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"Pergunte a um Expert" - Revista Clínica de Ortodontia Dental

Press
volume 10, número 1, Fevereiro/marco de 2011- pg.08

Há pouco tempo, a senhora publicou um novo livro sobre Ortodontia


Lingual. Quais são as razões desta importante mudança em sua prática
diária?

Todos sabemos que os pacientes adultos e os jovens buscam cada vez mais
melhorar sua estética facial, e um lindo sorriso é parte dessa mudança. Essa
problemática está intimamente ligada ao uso de aparatologia quase
invisível. No início, era solicitada apenas por políticos ou pessoas ligadas ao
ambiente artístico, mas hoje são os adolescentes e adultos jovens os que mais
se interessam por ela. Com 10 anos de experiência nessa técnica, pode-se
afirmar que é possível alcançar os mesmos resultados de quando se utiliza
braquetes aderidos às faces vesibulares dos elementos dentários, sendo
possível tratar todo tipo de má oclusão e em qualquer idade. Por todas essas
razões, podemos dizer que, na atualidade, é uma técnica acessível que pode
ser realizada por qualquer ortodontista que possua claros conceitos de
diagnóstico e biomecânica.

É necessário adquirir algum instrumental especial?

Não é necessário, podendo-se utilizar o mesmo instrumental que é usado na


técnica vestibular.
Mas um alicate de corte distal com cabo mais longo e angulado igual a um
alicate tipo Weinghart modificado por mim é de grande utilidade. O tipo de
primer e compósito é similar ao de outras técnicas dependendo do operador,
apesar de os polimerizáveis serem mais recomendados, pois o tempo de
trabalho e determinado pelo ortodontista dependendo do tipo da técnica
utilizada.
Qual é o método mais aconselhável para a colagem dos braquetes?

Não há dúvida de que o método de eleição é a técnica indireta. Há várias


alternativas para a sua execução, seja realizando um set-up prévio ou não. No
livro são descritas passo a passo as duas técnicas mais utilizadas em minha
prática diária. A técnica descrita pelo Dr. Hiro foi adaptada para que possa ser
realizada no consultório pelo profissional ou seu assistente. Entretanto, é
aconselhável que os primeiros casos sejam realizados pelo próprio
ortodontista, para melhor compreensão da técnica e, assim, poder indicar ao
laboratório com mais precisão os detalhes individualizados para cada
paciente. Só é possível realizar a colagem na forma direta em alguns pré-
molares e incisivos inferiores. É necessário ter ciência de que quanto mais
eficiente e cuidadosa for a posição dos braquetes, menor será a quantidade de
dobras necessárias nos arcos para alcançar os objetivos previstos.

É necessário adquirir alguma aparatologia de alto custo para poder


realizar a técnica indireta?

Não é necessário adquirir nenhuma aparatologia cara para realizar o trabalho


de laboratório para a colagem dos braquetes com a técnica indireta. Utilizam-se
os mesmos materiais de quando se realiza um set-up para a montagem de
uma prótese e o mesmo laboratório pode realizar essa primeira etapa. Tal
vantagem faz com que seja uma alternativa válida para ser realizada em todas
as clínicas de Ortodontia que estejam interessadas no assunto.

É possível tratar todo tipo de más oclusões?

Sim, é possível tratar todo tipo de más oclusões e em qualquer idade, não
importando a quantidade de periodonto de inserção apresentada pelo paciente.
O importante, assim como quando se utilizam braquetes colados às faces
vestibulares dos elementos dentários, é a ausência de inflamação ou infecção.
Em todos os pacientes, uma cuidadosa monitoração periodontal é
indispensável para evitar a perda de inserção ao final do tratamento. É possível
tratar dentes retidos (caninos, incisivos ou pré-molares ), casos em que é
necessária a extração de um incisivo inferior ou que o paciente deva completar
seu tratamento com um procedimento com cirurgia ortognática. Como conselho
para os que estão iniciando, é conveniente que os primeiros pacientes
apresentem sobremordida, já que o plano de altura dos braquetes anteriores
facilita sua correção.
Há uma idade mínima para tratar pacientes com braquetes colados às
faces linguais dos dentes?

Não há idade mínima. No livro, a Dra. Gabriela Davicino escreveu um capítulo


especial no qual mostra tratamentos de mordida profunda em pacientes de 9-
10 anos de idade. Pode-se dizer que seria o tratamento de eleição para este
tipo de má oclusão. Da mesma maneira, é possível tratar outras más oclusões
que se apresentem na criança ou no adolescente.

É possível conquistar resultados iguais aos obtidos com a técnica


vestibular?

Os resultados conquistados são iguais aos da técnica vestibular. Quando se


analisam as fotografias pré e pós-tratamento de um caso clínico, é difícil
determinar o tipo e a face em que foram colados os braquetes. O importante é
o diagnóstico e o saber respeitar um protocolo de tratamento individualizado
para cada paciente.

Existe um cefalograma específico para o tratamento de pacientes com


braquetes linguais?

Nenhum cefalograma determina o plano de tratamento e nenhum plano de


tratamento muda devido à posição dos braquetes, portanto cada profissional
pode utilizar os cefalogramas que utiliza normalmente em sua prática clínica.

Qual seria o desenho do braquete lingual ideal?

Lamentavelmente não existe um braquete ideal para todos os pacientes. Em


casos de sobremordida, o braquete ideal é o que apresenta plano de altura (G7
do Dr. Craven Kurz). Nos casos em que as arcadas dentárias são apenas
alinhadas e niveladas, os braquetes STB desenhados pelos Drs. Scuzzo e
Takemoto são os mais indicados, tanto pelo seu tamanho mesiodistal como
pela sua espessura, já que aumentou-se quase 50% a distância interbraquetes
quando comparados com os do Dr. Craven Kurz. O ideal é o braquete que
apresenta a largura mesiodistal o suficientemente estreita para que a porção
interbraquetes permita realizar as compensações necessárias, mas que não
seja tão reduzida que impeça a correção das rotações.
Que tipo de contenção é aconselhável?

O protocolo de contenção não varia em função da posição espacial dos


braquetes. De maneira similar ao tratamento com braquetes colados às faces
vestibulares dos dentes, o tipo de contenção deve estar relacionado a: má
oclusão inicial, quantidade de periodonto de inserção, quantidade e direção de
crescimento remanescente, etc. É importante que, quando se decidir pela
utilização da contenção fixa, essa seja colocada no mesmo momento em que
se retiram os braquetes, para evitar movimentos indesejados nos primeiros
dias após a remoção do aparelho. Portanto, os tecidos gengivais devem estar
totalmente normalizados antes da retirada dos braquetes, pois a inflamação e o
edema presentes impedem a correta colocação da retenção fixa.

Existe algum protocolo sugerido para o tratamento com braquetes


linguais?

O protocolo deve estar em concordância com a má oclusão apresentada pelo


paciente, tipo de periodonto de inserção, objetivos do tratamento, etc. Como
todos os protocolos de tratamento, o mesmo se divide em três grandes etapas:
Primeira Fase de alinhamento e nivelamento das arcadas dentárias; Segunda
Fase de correção dos problemas verticais, transversais e anteroposteriores; e
Terceira Fase onde se realizam todas as ativações necessárias para alcançar
os objetivos previstos tanto para a oclusão estática como para a
funcional. Quando o tratamento for realizado por meio de extrações,
recomenda-se completar a etapa de alinhamento e nivelamento antes de iniciar
o fechamento dos espaços, de maneira similar à utilizada com os braquetes
vestibulares. Um cuidadoso controle de torque dos dentes anteriores é
aconselhável.
O tipo de ancoragem dependerá do problema oclusal e esquelético
apresentado pelo paciente, dos objetivos de tratamento a serem realizados e
da mecânica utilizada. Os espaços das extrações podem ser fechados tanto
por mecânica de deslizamento como por meio de molas. A escolha dependerá
do ortodontista e da má oclusão inicial exibida pelo paciente.

Quais são os alinhamentos mais usados na técnica lingual?

Os alinhamentos utilizados são semelhantes àqueles empregados quando se


utilizam braquetes colados às faces vestibulares dos dentes. A indústria nos
fornece arcos pré-formados padrão, para os maxilares superior e inferior, de
aço inoxidável e de TMA (redondos, quadrados e retangulares). Os arcos de
níquel-titânio e de níque-titânio com cobre apresentam-se pré-formados com o
dobramento distal incluído para os maxilares superior e inferior em três
medidas para cada um (pequeno, médio e grande). Caso seja necessário,
deve-se adaptar um arco labial na forma e tamanho que o paciente necessite.

O que aconselharia aos colegas que desejam iniciar-se na técnica?

O melhor conselho é que realizem um curso com prática clínica. Os cursos


teóricos de fim de semana só informam e não são suficientes para poder
enfrentar todos os problemas que se apresentam no consultório. Observamos
que, se não for realizado um curso com atendimento a pacientes, a maioria dos
colegas se desanima diante das primeiras dificuldades. A Ortodontia Lingual
veio para ficar e cada vez mais é solicitada pelos pacientes, portanto devemos
estar preparados para poder fornecer essa solução em todos os casos
clínicos. Não é uma técnica que possa ser realizada por uns poucos
“iluminados”, todos os ortodontistas podem aprender a utilizá-la, já que não
requer nenhuma aparatologia de alto custo e nem especial. Segue um
protocolo específico e é acessível a todos os ortodontistas interessados nela.

Fonte: Revista Clínica de Ortodontia Dental Press