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Curso de Psicologia Geral

Volume1
Sumário
I — A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA. O OBJETO E A
IMPORTÂNCIA PRÁTICA 1
A história da Psicologia como ciência 2
A Psicologia e outras ciências 7
Partes principais da Psicologia 11
Os métodos em Psicologia 17
A importância prática da Psicologia 23
II — A EVOLUÇÃO DO PSIQUISMO 29
A origem do psiquismo 29
Variabilidade do comportamento dos protozoários 32
Mecanismos do comportamento dos protozoários 34
Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples 36
O sistema nervoso ganglionar e o surgimento dos programas de comportamento mais simples 38
Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento ("instintivo") 42
O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados 50
Mecanismos do comportamento individualmente variável 56
O comportamento "intelectual" dos animais 62
Fronteiras do comportamento individualmente variável dos animais 68
ATIVIDADE CONSCIENTE DO HOMEM E SUAS RAÍZES HISTÓRIGO-SOCIAIS 71
Princípios gerais 71
O trabalho e a formação da atividade consciente 95
A linguagem e a consciência do homem 77
A importância da linguagem para a formação dos
processos psíquicos 81
O CÉREBRO E OS PROCESSOS PSÍQUICOS 85
O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro 85
Princípios da organização funcional do cérebro humano 93
Os três "blocos" principais do cérebro 94
O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro 95
Bloco do recebimento, elaboração e conservação da informação 100
O bloco da programação, regulação e controle de atividade 107
O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes hemisférios 113
I
A Psicologia Como Ciência.
O Objeto e a Importância
Prática
O HOMEM VIVE e atua em um meio social. Sente necessidades e procura satisfazê-las, recebe informação
do meio circundante e por ele se orienta, forma imagens conscientes da realidade, cria planos e programas
de ação, compara os resultados de sua atividade com as intenções iniciais, experimenta estados
emocionais e corrige os erros cometidos.
Tudo isto representa a atividade do homem no plano psicológico, que constitui o objeto de uma ciência: a
Psicologia. Esta ciência se propõe a tarefa de estabelecer as leis básicas da atividade psicológica, estudar
as vias de sua evolução, descobrir os mecanismos que lhe servem de base e descrever as mudanças que
ocorrem nessa atividade nos estados patológicos. Só uma ciência capaz de estudar as leis da atividade
psicológica com uma precisão possível pode assegurar o conhecimento dessa atividade e sua direção em
bases científicas. É justamente por isso que a Psicologia científica se torna uma das disciplinas mais
importantes, cujo significado crescerá cada vez mais com odesenvolvimento da sociedade e o contínuo
aperfeiçoamento dos seus métodos.
A história da Psicologia como ciência
É muito breve a história da Psicologia como ciência. No entanto remontam a um passado muito distante
as primeiras tentativas de descrever a vida psíquica do homem e explicar as causas dos seus atos. Na
Antigüidade, por exemplo, os médicos já entendiam que para identificar as doenças era necessário saber
descrever a consciência do homem e descobrir as causas dos seus atos.
Esse enfoque materialista do comportamento do homem foi, séculos a fio, combatido pela filosofia
idealista e a Igreja, que viam na consciência do homem uma manifestação da sua vida espiritual,
considerando que esta não obedecia às mesmas leis a que se subordinava toda a natureza material e por
isto sua análise não podia ser feita a partir da explicação causai dos fenômenos.
Por esses motivos o mundo psicológico do homem e sua consciência foram vistos durante séculos como
fenômenos de tipo especial, isolados de todos os outros processos naturais. Os filósofos assumiam
diferentes posições em relação à consciência, considerando-a manifestação da razão divina ou resultado
de sensações subjetivas, onde eles viam os "elementos" mais simples que serviam de base à consciência.
Mas todos os filósofos idealistas estavam imbuídos da convicção de que a vida psíquica devia ser
entendida como manifestação de um mundo subjetivo especial, que podia ser revelado somente na auto-
observação, sendo inacessível à análise científica objetiva ou à explicação científica.
Séculos a fio esse enfoque dos processos psíquicos deteve a evolução da psicologia científica s e mesmo
depois de os processos do mundo exterior se haverem tornado objeto de estudo científico preciso os
fenômenos da vida psíquica do. homem continuaram sendo vistos como manifestação de um mundo
espiritual específico, acessível apenas à descrição subjetiva.
A divisão de todos os fenômenos em duas grandes categorias — a categoria dos fenômenos físicos,
acessíveis à explicação causai, e a dos fenômenos psíquicos, inacessíveis à análise científica objetiva —
foi consolidada pelas teses básicas da filosofia dualística de Descartes, para quem todos os processos
físicos, incluindo-se o comportamento animal, estão subordinados às leis da mecânica, ao passo que os
fenômenos psíquicos devem ser considerados como formas do espírito, cuja fonte de conhecimento pode
ser encontrada apenas na razão ou intuição.
O enfoque dualista se manteve até período recente na filosofia e Psicologia em muitos países. Se
considerarmos que os pensadores do século XIX começaram a focalizar os processos elementares dos
campos físico e psíquico (incluindo sensações e movimentos) como processos naturais suscetíveis de
estudo por métodos científicos exatos, os fenômenos superiores do campo psíquico (consciência,
pensamento) continuavam a ser considerados manifestação do campo espiritual, que podia ser abordado
somente por meio da descrição subjetiva dos fenômenos que nele ocorrem. Essa tese levou à divisão real
da Psicologia em dois campos no final do século XIX: a Psicologia naturalista científica ou Psicologia
fisiologista, que tentava estudar com precisão e explicar pela causalidade os processos psicológicos
elementares e definir-lhes as leis objetivas, e a Psicologia descritiva ou subjetiva, que estudava as formas
superiores do campo consciente do homem, enfocando-as como manifestações do espírito. O enfoque
dualista aos fenômenos do campo psicológico refletiu-se nos trabalhos dos clássicos da psicologia como
os psicólogos alemães Wilhelm Wundt (1832^1920), Hermann Ebbinghaus (1856-1909), o psicólogo
americano "William James (1842-1910) e o representante da filosofia idealista Wilhelm Dilthey (1833-
1911) e outros.
A influência do enfoque dualista dos fenômenos psicológicos levou a Psicologia ao impasse e provocou
tentativas naturais de superar a estagnação surgida nessa ciência, de aplicar métodos das ciências naturais
ao estudo dos processos psicológicos e fazer destes a mesma análise que se fazia de todos os outros
fenômenos da natureza.
Essa tendência, que já surgira com os materialistas franceses e ganhara formulação nítida com os
democratas revolucionários russos em meados do século XIX, teve sua patente mani festação na obra do
célebre fisiologista russo Ivan Mikháylo-vitch Sétchenov (1829-1905).
Em sua famosa obra, Os reflexos do cérebro, Sétchenov expôs a idéia segundo a qual até os processos
mais complexos do campo psíquico devem receber tratamento materialista e ser abordados como reflexos
complexos; segundo essa idéia, o pensamento é um reflexo igualmente complexo porém inibido, carente
de fim motor externo. Para ele, os fenômenos dg mundo psíquico devem ser estudados pelo naturalista
com os mesmos meios empregados no estudo de outros fenômenos da natureza. Essa linha de pensamento
foi seguida por outro notável fisiologista russo, Ivan Petrov Pávlov (1849-1936), criador do estudo
objetivo da atividade nervosa (psíquica) superior com a aplicação dos reflexos condicionados. Outros
notáveis representantes da ciência russa, como M. D. Bekhteryev (1857-1927), A. A. Ukhtomsky (1857-
1942) e outros tentaram formalizar um enfoque das bases objetivas e fisiológicas da atividade psíquica e
fundamentar a possibilidade de uma Psicologia objetiva e naturalista.
São essas as razões pelas quais o mundo psicológico do homem e sua consciência foram tratados, durante
séculos, como fenômenos de tipo especial, isolados de todos os outros processos naturais.
A doutrina dos reflexos condicionados de Pávlov, que ele mesmo via como base fisiológica da ciência
psicológica, exerceu influência marcante na evolução da Psicologia americana. Em fins do século XIX, o
psicólogo americano Edward Lee Thorndike começou a estudar o comportamento dos animais, aplicando
métodos que permitiam observar como os animais adquiriam novas habilidades em laboratório. Essas
pesquisas serviram de base a uma nova corrente na Psicologia, denominada behaviorismo (ciência do
comportamento) pelo psicólogo americano J. B. Watson. Nessa corrente, Watson via a forma científica
natural da ciência psicológica, que devia substituir a Psicologia. Partindo da tese segundo a qual a
"consciência" não passa de um conceito subjetivo, inacessível à pesquisa objetiva, os behavioristas
americanos propuseram que se considerasse objeto da pesquisa científica apenas o comportamento
externo do animal, comportamento esse que eles consideravam resultado das inclinações (necessidades)
biológicas dos animais e dos reflexos condicionados a eles sobrepostos. Assim surgiu uma nova corrente
na ciência, que abandonava todo o estudo do mundo subjetivo e limitava-se à descrição das formas
exteriores de comportamento, cujas leis eram tratadas como sistema de habilidades mecanicamente
constituído, inteiramente suscetíveis de análise naturalista.
A tentativa de substituir a Psicologia pelo estudo do comportamento exterior e das leis da aquisição de
habilidades complexas era reflexo da luta por uma Psicologia científica objetiva e teve importância
progressista em sua época.
Mas o behaviorismo americano, como exemplo de um enfoque excessivamente mecanicista da atividade
psíquica, iria revelar muito breve as suas limitações e levar a Psicologia a uma crise não menos patente do
que a crise do enfoque dualista dos fenômenos psíquicos.
Por outro lado, o que ficou evidente alguns anos após a tempestuosa evolução do behaviorismo
americano, a explicação mecanicista nele dominante de processos como a formação de habilidades não
mostrava os autênticos mecanismos fisiológicos destas e substituía sua pesquisa fisiológica científica por
uma descrição exterior e uma interpretação mecanicista desses fenômenos. Por outro lado, a imensa
parcela de formas complexas da atividade psíquica do homem, que se manifesta na atividade consciente
dos modos e procedimentos superiores de comportamento especificamente humanos, de atenção ativa, da
memorização arbitrária e do pensamento lógico era geralmente mantida à margem do campo da pesquisa
científica.
Era por isso que nos limites do próprio behaviorismo já começava a surgir a necessidade de ultrapassar os
limites das descrições mecanicistas simplificadas das habilidades elementares e passar a uma análise
científica das formas mais complexas da. atividade psíquica do homem.
Foi essa necessidade de criação de uma Psicologia autenticamente científica, capaz de abordar com
métodos científicos objetivos as formas mais complexas da vida psíquica do homem, que se converteu na
questão fundamental que a década de 30 -do nosso século assimilou como condição que podia tirar a
Psicologia do estado de crise.
As vias para superar a crise na Psicologia foram formuladas pela primeira vez pelo notável psicólogo
soviético Lyev Semiônovitch Vigotsky (1896-1934); elas se converteram na base para a posterior
evolução da Psicologia como ciência, a princípio na URSS e em seguida além de suas fronteiras.
Como já tivemos oportunidade de salientar, o sentido histórico da crise da Psicologia deveu-se ao fato da
evolução desta ciência ter assumido duas direções. A primeira, que dava continuidade às tradições do
enfoque científico-natural dos fenômenos, propunha-se a tarefa de explicar os processos psíquicos
limitando-se de fato aos processos psicofisiológicas mais elementares e recusando-se a examinar os
fenômenos complexos e especificamente humanos da atividade consciente. A segunda orientação tomou
como objeto de sua análise justamente esses fenômenos exteriores da atividade consciente
especificamente humanos, limitando-se, porém, à descrição das manifestações subjetivas de tais
fenômenos, considerando-os manifestação do espírito e recusando-se a dar aos mesmos um enfoque
científico causai.
Para Vigotsky, a tarefa principal para superar essa crise consistia em converter em objeto da pesquisa as
formas superiores e especificamente humanas de atividade consciente e enfocá-las da ótica da análise
científica, explicar por via causai a sua origem e definir as leis objetivas a que elas se subordinam.
Mas a execução dessa tarefa exigia uma revisão radical das teses básicas da Psicologia.
Como observou Vigotsky, a tentativa de enfocar o psiquismo como função imediata do cérebro e procurar
a sua fonte no recôndito do cérebro é tão inútil quanto a tentativa de considerar o psiquismo como forma
de existência do espírito. A vida psíquica dos animais surge no processo de sua atividade e é uma forma
de representação da realidade, é realizada pelo cérebro mas pode ser explicada somente pelas leis
objetivas dessa atividade representativa. De modo semelhante, as formas superiores de atividade
consciente, de atenção ativa, memorização arbitrária e pensamento lógico que são específicas do homem
não podem ser consideradas produto natural da evolução do cérebro, sendo o resultado da forma social
específica de vida, que é característica do homem. Para explicar por via causai as funções psíquicas
superiores do homem, é necessário ir além dos limites do organismo e procurar-lhes as fontes não no
recôndito da ahna ou nas peculiaridades do cérebro mas na história social da humanidade, nas formas
de linguagem e trabalho social que se constituíram ao longo da história da sociedade e trouxeram para a
vida tipos mais aperfeiçoados de comunicação e novas formas de atividade consciente.
Ao procurar tornar-se ciência autêntica, a Psicologia deve estudar a origem socialmente histórica das
formas superiores de atividade consciente e assegurar uma análise científica das leis que lhes servem de
base.
Essas teses básicas mudam radicalmente as tradições da psicologia dualista e delineiam nitidamente o
objeto de uma Psicologia científica.
A Psicologia do homem deve ocupar-se da análise das formas complexas de representação da realidade,
que se constituíram ao longo da história da sociedade e são realizadas ]ielo cérebro humano. Ela deve
substituir a anterior descrição subjetiva das formas complexas de atividade consciente por uma análise
científica objetiva dessas formas, sem substituir essa tarefa pelo estudo dos processos fisiológicos que
lhes servem de base nem limitar-se à descrição exterior dos mesmos. É essa a tarefa da ciência
psicológica, que deve estabelecer as leis da sensação e percepção humana, regular os processos de
atenção e memorização, de realização do pensamento lógico, formação das necessidades complexas e da
personalidade, considerando todos esses fenômenos como produto da história social e sem separar esse
estudo da análise dos mecanismos fisiológicos que lhes servem de base. É isto que constituirá a essência
da Psicologia geral no todo e da psicologia do homem no particular.
A Psicologia e outras ciências
A Psicologia só pode desenvolver-se em estreita ligação com outras ciências, que não a substituem mas
lhe asseguram informação importante para que ela possa ser bem-sucedida na elucidação do seu próprio
objeto.
A biologia é a primeira ciência com a qual a Psicologia deve manter a mais estreita ligação.
Se a Psicologia animal opera com as formas de comportamento dos animais que se desenvolvem no
processo de interação deles com o meio, torna-se absolutamente claro que a completa interpretação das
leis do comportamento animal é impossível sem o conhecimento das formas básicas de vida que
constituem o objeto da biologia. É necessário ter uma noção suficientemente nítida das diferenças que
existem na vida dos vegetais e animais para perceber o principal que distingue todo tipo de
comportamento ativo, baseado na orientação no meio circundante, das formas de vida que se esgotam
com os processos de metabolismo e podem ocorrer fora das condições de uma orientação ativa na
realidade. É necessário ter uma noção precisa do que muda nas condições de vida com a transição da
existência de unicelu-lares num meio aquático homogêneo a formas incomparavelmente mais complexas
de vida multicelular, sobretudo nas condições de existência terrestre, que apresenta exigências imensas à
orientação ativa baseada nas condições do meio, orientação essa que é a única que pode assegurar sucesso
na obtenção de alimentos e conjuração de perigos. É necessário conhecer bem a diferença de princípios de
vida entre o mundo dos insetos, com sólidos programas congênitos que asseguram uma sobrevivência
bem-sucedida em condições estáveis e são capazes de conservar a espécie até em condições de mudança,
e o mundo dos vertebrados superiores com seus poucos descendentes, que podem sobreviver somente
com a evolução de novas formas individualmente mutáveis de comportamento, que garantem a adaptação
ao meio em mudança. Sem esses conhecimentos dos princípios biológicos gerais de adaptação não se
pode assegurar nenhuma compreensão nítida das peculiaridades do comportamento dos animais e
qualquer tentativa de interpretar as complexas formas de atividade psíquica do homem perderá sua base
biológica.
Eis porque é absolutamente necessário para a Psicologia científica levar em conta as leis básicas da
biologia e novas partes delas como a ecologia (doutrina que estuda as condições do meio e suas
influências) e a etologia (doutrina das formas congênitas de comportamento). É natural que os fatos
constituintes do objeto da ciência psicológica não podem, em hipótese nenhuma, reduzir-se a fatos
biológicos.
A segunda ciência com a qual a Psicologia deve manter a mais estreita ligação é a jisiologia, sobretudo a
parte referente à atividade nervosa superior.
A fisiologia trata dos mecanismos que exercem diferentes funções no organismo, ocupando-se da
atividade nervosa superior dos mecanismos de trabalho do sistema nervoso que concretizam o
"equilíbrio" do organismo com o meio.
É fácil perceber a absoluta necessidade de conhecer o papel desempenhado nesse último processo pelas
diferentes fases do sistema nervoso, de conhecer as leis pelas quais realiza-se a regulação dos processos
de metabolismo no organismo, pelas quais se regulam as leis de funcionamento do tecido nervoso, que
materializa os processos de excitação e inibição, e das complexas formações nervosas que executam os
processos de análise e síntese, de confluência das conexões nervosas, e asseguram os processos de
irradiação e concentração da excitação; é igualmente importante o^ conhecimento das formas básicas de
trabalho das células nervosas, que se encontram em estado normal ou inibido (fásico). Tudo isso é
absolutamente necessário para que o psicólogo, que estuda os tipos principais de atividade psíquica do
homem, não se limite à simples descrição desses tipos mas saiba em que mecanismos se baseiam essas
formas altamente complexas de atividade, conheça os dispositivos que as executam, os sistemas em que
elas ocorrem. Desconhecer as leis da fisiologia implicaria em privar a Psicologia de uma das fontes mais
importantes de conhecimento científico. Para a Psicologia, tem importância decisiva a sua ligação com as
ciências sociais.
As formas principais de atividade psíquica do homem surgem nas condições da história social,
desenvolvem-se no processo de atividade material surgido ao longo da história, baseiam-se nos meios
que se formaram no processo de trabalho, de emprego dos instrumentos de trabalho e da linguagem. Se
não usasse os instrumentos de trabalho e a linguagem, o homem não disporia sequer de uma ínfima parte
das possibilidades de que dispõe o seu comportamento concreto, ficaria privado da comunicação com o
meio ambiente, evoluiria à margem das condições do mundo material — surgido no processo da história
da sociedade — nem assimilaria a experiência de toda a humanidade, que é transmitida por meio da
linguagem, esse receptáculo da informação. É natural que as formas de'atividade do homem são
executadas pelo cérebro e se apoiam nas leis dos seus processos nervosos superiores. Por si mesmo
nenhum sistema nervoso é capaz de assegurar a formação da capacidade de usar instrumentos de trabalho
e linguagem e explicar o surgimento das formas altamente complexas de atividade humana, surgidas no
processo da história social.
A verdadeira relação entre a Psicologia e a fisiologia consiste em que a primeira estuda as formas e meios
de atividade que surgiram no processo da história social e determinam o comportamento, enquanto a
fisiologia da atividade nervosa superior estuda os mecanismos naturais que materializam ou realizam esse
comportamento.
Tentar reduzir a Psicologia do homem à fisiologia da atividade nervosa superior — como em certa época
propunham os pensadores mecanicistas — implicaria em cometer o mesmo erro do arquiteto que tentasse
reduzir a origem e a análise dos estilos gótico e barroco ou o estilo Império às leis da resistência dos
materiais que ele naturalmente deve levar em conta mas que em hipótese nenhuma podem explicar a
origem dos estilos arquitetônicos.
O êxito do desenvolvimento da Psicologia depende grandemente da correta compreensão da correlação
dessas duas ciências e tanto o desconhecimento da fisiologia como a tentativa de reduzir a Psicologia à
fisiologia retardariam o desenvolvimento da ciência psicológica.
O que acabamos de afirmar deixa clara a imensa importância que tem para a Psicologia a sua ligação com
as ciências sociais. Se na formação do comportamento do animal as condições biológicas de vida
desempenham papel determinante, na formação do comportamento do homem esse papel é
desempenhado pelas condições da história social, que cria formas novas de uma complexa relação com a
realidade, mediada pelas condições de trabalho, formas essas que são as fontes de novas formas
especificamente humanas de atividade psíquica.
Adiante teremos oportunidade de ver que o primeiro emprego de instrumentos de trabalho e a primeira
forma de trabalho social introduziram mudança radical nas principais leis biológicas de construção do
comportamento e que o surgimento e, posteriormente, o emprego da linguagem — que permite conservar
e transmitir a experiência de gerações — levaram ao surgimento de uma nova forma de evolução
inexistente entre os animais: a forma de evolução mediante a assimilação da experiência social. A ciência
psicológica atual, que estuda antes de tudo as formas especificamente humanas de atividade psíquica, não
pode dar um só passo sem levar em conta os dados que obtém das ciências sociais: do materialismo
histórico, que enriquece as leis básicas do desenvolvimento da sociedade, e da lingüística, que estuda as
formas básicas de linguagem, surgida na história da sociedade.
Só levando minuciosamente em conta as condições sociais, que formam a atividade psíquica do homem,
pode a Psicologia obter uma sólida base científica. Encontraremos a aplicação desse princípio em todas as
páginas seguintes, quando examinaremos todos os fatos psicológicos concretos. É essa a relação da
Psicologia científica com as outras ciências, com as quais ela se desenvolve em estreito contato.
Partes principais da Psicologia
A Psicologia, que até recentemente não era uma ciência dividida, representa hoje um sistema amplamente
ramificado de disciplinas, que estudam a atividade psíquica do homem em diferentes aspectos. O que já
dissemos antes deixa claro que algumas partes da Psicologia estudam as bases naturais dos processos
psíquicos, aproximando-se da biologia e fisiologia, enquanto outras partes estudam os fundamentos
sociais da atividade psíquica, aproximando-se das ciências sociais.
A posição central cabe à Psicologia Geral, que estuda as formas básicas de atividade psíquica e constitui a
viga-mestra de todo o sistema de disciplinas psicológicas. Afora a introdução teórica evolucionista, o
exame de várias partes científicas faz parte da composição da Psicologia Geral. Entre essas partes
incluímos a análise dos processos cognitivos (começando pelas sensações e percepções e terminando nas
formas mais complexas de pensamento; compõem essa parte a análise das condições em que ocorrem os
processos psíquicos e a análise das leis do pensamento, da memória, imaginação, etc), a análise dos
processos afetivos (as necessidades do homem, as formas complexas de emoções), a análise da estrutura
psicológica da atividade do homem e da regulação do seu desempenho e, por último, a análise da
psicologia do indivíduo e das diferenças individuais.
As partes aqui referidas serão objeto de exame das próximas páginas do presente livro.
A elaboração dos problemas gerais da Psicologia foi objeto de trabalhos de muitos pensadores célebres,
entre os quais sé situam clássicos como W. Wundt na Alemanha, W. James nos EUA, A. Binet e P. Janet
na França e contemporâneos como-L. S. Vigotsky, S. L. Rubinstein, A. N. Leôntyev, A. A. Smirnov e V.
M. Têplov na URSS, A. Vallon, A. Piéron e P. Fraisse na França, E. Nolman, G. Miller e J. Bruner nos
EUA, Donald Hebb no Canadá e J. Broadbent na Inglaterra, etc.
É contíguo à Psicologia Geral o grupo de partes biológicas da Psicologia. Todas elas estudam as bases
naturalistas da atividade psíquica do homem.
A primeira dessas disciplinas é a Psicologia comparativa ou Psicologia animal. Esta disciplina estuda as
peculiaridades do comportamento animal em etapas sucessivas da evolução, aquelas peculiaridades que
dependem das condições de vida e da estrutura anatômica dos animais. Ela descreve os processos de
mudança das formas de comportamento animal dependendo das exigências que o meio lhes impõe e dos
principais tipos de adaptação às condições de vida, que são de caráter muito variado quando se tornam
complexas as formas de vida.
A segunda das disciplinas pertencentes ao grupo biológico das ciências psicológicas é a Psicologia
fisiologista ou Psico-jisiologia.
As bases dessa ciência foram lançadas na segunda metade do século XIX por pensadores que se
propunham a tarefa de estudar os processos psicológicos do homem com a aplicação de diversos métodos
fisiológicos, de estudar os mecanismos fisiológicos dos processos psicológicos. Foram precisamente esses
pensadores que organizaram os primeiros laboratórios de Psicologia e elaboraram minuciosamente partes
da Psicologia como a doutrina das sensações, sua medida e seus mecanismos básicos, a doutrina das leis
básicas da memória e da atenção, a doutrina dos mecanismos psicofisiológicos do movimento, etc.
É natural que a Psicologia fisiologista se aproxime da fisiologia, particularmente da fisiologia dos órgãos
dos sentidos e da fisiologia da atividade nervosa superior. A diferença consiste em que os cientistas que
se ocupam desse problema tomam como objeto a análise das formas concretas de atividade psíquica,
estudando as sensações e percepções, a atenção e a memória do homem, bem como a estrutura dos seus
processos motores e a mudança destes no processo de exercício e fadiga, procuram, empregando os
métodos mais precisos, estabelecer os mecanismos fisiológicos e as leis pelas quais esses processos se
realizam. A psicofisiologia, permanecendo disciplina psicológica especial, está para a fisiologia assim
como a bioquímica está para a química ou a biofísica para a física. Ela não abstrai um instante sequer o
fato de que os processos por ela estudados fazem parte da complexa atividade psíquica do homem, não
esquece as complexas peculiaridades da estrutura desses processos e apenas tenta descobrir os
mecanismos fisiológicos que lhes servem de base.
Uma parcela considerável dos conhecimentos das leis de realização de processos psíquicos particulares
foi acumulada justamente por essa área da ciência psicológica, à qual estão estreitamente ligados os
nomes de grandes cientistas como Gustav Fechner e Weber (os primeiros a medir as sensações), Wilhelm
Wundt (o primeiro a aplicar amplamente métodos psicofisioló-gicos de estudo dos processos psíquicos),
Hermann Ebbinghâus e Hermann Joseph Müller (os primeiros a abordar métodos exatos de medição da
memória e seus mecanismos específicos), assim como Piéron na França, Edward Titchener nos EUA, os
grandes psicólogos atuais como O. R. Lindsley (EUA), Broad-bent (Inglaterra), Fraisse (França) e outros.
Essa área da ciência psicológica recebeu imensa informação dos trabalhos de clássicos notáveis da
fisiologia como Pávlov, criador da doutrina da atividade nervosa superior, N. E. Vve-densky, criador da
doutrina da gênese patológica, A. A. Ukhtomsky, cujos trabalhos permitiram introduzir uma aova área da
ciência do comportamento: a doutrina dos dominantes, L. A. Orbeli, autor de importante contribuição à
fisiologia evolu-cionista bem como fisiologistas contemporâneos como P. A. Anokhin, criador da
doutrina dos sistemas funcionais, N. A. Bernstein, introdutor do novo conceito de organização do
movimento, G. V. Gershuni e S. V. Kravkov, que enriqueceram a ciência com dados relativos ao
funcionamento da audição e visão, etc.
A terceira disciplina componente do grupo biológico das ciências psicológicas é a neuropsicologia.
Esta disciplina tem por tarefa o estudo do papel que desempenham os aparelhos particulares do sistema
nervoso na estruturação dos processos psíquicos.
É fácil perceber que o papel das formações subcorticais e do paleocórtex no processo da atividade
psíquica é inteiramente diferente do papel do neocórtex e dos grandes hemisférios cerebrais . Há, porém,
fundamentos para supor que também o papel de algumas regiões do córtex cerebral na organização dos
complexos processuais psíquicos não é idêntico e que todas as áreas do cérebro — parietais, temporais e
occipitais — dão sua contribuição toda especial para o processo de atividade psicológica.
Esse novo campo da Psicologia emprega em suas pesquisas uma análise psicológica minuciosa tanto das
irritações como das destruições de áreas isoladas do cérebro, estuda as mudanças dos processos psíquicos
que surgem quando ocorram afecções locais do cérebro e tira, de suas observações, conclusões
relacionadas com a estrutura interna dos processos psíquicos.
Esse campo da Psicologia é representado por estudiosos de diversos países como K. S. Lashley e K, H.
Pribram (EUA), A. R. Luria (URSS), O. L. Zangwill (Inglaterra), B. Milner (Canadá) e outros. Podemos
colocar ao lado da neuropsicologia a psicopatologia, que estuda as peculiaridades "dos processos
psíquicos observáveis nos doentes psíquicos, e permite que nos aproximemos mais de um estudo
científico das doenças mentais e do descobrimento de algumas leis gerais da atividade psíquica que se
manifesta nos estados patológicos.
A psicopatologia foi elaborada com êxito por muitos psiquiatras (Kraepelin, na Alemanha, Janet, na
França, Békhterev, na Rússia) e pelos psicólogos contemporâneos (B. V. Zeygar-nik, na URSS, Pecheau,
na França, e outros).
Uma área especial, situada nas fronteiras da psicofisiologia e da neuropsicologia, é representada pelo
estudo dos mecanismos neurônicos da atividade psicológica. Os cientistas que elaboraram essa área (D.
H. Hubel e T. N. Wiesel na Inglaterra, Jung na Alemanha, H. H. Jasper no Canadá, E. N. Sokolov e O. S.
Vinográdov na URSS) se propõem a tarefa de investigar as formas de funcionamento de grupos isolados de
neurônios e efetuar uma análise dos processos nervosos mais elementares, que servem de base ao
comportamento. Importantes descobertas dos mecanismos fisiológicos de ativação e habituação foram
obtidos no estudo das formas mais simples de comportamento em base neurônica.
No sistema das ciências psicológicas, cabe posição especial à psicologia infantil ou genética.
A importância dessa área das ciências psicológicas para a Psicologia geral consiste em que a Psicologia
genética ou infantil estuda a formação da atividade psíquica no processo de evolução da criança e permite
acompanhar a formação dos complexos processos psíquicos e das etapas pelas quais eles passam em sua
evolução.
A Psicologia genética permite abordar os processos psíquicos superiores do homem como produto da
evolução, dando, com isto, a possibilidade de considerar as formas complexas de atividade psíquica do
homem não como "propriedades" ou "faculdades" do psiquismo primitivamente existentes mas como
resultado de uma longa formação, que deixou vestígios na estrutura dos processos psíquicos.
Foi justamente por isto que a Psicologia genética, que estuda a formação (gênese) das formas superiores
de atividade psíquica, adquiriu importância decisiva tanto para uma área prática como a pedagogia quanto
para a Psicologia geral. Foi justamente graças aos êxitos da Psicologia genética, relacionados com a
contribuição dada ao estudo dessa disciplina pelos notáveis estudiosos Jean Piaget e Lyév S. Vigotsky,
que a Psicologia geral obteve provas convincentes de que as formas básicas dos processos psíquicos
(percepção e ação, memorização e pensamento) possuem estrutura complexa que se forma no processo de
evolução da criança. A importância da Psicologia genética lhe, permitiu ocupar posição central na
Psicologia atual.
Outro campo da Psicologia, que deve ser colocado ao lado da Psicologia genética e costuma ser chamado
de psicologia diferencial ou psicologia das diferenças individuais, ocupa posição importante.
Sabe-se que as pessoas têm traços comuns, estudados pela Psicologia geral, e revelam diferenças
individuais. Estas podem ser diferenças de propriedades do sistema nervoso, de peculiaridades individuais
do campo emocional e do caráter, traços característicos do processo cognitivo e do talento.
A Psicologia diferencial se propõe a tarefa de estudar essas diferenças individuais, descrever os tipos de
comportamento e atividade psíquica das pessoas que se distinguem umas das outras por traços
característicos.
A Psicologia diferencial é de importância decisiva para a avaliação do nível de evolução da criança, das
formas individuais de assimilação do trabalho e para a análise das peculiaridades tipológicas cujo
conhecimento é indispensável à solução das questões práticas da Psicologia.
Os fundamentos da Psicologia diferencial foram lançados em sua época pelo psicólogo alemão W. Ster
(1871-1938); em nossa época os problemas das diferenças individuais foram estudados com êxito por
cientistas como Charles Edward Spear-man, na Inglaterra, L. L. Thurstone, nos EUA, e B. M. Teplov, na
URSS.
Aos referidos campos da Psicologia incorpora-se um grupo de áreas intimamente vinculadas às ciências
sociais. Nessas áreas examinam-se as condições histórico-sociais em que se formou a atividade psíquica
do homem e as formas sociais em que essa atividade se manifesta.
Nesse grupo ocupa posição essencial a etnopsicologia ou ciência das particularidades que distinguem os
processos psíquicos em diferentes formações e estruturas históricas e em diferentes culturas.
Nas etapas iniciais do desenvolvimento da Psicologia, fizeram-se tentativas de criar uma "psicologia dos
povos" corr.: forma especial de psicologia social e de elaborar uma ciência que fosse capaz de revelar as
bases psicológicas da formação da linguagem, dos mitos, crenças, do direito, etc. Fracassou essa tentativa,
que partiu de um dos criadores da Psicologia moderna, W. Wundt, autor do livro A psicologia dos povos.
Wundt tentou dar uma explicação psicológica dos fenômenos da vida social, cujas bases não são
psicológicas mas econc-micas ou histórico-sociais. Por este motivo as tentativas de "ps:-cologizar a
história" retiveram durante muito tempo o desenvolvimento desse importante campo da ciência
psicológica, qa: devia investigar um processo inverso: a influência formadora exercida pelas condições
histórico-sociais sobre o desenvoh:-mento da atividade psicológica do homem.
Essa tarefa se converteu em objeto das pesquisas de grandes cientistas de diversos países (Frazer e
Malinowsky, na Inglaterra, Janet e Lévy-Bruhl, na França, Turnwald, na Alemanha e M. Mead, nos EUA)
e foram justamente essas pesquisas qu: lançaram as bases da etnopsicologia atual. O estudo das
peculiaridades da atividade psíquica de pessoas pertencentes -diferentes culturas constitui atualmente uma
área importan:; da ciência psicológica.
A psicolingüística, disciplina que nos últimos decênios s: converteu em área independente e se situa na
fronteira entre a Psicologia e a lingüística, representa um campo especial d-Psicologia. A psicolingüística
se propõe o estudo das leis básica: da linguagem enquanto meio de comunicação, dos processos d.
codificação e decodificação da informação veiculada pela linguagem e dos processos psicológicos que se
baseiam nos códigos da língua e se materializam na linguagem do homem.
A Psicologia social é uma área importante porém pouco desenvolvida. Esta disciplina estuda as leis
psicológicas da comunicação entre os homens, as peculiaridades psicológicas da divulgação de
informação por meios como a imprensa e o cinema, as particularidades do comportamento no processo de
trabalho, competição, etc. Um campo especial da Psicologia social tem como objeto o estudo das inter-
relações humanas em pequenos grupos, a análise dos fatores que servem de base a tipos concretos de
interação entre os homens, de formação da autoridade, promoção de líderes, etc.
Entre essas disciplinas, que mantêm afinidades com as ciências sociais, inclui-se a Psicologia da arte, que
estuda as bases psicológicas da criação artística e as leis psicológicas que servem de base às obras de arte
que aplicam diversos procedimentos e asseguram uma influência máxima das obras sobre o leitor e
espectador.
Tomamos conhecimento apenas dos ramos fundamentais da Psicologia, mas estes podem mostrar que
sistema ramificado de disciplina a Psicologia moderna representa.
Os métodos em Psicologia
É condição fundamental da evolução de toda ciência a existência de métodos suficientemente objetivos,
precisos e seguros.
O papel do método de uma ciência deve-se ao fato de que a essência do processo em estudo não coincide
com as manifestações em que ela aparece. São necessários procedimentos especiais, que permitam
penetrar além dos limites dos fenômenos acessíveis à observação imediata, penetrar nas leis internas que
constituem a essência do processo em estudo. Esse caminho do fenômeno à essência, que lança mão de
toda uma série de procedimentos objetivos de pesquisa, caracteriza as pesquisas verdadeiramente
científicas.
Em que consistem os métodos empregados pela Psicologia?
Houve um longo período em que a Psicologia era definida como ciência do mundo subjetivo do homem; à
definição do conteúdo da ciência correspondia a escolha dos seus métodos. Segundo a concepção
idealista, que separava o psiquismo de todos os outros fenômenos da natureza e da sociedade, a
Psicologia tinha como objeto o estudo dos estados subjetivos da consciência. Segundo os psicólogos
idealistas, esses- processos da consciência se distinguiam dos outros processos da realidade objetiva pelo
fato de que o fenômeno coincidia com a essência: as formas de consciência que o homem podia observar
em si mesmo (clareza ou imprecisão de consciência, vivência da liberdade do ato volitivo, etc.) eram
consideradas por esses psicólogos como propriedades fundamentais do espírito ou como essência dos
processos psíquicos subjetivos. Para eles, essa coincidência dos fenômenos com a essência constituía o
fundamento da Psicologia e lhe definia o método, ou seja, consideravam como fundamental e única a
descrição subjetiva dos fenômenos da consciência, descrição essa que se obtinha no processo de
introspecção. O reconhecimento da introspecção como método fundamental da Psicologia não apenas
separava esta ciência das outras como fechava de fato todos os caminhos para a evolução da Psicologia
enquanto ciência autêntica. Excluía, ainda, a explicação objetiva e causai dos processos psíquicos,
reduzindo a Psicologia à descrição subjetiva de formas da vida espiritual e dos fenômenos psíquicos.
É fácil entender que uma "ciência" que se negava a considerar os processos psíquicos como produtos do
desenvolvimento objetivo, que não levantava os problemas da origem e dos mecanismos objetivos desses
processos não podia ter existência própria; durante muito tempo continuou sendo uma área singular da
filosofia idealista sem se incluir no círculo das ciências autênticas.
Por isto mudou radicalmente o tratamento dispensado ao método básico da Psicologia desde o período em
que esta disciplina passou a ser interpretada como ciência de uma forma específica de atividade psíquica,
que permite ao homem orientar-se na realidade ambiente, refleti-la, formar programas de comportamento
e controlar a sua execução.
A tarefa dos psicólogos consistia em criar métodos objetivos de estudo dos processos psíquicos do
homem, sem nunca se limitar ao método da introspecção, referindo-se a ele apenas como um
procedimento auxiliar de sentido antes heurístico, que permitia levantar questões, o que dava a
possibilidade de explicar por via causai os fenômenos e encontrar as leis que lhes serviam de base. A
revisão radical da introspecção como método de conhecimento científico devia-se ao fato de que a própria
introspecção passara a ser vista como um tipo complexo de atividade psíquica, que era produto de uma
longa evolução, empregava formulação discursiva dos fenômenos observados e tinha aplicação muito
restrita porque nem de longe os processos psíquicos ocorrem todos por via consciente, bem como porque
a auto-observação dos seus processos psíquicos pode introduzir mudanças consideráveis na ocorrência
desses processos.
A Psicologia passou a ter como tarefa fundamental a elaboração de métodos objetivos de pesquisa que
usassem os mesmos procedimentos que todas as outras ciências usavam para observar o
desenvolvimento desse ou daquele tipo de atividade e da mudança experimental das condições do seu
exercício, de métodos que fossem capazes de ir além dos limites da descrição exterior dessa atividade no
sentido das leis que lhe servem de base.
O procedimento principal da Psicologia passou a ser a observação do comportamento do homem em
condições naturais e experimentais, com a análise das mudanças que ocorrem em determinadas condições
que podem ser mudadas pelo experi-mentador. Foi nesse caminho que surgiram os três métodos básicos
de pesquisa psicológica, convencionalmente chamados de método de análise estrutural, método genético-
experimental e método patológico-experimental (ou método de análise sindrô-mica).
O método de análise estrutural dos processos psicológicos consiste no seguinte: o psicólogo, ao estudar
essa ou aquela forma de atividade psíquica, coloca diante do sujeito experimental uma tarefa
correspondente e acompanha a organização estrutural dos processos (procedimentos, meios, formas de
comportamento) mediante os quais o sujeito experimental resolve a tarefa dada.
Isto significa que o psicólogo não apenas registra o- resultado final (memorização do material proposto,
reação motora ao sinal, resposta à tarefa proposta) mas acompanha atentamente o processo de solução da
tarefa proposta, os meios auxi-liares em que ele se baseou, etc. Essa descrição da estrutura psicológica do
processo estudado e a análise das suas partes componentes representam dificuldades consideráveis e
exigem vários procedimentos auxiliares especiais.
Esses procedimentos, que permitem efetuar uma análise estrutural bastante completa, podem ter caráter
direto ou indireto.
Pertence aos procedimentos diretos a mudança da estrutura da tarefa proposta ao sujeito experimental
(com dificultação paulatina, inclusão de novas exigências, que tornam necessária a inserção de novas
operações na solução da tarefa), bem como a proposta de vários procedimentos que ajudam à solução
(escolha de apoios externos, procedimentos auxiliares, etc). O emprego desses procedimentos diretos de
análise estrutural muda o curso objetivo do processo psicológico e permite estabelecer quais dentre os
procedimentos empregados surtem um efeito máximo.
As referidas formas de análise estrutural se aplicam antes de tudo ao estudo objetivo de formas contíguas
de atividade psíquica como a assimilação ou memorização do material, a solução das tarefas, a realização
de operações construtivas ou lógicas, o estudo da estrutura das formas complexas dos atos conscientes.
Entre os procedimentos indiretos ou complementares situa-se o emprego de indícios, que, não sendo eles
mesmos elementos, de atividade do homem, podem ser índices do seu estado geral, das tensões por ele
experimentadas, etc. Entre esses procedimentos, por exemplo, incluímos a aplicação de métodos de
registro dos processos fisiológicos (eletroencefalogramas, eletro-miogramas, reação galvânica da pele,
pletismograma), que por si mesmos não revelam as peculiaridades da realização da atividade psíquica
mas podem refletir as condições fisiológicas gerais que caracterizam essa realização.
Ê natural que a aplicação desses procedimentos indiretos ou complementares pode adquirir sentido
somente havendo organização precisa da própria atividade psíquica estudada pelo psicólogo.
Ao lado do método analítico-estrutural, que ocupa posição central na Psicologia, podemos colocar o
método genético-expe-rimental, que tem importância especialmente grande para a Psicologia genética.
Sabe-se que todos os processos psicológicos superiores são produto de uma longa evolução. Por isto é
sobretudo importante para o psicólogo acompanhar a marcha desse processo de evolução, que etapas
foram incluídas nele e que fatores determinam o surgimento de processos psicológicos superiores.
Pode-se obter resposta a esta questão não apenas acompanhando a execução das mesmas tarefas em fases
sucessivas do desenvolvimento da criança (esse método recebeu na Psicologia a denominação de método
dos cortes genéticos) como também criando condições experimentais que permitam mostrar como se
forma essa ou aquela atividade psíquica. Com este fim coloca-se em diferentes condições o sujeito
experimental, a quem se propõe resolver essa ou aquela tarefa. Nuns casos exige-se dele solução
independente da tarefa, noutros, presta-se-lhe ajuda, empregando diversos meios de apoios extremos
evidentemente eficazes, sugerindo em voz alta as vias de solução, por um lado, observando como ele
aproveita essa ajuda, por outro.
Aplicando os procedimentos que constituem a essência do método genético-experimental, o estudioso se
mostra capaz não apenas de revelar as condições com cujo aproveitamento o sujeito experimental pode
assimilar de modo ideal dada atividade, como também de formular experimentalmente os complexos
processos psíquicos e abordar mais de perto a sua estrutura. O método genético-experimental foi
amplamente aplicado na Psicologia na URSS por Vigotsky, A. V. Zaporojets, P, Y. Galpe-rina e produziu
muitos fatos valiosos que se incorporaram soli-damente à Psicologia.
O terceiro método da Psicologia, especialmente importante para a neuropsicologia e psicopatologia, é o
método patológico-éxperimental ou método da análise sindrômica das mudanças de comportamento que
ocorrem nos estados patológicos do cérebro ou num desenvolvimento exclusivo de um setor dos
processos psíquicos.
Esse método é aplicável em casos relativamente raros. Conhecendo um fator que muda notoriamente o
curso dos processos psíquicos, o psicólogo pode saber qual a influência que esse fator exerce sobre o
curso de toda a atividade psíquica do sujeito.
Esse método se manifesta nas formas mais claras nas pesquisas neuropsicológicas, consistindo no
seguinte: o psicólogo que estuda minuciosamente os pacientes nos quais a afecção local do cérebro
provoca o deslocamento ou a deformação de uma das condições do curso normal dos processos psíquicos
(por exemplo, da percepção visual, da memória auditiva ou da sólida manutenção do programa de
atividade), analisa detalhadamente a realização de todo um conjunto de processos psíquicos e define quais
desses processos se mantêm intactos e quais ficam perturbados. Semelhante análise permite estabelecer
quais são precisamente os processos psíquicos internamente relacionados com o fator perturbado (ou
excluído) e quais são independentes deste; permite descrever toda uma síndrome (por outras palavras,
todo um conjunto de mudanças) que surge com a mudança de uma função e dá a possibilidade de mostrar
a interdependência (correlação) de processos psicológicos isolados.
O mesmo método pode ser aplicado na Psicologia geral ou na>Psicologia das diferenças individuais, nas
quais a superevolu-ção de um aspecto do campo psíquico (por exemplo, da memória visual clara) ou
alguma peculiaridade individual dos processos nervosos (por exemplo, a fraqueza ou a mobilidade
insuficiente dos processos nervosos) pode provocar a reestruturação de todos os processos psicológicos e
tornar-se fator decisivo no surgimento de todo um conjunto de peculiaridades individuais da pessoa.
Todos os métodos que descrevemos em linhas gerais são métodos da pesquisa psicológica. A par com
eles, entretanto, têm grande importância para a Psicologia os métodos breves de avaliação qualitativa e
quantitativa dos processos psíquicos (dos conhecimentos, habilidades, aptidões) e os métodos simples de
medição do nível de evolução dos processos psíquicos.
Esses métodos se aplicam amplamente na Psicologia e são conhecidos pela denominação de testes
psicológicos. Os testes psicológicos consistem de tarefas, que se propõem a um amplo círculo de sujeitos
experimentais para estabelecer seus conhecimentos, habilidades ou aptidões. Para que esses testes possam
produzir dados objetivos e mensuráveis, são feitos previamente com um grande número de sujeitos
experimentais (crianças de uma determinada idade ou pessoas do mesmo nível de educação). Entre essas
tarefas escolhem-se aquelas'que um número considerável (dois terços, por exemplo) de sujeitos
experimentais consegue resolver com êxito e só depois disto elas são propostas àqueles sujeitos cujos
conhecimentos, habilidades ou aptidões são mensuráveis. Os resultados dessas pesquisas são avaliados
por pontos ou por lugar (indica-se o lugar que um dado sujeito experimental poderia ocupar em relação ao
grupo correspondente de sujeitos).
A aplicação dos testes psicológicos pode ter certa importância para que se tenha uma orientação, acerca
das peculiaridades psicológicas dos grandes hemisférios. Faremos adiante uma apreciação crítica desse
método, quando examinarmos a sua importância para a medição das diferenças individuais de diferentes
sujeitos.
É fácil ver que a importância de todos os referidos métodos nã.p é a mesma para as diferentes áreas da
Psicologia a que nos referimos, e se o método de análise estrutural continua sendo o método básico para
todas as áreas psicológicas, o método gené-tico-experimental ocupa posição dominante na Psicologia
genética, ocupando o método de análise sindrômica posição-chave na Psicologia patológica ou
diferencial.
A importância prática da Psicologia
A Psicologia tem grande importância não apenas para a solução de uma série de questões teóricas do
campo psicológico e da atividade consciente do homem.
Ela tem importância também prática, que aumenta à medida que a direção do comportamento do homem
em bases científicas e a consideração do fator humano na indústria e nas relações sociais se tornam
questão central da vida social.
A ciência psicológica é de grande importância prática para vários campos, dentre os quais mencionamos
apenas os mais importantes.
O primeiro desses campos é o da indústria e do trabalho; a área da Psicologia aplicada que se dedica a
questões ligadas a esses campos é denominada engenharia psicológica e psicologia do trabalho.
A indústria moderna, que compreende a direção de mecanismos, do transporte, aviação, etc, subentende
uma complexa interação do sistema homem-máquina. A técnica complexa deve estar adaptada às
possibilidades do homem. É necessário criar condições nas quais a direção dos sistemas transcorra numa
variante ideal e possa realizar-se com a menor perda de tempo e o menor número de erros. Essas
exigências devem referir-se principalmente à construção racional dos painéis de direção, que nos
mecanismos modernos consistem de grande número de indicadores, que exigem revisão sumamente
rigorosa e que a informação que recebem tenha a máxima acessibilidade. É natural que essas exigências
podem ser atendidas somente levando-se em conta as leis da percepção humana, o volume da memória
humana e os modos de originalizá-las, que poderiam, da melhor maneira, adaptar a máquina às
possibilidades do homem. Por outro lado, a indústria moderna coloca uma série de questões atinen-tes à
seleção de pessoas mais aptas para as condições dessas ou daquelas formas de trabalho, querendo, com
isto, que se criem condições que assegurem circunstâncias ideais para a manutenção da atenção e o menor
esgotamento do homem. Coloca-se a questão: que fatores psicológicos devem-se levar em conta para
garantir a máxima segurança do trabalho e o mínimo de avarias?
Todas essas questões são elaboradas pela engenharia psicológica e pela Psicologia do trabalho, que estão
se convertendo em importante componente da organização cientifica da produção.
Outra área de aplicação prática da Psicologia é o ensino e a educação da geração adolescente, em suma,
a área da pedagogia.
É sabido que o crescente volume de conhecimentos, que devem ser assimilados no processo de ensino
escolar, exige organização mais racional dos métodos de ensino. Isto depende substancialmente das
peculiaridades psicológicas da criança, da idade e dos seus processos cognitivos na aprendizagem escolar.
A Psicologia pedagógica é a área da Psicologia aplicada que deve assegurar a argumentação científica
dos programas e métodos de ensino, estabelecer o círculo dos conceitos acessíveis às crianças da idade
correspondente e os métodos de transmissão do material que garantirão sua melhor assimilação. O ensino
programado (ou teoria da assimilação programada, por etapa, dos conhecimentos), nova área da
pedagogia que se desenvolveu ultimamente, apresenta a base psicológica científica para a elaboração de
uma seqüência otimal do material proposto bem como a'aplicação dos métodos mais eficazes de ensino.
Questões como o grau de desdobramento do processo de assimilação dos conhecimentos por etapa, a
correlação dos meios direto e lógico-verbais de ensino, os modos de formulação otimal de regras, os
procedimentos que asseguram assimilação adequada dos conceitos e a transferência de princípios
assimilados no processo de ensino constituem apenas uma parte das questões estudadas pela psicologia
pedagógica, que dá contribuição substancial para a fundamentação científica do processo pedagógico.
O segundo aspecto do emprego da Psicologia para a construção racional do ensino e da educação é a
análise das peculiaridades psicológicas das crianças, que cria obstáculo para levar-lhes instrução com
êxito.
É sabido que o sucesso do ensino depende não só dos programas e métodos racionalmente organizados
mas também da própria composição dos alunos. Em toda classe, paralelamente aos alunos adiantados, há
aqueles que não conseguem assimilar com êxito o programa escolar e retardam o bom rendimento do
trabalho de toda a turma.
O essencial, porém, é o fato de que a falta de aproveitamento que esses alunos demonstram pode ter
fundamento variado.
Uns alunos não acompanham o aproveitamento por serem mentalmente retardados e o atraso orgânico do
seu cérebro os torna incapazes de assimilar material de complexidade mínima. Essas crianças devem ser
transferidas da escola de massa para uma escola especial, auxiliar. As outras são crianças plenamente
normais, mas o seu atraso deve-se ao fato de que, não tendo assistido a determinada parte do programa,
elas não podem avançar com sucesso porque a assimilação do novo material não encontra nelas a
necessária base de conhecimentos. Essas crianças necessitam de aulas complementares especiais que
possam eliminar as suas lacunas.
Outros alunos (terceiros) demonstram dificuldades na aprendizagem por serem fisicamente fracos, por
terem sofrido uma doença qualquer. Eles são capazes de concentrar com êxito suas atenções apenas
durante tempo limitado, ficam rapidamente exaustos e não têm condições de assimilar o material
correspondente. Eles devem estudar sujeitos a um regime correspondente e nessas condições podem
cumprir com êxito o programa. Por último, o quarto grupo de alunos experimenta dificuldades de
aprendizagem não porque as crianças que o compõem sejam mentalmente retardadas mas porque
apresentam algumas deficiências, como deficiências auditivas, que dificultam a comunicação verbal
oportuna e plena e provocam retardamento temporário do desenvolvimento. Essas crianças devem ser
transferidas para escolas destinadas a alunos de audição difícil, onde procedimentos e métodos especiais
permitirão compensar tais deficiências.
A tarefa mais importante deve ser a identificação oportuna das causas do atraso de diferentes grupos de
crianças e o diagnóstico das diversas formas de atraso no programa. Essa tarefa pode ser cumprida
somente com íntima participação dos psicólogos, que possam descrever as peculiaridades psicológicas
das crianças que não conseguem acompanhar o programa, explicar as causas principais do retardamento
da sua evolução e prestar ajuda substancial na eliminação das deficiências descritas.
O terceiro campo de aplicação prática da Psicologia é a medicina.
15 sabido que o desenvolvimento de uma doença depende não apenas do agente patogênico e do estado
do organismo mas também de como o próprio doente encara sua doença e como a avalia; por outras
palavras, depende daquilo a que os terapeu-tas chamam de "quadro interno da doença". No entanto, a
própria atitude em relação à doença está relacionada com uma série de fatores psicológicos, com as
peculiaridades da estrutura emocional do indivíduo, com o caráter das generalizações que o indivíduo faz.
O estudo das peculiaridades caracterológicas e da estrutura do indivíduo, estudo esse feito pela
Psicologia, tem por isto grande importância para a medicina, permitindo focalizar mais de perto o
fundamento científico da prática da psico-terapia, da psico-higiene e da psicoprofilaxia.
A Psicologia ocupa posição especial em áreas específicas da medicina como a neurologia e a psiquiatria.
Nessa área ela pode prestar ajuda substancial na solução de duas importantíssimas questões: o diagnóstico
e a natureza da doença, por um lado, e o restabelecimento das funções perturbadas, por outro.
Sabe-se que as afecções locais do cérebro só parcialmente se manifestam em sintomas da neurologia
clássica como a mudança de sensibilidade, dos reflexos, do tônus e dos movimentos. Parte considerável
dos grandes hemisférios cerebrais não tem relação direta com nenhum dos referidos processos e a afecção
dessas áreas do cérebro não provoca perturbações visíveis nestes. Essas partes dos grandes hemisférios
estão relacionadas com a realização das formas superiores de atividade psíquica como a análise do afluxo
de informação, a formação de planos e programas de ação e o controle do desenvolvimento da atividade
consciente. É justamente por isto que, sem provocar sintomas fisiológicos nítidos, a afecção dessas áreas
do cérebro provoca perturbações visíveis das formas complexas de atividade psíquica.
Nos últimos decênios surgiu um novo campo da Psicologia — a neuropsicologia — já mencionado por
nós. Este permitiu ver quais os fatores que, fazendo parte das formas complexas de atividade psíquica,
estão relacionados com determinadas áreas do cérebro, permitindo ver, ainda, que tipos de perturbação
dos processos psíquicos se verificam na afecção dessas áreas. Graças a isto tornou-se possível introduzir
um método novo e prático de diagnóstico das afecções locais do cérebro, que aplica a análise psicológica
do caráter das perturbações dos processos psíquicos superiores peio diagnóstico tópico das afecções
cerebrais. Esse método consolidou-se na prática da neurologia e neurocirurgia clínicas. Nos capítulos
correspondentes do presente livro mostraremos os dados de que dispõe a Psicologia para a solução dessas
questões práticas.
Não é menor a importância da Psicologia para precisar o diagnóstico das doenças mentais. As
perturbações da percepção e da ação, da memória e do pensamento assumem caráter absolutamente
diverso sob diferentes formas de retardamento mental e diferentes doenças mentais. Por isto a aplicação
dos métodos da psicopatologia experimental na psiquiatria clínica permite precisar substancialmente o
diagnóstico das doenças mentais e se converte em componente essencial da Psicologia geral.
É grande a importância prática da Psicologia na elaboração das bases científicas do restabelecimento das
junções perturbadas nas afecções cerebrais.
Há relativamente pouco tempo ainda se considerava que as funções, perturbadas como resultados de
afecções locais do cérebro, não se restabeleciam e a afecção do cérebro (principalmente do seu hemisfério
central, dominante) provocava perturbações irreversíveis e condenava o doente à total invalidez.
Mas a doutrina da complexa construção sistêmica dos processos psíquicos superiores mostrou que cada
forma complexa de atividade psíquica é realizada com o auxílio de todo um sistema de zonas cerebrais
que trabalham conjuntamente e permitiu rever radicalmente essas teses. Mostrou que os sistemas
funcionais, que se perturbam com qualquer afecção local do cérebro, podem ser reestruturados com base
na criação de novos sistemas funcionais, baseados nas áreas cerebrais' não-afetadas. Deste modo, as
funções perturbadas podem ser restabelecidas em novas bases.
A teoria do restabelecimento das funções psíquicas superiores (perturbadas durante afecções locais do
cérebro) por meio de um restaurador especial da aprendizagem, elaborada pela Psicologia, tornou-se um
importante componente da medicina moderna.
Por último, cabe mencionar o último campo de aplicação prática da Psicologia: a psicologia forense. O
promotor e o juiz estão constantemente diante de formas complexas de atividade psíquica do homem, dos
seus motivos e traços caracterológicos, da gradação da percepção e da memória, das peculiaridades do seu
pensamento. Por isto a consideração das características psicológicas desses processos deve ser
componente obrigatório da preparação e da atividade do pessoal de atividade forense.
A Psicologia elaborou um enfoque científico de duas importantes áreas da prática forense: a análise dos
depoimentos das testemunhas e o diagnóstico psicológico da coparticipação no crime.
Ficou demonstrado que os depoimentos de testemunhas asseguram matéria autêntica apenas em certos
limites e que o grau dessa autenticidade pode ser estabelecido mediante a aplicação de uma investigação
psicológico-experimental.
Por outro lado, o crime cometido deixa vestígios não só na situação externa como também no próprio
psiquismo do criminoso, daí existirem métodos psicológicos especiais pelos quais esses vestígios podem
ser descobertos.
É natural que a incorporação da Psicologia à solução desses problemas permite dar uma contribuição
importante para a construção da causa judicial em bases científicas e constitui área importante da
aplicação prática da Psicologia.
Deste modo, a Psicologia não é apenas uma área importante da ciência como tem campos amplamente
ramificados de aplicação prática, fornecendo bases científicas para importantes campos da prática.

II
A Evolução do Psiquismo
CAPÍTULO anterior vimos como a ciência moderna entende o objeto da Psicologia e que aplicações
práticas tem esse campo de atividade.
Agora enfocaremos um dos mais importantes problemas da evolução da atividade psíquica.
A origem do psiquismo
A Psicologia pré-científica, que se desenvolveu nos pri-mórdios da filosofia idealista, considerava o
psiquismo como uma das propriedades primárias do homem e a consciência como manifestação direta da
"vida espiritual". Por esta razão nem se colocava o problema das raízes naturais do psiquismo, de sua
origem e dos graus de sua evolução. A filosofia dua-lista supunha que a consciência era tão eterna quanto
a matéria, que aquela sempre existia paralelamente a esta.
A Psicologia científica parte de teses inteiramente diversas e se propõe a tarefa de encontrar uma resposta
para o problema da origem do psiquismo, de descrever as condições nas quais deve ter surgido essa forma
altamente complexa de vida.
Sabe-se que a condição fundamental de surgimento da vida é o surgimento de complexas moléculas
albuminosas, que não podem existir sem um constante metabolismo com o meio. Para sobreviver, elas
devem assimilar do meio ambiente as substâncias que são objeto de alimentação e necessárias para
mantê-las vivas. Ao mesmo tempo, elas devem segregar para o ambiente externo os produtos da
desintegração cuja assimilação pode perturbar-lhes a existência normal. Esses dois processos — a
assimilação e a eliminação — Integram o processo de metabolismo e são condição fundamental de
existência dessas complexas formações albuminosas.
É natural que essas moléculas albuminosas altamente complexas (às vezes são chamadas coacervaíos)
possuam propriedades especiais, que respondem à ação das substâncias úteis ou das condições que
contribuem para a assimilação dessas substâncias, respondendo também à influência nociva que lhes
ameaça a existência. Deste modo, essas moléculas reagem positivamente tanto às substâncias alimentícias
como a condições como a luz e o calor, que também contribuem para a assimilação. Reagem
negativamente aos efeitos mecânicos ou químicos superfortes que lhes dificultam a existência normal.
Elas não reagem às influências "neutras" estranhas ao processo de metabolismo.
Chama-se excitabilidade a propriedade que têm os coacervaíos de responder às influências que integram
o processo de metabolismo (sem dar resposta às influências exteriores "indiferentes" ). Essa propriedade
fundamental se manifesta no processo de transformação da matéria inorgânica em orgânica. Junta-se a ela
uma segunda propriedade: a possibilidade de conservação das propriedades altamente especializadas da
excitabilidade diante das influências, transmitindo de geração a geração as respectivas modificações das
moléculas albuminosas. Essa última propriedade parece relacionar-se com a modificação de algumas
frações dos aminoácidos (particularmente do ácido ribonucléico, que constitui o fundamento
molecular da vida) e costuma ser considerada como importante processo que serve de base à memória
biológica.
Os processos de excitação diante de influências bióticas de importância vital, a aquisição de formas de
excitação altamente especializadas e sua conservação com a transmissão imediata às gerações seguintes
caracterizam o estágio de evolução da vida habitualmente denominado vida vegetativa.
Esses processos caracterizam toda a vida, começando pelas algas mais simples e terminando com as
formas complexas de vida vegetativa. Eles condicionam os chamados "movimentos dos vegetais", que,
em essência, são apenas formas de uma intensa troca ou crescimento, dirigido pela excitação em relação
às influências bióticas (umidade, iluminação, etc). Fenômenos como o crescimento da raiz do vegetal no
sentido da profundidade do solo ou o crescimento irregular do tronco dependendo da iluminação ou a
inclinação dos vegetais no sentido dos raios solares constituem apenas o resultado do fenômenos da
"excitação" diante das influências bióticas (não indiferentes para a vida).
Há uma circunstância que é essencial para a vida vegetativa. O vegetal que responde com um intenso
metabolismo às influências bióticas não reage às influências exteriores, que integram o processo
imediato do metabolismo. Ele não se orienta ativamente no meio ambiente e pode, por exemplo, morrer
por falta de luz ou umidade, mesmo que as fontes de luz e umidade estejam bem próximas mas não
tenham efeito imediato sobre ele.
Dessa forma passiva de vitalidade distinguem-se acen-tuadamente as formas de existência na etapa
seguinte da evolução: o estágio da vida animal.
Cada organismo animal, a começar pelos protozoários, caracteriza-se pelo fato de que o animal reage não
só às influências bióticas, que integram o processo imediato do metabolismo, mas também às influências
"neutras", não-bióti-cas, se estas anunciam o surgimento de influências ("bióticas") de importância vital.
Noutros termos, os animais (mesmo os protozoários) se orientam ativamente na claridade, procuram
condições de importância vital e reagem a todas as mudanças do meio, que são um sinal do surgimento
dessas condições. Quanto mais intenso é o metabolismo, quanto maior é a necessidade de obter
alimentação que o ser vivo simples sente, tanto mais ativos são os seus movimentos e tanto mais
vivificadas são as formas em que se produz sua atividade de "orientação" ou "procura".
Essa capacidade de reagir aos instigadores "abióticos" neutros sob a condição de que eles sinalizem para
o surgimento de influências de importância vital, capacidade essa que surge no estágio de transição para o
mundo animal, é chamada sensibilidade, diferentemente dos fenômenos da ex-citabilidade. É o
surgimento da sensibilidade que pode servir de indício biológico objetivo do surgimento do psiquismo.
Variabilidade do comportamento dos proiozoários
A sensibilidade aos instigadores "neutros", se estes começam a dar sinais do surgimento de influências de
importância vital, provoca mudanças radicais nas formas de vida. O principal consiste em que o ser vivo
começa a "orientar-se" no meio ambiente, a reagir ativamente a cada mudança que neste se processa, ou
seja, começa a adquirir formas de comportamento individualmente variáveis, que não existiam no mundo
vegetal.
Nos primeiros períodos a aquisição desse comportamento individualmente variável se processa com
relativa lentidão, mas apesar disto consegue-se observar o fenômeno até em condições de experimento.
Citemos um experimento típico, realizado pelo pesquisador alemão Bramstedt.
Sabe-se que os unicelulares, usados nesse experimento, são sensíveis ao calor (qué é para eles condição
biótica de importância vital, indispensável ao metabolismo) mas são insensíveis à luz. Por isto se os
colocarmos numa câmara igualmente aquecida, com uma parte clara e outra escura, eles se distribuem
igualmente por toda a câmara. Se, ao contrário, aquecermos uma parte da câmara igualmente iluminada,
eles se concentram no canto aquecido. Mas se durante longo período iluminarmos o canto aquecido e
escurecermos o não-aquecido, a situação muda e os unicelulares se tornam sensíveis à luz, que agora
adquire para eles o significado de sinal de elevação da temperatura e começam a concentrar-se no canto
iluminado da câmara, apesar ias.diferenças de temperatura.
É fato característico que essa sensibilidade à claridade se forma paulatinamente entre os unicelulares,
podendo desaparecer inteiramente se durante longo período a luz não for reforçada pelo calor.
Essa mutabilidade individual do comportamento dos pro-tozoários pode ser provocada com base em suas
reações defensivas, se mudarmos as condições que provocam essas reações. Pode servir de exemplo o
experimento do conhecido pesquisador polonês Edward Dembowski.
Colocados numa proveta arredondada com água, os pro-tozoários fazem movimentos que lhes são
característicos. Co-locados.em tubo idêntico porém com uma seção quadrangular, eles começam a bater-
se contra os vidros dessa proveta mas logo seus movimentos adquirem caráter modificado, que garantem
o mínimo de batidas contra as paredes do vaso. Por conseguinte, a trajetória desses movimentos começa a
refletir a configuração do vaso. A trajetória por eles adquirida se mantém inclusive quando eles são
recolocados num vaso arredondado e passam algum tempo fazendo os mesmos movimentos pela
trajetória rômbica.
O processo de mutabilidade do comportamento-individual dos protozoários, que os distingue
acentuadamente dos vegetais, transcorre com relativa lentidão e as mudanças que surgem desaparecem
com a mesma lentidão. Mas essas mudanças são tão importantes que as novas formas de comportamento
emergentes (de adaptação às novas condições) permitem realizar as respostas necessárias de adaptação às
novas condições de modo muito mais rápido do que se verificava em nível inferior da escada evolutiva.
Exemplo típico desse processo encontramos no experimento do estudioso americano A. Smith.
Um ciliado (tipo de protozoário) foi colocado num vaso estreito com seção microscópica. A seção era tão
pequena que para sair do tubo no sentido da ação do agente biótico (a luz) o ciliado tinha de virar-se,
batendo contra as paredes do tubo. No começo do teste ele gastava de 3 a 6 minutos para virar-se. Mas se
esses experimentos eram repetidos várias vezes durante 10-12 horas, o ciliado começava a virar-se com
rapidez bem maior e no final do teste gastava apenas 1-2 segundos para virar-se. Assim, sob a influência
das novas condições, obtinha-se uma nova "habilidade", que se processava com uma rapidez 180-200
vezes superior à reação inicial.
Como vemos, a formação de um novo tipo de comportamento, que corresponde às condições mudadas,
exige dos protozoários bastante tempo. É característico que, uma vez surgida, a mudança do
comportamento se mantém entre eles durante período bastante longo, sendo necessário muito tempo para
desaparecer.
Isto pode ser observado tanto entre os protozoários uni-celulares como entre os pluricelulares de
organização relativamente simples.
O exemplo, que mostra esse surgimento tão lento e o desaparecimento igualmente lento da nova forma de
comportamento, pode ser visto no experimento realizado inicialmente pelo pesquisador belga Blesson,
posteriormente pelo pesquisador soviético A. N. Leôntyev (cf. Leôntyev, A. N., Problemas da evolução
do psiquismo).
Ainda não conhecemos os mecanismos biológicos dessa manifestação de sensibilidade ao agente neutro
inicial. É possível que ela esteja relacionada com a mudança paulatina das propriedades bioquímicas do
protoplasma. No entanto o fato da manifestação, em vida, de novas formas de reação indica o surgimento
de urna mutabilidade individual no comportamento dos protozoários e dá fundamento para falar-se do
surgimento de um comportamento autêntico, embora muito elementar, nessa fase da evolução.
Mecanismos do comportamento dos protozoários
A ciência ainda conhece muito pouco a respeito das condições físico-químicas do comportamento dos
protozoários e das causas dos seus movimentos positivos ou negativos (movimento no sentido de uns
objetos ou o movimento a partir de outros objetos, respectivamente).
Sabe-se que o protoplasma, que compõe o corpo do animal protozoário (unicelular), é constituído de uma
camada exterior mais sólida (plasma-gel) e de uma camada interior mais líquida (plasma-sol). Sabe-se
também que as camadas externas do protoplasma do unicelular são mais excitáveis do que as
camadas internas, e cada ação externa provoca intenso metabolismo, que se estende paulatinamente das
camadas externas às internas, extinguindo-se conforme o tipo de.gradiente de excitação paulatinamente
decrescente. Esses gradientes de excitação, ao que parece, servem de base aos movimentos do unicelular,
que surgem tão logo a influência externa provoca intenso metabolismo no ponto correspondente de sua
superfície ou quando os processos internos levam à necessidade de procurar ativamente as substâncias
necessárias para assegurar semelhante metabolismo.
Alguns autores supõem que influências adequadas de força moderada provocam reação positiva do
unicelular e levam a um movimento no sentido da respectiva influência, ao passo que influências
inadequadas (ultrafortes ou nocivas) provocam movimento negativo, dirigido a partir do objeto influente.
O movimento positivo leva a que o ohjeto que provoca irritação é inicialmente envolvido pelos filetes do
protoplasma, que, entre os unicelulares mais simples (amebas), é depositado no lugar de metabolismo
mais intensivo e fecha-se em torno desse objeto, incíuindo-o na composição do corpo do unicelular. Se
esse objeto é alimentício, ele é absorvido pelo corpo do unicelular, segregando-se para o meio o produto
da desintegração. Não sendo aliníen-tício, ele é rejeitado para o meio ambiente pelo mesmo caminho que
foi apanhado.
Seria, entretanto, incorreto supor que todos os movimentos dos unicelulares se processam por um
esquema tão simples. Uma peculiaridade do comportamento dos unicelulares é o fato de que as
influências que chegam até eles podem, elas mesmas, sofrer as mais complexas modificações. O próprio
protoplasma do unicelular nunca se encontra em estado de tranqüilidade, mas se caracteriza por sistemas
altamente diferenciados e seletivos de excitação, que mudam segundo o processo de metabolismo que
nele se opera e leva ao surgimento de formas dominantes de excitação.
Como mostraram os experimentos de Fogler, a influência mecânica de certa força provoca apenas reações
relativamente fracas do protozoário, sendo que a excitação pela luz pode não provocar nenhuma reação.
Mas se sobre o protozoário agem simultaneamente a instigação mecânica de determinada força e a
excitação por luz, esses dois estímulos se somam e levam a intensivas reações do protozoário.
Sabe-se que a capacidade de reação da ameba faminta é maior do que a mesma capacidade da ameba
saciada, e ela cria elevada disposição de responder aos estímulos positivos correspondentes ou às
instigações que sinalizam o surgimento destes.
Por último, o unicelular pode "acostumar-se" aos estímulos correspondentes, reduzindo a resposta a eles
na medida do seu prenuncio repetido e longo.
Os mecanismos que servem de base a esse fenômeno ainda são pouco conhecidos e só as observações
ultimamente feitas levam a pensar que o surgimento e a manutenção desses estímulos são o resultado de
certas modificações e do ácido ribonucléico, que é um dos componentes básicos do seu plasma.
Cabe observar que o corpo dos protozoários é relativamente homogêneo e que o processo do metabolismo
mais intensivo pode surgir nele no lugar da excitação que surge imediatamente, formando com isto o
extremo "cerebral" provisório do seu corpo.
Os unicelulares mais complexos têm estrutura incomparavelmente mais complexa. Neles podemos
distinguir "órgãos" permanentes em forma de áreas sensíveis do protoplas-ma, que formam, por exemplo,
os "flagelos" das bactérias. Esses "flagelos" estão em movimento permanente e são agentes das funções
mais importantes de orientação no meio exterior; é neles que surgem os gradientes de excitação constante,
que, espalhando-se pelo resto do corpo do unicelular, coloca-o em movimento.
A riqueza de comportamento dos unicelulares é muito grande e ainda será objeto de estudo especial,
assim como os mecanismos que lhe servem de base. Mas' o que já sabemos a seu respeito nos leva a
pensar que, aqui, estão lançadas as bases da complexa atividade da orientação ativa no meio, que mais
tarde constituirão traço importantíssimo da atividade psíquica.
Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples
Os processos descritos de irritação em face das influências bióticas, de sensibilidade às influências
neutras que anunciam o surgimento de influências de importância vital e de conservação elementar dos
vestígios são suficientes para a conservação da vida dos animais unicelulares.
Mas eles se tornam insuficientes com a transição aos plu-ricelulares.
A transição para os multicelulares complica substancialmente as condições de vida. A alimentação por
meio da difusão direta de substâncias alimentícias, que ocupou posição central no nível dos protozoários,
agora é substituída pelo consumo de comida discreta (concentrada); eleva-se o papel da orientação ativa
no meio externo. Torna-se necessário assegurar movimentos bem mais diferenciais e uma con-
dutibilidade da excitação bem mais rápida do que aquela que se obteve por meio da difusão paulatina dos
gradientes de excitação no protoplasma dos unicelulares. É isto que leva a uma considerável complicação
da estrutura do corpo do plu-ricelular, à separação das células de uma recepção especial de irritações que
chegaram ao corpo do animal, e ao surgimento das primeiras células contrativas, agentes da função que
nas etapas posteriores da evolução será assumida pelas células musculares. Isto leva, por último, a que
nos lugares dos antigos gradientes de excitação comecem a formar-se passagens do protoplasma mais
excitável e se constitua a forma mais elementar do sistema nervoso, qué entre esses animais tem o caráter
de sistema nervoso difuso e com forma de rede.
Tudo isto pode ser visto com nitidez especial na estrutura dos pluricelulares relativamente simples,
pertencentes à classe dos celenterados, por exemplo, na estrutura do corpo da medusa, anêmona-do-mar e
estrela-do-mar.
Esse estágio da evolução dos pluricelulares se caracteriza pelo fato de que a condutibilidade da excitação
se acelera muitas vezes graças ao surgimento do sistema nervoso reti-cular. Se o processo da excitação
pelo protoplasma não vai além da velocidade de 1-2 mícrons por segundo, com o surgimento do sistema
nervoso mais simples (reticular) a velocidade do processo é igual a 0,5m por segundo (observemos que
com a contínua evolução do sistema nervoso e a passagem para as etapas seguintes de sua complicação, a
velocidade do processo de excitação aumenta ainda mais, chegando nos sapos a 35 metros por segundo e
a 125 metros por segundo nos vertebrados superiores).
No entanto as vantagens consideráveis, que surgem com o aparecimento do sistema nervoso difuso
primário (reticu-lar), têm também os seus limites. Como nas etapas da evolução já descritas, os animais
com sistema nervoso reticular ainda não têm extremidade cerebral permanente que dirija o seu
comportamento. A excitação se difunde de maneira igual pelo sistema nervoso reticular em todo o corpo
do animal, e o lugar da aplicação da instigação exterior se torna c ponto principal provisório. Só entre os
celenterados mais complexos, uma parte do corpo (por exemplo, um raio da estrela-do-mar) não difere
pela estrutura de outras partes do corpo (raios), pode tornar-se dominante e assume a função de órgão
mais ativo no movimento. Se amputarmos na estrela-do-mar esse raio "dominante", o papel de
"dominante" passará para outro raio, disposto ao lado dele.
É natural que essa falta de um órgão dominante permanente, capaz não só de receber mas também de
processar, codificar a informação recebida e criar programas de comportamento diferenciado, limita
substancialmente as possibilidades do comportamento nesse nível. Esses defeitos são eliminados nas
etapas posteriores da evolução, sobretudo com a transição para a vida terrena e com a formação de um
sistema nervoso ganglionar de construção mais complexa.
O sistema nervoso ganglionar e o surgimento dos programas de comportamento mais simples
A transição para a vida em terra está relacionada com uma considerável complicação das condições de
vida. A difusão direta de substâncias alimentícias do meio circundante torna-se impossível, tornando-se
incomparavelmente menor a quantidade de comida sólida (discreta) pronta. Essa alimentação encontra-se
agora num meio acentuadamente heterogêneo e a orientação necessária para obtê-la se torna bem mais
difícil.
Tudo isso gera a necessidade de sucessiva complicação do organismo dos animais, criando antes de tudo
uma evolução posterior dos órgãos complexos de recepção e movimentos e de formação de aparelhos
complexos e centralizados de processamento da informação e regulamento dos movimentos. É a isto que
corresponde a etapa seguinte da evolução do sistema nervoso, que leva ao surgimento do sistema nervoso
em cadeia ou ganglionar, que aparece pela primeira vez nos vermes e adquire a máxima complexidade
nos invertebrados superiores, principalmente nos insetos.
Tanto o surgimento do sistema nervoso ganglionar como a formação do comportamento, que se processa
com a ajuda dele, marca um salto de suma importância na evolução da atividade vital.
Nos invertebrados mais simples (vermes) já se pode observar um princípio inteiramente novo de
organização do sistema nervoso em comparação com o estágio anterior. Na extremidade frontal do
verme, concentram-se filamentos que terminam em receptores químicos e táteis, distribuídos de maneira
especialmente densa. Esses aparelhos percebem mudanças químicas, térmicas e de luz que ocorrem no
meio exterior, bem como mudanças de umidade. Os sinais dessas mudanças passam pelos filamentos e
chegam ao núcleo frontal ou gânglio, onde se concentram no primeiro "centro" que surge pela primeira
vez nessa fase da evolução. Aqui esses sinais são codificados, e os "programas" de comportamento que
surgem em forma de impulsos motores se difundem pela cadeia dos gânglios nervosos; cada um desses
gânglios corresponde a um segmento particular do corpo do verme. Os impulsos que chegam a esses
gânglios provocam movimentos correspondentes cuja direção é programada e regulada pelo gânglio
frontal.
Aqui surge um novo princípio: o da centraiidade do sistema nervoso, que se distingue acentuadamente do
princípio da construção do sistema nervoso difuso (reticulado). A extremidade da cabeça do verme, onde
se concentra uma rede especialmente densa de hemo,-mecano,-termo,-foto e hi-dro-receptores, assume
papel principal, ao passo que os gânglios segmentares conservam apenas uma autonomia relativa. Isto é
facilmente verificável se dividirmos ao meio o corpo do verme. Neste caso a parte dianteira se enfiará no
chão, conservando seus movimentos organizados, enquanto a parte traseira se limitará a simples
contorções, sem revelar nenhum indício de movimento organizado.
A complicação da esrtutura do sistema nervoso no estágio dos vermos permite observar entre eles tipos
mais perfeitos (se bem que ainda muito primitivos) "de formação de novos modelos de comportamento
individualmente adquiridos. Isso foi demonstrado em seu tempo pelo famoso psicólogo americano R. M.
Yerkes, que colocou minhocas num tubo em forma de T, labirinto extremamente simples. No extremo
esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico, que provocava reação defensiva. Com várias
repetições desse experimento, a minhoca podia adquirir a ''habilidade" de evitar o choque elétrico e
encaminhar-se para o lado direito. A lentidão com que se desenvolveu esse processo pode ser vista no
seguinte: foram necessários mais de 150 testes para que o comportamento da minhoca adquirisse caráter
organizado e na grande maioria do testes ela começasse a encaminhar-se para a direita, evitando o choque
elétrico.
Processo de "ensinamento"
da minhoca no labirinto em forma de T
Testes N" de t
1-40 —
41-80 —
81-120 —
121-160 —
161-200 —
201-240 —
Processo de "reensinamento" da minhoca no labirinto em forma de T
'rr Testes JV? de
os erros
17 Ensinamento repetido
14 1-40 —. 19
13 41-80 — 9
9 81-120 — 4
4 Reensinamento
4 161-165 — 4
166-175 — 7
176-185 — 7
186-195 — 7
196-205 — 5
206-215 — 3
216-225 — 2
Repetindo-se esse mesmo experimento após uma longa pausa, a "aprendizagem" começa a a processar-se
duas vezes mais rápido e depois de 80 experimentos o número de erros já é mínimo. Foi sintomático,
ainda, que os experimentos de "reensinamento" da minhoca (nesses testes a minhoca já começava a
receber choque elétrico da direita e não da esquerda) se desenvolveram de modo consideravelmente mais
lento e só depois de 200 testes começava a manifestar-se algum efeito do "reensinamento".
Isto mostra que o sistema nervoso ganglionar dos vermes permite adquirir não apenas novas formas de
comportamento como também conservar as "habilidades" adquiridas, noutros termos, que a minhoca
possui uma forma primitiva de memória.
Ultimamente têm sido realizados experimentos que per» mitem que nos convençamos da possibilidade de
transmissão dessa "habilidade" e demos alguns passos no sentido da elucidação dos mecanismos
bioquímicos que servem de base à memória elementar. Nesses experimentos, o pesquisador americano J.
V. Mc Connell "ensinou" a um grupo de vermes o comportamento necessário num labirinto muito
simples. Depois disto, ele triturou os corpos desses vermes, fez deles um extrato e com este alimentou
outros vermes que nunca haviam sido ensinados. Como mostrou o experimento, os vermes que
absorveram esse extrato "assimilaram" simultaneamente as habilidades adquiridas pelo primeiro grupo de
vermes. Ao serem colocados pela primeira vez no labirinto, eles cometeram imediatamente bem menos
erros do que os vermes comuns não-ensinados. Esse fato levou Mc Connell ã Supor que a aquisição de
"habilidade" nessas etapas da evolução está relacionada com profundas mudanças bioquímicas do proto-
plasma e que a "habilidade" adquirida pode ser "transmitida" por via humoral.
A ciência não dispõe de uma apreciação definitiva e pela interpretação dos dados obtidos nesse
experimento pode-se apenas supor que as mudanças, provocadas por semelhante "aprendizagem", estão
relacionadas com a modificação do ácido ribonucléico (ARN) . Isto foi mostrado pelos experimentos nos
quais os corpos dos vermes "ensinados" foram previamente depositados em solução de ribonuclease
(fermento que dissolve o ARN) . Depois disto o extrato das partes posteriores do corpo dos vermes
"ensinados" não provocou o efeito necessário, ao passo que o extrato das partes anteriores dos vermes
"ensinados" (incluindo a substância de gânglio frontal) continuou provocando o' mesmo efeito. Esses
experimentos se referem tanto à importância do ácido ribonucléico para a conservação da "habilidade"
como à importância que para a conservação da "memória" do verme tem o gânglio frontal, cujas células
são imunss ao efeito dis-.solvente do, ribonuclease.
Até hoje se discute na ciência se esses experimentos se referem à "transmissão de informação" por via
humoral ou apenas ao aumento geral da "excitabilídade", verificado na assimilação da substância dos
corpos dos vermes ensinados, Apesar de não haver uma resposta definitiva a essa questão, os resultados
dos experimentos mostram que nessa etapa da evolução é possível a aquisição de uma "habilidade"
estável e que todas as células do corpo do animal parecem participar da conservação dessa "habilidade".
Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento ("instintivo")
A evolução posterior do comportamento está relacionada com o surgimento de aparelhos complexo-
diferenciados de recepção, que permitem assimilar uma informação altamente especializada que vem do
meio exterior. Essa evolução está relacionada, ainda, com o desenvolvimento de programas sumamente
complexos, que permitem ao animal adaptar-se às condições complexas porém permanentes e estáveis do
meio. Tudo isso se torna possível nas etapas posteriores da evolução do sistema nervoso ganglionar e se
manifesta com nitidez especial nos articulados.
As complexas condições de vida tornam necessária a formação de órgãos multiformes de sensibilidade,
que permitam registrar as diversas influências do meio exterior. Vejamos isto no exemplo da evolução
dos fotorreceptores. A princípio, as células sensíveis à luz estavam simplesmente concentradas na
superfície frontal do corpo, dando ao animal a possibilidade de assimilar o efeito da luz mas não permitia
localizar a fonte da luz no espaço. Na etapa seguinte da evolução, as células sensíveis à luz se
concentravam em dois discos sensíveis à luz, localizados nos dois lados da extremidade frontal do corpo.
Isto permitia aos animais orientar-se a respeito da posição espacial da fonte de luz e voltar o tronco para a
direita ou a esquerda mas ainda não permitia distinguir as propriedades do objeto que agia sobre o
organismo. Só na última etapa da evolução, os discos hipersensíveis se arqueavam, adquirindo a forma de
uma esfera vazia. Um pequeno orifício, que mais tarde foi preenchido pelo meio refra-tário (o cristalino),
permitia a refração da luz cadente e o efeito de objeto luminoso se imprimia na camada sensível dessa
esfera vazia. Surgia o órgão do complexo receptor fotossensível — o olho —, que pela primeira vez
permitia não apenas reagir à existência da luz como também refletir as propriedades do objeto agente.
A estrutura do olho, o mais importante órgão receptor de luz, é diferente em animais diferentes. Nos
insetos ela tem o caráter de "olho de faceta", construído, às vezes, de muitos milhares de células
independentes. Entre os vertebrados assume a forma do olho único tão familiar entre nós, que permite
perceber o reflexo do objeto e mudar a nitidez do reflexo por meio' de um sistema auto-regulável de
aparelho refratário. Mas em todos os casos o surgimento de um órgão complexo, que permite reconhecer
à distância os objetos agentes, continua sendo uma das conquistas mais importantes da evolução.
Os insetos possuem um grande número de receptores altamente diferenciados. A par com o complexo
"fotorrecep-tor (o olho), eles têm receptores químico-táteis especiais (situados nas antenas), receptores de
sabor (situados na cavidade bucal, nas pernas), que captam as mínimas mudanças de sabor, receptores de
vibração (situados nos tímpanos das pernas), que reagem às mais ínfimas vibrações ultra-sônicas, às vezes
até a 600.000 vibrações por segundo. É possível que eles ainda tenham toda uma Série de órgãos
receptores por nós desconhecidos, cuja especialização foi por eles desenvolvida em um processo de
milhões de gerações.
As excitações, provocadas pelos efeitos que atingem esses aparelhos receptores, difundem-se pelos
filamentos nervosos e chegam ao gânglio frontal, que é um protótipo do cérebro e um aparelho que reúne
(codifica) os impulsos que chegam até ele e transferem esses impulsos para os sistemas ultracomplexos de
programas congênitos de comportamento, que servem de base aos movimentos de adaptação dos insetos .
O gânglio frontal dos insetos superiores, das abelhas, por exemplo, apresenta uma estrutura muito
complexa. É formado por um acúmulo de células nervosas diferenciadas, às quais chegam os impulsos
dos receptores periféricos. Na parte frontal desse gânglio se situam principalmente as células visuais, na
parte média, as células olfativas, na parte posterior, as células sensíveis da cavidade bucal. É
característico que a disposição dessas células tem caráter organizado. Nelas já se pode observar uma
estrutura plana de "vídeo", que permite que as excitações provocadas se difundam nas estruturas
neurôniças do gânglio frontal em forma organizada, assegurando com isto o reflexo de determinadas
influências estruturalmente organizadas.
Como foi estabelecido pelas últimas pesquisas, é característico que já nessa fase da evolução façam parte
da composição do gânglio frontal os neurônios altamente especializados, que reagem aos mínimos
indícios particulares da informação que chega ao organismo, dividindo-a em grande número de elementos
componentes e permitindo, posteriormente, reuni-los em estruturas integrais (adiante falaremos da forma
de funcionamento desses neurônios).
Tudo isso torna o gânglio frontal dos insetos superiores um aparelho central sumamente complexo, que
permite captar as múltiplas influências do meio e codificar as influências captáveis em sistemas integrais.
Os códigos de excitações, que surgem em determinadas irritações no gânglio frontal dos insetos, são
transmitidos na forma de programas complexos de comportamento ao gânglio toráxico situado abaixo,
onde surgem os impulsos dos complexos movimentos de adaptação do inseto, impulsos esses que lhe
formam o comportamento.
Os complexíssimos programas de comportamento dos insetos representam um interesse tão grande que
exigem análise especial e minuciosa.
A peculiaridade dos programas sumamente complexos, que representam uma parcela de absoluto
predomínio no comportamento dos insetos, consiste em que tais programas são congênitos e
transmissíveis por hereditariedade. Esses programas são produzidos por milhões de gerações e
transmitidos por hereditariedade do mesmo modo que as peculiaridades da estrutura do corpo (as formas
das asas, as características da tromba, a estrutura dos órgãos receptores. Eles estão bem adaptados às
condições de existência dos insetos).
São inúmeros os exemplos de programas congênitos de comportamento, entre os insetos. Freqüentemente
eles são de tal forma complexos e racionais que alguns autores os consideraram exemplo de
comportamento racional.
É sabido que a larva do gorgulho da bétula corta-lhe a folha numa forma geométrica ideal, próxima da
estrutura ideal matematicamente calculada, para em seguida transformá-la em canudo e utilizá-lo para
metamorfosear-se em cri-sálida. O mosquito deita as células sobre a superfície da água e nunca na terra,
onde elas secam fatalmente. A vespa esfecídea deita as células no corpo da lagarta para que as larvas que
venham a nascer não sintam falta de alimento. Para tanto ela fura previamente o gânglio do tronco da
lagarta de maneira a que esta não morra mas fique apenas sem movimento; isto ela faz com admirável
precisão. Não é necessário falar dos programas congênitos de comportamento da aranha, que tece uma
teia impressionante pela construção, ou dos programas congênitos de comportamento da abelha, que
constrói favos de forma economicamente ideal, enche esses favos de mel e os lacra com cera tão logo eles
estejam suficientemente cheios.
Os exemplos citados de comportamento racional altamente complexo, e muitos outros, são congênitos, os
insetos não precisam estudá-lo, nascem com essas formas de comportamento assim como nascem com
uma estrutura dos órgãos dos sentidos impressionante pela racionalidade.
Tudo isso deu a muitos autores fundamentos para falar da racionalidade dos instintos e aproximá-los do
comportamento racional.
Só ultimamente as pesquisas dos zoólogos, particularmente da corrente denominada etologia (etos -—
comportamento), deram certa clareza à forma misteriosa do comportamento e mostraram que essa forma
de atividade, que impressiona pela complexidade e a aparente racionalidade, encobre mecanismos
elementares. Essas pesquisas mostraram que os complexíssimos programas de comportamento
"instintivo" são gerados de fato por estímulos elementares, que colocam em ação os ciclos congênitos
dos atos de adaptação.
Assim, o brilho da água leva o mosquito a deitar células na superfície aquosa. Por isto basta substituir a
água por um espelho brilhante para o mosquito começar a depositar células em sua superfície. O
complexo programa congênito de atividade da aranha, que ataca a mosca que se enreda na teia e a devora,
é gerado de fato pela vibração da teia; se um diapasão vibrante toca a tela, a aranha se lança contra ele
assim como se lança contra a mosca.
Os mecanismos descritos permitem avançar consideravelmente no sentido de melhorar a compreensão
dos processos que servem de base ao comportamento congênito e passar da simples descrição à sua
explicação, mostrar o quanto o comportamento instintivo difere do comportamento racional.
Citemos apenas um exemplo, que mostra a complexidade com que se desenvolve semelhante pesquisa e
que interessantes são os resultados a que ela conduz.
É sabido que algumas variedades de minhocas, após se abastecerem de folhas para o inverno, arrastam-
nas para os seus buracos pela extremidade fina. Isto se considerava manifestação da "atividade racional"
das minhocas, à qual Dar-win se referiu em sua época, e levava a supor que a minhoca percebe a forma da
folha e "calcula" por que extremidade é melhor arrastá-la para o buraco.
Essa hipótese mudou substancialmente depois que o pesquisador alemão Haneli realizou o seguinte
experimento: cortou de uma folha um pedaço, reproduzindo a forma dessa folha mas com a ponta para
baixo. Neste caso a minhoca tentou arrastar a folha para o buraco não pela ponta fina, mas pela grossa. A
causa desse comportamento da minhoca tornou-se objeto da pesquisa de outro cientista — Manholdt. Este
supôs que o comportamento da minhoca fosse determinado não pela percepção da forma mas por uma
sensibilidade química bem mais elementar. Para verificar isto ele colocou diante da minhoca vários
pauzinhos iguais, mas passou seiva da parte superior da folha numa ponta dos pauzinhos, fazendo o
mesmo na ponta de outros com seiva da base da folha e, ainda, seiva da parte superior numa ponta e seiva
de enxerto noutra. Como testes de controle, passou seiva da parte superior ou do enxerto da folha numa
ponta dos pauzinhos, passando gelatina neutra em outra. Os resultados do teste mostraram que, nesses
casos, a freqüência com que a minhoca arrastava o pauzinho para o buraco por uma ou outra ponta não
era a mesma e que o fator principal que resolvia a questão era a diferença de distinção química entre a
parte superior e seu enxerto.
(a) (b) (a/b)
seiva da parte superior — bases da folha (b) relação de preferên-da folha (s)
cia de uma ou ou-
parte superior da folha (s) — enxerto (t) tra extremidade da
parte superior da folha (s) — gelatina (g) folha
enxerto (e) — gelatina (g) 51:49
68:32 93:7 84:16
Assim, se uma ponta do pauzinho estava untada com seiva da parte superior da folha e a outra ponta com
seiva da base, a minhoca não manifestava qualquer preferência por essa ou aquela ponta. Se uma ponta
estava untada com seiva da parte superior da folha e a outra com seiva do enxerto, a minhoca preferia
duas vezes mais a ponta com seiva da parte superior. No teste de controle em que se passava* gelatina
neutra numa ponta do pauzinho, essa preferência pela seiva da parte superior da folha foi ainda mais
nítida.
Deste modo, a hipótese segundo a qual a minhoca reage à forma da folha foi abandonada, mostrando-se
que um sentido químico bem mais simples desempenha papel decisivo no processo dessa complexa forma
de atividade.
Todas as observações descritas permitiram que nos convencêssemos de que, apesar dos programas de
comportamento congênito muito complexos que dominam nos invertebrados (principalmente nos insetos),
eles podem ser acionados por sinais relativamente simples. Esses sinais, que acionam mecanismos
congênitos muito complexos, refletem as condições ecológicas de vida do animal e são produtos de uma
longa evolução.
As condições que põem em ação os programas congênitos de comportamento, manifestaram-se .com
nitidez especial na análise dos indícios a que reage o inseto (a abelha, por exemplo), quando esta pousa
seletivamente sobre essas ou aquelas espécies de flores melíferas.
Verificou-se que esses indícios podem ser constituídos pela forma complexa da flor e às vezes por seu
colorido.
Como mostraram em pesquisa o famoso zoólogo alemão Frisch e posteriormente Hertz com seus
experimentos, nos quais a abelha era treinada para pousar em xícaras com solução de açúcar, cobertas por
desenhos de diferentes formas geométricas, é com dificuldade que a abelha distingue formas geométricas
simples como o triângulo e o quadrado, mas distingue facilmente formas complexas como a estrela
pentagonal e hexagonal ou figuras cruciformes, dispostas sob ângulos diversos. Por último, a abelha
distingue com a mesma facilidade o círculo simples e o cortado, não pousando sobre o primeiro e
reagindo seletivamente ao segundo.
Essas pesquisas mostram que o fator que permite à abelha distinguir as formas correspondentes não é
constituído pela simplicidade geométrica destas mas por sua semelhança com os instigadores naturais:
a forma das flores.
Deram resultados análogos experimentos em que a abelha distinguiu coloridos diferentes. Eles mostraram
que a abelha distingue com dificuldade as cores puras, distingue com muito mais facilidade as cores
mistas (vermelho-amare-lo, amarelo-verde, verde-azul, etc), que reproduzem o colorido de flores
diferentes.
Tudo isso mostra que o fator decisivo para a distinção dos indícios que acionam os programas congênitos
(instintivos) de comportamento são as condições naturais de vida (condições ecológicas), que determinam
exatamente o indício distinguido pelo animal.
É muito possível que essa elevada seletividade dos indícios a que reage o inseto esteja relacionada com o
surgimento de neurônios do gânglio frontal altamente especializados, que, no processo de evolução,
adquiriram a capacidade de responder seletivamente aos estímulos de importância vital como as cores
mistas, o aspecto estrelário ou o corte das formas, a disposição das formas no espaço, etc.
As pesquisas, realizadas por zoólogos e psicólogos, convenceram de mais uma importantíssima
peculiaridade do comportamento congênito "instintivo". Verificou-se que os programas congênitos de
comportamento "instintivos" são racionais apenas em determinadas condições rigorosamente
padronizadas, de acordo com as quais esses programas se formaram no processo de evolução. Mas basta
mudar um pouco essas condições para que os programas congênitos deixem de ser racionais e percam seu
caráter "racional".
Essa tese pode ser ilustrada com dois exemplos. Sabe-se que uma espécie de vespas formou um
comportamento muito "racional". Ao chegar com a presa ao buraco onde a guada, ela deixa a presa junto
do buraco, entra nele e depois de encontrá-lo vazio sai, traz a presa para dentro e se retira.
Mas a questão muda substancialmente quando num experimento especial, aproveitando o momento em
que a vespa faz seu reconhecimento no buraco, pega-se a presa que está na boca do buraco, afastando-a
alguns centímetros. Neste caso, ao sair do buraco e não encontrar a presa no lugar anterior, a vespa torna
a arrastá-la para a posição anterior e. .. volta a entrar no buraco que acaba de inspecionar. A vespa pode
repetir esse comportamento muitas vezes consecutivas, e sempre que a presa se desloca alguns
centímetros ela continua a repetir mecanicamente o reconhecimento do buraco, perdendo nessas
condições a sua racionalidade.
Observações análogas foram feitas com abelhas. É sabido que a abelha enche os favos com mel e, após
depositar a quantidade suficiente de mel, lacra os favos. Mas se em condições de um experimento
especial corta-se todo o fundo dos favos, derramando-se o mel neles depositados pela abelha, esta
continua a lacrar os favos vazios durante o períoSo fixado em seu programa instintivo. E aqui o
comportamento, que fora racional em condições padronizadas e permanentes de vida, perde sua
racionalidade quando essas condições se modificam.
Tudo isso mostra que os programas congênitos "instintivos" de comportamento, predominantes na
atividade dos insetos, são programas rotineiros, mecânicos, conservando sua aparente "racionalidade"
apenas sob condições padronizadas permanentes segundo as quais eles foram adquiridos no processo da
evolução.
A racionalidade desse predomínio de programas específicos de comportamento corresponde ao princípio
biológico fundamental de vida dos insetos. Via de regra, estes depositam um imenso número de células,
que se distingue por um grande excesso. £ó um pequeno número de vespas que nasce dessas células
consegue sobreviver, más esse número já é o suficiente para a preservação da espécie. Por isto, apesar de
que grande número de vespas morre quando as mudanças das condições tornam os programas congênitos
inadequados, assim mesmo conserva-se a espécie e os programas congênitos de comportamento
"instintivo" são suficientes para a preservação da espécie.
Esse tipo de adaptação dos programas congênitos de comportamento, com uma mutabilidade lenta e
difícil, é bio-logicamente racional sob as condições de grande excesso de reprodução que se verifica no
mundo dos insetos. No entanto ele se torna biologicamente insuficiente para outro ramo da evolução —
os vertebrados. Entre estes não se verifica esse excesso de reprodução, criando-se condições, que tornam
racional outro tipo de comportamento: o comportamento individualmente mutável" no nível mais
elevado.
O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados
Tudo o que sabemos acerca dos modos de vida e do comportamento dos vertebrados mostra que tanto as
formas de vida como as formas de comportamento dessa espécie obedecem a um princípio inteiramente
distinto.
Só os vertebrados inferiores, que habitam o meio aquo-so, apresentam um excesso de reprodução tão
grande que os aproxima da classe dos insetos, pois sobrevive apenas um número relativamente pequeno
de indivíduos que nascem de ovas fecundas. Por isto só entre os peixes a prevalência de formas de
comportamento pouco variáveis e hereditariamen-te programadas é suficiente para a preservação da
espécie.
Diferente é o quadro que observamos com a passagem dos vertebrados à vida em terra. As condições de
alimentação se tornam mais complexas, o meio mais mutável, aumentando infinitamente as necessidades
de orientação nesse meio em constante mudança. Muda simultaneamente também o tipo de reprodução:
cada indivíduo reproduz apenas 2-3 e mais raramente 5-6 semelhantes, e a sobrevivência dos indivíduos
isolados se torna uma condição para a preservação da espécie.
Tudo isso cria uma necessidade biológica para que, paralelamente ao comportamento "instintivo" (ou de
espécie) congênito e pouco mutável, surja um novo comportamento individualmente variável. Essa nova
forma de comportamento existe em embrião nos vertebrados inferiores mas nas fases posteriores da
evolução começam a ocupar posição cada vez mais destacada para nos mamíferos superiores (macacos) e,
em seguida, no homem, afastar definitivamente as formas congênitas ("instintivas") inferiores de
comportamento.
A necessidade da complicação das formas de orientação na realidade ambiente e aquisição de novas
possibilidades de orientação individual nas condições mutáveis do meio e a criação de novas formas
individualmente mutáveis de adaptação levam, no processo de evolução, à criação de órgãos nervosos
basicamente novos, que seriam capazes não apenas de receber os sinais do meio e pôr em ação os
programas de comportamento "instintivo", transmissíveis pors ; hereditarieda-de, como também de
analisar a informação recebida e fechar as novas ligações, assegurando novas formas individualmente
variáveis de comportamento. Esse órgão é o cérebro, cuja estrutura reflete o longo caminho percorrido
pela evolução.
A formação do cérebro do animal obedece ao tipo de série de níveis ou camadas sobrepostas umas às
outras.
Os níveis inferiores, situados no tronco cerebral, garantem os processos de regulagem do estado interno
do organismo — metabolismo (hipófise), respiração e circulação sangüínea (tronco) e respostas reflexas
aos instigadores elementares qué do meio exterior chegam ao animal (corpo qua-drigêmeo). Esses órgãos,
construídos segundo o tipo de conjuntos nervoso-secretórios ou de núcleos nervosos (gânglios),
predominam entre os vertebrados inferiores e permitem-lhes realizar programas congênitos mais
elementares de atividade adaptadora, que por pouca coisa diferem dos tipos de atividade intensiva acima
descritos.
Exemplo típico dessa construção de cérebro é o cérebro da rã, que é constituído de formações do tronco
superior com um corpo quadrigêmeo poderosamente desenvolvido e estruturas mais elevadas apenas
esboçadas, assegurando acima de tudo o cumprimento dos programas "instintivos" e pouco mutáveis de
comportamento que se formaram no processo da evolução. Esses programas de comportamento
apresentam estrutura semelhante à acima descrita. Ao perceber uma mosca, a rã salta de mandíbulas
abertas e a apanha com sua língua viscosa. Esse comportamento complexo é determinado por um
estímulo relativamente elementar — uma cinti-iaçâo visualmente perceptível —, não sendo,
absolutamente, resposta a um sinal previamente analisado. Isto pode ser facilmente visto se pendurarmos
uma pequena nesga de papel num fio de cabelo e a pusermos em movimento torcendo esse fio. Neste caso
a cintilaçjío aciona os programas congênitos de comportamento e a rã se lança automaticamente contra o
papel cintilante como o faz contra a mosca.
Sobre o órgão do tronco constituem-se formações mais elevadas, que incluem inicialmente o sistema
talâmico-estria-do (regiões subcorticais) e o córtex primitivo (olfativo), incluindo posteriormente, nos
vertebrados superiores, formações de uma nova camada de grandes hemisférios, que se desenvolvem cada
vez mais e aos poucos vão começando a dominar inteiramente as formações de nível inferior.
Os órgãos do sistema talâmico-estriado, que começam a predominar nos répteis e nas aves e,
posteriormente, os órgãos da camada antiga, asseguram formas de comportamento individual mais
plásticas do que as formas que se observavam nos vertebrados inferiores. Mas essas formas de
comportamento, que já adquirem traços de variedade individual, a^nda estão estreitamente vinculadas a
formas congênitas mais elementares de comportamento e apresentam traços dos tipos de atividade
adaptadora que são congênitas no animal e refletem as peculiaridades da sua ecologia (i. e., das formas
biológicas estáveis de sua existência).
Uma análise atenta mostra que esses programas congênitos de comportamento, às vezes muito
complexos, podem ser gerados por estímulos relativamente simples, que refletem as formas de vida do
animal.
Como mostraram as observações de diversos autores, entre elas as do fisiologista soviético A. D. Slônim,
os complexos movimentos de sucção do animal recém-nascido são efetivamente provocados por
diferentes sinais que refletem as condições biológicas de sua vida: os movimentos de sucção do filhote de
cão são provocados pela maciez do pêlo (indício principal da fêmea lactante); no cordeiro, esses
movimentos são provocados pelo escurecimento da teta (que reflete o fato biológico de que o cordeiro
que começa a mamar aproxima-se da ovelha e mama sacudindo a cabeça).
Esse mesmo condicionamento ecológico das reações seletivas caracteriza muitos animais e depende mais
do seu modo de vida do que da classe zoológica a que eles pertencem.
Assim, o pato doméstico (que se alimenta de comidas vegetais) é indiferente aos cheiros de podre mas
tem o: olfato apurado para os cheiros de vetegais, ao passo que o esmeri-lhão, que se alimenta de carniça,
tem o olfato apurado para os cheiros de podre mas é indiferente aos cheiros de vegetais.
É sintomático que as peculiaridades ecológicas se refletem também em formas mais complexas de
comportamento animal. É fato bem conhecido que o cão começa a salivar ao ver uma ave. No entanto, o
que é menos conhecido, a raposa que se prepara para obter alimento-sofre inibição ao vê-lo e retém a
saliva.
Todos esses exemplos mostram que as formas complexas de comportamento natural, realizado pelos
órgãos das áreas mais elevadas do cérebro, mantêm a mais estreita ligação com os programas congênitos
de comportamento, que se formam no processo da evolução sob a influência das condições de existência
(ecologia) dos animais.
Sobre os órgãos que acabamos de descrever, edificam-se os órgãos do nível seguinte e mais elevado do
sistema nervoso dos grandes hemisférios, particularmente do novo córtex cerebral cujo peso, como
mostram os dados que abaixo citamos, começam a ocupar posição cada vez maior em relação ao peso do
corpo.
baleia leão cão macaco homem
1/10.000 1/540 1/250 1/100 1/40
Os grandes hemisférios cerebrais começam a adquirir não apenas um grande peso relativo no processo da
evolução dos vertebrados superiores como ainda assumem grande importância. Se nos mamíferos
inferiores o córtex ainda não tem papel dominante e a regulação dos processos de comportamento pode
ser realizada com êxito mesmo que o córtex seja destruído, já nos mamíferos superiores ele adquire
importância de maior peso e os processos de comportamento, por mais insignificante que seja a sua
complexidade, já não podem ser realizados com a destruição do córtex.
Os fatos que sugerem uma grande dependência das funções em relação ao córtex cerebral, em outros
termos, que sugerem uma verticalização progressiva das junções podem ser vistos nos resultados das
observações do pesquisador alemão Schafer, que mostram que processos de percepção e que movimentos
podem permanecer em diferentes etapas da evolução dos mamíferos depois da extinção do córtex.
Colocamos num quadro sinóptico os resultados das observações.
Influência da extirpação do córtex cerebral sobre os processos visuais e motores nas fases sucessivas da
evolução (segundo Schafer)
Funções visuais Funções motoras
A ave, depois da extirpação do A ave, depois da extirpação do córtex dos grandes hemisférios,continua
a voar; córtex dos grandes hemisférios, mantendo os seus movimentos.
Continua a ver, a pousar no lu-
Gar marcado
O rato, depois da extirpação do O gato, depois da extirpação das áreas correspondentes dos grandes
hemis- córtex dos hemisférios, não dis- férios,recupera seus movimentos algumas horas depois.
Tingue os formas e só reage à luz.
O macaco fica cego após a extir- O cão, 24 horas após a extirpação das áreas correspondentes do córtex
dos pação das ares correspondentes grandes hemisférios, pode manter-se em pé mas se
desorganizam os seus movimen dos grandes hemisférios, tos independentes.
O macaco, após a extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemisférios, pode manter-se em pé
somente ajudado.
Tudo isso mostra que os grandes hemisférios não apenas começam a ocupar posição de grande destaque
em relação ao restante do cérebro como ainda desempenham papel dominante na regulação da formas
complexas de comportamento animal.
A função principal dos grandes hemisférios e do seu componente fundamental — o córtex cerebral —
consiste em que este é um órgão que não só recebe os sinais e põe em ação os programas alicerçados de
comportamento da espécie como ainda permite analisar a informação recebida do meio exterior,
orientar-se nas suas mudanças, fechar novas ligações e formar novos programas de comportamento
individualmente variáveis, correspondentes a essas mudanças.
A essa nova tarefa corresponde a estrutura do córtex dos grandes hemisférios cerebrais, cuja massa é
constituída de um imenso número de células (neurônios) nervosas isoladas, distribuídas em seis camadas
principais; a quarta destas é o ponto onde terminam os tecidos que levam a irritação dos órgãos, dos
sentidos e das superfícies receptoras do corpo e onde as irritações se transferem para outros neurônios. A
quinta camada é o lugar de onde os impulsos motores se dirigem aos músculos e, finalmente, o último
grupo de camadas (a segunda e a terceira) concentra um imenso número de neurônios, que reelaboram
(recodificam) os impulsos que chegam ao córtex cerebral e fecham novas ligações, que asseguram a
formação de novos programas de comportamento individualmente variáveis (no IV capítulo faremos uma
descrição minuciosa da estrutura do córtex dos grandes hemisférios, incluindo aí as camadas restantes) .
O traço característico do córtex dos grandes hemisférios consiste em que as suas diversas regiões estão
ocupadas com a projeção dos diferentes órgãos dos sentidos (tato, visão, olfato, audição e sensibilidade
neuromuscular). O princípio ecológico de construção e funcionamento do aparelho nervoso central se
manifesta também aqui, e quanto maior é a importância desse ou daquele tipo de sensibilidade na vida do
animal, tanto mais importante é o seu lugar no córtex cerebral.
Deste modo, no córtex cerebral do ouriço (este animal se orienta predominantemente pelo olfato) as
regiões olfativas do cérebro ocupam quase um terço dos hemisférios, ao passo que no homem as regiões
olfativas do cérebro são acentuadamente reduzidas.
No macaco, a orientação no mundo exterior é altamente relevante porque as áreas visuais do córtex
ocupam posição de grande destaque, ao passo que no cão (animal predominantemente olfativo) as áreas
dos grandes hemisférios ocupam posição bem inferior.
O mesmo podemos dizer da posição relativa que ocupam no córtex cerebral as projeções dos órgãos do
corpo. Isto ficou evidenciado nos experimentos do fisiologista inglês Adrian, que estabeleceu por um
método eletro fisiológico especial que o território ocupado pela projeção da anca no cérebro do porco é
muito pequeno, ao passo que a projeção do "focinho" do porco (que é para este o mais importante órgão
do tato, do faro, etc.) ocupa um território imenso, desproporcional ao seu tamanho. É uma peculiaridade
que a projeção dos lábios da ovelha — principal órgão de orientação desse animal — ocupa idêntica
posição desproporcional nos grandes hemisférios desse mamífero. Tudo isso mostra que o córtex dos
grandes hemisférios do cérebro, que se desenvolve de maneira potente nas etapas tardias da evolução dos
vertebrados superiores, forma-se sob a ação direta das condições ecológicas e é justamente esse fator que
o converte em órgão principal, que assegura as formas mais complexas de análise e síntese da informação
recebida do meio exterior, bem como em órgão fundamental de regulação do comportamento
individualmente variável.
Mecanismos do comportamento individualmente variável
Se os mecanismos dos programas instintivos de comportamento se reduzissem a que um estímulo
qualquer, surgido no processo de evolução de uma espécie, acionasse programas complexos de
comportamento, gerados no processo da evolução, então seria bem mais complexo o mecanismo do
comportamento individualmente variável, que se realiza através do córtex cerebral. Este se reduz a que,
como resultado de uma ativa orientação do animal nas condições do meio, o estímulo que tenha sido de
importância essencial e dê o sinal do surgimento de condições de significado vital (alimento, perigo)
começa a distinguir-se do meio ambiente e leva ao fechamento de ligações e ao surgimento de novos
programas de comportamento, por meio dos quais o animal atinge o fim necessário ou evita o perigo que
o ameaça.
Os mecanismos fisiológicos, que levam ao surgimento de novas formas de comportamento
individualmente variáveis, foram estudados em pormenores na escola de Pávlov e constituem a essência
da doutrina das ligações temporárias e dos reflexos condicionados.
É de interesse, entretanto, a descrição das condições sob as quais surgem novas formas individualmente
modificadas de comportamento adaptador do animal e as etapas pelas quais eles passam em sua
formação.
As condições e etapas do surgimento de novas formas de comportamento individualmente variáveis
foram estudadas minuciosamente por um grande número de pesquisadores, mas enfatizou-se a atenção na
maneira como o animal atinge o fim necessário e os meios pelos quais ele adquire novas modalidades de
comportamento.
Para resolver tais problemas, os estudiosos aplicaram métodos que receberam a denominação de
"aquisição de habilidades" ou "reflexos condicionados instrumentais ou operativos". Com essa finalidade
colocou-se o animal numa célula especial (a chamada caixa problemática), separando-o do estímulo (a
comida) por um obstáculo (por exemplo, uma porta fechada a ferrolho). O animal dedvia mover um pedal
ou puxar o ferrolho com a pata e então a porta se abria e o objetivo era atingido.
Outro método de estudo do modo de surgimento de novas formas individualmente variáveis de
comportamento consistia no seguinte: colocava-se o animal num complicado labirinto, em cujo extremo
havia um estímulo (objetivo). O pesquisador observava como o animal superava paulatinamente os
caminhos errados, encontrando o caminho certo para chegar ao objetivo.
A diferença essencial entre os experimentos de formação de complexas habilidades ou "reflexos
condicionados instrumentais" e o método dos "reflexos condicionados clássicos", aplicado por Pávlov,
consistia em que o êxito ou o fracasso do animal dependia do seu desempenho ativo, noutros termos, do
caráter das tentativas que ele empreendia. Embora o método de estudo da aquisição de novas formas
individualmente variáveis de comportamento do animal perdesse em precisão fisiológica em relação ao
método dos "reflexos condicionados clássicos", sem dar as possibilidades de estudo fisiológico dos
processos nervosos (sua irradiação e concentração e indução mútua) que dava o método de Pávlov, aquele
método ganhava no estudo dos modos concretos de comportamento que o animal aplicava para resolver
as tarefas que se lhe colocavam e assim permitia acompanhar as etapas fundamentais de formação de
novos atos adaptadores, condizentes com as novas condições. O processo de aquisição de novas formas
individualmente variáveis de comportamento, que levam à solução das tarefas colocadas diante do
animal, era explicado de modo diferente por diversas pesquisas. Uns explicavam esse processo a partir de
posições mecanicistas (partilhavam essas posições os insignes pesquisadores americanos Thorndike,
Watson e muitos representantes do behaviorismo americano), considerando que as novas formas de
comportamento, que levam o animal a atingir o objetivo, surgem no processo de testes e erros
desordenados. Nesse processo de testes um dos movimentos do animal levava casualmente à abertura da
porta e o animal recebia a comida. Posteriormente, o reforço pelo êxito desses movimentos casualmente
surgidos e sua constante repetição levaram a que os movimentos inadequados fossem extintos,
reforçadores os bem-sucedidos.
Essa explicação do processo de aquisição de novas formas de comportamento por meio do reforço de
movimentos bem-sucedidos casualmente surgidos explicava bem o reforço dessas formas mas deixava à
margem da análise o próprio processo de seu surgimento.
Outro grupo d& autores mantinha outras posições, ao tentarem examinar as regras pelas quais se
formavam as buscas da solução pelo animal e que levavam ao surgimento de procedimentos bem-
sucedidos de solução das tarefas colocadas diante do animal.
Esse grupo de pesquisadores (ao qual pertenciam os psicólogos americanos E. Tolman, D. Krech, o
fisiologista soviético V. P. Protopópov e outros) partia da tese segundo a qual os movimentos que o
animal empreende tentando resolver a tarefa não têm caráter caótico e casual mas surgem no processo de
um ativo desempenho de orientação. Nesse desempenho o animal tenta atingir o objetivo, analisa a
situação, escolhe a direção dos movimentos que corresponde à posição do objetivo. Essa situação da
"tarefa" (que esses psicólogos entendem como objetivo dado em determinadas condições) ou como
situação "estímulo-obstáculo" leva a que as tentativas do animal, dirigidas pelo objetivo, restringem-se
paulatinamente e o animal vai chegando pouco a pouco ao ponto em que surgem nele as necessárias
reações motoras adequadas ao objetivo, que são posteriormente reforçadas.
A vantagem dessa teoria consiste em que ela tenta explicar o surgimento das necessárias formas de
solução da tarefa ou surgimento da "habilidade" a partir de uma análise motora da situação, abandonando
a hipótese de que os movimentos necessários surgem "por acaso".
Várias observações, realizadas por pesquisadores americanos, confirmaram o fato de que, às vezes, os
programas bastante complexos de comportamento do animal que tenta atingir os objetivos não são
adquiridos por acaso mas se formam no processo de uma orientação ativa nas novas condições e são
dirigidos por essa orientação na situação e por sua análise.
Um desses fatos foi estabelecido numa análise minuciosa da maneira pela qual o animal (o rato) adquire a
habilidade de encontrar o caminho certo nas condições de um labirinto complexo.
Como mostrou o pesquisador americano Dashnul, os testes feitos pelo animal colocado em labirinto não
são casuais, via de regra vão sempre em direção ao objetivo; por isto, o animal que ao menos uma vez
tenha se orientado no labirinto, cria um sistema geral de direção no qual ele corre e entra nos becos sem
saída do labirinto, situados na direção do caminho dado, com muito mais freqüência do que nos becos
sem saída do labirinto, situados na direção oposta ao esquema do movimento.
Deste modo, pode-se ver claramente que os movimentos do animal no labirinto não têm caráter casual
mas são subordinados a uma direção que o pesquisador americano Crich caracterizou como surgimento
de uma "hipótese motora", que orienta o sentido geral das tentativas dos ratos que adquirem "habilidade"
no labirinto. Os testes com a chamada "aprendizagem latente" confirmam o fato de que as tentativas que o
animal empreende no processo de aquisição de novos programas de comportamento não são casuais mas
constituem o resultado da orientação ativa do animal nas condições do meio.
Nesses testes de "aprendizagem latente", compara-se a rapidez da aquisição da habilidade nos animais,
que são imediatamente colocados no labirinto para percorrê-lo, com a rapidez dos animais do segundo
grupo, aos quais se permite simplesmente correr pelo labirinto, dandose-lhes a possibilidade de se
orientarem previamente nas condições do labirinto.
Como mostraram esses testes realizados por pesquisadores americanos, o segundo grupo de animais
adquiria a habilidade bem mais rapidamente do que o primeiro. Foi característico o fato de que a
aquisição da habilidade eficiente era especialmente significativa quando se permitia ao animal orientar-se
ativamente nas condições do labirinto. Esse experimento foi realizado pelo pesquisador americano Hald,
que permitiu ao animal movimentar-se ativamente pela caixa problema, enquanto outro animal
observava passivamente essa caixa do carrinho que havia levado o primeiro animal. Também neste caso
o primeiro animal, que se orientara ativamente na situação, adquiriu a habilidade motora com rapidez bem
maior do que o segundo. Esse fato mostra o papel desempenhado na aquisição do novo programa de ação
pela orientação prévia do animal nas condições do teste.
O complexo caráter dinâmico da habilidade motora adquirida, que não é mera finalidade dos movimentos
mecanicamente adquiridos, é confirmado, finalmente, por uma série especial de testes, que mostram que
essa "habilidade" readquirida pode conservar-se inclusive nos casos em que um conjunto inteiramente
novo de movimentos se faz necessário para colocá-la em prática.
Uma dessas pesquisas foi realizada pelo pesquisador americano Hunter, em cujo teste o rato adquiriu a
habilidade de encontrar o caminho necessário no labirinto. Depois que essa habilidade foi adquirida, uma
parte do labirinto foi excluída, colocando-se em seu lugar uma bacia com água. Neste caso o rato devia
atravessar a bacia a nado, i. e., fazendo movimentos inteiramente novos; mas com isto não perdeu a
habilidade adquirida.
Fatos análogos foram registrados por outros meios por Lashley. Após formar no rato a habilidade de
encontrar os caminhos no labirinto, destruiu-lhe em seguida o cerebelo. Como resultado dessa operação, o
rato perdeu o equilíbrio e todos os movimentos anteriores se desorganizaram. Movendo-se, porém, por
cambaleios (i. e., por meio de movimentos inteiramente novos), o rato acabou se colocando no rumo certo
e atingindo o objetivo.
Tudo isso mostra que os programas motores, adquiridos em condições de tarefas especiais, não são, em
hipótese alguma, um fim mecânico dos reflexos; são, antes, esquemas dinâmicos complexos, que se
formam no animal no processo de •sua atividade orientada. •. J
Dois traços são característicos da aquisição dessas novas formas de atividade adaptadora entre os
vertebrados. Um deles consiste em que o processo de orientação ou busca é inseparável dos movimentos
ativos e o descobrimento da solução necessária não antecede a execução do programa motor mas se forma
no processo dos testes motores.
O segundo traço característico consiste em que o caráter dos atos de orientação do animal e o caráter das
novas formas adquiridas de comportamento dependem ao máximo das formas naturais de
comportamento, que se constituíram em estreito contato com a peculiaridade da vida (com a ecologia) do
animal. Nos herbívoros, principalmente nos animais que ingerem alimentação pronta (por exemplo a
galinha, a ovelha, a vaca), a atividade dirigida tem caráter passivo, limitado, os programas naturais de
comportamento predominam e a aquisição de novas fomas de comportamento individualmente variáveis é
um processo lento. Ocorre o.contrário com os carnívoros, que em condições naturais são obrigados a
procurar a comida, a caçar a presa (as aves de rapina, a raposa); nestes a atividade dirigida se processa na
forma de buscas ativas, sendo bem mais rápida a aquisição de novas formas de comportamento, que
correspondem a uma situação variável.
É um dado essencial o fato de que o caráter das formas adquiridas de um novo comportamento
individualmente variável conserva nesses animais uma estreita ligação com as suas formas congênitas
("instintivas") de atividade ou "reflexos naturais". Deste modo, o leão-marinho, no qual o mergulho e a
perseguição à presa fazem parte dos programas congênitos de comportamento, aprende com especial
facilidade a fazer malabarismos com a bola ou agarrá-la. O guaxinim ou o urso, que se erguem
freqüentemente sobre as patas traseiras, deixando livres as dianteiras, podem aprender facilmente a
executar movimentos que imitam uma "lavagem de roupa", etc.
Essa estreitíssima ligação dos programas congênitos de comportamento (ou "reflexos naturais") com a
aquisição de novas formas de atividade individualmente variáveis continua sendo característica do
comportamento dos vertebrados superiores em dada etapa da evolução.
O comportamento "intelectual" dos animais
A descrição da forma de surgimento do comportamento individualmente variável não representa o limite
supremo da evolução do comportamento no mundo animal.
Nos vertebrados, que se encontram no topo da escada da evolução, particularmente os primatas, surgem
novas formas de comportamento individualmente variável, que, com pleno fundamento, podemos
denominar comportamento "intelectual".
A peculiaridade do comportamento "intelectual" dos animais consiste em que o processo de orientação
nas condições da tarefa não ocorre nas condições dos testes motores mas começa a antecedê-los,
distinguindo-se como forma especial de atividade prévia de orientação. No processo dessa atividade
começa a formar-se o esquema (programa) de solução sucessiva da tarefa, ao passo que os movimentos se
tornam um simples elo executor nessa atividade de construção complexa. Assim, nas etapas superiores da
evolução começam a formar-se tipos especialmente complexos de comportamento de complexa estrutura
desmembrada, da qual fazem parte:
— a atividade de procura c orientação, que leva à formação do esquema de solução da tarefa;»
— a formação de programas plasticamente variáveis de movimentos voltados para a obtenção do
objetivo;
— a comparação das ações executadas com a intenção inicial.
Essa estrutura da atividade complexa se caracteriza pelo caráter auto-regu'ador. Se a ação leva ao efeito
necessário, ela cessa; se não leva a esse efeito, o cérebro do animal recebe sinais da "discordância" dos
resultados da ação com a intenção inicial e reiniciam-se as tentativas de solução da tarefa. Esse
mecanismo de "aceptor da ação" (P. K. Anokhin), i. e., de controle dinâmico da ação é o elo mais
importante de todo comportamento individualmente variável do animal mas se manifesta com nitidez
especial na fase mais complexa da evolução do comportamento: no comportamento intelectual.
Dois fenômenos essenciais, cujos embriões já podem ser vistos nas fases primordiais da evolução dos
vertebrados, antecedem a formação dessa modalidade mais elevada de comportamento dos animais. O 1
primeiro deles é o surgimento de uma forma especial de atividade orientada, à qual o pesquisador
soviético L. V. Krushinsky chamou "reflexo extrapolativo". O segundo é o fato das formas de
desenvolvimento da memória dos animais, que se tornam mais complexas.
Nas observações, efetuadas nos últimos anos por Krushinsky, foi estabelecido que alguns animais
mostram em seu comportamento a não-capacidade de sujeitar-se à percepção imediata do objeto mas de
acompanhar-lhe os movimentos e orientar-se em relação ao deslocamento esperado do objeto. Sabe-se
que o cão que atravessa uma rua não corre diretamente na frente dos carros em movimento mas dá voltas,
considerando o movimento dos carros e inclusive a velocidade deles. Foi esse reflexo, que "extrapola" o
movimento observado e leva em conta o deslocamento, que Krushinsky observou em vários testes.
Nesses testes, colocava-se diante do animal um tubo com um furo no centro. À vista do animal, prendia-
se um estimulante a um arame que passava por dentro do tubo. O estimulante aparecia aos olhos do
animal no furo do tubo e continuava em movimento, tornando a aparecer no final do tubo. O animal se
colocava diante do furo e observava o movimento do estimulante.
Essas observações mostraram que os animais, que se encontram numa fase inferior de evolução,
sobretudo os animais que tinham apenas a propriedade de apanhar comida pronta (a galinha, por
exemplo), reagiam imediatamente ao lugar onde o alimento aparecia e não se afastava dele. Ao contrário,
os animais que se encontram em fase mais elevada de evolução, especialmente aqueles que levam modo
de vida carnívoro, observam a presa e a perseguem (o corvo, o cão), observavam os movimentos do
alimento e, "extrapolando" esse movimento (ao que parece, orientando seu comportamento pelo
movimento dos olhos), contornavam o tubo e esperavam o alimento no lugar em que ele aparecia.
O "reflexo extrapolativo", que tem a forma especial de comportamento "antecipante", representa uma das
importantes fontes para a formação dos tipos "intelectuais" mais elevados de comportamento
individualmente variável nos vertebrados superiores.
O segundo fato, que cria condições essenciais para a formação do comportamento "intelectual" dos
vertebrados superiores, é a crescente complexidade do processo de percepção e a grande estabilidade da
memória nas fases subseqüentes da evolução dos animais.
É sabido que se os vertebrados inferiores reagem apenas a certos indícios de influências provenientes do
meio exterior, já os vertebrados superiores reagem mais a complexos inteiros de indícios ou às imagens
dos objetos circundantes. Essa reação dos animais foi estudada minuciosamente pelo fisiologista e
acadêmico soviético I. S. Beritov e constitui a condição mais importante para a evolução das formas mais
complexas de comportamento.
Simultaneamente com a formação da percepção por imagem, nas etapas superiores da evolução dos
vertebrados observa-se uma crescente estabilidade da memória visual. Esse fato foi observado
minuciosamente nos testes com as chamadas "reações retardadas" dos animais.
Os testes com "reações retardadas' foram efetuados por muitos pesquisadores americanos, pelo psicólogo
soviético N. Y. Voitonis e o fisiologista polonês Y. Konorsky. A essência do teste consistia no seguinte:
Postava-se o animal diante de uma caixa hermetica-mente fechada, na qual se colocava o estimulante à
vista do animal. Este se mantinha algum tempo amarrado a um pau por um cabresto, sendo depois
libertado. Se o animal retinha na memória algum vestígio do estimulante colocado na caixa, corria
imediatamente para esta, não o fazendo se o vestígio desaparecia.
Em testes mais complexos, cuja tarefa consistia em verificar a precisão do vestígio conservado no animal,
substituía-se o estimulante na caixa sem que o animal o percebesse. Se o animal conservava o vestígio do
primeiro estimulante e ao correr para a caixa encontrava outro, ele o apanhava. Isto era indício de que o
animal conservava a imagem seletiva do estimulante que havia visto.
Noutros testes, colocava-se o animal entre duas caixas, numa das quais colocava-se um estimulante aos
olhos do animal. Percorrido certo tempo, libertava-se o animal do cabresto. Se o vestígio do estimulante
colocado numa das caixas se mantinha, o animal corria para essa caixa; se o vestígio não se mantinha, o
animal não apresentava movimento dirigido.
Os testes de "reações retardadas" mostram que, nas fases posteriores da evolução dos vertebrados,
aumenta a duração da conservação das respectivas imagens.
Duração da conservação dos vestígios de memória visual provocada uma só vez em animais diferentes
o rato conserva o vestígio da imagem de 10 a 20 segunãos o cão " " " até
10 minutos
o macaco " " " de 16 a 48 horas.
É natural que a conservação das imagens por longo tempo aumenta na medida em que se tornam
complexas as estruturas cerebrais e cria uma segunda condição importante para o surgimento de formas
"intelectuais" superiores de comportamento do animal.
O conhecido psicólogo alemão Wolfgang Kiihler inciou, no início da década de 20 do corrente século,
pesquisas sistemáticas do comportamento "intelectual" dos animais superiores (os macacos). Para estudar
essa forma de comportamento, Kõhler colocou macacos (chimpanzés) em condições sob as quais a
obtenção imediata do objetivo era inacessível e o macaco devia orientar-se em situações complexas nas
quais lhe era dado o objetivo, usando o rodeio a fim de conseguir o chamariz ou aplicando para isto
instrumentos especiais.
Descrevamos três situações típicas nas quais Kõhler fez suas pesquisas do comportamento "intelectual"
dos macacos. A primeira situação exigia "caminho em rodeio" . Colocava-se o macaco numa grande
jaula, ao lado da qual havia sido colocado o estimulante que se encontrava a uma distância que não
permitia que a mão do macaco o alcançasse. Para atingir o objetivo, o macaco devia desistir das tentativas
de obtenção imediata do objetivo, usando um contorno por uma porta situada na parede traseira da jaula.
A segunda situação era idêntica à que acabamos de descrever; colocava-se o macaco numa jaula fechada,
desta feita com portas. O estimulante continuava distante e o animal não conseguia alcançá-lo.
Diferentemente da primeira situação, porém, em frente à jaula havia uma vara a uma distância equivalente
a um braço estirado. O macaco podia obter o estimulante se conseguisse a vara e com esta alcançasse o
objetivo. Em testes mais complexos, o estimulante se encontrava a uma distância ainda maior, mas no
campo de visão do macaco havia duas varas: uma curta, ao alcance do braço, e outra comprida, um pouco
adiante. Para resolver a tarefa, o macaco devia realizar um programa de comportamento mais complexo.
A princípio, devia alcançar a vara mais próxima — a curta — e, com o auxílio desta, obter em seguida a
vara comprida, situada mais adiante e, já com ajuda desta, obter o estimulante. Por último, na terceira
variante dos testes, pendurava-se o estimulante de tal modo que o macaco não conseguia alcançá-lo. Mas
na mesma área foram colocados caixotes; para alcançar o estimulante, o animal devia arrastá-los para
perto deste, colocá-los uns sobre os outros e trepar.
As pesquisas de Kõhler permitiram-lhe observar o seguinte quadro. A princípio o macaco tentava sem
êxito obter o estimulante por via direta, estirando-se ou saltando em sua direção. Essas tentativas inúteis
podiam durar muito, até o macaco ficar exausto e abandoná-las. Em seguida vinha o segundo período, no
qual o animal permanecia sentado, imóvel, limitando-se a examinar a situação; neste caso a orientação na
situação se transferia dos testes motores bem desenvolvidos para o "campo visual" da percepção e se
realizava por meio dos respectivos movimentos dos olhos. Depois disto vinha o momento decisivo, que
Kõhler descrevia como surgimento inesperado do insight. O macaco se dirigia imediatamente à porta,
situada na parede traseira da jaula e, contornando-a, obtinha o estimulante ou desistia de suas tentativas e
apanhava a vara. Com ela conseguia o alimento ou uma vara mais comprida, com a qual alcançava o
alimento. Finalmente, na última situação, o macaco abandonava todas as tentativas de alcançar a comida
por via direta, olhava em torno, arrastava imediatamente os caixotes, colocava-os um sobre o outro,
trepava, e obtinha o alimento. Todos esses testes apresentaram como característica o fato de que a solução
da tarefa se transferia do período dos testes imediatos ao período da observação antecedente da tentativa,
e os alimentos do macaco se tornavam ato executivo para a realização de um "plano de solução"
anteriormente adquirido.
Foram justamente essas observações que deram a Kõhler fundamento para considerar o comportamento
do macaco um exemplo de comportamento "intelectual".
Se nos experimentos de Kõhler a descrição do comportamento dos macacos é definitiva, a explicação das
vias pelas quais o animal chega à solução "intelectual" da tarefa apresenta complexidades consideráveis e
diferentes pesquisadores dão a esse processo interpretação diversa.
O conhecido psicólogo americano Yerkes, que repetiu a pesquisa de Kõhler, acha possível aproximar
essas formas de comportamento do macaco do intelecto humano e considerá-las por via antropomórfica
como manifestações de "iluminação criativa".
O psicólogo austríaco K. Bühler cita a experiência anterior do animal para explicar esse comportamento e
considera que o emprego de instrumentos pelos macacos deve ser visto como resultado da transferência
de uma experiência anterior (os macacos, que viviam em árvores, tinham de puxar os frutos para si junto
com os ramos).
O próprio Kõhler expressa a hipótese de que, no comportamento "intelectual" dos macacos, a análise da
situação se transfere da área dos movimentos ao plano da percepção e o macaco, ao examinar a situação,
"aproxima" os objetos que dela fazem parte no "campo visual", fechando-os em certas "estruturas
visuais". A solução posterior da tarefa é, segundo Kõhler, apenas a realização de estruturas "visuais" em
movimentos reais. Kõhler vê a confirmação dessa hipótese no fato de que, quando a vara e o alimento
(uma fruta) ou mesmo as varas que o macaco deve obter sucessivamente estão dispostas de tal modo que
não caem apenas no campo de visão, a tarefa se torna insolúvel para o macaco.
Kõhler tenta confirmar sua hipótese com experimentos nos quais o macaco deve antes preparar o
instrumento que usará posteriormente para conseguir o alimento; por exemplo, o macaco deve enfiar uma
vara de bambu em outra para, alongan-do-a, colher uma fruta. Essas ações se tornam bem mais difíceis
para o macaco e podem ser realizadas somente se as pontas de ambas as varas estiverem no campo de
visão direto. Segundo Kõhler, essa incidência das duas varas num único campo de visão é o que pode
levar à solução adequada da tarefa.
O problema dos mecanismos que servem de base ao surgimento de comportamento "intelectual" do
macaco não poce ser considerado definitivamente resolvido. Se uns pesquisada»» o opõem às formas
mais elementares de comportamento " dualmente variável dos animais, outros (por exemplo, que fez
observações com o comportamento dos macacc"' possível não opô-lo às formas mais elementares de
mento e consideram o comportamento "intelec cacos como uma espécie de "pensamento maniu. , num
processo de testes e erros, que adquire caráter mais r.. -em decorrência do fato de que as mãos dos
macacos, livres da função de andar, começam a executar formas mais complexas de atividade orientada.
Fronteiras do comportamento individualmente variável dos animais
Vimos que o comportamento adaptador individualmente variável dos vertebrados superiores pode
adquirir formas muito complexas. Surge uma pergunta natural: quais são os seus traços característicos e
quais os limites que o comportamento dos animais não pode ultrapassar? A análise do comportamento dos
animais permite indicar três traços fundamentais.
O primeiro é o fato de que todo comportamento individualmente variável (mesmo o mais complexo) do
animal conserva sua ligação com os motivos biológicos e não pode ultrapassar-lhe os limites. Todo
comportamento animal tem por base as inclinações biológicas ou necessidades (necessidade de alimento,
autoconservação ou necessidade sexual). Só nas etapas mais elevadas da evolução a elas se incorpora a
necessidade de orientar-se no meio ambiente, a -que Pávlov chamava de reflexo orientador e que, no
macaco, atinge desenvolvimento considerável. Nenhuma atividade desvinculada de todas essas
necessidades biológicas é possível para o animal, razão por que o comportamento do animal pode ser
considerado com todo fundamento como comportamento cortical-subcortical.
O segundo traço, que caracteriza o comportamento de todo animal, consiste em que esse comportamento
é sempre determinado por estímulos imediatamente perceptíveis ("pelo campo exterior") ou por vestígios
da experiência anterior, não podendo ocorrer abstraindo-os nem muito menos entrando em conflito com
eles.
O psicólogo holandês Buytendijk ilustra bem essa tese com uma pesquisa famosa, de importância capital.
Ele colocou diante de um animal várias caixas nas quais poder-se-ia encontrar alimento. No primeiro teste
o alimento foi posto aos olhos do animal na primeira caixa, permitindo-se ao animal apanhá-lo. No
segundo teste, o alimento (também aos olhos do animal) foi transferido para uma segunda caixa, em
seguida para uma terceira. Depois, nos experimentos seguintes, começou-se (já sem que o animal o
percebesse) a transferir sucessivamente o alimento para cada caixa seguinte, permitindo-se sempre ao
animal correr livremente para a caixa onde ele supunha encontrar o alimento.
A pesquisa mostrou que o animal corre sempre para a caixa onde vira que havia sido posto o alimento, ou
para a caixa onde antes se encontrava o alimento. Nenhum animal pode assimilar o princípio do
"deslocamento sucessivo" e nunca corre para a caixa seguinte na qual ainda não houve alimento mas
onde é fácil esperá-lo caso se leve em conta um princípio abstrato.
O comportamento do animal é sempre dirigido pela experiência imediata ou pela experiência passada, e
ele nunca pode impedir a reação ao lugar anteriormente memorizado e dirigir-se a lugar que não tinha
sido memorizado. O experimento de Buytendijk realizado com animais de diferentes grupos, mostra que
o animal, segundo Kõhler, é "um escravo do seu campo visual" ou "escravo da sua experiência passada",
e seu comportamento nunca se liberta dessas influências diretas, não se dirige pela abstração destas,
noutros termos, não se torna livre.
O terceiro traço do comportamento do animal consiste nas limitações das fontes desse comportamento.
Podem ser fonte de comportamento do animal os programas alicerçados em sua experiência de espécie,
que se transmitem em códigos hereditários ("comportamento instintivo") ou que se formam na
experiência imediata de dado indivíduo (comportamento individualmente variável ou reflexivo-
condicionado). Os animais não têm nenhuma possibilidade de assimilação da experiência alheia e de um
indivíduo transmiti-la assimilada a outro indivíduo, e muito menos de transmitir a experiência formada
em várias gerações. Os fenômenos que se descrevem como "imitação" ocupam lugar relativamente
limitado na formação do comportamento dos animais, sendo antes uma forma de transmissão prática
direta da própria experiência que uma transmissão de informação acumulada na hitória de várias
gerações, que lembre o mínimo sequer a assimilação da experiência material ou intelectual das gerações
passadas, assimilação essa que caracteriza a história social do homem.
São esse três traços que constituem as peculiaridades fundamentais de todo comportamento e o
distinguem radicalmente da atividade consciente do homem.

III
A Atividade Consciente do Homem e Suas Raízes
Histórico-Sociais
Princípios gerais
POR SUAS peculiaridades fundamentais, a atividade consciente do homem difere acentuadamente do
comportamento individualmente variável dos animais.
As diferenças da atividade consciente do homem sintetizam-se em três traços fundamentais, opostos
àqueles pelos quais acabamos de caracterizar o comportamento dos animais.
O primeiro desses traços consiste em que a atividade consciente do homem não está obrigatoriamente
ligada a motivos biológicos. Além do mais, a grande maioria dos nossos atos não se baseia em quaisquer
inclinações ou necessidades biológicas. Via de regra, a atividade do homem é regida por complexas
necessidades, freqüentemente chamadas de "superiores" ou "intelectuais". Situam-se entre elas as
necessidades cognitivas, que incentivam o homem à aquisição de novos conhecimentos, a necessidade de
comunicação, a necessidade de útil à sociedade, de ocupar, nesta, determinada posição, ;
Encontramos freqüentemente situações nas quais a atividade consciente do homem, além de não se
sujeitar às influencias e necessidades biológicas, ainda entra em conflito com e . e chega inclusive a
reprimi-las. São amplamente conhecidas casos de heroísmo em que o homem, movido por elevados
motivos de patriotismo, cobre com seu corpo bocas de fogo ou se lança à morte sob tanques; esses casos
são apenas exemplos da independência do comportamento do homem em relação aos motivos biológicos.
Entre os animais não há semelhantes formas de comportamento "desinteressado", que se baseiam em
motivos não-biológicos.
O segundo traço característico da atividade consciente do homem consiste em que, à diferença do
comportamento do animal, ela não é forçosamente determinada por impressões evidentes, recebidas do
meio, ou por vestígios da experiência individual imediata.
Sabe-se que o homem pode refletir as condições do meio de modo imediatamente mais profundo do que o
animal. Ele pode abstrair a impressão imediata, penetrar nas conexões e dependências profundas das
coisas, conhecer a dependência causai dos acontecimentos e, após interpretá-los, tomar come orientação
não impressões exteriores porém leis mais profundas. Assim, ao sair a passeio num claro dia de outono, c
homem pode levar guarda-chuva, pois sabe que o tempo i instável no outono. Aqui ele obedece a um
profundo conhecimento das leis da natureza e não à impressão imediata de um tempo de sol e céu claro.
Sabendo que a água do poço está envenenada, o homem nunca irá bebê-la, mesmo que esteja cor muita
sede; neste caso, seu comportamento não é orientado pela impressão imediata da água que o atrai mas por
um conhecimento mais profundo que ele tem da situação.
A atividade consciente do homem não pode tomar come orientação a impressão imediata da situação
exterior e sim um conhecimento mais profundo das leis interiores dessa situação, razão por que há todo
fundamento para afirmar-se que c comportamento humano, baseado no reconhecimento da necessidade, é
livre.
Por último, há o terceiro traço característico, que difere a atividade consciente do homem do
comportamento do animal.
Diferentemente do animal, cujo comportamento tem apenas duas fontes ■— 1) os programas hereditários
de comportamento, jacentes no genótipo e 2) os resultados da experiência individual —, a atividade
consciente do homem possui ainda uma terceira fonte: a grande maioria dos conhecimentos e habilidades
do homem se forma por meio da assimilação da experiência de toda a humanidade, acumulada no
processo da história social e transmissível no processo de aprendizagem.
Desde o momento em que nasce, a criança forma o seu comportamento sob a influência das coisas que se
formaram na história: senta-se à mesa, come com colher, bebe em xícara e mais tarde corta o pão com a
faca. Ele assimila aquelas habilidades que foram criadas pela história social ao longo de milênios. Por
meio da fala transmitem-lhe os conhecimentos mais elementares e posteriormente, por meio da
linguagem, ele assimila na escola as mais importantes aquisições da humanidade. A grande maioria de
conhecimentos, habilidades e procedimentos do comportamento de que dispõe o homem não são o
resultado de sua experiência própria mas adquiridos pela assimilação da experiência histórico-social de
gerações. Este traço diferencia radicalmente a atividade consciente do homem do comportamento do
animal.
Há muito tempo uma questão tem ocupado a filosofia e a Psicologia: como explicar os traços da atividade
consciente do homem que acabamos de numerar?
Na história da filosofia e da ciência podemos distinguir duas vias inteiramente diferentes de solução dessa
questão.
Uma delas, típica da filosofia idealista, partia das posições do dualismo A tese básica dessa corrente
reduzia-se não só ao reconhecimento de acentuadas diferenças de princípio entre o comportamento do
animal e a consciência do homem, como também à tentativa de explicar essas diferenças alegando que a
consciência do homem deve ser considerada como manifes: tação de um princípio espiritual especial de
que carece o animal
A tese segundo a qual o animal deve ser visto como uma máquina complexa, cujo comportamento
obedece as leis da mecânica, e o homem como dotado do princípio espiritual com livre-arbítrio partiu de
Descartes, tendo sido repetida posteriormente pela filosofia idealista sem mudança considerável. É fácil
perceber que, apontando a diferença de princípio entre o comportamento do animal e a atividade
consciente do homem, essa corrente não dá nenhuma explicação científica aos referidos fatos.
A segunda via de solução do problema da originalidade da atividade consciente caracteriza o positivismo
evolucionista. Segundo essa teoria, a atividade consciente do homem é resultado direto da evolução do
mundo animal, já se podendo observar nos animais todos os fundamentos da consciência humana. O
primeiro cientista a formular essas teses foi Charles Darwin, que em várias de suas obras tentou mostrar
que, na forma embrionária, os animais já têm todas as formas de atividade racional inerente ao homem e
que. não há limites precisos e basilares entre o comportamento dos animais e a atividade consciente do
homem.
O enfoque naturalista, que tentava estudar uma linha única de desenvolvimento da consciência dos
animais ao homem, desempenhou papel positivo em seu tempo no combate às concepções dualistas pré-
científicas. No entanto as afirmações de que os animais têm em embrião todas as formas da vida
consciente do homem, o enfoque antropomórfico da "razão" e das "vivências" dos animais, bem como a
falta de vontade de reconhecer as diferenças de princípio entre o comportamento dos animais e a
atividade consciente do homem continuaram a ser o ponto fraco do positivismo naturalista. Ficava sem
solução o problema da origem das peculiaridades da atividade consciente do homem, que foram
ressaltadas acima.
A Psicologia científica, que parte dos princípios do marxismo, focaliza de posições inteiramente
diferentes o problema da origem da atividade consciente do homem.
É sabido que toda a atividade psíquica dos animais, que cria a base para a orientação no meio ambiente,
forma-se nas condições das formas de vida que caracterizam uma espécie de animais.
O que é que caracteriza as formas de vida que diferenciam a atividade consciente do homem do
comportamento dos animais e nas quais devemos procurar as condições que formam essa atividade
consciente?
As peculiaridades da forma superior de vida, inerente apenas ao homem, devem ser procuradas na forma
histórico-social de atividade, que está relacionada com o trabalho social, com o emprego de instrumentos
de trabalho e com o surgimento da linguagem. Essas formas de vida não existem nos animais, e a
transição da história natural do animal à história social da humanidade deve ser considerada um
importante passo assim como a transição da matéria inanimada à animada ou da vida vegetal à animal.
Por isto as raízes do surgimento da atividade consciente do homem não devem ser procuradas nas
peculiaridades da "alma" nem no íntimo do organismo humano mas nas condições sociais de vida
historicamente formadas.
São justamente essas condições que fazem com que, com a transição para a história social, mude
radicalmente a estrutura do comportamento. Junto com os motivos biológicos do comportamento, surgem
os motivos superiores ("intelectuais") e necessidades, concomitantes com o comportamento que depende
da percepção imediata do meio. Surgem formas superiores de comportamento, baseadas na abstração das
influências imediatas do meio, e, juntamente com as duas fontes do comportamento — os programas de
comportamento consolidados por via hereditária e a influência da experiência passada do próprio
indivíduo —, surge uma terceira fonte formadora da atividade: a transmissão e assimilação da experiência
de toda a humanidade.
Abordemos mais detidamente as raízes histórico-sociais da complexa atividade consciente do homem.
O trabalho e a formação da atividade consciente
A ciência histórica destaca dois fatores, que servem de fonte à transição da história natural dos animais à
história social do homem. Um desses fatores é o trabalho social e o emprego dos instrumentos de
trabalho, o outro, o surgimento da linguagem.
Examinemos o papel desempenhado por esses dois fatores na mudança radical das formas de atividade
psíquica e no surgimento da consciência.
Sabe-se que, à diferença do animal, o homem tanto emprega os instrumentos de trabalho como prepara
esses instrumentos. Os remanescentes desses instrumentos, que pertencem à época mais antiga da história
da humanidade, mostram que, se as lascas de pedra tosca são os instrumentos de trabalho mais primitivos,
na etapa posterior já surgem os instrumentos (a lâmina, a flecha) preparados especialmente pelo homem.
Nesses instrumentos podemos distinguir tanto o gume, com o qual o homem primitivo podia esfolar o
animal morto ou cortar pedaços de árvore, como a "lombada", a parte arredondada, que servia para
manter-se comodamente na mão. É natural que arma dessa natureza exige preparo especial, que, pelo
visto, cabia aos preferidos do grupo primitivo ou à mulher, que ficava em casa enquanto o homem ia à
caça.
A preparação dos instrumentos (que às vezes subentendia também a divisão natural do trabalho) por si só
já mudava radicalmente a atividade do homem primitivo, distinguindo-a do comportamento do animal. O
trabalho desenvolvido na preparação dos instrumentos já não é uma simples atividade, determinada por
motivo biológico imediato (a necessidade de alimento) . Por si só a atividade de elaboração da pedra
carece de sentido e não tem qualquer justificativa em termos biológicos; ela adquire sentido somente a
partir do uso posterior do instrumento preparado na caça, ou seja, exige, juntamente com o conhecimento
da operação a ser executada, o conhecimento do futuro emprego do instrumento. É esta a condição
fundamental, que surge no processo de preparação do instrumento de trabalho, e pode ser chamada de
primeiro surgimento da consciência, noutros termos, primeira forma de atividade consciente.
Essa atividade de preparação dos instrumentos de trabalho leva a uma mudança radical de toda a
estrutura do comportamento .
O comportamento do animal fora sempre voltado imediatamente para a satisfação de urna necessidade.
Diferentemente disto, no homem que preparava seus instrumentos de trabalho, o comportamento adquiria
caráter de estrutura complexa; da atividade, voltada para a satisfação imediata de uma necessidade,
separa-se uma ação especial, que adquire seu sentido posteriormente, quando o produto dessa ação ,
(preparação do instrumento) será empregado para matar a vítima e deste modo satisfazer a necessidade de
alimento. A mudança mais importante da estrutura geral do comportamento — surgida no processo de
transição da história natural do animal à história social do homem — dá-se quando, da atividade geral,
separa-se uma "ação" que não é dirigida imediatamente por motivo biológico e só adquire sentido com o
emprego posterior dos seus resultados. Percebe-se facilmente que, na medida em que se tornam mais
complexas a sociedade e as formas de produção, essas ações, não dirigidas imediatamente por
motivos biológicos, começam a ocupar posição cada vez mais marcante na atividade consciente do
homem.
Contudo, a complicação da estrutura da atividade durante a transição à história social do homem não se
limita à mudança que acabamos de mencionar.
A preparação dos instrumentos de trabalho requer uma série de procedimentos e modos (desbastar uma
pedra com outra, friccionar dois pedaços de madeira na obtenção do fogo), por outras palavras, exige a
separação de várias operações auxiliares. A separação dessas "operações" é o que constitui a sucessiva
complicação da estrutura da atividade.
Deste modo, a separação entre a atividade biológica geral, e as "ações" especiais não é determinada
imediatamente por motivo biológico, mas é dirigida pelo objetivo consciente, que adquire sentido apenas
na comparação dessas ações com o resultado final. O surgimento de várias "operações" auxiliares por
meio das quais se executa essa atividade é o que constitui a mudança radical do comportamento, que é o
que representa uma nova estrutura de atividade consciente do homem. A complexa organização de
"ações" conscientes, que se separa da atividade geral, leva ao surgimento de formas de comportamento,
que não são diretamente dirigidas por motivos biológicos, podendo inclusive opor-se algumas vezes a
eles.
Assim é, por exemplo, a caça na sociedade primitiva, durante a qual um grupo de caçadores "assusta" e
afugenta a caça que deve ser apanhada, enquanto outro grupo arma emboscada para ela; aqui poderia
parecer que as ações do primeiro grupo contradizem as necessidades naturais de apanhar a caça e só
adquirem sentido a partir das ações do segundo grupo cujo resultado é a caça da vítima pelos caçadores.
Torna-se claro que a atividade consciente do homem não é produto do desenvolvimento natural de
propriedades jacentes no organismo mas o resultado de novas formas histórico-sociais de atividade-
trabalho.
A linguagem e a consciência do homem
O surgimento da linguagem é a segunda condição que leva à formação da atividade consciente de
estrutura complexa do homem.
Costuma-se entender por linguagem um sistema de códigos por meio dos quais são designados os objetos
do mundo exterior, suas ações, qualidades, relações entre eles, etc. Assim, na linguagem, a palavra
"cadeira" designa um tipo de móvel que serve de assento, a palavra "pão" designa um objeto comestível,
enquanto "dorme", "corre" designam ações, "ácido", "plano" designam qualidades dos objetos e as
palavras auxiliares "sobre", "sob", "juntamente", "em conseqüência" designam relações diferentes por
complexidade entre os objetos.
É natural que as palavras, unidas em frases, são os principais meios de comunicação mediante os quais o
homem conserva e transmite informação e assimila a experiência acumulada por gerações inteiras de
outras pessoas.
Essa linguagem não existe entre os animais e surge somente no processo de transição à sociedade
humana. O animal possui meios muito variados de expressão de seus estados, que são percebidos por
outros animais e podem exercer influência substancial sobre o comportamento destes. O guia de um
bando de cegonhas, ao sentir o perigo, solta gritos alarmantes aos quais o bando reage vivamente. Numa
manada de macacos podemos observar todo um conjunto de sons, que expressa satisfação, agressão,
medo ao perigo, etc. Podemos observar um sistema muito complexo de movimentos expressivos nas
chamadas "danças" das. abelhas, que mudam de caráter dependendo de ter a abelha regressado do vôo
com boa prenda e modificam-se dependendo da direção e da distância do caminho percorrido. Esses
"segredos" são transmitidos a outros indivíduos e podem orientar de modos diferentes o comportamento
das abelhas.
Mas a "linguagem" dos animais nunca designa coisas, não distingue ações nem qualidades, portanto, não
é linguagem na verdadeira acepção da palavra.
O problema do surgimento da linguagem humana é o objeto de inúmeras hipóteses e teorias.
Algumas delas consideram a linguagem manifestação do campo espiritual, atribuindo-lhe, de acordo com
a Bíblia, "origem divina". Essas teorias são muito vagas e omitem o fato de que a linguagem é uma
especial "forma simbólica de existência", que faz distinção entre a vida intelectual e qualquer
manifestação do mundo material.
Outras teorias, seguindo as tradições do positivismo naturalista, tentam, inutilmente, ver a linguagem
como resultado da evolução do mundo animal e interpretam como formas iniciais da evolução da
linguagem os fenômenos de "comunicação" entre os animais que descrevemos.
Mas a solução científica do problema da origem da linguagem só se tornou possível quando a filosofia e a
ciência abandonaram as tentativas de procurar as raízes da linguagem no âmago do organismo e de
deduzi-la diretamente das peculiaridades do "espírito" ou do cérebro, concluindo que as condições que
originaram o fenômeno devem ser procuradas nas relações sociais do trabalho cujos primórdios de
surgimento remontam ao período de tratisição da história natural à história humana.
A ciência não dispõe de métodos que permitam observar imediatamente as condições que originaram a
linguagem, restando para a.área da ciência, denominada "paleontologia da fala", apenas o caminho das
hipóteses que se confirmam por via indireta. Há muitos fundamentos para se pensar que o surgimento da
linguagem teve seus primórdios nas formas de comunicação contraídas pelos homens no processo de
trabalho.
A forma conjunta de atividade prática faz surgir forçosamente no homem a necessidade de transmitir a
outros certa informação; esta não pode ficar restrita à expressão de estados subjetivos (vivências),
devendo, ao contrário, designar os objetos (coisas ou instrumento) que fazem parte da atividade do
trabalho conjunto. Segundo as teorias originárias da segunda metade do século XIX, os primeiros sons
que designam objetos surgiram no processo do trabalho conjunto.
Entretanto seria incorreto pensar que os sons, que assumiram paulatinamente a função de transmitir certa
informação, eram "palavras" capazes de designar com independência os objetos, suas qualidades, ação ou
relações. Os sons, que começavam a indicar determinados objetos, ainda não tinham existência autônoma.
Estavam entrelaçados na atividade prática, eram acompanhados de gestos e entonações expressivas,
razão por que só era possível interpretar o seu significado conhecendo a situação evidente em que eles
surgiam. Além do mais, nesse complexo de meios de expressão parece que, a princípio, coube posição
determinante aos atos e gestos; estes, segundo muitos autores, constituíam os fundamentos de uma
original linguagem ativa ou "linear" e só bem mais tarde o papel determinante passou a ser desempenhado
pelos sons, que propiciaram a base para uma evolução paulatina de uma linguagem de sons independente.
Durante muito tempo, porém, essa linguagem manteve a mais estreita ligação com o gesto e o ato e por
isto o mesmo complexo de sons (ou "protovocábulo") podia designar o objeto para o qual a mão
apontava, a própria mão c a ação produzida com esse objeto. Só depois de muitos milênios a linguagem
dos sons começou a separar-se da ação prática e a adquirir independência. Ê a essa época que pertence o
surgimento das primeiras palavras autônomas, que designavam objetos e bem mais tarde passaram a
servir para distinguir as ações e as qualidades dos objetos. Surgiu a língua como um sistema de códigos
independentes, que durante um longo período histórico posterior de desenvolvimento assumiu a forma
que distingue as línguas atuais.
Enquanto sistema de códigos que designam os objetos, suas ações, qualidades ou relações e serve de meio
de transmissão de informação, a linguagem teve importância decisiva para a posterior reorganização da
atividade consciente do homem. Por isto têm razão os cientistas que afirmam que, a par com o trabalho, a
linguagem é o fator fundamental de formação da consciência.
O surgimento da linguagem imprime ao menos três mudanças essenciais à atividade consciente do
homem. A primeira dessas mudanças consiste em que, designando os objetos e eventos do mundo
exterior com palavras isoladas ou combinações de palavras, a linguagem permite discriminar esses
objetos, dirigir a atenção para eles e conservá-los na memória. Resulta daí que o homem está em
condições de lidar com os objetos do mundo exterior inclusive quando eles estão ausentes. É bastante a
pronúncia interna ou externa de uma palavra para o surgimento da imagem do objeto correspondente e o
homem pôr-se em condições de operar com essa imagem. Por isto podemos dizer que a linguagem
duplica o mundo perceptível, permite conservar a informação recebida do mundo exterior e cria um
mundo de imagens interiores. Percebe-se facilmente que importância tem o surgimento desse mundo
"interior" de imagens, que surge como base na linguagem e pode ser usado pelo homem em sua atividade.
O segundo papel essencial da linguagem na formação da consciência consiste em que as palavras de uma
língua não apenas indicam determinadas coisas como abstraem as propriedades essenciais destas,
relacionam as coisas perceptíveis a determinadas categorias. Essa possibilidade de assegurar o processo
de abstração e generalização representa a segunda contribuição importantíssima da linguagem para a
formação da consciência.
Por exemplo, as palavras "relógio" e "mesa" designam não apenas certos objetos. A palavra "relógio"
indica que esse objeto serve para marcar as horas (do latim horologio); a palavra "mesa" indica que esse
objeto serve para ser coberto (do latim mensa). Além do mais, as palavras "relógio" e "mesa" designam
todas as modalidades desses objetos, independentemente de sua forma exterior ou do tamanho. Isto
significa que a palavra que distingue (abstrai) de fato os respectivos indícios do objeto e generaliza
objetos diferentes pelo aspecto exterior mas pertencentes à mesma categoria transmite automaticamente
ao homem a experiência das gerações e serve de meio de representação do mundo mais poderoso que a
simples percepção. . . Deste modo, a palavra faz pelo homem o grandioso trabalho de análise e
classificação dos objetos, que se formou no longo processo da história social. Isto dá à linguagem a
possibilidade de tornar-se não apenas meio de comunicação mas também o veículo mais importante do
pensamento, que assegura a transição do sensorial ao racional na representação do mundo.
O que acaba de ser dito dá fundamento para designar a terceira função essencial da linguagem na
formação da consciência. A linguagem é o veículo fundamental de transmissão de informação, que se
formou na história social da humanidade, ou seja, ela cria uma terceira fonte de evolução dos processos
psíquicos que, no estágio do homem, aproximam-se das duas fontes (os programas de comportamento
transmissíveis por hereditariedade e as formas de comportamento resultantes da experiência de dado
indivíduo) que se verificavam nos animais.
Ao transmitir a informação mais complexa, produzida ao longo de muitos séculos de prática histórico-
social, a linguagem permite ao homem assimilar essa experiência e por meio dela dominar um ciclo
imensurável de conhecimentos, habilidades e modos de comportamento, que em hipótese alguma
poderiam ser resultado da atividade independente de um indivíduo isolado. Isto significa que com o
surgimento da linguagem surge no homem um tipo inteiramente novo de desenvolvimento psíquico
desconhecido dos animais, e que a linguagem é realmente o meio mais importante de desenvolvimento da
consciência.
A importância da linguagem para a formação dos processos psíquicos
A importância da linguagem para a formação da consciência consiste em que ela efetivamente penetra em
todos os campos da atividade consciente do homem, eleva a um novo nível o desenrolar dos seus
processos psíquicos; Por isto a análise da linguagem e do discurso (da forma de transmissão da
informação que emprega meios de linguagem) não pode ser vista apenas como capítulo especial da
Psicologia mas deve ser considerada também como jatos de construção de todo o conjunto da vida
consciente do homem. É justamente por isto que o papel da linguagem ou "segundo sistema de sinais da
realidade", como a denominou Pávlov, deve ser enfocado como parte conclusiva da introdução
evolucionista à Psicologia.
A linguagem reorganiza substancialmente os processos de percepção do mundo exterior e cria novas leis
dessa percepção.
É sabido que existe no mundo um número imenso de objetos, formas, matizes de cores, mas é muito
limitado o número de palavras que designam esses objetos, formas e matizes. Isto leva a que, quando
relacionamos o objeto, a forma ou. matiz com alguma palavra ("mesa", "relógio", "círculo", "triângulo"
ou "vermelho", "amarelo"), nós realmente selecionamos os traços essenciais e generalizamos os objetos,
formas e cores perceptíveis em determinados grupos ou categorias. Isto dá à percepção humana traços
que a distinguem radicalmente da percepção do animal. A percepção humana se torna mais profunda,
relacionada com a discriminação dos indícios essenciais do objeto, generalizada e permanente.
A linguagem muda essencialmente os processos de atenção do homem.
Se a atenção do animal tinha caráter imediato, era determinada pela força, a novidade ou valor biológico
do objeto que dirigiam automaticamente (arbitrariamente) a atenção do animal, com o surgimento da
linguagem e baseado nela o homem se acha em condições de dirigir arbitrariamente a sua atenção.
Quando a mãe diz ao filho "isto é uma xícara", ela está distinguindo esse objeto de todos os demais e
dirigindo para ele a atenção da criança. Quando posteriormente a própria criança assimila o discurso (a
princípio exterior, depois interior), acha-se em condições de discriminar sozinha os objetos nomeados, as
qualidades ou ações, tornando-se sua atenção dirigível, arbitrária.
A linguagem muda essencialmente também os processos da memória do homem. É sabido que a memória
do animal depende consideravelmente da orientação no meio ambiente e dos motivos biológicos, que
servem de reforço daquilo que é lembrado com êxito. No nível humano e apoiada nos processos do
discurso, a linguagem se torna pela primeira vez atividade mnemônica consciente, na qual o homem
coloca fins especiais de lembrar, organiza o material a ser lembrado e acha-se em condições não só de
ampliar de modo imensurável o volume de informação que se mantém na memória como ainda de voltar-
se arbitrariamente para o passado, selecionando nele, no processo de memorização, aquilo que em dada
etapa se lhe afigura mais importante.
A linguagem do homem lhe permite desligar-se pela primeira vez da experiência imediata e assegura o
surgimento da ■imaginação, processo que não existe no animal e serve de base à criação orientada e
dirigida cujo estudo constitui área especial da Psicologia.
É dispensável dizer que só com base na linguagem e com sua participação imediata constituem-se as
complexas formas de pensamento abstrato e generalizado; o surgimento dessas formas representa uma
das aquisições mais importantes da humanidade e garante a transição do "sensorial ao racional",
considerada pela filosofia do materialismo dialético como um salto que pela importância é igual à
transição da matéria inanimada para a animada ou da vida vegetal para a animal.
Não são menos importantes as mudanças introduzidas na reorganização da vivência emocional pelo
surgimento da linguagem, que eleva a um novo nível os processos psíquicos.
Nos animais conhecemos apenas as reações afetivas expressas, que ocorrem com a participação
dominante dos sistemas sub-corticais e são diretamente relacionadas com o êxito ou fracasso de sua
atividade e conservam plenamente sua ligação com as necessidades biológicas. O mundo emocional do
homem não é apenas incomparavelmente mais rico nem só isolado dos motivos biológicos; a avaliação
das correlações das ações realmente exeqüíveis com as intenções iniciais, a possibilidade de uma
formação generalizada do caráter e do nível dos seus acertos leva a que, paralelamente às categorias
afetivas, formem-se no homem vivências e demorados estados-de-espirito que vão muito além dos limites
das reações afetivas imediatas e são inseparáveis do seu pensamento, que se processa com a participação
imediata da linguagem.
Por último, não se pode omitir a última tese, cuja importância é especialmente grande.
É sabido que as novas formas de comportamento individualmente variável do animal são adquiridas com
base em sia orientação imediata no meio ambiente e que a aquisição de formas estáveis de semelhante
comportamento se baseia nas leis dos reflexos condicionados, estudadas minuciosamente pela escola de
Pávlov.
É fato bem conhecido que a aquisição de novas formas de comportamento exige um reforço relativamente
longo da resposta ao sinal condicional, a repetição multiplicada da coincidência dos sinais condicionais
com o reforço incondicionado. Essa ligação é adquirida paulatinamente, começa a extinguir-se tão logo
desaparece o reforço e se reorganiza com relativa dificuldade num novo sistema de ligações.
Não encontramos nada semelhante na formação de novas modalidades de comportamento consciente do
homem. A nova forma de atividade consciente pode surgir no homem à base da formulação discursiva de
uma regra, que o homem estabelece com o auxílio da linguagem. Basta instruir o homem no sentido de
erguer o braço ou girar a chave em resposta a um sinal vermelho e não fazer nenhum movimento a um
azul para surgir imediatamente e consolidar-se essa nova relação. O advento de qualquer ação, executável
com base em instrução discursiva, dispensa qualquer reforço "incondicional" (ou biológico) . Sua
formação dispensa elaboração longa e se estabelece de imediato; essa ação, que se estabelece de acordo
com uma regra formulada no discurso, mostra-se imediatamente sólida, dispensa repetição permanente da
instrução e não se extingue se essa instrução não se repete. Por último, a "conversão" dessa ação numa
nova não apresenta, na norma, nenhuma dificuldade, e, para que a relação anteriormente criada seja
imediatamente substituída por uma contrária, basta sugerir ao sujeito uma nova instrução, dizendo-lhe,
por exemplo, que agora ele deve fazer o contrário: em resposta âo sinal azul, levantar o braço (ou girar a
chave), nada fazendo ao sinal vermelho.
Tudo isso se refere à imensa plasticidade e ao caráter dirigível dos processos de atividade consciente do
homem, que distingue acentuadamente o seu comportamento do comportamento do animal.
A análise minuciosa das formas dessa atividade consciente, dos meios de sua direção, das leis que servem
de base ao seu desenvolvimento e das formas de sua perturbação nos estados patológicos constitui uma
das tarefas fundamentais da Psicologia.

IV
O Cérebro e os Processos Psíquicos
PARA ENTENDER melhor a estrutura dos processos psíquicos do homem e das leis que os regem, devemos
conhecer acima de tudo a maneira pela qual se construiu o órgãos principal da atividade psíquica — o
cérebro humano — e as relações dos processos psíquicos com ele.
O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro
O problema da relação dos processos psíquicos com o cérebro e dos princípios de trabalho do cérebro
enquanto substrato material da atividade psíquica teve soluções diferentes em períodos diversos de
evolução da ciência. O caráter da solução desse problema dependia muito da maneira como se
interpretavam os processos psíquicos do homem e como se enfocavam os seus fundamentos cerebrais.
Na Idade Média já se formara na filosofia e na Psicologia a ela relacionada a concepção segundo a qual os
processos psíquicos eram formas especiais de existência do espírito ou "faculdades" irredutíveis a
quaisquer componentes mais elementares .
Estabeleceu-se a opinião segundo a qual podem-se distinguir ao menos três "faculdades" básicas: a
faculdade da percepção ou imaginação, a faculdade do raciocínio e a faculdade da memória.
Os pensadores, que procuravam a base material dessas faculdades, aventavam a hipótese de que elas
estavam localizadas no líquido que preenche três "ventrículos cerebrais", e consideravam que no
ventrículo anterior estava situada a "faculdade da percepção ou imaginação", no ventrículo médio, a
"faculdade do raciocínio", e no ventrículo posterior a "faculdade da memória".
A idéia de que os processos psíquicos, que são a seguir "faculdades" indivisíveis, podiam estar
imediatamente "localizados" em determinadas formações cerebrais, manteve-se durante muitos séculos e
continuou basicamente imutável inclusive depois que os cientistas deixaram de considerar substrato do
psiquismo o líquido que preenche os "ventrículos cerebrais" e chegaram à opinião de que o fundamento
da atividade psíquica devia ser procurado na substância sólida do cérebro, sobretudo no córtex.
A primeira tentativa de semelhante "localização das faculdades psíquicas" foi empreendida no começo do
século XIX por F. J. Gall. Ele apresentou a hipótese de que o substrato de diversas "faculdades" psíquicas
é constituído por pequenas áreas do tecido nervoso do córtex cerebral, que crescem muito com o
desenvolvimento dessas "faculdades". Após distinguir um grande número dessas "faculdades" congênitas
(às quais, segundo ele, pertenciam "faculdades" como a "parcimônia", a "honestidade", o "respeito aos
pais" e o "amor às crianças"), Gall localizou cada uma delas em determinada área do cérebro e
considerava que o intenso crescimento dessa ou daquela área cerebral, que levava à formação de
protuberâncias no crânio, indicava uma evolução especial dessa "faculdade". Essa hipótese acabou
servindo de base a um campo especial da "ciência" — a "frenologia" —, que, segundo Gall, com base no
estudo das protuberâncias no crânio podia fazer conclusões relativas às capacidades individuais do
homem.
Apesar de a "frenologia" de Gall ter sido considerada fantástica e sem fundamento científico ainda com
seu criador vivo, a idéia da "localização" direta de certas funções psíquicas do córtex cerebral continuou
em evidência. Por isto os cientistas cujo método principal passou a ser o estudo das mudanças nos
processos psíquicos, que ocorrem nos casos de afecções limitadas (locais) do cérebro, continuarem por
muito tempo a fazer tentativas de "localização" direta das funções psíquicas em áreas isoladas do córtex
cerebral.
Ao descobrir que a afecção de áreas da terceira circunvo-lução frontal do hemisfério esquerdo leva à
perturbação da fala articulada, o anatomista francês Paul Broca (1861) lançou a hipótese segundo a qual
estão "localizadas" nessa região as imagens motoras da palavra, O psiquiatra alemão K. Wernicke (1873)
descobriu que a afecção da parte posterior da cincun-volução temporal superior do hemisfério esquerdo
mantém intacta a linguagem motora mas perturba a compreensão das palavras; ele lançou a tese de que
essa região do córtex é o "centro da palavra sensória".
Essas tentativas de localização direta das funções psíquicas em áreas limitadas do cérebro inspiravam os
estudiosos (psiquiatras e neurologistas). A partir da década de 70 do século passado, o estudo das
observações clínicas mostrou que a afecção de áreas limitadas do córtex cerebral faz predominar a queda
de "funções psíquicas" perfeitamente determinadas. Essas descobertas deram aos pesquisadores
fundamentos para distinguir, no córtex cerebral, as áreas que passaram a ser consideradas "centros da
escrita", "centros do cálculo", "centro dos conceitos", etc. Essas tentativas foram reunidas num sistema
pelo psiquiatra alemão K. Kleist (1934), que, com base em observações feitas em cérebros de feridos
durante a I Guerra Mundial, colocou-as num "mapa sinótico localizado", no qual até as "funções"
psíquicas mais complexas coincidiram com as áreas limitadas do córtex cerebral.
Apesar de que em seu tempo eram progressistas às tentativas de "localização" direta das complexas
"funções" psíquicas nas áreas limitadas do córtex cerebral, pois tais tentativas refletiam o esforço de fazer
um enfoque materialista dos processos psíquicos e seu substrato cerebral, elas logo mostraram sua
inconsistência e deixavam de satisfazer aos estudiosos.
Isto tinha por base tanto considerações teóricas como as contradições do material factual em relação a
essas considerações. Por um lado, levantaram-se dúvidas legítimas de que processos complexos como a
fala, a escrita, a leitura e o cálculo, já sem falar da atividade intelectual, podiam ser entendidos
como simples "faculdades" congênitas, podendo-se procurar sua "localização" em áreas limitadas do
córtex cerebral. Por outro lado, a análise minuciosa dos fatos das observações clínicas mostrou que a
atribuição direta dos complexos processos psíquicos às áreas limitadas do córtex cerebral carece de
fundamento. Verificou-se que perturbações de processos psíquicos tão complexos como a fala, a escrita, a
leitura e o cálculo podem surgir com afecções corticais inteiramente diferentes pela posição, fato que por
si só já contrariava a idéia da estreita "localização" das funções psíquicas nas áreas isoladas do córtex.
Observou-se que a afecção de áreas limitadas do córtex cerebral leva, via de regra, à perturbação de todo
um grupo de processos psíquicos, que à primeira vista parecem inteiramente diferentes. Assim, a afecção
do lobo temporal esquerdo provoca a perturbação da compreensão da fala, distúrbios na escrita,
dificuldades de encontrar palavras, etc, enquanto a afecção das áreas parietais e occipitais do córtex
cerebral do hemisfério esquerdo provoca distúrbios na orientação no espaço, dificuldades de percepção da
luz, impossibilidade de compreender as complexas relações lógico-gramaticais e vários outros distúrbios
congêneres da atividade intelectual.
Isto gerou uma crise das concepções anteriores da "localização" direta dos processos psíquicos nas áreas
limitadas do córtex cerebral e levou vários pesquisadores (entre estes grandes psicólogos como K. S.
Lashley e neurologistas como K. Goldstein, C. Monakow e outros) a lançarem a idéia de que os processos
psíquicos são função de todo o cérebro e não podem ser "localizados" nas áreas limitadas do córtex
cerebral.
Essa idéia, que levou ao surgimento de uma corrente científica conhecida como "antilocalizacionismo",
era uma reação legítima às concepções simplistas do "localizacibnismo estreito". No entanto ela não
tardou a mostrar sua inconsistência.
Tanto as sutis pesquisas histológicas como as observações fisiológicas mostraram que o córtex cerebral é
um aparelho bastante diversificado, que áreas corticais distintas apresentam estrutura diferente e que os
neurônios, integrantes do córtex cerebral, são amiúde tão especializados que dentre eles podemos
distinguir os que reagem apenas a irritações muito especiais ou a indícios muito especiais (por exemplo,
só reagem aos movimentos do centro à periferia ou da periferia ao centro, às linhas retas e curvas ou
somente às linhas quebradas, etc). Essas
linhas, parte das quais é o resultado de descobertas obtidas ultimamente como decorrência de pesquisas
fisiológicas, realizadas em certos neurônios, tornaram muito pouco prováveis as hipóteses da
homogeneidade de toda a massa cerebral c as afirmações segundo as quais o cérebro sempre funciona
como um todo único.
Criou-se uma nova crise na doutrina dos princípios da organização funcional do cérebro e na doutrina da
"localização" dos processos psíquicos no córtex cerebral.
A saída para essa crise estava relacionada com a revisão radical do conceito de "funções psíquicas" e
com a mudança radical dos principais enfoques dos princípios da "localização" cerebral dessas
"funções".
O conceito de "função" tem em biologia dois significados inteiramente diversos.
Strtctu sensu, entende-se por "função" a direção de determinado tecido. Sabe-se que a função do fígado é
a regulação da troca de hidrato de carbono, a função do pâncreas é a segregação de insulina, a função do
alvéolo pulmonar, difusão do oxigênio e sua transmissão aos eritrócitos do sangue.
Mas o conceito de "função" tem um outro significado mais amplo. Ele pode designar a atividade de
adaptação de todo um organismo. Neste sentido fala-se de função da respiração, função da digestão,
função da locomoção. Compreende-se perfeitamente que nesse segundo significado mais amplo, a função
se constitui^ numa complexa atividade, exercida pelo trabalho conjunto de todo um sistema de órgãos,
cada um dos quais integra esse "sistema funcional" (termo de P. K. Ano-khin) em seus próprios papéis,
assegurando esse ou aquele aspecto desse sistema funcional.
Assim, a "função da respiração" é exercida pelo trabalho conjunto de todo um grupo de músculos e
alvéolos pulmonares. É característico que os músculos, que participam do ato de respiração, podem
substituir mutuamente uns aos outros, e se de um sistema funcional extingue-se a participação de um
grupo de músculos (os músculos do diafragma, por exemplo), essa falha é compensada pelo trabalho
reforçado de outro grupo de músculos (os músculos intercostais). Deste modo, o sistema funcional
representa um complexo todo dinâmico, no qual o objetivo final permanente ("invariante") é realizado
pelo sistema mutável ("variante") de suas partes componentes.
O mesmo podemos dizer da "função da digestão", que representa o mais complexo sistema funcional de
órgãos digestivos que funcionam em conjunto, bem como da "função do movimento" (ou locomoção), na
qual o objetivo final (deslocamento de um lugar para outro, o acerto em dado alvo, a batida do martelo,
etc.) é realizado por um complexo sistema de músculos cuja inter-relação varia com a mudança da
posição do corpo, dependendo da tensão, da consolidação da habilidade, etc.
É natural que um sistema funcional tão complexo não pode ser "localizado" em determinada área
limitada do sistema nervoso. Pávlov já indicara que "se antes o centro respiratório era concebido como
um ponto do tamanho da cabeça de um alfinete no bulbo raquidiano, . . . agora ele está extremamente
espalhado, subiu para o cérebro e desceu para a medula espinhal e hoje ninguém indicará com precisão a
sua fronteira" (I. P. Pávlov, Obras completas, t. III, p. 127).
Se tão amplo significado do conceito de "função" se refere a um grande número de atos biológicos de
adaptação, é com maior fundamento que ele deve ser aplicado às complexas "funções psicológicas".
Como mostraram pesquisas psicofisiológicas e psicológicas, até "funções" relativamente simples como o
movimento arbitrário, a marcha, o acerto no alvo, já sem falar de funções como a fala, a escrita e o
cálculo, têm estrutura sumamente complexa, compreendendo em sua composição um número
considerável de elos CQmponentes.
Para executar o movimento mais simples (por exemplo, acertar um ponto com a ponta do dedo ou dar
uma martelada) é necessário antes de tudo manter uma profunda sensibilidade proprioceptiva do braço
que se move dando o sinal da sua posição no espaço e do grau das distensões dos músculos em
funcionamento. Sem essa sinalização permanente da posição do extremo que se move, garantindo a
necessária correção da direção, nenhum movimento organizado é possível. Para a sua execução é
necessário um reflexo preciso das coordenadas espaciais exteriores em cujos limites executa-se o
movimento, o movimento perde sua precisão e se torna impossível. A execução de um movimento exige a
mudança harmoniosa dos seus elementos; até para se darem dois passos é necessário inicialmente enervar
um sistema de músculos e, em seguida, transferindo os impulsos para outro sistema de músculos,
desenervar o primeiro e passar harmoniosamente ao elo seguinte do ato motor.
Tudo isso mostra que até um movimento arbitrário relativamente simples é um complexo sistema
funcional, que inclui em sua composição todo um conjunto de impulsos tanto senso-riais (aferentes)
como motores.
É ainda mais complexa a estrutura de tipos de atividade psíquica como a fala, a escrita, a leitura ou o
cálculo, formados no processo da história da sociedade.
Tomemos como exemplo a análise da maneira como foi construído o ato da escrita e mostremos que elos
complexos integram esse sistema funcional.
Para escrever uma palavra, devemos discriminar antes de tudo os sons que integram a sua composição,
noutros termos, devemos fazer a sua análise acústica, decompondo fluxo permanente de sons nas
unidades sonoras componentes da língua — os "fonemas" (que em cada língua podem ter caráter
diverso). Amiúde a separação desses fonemas se faz não só "de ouvido" mas com a participação imediata
da articulação, por meio da qual é como se nós "sondássemos" os sons e os distinguíssemos de outros
próximos. Somente depois desse trabalho prévio a composição sonora da palavra se considera definida e a
palavra pronta para o registro. Aqui o processo da escrita passa à fase seguinte: os elementos sonoros
("fonemas") devem ser recodifiçados em elementos motor-visuais da escrita ("grafemas"). Para executar
essa ação é necessário dispor tanto de um esquema motor-visual de "grafemas" ou letras como manter a
correta disposição destes no espaço. No entanto a escrita não termina nesse processo. Ela representa um
complexo programa de movimentos, nos quais um elo deve incorporar-se harmoniosamente ao seguinte.
O cumprimento dessa condição exige a inclusão de dispositivos inteiramente diferentes, sem os quais a
escrita harmoniosa se torna impossível. Por último, o processo da escrita deve sempre estar sujeito a uma
tarefa geral (escrever uma frase, uma carta, expor uma idéia, etc.) e só com a sólida manutenção desse
programa correspondente a necessária tarefa pode ser cumprida.
Cabe observar que em diferentes línguas a escrita pode apresentar estrutura diferente. Se na grande
maioria das línguas (indo-européias, turcas) a escrita apresenta a estrutura que acabamos de descrever, há
línguas (o chinês, por exemplo) em que a escrita não é um processo de transferência das unidades sonoras
("fonemas") para as respectivas letras ("grafemas"); nelas o escrevente representa imediatamente os
conceitos com determinados sinais convencionais (hieróglifos). É natural que para semelhante escrita a
primeira fase (a análise sonora da palavra) se torna desnecessária e o processo da escrita adquire
inteiramente outro caráter.
O que acaba de ser dito mostra de modo bastante convincente que deve ser abandonada em seus
primórdios a própria idéia de que um processo tão complexo tenha sido "localizado" em determinada área
limitada do cérebro e realizado por um grupo relativamente insignificante de células. Por isto a tarefa de
"localização" das funções psíquicas nas áreas limitadas do cérebro pode ser substituída por outra tarefa: a
análise do sistema de zonas cerebrais que funcionam em conjunto, que põem em ação dado "sistema
funcional", noutros termos, a análise da maneira pela qual esse sistema funcional se distribui pelos
aparelhos do córtex cerebral segundo as respectivas estruturas cerebrais.
Esse enfoque torna compreensível também o fato de que a afecção de determinada área limitada do
cérebro pode levar à desintegração todo um sistema funcional, e sempre que haja afecção limitada do
cérebro não será afetada um "função" mas todos os sistemas funcionais cuja realização tem a participação
da área cerebral afetada. Torna-se compreensível que a mesma afecção do cérebro pode provocar a
perturbação dos mais diversos sistemas funcionais (só se forem integrados por determinado elo geral ou
"fator" geral cujo funcionamento esteja diretamente relacionado com a afecção da área) e que um mesmo
sistema funcional (o ato da escrita ou da fala, por exemplo) pode ser afetado com a afecção de diferentes
áreas do cérebro, que asseguram elos diversos, integrantes da composição de dada função.
Assim, se um movimento arbitrário inclui em sua composição elementos sensórios (cinestésicos) espaço-
visuais, que que criam a base "aferente" do movimento e os impulsos efe-rentes propriamente ditos, então
é perfeitamente natural que esse movimento possa ser afetado tanto com a afeccção das áreas sensórias e
espaço-visuais como com a afecção das áreas corticais propriamente motoras.
Se o processo da escrita inclui em sua composição a análise auditiva, cinestésica (articular) da estrutura
da letra, a realização do respectivo programa motor será naturalmente perturbado tanto com a afecção das
áreas auditivas, cinestésicas ou visuais como das áreas motoras do cérebro e essa perturbação será cada
vez diferente.
A análise do caráter das perturbações dos complexos sistemas funcionais nos casos de afecções locais
limitadas do cérebro constitui o objeto de um campo especial da Psicologia — a neuropsicologia. Os
dados desta ciência são de grande, importância tanto para o campo prático da neurologia — definição do
diagnóstico local (tópico) das afecções cerebrais — como para uma compreensão mais profunda da
estrutra fisiológica dos complexos processos psicológicos.
Para entender a organização cerebral dos complexos processos psíquicos, é necessário, antes de tudo, ter
uma noção precisa dos dados atuais atinentes à organização funcional do cérebro humano.
Princípios da organização funcional do cérebro humano
Como já foi dito (cap. II), o cérebro humano, sendo produto de uma longa evolução, é um complexo
sistema construído por hierarquia, que se distingue pelo fato de que, aos aparelhos do tronco e do córtex
primitivo — bastante desenvolvido já nos vertebrados superiores — sobrepõem-se os grandes
hemisférios, que no homem chegam a um nível especialmente alto de desenvolvimento
Se os aparelhos do tronco e de suas áreas superiores são aquelas partes do cérebro que incluem em sua
composição os núcleos (grupos de células que regulam 'os processos de respiração, circulação sangüínea
e do metabolismo bioquímico, que executa os mais importantes processos vitais), já os aparelhos do corpo
quadrigêmeo e dos nós subcorticais (tálamo ótico e sistema palium estriado) são as primeiras instâncias
que asseguram a obtenção das instigações do mundo exterior que chegam através dos órgãos superiores
dos sentidos (receptores de contato e distância), a inclusão delas nos aparelhos motores (corpo
quadrigêmeo) e sua integração primária com a execução de complexas sinergias (sistema talâmico-
estriado). Esses últimos aparelhos desempenham papel dominante nos vertebrados inferiores (anfíbios,
peixes, aves) mas são paulatinamente afastados pelas áreas superiores do cérebro anterior — os grandes
hemisférios. Estes são os dispositivos mais complexos, que asseguram a análise e a síntese das excitações
que chegam do mundo exterior, a assimilação e elaboração da informação recebida, o fechamento de
novas ligações, o processamento de programas de atividade complexa e regulação da realização das
formas superiores de comportamento. As áreas superiores do sistema nervoso central são os grandes
hemisférios: o córtex cerebral e a substância branca subjacente, constituída de fibras de projeção, que
ligam o córtex às formações subcorticais subjacentes, e de fibras de associação, que ligam regiões
corticais isoladas. Os grandes hemisférios começam a ocupar posição dominante nos vertebrados
superiores, tornando-se o aparelho fundamental, o mais importante da atividade psíquica do homem.
Pesquisas realizadas nos últimos decênios deram certa clareza não apenas à característica morfológica dos
aparelhos cerebrais como também aos princípios fundamentais de sua organização funcional. É isto que
se reveste de importância essencial para a Psicologia.
Os três "blocos" principais do cérebro
Como já indicamos, o cérebro humano, que assegura o recebimento e a elaboração da informação e a
criação de programas de suas próprias ações bem como o controle da execução destes, trabalha sempre
como um todo único. Contudo o cérebro é um aparelho complexo e altamente diferençado, composto de
várias partes; a perturbação do funcionamento normal de cada parte se reflete fatalmente no seu trabalho.
No cérebro humano podemos distinguir ao menos três "blocos" principais, cada um desempenhando
papel especial na atividade psíquica.
O primeiro mantém o necessário tônus do córtex, indispensável para o bom andamento dos processos de
recebimento e elaboração da informação, bem como dos processos de formação de programas e controle
da execução destes. O segundo bloco assegura o próprio processo de recebimento, elaboração e
conservação da informação que chega ao homem do mundo exterior (dos aparelhos do seu próprio corpo).
O terceiro bloco elabora programas de comportamento, assegura e regula sua realização e participa do
controle do seu cumprimento.
Todos os três blocos se instalam em órgãos isolados do cérebro e só o trabalho bem organizado leva a
uma acertada organização da atividade consciente do homem.
O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro
Para que o homem possa realizar normalmente o recebimento, a elaboração e conservação da informação,
criar e executar os complexos programas de comportamento, acompanhar o êxito das ações executadas e
fazer a necessária auto-regulação do comportamento, é necessária uma permanente manutenção do tônus
otimal do córtex. Só esse tônus pode assegurar a escolha acertada dos sinais essenciais, a conservação dos
seus vestígios, a elaboração dos necessários programas de comportamento e um controle permanente da
execução destes.
Coube a Pávlov apresentar uma característica fisiológica desse tônus otimal do córtex, indicando que os
processos que ocorrem no córtex normal obedecem à "lei da força", segundo a qual um instigador forte
(ou mais significativo) provoca uma reação forte, que deixa o vestígio mais estável, ao passo que o
instigador fraco (ou menos significativo) provoca uma reação mais fraca cujo vestígio se extingue ou se
inibe mais facilmente.
A existência dessa "lei da força", que caracteriza a excitabilidade otimal do córtex, é necessária para a
realização de atividade seletiva organizada, para a criação de sistemas dominantes de excitação, para a
conservação de sistemas de informação organizados e programas estáveis de comportamento. É bem
conhecido que com a redução do tônus do córtex este pode passar ao estado inibido ou "fásico": os
instigadores fracos começam a provocar reações idênticas às que provocam os instigadores fortes ("fase
niveladora") ou até reações mais fortes do que as dos instigadores fortes ("fase paradoxal"). Essa
peculiaridade do trabalho surge, por exemplo, no estado de sono ou sonolência.
É natural que em tais condições a atividade consciente organizada se torna impossível e o fluxo seletivo
organizado de idéias é substituído pelo aparecimento de associações "casuais" (ou secundárias).
Uma importante descoberta da fisiologia nos últimos vinte anos consiste em que inúmeras observações e
experimentos de vários pesquisadores célebres (Magoun K. W., Moruzzi G. Jas-per H. H.) mostraram que
nesse processo desempenham papel substancial as formações das áreas superiores do tronco cerebral,
particularmente as formações do hipotálamo, do tá-lamo ótico e do sistema de fibras reticulares
("formação re-ticular"), que une essas formações por uma ligação bilateral com o córtex cerebral. Essas
formações são as componentes principais do "primeiro bloco" do cérebro-bloco humano, que assegura o
tônus geral ou estado de vigília do córtex.
A esses órgãos devemos incorporar os órgãos do córtex primitivo ou límbico, que está situado nas áreas
internas (médias) dos grandes hemisférios e é estreitamente ligado aos órgãos recém-referidos do tronco
superior. Eles compreendem em sua composição formações anliquíssimas do grande cérebro como o
hipocampo, o núcleo do tálamo ótico, os antimuros e os corpos mamilares; o movimento da excitação
nesse sistema, que recebeu a denominação de "ciclo do hipocampo" é uma das condições mais
importantes de manutenção do tônus corti-cal, de garantia do estado emocional normal e cria condições
para a sólida manutenção dos indícios surgidos.
Todo o complexo aparelho que integra o bloco desempenha importante papel no funcionamento normal
do córtex cerebral e merece abordagem minuciosa.
A manutenção do tônus permanente do córtex tem basicamente duas fontes (às quais só mais tarde
acrescenta-se uma terceira, mais complexa).
Por um lado, para manter o estado de vigília do córtex é necessário um afluxo permanente de informação
do mundo exterior; privado dessa afluência de excitações do mundo exterior, o animal adormece. Sabe-se,
ainda, o efeito provocado pela "fome de informação", que surge no homem após um longo período de
isolamento numa cela escura à prova de som. As observações efetuadas nos últimos anos mostram que ?
nesses casos, começam facilmente a surgir alucinações no homem, qué compensam em parte essa
insuficiência de afluência permanente de instigações exteriores. Por isto, para manter o tônus ideal do
córtex, tem importância decisiva o estado de conservação do tronco superior e do tálamo ótico que são a
primeira instância do recebimento das instigações afluentes de fora. O corte das vias que levam do tronco
superior ao córtex na composição da "formação reticular ativa ascendente" leva inevitavelmente ao
adormecimento; esse mesmo efeito pode ser provocado pela irritação das paredes do terceiro ven-trículo
(que tem como componentes os órgãos do tálamo ótico): a irritação das paredes do terceiro ventrículo
durante operações cerebrais realizadas pelo famoso cirurgião soviético N. N. Burdenko, levou
freqüentemente o paciente a adormecer.
Deste modo, a primeira fonte do estado de vigília do córtex é a afluência constante de irritações da
periferia, no qual os órgãos do tronco, superior e a formação reticular ascendente desempenham papel
principal.
A segunda fonte igualmente importante do tônus permanente do córtex é constituída pelos impulsos que a
este chegam dos processos internos de metabolismo do organismo, que formam a base das inclinações
biológicas do organismo.
É sabido que o estado do organismo (o nível de açúcar no sangue, por exemplo, que é um índice do
estado de fome ou saciação, o nível de oxigênio no sangue, que, caindo para um nível inferior ao
necessário, é um índice da "fome de oxigênio") é regulado pelos órgãos do tronco superior e do hipo-
tálamo. Sabe-se, ainda, que o tronco superior e o encéfalo primitivo são compostos também por aparelhos
especiais, que regulam processos como os reflexos sexuais, os reflexos da agressão, etc.
Irritando as respectivas áreas do tronco superior e do encéfalo primitivo, os pesquisadores (N. Miller, J.
Olds, Mc Lean, Delgado e outros) provocaram no animal formas expressas de comportamento sexual
instintivo, atos de agressão, fome constante e sede, etc. A existência, nas referidas zonas do encéfalo, de
formações nervosas que regulam as inclinações citadas, foi utilizada por alguns pesquisadores (Olds e
Delgado) para provocar nos animais reações duradouras de "auto-estimulação". Ao fechar a corrente que
se dirigia aos eletrodos introduzidos nessas áreas do encéfalo, o animal provocava sozinho e
demoradamente a excitação desses aparelhos, considerados pelos referidos autores como "centros" sui
generís, reguladores do estado emocional do animal.
Os impulsos que partem dessas formações do hipotálamo e do tálamo ótico, que são transmitidos ao
córtex através da formação reticular ascendente, constituem a segunda fonte de manutenção do tônus
cortical e seu estado de vigília. A afecção desses aparelhos do hipotálamo e dos núcleos do tálamo ótico
no homem pode mudar substancialmente o tônus do córtex. Exemplos de mudança do tônus podemos ver
nos casos de distúrbio das funções da hipófise, por um lado, e de tumores das paredes do terceiro
ventrículo, por outro.
Aos aparelhos do tronco superior da formação reticular, que asseguram a manutenção do tônus do córtex,
devemos incorporar os aparelhos do córtex primitivo ("límbico"), situados nas áreas internas (mediais)
dos grandes hemisférios e participantes do trabalho do bloco "energético" do encéfalo.
O córtex primitivo "límbico" foi, durante muito tempo, considerado parte essencial do "corpo olfativo".
Essa hipótese se baseava no fato de que esse córtex é especialmente desenvolvido nos animais nos quais o
olfato desempenha papel dominante no comportamento. Mas a existência dessa área nos animais sem
olfato (delfins), bem como várias observações fisiológicas levaram à mudança desse ponto de vista;
levaram a incluir na região o hipocampo e os órgãos componentes, de funções bem mais complexas, e a
considerar o córtex primitivo e a região límbica como "encéfalo-vegetativos", tendo participação
essencial na regulação da ocorrência dos processos vegetativos e afetivos cujo papel é importante para a
conservação dos vestígios da memória.
Essas hipóteses foram formuladas pelos grandes pesquisadores americanos K. Klüver e P. Bucy que,
depois da dani-ficação da região límbica (particularmente das áreas mediais do lobo temporal)
observaram nos animais acentuada excitação das reações emocionais e perturbações da memória. Dados
aproximados foram obtidos também nas observações posteriores de Mc Lean, Olds e outros, que tiveram
oportunidade de presenciar mudanças substanciais das inclinações e dos processos afetivos, que ocorrem
nos animais como resultado da danificação do hipocampo. Por último, importantes observações realizadas
em pessoas com afecção bilateral do hipocampo pelos pesquisadores americanos W. Penfield, B. Milner e
W. Scoville permitiram mostrar que, nesses casos, muda substancialmente o tônus do córtex e afeta-se
profundamente a memória.
A explicação para esses fenômenos foi encontrada quando os fisiologistas (Viesel, Jasper e outros)
descobriram que no hipocampo existe um grande número de neurônios que não reagem a instigadores
específicos (visuais, auditivos ou táteis) mas reagem sutilmente a cada mudança que surge no meio
ambiente. A existência desses neurônios de cujas funções faz parte a comparação dos instigadores com os
vestígios antecedentes, fazendo parte também as reações à 'Mescoordena-ção" destes, parece explicar o
papel desempenhado pelas formações do córtex primitivo nos processos de reflexo orientado (atenção
não-dirigida) e memorização.
O papel dos aparelhos do primeiro* bloco na manutenção do tônus do córtex e do estado de vigília é
assegurado pelas suas estreitíssimas ligações com o córtex„ que são realizadas através das fibras da
formação reticular ativadora. Cabe observar que essa formação tem tecidos tanto ascendentes como
descendentes. Através dos primeiros ("formação reticular ativadora ascendente") efetua-se a excitação do
córtex pelos impulsos decorrentes das formações das áreas superiores do tronco do encéfalo. Por meio
dos segundos ("formação reticular ativadora descendente") realizam-se 1 aquelas influências que as áreas
superiores do cérebro, particularmente o seu córtex, exercem sobre os segmentos do tronco encefálico.
Por isto o aparelho da "formação reticular descendente" desempenha papel substancial na transmissão do
colorido afetivo e na garantia do tônus para os programas de comportamento que surgem no córtex em
decorrência da informação recebida e das formas exteriores de programas e necessidades que se formam
no homem com a participação da fala. É esse aparelho que assegura a terceira fonte de manutenção do
estado de vigília, que apenas mencionamos e que está ligado aos complexos programas e necessidades
que surgem no homem como resultado de sua atividade consciente.
Deste modo, o primeiro bloco do cérebro de cuja composição fazem parte os aparelhos do tronco
superior, da formação reticular e do córtex primitivo, assegura o tônus geral (vigília) do córtex e a
possibilidade de duradoura conservação dos vestígios da excitação. O funcionamento desse bloco não está
relacionado especialmente com os outros órgãos dos sentidos e tem caráter "modal-não-específico",
assegurando o tônus geral do córtex.
Bloco do recebimento, elaboração e conservação da informação
Se o primeiro bloco que acabamos de descrever assegura o tônus do córtex mas ele mesmo ainda não
participa do recebimento e processamento da informação nem da elaboração dos programas de
comportamento, já o segundo bloco está imediatamente ligado ao trabalho de análise e síntese dos sinais
trazidos do mundo exterior pelos órgãos dos sentidos, noutros termos, está relacionado com o
recebimento, o processamento e a conservação da informação recebida pelo homem.
Esse bloco é composto de órgãos situados nas seções posteriores do córtex cerebral (áreas parietal,
temporal e occipi-tal) e, diferentemente dos aparelhos do primeiro bloco, tem caráter modal-específico,
sendo um sistema de dispositivos centrais que registra a informação visual, auditiva e tátil, processam-na
ou "codificam-na" e conservam na memória os vestígios da experiência adquirida.
Os aparelhos desse bloco podem ser considerados extremidades centrais (corticais) dos sistemas
perceptivos (analisa-dores), sendo que as extremidades corticais do analisador visual estão situadas na
região occipital, as auditivas na região temporal e as táteis na região tátil-cinestésica.
Nessas seções corticais terminam os tecidos procedentes dos respectivos aparelhos receptores,
distinguindo-se e sepa-rando-se aqui indícios isolados da informação visual, auditiva e tátil afluente. Nas
seções mais complexas dessas zonas eles se reúnem, sintetizam-se e combinam-se em estruturas mais
complexas. A esssa tarefa corresponde a delicada estrutura celular das zonas corticais. Como todas as
outras regiões do novo córtex, essas zonas têm uma estrutura hexassegmentar. A mais desenvolvida
nessas zonas é a seção IV do córtex, aonde chegam as fibras que começam nos aparelhos sensitivos
periféricos. Aqui elas se transferem para outros neurônios. Algumas fibras descem diretamente para a
seção V do córtex, onde estão instaladas as células piramidais (motoras). As fibras se dirigem de algumas
dessas células para a periferia e, deste modo, fecha-se o arco dos reflexos sensórios mais simples. Outros
tecidos, que chegam dos órgãos sensitivos à seção IV do córtex, transferem-se ali para os neurônios de
ação curta, que servem de aparelhos de transferência das excítações para células associativas mais
complexas. Grande parte das células associativas ou células de ação curta, que têm a forma de pequenas
pirâmides ou células asteróides, está situada nas seções II e III do córtex, que constituem o aparelho
principal de transmissão das excitações de uns neurônios a outros. Nas zonas corticais aonde chegam
diretamente as fibras vindas dos órgãos sensitivos periféricos (mudando apenas nos núcleos sub-
corticais), que são denominadas zonas primárias ou de projeção, a posição de maior destaque cabe à
seção IV receptora das células. Nas zonas corticais contíguas às zonas de projeção e denominadas zonas
secundária? ou de projeto e associação, as seções celulares II e III são poderosamente desenvolvidas. As
seções I e VI não examinadas têm importância especial: na I estão instaladas as ligações horizontais
"transcorticais", que contactam as áreas contíguas do* córtex, instalando-se na VI as projeções das células
vegetativas, que contactam o córtex com as áreas profundas do encéfalo.
Toda a substância branca situada sob o córtex é constituída de fibras longas, que contactam o córtex com
as formações subjacentes (tecidos de projeção) ou ligam áreas isoladas do córtex a outras regiões corticais
(tecidos transcorticais) . Os dois hemisférios do córtex são ligados entre si por um feixe especialmente
potente de fibras transcorticais, denominado "corpo caloso". Quando se corta o corpo caloso, parte
considerável dos grandes .hemisférios fica desconexa e os dois hemisférios começam a funcionar
isoladamente.
O princípio de construção hierárquica de cada zona cor-tical, integrante da composição do bloco por nós
examinado, é um dos princípios mais importantes de estruturação do córtex ■cerebral. Como mostraram
as pesquisas, a informação que chega do receptor visual, auditivo ou tátil às zonas primárias (ou de
projeção do córtex) é aqui fracionada em grande número de indícios que a compõem. Isto se deve a que
nessas zonas de projeção do córtex estão instalados neurônios altamente especializados, que, como
mostraram pesquisas de alguns fisiologistas, respondem somente a alguns indícios particulares das
instigações. Assim, na zona de projeção do córtex occipital (visual) há neurônios que só reagem ao
movimento do ponto que ilumina do centro à periferia ou da periferia ao centro, só às linhas curvas
harmoniosas, às linhas quebradas agudas, etc. Essas mesmas células, com elevadíssima especialização,
existem no córtex temporal (auditivo) e tátil (parietal). Isto permite dividir a excitação em mínimos
elementos isolados e os transforma num mosaico funcional das instigações, acessível à organização
posterior.
Sobre cada zona primária ou de projeção do córtex estão edifiçadas zonas secundárias ou de projeto e
associação. Os tecidos que aqui chegam não são diretamente originários, via de regra, do receptor
periférico; eles ou mudam nos respectivos núcleos subcorticais e já veiculam impulsos generalizados ou
chegam das zonas primárias às zonas secundárias do córtex.
À diferença das zonas primárias do córtex, essas zonas se constituem basicamente das seções celulares II
e III (de associação) poderosamente desenvolvidas. A maioria esmagadora dos neurônios componentes
dessas zonas não se distingue por uma especialização tão sutil como os neurônios das zonas primárias (de
associação). Eles não reagem a indícios isolados divididos, porém, mais amiúde, a todo um complexo de
instigadores específico-modais (visuais, auditivos, táteis), sendo que alguns deles têm inclusive caráter
multimodal, reagindo a instigações de diversas modalidades. A importância dessas zonas secundárias
parece consistir em reunir as irritações que lhes chegam dos núcleos subcorticais subjacentes ou das
zonas primárias do córtex e codificá-las em determinadas estruturas dinâmicas móveis.
Esse fato é demonstrado por uma série de experimentos fisiológicos e psicofisiológicos.
Como mostraram as pesquisas de Mc Culloch, a irritação das zonas primárias com estricnina, depositada
num pedaço de papel, surte efeito somente nas áreas corticais imediatamente próximas; ao contrário, a
irritação das zonas secundárias com estricnina provoca excitação, que se espalha a fundo nas zonas
contíguas. Isto mostra que as zonas secundárias das áreas corticais de cada analisador difundem realmente
a excitação a áreas consideráveis e deste modo incorpora ao processo de excitaçâo sistemas complexos
inteiros de neurônios, garantindo o funcionamento conjunto de grandes zonas do córtex.
A importância psicológica das zonas primárias e secundárias do córtex da sensibilidade tornou-se clara
graças aos experimentos em pacientes submetidos a cirurgia cerebral. É sabido que o córtex do cérebro,
esse órgão superior da sensibilidade, é por si mesmo indolor, razão por que as cirurgias cerebrais podem
ser feitas sem anestesia; irritando partes isoladas do córtex, podem-se observar as reações do doente.
For isto que permitiu aos pesquisadores (O. Foerster, O. Poetzl e W. Penfield) chegarem a uma
conclusão sobre as funções originais das áreas primárias e secundárias do córtex. Como mostraram as
pesquisas, a irritação do córtex visual ou auditivo faz surgirem no sujeito sensações correspondentes
(alucinações).
No entanto varia inteiramente o caráter dessas alucinações com a irritação das zonas primárias e
secundárias do córtex.
Assim, as irritações das zonas primárias do córtex visual (campo 17) provocam no sujeito sensações
visuais sem forma definida (o homem vê "luz colorida", "chama", "bolas luminosas", etc). Diferentemente
disto, a irritação das zonas secundárias do córtex visual faz o homem começar a ver objetos de forma
definida (borboletas, feras, rostos conhecidos, etc.). Resultados análogos são obtidos com a irritação do
córtex auditivo: com a irritação das zonas primárias do córtex auditivo o homem começa a ouvir tons ou
sons isolados, passando a ouvir melodias inteiras com a irritação das zonas secundárias desse córtex, etc.
Tudo isso indica que as zonas primárias do córtex da sensibilidade têm as funções de distinguir esses e
aqueles indícios específico-modais (visuais, auditivos, táteis), noutros termos, exercem a função de
fracionar (analisar) em partes componentes a informação recebida, ao passo que as zonas visuais dessas
mesmas áreas corticais implicam a função de unificar (sintetizar) ou proceder a uma elaboração
complexa da informação que chega ao sujeito.
Cabe observar mais uma peculiaridade importante do funcionamento das zortas primárias (de projeção) e
secundárias (de projeção e associação) do córtex.
As' zonas primárias do córtex, aonde os tecidos de projeção chegam dos respectivos receptores
periféricos, apresentam uma rigorosa estrutura somatotópica. Isto significa que as fibras nervosas, que
chegam das regiões receptoras ao córtex dessas zonas, não estão distribuídas por acaso mas dispostas em
ordem rigorosa, estando cada ponto da superfície receptora representado num ponto absolutamente
determinado do córtex de projeção. Assim, os tecidos que vão das superfícies cutâneas das zonas
inferiores do corpo, cruzando-se no tronco do encé-falo, chegam às zonas superiores da circunvolução
anterior central do hemisfério oposto, ao passo que os tecidos que conduzem os impulsos da sensibilidade
cutânea das mãos se situam na parte intermediária e os tecidos que levam os impulsos sensíveis da pele
do rosto e da cabeça se situam nas partes inferiores da circunvolução central anterior do hemisfério
oposto; é de importância especial o fato de que a área, ocupada pela projeção dessas ou daquelas partes do
corpo, é proporcional à importância que essas regiões do corpo realmente têm. Deste modo, a área
ocupada pela projeção do quadril ou da perna no córtex cerebral é muito insignificante, ao passo que as
projeções da mão (especialmente do polegar e do indicador), da boca e dos lábios, são muito grandes. Isto
garante maior direção para os órgãos que devem sujeitar-se com precisão especial a uma regulação
central. É característico que a destruição de determinados trechos das áreas cor-ticais da região parietal
(póstero-central) leva à queda da sensibilidade nas áreas rigorosamente limitadas do lado oposto do corpo,
sendo que a queda da sensibilidade na pele da perna, do braço ou do rosto dá fundamentos para avaliar o
lugar no córtex de projeção e sensibilidade ou em suas vias condutoras, destruídas por processo
patológico. Ao contrário, a irritação das zonas primárias (de projeção) do córtex leva ao aparecimento de
sensações visuais ou auditivas, que surgem na ausência das respectivas influências exteriores. O típico
para esses casos é a "aura" (fase inicial) dos acessos epilépticos, que surgem como resultado da influência
irritante de cicatriz localizada na zona correspondente do córtex cerebral. Assim, uma cicatriz localizada
nas áreas superiores da circunvolução póstero-central provoca sensação de "choque" ou "formiga-mento"
na extremidade inferior do lado oposto, a cicatriz localizada nas zonas intermediárias dessa região
provoca as mesmas sensações no braço oposto, e a situada nas partes inferiores do córtex dessa região
provoca as mesmas sensações na face oposta do rosto.
O princípio análogo da projeção somatotópica ocorre em outras áreas do córtex. Assim, as fibras que vão
de áreas isoladas da retina, que constituem partes do campo visual, projetam-se em trechos absolutamente
determinados da zorja de projeção do córtex occipital (visual), resultando que a afec-ção de determinadas
áreas do córtex visual leva à eliminação de áreas perfeitamente determinadas do campo visual; a irritação
de áreas isoladas da região occipital leva ao surgimento de sensações visuais ("fosfenos") em
determinadas áreas do campo visual.
O mesmo ocorre nas áreas de projeção do córtex temporal (auditivo): os tecidos que implicam
excitação, que corresponde a tônus elevados, projetam-se nas áreas internas da zona auditiva primária do
córtex, enquanto os tecidos que implicam excitações, correspondentes aos tônus baixos, projetam-
se nas áreas laterais do córtex. Por isto a irritação desses setores do córtex ou de suas vias condutoras
provoca sensações auditivas correspondentes, que podem ser o início (aura) de acessos epilépticos.
A consideração dos referidos fatos da estrutura somatotópica das zonas primárias do córtex é de grande
importância prática, pois os sintomas de sua afecção ou irritação servem de importante indício
diagnóstico para a atividade tópica de suas afecções.
Esse princípio da rigorosa projeção somatotópica de determinadas superfícies sensíveis (receptoras) em
certas áreas dos campos corticais de projeção (princípio esse que permite usar os sintomas de queda da
sensibilidade em determinadas áreas do corpo para o diagnóstico tópico das afecções) caracteriza a
organização funcional dos campos corticais primários. No entanto ele não tem qualquer validade para a
avaliação do funcionamento dos campos corticais secundários.
Como já foi dito, os campos corticais secundários do bloco por nós examinado asseguram a síntese das
excitações que chegam ao campo primário, "codificando-as"; eles substituem o princípio de projeção
somatotópica por outro princípio: o da organização fundamental das respectivas excitações. Por isto a
destruição dessas zonas não leva a ocorrências de quedas de sensibilidade, levadas a coincidirem com
determinadas regiões do corpo ou a certa parte do campo da percepção, mas suscita uma desintegração
geral no funcionamento desse ou daquele analisador, a qual se manifesta na complexa decodificação da
informação que chega ao sujeito, noutros termos, leva à perturbação das formas complexas de percepção
visual, auditiva ou tátil, conhecida na clínica pela denominação de "agnosia". Ainda voltaremos a abordar
a análise desses fenômenos quando analisarmos os processos de percepção.
As zonas primárias e secundárias do córtex não esgotam os aparelhos corticais do bloco em análise.
Sobre elas estão edificados os aparelhos das zonas terciárias do córtex (ou "zonas" de cobertura das
extremidades corticais de determinados analisadores), sumamente importantes para garantir as formas
mais complexas de funcionamento desse bloco.
As zonas terciárias do córtex cerebral surgem nas etapas mais tardias da escada filogenética e são, até
certo ponto, formações especificamente humanas. Até nos carnívoros as zonas corticais de certos
analisadores estão em contato direto umas com as outras, sendo apenas esboçadas no macaco, ao passo
que no homem elas ocupam parte considerável das áreas posteriores do córtex.
As zonas terciárias do cóitex cerebral amadurecem só muito tardiamente, na ontogênese. Como mostrou o
anatomista alemão P. Flechsig, o processo de revestimento dos tecidos que surgem nessas zonas — a
mielina, que os torna aptos para o funcionamento — termina bem mais tarde do que em outras zonas.
Tudo isso mostra que as zonas terciárias ou "zonas de cobertura" são as áreas do córtex cerebral mais
jovens, que começam a funcionar mais tardiamente.
Pela estrutura histológica, essas zonas pertencem àquelas em que predominam inteiramente as camadas II
e III de células de associação. Isto se refere às suas funções básicas, que consistem na unificação da
informação que chega de diferentes analisadores ao córtex cerebral. As zonas terciárias das áreas
posteriores do córtex cerebral estão situadas nos -limites da região parietal, occipital e temporal e
compreendem os campos 39, 40, 37 das áreas parietais inferiores do córtex. Quando elas se irritam, não
surgem quaisquer reações sensitivas ou observações, sua afecção não provoca a queda da sensibilidade
visual, auditiva ou tátil. A importância dessas áreas do córtex para a unificação da informação, que chega
de analisadores isolados, pode ser vista analisando-se os comportamentos dos doentes com afecção dessas
áreas do córtex cerebral. Via de regra, surgem nesses doentes dificuldades de fazer uma codificação mais
complexa da informação recebida, predominando a dificuldade de unificar em esquema espaciais
simultâneos as irritações sucessivas que chegam ao encéfalo. Distiguindo os objetos e sons visualmente
perceptíveis, os doentes começam a sentir dificuldades de orientar-se no espaço, confundem a direção,
não conseguem distinguir os lados direito e esquerdo, entender a posição dos ponteiros do relógio e
correlação dos países no mapa geográfico. Esses pacientes ficam sem condições de fazer operações
matemáticas que exigem tomar como orientação a ordem numérica, subtrações e divisões rápidas e
começam a experimentar sérias dificuldades na interpretação das complexas estruturas gramaticais e de
operações lógicas que incluem relações complexas.
Tudo isso mostra que as zonas terciárias do córtex são um importante aparelho, indispensável para as
formas mais complexas de elaboração e codificação da informação recebida.
O bloco da programação, regulução e controle da atividade
O terceiro bloco cerebral do homem faz a programação, a regulação e o controle do desempenho ativo do
homem, fi integrado por órgãos situados nas áreas anteriores dos grandes hemisférios, cabendo nele
posição dominante as seções frontais do encéfalo.
A atividade consciente do homem apenas começa com a obtenção da informação e sua elaboração,
terminando com a formação das intenções, do respectivo programa de ação e com a realização desse
programa em atos exteriores (motores) ou interiores (mentais). Para isto é necessário um aparelho
especial, capaz de criar e manter as necessárias intenções, elaborar programas de ação a elas
correspondentes, realizá-los nos devidos atos e, o que é de suma importância, acompanhar as ações em
curso, comparando o efeito da ação exercida com as intenções iniciais.
Todas essas funções são exercidas pelas áreas anteriores do encéfalo e seus lobos frontais.
Pelo caráter de sua estrutura, as áreas anteriores do córtex distinguem-se substancialmente das
posteriores; se o córtex das áreas posteriores do encéfalo apresentava • como característica raias
transversais, o córtex das * áreas anteriores se caracterizava por raias verticais, o que sugere o caráter
motor das estruturas nele dominantes. Se no córtex das áreas posteriores do encéf alo (principalmente enx
suas zonas primárias) predomina a camada IV (aferente) de células, no córtex das áreas anteriores
(especialmente em sua zona primária) predomina a camada eferente de células com as grandes pirâmides,
cujas ações levam à periferia os impulsos formados, fazendo-os chegar aos músculos dos braços e assim
provocando os movimentos correspondentes cujos programas foram preparados por todo o córtex
cerebral, particularmente por sua região frontal.
Como as áreas posteriores, as áreas anteriores têm as mais estreitas ligações com as formações
subjacentes da formação reticular, sendo importante que aqui estão poderosamente representados tanto as
fibras ascendentes como as descendentes da formação reticular, que acompanham os impulsos formados
nos lobos frontais do córtex e deste modo regulam o estado geral da atividade do organismo, mudando-a
de conformidade com as intenções formadas no córtex.
Como os sistemas das áreas posteriores do córtex, as áreas anteriores têm estrutura hierárquica com a
única diferença de que as zonas primárias do córtex motor não são as primeiras (aonde chegam os
instigadores que atingem o encéf alo) mas as últimas pela ordem de funcionamento: a elas chegam os
impulsos preparados nas áreas mais altas do córtex e elas dirigem esses impulsos para a periferia,
provocando movimentos correspondentes.
Por uma questão de simplicidade da nossa exposição, manteremos no exame das zonas primárias do
cérebro a mesma ordem que adotamos na abordagem das estruturas hierarquicamente organizadas das
áreas posteriores do córtex.
É zona primária ou de projeção das áreas anteriores do encéfalo a circunvolução central anterior ou a
região motora do córtex (4?- área de Brodmann), sobre a qual está construído o campo pré-motor
secundário (6^ área de Brodmann); mais acima estão situadas as formações do córtex propriamente
frontal ou região pré-frontal (áreas 9, 10, 11, 46 de Brodmann).
Apesar de todas essas zonas corticais apresentarem como característica a "estrutura de raias verticais" já
referida, as estruturas celulares de cada uma das referidas zonas difere muito uma. das outras.
O córtex primário ou de projeção está situado em forma de uma faixa longa nos limites da circunvolução
anterior central, predominando nele a camada eferente constituída de gigantescas células piramidais,
descobertas pelo anatomista russo V. A. Bets. Essas gigantescas pirâmides dão início a longos axônios,
que, passando no tronco cerebral para o lado oposto, descem, chegam aos cornos anteriores da medula
espinhal e são portadores de impulsos motores que, em suma, levam a conhecidos grupos musculares.
Como outras zonas de projeção, os campos motores primários do córtex têm precisa estrutura
somatotópica: as gigantescas células piramidais das suas áreas superiores levam os impulsos motores aos
músculos das extremidades inferiores do lado oposto do corpo, as gigantescas pirâmides das zonas
médias levam esses impulsos aos músculos das extremidades superiores, as células piramidais das zonas
inferiores desse campo levam os impulsos aos músculos do pescoço, da cabeça e do rosto. Como nas
zonas sensórias de projeção, o território do campo motor primário representa os respectivos grupos
musculares não pelo traço geométrico mas pelo funcional; quanto mais dirigível deve ser o respectivo
grupo muscular, tanto maior território ocupa sua projeção na zona motora primária do córtex.
Essa organização somatotópica da circunvolução central anterior e suas vias condutoras é de suma
importância para o diagnóstico tônico das afecções cerebrais: a destruição das áreas superiores dessa
região cerebral ou de suas vias condutoras leva à paralisia na perna oposta, a afecção das áreas médias
leva à paralisia do braço oposto, a afecção das áreas inferiores leva à paralisia ou paresia dos nervos do
lado oposto do rosto. De acordo com isto, as cicatrizes situadas nessas áreas do córtex, e que o irritam,
provocam contração ou convulsões das partes correspondentes do corpo, razão por que o caráter da aura
(período inicial dos acessos epilépticos que surgem em casos semelhantes) é de grande importância
diagnostica, indicando o lugar da cicatriz.
Sobre a zona motora primária do córtex cerebral edifica-se a região pré-motora, que tem em sua
composição a Área de Brodmann. Essa região prepara o lançamento dos impulsos motores e cria a
"melodia cinética" que põe em funcionamento as "teclas" da zona motora do córtex.
À diferença da zona motora de projeção, nessa região pré-motora predominam pequena^ células
piramidais das camadas II e III do córtex, células essas que desempenham papel de projeção e associação;
aqui o princípio da projeção somatotópica está incomparavelmente menos representado do que na zona
motora de projeção. Por isto a afecção da zona pré-motora não leva ao surgimento de paralisias em
determinados grupos musculares. A importância da zona pré-motora do córtex (ou "campo motor
extrapiramidal") consiste em que ela cria condições para o funcionamento sistemático do aparelho motor
e, em particular, assegura a transferência harmoniosa dos impulsos de uns elos de movimento a outros,
garantindo a execução de complexas melodias motoras. A zona pré-motora do córtex adquire importância
especialmente grande para a criação de habilidades motoras, nas quais um elo motor deve ser
harmoniosamente substituído por outro. £ por isto que, com a irritação da zona pré-motora do córtex, não
surgem contrações de grupos musculares isolados mas complexos movimentos conjuntos (viradas da
cabeça e dos olhos, movimentos de agarramento com os braços); com a afecção dessa zona surgem perdas
da transferência harmoniosa de um elo a outro, ou seja, em outros termos, a perturbação das "melodias
ciné-ticas" ou habilidades motoras.
Nas zonas pré-motoras do córtex cabe papel especial à 8^ área de Brodmann, que é um centro anterior de
movimentação dos olhos, que garante ativos movimentos harmoniosos dos olhos. Com sua afecção,
mantém-se os movimentos refletores dos olhos, que acompanham os objetos em movimento,
perturbando-se os movimentos rápidos e harmoniosos dos olhos.
Sobre a zona pré-motora edificam-se as áreas terciárias do córtex frontal ou região pré-frontal, integradas
pelas áreas 9, 10, 11 e 46 de Brodmann, de estrutura inteiramente diferente.
À diferença da zona motora e pré-motora, essas áreas do córtex não têm entre seus componentes grandes
células piramidais, estando toda a massa cortical ocupada por células de pequenos axônios e células
asteróides cujos corpos são muito pequenos e constituem embriões ou grânulos (por isto a região pré-
frontal é às vezes chamada de "córtex frontal granular"). Ela apenas se esboça nos vertebrados, ocupa
lugar relativamente pequeno nos macacos, desenvolvendo-se poderosamente apenas no homem, no qual
representa quase um terço de toda a massa dos hemisférios. Por isto o córtex pré-frontal pode ser
considerado formação especificamente humana.
Os órgãos do córtex pré-frontal amadurecem bem no final da ontogênese, ocupando pelo tempo de
maturação um dos últimos lugares no mapa de mieíinização de Flechsig. Por último, o que é de suma
importância, as regiões pré-frontais do córtex estão ligadas a todas as áreas do cérebro e às áreas
subjacentes da formação reticular. Essas ligações são especialmente significativas nas regiões mediais e
basais dos lobos frontais; como já dissemos anteriormente, concomitantemente com as fibras ascendentes
da formação reticular, nela se desenvolvem, com força especial as fibras da formação reticular
descendente. Isto permite aos lobos frontais do encéfalo manter permanentemente o tônus do córtex por
meio de tecidos básicos, que os contactam com as formações subjacentes do tronco.
A importância dos lobos frontais do córtex cerebral é muito grande para a organização do
comportamento, embora durante muito tempo ela não se tenha prestado a uma definição científica
precisa.
Isto se devia à impossibilidade que havia de expressar as funções dos lobos frontais do encéfalo nos
conceitos clássicos do raio refletor; a afecção dos lobos frontais do encéfalo não levava a nenhuma
perturbação dos movimentos elementares, não provocava paralisia, distúrbios da sensibilidade nem
perturbação da fala. Isto dava a alguns autores fundamentos para considerar as regiões frontais do córtex
cerebral como "zona muda" sem quaisquer funções especiais. A questão mudou substancialmente quando
os pesquisadores passaram a enfocar o cérebro como um sistema auto-regulador sumamente complexo,
que cria complexos programas de comportamento, regula a ocorrência de atos motores e exerce controle
sobre estes. À luz dessas concepções conseguiu-se definir com precisão bem maior a função do cérebro.
Dotados de poderosas ligações com a formação reticular ascendente e a descendente, os lobos frontais do
encéfalo se constituíam acima de tudo em um aparelho de poderoso papel ativador. Como mostraram os
estudos, em cada tensão intelectual (expectativa do sinal, cálculo complexo) surgem nos lobos frontais do
cérebro ondas lentas especiais, que se estendem a outras áreas do córtex e foram denominadas "ondas da
expectativa" pelo fisiologista inglês Walter Gray. Essas ondas desaparecem quando começa a cessar a
expectativa do sinal. O trabalho intelectual tenso, que exige elevado tônus do córtex, provoca nos lobos
frontais um elevado número de pontos de funcionamento conjunto, que se excitam sincronicamente.
Como mostrou o cientista soviético M. N. Livanov, esses pontos de funcionamento sincrônico se
conservam durante toda a duração do trabalho intelectual complexo e desaparecem quando este cessa.
O papel dos lobos frontais na manutenção do estado ativo, provocado pela instrução do discurso ou uma
tarefa intelectual, foi mostrado no exame de pacientes com afecções locais (tumores ou traumas) dos
lobos frontais do encéfalo. Os experimentos da psicóloga soviética E. D. Chomskaya mostraram que se a
instrução do discurso, que provoca tensão, leva nos sujeitos normais ao surgimento de longos estímulos
de ativação (que se expressam em reações vasculares ou eletrofisioló-gicas), então esse estado persistente
de elevada ativação não surge ou desaparece muito rapidamente nos doentes com afec-ção dos lobos
frontais do encéfalo (especialmente das suas. regiões mediais e basais, dotadas de ligações sobretudo
potentes com a formação reticular ativante).
Ao manter o tônus do córtex, indispensável para a realização da tarefa colocada, as regiões frontais do
encéfalo desempenham papel decisivo na criação de intenções e formulação de programas de ação que
concretizam essas intenções.
Neuropsicólogos (Luria e outros) mostraram com suas observações que a afecção bilateral dos lobos
frontais do encéfalo impede que os pacientes fiquem em condições de conservar solidamente as intenções,
manter os programas complexos de ação, inibir os impulsos não-correspondentes aos programas e regular
a atividade sujeita a esses programas. Eles não podem concentrar a atenção na tarefa que se lhes colocou'
e fogem facilmente ao seu cumprimento, substituindo as ações necessárias ora por simples respostas a
instigadores semelhantes, ora pela repetição apática dos estereótipos surgidos, que continuam a
reproduzir-se independentemente da tarefa colocada, dificultando-lhe o cumprimento adequado.
É natural que a atividade intelectual organizada, orientada pela tarefa colocada, é substancialmente
perturbada com a afecção dos lobos frontais do cérebro; aqui os planos complexos de solução das tarefas
são substituídos por respostas fragmentárias surgidas de modo impulsivo ou pela reprodução apática dos
estereótipos uma vez assimilados (A. Luria e L. S. Tsvetkova).
É sobretudo importante o fato de que os lobos do encé-falo desempenham papel essencial na realização
do controle permanente da atividade em processo. Os pacientes com afec-ção dos lobos frontais do
encéfalo não podem comparar os resultados das suas ações com a intenção inicial, perdem a atitude crítica
em face das suas próprias ações e ficam sem condições de reconhecer seus próprios erros e corrigi-los.
Isto dá fundamento para considerar que os lobos frontais são importante componente do mecanismo do
"aceptor de ação" (P. A. Anokhin) que desempenha papel de suma importância na garantia da atividade
auto-reguladora do homem.
O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes
hemisférios
A descrição dos três blocos principais cujo funcionamento conjunto é assegurado pela atividade do
cérebro humano não esgota os princípios fundamentais do seu funcionamento. Contudo essa descrição
deve ser completada com mais um princípio, que serve de base ao funcionamento do cérebro humano.
Se os dois hemisférios dos animais são equivalentes, no homem um deles (via de regra, o hemisfério
esquerdo) é dominante e o outro, dominado. Ao que parece, o caráter dominante do hemisfério esquerdo
começou com o surgimento do trabalho e o destaque do braço direito como executor do papel principal na
atividade de trabalho. Por isto o hemisfério esquerdo desempenha papel dominante nos destros, enquanto
nos canhotos o papel dominante oblitera-se ou passa para o hemisfério direito.
O indício mais importante do papel dominante do hemisfério esquerdo no destro é o fato de esse trabalho
estar estreitamente ligado à fala. Apesar de, em termos morfoló-gicos, a diferença entre os dois
hemisférios ser muito insignificante, só o hemisfério esquerdo é aparelho cerebral da fala; as partes
inferiores das áreas posteriores do hemisfério esquerdo (regiões temporal e panetal) estão relacionadas
com o discurso receptor (diferença dos sons da fala, formação de articulações da fala e codificação do
discurso falado, que chega ao sujeito em complexos sistemas lógico-gramaticais), sendo as áreas
inferiores da zona pré-motora um aparelho que assegura a transformação dos movimentos da fala em
complexas "melodias cinéticas" do discurso e em articulação fluente da fala. É por isso mesmo que a
afecção das áreas posteriores da região temporal superior esquerda leva à perturbação da capacidade de
distinguir os complexos sons da fala, provocando a desintegração da compreensão da fala (a chamada
"afasia seri-sória"); a afecção das áreas inferiores da região pós-central leva à perturbação das
articulações precisas ("afasia motora aferente"); a afecção das áreas posteriores da circunvolução frontal
inferior (ou áreas inferiores da zona pré-motora esquerda) leva à perturbação da fala expressiva fluente
("afasia motora aferente"). É natural que as afecções de todas as referidas regiões do córtex do hemisfério
esquerdo levam fatalmente à perturbação de formas complexas da fala como os processos de localização
dos nomes necessários, da fala independente organizada, da escrita e, em alguns casos, à perturbação da
leitura,- do cálculo, etc. É característico que a afecção das zonas correspondentes do hemisfério direito
(subdominan-te) não provoca tais distúrbios.
O caráter dominante do hemisfério esquerdo (nos destros) não se manifesta apenas na ocorrência normal
dos processos da fala. Como mostraram observações clínicas, a integridade do hemisfério esquerdo é
importante também para o desenvolvimento de todas as foi mas de atividade consciente relacionada com
o discurso falado.
Assim, a afecção das regiões do córtex cerebral, contíguas às zonas do discurso e pertencentes às regiões
terciárias do córtex, provoca a perturbação das formas complexas de percepção (agnosia), a
desintegração das formas mais complexas de operações lógico-gramaticais que servem de base aos
processos intelectuais ("afasia semântica"). De modo diferente, as afecções de áreas análogas do
hemisfério direito (sub-dominante) não provocam semelhantes distúrbios dos processos cognitivos e se
refletem em maior medida no distúrbio da percepção direta e do campo emocional do homem.
Há fundamentos para supor que da íntima ligação dos processos da fala com o córtex do hemisfério
esquerdo (dominante) resulta que o seu funcionamento transcorre de modo.

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