguejava a namorada, sem graça - ...eu li numa...
- Viu? – atacou Edú bem ligeiro – Eu sabia! Leu em algum lugar! Deve ter sido numa dessas
revistinhas tolas que as mulheres vivem comprando! Deve ter sido naquela Nova, ou Cláudia, ou
Capricho... “nesta edição: mil e uma maneiras de lamber um umbigo” – disse com voz afetada e
depois acrescentou mordaz – que coisa sem originalidade!
Camila, sem graça, argumentou:
- Não... não foi! – e completou – Foi numa edição de boas maneiras e etiqueta, um livro que ganhei
da vovó! – a garota apontou para a moqueca fumegante – Lá explica tudo, diz que peixe combina
com vinho branco e...
- Ah! Lá explica tudo? – o garoto interrompeu novamente (evidente que estava na defensiva) –
Ganhou da avó?
- É...
- Isso já esclarece! – exclamou Eduardo, que começou a falar em um tom de quem está enrolando
uma criança com uma história fantástica – Deixa eu explicar... Camila, naqueles tempos tudo era
diferente! – fez uma pausa e olhou com piedade para a garota – O que nossos avós passaram
quando tinham nossa idade já saiu de moda. Acredite então que era moda usar aquelas roupas
ridículas... pois é... ninguém mais as usa. Já se foi este tempo, e com a comida é a mesma coisa!
Naquele tempo comia-se coisas estranhas com bebidas estranhas só para parecer chique e poder-
se dizer que era uma moça refinada e desse modo, fazer os homens quererem casar com você! –
e Edu completou super podre – Hoje em dia não precisamos fazer isso! Ninguém mais liga para
como nós adolescentes nos comportamos, nem pro modo como comemos ou falamos ou nos
vestimos. Essas barreiras já caíram! Já conquistamos nossa liberdade! Não precisamos mais
beber vinho!

A irmã de Camila estava de boca aberta.


Camila estava sem reação.
Que coisa...
- Eddie... mas... é só vinho... – balbuciou Camila.
- Só vinho? – indignou-se o rapaz, como se a pior das heresias lhe tivesse sido dita – Você imagina
o que um simples vinho como este aqui pode fazer com você??? – e foi enumerando as tragédias
– Você pode ficar tonta e desmaiar! Você pode bater com a cabeça no chão! Você pode perder a
razão e tocar fogo na casa! Você pode ficar bêbada e vomitar todo o jantar que preparou! E
imagina se eu beber e acontecer isso tudo comigo? Você quer que isso aconteça comigo? Quer
que eu beba e vomite?
A imaginação de Eduardo era poderosa e suas pirações acabavam sempre deixando todos em
volta tontinhos. Como podia viajar daquele modo?
- Camilinha... amorzinho meu... – continuou Edú – ...não seria melhor se nós bebêssemos um
suco?
Após alguns segundos de silêncio, Fran concordou influenciada pelo discurso do rapaz:
- É... um suco ia muito bem!
Assim que Camila colocou a jarra de suco de caju na mesa, Eduardo exclamou aprovando, como
se elogiasse um cachorrinho que consegue realizar uma tarefa como dar a patinha ou fingir-se de
morto:
- Isso garota!
Ela sorriu amarelo.
- Não é melhor assim?
- É! É sim Eduardo, concordo! Não quero que nada estrague nossa noite – e disse com sarcasmo –
Aquele vinho é muito perigoso! Acho que vou chamar a polícia aqui e mandar prendê-lo!
A irmã de Camila comia e bebia feliz e contente.
- Ai maninha! Que delícia!!! Acho que você que devia cozinhar nesta casa!
- Verdade! – concordou Edú, todo sorridente, com a bocarra cheia já aprontando outra garfada.
Realmente achara a comida muito saborosa.
- Você gostou amor? – animou-se Camila.
- É! Eu gostei!
- Que bom! – disse a garota, que não desistia – Então trate de comer tudinho, que depois tem
sobremesa...
- Oba! – exclamou Fran, arregalando os olhos, com água na boca – O que é?
- Pra você nada! – respondeu logo. Olhando maliciosamente para o namorado a menina atacou –
Só Ed vai comer o meu quitute...

O garoto parou com a comida no meio da garganta.


Só de pensar... ui!

Perdera a fome instantaneamente! Embora até um cachorro com síndrome de down pudesse
entender a indireta, Eddie resolvera fingir que não havia entendido.
- Mas o que é isso Camila?? Eu não sou egoísta! – o rapaz fez a comida entalada descer pela
garganta – Deixa de ser boba! – e olhou solícito para a irmã da namorada – Fran, se você quiser
eu divido a sobremesa com você!
.....
Terminada a janta, todos conversaram um pouquinho ainda à mesa, até que Camila se levantou e
chamou o namorado, ela tinha que arrumar um local para Eduardo dormir. Fran ficou lavando a
louça, enquanto Camila e Ed foram providenciar isso.
- Me ajuda aqui Dudú! – pediu Camila, puxando o colchão de dentro do armário da irmã.
O garoto foi para o lado da namorada e puxou o colchão de uma vez só. Com a força que tinha,
acabou puxando junto quase todo o conteúdo do armário. Algumas revistas caíram de dentro e
foram se espatifar no chão.
- Ahá! – fez a garota, como se desvendasse um mistério – Então é aí onde minha irmã as
esconde!!! – exclamou Camila olhando para as revistas espalhadas pelo chão – Venha amor,
vamos olhar algumas!
- Nem tô afim... – respondeu Eduardo, olhando sem interesse algum para os exemplares – São só
revistinhas de moda!
- Ah é? – fez Camila – Olha só! – e puxou do meio das revistas uma com a capa bem diferente das
capas das demais. Era uma revista de homens pelados – Veja só que pervertida minha irmã é!!!
Eduardo arregalou os olhos. Fran não parecia ser do tipo...
Camila sentou-se na beira da cama da irmã e convidou Eduardo a fazer o mesmo. Assim que o
garoto sentou, a namorada abriu a revista e exclamou:
- Isso deve ser muito engraçado! – e riu – Veja! – e apontou para o primeiro modelo – Olha só esse
cara! Que gostoso!
Era um homem, expondo tudo de fora, com o pintão duro em uma pose sensual debaixo de um
chuveiro ligado. Parecia um operário de mão-de-obra pesada tirando o cansaço e o suor depois de
um árduo dia de trabalho.
- Não vejo nada de mais! – disse Edu, chacoalhando os ombros em fingido desdém – Que que
esse cara tem de gostoso? Ele é feito de morango por acaso??? – e continuava tentando colocar
apatia em sua voz e demonstrar desinteresse.
A realidade era a seguinte: achara a foto um tanto quanto atraente.
Nunca havia visto nenhuma revista de mulher pelada, muito menos de homem. Parecia que estava
fazendo algo feio, algo estranho... ilícito! E aquela sensação, embora fosse muito estranha, era de
certo modo excitante.
- E olha esses dois! – ria-se Camila, virando a página – Que horrorosos!!! Se bem que a bundinha
desse...
Eduardo viu a foto.
Tratava-se de dois caras, conversando por cima de um muro. Um estava de costas e outro de
frente. Realmente os caras eram horríveis, mas os corpos deles... eram maravilhosos.
Eduardo não queria admitir, mas reconhecia a beleza deles.
À medida que as páginas iam revelando novas fotos, novos lugares e mais situações insinuantes,
Eduardo ia fixando o olhar nas faces perfeitas dos modelos, com seus corpos esculturais e
semblantes de deuses gregos.
Toda aquela beleza, aquela situação da nudez encarada na boa pelos modelos, como se fosse
algo natural e agradável, fizera com que uma fagulha se acendesse no interior de Ed.
Não sabia bem ao certo porque, mas estava se sentindo atraído pelos corpos definidos,
bronzeados e totalmente másculos.
Algo mexia com ele.

Algo estava se mexendo nele.

Algo dentro da cueca.

O garoto estava ficando excitado!


Como podia ser? O que aquilo significava? Porque achava aquelas imagens bonitas? Não... isso
não parecia certo!
Uma ciranda tomou parte da cabeça do menino. Ele era homem e tinha uma namorada. Ele tinha
que se sentir atraído por ela. Ele tinha que se sentir atraído pelas mulheres. No entanto, giravam
em sua memória as faces das garotas com que ficara e nada sentira. Lembrava-se de situações
que normalmente seriam pra lá de excitantes, ele sabia que eram, mas que não surtiam efeito
algum nele.

E agora... isso!
Ele estava sentindo tesão em ver homens pelados na revista quando na verdade devia era estar
sentindo nojo ou qualquer outra aversão pelo mesmo sexo.
...mas não estava.
Muito confuso, Eddie tirou a revista das mãos da namorada e indagou:
- Puxa... amorzinho, vamos parar logo de ver isso e voltar a arrumar minha cama, ok?
- Não Eduardo! – protestou a namorada tentando pegar a revista de volta – Eu quero ver! Me
devolve isso aqui!
- Não! Não devolvo não! Tá pensando o que da vida? Acho que não é legal você ficar vendo esta
baixaria! – o garoto coçou o olho direito, pigarreou e completou sem muita firmeza – Esta pouca
vergonha!
A garota revoltou-se:
- O quê??? Você não acha legal? Escuta aqui Eduardo, senhor bam-bam-bam, nós mulheres
também temos o direito de ver homem pelado, tá? Se a mulher pode mostrar tudo pro homem ver,
porque o mesmo não poder acontecer ao contrário? Me diga!!!
- É que... – Ed tentava argumentar sob o olhar inquisidor da namorada – veja bem, sob o ângulo da
moral... bem... é que...
- É que o quê???
- Não... não é nada... é só que não concordo com isso e pronto! – o rapaz desembuchou tais
palavras com as bochechas tão vermelhas quanto um tomate bem maduro.
- Ah é? Então só a mulher que tem que posar nua, aparecer pelada na televisão nestes
programinhas de auditório e só as mul...
- Não – Ed interrompeu – eu estou falando que eu não concordo tanto com o homem quanto com a
mulher. Nenhum dos dois precisa ficar se mostrando, ficar se vendendo vulgarmente. É disso que
eu não gosto! De vulgaridade!!!
Camila ficou olhando para o namorado sem dizer palavra.
Eduardo tornou a indagar:
- Agora, por favor, podemos arrumar a minha cama?
.....
Deitado em seu colchão, à meia luz, enquanto esperava Camila terminar de se trocar, Eduardo
pensava nas fotos que acabara de ver e na sensação que elas tinham despertado nele.
A cabeça estava que era um nó que ia se apertando cada vez mais.
- Eu achei homem bonito... eu achei homem bonito... – o garoto balbuciava como se estivesse
delirante e com febre.
- O quê? – perguntou Camila indo se deitar.
- Nada não...
- Ãhn... – fez Camila que agora se encontrava deitada também, mas sem cobertas e com uma mini
camisola.
Passado um momento de silêncio, a garota perguntou toda doce:
- Dú... posso apagar a luz do abajur?
Edu arregalou os olhos, levou a mão na testa e pensou “pronto, começou!”. Tentou se safar:
- Não sei... eu estou querendo dar uma estudada...
- Ah... estudar? Essa hora da madrugada?
- É.
Novo silêncio.
- Oras... pensando melhor... pode apagar a luz sim Camila, que eu não vou estudar! – resolveu
enfim o garoto.
- Ok.
Quando o quarto ficou escuro, a namorada tentou jogar mel, justamente como Ed havia previsto:
- Puxa amor... tá tão friozinho aqui né?
Ele, com a delicadeza de um Jeca respondeu:
- Se cobre, ué!
- Mas... eu tava pensando... bem... – ela estava totalmente sem graça – ...eu tava pensando
Duduzinho... que talvez você pudesse... você sabe... vir deitar aqui comigo...
Eduardo já ia respondendo “Deus me livre”, quando uma idéia se passou em sua cabeça.
Agora era a hora.
Com certeza!
Ela já estava tentando seduzi-lo e ele... bem, ele poderia deixar se seduzir.
Afinal, era homem, era macho e seu tesão tinha que ser por fêmea!
Nada dessa história de ficar excitado vendo revistinhas de homem pelado... não, não! Se era
mesmo homem, a hora de provar isso tinha chegado e era AGORA!!!
E não tinha desculpas!
Sem nada dizer, passou para a cama da garota num pulo.
- Amor!!! – ela exclamou praticamente incrédula e com um baita sorriso esculpido em seus lábios.
Eduardo começou a beijá-la, a abraçá-la, a se esfregar contra o corpo da namorada, tentando por
em prática o que seus instintos naturais lhe pudessem oferecer para a realização da “missão”.
Tirou a camisola de Camila, tirou seu pijama, ficaram os dois apenas com suas roupas íntimas e
Eduardo continuou acariciando a namorada. Continuou tentando... tentando... mas...
...nada acontecia.
O “negócio” simplesmente não funcionava.
Prosseguiu durante mais algum tempo, mas acabou desistindo.
- O que foi? – quis saber Camila que estava adorando, pra lá de excitada e pensando “oba! É
hoje!!!” – Que há de errado?
- Não... não é nada... – desculpou-se Ed.
Agora sim sua cabeça estava latejando tamanha era sua preocupação.
Como aquilo podia estar acontecendo? Como ele podia não funcionar com uma garota tão bonita
quanto a que ele tinha? Uma garota que se encontrava quase nua, disposta a ir até o fim, em uma
cama, no escurinho? Uma garota que era dele, só dele?
- Se não é nada... então porque parou? – indagou a garota, ofegando.
- Porque... isso não parece certo!
- Amor, o que não parece certo?
- Eu não sei... – e ele realmente não sabia – só não parece ser.
- Mas porque?
- Ah Camila... – e o rapaz foi tratando de arranjar uma desculpa – você é ainda tão jovem...
- E que tem isso demais? Você também é!
- Puxa! Eu sei! E é justamente isso! Vai que acontece alguma besteira? Vai que sai algo errado?
Eu não quero que você tenha traumas...
- Dú... – Camila passava as mãos pelos cabelos do namorado com muito carinho e sussurrava
– ...a gente já conversou sobre isso antes... você sabe muito bem o que eu penso! Amor, eu estou
pronta, eu quero!
A confusão era tamanha, que o garoto se sentia encurralado.
Não sabia o que fazer. Aquilo era por demais horrível para ser encarado na boa de uma hora para
a outra. O turbilhão em sua cabeça fazia uma pressão tremenda.
Não demorou, o garoto explodiu em lágrimas.
Apenas respondeu:
- Mas eu não estou pronto, eu não quero!
E escorreu para a sua cama no chão.

continua no próximo capítulo...

Fim do mistério - Os anjos também se enamoram


13.04.2004
Eduardo conhece o garoto do início da rua e acaba em seu quarto...

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por Maven - mavenmusic@hotmail.com

Capítulo V

Mal o dia amanhecera, Eduardo já estava de pé e arrumando as


suas coisas para ir embora. Quase não entrava luz no quarto, e
as poucas
réstias que existiam refletiam um tom sépia que pintava o quarto
como cena de filme antigo.

Quase se escutava a pianola ao fundo.

O rapaz tomava muito cuidado para não acordar Camila, que


ainda estava
deitada, toda encolhida, virada para a parede.

Duda primeiramente trocou de roupa, dobrou o pijama e colocou na mochila, depois,


quando ia calçar a meia, ouviu a voz de Camila:

- Porque está arrumando suas coisas?

Eduardo voltou-se e olhou para a cama.

A garota continuava na mesma posição.

Encolhidinha, toda miúda como se tivesse cólicas.

- Já está acordada? – Eddie indagou sem jeito. Sua voz voou


macia, embrulhada em cuidado.

É lógico que estava acordada.

- Eu não consegui dormir a noite inteira – Camila respondeu. Articulava


as palavras como se as mastigasse, muito duras eram e podiam lhe machucar.

- É... – disse Edú – ...eu também não


preguei os olhos.

- Já vai embora? – ela quis saber, e para Eduardo nunca a voz da


namorada lhe parecera tão magoada.

- Daqui a pouco... – respondeu o garoto, muito sem graça, já


terminando de arrumar seus pertences.

Era meio como se tivesse sido pego com a boca na botija, um ladrão na
iminência de deixar a cena do crime de modo desonrado, covardemente após
o delito.

- E ia embora sem me avisar?

- Não! É claro que não – disse Ed, desculpando-se,


fechando a mochila e colocando-a nas costas – Ia te beijar em despedida
e avisar que estava indo para casa.

- Ah... – fez Camila. Virou-se para ver o namorado.

- Mas eu não ia agora... agora...

A garota observando o rapaz já vestido e de mochila nas costas disse


amarga:

- Não... claro que não – e virou-se novamente para a parede.

- Pois é! – fez Edu, esfregando uma mão na outra, tentando


não sumir de vergonha.

- Creio que não vai cumprir sua promessa, não é? Você


tinha me prometido que ia almoçar aqui.

- É... eu sei.
Um silêncio monstruoso invadiu o quarto.

Fazia parte da trama também.

O garoto.

A garota.

O silêncio.

Lá de fora, bem ao longe, ouviam-se apenas os pássaros cantando


vindo saudar a manhã.

- Pan tocou a flauta...

- Hein? – fez Eduardo, sem entender nada.

- Você sabe quem é Pan, não sabe?

Camila era apaixonada por mitologia e vivia contando lendas para Eduardo, mas
ele não estava muito certo se sabia com exatidão quem Pan era,
tinha apenas uma vaga e incerta lembrança.

Mas o pouco que se lembrava era suficiente.

Pan era uma entidade mitológica, um jovem com chifrinhos e pernas de


cabrito que tocava flautas pelos campos, dançando e procurando atrair
as musas dos bosques.

- Sei... – Eddie respondeu – mais ou menos... é o carinha


de chifres, não? O que é que tem ele?

- Pois Pan era muito feio. Nenhuma das musas o desejava. Um dia, Afrodite, a
deusa do amor, deu-lhe uma flauta encantada. Disse lhe que cada vez que tocasse
o instrumento, as musas o desejariam. E Pan tocava a flauta – Camila foi
dizendo – para as suas musas... e elas se encantavam... se enamoravam
dele, mas ele a nenhuma queria...

- Como poderia...

Camila aumentou a voz e interrompeu a fala do namorado bruscamente:

- Afrodite não havia explicado... quando um ganha, outro perde. Ele perdia
interesse quando as musas os procuravam. Então, um dia as belas entidades
se revoltaram e roubaram a flauta de Pan enquanto ele dormia. Em vingança,
retiraram uma nota musical do instrumento. Quando Pan despertou, foi tentar
tocar sua flauta para encantar as musas e descobriu que ao invés delas
se apaixonarem por ele, eram os anjos que acabavam sob o seu encanto.

- Anjos? Mas Camila, o que isso tem...

Ela continuava a falar:

- Os deuses não podiam admitir tal coisa. Não... os anjos não


podiam se enamorar de ninguém... anjos não podem se apaixonar.
Então, como solução, os deuses decidiram que Pan, ao tocar
a flauta faria todos os anjos apaixonados caírem mortos no chão...

- Mas...

- E foi assim. Cada vez que Pan tocava sua flauta, fazia os anjos caírem...

Camila narrava a história de tal modo que parecia que ela mesma tinha
participação neste mundo mitológico. Parecia querer passar
um recado como quem diz “eu tenho medo de cair morta também”.

Agora Eduardo entendia.

Ele tinha tocado a flauta.

Cedo ou tarde alguém ia sofrer por conta disso. Ele demorou ainda um
pouco para quebrar o silêncio, mas finalmente indagou:

- Eu sou mesmo ruim, não? – o garoto indagou, e as palavras da namorada


ecoaram em sua cabeça “quando um ganha, outro perde”.

- Não Ed. Eu creio que não. Acho até que é excesso


de bondade – Camila disse enquanto afagava uma mecha de seus cabelos dourados.

- Camila... eu me sinto enfiando um espinho no peito de um passarinho ferido


e indefeso. Não entendo como isso pode ser bondade.

- E isso não é bondade? Dar golpe final a quem sofre? De qualquer


modo não é disso que estou falando, eu vejo bondade ingênua
em seu ato. Você tenta me proteger... você tenta não me deixar
impura... – fez pausa – ...mas não é assim que eu
vejo. Não é o modo como eu encaro isso... pois para mim não
há nada mais puro do que o amor entre duas pessoas.

- Ah Camila... eu também acho, inclusive...

- A não ser, é claro – a garota interrompeu –, que


não me tenha mais amor...

- Deixa de bestei...

A garota interrompia sempre, precisava se firmar em sua linha de raciocínio:

- Então eu compreenderia. Tudo estaria explicado.

- Não Camila, é que... – ele ia se explicar sem justificativas.

- O quê?

O garoto nada pode dizer. Não podia procurar dentro de si palavras seguras
e honestas para falar, pois se o fizesse, magoaria mais ainda a namorada, preferiu
ficar calado, forçando sua natureza madura se calar, e isso lhe consumia
tanta energia que tremia inteiro.

Figura de refugiado de guerra, mudo e insone junto da porta.


Seus olhos marejaram e então, com a voz trêmula falou:

- Nada... tchau.

Abaixou a cabeça e saiu do quarto.

...não houve beijo de despedida nem nada.

.....

No caminho de volta para casa, Eddie desejava não ter sentimento algum.
Nem bondade, nem ruindade, nem alegria nem tristeza, nem sensação
de fome nem de saciedade, nem plenitude, nem solidão. Seria mais tão
mais fácil ficar neutro. Iria parar de machucar os outros com sua cabeça
dura e também iria parar de se machucar.

A solução não era essa, mas ninguém provaria o contrário


ao garoto transtornado, que desviaria de seu rumo e seguiria selva adentro e
se perderia por não querer enxergar o seu caminho natural.

Quando desceu do ônibus, Eduardo estava pensativo.

Caminhava rua abaixo, tomando o rumo de casa, arrancando folhinhas dos álamos
de copas gordas e verdejantes. Além de ter aquele maldito nó em
sua cabeça, ainda se preocupava em bolar uma desculpa convincente para
apresentar aos pais, que certamente iriam estranhar a sua presença de
volta em casa tão cedo.

E ia passando mergulhado em pensamentos quando...

GRRRR... AU! AU!

O cachorro da casa do começo da rua avançou com tudo na direção


de Eduardo.

O susto fora tão grande que sentiu um formigamento no corpo inteiro.

Ficou tão branco quanto uma pessoa pode ficar.

Passado o primeiro instante de susto, outro sentimento se apoderou do rapaz.


A injeção de adrenalina em suas veias fez o sangue ferver. Sem
pensar no que fazia, apenas fazendo mecanicamente, como um instinto, Edu retesou
a perna direita para trás, armando um chute contra o cão que avançava
em sua direção com os dentes à mostra e...

PIMBA!
O chute que deu fora com mais gosto do que se fosse uma bola na mira exata
do gol. Deu um bicudão bem na ponta do focinho do animal que voou para
longe com o impacto. A trajetória que o cachorro descreveu no ar fora
a mais desajeitada o possível, o bicho mais parecia um saco de batatas
todo desconjuntado do que um ser vivo.

O animal caiu na grama da entrada da casa.

Eduardo, ainda cego de ódio, resmungou:

- Besta demoníaca...

Ficou parado, esperando o bicho se levantar novamente, com a bocarra aberta


e garras sinistras, como Freddie Krueger, que leva porrada, é detonado,
é esquartejado e não morre nunca.

Mas o cão não se levantou.

Eddie apurou os ouvidos para captar qualquer gemido.

Mas nada escutara.

Resolveu investigar...

Agachou-se em frente do animal e tocou seu pelo. Pressionou a mão contra


as costelas do pequinês na esperança de obter alguma reação,
mas embora o animal estivesse quente, já não se mexia e nem respirava.

- Eu matei o desgraçado! – exclamava Ed num misto de arrependimento


e satisfação – Eu matei o desgraçado! – repetia
incessantemente.

Verificou a pelagem do animal.

Estava intacta.

Como podia ter matado o cachorro com apenas um pontapé? Será que
o bicho tava se fingindo de morto. Era bem capaz do jeito que o cão era
ruim feito a peste... Eduardo estava perplexo.

Ao tocar o focinho do bicho, reparou que ele estava úmido de sangue.

- Eca! Tá cheio de sangue! – fez o rapaz – Que nojo! –


e limpou a ponta dos dedos na grama.

E agora?

O que faria?

Ele podia muito bem ir para casa e deixar o incidente morrer por ali mesmo,
uma vez que não existiam testemunhas. Podia ainda dar sumiço do
cachorro, assim seria apenas mais um bichinho que saiu de casa e não
voltou mais.

Os donos podiam até pensar que ele fora simplesmente roubado.


Eduardo podia falar com os donos do bicho e inventar uma desculpa qualquer e
pelo menos... tentar se safar dessa...

Putz! O que faria? O que seria correto?

Bem, o correto Eduardo sabia muito bem o que era, mas simplesmente não
o podia por em prática. Nunca teria coragem de tocar a campainha e dizer:

- Oi! Sabe o que é? Eu estava descendo a rua para ir para casa, pois eu
moro logo ali no retorno – e teria que dizer com a maior cara de pau –
quando dei um chute no seu cachorro e o matei!

.....

Ao tocar a campainha, Eduardo suava frio nas mãos. Esfregou uma na outra
e estufou o peito.

Estava ali parado diante da porta sem ao menos ter bolado uma desculpa decente.
Ia apenas inventar na hora, pois sempre que bolava algo para ser dito, acabava
dizendo tudo ao contrário.

O dlim-dlom da campainha fez ecoar um abafado “já vai” numa


voz masculina vinda do interior da casa.

Passado bem uns trinta segundos, a porta se abriu.

Quem a abria era um rapaz de aproximadamente vinte anos, com uma toalha enrolada
na cintura. Tinha os cabelos encharcados e o corpo molhado ainda.

Estava pingando e formando uma poça debaixo dos pés.

Eduardo arregalou os olhos.

O garoto daquela casa se parecia muito com um dos modelos da revista que vira
na casa de Camila.

Claro que não era – pensou logo Eduardo, piscando e chacoalhando


a cabeça – mas o jeito do garoto lembrava e muito. Talvez fosse
por causa da sensualidade da situação, da exposição
sem a vulgaridade, mas ainda sim, com o toque erótico da toalha na cintura.

Ele tinha os cabelos castanhos, com um comprimento médio, pele firme


e com um tom rosado. O corpo era bem definido e os músculos do peito
quase saltavam para fora do tórax. O abdômen era bem trabalhado
e apresentava aqueles quadradinhos sensuais.

Ed tinha certeza que aquela toalha branca e felpuda escondia um par de pernas
fantásticas, com coxas poderosas...

...por instantes Eduardo chegou a desejar que aquela toalha caísse...

...a estranha sensação estava voltando para Eduardo. Aquela inquietação


do dia anterior se alojava novamente em sua alma... ele estava novamente tendo
uma ereção!
Era algo muito belo aquele corpo ali, mas...

...o garoto não queria nem pensar nisso! Era como se algo de maléfico
voltasse para sua cabeça, algo que simplesmente não podia ser,
como um anjo vingador trazendo sofrimento aos pecadores.

Tratou de desviar o olhar, virar a cara para outro canto qualquer e falar:

- O-oi! Sabe o que é? É... e-eu estava descendo a rua para ir para
casa, pois eu moro logo ali no retorno – disse Ed, totalmente sem jeito
– quando de repente passou um cara em uma bicicleta que passou por cima
do pescoço do seu cachorro!

- Como??? – perguntou o rapaz à porta, confuso.

- É isso mesmo... o cachorro atropelou a bicicleta, digo, ai! Foi a bicicleta


que atropelou o cachorro! – era muito evidente o nervosismo de Eduardo.
Já não bastava ter que inventar uma história fantástica
para explicar a morte do cão, tinha ainda que tentar não se perturbar
pela nudez do outro rapaz.

O jovem de toalhas percebeu o desconforto de Eduardo e escondeu-se detrás


da porta, deixando apenas a cabeça para fora.

Isso só contribuiu para deixar Edú mais tenso e perguntando para


si mesmo se o outro rapaz teria percebido seus olhares. Ai, que situação!

- Mas você viu quem era o cara? – indagou o rapaz sem mostrar muita
preocupação na voz.

Parecia até que o cachorro era detalhe secundário.

Eduardo fez que não com a cabeça.

- Não viu, né? – decepcionou-se o garoto de toalhas –


Viu ao menos a roupa que ele tava usando?

- Ro-roupa?

- Sim, claro! Tá cheio de gente andando de bicicleta para cima e para


baixo, mas eu pego o carro e procuro o homem da bicicleta de acordo com a roupa.
Você lembra se viu?

Então Eduardo foi logo tratando de mentir:

- Vi sim! Ele tava usando uma calça jeans bem velha, uma camiseta preta
e chinelos tipo havaianas...

O rapaz sorriu segurando a porta, enquanto seu cabelo pingava pelo rosto de
pele clara:

- Você reparou tudo isso... – fez uma pausa ainda sorrindo e foi
logo jogando verde – ...e não viu como era o homem?
- É que... – desculpou-se Edú – ...é que o cara
passou muito rápido e estava de costas pra mim...

- Ah! Sei... – fez o outro rapaz decifrando Eduardo por completo.

- Pois é... – complementou Ed como quem quer dizer “sei que


parece absurdo, mas é a pura verdade”.

- Mas... Fred morreu? – quis saber o rapaz de toalhas, que começava


a tremer de frio com a pele e mamilos arrepiados.

- F-Fred? – indagou Eduardo um tanto quanto confuso.

- Fred! – repetiu o rapaz e esclareceu – O cachorro!

- Ah! – fez Eduardo como se finalmente entendesse uma conta muito difícil
– Sei... sim, Fred... – fitou o vazio lembrando em flashback a cena
do chute e afirmou sem o mínimo tato – É... seu cachorro
morreu sim... tá ali na grama...

- Hum... – ponderou o garoto, tremendo muito e pingando ainda – Tudo


bem! Ele não era o meu cachorro mesmo! E para falar a verdade, eu nem
gostava dele!

- Ah... é? – fez Eduardo, surpreso ao ouvir tamanha confissão.

- É! – reafirmou o garoto – Ele sempre me atacava e avançava


em mim – e acrescentou com um tom de voz teatral – Como eu detestava
aquele cão!!!

- Sé-sério??? – indagou Ed, que mal podia acreditar que alguém


passava pelo mesmo sofrimento que ele passava – Puxa... se este é
o caso... bem... eu também não gostava daquela peste!

- Ahá!!! Te peguei!!! – gritou o garoto na porta como quem grita


EUREKA – Eu sabia! Você matou o cachorro! – e apontou o dedo
para Eduardo.

Duda não sabia o que fazer nem o que pensar.

Ao passo que o outro garoto continuava falando:

- Você não gostava dele também! Você não gostava!!!


Agora confessou o seu crime!!! – o rapaz de toalha continuava apontando
para Eduardo.

- O quê? – perguntou Ed, perdido – Crime? Que crime! Eu só


falei que eu não gostava daquele cachorro!

Então o garoto na porta abaixou o dedo e abriu um sorriso.

- Mas não esquenta! – e acrescentou, agora começando a rir


– A verdade é que eu não gostava dele mesmo!!!

- É?
- É! Sério! – e a cabeça que aparecia detrás
da porta gargalhava.

- Ah... – Eduardo pensou “puxa... o coitado é doido...”.

E então, o garoto da toalha parou de rir por completo:

- Mas minha mãe... coitadinha... vai ficar arrasada! – balançou


a cabeça de um lado para outro em pesar – Ela gostava muito do
Fred... aquele cachorro idiota e pentelho! – o garoto ficou com o olhar
parado, fixo em algum ponto perdido do universo até que de repente, despertou
do transe e exclamou sorridente – Mas entra aí!

- Como? – fez Eduardo com cara de “como?”.

- Entra aí que eu estou morrendo de frio! – ordenou o rapaz.

Eduardo olhou para a cara do garoto sem nada entender.

Mas acabou entrando.

.....

O rapaz de toalhas ia andando corredor adentro, enquanto Eddie o seguia. Tinha


o olhar fixo na parte traseira do rapaz. Não criatura inocente, não
era nas costas, era na bunda do outro mesmo.

Edú não tinha como não olhar.

Não que fosse tarado, mas uma força de natureza misteriosa obrigava
os olhos do rapaz a ficarem grudados na traseira do outro. Alguém de
fora precisaria deixar a vulgaridade indiferente e reparar na beleza escondida
por detrás daquela cena. Apreciação total que Eduardo tinha.

- Então – disse o garoto de toalhas que andava em passos lentos,


ainda de costas e conduzindo Edú pela casa – você me disse
que mora logo ali no fim da rua. Isso significa que somos vizinhos! Formidável
esse fato. Espero que possamos jogar bola de vez em quando – o rapaz continuava
a andar e tagarelar até que de supetão exclamou – Mas veja
só! Eu falei um monte até agora e ainda não me ocorreu
de nos apresentarmos...

- Ah! É verdade! – exclamou Edú, saindo do transe, desviando


o olhar da bunda e fixando-o na nuca do rapaz – Eu sou o Eduardo!

O outro rapaz virou-se de subitamente e exclamou:

- E eu o Rodrigo!!!

Eduardo não contava com a guinada brusca do rapaz e não conseguiu


“frear” em tempo.

Ocorreu um leve encontrão com Rodrigo.


Ficaram face à face.

Dú podia até sentir o hálito doce e ofegante do rapaz de


toalhas.

Diante do incidente, Rodrigo abriu um sorriso, que Ed não pôde


deixar de achar lindo. Era um sorriso perfeito, de dentes alinhados e muito
brancos.

- Muito prazer... – disse Rodrigo quase encostando os lábios nos


lábios de Edú.

Atordoado, Duda não conseguiu fazer nada além de sorrir de volta,


como quem diz “tá! tá legal, o prazer é todo meu...”.

Esquivou-se dando um leve passo para trás.

- Pode me chamar de Go ou Digo, é como me chamam... alguns chamam de Diguinho,


mas só os mais íntimos.

Não havia dúvida que o clima ali estava muito sinistro...

Chegando no quarto de Rodrigo, este exclamou:

- Senta aí – e apontou para a cama – que logo eu volto. Você


não se importa de esperar eu terminar meu banho, não é
mesmo?

Sentando-se na cama, Eduardo fez que não com a cabeça.

- Ótimo! Daqui a pouco eu volto e a gente vê o que faz com o Fred.

- Fred? – indagou Eduardo confuso.

- É! – exclamou Rodrigo, como se fosse a coisa mais elementar do


mundo – A gente vai ter que fazer alguma coisa... tipo, tirar o cachorro
da grama, enterrar... sei lá! – e terminando de dizer isso, fixou
Duda bem nos olhos para talvez tentar descobrir em que camada da atmosfera ele
se encontrava.

Demorou certo tempo até Dú sair do transe.

- Ah! Tá... – fez Eduardo, entendendo – ok! A gente pode colocar


num saco de lixo e jogar fora...

O garoto de toalhas sorriu e saiu do quarto, deixando Edú com seus pensamentos.

Estava se indagando porque entrara naquela casa.

Nem conhecia o outro rapaz e já estava no quarto dele!!!

De algum modo aquilo parecia errado, embora não existisse ali nada que
dissesse que aquilo era errado. Não havia nada de anormal, afinal, já
estava bem acostumado a esperar amigos saírem do banho. Era normal após
o esporte, era normal quando iam a festas. Esta mesma situação
já tinha se repetido umas mil vezes com Fábio e nunca tivera a
conotação que agora tinha...

...o que seria isso que tornava a estada ali naquele recinto tão inquietantemente
errada? Aliás, tão deliciosamente errada?...

Não podia negar que achara Rodrigo sensual.

O quarto estava meio bagunçado. A cama era de casal, e estava desfeita,


o que levou Duda a concluir que Rodrigo acabara de se levantar e agora fazia
sua toalete. O pijama de algodão estava jogado ao chão, com descaso.

Um belo tapete de renda nordestina estendia-se pelo quarto.

Era uma peça, que embora meio desordenada, acalentava muito aconchego
e dava um toque displicente ao recinto.

Uma foto de Rodrigo na sua tenra infância estava emoldurada na cabeceira


da cama. Fora sem dúvida uma criança adorável. As bochechas
eram vermelhas e gordas. Eduardo achou muita graça na foto. Outro retrato,
ao lado, já era mais recente, devia ter no máximo um ano e era
de Rodrigo abraçado com um bando de amigos em um local estranho, que
Eduardo não conseguira identificar.

O quarto tinha um cheiro que muito agradou Edú. Não sabia distinguir
aquele cheiro, não sabia que estranho odor era, mas acalentou-se e sentiu-se
bem por estar naquele ambiente.

Havia uma estante onde diversos troféus estavam expostos. Eram de muitos
tamanhos, com inúmeras medalhas ao redor do pescoço de estatuetas
ora prateadas, ora douradas.

Por curiosidade, Eduardo levantou-se e foi examiná-los. Todos haviam


sido ganhos em jogos de vôlei, basquete, futebol e tênis. Rodrigo
participara de diversos torneios e saíra vitorioso da maioria. Dos que
não saíra com vitória suprema, ganhava sempre troféu
ou medalha por honra ao mérito, afinal, o que importa é participar...

- Demorei? – perguntou Rodrigo, entrando subitamente no quarto, surpreendendo


Eduardo.

- Hã? – assustou-se Ed – Ah! Não...

- Que tal? – indagou Rodrigo, sorridente.

O rapaz ainda estava com uma toalha enrolada na cintura, mas já era outra
e desta vez, não pingava. Acabara o banho e se secara, penteara os cabelos
e cheirava muito bem.

Como Eduardo ficou de olhos arregalados e não respondeu nada, o garoto


resolveu perguntar novamente:
- E então? Que tal? – e apontou para os troféus.

- Ah! Pois é! Eu só tava olhando... – desculpou-se Edú,


e depois elogiou – São muito legais! Você que os ganhou todos?

- É! – concordou Rodrigo – Eu sou “atléta”!


Ganhei a maioria desses troféus de uns anos para cá!

- Mesmo? – interessou-se Duda. Esporte era algo de que sempre gostara.

- É verdade! – disse Rodrigo com o seu sorriso perfeito na cara


– Depois que entrei na faculdade principalmente... faço Educação
Física e vivo viajando para campeonatos e coisas do gênero.

- Que legal... – disse Eduardo, com muita sinceridade – eu também


tenho os meus troféus, mas são bem mais modestos que os seus...
costumava ser um cara bem esportivo, mas confesso que hoje em dia não
me sobra muito tempo...

- Porque? – quis saber o garoto de toalha – Você trabalha?

- Não, não! É que ainda não estou na faculdade...


– esclareceu Eduardo – faço cursinho e isso me toma muito
o tempo – e calou-se. Rodrigo olhava intensamente para Ed. Sem saber o
que fazer, o garoto complementou inutilmente – Fora que ainda tem aula
de língua estrangeira, redação... coisas assim... mas nem
dá nada, porque eu não era atleta como você. Era como um
hobbie. Por isso não ligo muito e dou mais importância aos estudos.
Claro que de vez em quando faz um pouco de falta jogar, mas quem se importa?

- É... – fez Rodrigo, dono da situação – É


foda! Ainda bem que não passei por isso! Estudei pouco para o vestibular,
não abri mão dos meus jogos, mas passei de primeira...

- Você teve sorte! – invejou Eduardo.

- Não... não foi sorte não... é que meu curso não


era tão concorrido assim naquele período... – Rodrigo explicou
– ainda mais que a minha faculdade é paga... então... já
viu, né?

- Ok... – fez Eduardo não para apoiar a frase de Rodrigo, mas sim
para não se parecer como uma múmia que não interage na
conversa.

Ainda assim, Rodrigo sorria.

O garoto de toalhas encaminhou-se para o guarda roupa, abriu a portinhola, retirou


uma camiseta, uma bermuda e uma cueca. Jogou a roupa em cima da cama e tirou
a toalha.

Ficou nu em pêlo.

Bem ali, na frente de Edú!


Rodrigo fez isso com estudada naturalidade, pois percebera o quanto Eduardo
tinha se incomodado com o modo com que ele havia atendido a porta e queria levar
aquilo um pouco mais longe.

Sabia que Duda sentia-se desconfortável, mas queria estudar a sua reação.

Travou conversa antes de se vestir:

- Que curso você pretende fazer?

- E-eu? – gaguejou Eduardo com muita vergonha, sem olhar para o corpo do
rapaz.

Que situação chata.

Edú já tinha passado por isso nos vestiários de clube,


colégio, na casa dos amigos, mas era tão diferente naquela época,
e agora... argh! Algo acontecia ali!

Aquela nudez incomodava.

Incomodava porque Eddie queria olhar, mas não podia, se pudesse teria
que ser natural, mas se olhasse jamais seria natural. Algo muito confuso, mesmo
assim, Eduardo lutava para se expressar de maneira adequada e não transparecer
em sua voz esse fascínio às avessas:

- E-eu quero fazer medicina...

- Na Federal?

- É...

- Puxa! – admirou-se Rodrigo, que se aproximou de Eduardo, com aquele “negócio”


solto, balangando no meio das pernas – Tem certeza que você quer
medicina na Federal?

- Te-tenho! – acanhou-se Eddie, que a esta hora, olhava para qualquer canto
do quarto em que Rodrigo não estivesse.

- Ah! – exclamou o garoto nu, e como se fosse um velho amigo, aconselhou


– Se é isso o que quer de verdade... então vá em
frente! Estude mesmo!

- É! – fez Eduardo, diante do incentivo.

- Meus pais são médicos, sabe? – falou Rodrigo como se falasse


ao acaso.

- Mesmo? – interessou-se Eduardo.

- É! – respondeu Rodrigo, agora pegando a camiseta de cima da cama


– Meu pai é especialista em fraturas e minha mãe é
clínica geral – vestiu a peça.

- Nossa! – maravilhou-se Edú – deve ser formidável


ter dois médicos em casa!

- É... – Rodrigo concordou descordando – você não


imagina o quanto!

- Porque o desânimo? – quis saber Dudú que não pôde


deixar de notar a ironia na voz do garoto, que agora já vestia a cueca.

- Porque nunca tive a presença dos meus pais. Tive apenas vultos deles.

- Você cresceu separado de seus pais? – indagou Ed, penalizado.

- Não! – disse o garoto imediatamente – Não cresci,


mas desde pequeno, eles trabalham à noite. E eu estudo de dia. Então,
quando estou em casa durante a noite, estou dormindo e eles estão fora.
Quando chegam, eu é que saio. Quando chego à tarde, eles estão
dormindo para irem trabalhar à noite.

- Puxa... – fez Eduardo, com dó do novo amigo – ...eu entendo...


que saco! Deve ter sentindo muito a falta deles.

- É! – fez Rodrigo como quem não se importa e sorriu novamente


– Imagina como não eram minhas festinhas de aniversário!
Mas eu me acostumei! Lá por volta dos treze anos eu já achava
isso normal!

- Certo... – aliviou-se Eduardo – mas eu acho que não ia me


acostumar não. Principalmente pela minha mãe, sou muito apegado
a ela. Não ia achar normal isso não.

- Ah é? – indagou o garoto, que colocava a bermuda. Resolveu instigar


o vizinho novamente – E o que mais não acha normal?

- Eu? – perguntou Eduardo, apontando o indicador para o próprio


peito, esperando uma confirmação.

- É! – confirmou Digo.

- Não entendo o que você quer dizer com isso... – resmungou


Edú, meio perdido, meio sabendo.

- Sabe sim... – afirmou Rodrigo – o que esta foto lhe diz? –


pegou o porta-retrato de cima da cabeceira da cama e o mostrou para Edú.

Era a foto em que o bando de amigos se abraçava, tendo muita diversão.

- Nada! – disse Eduardo observando a foto – É normal tirar


foto! Completamente normal ter amigos!

- Sim! Claro... – concordou o rapaz – natural lá isso é!


Mas este local... você sabe onde é? Ou melhor, você sabe
o “quiéquié”?

- Não... – disse Eduardo.


- É uma boate!

- Boate?

- É!

- E o que isso tem de anormal? – quis saber Duda – eu mesmo já


fui em boates, dancei a noite toda com a galera, isso é completamente
comum para quem curte balada.

- Ahhh... Mas essa não é uma boate comum... é a GrooveLandS.

Eduardo arregalou os olhos.

A GrooveLands!!!

Já tinha ouvido falar naquele lugar diversas vezes.

Todo mundo já tinha. Não ter escutado histórias sobre esse


local era a mesma coisa que achar perna em peixe – impossível!

- Aquela boate gay???

- Isso! – confirmou Rodrigo confirmando com sorriso de canto de boca –


Todos nessa foto são gays! – e inclinou-se para Edú –
Você acha isso normal?

O garoto tomou o retrato em mãos. Parecia embasbacado.

- Você tem amigos gays? – quis saber Eduardo, num misto de nervosismo
e curiosidade.

- Claro! – afirmou o rapaz e acrescentou com muita naturalidade –


Eu sou um deles!

- Você é gay??? – espantou-se Eduardo.

Rodrigo riu gostosamente.

- Como se você não soubesse!

- Eu? – admirou-se Eduardo – E porque haveria de saber???

- É claro que você sabia. Desde o momento em que atendi a porta.


Ah! – fez Rodrigo – Você sabe, né? – e explicou
– É aquele lance de... digamos... indivíduos de mesma espécie
se reconhecerem mutuamente...

- Indivíduos de mesma espécie? – perguntou Eduardo confuso.

- É! – confirmou o rapaz, que concluiu faceiro – Se reconhecem


de longe!!!
Neste ponto Eduardo ficou vermelho e indignou-se:

- O quê??? – e atropelava as palavras por dizê-las muito rápido


– Você acha que eu... Você quer dizer então que, você
acha que eu sou, como pode dizer, digo, como ousa...?

- Calma! – interrompeu Rodrigo – Calma! Você não precisa


ficar nervoso que eu não...

- Mas isso é um absurdo! – Exclamou Eduardo, como se explodisse,


interrompendo o outro garoto por sua vez – Não tem lógica
mesmo!

- Não Eduardo, é que... – o outro ia dizendo calmamente.

Mas Eduardo não ouvia:

- Oras! E veja se tem cabimento! – o garoto chacoalhava a cabeça


do jeito que fazia quando algo o deixava fulo. Queria atacar o outro –
Desde lá de fora eu já tinha percebido que você não
batia bem das bolas!!! Imagina, rir daquele jeito com o cachorro morto! E agora
mais essa! Bem se vê que você não regula das idéias!
Achou que eu fosse boiola? Achou que eu fosse o que? Nem me conhecia e disse
para eu entrar...

- No entanto... – disse Rodrigo, calmamente, rebatendo a tentativa de ofensa


que Eduardo lhe fazia – ...você entrou!

- Mas é que... – Eduardo deteve-se. Não tinha o que responder.


Não tinha desculpas. Entrou porque quis mesmo – é que...

Rodrigo olhava com ar de troça para Eduardo.

Esperava ansioso por uma desculpa qualquer para poder se rir do moleque, que
estava totalmente sem defesas. Eduardo tremia o queixo tamanha a raiva que sentia.

- Oras! Oras! – explodiu novamente enfiando o dedo no meio da cara do outro


garoto – Eu não devo satisfação nenhuma para você!

Rodrigo riu alto e gostoso.

Eduardo revoltou-se ainda mais.

- Passar bem!

E saiu bufando pelo mesmo caminho que fez para chegar no quarto do rapaz.

Rodrigo ainda gritou lá de dentro:

- Ei! Devolve a minha foto!!!

.....
Eduardo entrou feito um tufão em casa e foi direto sentar-se na mesa
da copa. Batera a porta da entrada atrás de si com toda força
que conseguira reunir. A casa inteira tremeu. Os pais de Edú que estavam
na saleta ao lado do hall de entrada escutando rádio e namorando um pouquinho
ao ouvirem o estrondo da porta reviraram os olhos.

- Nosso filho está em casa – constatou Antônio para Sônia


– e parece que ele está sentando-se à mesa da copa...

- Huum... – fez a mãe sem paciência – eu sei... eu sei..


deixa comigo! – tirou os braços do pescoço do marido e levantou-se.
Foi dar de cara com o filho resmungando baixinho e vermelho de cólera,
sentado no seu lugar de “injustiças”, inevitavelmente, na
mesa da copa.

- O que faz em casa tão cedo meu filho? – quis saber Sônia,
que se sentava do outro lado da mesa, como de costume.

Eduardo soltou alguns ruídos ininteligíveis e balançava-se


para frente e para trás como um altista.

- Meu filho, o que quer dizer grunhindo desse jeito?

O garoto continuava.

- O que aconteceu? Foi o cachorro da casa do começo da rua?

Olhando para a mãe, Ed vociferou:

- Não! Aquela peste não me incomoda mais! Eu matei aquele desgraçado!

Sônia só pode rir.

- Mas que idéia, meu filho! Até parece!

Como o garoto não desfez a afirmação nem com gestos, nem


com palavras, a mãe percebeu que o filho dissera a verdade.

- Eu não posso acreditar Edú! Você matou o cachorrinho mesmo???

- Matei mãe!

- OH! – e levou a mão à boca, cobrindo-a – que horror!


Eu criei um marginal! Um assassino!!!

- Para de drama mãe!

- O que é isso em suas mãos? – indagou a mulher, referindo-se


ao porta-retrato de Rodrigo. Como Eduardo não lhe desse atenção,
a mulher exclamou:

- Aí está!!! Mal educado! É assim que retribui nossos esforços


e carinho? É assim? Você agora se tornou um criminoso!!!

- Não mãe! Foi sem querer – explicou Eduardo.


- Se-sem querer? – a pobre mulher indagou confusa – Co-como se mata
alguém sem querer???

- Ah mãe! Ele avançou em mim e eu dei um chute nele...

- Que horror! – Exclamou a mulher, que só exclamou por exclamar,


sem o intuito de interromper o filho, que continuou:

- E ele morreu! Eu não pensei que o bicho ia morrer... aliás, eu


não pensei nada! Só chutei!

- O que é isso em suas mãos? – a mulher tornou a perguntar


– E porque voltou todo revoltado para casa? – quis saber, muito
desconfiada.

- Eu não estou revoltado!

- Oras! Isso na sua cara não me parece cara de alegria! Anda! Desembucha
logo menino! Conta o porque está assim! Eu e seu pai estávamos
namorando numa boa e você interrompeu! Não estou com tanta paciência
assim! Porque tá revoltado?

- Porque... porque... – disse Eduardo fazendo pausa para inventar uma desculpa
qualquer – ...porque eu fui avisar que o cachorro tinha morrido e o dono
do cachorro não gostou e brigou comigo!

- Como?

- É isso aí! – confirmou Eduardo.

Logicamente não estava sentindo a morte do cachorro em nada, e sim sentia


a revolta de ter sido acusado de gay por Rodrigo.

- Filho! É natural que as pessoas não gostem de receber estas notícias!


– a mãe informou, e sem nunca esquecer o gênio ruim do filho
acrescentou – e você ainda tem uma delicadeza tão grande
para essas coisas... que não quero nem saber o que você falou para
o vizinho! Com certeza ele deve ter tido a razão em ter brigado com você!
Fico surpresa até que não tenha recebido uns safanões!

- Ah mãe! Até parece! Aquele cachorro não era nada...

- Ah! – fez Sônia como se despertasse de um estado de frenesi –


Quer dizer então que você falou com alguém daquela casa???
– indagou totalmente interessada.

- Falei, né? – concluiu Edú, meio que falando um dããr...

- Com quem? – quis saber a mãe.

- Que te interessa isso? – rebateu Eduardo, ainda nervoso.

- Olha os modos moleque! – observou a senhora – Você já


aprontou a sua hoje!

- AAAAHHHHH! – fez Eduardo, como se sentisse muita agonia – Eu sou


inocente! Eu só chutei o cachorro!!! Ele morreu porque quis!!! Puxa!
Foi só um chute!

- Só um chute Eduardo? Só um chute? – indignou-se a mulher


– Olha só para a grossura das suas pernas! Você acha que
um chute seu é uma coisinha à toa?

- Não... mas...

- Não tem mais nem menos Eduardo! Eu vou chamar o seu pai aqui!

Ao ouvir aquilo, o coração do garoto parou de bombear o sangue


por instantes e Eduardo sentiu-se gelar por inteiro.

- Não mãe! Não me faça isso!!!

- Antônioooo!!! – gritou a mulher com voz de carcereiro chamando


o carrasco.

Dentro de instantes o pai surgiu na copa e perguntou:

- O que está acontecendo aqui?

Antes que Eduardo pudesse se defender ou pronunciar qualquer coisa em sua defesa,
dona Sônia falou:

- Ele matou o cachorrinho!

- Ele o quê? – perguntou o homem, não acreditando no que ouvia.

- É isso aí papai! Nosso filho matou o cachorrinho da casa do começo


da rua!

Olhando para o filho, branco como cera, o homem indagou:

- Isso é verdade? – o tom severo da voz do pai, fez com que Eduardo
sentisse vontade de chorar.

- Pai... é que...

- Isso é verdade? – tornou a perguntar, interrompendo a tentativa


de defesa.

Eduardo, sem escolha, viu-se obrigado a confessar:

- Matei! Dei um chute no cachorro e matei! – o garoto tremia feito vara


verde. Sabia que o pai não iria lhe dar uma surra, mas podia sentir um
castigo impiedoso vindo em sua direção.

O pai arregalou os olhos para cima do filho. Eduardo mais que depressa acrescentou:

- Mas foi sem querer! Eu não quis matar o desgraça... digo, o cachorrinho!
Pobrezinho! É que ele me assustou e eu nem pensei. Só chutei.
Foi sem querer! Foi sem querer! Foi sem quereeeeeeeeeerrrrrrrrrrrrr...

E o moleque abriu a boca.


- Filho... – disse o pai sério - ...você anda tomando drogas?

.....

De castigo, enclausurado em seu quarto, Eduardo andava de um lado para o outro


e não tinha sossego. Não sabia se sentia raiva ou não.
Não sabia se tinha o direito de sentir-se assim.

Matara o cachorro. Mas isso não lhe parecia importante. Estava de castigo
por algo que os pais nem podiam imaginar o que era. Ia muito além de
um chute no focinho de um cão.

Era frustrante.

Já era quase onze horas da manhã e tinha o dia inteiro pela frente
ainda. Sentia que estudar, no momento, não daria certo.

Olhou ao redor. Avistou o computador.

Puxa... até que ele podia entrar na internet... mas deveria esperar até
as duas horas da tarde, para ficar mais barato. O que faria neste período
de tempo?

Estava com a cabeça inundada por resquícios da conversa que tivera


com Camila, logo no começo da manhã... algo dentro dele insistia
em romper com tudo, mas também havia este outro lado, que gostava muito
da garota e não queria vê-la infeliz.

- Alô? – atendeu Camila. A voz da garota soara muito triste do outro


lado da linha.

- Oi, tô ligando para dizer que já cheguei em casa... – o


rapaz disse para a namorada. Parecia até que o garoto a via, e que o
clima entre os dois estava exatamente da mesma maneira que estava quando Edú
deixou o quarto da garota.

- Tá certo... – fez a garota tentando fingir-se fria como alguém


que diz “e o que é que eu tenho a ver com isso? Chegou em casa,
chegou e fim de papo”.

Eduardo pegou de longe a animosidade que pairava no ambiente e defendeu-se brandamente.


Não queria discutir. Não tinha vontade nem forças para
isso.

- Não me trate assim. Eu não mereço... não tenho


culpa do que aconteceu embora reconheça que tenha acontecido por minha
causa...

Eddie murmurava, sentindo um aperto no coração que lhe esmigalhava


o ânimo.

- Egoísmo Eduardo! – Camila disse e ainda repetiu para reforçar


seu discurso perfeito sobre a natureza humana – Egoísmo! –
e ainda perguntou – Porque o relacionamento tem que girar apenas em torno
de você? – em tom cético parecia que Camila era uma pessoa
que carrega a verdade única nas mãos e faz dela poderosa arma.

- Puxa! – era mania do garoto falar puxa para tudo – Você não
faz idéia do que eu estou passando!

- É claro que eu não faço!!! – Camila rebateu impiedosa


– Você não conta!!! Você é um mistério!
Você se fecha nessa sua concha, se isola no seu mundinho e quer que eu
compreenda!!! Isso me causa revolta de vez em quando, mas eu engulo! Agora chega!
– o tom exasperado da voz da namorada fez com que Eduardo sacasse que
ele estava na corda bamba, em plena ventania. Não podia se mexer muito.
Ou ia para trás, pra frente.

Ou pra baixo.

Não tinha outra saída.

Como cair estava fora dos seus planos... resolveu andar para trás, já
que não conhecia o caminho adiante.

- É tão difícil! – desabafou o rapaz – Faz parte


de mim, sabe? Não sou de ficar falando as coisas... Eu sou desse jeito...

- Eu sei... – concordou a namorada. Após um terrível silêncio,


a garota respirou fundo e indagou – ...e é assim que a gente fica?

- Como assim? – quis saber Eduardo, que estava meio mongo por tudo aquilo
estar acontecendo.

Primeiro de tudo naquela lista bizarra era o estranho sentimento que se apoderara
dele no dia anterior ao ver as revistas. A segunda coisa: já de manhã,
magoara a namorada e se magoara.

Depois teve o lance de matar o cachorro, e após isso, ainda passara a


humilhação de ser acusado de gay pelo vizinho.

Já em casa, os pais gralharam um monte com ele.

Tivera muito conflito sentimental para um curto período de horas e não


era nem hora do almoço ainda!!! E se o resto do dia enveredasse para
o mesmo caminho?

- Quer dar um tempo? – explodiu Camila, num ímpeto de coragem tirada


nem ela sabia de onde.

Tais palavras causaram espanto tanto nela quanto no namorado.

- Dar um tempo??? – averiguou o rapaz, só para ver se escutara direito.

- É Eduardo! Dar um tempo... – a garota repetiu, confirmando, demonstrando


firmeza na voz, porém sem um pingo de convicção.

- Não! – revoltou-se Eduardo – Não! Quem dá


tempo é relógio! – e as batidas do coração
lhe ensurdeciam. Disse bem alto – Prefiro acabar de vez se for assim que
você me apresenta as soluções!
Houve um silêncio magnífico.

Não o silêncio de paz, e sim o silêncio de guerra.

Aquele momento após o lançamento da bomba, onde tudo se congela


à espera da explosão. O momento em que não se articula
palavra e nem se ousa fazer gesto. O milésimo derradeiro entre a vida
e a morte.

- E vai ser tão fácil para você acabar assim? – a bomba


explodira – Porque pra mim não é nada fácil ter que
jogar o que sinto no lixo! – a garota mostrava indícios de que
iria chorar. O quanto aquilo comovia Eduardo, ele não poderia medir.

- Camila... – ele ainda tentou argumentar, mas ela era mais rápida
e tinha toda a situação em seu favor. Era bem mais fácil
para ela ser a vítima, afinal ela era mulher, menor, mais nova e acima
de tudo “inocente”.

Ah! E como é fácil acusar a outra parte de culpada, ou mesmo inventar


um culpado, principalmente quando estes não existem.

- Se bem que eu nem sei mais o que sentir... – a garota foi dizendo, incorporando
seu papel de anjo caído.

Pan tocava a flauta ao longe.

- E eu não sei bem o que pensar... – Eduardo abriu o coração.

Não sabia o que fazer daquilo tudo.

Era como uma batata quente que lhe tivesse caído em mãos.

Como era injusto!

- Então é isso o que você quer? – a garota tornou a


falar – Acabar?

- Não! Não... – adiantou-se Eduardo, que neste momento de


confusão, não queria perder uma provável fonte de força
– ...é melhor esse lance de dar um tempo mesmo...

- Ótimo... – concluiu Camila tão quente quanto a calota polar


– então pense bem enquanto isso.

- Vou pensar.

- Não vou te ligar durante uma semana e nem quero que você me ligue.

- Uma semana? – quis saber Edú, que não tinha entendido as


“instruções” e pensava “e agora essa?”.
- E não é só! – disse Camila, para desespero do namorado.
Eddie sabia que quando ouvia este “e não é só”
ele significava que uma ou mais regras seriam impostas... e ai dele se as quebrasse.
Ofenderia a garota muito mais do que acabar no mesmo instante. Camila continuou
– Depois desta semana, vamos passar outra sem nos ver, apenas vamos nos
ligar de vez um quando.

- De quanto em quanto tempo nesta outra semana? – Eduardo tomou precaução


de se informar para não pisar na bola.

Era meio que uma cartilha que ele tinha na mente para tentar decifrar a namorada.

- Não sei... mas eu sei que quando terminar a segunda semana, a gente
vai se encontrar e vai ter que jogar limpo. Dizer cada palavra do que se sente,
cada palavra do que se passou neste período... tudo! Vamos ter que redefinir
este relacionamento ou acabá-lo!

- Tá! – concordou Ed, pensando “ai... um ultimato!”.

- Promete? – quis saber a garota do outro lado da linha.

- Prometo! – e o pacto verbal estava feito!

- Então está combinado Edú!

- Um beijo – o garoto queria ainda demonstrar certo carinho, mas antes


mesmo de terminar, Camila desligou.

Eduardo jogou-se na cama e ficou respirando contra o travesseiro.

Sentiu algo lhe incomodar o cotovelo...

Ao conferir que tinha um objeto debaixo do braço, Eduardo se posicionou


melhor na cama para ver o que era o tal elemento. Era o porta-retrato de Rodrigo,
que Eduardo irracionalmente jogara sobre a cama quando entrou no quarto.

Tomou o artefato em mãos e pôs-se a observar a foto que ele continha.

Agora tornara-se claro o tal ambiente misterioso.

Era uma boate!

E não era uma boate comum!

Era a GrooveLandS!

Com muita curiosidade, Eduardo aproximava a foto e ficava tentando reparar nos
detalhes do local, mas embora enxergasse muito bem, a foto estava com o fundo
demasiado escuro e as pessoas em primeiro plano estavam muito brancas por causa
do flash, de maneira que acabavam chamando mais atenção do que
qualquer outro elemento da cena.

Rodrigo estava lindo na foto.


O cabelo estava mais curto do que atualmente, sinal que a foto era de meses
atrás, mas ainda sim, recente. Tinha aquele sorriso franco e perfeito
estampado no rosto.

Como Eduardo gostara daquele sorriso!

Era um mistério para ele como aquilo podia ser, mas já que era...
o que poderia ele fazer senão colher mais uma nebulosa?

Pensava agora no que tinha ocorrido.

Lembrara-se do modo como Rodrigo tinha atendido a porta. Lembrara-se de como


o achara “louco”, porém divertido logo de cara e isso lhe
atraíra tanto. Não sabia de onde surgira aquela sensualidade tatuada
na pele de Rodrigo, mas não conseguia negar que o rapaz era belo e que
o achara irresistivelmente bonito enrolado em toalhas.

Lembrou-se da conversa no quarto.

Lembrou-se do lance de “indivíduos de mesma espécie se reconhecerem”


e riu baixinho. Riu, logicamente do absurdo de tal afirmação...
imagina! Ele, Eduardo, gay!

...mesmo assim, ficou com a pulga atrás da orelha.

O telefone tocou.

- Alô?

- Oi Dú! – fez a voz do outro lado, com muita empolgação.

- Oi Fábio! – Ed exclamou surpreso. As ligações do


melhor amigo andavam rareando. Já estava sentindo falta dele.

- E aí? O que você tava fazendo? – “curiosou”


Fábio.

Eduardo olhou para o porta-retrato e respondeu:

- Nada!!!

- Ok! – fez o garoto do outro lado e exclamou – Nossa! Eu nem pensei


que ia conseguir falar contigo. Achei que você ia estar na Camila, mas
alguma coisa me disse que você estava em casa e que eu podia ligar!!!

O amigo parecia tão animado.

- Ah é? – fez Edú.

- É! – afirmou Fábio – Foi meio que um sexto sentido...

- Ih... isso é coisa de boiola! – Eduardo criticou. Mas disse tal


frase com tamanho esforço para engrossar a voz e parecer mais “macho”,
que acabou soando ridículo.
- Deixa de ser otário Edú! – o amigo rebateu – Coisa
de boiola é ficar achando tudo coisa de boiola!

- Tá certo... – concordou logo para o assunto acabar ali mesmo.


Não estava afim de discutir boiolice com Fábio. Queria até
parar de pensar nisso.

- Pois então! – Fábio atalhou – Liguei para saber o


que você vai fazer amanhã pela tarde. A “velha guarda”
fez contato e quer se reunir aqui em casa para jogar futebol...

- Não sei. Acho que vou ficar de castigo... – disse Eduardo, em


tom de desânimo. Na verdade, afim de ir na casa de Fábio ele era,
mas não com a “velha guarda”, pois já não era
a mesma coisa que era antigamente – Puxa... um futebazinho até
que caia muito bem, mas... a velha guarda, é? Na sua casa? Logo você,
que se afastou?

- Dú... não vamos tocar neste assunto de rupturas com o passado,


blá, blá, blá e coisa e tal, ok? – o amigo pediu
em tom de cautela – de qualquer modo, a idéia não foi minha.

- Mas isso você não precisava nem me dizer. Acho um pouco óbvio
que essa idéia não tenha partido de ti.

- Você me conhece mesmo né Edu?

- Sou seu melhor amigo. Essa é minha função.

- Ótimo, então, como melhor amigo, desempenhe sua bela função


de me salvar dessa gangue e esteja amanhã aqui para me dar amparo.

- Vou tentar! – concordou – Mas eu já disse que não


sei. Tenho que pedir pro meu pai. Foi ele que me deixou de castigo e creio que
ele não irá me liberar tão cedo assim...

- Foi o seu pai que te pôs de castigo? – o amigo quis saber.

Eduardo se explicou:

- Na verdade foram os dois, meu pai e minha mãe, mas a palavra do Seu
Antônio é o que conta... fazer o quê?

- Nossa! Isso ainda existe? – Fábio admirou-se, referindo-se à


atitude dos pais em colocar o filho de dezenove anos de castigo.

- Pior... – disse Eduardo, reconhecendo que estava numa furada –


você sabe como é aqui em casa, né? Mas deixa quieto!

- Deixa quieto o futambó!!! – o garoto vociferou – Vai me


contando o que você aprontou, e já!!! – o amigo era doido
por novidades.

- Ah! Não foi nada demais! – disse Edú, calmamente –


Eu matei o cachorro do vizinho.
- Você o quê??? – fez Fábio para Eduardo, no mesmo tom
de espanto que a mãe lhe fizera uma hora atrás.

- Ah! Aquele cachorro pentelho que eu te contei. – defendeu-se o rapaz.

- Você parece um psicopata sem sentimentos falando desse modo! –


concluiu o amigo – E o que você fez? Deu veneno para ele?

- Não!

E antes que Eduardo contasse o que fez, o amigo o interrompeu:

- Atirou com estilingue?

- Dããããr... – fez Eduardo diante do absurdo


– Por acaso eu tenho estilingue?

Fábio novamente tentou:

- Atropelou o animal?

- Não!

- Então o que foi??? – o rapaz irritou-se finalmente.

- Eu dei um chute! – Ed relatou.

- Um chute??? – Fábio perguntou, totalmente incrédulo.

- É dei um chute e ele morreu!

- Mas como pode? Você ficou chutando o cachorro até ele morrer?

- Não, foi UM chute – disse Eduardo, frisando bem o um – E


só! – neste instante, a campainha da porta tocou. Eduardo gritou:

- MÃÃÃEEE!!! ATENDE A PORTA!!!

Fábio, sem se incomodar com o grito, concordou:

- É... de fato é estranho... se bem que um chutezinho seu de leve


já deve fazer estrago, né?

- Lá isso é! Mas na hora eu nem pensei, eu estava tão atordoado


com o que tinha acontecido com a Camila, que eu nem me dei conta... o cachorro
surgiu do além, me assustou e a raiva subiu na minha cabeça de
tal modo que tudo aconteceu por reflexo!

- Mas... o que aconteceu com a Camila? – Fábio indagou, deixando


de lado a história do cachorro.

- É que eu fui dormir na casa dela e a gente acabou discutindo –


disse Eduardo em tom de “não me toque... mas se tocar, não
mexa muito nas feridas”.

- Normal isso – concluiu o amigo, só para dar ânimo ao outro.


- Não... – fez Ed, sem dar ouvidos à Fábio –
Desta vez foi sério! Acabei de falar com ela no telefone e ela me perguntou
se eu queria dar um tempo.

- Vixe!... – Fábio exclamou, percebendo a gravidade da situação.


Indagou, num misto de curiosidade e satisfação (pois ele nunca
aprovara muito o namoro entre Camila e Eduardo por achar que Camila era demasiadamente
sonsa e apagada e ter certeza que o amigo merecia coisa melhor) – E você,
o que fez?

- Sinto decepcioná-lo – informou Eduardo (que sabia o que o amigo


pensava sobre o namoro) – Não acabamos! Eu dei o tempo que ela
pediu!

- Ah! Ok! – fez Fábio, sem demonstrar desapontamento na voz, pois


embora tivesse a opinião dele formada, muito mais valia o que o amigo
sentia e qualquer que fosse a decisão de Eduardo, o seu papel, como amigo,
era de apoiar a felicidade dele.

- Pois é... acho que assim pelo menos vai ser melhor, cada um vai poder
pensar direito o que sente de verda... – ia dizendo Eduardo quando ouviu
a mãe lhe chamar pela porta. Falou para o amigo – Olha Fábio,
vou ter que desligar. Minha mãe tá me chamando. Mais tarde eu
te ligo para confirmar se vou amanhã ou não, falou?

- Falou, assassino de cachorros!!!

E Eduardo foi abrir a porta do quarto.

.....

- Mas não foi por querer benhê! Você viu o estado que o menino
ficou!

- É! Eu vi, mas não posso admitir isso. Imagina, matar um cachorro!

- Mas foi sem querer!

- Quer parar de repetir isso?

- Desculpa, foi sem querer.

- Já disse prá parar! No meu tempo de moleque, quando eu era escoteiro,


tinha que fazer boas ações e tudo mais. Eu tinha é que
ser muito do bom para com os animais... eu disse que era para nosso filho ter
sido escoteiro. Eu bem disse! Daí ele não ia fazer essas barbaridades!

- Ai... esquece isso Antônio... e vem cá...

Sônia passou os braços ao redor do pescoço do marido, tentando


refazer o clima romântico que pairava no ar antes do filho chegar em casa
feito um jegue. Ia beijar o marido quando a campainha tocou.

- Será que eu devo ver quem é? – a mulher indagou em tom


manhoso para o marido, que ainda soltava fagulhas pelas ventas.
O homem, sem paciência, respondeu curto e grosso:

- Você é quem sabe!

- Então eu não vou... – e deu um beijinho na bochecha do


marido.

De repente, tanto o homem quanto a mulher escutam Eduardo berrando lá


de cima:

- MÃÃÃEEE!!! ATENDE A PORTA!!!

A mulher revirou os olhos e depois de um pesado suspirar, levantou-se, arrumando


a roupa:

- Já volto! – disse ela, jogando charme para Antônio –


Não me saia daí!

E sumiu para o hall da entrada. Ao espiar pelo olho mágico, não


reconheceu o rapaz que ali estava e perguntou, desconfiada, por trás
da porta:

- Quem é?

- Sou o vizinho... Rodrigo! – disse o rapaz, sorrindo e falando com o furinho


de vidro na porta...

- Ah! Sim! – fez Sônia, que abriu a porta segundos depois –


O que quer?

- É que seu filho foi lá em casa agora há pouco e...

Antes que o rapaz tivesse a oportunidade de continuar a frase, a mulher já


foi se desculpando:

- Ah... aquele moleque!!! Não liga não, que ele sempre foi assim
desde pequeno, sabe? Tem um gênio muito ruim o meu filho, às vezes
nem eu agüento... e olha que paciência de mãe é coisa
que...

Rodrigo interrompeu a mulher que falava em espetacular afobação:

- Não minha senhora! Seu filho não fez nada demais! Fez até
uma gentileza em avisar que o Fred, nosso cachorrinho, morreu. Imagine... o
que é que ele tinha a ver com isso?

“Tudo...” pensou a mãe de Edu sorrindo amarelo.

Rodrigo continuou:

- E então eu fiquei nervoso, pois gostava muito daquele bichinho –


mentia deslavadamente, é claro – e acabei descontando em seu filho.

- Entendo...
- E fui injusto. Gostaria de falar com ele para me desculpar.

- Mas é claro! – sorriu dona Sônia, que achara o rapaz muito


simpático e educado logo de cara – Queira fazer o favor de entrar,
sim? Eu sou a Sônia, mãe de Eduardo.

- É! – riu-se o rapaz – Eu já percebi. Com sua licença


– e Rodrigo entrou.

- Por aqui – e a mulher o conduziu escadas acima.

Ao chegar na porta do quarto do filho, bateu de leve e o chamou.

Olhou para Rodrigo e sorriu:

- Agora vou descer – desmanchava-se em mel e recomendou – Vocês


dois se entendam, ok? Boa sorte com o cabeça dura do meu filho!

- Tá legal! – disse Rodrigo, sorrindo de volta para a mulher.

Sônia desapareceu escadaria abaixo e instantes depois a porta do quarto


se abriu.

.....

Eduardo desligara o telefone e rumara para a porta a fim de destrancá-la.


Girou a chave e fez girar a maçaneta também. Assim que a porta
do quarto se abriu, Edú deu de cara com Rodrigo – o garoto estava
em tal estado que não sabia se sorria ou não.

- Oi!!! – finalmente disse o rapaz, com cara de pau.

- Você???!!! – surpreendeu-se Ed, que logo se indignou e perguntou


branco feito papel – O que tá fazendo aqui???

Rodrigo ainda estava de bermuda e camiseta.

Usava um chinelo de dedos feito de borracha preta.

Seu perfume já invadia o quarto de Eduardo.

Era aquele cheiro!

Aquele cheiro maravilhoso, que tanto deixava Eduardo desnorteado... aquele odor
realmente surtia um estranho efeito em Edú... sentia todos os poros do
corpo abertos, prontos para algo selvagem.

- Vim fazer as pazes! – disse o outro, com calma.

- Mas... você ainda me tem a audácia de vir aqui??? – Eduardo


fingia mais indignação do que realmente sentia. Até que
gostara de ver Rodrigo novamente, pois ele, Eduardo não poderia jamais
voltar na casa do outro, não havia desculpas para tal coisa, e então,
ficou muito feliz que o garoto tivesse ido atrás dele.

- Vai me deixar entrar ou não? – quis saber o rapaz, que a esta


hora já não sorria mais. Olhava sério para Eduardo, como
quem vasculha a alma alheia em busca de informações preciosas.

Depois de um pequeno silencio, Eduardo finalmente liberou a passagem:

- Entra aí, vai!

E Rodrigo entrou.

- E então? – o dono do quarto disse.

- Então o que??? – Digo perguntou, fazendo-se de desentendido e


sentando-se na cama, sem ao menos ter sido convidado a sentar.

Esta era a natureza de Rodrigo.

Dispensava convites. Entrava de cabeça erguida. Fazia o que dava na veneta,


falava o que bem entendia e não estava nem aí para as conseqüências,
pois sempre dava um jeitinho de arrumar a situação de um modo
favorável para o seu lado.

Se agia na base pulsante de seus ímpetos, desfrutava depois a calmaria


por ter ser arriscado tanto. Era assim que via a vida.

E era assim que funcionava.

Não havia quem não se apaixonasse por seu jeito. O índice


de massa corporal era medido em puro carisma. Líder natural, tinha um
“quê” do Fábio nele, e isso deixava Eduardo mais fascinado
ainda. Tivera a chance de conhecer uma pessoa tão irresistível
e tão peculiar.

- Não acha então você que me deve desculpas por me acusar


de algo que eu não sou? – Eduardo perguntou com as mãos
na cintura, de pé feito um super-herói olhando para um ser inferior.

- Não... – dissimulou Rodrigo.

Isso desbancara a pose de Eduardo:

- Pensei que tinha vindo para fazer as pazes!!!

- E vim! – o rapaz afirmou com energia.

- Mas agindo assim não me parece que esteja disposto a isso! – Edú
observou e sentou-se na cama também.

- Eu sei... mas vim fazer as pazes de outro modo... – explicou-se Rodrigo


– ...eu não vou te pedir perdão por ter te acusado de gay...
pois é meu direito pensar isso de você...

- Mas eu não sou!!! – Duda exclamou, batendo as mãos contra


a cabeça, como alguém muito indignado faz.
- Isso é o que você tem o direito de pensar!!! – Digo tirou
o corpo fora – Você tem o direito de se defender!

- É lógico! – Dú aprovou – Eu não gosto


disso... – e parou nas reticências por não saber como continuar.
O embaraço era nítido em sua fisionomia.

- Disso o que? – quis saber o outro, que agora olhava com a curiosidade
estampada na cara.

Parecia estar prevendo que iria se divertir.

- Dessas coisas... de... de... – e Eduardo, sem jeito, não continuou.

Ao passo que Rodrigo não se fez de rogado e foi colocando as palavras


na boca do outro:

- Não gosta dessas coisas de frutinha? Coisas de mariquinhas?

- É! – Eddie concordou totalmente desnorteado.

- E por acaso eu pareço uma bicha louca? – Rodrigo perguntou com


um ar demasiadamente grave. Olhava para Eduardo de tal modo que nada que não
fosse franco sairia da boca com o tom vermelho das palavras erradas, manchadas
de mentira.

- Não... – Eduardo finalmente respondeu. E sua palavra saíra


limpinha, imaculada de qualquer tom de mentira... o menor que fosse.

- Viu! – protestou o rapaz – Este é o ponto! – e batia


amiudadas vezes na cama para fazer-se entender melhor – Fora umas flowers
que têm por aí...

- Flowers??? – Eduardo interrompeu estranhando a definição.

- É! – fez Rodrigo e explicou – Uma bichinha desmunhecada.


Uma flower é uma bicha que dá pinta...

- Dá pinta? – Ed interrompeu novamente.

Neste momento Digo percebeu que Eduardo não entendia nada da linguagem
do “babado” e teria que explicar tintin por tintin as palavras que
pronunciava. E então recomeçou:

- É... quando um cara dá pinta, significa que ele é um cara


que tem trejeitos femininos! Sabe? Um gay flower... uma flor!

- Ah! – fez Eduardo, para demonstrar que tinha entendido a explicação.


Cada expressão mais diferente da outra.

- Pois bem, fora estes indivíduos, que eu não tenho nada contra,
pois são muito queridos... a maioria é discreta. Não dá
nem para perceber que são homossexuais, nem pelo jeito de se vestir,
nem pelo modo de falar... você ficaria surpreso ao saber da quantidade
de gays que existe por aí... só em aqui em Curitiba... nossa!
Você não ia acreditar!!! – e terminou a frase balançando
a cabeça para cima e para baixo, como uma lavadeira de rio fofocando
com as outras enquanto bate a roupa nas pedras.

Eduardo seguiu o exemplo sem ao menos se dar conta disso:

- Verdade?

- É! – Digo tornou a afirmar.

- O mundo está perdido... – murmurou Eduardo, fazendo um pesaroso


sinal negativo com a cabeça – isso é preocupante...

E o outro rapaz refletiu:

- Não... no seu caso não...

- No meu caso? – Ed confundiu-se – Como assim no meu caso???

- Eu quero dizer que para você... – fez uma pausa, olhou pra Eduardo
e continuou o pensamento fazendo ar de troça – ...você que
é hetero... – nova pausa – isso se for mesmo... bem, neste
caso então, sobra mais mulher para você!!! E já bem dizem
que aqui pro sul tá sobrando mulher... só não arranja uma
quem não quer... ou quem é gay!

E o rosto de Edú se iluminou ao acompanhar o raciocínio do outro:

- Huummm... é verdade! Sobram bem mais “minas”. Não


tinha pensado por esse ângulo...

- É claro que não tinha pensado! – Digo atalhou – Mas


eu não vim aqui para ficar falando disso – e mirou bem nos olhos
de Edu – Vim aqui para saber o que você vai fazer amanhã
pela tarde.

Ed pensou em Fábio e respondeu:

- Não sei! Estou de castigo!

- Porque??? – Digo quis saber. Parecia absurda a idéia de castigo


para um rapaz do tamanho de Eduardo.

- Por uma coisa que eu andei aprontando semana passada... – Ed desculpou-se,


pois imagine como ficaria a cara do outro se soubesse que ficara de castigo
por ter matado Fred... – mas acho que se me deixarem sair, vou na casa
do meu amigo Fábio.

- Ah! Ok! – Digo desapontou-se.

- Porque? – indagou Eduardo com grande interesse na voz.

- Nada não... só para saber... e sair hoje à noite você


também não pode?

- De jeito nenhum!
- Porra... castigo é uó! – Digo lamentou-se.

- Uó? – Eduardo estranhou a nova palavra.

- É... uma gíria do “babado”... e tem conotação


negativa. Tipo, se o seu carro é uó, significa que seu carro não
é muito legal...

- Sei... – fez Eduardo.

Neste instante, parecia que a conversa ia morrer e aquele silêncio pesado


e mortal que destrói ambientes ia cair por ali, quando Rodrigo olhou
para um canto do quarto e exclamou sorrindo:

- Ei! Que legal! Você tem computador!

- É! Tenho!

- Tem internet? – Digo quis saber. E por instantes, Eduardo pôde


jurar que viu lampejos nos olhos do rapaz que novamente sorria. Tinha qualquer
coisa de cativante naquele garoto.

Eduardo, que já estava se perdendo para o largo sorriso de Rodrigo, respondeu:

- Tenho internet sim!

- Você tem icq? – o outro indagou.

- Sim...

- Então eu vou te passar meu número, o meu nick é Whirled!!!


Assim, quando você estiver online, podemos conversar também.

- Essa é a função, né? – riu-se Eduardo.

- Deixa eu anotar para você... – e Rodrigo vasculhou o quarto com


os olhos à procura de uma caneta e um papel. Eduardo ao perceber o que
o rapaz queria, buscou um caderno e ofereceu uma lapiseira. Rodrigo anotou e
explicou – Daí você me procura e pede autorização.

- Ok!

- Legal! – e Rodrigo sorriu com tanta franqueza, que Eduardo não


sabia se desviava o olhar, retribuía o sorriso ou ficava só admirando
a beleza do outro rapaz.

Finalmente Rodrigo explodiu:

- Eu falo demais, não falo?

- Mais ou menos... – Ed brincou.

- Você vai se acostumar – disse o rapaz, que ficou imóvel


por instantes, como se ponderasse algo e finalmente tornou a falar – quero
dizer... você pode ser acostumar, mas isso, é claro, se você
quiser ser meu amigo, né?...

E então olhou para o outro de um modo tão pidão, que Eduardo


não teve coragem sequer de pensar em negar a amizade ao rapaz. Seria
egoísmo demais não se deixar cativar.

- É claro que quero! – Ed sorriu.

- Então toca aqui! – e Rodrigo estendeu a mão para o outro.

Era o primeiro contato físico entre os dois.

E foi um demorado aperto de mãos. Um demorado jogo de olhares e troca


de sorrisos. Sem se dar conta, Eduardo entregara os pontos para Rodrigo, que
só podia firmar a idéia de que o novo amigo era, de fato, do “babado”.

Se pelo menos não fosse gay, bissexual ele era!!!

- Me diga uma coisa, já que agora é oficial nossa amizade... –


Diguinho disse de mansinho, como quem não quer nada.

- Sim? – Ed prontificou-se a responder.

E o outro estalou a pergunta:

- Você tem mesmo um pezinho no babado, não tem?

O olhar de Eduardo sobre o novo amigo fora tão severo, que Rodrigo não
teve outra escolha a não ser redimir-se:

- Tá! Foi mal, desculpa... desculpa...

- Ok! – fez Eduardo, disposto a deixar de lado o assunto – Mas...


agora me diga uma coisa você... como é que eu nunca te vi aqui
na rua? Como é que eu nunca vi os seus pais? Sabia que vocês são
um mistério por aqui?

- Sério? – Rodrigo achou graça e riu gostosamente.

- É verdade! – Eddie continuou com enorme embaraço –


Nunca vemos ninguém entrando ou saindo... e raras vezes aparece alguém
para fora...

- Lá isso é! – Digo concordou – É porque minha


casa tem um quintal muito grande, que faz ligação com o quintal
da casa da minha avó. Ela morreu e a casa dela está vazia agora,
de modo que usamos a garagem da casa dela para guardar os carros, assim como
usamos o acesso da rua de trás para entrar e sair em casa, já
que é uma rua que chega na via rápida mais facilmente –
e explicou ainda para sanar de vez o “mistério” – Logo,
nunca usamos a “frente” da nossa casa, pois ela, na verdade, é
o fundo! Sacou?

- Ah... entendi! Então você me atendeu no “quintal”?


– perguntou Eduardo, seguindo o raciocínio do amigo.

- Isso! Se for pensar bem, moramos na outra rua, não nessa. E por causa
da diferença de horário, nunca parece ter ninguém na casa.
Meus pais estão construindo uma clínica médica, e isso
também ocupa o tempo deles, que vistoriam as obras para ver como está
ficando. Durante o dia, meus pais dormem e eu, que estou acordado, estou fora.
De noite, eles estão fora e eu durmo ou fico lá pra dentro fazendo
qualquer outra coisa.

- E você fica sozinho numa casa daquele tamanho?

- Fico... não tem nada demais, a casa tem alarme e essas coisas.

- Ah! Mas você não se sente sozinho?

- Mais ou menos... tem dias que a empregada dorme por lá. Mas não
sou muito amigo dela não. Da última vez que apareci com um namorado
lá em casa e ela nos pegou dando um “malho”, ela quase arrancou
meu braço tentando me puxar para a igreja. Armou o maior barraco com
meus pais e tudo mais.

- Puxa!

- Mas não, eu não me sinto só. Já disse que me acostumei.


E de vez em quando chamo os meus amigos lá! O legal é que dá
para festar a noite inteira, pois meus pais só chegam depois das oito
horas da manhã...

- Puxa... quem me dera ter uma oportunidade de festejar todas as noites... pelo
menos uma vez por mês eu ia chamar a galera para curtir.

- Pois é! É exatamente o que eu faço! E agora você


também pode! Minha casa, é sua casa!

Eddie pensou por momentos o que aquela frase representava. Apesar de alegre
e inocente, aquela era uma frase de peso e que mascarava uma grande mudança.

- Ok! – Eduardo concordou.

E a partir deste momento, mudara-se para dentro da vida de Rodrigo.

E parecia que era somente isso o que o rapaz ali queria, pois mal Eduardo pronunciara
essas palavras, foi logo dizendo:

- Mas deixa eu ir embora! – e levantou-se. Olhou para Eduardo bem dentro


dos olhos e perguntou sem nenhum constrangimento – Se importa em devolver
meu porta-retrato ou prefere guardá-lo?

- Ah! Er... – Dudú balbuciava e gagueja nervoso, tomando o artefato


em mãos e entregando ao amigo – Não! Leva! E quando seus
pais acabarem de construir a clínica, quando eu me formar, peça
um emprego para mim, ok? – Eddie brincou com o novo amigo, para desfazer
a sua falta de jeito, enquanto devolvia o porta-retrato.

E Rodrigo pegando o objeto de Ed, fez um gesto de despedida e disse sorrindo:

- Até mais, hein?

- Falou!

Rodrigo saiu do quarto e deixou Ed em estado de transe.

Só depois de certo tempo o rapaz foi se tocar de que deveria ter acompanhado
o amigo até a porta...

Pelo resto do dia, embora Eddie se esforçasse bastante, não conseguira


estudar direito e nem prestar atenção em nada. E quando o relógio
marcou quatro horas da tarde, o garoto sentiu uma vontade louca de ver se Whirled
estava online no icq, mas se conteve...

O que seria todo aquele despertar em forma de selvagem curiosidade???

continua no próximo capítulo...

Os conflitos adolescentes se afloram a cada dia


19.04.2004
E a velha guarda se vai...

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por Maven - mavenmusic@hotmail.com

Capítulo VI

O domingo amanhecera com cara de sábado.


Eduardo não sabia se achava isso bom ou ruim. Adorava o dia
de sábado tanto quanto detestava o dia de domingo e se levasse
em conta que este domingo com cara de sábado de fato fosse
sábado, amanheceria em plena segunda-feira tendo uma
perspectiva distorcida e enganosa de um final de semana. Ainda
mais este final de semana pelo qual estava passando, que sem
dúvida estava saindo muito estranho por si só!
Nunca tantas coisas tão marcantes aconteceram para a mesma
pessoa em tão pouco tempo e Eddie se revoltava por ter sido ele
o escolhido da má sorte do destino.
Por volta da hora do almoço, Eduardo saiu do quarto e foi encontrar os pais no quintal de casa,
vestidos em roupas leves de verão, embora esta estação distasse bastante da época do ano em
que estavam.
Sônia lia a gazeta de domingo com o mesmo interesse que um legista tem em examinar um
cadáver. Seu Antônio estava fazendo uma carne grelhada na churrasqueira. O garoto adorava as
carnes que o pai fazia, pois eram sempre muito bem temperadas com bastante limão, gengibre e
pimenta. Cada vez que iam para a grelha, começavam a fumegar e imediatamente levantavam um
cheiro gostoso que podia ser apreciado a metros de distância.

Fábio provavelmente estaria temperando a carne na casa dele no mesmo instante em que seu
Antônio cuidava do seu grelhado com tanto carinho.

Putz! Queria ir no Fábio, mas... como pedir para o pai?


...e se o velho inventasse de castigá-lo pelo domingo também?
...e se o castigo se estendesse pela semana inteira???
Oh! Era horrível demais para se pensar nisso! Eduardo respirou fundo, chegou-se para perto dos
pais e cumprimentou:
- Bom dia!
- Boa tarde Eduardo! – a mulher replicou, sem desviar os olhos do jornal.
Seu Antônio, por sua vez, olhou para o filho e resmungou qualquer coisa ininteligível que Eduardo
tomou como um bom dia também.
- Filho – a mulher gralhou – vá tirar este pijama agora!!!
- Já vou mãe!
- Agora! Eu não vou lavar seu pijama hoje, e se ele ficar cheirando fumaça da churrasqueira o
problema vai ser seu!!! Ainda mais porque as roupas de cama estão todas limpas!
- Tá ok mãe...
- Eduardo Braschi!!! – Antônio vociferou, apontando para o garoto o garfo que usava para espetar o
grelhado – Obedeça sua mãe!!!

Nem o Diabo em pessoa, queimando no fogo do inferno com o seu tridente mirado para Ed poderia
ter parecido tão demoníaco quanto o pai parecera com o seu garfinho de churrasco ao lado do fogo
da churrasqueira...
É... o clima ainda pesava por ali...
.....
- Alô? – fez Eduardo assim que atenderam o telefone – Fábio?
- Oi Edú! – alegrou-se o amigo – E aí? Você vem?
- Nem vou... que saco! A coisa ainda está preta por aqui!
- Hum... a história do cachorro, né? – Fábio concluiu.
- É! – Eddie confirmou – Um porre!
- Ah! Nem tem problema! – o amigo disse em tom animador – Pelo menos você vai se livrar
daquela chatice toda!
- Nem fale... – Edú concordou. Realmente, vendo por este lado o castigo era coisa boa, pois pelo
menos esta desculpa ele tinha, por outro lado... – Mas, puxa cara, eu queria te ver, né? Faz tempo
que nós não fazemos nada juntos!
- É verdade... – Fábio ponderou – Quisera eu ter um cachorro para matar... – e pôs-se rir com a
brincadeira.
Eduardo também achou graça.
- É... assim você também se livrava, não é mesmo? – e indagou ainda, sem interesse, mas com
educação – Já chegou alguém aí?
- Ainda não, mas devem estar chegando em bloco lá pelas duas... – Fábio informou, sem interesse
também e quase sem paciência – Eu não sei o que eu vou fazer!
- Puxa... ataque em bloco da velha guarda... – e indagou, sem pistas – mas ainda não entendo o
que te fez liberar a casa para este churrasco. É como um padre liberando a igreja para uma festa
satânica.
- Credo Eduardo!!! Não fala desse jeito. Mas... devo admitir uma coisa para você, é mais ou menos
por aí... – lamentou-se em tom de profundo desânimo – sabe Dú... eu me sinto um peixe fora
d’água no meio desse povo... é um sem graça sem fim.
- Meus pêsames! – o rapaz recomendou honestamente. Sabia bem do que o outro falava, pois
começara a se sentir assim fazia um bom tempo já.
- Nem diga! Estou morrendo de vontade de ligar pro povo e desmarcar – o amigo reclamou sem
alterar a voz, mantendo a calma daqueles que não se abalam por nada – Isso é um porre! A idéia
nem foi minha! – e Fábio em sua calma deixava Eduardo reconhecer o que se passava por dentro,
pois esse pegava de longe e perfeitamente o tom de revolta na voz inalterada do amigo.
- E de quem foi a idéia? – Duda quis saber.
Como se fosse óbvio, Fábio respondeu:
- Do Carlos, de quem mais?
- Ah, é! – Ed deduziu, realmente percebendo a trivialidade da situação. E completou ainda em tom
de mofa – Novidade...
- Será que eu faço isso? – Fábio indagou.
- O quê? Desmarcar? Ih... acho que não, hein? – Eduardo aconselhou – Eles iriam ficar putos e
como já falam que você sumiu, que não é mais o mesmo... aí sim, te excluiriam do grupo de uma
vez por todas.
- É... você tem razão... – disse Fábio concordando com a observação do amigo.
.....
Por volta de três horas da tarde, Fábio apareceu na casa de Eduardo.
- Então você cancelou mesmo o churrasco? – disse Eduardo, admirando a coragem do amigo.
Estavam ambos deitados na cama, de papo pro ar, olhando um ponto vago no teto, como
costumavam ficar quando filosofavam ou quando ficavam à toa mesmo.
- É! – Fábio confirmou – Tô fudido agora!
- Tá mesmo! – Eduardo riu da cara do outro.
Nem sabia porque ria, pois analisando mais a fundo a situação, era bem mais complicada e séria
do que parecia. Dar essa falta para com a turma era como se fosse finalmente oficializada a
ruptura do passado.
Como desejava ele, Eduardo, que aquilo se desse também em sua vida
- O que é que o povo falou?
- Nossa! – e Fábio levou as mãos à cabeça – Me xingaram um monte! O Carlos foi o que mais
gralhou comigo. Eles ficaram muito indignados!
- É, eu imagino. – Ed riu-se novamente. E observou inutilmente – Considere-se fora do grupo daqui
em diante.
- Eu sei... – o amigo murmurou, para depois explodir em felicidade – Viva!!!
Quem os ouvisse falar, pensaria que a velha guarda era constituída por alguns monstros, senão
por um bando de mortos-vivos tarados sexistas trogloditas de caverna. E na verdade pura, ia levar
bem mais do que se falava para tornar um pingo sequer de todo aquele oceano em verdade.
Mas na cabeça dos garotos deitados na cama era essa a tempestade que se passava. A
convivência com aquela turma era bem pior do que viver entre traficantes barra pesada de boca de
morro.
Tal exagero levou Ed a desabafar:
- É! Que sorte você tem meu caro amigo! Eu já não agüento mais ficar com eles na hora do
intervalo e ter que falar sobre todas aquelas besteiras e futilidades que eles falam – e como se
confidenciasse algo indizível, abaixou o tom da voz o mais que pôde e disse – Eu devia ter feito
como você e ir caindo fora aos poucos... creio que agora seja tarde demais...
- Nem é! – disse Fábio para encorajar o amigo – E para falar a verdade, você nem deve satisfação
nenhuma para qualquer um daqueles caras lá! Se afaste e pronto! Afinal você é homem ou não?
Eduardo nem sabia ao certo... titubeando respondeu:
- Sou... – e preparou uma avalanche de desculpas – ...mas você tem que considerar o fato de que
eles são os meus amigos.
- E daí?
- E daí que com eles não tem esse negócio de “caiu fora, tudo bem”. Se eu pisar na bola, como
devem estar pensando que você pisou, eles já me passam do roll dos amigos para o dos inimigos.
- Que exagero! – Fábio observou.
- Não é exagero e você sabe muito bem disso! Com eles não tem meio termo! Ou é oito ou oitenta.
Ou você está com eles ou está contra eles!
Ponderando, o amigo respondeu:
- É verdade... e quer saber? Eu estou contra!!!
- Que inveja! – fez Eduardo, forçando a voz, como uma Maria fofoqueira.

Os dois amigos caíram na risada.


Quando se acalmaram, Fábio virou-se para Eduardo, apoiando-se sobre o cotovelo. Indagou:
- Mas e aí? O que a gente vai fazer?
Todo perdido, Ed respondeu:
- Não sei. De castigo é foda! – e ficou com vergonha por ter um pai que era liberal, mas em
questões de passar uma lição, sabia ser mais rígido que patota de ditadura militar – Mal posso sair
do quarto, quem dirá de casa???
- Ah... dá para sair de casa sim... – e Fábio sorriu ao olhar para o computador.
Pularam os dois da cama e foram direto para frente do aparelho.
Fizeram a conexão na internet e puseram-se a navegar.
Eduardo abriu o icq e viu quem estava online. Somente alguns amigos da Inglaterra.
Sentiu uma vontade incrível de adicionar Rodrigo na lista de contatos, mas resistiu ao máximo a
tentação, pois Fábio iria achar estranho. Melhor deixar quieto.
- Vamos entrar numa sala de bate-papo e caçar umas minas? – Fábio propôs.
- Pode ser... – respondeu Ed, tentando fingir que achara a idéia o máximo, mas antes deixa eu
verificar minha caixa de entrada.
Eduardo checou os e-mails e respondeu alguns. A maioria era de amigos que fizera nas salas de
bate-papo. Gente boa e legal, mas sem maiores pretensões que um coleguismo aguado.
Viu que tinha um e-mail de Camila, que datava de quinta-feira. Como ele não tinha acessado a
rede até então, não tinha lido esta mensagem.
Vendo a expressão de dúvida que Eduardo tinha estampada na cara, Fábio indagou, como quem
acorda uma pessoa de um transe:
- Você vai ler o e-mail dela? – e tocou no ombro do amigo.
- Não... – Eddie respondeu vagamente – Ficamos combinados de não ter nenhum contato antes de
uma semana...
- Mas o e-mail é de antes da combinação – Fábio observou – provavelmente nem seja nada, só
aquelas mensagens melosas... um cartão virtual.
- Isso é verdade... – Ed ponderou, dando razão ao amigo, mas sem deixar-se dobrar – ...mas eu
não vou ler. Nem vou escrever para ela. É o que foi combinado! E para falar a verdade, não tenho
vontade e nem tenho o que falar...
- E não vai querer nem ler o que ela escreveu? – Fábio quis saber. Não que estivesse do lado de
Camila, mas sim, queria ter certeza dos sentimentos de seu amigo.
- Não – Edú resolveu-se – Eu não vou ler não. Você deve estar certo. Deve ser mais um daqueles
cartões virtuais idiotas e mal feitos que ela me manda!
E Duda botou a mensagem na lixeira.
.....
“Querido diário,

Ontem não pude escrever em ti... estava muito puta para fazer isso!
O Eduardo me deixou sem paciência.
E hoje... fiz tanta coisa que não poderia nem listar aqui tudo o que fiz. Acho que é mais fácil anotar
o que eu não fiz, que foi falar com o meu Eddie.
Tão estranho sofrer por uma coisa que nem se sabe o que é! Injusto esse lance todo! Que saco!
Se ele tem um problema, porque não se abre comigo que sou a pessoa em que ele mais deveria
ter confiança???
Sabe o que é mais foda?
É que tenho que ficar uma semana inteira sem falar com ele! Burrice minha que inventei isso!
...mas eu vou agüentar!!! Vou sim!
Agora vou dormir. Tenho aula amanhã cedo!
Boa noite!”
.....
Segunda-feira, no cursinho, Eduardo passava por entre as pessoas como se não as enxergasse.
Chegara a esbarrar em uma ou duas. E nem pediu desculpas, apenas continuou andando. Será
que um dia voltaria a ser como era antes de toda essa confusão aparecer?
O rapaz acordara com um sentimento estranho.
Pensava em tanta coisa ao mesmo tempo que no fim das contas já não raciocinava direito. Todas
as idéias colidiam e repartiam-se em milhares de pedaços que não se juntavam e nem tinham
lógica nesse enorme quebra-cabeça mental.
Estava fora de órbita e via-se isso em sua fisionomia.
Tanto foi que nem o grupinho da velha guarda, reunida na entrada da sala de aula esperando o
sinal tocar, conseguiu tirar Ed de seu estado.
- Deixa quieto! – disse Jorge para Carlos, que ainda estava revoltado com Fábio e por troco de
nada começaria uma confusão.
- Vai ver que o cérebro dele já está começando a derreter de tanto que ele estuda e sobrecarrega o
coitado – Marcos brincou, olhando em volta esperando aprovação geral do grupo.
E Carlos disse:
- É cara... sinto em informar que quem estuda demais acaba virando um Nerds com impotência
sexual...
E Eduardo, sem um pingo de paciência exclamou em tom de ameaça:
- Não enche o saco, falou? – e retirou-se dali.
Ao entrar na sala, foi direto para o seu lugar.
Tirou a apostila de dentro da mala e pôs-se a revisar a lição trinta e quatro de física. Fora a que
mais lhe dera trabalho e queria ficar craque na resolução daquele tipo de problemas.
Estava desligado do mundo exterior, tamanha sua concentração, que levou o maior susto quando
lhe tocaram no ombro. Era Fábio, que finalmente aparecera na aula.
- E aí cara? Beleza? – Fábio perguntou – desculpa te assustar, não foi a minha intenção!
- Não foi nada! – disse o garoto que ainda se recuperava do sobressalto – tá tudo beleza sim! E
você?
- Eu estou morrendo de sono, mas fora isso tudo legal.
- Ótimo.
De pé, ao lado da carteira de Eduardo, Fábio fez um ar de machão e indagou:
- Viu os guarda costas na entrada da sala?
- É, vi! Inclusive já disse para o Carlos não me encher o saco.
- Já para mim não disseram nada. Apenas me olharam passar. Aos outros acredito que me tenham
indiferente em seus conceitos, afinal eu só não pude liberar a casa pro churrasco... mas o Carlos
me deu um olhar cancerígeno! Acho que me enchi de tumores por dentro!
E riram.
- É sério! Me olhou como quem diz “te pego lá fora, babaca!” – e rindo, depois de imitar a voz de
Carlos, completou encenando histerismo debochado – Ai!!! Que medaaa!!! Ele deve realmente
achar que bota medo em alguém. Se ele não fosse tão baixinho eu até topava brigar, mas isso é
covardia!
- Com certeza!
- É, mas do jeito que ele é esquentado, é bem capaz de querer arranjar confusão. E se ele vier
cantando de galo eu não vou agüentar não. Vou para cima dele.
- Não! Eu creio que ele não vá querer chegar a esse ponto...
- Ele que tente!
- Mas que vai tentar arranjar arruaça de outro modo, isso ele vai!
- Pode tentar fazer o que quiser, que ele vai ver o bom dele!!!
E o sinal tocou.
Inquietação geral enquanto os alunos iam subindo as escadas e entrando na sala de aula como
uma horda de jovens com cara de sono. Segunda-feira era o dia mais foda de adaptar a vida
desregrada de um final de semana ao cotidiano do vestibulando.
Eduardo prestava atenção à massa que adentrava o recinto.
Viu Henrique entrar, como sempre, muito hábil em passar no meio das pessoas com a sua cabeça
baixa em constante sinal de covardia. Era a admissão de que era vulnerável e que facilmente seria
esmagado por todos em sua volta se assim o desejassem.
Para tamanho horror não ocorrer, Henrique se fazia invisível.
Henrique se anulava debaixo do seu lençol de medo.
E Eduardo, novamente, sentiu pena por ele.

Dois Garotos

Contar ou não contar o que sente...


26.04.2004
Eduardo fica na dúvida se abre seu coração ao amigo...

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por Maven - mavenmusic@hotmail.com

Capítulo VII
O Capítulo Entrecortado, como a Alma de Eduardo.

Assim que o sinal do intervalo tocou, o professor mal se despedira da turma e esta já rompia para fora
da sala, como um estouro de boiada. Todos muito aflitos querendo pegar um lugar bom na fila da
cantina ou querendo fumar o seu cigarrinho na boa e botar as fofocas em dia.
Para Edú seria um momento decisivo.

Teria que definir de que lado estava.

Isto é, teria que decidir com quem ficar.


Embora fosse invisível, um muro havia se erguido, e em cima deste muro ele jamais poderia ficar.
Tinha medo de cair. Porém, tinha medo de descer dele e de se arrepender descobrindo que descera do
lado errado. E era essa a escolha agora.
Mas como poderia ele saber de que lado ficar?
Como poderia ele decidir qual lado do muro apresentava melhor caminho para seguir?
Deveria caminhar com a velha guarda – o que seria desmerecer a coragem do melhor amigo – ou
deveria prosseguir com Fábio – o que seria visível afronta ao grupinho de garotos hormonalmente
carregados. Se por um lado andar com os garotos lhe daria a segurança necessária para a casa não
cair, Eduardo tinha a certeza de que se ela caísse, seria Fábio quem estaria ao seu lado em meio às
ruínas.
Sim, porque o telhado da mente de Eduardo se encontrava balançando com o vento da dúvida. Temia
ter goteiras terrivelmente geladas em sua alma quando a tempestade chegasse...
Eduardo olhava seus colegas de sala saindo apressados, deixando apenas as cadeiras vazias para
trás.
Olhou Carlos e o grupinho de amigos rindo zombeteiros para uma garota da sala. Uma garota gorda e
feia – era do que a chamavam.
Olhou para Henrique, que parecia resoluto a não descer para o pátio. Se possível colar-se-ia a sua
cadeira e assim ficaria até o término da aula.
Ed procurou Fábio no local onde ele costumava sentar para assistir as aulas. Não o encontrando lá,
vasculhou toda a proximidade do local com os olhos bem abertos e encontrou o amigo conversando
com um bando de garotas.
Riam e gesticulavam animadamente.
Fábio, sempre bem humorado, parecia estar liderando o bate-papo no grupinho.
Eduardo admirava o amigo. Como ele lhe parecia feliz e de vida definida.
Não chegava a invejá-lo, mas desejava para si o mesmo tipo de relações que Fábio tinha. Eduardo
desejava não ter um gênio ruim. Tudo ia ser mais simples, porém, o que poderia ele fazer se nascera
assim?
E que culpa tinha Fábio em ser tão carismático?
Ele era tão belo exercendo fascínio sobre as garotas. Tinha charme e sabia como usá-lo com quem
quisesse. Eduardo se espantava, pois até com os rapazes Fábio conseguia exercer certa influência e
sempre era bem quisto em qualquer rodinha de pessoas.

Sem contar que Fábio sempre ficava com as mais poderosas beldades.
Sempre se saía bem em tudo.
Ele, Eduardo, também tinha este poder... se dava bem e tinha o mesmo sucesso... mas... e daí? De
que lhe adiantava tudo aquilo se agora estavam danificados os alicerces nos quais ele construíra toda
uma vida? Que tipo de segurança teria em viver dentro dessa casinha frágil?
Ele que sempre fora tão forte, chegara em um momento em que duvidava da própria força.
E agora? Que caminho seguir?

Acabou descendo as escadarias na companhia de Fábio.


Decidiu que ganhava mais com isso. Era mais divertido conversar com ele. Era sentir-se bem com o
amigo. E justamente por sentir-se assim, Eduardo estava tentando juntar coragem para se abrir com
Fábio.
Iria contar o que se passava.
Desde o que sentira ao ver as revistas, quanto o que sentia ao pensar em Rodrigo.
Mas não iria ser tão fácil. Teria que ter uma oportunidade especial. Uma brecha para entrar no assunto.
Não queria começar do além. Tinha um medo terrível de espantar o amigo para longe. Fábio era um
dos únicos portos seguros que ele tinha e não queria perder isso.
Outro ponto de apoio era Camila, mas já se via na iminência de desgarrar-se dele por incompatibilidade
mental. Ela nunca entenderia...
...mas será que Fábio iria entender?
- Fábio... – Ed principiou, mas calou-se por instantes antes de prosseguir – ...você é feliz sempre?
- Hum... – e o garoto levou a mão ao queixo, como um sábio faz quando reflete para responder – acho
que sou. Não sempre, claro, mas na maior parte do tempo...
- Ok... – Edú anuiu num sussurro e olhou para o chão.
- Porque? – o amigo indagou, estranhado a questão e sabendo-a fora de hora. Não era do feitio de
Eduardo fazer este tipo de pergunta.
- Nada não! – Ed simplesmente se esquivou e tentou colar uma desculpa qualquer, quem sabe daria
certo? – É que você vive rindo e brincando. Você passa a idéia de ser sempre alguém forte, com quem
se pode contar...
- Oras! – o outro interrompeu como se Eduardo tivesse dito alguma heresia – Que idéia é essa? É claro
que você pode contar comigo!
- Eu sei... eu sei disso... – afirmou Ed – ...não estou pondo isso em questão. Mas é que eu não me
sinto mais como me sentia...
Fábio tinha um ponto de interrogação estampado no rosto.
- É que... sei que você é meu amigo... – Dú explicava – mas... ultimamente você anda meio distante –
dizia com certa cautela, pois tinha muito medo de tocar neste assunto com o amigo, que já não
suportava ouvir isso.
- Não Eduardo. De você eu não estava distante. Eu estava era distante do grupo com que a gente
andava... como você ainda fazia parte dele... que solução tinha eu a não ser deixar todos de lado?
- É... eu sei... mas agora, eu meio que quebrei minhas relações com o grupo também. E tenho medo,
que se de repente você continue “sumindo”, eu vá acabando por ficar sozinho.

O vento soprou nas copas das árvores e algumas folhas caíram.


Fábio não disse palavra.
.....
“Querido diário,

Hoje estou me sentindo estranha.


É aquele acordo que fiz com o Eddie. Já fazia tempo que eu levava a situação na boa. Você sabe do
que estou falando, não é? Já escrevi sobre isso antes... mas como eu ia falando, eu levava na boa,
sabe? Mas foi a gota d’água quando o cretino veio aqui para dormir comigo e... nada!!! É... isso eu
ainda não tinha te contado!
Agora você entende a minha revolta, não é mesmo?
Me sinto a última das últimas!
O pior é que eu amo aquele desgraçado! Às vezes eu entendo o lado dele... afinal ele está em pleno
ano de vestibular e quer medicina... isso exige esforço pra caramba! Mas... céus! A carne existe, não é
mesmo? Eu já me joguei para cima dele de diversas maneiras e nunca pareceu surtir qualquer efeito!!!

Será que ele não me ama mais?”

Do outro lado da cidade Camila fechou o grosso diário e ficou deitada na cama, apoiada sobre os
cotovelos. Não tivera vontade de ir para a escola.
Simplesmente não tinha ânimo.
Estava morrendo de saudades do namorado. Queria ligar para ele e falar qualquer coisa... mas
acabaria soando patética. Não queria dar o braço a torcer nem se parecer como um cachorrinho
abandonado...
...mas era mais ou menos assim como se sentia agora.
.....

Os garotos da velha guarda estavam reunidos num canto do pátio do cursinho. Faziam piadinhas e
falavam bobagens.
Carlos ficara num lugar estratégico, de onde podia observar Fábio e Eduardo nos mínimos detalhes. Já
fazia um bom tempo que estava disperso nessa atividade que nem prestava atenção ao que os seus
colegas diziam.
- O que foi? – indagou Jorge observando a abstração do colega.
- Não sei... – disse Carlos, deixando os olhos semicerrados – ...mas que tem coelho nesse mato... isso
tem... – e apontou com o queixo, numa esticada de pescoço sutil o local onde Ed e Fábio estavam.
.....
Fábio ainda estava quieto.
Eduardo ainda olhava para o chão.
- Ei... Eduardo, eu sou seu amigo, não sou? – disse Fábio finalmente rompendo o silêncio – Pode ficar
calmo. Você não vai acabar ficando sozinho. Eu não vou sumir da sua vida porque você é meu melhor
amigo.
- Eu sei, mas é que... – Edú parou de falar.
.....
Na sala de aula Henrique escrevia em seu fichário algumas frases desconexas. A maior parte delas era
trechos de música. Gostava de ficar sozinho na sala durante o intervalo. Gostava de ver todas aquelas
carteiras vazias. E quando nenhum grupo de estudo ficava lá dentro para resolver alguns exercícios,
era melhor ainda. Era como se todo o mundo tivesse morrido e ele se visse livre de pessoas
mesquinhas e que lhe queriam fazer mal. Tinha vez que ia até o grande quadro negro e apagava o que
estava escrito nele, assim gostava de fingir que ele eliminara todos os vestígios da humanidade.
Desde a segunda aula estava com vontade de ir ao banheiro.
Mas estava se segurando.
Na hora do intervalo, a vontade era quase incontrolável, mas ele tentava segurar a onda. Ia escrevendo
e tentando não pensar nisso.
Não queria descer pro pátio para ser motivo de escárnio diante de um covil de carrascos. Mas a
vontade crescia e a bexiga ia ficando cada vez mais dolorida...
Cantarolou um pedacinho de uma canção. A primeira que lhe veio à mente. Talvez se regulasse a sua
concentração ao máximo, a vontade diminuísse... ficou cantando, cantando...
...até que não agüentou e levantou-se.
Desceu as escadas tão agilmente que parecia até ser feito de uma corrente de ar. Assim que chegou
no patamar do pátio, dobrou a velocidade das pernas e zuniu para o banheiro ziguezagueando por
entre as pessoas com a habilidade de quem está acostumado a mudar de rota para o seu próprio bem.
.....
- Eu sei, mas é que... – Edú parou de falar assim que viu Henrique se esgueirar por entre a multidão.
Os gritinhos e brincadeiras já começavam a se fazer ouvir.
Eduardo sentiu um aperto no coração.
Raspou o solado do tênis no chão, arrastando algumas pedrinhas dos vãos do calçamento. Juntou um
pouco de coragem em suas veias.
Olhou para o amigo e indagou.
- O que você acha disso? – e apontou para Henrique.
Dependendo da resposta do amigo, Eduardo saberia se poderia ou não contar o que se passava em
sua alma. Rezou para não escutar algo do tipo “tenho nojo de gente assim”.
Ao invés disso, ouviu:
- Eu sinto pena... – disse Fábio, com os olhos fixos em Henrique, acompanhando a trajetória do pobre
garoto.
- É... eu também... – Ed deixou transparecer um pesar exagerado em suas palavras. E fitando o nada,
reforçou murmurando desconsolado, chutando uma pedrinha para longe – ...eu também...
Estava certo então... não tinha conseguido o gancho que queria para conversar com Fábio, pois o
amigo nada mais manifestara sobre o assunto.

Decidira guardar para si tudo o que sentia.


Talvez fosse melhor assim.
Talvez.
Ah se ao menos ele tivesse clareza nos pensamentos.
Mas nada nunca é simples.

.....

- Ih, olha o Henrique ali – disse Marcos cutucando Carlos.


- Veado de merda – o rapaz gritou.
Era um prazer bizarro.
- Vai lá Jorge e faz alguma coisa!
- Eu não! Vai você Lucas!
- Quero é distância dessa raça!
Carlos fez um único gesto e como se comandasse uma orquestra, todos se calaram para ouvir o que
ele tinha a dizer:
- Pois Eduardo está nos ignorando e ainda passou um sermão por conta dessa bichinha. Eu sei bem o
que fazer!
- O que? – Lucas indagou.
A face do rapaz estampou-se com um sorriso maligno:
- Vou pedir para a Clara tirar fotos da próxima vez que ver Henrique na boate. Aí eu esfrego essas
fotos no focinho do Eduardo e vamos ver quem tem razão. Ele vai se sentir tão bobo que vai implorar
nosso perdão.
Preto, Branco & Cor de Rosa - Eduardo se descobre gay
03.05.2004
O que acontece com o livre arbítrio? O que acontece comigo quando eu quero ser feliz e
não posso por causa dos outros que acham que isso não está correto? O que acontece com
minha vida, minha liberdade de escolha, quando quero ser quem eu sou e gostar de todas as
coisas que gosto, mas não sou permitido fazer isso sem me achar um monstro, só porque os
outros acham que isso não pode ser?

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por Maven - mavenmusic@hotmail.com

Capítulo VIII

Eduardo saiu do cursinho feito barata tonta.


Por sorte seu ônibus passou bem na hora em que chegou ao
ponto, pois senão tomaria o primeiro que aparecesse por ali, sem
ao menos se dar conta do que fazia. Estava por demais
atarantado para raciocinar as coisas triviais e básicas que todos
racionalizam em circunstâncias parecidas. Acontece que a
cabeça do garoto estava em Vênus.
Não... não... para falar a verdade, não estava em Vênus, estava
de maneira inegável em Rodrigo...

Rodrigo de pele macia.


Rodrigo de hálito doce.
Rodrigo de vida alegre.
Rodrigo de lábios rubis.
Rodrigo...
Rodrigo...

Sentia que algo passava feito um ciclone dentro de si. Mas nem a mais tênue brisa lhe pareceria
calma neste instante. Queria conversar com alguém sobre isso. Queria poder contar para Fábio...
Oras! Que idéia é essa? É claro que você pode contar comigo!
E Eddie desejou que fosse tão fácil quanto parecia ser.
Assim que desceu do ônibus pisou num chão incerto, um chão que quase lhe faltou. Estaria ele
vivendo em um mundo paralelo? Levava um fora das circunstâncias cada vez que elas se
apresentavam. Essa busca incessante de uma certeza abria e fechava tantas portas. Abria e
fechava.
“Quando um ganha, outro perde” a voz da namorada ecoava em sua cabeça e ele peneirava o que
podia. As coisas iam fazendo sentido pouco a pouco, bem de leve, como uma pintura ia ganhando
vida a cada pincelada. Tantas matizes para formar um quadro.
Tantas percepções para formar um caráter.
Ficou parado no ponto enquanto o ônibus se afastava.
Hesitou sobre que direção tomar. Poderia ir para casa ou poderia ir se esconder no Farol do Saber
que tinha ali por perto. Adquirira este hábito desde que colocaram o Farol no bairro. Sempre que se
sentia meio “estranho”, era lá que ia se refugiar durante algum tempo. Voltava para casa com um
livro e esta era sua terapia.
Decidiu ir para casa.
Ao descer a rua e passar na frente da casa de Rodrigo, estranhou a paz.
Fred já não existia e não mais o perturbaria. Era como se um pesadelo tivesse terminado. O foda
era que Eduardo não sabia ao certo se um outro pesadelo pior ainda estivesse começando...
Sônia preparava a mesa para servir o almoço quando Eduardo chegou em casa.
- Oi mãe! – disse o menino chegando-se perto da pia e encostando-se na geladeira. Fazia isso
como se estivesse muito cansado e precisando de um pouco de alento. Toda a confusão que
sentia tinha que ser muito bem escondida, feito poeira varrida para debaixo do tapete.
- Oi Dú! – respondeu a mulher, que amassava batatas para fazer purê – O que vai fazer hoje de
tarde?
Sem pestanejar o garoto respondeu:
- Vou estudar, ué! – era tão óbvio... – Que mais posso fazer?
- Iiiiih... perguntar não ofende! – defendeu-se Sônia – Queria saber se você poderia ir no centro
para mim.
- Que horas? – Ed indagou só por curiosidade.
Não iria mais sair de casa nem a pau. Estava era querendo sumir do mapa, nem sabia ao certo
porque, mas era assim que se sentia. Inventaria uma desculpa qualquer para se livrar do pepino.
- Tem que ser antes das três. – Sônia informou.
- Nem dá mãe... – o rapaz foi logo se desculpando – tem muita matéria para hoje. Pode ser
amanhã?
A mulher fez um muxoxo:
- Melhor se fosse hoje... mas tudo bem! Pode ser amanhã! Quero que você vá no banco.
- Ok. – Eddie concordou tranqüilamente.
Já ia se retirando quando a mulher lhe chamou a atenção:
- Ah! O vizinho deixou um negócio para você, não faz nem quinze minutos – e dizendo isso, a
mulher agachou para pegar a lata de óleo de olivas que ficava embaixo da grande pia de mármore.
- O vizinho? – Eduardo estranhou.
- É! – a mãe do rapaz confirmou – O Rodrigo!
- O que ele deixou? – Duda quis saber. Que coisa estranha isso...
- Não sei... – Sônia temperava o purê com um fiozinho do óleo, enquanto falava com descaso – é
um embrulho. Claro que eu não abri para ver o que é, por isso eu te disse que é um embrulho... – e
já começou a fazer drama – ou você acha que eu vou abrir as suas coisas? Você tá achando que
eu sou mexeriqueira? Por acaso alguma vez eu já...
- Chega! – Eduardo interrompeu a ladainha.
A mulher sorriu e informou docemente:
- Tá lá no seu quarto.
Edú revirou os olhos demonstrando alívio por sair logo da cozinha e escapar das churumelas da
mãe. Mais que depressa subiu as escadas e rumou para o quarto.
Viu o embrulho em cima da cama. Eduardo pegou o pacote nas mãos.
Ouvia os deuses do Olimpo cantando ao longe.
Um papel pardo cobria algo com o formato retangular e plano. Descobriu o que era antes mesmo
de abrir o embrulho: era o porta-retrato de Rodrigo. Ao rasgar o papel constatou que não estava
equivocado. Era justamente o que ele achara que era, só que não continha fotografia nenhuma, e
sim apenas um número escrito por cima do vidro com canetinha de retro-projetor.
Eduardo sorriu.
Deduzira de cara que aquele era o telefone de Rodrigo.
.....
Já era noite feita, Ed já tinha estudado, tomado banho, jantado e conversado com o pai. Não
estava mais de castigo, mas deveria ser muito obediente e se saísse da linha iria voltar de vez pra
“correção”.
- Rodrigo? – Ed indagou assim que atenderam do outro lado.
- Quem? – o rapaz perguntou.
- É o Eduardo...
- Oi!!! – Digo exclamou todo feliz quando o Edú se identificou – Cara! Eu pensei que você não
fosse me ligar!
- Ah é? Porque?
- Não sei. Já tava até triste. É que eu deixei o telefone ainda cedo na sua casa e a tarde se passou
sem você me ligar, então ao anoitecer eu pensei que não tinha mais jeito!
- Não tinha mais jeito?...
- É! Mas deixa pra lá! Ei, eu queria falar uma coisa...
- Diga...
- Como Fred morreu?
- Oras... Eu já disse, passaram com a bicicleta por cima dele.
- Onde?
- Por cima do pescoço.
- Não foi assim não. – Rodrigo afirmou sem titubear.
- Como???
- Meu pai me ajudou a enterrar o Fred no mesmo dia, logo depois que fui na sua casa.
- E daí...?
- Pois é, meu pai estava examinando o Fred e disse que não foi atropelamento não...
- E como é que ele sabe disso? Por acaso é adivinha?
- Não, mas é médico legista e especializado em fraturas, esqueceu? Ele não viu nenhum indício de
tecido possivelmente danificado pela pressão das rodas. Considerando o tamanho do animal e
comparando com o peso de uma bicicleta em velocidade média com um homem adulto montado
em cima dela... ao menos a pelagem do Fred deveria estar avariada em alguma área... mas nada.
Meu pai disse que o focinho estava cortado em diversos pontos, como se alguém o tivesse
amassado, ou mesmo dado um chute. Isso ele logo concluiu pela mobilidade do pescoço. O
impacto foi dado de frente, pois segundo ele, o choque ocasionou o desligamento de
aproximadamente duas ou três vértebras, disso ele não tem certeza, pois não tirou radiografia e
nem teria lógica fazer isso, mas considerando que essas vértebras são logo as que se ligam ao
crânio... meu pai afirmou que não foi atropelamento... isso não foi não!
Eduardo estava embasbacado.
Depois de um longo tempo, exclamou irritadamente:
- Seu pai é legista de gente e não de bicho! Eu contei o que eu vi! Você acha que eu ia estar
protegendo um assassino de cachorrinhos?
- Não... – Rodrigo fazia um tom de escárnio – ...em absoluto...
- Mas então porque esse papo? – Ed quis saber.
- Boa pergunta... – o outro rapaz meio que suspirou.
- Olha se eu soubesse que você ia me encher o saco e ficar com esse lero-lero eu nem tinha
ligado!!! – e Eduardo fazia o baita drama. Incrível a cretinice do rapaz, pois além de matar Fred,
queria se safar da situação, mesmo tendo o pai de Rodrigo descoberto que a história que Ed tinha
passado não possuía nem um fundo de verdade.
- Calma! Eu só disse o que o meu pai me disse... – falou o outro rapaz como um adulto que se
apazigua diante das birras de uma criança por não ter outro jeito senão concordar somente para
não irritar mais ainda o ser pueril – e acho que ele está enganado também...
- Claro que está! – vangloriou-se Eduardo.
- Mas e aí? – Rodrigo estourou – Você vem aqui ou não?
- Hein??? – Duda se surpreendeu.
.....
Já no quarto do vizinho, sentado na cama e para criar um hábito, de cara a cara com o outro
garoto, Eduardo começava a se indagar porque cargas d’água ele tinha ido ali. Sim, pois receber
um convite, ponderar e aceitar é uma coisa... já outra bem diferente é receber o mesmo convite e ir
logo correndo abanando o rabinho sem ao menos pestanejar.
E fora assim que Ed reagira.
Tão logo Rodrigo repetiu o convite ao telefone, ele não se conteve e disse – estou indo aí –
desligou o telefone e saiu correndo.
Um cachorrinho babão...
Parecia até que sua vontade pessoal não tivesse conexão nenhuma com a vontade moral. Mas a
essa altura do campeonato, ele estava mesmo querendo que um ponto de mudança definitivo se
fizesse plausível. Estava ficando farto de tanta guerra psicológica e nenhuma batalha física.
Ele tinha que sentir o toque.
Tinha que averiguar.
- E então? – fez Dú para Rodrigo, como quem tem pressa de começar a conversar.
Era sensação esquisita que se apoderava de Ed cada vez que ele estava em companhia de
Rodrigo que tornava tudo mais sensual e tão mais natural. Quase não se sentia em algo que “não
podia ser” porque Rodrigo era tão belo que provavelmente a única saída existente para um
confronto com uma criatura desse naipe era se render.
E agora a sensação voltava e seu coração palpitava acelerado. Tão contraditório. Tão idealizado.
Era bom sentir-se assim.
Era bom demais.
Mas puxa, Rodrigo era um homem.
E Eduardo jamais poderia deixar de pensar em uma punição por ir contra alguma convenção pré-
existente. Tudo tinha um molde. Tudo tinha um porque. O homem foi feito para a mulher.
Porque?
Oras!
Porque eram um molde pré-existente.
Um se encaixava no outro.
Mas mesmo assim...
...mesmo assim era ótimo ficar cara a cara com Rodrigo.
Mas mesmo assim...
...mesmo assim tinha algo de ilícito em ficar tão perigosamente perto de uma pessoa fascinante.
Eduardo só não sabia ao certo o que estava errado, afinal nada se passava ali. Rodrigo nunca
dissera nada que se parecesse com uma cantada explícita. E se dissesse, Ed provavelmente não
saberia como lidar com isso... ou talvez, no fundo, soubesse...
E aquele cheiro, o perfume de Rodrigo... causava em Eduardo a vontade de agarrar o outro
moleque e arrancar a camiseta dele, só para afundar a cara no peito de Rodrigo e ficar sentindo o
cheiro.
- Que bom que você veio! – disse Rodrigo botando os dentes à mostra. Era o sorriso que Eduardo
achava belo. Era o deleite dos encontros entre os dois. Sabia que existia uma pureza naquele
sorriso – Queria lhe perguntar algumas coisas...
O modo ambíguo com que Rodrigo usava as palavras sempre deixava Eduardo meio que com um
pé atrás. Lá podia vir uma bombinha, uma bomba ou um mega torpedo.
- Se for sobre o cachorro eu vou embora!
- Não! Não é sobre o Fred! – Rodrigo esclareceu.
E embora o rapaz sorrisse com muita franqueza e seus olhos brilhassem de puro contentamento, o
seu corpo que estava aparentemente leve, denotava um fio de tensão constante.
- Ah! Então o que é? – Ed indagou, tocando o joelho do outro rapaz.
Uma corrente elétrica lancinou a lucidez de Rodrigo, que só pôde morder o lábio inferior, como
fosse um fio terra dissipando o torpor cálido do toque de Eduardo.
- Eu queria saber... – Digo estava sem graça. Desconfortável. Via-se isso nitidamente pelo modo
com que escondia as mãos.
- Diga... – Duda incentivou.
- Pois é! – exclamou Rodrigo num ímpeto de coragem e desembestou – Eu queria saber como é
ser hetero!
Na realidade Rodrigo queria era perguntar aos berros ou sussurros ao pé do ouvido, se Eduardo
cogitaria a idéia de beijá-lo, mas acabou não tendo coragem e soltou essa pergunta sem pé nem
cabeça.
- O que???
- É isso mesmo! – e Rodrigo balançava a cabeça para chamar atenção ao assunto e tentar dar
menos bandeira de que tinha “remendado” a pergunta – Tenho a maior curiosidade em saber como
é ser hetero... sabe? Eu queria saber como é transar com uma garota... será que você poderia
descrever para mim como é? Eu queria tanto saber...
E Eduardo revoltou-se com isso:
- Como assim quer saber? – e levantava as mãos gesticulando loucamente, não acreditava que o
momento pelo que esperava tivesse sido desarmado pela falta de coragem de Rodrigo – Oras!!!
Ser hetero é... – e estancava sem jeito por não ter uma resposta na ponta da língua, vasculhava a
mente toda em busca de um golpe contra que fosse certeiro – é... bem... é... – ainda sim não
conseguia formular uma resposta – ...bem, é ser como EU!!! É ser normal!
Já que Rodrigo dera para trás, porque não avacalhar de uma vez?
Não precisa nem dizer que era o gênio terrível trabalhando.
Sorrindo o outro rapaz se defendeu:
- Mas eu sou normal, veja, sou igual a você! Tenho tudo o que você hetero normal tem! Tenho até
o que muito hetero não tem! Tenho minhas prateleiras com troféus, tenho minha vida saudável de
faculdade com todo o povo, tenho...
- Ok! Ok! – Eduardo concordou logo de cara a fim de evitar toda uma lista de pontos comuns – Eu
entendi! Que você é normal eu sei que é! Mas eu só falei por conta dos gostos, afinal... não é nada
normal um homem sair por aí agarrando outro homem...
- Porque não? – Rodrigo indagou. Tinha os olhos brilhantes fitando a expressão facial de Edu.
Havia um sistema solar rodando pelo quarto.
Tanta energia acumulada.
Tanta beleza construtiva e desgastante. Um paradoxo vertiginoso. Um paraíso possível de se
alcançar com uma trilha dolorosa de se trilhar.
Rodrigo tinha as meninas dos olhos fixas no outro rapaz, como se fossem duas africanas fujonas
amarradas num tronco, cuidavam do patrão para que ele não se voltasse com chibatadas cruéis
sobre elas. Logicamente havia sacado que Eduardo estava afim de beijá-lo.

Ed percebeu que Rodrigo o decifrava em seu silêncio e se inquietou. Por falta de costume da
situação, esquivou-se:
- Porque não... oras!
- Mas é tão bom... – e as mulatinhas sorriram por saberem-se donas da circunstância.
- Isso é você quem diz! – ponderou Eduardo – Assim como alguns gostam de jiló, outros não.
Entenda isso! Não estou te criticando, mas é que para mim, na minha cabeça isso é errado.
- Como se fosse algo proibido? – Rodrigo quis saber, com um ar de malícia rodeando os lábios
perfeitos.
- Lógico!
- Mas se é proibido é mais gostoso.
- Se é proibido é porque não é correto! – Ed bateu na cama ensandecido – pois isso vai contra tudo
o que é moral! A sociedade condena! A igreja condena!

Porque lutava?

Sentia-se um imbecil por tentar levar adiante um papel que não lhe fora dado para interpretar.

- Oras, caros Eduardo, a sociedade e igreja são mais fortes do que a vontade pessoal, não é
mesmo? – Rodrigo subia o tom da voz sem perceber – E o que acontece com o livre arbítrio? O
que acontece comigo quando eu quero ser feliz e não posso por causa dos outros que acham que
isso não está correto? O que acontece com minha vida, minha liberdade de escolha, quando quero
ser quem eu sou e gostar de todas as coisas que gosto, mas não sou permitido fazer isso sem me
achar um monstro, só porque os outros acham que isso não pode ser?
- Puxa... olha Rodrigo, eu não quis colocar as coisas desse jeito... – Dudú desculpou-se – mas
veja... tá escrito na Bíblia! – e acrescentou sem pensar – É pecado!

Uma onda de calor varreu o corpo de Rodrigo, que avermelhou de tal modo que parecia que ia
derreter. Saltou da cama e começou a andar de um lado para outro.
Ouvir aquilo lhe fizera mal.
Algo como palavras em chamas entrando na cabeça e fazendo um incêndio de puro ódio.
- Pecado??? Pecado??? – Rodrigo gritava muito vermelho e soltando gotículas de saliva para
todos os lados – E quanto ao crime que a sociedade e a igreja cometem? Sim, pois eu considero
um crime uma pessoa ter que se anular para poder viver... aliás... a pessoa que se anula nem tem
vida pois está sempre infeliz e desgostosa com tudo! E sabe o que essa pessoa faz então?
Começa a criticar os outros só porque eles não têm medo de tentar buscar a felicidade! Eu acho
que quem tanto critica e desdenha é porque bem na verdade queria era estar fazendo a mesma
coisa!!! – ele respirava rápido – Pecado??!! Eu já te digo o que é pecado!!!

E Rodrigo parou.
Bufava em contorção extrema de seus músculos da face e pescoço. Fitava Ed com os olhos
injetados de indignação. De dedo em riste, começou a fazer o discurso novamente.
- É isso o que sua queridinha sociedade faz! É isso o que sua adorada igreja faz! Mas EU é que
não vou me anular nunca! – e batia com força no peito tentando matar o dragão que cuspia ódio –
Podem fazer o que quiserem de mim! Podem me excluir da sociedade, podem me alienar, podem
me excomungar de todas as igrejas e templos do mundo, que mesmo assim minha cabeça vai
estar erguida, pois eu sou o que sou e não há crime nisso!
Olhou bem para Eduardo, cuja pele alva refletia o evidente espanto pelo rompante ensandecido de
Rodrigo:
- Deus é maior que as intrigas dos homens. Se Deus perdoa branco e preto, se perdoa gordo e
magro, se perdoa hetero porque não iria perdoar homo??? Deus é pai! Ele tem perdão até de
quem é ruim!!! Por dentro somos todos iguais, mas só poucos assumem tudo o que sentem. Todos
nós somos iguais! Você é normal, eu sou normal! Você tem defeitos e eu também! O que muda é a
capacidade de amar!
- Rodrigo, eu acho... – Eduardo tentava se desculpar. Mas não tinha jeito.
- Tá!!! – gritou o rapaz enlouquecido – Acontece que eu consigo amar outro homem, e daí? Cadê o
erro nisso?
- Rodrigo eu... – Ed se viu chocado com a reação do amigo. Tentava acalmá-lo.
- Não Eduardo – e o rapaz lhe dava de dedo – Eu não escutei isso nem dos meus pais, porque vou
ter que escutar de você? Se é para eles que devo prestar contas, porque devo me importar com o
resto do mundo e...
- Porque se importa então? – Eduardo interrompeu.

Rodrigo ficou imóvel.

- É que... é que... – de repente toda eloqüência se foi. As palavras haviam se trancado em seu
recanto mágico e tudo o que os rapazes escutavam era o vento lá fora.

Edú, em silêncio, esperava a eternidade passar...


Finalmente Rodrigo falou:
- Quer saber a minha teoria sobre isso tudo? Quer saber o que eu acho? – não obtendo resposta
por parte de Eduardo, o rapaz senta-se na cama, só que desta vez chegara bem perto de Eduardo.
Tão perto que a respiração dos garotos se fazia sentir em ambas as faces.

Eduardo estava quase entrando em transe.


- Pois bem, querendo saber ou não eu vou falar! Eduardo – e o garoto olhou para Ed bem dentro
dos olhos – você acredita que temos uma alma, não?
- Claro! – ele respondeu com seriedade na voz e meio sorriso nos lábios.
- Você sabia que a alma não tem sexo definido? – indagou Rodrigo em tom de informação.
- Não??? – Eduardo surpreendeu-se.
- Não! Alma não tem sexo. É como são os anjos. A alma não é homem e nem mulher, mas é a
junção dos dois ao mesmo tempo.
- Puxa! Onde você ouviu isso?
Rodrigo riu. Continuou falando:
- Você acredita que você tenha uma alma, não?
- Espero eu! – riu-se Eduardo.
- Pois se você tem alma, aliás, se todos nós temos alma, carregamos os dois sexos conosco.
Somos bissexuais em potencialidade! O que vai determinar se a pessoa é homem ou mulher é
apenas o sexo biológico, ou seja, apenas o corpo. E isso até é meio dúbio porque o homem tem
hormônio feminino no corpo e vice-versa. O que todos nós procuramos nesta vida é ter outra
pessoa, é ter alguém para nos completar... isso é porque a alma não é completa, não é definida.
Mas acontece que de vez em quando, a alma da pessoa é mais forte que o sexo biológico, a alma
está além disso e você de repente se vê capaz de se completar com outra pessoa que tenha o
mesmo sexo biológico que você...
- E...? – fez Eduardo, querendo saber o “x” da questão.
- E daí que isso é formidável! No fundo eu tenho uma alma que tenta buscar um equilíbrio com
outra. E isso não tem nada de errado, pois eu me sinto bem, isso me faz bem.
- Puxa... pensando assim parece bonito até!
- Acredite Eduardo, não há nada pior no mundo do que não achar equilíbrio. Toda pessoa precisa
de uma outra.
- Com isso eu concordo plenamente.
- Que bom! Eu fico feliz! Agora você entende que sua missão aqui seja qual for ela só termina
depois de completada? É a mesma coisa com a sua alma, ela só vai se equilibrar depois de estar
completa.
- Mas isso é óbvio!
- Ok, você sabe, é óbvio e tudo mais, mas vai que a outra parte da sua alma está no meu corpo?
- O quê??? – Indagou Eduardo pasmo.
Rodrigo tratou logo de consertar a situação.
- Isto é, quero dizer, no corpo de um homem!
- Que tal mudar de assunto? – Ed incomodou-se.
- Eduardo, que tal que você não encontre o equilíbrio perfeito na alma de uma garota? Que tal que
você se adapte e consiga viver melhor com um rapaz?

O coração de Eduardo estava fraquejando.


Sentia-se extremamente atraído por Rodrigo.
E do jeito que estavam perto... Ed teria que lutar contra essa atração, pois já achava-se envolvido
pelas justificativas, que recobriam com tinta nova e cintilante as arranhaduras do seu lado
psicológico que já andava fragilizado ultimamente.
- Rodrigo, por favor, vamos parar de falar nisso?
O rapaz sorriu:
- Por mim... tudo bem!

Rodrigo passou a mão pelas costas de Edú. Deslizou-a tão suavemente e com tanta ternura que
ondas de calor penetraram pelos poros de Eduardo, que recebeu o gesto de carinho sem achar
aquilo uma “viadagem”.
- Você curte música eletrônica? – indagou Rodrigo.
- Claro! Na verdade eu gosto de todo tipo de música, contanto que não seja pagode ou sertaneja...
o resto tá valendo!
- Ok! O que acha desse CD? – Rodrigo levantou-se e ligou o rádio. Colocou um CD, apertou play e
em instantes o quarto estava inundado por um ritmo eletrônico alucinante.
- Uau! – Ed exclamou em êxtase – Que tesão de música!!!
Rodrigo sentou-se na cama e olhou para os lábios de Eduardo. Chegou um pouco mais pra perto
do garoto e indagou:
- Tá afim de ir num lugar onde só toca esse tipo de som?
Eduardo, começando a ofegar e sentir o seu sangue ferver de excitação quis saber:
- GrooveLandS?
.....
- Filho, como é lá dentro? – Sônia indagou assim que viu Ed entrar em casa. Estava pintando as
unhas e deixou tudo de lado para sondar informações sobre a grande casa onde Rodrigo morava.
- Normal mãe – o rapaz respondeu com descaso e já ia saindo de perto.
- Eduardo! – a mulher gralhou – Não faça isso com a sua mãe!!! – e levando a mão à testa, Sônia
fez “a cena” – Você sabe que eu morro de curiosidade para saber qualquer coisa que seja daquela
casa, então não me seja ingrato! Você viu os pais do Rodrigo?
- Não mãe, eu ainda não os vi!
- Que pena... – a mãe de Eduardo lamentou-se, inconsolável – ...mas perguntou alguma coisa para
esclarecer o mistério?
Eduardo então resolveu contar o que sabia.
- Perguntei sim mãe.
- E não me disse nada???
- É que esqueci e não tive tempo, mas deixa que eu conto...
E Eduardo contou desde como era o quarto de Rodrigo, com seus troféus e medalhas até sobre o
que faziam os pais dele.
- Mas nossa! – exclamou a mãe toda feliz, concluindo – Então esse Rodrigo é uma ótima
companhia!

Eduardo sorriu e pensou “você não imagina o quanto...”


.....

No cursinho Eduardo rabiscava uma fórmula na carteira em plena aula de química, sabia a fórmula
de cor, mas tê-la fácil para visualização lhe causava maior segurança. Acabava de virar a página
da apostila com os exercícios da aula em questão, quando um bilhete miúdo chegou na sua
carteira. Era um bilhete de Fábio:

Cara, você anda muito estranho ultimamente... caso você não tenha percebido, a sua blusa tá do
avesso! Você não é disso. O que tem acontecido? Tá precisando conversar? Algo aconteceu
naquele rolo da Camila?
Seguinte: esse final de semana vai rolar uma festa tecno numa fazenda perto de São José dos
Pinhais, tá afim de ir? Vai estar cheio de gatinhas... de repente é bom para desvirtuar um pouco da
Camila, já que vocês estão nesse rolo... a gente se fala no intervalo!

Ed olhou para o amigo Fábio que ficara observando a leitura do bilhete o tempo inteiro. Sentiu-se
reconfortado de um mal que não existia e sorriu como quem diz “ok, a gente conversa depois!”.

Realmente Fábio era um dos únicos pontos que ele tinha para se firmar e não estava afim de
perdê-lo de jeito nenhum. Por essa razão Eduardo decidira que não iria contar nada para o amigo.

Abaixou a cabeça e tornou a rabiscar as fórmulas na carteira.


Não conseguia pensar direito e nem prestar atenção ao assunto da aula.
Parecia que a única coisa que se fazia possível no momento era pensar em Rodrigo.
Tudo estava tão nebuloso e ao mesmo tempo tão excitante que pensar no vizinho era a delícia
proibida de Eduardo. Mas se é proibido é mais gostoso. O garoto tentava imaginar como seria para
Rodrigo ser abertamente gay. Que vantagens e desvantagens isso lhe traria... o que afetaria em
sua vida... ficava imaginando como era beijar outro rapaz... como seria tocar um garoto com a
mesma intenção que ele tinha tocado as garotas com quem ficara até então... e subitamente... lá
estava Eduardo com uma baita ereção.

Agora sim fazia sentido.


O que ele deveria ter sentido ao ficar com as garotas era o que ele estava sentindo agora somente
por imaginar ficar com um rapaz.
...claro, claro!
Agora sim!
A certeza veio rápida como um raio na mente de Edú e incendiou seu interior. Sentindo a chama se
espalhar por seu corpo, Eduardo não se conteve e exclamou:
- Meu Deus!!! Eu sou GAY!!!
.....
Assim que tocou o sinal Eduardo desceu com Fábio para o pátio.
- Puxa cara... o que está acontecendo?
- Não é nada... – Ed ainda tinha sua certeza de não revelar nada ao amigo. Ainda mais agora que
sabia de que lado do muro estava.
- Nunca é nada pra você! – Fábio reclamou pela falta de confiança do outro rapaz, colocou a mão
no bolso, pegou duas balas, uma para si e outra que ofereceu a Eddie – Eu estou sabendo que
algo acontece, só não sei o que é! Eduardo, eu te conheço! Não adianta esconder porque hora ou
outra eu vou acabar sabendo! Anda, desembucha logo o que acontece!
- A- acontece? Que acontece o quê! Você está é viajando!!! – Eduardo disfarçava (e muito mal).
- Nem adianta Duda! Eu sei que tem algo de errado contigo! Anda sempre pensativo e nem parece
mais ser o mesmo! Cadê toda sua concentração na aula? Você acha que eu não reparei que você
está disperso?
- É??? ... puxa! – Eddie admirou-se da perspicácia do amigo – Mas o que poderia ser?
- Deixa de ser enrolão Eduardo!!! – bronqueou o outro – Isso sou eu que te pergunto!!! Mas pelo
visto você vai me enrolar até a morte e não vai me contar nada! – Fábio exclamou desistindo – Ah!
E sobre a festa... tô sabendo que vai rolar em alguma chácara. Talvez na Chácara Paraíso, não
sei, mas vai estar o bicho! – e Fábio olhava para o amigo como alguém que tem uma bóia e pode
salvar um náufrago do afogamento.
- Pois é... não vai rolar... – Eddie desculpou-se, gentilmente recusando a bóia por saber nadar
– ...é que eu prometi que ia sair com os meus pais neste final de semana.
Fábio se espantou:
- Com os seus pais??? Você vai trocar uma festa rave que vai rolar numa chácara animal por um
final de semana com os seus pais??? Eu não acredito nisso!!!
- É... é que... – e a mentira veio vindo – ...bem... você sabe, né? Ano de vestibular... pais exigentes,
filhinho que estuda um monte e não tem tempo de visitar parentes... meus pais e eu vamos visitar a
parentaiada!!! – ao dizer isso Edú deu um sorriso tão amarelo que até um palmito teria mais
charme e simpatia que ele (e mentiria com mais eficiência).
- Eduardo esta é a desculpa mais esfarrapada que eu já ouvi! – Fábio exclamou indignado. Depois
de um certo tempo, resolveu deixar quieta a história que o amigo lhe contara e concluiu – Vou fingir
que engoli essa desculpa de visitar parente, ok? Só pra não criar caso!
E Eduardo ainda tentou se defender, jurando que estava ofendido:
- Mas não é desculpa...

.....
“Oi meu diário!

Hoje já é quinta-feira e resisti bravamente! Não liguei para aquele cachorro (e nem ele ligou pra
mim... snif... snif...).
Ocupei-me todo este tempo estudando e dançando. Já tenho calos em meus pés e a sensação de
chifres na cabeça!!! Ai, se o Eduardo aprontou ele vai ver só! Ai que eu saiba que ele andou
olhando para outras garotas – ou sequer ter pensado nelas!!!”
.....

Eduardo pensava em Rodrigo.


Sexta-feira não tardava chegar e iria sair para a boate... um frio na barriga o deixava deliciado.
Acabara de descer do ônibus e rumava para a casa do amigo. Nem pensou em largar os materiais
do cursinho em casa.

Assim que tocou a campainha, Rodrigo atendeu.


- Entra aí!
Eduardo entrou. Antes que pudesse falar qualquer coisa, Rodrigo já abriu a boca:
- Duda, olha só que legal o que tenho para lhe contar: meu pai e minha mãe querem jantar com os
seus pais!
- Como? – fez Eduardo com espanto.
- Contei para minha mãe sobre nossa amizade e ela ficou muito entusiasmada! Falou que
finalmente eu arranjei um amigo nas redondezas e disse ainda que seria uma ótima oportunidade
para conhecer as pessoas da vizinhança! – o rapaz era puro sorriso, aquele sorriso que tanto
desnorteava Eddie – E minha mãe pediu para convidar seus pais para jantar amanhã aqui!
- Amanhã??? – Eddie ainda estava espantado.
- É! Legal, né?
- Olha, eu não sei se meus pais vão poder... quero dizer... puxa! Como vou contar para eles? Nós
nos conhecemos faz tão pouco tempo, acho que meus pais vão estranhar o convite... puxa! Que
coisa... será que...
- Corta essa Edu! Vai ser legal! Seus pais vão adorar os meus! E aposto que seus velhos não
fazem nada na sexta à noite. Nada! Já os meus não... vão faltar trabalho só para ter este
jantarzinho socializador!!! A família Toledo vai encontrar a família...
Rodrigo ficou reticente esperando Duda completar:
- Braschi. Família Braschi – disse com relativa calma.
- Braschi?! Hmmm que chique, hein?
.....
- Como? Jantar com eles? – dona Sônia sorria estupefata.
- É mãe! – dizia Eduardo. Sentia um frio tremendo na barriga só de pensar! E se Rodrigo desse
mancada no jantar, se desse a entender que era gay... ai! Os pais de Edu poderiam até proibí-lo de
andar com vizinho.
- Que emocionante! Que roupa será que eu uso? – e a mulher se batia toda, feito uma perua velha
e orgulhosa.
- Como assim mãe? Qualquer uma serve!
- Você acha Eduardo?
- Lógico! Não é jantar com o Presidente da República, é só um jantar na casa dos vizinhos!
- Ai filhinho, não é bem assim... não posso ir maltrapilha para um jantar!!!
- Mãe eu não estou falando para você ir maltrapilha, só estou avisando para não exagerar na
produção!!!
- Ah...
- Então tá né mãe? Já está avisada! Amanhã jantar na casa da família Toledo às oito da noite.
- Ai que alegria!!!
- Ok, deixa eu ir descansar, pois tenho que estudar bastante ainda!

Eduardo rumou escadaria acima.


Assim que chegou no quarto despiu-se e foi pro banho. Demorou mais de meia hora no chuveiro,
só relaxando e pensando em como sua vida mudara tanto em tão pouco tempo.
E a água que escorria pelo ralo levava não só o cansaço embora... levava o antigo Eduardo
também.
Aquilo era tão gostoso, fazia Ed se sentir tão bem que este começou a cantarolar.
Tudo era música, tudo era poesia. Os pingos de água eram verdadeira sinfonia celebrando a vida!
Saiu do banheiro ainda cantarolando, entrou no quarto e colocou uma bermuda bem larga. Ao se
atirar na cama, não mirou bem o alvo e acabou se machucando na quina de madeira do criado
mudo. Mas nem isso conseguiu estragar a alegria em sua alma.
Precisava estudar as matérias do dia.
E assim o fez.

E muito bem!

continua no próximo capítulo...


Groovelands - A 1ª vez numa boate gay
11.05.2004
Eduardo 'se joga' na boate com Rodrigo...

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por Maven - mavenmusic@hotmail.com

Capítulo IX

Assim que Eduardo apertou a campainha, Rodrigo abriu a porta.


Parecia até que estivera de vigília no patamar interno do hall de
entrada, espiando pelo olho mágico. Estava lindo.
Usava calça de risca de giz e blusa de lã gola alta, ambas pretas. Seu
cabelo arrumado de jeito casual, jogado para trás, lhe dava um ar de
menininho. Sua pele firme e corada contribuía para este aspecto se
firmar.
O seu perfume invadiu Eduardo de tal modo que o rapaz mal podia
pensar.
Eddie tentou evitar e disfarçar o máximo que pôde, mas não
conseguiu, sorriu de imediato e seus olhos brilharam.
- Oi Edú! – Rodrigo cumprimentou – Oi mãe e pai do Edú! Entrem por
favor.
Eduardo também estava bem arrumado e sua beleza natural era
reforçada pela sobriedade da calça social e camisa pólo que usava.
Entraram todos e depois das apresentações serem feitas, reuniram-se na sala de jantar da casa do
começo da rua.
Os Braschi de um lado e os Toledo de outro.
A conversa estava animada.
As mães de Eduardo e Rodrigo se deram muito bem. Foram com a cara uma da outra logo do
princípio. Mesma coisa com seu Antônio e Dr. Luís, só que sem a empolgação feminina. Estavam
engajados em conversa séria... crise, tempos modernos... “no nosso tempo as coisas eram
diferentes...”.
A mesa da sala de jantar estava muito bem servida e bonita. Os talheres de prata brilhavam com a
luz amarelada do imponente lustre de cristal que pendia do teto exatamente em cima da mesa.
Havia dois tipos de vinho no baldinho de com água gelada.
Rodrigo bebia largamente e soltava risadas enquanto se infiltrava na “conversa dos adultos”, dando
palpite aqui, palpite ali.

Eduardo permanecia mudo, mal tocara no prato de comida.


Ficava apenas olhando para Rodrigo, que estava sentado bem a sua frente. Reparava como o
amigo era belo. Reparava no sorriso perfeito. Reparava em cada gesto. No jeito com que o rapaz
tocava os talheres, segurava o copo de vinho tinto e o levava até a boca, sorvendo o belo líquido
que deixava seus lábios mais rubros e molhados. Prestava atenção no modo com que passava a
mão pelo cabelo.
O jeito que sorria e eventualmente olhava para ele, com aqueles olhos matreiros e sedutores.
Rodrigo fazia toda aquela pose para Eduardo.
E Eduardo sabia disso.

Era um jogo de sedução e Rodrigo estava ganhando.


- Então crianças... para onde vão hoje? – Sílvia, a mãe Rodrigo perguntou.
- A gente nem sabe... vamos rodar um pouco, né Ed? – Digo olhou para o rapaz e deu uma
piscada e um sorriso de canto de boca.
- É! – tratou logo de concordar.
- E vão acabar parando em alguma danceteria eu aposto!!! – comentou Luís. O pai de Rodrigo já
sabia muito bem quais eram as intenções do filho para com Eduardo.
- É pai, acho que sim – disse o garoto levando a taça de vinho à boca e tomando um belo gole –
vamos sair para dançar um pouco.
- Imagina só! Esses dois rapazes tão bonitos soltos por aí! Vão é quebrar os corações das pobres
garotas! – dona Sônia falava admirando a beleza do par de amigos. Rodrigo e Eduardo formavam
uma bela dupla.
- Vão agarrar todas as mocinhas! – disse seu Antônio entusiasmado – Ah! Esses garotos de hoje...
Sílvia olhou para o filho e depois para Eduardo:
- É... esses garotos de hoje... – soltou contendo o riso...
Luís gargalhou.
- Pai... pára com isso! – Digo pediu embaraçado.
- Ah... deixa disso Rodrigo! – dona Sônia interveio – Como se a gente não soubesse o que nossos
queridos filhinhos aprontam por aí...
- E por falar em aprontar – seu Antônio apontou a faca para Edu – veja se não esquece que você
tem namorada, ouviu bem mocinho? Não me vá “aprontar” muito, ok?
- E você seu Rodrigo – Sílvia disse sem olhar para o filho – chega de vinho porque você vai dirigir!
Eu e seu pai sabemos quantos jovens chegam arrebentados naquele hospital por conta de
acidente de carro. E a maioria é por causa de bebida!
- Certo mãe – disse Rodrigo, dando o último gole, esvaziando a taça e depositando-a na mesa –
acabei de jantar. Tava uma delícia! Eu e o Eduardo vamos lá para dentro e deixar vocês “adultos”
conversarem em paz!

O rapaz levantou-se e Eduardo fez a mesma coisa.


Agradeceu o jantar e seguiu o amigo casa adentro.
Ao chegarem no quarto, Rodrigo fechou a porta.
- Você está lindo! – elogiou francamente.
Eduardo não estava preparado para ouvir tal coisa. Ficou vermelho feito um pimentão e não teve
jeito de disfarçar. Mas gostara do elogio e resolvera retribuir:
- Você também... está muito... – procurava uma palavra – muito elegante!
Digo sorriu:
- Você tem certeza que quer ir na Groovelands?
- Tenho – Ed respondeu com firmeza – que mal tem em ir numa danceteria?
- GLS – Digo acrescentou.
- Que seja!
- E sua namorada?
- O que é que tem ela?
- Nada... só queria saber se você a ama.
Uma pontada no coração.
Eduardo disse cristalino:
- A gente deu um tempo.
- O que aconteceu? – Rodrigo quis saber. Denotava interesse real, diferente do interesse de um
urubu sobrevoando a carniça.
- Não foi nada. Alguns problemas comuns... é coisa passageira... ou...
- Ou...
- Ou coisa sem volta!
- Cara... será que tem volta?
- Dá para mudar de assunto Rodrigo?
- Tá ok... mudamos então. E já falei quando a gente se conheceu, que não precisa me chamar de
Rodrigo. Pode ser Digo, ou simplesmente, para os mais íntimos, Go ou Diguinho.
- Diguinho?
- É... meio gay, mas... – Rodrigo riu – bem... você sabe!
Eduardo sorriu:
- É, eu sei! Você é gay mesmo, né?
- Isso aí!
- Então não tem problema!
E caíram na risada.
Ficaram no quarto só falando bobagem até que Rodrigo olhou o relógio e percebeu que já havia
passado da hora de partirem para a balada. Já passara da meia noite. Saíram do quarto e
despediram-se dos pais que já não mais estavam na sala de jantar e sim na sala de visitas, tendo
uma agradável conversa visivelmente aditivada pelo álcool:
- Pai, mãe, a gente já tá indo – Digo avisou.
- Sim meu filho. Vão com Deus e se divirtam!
- Eduardo, não tome drogas – seu Antônio advertiu.
- Ok pai! – Ed anuiu logo para não se demorarem mais – Tchau para todos!

Já no carro, os dois seguiam conversando alegremente.


- Eu vou te apresentar um monte de amigos meus! – Rodrigo ia berrando para se fazer ouvir, pois
a música estava alta dentro do veículo. Música eletrônica para “aquecer”, fora o que Digo dissera.
- Amigos, é? – Ed indagava – Puxa! Que bom! Eu estou precisando mesmo de novos amigos... – e
pensou na velha guarda, que agora, já fazia parte da sua velha vida. A vida que escorrera pelo ralo
com o resto da sujeira.
- São todos muito gente boa!
- Devem ser! Você conhece muita gente?
- Bastante!
- Legal!
- É muito fácil fazer amigos nestes ambientes. Todo mundo vai lá para ferver.
- Ferver?
- É! Curtir... como eu ia dizendo, todo mundo vai lá para fazer festa... mas toma cuidado, viu? Tem
gente legal sim, mas também tem muita gente podre. Melhor ficar de olho com quem você vai
conversar.
- Mas gente que não presta existe em tudo quanto é lugar!
- Isso é verdade e não vou falar que você não tem razão. Mas eu te digo uma coisa: bicha quando
tira para ser ruim... sai de perto! Vira um veneno só! Mas nem se preocupe! – Digo disse sorrindo –
eu vou te proteger!
- Não precisa porque eu não sou criança e nem sou indefeso! – Edu retrucou com seu gênio
escabroso.
- Só tava brincando, seu mané e além do mais, lindo deste jeito, você devia mesmo era querer
minha proteção lá dentro... vão cair todos em cima de você!
Eduardo sorriu diante do elogio:
- Você acha mesmo? Puxa... então tá! Sendo assim eu aceito sua proteção...
- Ótimo, porque a gente já chegou.
Rodrigo parou o automóvel na rua e pediu para o guardador de carros dar uma olhada. O cara
disse que tudo bem e então Digo falou:
- Acho que podemos entrar, né?
- Vamos!
Atravessaram a rua e rumaram para a entrada da boate. Apesar de ser uma hora da manhã, havia
ainda uma longa fila na porta. Havia gente de todo o jeito. Clubbers, trancers, drag’s, travestis,
gente com chapéu de cowboy, garotas com roupas de borracha, monas performáticas e muita
gente colorida. Eram várias tribos se encontrando com uma única finalidade: se divertir!

Ficaram na fila esperando.


Rodrigo se deliciava reparando no jeito que Eduardo esticava o olho para o povo que passava e
para certos grupos na fila. Tudo era novidade e seus olhos transpareciam a curiosidade. Estava
impressionado pela adversidade encontrada no local.
Conseguiram entrar somente meia hora depois.
Lá dentro a agitação corria solta. A pista do primeiro andar já estava praticamente lotada. Aquela
era a boate mais bonita de Curitiba.
Rodrigo indagou:
- E aí? Que tal?
- É muito massa! – disse Eduardo, alucinado.
- É! A Groove é matadora! Uma sorte que os “heteros” não descobriram isso aqui.
- Como?
- Era o que andava acontecendo ultimamente aqui em Curitiba. Vários lugares gays começaram a
ser freqüentados por heteros... era tipo modinha. Eles diziam que eram “fashion” só porque iam em
lugares gls. E foram entupindo, entupindo o local, que no fim dois caras não podiam nem se beijar
se serem olhados como se fossem doentes. Não demorou muito e esses lugares acabaram por
perder a característica gls e todo o público gay foi-se embora para outro lugar. Espero que isso não
aconteça com a Groove.
- Isso é preconceito!
- Hein?
- É preconceito contra os heterossexuais. Porque eles não podem vir aqui?
- Não estou dizendo que eles não podem. Claro que podem! Só estou falando que seria uma pena
que a Groove deixasse de ser gay, porque é a melhor casa noturna da cidade em termos de
estrutura!
- Ah... entendi!
- Vamos dar uma volta.
Enquanto andavam, Rodrigo parava diversas vezes para cumprimentar amigos. Em alguns dava
beijos no rosto, em outros dava selinhos e para poucos nada mais fazia do que menear a cabeça.
Aproveitou e apresentou Eduardo para uma porção de gente.
- Muito interessantes esses seus amigos.
- Você ainda não viu nada. O povo fervido mesmo só chega aqui depois das três da manhã.
- Sério?
- Verdade!
- Puxa, as três eu acho que estarei perdendo o pique e querendo voltar para casa.
Rodrigo riu:
- Não aqui... você só vai sair quando o sol raiar, acredite!
A boate tinha vários ambientes. Três pistas de dança, um grande chill out no quarto andar, dois
grandes bares com uma área de alimentação, um dark room, banheiros mistos em todos os
andares. Contava ainda com um túnel cheio de imagens malucas. Diziam que era o recinto da
“piração” e que as pessoas iam ali para consumir drogas.
- Eduardo, deixa eu te apresentar o Gustavo. Ele é tri gente boa!
- Ok.
Digo gritou no meio da multidão, logo, um rapaz baixo, todo colorido e de traços fortes, lembrando
um árabe, se aproximou.
- Gustavo, esse é o Eduardo.
- Prazer – o garoto ia dar um beijo no rosto de Ed, que recuou.
- Ele é hetero... – Rodrigo explicou.
- Ah... ele é hetero? – fez o rapaz, com incredulidade.
- Diz ele...
Eduardo olhou feio para o amigo.
- Quer parar com isso? Você é mesmo um idiota!
- Calma Duda! Eu tava brincando!
Gustavo se intrometeu:
- Que faz na Groovelands com o Rodrigo se é hetero?
Eduardo não sabia o que responder:
- Eu... eu... – e ficou vermelho, antes já havia admitido para si mesmo que era homossexual, só
faltava mesmo era chutar o balde – Oras! Que saco! Querem saber? Eu sou gay sim!!!
No mesmo instante, I Will Survive começou a tocar na pista...

.....

Lá pelas quatro horas da manhã, Eduardo estava apertado e precisava usar o banheiro. Saiu da
pista de dança, onde estava dançando com Rodrigo e seus amigos e passou por um bando de
garotas. Todas olharam espantadas para ele e cochicharam entre si:
- Gente, eu não acredito! É o menino do cursinho! – uma das meninas cutucou a outra, de cabelos
cor de fogo.
- Jesus!!! Ele é gay!!! – esta comentou.
- Que desperdício... – disse a que havia cutucado a ruiva, levando a mão à boca.
- Nem me fale! – disse uma japonesa.
- Coitada da namorada dele... será que imagina por onde anda o amado dela?
- Ele tem namorada? – todas se espantaram.
- Tem! – disse a ruiva.
- Ave Maria! Que cretino!
- Pode ser que ele não seja gay... ele tem namorada, ué! – disse uma garota mais gordinha e de
bochechas vermelhas.
- Se ele não fosse gay, o que estaria fazendo aqui? – quis saber a japonesa.
- A mesma coisa que nós, e nem por isso somos lésbicas! – respondeu em tom de defesa uma
clubber que estava na rodinha.
- Talvez ele esteja aqui com a namorada.
- É verdade! Ou vai ver ele é fashion!!! – concluiu uma loira.
Ao chegar no banheiro, Duda constatou que ele estava lotado. Resolvera então usar os do terceiro
andar. Ao subir as escadas, uma mão o puxou pelo braço:
- Eduardo???

O garoto virou imediatamente.


O coração parou e Eddie ficou branco:
- Fábio???

Aquilo era inacreditável.


Eduardo via seu melhor amigo nas escadarias de uma boate gay!
Fábio o pegara com a boca na botija.
- O que você tá fazendo aqui? – os dois perguntaram ao mesmo tempo.
Fábio estava menos perplexo que Eduardo e por isso falou:
- Cara! Eu nunca imaginei que ia te ver aqui!!!
- Fábio, que história é essa? – o outro replicou, desembestando – Quer dizer que você freqüenta
esse tipo de lugar???
- Bem... eu estou aqui, não estou?
- Sim... mas... e a festa rave que ia acontecer? Você não tinha que... quero dizer... você não ia
para aquela festa naquela chácara???
- Eu ia, mas é que... eu ia só se você fosse... e além do mais...

E tudo ficou claro para Edú, que exclamou:


- Você é gay!!! – o rapaz apontou para o outro.
Fábio ficou parado, enquanto Eduardo prosseguia:
- Meu Deus! Você é gay!!! – e batia com a mão na cabeça, indignado – Agora tudo faz sentido!
Suas saídas misteriosas e tudo mais! – e começou a rir com cinismo – Imagina só! Disseram que
você tava envolvido com droga! Que você tava metido com mulher! – e riu mais ainda – Com
mulher!!!
- Eddie... – o amigo tentou falar, mas Eduardo continuou:
- Oras! Me poupe! Todo esse tempo! Por que não me contou? Belo melhor amigo que eu fui
arranjar! Porque você não...
- Chega Edú! – o outro gritou, tentando parar o ataque de histeria do amigo – E você??? Porque
não me contou que era???
- Que era o quê?
- Que era gay também!!!
- E quem disse que eu sou? – Eduardo defendeu-se. Era estranho que ele houvesse admitido para
Rodrigo horas antes e agora diante de Fábio quisesse que não fosse verdade, que não fosse gay.
- O que faz aqui então? – o amigo quis saber. Tinha um sorriso na cara. Não de gozação, mas de
simpatia. A idéia de Eddie ser “do babado” era muito boa.
- Eu vim com um amigo... hetero!!! – defendeu-se o rapaz.
- Ah é? – Fábio olhou em volta e indagou – E cadê ele que eu não estou vendo? – depois afirmou
sorrindo – admita... veio caçar! Cansou da vida de hetero e da Camila! Foi por isso que vocês
deram um tempo, né? Você já não tinha mais certeza... você está sozinho aqui Eduardo!
- Não, eu não estou! – respondeu ao avistar Rodrigo subindo as escadas. Era uma sorte que
Rodrigo não tivesse trejeitos femininos, isso iria salvá-lo de Fábio.
- Dú, como você tava demorando... – Rodrigo ia falando – então eu resolvi vir atrás de voc... – e
parou de falar ao ver Fábio. Imediatamente abriu os braços e soltou um grito de felicidade –
Fáááááááá!!!
- Goooooo!!! – o outro exclamou sorridente ao reconhecer Digo. Agarrou-o fortemente, deu um
selinho e um abraço – Você sumiu!!! O que aconteceu???
- Eu sumi, sua bicha? Imagina! Você é que andou desaparecida!!! De bofe novo, hein??? Me conta
tudo!!! – Rodrigo forçava os trejeitos para brincar com Fábio. Era assim que costumavam se tratar
carinhosamente.

Eduardo estava boquiaberto:


- Vocês... vocês se conhecem???
- Claro! – disse Fábio.
- E você... conhece o Fá? – Rodrigo indagou.
- É claro que eu conheço! – berrou o moleque – Eu cresci com ele! É o meu melhor amigo! Ou
melhor, era! Onde já se viu uma coisa dessas, nem me cont...
Fábio interromopeu:
- Tá Eduardo! Você disse que veio com um amigo hetero, cadê ele?
Antes de Ed responder, Rodrigo comentou:
- Oras, ele veio comigo!!!
Edú ficou branco.
Fábio franziu a testa:
- Ah... com você... – e sorriu o mais marotos de todos os sorrisos, concluindo – tá Eduardo, você
veio com o Diguinho e vem dizer na minha cara que não é gay...
Rodrigo, o “Diguinho”, gargalhou.

Eduardo fechou a cara e deu de costas aos dois amigos.


Subiu as escadarias voando e seguiu para o chill out. Jogou-se num dos poucos puffes livres, ao
canto mais escuro do ambiente.
Estava com a cara enterrada no puff neon quando sentiu um toque no ombro.
- Eddie, porque ficar assim? – Rodrigo indagou.
- Vão embora daqui! – o garoto respondeu. Era o seu gênio ruim... coisa de espantar até o Papa.
- Puxa, o que há com você? – Fábio reclamou – o que há de errado nisso? O Rodrigo já havia me
contado, ali na escada mesmo, que você admitiu que era gay, e que você o fizera em tom tão
resoluto que não parecia estar encucado com isso... e porque? Porque negar o que você é?
- Porque o que eu sou é uma anta! – Ed explodiu – Como fui aceitar me meter num lugar desses?
É claro que algo tinha que dar errado! Claro! Nunca nada dá certo para mim! Eu sou uma anta!
- Não, anta você não é... você é um veadinho! – Rodrigo riu-se. Tentava com isso diminuir a
tensão.
- Um Bambi... – resmungou Edú virando-se para os dois rapazes que estavam de pé – um Bambi!
É isso o que eu sou?
- Credo! Também não é o fim do mundo! O que tem demais? – Fábio se revoltou.
- É porque não parece certo, não parece nada certo!
- O que não está certo é esse seu jeito de se torturar. Pare com isso. Se já tinha se aceitado antes,
porque andar para trás agora?
- Você acha que é fácil?
- Não, não é fácil. Eu já passei por isso, o Rodrigo também. Nunca é fácil, é uma coisa para se
pensar com calma. Meu, não há coisa mais natural do que sentir desejo. Não há como segurá-lo.
Não importa a natureza, seja hetero, seja homo, seja o diabo à quinta! O que não se pode fazer é
sufocar o que se sente! É impossível abafar o seu interior e viver em paz consigo mesmo. É algo
que, sinceramente, não dá.
Rodrigo ouvia calado o discurso de Fábio. Eduardo também. E as lágrimas corriam silenciosas,
escondidas no escuro.
- E o que eu posso fazer? – Ed indagou, meio amuado.
- Eu não posso lhe dizer nada. Não existe fórmula mágica. A única coisa que é certa é a sua
decisão...
- E se eu decidir que não quero ser gay?
Os amigos se olharam e suspiraram fundo.
Rodrigo abaixou-se para perto de Edú, tocou-o no braço e disse em tom sério:
- Bem, você pode optar por esconder que é homossexual pelo resto da sua vida, mas, deixar de
ser, isso é impossível.
- Nada é impossível! – bradou o garoto – Não exista o que seja!
- Existe sim Eduardo, existe! – Fábio interpelou – É impossível ser feliz não seguindo o rumo que a
sua natureza lhe indicou. Você é o que você é!!!
As lágrimas desciam mais uma vez. Eduardo refletia aquelas palavras. Elas ecoavam dentro do
corpo, como o vento se quebrando dentro de um túnel cheio de musgo, de pedras escuras, lisas,
úmidas e tristes.
O garoto penava. Pensava.
Até que viu a luz neste túnel.

Você é o que você é!!!

Ele era o que ele era e nem por isso era má pessoa. Continuava a ser o mesmo Eduardo, que
gostava das mesmas coisas, que fazia tudo o que sempre fizera, que sempre tirou as notas boas,
que sempre fez por onde. Era o Eduardo solícito e querido da mãe, era o homem do pai.

E era o que era.


E não era ruim.

Abriu a boca num sorriso singelo e murmurou, com os olhos brilhando:


- E eu sou o que sou...
Rodrigo sentou-se perto de Ed e o abraçou, dizendo com doçura:
- E voce é lindo deste jeito...
.....

Camila andava de um lado para o outro no quarto. Não estava conseguindo dormir. A luz da lua
que entrava em feixe pela janela, chegava entrecortada pelas folhas das árvores e se refletia pelo
chão e no lençol, repartida em milhares de gotas. Esta luz azulada emprestava um tom etéreo à
pele de Camila, que parecia uma estátua de mármore.
Já era tão tarde da noite e a garota era puro fantasma vagando.
Excomungava na penumbra:
- Diabos! Ai dele! Ai dele se ele estiver me aprontando alguma. Ele vai ver só!
E batia os pés no chão veementemente.
Seu sexto sentido lhe dava a certeza de que Eduardo não estava dormindo.
E nem estava em casa.
.....

- O jantar foi delicioso, não foi? – comentou dona Sônia, pendurando o casaco no cabide enquanto
seu Antônio se preparava para dormir.
- Sim, os Toledo são gente muito agradável! – o homem concordava, abotoando o pijama e
rumando para o banheiro.
- Ai, estou tão feliz que finalmente conseguimos conhecer nossos vizinhos. Eu e Sílvia parecemos
amigas de anos!
- Nosso filho também ficou bem amigo do filho deles – seu Antônio observou.
- Formidável né? – disse a mulher, desmanchando o penteado na frente do espelho.
O pai de Eduardo lavava o rosto e analisava a face diante da pia. Pegou a escova de dentes,
passou o creme dental e comentou:
- São rapazes saudáveis, espertos, bonitos e gaudérios. Ambos têm temperamento e caráter
sólido, podem ser amigos para o resto da vida.
- Que ótimo! – comentou Sônia, muito feliz, retirando a maquiagem com o removedor líquido
embebido no disco de algodão – Tomara que vá longe mesmo!
Seu Antônio anuiu com um gemido.
Não podia falar porque estava a escovar os dentes.
Apenas escutou a mulher comentar:
- Ah! Eu vou precisar do seu cartão de crédito amanhã querido... vou no shopping comprar um
lindo brinco, cheio de brilhantinhos. Quero que tenha suporte dourado. Uma jóia.
O marido revirou os olhos, cuspiu na pia e indagou:
- Para que outro brinco? Você tem milhares deles!
- Não é para mim, é para Camila! – a mulher se explicou.
- Camila?
- Sim, ela estará de aniversário semana que vem.
- Ah é? – fez o homem preparando o gargarejo.
- É!
- Âhn... então tá... – Antônio resmungou, entendendo. E botou o líquido de gargarejo de uma só
vez na boca, como alguém que toma uma dose de tequila.

continua no próximo capítulo...

O primeiro verdadeiro amor


18.05.2004
Eduardo conhece o verdadeiro sentido de amar...

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por Maven - mavenmusic@hotmail.com

Capítulo IX

Já era segunda feira e Eduardo prestava atenção à aula, que


muito lhe interessava.
Foi quando um bilhete chegou em sua carteira:

“Oi Edú,

Muito chato o lance que está te acontecendo.


Eu já passei por isso. É como se o mundo fosse cair.
Posso te ajudar. Confie em mim, por favor. Não me atire pedras só porque eu não te contei antes.
Eu já havia pensado em te contar dezenas de vezes, mas acabava dando para trás. Tinha medo
que se afastasse e eu te perdesse.
Acredite, eu sou seu amigo.
Pensei que ia me ligar no Domingo, mas pelo visto você devia estar chateado. Desculpa por não
ter te contado. Eu adoro você.
Se cuida, hein?

Ass: Fábio”

Eduardo sentiu um alívio na alma. Viu o quanto fora injusto com o amigo. Com o Fábio, que era o
seu único e verdadeiro companheiro, aquele que conquistara por ser especial.
Não poderia jogar fora uma amizade tão sincera como esta.
Suspirou e sorriu.
Devolveu o bilhete:

“Puxa cara, desculpa mesmo.


É até bom que eu tenha o mesmo “problema” que você, assim a gente não se afasta mais. E eu
entendo você não ter me contado. Eu também tentei, mas fiquei com medo, assim como você. Mas
na hora do intervalo conversaremos melhor.”
.....

Já no pátio, Edú e Fábio se encaravam e riam:


- Seu gay! – Eduardo comentou, apenas de brincadeira.
- Obrigado – revidou Fábio – a senhora também é uma bicha muito donzela!
- Ê... qualé? Tá me estranhando? – fez Eddie engrossando mais a voz.
- Nem... – disse Fábio, tornando a conversa mais séria – Que estranhando o que? Vai dizer então
que você e o Rodrigo não estão de casinho?
- Hein? – fez Duda aturdindo-se.
- Ah, qual é Eduardo? Para cima de mim? – e cotovelou o amigo, dando uma piscadinha.
- Não Fábio, a gente não tem nada... – o garoto respondeu sem jeito.
- Porque você não quer! – disse Fábio, liberando informação.
- Como assim? – indagou Eddie totalmente interessado. Afinal, falou de Rodrigo, falou do que
queria ouvir.
- Vai dizer que não percebeu que o Rodrigo tá caidinho por você?
- Tá? – disse Ed, tentando fingir surpresa. Claro que sabia que Rodrigo estava de olho nele. E
lógico que Rodrigo sabia que Edú também lhe tinha atenção.
- Claro! – respondeu Fábio, caindo no teatrinho de Ed – Qualquer um pode ver! Ainda mais eu que
o conheço há séculos e posso lhe contar melhor que ninguém! Ele está parado totalmente na sua.
- Puxa... – Dudú perdeu-se diante de um pensamento: tá, ele gostava de Rodrigo, tá ele era gay,
mas... ele nunca... – Fábio, eu nunca... nunca...
O amigo entendera:
- Eu sei que você nunca ficou com um rapaz! Mas isso a gente resolve logo! Basta encontrar
Rodrigo novamente.
- E a Camila? Eu não posso ser...
Eddie ainda ia falando quando Fábio interrompeu:
- A Camila!!! – levou as mãos à cabeça – Meu bom Deus amado!!! Como ela vai ficar nesta
história?
- Boa pergunta. Essa semana a gente volta a se falar por telefone. Aquele trato maluco dela. Ela
tem cada coisa... mas sabe o que é pior? É que ela tá de aniversário neste sábado. É lógico que
terei que ir.
- Putz! E você vai contar para ela no dia da festa? – o rapaz indagou curioso – É muita ruindade!
- Quem disse que eu vou contar? – Dudú rebateu.
- Ah, vai conservar a namorada para fazer a linha hetero?
- Ai... você e Rodrigo... têm esses seus linguajares e termos do “babado”. Não, eu não vou fazer
isso com a Camila, você sabe que eu não sou de usar ninguém. Sabe que eu não sou de viver de
mentiras e nem “fazer linhas”. Mas por outro lado, eu não quero machucá-la, portanto...
- Portanto... – quis saber o rapaz, prestando atenção as feições do amigo.
- É melhor deixar quieto por enquanto.
- É, talvez seja essa a melhor saída.

Quando subiram de volta para a sala de aula, Eduardo pegou a apostila. Um papelzinho caiu de
dentro.

Ligue para mim, 793-5436, Tiago.

Era o papel que o garoto do ônibus lhe dera.


Eddie sentiu que era hora de falar com alguém.
Guardou o bilhete no bolso e se ajeitou na carteira. Assim que chegasse em casa telefonaria para
Tiago e teria uma conversa “educativa”. Ia tentar matar metade dos grilinhos que estavam pulando
de um lado para o outro na sua cabeça.

- Alô? – fez a voz do outro lado.


- Oi, queria falar com Tiago.
- Ok, já vou chamar.
Passados alguns segundos, Tiago atendeu:
- Sim?
- Oi, aqui é Eduardo.
- Que Eduardo?
- O rapaz do ônibus.
- Nossa! Depois de milênios você resolve ligar! Pensei que jamais iria falar contigo.
- E não ia mesmo... se certas coisas não tivessem ocorrido.
- Que coisas?
- Bem, primeiro de tudo... queria saber porque você me entregou seu número de telefone no
ônibus?
- Porque eu te achei um rapaz muito bonito. Não custava nada.
- Mas o que te fez fazer isso?
- Vontade de te beijar.
- E porque achou que eu ia te beijar?
- Não achei nada. Já disse que não custava tentar. Talvez tivesse sorte e você fosse solteiro,
talvez seu namorado não tivesse ciúmes...
- Namorado? Como você poderia saber se eu tinha namorado ou namorada? Por acaso tá escrito
na minha testa que eu sou gay?
- Não, mas meu gaydar não falha nunca.
- Seu gaydar?
- É! Reconheço um gay como se eu tivesse um radar em minha cabeça.
De novo aquela história de indivíduos de mesma espécie se reconhecerem mutuamente. Puxa,
será que durante todo esse tempo todo mundo já sabia que ele era gay, menos ele???
- Mas você disse que não ia ter me ligado, caso algumas coisas não tivessem ocorrido, o que foi
que aconteceu?
- Bem, é o seguinte... quando você me entregou o papel no ônibus, eu não era exatamente gay...
- Como assim?
- Eu estava desligado de certas emoções e sensações. Coisas que ainda não entendi direito... por
isso resolvi ligar. Queria conversar. Queria saber coisas.
- Que tipo de coisas?
- Tudo. Desde como é sua vida em família, se eles sabem de ti até como é... beijar outro rapaz...
- Ah... sim! Eu posso te contar essas coisas, mas o beijo, se quiser, eu te mostro como é na
prática.
- Não – fez Eduardo, sem graça por recusar – Mas é que tem um garoto que eu estou afim e agora
que sei o que quero, preciso dessas informações... tenho tanto medo de que algo saia errado.
Tenho medo que alguma decisão que eu tome vá me fazer infeliz, embora eu sinta que ao lado
dele eu só possa sorrir. É por isso Tiago que queria conversar com alguém que já tenha passado
por isso!
- Ok, então, vamos lá! Tudo começou quando...

E aquela foi uma looooooonga conversa.


.....
Qualquer decisão que Eduardo tomasse em relação a sua vida, seria definitiva. Conversar com
Tiago fora muito bom.

Sabia-se gay. Não tinha mais volta.


Não queria voltar. Agora ele sabia.

Havia caminhado um bom bocado até então para simplesmente não se dar conta que seria um
fracassado se desistisse do que queria.

Sabia que queria Rodrigo.

Aquele sorriso perfeito deveria sorrir apenas para ele.


Como um farol iluminando apenas o caminho de um barco no oceano.
Egoísmo? Talvez, mas o amor é isso mesmo.
- Amor??? – Ed se espantou – amor? Será isso?
Levantou do sofá da sala, onde assistia com os pais os seriados da TV a cabo.
- O que foi meu filho? – Sônia estranhou.
- Nada mãe! – fez Eduardo, despistando. Ai dele se os pais desconfiassem – Vou para o meu
quarto, só isso!
- Ué, mas hoje é quinta-feira, dia de seu seriado favorito! – a mãe olhava para o filho, apreensiva.
Ele estava diferente, fora do habitual.
- Eu sei, mas estou cansado e preciso dormir – e ainda pediu – grava para mim, ok?
Assim que chegou no quarto, ligou para Camila.
- Oi, a gente precisa conversar.
- Ok, diga... – disse a garota. Até então, sobre o trato, apenas Camila ligara para Edú nestes dias,
de modo que essa era a primeira ligação por parte dele.
- Não – e a voz dele mudou de um tom ameno para um tom mais grave – não por telefone.
- Mas Dú... o nosso trato... – a garota parecia querer se proteger de algo monstruoso – não
podemos nos ver antes de domingo.
- Mas sábado é seu aniversário, como posso ir na sua festa se só posso te ver no domingo?
- Tem esse detalhe, mas é só um detalhe, porque daí tudo bem, a gente abre uma exceção
especial...
- Ah, ok... – Ed concordou. Mesmo assim achava estranho.
- Ok! – disse Camila, como quem diz “ok, então estamos conversados!!!”.
Dudú ainda tentou:
- Não tem jeito mesmo da gente se ver antes?
- Não. É melhor assim. Deste modo a gente pode avaliar o que sente um pelo outro.
- Mas eu já sei! Eu já sei o que sinto! – Eduardo pensou em Rodrigo, o seu Gozinho... o Gô. Sorriu
sem perceber.
- Que bom que você sabe! Domingo então você me conta!
- Camila, é que eu descobri...
- Boa noite Edú.
Não restando alternativas, ele teve que ceder:
- Boa noite.
Desligou o telefone e discou para Rodrigo.
- Alou? – o rapaz logo atendeu.
- Oi Gô! – Eduardo cumprimentou derretendo-se num sorriso bobo.
- Oi Eddie! – o outro respondeu nitidamente feliz com a ligação do vizinho. Era sempre assim.
Rodrigo ficava sempre agitado e um calor percorria seu corpo ao ouvir a voz de Eduardo. Tinha
tanta vontade de beijar, de abraçar, de não deixar mais Eddie sozinho que essa vontade fazia seus
ouvidos zumbirem. Queria fazer o bem para ele. Queria fazê-lo feliz.
- Tudo bem? – Dudú perguntou.
- Bem melhor agora! – Digo respondeu, aproveitando a deixa. Fora uma resposta brega, mas
serviu...
- Que bom. – o garoto respondeu sentindo carícias na alma – Só liguei para dar boa noite.
- Hein??? – fez Rodrigo. Será que tinha ouvido direito?
- É, boa noite!
Um silêncio se fez enquanto algumas lágrimas marejaram os olhos de Rodrigo, que sussurrou
docemente:
- Boa noite Edú.

Rodrigo colocou o telefone no gancho. Mal podia acreditar. Eduardo correspondia o sentimento
sem sombra de dúvidas, acabara de comprovar!
Levantou-se da cama e rumou para a cozinha. Pegou uma garrafa de champanhe que estava na
geladeira e abriu. Comemorava a vitória. Conquistara um rapaz maravilhoso em todos os sentidos.
Eduardo era prêmio de ouro.
Rodrigo também era.
Antes de tomar um gole da borbulhante champanhe, brindou:
- À você, meu amor.
.....

No outro dia, quando voltava do cursinho, Eduardo perdia-se em pensamentos dentro do ônibus.
Tinha certeza que Rodrigo o amava. Então porque diabos o rapaz não se aproximava dele? Afinal,
era mais experiente nessas coisas, seria muito mais descomplicado se Rodrigo tomasse a
iniciativa...
Ou será que Ed estava só pirando? Será que Rodrigo queria só amizade?
Na cabeça de Eduardo, essas questões causavam grande dúvida que acabava virando angústia.
Como queria Rodrigo... o modo com que sentia o frio na barriga ao pensar no outro rapaz era
estranho. Mas era bom.

Será que conseguiria Rodrigo para si?


Estava disposto a lutar.
Tinha tanta gente que lutava pelo que queria. Imaginou como seria se sentisse que seu corpo não
lhe suportasse. Tantos casos. Imaginou que se já era difícil se aceitar gay, imagina não aceitar o
sexo biológico. Imaginou como seria a vida de um rapaz que tem que usar roupas femininas para
poder se olhar no espelho. Qualquer pessoa tinha o direito de ser feliz, mas somente os corajosos
lutavam por isso. Pensou então como eram admiráveis os travestis, transexuais, por serem o que
são e lutarem para ser o que são. Deviam ter força superior a de muita gente que julga que pode
suportar muitos golpes.
Talvez, no fundo, Eddie sentisse que era um covarde.
O caso dele não era complicado. Ele não precisava desafiar um universo inteiro. Talvez fosse mais
fácil do que pensava. Talvez, talvez, talvez...
Era uma incerteza que tinha que acabar. Tudo tinha que ter um fim.
Quando desceu do ônibus e rumou para casa, encontrou a mãe e Sílvia no portão da frente. A mãe
de Rodrigo estava no seu dia de folga. As duas senhoras conversavam alegremente. Haviam
ficado amigas mesmo. Dona Sônia cuidava das plantas da frente de casa enquanto a outra
tagarelava.
- Na minha próxima folga, podemos ir ao centro para comprar as coisas para o nosso próximo
jantar, temos que planejar tudo direitinho, não é verdade? Ouvi dizer que tem uma galeria lá no
centro que vende artigos variados e que saem em conta... – a mulher ia falando quando Eduardo
interrompeu.
- Oi senhora Toledo – o garoto cumprimentou sorridentemente – oi mãe.
- Olá Eduardo! – as duas responderam. Sônia ainda disse apontando um saquinho de semente de
flores em direção do moleque – A comida tá no fogão, é só esquentar, ok, meu querido?
- Tá mãe! – disse o rapaz entrando na casa.
As duas amigas se olharam e sorriram. Sílvia disse:
- Esse seu filho é uma graça de pessoa. Ele é um rapaz muito bonito e simpático.
- É, eu sei. Ele é muito obediente. Está em ano de vestibular, coitado, tem vez que nem dorme
direito. Só faz estudar, estudar... nem dá bola para a namorada. Só quer saber dos livros e das
apostilas dele...
- Ah, ele é tão esforçado assim???
- É sim. Ele quer entrar em medicina, assim como você e seu marido.
- Puxa, na nossa época as coisas eram mais simples, nem se ouvia falar em vestibular. Realmente,
ele vai ter que estudar bastante, mas ele vai conseguir, é um rapaz muito bom.
- Isso ele é! Mas seu filho também é ótimo. Espero que Eduardo e Rodrigo sejam muito amigos.
- É o que Rodrigo mais quer... – comentou Sílvia, bem baixinho.
.....
Depois de se alimentar, Eduardo subiu as escadas e tomou um longo e refrescante banho.
Escovou os dentes, passou perfume, caprichou mesmo na toalete. Olhou para o espelho: lá
estava!!! Um rapaz, um belo rapaz! Eddie sorriu e começou a recitar frases para sua auto
convicção:
- Você é forte. Você não precisa temer nada! Você é forte. Você não precisa temer nada. A vida é
assim, a vida tem obstáculos. Você é forte, você vence as barreiras!!!
Foi para o quarto e ligou para Rodrigo.
- Oi Digo! – Eduardo cumprimentou. O coração batia forte.
- Oi Duda! – disse o outro rapaz, que estava sentado na frente do computador, digitando um texto
para um projeto da faculdade.
- Sua mãe está aqui em casa. – Duda falou em tom de festa – Tá lá na frente com a minha mãe.
- Eu sei. – Rodrigo respondeu sorrindo – Minha mãe foi com a cara da sua. Acho que vão ficar
amigas.
- Isso é bom, não acha? – Ed indagou.
- Com certeza! Isso vai facilitar muito para a gente – Rodrigo foi dizendo – As sogras se gostam!
Tudo se descomplica!
Eduardo ficou mudo. O coração que já batia forte, agora estava tão acelerado que chegava a fazer
pressão no ouvido.
- So-sogras? – Ed indagou, com um sorriso nos lábios. A idéia lhe agradara muito e ouví-la da
boca de Rodrigo fora o maior presente que ele poderia receber.
- Eu estou brincando! – o outro rapaz declarou.
Breve silêncio.
E depois:
- Ah... – fez Eduardo, tentando disfarçar.
Foi quando após um silêncio aterrador, Rodrigo começou a falar:
- Não... eu não estou brincando.
- Hein?
- Eddie, você não é burro nem nada. – Rodrigo estava decidido a falar tudo mesmo – Você sabe
muito bem o que eu sinto por você...
- Se-sei? – indagou o garoto, previamente maravilhado com a expectativa das palavras vindouras.
Seriam como tilintar de cristal, melodia do vento. Seriam carícia para a alma.

Rodrigo continuou:
- Eu gosto muito de você! Tanto que às vezes eu até me sufoco só por estar em sua presença e
não poder fazer nada! Você não imagina a vontade que eu tenho de lhe tocar, de lhe fazer o bem.
E acabo em desespero, pois nada posso fazer, não posso forçar nada, não posso quebrar suas
barreiras. Me faz bem estar com você, mas me faz tanto mal não poder beijá-lo, nem tocá-lo e nem
demonstrar todo o carinho que eu sinto por você.
- Rodrigo, eu... – Eduardo sentiu felicidade sem tamanho, queria falar, mas o outro rapaz impedia.
Prosseguia falando e dando a maior bandeira de seu desequilíbrio emocional, sua insegurança.
- Quando você fala Eduardo, sua voz me deixa hipnotizado! É seu cabelo, sua pele, seu caráter... é
tudo isso somado, isso me faz te querer tão bem, isso me faz te querer tanto! Isso me faz te amar
desesperadamente.
- Go, eu...
- O que Eduardo? – o outro indagou, na defensiva.

Foi quando Eduardo declarou:


- Eu também te quero. Muito. Eu amo seu sorriso. Eu amo a sua alma. Eu... eu amo... – Duda
estava com um baita sem jeito, embaraçado, mas decidiu completar a sentença – ...eu amo você!!!

Rodrigo ficou mudo.


Uma onda de calor percorreu seu corpo. Desligou o telefone sem dizer nada e saiu do quarto. Ia
correndo para a casa de Eduardo. Precisava vê-lo imediatamente, precisava beijá-lo e tê-lo em
seus braços.
- Alô? Alô? Rodrigo? Você tá aí? – Eduardo finalmente sacou que o outro havia desligado e agora
já não entendia mais nada, apenas exclamou – É louco mesmo!

Sorriu. Balançou a cabeça. Em seu interior, um mecanismo qualquer desencadeou uma reação
instantânea e uma força do além o fez se levantar de uma vez só.
Sentiu como se seus pés seguissem para a casa de Rodrigo. O coração palpitava incrivelmente.
Desceu as escadarias cegamente.

Parecia um robô com a mira apontada para o alvo: Rodrigo.


Ao sair pela porta da frente, passou feito ciclone pelas duas senhoras, que nada entenderam. A
mãe de Eduardo ainda comentou:
- Que milagre que ainda não esteja grudado em suas apostilas!
A outra anuiu.
Os passos largos de Eddie tornaram-se mais largos ainda assim que avistou Rodrigo vindo em sua
direção. Tudo escurecia em volta. Tudo.
Rodrigo não pôde conter o sorriso ao ver Eduardo.
Sorriu mesmo! Trazia estampado na cara o mais belo e franco dos sorrisos.
Eduardo entontecia e mal podia esperar para achar conforto nos braços do outro rapaz. Agora tudo
já era escuro e a única fonte de luz que Ed via era a luz de Rodrigo. Era o único ponto certo para
onde rumar. Era para ele que devia ir.
Sônia e Sílvia olhavam a cena sem nada entender.
Rodrigo chegou perto de Eduardo.
Eduardo estava ofegante. Ficaram os dois se encarando e sorrindo, frente a frente. Os olhos
brilhantes e os sorrisos diziam o quanto precisavam se completar. A respiração se confundia. Os
lábios rubros clamavam um toque, gritavam por um beijo.

A mãe de Eduardo estava com a testa franzida. O que seria aquilo?


Os tambores ficavam cada vez mais altos. Finalmente, Rodrigo tomou Eduardo nos braços e o
beijou.

Eduardo sentiu a mais gostosa de todas as vertigens.


Pareceu entrar no outro rapaz. Era tão bom, nunca havia sentido nada igual, com nenhum beijo da
sua vida, com ninguém!
Beijar Rodrigo era bom!!!
Beijar Rodrigo era excitante! Sem demorar, retribuiu o beijo. Abraçou o garoto com paixão e
deslizava as mãos pelas costas, pelo cabelo, pelos ombros. Era uma outra sensação.
Era aquilo que deveria ter feito há séculos.
Sílvia deixou o queixo cair.
Sônia desmaiou.
.....
Famíla Toledo de um lado da mesa, família Braschi do outro. Todas as luzes da casa estavam
acesas. Todas. Era hábito antigo que o pai de Eduardo aprendera com o avô, que aprendera com
o bisavô, que aprendera com o bisavô... claro que na época do bisavô eram velas e não lâmpadas
acesas, mas o intuito disso era para ajudar a “esclarecer” um problema grave. Seu Antônio batia
impacientemente os dedos na madeira da mesa enquanto olhava para Rodrigo, na outra
extremidade. Na cozinha da casa de Eduardo, o cheiro de tempestade estava no ar.
- Foi só um beijo – Rodrigo disse finalmente.
- Só um beijo? Só um beijo? – indagou Sônia indignada.
- O que há de errado? – o rapaz quis saber. Rodrigo tinha personalidade forte, mas não era
genioso feito Eduardo. Estava tentando manter a conversa dentro de um limite. Queria mantê-la
em um caminho fácil de ser trilhado, onde pudesse manipular as palavras todas a seu favor.
- Eu já digo o que há de errado! Dois garotos!!! No meio da rua, em plena luz do sol! – Sônia
descabelou-se, podia-se ver a loucura rondando a janela da casa – Meio dia peloamordedeus! Eu
pensei que vocês fossem amigos!
- Sua mãe quase teve um treco Eduardo! – disse Antônio, apontando para Eduardo, que apenas
olhava para as próprias mãos, cruzadas em cima da mesa.
- Eu quase tive um treco! – disse a mulher para afirmar o drama – Sorte sua que seu pai não
estava ali senão...
- Senão EU ia ter um treco! – o homem complementou.

Os pais de Rodrigo ouviam a discussão. Imaginavam o que se passava com os Braschi. Claro que
compreendiam o desespero. Sempre havia um choque.

Mas não era o fim do mundo.


Sônia tremia inteira.
- Vocês sabiam que o seu filho era... era... – e parou de falar por não saber dizer outras coisas
senão “bicha”, “veado”, “maricas” e “boiola”.
- Que nosso filho é gay? – indagou Sílvia.
- É... isso!
- Claro que sabíamos – disseram os pais de Rodrigo com muita naturalidade.
- E porque o deixaram andar com o nosso Eduardo? – Antônio perguntou indignado.
- Oras! O que quer dizer com isso? – o pai de Rodrigo quis saber, ficando vermelho – Que ser gay
passa? Que é doença?
- Com certeza! – afirmou Antônio – Pois certamente meu filho não era boiola antes!
- Affe... – fez Rodrigo, mordendo os lábios de tão fulo que ficara com tais palavras.
Sílvia interveio:
- Pois saiba que nosso Rodrigo contou para Eduardo que era “boiola” logo no primeiro dia de
amizade! Bem no dia que Fred morreu.
- Fred? – indagou seu Antônio confuso – Quem é Fred?
- O cachorro! – informou a mulher.
- O cachorro... – fez Antônio, assimilando.
- E Eduardo continuou a falar com nosso filho! – Sílvia concluiu.
- Cachorro! – o senhor esbravejou contra Eduardo, que soltou um gemido de vira-lata com o rabo
entre as pernas.
Luís posicionou-se:
- Ninguém o obrigou – e olhou para Ed, sorrindo – ele estava com Rodrigo porque gostava, porque
estava afim!
Antônio se espantou e indagou ao filho, de olhos arregalados:
- Você estava afim de Rodrigo???
- Não, afim de andar junto – explicou Sílvia.
- Não, eu acho que era afim de mim mesmo mãe... – Rodrigo meteu-se na conversa.
- E você? – seu Antônio dirigiu-se ao rapaz – Estava afim de Eduardo?
- Eu? É claro! Ele é ótimo! – e sorriu o mais puro dos sorrisos.
- Mas ele tem uma namorada, sabia? – Sônia ergueu o dedo, como quem faz discurso convincente
– Ele a ama muito!
- Ele tem namorada... – os pais de Rodrigo balançaram a cabeça.
- O que vai ser de Camila se ela chegar a saber disso? – Antônio quis saber.
- Não quero nem saber! – Sônia deu um pulo para trás – Eu não vou contar, melhor a gente ficar
quieto – e apontou para o filho – Você Eduardo também não precisa contar, assim você continua
com ela e finge que nada disso aconteceu e que você é normal. Amanhã mesmo vou procurar um
psicólogo e logo logo você vai estar curado!
O gênio do garoto cutucou.
- Não, eu não vou a psicólogo nenhum, eu não tenho doença para ser tratada, eu não vou fingir
que sou normal, porque eu SOU normal e não vou continuar com a Camila!
- Nã-não vai? – gaguejou a mãe, perdida, alisando a ponta da blusa.
- Não! Eu não gosto mais dela! – disse Eduardo, tão convicto em cima de seu saber que ninguém
jamais ousaria dizer o contrário – Eu descobri que nunca gostei!
- Mas vocês são tão bonitos juntos... – o pai tentou começar discurso novamente, mas Eddie
interrompeu bruscamente, levantando-se.
Era alto, era imponente e sua voz de trovão ecoou pela cozinha:
- Que pena, porque a gente não vai mais estar junto! Agora eu sei o que é melhor para mim! Eu sei
o que vai me deixar feliz! E se vocês se importam comigo de verdade e querem mesmo me ajudar,
me ajudem a ser feliz!
- Filho, você não sabe o que... – Sílvia ia dizendo, mas nova interrupção ocorreu. Estava bem claro
que Eduardo era forte e seu gênio ia imperar.
- Mãe, você quer me escutar? Eu amo o Rodrigo.
Silêncio geral.
Rodrigo e os pais sorriam de um lado da mesa, do outro a pasmice reinava.
- Agora vem cá – Ed esticou o braço para Rodrigo – me dá a mão e vamos para meu quarto.
Rodrigo obedeceu mais que prontamente. Levantou-se da mesa num pulo e acompanhou o rapaz
pela casa adentro, deixando o clã Braschi e Toledo sozinhos. Eduardo ainda pôde ouvir o pai
resmungar baixinho:
- Agora só falta tomar droga!
.....
- Eu não acredito que você fez isso!!! – Rodrigo exclamou – O jeito que você falou, você foi tão...
sei lá! Você foi ótimo! Eu nem acredito!
Eduardo riu gostosamente:
- Nem eu!
Rodrigo pulou nos braços de Eduardo, derrubando-o na cama. Ficaram os dois, um em cima do
outro, cara a cara.
Agora podia, era liberado.
E o beijo rolou novamente, desta vez, mais gostoso.
.....
- Eu não acredito que ele fez isso!!! – Sônia exclamou – Você viu só o jeito que ele falou? Foi tão...
sei lá! O que a gente faz? O que a gente faz agora?
- Eu não sei querida, eu não sei. Vamos torcer para que seja só uma fase...
Os Toledo intervieram:
- Não, por favor, não pensem que isso é doença, não pensem que é mal de um todo. O que é
verdade é que nada nunca é do modo que a gente quer, mas concordem que sempre há um lado
bom em tudo...
- Onde foi que eu errei?
- Ninguém errou em nenhum ponto. O que é de ser, será! Eduardo não é mais uma criança, ele é
um homem. Muito me admira que ele tenha feito essa descoberta tão tarde. Nosso filho definiu-se
faz muito tempo.
- E como vocês reagiram?
- Do mesmo modo que vocês, mas querem um conselho? Não tentem mudar Eduardo, ele é um
rapaz formidável, é um rapaz excepcional... de repente o que vocês pensem que é correto para ele
dentro de seus “padrões” não será o que é melhor para ele. Quando tentamos isso com nosso
filho, ele foi ficando cada vez mais infeliz... e nós também. Foi quando percebemos que nosso filho
não tinha problema algum, foi quando percebemos que ele era uma pessoa única, com seus
próprios pensamentos, com seus próprios gostos, e que nós tínhamos que aceitar isso, tínhamos
que respeitar.
- Mas... não parece certo...
- E o que parece certo então? Sofrer por causa do preconceito?
- Mas é disso mesmo que eu falo! Do preconceito! Você acha que eu quero que meu filho seja
chamado de marica na rua, que seja discriminado?
- Esse risco todos correm. Até quem não é homossexual. Preconceito existe contra preto,
cearense, pobre, gay, deficiente físico, mental, viciados... o preconceito existe em qualquer parte,
para qualquer um. O mundo não é um mar de rosas. E se Eduardo não puder contar com apoio em
casa, onde vai poder contar? O amor é a melhor coisa que vocês podem oferecer a ele. Nunca
neguem que ele é necessário à vida de vocês, nunca neguem que ele é um bom filho, pois vocês
sabem que ele é.
- Mas... é tão difícil...
- É difícil, mas não é impossível.
.....
Deitados na cama, depois de se beijarem até a exaustão, Rodrigo e Eduardo conversavam:
- Como você acha que seus pais vão te tratar de agora em diante?
Eduardo lançava o olhar no infinito:
- Não sei Digo, sinceramente eu não sei...
- Você não se importa?
- Não...
- Não mesmo?
Os olhos de Eddie brilharam:
- Puxa, é claro que me importo. É lógico que sim... mas o que posso fazer? Você foi quem me
disse que jamais poderia abafar o que sinto. E aqui estou eu. Aqui está você e estamos felizes.
- E como!
Dizendo isso, pulou para cima de Eduardo e recomeçou a beijá-lo.
As carícias eram ótimas, o toque especial. O conforto que um encontrava no corpo do outro era
algo além do descritível.
- Vou ligar pro Fábio! – Duda exclamou entusiasmado, precisava contar para o amigo.
- Ah! Liga mesmo!
Discou o número do amigo. Ninguém em casa. Devia estar por aí na vida... ligou para o celular.
- Fábio?
- Oi Ed! E aí tudo beleza?
- Tudo... até agora pelo menos tá!
- Como assim?
Rodrigo pegou o telefone:
- Amigo... deu um basfond aqui... você nem bota fé no que aconteceu!
- Conta logo!
- Os pais de Eduardo descobriram tudo!!!
- Tudo?
- Tudo!
- Affe! E daí?
- Daí que Eduardo disse que era gay mesmo e que ia dar um pé na bunda da Camila para ficar
comigo!
- Sério? Foi isso mesmo?
- Bem, não foi assim... mas foi mais ou menos desse jeito...
- Ah...
- E agora a gente tá aqui no quarto dele!
- Jura? No quarto dele??
- Na cama!
- Sua abusado!
- Que posso fazer?
- Você respeita meu amigo, hein? Se não te quebro de porrada!
- Tá bem!
- Tchau Bichaaaa!
- Tchau!
Desligou o telefone e virou para Eduardo:
- Ela tá super feliz que vocês quebraram o pau aqui!
- Ela? Puxa, não chama o Fábio de mulher que eu me sinto mal...
- É só de brincadeira...
- Ok... puxa, ele tá feliz com minha desgraça?
- Nem foi uma desgraça, veja...
- Não sabemos ainda se não é uma desgraça. Ainda não sei como o clima aqui em casa vai ficar...
- Bem, de qualquer modo, agora está feito. E Fábio ficou feliz. Pelo menos agora você não precisa
se esconder.
.....

Ao abrir a porta do hall de entrada, Camila sentiu o coração palpitar mais forte de tanta alegria,
mas conteve-se, tinha sentido muita saudade neste período em que estiveram sem se encontrar,
mas não queria dar o braço à torcer. Engoliu toda a felicidade, ruminou-a e a devolveu para a boca
apenas transformada em branda simpatia:
- Oi Dú, que bom que você veio. Já não agüentava mais todo mundo perguntando por onde você
andava.
- Oi Camila! Feliz aniversário! – entregou o presente da namorada, dando-lhe um leve beijo nos
lábios.
- Entra logo, a festa tá ótima! Tá quase todo mundo aqui.
- Que bom! – o rapaz olhou em volta e constatou que a casa de Camila estava cheia de gente
conhecida, repleta de amigos do colegial, várias pessoas da família e também amigos de Suzana.
Tinha até algumas pessoas que Eduardo não fazia nem idéia de quem fossem.
Todos os cantos da casa estavam cheios e o ambiente festivo entontecia o garoto. Sabia que o
que viera fazer ali era meio sujo e sentiu-se como um lobo vestindo pele de ovelhas a passear pelo
rebanho.
- Camila, eu preciso falar com você...
- Agora não Eduardo... – respondeu a garota, ajeitando a presilha de strass que estava meio frouxa
no cabelo.
- Mas Camila, a gente precisa conversar...
- Agora não Eduardo!
O rapaz irritou-se:
- Lembra que você combinou comigo que não ia falar até nosso trato acabar, bem, está quase
acabado. O prazo vence daqui a pouco, quando der meia-noite já vai ser outro dia, faltam minutos!
Que diferença faz?
- Faz toda a diferença! – disse Camila apertando o pacote de presente contra o colo – Eu sou uma
mulher de princípios!
O rapaz suspirou de tristeza e olhou bem fundo nos olhos da namorada.
- Se você fosse ia notar que estou me sentindo mal e que eu preciso conversar com você. Uma
pessoa de princípios não iria ignorar isso jamais.
Camila fez um muxoxo, e exclamou deixando-se vencer:
- Ok! Certo, você tem razão.Vamos lá! Me conta.
- A-aqui?
- Que há de errado?
- Mas aqui tá cheio de gente, estamos no meio de uma festa. Eu quero falar com você num local
mais reservado.
A garota suspirou pesarosa. Pegou o namorado pela mão e levou-o até o jardim do quintal.
Sentou-se no pesado balanço de ferro branco e os elos da corrente de aço se fizeram ranger
brevemente. A noite estava fria, porém o céu estava pipocado de estrelas cintilantes.
- Como o céu está lindo – o rapaz exclamou.
- É, está mesmo, mas parece que vai chover.
- Não creio que isso aconteça.
- Também acho que é pouco provável, mas quando consultamos a metereologia nos informaram
que por volta da uma da manhã o céu ia ficar nublado e podia chover. Por isso não fizemos a festa
aqui fora.
- Ah, entendi.
- Todo cuidado é pouco.
Eduardo desviou os olhos do céu e mirou a garota. Abaixou-se nos seus joelhos e sentou-se no
chão, perto dela.
Não havia lua no céu.
- E então? – a garota indagou.
- Lembra que você me fez jurar que íamos contar um pro outro qualquer coisa que ocorresse
durante o tempo em que não nos estivéssemos falando?
- Lembro, claro.
- E você me fez prometer que ia ser sincero, que ia contar toda a verdade?
- Sim Eduardo, eu lembro. Fui eu quem propôs isso tudo.
- Pois então... – o rapaz ficou mudo. Ao fundo ouvia-se apenas as vozes abafadas e a música da
festa, chegando suavemente até o jardim.
- Então o que Dú? Você andou aprontando alguma coisa?
- Não... – ele ficou quieto. Depois olhou para um canto do jardim e falou – quero dizer, sim... mais
ou menos!
- Mais ou menos? Como se apronta mais ou menos?
- Deixa-me explicar. Não foi nada planejado! Simplesmente aconteceu! Eu conheci uma pessoa...
Brusca e secamente Camila interrompeu:
- Você quer dizer que você ficou com outra garota?
- Não. Eu não fiquei com outra garota, mas eu estou te deixando...
- Você está me deixando? Você quer acabar comigo e tem a audácia de me dizer que não ficou
com uma sirigaita qualquer por aí?
- Já te falei Camila. Não conheci garota alguma.
- Ah é? E o que ocorreu? Quer fazer o favor de me explicar, porque eu sinceramente não sei como
uma pessoa...
Eduardo interrompeu o discurso:
- Eu fiquei com um garoto!

.....
Rodrigo andava de um lado para outro.
- Tomara que aquele moleque não apronte nada!
- Eduardo? – Sílvia perguntou, olhando para o filho enquanto derramava conhaque nos copos de
uma bandeja.
- Claro! Eduardo, quem mais?
- Porque essa preocupação?
- Simplesmente porque ele é um cabeça dura, tem um gênio terrível! Ele tá na festa de Camila, e
sendo do jeito que ele é, é bem capaz que a esta hora já tenha contado tudo para ela! A esta hora
a aniversariante tá chorando de desgosto porque perdeu o namorado para um homem!
- Bobagem! – disse a mulher, que levava a bandeja com drinks aos amigos na sala de estar – O
que há de ser, será! Tente não parecer tão nervoso e venha para a sala comigo. Afinal, são os
seus sogros que estão lá!
.....
- Garoto? – Camila perguntou, sussurrando, depois de uma eternidade de silêncio.
- Sim...
- Você ficou com um... um... – e uma expressão de nojo, misturada com indignação estampou-se
na cara da menina. Sua boca franzida cuspiu – como você pôde?
- Eu... eu não planejei nada disso, eu não entendia direito o que eu sentia. Não tive controle algum
sobre a situação...

Ele tentava se desculpar, mas Camila não deixava, ficava interrompendo:


- Porque você fez isso comigo? Você é um monstro!
- Não Camila! Não me trate assim! Entenda, eu sempre gostei de você, eu gosto ainda, mas não
gosto como namorado... eu te amo como um amigo ama outro.
- Não me venha falar de amor. Bastam duas semanas longe para que... ai! Para que... – a garota
parou por instantes. Raciocinava... de repente seu rosto se iluminou – é por isso então!
- Por isso o quê??? – Eduardo arregalou os olhos, perdido!

A garota bateu uma mão contra a outra, como quem diz “eureka”.
- Por isso que nunca quis transar comigo! Você era gay desde o princípio!
- Não Camila, eu não...
- Oras... não me venha com essa! Você estava me usando como fachada! Um namoro de
conveniência para você!
- Não Camila! Não pense isso! Jamais faria...
- Não te ocorreu durante nenhum momento que eu poderia me magoar? Eu também tenho
sentimentos!
- Camila, eu já disse, eu não planejei nada disso. Mas, talvez você esteja com razão. Talvez tenha
sido por isso que nunca demonstrei vontade de transar com você...
- Ahá! Taí, eu sabia! Viu só?
- Mas para falar a verdade, eu também não tinha vontade de transar com ninguém mais! Nem com
mulher, nem com homem.
- Ah, tá! Como se eu fosse um cachorro com problema mental! Você acha que eu vou engolir essa
história?
- Camila, por favor, é a verdade! Você me fez jurar que ia te contar a verdade, você sabe o quanto
eu odeio mentiras e falsidades. Você me conhece muito bem. Eu não tinha idéia. Eu não tinha
mesmo. Nunca parei para pensar nisso... até que conheci Rodrigo. Ele me fez entender várias
coisas que antes não faziam sentido para mim... e agora fazem. Eu precisava disso. Eu estava
precisando me encontrar.
- Eduardo, você está me dizendo então que você virou gay? Que você não era, mas virou?
- Entenda como quiser Camila, você é esperta o suficiente para saber que eu não estou brincando.
Você tem o poder de decidir agora, se quer ser minha amiga ou quer que eu suma da sua vida...
pois tudo o que eu sei é que não posso mais ser seu namorado. Não posso fingir agora ter um
sentimento diferente do que realmente tenho. Eu ia estar mentindo e te enganando, e o pior, me
enganando. Diga-me, como poderíamos ser felizes deste jeito?

Para Camila, a imagem do namorado, sentado aos seus pés, com a face perturbada pelo medo de
simples palavras, a fez o comparar com a imagem de algum mártir. E de tal forma isso a
sensibilizou.
Passou um longo tempo pensando. Sua cabeça era como as águas de um rio, que iam rolando os
seixos, tirando-os do lugar, mas de certa forma os moldando de maneira natural. Por fim, sorriu:
- Meu Eduardo... você está certo.
O rapaz voltou sua cabeça em direção à garota. Ouviu as palavras saírem de seus lábios pintados
com cor de rosa pétala:
- Pensando bem, não poderíamos ser felizes tendo um namoro de mentira, não é verdade? Agora
eu entendo. Tudo faz sentido para mim.
- Faz mesmo?
- Faz sim. Mas não vou negar que estou magoada, que estou triste. Se você tivesse descoberto
antes, mais cedo, como outros rapazes que conheço, como o Fábio, por exemplo...
Eduardo se espantou:
- Fábio? Você sabia que ele era?
- Sabia sim.
- E porque não me contou?
- Bem, a Suzana o viu na boate, sabe como ela é, né? Vive atrás de novidades e essas coisas.
Resolveu um dia ir num lugar gay e lá estava o Fábio beijando um outro rapaz. Logicamente
Suzana me contou, mas achei melhor não tocar no assunto contigo, pois ele era seu melhor amigo
e pensei que de repente, você fosse rejeitá-lo por isso e estragar uma amizade de anos... e eu...
bem, eu achei que não tinha esse direito.
- Entendo... – fez Ed reconhecendo o valor da garota. Mesmo Camila sabendo que Fábio não
aprovava o namoro entre os dois, ela permanecera calada e jamais pensara em abalar essa
amizade.
- É verdade. Não tinha esse direito assim como não tenho direito de te rejeitar agora e estragar a
possibilidade de sermos amigos verdadeiros. Mas ainda lamento que você não tenha se definido
antes de me conhecer, iria me poupar de muita coisa...
- Puxa, desculpa...
- Mas nem dá nada! O que importa é que tivemos tempos muito bons juntos.
- É verdade! Isso eu não posso negar.
- Estou feliz que reconheça.
- E eu estou feliz que você me aceite e me entenda.

A garota riu francamente:


- O que mais posso fazer?

.....
- Eu acho que já me acostumei com isso! – exclamou Antônio, todo pensativo, bebendo o quinto
copo de conhaque.
- Você acha? – o pai de Rodrigo quis saber.
- Sim, claro! – olhou para o resto da bebida no copo, como se refletisse – Não é tão ruim assim...
- Sim, não há nada de ruim, o seu filho é um garoto normal e...
- Filho? Quem tá falando de filho? Eu tô é falando do conhaque!
.....
Eduardo e Camila se abraçaram fortemente, selando um pacto de amizade. A garota beijou
docemente a face lívida de Edú e convidou:
- Vamos voltar para a festa?
- Vamos!
Ao entrarem em casa, de mãos dadas e tudo, Suzana veio logo perguntando:
- Ai... que bonitinhos!!! Quero saber, se acertaram?
- Sim – Camila respondeu prontamente – nós somos ótimos amigos.
- Como assim?
- Significa que somos apenas amigos... o namoro chegou ao fim.

Suzana estava confusa:


- E... vocês estão assim, tranqüilos?
- Claro! Melhor ser amigo do que inimigo, não é mesmo?
- Eu concordo! – respondeu Eduardo com um belo sorriso.
- Agora vamos pegar uma bebida – disse Camila, meneando a cabeça.
- Já está mais do que na hora! Minha garganta tá tão seca quanto o Saara.

Camila puxou o garoto pelo braço e ao passar perto de uma garota que dançava com um primo
distante, comentou:
- Olha só que vestido lindo!
Eduardo olhou para a ex-namorada com um ar de “tá me estranhando?”.

.....

Eduardo saiu da festa com alívio em sua alma. Parecia que agora sim, tinha passado a última
pendência a limpo. Estava livre de verdade.
Quando entrou no táxi, pediu para o motorista andar sem pressa. Queria admirar a paisagem
urbana, reparar a cena noturna que se desenrolava na madrugada curitibana. Estava tão perdido
em pensamentos que nem reparou quando o motorista parou na frente da rua onde morava.
- Pronto! Aqui estamos.
- Hein? – o rapaz despertou de seus devaneios.
- Jovem, você está bem? – perguntou o senhor de cabelos grisalhos, com uma mão no volante e
outra no estofado do banco do carona, demonstrando real interesse em saber o que se passava
por debaixo das feições do garoto.
- Estou bem sim, obrigado.
- Sabe, costumo ser um ótimo ouvinte, acho que eu devia montar o primeiro táxi com consultório
psicológico, pois sempre levei jeito para a coisa...
Eduardo riu e agradeceu:
- Muito obrigado, mas eu não tenho nada não, é só um pouco de cansaço com excitação.
- Hum – ponderou o motorista – que estranha combinação!
- É né? – concordou o rapaz que pagou o taxista e desceu do veículo. Enquanto seguia o rumo de
casa, olhou para a janela da família Toledo, as luzes estavam acesas – puxa... já passa das duas
da manhã... o que será que... ah! Deixa para lá!
Ao passar pelo portão da sua casa, Eduardo parou e contemplou o céu.
Estava nublado.
Mas ele sabia que acima das nuvens as estrelas brilhavam belas como nunca.
Ao entrar em casa, pé por pé para não fazer barulho e acordar os pais, o rapaz subiu as escadas
como um gato que se esgueira elegante porém silenciosamente pela noite. Assim que acendeu a
luz do banheiro, reparou pelo espelho que a porta do quarto dos pais estava entreaberta, coisa
totalmente fora do comum, uma vez que seus pais dormiam com a porta fechada sempre.
Resolveu investigar.
Ao meter a cabeça pela fresta da porta, apurou o ouvido para detectar a respiração dos pais que
supostamente deveriam estar dormindo.
Nada. Silêncio absoluto.
Acendeu a luz do quarto e constatou que ali não havia ninguém.
- Ué... onde será que eles estão? – indagou sussurrante e coçando a cabeça.
Apagou a luz do quarto e desceu as escadas. Procurou no andar de baixo em vão. Saiu para a rua
para verificar se o carro estava na garagem. Estava. Aquilo era estranho... o rapaz já ia voltando
para dentro de casa quando lembrou-se das luzes na casa de Rodrigo. Será que os pais estavam
lá?

Tocou a campainha e logo Sílvia atendeu.


- Oi, desculpa eu tocar a campainha a essa hora, mas... meus pais estão aí?
- Estão sim Ed, entra aí. – disse a mulher, muito sorridente e levemente embriagada por whiskey.
- Com licença. – o garoto entrou na casa e seguiu a mãe de Rodrigo até a sala de estar. Antônio
estava para lá de Bagdá com os conhaques que havia tomado e sorriu quando o filho chegou:
- Ô Eduardo!!! Como tava na festa? Tudo bem?
- Tu-tudo...
- Liga não filho – Sônia interveio – seu pai está meio alto.
- Eu tô vendo...
- Rodrigo tá no quarto dele, não sei se está dormindo, quer ir lá ver? – Sílvia indagou.
- Vou lá sim.
Pediu licença e se retirou. Rumando para o quarto de Rodrigo o rapaz agradeceu pelos pais
estarem encarando tudo numa boa.
Entrou sem bater no quarto de Rodrigo.
O rapaz estava na cama e parecia estar dormindo. Eddie aproximou-se do garoto e sentiu sua
delicada respiração misturar-se com o cheiro da pele perfumada. O quarto estava embebido em
sombras tão escuras quanto azeviche, mas Ed parecia captar a luz interior de Rodrigo que
emanava raios que clareavam o quarto, a casa, a cidade, o mundo. Quem ama enxerga luz no
meio das trevas. Se precisasse tatear como os cegos fazem belamente, não seria por falta de
visão, mas sim para sentir o divinal toque da pele de seu namorado. Seu único amor.
Nem sabia quanto tempo passou sentado na beira da cama a nutrir-se do carinho que sentia. Meia
hora ou uma talvez. Quem saberia ao certo dizer? Ninguém provaria nada a Ed, que alegaria sem
pestanejar que o tempo não existia quando estava com Rodrigo – e se existisse de fato tal coisa
como o tempo, clamaria não se importar com ele, diria ainda que se os ponteiros se locomovessem
lentos ou circulassem tão rápidos que se desintegrassem nessa velocidade, ele ainda estaria no
recanto de paz que escolhera: Rodrigo. E que o tempo tomasse o rumo que bem entendesse –
Eduardo estava feliz.

E ninguém tiraria isso dele.

Delicadamente foi se curvando e beijou os lábios do garoto adormecido. O toque daquela boca
quente contra a dele era tudo o que havia de revitalizante na face da Terra.
- Hein? – fez Rodrigo, despertando confuso.
- Sou eu – disse o garoto, passando a mão pelos cabelos macios do namorado e acariciando a sua
testa com os lábios.
- Edu? – indagou Digo, que instantaneamente sorriu, iluminando ainda mais a escuridão do recinto.
Com voz doce e calma perguntou enquanto pegava na mão de Eddie – O que você faz aqui seu
louco?
- Meus pais estão aqui com os seus.
- Ainda? – o rapaz se espantou.
- É. De se estranhar, não é verdade?
- É mesmo.
- Seus pais não tinham que estar trabalhando a essa hora?
- Deviam sim, mas acho que se não foram antes, é porque vão pegar o turno das quatro da manhã.
- Ah... e eles podem fazer isso?
- Podem, mas eles têm que supervisionar estagiários caso ocorra alguma falha no boletim horário
de outro médico. Tipo um quebra galho amistoso que deixa todo mundo feliz.
- Ah... Entendi! E você? Porque não tá lá com eles?
- Eu estava, mas logo me descartaram da conversa. Seu pai ficou conversando com o meu e a
mesma coisa ocorreu com nossas mães. Daí eu até pensei em dar uma volta para esfriar a
cabeça. Meu garoto, você não sabe a pilha de nervos que eu tava, mas acabei resolvendo mesmo
dormir. Demorei a pregar os olhos. Eu acho que só consegui pegar no sono faz uma hora, por aí.
Estava muito preocupado contigo.
- Comigo? – fez Eduardo estranhando – Porque?
- Porque você estava na casa da sua namorada! Achei que ia armar algum barraco. E não vem que
não tem, que do jeito que você é teimoso era bem capaz de fazer um sururu mesmo.
- Ah é?
- É! Tava com um baita medo que você aprontasse e algo ruim acontecesse com você.
- Pois fique tranqüilo que eu não aprontei nada.
- Sério?
- Verdade. Mas também eu não pude ficar quieto. Eu a levei para um lugar calmo, justamente para
evitar confusão e contei tudo pra ela. Não foi fácil. Disse a ela que eu não podia mais namorá-la
porque havia conhecido outra pessoa.
- Sério? E ela?
- Ela achou ruim, lógico. Ainda mais quando soube que eu a estava deixando por um garoto.
Qualquer um ia pirar. Mas sabe o que é inacreditável? É que no final das contas ela aceitou. Acho
que entendeu tudo. Voltamos para a festa e ficamos como amigos. Todos souberam que a gente
acabou, mas ninguém percebeu nada de ruim no ar e nem desconfiaram o porquê.
- Uau... isso é incrível, você é demais!

Rodrigo foi de encontro ao pescoço de Eduardo e beijou suavemente. Depois beijou a face e
arrastou os lábios para o ouvido do garoto e sussurrou:
- Quer ver uma coisa?...

Eduardo ingenuamente disse:


- Quero.
Então Rodrigo sorriu de canto de boca e foi se descobrindo do sono leve que o envolvia:
- Você sabia que eu durmo pelado?

O jeito simples de amar


23.05.2004
O final feliz.

O sinal para o intervalo acabara de tocar e toda a turma do cursinho levantou-se afoita,
acotovelando-se rumo às escadarias que levavam ao pátio. Fábio esperou Eduardo sair:
- Me conta o que aconteceu! Aquele dia no telefone fiquei super curioso. Queria saber
mais, mas achei melhor esperar um telefonema seu, já que você tava acompanhado e eu não
queria atrapalhar...
- Ah, deixe de besteira. Ele foi embora logo depois. Mas o que aconteceu foi que eu chutei
o balde em casa.
- Oras, mas disso eu já sabia. Muito me faria gosto se você contasse detalhes, seu mané!
Como foi que aconteceu?
- Pensei que Rodrigo já tinha te contado...
- Contou, mas foi só por cima...
- Certo... bem, primeiro a gente tava falando no telefone, eu e o Rodrigo. Eu tinha sentido
uma atração por ele desde o primeiro momento em que o tinha visto e gostava de conversar
com ele, gostava da presença dele, por mais perturbadora que fosse. E então, a cada visita
ou telefonema, íamos ficando cada vez mais íntimos, e nessa conversa surgiu um clima tão
grande, que quando me dei conta a gente tava se beijando!
- Affe! Mas como?
- Sei lá! Ele desligou o telefone na minha cara e veio correndo rua abaixo. Alguma coisa
me fez fazer o mesmo.
- Você fez o mesmo? Parece coisa de cinema! E o beijo?
- No meio da rua! Luz do sol e tudo mais!!!
- Jesus amado... sério?
- Sério, e minha mãe viu tudo!
Fábio estava pasmo:
- Imagino a cara dela!
- É, a coitada empacotou. Sei que depois, lá estava eu, Rodrigo e a mãe dele ajudando a
acordar minha mãe no chão. Jogamos água nela, e a levamos para a cozinha. Ela tremia
tanto que parecia ser feita de Maria Mole. Tive que dar água com açúcar... e ela só
conseguia falar: ai de você quando seu pai souber disso! Ai de você, coitado do seu couro!
- Que engraçado!
- É né? Agora é engraçado, mas na hora eu senti um peso na consciência... tava com a
maior pena dela. Mas também eu não estava arrependido. Se pensar bem, foi até legal!
- Sim, sair do armário pode ser legal...
- Eu sei. Um alívio!
- É, mas pode ser traumático também. Cara, você teve muita sorte que seus pais não tenham
te rejeitado. Acontece bastante e você ia passar a maior barra.
- Você acha mesmo? Acha que meus pais iam me jogar na rua?
- Bem... acontece, né?
- Puxa! Ainda bem que não foi o meu caso, cheguei até a agradecer aos céus por isso... mas,
e você?
- Que tem eu?
- Seu pai... ele sabe de você?
- Sabe, mas finge que não sabe. Eu não contei, mas também não escondo. Eu deixo revistas
espalhadas, cartas, bilhetes que ganho de paqueras... e quando o telefone toca para mim, só
tem macho do outro lado da linha. Bobo meu pai não é, mas acho que prefere não ter
certeza absoluta... mas se um dia ele perguntar, eu falo mesmo.
- Eu acho que ele ia levar numa boa.
- Eu também. Se duvidar ele é do babado também.
- Sério? Você acha?
- Bem, eu não boto minha mão no fogo por ninguém. Até você, que era meu amigo mais
hetero, é da irmandade...
Os dois riram. Eduardo sentiu novamente como era boa a sua amizade com Fábio. Fazia
tempo que queria isso de volta.
- Eu falei para a Camila. Abri mesmo o jogo e acabamos o namoro.
- Bem, no mínimo...
- Mas foi tudo tão legal. No princípio ela estava arredia e eu entendo isso, mas depois se
mostrou tão boa. Nunca pensei que receberia tamanha receptividade da parte dela. Achei
que ela ia me tratar feito lixo, mas era uma coisa que eu precisava fazer. De qualquer modo,
deu certo.
- Deu mesmo. Tô te falando que parece até coisa de filme, que tudo dá certo para o
mocinho da história...
- É, só que no final do meu filme, não tem casamento com a mocinha...
Fábio fez careta e botou a língua para fora:
- Ui! Fora racha!!!
.....
O som da boate fazia os corpos saltitarem felizes. Tudo era mágica no ambiente da
GrooveLandS. Fábio esperava por Rodrigo e Eduardo numa mesa. Olhava para o relógio
com certa impaciência. Onde será que aqueles dois tinham se metido?
Finalmente, depois de quarenta minutos, o casal apareceu:
- Oi, tá faz tempo aí?
- Pior! Tomei um chá de cadeira que não tem tamanho!
- Puxa, desculpa, é que a gente tava na fila da chapelaria.
- Porque não guardaram as coisas no carro?
- É que a gente veio de táxi hoje.
- Ah, ok. Agora já foi mesmo, né?
- Puxa, desculpa – Ed tentou acalmar o amigo.
- Nem dá nada! Vamos curtir!
Os três rapazes rumaram para a pista de dança.
A música estava espetacular e todos dançavam alucinadamente, uns de cara limpa e outros
com ajuda de entorpecentes. Mas no final das contas, o objetivo era o mesmo em todos:
curtir ao máximo a balada.
- Olha o Henrique ali! – Eduardo exclamou e apontou para o garoto.
- É, ele vive por aqui – comentou Fábio.
- E ele nunca veio falar nada contigo na sala de aula?
- Não. Fica cada um na sua.
- Puxa... deixa eu ir falar com ele.
Eddie rumou para o garoto e tocou-lhe as costas:
- Henrique?
O rapaz de grandes olhos pretos se virou e Eddie cumprimentou:
- Tudo beleza?
- Eduardo? – o rapaz estava surpreso, mas abriu um sorriso franco e indagou – Tudo bem?
- Tudo!
- Que você tá fazendo aqui?
- Eu vim com eles – e apontou para Fábio e Rodrigo.
Nisso o garoto arregalou os olhos:
- Você também é?...
- Sou sim!
- É por isso então que tava sendo legal comigo, né?
- Eu não sei. Aliás, não é que eu não soubesse, talvez seja por isso mesmo, no fundo... é que
na época eu nem sabia ao mesmo o que queria...
- Mas como assim na época? Nem faz tanto tempo assim! Semanas apenas.
- É, mas eu não tinha me definido ainda.
- Mas agora você se definiu?
- Sim.
- E tá tudo bem?
- Tá.
- Então isso é o que vale!
.....
Sentado no meio fio, bem em frente ao portão de casa, Eduardo esperava Rodrigo sair da
casa do começo da rua. Assim que avistou o namorado vindo em sua direção, começou a
cantarolar:
Se essa rua, se essa rua fosse minha...
Eu mandava, eu mandava ladrilhar...
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes...
Só pro meu, só pro meu amor passar...
Rodrigo vinha caminhando com seu sorriso perfeito estampado no rosto. A canção que Ed
entoava chegava-lhe muito gostosa ao ouvido, trazida pela delicada brisa.
Nessa rua, nessa rua tem um bosque...
Que se chama, que se chama solidão...
Dentro dele, dentro dele mora um anjo...
Que roubou, que roubou meu coração...
Eduardo observava Rodrigo, que já estava sentando ao seu lado. Foi a vez de Rodrigo
cantar:
Se eu roubei, se eu roubei seu coração...
Tu robastes, tu robastes o meu também...
Se eu roubei, se eu roubei seu coração...
É porque, é porque te quero bem...
Assim que terminou de cantar, deu um beijo tão forte em Ed que esse chegou a se inclinar
para o lado.
Sorriram.
- Mas só ganho esse beijinho mixuruca?
Ao que Digo responde surpreso:
- Mas tá ficando é muito saidinho esse meu namorado, não acha?
- Com essa boca linda e esse sorriso perfeito, só posso ter essa vontade, não acha?
- Mas assim? No meio da rua?
- Eu não devo nada para ninguém! E por mim eu ficava te beijando para sempre.
- Ah é?
- É sim.
- Então vamos começar desde agora.
.....
Clara chegou ao lado de Carlos no cursinho e disse:
- Aí estão as “provas” que você pediu. As fotos do Henrique na boate.
- Isso é excelente!
- E acho que você vai achar mais excelentes ainda essas aqui... – disse a garota balançando
um maço de fotografias no ar.
- Que tem de especial nestas?
- Veja você mesmo!
De princípio o semblante de Carlos ficou sombrio, e aos poucos foi ganhando o tom
vermelho do inferno.
- Oras, oras! Agora sei porque Eduardo defendia tanto aquela bichinha!
- Não é o máximo?
- É sim Clara! Muito obrigado. Agora sim eu vou acabar com a raça desse Eduardo!
Assim que a aula começou e todos estavam em seus devidos lugares, Carlos cutucou o
colega do lado e disse:
- Olhe bem estas fotos e passe para o lado.
Rumores se faziam ouvir enquanto as fotos iam passando de mão em mão.
Dentro de pouco tempo, já havia uma multidão que olhava para Eduardo. Alguns
balançavam a cabeça reprovando, outros davam um risinho cínico. Poucos olhavam apenas,
sem reação alguma.
Ed não estava entendendo nada e ainda indagou para si mesmo em sussurro:
- O que está acontecendo? Será que eu tô cagado?
Não demorou muito tempo, uma foto veio parae em suas mãos.
E lá estavam ele e Rodrigo, abraçados, um de face para o outro, quase se beijando na pista
de dança da Groovelands.
Eddie ficou branco feito fantasma.
Ouviu o bombar de seu coração tão alto que podia até ficar surdo.
Enquanto todos ao redor começavam a falar cada vez mais alto e comentar, uma das
fotografias veio para Fábio. Ao constatar que a coisa podia ficar feia para Eduardo, lançou
mão do celular e ligou para Rodrigo:
- Cara, vem para cá pro cursinho agora!
- Fábio? Mas o que aconteceu? Eu não posso ir agora, eu estou...
- Meu, não me interessa o que você tá fazendo! O Eduardo vai precisar de você aqui. Já tá
todo mundo sabendo. Alguém tirou fotos de vocês e espalhou pela turma.
- E cadê o meu Eddie?
Fábio olhou para o amigo, que estava muito branco e com a respiração acelerada.
- Rodrigo, vem para cá AGORA!
Desligou o celular e levantou da carteira:
- De quem são essas fotos?
- Do Eduardo, oras! – respondeu Carlos, três fileiras adiante.
- Seu merda! Quem tirou essas fotos?
Nesse instante o professor interveio:
- O que está acontecendo? Que fotos são essas?
A sala inteira ficou em silêncio.
O professor pediu:
- Passem essas fotos para cá. Todas.
Os alunos obedeceram.
Assim que conferiu de que se tratava, olhou para Eduardo e comentou:
- Filho, acho que você não devia ter trazido fotos suas e do seu namorado para a sala de
aula. O amor de vocês pode ser lindo, mas guarde isso para você ou pelo menos espere a
hora do intervalo para compartilhar sua felicidade com os colegas. Após o sinal, venha
pegar essas fotos comigo. Antes disso, concentre-se nos seus estudos.
E a aula teve curso “normal”. Pelo menos aparentemente, porque a mais intrincada trama de
bilhetes fluiu pelas carteiras. Todo mundo comentava, todo mundo opinava.
Eduardo não parava de receber bilhetes contendo “veado” “bicha louca” “boiola” e até um
“você é um gatinho”, provavelmente de um gay enrustido. Ficou totalmente aturdido e já
não atinava com nada.
Não ouvia o que o professor falava, não distinguia o que via, não reconhecia faces, não
respirava mais.
Os colegas que o cercavam perceberam que ele não estava nada bem e resolveram ajudar.
Quando os bilhetes chegavam neles, simplesmente não os passavam para Edú. Rasgavam,
amassavam e guardavam em suas malas.
De algum modo, essa atitude deu um pouco de ânimo à Eduardo, que se sentiu protegido
pela barreira humana, e mais que isso, pela demonstração de humanidade.
- Ninguém tem nada com isso – lhe disse a colega do lado direito.
- É, ninguém tem nada a ver com isso – disse o garoto da carteira esquerda, dando um
tapinha amistoso no ombro de Edú, que não pode deixar de notar a nódoa de suor debaixo
do braço do rapaz. Ele estava tão nervoso quanto Eddie. Talvez tomar parte dessa luta não
fosse fácil para ninguém. Ao parar de passar bilhetes, o garoto tinha tomado seu partido e
perante o resto da classe era “pró-boiolas”.
.....
Rodrigo dirigia a toda velocidade, passando velozmente por radares e o escambau. A única
coisa que lhe importava no momento era ter Eduardo a salvo em seus braços.
Cruzava o coração com o indicador e beijava a ponta do dedo cada vez que fazia isso,
desejando que nada de ruim acontecesse.
Chegou feito louco na portaria do cursinho e pediu para entrar:
- Você é aluno?
- Não.
- É parente de aluno?
Digo parou para pensar. Não ganharia nada dizendo a verdade.
- Sou irmão de Eduardo Braschi.
- Mostre sua identidade.
- Ok – meteu a mão no bolso, tirou a carteira e já ia abrindo quando o cara falou que não
precisava mostrar nada.
- Ok.
- Entre e vá para a diretoria, diga à secretária mandar alguém buscar seu irmão.
- Muito obrigado.
E Rodrigo seguiu para a diretoria. Pediu por Eduardo.
- Faltam apenas quinze minutos para acabar a aula – disse a loirinha simpática – Eu posso
mandar alguém avisá-lo que você está aqui, mas ele só vai poder sair depois que der o sinal.
- Não tem mesmo como falar com ele antes? É muito urgente.
- Eu gostaria muito de ajudá-lo, mas tenho que seguir essas normas.
- Eu entendo.
Rodrigo só disse que entendia porque faltavam apenas quinze minutos. Se tivesse que
esperar mais do que isso já teria derrubado a porta da sala de aula e arrancado o namorado
de lá em seus braços.
.....
Quando o sinal tocou, o professor disse:
- Você rapaz, venha pegar suas fotos e vá para fora. O resto da turma, aguarde um
pouquinho mais.
Eduardo levantou e caminhou para o enorme tablado. Sentia o olhar de todos como dedos
de ferro em brasa sobre sua pele. Mas foi com a cabeça erguida. Preferiu fazer isso do que
se deixar montar por todo aquele sentimento besta de superioridade que lhe dirigiam. A
vida de Henrique era triste. Não queria a mesma coisa para ele.
Subiu no tablado e o professor lhe entregou as fotos, e até o envelope com os negativos,
que alguém havia passado também, o que deixou Clara e Carlos totalmente furiosos.
- Pronto, agora, pode ir para seu intervalo.
Eduardo cruzou a enorme sala de aula, ainda sob os olhares da galera. Ele ainda pôde ouvir
uma voz chorosa reclamar:
- Droga! Ele é tão gato...
Tão logo Dú saiu da sala, o professor começou:
- O que vocês acham que estavam fazendo?
Silêncio.
- Eu sei muito bem que ele não trouxe aquelas fotos. E também sei que ele não gostou nada
do que aconteceu aqui. Vocês deviam ter muita vergonha do que fizeram, seja lá quem foi
que fez essa maldade. Só quero dizer que orientação sexual é algo particular. O que cada
um faz ou deixa de fazer é problema pessoal. Aquele garoto, mesmo sendo “doente”, como
todos vocês acham que é, jamais faria isso com nenhum de vocês, sabem porque? Porque
ele é gente! Ele é humano. Não é igual ao monstro que tirou essas fotos.
Silêncio total.
- Só um monstro faria isso. Uma pessoa sem valor. E com muita, muita inveja daquele
garoto. Porque quem está contente e seguro, não vai se incomodar com a vida dos outros, a
não ser que esse outro esteja ocupando um lugar que de repente... a gente queria estar.
Então, para quem armou isso, tente se resolver antes de machucar um rapaz que não tem
nada a ver com sua mente pequena e com sua vidinha medíocre.
Algumas pessoas concordaram.
Henrique sorria.
Fábio levantou e aplaudiu.
- Obrigado – disse o professor – Agora, vão para o intervalo, e ai de quem eu souber que
andou fazendo qualquer coisa com aquele garoto! Mas ai!
.....
Eduardo saiu da sala e rumou para o banheiro. Sua pele que já era branca por natureza,
ainda estava mais pálida do que de costume. Lavou o rosto, enxugou lentamente. O pátio já
estava cheio de gente e só agora o povo da sala dele começava a sair da sala de aula. Não
demoraria muito, estaria rodeado por sabe-se lá que tipo de pessoa. Sentou-se debaixo do
grande cedro na área da cantina. O vento fresco e a sombra estavam lhe fazendo bem. Seu
pulso já se normalizava.
- Eddie!
- Rodrigo?? Que faz aqui?
- Fábio me ligou, vocês estavam em plena aula.
- Mas...
- Ele me contou o que houve.
- Foi uma droga! Horrível. Todos aqueles olhares. Tanta coisa horrível.
- É normal. Eles não entendem. Eles não sabem que a felicidade vem em medidas e formas
diferentes para cada pessoa.
- Mas isso não é felicidade...
Rodrigo mudou a expressão do rosto:
- Nunca mais diga isso de novo. Eu te amo tanto que só pensar que você existe me deixa
muito feliz. Muito!
Eduardo olhou para o namorado. Como era lindo. E sempre tão verdadeiro.
Pôde sentir o carinho que a respiração dele transmitia.
- Eu queria te abraçar – Eduardo disse finalmente.
- É, eu sei. Mas olha para toda essa gente...
Fábio, que estivera à procura de Eduardo, já chegou falando:
- Rodrigo! Que bom que você já tá aqui! – sorriu e fofocou – o professor soltou o verbo na
galera. Mas pisou mesmo! Como todo mundo sabia que o Carlos que passou as fotos,
enquanto o professor repreendia, ele se encolhia cada vez mais e ia ficando vermelho, roxo,
preto de vergonha. Disse que no fundo quem tinha vontade de agarrar um homem era bem
quem fez essa maldade.
- Mas eu achei que ele pensasse que as fotos eram minhas.
- Claro que não né? Ele só fez isso para te ajudar.
- Pô, esse cara é super gente boa hein?
- Verdade. Segurou a barra legal...
Fábio foi interrompido por uma voz furiosa:
- Mas aí está a bichinha! – era Carlos, de punhos cerrados.
- E aí está o otário – disse Fábio.
- Não se mete cara! Não se mete! – já disse empurrando.
- Quem é esse mané? – Rodrigo perguntou.
- O sujeito das fotos – Fábio informou.
- Ah é??? – disse Rodrigo sorrindo e estalando a junta dos dedos.
- E você? Quem... ah! – fez Carlos, reconhecendo-o pelas fotos – Você é o namoradinho
né? Outra bichinha que eu vou ter o prazer de...
- Vai ter o prazer de que? – indagou Eduardo, levantando-se furioso e peitando Carlos.
- É, ô mané, vai ter prazer de que? – disse Rodrigo, levantando-se também, ficando ao lado
de Ed.
Como os dois eram bem maiores que Carlos, ele se esquivou:
- Olha, isso não vai ficar assim...
No mesmo instante, Jorge e Marcos, os amigos de Carlos, se aproximaram do local. Vendo
que reforços chegavam, o garoto já cantou de galo:
- Você tá muito ferrado na hora da saída!
Eddie olhou para os outros dois rapazes que adentraram a rodinha, ao que Marcos
continuou:
- Agora são três, contra dois!
- Três contra três – disse Fábio.
- Não – corrigiu Marcos – são cinco contra um.
Eduardo olhou com espanto o skatista com cara de mongo, aquele mesmo, que vivia
pedindo as resoluções dos exercícios. Este tinha um sorriso franco e estendia a mão para
Eduardo:
- Pôrra cara! Foi muita sacanagem isso!
Rodrigo sorriu.
- Você é super gente boa – completou o rapaz.
- É sim – fez Jorge – sempre ajudou a gente. Estávamos sentindo a falta da sua companhia
na turma.
- Agora a gente sabe porque você se afastou. Tinha medo que a gente descobrisse né?
- Ainda mais com todas aquelas piadinha que a gente fazia sobre veado e essas coisas.
- Ué Jorge, pensei que gente assim fazia você querer vomitar – disse Fábio.
- Ah não! Era só para eu não perder a pose diante da turma. Coisa ridícula. Mas sabe qual
é? A gente perdeu um grande amigo por causa do preconceito.
- Eu não acredito no que estou ouvindo – bradou Carlos – será que todo mundo é viado?
- Não Carlos, nem todo mundo é veado, assim como nem todo mundo é otário que nem
você! – disse Marcos – E quer saber de mais uma coisa? Some daqui cara! Some! Você foi
muito cuzão!
- É! Te manca cara! – disse Fábio, que já não ia com a cara de Carlos fazia muito tempo.
Henrique chegou na roda, ao que Carlos comentou:
- Pronto! Mais um! Agora são três frutinhas!
- Não são três, são quatro – Fábio consertou.
- Quatro? – Jorge indagou.
- Claro – disse Henrique – O Fábio também é gay.
- Mas era só o que me faltava – Carlos comentou com nojo.
- Não, só o que lhe faltava era um cérebro, sua múmia paralítica! – disse Rodrigo – E tem
mais: a gente já não mandou você cascar os “buios” daqui?
- Se não gosta de mim, nem do Fábio, nem do Henrique, e se a partir de agora não gostar
mais do Jorge e nem do Marcos... não precisa nem falar conosco – deu uma pausa e falou
carregado de veneno – a gente não faz questão!
Os olhos do rapaz furioso latejavam visivelmente. Ele estava sozinho naquela guerra. E era
inútil tentar. Saiu de lá pisando firme e resmungando coisas que ninguém entendeu.
.....
- O que você acha disso? – perguntou dona Sônia ao pai de Eduardo.
- Eduardo mereceu isso! – respondeu o homem.
- É verdade – a mulher anuiu.
- E eu digo que nosso filho é de ouro.
Os dois se abraçaram, contemplando um dos vários outdoors que estampavam Eddie como
primeiro lugar geral do vestibular.
.....
- Como grávida??? – Eduardo se espantou.
- Grávida! Oras!
- Camila! Isso é muito estranho!
- Eu sei, mas Eduardo... depois da seca que você me deu... quando eu arranjei um
namorado, não quis nem saber, eu mandei ver mesmo!
Eduardo riu, mas logo ficou sério:
- Você gosta dele?
- Claro que sim!
- Vão se casar?
- Não, eu sou muito nova. E ademais... casamento não é para mim. Não pelo menos a essa
altura da minha vida. Nem terminei o segundo grau!
- Pois é, e ainda mais com um filho Camila... as coisas não vão ser fáceis.
- Disso eu sei, mas eu tenho o apoio da minha família. Meus pais, que eu pensei que iam
me matar, nem fizeram tanta onda assim. Lógico que teve todo aquele aporrinhamento, mas
normal! – e ela riu.
- Mas embora eu ache loucura, ainda estou fascinado com a idéia de ser titio.
- Não!
- Não?
- Quero que seja padrinho. Quando batizar a criança, quero você lá como padrinho dela.
- Ah Camila! Pode deixar! Eu topo mesmo! Um dia eu vou ter meus filhos!
- Como?
- Sei lá! Partenogênese!
- Partenoquê?
Ele riu largamente até que a garota comentou:
- Não é à toa que passou no vestibular!
.....
- Sabe, um dia eu vou querer ser que nem você – disse Eduardo com a cabeça no colo de
Rodrigo, enquanto esse acariciava seus cabelos.
- Sai fora! Dois de mim não!
- Seu bobo! Eu estou falando do seu jeito de ser. Você conquista todo mundo...
- Eduardo, não me interessa conquistar todo mundo. Eu já conquistei você.
- Puxa, como a gente tá ficando cafona!
- Posso ser cafona, mas se eu estiver contigo... sinto-me o cara mais feliz do planeta.
- Ah é? Então bota a mão na minha cueca que eu tenho uma coisinha para você...
Ao que Rodrigo respondeu:
- Coisinha? Isso é uma coisona!
E foi colocando a mão por dentro da calça de Eddie, até que tirou uma caixinha da cueca do
outro. Abriu e viu a aliança.
- Você quer ser meu noivo?
- Noivo? – os olhos de Rodrigo tinha lágrimas muito brilhantes.
- Eu quero me casar com você...
E o sorriso de Diguinho iluminou o universo.
.....
- Casar Eduardo?
- É mãe. Mas isso só daqui a algum tempo. E fala baixo, que o pai ta na sala do lado e pode
escutar. Não quero que ele pense nisso agora.
- Claro! Seu pai vai ficar desconcertado. Até agora ele aceitou bem, mas acho que se souber
que o filho dele quer casar com um outro homem...
- Eu sei mãe, é difícil para vocês aceitarem, mas tenho que seguir minha natureza. Tenho
que seguir meu coração.
- Mas... como é que dois homens se casam? Como fazer convites para a igreja?
- Ah não mãe! Não digo de casamento em igreja e essas coisas mãe. Só morar junto.
- Ah bom. Isso me alivia. Não consegui imaginar nenhum de vocês usando um vestido de
noiva... aliás... meu filho... uma coisa que me encuca muito... qual de vocês dois é a... – e a
mulher parou por não saber como indagar.
- O que?
- Você sabe, é a mulher...
- Ela quer saber quem come quem! – gritou Antônio, lá de dentro.
.....
Num quarto escuro e abafado de um motel de quinta categoria, uma drag queen de
maquiagem borrada e roupa barata estava de quatro levando ferro por trás. O “bofe” a
penetrava com força e xingava com gosto, puxando a peruca, que saiu da cabeça da drag.
Era Carlos.
.....
- Digam “x”! – Fábio pediu, enquanto apertava o controle remoto da máquina digital –
temos que sair bem na foto. Afinal festa assim é ocasião especial!
- É! Essa vai ficar para a história! – Camila comentou.
Dizendo isso, todos se abraçaram fazendo pose e o flash disparou sobre Eduardo, Rodrigo,
Fábio, Camila e o bebê em seu colo.
Cada um ficou com uma cópia desta fotografia para si.
A de Eduardo está no porta-retrato em que Rodrigo lhe dera o seu número de telefone
escrito no vidro, quando Eddie ainda estava naquele mundo incerto.
Tanta coisa mudara desde então.
Conquistara um amor único e verdadeiro.
Os pais de Edú e Rodrigo estavam orgulhosos de verem os filhos tão felizes juntos, de
estarem se virando sozinhos, de terem construído um bom começo de vida.
Fábio passara a gostar de Camila e eram praticamente melhores amigos. Chegava até querer
ser o pai “postiço” do bebezinho.
Marcos e Jorge foram se chegando cada vez mais nessa turma e agora eram dois incríveis
“heteros sem preconceito”.
Os pais de Rodrigo finalizariam a construção da clínica dentro de dois anos, e já esperavam
Eduardo para integrar-se à equipe médica tão logo fizesse sua especialização.
Rodrigo e Eduardo sabiam que a felicidade não era algo constante. Ela ia e vinha como
sempre na vida. Para todos. Mas saberiam ser fortes para lutar pelo que sentiam e para fazer
de todos os momentos felizes, os mais inesquecíveis de suas vidas, como o dia em que
Fábio tirou a foto da galera.
Seriam momentos como esse, registrados belamente na memória assim como na foto, que
dariam a força de continuar a acreditar que tudo o que se precisa para ser feliz é aceitar que
se pode ser feliz.
A fotografia tirada no dia do casamento dos rapazes, com os amigos reunidos, decorava a
estante da sala do apartamento em que moravam Eduardo e Rodrigo.
Fim...

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