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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

WILLIAN ROBSON SOARES LUCINDO

COMEMORAÇÕES, CIDADANIA E FESTAS: O


ASSOCIATIVISMO NEGRO EM PIRACICABA E CAMPINAS NAS
TRÊS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX

CAMPINAS - SP
2020
WILLIAN ROBSON SOARES LUCINDO

COMEMORAÇÕES, CIDADANIA E FESTAS: O


ASSOCIATIVISMO NEGRO EM PIRACICABA E CAMPINAS NAS
TRÊS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX

Tese apresentada ao Instituto de Filosofia e


Ciências Humanas da Universidade Estadual de
Campinas como parte dos requisitos exigidos
para a obtenção do título de Doutor em História,
na área História Social

Supervisor/Orientador: Profa. Sílvia Hunold Lara

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL


DA TESE DEFENDIDA PELO ALUNO WILLIAN
ROBSON SOARES LUCINDO E ORIENTADO PELA
PROFA. DRA. SÍLVIA HUNOLD LARA

CAMPINAS
2020
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Tese de Doutorado, composta


pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 06 de março de
2020 considerou o candidato Willian Robson Soares Lucindo aprovado.

Profa. Dra. Sílvia Hunold Lara (orientadora)


Profa. Dra. Fernanda Oliveira da Silva
Profa. Dra. Lucilene Reginaldo
Prof. Dr. Mario Augusto Medeiros da Silva
Prof. Dr. Petrônio José Domingues

A Ata de Defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no


SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertações/Teses e na Secretaria do Programa de Pós-
Graduação em História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
AGRADECIMENTOS

Dez anos depois, volto a uma das tarefas mais difíceis de uma pesquisa
acadêmica: agradecer tantas pessoas que me ajudaram durante anos em um espaço tão curto.
Esquecer algum nome é inevitável, mas eu nunca teria conseguido concluir esta Tese de
Doutorado sozinho e espero retribuir, de alguma forma, a todos os envolvidos. A primeira
pessoa a quem gostaria de expressar é minha orientadora, Silvia Hunold Lara, pelo apoio,
leitura minuciosa, sugestões, provocações e pela paciência em corrigir várias vezes meus
textos, sempre com muito zelo. Por toda sua dedicação comigo, sinto que este estudo não teria
esse formato se fosse orientado por outra pessoa. Divido todos os méritos desta tese com a
minha professora Silvia.
Em todas as instituições onde realizei pesquisas, contei com apoio de pessoas
atenciosas e generosas, que muitas vezes amenizaram os diversos percalços que enfrentei. Em
São Carlos, agradeço aos funcionários da “Fundação Pró-Memória”, em especial Luiza
Shimada, responsável pelos atendimentos. Ao Márcio Pires, então presidente do “Grêmio
Recreativo Familiar Flor de Maio”, por permitir que eu pesquisasse a documentação da
associação e explicar o funcionamento da rede de Clubes Sociais Negros de São Paulo. Em
Piracicaba, à presidenta da “Sociedade Beneficente 13 de Maio”, Conceição Aparecida
Sandoval, aos sócios Noedi Monteiro, Fátima e José Luiz, que acompanharam minha pesquisa
na sede do clube e informaram um pouco mais sobre as experiências negras da cidade. Aos
funcionários da “Biblioteca Pública Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, em especial “seu Dino”,
que acompanhou minha pesquisa aos jornais. Aos funcionários do “Departamento de
Documentação e Arquivo da Câmara Municipal de Piracicaba”, em especial Gabi, então
estagiária, e seu diretor Fábio Bragança por toda a atenção que me deram. Aos funcionários
do “Arquivo Municipal de Campinas”, em especial à Regina e Rita.
À Associação Brasileira de Pesquisador@s Negr@s, à rede de Historiadorxs
Negrxs, ao GT Emancipações e Pós-Abolição, lugares em que pude debater e qualificar minha
pesquisa, as contribuições de seus pesquisadores foram fundamentais para a elaboração desta
tese.
Aos professores e colegas do Programa de Pós-Graduação em História da
UNICAMP, que entre aulas e conversas informais me ensinaram muito ao longo desses cinco
anos. À Flávia, secretária do CECULT, por sempre me orientar nas questões burocráticas. À
professora Lucilene Reginaldo e ao professor Mário Augusto M. da Silva, pela leitura,
sugestões e críticas no exame de qualificação. Pelo tratamento sempre carinho que tiveram
comigo em nossa parceria com o projeto de pesquisa de Clubes Negros.
À professora Fernanda Oliveira da Silva, ao professor Petrônio Domingues por
terem aceitado o convite de participar do exame de defesa.
Aos amigos que fiz nesse período, Jonas, Lucas, Sebastião, Lívia, Ana Paula,
Felipe, Laila, Alexandre, Bruno, Jules, Humberto, Douglas, Ana Flávia.
Aos laços que se fortaleceram por estarmos todos no doutorado, Karla, Júlio,
Mariana, Danilo, Simone. Conversar sobre nossas angústias e frustrações acadêmicas foi
sempre bom para mostrar que podia ser pior, e o sucesso de cada um de nós é a nossa
motivação em seguir em frente. Às amizades que fiz nesses dez anos de NEAB/UDESC,
espaço acadêmico que me ensinou que pesquisa pode se aliar à engajamentos políticos em
busca de uma sociedade mais justa e livre de qualquer forma de discriminação.
Aos meus professores e amigos Acácio, Amailton, Analu, Annita, Antonieta,
Denilson, Ivy, Lourenço, Paulino, Juvenal, Jauará, Vanicleia e Wilson. Aos amigos
professores, que entre manifestações sindicais, aulas e confraternizações sempre perguntaram
sobre o andamento da tese e me motivaram. Aldo, Maurício, Bernardo, Vinícius, Manuel,
Milton, Clóvis, Tiago, Josi, Luiz, Germano, Rui, Ana, Andrea, Vivi, Mariza, Rosana,
Mariana, Jéssica, Débora, Rita, Carla, Fran, Elis, Liliane, vocês foram sensacionais.
À Evellin que me arrastou para uma palestra na USP sobre Florestan Fernandes e
me convenceu, após a palestra de Sidney Chalhoub, a prestar a seleção de doutorado na
UNICAMP, quando eu pensava em desistir das seleções. Devo-te muito!
À minha família que sempre me apoiou. Minhas tias Nair, Fátima, Vanda, Juliana,
meus tios Toninho, Carlos, Eduardo, minhas primas Jaqueline, Thaís, Bia, Carol e Isabelle.
Aos meus primos Victor, Guilherme, Maurício. Ao meu cunhado Renato. Ao Hebert,
Anderson, Daniel. Reuniões com vocês tornaram os dias mais alegres.
Ao meu irmão Felipe que me ouvia mesmo quando não me entendia, minhas
irmãs, Vanessa, Bruna, Daniela, Gabrielle e, especialmente, Emy que por ter passado por um
doutoramento sabia como me aconselhar e foi leitora de muitos de meus artigos. Ao meu
sobrinho Heitor, que tentava organizar meus livros, que exigia a minha atenção demonstrando
que existe mais o que fazer do que se debruçar em textos e escrita. Espero que ao longo de sua
educação escolar, estude as histórias das populações negras para além da escravidão. À minha
mãe e minha rainha, Regina que me convenceu que o conhecimento é a maior riqueza de uma
pessoa. Ao meu pai, José Carlos, que no último ano aproveitou sua condição de aposentado
para me contar parte de sua trajetória militante.
À Fernanda por todo amor, carinho e paciência nesses dois anos de namoro...
À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo
suporte financeiro para a realização do doutorado (Processo nº2015/21428-4).
Dedico esta tese a todos que colaboraram por sua elaboração.
RESUMO

Esta tese analisa a história de organizações dirigidas por grupos de negros,


identificados como homens de cor, nas cidades de Campinas e Piracicaba nas três
primeiras décadas do século XX, e suas ações em prol da cidadania das populações
negras. Nos anos seguintes à Abolição, vários artigos publicados em jornais das duas
cidades do Oeste Paulista reclamavam da ausência de celebrações locais à lei que pôs
fim ao sistema escravista, enquanto no resto do país a data era marcada por grandes
festejos. Havia grupos de homens de cor que saíam às ruas dando vivas, mas os
articulistas desejavam ritos cívicos, solenidades que consideravam ser características
das grandes comemorações. Em Piracicaba, um grupo de negros resolveu criar uma
sociedade com o objetivo de não deixar a data cair no esquecimento, promovendo
cortejos cívicos, e, apesar da festa ser sua única meta durante anos, atendeu a outros
aspectos da vida cotidiana. Em Campinas, houve mais entidades e por isso o
associativismo negro teve diversas finalidades: houve associações de ajuda mútua,
recreativa, dramática, dançante, esportiva, instrutiva. Celebrar o 13 de maio também
foi importante. Os homens de cor das duas cidades buscaram conquistar o respeito
dos setores dirigentes, em um momento de forte estigmatização e inferiorização das
populações negras. Havia muitos argumentos em favor de uma cidadania parcial: os
negros não poderiam gozar de todos os direitos porque precisavam aprender a viver
em uma sociedade pautada pelo trabalho livre; confundiam liberdade com
ociosidade; eram levados por seus vícios para a criminalidade e prostituição. Por isso
mesmo, as populações negras precisavam ser vigiadas. Os homens de cor criaram
códigos de conduta para se mostrarem diferentes dessa imagem e para se
apresentarem como aptos a viver sob o novo regime republicano, na condição de
homens livres. Em certa medida, tiveram sucesso: foram vistos respeitosamente, suas
festas foram consideradas atos de patriotismo e ganharam espaços nos jornais locais.
No entanto, os elogios não se estenderam ao restante da população negra. Eles eram
dignos, exatamente porque não se pareciam com “outros negros”. Apesar de
aceitarem e destacarem essa distinção, os homens de cor lutaram em prol da elevação
moral dos negros como um todo. A pesquisa utilizou artigos publicados em jornais
da Imprensa Negra, atas de associações e documentos dos governos municipais, para
abordar diferentes aspectos da atuação das associações dos homens de cor em
Campinas e Piracicaba, propondo que as festas, comemorações, homenagens e
atividades recreativas que organizaram fizeram parte de uma luta antirracista que, no
início do século, buscou conquistar direitos de cidadania para as populações negras
destas duas cidades.

Palavras Chave: Celebrações; Cidadania; Associativismo Negro; Campinas e


Piracicaba
ABSTRACT

This thesis analyzes the history of organizations run by groups of blacks, identified
as men of color, in the cities of Campinas and Piracicaba in the first three decades of
the twentieth century, and their actions for the citizenship of black populations. In the
years following the Abolition, several articles published in newspapers in the two
cities of Oeste Paulista complained about the absence of local celebrations to the law
that ended the slave system, while in the rest of the country the date was marked by
large festivities. There were groups of men of color who took to the streets giving
lives, but the writers wanted civic rites, solemnities that they considered to be
characteristic of the great celebrations. In Piracicaba, a group of blacks decided to
create a society with the aim of not letting the date fall by the wayside, promoting
civic processions, and, although the party is their only goal for years, served other
aspects of daily life. In Campinas, there were more entities and because this the black
associativism had many purposes: there were associations of mutual aid, recreational,
dramatic, dancing, sports, instructive. Celebrating May 13 was also important. The
men of color from the two cities sought to gain respect of the ruling sectors, at a time
of strong stigmatization and inferiorization of black populations. There were many
arguments in favor of partial citizenship: blacks could not enjoy all rights because
they needed to learn to live in a society guided by the free work; confused freedom
with idleness; were driven by their addictions to crime and prostitution. That’s why
black populations needed to be watched. Men of color created codes of conduct to
present different from this image and to present themselves as able to live under the
new Republican regime, as free men. To some extent, they were successful: they
were viewed respectfully, their parties were considered acts of patriotism and gained
spaces in local newspapers. However, the praise did not extend to the rest of the
black population. They were worthy, precisely because they didn’t look like “others
black people”. Although they accepted and highlighted this distinction, men of color
fought for the moral elevation of black people. The research used articles published
in black press newspapers, minutes of associations and documents of municipal
governments, to analyze different aspects of the performance of associations of men
of color in Campinas and Piracicaba, proposing that the parties, celebrations, tributes
and recreational activities they organized were part of an anti-racist struggle that, at
the beginning of the century, sought to conquer citizenship rights for the black
populations of these two cities.

Keywords: Celebrations; Black Associations; Campinas e Piracicaba.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1. André Ferreira dos Santos, o dr. Preto ___________________________________________________ 83


Figura 2. Fachada da sede atual da "Sociedade Beneficente 13 de Maio". ______________________________ 88
Figura 3. Placa da diretoria responsável pela construção da sede da Sociedade Beneficente 13 de Maio _____ 89
Figura 4. Martinho José de Andrade.__________________________________________________________105
Figura 5. Christino José de Andrade ___________________________________________________________ 105
Figura 6. Cabeçalho do Getulino. _____________________________________________________________ 105
Figura 9. Clarim d’Alvorada, 13 mai. 1927, p. 1. __________________________________________________ 131
Figura 10. “Mucama com criança no colo”_____________________________________________________136
Figura 11. “Mãe Preta” d’ O Clarim d’Alvorada. __________________________________________________ 136
Figura 12 Princesa Isabel.___________________________________________________________________187
Figura 13. Francisco Glicério, Rui Barbosa e Visconde de Rio Branco _________________________________ 187
Figura 14. Luiz Gama _______________________________________________________________________ 188
Figura 15. Miguel do Carmo 199
Figura 16. Jogadores da A. A. Ponte Preta, de 1912. ______________________________________________ 199
Figura 17. Anúncio de festa da “Sociedade Beneficente 13 de Maio”. ________________________________ 235
Figura 18. Cupom de Votação. _______________________________________________________________ 239
Figura 19. Fotos das sete primeiras colocadas do Concurso de Beleza do Getulino.______________________ 242
Sumário

INTRODUÇÃO 12
CAPÍTULO 1. O RACISMO NO PÓS-ABOLIÇÃO 25
1.1. A RAÇA DE DESORDEIROS E VADIOS 26
1.2. PRETOS GATUNOS E MULATOS ASSASSINOS 36
1.3. “SERVIÇO DE BRANCO”, “PRECONCEITO DE COR” E “DEFESA DA CLASSE” 43
1.4. A UNIÃO, O EXEMPLO E OS CAMINHOS PARA A SUPERAÇÃO 51
1.5. A INSTRUÇÃO, O PRINCIPAL OBJETIVO 61
CAPÍTULO 2. OS CLUBES NEGROS EM CAMPINAS E PIRACICABA 71
2.1 OS HOMENS DE COR DE PIRACICABA 72
2.2 . OS CLUBES SOCIAIS NEGROS DE CAMPINAS 91
2.2.1 A IRMANDADE, O COLÉGIO E O CENTRO LITERÁRIO 92
2.2.2. OUTRAS ASSOCIAÇÕES DE HOMENS DE COR 98
2.2.3. DISPUTAS NO MEIO NEGRO 104
CAPÍTULO 3. MEMÓRIAS E HOMENAGENS: NEGROS NA HISTÓRIA DOS HOMENS DE
COR 117
3.1. O PAPEL DO ESCRAVO NA HISTÓRIA DO BRASIL 119
3.2. DE SEMENTE DA LIBERDADE AO DIA DA MÃE PRETA 125
3.3. ABOLIÇÃO E O ABOLICIONISMO 139
3.4. OS PATRONOS DOS HOMENS DE COR 145
CAPÍTULO 4. 13 DE MAIO: SAMBAS, SOLENIDADES E CIDADANIA 153
4.1. LIBERTOS, SAMBAS E SOLENIDADES 155
4.2. VIVAS À MONARQUIA, VIVAS À REPÚBLICA 164
4.3. FESTAS REPUBLICANAS DO 13 DE MAIO 170
4.4. AS COMEMORAÇÕES DOS HOMENS DE COR DE CAMPINAS E PIRACICABA 180
CAPÍTULO 5. COMEMORAÇÕES, CONFRATERNIZAÇÕES E INTERCÂMBIOS 195
5.1 O FUTEBOL DOS HOMENS DE COR 195
5.2 COLABORAÇÕES E INTERCÂMBIOS 213
5.3 PASSEIOS, EXCURSÕES E PIQUENIQUES 227
5.4 O EXEMPLO FEMININO E O CONCURSO DE BELEZA DO GETULINO 239
CONSIDERAÇÕES FINAIS 250
FONTES E BIBLIOGRAFIA 258
12

INTRODUÇÃO

Nervosos e com “muita força de vontade” estavam a senhora d. Preciliana Silva,


senhorita Carmelita Alves e os senhores Estevam Pupo e A. Chagas, na noite em que
estrearam a peça “Irene”. Crispim Silva e Miguel do Carmo deixaram transparecer o
nervosismo no palco, “contudo não desanimaram, demonstrando uma calma necessária aos
amadores, que fazem sua estreia”. E não era uma estreia qualquer! Na plateia estavam a
caravana do prestigiado “Grêmio Dramático e Recreativo Kosmos”, da capital paulista,
“representantes de diversas sociedades de Campinas, e uma de Rio Claro, representada por
gentis senhoras”, todas faziam parte do conjunto de grêmios, sociedades e clubes recreativos
beneficentes, centros literários e cívicos dirigidos por pessoas negras. Esses ilustres
convidados foram até a cidade de Jundiaí, na noite de 28 de setembro de 1919, prestigiar a
festa do 22º aniversário do “Clube 28 de Setembro” e do 48º ano da promulgação da Lei do
Ventre Livre, importante lei abolicionista que não passava despercebida graças aos esforços
dos “homens de cor”1 do “veterano clube”2.
Após a encenação da peça, os atores, provavelmente mais relaxados, ouviram os
merecidos “elogios de muitos” e desfrutaram com os demais membros e convidados de um
sublime baile, em que reinou “a cordialidade entre todos”. “O digno presidente” do clube
anfitrião, no entanto, esforçava-se para bem tratar os presentes. Miguel do Carmo e seus
auxiliares, “com [su]a proverbial delicadeza”, abrilhantaram ainda mais a festa. Por isso, de
acordo com o relato do articulista do jornal A Liberdade, que ficou “num cantinho”, quem
participou da celebração não se decepcionou3.
O clube de Jundiaí continua veterano entre as associações de homens de cor, ou
melhor, entre os Clubes Sociais Negros4, conforme o termo atual, de São Paulo. Fundado em

1
Ao longo da tese as identificações a partir da cor de pele serão problematizadas e discutidas profundamente,
pois constituem uma das questões chave para a compreensão da experiência dos sujeitos históricos aqui
estudados. No momento, basta saber que adota-se a expressão “homens de cor” para designar tanto os membros
das associações negras, seja um sócio de uma sociedade beneficente, clube recreativo ou grêmio esportivo,
quanto os articulistas da Imprensa Negra, porque este era o termo usado por eles para se autoidentificarem, e que
também aparecia na imprensa diária, carregando, em ambos os casos, a respeitabilidade alcançada por essas
pessoas.
2
“Jundiaí”. A Liberdade, 12 out. 1919, p. 2.
3
Idem.
4
O conceito clubes sociais negros foi elaborado em 2008 a partir de uma política de mapeamento das diversas
associações negras fundadas desde a segunda metade do século XIX e que se mantêm em atividade até os dias
13

1897, ainda hoje promove bailes, festas e discussões sobre políticas em prol da igualdade
racial; porém, as comemorações em 28 de setembro somente tratam do aniversário da
entidade. O abolicionismo e a Lei do Ventre Livre ou o dia 13 de maio não fazem parte mais
de seu calendário de atividades. Como quase todas as outras organizações negras que atuam
no combate à discriminação racial, o hoje denominado “Clube Beneficente Cultural e
Recreativo Jundiaiense 28 de Setembro” celebra o dia 20 de novembro, organizando oficinas
de cultura afro, palestras sobre história, cultura, condições socioeconômicas das populações
negras, e participa de marchas e manifestações, além dos tradicionais bailes.
A mudança da data comemorativa faz parte das transformações do Movimento
Negro. Quando conversei com um dos diretores do “Clube 28 de Setembro”, ele me disse que,
após uma tomada de consciência de que o 13 de maio de 1888 não era uma conquista de fato,
passaram a participar do 20 de novembro. Assim como ele, outras pessoas e entidades negras
antirracistas têm se manifestado contrárias à celebração da abolição da escravatura. Em 2017,
por exemplo, a “Fundação Palmares” publicou em sua página na internet um texto com o
seguinte título: 13 de Maio: o dia da falsa abolição ou Dia Nacional de Denúncia contra o
Racismo. A Fundação afirma que, para os negros, “o fim do regime [escravista] foi dado pela
luta dos negros escravizados e pela resistência que já durava vários anos”; por isso rejeitam a
ideia de “generosidade de uma princesa” pondo o fim a escravidão e, além disso, afirmam que
a lei “não significou liberdade, nem a Lei Áurea aboliu a discriminação”. Diante do quadro de
desigualdades racial existente no país, desde a “década de 1980, os movimentos sociais
negros deram um novo significado para o 13 de Maio”, que passou a ser um Dia Nacional de
Denúncia contra o Racismo5. Cabe ressaltar que a campanha contra a celebração do 13 maio
entre organizações do Movimento Negro ganhou força ao longo da década de 1970.
Se hoje as organizações negras não encontram motivos para festejar o 13 de maio,
em 1901, “comemorar-se condignamente a áurea lei de treze de maio” foi o que motivou o
“cidadão Luiz Dias de Araújo” a convidar diversas pessoas para irem à oficina do “cidadão
Zacharias David”. Assim foi fundada a “Sociedade Beneficente Antonio Bento”, em
Piracicaba6, que desde 1908 se chama “Sociedade Beneficente 13 de Maio”. No ano seguinte,

atuais. Para um aprofundamento da questão, ver ESCOBAR, Giane Vargas. Clubes Sociais Negros: lugares de
memória, resistência negra, patrimônio e potencial. Dissertação de Mestrado, UFSM, Patrimônio Cultural:
Santa Maria, 2010.
5
SANTANA, Matheus. “13 de Maio: o dia da falsa abolição ou Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo”.
Fundação Palmares, 12 mai. 2017. Disponível em http://www.palmares.gov.br/?p=45667, acessado em 26 out.
2019.
6
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Ata da reunião realizada no dia 19 de maio de 1901”. Livro de Atas nº 1
(1901-1913). Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio. 19 mai. 1901.
14

na capital de São Paulo, foi a vez da “gloriosa data” motivar mais de 50 pessoas para a
fundação do “Clube 13 de Maio dos Homens Pretos”, que tinha como primeiro objetivo
“festejar anualmente, com o brilhantismo possível”, a Abolição da escravatura 7. Em São
Carlos, o “Grêmio Familiar Flor de Maio” também foi fundado com este propósito8. Antes
disso, em 1893, “em frente à casa do dr. Antônio Bento houve samba de libertos, que
folgaram sempre na mais completa ordem”9. Em Capivari, os festejos organizados pela
“Sociedade Treze de Maio” comprovaram que os homens de cor daquela cidade sabiam
“cumprir seus deveres”10.
Comemorações e organizações como estas foram comuns nos anos imediatos à
Abolição e na primeira metade do século XX, quando se podiam contar mais de uma centena
de entidades como essas no Estado de São Paulo11. Segundo Petrônio Domingues, todas as
sociedades negras que se diziam beneficentes da capital paulista comemoravam de alguma
forma o dia 13 de maio12. Para ele, essas celebrações assumiram “diferentes contornos e
significados políticos, ora por permitir que a memória coletiva da escravidão não caísse no
ostracismo, ora por suscitar na agenda nacional o debate sobre a questão racial, ora por carrear
visibilidade às reivindicações de Direitos”13. Desta forma, parece ser um ledo engano
considerar que os dirigentes dessas associações (e negros que estavam fora delas) não
percebessem os problemas da Abolição, que festejassem alegremente como se a partir do dia
14 de maio 1888 as populações negras tivessem as mesmas oportunidades que as pessoas
brancas, que fossem vistas com os mesmos direitos que qualquer outro cidadão, ou que o
racismo não existisse no Brasil. Ao contrário, a leitura das edições especiais publicadas nessas
ocasiões pela Imprensa Negra14 e os relatos dos eventos ali noticiados indicam que essas

7
Club 13 de Maio dos Homens Preto. “Estatuto Club 13 de Maio dos Homens Pretos”. Sociedade Civil, C10393.
1º Cartório de Registro de Imóveis da Comarca da Capital. Arquivo Público do Estado de São Paulo. 18 nov.
1902.
8
Grêmio Recreativo e Familiar Flor de Maio. “Estatuto Grêmio Recreativo e Familiar Flor de Maio”. Livro de
Atas n. 1. Arquivo do Grêmio Recreativo e Familiar Flor de Maio. 04 abr. 1928.
9
“13 de Maio”. Estado de São Paulo, 16 mai. 1893, p. 1.
10
“Capivari”. Estado de São Paulo, 17 mai. 1897, p.1.
11
DOMINGUES, Petrônio. “Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos históricos”. Revista Tempo, Rio
de Janeiro, v 12, n.23, p. 100-122, 2007; PINTO, Regina Pahim. O movimento negro em São Paulo: luta e
identidade. Ponta Grossa: Editora UEPG; São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 2013.
12
DOMINGUES, Petrônio. “Movimento Negro Brasileiro... op. cit. O autor diferencia as associações negras
entre: sociedades beneficentes, cordões carnavalescos, grupos teatrais, associações atléticas.
13
DOMINGUES, Petrônio José. “‘A Redempção da nossa raça’: as comemorações da abolição da escravatura no
Brasil”. Revista Brasileira de História, v. 31, p. 19-48, 2011, p. 41.
14
Há uma vasta bibliografia sobre os jornais elaborados e controlados por pessoas negras, que informavam e
denunciavam casos de abusos contra pessoas negras e expunham ideias voltadas para a melhoria das condições
de vida das populações negras. Essa bibliografia cunhou o conceito de Imprensa Negra, que usamos aqui. A este
respeito ver: FERRARA, Miriam Nicolau. A imprensa negra paulista (1915-1963), Dissertação de Mestrado,
15

festividades foram usadas para reivindicar direitos e protestar contra a situação da população
negra.
Cabe ressaltar que muitos desses jornais eram veículos oficiais de sociedades
beneficentes e recreativas e, em outros casos, seus colaboradores faziam parte da diretoria de
algumas delas. Isso significa que seus textos ajudam a entender o pensamento dos dirigentes
das associações de homens de cor. O Patrocínio, jornal de Piracicaba que matinha estreita
relações com a “Sociedade Beneficente 13 de Maio”, na edição de 28 de setembro de 1929,
por exemplo, convocava seus leitores a participar do Congresso Negro. O texto, escrito por
Jayme de Aguiar e colocado em sua primeira página, fazia um histórico desde a Abolição e
afirmava, em tom de denúncia, que “ainda se contempla com raízes tão ramificadas o
Preconceito intolerante, saído dos meios aristocráticos”, especialmente “nas cidades distantes
da Paulicéia”15. Outros textos seguiam essa mesma tendência de evidenciar a precariedade
vivida pelas pessoas negras, após a Abolição, como parte dos problemas não solucionados
pela lei. Em 1904, O Baluarte apontou a relação entre a mendicância e o abandono dos
combatentes da Guerra do Paraguai e dos “libertos”, que tinham deficiências físicas ou
mentais causadas pelos combates vividos e pelos castigos experimentados na escravidão,
respectivamente16. Um dos principais oradores das associações de homens de cor de
Campinas, o jornalista Benedito Florêncio, publicou muitos textos que denunciavam práticas
de discriminação sofridas por pessoas negras.
Em um de seus poucos discursos publicados na íntegra, Lino Guedes discorreu
sobre a vida de Luiz Gama no grêmio dramático que levava seu nome em Campinas. Ele
apresentava o abolicionista para sua plateia como um “homem de cor” notável, que não só
lutou pelo fim do sistema escravista, mas também pela igualdade, pela ascensão dos homens

USP, Ciências Sociais: São Paulo, 1986. DOMINGUES, Petrônio. Uma história não contada: negro, racismo e
branqueamento em São Paulo no pós-abolição. São Paulo: Senac, 2004; SANTOS, José Antônio. Imprensa
negra: a voz e a vez da raça na história dos trabalhadores brasileiros. In: XXIII Simpósio Nacional de História
ANPUH, 2005, Londrina - PR. Anais do XXIII Simpósio Nacional de História ANPUH, 2005; SILVA, Joselina
da. “Jornal SINBA: a África na construção identitária brasileira dos anos 1970”. In: PEREIRA, Amauri Mendes;
SILVA, Joselina da. (Org.). O Movimento negro brasileiro: escritos sobre os sentidos de democracia e justiça
social no Brasil. 1ed. Belo Horizonte, MG: Nandyala, 2009; CARVALHO, Gilmar Luiz de. A imprensa negra
paulista entre 1915 e 1937: características, mudanças e permanências. 2009. Dissertação de Mestrado, USP,
Departamento de História Econômica: São Paulo, 2009; LUCINDO, Willian Robson Soares. Educação no pós-
Abolição: um estudo sobre as propostas educacionais de afrodescendentes (São Paulo/1918-1931). 1. ed. Itajaí,
SC: Editora Casa Aberta, 2010; PINTO, Ana Flávia M. Imprensa negra no Brasil do século XIX. São Paulo:
Selo Negro, 2010; CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco Cardoso. A luta contra a apatia: estudo sobre a
instituição do movimento negro na cidade de São Paulo (1915-1931). 1. ed. Itajaí, SC: Editora Casa Aberta,
2012; PINTO, Regina Pahim. O movimento negro em São Paulo op. cit.
15
AGUIAR, Jayme de. “Ascensão do Negro”. O Patrocínio, 28 set. 1929, p. 1. Grifos do original.
16
“A Miséria”. O Baluarte, 13 jan. 1904, p. 1.
16

de cor17. Esse tipo de referência foi comum. Luiz Gama e José do Patrocínio eram vistos
como exemplos de homens de cor, por causa de suas carreiras, que haviam sido
impulsionadas pela instrução, e por suas atuações no abolicionismo. Os dois eram os
abolicionistas mais homenageados entre os homens de cor. Na Imprensa Negra, eram
publicados perfis e biografias de ambos em todas as edições de 13 de maio e de 28 de
setembro, e algumas vezes em datas não comemorativas. A importância deles como exemplos
também fez com que muitas entidades os tivessem como patronos, recebendo seus nomes e
colocando em seus objetivos celebrar as datas de nascimento ou morte deles.
A presença de homenagens aos abolicionistas entre os homens de cor foi uma
constante. O Getulino, importante jornal negro de Campinas, publicou uma série de perfis em
que retratava a biografia dos abolicionistas da cidade. Mas foram as grandes personagens
nacionais que tiveram mais destaques, junto com Gama e Patrocínio: Antonio Bento, Joaquim
Nabuco, Visconde do Rio Branco e a Princesa Isabel. No geral, os abolicionistas brancos
eram vistos como importantes políticos, legisladores e divulgadores das ideias abolicionistas,
com exceção de Antonio Bento e da Princesa Isabel, que eram chamados de “combatentes”
pela Imprensa Negra, termo que os colocava no mesmo patamar que José do Patrocínio e Luiz
Gama.
O significado do abolicionismo para os homens de cor muitas vezes divergia da
interpretação dada pelos republicanos a esse movimento. De certa forma, pode-se afirmar que
os membros das associações de homens de cor concordavam que a Abolição e Proclamação
da República eram parte de um mesmo processo, como aponta a rejeição deles em se
alistarem na “Guarda Negra” nas cidades de Campinas e Piracicaba e a divulgação de uma
carta de apoio dos campineiros ao governo republicano. A diferença estava no “inimigo” a ser
combatido e no objetivo dessas manifestações. Enquanto os jornais de ampla circulação
falavam do combate ao atraso, personificado no regime monarquista, e da necessidade de
colocar o país na lista das grandes nações civilizadas, os homens de cor acreditavam na luta
contra a aristocracia local e na busca por igualdade de direitos. Além disso, os primeiros
rejeitavam a imagem da princesa como redentora e, até mesmo, de participante do
movimento, ao passo que nas associações de homens de cor ela sempre foi prestigiada, sendo
constantemente homenageada.

17
GUEDES, Lino. “Luiz Gama I”. Getulino, 24 ago. 1924, p. 2.; “Luiz Gama II”. Getulino, 07 set. 1924, p. 2;
“Luiz Gama III”. Getulino, 21 set. 1924, p. 3.
17

Desta forma, analisar o associativismo negro a partir de suas celebrações pode ser
um bom caminho para compreender as motivações de homens e mulheres de cor para fundar
clubes, grêmios, sociedades beneficentes, recreativas e atléticas, além de centros literários,
humanitários e cívicos, que formavam o conjunto de associações de homens de cor. Através
desses espaços é possível entender os significados da “defesa da classe de cor” que tanto
aparecia em seus textos, bem como as maneiras como se defendiam e do que precisavam se
defender.
No início desta pesquisa, desejava-se investigar as comemorações e festas das
associações de homens de cor mais antigas do Estado de São Paulo que ainda estão em
atividade, como no caso do “Clube Beneficente Cultural e Recreativo Jundiaiense 28 de
Setembro”, da “Sociedade Beneficente 13 de Maio” e do “Grêmio Recreativo e Familiar Flor
de Maio”. Elas foram fundadas antes da criação da “Frente Negra Brasileira”, estão
localizadas no interior de São Paulo e, por estarem em atividade, acreditava-se que o acesso às
fontes seria facilitado. Isso, porém, não se concretizou durante a pesquisa de campo. Em
Jundiaí, os primeiros Livros Atas não foram encontrados, o material disponibilizado pelas
diretorias era de período posterior à década de 1930, e nos arquivos da cidade havia pouca
informação sobre a entidade. Em São Carlos e Piracicaba, os documentos das duas
associações estavam preservados e guardados, no entanto, os dados sobre as comemorações
do “Flor de Maio” eram poucos porque, nos dois primeiros anos de sua existência, o grêmio
foi na prática um time de futebol amador.
Apesar do material encontrado sobre a “Sociedade Beneficente 13 de Maio” ser
vasto, julgou-se que seu conteúdo não era suficiente para entender o associativismo negro no
interior paulista - era preciso manter a relação comparativa com outra cidade. Por isso, a
cidade de Campinas foi incluída na pesquisa. Muitas associações de homens de cor foram
fundadas nesta cidade nos primeiros anos após a Abolição e durante a Primeira República,
embora nenhuma se encontre de fato em atividade hoje em dia18. Elas já foram tema de
pesquisas acadêmicas e há muitas fontes sobre elas nos arquivos da cidade e do Estado. Desta
forma, esta tese de doutorado pretende analisar as associações de homens de cor das cidades
de Campinas e Piracicaba, entre os anos de 1901 e 1930, enfatizando as práticas
comemorativas que organizavam.

18
A “Liga Humanitária dos Homens de Cor” mantém registro e sua sede abertos, no entanto não realiza mais
atividade alguma. No segundo semestre de 2017 tive um encontro com um antigo sócio que, por questões
pessoais, mora na sede e nenhum documento sobre a Liga estava guardado no local.
18

Esse período está balizado pelo ano de fundação da “Sociedade Beneficente 13 de


Maio”, 1901, como já apontado, e pelo último ano em que o dia da Abolição era um feriado
nacional. A ausência da data no calendário das efemérides oficiais significou mais
dificuldades para os homens de cor organizarem as comemorações de 13 de maio, que no
auge eram compostas de alvorada com queima de fogos, missas, marchas pela cidade ao som
de bandas, discursos, cumprimentos às autoridades e, durante a noite, de sessões solenes e
bailes em suas sedes. Em 1931, também, a “Frente Negra Brasileira” foi fundada; essa
entidade é vista como símbolo da politização do associativismo negro. Atualmente, a corrente
de estudos que considera que as organizações negras anteriores à “Frente” já apresentavam
características políticas está consolidada19. O problema é que essas associações são analisadas
como “embriões” daquela organização e a preocupação de grande parte dos autores é
comprovar que parte de seu programa político já estava presente nelas20. Assim, suas
principais atividades de recreação e festas deixam de ser focalizadas nesses estudos. Como se
verá mais adiante, nessa tese, as atividades recreativas e festivas ganharam teor político no
sentido de busca de direitos de cidadania, direito ao lazer, participação das populações negras
na construção da nação e no abolicionismo. A recreação foi inserida ao projeto “defesa da
classe” como ferramenta para a união dos negros, como momento de exibição da capacidade
negra e de ensinamento, por meio dela os homens de cor transmitiam seus valores,
repreendendo ou elogiando posturas. O uso da celebração enquanto ato de defesa atendia às
expectativas dos homens de cor daquele momento, que lidavam com formas de
discriminações distintas às que se tinham na década de 1970 e na atualidade. Observar a
diversão sob o prisma político contribuí para revelar e explorar um pouco mais esses aspectos,
de discriminações e lutas das populações negras.

19
MOURA, Clóvis. Rebeliões na senzala. São Paulo: Edições Zumbi, 1959; MACIEL, Cleber da Silva.
Discriminações raciais: negros em Campinas (1888-1926). 2. ed. Campinas, SP: UNICAMP/CMU, 1997;
SILVA, Joselina da. Renascença, lugar de negros no plural: Construções identitárias em um clube social de
negros no Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado, UERJ, Ciências Sociais: Rio de Janeiro 2000;
DOMINGUES, Petrônio. História não contada... op. cit; TIEDE, Lívia Maria. Imprensa Negra: espaço de
sociabilidade em São Paulo no início do século XX. Monografia de Conclusão de Graduação, UNICAMP,
Departamento de História: Campinas, 2002; CARDOSO, Paulino J. F. A Luta contra a Apatia.... op. cit; PINTO,
Regina Pahim. Movimento Negro em São Paulo... op. cit; PINTO, Ana Flávia M. Imprensa negra no Brasil do
século XIX... op. cit.
20
DOMINGUES, Petrônio. A insurgência de ébano: a história da Frente Negra Brasileira (1931-1937). Tese de
Doutorado, Departamento de História, USP: São Paulo, 2005; OLIVEIRA, Laiana Lannes de. Entre a
Miscigenação e Multirracialização: Brasileiros Negros ou Negros Brasileiros? Os Desafios do Movimento
Negro Brasileiro no Período de Valorização Nacionalista (1930-1950) – A Frente Negra Brasileira e o Teatro
Experimental do Negro. Tese de Doutorado, UFF, Departamento de História: Niterói, 2008; CARDOSO,
Paulino J. F. A Luta contra a Apatia.... op. cit; PINTO, Regina Pahim. Movimento Negro em São Paulo... op. cit.
19

A localização dessas entidades é outro ponto importante para o debate sobre o


associativismo negro paulista. A bibliografia a respeito do tema costuma privilegiar a
experiência das associações da capital, provavelmente por uma questão de documentação. A
principal fonte de estudo para o associativismo negro na Primeira República é a Imprensa
Negra e, na cidade de São Paulo, há o maior conjunto desses jornais do Estado, enquanto no
interior esse número é limitado. O único jornal negro de Piracicaba deste período que está
preservado é O Patrocínio, que conta com apenas 10 edições21; em Campinas são dois: O
Baluarte, com 2 números, e Getulino, com 60 edições22. O Baluarte foi o único controlado
por outra associação de homens de cor, o “Centro Literário dos Homens de Cor”, os outros
dois periódicos só mantiveram parcerias e seus responsáveis eram frequentadores de alguma
entidade beneficente recreativa. Os proprietários do Getulino eram sócios do “Grêmio
Dramático Luiz Gama”, enquanto a sede da “Sociedade Beneficente 13 de Maio” foi usada
algumas vezes para festas d’O Patrocínio.
O associativismo negro tem sido objeto de estudo das ciências sociais desde a
década de 1930, destacando-se o pioneirismo de Arthur Ramos23, em 1938, e de Roger
Bastide e Florestan Fernandes nas décadas de 1950 e 1960, cujas obras foram elaboradas a
partir da Pesquisa Unesco de Relações Raciais24. Desde o livro A Integração do Negro na
Sociedade de Classes, de 196425, diferentes pesquisadores passaram a debater sobre a
existência ou não de associações políticas lideradas por pessoas negras antes da “Frente Negra
Brasileira”. A importância dessa questão está diretamente ligada à investigação do momento
de surgimento do Movimento Negro no Brasil. Esta foi a motivação de muitos trabalhos sobre
a Imprensa Negra e as organizações negras paulistas e mais uma razão para os trabalhos sobre
o tema se concentrarem na cidade de São Paulo. No entanto, há trabalhos que sugerem que
elas foram fundadas e ocupadas por muitos migrantes negros do interior paulista.

21
Petrônio Domingues cita uma edição do jornal de 18 dez. 1927, no entanto este exemplar não foi localizado
em nenhum arquivo visitado. DOMINGUES, Petrônio. Uma história não contada: op. cit.
22
Na cidade de Campinas houve também os periódicos A Protetora, órgão da “Associação Protetora dos
Brasileiros Pretos”, A União, órgão “União Cívica dos Homens de Cor”, formada por representantes das
associações de homens de cor: “Estrela Celeste”, “União da Juventude”, “José do Patrocínio”, “Beneficência dos
Homens de Cor” e “Estrela do Norte”, no entanto não foram encontradas edições desses periódicos.
23
RAMOS, Arthur. “O espírito associativo do negro brasileiro”. Revista do Arquivo Municipal de São Paulo,
São Paulo, 1938, pp. 105-126.
24
BASTIDE, Roger e FERNANDES, Florestan. Brancos e Negros em São Paulo: Ensaio sociológico sobre
aspectos da formação, manifestações atuais e efeitos do preconceito de cor. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1959.
Também participaram da Pesquisa Unesco de Relações Raciais Virgínia Bicudo, Aniela Ginsburg, Oracy
Nogueira e Luiz Aguiar de Costa Pinto, este escrevendo sobre os negros no Rio de Janeiro.
25
FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Dominus: Ed. Univ. S.
Paulo, 1964.
20

Ieda Marques Britto, ao analisar o samba em São Paulo, discutiu a conexão entre a
migração de pessoas negras do interior para capital e a criação dos espaços de lazer nos
territórios negros da cidade. Para ela, as associações de recreação eram uma tentativa de
recriar as sociabilidades vividas em suas cidades de origem26. Kim D. Buttler vai mais longe.
Além das entidades de lazer, a autora considera que as populações negras migrantes também
foram responsáveis pela fundação dos primeiros jornais negros após a Abolição, ainda no
século XIX, e das associações beneficentes, que refletiam as aspirações de sucesso delas e dos
antigos moradores. Esta seria uma das justificativas para as constantes excursões realizadas
pelas agremiações: seus sócios aproveitariam esses momentos para visitar amigos e familiares
que haviam ficado nas cidades de origem27. Lívia Maria Tiede segue esta linha de raciocínio,
ao fazer uma breve biografia de Frederico Baptista, que participou de diversas associações e
jornais. Ele era original de Taubaté, chegando à capital com esposa e filhos, onde teria se
apoiado em outros familiares e amigos da cidade natal28. Apesar dessas indicações, nenhuma
dessas pesquisas procurou entender o associativismo negro no interior de São Paulo como
parte da chave explicativa sobre o assunto – algo que poderia levantar novas hipóteses sobre
os usos e motivações que levaram à fundação de tantas entidades.
Mais do que procurar uma chave explicativa para o associativismo negro da
capital, no entanto, estudar as associações do interior permite entender as pressões sofridas
pelas populações de cor em outros cenários. Como já citado, o jornalista Jayme de Aguiar,
fundador do Clarim d’Alvorada29, considerava que fora da capital essas populações sofriam
ainda mais com o racismo, como indica seu texto publicado no jornal de Piracicaba30.

26
BRITTO, Iêda M. Samba na cidade de São Paulo (1900-1930): um exercício de resistência cultural. São
Paulo: FFLCH-USP, 1986
27
BUTLER, Kim D. Freedoms given, freedoms won: Afro-Brazilians in post-abolition São Paulo and Salvador.
New Brunswick, N.J.: Rutgers University Press, c1998. E, da mesma autora, “A Nova negritude no Brasil –
movimentos pós-abolição no contexto da diáspora africana”. In DOMINGUES, Petrônio e GOMES, Flávio dos
Santos (orgs.). Experiências da Emancipação. Biografias, instituições e movimentos sociais no pós-Abolição
(1890-1980). São Paulo: Selo Negro, 2011, pp. 137-156.
28
TIEDE, Lívia Maria. Imprensa Negra: op. cit.
29
O Clarim d’Alvorada foi fundado em janeiro de 1924 por Jayme de Aguiar e José Correia Leite. Foi ativo por
8 anos, por isto considerado a publicação mais duradora da Imprensa Negra do Estado de São Paulo, com uma
tiragem média de 2 mil exemplares. Além disso, para alguns pesquisadores, ele representa o início de uma
imprensa combativa entre os negros paulistanos, apesar de a bibliografia recente relativizar esse pioneirismo. É
certo que em sua redação fizeram parte diversos ativistas das organizações negras preocupadas com a ascensão
socioeconômica deste grupo. Ver mais em: FERRARA, Miriam Nicolau. A imprensa negra paulista (1915-
1963) op. cit. PINTO, Regina Pahim. O movimento negro em São Paulo: op. cit. DOMINGUES, Petrônio. Uma
história não contada: op. cit; CARVALHO, Gilmar Luiz de. A imprensa negra paulista entre 1915 e 1937: op.
cit.; FRANCISCO, Flávio Thales Ribeiro. Fronteiras em definição: identidades negras e imagens dos Estados
Unidos e da África no jornal O Clarim da Alvorada (1924-1932). Dissertação de Mestrado, USP, Departamento
de História: São Paulo, 2010.
30
AGUIAR, Jayme de. “Ascensão do Negro”. O Patrocínio, 28 set. 1929, p. 1.
21

Independente da veracidade dessa afirmação, ela indica que os homens de cor percebiam as
diferenças entre os locais em que viviam e isso tinha, por consequência, desdobramentos nas
ações em “defesa da classe de cor”.
Além disso, o interior paulista recebeu uma grande massa de imigrantes europeus
desde a segunda metade do século XIX. Como chama à atenção Karl Monsma, esse
contingente de imigrantes modificou a demografia de várias cidades. Em algumas delas, a
população imigrante se tornou predominante e certos traços culturais e históricos de outros
grupos populacionais foram reduzidos e até eliminados da história oficial e do turismo, ao
ponto de até hoje serem conhecidas como cidades típicas de uma ou mais "colônias" de
imigrantes europeus31. A chegada dessas populações se confunde com a chegada dos
trabalhadores vindo do interior do país nas cidades, mas foi a imigração que se tornou um
marco em livros de memorialistas e na historiografia. E, mesmo depois do debate
historiográfico que levou ao questionamento do desaparecimento das populações negras após
a Abolição, no final da década de 1990, ainda há poucos trabalhos sobre o pós-Abolição no
interior de São Paulo que focalizam o associativismo negro antes da década de 1930. Além
disso, há trabalhos sobre Primeira República ainda insistem na tese da marginalização e
substituição das populações negras por imigrantes32.
Campinas é uma exceção no caso da invisibilidade das populações negras no pós-
Abolição, seja por conta do tamanho e importância da cidade quanto da presença de
universidades na região. O estudo de Cleber Maciel da Silva33 é considerado um clássico nos
estudos sobre relações etnicorraciais no país e um dos primeiros realizados na área de história.
Baseando-se em atas de associações de homens de cor, jornais de ampla circulação e da
Imprensa Negra, relatórios dos governos municipais e estaduais e censos, Maciel conseguiu
mapear os espaços ocupados e as diversas práticas das populações negras. Outras pesquisas
surgiram posteriormente, utilizando as mesmas fontes, acrescentando outras, confirmando e
contestando algumas de suas teses, além de colocar novas perspectivas sobre as experiências

31
MONSMA, Karl. A reprodução do racismo: Fazendeiros, negros e imigrantes no oeste paulista, 1880-1914.
1. ed. São Carlos: EdUFSCar, 2016.
32
Jaime Figueroa afirma que: “A abolição marginaliza o negro, que é substituído pelo imigrante branco”.
FIGUEROA, Jaime Patrício Sepúlveda. A sociedade Piracicabana do final do Século XIX: classes dominantes,
cultura e a mediação da educação. Dissertação de Mestrado, UNICAMP, Faculdade de Educação: Campinas,
2008. p. 56;
33
MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações raciais... op. cit.
22

das populações negras na cidade34. Mas não há como negar a importância de seu trabalho em
apresentar as diversas barreiras sofridas pelas populações negras e suas ações para superá-las.
Para realizar esta tese, foram consultadas a documentação das câmaras municipais
de Campinas e Piracicaba, que estão localizadas no Arquivo Municipal e Campinas e no
Departamento de Documentação e Arquivo da Câmara de Piracicaba. São elas:
correspondências internas e recebidas; requerimentos para realizações de eventos, os
comunicados de eventos, solicitações para obras e livros de atas de sessões. Esta
documentação permite entender como as cidades funcionavam, a relação das associações com
o poder municipal, quem eram as principais parceiras das prefeituras, as dificuldades que
passavam e auxílios recebidos e negados, que podem indicar como elas eram vistas. Ainda no
arquivo de Campinas, analisou-se a documentação da segurança pública (guarda municipal e
corpo de bombeiros), que informa sobre o funcionamento das atividades culturais e como os
governos locais desejavam que ocorressem. Nesse arquivo também foram encontradas fontes
sobre a Igreja de São Benedito, que diziam respeito as suas obras e plantas, que às vezes
foram solicitadas por sua irmandade; sobre o Colégio São Benedito, há documentos que
comprovam que antes dele a irmandade controlou a “Escola dos Libertos”.
No Arquivo Edgard Leuenroth (AEL/UNICAMP), no Centro de Memória da
UNICAMP (CMU) e na Biblioteca Pública Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, de
Piracicaba, foram recolhidas notícias de jornais sobre as associações existentes nas duas
cidades e populações negras. Foram lidos os jornais Diário de Campinas, Gazeta de
Campinas e Comércio de Campinas; também a Gazeta de Piracicaba e o Jornal de
Piracicaba; bem como outros jornais da Impressa Negra: O Baluarte, Getulino e O
Patrocínio. Nesses dois tipos de periódicos, é possível encontrar as diferenças de pensamento
sobre a Abolição, o papel dos escravos na construção da sociedade brasileira, a integração das
populações negras na República. As ideias de membros de associações de homens de cor
podem ser encontradas na Imprensa Negra, enquanto os jornais diários oferecem informações
sobre como as associações de homens de cor eram tratadas pela sociedade e as relações que

34
PEREIRA, José Galdino. Os negros e a construção da sua cidadania: estudo do Colégio São Benedito e da
Federação Paulista dos Homens de Cor de Campinas - 1896 a 1914. Dissertação de Mestrado, UNICAMP,
Faculdade de Educação: Campinas-SP, 2001; MIRANDA, Rodrigo. Um caminho de suor e letras: a militância
negra em Campinas e a construção de uma comunidade imaginada nas páginas do Getulino (Campinas, 1923-
1926). Dissertação de Mestrado, UNICAMP, Departamento de História: Campinas, SP, 2005; NOMELINI,
Paula Christina Bin. Associações operárias mutualistas e recreativas em Campinas (1906-1930). Dissertação de
Mestrado, UNICAMP, Departamento de História: Campinas-SP, 2007; GUIRRO, Leandro Antonio.
Intelectualidade e Imprensa Negra Paulista: os casos do Getulino e Progresso (1923-1931). Dissertação de
Mestrado, UNESP, Departamento de História: Assis, 2013.
23

elas conseguiram manter com entidades beneficentes, mutualistas e recreativas destinadas às


colônias de estrangeiras, operários e, até mesmo, às elites.
Na “Sociedade Beneficente 13 de Maio”, recolheu-se os livros com atas de
reuniões e sessões, livros de matrículas e sócios. Esta documentação trata das atividades da
sociedade, como as diretorias conseguiram mantê-las funcionando, os números de sócios que
tiveram ao longo do tempo, bem como conseguiam arrecadar fundos, como planejavam as
comemorações e quem participava delas. Algumas atas da “Liga Humanitária dos Homens de
Cor” também foram encontradas através do fundo particular de Benedito Evangelista, que
seguem a mesma linha em termos de conteúdo.
Com base na análise da documentação recolhida, pôde-se elaborar esta tese que
está dividida em cinco capítulos. No primeiro, discute-se a racialização das relações sociais no
pós-Abolição e a luta dos homens de cor contra o preconceito e o racismo. Neste caso, serão
explicados de forma mais aprofundada os termos identitários, os sentidos da expressão
“preconceito de cor” usada pelos homens de cor, os esforços deles em construir a união entre
as populações negras que permitiria superar todas as discriminações sofridas. Após
contextualizar as dificuldades enfrentadas pelas pessoas negras, o capítulo 2 apresentará o
surgimento das associações de homens de cor, que foi uma das formas de suplantar a
precariedade vivida por essas populações no pós-Abolição.
As análises sobre as comemorações começam no capítulo 3. Nesta seção serão
discutidas as homenagens aos abolicionistas, em especial a Luiz Gama e José do Patrocínio.
As datas e os textos especialmente elaborados para comemorar o 13 de Maio, o 28 de
setembro e o abolicionismo serão discutidos para apresentar as diferenças de discursos entre
homens de cor e a imprensa de ampla circulação. Além disso, os homens de cor também
usaram essas homenagens para debater o lugar dos negros na história do Brasil, porque além
de celebrar os grandes abolicionistas negros, os jornais negros homenageavam feitos heroicos
de outros negros e apresentavam o escravo como importante contribuinte na formação da
sociedade brasileira. No capítulo 4 é a vez de discutir as características das festas. Neste
espaço, analisar-se-ão as mudanças das festas de 13 de maio, que primeiro eram noticiadas
como celebrações de libertos que se aglomeravam nas ruas, e depois eram organizadas pelas
associações de homens de cor que tornaram os festejos mais solenes, ganharam o apoio de
políticos locais e a visibilidade nos jornais.
As formas de lazer das associações de homens de cor serão analisadas no último
capítulo. Conectadas aos projetos de luta em prol dos negros, partidas de futebol entre equipes
de brancos contra equipes de negros se tornaram comum nas festas de 13 de maio, e os
24

articulistas negros construíram narrativas sobre esses e outros jogos de modo a evidenciar a
capacidade negra. As teatrais e declamações de poemas eram outros elementos de diversão
explorados pelos homens de cor em suas tentativas de se apresentarem respeitavelmente.
Ainda tinham excursões, piqueniques e músicas, toda essa ludicidade permitiu que criassem e
reforçassem laços de amizades, fundamentais para suas lutas políticas, e tivessem momentos
de felicidades, o principal objetivo de muitas das associações pesquisadas.
O intuito desta tese é participar do debate sobre a linguagem própria criada pelo
Movimento Negro brasileiro para lidar com questões especificas do racismo no país ao longo
de sua história. As associações de homens de cor pesquisadas são partes desta trajetória, uma
vez que eram consideradas pelos homens de cor da época como espaços privilegiados de
debates e superação das formas de discriminações que sofriam; as lideranças negras usaram
essas entidades para propagar ideias e comportamentos, esperando que através da associação
de negros pudessem romper com os estigmas dos negros. Portanto, para esta pesquisa,
associativismo negro é entendido como um conjunto de agremiações de cunho variado, que
foram ocupadas majoritariamente por pessoas negras, que usaram esses espaços em prol da
melhoria de vida das populações negras, nas campanhas que ficaram conhecida naquele
período como “defesa da classe”. Ao longo dessa tese, serão apontadas organizações que
foram ocupadas por pessoas de cor, que alcançaram até mesmo cargos de diretoria, mas que
não são consideradas como integrantes do associativismo negro, pois não tinham em suas
pautas a superação do racismo e da discriminação racial e, por isso, não eram reconhecidas
como associações de homens de cor entre as lideranças negras.
Definiu-se estudar o associativismo negro no interior paulista porque apresenta
situações e cenários ainda poucos explorados, principalmente no caso de Piracicaba, o que
permite encontrar similaridades e diferenças com aquilo que já foi estudado. Além disso, a
análise sobre as festas e comemorações aqui empreendida não está alinhada com a tradicional
interpretação de que elas são momentos de inversão da ordem; ao contrário, os homens de cor
buscaram com elas expor que conheciam e respeitavam a ordem do momento. Como já se
observou, as celebrações das associações de homens de cor ganharam um caráter também
político em busca do direito ao lazer e de reconhecimento nacional de seus homenageados,
especialmente das figuras negras como José do Patrocínio, Luiz Gama e os escravos. O
divertimento acontecia ao mesmo tempo em que as reivindicações estavam presentes; a luta
por igualdade não era interrompida durante as festividades, ela era parte delas.
25

CAPÍTULO 1

O racismo no pós-abolição

O texto de Jayme de Aguiar publicado em O Patrocínio dizia que o 13 de maio de


1888 fora uma vitória de “abnegados paladinos”, que colocou fim “ao trabalho forçado à raça
negra”. E que, apesar de livres, os negros foram abandonados, “sem determinado auxílio” e,
assim, “os antigos servidores da terra virgem brasileira, foram postos à parte”. Ainda, segundo
o articulista, as populações negras não teriam conseguido acompanhar a evolução da
sociedade brasileira, até aquele momento, e não era mais possível aguardar até que pudessem
alcançá-la. Precisavam agir. Era fundamental que, após quarenta anos de liberdade,
defendessem seus interesses, “principalmente nas cidades distantes da Paulicéia”, onde ainda
se contemplaria, “com raízes tão ramificadas, o preconceito intolerante, saído dos meios
aristocráticos”. Porque os “preconceituosos” não se conformavam que a brasilidade fosse
formada por “brancos, negros, fuscos e amarelos, loiros e bronzeados”, rejeitando a presença
negra na construção e no progresso da nação. Além disso, os estudiosos sobre raças
divulgavam ideias sobre a inferioridade dos negros e os apontavam como indolentes, e os
negros necessitavam impedir a propagação deste pensamento. Então, convocava os negros de
Piracicaba a participar do Congresso do Negro, onde poderiam coibir essas ideias e, através
de debates sobre os problemas das populações negras, demonstrar, “com justeza”, que
pensavam e buscavam melhorias em sua condição de vida1.
Seu artigo tem muitos elementos que fazem parte dos modos de luta dos
articulistas negros da época, que também foram importantes lideranças em outros espaços
associativos do meio negro. Eles reconheciam o valor da Abolição da escravatura, entendendo
que ela era fruto de um movimento de lutas por igualdade, que não havia sido alcançada com
a liberdade das populações negras. Elas ainda sofriam com diversas práticas discriminatórias
que as impediam de gozar os direitos de cidadania, então era preciso unir os negros e dar
continuidade a esse processo. A discriminação racial seria incompatível com os objetivos do

1
AGUIAR, Jayme de. “Ascensão do Negro”. O Patrocínio, 28 set. 1929, p. 1.
26

país no período, porque de um lado marginalizava um setor importante da população,


mantendo o Brasil em atraso em relação às nações civilizadas, e por outro lado obliterava da
história a principal característica da identidade nacional: a fusão das raças. As lideranças
negras colocavam a “defesa da classe” ou a “defesa da raça” contra o “preconceito de cor”,
conforme as expressões da época, como uma medida patriótica e cívica, que visava auxiliar o
progresso do país e manter a unidade nacional.
Para entender o que seria esse “preconceito intolerante” que assolaria os negros,
serão analisados neste capítulo, primeiro, os mecanismos de racialização e o racismo contra as
populações negras. Como sugere a bibliografia sobre o pós-Abolição, a desagregação do
sistema escravista esteve imbricada na definição e extensão dos direitos de cidadania, que, por
sua vez, estavam relacionadas com a produção social de identidades, hierarquias e categorias
raciais2. Por meio dos jornais que circularam diariamente nas cidades de Campinas e
Piracicaba, é possível perceber como a construção racializada da identidade negra esteve
associada à criminalidade, de forma tão forte e frequente, que criou um medo e uma suspeita
generalizada sobre as populações negras. Esta situação fez com que as práticas coercitivas
recaíssem sobre elas mais do que sobre qualquer outro grupo, que já se ressentiu por ser
preterido no mercado de trabalho. Depois, a análise recairá sobre a resposta dos articulistas
negros a esta situação. Para eles, o ponto chave da estratégia contra a desqualificação das
populações negras e as situações de discriminação era a unidade dos negros; acreditavam que,
juntos, poderiam construir espaços que romperiam com esses cenários negativos. Assim, a
formação de associações de auxílio mútuo e de instrução ganhava mais força.

1.1. A raça de desordeiros e vadios


Na sessão ordinária de janeiro de 1888, o então vereador, barão de Rezende
apresentou uma proposta para impedir o aumento de fugas de escravos para Piracicaba e,
consequentemente, da vadiagem. Ele sugeria que todo “indivíduo de cor” para se estabelecer
na cidade deveria “apresentar o seu passaporte, contrato ou caderneta de serviços ao
presidente da câmara municipal, para pôr seu visto”, caso não o fizesse poderia ser preso ou
multado. E quem empregasse uma pessoa de cor sem o devido visto também seria multado.
Os escravos fugidos e não reclamados, junto com os libertos “encontrados no município sem
ocupação”, teriam que trabalhar em consertos e na construção de estradas ou em outros

2
RIOS, Ana Lugão. e MATTOS, Hebe Maria. Memórias do Cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-
abolição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
27

serviços de utilidade municipal3. O autor do projeto dizia que queria manter a tranquilidade da
cidade. Então, precisaria aumentar a força policial para prender os sujeitos indesejáveis e
submetê-los às punições previstas. Como essa tropa era de responsabilidade da Província e
faltavam recursos financeiros para outras questões do projeto, ele foi rejeitado. O fato de ter
sido apresentado, no entanto, não deixa de ser significativo.
A preocupação com a chegada de escravos em fuga parece ter sido legítima, de
acordo com a bibliografia sobre os anos finais da escravidão no Oeste Paulista. Segundo Karl
Monsma, a concessão de liberdades condicionais não teve o resultado esperado. Os
fazendeiros da região tentaram conter a onda de fugas e revoltas, porém a prática de libertar e
exigir que os libertos trabalhassem por um período determinado aumentou o problema, porque
mais pessoas negras passaram a circular pelas cidades sem que as autoridades soubessem de
suas condições legais e, nesse contexto de indefinição, vários delegados pouco se
preocupavam em prender fugitivos e devolvê-los aos senhores4. Então, a medida recomendada
pelo barão fazia parte de um conjunto de ações da classe senhorial que visava manter os
postos de trabalhos ocupados conforme o abolicionismo avançava. Entretanto, se a força
policial não estava tão preocupada em conter as fugas de escravos, ela se ocupava com suas
chamadas consequências: a desordem e a vadiagem.
Entre os anos finais da escravidão e as primeiras décadas após a Abolição, as
populações negras foram fortemente associadas às práticas de vadiagem e às desordens, em
discursos que construíam a imagem de que a arruaça e a ociosidade faziam parte de sua
essência. Em alguns casos, predominava a explicação biológica, em outros, era o passado do
cativeiro que as levava a seguir por esse caminho5. A Gazeta de Piracicaba, por exemplo, ao
tratar das “queixas contra o ajuntamento de escravos” que “todos os dias” frequentavam “um
botequim à Rua dos Pescadores em frente à Loja do Dourado, considerava que “parecia” ser
“impossível coibir-se os escravos de entrarem lá, pois, o tal botequim os atrai como imã”6.
Desta forma, o periódico passava a ideia de que os negros não iam àquele bar por motivos
racionais, como uma escolha de lazer, afirmando que uma força de atração superior à sua
vontade poderia ser a responsável por eles estarem ali. A consequência disso eram os

3
Câmara de Piracicaba. “Ata da reunião realizada no dia 8 de janeiro de 1888”. Livro de Atas da Câmara de
Piracicaba de 1888. Departamento de Documentação e Arquivo da Câmara de Piracicaba. 8 jan. 1888.
4
MONSMA, Karl. A reprodução do racismo: op. cit. p.126
5
SILVA, Denilson de Cássio. O Drama Social da Abolição: escravidão, liberdade, trabalho e cidadania em São
João Del-Rei, Minas Gerais (1871-1897). Curitiba: Editora Prismas, 2016. pp. 209-210.
6
Gazeta de Piracicaba, 25 mai.1884.
28

transtornos diários, como o da noite de 23 de maio de 1884, quando “o pardo Miguel, escravo,
e Camilo, liberto” se agrediram e proferiram, “ao mesmo tempo, palavras indecentes”7.
Em 22 de maio de 1888, o Diário de Campinas sugeria ao governo que criasse
agências de trabalho, que ajudassem os fazendeiros a conseguir novos trabalhadores após a
Abolição. Para os editores do jornal, era necessário que se firmasse o quanto antes “a nova
organização do trabalho sobre as mais sólidas bases, a fim de que a lavoura sofra o menos
possível”, apesar dos esforços dos legisladores que contribuíram para a entrada de “muitos
milhares de imigrantes” antes da extinção da escravidão. A lavoura necessitava de mais
trabalhadores. Além dos estrangeiros, que já estavam no país e dos que ainda chegariam, a
incorporação dos “libertos” seria imprescindível. Entretanto, na Província de São Paulo,
“mesmo antes da promulgação da lei que extinguiu o cativeiro, raramente os libertos se
conservam nas fazendas dos ex-senhores, uma vez cientes do seu estado de liberdade”, algo
visto pelo periódico como “natural”, seria “o primeiro impulso, gerado pelo desejo ardente da
liberdade ampla e completa”. Também naturalmente deveriam retornar. Porque “pouco tempo
depois tendo experimentado o trabalho em outros estabelecimentos rurais ou mesmo nas
cidades”, após terem “aprendido um pouco na luta da vida”, desejariam “tornarem a ver os
lugares conhecidos, onde por muito tempo viveram e onde os atraem mil recordações gratas –
desde que o cativeiro não tenha sido excepcionalmente rigoroso”. Então, cabia aos
governantes aprovar leis que acelerassem esse processo, pelo bem da economia brasileira8.
Na cidade de Piracicaba a preocupação era a mesma, tanto que o editorial foi
transcrito pela Gazeta de Piracicaba dias depois. Cerca de um mês após a Abolição, este
periódico reclamava da falta de braços para o trabalho e do aumento do número de pessoas
desocupadas na cidade, afirmando que ambas as situações estavam relacionadas. Segundo ele,
a vagabundagem teria conquistado “numerosos adeptos entre os libertos, dos quais muitos
confundem a liberdade – com a ociosidade –, e entendem que para serem livres devem
ostentar-se ociosos e vadios”. Eles não compreendiam que a ociosidade era “a mãe de todos
os vícios” e que, por este motivo, “não é nem podia ser um direito, quer do homem livre, quer
do liberto”. A vadiação era um crime previsto e punido pela lei, lembrava o periódico que as
autoridades policiais tinham o “dever de processar todo indivíduo que, não tendo renda
suficiente, não tomar uma ocupação honesta e útil de que possa subsistir” após ser avisado
pela primeira vez. E assim deveriam agir, porque “seria um bom serviço prestado à sociedade

7
Idem.
8
“Agências de Trabalho”. Diário de Campinas, 22 mai. 1888, p. 1; “Agências de Trabalho – Diário de
Campinas”. Gazeta de Piracicaba, 24 mai. 1888, p. 1.
29

e um verdadeiro benefício aos próprios vadios, que assim aprenderiam praticamente que, ao
contrário da ociosidade, o trabalho é a fonte de todas as virtudes”9.
Anos depois, esta folha voltava a tocar no assunto da vadiagem entre as
populações negras gozando da vida em liberdade. Segundo seu editorial de 1891, abundaria
“na cidade os braços inativos pela má vontade de trabalhar”, e alguns homens recusavam o
trabalho “a pretexto de que têm serviço”, enquanto as “mulheres de cor” alegavam doença, e
ambos andavam pela cidade “as mais das vezes em linguagem que não se pode ser ouvida
pela gente decente”. Ganhariam a vida de maneira ilícita, por meio da prostituição, roubos e
jogos, “que entre eles não fazem grande diferença um do outro, estes dois vícios”. Ainda, por
conta da aversão ao “trabalho decente” essas mulheres viveriam “aglomeradas pelos
cubículos, pelas esquinas, pelas tavernas, a embriagar-se, a tecer intrigas, a disputar, a
arrepelar-se uma a outra”10.
Mesmo sem fazer uma identificação racial dos homens, como foi feita com as
mulheres, é possível afirmar que eles também eram negros. Para solucionar o problema, o
articulista pedia que se colocasse “de lado o egoísmo de nossa raça, se nos é permitida a
expressão”, porque considerava que era seu dever “zelar” e “educar a raça preta”, que haviam
arrebatado de sua “pátria” e cujo sangue “sugaram” durante três séculos. Por isso, a “sua raça”
também teria a obrigação de desviar a “raça dos pretos” da prostituição. Para os responsáveis
pelo jornal, a liberdade dada às populações negras não era tudo, precisavam dar instrução e
moralidade. e sua sugestão era que isso fosse feito por meio de “medidas repressivas para os
adultos e pela frequência da escola pelas crianças”. Finalizava afirmando que “à essa raça tão
paciente quão infeliz, mais aproveita do que à nossa, qualquer medida de que use a digna
autoridade policial para impeli-la ao trabalho”, de forma branda ou enérgica11.
Os textos até aqui apresentados demonstram como a vadiagem, vista como
consequência do escravismo, era relacionada naturalmente com as populações negras. O
passado em cativeiro fazia com que elas não tivessem a capacidade de compreender os males
da ociosidade e se lançassem impulsivamente a ela, iludidas pela ideia de que viver em
liberdade era estar sem trabalho. Por meio de discursos paternalista, dizia-se que era de
responsabilidade da “raça emancipadora” ensinar à “raça emancipada” como gozar da
condição de “liberta”, como pôde ser notado, alguns articulistas faziam questão de explicitar
que os negros não eram livres, eram libertos. Essa nomenclatura foi fundamental para a

9
“Vadios”. Gazeta de Piracicaba, 20 jun. 1888, p. 1.
10
“A Vadiagem”. Gazeta de Piracicaba, 22 jul. 1891, p.1.
11
Idem.
30

atualização das hierarquias sociais, se não havia mais o escravo, o sujeito não livre, dava-se às
pessoas de cor uma origem comum, o cativeiro, sem se importar com as experiencias
individuais e diversas delas, e com isso se justificava a ausência de cidadania plena e a
constante vigilância que sofriam. A tutela das populações negras, entre articulistas e políticos
que advogavam a seu favor, seria uma prática patriota que tinha a finalidade de reduzir os
prejuízos à nação, porque a desocupação levaria a outros vícios, em especial à embriaguez,
principal motivo das desordens, e à criminalidade, o roubo entre os homens e prostituição
entre as mulheres, que eram as duas principais formas de renda dos desocupados.
Segundo a historiografia da educação, durante o processo abolicionista a instrução
fazia parte do discurso emancipatório de alguns políticos e intelectuais que acreditavam que
na sociedade pautada pelo trabalho livre era preciso ter cidadãos úteis. Para eles, era preciso
substituir habitantes apáticos por pessoas dispostas a trabalhar, que não precisassem ser
coagidas pela violência física. Eles tentavam inculcar no povo, por meio da educação, a
disciplina e o amor ao trabalho12.
Nesta direção, O Estado de São Paulo solicitava que as escolas de órfãos também
aceitassem os filhos da “classe dos ilotas”, composta por caboclos, mamelucos e recém
libertos. Em um texto de Mário de Arantes, considerava-se que o Estado de São Paulo vivia
um momento de prosperidade, que, no entanto, não podia ser usufruído por todas as “classes
do povo”. Ela somente “atingira a áurea aristocracia, a burguesia de pequena lavoura e
comércio etc.”, enquanto a “classe dos ilotas” permanecia na “ignorância e na imoralidade”,
indo “pelo caminho da miséria londrina”. Segundo ele, questões históricas, sociais e
biológicas impediriam esta classe de avançar. Explicava que “o negro” estava “habituado à
tutela senhorial, ao parco alimento e ao vestiário quase nulo, não viu na lei 13 de maio senão
amplo gozo da liberdade, sem cogitar dos meios de prover a substância, porque de pouco
vivia e de quase nada continuou a viver”. E, se não tinha “sofrido o impulso moral das classes
civilizadas”, era por conta dos “efeitos da escravidão dos africanos e da educação” dada aos
seus descendentes. Portanto, pedia que a República sobrepusesse “um fecho de ouro no 13 de
maio da Monarquia dando a verdadeira liberdade a essas duas raças [indígenas e negros], a

12
SCHELBAUER, Analete Regina. Idéias que não se Realizam: o debate sobre a educação do povo no Brasil
de 1870 a 1914. Maringá: EDUEM, 1998, pp.43-49; BARROS, Surya Aaronovich Pombo de. Negrinhos que
por Ahi Andão: a escolarização da população negra em São Paulo (1870 – 1920). Dissertação de Mestrado,
USP, Faculdade de Educação: São Paulo, 2005; FONSECA, Marcus Vinícius. A educação dos negros: uma nova
face do processo de Abolição da escravidão no Brasil. Bragança Paulista: EDUSF, 2002; OLIVEIRA, Milton
Ramon Pires de. Formar Cidadãos Úteis: os patronatos agrícolas e a infância pobre na Primeira República.
Bragança Paulista: EDUSF, 2003.
31

liberdade da consciência, liberdade do espírito que se conquista pela educação e pelo


trabalho”13.
A instrução era complementada pela coerção policial, que aparece com mais
frequência na relação entre as populações negras e mercado de trabalho. Lívia Maria Tiede e
Lilia Moritz Schwarcz apontaram que as populações negras aparecem racialmente
identificadas nos jornais nas seções dedicadas ao cotidiano das delegacias14. Além de
informar quem entrava e saía da cadeia, os jornais de Campinas e Piracicaba recebiam e
publicavam as queixas de moradores incomodados com os vadios e desordeiros, como forma
de chamar a atenção das autoridades. Assim, por exemplo, um deles noticiava que um “grande
número de pretos e pretas, embriagados, proferindo palavras indecorosas” estava nos
botequins da rua dr. Quirino, no trecho entre as ruas dr. César Bierremback e General Osório,
em Campinas. Esta rua já estava se “tornando intransitável por famílias” por causa desses
eventos noturnos, que tinham “um caráter agressivo à moral pública”. Então, desejava o
periódico Cidade de Campinas que o delegado “destacasse ali um policial impedindo, dessa
maneira, que aquele ponto urbano caí[sse] no rol das ruas de arrabalde” 15
. Também era
“impossível de transitar as exmas. famílias” no “trecho da rua Conceição entre barão de
Jaguara e Francisco Glicério”, porque ficavam “estacionados lá grossos magotes de pretas”,
de acordo com o Comércio de Campinas16. Protestava-se contra a “aglomeração gente de cor,
que durante o dia e uma parte da noite perturba a ordem pública” na rua Regente Feijó e no
Largo Riachuelo17. E em Piracicaba, contra “uma turma de pretos” que se reunia “numa casa
da rua Municipal, próxima à rua Alferes José Caetano” que incomodava seus vizinhos porque
fazia “todos os dias uma jogatina gritadora”18.
A cor da pele, nesses casos, parece ser uma forma inocente de identificar os
arruaceiros, afinal seriam grupos de pessoas desconhecidas e tudo que os jornais sabiam eram
suas características físicas. No entanto, as notícias de pessoas que foram presas ou intimadas
pela polícia sugerem que havia mais coisas nisso. Nestas notas, fala-se do “pardo Geraldo”,

13
ARANTES, Mario de. “Colônias Orfanológicas – Os que devem receber educação nas colônias”. O Estado de
São Paulo, 12 jan. 1893.
14
TIEDE Lívia Maria. Sob Suspeita: negros, pretos e homens de cor em São Paulo no início do século XX.
Dissertação de Mestrado, UNICAMP, Departamento de História: Campinas, 2006; SCHWARCZ, Lilia Moritz.
Retrato em branco e negro: jornais, escravos e cidadãos em São Paulo no final do século XIX. 2ª reimpr. São
Paulo, SP: Companhia das Letras, 2008.
15
“Com a Polícia”. Cidade de Campinas, 08 abr. 1910, p. 1.
16
Comércio de Campinas, 09 mar. 1909.
17
Diário de Campinas,10 mar. 1899 e Diário de Campinas, 9 mai. 1900.
18
“Reclamação”. Jornal de Piracicaba, 20 out. 1909, p. 1.
32

que ficou “preso há dias por vagabundo” e foi posto em liberdade19; da “preta Joana
Penteado” que passou um dia presa “por desordeira”20, quando se encontrava embriagada21;
do “preto José Henrique Bueno” que esteve “promovendo desordem em estado de
embriaguez”22. Em outros casos se dá um pouco mais de detalhes sobre a situação que levou
ao recolhimento do indivíduo e aparecem juízos de valor do jornal. O “preto Norberto
Miguel”, por exemplo, estava “muito alcoolizado” e quis “à fina força” obrigar a doceira
Constança a lhe “dar” geleia e doce fiado, e se irritou quando ela desconfiou “do seu bom
crédito”. Foi preciso, então, “a polícia acalmá-lo no xadrez”23. “As pretas desordeiras,
Benedicta Maria de Jesus e Leopoldina Joana” brigaram na rua da Glória às 6 da manhã e,
ironizava a Gazeta de Piracicaba, bem poderiam estar “gostando da vida esplendida do Hotel
das delícias”24.
Os textos das notas de prisões publicadas nos jornais eram construídos de forma a
passar a ideia de que aquelas pessoas eram agitadores frequentes. Primeiramente, usava-se
adjetivos como desordeiro, vadio e vagabundo para descrever os infratores, como se a
desocupação ou os transtornos causados fossem um estilo de vida deles, não um caso isolado.
Outra forma de demonstrar que os tumultos não eram algo esporádico era dar um ar de
familiaridade em relação aos os envolvidos e enfatizar a frequência com que participavam de
situações que causavam transtornos à ordem pública. Como Sebastiana Moringa e Eusébia M.
Conceição, “ambas de cor preta”, e “conhecidas e assíduas hospedes” do “palacete do
Gavião” (como os jornais piracicabanos se referiam à cadeia algumas vezes, por causa do
sobrenome do delegado), que foram recolhidas por embriaguez25. E o preto Horácio Ferreira,
que tinha suas façanhas “demasiadas conhecidas” em Piracicaba, mas na cidade de Amparo
levou “uma valente cacetada” do preto Sebastião, que foi “provocado pela vítima, conforme
as narrativas feitas perante a polícia26. Outros, além de famosos, não se corrigiam. Era o caso
do “preto Paulo de Moraes”, que era um “vagabundo incorrigível”27; das “pretas Maria
Rafaela e Maria Candida, também vagabundas incorrigíveis”28. E Anésia de tal era uma “preta
incorrigível”. “Por motivos fúteis, a preta, desordeira”, agrediu Avelina de tal e foi “presa e

19
“Em Liberdade”. Gazeta de Piracicaba, 02 dez. 1904, p. 1.
20
“Prisão”. Gazeta de Piracicaba, 29 mar.1905, p. 1.
21
“Em Liberdade”. Gazeta de Piracicaba, 30 mar. 1905, p. 1.
22
“Liberdade”. Gazeta de Piracicaba, 15 mai. 1908.
23
“Embriaguez”. Gazeta de Piracicaba, 29 set. 1908, p. 1.
24
“Aranzé”. Gazeta de Piracicaba, 30 mar.1905.
25
Gazeta de Piracicaba, 16 mai. 1909.
26
“Amparo”. Gazeta de Piracicaba, 16 mai. 1905, p. 1.
27
“Vagabundo”. Gazeta de Piracicaba, 23 mai. 1905, p. 1.
28
“Vagabundas”. Gazeta de Piracicaba, 08 nov. 1904, p. 1.
33

recolhida a sombra”, mas saiu “em virtude de uma ordem de habeas-corpus”. No mesmo dia
em que foi posta em liberdade, prestou queixa contra “Emília de tal, vulgo trem de carga”, por
isso exclamava a Gazeta de Piracicaba: “Que preta incorrigível!”29.
As pessoas negras não eram as únicas que apareciam nas seções policiais como
desordeiras e vadias; entretanto, a cor da pele não era usada para identificar todas as pessoas,
somente as negras. Ou seja, não há citações literais de que uma pessoa branca ou um grupo de
pessoas brancas estivesse causando algum transtorno. O que é possível encontrar são as
identificações por nomes e nacionalidade, no caso dos estrangeiros. Karl Monsma aponta que
junto com os negros, portugueses trabalhadores de ferrovias e italianos eram vistos como
perigosos nas cidades do Oeste Paulista, “mas de maneiras distintas”. O motivo para se
constituírem em perigos era “porque eram homens sem senhores; eles não tinham um lugar
definido na teia de trocas e dependências pessoais que definia a sociedade brasileira”30. Ele
considera que a existência de elites imigrantes não permitia que todo o grupo fosse
estereotipado. Enquanto, entre os portugueses, o estigma de perigosos caía somente sobre os
trabalhadores das estradas de ferro, porque alguns de seus compatriotas já estavam
estabelecidos nas cidades do interior e alguns eram grandes fazendeiros e comerciantes
daquelas localidades, os italianos foram primeiro taxados genericamente de desordeiros31.
Analisando a relação entre negros, italianos e fazendeiros no Oeste Paulista, Karl
Monsma afirma que, em um primeiro momento, não houve nenhum tipo de solidariedade
branca por parte dos fazendeiros, até mesmo entre aqueles que preferiram o trabalho
imigrante ao negro. Ao contrário, os patrões cometiam abusos e os tratavam os imigrantes
como mão-de-obra barata e igual aos negros, inclusive exigindo que a polícia controlasse
ambos para que eles não perdessem trabalhadores. Críticas feitas por cônsules às posturas da
polícia foram praticamente imediatas, mas conforme suas colônias foram se consolidando e
alguns ascendendo, ainda no começo do século XX, as reclamações se tornaram mais
contundentes e conseguiram promover outras ações que eliminaram o estigma de todo
grupo32. Desta forma, a desqualificação de negros e italianos como desordeiros e vadios
estava associada à manutenção do trabalho e às práticas coercitivas contra os trabalhadores.

29
“Preta Incorrigível”. Gazeta de Piracicaba, 12 mai. 1905, p. 1.
30
MONSMA, Karl. “Os Delegados e os Grupos ‘Perigosos’ no Interior Paulista, 1880-1900: representações de
escravos, libertos, portugueses e italianos na correspondência policial”. In: Bohoslavsky, Ernesto, Caimari, Lila
y Schettini, Cristiana (org.), La policía en perspectiva histórica. Argentina y Brasil (del siglo XIX a la
actualidad), CD-Rom, Buenos Aires, 2009, p. 2.
31
Idem.
32
MONSMA, Karl. A reprodução do racismo: op. cit.
34

No entanto, as populações negras eram discriminadas por serem associadas à imagem de algo
inerente a elas, o que não aparecia nos casos encontrados de italianos desordeiros. Os
imigrantes não eram conhecidos, nem tinham suas proezas conhecidas, muito menos eram
tratados como incorrigíveis.
Claudia Alessandra Tessari estudou a formação e consolidação do mercado livre
em Piracicaba após a Abolição e ela considera que o discurso contra a ociosidade e sua
repressão fazia parte de uma política para manter a mão-de-obra negra nas fazendas de cana-
de-açúcar, que tinham mais dificuldade para contratar imigrantes – estes foram mais usados
nos cafeeiros. Segundo a autora, usava-se o termo vadiagem de forma abrangente para
“obrigar o liberto a manter um contrato de trabalho, sob pena de ser preso ou pagar multas,
caso fosse pego sem o devido contrato assinado por seu patrão”. Ainda, através da alegação
de que os recém libertos seriam despreparados para o trabalho livre, fazendeiros pautavam-se
em estereótipos para instituir uma moral do trabalho nos egressos do cativeiro33. Assim, desde
a segunda metade do século XIX as populações negras, fossem escravas, libertas ou livres,
foram descritas por delegados e chefes de polícia como vagabundas e desordeiras, fazendo
com que “ajuntamentos de negros nas cidades do interior eram quase sempre vistos com
grande suspeita, como princípio de desordens”34.
Essa suspeita também se fazia presente nos espaços privados dos negros. A
“Sociedade Dançante União Faz a Força”, que fazia parte do conjunto de associações de
homens de cor realizava suas atividades em sua sede social, onde seus membros dançavam,
brincavam e discursavam - o que era “tudo muito certo”, de acordo com o Cidade de
Campinas. O problema, para o periódico, era se “as danças, brinquedos e parlatórios, em
vozes altas e, algumas vezes, inconvenientes” aparecessem “nas ruas, onde as famílias
merecem respeito e precisam de sossego”. Então, pedia o jornal que a diretoria coibisse
“qualquer abuso nesse sentido”35.
A perseguição às mulheres negras apresentava uma faceta ainda mais contundente
pois estava ligada à contradição que viviam no mercado de trabalho. Assim como os homens
desocupados, elas teriam que encontrar uma ocupação honesta em prazo determinado pelo
delegado quando eram recolhidas. As notícias que mencionam esse tipo de punição só
aparecem em situações em que as mulheres negras foram pegas em grupo ou foram alvo de
33
TESSARI, Cláudia Alessandra. Tudinhas, Rosinhas e Chiquinhos: o processo de emancipação dos escravos e
os libertos no mercado de trabalho: Piracicaba: 1970-1920. Dissertação de Mestrado, UNICAMP, Instituto de
Economia: Campinas-SP, 2000. p.221
34
MONSMA, Karl. A reprodução do racismo: op. cit. p.126
35
“Sociedade Dançante”. Cidade de Campinas, 06 ago. 1901, p. 1.
35

campanhas policiais em suas moradias. Desta maneira, informava o jornal Cidade de


Campinas que “diversas pretas e mulatas, ébrias e sem ocupação” “foram intimadas a
comparecer perante a delegacia policial” e “a tomar uma ocupação dentro do prazo marcado
pela autoridade”, porque estavam causando desordem à noite36. Enquanto isso, o Diário do
Povo celebrava a ação policial “contra as pretas desocupadas”, em “mais uma campanha
feliz”. Usando de “hostilidade contra as pretas sem ocupação (…) percorreram vários cortiços
prendendo mulheres ali residentes que se ocupavam em nada fazer”. Segundo o jornal, essa
atuação traria benefícios às “donas de casa que lutam com a falta de empregadas de cor de
Campinas”37. No entanto, as mulheres negras eram preteridas nas vagas de empregos. Nas
cidades paulistas, inclusive em Campinas, eram comum anúncios para contratação de criadas
nos quais se mencionava a preferência por mulheres brancas ou estrangeiras. Assim, a
imprensa diária campineira passava a ideia de que os agrupamentos de mulheres negras eram
formados por desocupadas, que as autoridades precisavam agir contra elas para que
arrumassem empregos, escondendo a rejeição a elas. O jornal negro Getulino criticou a
notícia porque não falava dessa preferência dos empregadores, porque não era verdade que
elas nada faziam, já que se ocupavam do “serviço trivial de uma casa”. Indo mais longe
denunciava o Diário do Povo por sugerir “que, unicamente por elas ser[em] pretas, morar[em]
em cortiço”, se lhes movia uma “guerra”38.
A vadiagem de pessoas negras esteve associada a ganhos ilícitos, geralmente
roubos, mas no caso específico das mulheres negras também se estabelecia uma relação com a
prostituição. Quando a Gazeta de Piracicaba criticava a abundância de braços inativos, dizia
que as mulheres de cor que não trabalhavam alegando doença, e mesmo assim “bem ou mal”
comiam e se vestiam, “sem ter plausível explicação a proveniência de seus rendimentos a não
ser pela prostituição, por que 99% delas são celibatárias ou separadas de seus maridos; quase
sempre por adultério”39. Em Campinas, a associação se repetia, segundo Cleber Maciel “havia
a vagabundagem específica das mulheres de ‘vida fácil, prostitutas que nessas condições são
piores que os homens”40.
A perseguição à desordem e à vadiagem fez mais do que controlar a mão-de-obra.
Pode-se afirmar que esse combate criou um perfil de desordeiros e vadios, em que ambos
mantinham uma relação de causa e consequência: quem vadiava provocava desordem, quem
36
“Ébrias e Vagabundas”. Cidade de Campinas, 27 abr. 1901, p. 2.
37
Diário do Povo, 30 out. 1923. Apud MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações raciais... op. cit. p. 121.
38
Getulino, 11 nov. 1923, p. 2.
39
Gazeta de Piracicaba, 1891.
40
MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações Raciais op. cit. p.117.
36

causava tumultos vivia na vadiagem. A narrativa construída pelos jornais permitia entender
que havia seres vadios e desordeiros por natureza ou por força de fatos históricos, eles eram
incorrigíveis, conhecidos por seus constantes transtornos e assídua frequência à prisão. Em
uma briga de vizinhos em Piracicaba, Joaquim Franco acusa Maria Dias da Costa de pertencer
à “raça de desordeiros”; o modo como ele a descreveu seguia o padrão apresentado até aqui.
Ela vivia “a provocar todo mundo, insultando e agredindo”, e precisava de vigilância das
autoridades “para evitar fatos mais graves”, como a agressão à esposa do queixoso41.
As ocorrências de desordens e vadiagens apresentadas aqui tinham a intenção de
comprovar que essas duas situações eram entendidas em uma relação de causa e efeito, que
necessitava da intervenção pública para garantir os postos de trabalho ocupados, e as
populações negras eram as mais afetadas nesse combate. Elas estiveram cerne do debate pela
manutenção da ordem e do trabalho desde a segunda metade do século XIX, com o avanço do
abolicionismo, e, a partir de então, construiu-se uma narrativa em que as populações negras
eram vistas como propícias a viver de forma desregrada, tornando-se o grupo social que mais
precisava de formas de vigilância e controle. Os discursos jornalísticos iam da tutela
paternalista à solicitação de coerção policial, além de passar a ideia de que os negros estavam
frequentemente transgredindo a ordem. Assim, se houve uma noção de “raça de desordeiros”,
as pessoas negras faziam parte dela. E, mais do que isto, a ideia de que elas eram desordeiras
em potencial fazia com que fossem as principais suspeitas de crimes mais graves.

1.2. Pretos gatunos e mulatos assassinos


Os informes de prisões em casos de roubos, agressões e assassinatos seguiam o
mesmo padrão de racialização encontrado nas situações de desordens e vadiagens; negros e
imigrantes eram identificados pela cor de sua pele e nacionalidade, respectivamente, e seus
nomes. Deste modo, era comum situações como a do “preto Antonio Silva Carioca” que foi
para prisão “por haver roubado um cavalo a um colono do sr. Farias”42. Ou da “negra de nome
Barbara” que se apossou “sem mais” de um chapéu de sol na festa de Santa Cruz 43. E do
“preto Jordão Fernandes”, que roubou “uma pobre vendedora de azeite, na sua ausência, 500
réis em dinheiro e um anel”44.

41
FRANCO, Joaquim. “Mulher Desordeira”. Jornal de Piracicaba, 21 fev. 1908, p. 2.
42
“Prisões”. Gazeta de Piracicaba, 05 mar. 1890, p. 1
43
“Prisões”. Gazeta de Piracicaba, 28 abr. 1889, p. 1.
44
“Prisões”. Gazeta de Piracicaba, 21 jan. 1905, p. 1.
37

Em alguns casos o título da notícia era Preto Gatuno. Isso ocorreu no episódio
envolvendo o “preto Bernardo da Silva”, que mereceu notícias por dois dias. No primeiro,
informam que “por ter roubado uma máquina de costura, roupas e diversas galinhas no bairro
de Pau Queimado”, foi recolhido à cadeia “um preto cujo nome não pudemos conseguir”. No
outro dia, informam seu nome e que a máquina de costura era de outro preto, residente
daquele bairro, que teve seu pertence devolvido pelo delegado de polícia45. Outro “preto
gatuno” era um espertalhão que “não foi preso devido ter fugido”, porém era um “conhecido
gatuno”, apesar de seu nome não ser mencionado. Segundo a matéria de 31 de março de 1905,
ele primeiro “surrupiou um capacho do corredor da casa do sr. Dr. Joaquim da Silveira
Mello”, e no dia seguinte foi pego por Romualdo dos pastéis, com “uma pá de areia, que dizia
ele ter encontrado numa das nossas ruas”. Seu verdadeiro dono era o “sr. Cesário Custódio de
Almeida, preto, residente a rua Conselho, n° 25”, então presidente da “Sociedade Beneficente
Antônio Bento”, que recuperou sua ferramenta no escritório da Gazeta de Piracicaba46.
O Jornal de Piracicaba costumava ser mais irônico do que a Gazeta de
Piracicaba nas notícias de prisões, principalmente quando se tratava de casos de roubos. O
texto da prisão do “preto Joaquim José Antonio” começava dizendo: “trabalhar neste tempo,
ora chuvoso, ora de um sol abrasador, não é lá coisa das melhores”. O gatuno era “inimigo do
trabalho e gosta de passar bem”, havendo “diversas queixas” contra ele “relativas a furtos
praticados”. Desta vez, “tratava-se do furto de diversas peças de roupa e de 12 galinhas”, que
pertenciam a Jorge Fischer. Este o reconheceu e como não estava “disposto a vesti-lo e a dar-
lhe canjas de galinha, deu parte à polícia”. Depois de preso, deveria estar “se refrescando no
sobrado, descansando da pequena fadiga que lhe causou o fato de ser preciso pular uma cerca,
amarrar as galinhas”; o jornal aproveitava para mandar recado a “seu companheiro
inseparável”, Zacharias, de que a polícia estava atrás dele também47.
Já as “pretas Sebastiana do Prado e Maria Benedita, querendo experimentar a
veracidade do prolóquio: a galinha do vizinho é mais gorda”, roubaram os animais que
estavam na capoeira do bairro. E o delegado, “o sr. Tet. Granja, que não aprecia essas
experiências, tendo ciência do fato, mandou engaiolar as madamas”. Na cadeia estariam

45
“Preto Gatuno”. Gazeta de Piracicaba, 15 dez. 1904, p. 1; “Preto Gatuno”. Gazeta de Piracicaba, 16 dez.
1904, p.1.
46
“Preto Gatuno”. Gazeta de Piracicaba, 31 mar. 1905, p. 2; “Preto Gatuno”. Gazeta de Piracicaba, 04 abr.
1905, p. 1.
47
“Ladrão”. Jornal de Piracicaba, 1 mar. 1906, p. 1. Grifos do original.
38

“certamente a dizer lá para seus botões: a galinha do vizinho é mais gorda, porém, é mais
cara...”48.
Se nos casos de roubos, os negros eram conhecidos, mesmo quando não tinham
seus nomes citados, nos crimes de assassinato além de serem suspeitos potenciais, surgia a
figura do negro desconhecido. José Agostinho da Silva, por exemplo, foi passear “com alguns
companheiros, para o lado do [rio] Piracicamirim”, encontrou com dois pretos que o
agrediram, levando uma “cacetada na cabeça, de que veio a falecer”49. Na notícia não havia
motivo algum para tal violência, nenhuma suspeita ou hipótese é levantada.
Outro caso, ocorrido no Rio de Janeiro e noticiado em Campinas, era o de um
“assassinato para roubar”, como indicava o título. “Leopoldo Kuob, residente à Avenida Rui
Barbosa”, encontrara “um mulato que vagava na vizinhança”, que parecia ser um miserável,
contudo “lhe era desconhecido”. Talvez compadecido da situação do pobre sujeito, resolveu
acolhê-lo em sua casa. Depois disso, “não foram mais vistos”. Então, a polícia resolveu
arrombar a porta de Kuob, “encontrou-o assassinado na própria cama a golpes de machado no
rosto e no pescoço”. Através da perícia, “verificou-se que não houve luta”, e, por isto, supôs-
se “que o crime se deu enquanto ele dormia”. Como a vítima “possuía cerca de um conto de
réis”, era mais um assassinato para roubar50. Sem um desfecho policial, a matéria deixa a
entender que o mulato se aproveitara da compaixão para executar o crime.
A outra história sobre assassinato envolvendo negros também era do Rio, mas foi
reproduzida em Piracicaba e tinha a vingança como motivação. “Um moço rico e de boa
família vivia com uma mulata” com quem tivera dois filhos, porém ele estava “enamorado há
tempos uma moça da nossa melhor sociedade”. Então, pediu a última em casamento. A mãe
de seus dois filhos, ao saber do noivado, conseguiu, “por meios artificiosos”, conversar com a
noiva, expondo “toda a história dos seus amores” com o moço rico. Ela tentou, sem sucesso,
convencer “a boa moça” a desistir do casamento, “a fim de não se arrepender mais tarde”.
Passado algum tempo, uma bandeja de pão de ló foi entregue ao endereço do novo casal.
Como não sabiam a origem do presente, o marido ficou desconfiado e deu um pedaço do pão
ao cachorro, que logo em seguida veio a falecer. De acordo com a Gazeta de Piracicaba,
depois dessa situação, “da tal mulata não havia notícias”. No entanto, a moça foi vítima de
novo ataque. Desta vez, a “sra, X... antes de almoçar dirigiu-se ao jardim” de sua casa,
quando, “de repente, abre-se o portão e dois reforçados negros tentam estrangulá-la”. Ela se

48
“Roubo de Galinhas”. Jornal de Piracicaba, 23 mai. 1906, p. 1. Grifos do original.
49
“Assassinato”. Gazeta de Piracicaba, 23 ago. 1891, p. 2.
50
“Assassinato para Roubar”. Correio de Campinas, 20 fev. 1908, p. 2.
39

salvou graças a seu feitor e “ficou com as vestes todas rotas e com ligeiras escoriações nos
braços e no pescoço”, enquanto os dois atacantes fugiram. A polícia não foi acionada para
“evitar o escândalo que traria o fato”51.
Desde o título dessa matéria, Ciúme e Vingança, o leitor é levado a crer que as
duas investidas foram obras da “tal mulata”, apesar de ninguém saber dela desde a conversa
entre as duas mulheres e não se ter uma investigação. O relato todo parece ter sido construído
para expor as diferenças entre brancos e negros, especialmente entre posições ocupadas pelas
mulheres. Apesar de terem vivido juntos e terem dois filhos, a relação com a mulata é tratada
como um caso extraconjugual, enquanto o envolvimento com a moça branca, desde o
momento de aproximação é passado como algo sério. Assim, uma servia para relações sexuais
e a outra para casar. O modo como agiram também as distingue. A mulata foi tomada pelo
ciúme e, por isso, planejou uma vingança. A “senhora X”, mesmo ouvindo toda a história de
amores de seu noivo com a outra mulher, não se deixou levar por esse sentimento, talvez por
saber o papel de cada uma delas, tomou uma decisão racional e levou adiante seu
compromisso.
A engenhosidade maligna da mulata contrastava com a ingenuidade da “boa
moça”. Esta precisou ser salva pelo marido, quando aceitou comida envenenada sem saber o
remetente, e depois pelo feitor contra “os dois reforçados negros” que a atacaram em um
momento de distração em seu jardim. A matéria foi montada aos moldes de um conto de
fadas. O moço rico de boa família era um galante príncipe, que despertava interesse de outras
mulheres, que ao encontrar uma bela donzela, representada pela moça “da melhor sociedade”,
firmou um compromisso sério. Casados, ele era o protetor de sua princesa, contando com a
ajuda do feitor, que, por isso, era uma espécie de cavaleiro. A mulata por não saber lidar com
a rejeição e entender seu lugar se tornou vilã. Os outros dois negros poderiam ser seus
capangas e demonstraram que não tinham escrúpulos e limites ao atacaram a indefesa
senhora. Desta forma, passava-se a mensagem que não era somente este trio que ameaçava
aquela família, e sim que todas as “boas” famílias eram ameaçadas por negros de um modo
geral.
Em Piracicaba, um negro desconhecido se torna suspeito de um assassinato
quando um corpo em “completo estado de putrefação” apareceu na estrada. No jornal, o
“crime misterioso” começou a ser narrado após os depoimentos à polícia de Maria Pinto,
Ricardo Nozella e seu pai, Eduardo Nozella, que foram responsáveis pela denúncia. Nenhum

51
“Noticiário – Ciúme e vingança”. Gazeta de Piracicaba, 24 ago. 1890, p. 1.
40

deles sabia de algum acontecimento que pudesse justificar a existência de tal corpo, mas
Ricardo havia passado pela estrada no domingo e “observou que um preto estava banhando o
pescoço num ribeirão” próximo do local onde o cadáver foi encontrado. Ele voltou a passar na
segunda-feira, quando “nada viu que lhe chamasse a atenção”; no dia seguinte sentiu o mau
cheiro e achou que era de algum animal morto, porque “no bairro nenhum fato se deu que
pudesse ter relação com o encontro do cadáver”52. Deste modo, sua suspeição aparece de
forma sutil, relacionando um fato que lhe chamou atenção após saber que alguém estava
morto na região. Era apenas um preto próximo de uma cena de crime.
Seu pai não compartilhava da mesma suspeita. Eduardo Nozella ficou sabendo
que havia um “cadáver de um homem de cor preta” nas terras de Christiano Mathiessen por
Julinho Bicudo, que também contou ao tio de Maria Pinto. Como fora ele a espalhar a notícia,
tinha as feições alteradas e se recusara a prestar mais informações, o senhor Nozella passou a
desconfiar dele e perguntou se ele não era criminoso. “Julinho respondeu-lhe que apenas
sofrera 3 dias de prisão pelo conflito havido no bairro dos Pinhos” e que nada sabia que
pudesse ajudar a solucionar o caso, “e que nem sequer viu o cadáver”. No entanto, segundo
Maria Pinto, ele teria dito a seu tio Valentim que, “próximo ao Km 13, havia um cadáver que
estava sendo devorado por corvos”53. Assim, de acordo com os depoentes, de alguma
maneira, havia sido por ele que tinham sabido as características do corpo ou de sua situação.
Apesar da desconfiança de Eduardo Nozella se basear no comportamento de Julinho Bicudo e
na aparente contradição sobre como ele havia descoberto o morto, nas edições seguintes sobre
o caso, ele não estava na lista de suspeitos. Na verdade, só houve uma pessoa colocada sob
suspeição: o preto que banhava o pescoço no ribeirão.
Este caso mobilizou os leitores o Jornal de Piracicaba, que resolveram mandar
cartas com informações que poderiam ser úteis, e que aumentavam a suspeita sobre o preto
desconhecido. Primeiro, o periódico publicou a carta de Francisco de Oliveira Ferraz, que
soube que “uma cozinheira de nome Thereza, que trabalha em sua casa, ouvira de Valentim
de tal, cunhado de Eduardo Nozella”, que um francês que havia passado em sua venda
perguntando por um mulato “carregando uma mala de viagem e outros objetos”. Ela teria dito
que os dois se conheceram em uma hospedagem, e o mulato tinha levado “sua mala, na qual
continha papéis e objetos de valor”. As pessoas na venda indicaram o rumo do suposto ladrão
e a vítima partiu “a toda pressa, na pista do mulato, sendo provável que o tivesse encontrado a

52
“Crime Misterioso”. Jornal de Piracicaba, 01 out. 1901, p. 1.
53
Idem.
41

pouca distância da venda”. O “francês não foi mais visto pela gente da venda”, o que seria
estranho porque deveria voltar pela mesma estrada. Diante da nova informação, o periódico
achava “bem acertado, a Polícia intimar não só a preta Thereza, como também a Valentim
dono da venda”54.
Em correspondência de outro leitor, a versão dos fatos muda, mas reforça a
suposta culpa do preto. Manoel de Camargo ouviu que “um indivíduo já de alguma idade,
aparentando nacionalidade francesa”, descansava na venda do sr. Antônio de Azevedo e Silva,
que ficava próximo do famigerado local, “quando chegou um preto que lhe vinha ao encalço,
alegando que o estrangeiro lhe furtara certa quantia e ameaçando-o”. Depois disso, teriam
saído juntos em direção à cidade, e “à noitinha voltava o negro, sem o companheiro, e aportou
na venda”, onde tomou uma bebida qualquer. E, até a notícia da descoberta do cadáver, “nada
mais foi visto, nem ouvido”. Entretanto, questionava, “não será então o ‘francês’ a vítima e o
assassino o preto que o ameaçava?” A notícia se encerrava dizendo que o delegado deveria
interrogar o zeloso funcionário do estabelecimento e que seu intuito era a justiça, que
precisava ser reestabelecida após este “crime hediondo”55.
Como se pôde observar, a cor da pele foi fundamental no estabelecimento do
suspeito do crime. As teorias raciais, que associavam negros à criminalidade, e o lugar que
ocupavam nas páginas jornalísticas ajudam a explicar o porquê de um preto que se banhava se
tornar o único suspeito desse suposto crime, porque nem mesmo se confirmou que o cadáver
era fruto de um assassinato. Lívia Maria Tiede analisou a presença das populações negras no
jornal O Estado de São Paulo, percebendo que a menção à cor de pele acontecia na seção
“Notícias Diversas”, em que se divulgavam informações sobre os acontecimentos das
delegacias da cidade de São Paulo. Para ela, essa situação permite questionar se “as práticas
de exclusão continuassem a vigir, a despeito do silêncio sobre a cor”, porque ficava evidente
que “o lugar destinado aos negros era absolutamente restrito a uma parte da seção ‘Notícias
Diversas’. Justamente aquela que também relatava o movimento das delegacias”56.
Segundo Sidney Chalhoub, a suspeita generalizada iniciou, no caso do Rio de
Janeiro, em meados do século XIX, quando “o meio urbano cada vez mais escondia a
condição social dos negros, dificultando a distinção entre escravos, libertos e pretos livres”
porque circulavam igualmente. Muitas vezes cativos e livres trabalhavam e/ou se divertiam
juntos. No entanto, havia o medo de revoltas escravas como a dos Malês e, principalmente, a

54
FERRAZ, Francisco de Oliveira. “Crime Misterioso”. Jornal de Piracicaba, 2 out. 1901, p. 1.
55
CAMARGO, Manoel. “Crime Misterioso”. Jornal de Piracicaba, 09 out. 1901, p. 1.
56
TIEDE Lívia Maria. Sob Suspeita: op. cit. pp. 74-75.
42

de libertação do Haiti. Então, depois de tentarem “evitar de todas as formas que ela [a cidade]
se transformasse num esconderijo”, seus administradores a tornaram em uma “cidade que
desconfiava, e que para desconfiar transformava todos os negros em suspeitos”57. Como
demonstrado, a suspeição negra se estendeu no período republicano e às cidades do interior
paulistas. Na condição de livres, as aglomerações de negros não mais causariam revoltas
contra a escravidão, mas poderiam pôr em risco a ordem estabelecida, por isso continuavam
perigosos.
Ao lado da crença de que negros saíram do cativeiro sem determinados valores
úteis para usufruir adequadamente a liberdade, por isso eram propensos à vadiagem, existia “o
antagonismo superioridade/inferioridade tributário das teorias evolucionistas do século XIX”.
De acordo com Paulo Fernando de Souza Campos, os jovens médicos da elite que
“assumiram a direção de setores da administração do Estado de São Paulo, sobretudo, os
ligados ao controle e organização da sociedade que se urbanizava” se utilizaram desse
antagonismo em suas propostas de combate à criminalidade, e essas teorias “expunham os
negros como criminosos potenciais, como sujeitos possuidores de um instinto perverso,
naturalmente desviante”58. A maneira como os casos cariocas foram narrados tentava
evidenciar essas características, enquanto em Piracicaba, essa visão justificava a desconfiança
sob o preto que se banhava. Assim, pode-se afirmar que através de exemplos os jornais
popularizaram essa concepção científica.
O autor analisou o processo crime contra José Augusto Amaral, o Preto Amaral, que
assumiu confessando o assassinato de três “jovens neófitos” na capital paulista, em 1926, por
conta desses crimes ficou conhecido na imprensa de grande circulação como “monstro
negro”, “besta fera” e “papão de crianças”. Neste caso, observou que “registros sobre os
crimes de Amaral apresentam vozes dissonantes, filtradas por juízos de valor que imprimiam
significados às coisas de maneira determinista, atingindo não apenas a pessoa de José
Augusto do Amaral, mas uma significativa parcela da população de afro-brasileiros”59. Para
ele, as “representações da degenerescência impostas a José Augusto Amaral serviram para
legitimar a exclusão e discriminação dos negros, ao associar os eventos trágicos da passagem
de 1926 para 1927 à hereditariedade que os estigmatizavam como inferiores, incapazes”. Isso
porque, as investigações fizeram uso da psiquiatria forense e da biotipologia, que também
57
CHALHOUB, Sidney. “Medo Branco de Almas Negras: escravos, libertos e republicanos na cidade do Rio.
Revista Brasileira de História, v. 8, nº16, pp.83-105, mar./ago. 1988, p. 91. Grifos do original.
58
CAMPOS, Paulo Fernando de Souza. “Os Crimes do ‘Monstro Negro’: representações da degenerescência em
são Paulo”. Anais do XXII Simpósio Nacional de História da ANPUH, João Pessoa, 2003, p. 1.
59
Idem. p. 2.
43

serviam aos “controladores da ordem para demonstrar os estigmas característicos da


degeneração da raça”, que permitia classificar fisionomias, “estabelecer uma tipologia dos
diferentes perfis de criminosos”, com a intenção de impedir que delinquentes em potencial
viessem a delinquir60.
Como aponta Suely Carneiro, uma parte da opressão e domínio sobre as
populações negras está no grau de periculosidade associado a elas, que torna “a matéria
punível a própria racialidade negra”, o que significa dizer que “os atos infracionais dos negros
são a consequência esperada e promovida da substância do crime que é a negritude”61. A
identificação racializada reforçava e criava, ao mesmo tempo, a ideia de que as populações de
negras estavam constantemente envolvidas em crimes e desordens. Esse procedimento
operava de modo a formar um grupo que precisava ser constantemente vigiado. Nos episódios
de crimes violentos, as notícias mencionam negros desconhecidos que, sem motivo algum,
agridem, que se aproveitam de qualquer situação para planejar roubos, assassinatos e
vingança. Por conta disso, eram os negros os principais suspeitos de crimes sem solução.
Contra a estereotipia negra, surgiram jornais controlados e escritos por pessoas
negras, que tanto se preocuparam em ensinar como as populações negras deveriam se
comportar, quanto criticaram situações em que elas foram desqualificadas, preteridas e
abertamente discriminadas por conta da cor de sua pele. A luta contra o racismo dessa época
era chamada de defesa da classe e tinha como principais lideranças dirigentes e membros
ilustres das associações de homens de cor. Eles também estiveram nesses periódicos, e muitas
vezes um espaço era extensão do outro, seja entre os órgãos de imprensa oficial de um clube
ou quando a parceria era estreita entre ambos.

1.3. “Serviço de Branco”, “preconceito de cor” e “defesa da classe”


Os colaboradores do Getulino não gostavam da expressão, muito utilizada nos
anos de 1920, “vou fazer um servicinho ou serviço de branco”, quando queriam dizer que
fariam algo perfeito. Isso porque as práticas de corrupção na política brasileira e as crises
pelas quais o país passava não seriam “serviço de preto, negro, nacional ou qualquer coisa que
o valha”. Nem tampouco seriam “serviço de branco as constantes paredes levantadas entre o
operariado nacional”, segundo os articulistas do jornal, que pediam que se desse a “César o

60
Idem p. 3.
61
CARNEIRO, Suely. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese de Doutorado, USP,
Faculdade de Educação: São Paulo, 2005, p. 129.
44

que é de César”62. É possível ler neste trecho as estratégias de lutas dos homens de cor.
Primeiro, apontavam as más condutas de pessoas brancas, numa tentativa de demonstrar que o
comportamento inadequado deveria ser julgado individualmente e não atribuído como
característica específica de um grupo ou “raça”, como aconteciam com as populações negras.
Depois, apresentavam a importância das populações negras na história do país, principalmente
como trabalhadores, desde o tempo da escravidão. Eles também apontavam que práticas de
inferiorização eram responsáveis pela exclusão das populações negras no mercado de
trabalho. Outra ação das lideranças negras do período era criar espaços de união que visassem
a ajuda mútua, beneficência, educação e a inculcar formas de comportamento opostas aos
estereótipos construídos sobre os negros.
A expressão “serviço de branco” foi usada pelo periódico em uma coluna que
fazia críticas a seu significado e aparecia esporadicamente. Em dezembro de 1923,
escreveram sobre o bom trabalho do prefeito da cidade de Santos, “o celebre preto
abolicionista Quintino de Lacerda”. Cerca de 30 anos antes da edição, ele assumira a
prefeitura e descobrira que os vereadores haviam causado prejuízos aos cofres públicos, então
se plantara “à porta da Câmara e corre[ra] com todos os vereadores a pau, não admitindo que
nenhum deles penetrasse no edifício”. A Folha da Noite, de onde o Getulino transcrevia a
matéria, lembrava do fato por conta de problemas similares que estavam ocorrendo em
cidades do interior paulista. Sua ação deveria ser um exemplo a ser seguido, mas não era
porque os tempos eram outros e sujeitos como o antigo prefeito eram “mais raros que cabelo
de sapo”. Em todo caso, para o jornal de Campinas, o fato mostrava “como um preto [havia
feito] um servicinho de branco”63. O periódico não afirmava que as pessoas brancas eram
todas elas corruptas, mas desejava demonstrar que, entre elas, havia quem agia mal, assim
como havia negros com boas condutas.
O mau procedimento dos brancos não se limitava à corrupção às custas dos cofres
públicos. Na verdade, as práticas discriminatórias explícitas eram os principais alvos. Nos
jornais de Campinas eram comuns anúncios de emprego que diziam preferir mulheres brancas
como criadas, mas também havia outros em que a vaga era exclusivamente para elas, como
“precisa-se de uma criada branca”64. Exemplos de críticas feitas pelo jornal Getulino a esse
tipo de anúncio já foram apresentadas na seção sobre as campanhas contra as desordeiras,
entretanto não era somente nas casas de família que as mulheres negras eram preteridas como

62
Getulino, 30 set. 1923, p.2. Grifos do original.
63
“Serviço de Branco”. Getulino, 23 dez. 1923, p. 1. Grifos do original.
64
“Criada”. Cidade de Campinas, 27 set. 1901, p. 2.
45

trabalhadoras. Sem citar o nome, o periódico dizia que uma fábrica não pretendia aceitar
moças pretas, o que não era comum entre as outras empresas como “MacHardy, fundada por
um estrangeiro, nem Lidgerwood, estabelecida por outro estrangeiro” e as nacionais também.
A prática, para o jornal, era motivada pelo pensamento de que se pretendia “excluir da
humanidade” os negros, “um dos mais preciosos elementos que entraram no caldeamento” da
“raça” brasileira. E, assim como no texto de Jayme de Aguiar que abriu este capítulo, o
articulista apontava que a exclusão das mulheres negras era uma atitude antipatriota, que até
desconsiderava a importância das populações negras ao país, por isso ele exaltava a
mestiçagem brasileira, afirmando que “não há dúvida que a nacionalidade brasileira se
compõe do sangue leal indígena, do heroico português e do valoroso africano”. E reforçava o
pertencimento à nação, afirmando que os negros estavam “na nossa pátria, no colossal Brasil,
onde se acolhe o estrangeiro, sem os preconceitos tolos...”65.
De acordo com Flávio Francisco, a “primeira geração de ativistas [negros]
imaginou uma nação brasileira fundamentada na ideia de irmandade entre as ‘raças’,
celebrando uma história marcada pelo encontro de negros, brancos e indígenas”, sem
desconsiderar as desigualdades66. Apelar para esse imaginário foi uma estratégia da luta dos
negros para sensibilizar a sociedade de um modo geral. Chegaram até mesmo a usar discursos
de cientistas da raça, que insistiam na inferioridade dos negros, para tentar convencer as
pessoas de que a miscigenação era fundamental para o fortalecimento da nação. Em um artigo
do Getulino era afirmado que a uma nação só seria forte quando tivesse uma fusão “em
irmandade de sangue”, para que o povo fosse unido e que “em todo e em cada indivíduo”
houvesse o sentimento de pertencimento67.
A situação dos negros permitia questionar se eles se sentiam parte de uma nação
fundida em irmandade. O senhor Bernardo Vianna escreveu uma carta à Gazeta da cidade de
São Paulo para denunciar que os pretos nesta cidade não conseguiam empregos. A publicação
de seu texto foi reproduzida e comentada no Getulino, que além de expor a situação dos
pretos em São Paulo, pedia que “irmãos de cor” de Campinas ajudassem a construir espaços
de luta contra a discriminação.
Segundo Vianna, o preto “vai às fábricas, mas não lhe dão serviço, muitas vezes
nem deixam falar com os gerentes (…), embora chegue primeiro do que outro candidato, por
65
“?!”. Getulino, 09 set.1923, p. 1.
66
FRANCISCO, Flavio Thales. “Um Novo Abolicionismo para a Ascensão na Nação da Mãe Preta: discursos
sobre a fraternidade no jornal O Clarim da Alvorada (1924-1932)”. Antíteses, v. 10, n19, p.376-396, jan./jun.
2017, p. 378.
67
“Fusão de Raças”. Getulino, 07 out. 1923, p. 1.
46

ser de cor é posto à margem e recusado”. Ele tinha vindo do Rio de Janeiro e de alguma forma
teve contato com o associativismo negro, porque sugeriu fundar uma Associação de Homens
de Cor em S. Paulo, que funcionaria como um espaço de combate contra essa política de
exclusão. Benedito Florêncio comentou a carta no jornal negro e concordou em parte com a
proposta. Para ele, as organizações negras eram de fato importantes neste tipo de situação, no
entanto existiam na capital entidades deste tipo e lá nenhum “preto [foi] capaz de falar ou
escrever acerca de tão oportuno problema”. No interior as associações de homens de cor
também eram conhecidas, bem como as situações de exclusão dos negros, que para o
articulista eram “tristemente sintomáticas e profundamente desoladoras”, que crescia “dia a
dia”, tornando-se uma grave ameaça à tranquilidade e para a estabilidade dos direitos dos
negros68.
O articulista negro acreditava que os negros estavam vivendo “uma guerra muda e
odiosa”, por isso perguntava se deveriam “ficar inertes e silenciosos”. Se não era “justo
procurarmos quais os motivos dessa grave e ameaçadora situação? Não é intuitivo que
devemos lutar desesperadamente contra essa perseguição que cada vez num crescente
assustador?”. Ou seja, para Benedito Florêncio, o conselho do reclamante deveria ser seguido
e as populações negras tinham que se unificar de alguma maneira. Entretanto, “infelizmente”,
os “irmãos em cor descuram criminosamente destas coisas, pois conhecem melhor a história
pugilística de um Harry Willis, nos Estados Unidos, ou a situação detalhada de um
campeonato” das várzeas paulistanas, do que se preocupam com “as necessidades prementes
da nossa defesa racial!”. E se tudo continuasse nessa inércia, ele acreditava que “qualquer dia
teremos também aqui, os terríveis monstros mascarados da famosa sociedade secreta Klu-
Klux-Klan”69.
Na cidade de Piracicaba, não eram comuns anúncios indicando preferência por
mulheres brancas para os serviços domésticos, no entanto, havia denúncias de práticas
“segregacionistas”, como afirma Petrônio Domingues. O autor cita uma carta de um leitor d’O
Patrocínio, publicada em dezembro de 1927, que questionava se “pode ou não pode um negro
sentar-se ao lado de um branco em qualquer casa de diversão”, quando se “satisfaça todos os
requisitos que requer a boa sociedade”? Isso porque haveria um “ridículo preconceito” contra
as pessoas negras em “casas de luxo, tais como: em cinemas, cafés, bares, bilhares, etc.” que
estavam surgindo na cidade, como se comprovava pela recente medida de terem “sido

68
FLORÊNCIO, Benedicto. “Pretos em São Paulo”. Getulino, 21 set. 1924, p. 1.
69
Idem.
47

cortadas as entradas de pessoas de cor, na plateia” de um dos cinemas. Com “dúvidas” acerca
desta medida, o autor da carta procurou quem pudesse informá-lo “se algum preto tinha
procedido de maneira inconveniente ao ponto de obrigar a empresa a tomar aquela medida”, e
soube que nada havia acontecido de ruim. Segundo ele, “a empresa tinha tomado tal medida
porque andavam propalando que o cinema era frequentado só por preto”. Então finaliza, “que
haja preconceito em sociedades particulares, que haja preconceito em família é natural. Mas
haver preconceito em casas que são franqueadas ao público? É o cúmulo”70.
Apesar de ter procurado saber se tinha havido algum preto que agira de maneira
inadequada, ele discordava do motivo para impedir todas as pessoas negras de frequentar o
cinema, “porque assim como há negros pobres, mal trajados, mal-educados, há também
brancos, amarelos e vermelhos nas mesmas condições”. Então, a culpa era do “mesquinho
preconceito”71. Como já apontado pela bibliografia sobre o tema, a expressão “preconceito de
cor” era usada genericamente para todas as situações de desqualificação das populações
negras, fossem situações realmente de preconceito, de discriminação racial ou de racismo72.
Deste modo, a interdições de pessoas negras no cinema, na fábrica e em certos postos de
trabalho, bem como a associação da vadiagem e da criminalidade aos negros, exemplificada
na campanha contra as mulheres negras que moravam em cortiços e eram chamadas de
“vagabundas desocupadas”, eram classificadas como ações de preconceito de cor.
Havia variações dessa expressão, como: preconceito de classe, preconceito contra
a raça. Isso acontecia porque “raça preta” ou “raça negra” e “classe dos homens de cor ou dos
homens pretos” podiam ser usados como sinônimos, no entanto, o preconceito de cor foi a
terminologia mais usada, mesmo a partir da segunda metade da década de 1920, quando a
identificação “negro” se tornou mais frequente nos jornais negros, em substituição ao termo
“homem de cor”. Segundo José Correia Leite, a substituição ocorreu, principalmente, por
causa do articulista Vicente Ferreira que criticava a expressão homens de cor afirmando que
todas as pessoas tinham cores, logo ela podia ser usada para qualquer “grupo racial” 73. As
pesquisas de Petrônio Domingues, Amílcar Pereira e Flávio Francisco apontam que o contato

70
O Patrocínio, 18 dez. 1927 apud DOMINGUES, Petrônio. Uma história não contada op. cit. 175 e 176.
71
Idem.
72
Ver, entre outros, FRANCISCO, Flávio Thales Ribeiro. Fronteiras em definição: op. cit.; Idem. “Um Novo
Abolicionismo para a Ascensão na Nação da Mãe Preta: op. cit.; DOMINGUES, Petrônio. “Movimento Negro
Brasileiro”. op. cit.; CARVALHO, Gilmar Luiz de. A imprensa negra paulista entre 1915 e 1937: op. cit.;
GUIRRO, Leandro Antonio. Intelectualidade e Imprensa Negra Paulista op. cit.
73
CUTI; LEITE, José Correia. …E disse o velho militante José Correia Leite: depoimentos e artigos. São Paulo:
Secretaria Municipal de Cultura, 1992.
48

com os movimentos pan-africanistas, new negro e negritude também foram responsáveis pela
ressignificação da palavra negro74.
Além dos preconceitos, ou por conta deles, as negras que conseguiam empregos
como criadas, domésticas, cozinheiras e copeiras ainda estariam sujeitas a sofrer com os
abusos dos patrões. Em março de 1924, o Getulino, para cumprir seu programa, “todo ele
dedicado à defesa da classe dos homens pretos”, informava sobre um caso desse tipo, mesmo
sendo a vítima uma moça branca. A criada era “uma menina de origem humilde, mas educada
na escola severa dos bons costumes e à moda da moral antiga”, que se empregara em uma
“casa de gente de muito dinheiro” para conseguir ter o que comer e vestir-se honestamente.
Em uma noite, quando estava de saída, “foi chamada por sua patroa, que numa sala, diante de
suas filhas e filhos, tirando-lhes as vestes a deixou completamente nua, para ver se não levava
alguma coisa roubada”. A “mocinha”, que tinha 14 anos de idade, “caiu aos prantos
envergonhada de ter sido assim vexada”, e a patroa lhe dissera que procurar por possíveis
furtos desta forma “era o seu costume”, então que a empregada não deveria chorar. Em casa
ela contou o que se passou e depois prestou queixas contra a mulher na delegacia. Para o
jornal, a polícia nada poderia fazer sobre o assunto, por isso tornava público o ocorrido,
mesmo “a contragosto, porque ele repugna e provoca indignação”75.
E indignação era o sentimento que o noticiário queria fazer surgir entre seus
leitores, contra essa “gente rica mesquinha, sovina, que apesar de luxuosos automóveis, de
exibir pedrarias e adereços, vive a despir as empregadas, de forma escandalosa”, porque teria
“medo” de ter roubada uma “côdea de pão ou um resto de carne”. Mesmo que a menina fosse
suspeita de furtar a casa, “ninguém, absolutamente, ninguém, teria o direito de expor seu
corpo”; o que fora feito com ela seria “uma audácia”, “um abuso”, “uma criminosa
arbitrariedade”. E por isso, exclamava: “Nenhuma moça, preta ou branca, poderá mais ser
empregada numa casa, onde se deixam as serventes nuas a título de evitar roubos!… Isso é
estúpido e bárbaro!”76.
Nas duas edições seguintes este episódio foi retomado pela folha, para pedir que
seus leitores olhassem e cuidassem de suas filhas. Na cidade de Santos, um de seus
colaboradores teria presenciado outra cena de abuso de patrões que relatou para chamar a

74
DOMINGUES, Petrônio. “A Visita de um afro-americano ao paraíso racial”. Revista de História, n.155,
2º/2006; PEREIRA, Amílcar Araújo. “O ‘Atlântico Negro’: e a constituição do movimento negro
contemporâneo no Brasil”. Perseu, n. 1, pp. 236-263, 2007; FRANCISCO, Flávio Thales Ribeiro. Fronteiras em
definição: op. cit.
75
“Que Patroa”. Getulino, 30 mar. 1924, p. 2.
76
Idem.
49

atenção dos pais, que se mantivessem em vigilância constante quando suas jovens se
tornassem domésticas. O articulista estava em uma pensão onde jantava junto com outros
colegas, “uma ceia em família”. Para isto, foi feita uma “vaca para custear os
extraordinários”, e enquanto se arrecadavam as contribuições, ouviram “um zum-zum que
faltavam ovos”, então a copeira saiu para comprá-los em um café do centro da cidade. Depois,
eles descobriram que o estabelecimento era “frequentado pela ralé e qualquer mulher que nele
entra sofre uma decepção, além das muitas que receberá nas ruas sem policiamento”. Então,
ficaram preocupados com a criada, que era “uma menina, mocinha a sorrir inocentemente
para o mundo astuto, por entre as suas quatorze primaveras”. Entretanto, para a “esquelética
proprietária da pensão” não havia nada anormal ao enviar a menina àquela venda, afinal a
menina era uma “criada, e nessas circunstâncias nenhuma responsabilidade” a patroa teria.
Diante do contexto apresentado, seria desnecessário, para o articulista, informar “que no menu
da ceia faltou o prato obrigado: ‘bife a cavalo’”77.
Em outra matéria, publicada em 6 de abril, os comentários sobre os abusos contra
as jovens criadas foram acrescidos com comentários sobre o fascínio que a luxúria exercia nas
mulheres. Então, além dos perigosos patrões, era preciso cuidar também das mocinhas que
decidiam viver nas grandes cidades, “onde o mais trivial serviço é nababescamente
remunerado” e os “prazeres mundanos sobre elas exercem a fascinação da luz sobre as
mariposas” e, “mais cedo ou mais tarde, se não tiverem quem as guie e proteja”, cairiam
“fatalmente vítimas do demônio do luxo”78.
Ao longo da pesquisa, foram encontradas situações em que patrões agrediram seus
funcionários negros, causando inclusive ferimentos graves, e isso acontecia principalmente
quando eles reclamavam por seus salários. Karl Monsma afirma que essa uma prática comum
no Oeste Paulista, onde a constante violência contra os negros era uma das formas de colocá-
los em seus lugares quando pleiteavam igualdade de condições79. No entanto, essas ofensas
contra homens negros não aparecem nos jornais negros, não eram vistas como abusos dos
patrões. Estes casos se limitavam ao trabalho feminino.
Ao que tudo indica, as histórias de abusos faziam parte da política de tutela
masculina dos negros sobre as mulheres negras, que era diferenciada por conta da condição
social em que viviam. Como aponta Lívia Maria Tiede, ao se empregarem, elas atravessavam
“a linha entre o espaço privado e o espaço público” e “o comportamento honesto requerido

77
GUEDES, Lino. “Olhai Para Vossas Filhas”. Getulino, 13 abr. 1924, p. 2. Grifos do original.
78
______. “Cuidai de Vossas Filhas”. Getulino, 06 abr. 1924, p. 1.
79
MONSMA, Karl. Reprodução do Racismo op. cit. p. 276
50

pela sociedade, sinônimo de enclausuramento, era incompatível com o cotidiano das moças
pobres”. Além disso, pode-se considerar que, para os articulistas negros, “a mulher negra era
tida pelo resto da sociedade como passível de ser aliciada, estando disponível para a função de
prostituta simplesmente por ser negra”80. A ideia da autora se sustenta no fato de que o
estereótipo da vadiagem feminina negra esteve associado à prostituição e na afirmação de
Lucia Helena Oliveira Silva de que “muitas criadas eram confundidas com mulheres da rua e
mulheres públicas também diziam ser domésticas, acontecendo de muitas vezes, exercerem
ambas as profissões”81. Deste modo, as negras ficavam “entre a cruz e a espada”: por um lado
tinham dificuldades de encontrar empregos, por serem preteridas em relação às empregadas
brancas, e, por outro lado, quando estavam empregadas, eram potenciais vítimas de abusos.
Nos dois casos, caía sobre elas o estigma da prostituição.
Se não era possível manter as mulheres negras recolhidas em seus lares, tentava-
se fazer isso com as jovens negras. O Getulino tentava convencer os pais que suas filhas não
deveriam “arredar de seus lares, sob o pretexto de que vão trabalhar para vestirem-se e
comer”, seja para evitar os abusos, seja para não sucumbirem às tentações. Entretanto, como
eram pobres e precisavam trabalhar, propunha que lavassem, engomassem, bordassem,
costurassem e fizessem doces em casa, que daria “para finas iguarias e para ricos e caros
vestidos”82. A “mulher de cor” ideal seria, de acordo com a pesquisa de Tiede, alguém
recatada, que falasse pouco, fosse casada – caso fosse jovem demais para isto deveria ser
tutelada por seu pai ou irmão, porque “o ‘tom natural’ das mulheres era ao lado de um
homem, de um tutor”83. Ainda, a imagem de que o universo feminino deveria se resumir ao
lar e ao consumo de roupas e acessórios aparece em outros artigos do periódico que também
falam das mocinhas.
Deste modo, a Imprensa Negra denunciava os comportamentos que seriam
interditados para os negros e os abusos que fariam parte do contexto de vida das populações
negras para demonstrar, primeiramente, que pessoas de mau comportamento existiam em
todas as “raças”; por isso enfatizava que havia “também brancos, amarelos e vermelhos nas
mesmas condições” que os negros; que “assim como há criadas ruins, criados péssimos,
existem também patrões, que além de ínfimos são desumanos”. Tentavam assim modificar o

80
TIEDE, Lívia Sob Suspeita op. cit., pp. 123, 124 e 127.
81
SILVA, Lucia Helena Oliveira. Paulistas Afrodescendentes no Rio de Janeiro pós-Abolição (1888-1926). São
Paulo: Humanitas, 2016, p.169.
82
GUEDES, Lino. “Cuidai de Vossas Filhas”. Getulino, 06 abr. 1924, p. 1.
83
TIEDE, Lívia Sob Suspeita op. cit., p. 122.
51

imaginário sobre as pessoas negras, ao mesmo tempo em que reconheciam a igualdade delas
frente às outras “raças”. Depois, afirmavam que as situações de impedimento seriam
incoerentes com a nacionalidade brasileira e com o patriotismo. Desqualificar e excluir as
populações negras significaria ir contra a “raça” brasileira, porque ela era mestiça por
excelência. Por isto, na defesa dos negros, os jornais apelavam para o sentimento nacional,
falando que o “preconceito de cor” retirava deles a nacionalidade brasileira, e era através dela
que reivindicavam igualdade de condições e direitos. Por fim, tudo isso exigia a atenção e a
mobilização dos negros, principalmente no cuidado das jovens negras. Como sugere Rodrigo
Miranda, os articulistas do Getulino “imputavam ao negro a resolução de seus próprios
problemas relativos à sua constituição ‘racial’”84; pode-se estender essa afirmação a todos os
articulistas da Imprensa Negra do período.

1.4. A união, o exemplo e os caminhos para a superação


Os negros estavam acostumados a ver, segundo O Patrocínio, “mocinhas bem
trajadas” se dirigindo “para seus cargos em escritórios” e “rapazes, que muitas vezes não”
sabiam “sequer falar a língua” portuguesa, caminhando para “seus postos elevados, ao passo
que nossas irmãs caminham para a casa dos patrões, nossos irmãos caminham para as oficinas
e outros labores mais ínfimos”. E tudo isso, “só porque é negro, unicamente a cor” de pele os
colocava nessa condição de “desprezados”, apesar de “muitos possu[írem] às vezes mais
competência que aquele que ocupa tal cargo”. No entanto, entendia a colaboradora Laura de
Brito Santiago, a culpa era “toda nossa, por sermos surdos ao grito de revolta de nossos
irmãos, por possuirmos o orgulho, o preconceito, que precisa ser abolido do seio do negro”. A
união dos negros era a forma de resolver o problema do “preconceito de cor” e “concluir o
ideal sonhado por Luiz Gama, José do Patrocínio e outros”85.
Por isso que “os poucos unidos”, segundo o Getulino, esperavam “com os braços
abertos aqueles que não pensam no futuro, e que pelas suas friezas e desleixo próprio
abandonam as sociedades e escolas, atirando-se de corpo e alma pelo caminho que vai dar ao
vício”. Quem seguia sozinho, “tarde, mas muito tarde, com a convivência dos que sabem
cumprir o seu dever de bom brasileiro trabalhando pelo bem-estar de seus irmãos”,
arrepender-se-iam do “passado infrutífero”86. Os periódicos negros como um todo
reconheciam que havia práticas discriminatórias, contudo exigiam “de homens e mulheres
84
MIRANDA, Rodrigo. Um caminho de suor e letras op. cit. p. 101.
85
SANTIAGO, Laura de Brito. O Patrocínio, 29 jun. 1930, p. 2.
86
MARCONDES, F. “Unidos Sempre”. Getulino, 12 out. 1923, p. 1.
52

negras um esforço pessoal para pôr fim a essas manifestações racistas, buscando dentro de si
os elementos para isso: educação, conscientização autovalorização, etc.”87. Assim, quando
iniciaram a “pequena luta verdadeira infausta e desigual”, os membros d’O Patrocínio só
queriam prestar serviços à “classe dos homens de cor”, considerada por muitos “a última na
escala social”. Eles queriam “ver os homens de cor unidos, trabalhando todos para o bem-
estar comum, reunidos em sociedades” que os “educassem e elevassem” socialmente, de
modo a não ficarem “tão distanciados das outras classes”. Esse teria sido o motivo para que
eles se atirassem “doidamente para o campo da prática, sem recursos e cabedal intelectual”,
para manter o periódico que era “todo ele propaganda em benefício único e exclusivo dos
homens negros piracicabanos”. Eles seriam um representante de “uma classe que é na maioria
das vezes esquecida pelas outras classes mais abastadas”88.
Apesar dos casos apresentados, os textos de denúncia de episódios específicos de
discriminação não eram os mais comuns. Geralmente, nos momentos em que se debatia o
“preconceito de cor”, o assunto era abordado genericamente, apontando sua existência e o
quanto ela impedia o avanço das pessoas negras, sem dizer onde ocorria e por quem era
praticado. E, como a expressão era usada de forma abrangente, o combate à discriminação
seguia a mesma tendência. Eles evitavam o confronto direto, como acusações de que a
sociedade brasileira fosse racista, apesar de que, em certos momentos, isto chegou a ser
afirmado. Esses textos tinham funções instrutivas, estabelecendo uma espécie de diálogo com
o grupo; o foco era convencer os leitores a incorporar determinadas atitudes que poderiam
diminuir o impacto do “preconceito de cor”, se não acabar com ele. O principal objetivo era
se afastar dos estereótipos e criar uma imagem das populações negras desvinculada da
vadiagem, da criminalidade e da prostituição. Quando “abria” o diálogo para outros setores,
indicavam que a desqualificação e a não incorporação dos negros na sociedade em igualdade
de condições era um prejuízo para a nação.
Neste sentido, os jornais agiam no que entendiam ser a defesa e interesse das
pessoas negras. Segundo José Correia Leite, célebre articulista e militante negro da época, os
periódicos negros, ao menos no Estado de São Paulo, evitaram evidenciar um caráter político
em seus subtítulos89 e surgiram vinculados a uma associação de homens de cor. Por essas
razões, a maioria dizia ser órgão “literário e humorístico” ou representar alguma entidade.

87
MIRANDA, Rodrigo. Um caminho de suor e letras op. cit. 101
88
ALMEIDA, Alberto de. “Recompensa?”. O Patrocínio, 23 mar. 1930, p. 2.
89
CUTI. LEITE, José Correia. …E disse o velho militante José Correia Leite: op. cit.
53

O Patrocínio de Piracicaba seguia a “tradição” de “esconder” em seu subtítulo a


quais interesses atendia, dizendo ser um “órgão literário, crítico e humorístico”, enquanto os
dois jornais de Campinas que se encontram disponíveis para pesquisa faziam questão de
“dizer a que tinham vindo”. O Baluarte, de 1903, se definia como um “órgão do ‘Centro
Literário dos Homens de Cor’” e estava “dedicado à defesa da classe” e “da raça negra”,
segundo seu subtítulo e seu programa publicado logo em sua primeira edição. O Getulino
surgiu depois, em 1923, e tinha colaboradores que participaram do outro periódico negro,
Benedito Florêncio por exemplo, e se declarava um “órgão para a defesa dos interesses dos
homens pretos”. Na cidade de São Paulo, O Menelik, O Alfinete e A Liberdade informavam
que, entre outros interesses, cada um deles era “dedicado aos homens de cor”; O Clarim da
Alvorada desde sua fundação, em 1924 quando se chamava O Clarim, dizia ter caráter
político, mas em 13 de maio de 1926 e de 1927, em duas edições especiais, proclamava-se um
órgão “pelos interesses dos homens de cor”. Em fevereiro de 1928, isso se tornou permanente,
quando passou a ser um órgão “pelo interesse dos homens pretos” e depois, em 1929, definia-
se como o “legítimo órgão da mocidade negra”.
As alterações nos subtítulos indicam mais a diversidade na linguagem da luta dos
negros contra as pressões sofridas, do que a inserção ou não nessa luta. Conforme Ana Flávia
Magalhães Pinto, ainda no século XIX surgiram jornais em que seus publicistas “faziam
questão de indicar sua ascendência africana – ‘pardo’, ‘mulato’, ‘de cor’” –, além de
“trazerem à baila denúncias de discriminação de ordem racial”90. O Kosmos, por exemplo, era
o órgão oficial do grêmio dramático de mesmo nome e grande parte de seu conteúdo versava
sobre suas próprias atividades. No entanto, na seção “Observando” frequentemente se
discutiam os problemas dos homens de cor, especialmente como as sociedades poderiam
contribuir para melhorar suas condições de vida. Durante a possibilidade de uma imigração de
negros dos Estados Unidos da América para o Brasil, sob a justificativa de que aqui não havia
discriminação contra as populações negras, esta folha manifestou-se criticamente, afirmando
que a ideia do Brasil como lugar da “verdadeira democracia” racial era uma ilusão e que,
apesar das diferenças entre os dois países, entre os brasileiros havia sim “preconceito que
exclui, que humilha, que esmaga o homem de cor”91.
Esse jornal realizou ainda uma “resenha” da situação geral das populações negras
em 1924, quando parecia “que o elemento de cor em S. Paulo vai se tornando mais unido”.

90
PINTO, Ana Flávia Magalhães. De Pele escuta e Tinta Preta: a imprensa negra do século XIX. Dissertação de
Mestrado, UnB, Departamento de História: Brasília, 2006. p. 12
91
RODRIGUES, Rodrigues. “Preto e Branco”. O Kosmos, São Paulo, 18 abr. 1923, pp. 1-2.
54

Isso era importante porque, segundo o noticiário, passados os tempos do movimento


abolicionista e os primeiros anos de liberdade, não se tinha tentado “pôr em prática uma ação
sequer que afirmasse não ser ele [o negro] tão desmerecedor e humilde, para que a própria
dignidade fosse um farrapo de papel, atirado ao vento das paixões mesquinhas, de desdouros e
desprestígios”. Para o jornal, essa aparente união era como se os negros estivessem
“acordando de um forte letargo, de um pesado sono de nostalgia”. Então, começariam a agir
“procurando outros feitos, firmado nesse princípio de tudo elevar, comprovando que na classe
de homens de cor existe o quê de inteligente (...), o quê de mais digno e belo…”. Essa
mudança era verificada pelo surgimento de “conferências promovidas por elementos de cor,
jornais batalhando pela defesa da classe e a realização, em Campinas, de um concurso de
beleza levado a efeito pelo jornal Getulino”. O Kosmos avaliava que o periódico de Campinas
havia “cumpri[do] um dever” ao classificar Laís de Moraes em primeiro lugar, afinal ela era
“despida desses preconceitos irrisórios”, além de demonstrar que “não basta a beleza do
físico, é necessário também estudar os predicados da alma e do intelecto”92. O texto, que foi
transcrito pelo realizador do concurso, indica a interação entre os homens de cor do Estado de
São Paulo, que estavam atentos aos eventos dos diversos municípios, e praticavam algumas
táticas de adesão comuns, além de reforçar a ideia de que a solução de seus problemas viria da
ação dos próprios negros e da instrução.
Desta maneira, a unidade dos homens e mulheres negros poderia ser conquistada
de diversas formas e um concurso de beleza ganhava a mesma importância que conferências e
jornais de defesa, porque aproveitavam esse evento para discutir instrução. A pesquisa aponta
que junto com esses atos, os negros usaram homenagens aos abolicionistas, festas e
comemorações, partidas de futebol, artigos sobre o papel do escravo e de exemplos de
sucesso, bem como a criação de associações instrutivas, mutualistas e beneficentes para atrair
“os que não pensavam no futuro” e, com isso, fortalecer a luta por aquilo que chamavam de
reerguimento da classe e da raça, tanto moral quanto social.
Os modos como esses eventos eram usados na “defesa da classe/raça” dos homens
de cor serão analisados ao longo dos próximos capítulos desta tese. O objetivo deste capítulo
é discutir o contexto em que as lutas em prol das associações de homens de cor estavam
inseridas. Por isso, esta seção se limita a explorar os exemplos de superação das pessoas que

92
RODRIGUES, Rodrigues. “Resenha”. O Kosmos, 15 dez. 1923 apud. “Laís de Moraes”. Getulino, 6 jan. 1924,
p. 1.
55

faziam parte deste meio, deixando de lado os abolicionistas negros, bem como a importância
da instrução e dos cuidados com os pobres.
Os perfis almejados pelos negros eram apresentados de forma sutil na maioria dos
casos, através de congratulações. “O estudante de cor, sr. Euclydes Bruno Fortunato da Cruz,
irmão do falecido advogado Lafayette Cruz”, por exemplo, merecia “saudações muito
afetuosas”, pois, provavelmente seguindo os passos do irmão, ele havia sido “promovido para
o 4º ano da Faculdade de Direito de São Paulo”93. Antônio Carlos, o “brioso militar”, era
outro que merecia cumprimentos por ser promovido a segundo Sargento da Força Pública94. O
Patrocínio parabenizou o senhor Boaventura de Campos em seu aniversário, afirmando que
ele era um “correto funcionário da Secretária da Justiça e pessoa de alto relevo no ‘G. R.
Kosmos’”95. Outro aniversariante, João da Antônio da Rocha se destacava por seu
“procedimento correto e pela extrema bondade de coração”, além disso, era “um dos mais
perfeitos jogadores”, defendia “com verdadeiro amor as cores do São João F. C.” e no
periódico atuava como auxiliar, sendo “bastante esforçado, desempenhando com precisão as
suas atribuições”96. Paulino Cardoso sugere que essa prática corriqueira era uma forma de
expor o apreço pelo trabalho entre os negros letrados, aqueles que faziam parte do círculo de
leitores de jornais e eram frequentadores de sociedades recreativas, além de reforçar a
distinção entre esse grupo e as camadas mais pobres das populações negras paulistana97. Kim
D. Buttler já demonstrou que essa diferença não é tão evidente em termos socioeconômicos
como a bibliografia costuma enfatizar; no entanto, a autora concorda que essas notícias
tinham a função de mostrar que o trabalho era valorizado dentro deste grupo98.
A Imprensa Negra seguia o exemplo de outros periódicos ao felicitar
personalidades de destaque no meio, em ocasiões comemorativas e festivas. Através dessas
seções, é possível compreender as práticas que eram almejadas ao lado do sucesso

93
“Estudante”. Getulino, 06 abr. 1924, p. 3.
94
“Promoção”. Getulino, 28 set. 1924, p. 2. O militar era uma figura importante no círculo dos homens de cor,
ele foi um dos fundadores do “Centro Cívico Palmares” na cidade de São Paulo, segundo José Correia Leite e
Florestan Fernandes, ele teria sido o idealizador do projeto. Ele ficou pouco tempo no comando da entidade
porque foi transferido para Minas Gerais, entretanto não deixou de lado as atividades em prol da “classe”. Em
Barbacena reativou um grupo de congado e em Belo Horizonte atuou na “Associação José do Patrocínio”, que
teria sido fundada por um de seus filhos que o consultara na escolha do nome. Cf. FERNANDES, Florestan.
Integração do Negro op. cit.; CUTI e LEITE, José Correia. … E disse o Velho Militante op. cit.; SILVA,
Andréia Rosalina. Associação José do Patrocínio: dimensões educativas do associativismo negro entre 1950 e
1960 em Belo Horizonte, Minas Gerais. Dissertação de Mestrado, UFMG, Faculdade de Educação: Belo
Horizonte, 2010.
95
“Aniversário”. O Patrocínio, 07 jul. 1929, p. 3.
96
“Aniversários”. O Patrocínio, 7 set. 1928, p. 4.
97
CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco. A Luta contra Apatia op. cit.
98
BUTLER, Kim D. Freedoms given, freedoms won: op. cit.
56

profissional. Desta maneira, O Patrocínio felicitava “a menina Judith, filha do sr. João Félix
Nascimento e de sua exma. Senhora d. Antônia de Toledo Nascimento”, por seu aniversário,
e, pelo mesmo motivo, a “pequena Ruth, filhinha do casal José Leite”. Enquanto o
“pequerrucho Luiz, filho do sr. Paulo Antônio e de sua exma. esposa d. Benedicta Alves”, era
notícia porque foi batizado. Seus padrinhos eram o proprietário do periódico, “o sr. Alberto de
Almeida e sua exma. sra. d. Lúcia Alves de Almeida”. Todas essas crianças dividiram o
mesmo espaço de cumprimentos com um aniversariante ilustre: o “talentoso moço sr.
Gervásio de Moraes”. Ele foi um dos fundadores do Getulino e seu único redator-secretário,
mas na época estava atuando no Clarim d’Alvorada e em jornais de grande circulação da
capital paulista. Ele também era “poeta, que se impõe na sociedade paulistana por todos os
predicados e pelo fulgor de sua pena adestrada99.
Havia seções de homenagens em todas as edições dos periódicos, seguindo o
padrão apresentado, porém havia pessoas e momentos que mereciam louvores mais longos,
que inclusive ajudam a melhor compreender que ter uma família nuclear com o homem na
posição de chefe, seguir a religiosidade católica e ser instruído eram outros elementos
apreciados por esses negros. Quem reunia todos esses predicados se tornava um modelo.
O senhor Roque Rosa visitou a cidade de Campinas, ao “regress[ar] de
Araraquara, onde fora lançar as bases para a fundação da filial da Escola Superior de
Comércio” e Caligrafia, da qual ele era diretor em 1924. Sua presença era digna de nota por
parte do Getulino porque o “ilustre visitante luta destemerosamente, quer com o seu exemplo
de cavalheiro de fino trato probo cidadão e modelar chefe de família, quer com sua pena
jornalística, para salvar nossa Raça do marasmo”. Ele ficou na casa do proprietário do jornal,
Martinho de Andrade, a quem teria confidenciado “sua admiração por Campinas, por seus
filhos que muito dignificam o Brasil”. Os aspectos de sua vida privada e profissional eram
igualmente importantes para construir a imagem de modelo a ser seguido. Ele não só tinha
sucesso na carreira, que ainda incluía os ofícios de guarda-livros, calígrafo e proprietário de
um escritório comercial e de contabilidade, como também vivia em seu “lar feliz”, como foi
descrito na notícia de aniversário de sua segunda filha. E tudo isso não o fazia perder a
gentileza com os negros e nem deixar de participar da luta coletiva, como demonstrava a sua
oferta de “uma coleção de fios metálicos” ao Getulino100.

99
“Aniversários”. O Patrocínio, 07 jul. 1929, p. 3.
100
Sobre a doação ver: “Gentileza”. Getulino, 16 dez. 1923, p. 2; sobre sua passagem em Campinas e aniversário
de sua filha ver: Getulino, 21 set. 1924, p. 1 e “Aniversário”. Idem. p. 2.
57

Deocleciano Nascimento era “jornalista, guarda livros diplomado, estudante, e


distinto homem de cor, que ilustra o cenáculo literário nacional”, além de entusiasmado pelo
trabalho do Getulino, que fora conhecer em Campinas. O “ilustre hospede” se deslocara da
capital paulista porque não teria conseguido “resistir aos impulsos de uma vontade
indomável” em “abraçar e trazer a partícula poderosa do seu auxílio moral” à folha. Fazia
pouco tempo que assumira o papel de colaborador e correspondente do periódico, em sua
primeira contribuição resenhou alguns de seus exemplares que elogiou bastante101. Ficou por
dois dias na cidade, mantendo contato com membros do semanário e foi homenageado com
um baile na sede do “Grêmio José do Patrocínio”, onde em companhia de Lino Guedes
declamou versos em meio às danças102.
O professor Norberto de Sousa Pinto era “um perfeito cavalheiro, muito
acessível”, por isso gozava no meio negro “de largo círculo de amizades, em virtude das
nobres qualidades”. Ele ensinava em âmbito privado e colaborava com o Getulino, que o
elogiava em homenagem a seu aniversário. O periódico só lamentava que “em outro meio
ambiente, em que a modéstia não constituísse, por vezes, um tropeço” ele, “pelo seu preparo
geral, teria conseguido lugar de destaque no magistério público”. Mas tudo isso, “ao invés do
que se poderia esperar”, viria a ser “para ele um forte estímulo para as pelejas da vida”103,
tornando-se um ótimo exemplo para a “classe dos homens de cor”.
A educação e o trabalho eram constantes na apresentação dos modelos esperados
de negros, porém esses três sujeitos se destacavam porque o sucesso profissional não fizera
com que eles se distanciassem dos problemas dos negros. Ao contrário, o trio estava engajado
na “defesa da classe/raça”. Outros articulistas negros também tiveram publicadas suas
biografias resumidas, seguindo o mesmo padrão em que a carreira estava associada à
instrução e ao “ativismo”. Como afirmava José Correia Leite em um artigo para O
Patrocínio, era “um grande e grave defeito” que entre os negros cultos, “quando por um rasgo
de esforços admiráveis, conseguem vencer nesta ou naquela disciplina, adquirindo bases
sólidas de inteligências para formarem a nossa frente única, fogem acovardados dos seus
irmãos de sangue e de raça”104. Então, a homenagem a eles passava a mensagem de que

101
Sua parceria será discutida no capítulo 5.
102
“Hospede Ilustre”. Getulino, 16 dez 1923, p. 1.
103
“Professor Norberto de Sousa Pinto”. Getulino, 15 jun. 1924, p.2.
104
LEITE, José Correia. “A Vitória do Esforço”. O Patrocínio, 20 out. 1929, p. 7. Grifos do original.
58

“entra[r] para uma luta de aproximação coletiva”105 não diminuía suas qualidades, ao
contrário, era a maneira correta de proceder.
Além disso, o tributo prestado ao professor Norberto Pinto permite imaginar que
ele foi mais uma vítima do “preconceito de cor” e, de forma um pouco velada, o jornal fazia
uma acusação. Se assim pode ser entendida a sua situação, significava que a qualificação não
era garantia para alcançar os níveis mais elevados da profissão e de não ser abatido pelas
formas discriminatórias. Porém, por tudo que ele era, inclusive por ser um defensor da causa
negra, ser preterido no magistério público era um tropeço que o estimularia a continuar em
luta.
Este caso serve para questionar a interpretação do historiador Rodrigo Miranda.
Ele teve a “impressão” de que os articulistas do Getulino consideravam “que o preconceito
servia, em alguns casos, como uma ‘bengala’, um apoio para auto vitimização”, após analisar
três textos do jornal que indicavam existir a “autoexclusão” e o preconceito contra os negros
entre os próprios negros. Segundo o historiador, ao afirmar que “o maior inimigo do preto é o
próprio preto”, o jornal permitiria “imaginar a possibilidade de o negro manejar o preconceito
de modo a justificar sua exclusão social, servindo de justificativa para fracassos e decepções
pessoais”106
Se na homenagem ao professor Norberto havia uma denúncia de racismo, a
interpretação de Miranda não se sustenta. O “preconceito de cor”, neste caso, impediu de fato
a ascensão de um negro, apesar de sua qualificação. Nos casos de autoexclusão,
aparentemente, o jornal passa a ideia de que os negros incorporaram a desqualificação e
precisavam aprender a superá-la.
As populações negras de Campinas tinham o hábito de caminhar pelas calçadas de
fora do Jardim Carlos Gomes, usando a rua Irmã Serafina, ao lado do Cine Coliseu, e quase
nunca as suas paralelas. Os colaboradores do periódico escreveram artigos informando que
não havia lei que proibisse a entrada dos negros no jardim ou o uso de outras vias ao redor do
cinema e que, portanto, as pessoas negras deveriam utilizar esses espaços da cidade e
deixarem de acreditar que não podiam estar neles. O preconceito de cor no meio negro
apareceu na atitude de moças em uma reunião. Durante o evento, as jovens negras olhavam
pela janela toda vez que alguém dizia que passava um rapaz na rua, e continuavam em seus
lugares quando se anunciava a passagem de um moço. Ao serem questionadas pelo

105
Idem.
106
MIRANDA, Rodrigo. Um Caminho de Suor e Letras op. cit. p. 97.
59

comportamento diferente, informaram que rapaz era um jovem negro e moço um jovem
branco, assim os articulistas descobriram que “até no vernáculo, procuram uma palavra para
dar vazão à inqualificável separação voluntária”107
Afirmava-se no Getulino que, “por índole ou mal do sangue”, “todos os pretos se
julgam inferiores a qualquer mortal que não tenha a pele da cor da sua” e isso justificaria o
fato de não ocuparem certos espaços e usaram a distinção entre moço e rapaz. Tentava-se
demonstrar, assim, que os negros eram “iguais em tudo ao branco, gozando perante a lei do
mesmo direito e frisar que o maior inimigo do preto é o próprio preto”, mas esta explicação
não foi suficiente para convencer as jovens a não usarem a distinção de sentidos entre moço e
rapaz. Elas retrucaram com a “lógica [e] com a sabedoria do vulgo: rapaz é filho de negro,
sempre ouvimos dizer...”108. E, de acordo com outros textos do jornal e as entrevistadas por
Rodrigo Miranda, os negros não usavam aqueles espaços porque se comentava que era
proibido ou que sofreriam alguma represália109.
Deste modo, a sabedoria do vulgo era o que imperava nessas situações, aquilo que
se ouvia dizer tinha mais poder do que o conhecimento adquirido com a instrução e a lógica
de uma reflexão sobre o tema. O boato de que em Campinas os negros estavam impedidos
legalmente de circular por estes espaços teria chegado a Minas Gerais, onde membros de
outras entidades negras acreditaram nisso e protestaram contra a suposta medida.
O Getulino “conseguiu tirar certos costumes” dos negros após um ano de
existência, quando não se notava mais “aquela odiosa separação que havia na plateia do
Coliseu”. Os artigos, que até suplicaram por mudanças, foram eficazes contra a autoexclusão.
Na parte externa do jardim, ficou “consideravelmente reduzido o número de pessoas que tinha
o péssimo costume, quase obrigação, de passearem”110, segundo a edição comemorativa de
aniversário. Então, o caráter instrutivo do semanário fizera efeito e ensinara como deveriam
agir.
A interpretação de Rodrigo Miranda é feita sem analisar o desfecho dos casos de
autoexclusão dos negros nas ruas campineiras. Ele usa somente as críticas feitas a este
comportamento. Talvez, por isso, ele não tenha compreendido o caráter instrutivo do jornal
nesta situação. Ele também não analisou a linguagem do Getulino no conjunto dos outros

107
Getulino, 23 dez. 1923, p. 1. O hábito de circularem por fora do Jardim Carlos Gomes também pode ser
encontrado nas lembranças de Dona Risoleta em BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos. 2
ed. São Paulo: Edusp, 1987, p. 307.
108
Idem. Grifos do original.
109
MIRANDA, Rodrigo. Um caminho de Suor e Letras op. cit.
110
MORAES, Gervásio de. “Antes Assim”. Getulino, 24 ago. 1924, p. 1.
60

jornais negros, e no diálogo entre eles. Na capital paulista, os jornais negros de meados da
década de 1910 afirmavam que as populações negras viviam em condições apáticas, mesmo
sabendo das discriminações sofridas, sem conseguir criar um ideal que lhes desse condições
de sair da vida servil e de inferioridade. Era a falta de interesse em buscar “outra
convivência”, para usar a expressão d’O Alfinete, que tornava os negros seus maiores
algozes111. Como já citado, o pesquisador reconhece que o problema racial era visto entre
esses negros como algo que deveria ser solucionado pelas próprias populações negras. Neste
sentido, é mais provável que, quando os articulistas não conseguiam a adesão em massa para
os seus chamados, consideravam que o restante da “classe” estava agindo contra seus próprios
interesses, ao invés de estarem falando que o preconceito era usado como uma muleta.
Os textos da Imprensa Negra tinham mais a intenção de ensinar que informar seus
leitores. Ela desejava criar nos negros um comportamento que os afastassem do estereótipo do
negro vadio e inculto, ou propenso à criminalidade e à prostituição, no caso específico das
mulheres negras. Por isso, justificavam que o passeio pela parte externa do jardim depunha
contra os negros, comprovando sua “má educação artística”112, porque não ouviam a
orquestra, enquanto andar à frente de procissões religiosas era “falta de educação
religiosa”113. Ou seja, os homens de cor acreditavam que a falta de educação entre os negros
permitiria que fossem vistos negativamente, por isso seus procedimentos sustentariam o
“preconceito de cor”.
É importante frisar um outro ponto, na ânsia de “defender a classe/raça do
preconceito de cor” através de uma mudança de postura, articulistas e dirigentes negros
criaram valores que muitas vezes se chocavam com os modos de viver de outros setores da
população negra, por isso apareciam de forma desqualificada nas páginas de jornais e nas
falas dos homens de cor114. No entanto, algumas atitudes condenadas nos periódicos negros
podem ser entendidas como formas de proteção contra o racismo. De acordo com os
depoimentos colhidos por Ecléa Bosi e Rodrigo Miranda, os mais velhos recomendavam que

111
CARDOSO, Paulino A Luta Contra a Apatia op. cit.; LUCINDO, Willian Robson Soares. Educação no Pós-
Abolição op. cit.; PINTO, Regina Pahim. O Movimento Negro em São Paulo op. cit.; DOMINGUES, Petrônio.
História Não Contada op. cit.
112
Getulino, 03 fev. 1924, p. 1.
113
Getulino, 05 ago. 1923, p. 1.
114
CARDOSO, Paulino A Luta Contra a Apatia op. cit; SANTOS, Deborah Silva. Memória e Oralidade:
mulheres negras no Bexiga -1930/40/50. Dissertação de Mestrado, PUCSP, Departamento de História: São
Paulo, 1993; LOPES, Maria Aparecida de Oliveira. Beleza e ascensão social na imprensa negra paulistana
1920-1940. Dissertação de Mestrado, PUCSP, Departamento de História: São Paulo, 2002.
61

andassem pela parte de fora do jardim a fim que evitassem situações de preconceito115. No
caso das moças, é possível que escolhessem olhar para os jovens negros porque com estes a
possibilidade de um relacionamento amoroso era maior, pois, como já apresentado, havia um
imaginário da mulher negra como prostituta. Além disso, como afirmou Paulo Fernando de
Souza Campos, além da ciência sugerir que se evitasse os casamentos interraciais, porque
“implicavam em perda dos caracteres ‘sadios’ dos brancos aos se misturarem com os genes
‘imperfeitos’ dos negros”, havia modinhas que reforçavam a imagem negativa dos negros,
“como as que diziam: ‘Lá em cima daquele morro/tem um pé de samambaia/Negra só casa
com negro/São gente da mesma laia’ ou ‘Marmelo é fruta gostosa/Que dá na ponta da
vara/Branca que casa com preto/ Não tem vergonha na cara’”116. Desta forma, a construção de
seu vernáculo era também uma forma de proteção. Isso significa que, apesar desta tese se
concentra nas ações do mundo associativo, entende-se que as populações negras agiram de
várias maneiras possíveis para lidar com as diferentes formas de discriminações que sofreram.
Jornais, livros de atas, fotografias, edificações e outros elementos que compõem o
associativismo negro permitem perpetuar alguns de nomes importantes desse meio, contudo,
no esteio de uma ideia de Emília Viotti da Costa sobre a Abolição117, houve (e há) anônimos
que foram (e são) fundamentais por cada conquista das populações negras.

1.5. A Instrução, o principal objetivo


“A gente negra brasileira é atrasadíssima em tudo e cultiva os vícios com rara
especialidade”, era o que diziam “aqueles pretensiosos viventes felizes rebentos das raças
superiores” sobre as populações negras, de acordo com o Getulino. E o jornalista Benedito
Florêncio preferia não discutir “as origens científicas do atraso da nossa forte e heroica raça,
pois que esse assunto [era] familiar a todo e qualquer curioso dos livros”. Optou em levantar
algumas questões que eram mais pertinentes à “defesa da classe”. Afinal, por serem
“representantes de uma raça inferior”, deveriam “ser condenados à força do preconceito
social”? Qual culpa teriam dessa “triste condição humana na história”? Se era fato que a
Constituição os “coloc[ara] aqui no Brasil em igualdade de condições perante a lei”,
significava que “ninguém, absolutamente ninguém” os poderia “afrontar com esse princípio

115
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade op. cit.; MIRANDA, Rodrigo. Um caminho de Suor e Letras op. cit.
116
CAMPOS, Paulo Fernando de Souza. “Outras faces do monstro urbano: criminalidade e racismo na cidade de
São Paulo. Os crimes de preto Amaral”. Histórica (São Paulo), São Paulo, v. 14, n.1, p. 04-10, 2004, p. 8.
117
A autora afirma: “Ignorado [pela história] ficou um sem-número de devotados abolicionistas, brancos, negros
mulatos – heróis anônimos da nossa história sem os quais a abolição jamais teria sido conquistada”. COSTA,
Emília Viotti. A Abolição. 8ª ed. ver. Ampl. São Paulo, SP: editora UNESP, 2008, p.129.
62

de separação de classe”. Eram “filhos legítimos deste colossal país, desta formidável nação
(…) que tem sua grandeza cimentada com o sangue” dos seus avós, “com o suor” dos seus
“maiores”118.
O artigo seguia informando a importância dos seus antepassados e que as
populações negras da época continuaram vivendo na América, “dando a vida e o melhor” de
suas “energias para o engrandecimento da mesma história”. Apontava que, se eles eram
viciados, incultos, atrasados e analfabetos, não tinham culpa disto. Quem quisesse saber o
verdadeiro culpado, fosse “interrogar os quatrocentos anos” de “ferrenho cativeiro”, o
“miserável regime de obscurantismo”, a “lei do atavismo e da hereditariedade”. Seu “livro foi
a chibata” e a “escola foi a senzala”. A emancipação “sem regulamentação metódica”
permitira o inevitável “fenômeno típico da inércia do povo negro”, que foi “até muito natural
debaixo do ponto de vista científico e de acordo com os ensinos da moderna sociologia”.
Entretanto, o caso dos Estados Unidos mostrava que podia ser diferente, se a educação fizesse
parte da liberdade conquistada, porque lá, “na libertação dos negros, foi imediatamente
decretada a rigorosa obrigatoriedade da alfabetização do preto”. Foi ela que possibilitou a
existência de “colossais instituições de ensino, importantes faculdades e notáveis
universidades” controladas e destinadas aos negros. Enquanto, no Brasil, “o preto brasileiro
[vivia] cultuando a ignorância, abarrotando os botequins, aumentando as estatísticas das
prisões e edificando templos ao vício”. E a culpa não era dos negros, isso “repetimos e
repetiremos”, exclamava o articulista, porque não queria que ninguém tivesse o direito de os
enxotar e perseguir119.
O longo texto era o antepenúltimo artigo sobre a condição das populações negras
na cidade de São Paulo – uma série que começara com a transcrição da carta do senhor
Bernardo Vianna. Nele nota-se a presença do debate científico sobre raça e a inferioridade das
populações negras, assumindo julgamentos morais similares a alguns abolicionistas120. No
entanto, outros textos permitem relativizar a apropriação destes discursos como verdade. Em
agosto de 1923, um artigo de resposta à “Associação Protetora dos Brasileiros Pretos”
afirmava que sim, “o nosso negro é atavicamente, uma vítima do passado e do viciado
cativeiro de quatrocentos anos”, porém isso “quase acontece o mesmo ao branco” nacional,
que estava perdendo suas fazendas para o estrangeiro, que fora “transformado em senhor, em
118
FLORÊNCIO, Benedito. “Os Pretos em São Paulo”. Getulino, 28 set. 1924, p. 2.
119
Idem.
120
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil de
1870 - 1930.São Paulo: Cia. das Letras, 1993; AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda Negra, Medo Branco
– o negro no imaginário das elites, século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
63

patrão e capitalista”. Então, o “defeito racial” não era exclusividade dos negros brasileiros,
estava na sociedade brasileira121.
Se os livros científicos e da sociologia moderna tinham alguma razão, isso não
retirava a importância das populações negras, que seriam responsáveis pela grandeza do país,
seja na condição de escravas, seja como livre, apesar de não lhes ofertarem as condições
ideais. Se a busca por respeito e melhores de condições de vida pode ser chamada de “nova
abolição”, conforme Petrônio Domingues assinala, a educação era considerada a chave para
alcançar esse patamar. Influenciados por abolicionistas que haviam se tornado lideranças
políticas no período republicano, os artigos dos periódicos negros compartilhavam a ideia de
que, durante a escravidão, não havia condições de instrução para os escravos, que aprendiam
tudo através da violência, e isso causara supostos vícios e atrasos nas populações negras. Por
isso, as heranças negativas do escravismo não eram vistas como inerentes à “raça”, elas
poderiam ser eliminadas por meio da educação.
O Getulino, desde seu início, teve um grande antagonista no “meio negro”: a
“Associação Protetora dos Brasileiros Pretos”. Infelizmente não foram encontrados
exemplares da folha A Protetora, que transmitia as mensagens dessa associação, para analisar
melhor os pontos de divergências. De acordo com o Getulino, sua rival questionou onde
estariam “um empreiteiro de obras, um médico, um advogado, um padre carregando em suas
veias o puro sangue do negro, e que seja de Campinas”. O Getulino respondeu com um
retrospecto histórico e a “matemática dos algarismos”. Quando se efetivou a liberdade, “os
libertos foram entregues à comunhão nacional em completo atraso”, porque estavam
“analfabetos, embrutecidos alcoólicos, inconscientes, carregando no organismo uma
pesadíssima contribuição de males hereditários e heranças atávicas”. “Sem educação, sem
dinheiro, sem ofício, sem direito da igualdade”, eles não puderam “desde logo competir com
seus ex-escravizadores”, ficando “em deplorável estado de condição social”. Somente depois
de 20 anos passados da Abolição é que eles haviam conseguido “compreender a diretriz a
tomar e desvencilhar do lodo da escravidão, para haurir certos princípios e ter certas noções”,
e isso com a ajuda dos “poderosos auxílios da democracia republicana, que ampli[ara] e
franque[ara] sabiamente o ensino público”. E esse fenômeno teria acontecido em outras
nações nas quais as populações escravas não haviam sido alfabetizadas. Seguindo essa
análise, somente em 1908 as populações negras começaram a se educar, e quem entrou na
escola aos 5 anos naquele ano só poderia ser médico ou advogado a partir de 1924, ou seja,

121
“Respondendo IV”. Getulino, 26 ago. 1923, p. 2.
64

um ano após a pergunta. Essa teoria estava bem fundamentada, segundo seu autor, quando se
analisava o professorado da cidade, que tinha uma “dezena de homens de cor professores,
visto que o curso para esta profissão tem 6 anos menos que o curso para médico ou
advogado”122.
As contas do jornal não se encaixam nas evidências históricas encontradas nas
pesquisas sobre história da educação das populações negras. José Galdino Pereira estudou a
luta por cidadania dos negros campineiros através da organização do “Colégio São Benedito”,
fundado em 1902. No entanto, o autor consegue identificar que o colégio é a continuidade da
“Sociedade de Instrução São Benedito, que funcionava desde 1896. Até a mudança de nome,
sua finalidade era instruir os irmãos e filhos dos irmãos da “Irmandade de São Benedito”, por
quem fora fundado123. Em um esboço histórico, o professor Francisco de Oliveira aponta que,
construída a capela em homenagem ao santo, o senhor Torlugo de Camargo lembrou que
mestre Tito, idealizador da obra, já tivera a ideia de construir “uma casa de educação, onde os
filhos do homem de cor bebessem as luzes necessárias para as lutas da vida” e, desta
lembrança, resolveu-se criar ao lado do templo a escola124. Foi possível encontrar documentos
que comprovam essa versão da história. Em 1893, Francisco Bueno, então tesoureiro da
irmandade, foi autorizado pela câmara a expandir a construção da igreja até a rua Lusitana, a
fim de que seus anexos comportassem a “Escola dos Libertos”125.
Não há identificação no texto do Getulino, porém é difícil acreditar que ele não
conhecesse a história do “Colégio São Benedito”. Como já foi apresentado anteriormente, o
diretor do colégio, o professor Francisco Oliveira era um colaborador do periódico, além disso
Benedito Florêncio esteve junto com ele no “Centro Literário dos Homens de Cor”, órgão que
controlou a instituição quando ela deixou de ser responsabilidade da “Irmandade de São
Benedito”. Paulino Cardoso sugere que a geração de militantes negros da década de 1920
tentou se colocar como a origem do movimento negro, rejeitando ou minimizando
experiências anteriores126. Desta forma, ao mesmo tempo em que o texto de resposta trata de
uma possível massificação da educação entre as populações negras, ele também deixa a
entender que a geração anterior a de seu grupo não compreendia a importância da instrução.

122
“Respondendo III”. Getulino, 19 ago. 1923, p. 2.
123
PEREIRA, Jose Galdino. Os negros e a construção da sua cidadania op. cit. pp. 20 e 49.
124
Cidade de Campinas, 20 mar. 1903.
125
Irmandade de São Benedito. “Requerimento de construção e alinhamento pela rua Lusitânia”. Finanças
Municipal – Correspondências Interna. Arquivo Municipal de Campinas. 18 abr. 1893.
126
CARDOSO, Paulino J. Francisco. A luta contra a apatia op. cit.
65

Os artigos sobre instrução na Imprensa Negra tentavam convencer as populações


negras de que a educação era fundamental para eliminar as imagens negativas construídas
sobre elas, contribuindo para promover a conquista da civilidade e da moralidade. Porém
também havia denúncias de exclusão.
No Brasil, a instrução primária não teria “organização conveniente e definitiva”,
segundo a edição de outubro de 1923 do Getulino. E isso acontecia mesmo sendo ela “a base
única de toda a educação nas suas diferentes modalidades, desde os exercícios e jogos que dão
vigor e saúde ao corpo, até a aquisição dos conhecimentos necessários à formação completa
do espírito e o aparelhamento para a conquista das diversas carreiras” na sociedade moderna.
Poucos Estados investiam nela de fato, passavam somente “uma migalha ao lado de verbas
vultuosas destinada a outros serviços” e, desta maneira, “não há, na grande maioria deles, nem
escolas dignas desse nome, nem material escolar, nem frequência, nem ensino”. Com isto, “as
classes populares, as numerosas camadas pobres das populações urbanas e muito mais as
rurais, por esses sertões, veem-se deste modo privadas do maior e mais proveitosos benefício
que se lhes poderia proporcionar e, assim, após trinta anos de República”, em que “a condição
de saber ler e escrever é imperiosamente requerida para o exercício do voto”127. O tom crítico
deste texto, assinado por Affonso Costa, foi mais comum no Getulino do que ar esperançoso
do artigo de resposta à Associação Protetora dos Brasileiros Pretos, que entendia que o regime
político da época se esforçava para ampliar a educação pública.
Era raro um “negro que sabe com perfeição tomar a caneta e externar seus
pensamentos”, segundo outro texto do Getulino. Isto porque a liberdade de instrução fora
conquistada, de fato e para todas as pessoas negras, somente após a Lei Áurea, “e ainda assim
mesmo não é sem dificuldade que podemos galgar os nossos ideais em um banco colegial sem
que nos deparemos com as perseguições dos nossos professores e colegiais pertencentes à
classe avessa” às populações negras nas escolas. Mas, julgava, ou desejava, que essa situação
ao invés de “nos prejudicar, nos presta, indiretamente, um grande e inestimável benefício,
pois faz com que aperfeiçoemo-nos o nosso caráter e burilemos a nossa educação”128.
Igualmente a situação do professor Norberto Pinto, a discriminação no espaço escolar deveria
ser usada como motivação, estímulo para melhorar. Segundo Jerry Dávila, a prática de separar

127
COSTA, Affonso. “Eduação Nacional”. Getulino, out. 1923, p. 1.
128
Getulino, 23 dez. 1923.
66

alunos negros dos brancos acontecia no Brasil Republicano, sob a alegação de que os
primeiros prejudicavam o aprendizado dos últimos porque tinham menor capacidade129.
Quando tratava da educação de modo geral no país, a Imprensa Negra denunciava
a falta de espaços e vagas, situação que prejudicava não somente as populações negras como
as classes mais pobres. No entanto, eram mais comuns textos que tratavam da importância
dela no novo sistema político, sendo que a educação ultrapassava a compreensão de “uma
prática formal de construção do conhecimento”. Nos jornais negros é possível perceber um
“sentido mais amplo que envolvia a formação do caráter, a formação intelectual, a formação
cultural e principalmente a formação de um espírito de solidariedade entre os negros” 130. E,
mais uma vez, o problema não era visto como uma forma de separar as populações negras, ao
contrário, seus articulistas entendiam que educar os negros era uma atitude patriota, que traria
avanços à nação.
Rosa Fátima de Souza, em seus estudos sobre educação popular e a criação dos
Grupos Escolares no início da República, aponta que a educação do povo estava acima de
tudo para o novo regime, porque nele a direção do governo seria de responsabilidade dos
cidadãos e não mais o contrário. Então, por meio da instrução, o povo, que sempre havia sido
conduzido pelos governos, seria transformado em cidadãos, condutores da nação. Dentro
desta concepção, o analfabetismo era visto como a maior mazela da sociedade, mantendo-a
em estado de atraso131. Para Marta Maria Chagas de Carvalho, neste regime “o papel da
educação foi hiperdimensionado: tratava-se de dar forma ao país amorfo, de transformar
habitantes em povo”132. Maria Lúcia S. Hilsdorf considera que, neste momento, a educação
escolarizada era uma “chave da resolução dos problemas sociais, da ‘modernização’ da
sociedade brasileira”133.
Entre as décadas de 1910 e 1920, as críticas sobre o pouco êxito das campanhas
pela alfabetização das massas populares começaram a ganhar força, inclusive entre lideranças
republicanas. Nesses discursos, se percebe que o combate ao analfabetismo se associava a

129
DÁVILA, Jerry. Diploma de Brancura: política racial e social no Brasil – 1917-1945. Sã Paulo: Editora da
UNESP, 2006. p. 75.
130
SANTOS, Pedro. Cidadania e educação dos negros através da imprensa negra de São Paulo. Dissertação de
Mestrado, USF, Faculdade de Educação: Itatiba, 2007. p. 75.
131
SOUZA, Rosa Fátima de. O Direito a Educação - Lutas Populares pela educação em Campinas. Campinas:
Editora da Unicamp e Área de Publicações do Centro de Memória - UNICAMP, 1998; Ibidem. Templos de
Civilização - a implantação da Escola Primária graduada no Estado de São Paulo (1890-1910). São Paulo:
UNESP, 1998.
132
CARVALHO, Marta Maria Chagas. A Escola e A República e outros ensaios. Bragança Paulista: EDUSF,
2003. p.13. (grifos da autora).
133
HILSDORF, Maria Lúcia S. Francisco Rangel Pestana – Jornalista, Político, Educador. Tese de Doutorado,
USP, Faculdade de Educação: 1986.
67

uma desconfiança dos pobres que, sem a educação necessária, eram inúteis e incapazes de
participar da vida política e, também, do progresso que se espalhava pelo país. Para eliminá-
los, surgiram algumas organizações beneficentes, como as Ligas Nacionalistas e a Associação
Brasileira de Educação, com o objetivo de instruir, ou melhor, de transformar, por meio da
escolarização, o povo, “essa espécie de Jeca Tatu, em brasileiro laborioso, disciplinado,
saudável e produtivo”134. As organizações negras surgidas nesse período não eram alheias a
essa compreensão, compartilhando alguns pontos e rejeitando outros.
O analfabetismo, por exemplo, também era considerado um mal entre os
articulistas negros, no entanto não julgavam que o analfabeto era um “doente e improdutivo,
peso morto a frear o progresso”, como aparecia nos discursos de políticos republicanos135. Um
colaborador d’O Progresso narrou que certa vez um carregador se aproximou, enquanto
esperava o bonde, e lhe disse que o articulista “era feliz porque sabia ler, e acrescentou
textualmente que ele [o carregador] era um desgraçado: nem sabia ler”. Então imaginou que
“aquele homem teria em casa seis ou sete filhos”, e que “quando visse os filhos, em vez de ter
em si mesmo uma ideia generosa e forte – dessa fortaleza que redoma a paternidade, e é sua
marca” – teria vergonha. E, por essa “vergonha de não saber ler”, ele se julgaria um
“improdutivo, um infecundo, um lamentável”. Esse tipo de situação, que era como “um
aguilhão moral ferindo aquela alma”, fazia o articulista se irritar “mais uma vez contra as
mentiras científicas do século da democracia e da evolução e do progresso universal”. Afinal,
ninguém podia calcular a pena que o negro letrado tinha quando percebia que um “pobre
homem – que poderia ser espiritualmente saudável e arejado – convencido de ser inútil e um
desprezível por não saber ler”, algo que se tornava comum136.
Desta maneira, o analfabetismo fazia com que as pessoas fossem induzidas a
acreditar que elas não tinham serventia para a sociedade, o que não era verdade para o autor.
O analfabeto de seu caso era um trabalhador, que ele fazia questão de mencionar, ainda,
entendendo que os analfabetos poderiam estar em melhores condições se não fossem
convencidos de sua inferioridade, por isso mais do que alcançar melhores postos de trabalho e
ascensão social, a educação esteve associada à elevação da autoestima na Imprensa Negra137.

134
CARVALHO, Marta Maria Chagas. A Escola e A República e outros ensaios op. cit. p. 48.
135
Idem. p.35
136
GUELNIO. “O Alfabeto Brilha Mais do que as Constelações do Céu”. O Progresso, 15 nov. 1928, p.1.
137
LUCINDO, Willian Robson Soares. “A Vontade Também Consola: a formação da esfera pública letrada de
afrodescendente e o debate sobre educação” In. FONSECA, Marcus Vinicius; BARROS, Surya Aaronovich
Pombos de. (orgs). A História da Educação dos Negros no Brasil. Niterói: EdUFF, 2016.
68

Apontava-se, igualmente, que alcançar a instrução coletivamente faria com que as


populações negras gozassem de fato a liberdade, afinal o analfabetismo era uma “praga que
nos faz mais escravos do que quando o Brasil era uma feitoria”138. Sair da condição de
escravos para livres só seria possível graças aos “golpes das grandes lutas”, e os negros
precisavam continuar a “lutar e não recuar”. Deviam se “preocupar menos com o passado da
raça, tratando agora de educá-la, preparando-a para as formidáveis lutas de amanhã”, porque
entendia que “o passado [havia sido] horrível e o presente [era] péssimo”. Do futuro poderiam
esperar “tudo, se tivermos o livro por escopo; nada se continuarmos o culto das tabernas”139.
Em um artigo que discutia a divisão das raças humanas elaborada por Henri Marie
Ducrotay de Blainville, anatomista comparativo do Museu de História Natural de Paris e que
havia influenciado o pensamento positivista, o Getulino condenava a ideia de “negar a
atividade e inteligência à raça negra”140, que só poderia ser fruto de desconhecimento de
“fatos históricos”. Para seu autor, Cristovam A. Junior, era urgente guinar “o homem negro
para o sentimento de deveres de humanidade, estribado na atividade e na inteligência” e se
obteria isso “pela educação, em nosso caso pela educação intelectual, a base da sociedade
moderna e sustentáculo da democracia”. Como ela era deficiente no “meio negro, a educação
torna[va]-se, pois, um ponto de toque nos brios da raça, de modo que todo movimento que se
levantar deve receber guarida”. O Getulino teria esse papel. “Seguindo o caminho da
educação, chegaremos à segunda etapa da grande ascensão que está destinada ao negro”, e
alcançariam a senda da humanidade, “como homens tão homens como os de outras raças”.
Como já apontada em discussões anteriores, este articulista também acreditava que “ninguém
mais do que o próprio negro” deveria “cuidar de seus interesses”. Então, não havia do que
fugir, o negro deveria “levantar bem alto o estandarte da mais consubstanciada organização”,
livrar-se do “torpor desgraçado em que jaz atualmente, pronto para o trabalho e para
educação; eis o que é de todos quantos têm nas veias sangue da mesma têmpera dos Gamas e
dos Patrocínios”. Urgia intensificar, “por todos os meios, nas sociedades, nos grêmios, nas
escolas, na imprensa”, a busca pelo desenvolvimento intelectual. “Confiemos e trabalhemos
unidos”141, pedia ao final do texto.

138
CUNHA, Horácio. “Aos Leitores”. O Alfinete, 9 mar. 1919, p. 1.
139
FLORÊNCIO, Benedito. “Carta Sem Cor”. O Alfinete, 11 nov. 1921, p. 2.
140
Segundo o periódico o francês dividiu as pessoas “só pela cor da pele, pela simples aparência exterior, pela
vestimenta da carne” em três raças, sem conceber “superioridade absoluta numa raça sobre as outras”, e
classificou “a branca como sendo a ‘mais’ inteligente, a amarela a ‘mais’ ativa e a negra a ‘mais’ sentimental”.
A. JÚNIOR, Christovam. “Liberdade Intelectual”. Getulino, 21 out. 1923, p. 6.
141
Idem.
69

Nesta mesma linha, o redator-secretário do Getulino, Gervásio de Moraes notava


“a diminuição de associações de homens pretos em Campinas”, e se lamentando por isto. As
sociedades dançantes traziam a cooperação às causas e tinham seu valor no meio negro, em
sua opinião. Porém, não conseguiam cumprir “seus estatutos, que na maioria, mencionam
realizar conferências e outros meios de educação aos seus associados”, e este poderia ser o
motivo do seu esvaziamento. Para Moraes, as associações deveriam proporcionar aos
trabalhadores que sustentavam suas famílias um prolongamento do seu lar, ser um espaço
onde “depois de um dia cheio” pudessem ficar “a par dos bons ensinamentos, divertindo com
método”. Assim elas seriam úteis aos seus membros e também à Pátria. A existência de
sociedades operárias, beneficentes, humanitárias e recreativas era importante para os planos
de progresso dos negros, e nenhuma deveria apagar o lustro das outras, na interpretação do
redator, que fazia um apelo exposto “numa só palavra – União”142. Deste modo, a instrução
poderia ser alcançada em diversos espaços e de diferentes modos, mas precisava da unidade
dos negros, ao mesmo tempo em que a reforçaria.
As notícias de discriminação, a visão negativa que recaía sobre as populações
negras, sustentada algumas vezes por teorias cientificas da época, além de uma política
pública pouco eficiente de educação para o povo, foram importantes para que surgissem
propostas de instrução alternativas e independentes no meio negro. Os lugares onde elas se
concretizavam eram suas associações, que tinham funções variadas, mas que deveriam de
alguma forma contemplar a mais importante demanda, porque, como aponta Leandro Guirro,
a educação era “uma solução para todos os males”143.

***
Jayme de Aguiar, em seu texto para O Patrocínio, tentava convencer os negros de
Piracicaba a participar do “Congresso da Mocidade Negra”. Para ele, a forma de enfrentar o
preconceito de cor era através da união, e isso era compartilhado pelos articulistas negros dos
demais jornais do Estado. A bibliografia sobre pós-Abolição aponta que, desde a segunda
metade do século XIX, com os avanços das ideias e políticas abolicionistas, tentou-se
atualizar as hierarquias sociais através da construção de uma identidade negra racializada. Nos
jornais de grande circulação das duas cidades foi possível identificar essa racialização, bem
como a construção de uma noção de raça que associava o passado do cativeiro com uma

142
MORAES, Gervásio de. “Antes Assim VI”. Getulino, 21 set. 1924, p. 1.
143
GUIRRO, Leandro Antonio. Intelectualidade e Imprensa Negra Paulista op. cit.
70

possível inaptidão dos negros para viver em uma sociedade pautada pelo trabalho livre; sendo
assim, eram necessárias medidas coercitivas que eles se mantivessem nos postos de trabalho
mais subalternos.
A Imprensa Negra denunciava essas práticas e interdições que, em alguns casos,
foram internalizadas pelas populações negras, como ao ocuparem uma determinada posição
nas ruas da cidade. E a defesa da classe não se limitava a isso. Os jornais apresentavam
exemplos de negros que tinham alcançado algum sucesso, tentavam instruir quais seriam os
melhores comportamentos, e afirmavam a importância das populações negras para a
construção do país. Seus principais motes foram a educação e a unidade. No entendimento das
lideranças negras que redigiam artigos e divulgavam notícias; para eles, a solução dos
problemas viria de dentro grupo, por isso a união era fundamental seja para construir espaços
educativos que garantissem a ascensão social, seja para se apresentar de maneira diferente do
estereótipo do negro veiculado pelos jornais de grande circulação, seja para reforçar as
denúncias.
71

CAPÍTULO 2

Os clubes negros em Campinas e Piracicaba

Conforme afirmou Gervásio de Moraes no texto apresentado ao final do capítulo


anterior, as associações de homens de cor deveriam proporcionar às populações negras boas
diversões e ensinamentos necessários para pudessem ocupar lugares melhores na sociedade
brasileira. Os articulistas negros acreditavam que elas tinham a responsabilidade de prestar
serviços assistenciais, beneficentes e instrutivos a seus sócios, para garantir que fossem
também um espaço de união e de combate às discriminações sofridas. Um texto do Getulino
de 1923 evidencia a importância das associações na defesa dos interesses dos pretos contra o
preconceito de cor. Nesse artigo, os responsáveis pelo periódico afirmam que, em Campinas,
existiam “grandes sociedades beneficentes que sustenta[va]m ótimos e modelares hospitais”,
que tornavam a cidade conhecida em todo país, e “o mais importante” era que “a totalidade
d[ess]as associações beneficentes reza nos seus estatutos que não [sejam] nelas admitidas
como sociais pessoas de cor”. E, mesmo assim, elas recebiam algum tipo de ajuda do governo
municipal1.
Entretanto, não era contra a interdição de negros nesses lugares que escrevia o
jornal; “de propósito”, preferia não comentar “tão odienta disposição”. O artigo era em defesa
da “Liga Humanitária dos Homens de Cor”. Esta entidade, “fundada e gerida por pretos”,
tinha criado naquele ano uma “sessão ‘Beneficente’, fornecendo médico e farmácia aos
sócios, ‘recebendo em seu seio muitos brancos que a procuram para se agremiar’”. Além
disso, desde sua fundação, em 1914, a Liga, “na medida de suas posses”, socorria seus
associados; portanto, argumentavam os colaboradores do jornal, que a Câmara Municipal
deveria auxiliar esta instituição, que apresentava um “belo gesto de brasileiros”. Para endossar
o pedido, eles listaram algumas entidades que recebiam ajuda oficial, como o “Circolo
Italiano” que, ao contrário da Liga, não era formado por “brasileiros de verdade”2.

1
Getulino, 30 dez. 1923, p. 1. Grifos do original.
2
Idem.
72

Esse texto demonstra um pouco do papel das entidades negras, seu funcionamento
e sua importância para os homens de cor. A bibliografia sobre Clubes Sociais Negros tem
indicado que as sociedades negras fundadas entre a segunda metade do século XIX e a década
de 1930 surgiram em um contexto de interdição de espaços para os negros, como apresentado
no artigo, em que sociedades recreativas, beneficentes e, até mesmo operárias não aceitavam
pessoas negras como sócias e em suas festas. As populações negras entenderam que, criando
organizações separadas, poderiam se divertir sem as constantes perseguições policiais, bem
como organizar ações educativas e de ajuda mútua para sanar suas necessidades, que nem
sempre eram atendidas pelo governo ou por outras entidades beneficentes. Além disso,
experiências em irmandades religiosas contribuíram para formação de agremiações, atuando,
por vezes, de forma complementar, mas, em geral, foram fundadas por homens de cor quando
seus discursos e práticas encontraram limites nas associações religiosas.
Estabeleceram-se diversas organizações dirigidas por pessoas negras nas cidades
de Campinas e Piracicaba que ofereciam diferentes tipos de atividades, como esportes,
danças, jogos lícitos, bibliotecas, dramaturgia, escolas, assistência em casos de doenças e
morte, entre outras. O objetivo deste capítulo é descrever as principais características dessas
entidades e como suas atividades eram usadas nas campanhas de “defesa da classe ou raça”
contra o “preconceito de cor”.

2.1 Os homens de cor de Piracicaba


“No dia 19 de maio de 1901” se reuniram “na oficina do cidadão Zacarias David
(…) diversas pessoas a convite do cidadão Luiz Dias Araújo”, que propôs a ideia de fundar
“uma sociedade de contribuição pecuniária para o fim especial de comemorar-se
condignamente a áurea lei de 13 de maio” no ano seguinte. O “cidadão José Francisco Lazaro,
(…) aplaudindo, aderiu à ideia lembrada, e em breve palavras procurou estimular os presentes
para o cumprimento do patriótico dever”. Os convidados, então, trataram de compor uma
diretoria para a nova entidade, que ficou sob a presidência do autor da ideia. Assim foi
fundada a “Sociedade Beneficente Antônio Bento”, em homenagem ao “eminente chefe
abolicionista”3.
Segundo Ana Regina Vaz Calindro, “a entidade foi idealizada por abolicionistas
brancos, segundo relatos, ligados à maçonaria”, que desejavam “criar um espaço onde os ex-

3
Sociedade Beneficente Antônio Bento. “Ata da reunião realizada no dia 19 de maio de 1901”. Livro de Atas n.
1 (1901-1913). Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio. Piracicaba, 19 mai. 1901.
73

escravos e seus descendentes pudessem reunir-se e assim, integrar-se à comunidade em


geral”4. A autora não cita onde ela ouviu tais relatos e nem quem seriam seus depoentes. O
registro da primeira reunião e o primeiro estatuto não fazem menção a cor de seus
componentes, no entanto, desde 1904, a imprensa local informava que “a Sociedade Antônio
Bento [era] mantida pelos homens de cor” 5. Segundo Eliane Tadeu Terci e José Flávio de
Oliveira, pessoas brancas participavam da agremiação, mas ela teria sido fundada por homens
de cor6.
De acordo com os dois historiadores, a linguagem empregada nas atas e a forma
de comemoração que praticavam correspondiam às expectativas dos homens de cor na
conquista da cidadania no pós-Abolição. Assim, “a presença do termo cidadão antepondo-se
aos nomes que aparecem nos documentos” não era mero estilo literário: indicava a intenção
dos homens de cor “de impor simbolicamente seu pertencimento à sociedade como um igual,
o que conferia direitos”. Por outro lado, “comemorar de modo solene” significava, na
compreensão de Terci e Oliveira, renunciar às antigas formas de celebração da comunidade
negra nos anos imediatos após o fim da escravidão. Tratavam, assim, de “assumir a forma
circunspecta das comemorações cívicas oficiais”, fazendo com que “a burguesia que, desde a
Senzala, jamais suportara as manifestações da cultura negra”, cedesse espaço e até elogiasse a
atitude dos sócios dessa agremiação7.
Neste sentido, já na primeira celebração da “Sociedade Beneficente Antônio
Bento”, em 1902, é possível notar a diferença de tratamento entre a festa que promovem e a
de outros negros. Primeiro, a comemoração da Sociedade foi notícia desde o dia 8 de maio,
quando a Gazeta de Piracicaba divulgou o convite que recebeu e, a partir de então, seu
programa foi regularmente publicado até o dia da festa, pelos dois periódicos da cidade. No
dia 14 de maio, o Jornal de Piracicaba publicou um relato de como foi o evento, que em sua
opinião fora feito com “brilhantismo” e tivera “um bem organizado préstito”, uma “garbosa
passeata”, além da participação de representantes de outras sociedades, políticos e jornalistas,
que puderam proferir discursos8. A Gazeta de Piracicaba também narrou a celebração,
afirmando que a data fora “entusiasticamente festejada”, e elogiando a “brilhante

4
CALINDRO, Ana Regina Vaz. A Colocação dos Pronomes clíticos em O Patrocínio: periódico da imprensa
negra de Piracicaba. Dissertação de mestrado, USP, Departamento de Letras, São Paulo, 2009, p. 31.
5
“Amanhã”. Gazeta de Piracicaba, 12 mai. 1904, p. 2.
6
TERCI, Eliane Tadeu; OLIVEIRA, José Flávio de. “História e memória negra na região de Piracicaba: a
Sociedade Beneficente 13 de Maio”. Impulso, Piracicaba, Ano 3, nº 5, p. 5-20, 1º sem. 1989, p. 14.
7
Idem, pp. 14-15.
8
“13 de Maio”. Jornal de Piracicaba, 14 mai. 1902, p. 1.
74

comemoração”, a “magnifica comemoração, levada a efeito pela esforçada sociedade” e, por


isso, seus membros mereciam a congratulação da folha9.
Os elogios e as longas descrições das festas pelo 13 de maio não eram comuns.
Geralmente as festividades em homenagem à Abolição não eram noticiadas e, quando
apareciam nas páginas de jornais, eram em pequenas notas. Na edição do dia 15 de maio da
Gazeta de Piracicaba, no entanto, os comentários sobre a festa da Sociedade ocuparam cerca
de duas partes de uma página do periódico, que era dividida em seis partes. Além dessa
notícia, o jornal informava ter havido outra celebração no Largo de São Benedito, com missa
na igreja daquele orago, sambas e batuques, que “incomodaram a vizinhança nas noites de 12
e 13”, sem que se tivesse registrado “nenhuma desordem”10.
Apesar de não mencionar a cor de pele dos festeiros, a descrição se parece com as
festas organizadas por “libertos” em 1888 e 1889 na cidade11. O contraste na menção aos
festeiros mostra que os membros da “Antônio Bento” adquiriram a respeitabilidade frente a
sociedade piracicabana porque festejavam a Abolição civicamente, usando o momento para
ensinar e aprender aspectos da história do país através de discursos, como diziam os jornais.
Ao contrário dos sambas e batuques que “incomodavam”, os foguetórios ao alvorecer e a
passeata com as bandas musicais eram vistos como um chamado ao patriotismo e só
mereciam elogios, sem nenhum tipo de censura, porque desta maneira os homens de cor
demonstravam saber como uma celebração devia ser realizada. Então, é fato que a solenização
das festas de 13 de maio, principalmente, foi uma estratégia desses negros para ganhar a
simpatia dos setores mais abastados da cidade, contudo, não é possível afirmar que houve
abandono de antigas formas de celebração. O rito da passeata se assemelha às procissões
religiosas feitas por irmandades e as duas celebrações de 1902 estiveram em espaços muito
próximos à noite, sendo possível a presença de membros da “Sociedade Beneficente Antônio
Bento”. Além disso, nos bailes e quermesses dos anos de 1920 e 1930, tocava-se sambas e
tambú (espécie de jongo que ainda é presente na cidade)12. Ao invés de renúncia, como
sugeriram Eliane Tadeu Terci e José Flávio de Oliveira, tudo indica que houve readequação
das antigas formas de celebração porque, como se pode notar na diferença de tratamento das
duas celebrações, sambas e batuques não gozavam de prestígio.

9
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 15 mai. 1902.
10
Idem.
11
“Festejos da Liberdade”. Gazeta de Piracicaba, 12 jun. 1888; “Festas dos Libertos”. Gazeta de Piracicaba,
13 mai. 1889, p. 1.
12
Ver Livro de Atas n. 2 (1921-1929) e Livro de Atas n. 3 (1936-1946). Arquivo Histórico da Sociedade
Beneficente 13 de Maio. Piracicaba.
75

Readequações aparecem nas diversas associações de homens de cor do Brasil, isso


porque seus dirigentes tentavam inculcar nas populações negras comportamentos que as
afastassem dos estereótipos atribuídos aos negros, a fim de se livrarem de perseguições
policiais, interdições, preterimento e qualquer outra forma de discriminação. Neste combate à
estereotipia negra, discutida no capítulo anterior, seus dirigentes criaram um forte controle de
comportamento que pode ser lido em seus estatutos e nas críticas da Imprensa Negra. Para
fazer parte da “Sociedade Beneficente Antônio Bento”, o candidato precisava ter “noção do
que” fosse “respeitabilidade e cumprimento de seus deveres”13. Vários pesquisadores
interpretam a discussão sobre a respeitabilidade dos negros como aburguesamento ou
elitização de uma parte deles, e, até mesmo, como decorrência da adoção de ideais de
branqueamento. A primeira interpretação pode ser considerada uma análise clássica do
assunto, segundo a qual somente um grupo seleto de pessoas negras participava das
associações de homens de cor e tentava se distinguir através de seu comportamento, roupas e
ocupação fixa.
Para Julio César da Rosa, as exigências das sociedades negras para que seus
membros tivessem uma “situação conjugal estável, e o trabalho”, permitiram que elas
mantivessem “certo status com seleto número de sócios, que mesmo sendo trabalhadores de
poucas posses tinham com seu trabalho a garantia de pagar a mensalidade e frequentar as
atividades dos clubes”. Dessa maneira, seus sócios se destacavam “da situação econômica e
cultural de outros/as afrodescendentes” e podem ser considerados como pertencentes a uma
“elite negra”. O historiador concorda que “os espaços de sociabilidades e lazer” foram
atuantes no processo de integração das populações negras, uma vez que criaram códigos de
condutas visando romper com os estereótipos e dar respeitabilidade a seus integrantes, “as
sociedades recreativas” eram “parte de um conjunto de instrumentos de vigilância que tinha
como objetivo manter a dignidade de suas agremiações à custa do controle de seus membros”
em âmbito público e privado. “Para sobreviver, ser respeitado”, diz o autor, “havia a
necessidade de apropriar-se de alguns padrões culturais hegemônicos”, sem que isso
significasse renúncia total da cultura de matriz africana, e sim uma possível ressignificação14.
Ele encontrou um exemplar dos códigos de conduta da cidade de Laguna na biblioteca da
“Sociedade Recreativa União Operária”, por isso sugere que a apropriação poderia ocorrer

13
Sociedade Beneficente Antônio Bento. “Estatutos da Sociedade Beneficente Antônio Bento”. Livro de Atas n.
1. Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio. Piracicaba, 1901.
14
ROSA, Julio César da. “Espaços de Sociabilidade: abordagens acerca das sociedades de afrodescendentes”.
Revista Tempos Acadêmicos, nº8, 2010, p. 07.
76

através da sedução e/ou de coerção, porque também significava na prática uma adequação a
lei15.
Os depoimentos de mulatos que frequentavam a “Sociedade Recreativa União
Operária” e de pretos que compunham o “Clube Cruz e Sousa”, em Laguna/SC, colhidos por
ele, sustentam a ideia de clubes formados por elites negras. No entanto, seus informantes são
antigos membros das duas associações que poderiam aproveitar as entrevistas para reforçar o
pertencimento a uma elite. Além disso, não fica evidente em sua pesquisa quais seriam as
distinções entre os “afrodescendentes” que participavam dos clubes (e compunham a elite
negra) e a “massa”. Ele apresenta quadro de profissões dos membros dos dois clubes
pesquisados, mas não apresenta o quadro geral de empregos que os negros costumavam ter
naquela cidade. De toda forma, sua pesquisa permite entender a busca pela respeitabilidade
como uma forma de luta, que no limite formulou e reforçou identificações raciais distintas
entre as “populações afrodescendentes”. Os membros do “União Operária” se
autodenominavam mulatos, enquanto os considerados pretos ocupavam o “Cruz e Souza”,
ambos fizeram isso para se distanciar do estereótipo do negro e tinham muito zelo com a
conduta pública.
Para Fernanda Oliveira da Silva, as associações negras foram usadas para a
constituição de “uma identidade negra positiva”. Ao examinar as agremiações negras de
Pelotas, a autora conclui que, através de diversões e sociabilidades, seus dirigentes teriam
construído uma comunidade “que unificaria um todo” mas também havia divergências “que
demarcariam o nós e o eles dentro do grupo”, que ela caracteriza como um “movimento social
negro”, que reconhece a discriminação racial, a desvantagem econômica e tenta inculcar
valores em todos os membros da raça16. Ela concorda que estes valores poderiam vir de uma
assimilação daqueles defendidos pelos setores dominantes, “compostos predominantemente
por brancos”, porém eles também podiam mesclar “esses elementos em busca de via
alternativa de sobrevivência e inserção na sociedade brasileira”17.
Em sua tese de doutorado, apresentou particularidades locais para questionar a
ideia de “elite negra”. Havia diferenças entre “as pessoas que constituíram e mantiveram os
clubes” e “as outras pessoas negras, em termos de acesso a direitos ou mesmo no quesito

15
ROSA, Julio César da. Sociabilidades e territorialidade: a construção de sociedades de afrodescendentes no
sul de Santa Catarina (1903/1950). Curitiba: CRV, 2019, p. 86.
16
SILVA, Fernanda de Oliveira. Os Negros, a constituição de espaços para os seus e o entrelaçamento desses
espaços: associações e identidades negras em Pelotas (1820-1943). Dissertação de mestrado, PUC/RS,
Departamento de História, Porto Alegre, 2011, p.109. Grifos do original.
17
Idem. p. 131.
77

estabilidade/garantia financeira”, porém o conceito de elite “serve mais para homogeneizar


um grupo negro desde uma ideia de completo afastamento da marginalização na sociedade
(…) do que para observar diferenças e similaridades” nas ações contra o racismo e à
racialização. Situações de dificuldades financeiras que chegavam a interromper o
funcionamento de clubes e/ou jornais, demonstram que viviam “a partir de condições que em
nada se assemelhavam a elite”. Sobre códigos de posturas e valores compartilhados, a
historiadora entende que seu compartilhamento não transformava o grupo em homogêneo, e
sim que acontecia porque “visavam contrapor as críticas e estereótipos que recaíam sobre
eles, e que justificavam o impedimento da entrada em outros clubes”18.
Nas pesquisas de Beatriz Ana Loner19, Lorena Gil20 e Nara Regina Dubois de
Jesus21, a relação direta entre os sócios de clubes e a elite negra é relativizada. De acordo com
as pesquisadoras de entidades do Rio Grande do Sul, poucas sociedades negras eram vistas
como sendo de elite por outros negros, que também participavam do mundo associativo,
como o cordão carnavalesco “Fica Aí para ir Dizendo” e a “Sociedade Beneficente Floresta
Aurora”, das cidades de Pelotas e Porto Alegre respectivamente. Através de análises de
depoimentos de pessoas que frequentavam ou não clubes negros, é possível perceber que
havia diferentes valores de mensalidades e graus de rigidez quanto às roupas entre as
agremiações, o que fazia com que a diferença fosse financeira “para poder atender todas as
exigências, especialmente de vestuário e participação social”22. Em muitos casos, a “elite
negra” morava no mesmo bairro e tinha a mesma ocupação que a “massa de negros”; mesmo
frequentadores do “Fica Aí” e da “Floresta” tentavam se distinguir dos demais membros.
Assim, negros que pertenciam aos “clubes populares” frequentavam festas de outras
entidades, até mesmo da “elite negra”, mas quem era dos “clubes das elites negras” não
frequentavam festas das coirmãs.

18
SILVA, Fernanda de Oliveira. As Lutas Políticas nos Clubes Negros: culturas negras, racialização e
cidadania na fronteira Brasil-Uruguai no Pós-Abolição (1870-1960). Tese de Doutorado, UFRGS,
Departamento de História: Porto Alegre, 2017, pp. 186-187. Grifos do original.
19
LONER, Beatriz Ana. Classe Operária: mobilização e organização em pelotas: 1888-1937. 1999. Tese de
Doutorado, UFRGS, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Porto Alegre, 1999.
20
LONER, Beatriz Ana; GILL, Lorena de Almeida. “Clubes Carnavalescos Negros na Cidade de Pelotas”.
Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 35, nº 1, pp. 145-162, jan.-jun., 2009.
21
JESUS, Nara Regina Dubois de. Clubes sociais negros em Porto Alegre - RS: a análise do processo de
recrutamento para a direção das associações Satélite, Prontidão e Floresta Aurora, trajetórias e a questão da
identidade racial. Dissertação de Mestrado, UFRGS, Departamento de Sociologia, Porto Alegre, 2005.
22
LONER, Beatriz Ana. “A rede associativa negra em Pelotas e Rio Grande”. In: SILVA, Gilberto; SANTOS,
José Antonio; CARNEIRO, Luis. (Org.). RS Negro- Cartografias sobre a produção do conhecimento. Porto
Alegre: EdiPUCRS, 2008, p. 254.
78

Para Petrônio Domingues, no entanto, é possível afirmar que, em alguns casos, a


adoção de determinadas posturas que caracterizavam uma elite negra significou uma tentativa
de branqueamento. Segundo o historiador, havia um “branqueamento moral e/ou social” que
pode ser entendido como a “aquisição ou assimilação pelo negro de atitudes e
comportamentos presumivelmente ‘positivos’ do branco”23.

Para se afirmar nos valores considerados nobres pela sociedade inclusiva, o negro
não devia ingerir bebida alcóolica, assim como não devia jogar, drogar-se,
frequentar o ambiente da malandragem. Pelo contrário, devia defender sem tréguas a
moral e os bons costumes da classe dominante, ser religiosamente católico, honrado,
regrado e cumpridor de seus deveres. Condenava-se a boemia, a prostituição, as
religiões de matriz africana, a prática da capoeira, o samba, enfim, o negro devia
possuir um comportamento puritano24.

Apesar de reconhecer que o puritanismo esteve presente em outras organizações e


era um fator importante para a ascensão social, o autor sugere que alguns negros optaram por
propagá-lo, “em vez de despirem o caráter racista desta ideologia”. Ele considera que “uma
fração da população negra em São Paulo no início do século XX aceitou conceber-se nos
moldes impostos pela ideologia racial da elite branca”, porque acreditava que o processo de
branqueamento era um “fenômeno natural e inevitável”25. Como já apresentado no capítulo
anterior e por outras pesquisas sobre pós-Abolição, as populações negras eram altamente
vigiadas e algumas práticas culturais de matrizes africanas foram proibidas por leis, então
evitá-las significava não ter problemas com a polícia. E o autor concorda que a assimilação
dos valores positivos brancos ocorreu através de perseguições aos negros. Entretanto, ele
desconsidera a aceitação desses valores como uma estratégia de alguns negros contra essa
situação.
Em livro recente em que faz um balanço sobre temas e estudos sobre populações
negras em São Paulo, Petrônio Domingues indica que essa dicotomia entre negros da elite e
da plebe não se sustenta quando se observa algumas trajetórias e as relações entre os negros:
havia membros da dita elite frequentavam espaços criados pela plebe e os da plebe fundaram
espaços similares aos da elite26. Lívia Maria Tiede já tinha apontado para esta situação. A

23
DOMINGUES, Petrônio. “Negros de Almas Brancas? A ideologia do branqueamento no interior da
comunidade negra em São Paulo, 1915-1930. In. Estudos Afro-Asiáticos, ano 24, nº03, 2002, p. 574.
24
Idem. p. 576-7.
25
Idem. p. 573.
26
DOMINGUES, Petrônio. Protagonismo Negro em São Paulo: história e historiografia. São Paulo: SESC,
2019, pp. 85-89.
79

historiadora afirma que, apesar de os homens de cor não gostarem de ser tratados como os
“negros desqualificados” e tentarem estabelecer uma distinção entre eles, nunca houve uma
separação física entre eles. Participantes das sociedades recreativas e beneficentes,
geralmente, moravam nos mesmos bairros que outros negros considerados inaptos para
frequentar esses espaços na cidade de São Paulo. Para a historiadora, a aptidão para ser ou não
sócio das sociedades negras estava atrelada somente ao comportamento público e a ideia de
pertencer a uma “elite negra” não estava presente, apesar de os nomes das entidades
sugerirem isso. E a expressão “homens de cor” poderia ser a construção de uma identidade
racial com “uma postura política que fazia frente à imagem do negro vadio” que era
constantemente reproduzida por jornais da época27. Neste entendimento, a busca por um
comportamento adequado era uma forma de luta contra o racismo. Algo similar ao que
Francisco Foot Hardman sugeriu ao tratar da respeitabilidade entre operário. Para o autor esta
aspiração poderia “se dar em sentidos antagônicos, seja buscando a conciliação de classes,
seja demonstrando as capacidades e o potencial de uma direção revolucionária”28.
Ao que tudo indica, nas cidades de Campinas e Piracicaba as agremiações negras
buscaram unificar seus pares de diferentes formas, oferecendo-lhes ajuda mútua, diversão e
atividades esportivas, principalmente. Pode-se dizer que seus dirigentes assimilaram valores
das classes dominantes e tentaram positivar a imagem que se tinha das populações negras. No
entanto, esses valores eram parte da modernização republicana que estava sendo imposta na
época por meio de leis e da repressão policial aos setores mais pobres. Além disso eles
compreendiam que alguns negros agiam mal, assim como alguns brancos, e que era preciso se
afastar deles e do que representavam através de um outro comportamento. E assim o fizeram
por meio de seus trajes, dos lugares que ocuparam e, também, dos termos usados em suas
identificações. Se os vocábulos preto, negro e mulato foram muitas vezes usados para
identificar malfeitores, a expressão homem de cor era usada em momentos de demonstração
de respeito, para se referir aos negros que sabiam se portar adequadamente, de acordo com os
códigos de postura da época. Estes eram os negros que estavam nas agremiações.
Desta forma, concordo com Lívia Maria Tiede, que a busca pela respeitabilidade
foi, acima de tudo, uma ação política, que visava desassociar alguns estereótipos das
populações negras, como a vadiagem e prostituição. Conforme discutido no capítulo 1, essa
estigmatização aparecia nas teorias científicas e acadêmicas, no cotidiano através de jornais e

27
TIEDE, Lívia Maria. Sob suspeita: op. cit. p. 70.
28
HARDMAN, Francisco Foot. Nem Pátria, Nem Patrão! memória operária, cultura e literatura no Brasil. 3ª
ed. ver. ampl. São Paulo: Editora UNESP, 2002, p. 59.
80

canções populares, diante desse contexto desfavorável, que incluía perseguições policiais,
tentaram demonstrar aos diversos setores da sociedade que sabiam agir corretamente de
acordo com os padrões estabelecidos. Outra estratégia criada para alcançar o respeito público,
foi a utilização da identificação homens de cor, que não era mais um sinônimo de preto ou
negro. Ao contrário. Até meados da década de 1920, essas duas identidades eram antagônicas.
A partir das fontes consultadas, é possível afirmar que os homens de cor adotaram
um rigoroso sistema de vigilância de comportamento porque acreditavam que se agissem de
maneira respeitosa não poderiam ser discriminados por sua cor de pele, contudo, logo
perceberam que isto não era suficiente para evitar as práticas discriminatórias e passaram a
denunciá-las. No seu entendimento, qualquer atitude contra as populações negras era
igualmente uma ação antipatriota, que não respeitava a história e identidade nacionais,
formadas por brancos, negros e indígenas, com diferentes contribuições, mas sem hierarquias.
A conquista da respeitabilidade não se limitava aos trajes e comportamentos
adequados, era preciso também que a associação funcionasse de acordo com as outras
sociedades da cidade. Por isso, em setembro de 1902, os sócios da “Sociedade Beneficente
Antônio Bento” aceitaram doar 50 mil réis dos recursos da associação para auxiliar a
reconstrução do teatro da cidade. Para convencer os associados, o tesoureiro disse que aquela
associação “não deveria permanecer indiferente diante deste exemplo”29, que era a campanha
do Jornal de Piracicaba junto às entidades da cidade para conseguir financiamento para a
obra. Este argumento era necessário porque a sociedade tinha dificuldades financeiras. Na
mesma reunião, o presidente foi autorizado a angariar pecúlio com pessoas que lhe pareciam
afeiçoadas à agremiação para confeccionar um estandarte, porque “sem esse símbolo uma
sociedade não pode se fazer representada”, então urgia que eles fizessem “todos os esforços
para o fim de obt[ê-lo]”30. A doação podia ser feita, já que, na reunião anterior, em 18 de maio
daquele ano, fora anunciado que a sociedade nada devia após a festa de 13 maio; ela havia
conseguido saldar dívidas anteriores e deixar em caixa 58.600 réis, ou seja, quase todo o valor
doado ao teatro31.
A dificuldade de manter uma reserva de dinheiro acontecia porque alguns sócios
desligavam-se da Sociedade, porque se mudavam da cidade ou não tinham condições de arcar
com as mensalidades, e outros continuavam vinculados, mas atrasavam os pagamentos. As
29
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Ata da Reunião de 28 de setembro de 1902”. Livro de Atas nº 1 (1901-
1913). Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio. Piracicaba, 28 set. 1902.
30
Idem.
31
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Ata da Reunião de 18 de maio de 1902”. Livro de Atas n. 1 (1901-1913).
Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio. Piracicaba, 18 mai. 1902.
81

dívidas dos sócios eram tão graves que as duas primeiras diretorias tiveram dificuldades para
preencher os cargos. A prestação de contas de 1902 foi a única que não apresentou déficit e,
para Eliane Tadeu Terci e José Flávio de Oliveira, os problemas de caixa foram determinantes
para que a sociedade não funcionasse regularmente e nem tivesse uma sede própria. Os sócios
costumavam se reunir em casas de amigos para realizar bailes e alugavam algum salão para as
festas de 13 maio.
Em 1908 os estatutos da associação foram reformulados e ela passou a ser
chamada por seu nome atual: “Sociedade Beneficente 13 de Maio”. E, além do novo nome, a
entidade modificou seus objetivos. Apesar de prestar homenagens à data da Abolição até os
dias de hoje32, ela se tornou em uma entidade de ajuda mútua. A entidade se propunha a
oferecer pagamento de diárias de 2$000 (dois réis), paga no acúmulo de quinze dias, “ao sócio
doente e impossibilitado de trabalhar, a que ser[ia] comprovado pela comissão de sindicância
e atestado de um dos médicos da sociedade”. Em caso de invalidez para o trabalho, “uma
pensão de 25$ mensais”, quando estivesse necessitado qualquer sócio poderia solicitar uma
ajuda de 20 réis, se fosse por enfermidade a contribuição poderia subir até 100 réis, além de
receber socorro médicos e farmacêuticos. Todos esses auxílios necessitavam de comprovação
e as situações de doenças se estendiam aos seus familiares. “O enterro do sócio que falecer em
um estado de reconhecida necessidade” também era de responsabilidade da associação. Havia
a intenção de “manter aulas e bibliotecas” e “proteger os sócios que fossem processados”33.
Dentre os auxílios que deveriam ser garantidos pela associação, percebe-se ela
desejava se adequar às necessidades do município. Ao longo da pesquisa nas atas das sessões
da Câmara de Vereadores foram encontrados pedidos de ajuda para custear serviços
funerários de algumas pessoas, principalmente de funcionários municipais, por parte de suas
viúvas; moradores de alguns bairros também pediam a criação de escolas naqueles lugares.
No ano de reorganização dessa sociedade, havia 28 escolas no município, de acordo com os
resultados dos exames finais, e destas somente três eram subvencionadas, as outras 25 eram
escolas municipais ou estaduais. Paula Christina Bin Nomelini afirma que propostas como as
apresentadas em 1908, evidenciam que “os trabalhadores reconheciam a diferença entre a
insegurança proporcionada pelo fato de serem trabalhadores (setor previdenciário) e a
insegurança vivenciada em função da ausência do Estado para garantir os direitos dos

32
Atualmente o clube festeja nos dias 13 de maio seu aniversário e seus sócios aproveitam o momento para
discursar sobre a abolição da escravatura e as condições das populações negras no Brasil.
33
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Estatutos da Sociedade Beneficente 13 de Maio”. Livro de Atas n. 1
(1901-1913. Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio. Piracicaba, 1908.
82

cidadãos (sistema de saúde)”. Entre os negros, “que promoviam ‘o engrandecimento da


raça’”, as inseguranças não se limitavam à condição de trabalhadores, “mas também ao fato
de serem negros” vivendo situações de exclusão social34.
A boa conduta e a moralidade reconhecidas continuaram a ser critérios
importantes de seleção dos sócios. Estar apto ao trabalho também era característica
preponderante nesse novo estatuto para a admissão na Sociedade. Para fazer parte do quadro
associativo, os candidatos deveriam estar “no gozo de saúde e não” ter “defeitos físicos que
[os] impossibilit[ass]em a trabalhar”, tinham que ser maiores de 12 anos, com autorização de
um responsável enquanto fosse menor de 15 anos, e tinham que ter menos de 60 anos 35. Terci
e Oliveira chamam a atenção para a similaridade dos critérios de admissão com a lei estadual
de recrutamento de trabalhadores estrangeiros, de 1906, que vedava a contratação de doentes
ou pessoas com alguma deficiência que as impedisse de trabalhar, bem como “dementes,
mendigos, vagabundos ou criminosos” e com mesmo limite de idade. Segundo os autores,
isso reforça a valorização do trabalho entre os homens de cor36. Mais do que isso,
considerando o contexto de criminalização à ociosidade, que, como pôde ser visto no primeiro
capítulo, foi fortemente associada às populações negras, criando e reforçando o estereótipo de
criminosas em potenciais, formar uma agremiação de trabalhadores significava se mostrar
diferente dessa imagem negativa. Ou seja, associar-se na condição de trabalhadores era um
passo fundamental para que esses negros se distanciassem dos rótulos de negros vadios,
desordeiros, ladrões, prostitutas e assassinos. E, por consequência, as lideranças dessas
entidades de trabalhadores tinham legitimidade para questionar qualquer forma de interdição
às populações negras.
A presença feminina aparece de forma explicita neste estatuto. “As mulheres,
esposas ou não dos sócios”, também poderiam participar da agremiação, inclusive a diretoria
nomearia “uma comissão de senhoras encarregadas da sindicância e visitas às sócias
enfermas”37. Em setembro de 1921, “tomaram posse do cargo de enfermeiras” as senhoras D.
Olympia de Campos, D. Leopoldina Ferraz, Guilhermina B. Gentil, secretariadas por Antônia

34
NOMELINI, Paula C. Bin. “Mutualismo em Campinas no início do século XX: possibilidades para o estudo
dos trabalhadores”. Revista Mundos do Trabalho, v. 02, pp. 143-173, 2010, pp.149-150.
35
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Estatutos da Sociedade Beneficente 13 de Maio”. Livro de Atas n. 1
(1901-1913. Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio. Piracicaba, 1908.
36
TERCI, E. T.; OLIVEIRA, J. F. “História e memória negra na região de Piracicaba” op. cit. p. 17.
37
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Estatutos da Sociedade Beneficente 13 de Maio”. Livro de Atas n. 1
(1901-1913). Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio. 1908.
83

Gertrudes Ignacio38. Assim como em outras associações negras do Brasil, elas ocupariam o
lugar do cuidado, primeiramente controlando outras mulheres, agindo como uma diretoria
paralela que se reservava a observa-las; depois do cuidado sanitário geral. Talvez as
enfermeiras tenham sido a única forma de serviço médico prestado pela sociedade, que não
tem nenhum registro de posse ou parceria com algum clínico. Entre 1918 e 1929, o médico
André Ferreira dos Santos, conhecido como doutor Preto por ser negro, trabalhou na cidade,
porém não há nenhuma informação de que ele tenha sido sócio da “Sociedade Beneficente 13
de Maio”.

Figura 1. André Ferreira dos Santos, o dr. Preto


Monumento situado no Engenho Central, Piracicaba.
Disponível em http://fotoeahistoria.blogspot.com/2013/05/dr-preto-em-piracicaba.html
Acessado no dia 20 nov. 2019.

Outro fato merece destaque na posse das enfermeiras, somente a segunda fez uso
da assinatura a rogo, ou seja, eram quase todas alfabetizadas. Entre os membros das diretorias
e os participantes das assembleias poucas vezes alguém não assinou seu próprio nome, o que
significa que, pelo menos entre seus dirigentes, era uma entidade que se representava por
homens e mulheres com alguma instrução. Contudo, as constantes dificuldades financeiras
passadas pela entidade provam que os homens de cor piracicabanos também viviam “a partir
de condições que em nada se assemelhavam a elite”39.
Tratar da atuação de mulheres nas associações de homens de cor nas cidades de
Campinas e Piracicaba, no período estudado, foi um tanto difícil porque elas estão
38
Idem. Apesar da etiqueta informativa do primeiro livro de atas indicar que se encerra em 1913, há registros de
1914 e de 1921.
39
SILVA, Fernanda Oliveira da. As Lutas Políticas nos Clubes Negro op. cit. p. 186.
84

praticamente ausentes das fontes utilizadas. Isso contrasta com a situação vivida na capital
paulista no mesmo momento, onde elas têm associações próprias, quadros de damas, são
citadas como responsáveis por festas, passeios e piqueniques, marcam presença em eventos
dramáticos como atriz e recitadora de poemas e fazem discursos nas solenidades. Na
documentação recolhida nas duas cidades do interior, cita-se a participação feminina, seja
adulta ou criança, em momentos de homenagens; entregando flores aos oradores e/ou
convidados ilustres, declamando poemas, sendo congratulada, quando não servindo de
exemplo de boa conduta. No entanto, é possível perceber que estiveram associadas e que não
foram só espectadoras dos bailes, em menções breves como as do estatuto da “Sociedade
Beneficente 13 de Maio” se nota que elas tinham cargos importantes para que as associações
prestassem serviços aos sócios.
Segundo as informações colhidas em entrevistas por Terci e Oliveira, a mudança
de nome foi mais um ajuste necessário para a sobrevivência deste espaço de sociabilidade.
Antônio Bento foi uma figura política que se destacara por métodos considerados radicais na
luta pela libertação dos escravos, por isso “não era visto com ‘bons olhos’, até mesmo pelos
próprios abolicionistas” que “entendiam que sua prática punha em risco a construção da nova
sociedade do trabalho, que se queria livre, é verdade, mas essencialmente ordeira e branca”.
Famílias importantes que prestavam algum tipo de ajuda ao clube não gostavam da imagem
deste abolicionista, preferiam que fosse feita uma homenagem à data da Abolição, que na
época era o dia da fraternidade. Os autores apontam que se pode entender a decisão de mudar
de nome como um reflexo da “posição de subserviência dos negros; contudo, é possível
também pensar-se que este tipo de prática importou mais numa forma dissimulada da luta dos
negros contra a prática dos brancos, que por sua vez, também não era de embate direto”.
Assim, mudaram o nome para que ela continuasse existindo, “alterando aspectos formais”,
porém não mudaram “sua natureza essencial”40.
A adequação do nome pode explicar uma situação curiosa no registro da
comemoração de 13 de maio de 1908. Nele é dito que aquela era uma “sessão solene da
Sociedade Luiz Gama, digo, Sociedade Antônio Bento Beneficente”, em que se inauguravam
“os retratos dos obliteráveis Patriarcas da Liberdade – Antônio Bento e Luiz Gama”41. No dia
07 de maio a Gazeta de Piracicaba havia noticiado o programa da festa, informando que “às
seis horas da tarde sairão da rua Santa Cruz, nº 40 os sócios da Sociedade ‘Luiz Gama’ em

40
TERCI, E. T.; OLIVEIRA, J. F. “História e memória negra na região de Piracicaba” op. cit. pp. 16-17.
41
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Sessão Solene”. Livro de Atas n. 1 (1901-1913). Arquivo Histórico da
Sociedade Beneficente 13 de Maio. 13 mai. 1908.
85

marcha aux flambeaux, com destino à sede social, onde os aguardará o distinto orador dr.
Osório de Souza”42. O Jornal de Piracicaba também divulgou programa e anunciou que a
festa era da “Sociedade Luiz Gama” mencionando apenas que o retrato deste abolicionista
seria colocado na sede43. A omissão da informação sobre o quadro do patrono da agremiação
continuou na notícia de 15 de maio da Gazeta, que alterou o nome da sociedade para “13 de
Maio”44. Osório de Souza era promotor público e colaborador da Gazeta de Piracicaba, seu
discurso consta na ata da sessão solene, que também informa que os dois periódicos tiveram
representantes na celebração, logo a comemoração noticiada pelos dois veículos de imprensa
era da, ainda, “Sociedade Beneficente Antônio”. A ocultação do retrato do primeiro patrono e
a modificação do nome da sociedade podem ser entendidas como intencionais, provocadas
pelo descontentamento com a imagem do homenageado e, também, porque sabiam do
processo de mudança, antecipando os fatos.
Um ano antes, a festa de 13 de maio teria sido organizada pelas duas sociedades,
“Luiz Gama” e “Antônio Bento”, de acordo com a Gazeta de Piracicaba, enquanto para o
Jornal de Piracicaba somente a primeira entidade fora responsável pelo evento45; no livro de
atas não há registro algum no ano de 1907. No período entre 1900 e 1930, a “Sociedade Luiz
Gama” só foi mencionada nestes dois anos e nenhum outro registro foi encontrado sobre ela.
É possível que parte dos associados da “Sociedade Beneficente Antônio Bento” tenha criado
outra entidade quando ela estava em um momento de desarticulação por conta, entre outros
fatores, de sua nomenclatura e buscaram um patrono que não causasse desagrado. É
igualmente provável que houve a sugestão de tomar como patrono Luiz Gama e, até, com
força suficiente para causar a confusão no relator e alteração na imprensa. No fim, a data 13
de maio parece que trouxe o consenso e segue adotada até os dias de hoje como o nome da
agremiação. Entretanto, o episódio da alteração de nome sustenta a ideia de Terci e Oliveira
de que os homens de cor fizeram ajustes meramente formais e não na essência de sua
associação. Além de continuar a homenagem a Antônio Bento, em 1913 a sociedade
organizou uma conferência sobre a “Necessidade da evolução da raça negra no Brasil” e nas
festas de 13 de maio as exaltações à liberdade e a valorização da “raça negra” continuaram
sendo pautadas46.

42
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba. 05 mai. 1908, p. 2.
43
“13 de Maio”. Jornal de Piracicaba, 10 mai. 1908, p. 1
44
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba. 14 mai. 1907, p. 2.
45
“13 de Maio”. Jornal de Piracicaba, 21 abr. 1907, p. 2.
46
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Ata da Sessão Solene”. Livro de Atas n. 1 (1901-1913). Arquivo
Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio. 16 de ago. 1913.
86

Manter a sociedade ativa foi (e ainda é) o principal desafio de seus sócios. Nos
primeiros doze anos, as informações nos jornais e atas sobre a associação são basicamente
sobre realizações das solenidades pelo 13 de maio e formação de novas diretorias, que
ocorriam após as celebrações, com eleições anuais e diretas para cada cargo. Em nenhum
registro de votação foi encontrado alguma disputa entre chapas ou mais de um candidato
pleiteando algum cargo, muitas vezes faltaram pessoas para compor a diretoria, em outras
situações as diretorias foram alteradas antes do término da gestão por conta de desistência de
algum de seus membros. Casos de inadimplência também foram comuns e, apesar das
alterações nos valores das mensalidades, anistias ou parcelamentos das dívidas, as diretorias
não conseguiram solucionar os problemas das finanças da entidade. Nessas condições, o clube
foi desativado formalmente em 1914, sendo refundado somente em julho de 1921.
Depoimentos e notícias jornalísticas apontam, entretanto, que os homens de cor que
compunham o quadro associativo dessa entidade continuaram articulados.
Nos testemunhos coletados por Terci e Oliveira há filhos de antigos sócios que
sugerem que o fechamento do clube aconteceu por conta de divergências entre seus membros
sobre qual público alvo que deveria atingir. “Uns queriam que o 13 tivesse só sócios negros,
outros queriam que tivessem só mulatos; uns queriam que o 13 fosse frequentado só por gente
‘de bem’ e outros achavam que deveriam participar todos os negros independente da classe”,
então, de acordo com o que contou o pai do informante, a sociedade teria fechado por falta de
entrosamento47. Dona Oscarlina e Antônio Honório, que foram sócios do “13 de Maio” desde
os primeiros anos até a década de 1990, informaram que alguns homens de cor continuaram
com as atividades da associação, apesar de sua extinção. O antigo presidente afirmou que
primeiro os bailes aconteciam “na casa do seu Totó Miguel”, onde “nos cantos ficavam os
velhos” que acompanhavam suas filhas e conversavam “ah! Se nós tivéssemos uma
sociedade, que beleza! Todo mundo ia!”, então foi alugado uma “casa na Voluntários de
Piracicaba, entre a Rosário e a Tiradentes, onde era o antigo Dispensário dos Pobres”. Neste
espaço também aconteciam peças teatrais, enquanto as festas de 13 de maio eram celebradas
com batuque no Largo Santa Cruz. Dona Oscarlina frequentou o “casarão da Rua
Voluntários”, lembrando que o drama mais interpretado foi a “Arca de Noé”, que as festas
maiores aconteciam no Dispensário e as quermesses no Teatro Santo Estevão. Todo dinheiro
arrecadado foi usado para comprar um terreno e construir a sede própria, “mas só

47
Entrevista com filho de sócio, apud TERCI, Eliane Tadeu; OLIVEIRA, José Flávio. Sociedade Beneficente 13
de Maio: memória e cidadania. Piracicaba: Editora UNIMEP, 1991, p.14.
87

conseguiram juntar um bom dinheiro quando mudaram para a ‘Benjamin’ (…), na serraria de
Augusto e Henrique Richele, eles emprestavam para gente, foi graças a isso que conseguimos
juntar o dinheiro”48.
Nos jornais é possível perceber a articulação dos antigos sócios nesse período.
Desde 1913, as festas de 13 de maio aparecem como fruto de uma comissão de homens de
cor, sendo que a comissão daquele ano era a diretoria do “Treze”, enquanto os responsáveis
pela festa em 1914 eram os membros da diretoria eleita em agosto de 1913, o presidente
Vicente Teixeira, seu vice Firmino de Moraes Sampaio e o 1º secretário Felix João da Luz49.
Assim, a sociedade, em 1921, “reabriu porque a sociedade nunca ‘fechou’ na cabeça das
pessoas que a vivenciaram”50.
Em seu terceiro estatuto está exposto, pela primeira vez, que a sociedade devia
atender os interesses dos homens de cor. Os fins da “Sociedade Beneficente 13 de Maio”
eram “desenvolver a educação dos homens de cor, defender os seus direitos perante a lei,
socorrer os associados em casos de provada necessidade e promover comemorações cívicas
nas datas nacionais e nos dias comemorativos dos grandes feitos históricos” 51. Apesar de a
festa de 13 de maio não aparecer explicitamente, ela continuou como a grande atração da
entidade, contudo não era mais a sua principal fonte de renda. Quando a sociedade conquistou
sua sede própria pôde alugar o espaço para eventos de seus associados e pessoas de fora; ela
também tinha algumas barracas que eram usadas em quermesses e outras festas abertas para
vender alguns produtos, e a diretoria ainda conseguia arrecadar dinheiro alugando-as.
A refundação de 1921 foi feita por alguns sócios, como Felix João da Luz e
Firmino Costa que fizeram parte da diretoria em 1913-1914, e aparentemente nos anos
seguintes seus sócios estiveram engajados em efetivar o caráter beneficente e solucionar
problemas financeiros da entidade. Além de alugar seus bens, os membros do “13 de Maio”
tentaram conseguir isenção perpétua de impostos, por considerarem que a entidade era uma
sociedade beneficente, no entanto a solicitação foi indeferida em 1926. Ela não mantinha “a
suas custas asilos, hospitais, escolas ou colégios” conforme determinava a lei municipal 150

48
TERCI, Eliane Tadeu; OLIVEIRA, José Flávio. “História e memória negra na região de Piracicaba” op. cit.
p.18-19; TERCI, Eliane Tadeu; OLIVEIRA, José Flávio. Sociedade Beneficente 13 de Maio: op. cit. p 15.
49
“Festa de 13 de Maio”. Jornal de Piracicaba, 15 mai. 1913, p. 1; Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Ata de
Reunião para a Nova Diretoria”. Livro de Atas n. 1 (1901-1913). Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13
de Maio. 31 de ago. 1913.
50
TERCI, Eliane Tadeu; OLIVEIRA, José Flávio. Sociedade Beneficente 13 de Maio: op. cit. p.14.
51
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “2º Estatuto da Sociedade Beneficente 13 de Maio”. Livro de Atas n. 2
(1921-1929). Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio. 23 jun. 1921.
88

de 1921, que estabelecia o modelo de instituição beneficente52. Somente a partir dos anos 30
do século XX foi que a associação conseguiu criar escolas. Sob a liderança de Benedito José
Anastácio, que foi secretário e presidente por diversas ocasiões, a “Sociedade Beneficente 13
de Maio” fundou o “Curso Musical Luiz Gama”, uma escola de música em 1931, e o “Grêmio
Recreativo Luiz Gama”, em 1932, que era uma jazz-band. Em 1935, fundou um curso de
alfabetização de adultos, que durou até 1956. O senhor Anastácio também foi responsável
pela construção do atual prédio da sociedade, localizado à rua 13 de Maio, em 1943.

Figura 2. Fachada da sede atual da "Sociedade Beneficente


13 de Maio" à rua 13 de Maio n. 1188, Piracicaba.
Disponível em
https://www.expo.ifch.unicamp.br/portal/SB13/52 acessado
em 20 nov. 2019.

52
Câmara de Piracicaba. “Ata da 14ª Sessão Ordinária”. Livro de Atas da Câmara de Piracicaba de 30 jun. 1924
a 27 out. 1926. Departamento de Documentação e Arquivo da Câmara de Piracicaba. 20 set. de 1926.
89

Figura 3. Placa da diretoria responsável pela construção da sede da Sociedade Beneficente 13 de Maio

A “Sociedade Beneficente 13 de Maio” agregou diversas experiências das


populações negras da cidade, mesmo que elas se fizessem em outras associações. Entre 1926
e 1927, alguns de seus membros, sob a liderança de Alberto de Almeida, fundaram o jornal O
Patrocínio, que seguia práticas semelhantes às dos jornais negros da capital, denunciando
situações de discriminações e estimulando os negros a se educarem e superaram a condição de
subalternidade. Pelas edições preservadas, não é possível confirmar que o periódico mantinha
alguma ligação formal com a associação, somente que mantinham parcerias em eventos,
colaboração para sua publicação e que seus responsáveis acreditavam que a “Sociedade
Beneficente 13 de Maio” era um lugar privilegiado para as discussões dos problemas da
comunidade negra piracicabana.
O time de futebol “28 de Setembro” era outra entidade que mantinha relações
estreitas com essa sociedade. O grêmio esportivo surgiu nos finais dos anos 1920 e era
formado por atletas de cor, que participavam dos campeonatos de amadores da cidade e
região, além de excursionar pelo interior realizando amistosos, principalmente com
selecionados de homens de cor. Suas festas aconteciam na sede do “Treze” e nos jogos entre
combinados de pretos contra brancos, organizados nas festas em homenagem à Abolição, os
membros das duas associações de homens de cor se juntavam. Na verdade, segundo
informações colhidas n’O Patrocínio muitos dos atletas eram sócios da sociedade. Mais uma
vez a relação em sistema de parceria e não formal, somente na década de 1950 que a
90

sociedade beneficente formou um time próprio, o “Madureira Futebol Clube”, que chegou a
ter um campo próprio.
Além disso, entre 1958 e 1962 a sociedade beneficente publicava Nosso Jornal,
que discutia as atividades da entidade e militava contra a discriminação racial. Ela também
controlou três escolas de samba. A primeira em 1949, “Turma da Coroa 13 de Maio”, que
funcionou concomitante por pelo menos em um ano com a “Favela 13 de Maio”, de 1950, e a
última experiência registrada deste tipo foi em 1983, com a escola “Quilombo dos Palmares”.
Os concursos de beleza para mulheres negras foram outra atividade importante e constante em
suas dependências, seguindo as mesmas justificativas de outras instituições: elevar a
autoestima das moças e apresentá-las de forma positiva, em oposição às descrições e imagens
que se construíram no senso comum. Inovador era a coroação da “Mãe do Ano”, que
acontecia entre as décadas de 1970 e 1980. A esposa de Anastácio Vieira, dona Amália
organizava este evento porque a festa de 13 de maio acontece próximo ou no domingo em que
se celebra o dia das mães, então ela ganhava outro atrativo53.
Para Eliane Tadeu Terci e José Francisco Oliveira,

a ‘Sociedade 13 de Maio’ parece ter desempenhado papel fundamental na luta dos


negros em direção à conquista de espaços na sociedade piracicabana, seja por ter
propiciado condições destes exercerem cidadania ao participarem dos eventos
sociais ocasionais como um sujeito igual ao branco, seja por ter permitido preservar
de forma viva e livre certas tradições culturais que os identificava como membros
independentes de uma comunidade específica54

A “Sociedade 13 de Maio” conseguiu dar a seus componentes, e indiretamente


aos outros negros piracicabanos, a respeitabilidade almejada em seu primeiro estatuto, como
pôde ser verificada nas páginas da imprensa. Leandro Guerrini55 no Jornal de Piracicaba de
1920 escreveu: “a classe preta de Piracicaba, salvo pequena exceção, há muito que se tornou
um agrupamento que honra a cidade”. Isto porque ela não agia como o restante da “classe”,
que era formada por “gente que parece desunida por índole, formando uma casta
heterogênea”, que vivia “quase à parte da sociabilidade comum”, no entanto “a classe preta da
cidade e[ra]uma bonita exceção à regra”. Os pretos piracicabanos eram “perfeitamente
sociáveis e a prova disso esta[va] na pujança da Sociedade 13 de Maio, uma agremiação sem

53
TERCI, Eliane Tadeu; OLIVEIRA, José Flávio. Sociedade Beneficente 13 de Maio: op. cit. p. 20.
54
TERCI, Eliane Tadeu; OLIVEIRA, José Flávio. “História e memória negra na região de Piracicaba” op.
cit.p.19.
55
Foi diretor do periódico, jornalista e escritor, autor do livro História de Piracicaba em Quadrinhos.
91

favor algum das mais ricas de Piracicaba”. E o jornal O Patrocínio trazia benefícios também,
“forçando os interessados à leitura, traz[ia]-lhes, pouco a pouco, uma elevada intenção
moral”, que na opinião do articulista era “justamente o que ainda falta[va] um pouco à classe
negra do Brasil”56.
O texto de Guerrini é um elogio cercado da visão preconceituosa da época. Para
ele, os negros que frequentavam a “Sociedade Beneficente 13 de Maio” e publicavam O
Patrocínio tinham como grande mérito não se parecerem com os outros negros; seu
comportamento era uma exceção em relação às práticas geralmente associadas às populações
negras, e as duas organizações ajudando-os a se portar de outro modo, para conquistar o
respeito dos demais setores da sociedade piracicabana e permitir que superassem as
deficiências da “classe negra do Brasil”. Conforme já discutido, os homens de cor aspiravam
se diferenciar da imagem negativa atribuída às populações negras, por isso adotaram
comportamentos públicos que eram considerados aceitáveis pelos setores dirigentes. Os
esforços dos membros da “Sociedade 13 de Maio” para solenizar as festas de 13 de maio,
ajustar seus estatutos, oferecer serviços mutualistas e beneficentes foram fundamentais para
que fossem vistos como um grupo que honrava a cidade e se equiparava as outras entidades.

2.2 . Os Clubes Sociais Negros de Campinas


Na cidade de Campinas a experiência associativa dos homens de cor resultou em
mais entidades do que no município de Piracicaba. Com características diversas essas
agremiações chegaram a rivalizar entre si pela liderança na “defesa da classe”. Entre 1888 e
1930 houve pelo menos 23 associações de homens de cor no município, sem contar a
“Irmandade de São Benedito”, que apesar de ser um importante espaço de encontro das
lideranças negras, perdeu sua autonomia no processo de romanização do catolicismo em
meados do século XIX. Assim como o “13 de Maio” de Piracicaba, as agremiações
campineiras propiciaram às populações negras condições de exercerem a cidadania a partir da
participação em eventos sociais, da garantia do lazer e da instrução, do debate político dos
problemas da comunidade, e da inserção da memória negra na história do Brasil e, desta
maneira, alcançar a respeitabilidade entre os diversos setores da cidade. Por vezes, a
diversidade de atividades oferecidas pelas associações fazia com que elas funcionassem como
complementares e que uma pessoa frequentasse mais de uma entidade, entretanto as

56
GUERRINI, Leandro. Jornal de Piracicaba, 2 out. 1920 apud. ELIAS NETTO, Cecílio. Almanaque 200:
memorial de Piracicaba – século XX. Piracicaba: IHGP; Jornal de Piracicaba; UNIMEP, 2000, p. 123.
92

divergências sobre qual comportamento seria adequado para as populações negras fizeram
parte do cotidiano do associativismo negro em Campinas.

2.2.1 A Irmandade, o Colégio e o Centro Literário


Luiz Alberto Gonçalves, ao estudar as práticas educativas das populações negras
paulistanas na Primeira República, considerou que as irmandades religiosas eram uma espécie
de embrião para as “organizações políticas negras” do início do século XX, formando, através
da instrução, algumas de suas lideranças57. Apesar do caráter teleológico e evolutivo de sua
tese, ele tem um pouco de razão. Alguns trabalhos sobre a formação dos primeiros Clubes
Sociais Negros têm apontado que houve fortes relações entre as irmandades e os clubes na
formação dos últimos; muitas vezes elas foram a primeira forma de experiência dos negros
em organizações coletivas com algum tipo de assistência mútua58. Entretanto, a proliferação
de espaços laicos com esse tipo de serviço não pôs fim às entidades religiosas, o
funcionamento complementar desses dois tipos de agrupamentos foi o mais comum. Na
cidade de Campinas, isto é evidenciado na história da “Irmandade de São Benedito” e da
“Federação Paulista dos Homens de Cor”, que em diferentes momentos controlaram o
“Colégio São Benedito”.
A irmandade existe desde pelo menos 1835, e era destinada às pessoas que
identificadas como pretas, enquanto os mulatos frequentavam a “Irmandade de Nossa Senhora
do Rosário” e os brancos a “Irmandade de Santa Cruz”. Para Cleber Maciel e José Pereira
Galdino de Oliveira, ela sempre foi “um espaço de afirmação da submissão dos grupos
negros”59 e mais “uma forma de controle”, impedindo o culto aos ancestrais 60
; os autores
julgam que a presença de brancos em algumas de suas diretorias comprovam esta função.
Entretanto, a pesquisa de Regina Célia Xavier demonstrou que, contrapondo-se a setores do

57
GONÇALVES, Luiz Alberto Oliveira. “Negros e educação no Brasil”. In. LOPES, Eliane Marta Teixeira;
FARIA FILHO, Luciano Mendes de; VEIGA, Cyntia Greive. 500 anos de Educação no Brasil. Belo Horizonte:
Ed. Autêntica, 2000.
58
RASCKE, Karla Leandro. Samba, Caneta e Pandeiro: Cultura e cidadania no sul do Brasil. Curitiba: CRV,
2019; RASCKE, Karla Leandro. Irmandades Negras: memórias da diáspora no sul do Brasil. Curitiba: Appris,
2016; MAC CORD, Marcelo. Artífices da cidadania: mutualismo, educação e trabalho no Recife oitocentista.
Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2012; MÜLLER, Liane Susan. As Contas do Meu Rosário São Balas de
Artilharia: irmandade, jornal e sociedades negras em Porto Alegre – 1889-1920. Dissertação de Mestrado,
PUCRS, Departamento de História: Porto Alegre 1999; SAYÃO, Thiago Juliano. “As Heranças do Rosário:
associativismo operário e o silêncio da identidade étnico-racial no pós-abolição, Laguna (SC)”. Revista
Brasileira de História. São Paulo, v. 35, n. 69, pp. 131-154, 2015. Disponível em
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882015000100131&lng=pt&tlng=pt,
acessado em 20 nov. 2019.
59
MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações raciais op. cit. p. 98.
60
PEREIRA, Jose Galdino. Os negros e a construção da sua cidadania op. cit. p. 05.
93

clero e das elites que tentavam controlar os negros, estes usaram a irmandade para lidar com
problemas próprios e exercer o catolicismo a sua maneira61. Além disso, a escolha do santo
padroeiro estava ligada ao fato de sua trajetória de vida ser similar à dos irmãos, negros e
escravos, o que permitiu que a autora acreditasse que “os santos ocupavam, aliás, funções
similares aos ancestrais, ao intermediar o mundo do visível com o invisível”62.
Tal afirmação da autora se sustenta nas pesquisas sobre o mundo Atlântico que
chamaram a atenção para a existência de um catolicismo africano desde o século XV. John
Thornton aponta que o cristianismo foi aceito na África Central por conta dos pontos de
aproximação com as religiões locais, fazendo com que não fosse visto como uma nova
religião. Os rituais e símbolos católicos foram reinterpretados a partir das práticas culturais e
religiosas existentes anteriormente63. Na América, essa situação contribuiu para que os
africanos escravizados formassem um catolicismo popular próprio das irmandades negras. No
entanto, houve momentos em que a flexibilização da Igreja em relação aos rituais servia como
controle, em outros ela precisou ser rígida para estabelecer seu poder. Deste modo, a
irmandade foi um espaço de disputa de poder com negociações e conflitos constantes.
Assim como no caso de outras irmandades, a “Irmandade de São Benedito”
oferecia a seus membros ajuda financeira em casos de infortúnio; médica, quando estavam
enfermos; e nos funerais, organizando todos os ritos fúnebres e o enterramento. Além disso,
celebrava festas e prestava devoções ao padroeiro. Suas festas eram públicas e implicavam a
circulação de muitas pessoas pelas ruas da cidade, causando reclamações de fazendeiros
“sobre os perigos de se permitir a reunião de ‘pretos’”64. Elas passaram a ser mais controladas
na década de 1870, com o processo de urbanização da cidade e o aumento do controle dos
espaços públicos, porém não foram proibidas. Neste período, também, os irmãos se
esforçaram para construir a capela de São Benedito, algo que o mestre Tito de Camargo
Andrade se empenhava desde que comprara sua liberdade, em 1865. A obra pode ter sido
responsável pela diminuição das festas da irmandade, pois exigia mais gastos, contudo, ela foi
o epicentro da disputa com o clero.
A responsabilidade de construir capelas em homenagem aos santos de devoção
costumava ser das irmandades, mas isto mudou em Campinas quando o vigário Souza e

61
XAVIER, Regina Célia Lima. Religiosidade e escravidão no século XIX: Mestre Tito. Porto Alegre, RS:
Editora da UFRGS, 2008.
62
Idem. p. 143
63
THORNTON, John K. A África e os africanos: na formação do mundo atlântico, 1400-1800. Rio de Janeiro,
RJ: Elsevier, 2004.
64
XAVIER, Regina Célia Lima. Religiosidade e escravidão op. cit.
94

Oliveira tentou estabelecer “maior controle sobre a vida religiosa em sua paróquia, na
tentativa de reafirmar a autoridade de sua jurisdição”. Ele passou, então, a rivalizar com
mestre Tito publicamente pela liderança da execução da construção e, consequentemente, da
irmandade. A vitória foi de Tito que, até seu falecimento, em 1882, foi o responsável pela
edificação, que terminou cerca de três anos depois. O vigário foi se afastando do cotidiano da
irmandade, sofreu algumas acusações de uso indevido de verbas da igreja e se retirou da
paróquia de Campinas no início da década de 1880. A saída do vigário Souza de Oliveira não
pôs fim às tentativas de controle do clero sobre a irmandade.
A “Irmandade de São Benedito” foi caindo em ostracismo ainda na segunda
metade da década de 1870. Como as verbas eram destinadas à capela em construção, “as
festas já não aconteciam, e as missas pareciam ser excepcionais, ocorrendo somente em datas
especiais”, então, “ao não mostrar-se nas cores, músicas e danças de suas festas, no coro e
esplendor de suas missas semanais, na eleição de suas mesas administrativas e na definição de
seus cargos devocionistas”, ela foi desaparecendo da vida pública e cotidiana da cidade. No
funeral de Tito de Camargo Andrade, a irmandade não foi representada e em seu testamento
ele não “definiu ali sua mortalha nem a forma como queria que fosse realizado seu
sepultamento”, como os irmãos costumavam fazer65. Talvez este gesto tenha acontecido por
brigas internas ou porque de fato a irmandade não estivesse mais funcionando. Em todo caso,
sabe-se que em 1885 houve eleições para uma nova mesa administrativa e a irmandade voltou
a aparecer em público. Ao mesmo tempo, as formas de controle se tornaram mais agressivas.
Em 1906, por exemplo, a irmandade foi dissolvida porque a mesa administrativa se reuniu em
local estranho, contra a vontade do vigário e sem sua presença. Ele só permitiu a sua
reorganização, no ano seguinte, após a eleição de uma nova mesa e mudanças no seu
compromisso66.
Não foram encontradas informações sobre onde era o “local estranho” da reunião
da mesa, porém alguns irmãos também frequentavam a “Federação Paulista dos Homens de
Cor”, desde 1904. Esta instituição teria sido criada para solucionar o problema da falta de
autonomia que os irmãos tinham dentro da irmandade. Para José Galdino Pereira, esta era a
razão das brigas que se manifestavam na disputa pelo controle de uma escola e na rivalidade
entre o professor Francisco de Oliveira e o padre José de Almeida67.

65
Idem. p.325.
66
Idem.
67
PEREIRA, José Galdino. Os negros e a construção da sua cidadania: op. cit.
95

Em 1893, foi aprovado o projeto de construção de um anexo na Capela de São


Benedito onde seria construída a “Escola dos Libertos”. O pedido, feito pelo tesoureiro da
“Irmandade de São Benedito”68, é o mais antigo registro de um espaço de instrução da
irmandade. Três anos depois passou a funcionar a “Sociedade de Instrução São Benedito”;
Francisco Bueno de Miranda, que antes era tesoureiro da irmandade, tinha o mesmo posto na
sociedade. Os estatutos só foram registrados em 190269, com atas de reuniões dos anos
anteriores. Sua finalidade era manter uma escola para os membros da irmandade e seus filhos,
mas era uma organização independente da irmandade, apesar de ser formada por seus irmãos
e funcionar no mesmo lugar em que aconteciam suas reuniões. A criação dessa sociedade
tanto garantiu que o vigário não interferisse na escola, quanto deu a ele o poder de negar que
verbas da irmandade fossem utilizadas para financiá-la. Algo que aconteceu.
A “Escola de São Benedito”, como foi batizada a escola da irmandade, começou a
funcionar em 1897, com uma sala de turma mista regida pela “hábil e distinta” professora Ana
de Almeida70. Após um ano de funcionamento, ela conseguiu um colega e passou a oferecer
aulas para seções masculina e feminina. Apesar do aparente progresso nos anúncios
publicados nos jornais campineiros, o financiamento para a instrução era precário. Segundo
Galdino Pereira, os irmãos não podiam usar a verba arrecadada pela irmandade em suas
festas, que era prontamente repassada aos seus cofres por seu presidente, o padre Pedro dos
Santos, então eles passaram a esmolar separadamente pela cidade em prol do colégio71. Em
1903, a prática mudou, pois, além dos irmãos, os estudantes também passaram a esmolar e a
escola começou a organizar suas próprias festas para conseguir fundos.
A mudança ocorreu com a chegada do professor Francisco de Oliveira, em 1902.
De acordo com o depoimento de Benedito Evangelista, militante da “Federação Paulista dos
Homens de Cor”, Francisco José de Oliveira era um ex-seminarista mineiro, que lecionava em
Ribeirão Preto e, em uma visita à cidade, hospedou-se no estabelecimento de “um negro de
nome Francisco (Chico) Vilela”, frequentado por outros negros. Os membros da irmandade,
“ao descobrirem que o visitante era professor, tiveram a ideia de convidá-lo para criar uma
escola para alfabetizar os filhos dos homens de cor da cidade, aproveitando os fundos da

68
Escola da Irmandade de São Benedito. “Requerimento de construção e alinhamento pela rua Lusitânia”.
Campinas, Finanças Correspondências Interna. Arquivo Municipal de Campinas. 18 abr. 1893.
69
Sociedade de Instrução São Benedito. “A ata da sessão de instalação da sociedade de 8 de dezembro de 1896”.
1º Cartório de Registro de Imóveis e Anexos 13 out. 1902. Há uma notícia sobre matrículas em “Escola de S.
Benedito”. Cidade de Campinas, 23 jun. 1897, p. 3.
70
“Escola de S. Benedito”. Cidade de Campinas, 29 jun. 1897, p. 3.
71
PEREIRA, José Galdino. Os negros e a construção da sua cidadania op. cit.
96

Igreja de São Benedito, onde funcionava a escola de música”72. Em um esboço histórico da


escola, escrito pelo próprio docente, ele considerou que a ideia de construir uma escola ao
lado da capela era mais antiga. No evento de inauguração da capela, o senhor Torlugo de
Camargo lembrou que mestre Tito tivera a ideia de construir ao seu lado “uma casa de
educação, onde os filhos do homem de cor bebessem as luzes necessárias para as lutas a
vida”. Em seguida alguns irmãos conversaram sobre o assunto com Cônego Cipião, que
aderiu a ideia, mas, por motivos de doença, retirou-se da cidade antes de iniciar qualquer
obra73.
O esboço fazia parte da documentação enviada para seu registro, que foi também
publicado no jornal para legitimar as ações e importância da escola na sociedade campineira.
O texto também servia como resposta ao vigário. De acordo com José Galdino Pereira, a
relação entre o clérigo e o professor era tensa desde o começo74. Em poucos meses o professor
se tornou secretário da irmandade e passou a dirigir a escola. Logo a registrou em cartório e
nos órgãos competentes, depois deu visibilidade a ela, ao promover desfiles e festas abertas
com seus estudantes, ao passo que a irmandade passou a celebrar datas cívicas, como o 13 de
maio, junto com as celebrações religiosas.
A fundação do “Centro Literário dos Homens de Cor”, em 1903, seria, na
interpretação do autor, mais uma estratégia dos irmãos, liderados pelo professor, em busca de
autonomia75. Francisco de Oliveira, Benedito Florêncio e Torquato Braga eram membros da
irmandade e compuseram a primeira diretoria do centro, que era responsável pelo jornal O
Baluarte. Em seu estatuto é possível notar que as duas organizações podiam rivalizar em
serviços prestados aos homens de cor.
O “Centro Literário dos Homens de Cor” pretendia “socorrer seus sócios, quando
enfermos, dando-lhes médico, farmácia e despesas”; auxiliar os inválidos e “contribuir para os
funerais do sócio que falecer sem meios para o seu enterramento”; “educar gratuitamente os
sócios”, entre outros objetivos. Os programas do centro e de seu periódico também
evidenciavam que ambos buscavam atuar na defesa dos “interesses dos homens de cor, sem
distinção alguma de crenças religiosas e políticas”76. O endereço de funcionamento d’O
Baluarte e do centro literário era o mesmo do “Colégio de São Benedito”, rua General

72
Idem. p. 25-26.
73
OLIVEIRA, Francisco José de. “Esboço Histórico da Fundação da Capela de São Benedito e Colégio Anexo à
Mesma”. Cidade de Campinas, 19 mar. 1903, p. 2.
74
PEREIRA, José Galdino. Os negros e a construção da sua cidadania op. cit.
75
Idem. Ver especialmente seu capítulo 1.
76
“Projeto dos Estatutos”. O Baluarte, 15 nov. 1903, p. 3.
97

Carneiro, 153, e o colégio era também responsável por sua administração e redação, contudo
ele era “órgão oficial do ‘Centro Literário dos Homens de Cor’”. Tudo reforça a ligação entre
essas associações, mas a relação entre elas se fazia mais por conta de seus participantes.
Somente em 1910 foi que o controle do colégio passou a ser feito pela “Federação Paulista
dos Homens de Cor”, entidade que substituiu o centro cerca de um ano depois de sua criação.
Deste modo, o centro funcionava como uma entidade mutualista, provavelmente seus
fundadores tinham a intenção de que ele amparasse os irmãos naquilo que não lhes era mais
ofertado pela entidade religiosa, inclusive na questão racial. A preocupação com a educação
parece comprovar isto, porque apesar de a ideia inicial ter sido ofertar aulas para os membros
da irmandade e suas crianças, segundo as notícias coletadas, seus estudantes eram crianças e
não adultos.
A velocidade com que Francisco de Oliveira ascendeu na irmandade e pôs a
escola em evidência, junto com sua liderança na formação de uma associação mutualista para
homens de cor, permite concordar com José Galdino Pereira que julga que a presença dele
rivalizou, quase que instantaneamente, com o poder do vigário, presidente da mesa
administrativa. O autor pensa ainda que suas ações no colégio e na federação foram
responsáveis pela destituição da mesa em 1906. Um ano antes deste ato, o então secretário da
irmandade, Alberto Lencastre, informava que a escola que o professor pretendia edificar não
era “continuação da escola que a Irmandade mantém anexa a sua igreja”, lembrando que “a
este respeito, o presidente, o Revmo. Vigário desta paróquia, já deu sua informação” e
finalizava explicando que não faziam “esta declaração com o fim de prejudicar ninguém”,
queriam “somente salvar” a sua responsabilidade77. Este anúncio era importante porque neste
momento existiam na cidade dois “Colégio São Benedito”, um que funcionava no “vasto e
higiênico salão anexo à capela” do santo, onde o docente de cor Oscar de Moraes lecionava,
“sob a inspeção do zeloso reverendo vigário da Conceição”78, e o novo estabelecimento do
veterano professor79.
A explicação do secretário tentava desfazer qualquer confusão entre as duas
instituições, no entanto ela expunha uma disputa de poder. Para Francisco de Oliveira, seu
colégio era a continuação da escola da irmandade, porque junto com ele estavam outros
irmãos que compunham a “Sociedade de Instrução São Benedito”, inclusive o corpo
documental da escola da irmandade ficou em posse de Benedito Evangelista, que era membro

77
LANCASTER, Alberto. “Colégio S. Benedito”. Cidade de Campinas, 24 jun. 1905, p. 2.
78
“Irmandade São Benedito”. Cidade de Campinas, 18 jul. 1905, p. 1.
79
“Trabalhos Escolares – Colégio São Bendito”. Cidade de Campinas, 13 dez. 1905, p. 1.
98

da “Federação Paulista dos Homens de Cor”. Ou seja, o docente levou consigo a


documentação quando retirou o colégio do anexo da capela.
A relação entre a “Irmandade de São Benedito”, o “Colégio São Benedito” e o
“Centro Literário dos Homens de Cor/Federação Paulista dos Homens de Cor” aponta para a
busca dos homens de cor por espaços de autonomia, onde pudessem discutir seus problemas e
traçar caminhos para solucioná-los. O antigo espaço religioso não dava mais conta de seus
anseios, seja por conta das antigas hierarquias, que foram reforçadas no regime republicano,
quanto pelas novas exigências do período. As novas associações de homens de cor foram
organizadas com a participação de políticos da cidade, que se envolviam em suas atividades
públicas como forma de legitimação.
O surgimento de outros tipos de organização não significou que houve um
processo de evolução, em que uma forma de agrupamento substituiu a outra. Por exemplo,
Francisco de Oliveira faleceu como membro da “Irmandade de São Benedito” – registro que
indica que ele talvez tenha saído da irmandade e voltado a ela ou que nunca tenha dela se
desligado. No jornal negro em que Benedito Florêncio trabalhou na década de 1920, há várias
referências à irmandade como um espaço importante para os homens de cor; no Largo São
Benedito eles festejavam, na igreja celebravam as missas e seus membros estavam nas
comissões de diversas celebrações. A entidade religiosa ganhou, assim, uma nova função ao
lado das outras organizações.

2.2.2. Outras associações de homens de cor


Paula Christina Bin Nomelini considera que os trabalhadores se organizaram em
espaços mutualistas de caráter “humanitário” porque tinham a intenção de associar as
“inseguranças do trabalho assalariado (doenças, acidentes e morte) à sua condição de
trabalhador dentro da sociedade campineira”, e no caso dos negros, as inseguranças
vivenciadas não se limitavam à condição operária, “mas também ao fato de serem negros”80.
Em uma cidade como Campinas, onde os jornais eram repletos de anúncios de emprego em
que se preferiam mulheres brancas ou estrangeiras, entidades que fizessem a relação entre
raça e trabalho eram fundamentais para a ascensão social das pessoas negras. Portanto,

80
NOMELINI, Paula C. Bin. “Mutualismo em Campinas no início do século XX op. cit., p. 148 e 150. De
acordo com a autora, o termo “humanitária” era usado por associações como um modo de se diferenciar daquelas
que se adjetivavam como “beneficente”. As primeiras, prestariam “auxílio financeiro aos associados, enquanto
as beneficentes (ou mesmo denominadas socorros mútuos) podem prestar auxílio financeiro, oferecer serviços
médicos, farmacêuticos ou hospitalares, abrangendo uma atuação mais ampla”. NOMELINI, Paula Christina
Bin. Associações operárias op. cit., p. 95.
99

quando os membros da “Irmandade de São Benedito” fundaram o “Centro Literário dos


Homens de Cor” reconheciam as inseguranças de ser trabalhador e ser negro, porque em seus
estatutos já trazia uma chamada racial em seu nome e propunha “procurar emprego para os
sócios que fo[ss]em dignos desta proteção”81. Essa não foi a única organização a associar a
dupla insegurança vivida pelas populações negras.
Infelizmente, muitas das sociedades criadas por negros na cidade não deixaram
registros de suas atividades, sabe-se delas por causa de citações em periódicos e almanaques
históricos.

Tabela 1 – Associações de Homens de Cor de Campinas (1888-1931)

Nome Período de Tipo de


atividade associação
Flor da Mocidade Anterior 1888- ---
década de 1920
Filhas de Averno 1888-1895 ---
Sociedade Beneficente Luiz Gama Beneficente/
18/05/1888
Ajuda mútua
Sociedade 13 de Maio Beneficente/Ajuda
1890
mútua
Violeta 1895 ---
Estrela do Oeste 1895 ---
Sociedade de Auxílio Mútuos Isabel, a Redentora 1898 ---
Sociedade Beneficente Isabel, a Redentora 03/09/1899- Beneficente/Ajuda
década de 1970 mútua
Sociedade Dançante Familiar União da Juventude* 1901-1922 Recreativa
Centro da Federação Paulista dos Homens de Cor 1902 ---
Centro Literário dos Homens de Cor Beneficente/Ajuda
1903-1904
mútua
Federação Paulista dos Homens de Cor Beneficente/Ajuda
1904-
mútua
Centro Recreativo Dramático Familiar 13 de Maio Recreativa/Dançan
1909-1919
te/Dramática
Filhos do Progresso 1910-1918 Dançante
Sociedade Recreativa Familiar Estrela do Norte 1912 Recreativa
Elite 1912 Dançante
Liga Humanitária dos Homens de Cor 1915-atual Beneficente
Sociedade União Cívica dos Homens de Cor 1915 Cívica
Club Recreativo 28 de Setembro 1916-1917 Recreativa
Grêmio Recreativo Dançante Estrela Celeste 1916-1917 Dançante
Estrela do Norte 1916-1920? Dançante
Grêmio Recreativo Dançante Familiar José do 1917 Dançante/Recreati
81
“Projeto dos Estatutos”. O Baluarte, 15 nov. 1903, p. 3.
100

Patrocínio va/Futebolístico
Liga Protetora dos Homens de Cor 1917 Educativa
Associação Protetora dos Brasileiros Pretos 1918 Beneficente
Aliados 1918-1923 Dançante
Grêmio Dramático Luiz Gama 1919-1924 Dramática
Excêntricos 1914 Carnavalesca
Flor da Mocidade 1920
Sociedade Dançante Princesa do Oeste Dançante/
Carnavalesca
Centro Cívico dos Homens de Cor 1922 Cívica
Sociedade Campineira dos Homens de Cor 1922
Grupo Carnavalesco dos Camisas Verdes 1923 Carnavalesca
Associação Campineira dos Homens de Cor 1923
Centro Cívico Palmares 1926 Cívica

Fonte: MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações Raciais op. cit.; NOMELINI, Paula Christina Bin.
Associações operárias op. cit.; Arquivo Histórico do Centro de Memória da Unicamp; Arquivo Municipal de
Campinas.
* Também chamada de “Sociedade Dançante União Faz a Força”

A maioria das associações era de cunho recreativo e dançante, o que significava


que ofereciam bailes, geralmente, semanais e lazer, como jogos lícitos, viagens, piqueniques e
festas. Estas práticas foram vistas como de menor importância quando comparada às ações
beneficentes, ajuda mútua, instrutivas, dramáticas e cívicas, consideradas pela bibliografia
tradicional como políticas. Entretanto, os encontros para se divertir também eram usados para
vender jornais, ouvir palestras de cunho político e, principalmente, para arrecadar dinheiro
usado nos serviços mutuais e beneficentes. Como afirma Cleber da Silva Maciel, “os
inúmeros piqueniques, excursões, bailes, grupos teatrais, esportivos e musicais e outras
formas de ação coletiva são espaços onde as questões raciais são assuntos obrigatórios”, junto
com outros temas que diziam respeito à sobrevivência cotidiana82. Além disso, esses espaços
foram construídos por conta das interdições aos negros praticadas por outras entidades na
cidade. Desta maneira, a própria existência delas era uma prática política, porque concedia às
populações negras o direito à diversão.
Assim como em Piracicaba, as associações de homens de cor de Campinas se
pautavam pela respeitabilidade de seus sócios, sendo rígidos na vigilância das condutas dentro
e fora de seus espaços. A “Sociedade Dançante Familiar União da Juventude”, por exemplo,
não permitia que durante seus eventos as pessoas ficassem descalças, sem colarinhos e
coletes, e, em uma reunião, decidiu que seus “fiscais tomassem medidas enérgicas para evitar

82
MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações Raciais: op. cit. p. 84.
101

o desleixo”83. Em algumas atas de reuniões da “Liga Humanitária dos Homens de cor”, a


diretoria fez questão de registrar que as atividades se encerraram com “um profuso brinde
com copo de água”, provavelmente para se contrapor à imagem do negro bêbado. Para Paula
Nomelini, a “criação de associações recreativas pelos trabalhadores driblava esse estereótipo
[de vagabundos] e possibilitava vincular uma imagem digna aos associados, pois praticavam o
lazer em horários e locais considerados e adequados”, e quando eram ocupados por negros
“havia uma preocupação maior”. De acordo com sua pesquisa nas diversas sociedades
mutualistas da cidade, “a preocupação com as roupas utilizadas na sede e com os
comportamentos adotados pelos associados eram mais discutidas pela diretoria dessas
associações, gerando uma fiscalização mais rigorosa”84. Talvez porque as associações de
homens de cor sofressem com a mesma vigilância que as populações negras passavam nos
jornais, isso pôde ser evidenciado no capítulo anterior quando o jornal Cidade de Campinas
reclamou das atividades promovidas pela “Sociedade Dançante União Faz Força”.
A circulação de pessoas em diversas associações fazia com que o associativismo
negro funcionasse em um sistema de complementariedade. Em uma reunião da “Liga
Humanitária dos Homens de Cor”, em 1923, um representante do “Grêmio Dramático Luiz
Gama” desejava saber qual peça fora escolhida para que seu grupo representasse em uma
festa em benefício daquela corporação. Depois de discutido este assunto, o senhor Paulo
Estevam lembrou que a “Grêmio Recreativo Dançante Familiar José do Patrocínio” ficara de
realizar uma festa em benefício da “Liga”. Ele era sócio da “Liga” e presidente da sociedade
dançante e aproveitou o assunto para marcar a data do evento85. Este tipo de convergência foi
recorrente nas atividades da “Liga” porque, com a arrecadação obtida nos eventos, ela
conseguia cuidar de seus sócios doentes. Tudo indica que ela foi, junto com a “Federação
Paulista dos Homens de Cor”, a instituição que mais cuidava da beneficência e auxílio mútuo
entre os homens de cor.
A “Liga Humanitária dos Homens de Cor” foi fundada em 1915 com o objetivo
de prestar auxílio médico e financeiro a seus associados. Segundo Cleber da Silva Maciel, as
populações negras tinham dificuldade de encontrar esse tipo de serviço nas “associações
similares de brancos”, seja porque os custos eram “muito altos para seus bolsos, como por

83
NOMELINI, Paula Christina Bin. Associações operarias mutualistas op. cit. p. 62; MACIEL, Cleber da Silva.
Discriminações Raciais: op. cit. p. 77.
84
NOMELINI, Paula Christina Bin. Associações operarias mutualistas op. cit. p. 62
85
Liga Humanitária dos Homens de Cor. “Ata de Reunião”. Livro de Atas da Liga Humanitária dos Homens de
Cor. Arquivo Pessoal de Benedito Evangelista. 10 jan. 1923.
102

causa do não atendimento a pretos”86. Então, ela pagava valores diários para seus membros
que estavam doentes e afastados do trabalho, em sistema de reembolso, “recibos de doentes”
como chamavam em atas. Além disso, o recebimento das mensalidades e de outros
pagamentos funcionava como uma pequena poupança que era gerida pelos sócios. A “Liga”
não aceitava mulheres como sócias.
A entidade se pautava principalmente pela identidade operária, por isso muitos
trabalhadores e pequenos proprietários de oficinas e barbearias brancos faziam parte de seu
quadro associativo; no entanto, eles não entravam na diretoria. Assim como outras
associações de homens de cor, a Liga colocou em seus estatutos cláusulas que impediam que
os cargos de diretorias fossem ocupados por brancos. No “Colégio São Benedito”, o pedido
para que “em hipótese alguma os cargos de Direção do Colégio” fossem “confiados a pessoas
que não sejam de cor preta de acordo comum com o Conselho Fiscal, que estiver[em] em
exercício”, foi feito pelo professor Francisco José de Oliveira, como condição para que a
escola fosse incorporada à “Federação”87. Este seria um mecanismo de proteção da principal
reivindicação das associações de homens de cor: “o engrandecimento da raça/classe”. A
própria “Federação” aceitou brancos em seu Conselho Fiscal, Álvares Lobo, proprietário do
Cidade de Campinas, esteve no cargo, além de ter assessorado a criação Centro Literário dos
Homens de Cor”88.
Para Cleber Maciel, a participação de brancos nas associações de homens de cor
demonstrava que nelas também se organizavam “uma categoria de pessoas, que pela sua
condição comum de pobreza, coloca as divergências raciais num plano inferior aos interesses
de classe, enquanto grupo pobre e explorado pelo capital”89. Tal comunhão de interesses,
contudo, não acabava com algumas disputas. Paula Nomelini descreve uma situação vivida na
“União da Juventude”, em que Alfredo Petris pediu auxílio para comprar uma cadeira para
sua barbearia e Armando Gomes protestou energicamente contra, porque ele alegava que
“quando se acham em boas condições excluem os homens de cor”90. Gomes era um homem
de cor envolvido em diversas associações, como a Liga, a própria “União” e a “Sociedade
Humanitária Operária”, que se pautava somente pela identidade de trabalhadores. Ele era

86
MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações raciais: op. cit. .79.
87
Documento de Incorporação do Colégio São Benedito à Federação Paulista dos Homens de Cor em 30 de abril
de 1910, apud PEREIRA, José Galdino. Os negros e a construção da sua cidadania: op. cit. p.112.
88
PEREIRA, José Galdino. Os negros e a construção da sua cidadania: op. cit. pp.89-90.
89
MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações raciais: op. cit. p.80.
90
Ata de reunião da diretoria de 21 de setembro de 1917 apud NOMELINI, Paula Christina Bin. Associações
operarias mutualistas op. cit. p. 111.
103

fundidor das oficinas da Companhia Mogiana e indicara à “Liga Humanitária dos Homens de
Cor” o português José Rodrigues Pinheiro como seu sócio, e ambos fizeram parte da diretoria
da “Sociedade Humanitária Operária” na década de 1920. Além disso, a “Liga” e a “União”
dividiriam a mesma sede por muito tempo e os documentos da sociedade recreativa foram
encontrados em poder da associação humanitária. Então, a posição de Gomes expunha que o
problema era o modo como os brancos agiam quando alcançavam melhores condições,
quando a identidade de classe não era mais suficiente para sobrepor-se às diferenças raciais.
Em 1923, a “Liga Humanitária dos Homens de Cor” solicitou à Câmara de
Vereadores que fosse incluída na lista das entidades beneficentes que contavam com sua
ajuda. Os homens de cor parecem ter feito uma campanha para que o pedido fosse aceito. No
Getulino, um texto sem assinatura explicava que havia uma interdição aos pretos em outras
associações que prestavam serviços médicos e hospitalares, como a Liga, e que essa
associação de homens de cor tinha a “necessidade de ampliar o seu programa (…), fornecendo
médico e farmácia aos sócios”, sendo que são “muitos brancos”. Como a Câmara ajudava
“quase todas as sociedades beneficentes” da cidade, acreditava o periódico que não deixaria
de “auxiliar com três contos de réis anuais, mediante certificado médico ou de farmácia, como
[já] faz com o ‘Centro de Ciências’, mediante a compra de livros”. E ainda lembrava que a
Liga era “formada de pretos é certo, mas de brasileiros de verdade”91. O apelo não deve ter
funcionado.
Paula Nomelini indica que o sócio José Rodrigues Pinheiro apresentou o projeto
de criar uma sociedade beneficente, dias antes do artigo, que ofereceria os mesmos serviços
apresentados. Em 1924, ele retomou o assunto e a diretoria recém empossada se comprometeu
a estudar a agir em prol de tal ideia. No entanto, o relatório de 1925 dizia que não ter sido
“possível a sua realização”, por conta da crise que se passava naquele momento 92. Em 1928, a
associação contava com 300 sócios e enfrentava dificuldades, por isso apelavam para a
generosidade do prefeito para que incluísse a “‘Liga Humanitária dos Homens de Cor’ ao lado
das Instituições e associações que t[inham] a ventura de merecer a bem grata proteção e como
aquelas recebe ainda que uma diminuta parte das rendas do corso do Carnaval”93.
Desta forma, assim como outras associações mutualistas e de homens de cor, a
“Liga” tinha dificuldades de oferecer seus serviços aos associados e tentava uma aproximação

91
Getulino, 30 dez. 1923, p. 1.
92
NOMELINI, Paula Christina Bin. Associações operarias mutualistas op. cit. p. 96.
93
Liga Humanitária dos Homens de Cor. “Ofício”. Governo Municipal – Correspondências Recebidas. Arquivo
Municipal de Campinas. 1 de mar. 1928.
104

com o governo para conseguir se manter. Mesmo quando esta ajuda foi negada não deixou de
prestar atendimento aos sócios, buscando alternativas para se manter, como a interação com
outras entidades de homens de cor, que organizavam eventos em seu benefício, garantindo a
entrada de recursos.

2.2.3. Disputas no meio negro


Além dessas associações, existiram na cidade jornais da Imprensa Negra. O
Baluarte, órgão oficial do Centro Literário dos Homens de Cor funcionou a partir de 1903 e,
provavelmente, encerrou suas atividades em 1904, apenas duas edições dele foram
preservadas. Em 1910, surgiu o Bandeirante, seguido pelo O Combate, de 1912; A União, de
1917, que era editado pela “União Cívica dos Homens de Cor”; A Protetora, entre 1922 e
1924, vinculado à “Associação Protetora dos Brasileiros Pretos”. O Getulino é a principal
fonte de pesquisa sobre as associações de homens de cor nas primeiras décadas do século XX
porque suas edições foram preservadas; o jornal funcionou entre 1923 e 1926, não era
controlado por nenhuma outra sociedade e tinha a participação de membros de outras
entidades, com as quais também estabeleceu algumas parcerias.
O periódico foi fundado por Martinho José de Andrade, que assumiu o papel de
gerente, e Alcino de Moraes, que vendeu sua parte três meses depois da fundação, assumindo
em seu lugar Christino José de Andrade, irmão do primeiro. Eles não só compartilhavam elos
fraternais e de engajamento, como também profissional, ambos eram motoristas. Chofer era a
profissão com mais representação nas propagandas do periódico, edição dia 19 de agosto de
1923, por exemplo, teve trinta e um anúncios, destes cinco ofertavam serviço de motorista
particular94. Um era de Orlando de Paula, que prestava serviços na cidade de Santos, onde
também atuava como correspondente da folha. Desta maneira, os laços de classe também
operavam na construção desse projeto de engrandecimento racial. José Roberto Gonçalves
observou que na logomarca do periódico se vê “com certo destaque um automóvel, que pode
ser entendido tanto quanto um reforço da modernidade e urbanidade de Campinas, como
também uma referência aos idealizadores”95, que ele considera ser os irmãos Andrade. Em
janeiro de 1925, Martinho foi nomeado Agente de Segurança do Gabinete de Investigação do
Estado96.

94
Getulino, 19 ago. 1923, p. 3.
95
GONÇALVES, José Roberto. O Getulino – um jornal de carapinha: jornal editado por jovens negros em
Campinas (1923/1926). Tese de Doutorado, PUCSP, Departamento de História: São Paulo, 2012, p. 62.
96
Idem. p. 98.
105

Figura 4. Martinho José de Andrade. Figura 5. Christino José de Andrade


Getulino, 20 dez. 1924, p. 5. Getulino, 13 mai. 1926, p. 2

Figura 6. Cabeçalho do Getulino.


Getulino, 05 ago. 1923, p. 1.

Christino e Martinho eram filhos de Narcisa Andrade, que tinha um outro filho
Leopoldo José de Andrade97, que costumava ser citado em celebrações familiares, como
aniversários de seus filhos José, Vinícios e Irene, ou de sua esposa Sebastiana Andrade.
Christino era casado com a “virtuosa” Syndinea Guimarães Andrade, com quem teve ao
menos quatro filhas: Zulmira, Maria Christina, Judith e Edith, que faleceu ainda criança no
dia 12 de maio de 192498. Em 1923, fundador do Getulino comemorou doze anos de
casamento com Maria Amélia de Andrade99, juntos tinham uma filha chamada Baby. Ao
contrário dos irmãos, Leopoldo não aparece na lista de figuras importantes membros do
associativismo negro de Campinas.

97
“Aniversários”. Getulino, 06 jan. 1924, p. 2
98
“Falecimentos”. Getulino, 01 jun. 1924, p. 3.
99
“Aniversários”. Getulino, 05 ago. 1923, p. 2.
106

Martinho e Christino eram frequentadores do “Grêmio Dramático Luiz Gama” e


foram anunciados seus diretores em outubro de 1923: o primeiro era Presidente e outro fiscal.
Também compunha a sua diretoria Alcino de Moraes como vice-presidente e Gervásio de
Moraes como secretário100. De acordo com o periódico, Martinho de Andrade atuava em todas
as frentes possíveis em prol das populações, “em todos os empreendimentos (…) sua bolsa
está sempre aberta”. A fundação do Getulino aconteceu quando ele percebeu que era “muito
moroso” a educação através do espaço dramático, do qual ele também era um dos
fundadores101. Christino ainda foi presidente do “Palmeiras Futebol Clube”, onde era
secretariado por Gervásio de Moraes102.
A vida associativa parece ter sido muito importante na construção do Getulino, é das
fileiras do “Grêmio Dramático Luiz Gama” que saíram os “amigos dedicados” de Martinho de
Andrade que o ajudaram a encabeçar tal projeto. E é de outra agremiação de homens de cor
que saiu seu principal rival, o jornal A Protetora.
Os responsáveis pelo conteúdo do Getulino eram três jovens e importantes literatos
negros da cidade: Gervásio de Moraes, Lino Guedes e Benedito Florêncio. Os dois primeiros
atuaram desde os primórdios na agremiação dramática, também compartilhavam a habilidade
de escrever poesias. Estudiosos do Getulino103 pouco conseguiram encontrar sobre a biografia
de Moraes, que atuou em toda existência do periódico como redator-secretário. Seus textos
demonstram que ele era fortemente engajado na causa da educação das populações negras,
sendo mais um que sugeria que as sociedades beneficentes recreativas ofertassem algum tipo
de instrução aos seus associados e suas crianças. De acordo com José Correia Leite, sua
presença foi importante para o formato do semanário O Clarim d’Alvorada, que se
preocuparia menos com os comportamentos de negros de sociedades, para debater mais os
problemas das populações negras de um modo geral104. Destacou-se pela sua participação na
fundação do “Centro Cívico Palmares” e “Frente Negra Brasileira”, além da atuação nos
jornais Auriverde, da capital paulista, e O Patrocínio, de Piracicaba.
Benedito Florêncio, como será visto ao longo desta tese, foi um dos articulistas mais
ativos no periódico e no meio negro campineiro. Um dos fundadores do “Centro Literário dos
Homens de Cor” e, por consequência, de sua folha, O Baluarte, seguiu posteriormente sua

100
“Movimento Associativo” – G. Dramático Luiz Gama”. Getulino, 13 out. 1923, p. 2.
101
“Martinho de Andrade”. Getulino, 01 mai. 1924, p. 1.
102
“Palmeiras F. B. C.”. Getulino, 07 out. 1923, p. 3.
103
MIRANDA, Rodrigo. Um caminho de suor e letras op. cit. cap. 1; GONÇALVES, José Roberto. O Getulino
op. cit. cap. 2; Leandro Antonio. Intelectualidade e Imprensa Negra Paulista op. cit.
104
CUTI. LEITE, José Correia. …E disse o velho militante José Correia Leite: op. cit.
107

militância na “Federação Paulista dos Homens de Cor”, em ambas associações exerceu o


cargo de tesoureiro. Era jornalista de profissão, trabalhou nos principais jornais da cidade e,
de acordo com Rodrigo Miranda, teve “uma coluna no jornal Diário do Povo, cuja
receptividade junto aos leitores garantiu sua publicação regular até a morte do jornalista”, a
partir de 1926 seus textos eram enviados de São Paulo, onde foi morar após o fechamento do
Getulino105. Na capital, manteve-se ativo no associativismo negro e também foi um dos
idealizadores do “Centro Cívico Palmares”106Além das entidades negras, ele também
frequentava o “Clube Literário Culto à Ciência”, onde estava a intelectualidade de Campinas.
Lino Guedes teve uma biografia transcrita no Getulino que fora utilizada nas
pesquisas sobre o jornal, como sua obra literária teve algum destaque, outros pesquisadores
também analisaram aspectos de sua vida, mesmo assim quase tudo que se sabe dele “tateia as
relações entre o contexto e as condições sociais da produção de sua obra”. O dia de seu
nascimento é “alvo de disputas; há poucos dados sobre sua vida familiar em Socorro (SP),
como descendentes de escravizados, ou sobre seus trajetos pelo interior paulista até chegar à
capital”107. Em ocasião de seu aniversário, Juvêncio Só o homenageou com a publicação de
sua biografia. Nela ele teria entrado para o mundo jornalístico ainda cedo, com 11 anos de
idade, na folha Cidade de Socorro, passou por outras experiências em redações em sua cidade
natal antes de colaborar no Jornal das Crianças, de Piracicaba, em 1910. Em Campinas, seus
primeiros passos na imprensa também foram em gazetas escolares a partir de 1912. Sua
experiência com a Imprensa Negra teria começado em 1915, quando “fundou o mensário A
União órgão da União Cívica dos Homens de cor”, depois disso “foi orador do ‘Centro
Recreativo 13 de Maio’ e do ‘Grêmio Dançante Estrela Celeste’”. Em 1924, era sócio
fundador e benemérito do “Grêmio Dramático Luiz Gama” e honorário do “S. D Belo
Horizonte”. Assim como Benedito Florêncio, trabalhou nos principais jornais de Campinas e,

105
MIRANDA, Rodrigo. Um caminho de suor e letras op. cit. p. 74.
106
“Centro Cívico Palmares”. Correio Paulistano, 19 mai. 1928, p. 5.
107
SILVA, Mário Augusto Medeiros da. “Rastros do Cisne Preto: Lino Guedes, um escritor negro pelos jornais
(1913-1969)”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 30, n. 62, pp 597-622, set.-dez. 2017, p. 600. De acordo
com este autor há três possíveis data de nascimento, 24 de junho 1897 – data apresentada no Getulino e em
textos de GOMES, Heloísa Toller. Lino Guedes. In: DUARTE, Eduardo de Assis (Org.). Literatura e
afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 1, Precursores;
Domingues, Petrônio “Lino Guedes: de filho de ex-escravo a ‘elite de cor’”. Afro-Ásia, Salvador, n. 41, 2010,
pp. 133-166; e CAMARGO, Oswaldo de. A razão da chama: antologia de poetas negros brasileiros. São Paulo:
GRD, 1986 –, 27 de junho de 1896 – data registrada no seu pedido de aposentadoria, SILVA, Mário Augusto
Medeiros da. “Rastros do Cisne Preto op. cit. p. – e 27 de julho de 1906 – defendido por OLIVEIRA, Eduardo
(Org.). Quem é quem na negritude brasileira. São Paulo : Congresso Nacional Afro – Brasileiro ; Brasília :
Secretaria Nacional de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, 1998; BERND, Zilá (Org.) Poesia negra
brasileira. Antologia. Porto Alegre: AGE: IEL: IGEL, 1992; MENEZES, Raimundo de. Dicionário Literário
Brasileiro, volume III. Editora Saraiva, São Paulo, 1969.
108

depois com o fechamento do Getulino em 1926, de São Paulo108. Ele teria escolhido o nome
do semanário porque era um admirador de Luiz Gama, sobre o qual palestrou em certa
ocasião no grupo dramático e depois publicou na íntegra seu texto no Getulino109.
Juvêncio Só considerava que ele representava “a alma, a vida desta folha”,
entretanto, como afirmar José Roberto Gonçalves, “o jornal se constituiu não apenas em torno
da personalidade de Lino Guedes, como é comumente reverenciado”, engajamento dos irmãos
Andrade foi fundamental para “angariar patrocínio via publicidade”. “Há que se incluir ainda
o ativismo e idealismo político de Gervásio de Moraes”110, e igualmente de Benedito
Florêncio e de outros colaboradores, que não só escreveram e publicaram textos, como
também criaram uma rede de correspondência que fez este semanário circular por cidades de
São Paulo e Minas Gerais. Este espaço é dedicado à apresentação dos espaços que formaram
o meio negro de Campinas, ao longo dessa tese será discutido o tamanho da rede de ações do
Getulino, de seus parceiros e de outras associações de homens de cor de Piracicaba e
Campinas.

Figura 7. Gervásio de Moraes Figura 8. Lino Guedes Figura 9. Benedito Florêncio


Getulino, 20 dez. 1924, p. 1. Clarim d’Alvorada, 24 jan. 1926, p. 2

Como apontado no caso de Piracicaba, existe uma dificuldade em encontrar as


ações das mulheres neste circuito, por isso é importante destacar que o Getulino também tinha
uma colaboradora em sua redação. Maria Nery, conhecida como Mariquita, era, junto com sua
irmã Noêmia, figura primária do “Luiz Gama”111 e, assim como Lino Guedes, não era da

108
SÓ, Juvêncio. “Lino Guedes”. Getulino, 22 jun. 1924, p. 2.
109
GUEDES, Lino. “Luiz Gama I”. Getulino, 24 ago. 1924, p. 2.; ______. “Luiz Gama II”. Getulino, 07 set.
1924, p. 2; ______. “Luiz Gama III”. Getulino, 21 set. 1924, p. 3.
110
GONÇALVES, José Roberto. O Getulino op. cit. p. 113.
111
“Aniversários”. Getulino, 16 mar. 1924, p. 3.
109

cidade, era natural de Itapira, onde ainda tinha familiares em 1923112. Entretanto, sua família,
especialmente seu pai, Manoel Phelipe Nery, conseguiu em pouco tempo criar um largo
círculo de amizade113, que é perceptível na nota de sepultamento de sua irmã Susi Nery, que
faleceu com um ano e nove meses e contou com a presença de muitas pessoas do mundo
associativo114. Além de Noêmia e Susi, Mariquita tinha outros irmãos Maria Salete, Betrahir,
que em 1924 era “aluna do curso complementar”, Macer, ambos faziam aniversário no mesmo
dia115, e João Nery. Este era amador do “Grêmio Dramático Luiz Gama”, também era
colaborador do jornal e um exemplo de homem de cor. Ele se empenhava o dia todo ao lado
de seu pai, que era mestre de obra, e à noite estudava nas escolas da Loja Maçônica,
demonstrando que Nunca é Tarde para se Aprender116. Seu pai era casado com Efigênia
Nery, contudo, Noêmia e Mariquita não eram referenciadas como suas filhas, ao contrário de
seus irmãos. Ela aparece também como uma das organizadoras de celebrações na capela de
São Benedito117.
Segundo José Roberto Gonçalves, ela contribuiu desde o primeiro número do
jornal, quando afirmou que “a aurora de hoje nasceu-nos mais risonha, porque o ‘Getulino’
que saí pela primeira vez nos traz muitas esperanças”. Ela explicou que o nome do periódico
era uma forma de “despertar orgulho” na “alma adormecida dos brasileiros pretos no caminho
da civilização”, porque foi “com ele que o grande Luiz Gama assinava os seus calorosos
artigos, batalhando pelo bem-estar de sua pátria estremecida, que também é nossa”. Como
será melhor discutido no próximo capítulo, os homens de cor, quando homenageavam Luiz
Gama e José do Patrocínio, colocavam-se na condição de seus discípulos, por isso ao colocar
seu pseudônimo no nome do jornal também diziam, de acordo com essa mulher de cor, que
era sua intenção “nivelar a situação dos brasileiros pretos à dos brancos”, que significaria
“completar a obra de Luiz Gama, e de seus companheiros de luta”, porque se os pretos eram
livres naquele momento, ainda estavam “algemado[s] ao vil preconceito, que tudo apavora e
desvirtua118. Mesmo sendo a única mulher da lista de 165 colaboradores do Getulino de
acordo com José Gonçalves, ela não estava restrita à uma coluna feminina, os cinco artigos

112
“Na Cidade”. Getulino, 16 dez. 1923, p. 2.
113
“Aniversários”. Getulino, 14 set. 1924, p. 3.
114
“Falecimentos”. Getulino, 04 nov. 1923, p. 3.
115
“Aniversários”. Getulino, 16 mar. 1924, p. 3.
116
“Nunca é Tarde para se Aprender”. Getulino, 23 mar. 1924, p. 2. Ver também “João Nery”. Getulino, 07 set.
1924, p. 3.
117
“Missa”. Getulino, 16 set. 1923, p. 2.
118
MARIQUITA. “Votos à Prosperidade do Getulino”. Getulino, 29 jul. 1923, p. 1. Apud. GONÇALVES, José
Roberto. Getulino um Jornal Carapinha op. cit. p. 52, 65 e 73. Grifos do autor.
110

com suas assinaturas seguiam a mesma linha de seus colegas: discursos em prol do
engrandecimento das populações negras de um modo geral.
Essa apresentação da composição dos responsáveis do Getulino é importante
porque, primeiro, mostra que ele é fruto da formação de um grupo de pessoas anterior a ele.
Dentre seus principais responsáveis talvez Benedito Florêncio fosse o único que não pertencia
ao quadro associativo do “Grêmio Dramático Luiz Gama”. Depois, ele parece ter sido
fundado, também, como uma resposta à “Associação Protetora dos Brasileiros Pretos”, que
em determinado momento rivalizou com o grêmio dramático e com a “Federação Paulista dos
Homens de Cor”. Infelizmente, não foram encontrados exemplares de seu jornal, A Protetora,
no período da disputa, somente seu primeiro número, de 13 de maio de 1920. Como bem
lembra José Roberto Gonçalves, “os jornais e as mídias não possuem vida própria; são
suportes para opiniões, propostas e projetos de seus grupos produtores frente aos públicos aos
quais se dirigem”, portanto, transportam “propostas, posições e estratégias de intervenção de
seu projeto editorial”119.
“Com o fim de concorrer para o conhecimento da Sociedade e com fim de
emancipar, não legal, mas moralmente uma raça que também progride”, os senhores Albino
de Souza Aranha; Christovam de Andrade; João Batista do Monte Carmelo; Delphino do
Amaral; Theodoro Christino de Paula; Fabiano José Lourenço; Benedito Otávio; os
“doutores” José Bento de Assis e João Valadão de Freitas; Francisco de Assis; Adão de Souza
Pinto; e João Camilo de Oliveira, resolveram fundar esta associação e, durante as
comemorações pelo 13 de maio dois anos depois, lançar seu jornal120. Deste grupo, é possível
destacar Albino Aranha, que logo após a Proclamação da República foi escolhido como um
dos representantes dos homens de cor para tratar de seus interesses. Na década de 1920, ele
era presidia essa entidade e trabalhava como funcionário público que administrava o Bosque
dos Jequitibás, onde muitas associações de homens de cor de Campinas e de outras cidades
usaram para fazer seus piqueniques.
A “Associação Protetora dos Brasileiros Pretos” pretendia oferta “educação física,
cívica e moral”, não se limitando as primeiras letras, desejava o “ensino profissional e
doméstico para ambos os sexos”. Assistência jurídica, empregatícia (dizia que proporcionaria
empregos aos sócios) e de amparo aos órfãos fazia parte de suas funções, que também incluía
divertimento de “utilidade imediata” e o combate constante ao “jogo, à embriaguez e,

119
GONÇALVES. José Roberto. O Getulino op. cit. p. 95.
120
“Eco de um Festival”. A Protetora, 13 mai. 1920, p. 2.
111

também, à ociosidade”, dando “aos sócios conhecimento perfeito dos direitos e deveres do
bom cidadão”121. Nada de novo ou conflitante tinham seus objetivos com as das outras
entidades negras, inclusive esses trechos de seus estatutos aparecem em um discurso de Lino
Guedes no festival em benefício da associação no “Externato São João”, quando ele dava
motivos para que os convidados doassem a ela.
O conflito iniciou em 1923 e era pela liderança da “defesa da classe/raça”, em um
debate que expôs divergências geracional, xenofobia e incorporação do discurso de
inferioridade racial entre os homens de cor. O Getulino surgiu logo após A Protetora publicar
um texto em que criticava a postura da mocidade negra campineira e ao longo de cinco artigos
se propôs a responde-la. Primeiro dizendo que os membros da a “Associação Brasileira dos
Brasileiros Pretos” estavam desesperados porque seu “famoso projeto negro das ‘quatro
paredes’” havia fracassado. Ao que tudo indica, esse projeto consistia em transformar a
entidade em um espaço voltado exclusivamente para a educação, sem oferecer qualquer tipo
de divertimento e que não ocupassem lugares públicos. Sua reunião se restringiria a sua sede.
Contudo, não teria adesão dos jovens, por isso “o venerado ancião do Bosque” teria dito que
entre os bons elementos da classe, procurava-se “aqueles que conduzem ao abismo.
Conselhos dos velhos é coisa inútil”. Para os membros da “Protetora”, não haveria
empreiteiros, médicos, advogados de cor na cidade porque “a mocidade negra é uma
lástima”. O Getulino, que era formado por jovens, então, tentava provar o contrário. Seus
colaboradores argumentavam que havia estudantes negros nos melhores cursos, havia um
professorado negro e que sua existência, “com oficinas próprias”, que demonstrava que esta
mocidade não era uma lástima122.
No segundo artigo, informaram que o Getulino surgiu por conta da briga com A
Protetora, ele era “o resultado do fel e do vinagre que derramaram no nosso meio”. No
entanto, não seria “pelos membros do ‘Luiz Gama’, ou pelo grupo chefiado pela corrente que”
apoiava e mantinha o Getulino que teria começado a guerra. Ela tinha começado antes mesmo
do artigo contra a juventude negra. Os membros da “Associação Protetora dos Brasileiros
Pretos” teriam feito homenagens ao cônego Olímpio de Castro “sem a participação das

121
Idem.
122
“Respondendo I”. Getulino, folha solta sem possibilidade de identificação de data e paginação. Grifos do
Getulino. Na coleção “Jornais da Raça” disponível no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), Arquivo
Edgard Leuenroth (AEL/UNICAMP), Centro de Memória UNICAMP (CMU) e na Hemeroteca Digital da
Biblioteca Nacional, o artigo “Respondendo I” faz parte de duas páginas soltas sem possibilidades de
identificação cronológica, no entanto José Roberto Gonçalves analisou a coleção impressa do periódico e
identificou esta página como sendo do segundo número do jornal, de 05 de agosto de 1923. Ver: GONÇALVES,
José Roberto. O Getulino op. cit., p. 118.
112

sociedades ‘Federação Paulista dos Homens de Cor’, ‘Grêmio Dramático Luiz Gama’,
‘Aliados’ e ‘Elite’”, algo que não era comum entre essas entidades. Ainda, havia “discursos
violentos” feitos por seus mentores. Seus responsáveis não teriam criado o jornal “para
provocar a cizânia no meio da classe em Campinas”, e sim para trabalhar “em prol da classe,
porém com o auxílio e simpatias de todas as agremiações” porque a folha não era “egoísta”.
Seus artigos não representariam somente seu grupo, e sim “a todos os grupos de homens de
cor existente no munícipio, no Estado, no Brasil”. O futuro, diziam eles, encarregar-se-ia de
destruir qualquer calúnia e infâmia sobre suas motivações e objetivos, que seria de
enfrentamento ao “preconceito de cor”. O periódico não tinha sido fundado para viver
conveniente e comodamente, e questionava se A Protetora poderia dizer o mesmo123.
No último artigo de resposta, é dito que “grandes são as lutas (…) e para triunfos
completos, são precisos grandemente a união e solidariedade dos nossos irmãos de cor”, razão
pela qual lamentavam o “embate com aqueles, que por tradições e serviços prestados à causa
negra no Brasil, deveriam estar” ao seu lado. Entretanto, estavam decididos a trilhar um
caminho, sem interesses privados, comodismo e sem se “curvar humilhados, diante daqueles
que vivem de beijar mão, a mendigar nas ruas centrais da cidade, o aperto de mão de homens
ricos e colocados na política”. Posições tinham que ser tomadas, segundo o artigo, e quem não
estava com eles, era contra eles, “porque o momento do homem negro no Brasil, não
comporta[va] mais delonga”, estavam “num século de lutas”. Estavam dispostos a defender a
“mocidade de cor de Campinas, injustamente enxovalhada”, quantas vezes fosse preciso. Não
temiam respostas, porque nada os amedrontavam, “nem mesmo a juba branca do famoso leão
do bosque!...” 124.
Desta forma, percebe-se a disputa pela condução da “defesa da classe/raça” e dos
papéis destinados aos jovens e às associações. Para os membros da “Associação Protetora dos
Brasileiros Pretos”, de acordo com as reclamações do Getulino, a mocidade deveria se
instruir, ouvir os mais velhos, que desempenhariam a função de liderança, e as reuniões dos
homens de cor deveriam ser privadas. Em oposição a isso, alguns jovens de cor lançaram um
jornal para emitirem suas opiniões, tornando-se em outros líderes da classe. Em seus projetos,
a ocupação dos espaços públicos é tão importante quanto a educação, na verdade, o modo de
estar e se apresentar em ambientes públicos é parte de um processo educativo, como pôde ser
visto no debate sobre o uso do jardim Carlos Gomes. Os membros do Getulino insistiram em

123
“Respondendo II”. Getulino, 12 ago. 1923, p. 1.
124
“Respondendo V”. Getulino, 02 set. 1923, p.1.
113

ações coletivas, que tentando englobar o maior número possível de associações de homens de
cor, independente de sua finalidade; para eles os negros não superariam o “preconceito de
cor” se ficassem em quatro paredes. Além disso, alguns deles já tinham certo destaque na
sociedade campineira como um todo, por isso não aceitariam a condição de aprendizes, muito
menos de serem chamados de lástimas. Neste sentido, os exemplos de bons homens de cor
apresentados no capítulo anterior eram, também, uma resposta à associação rival.
O Getulino acusou os membros rivais de ofenderem os estrangeiros, em “uma
verdadeira manifestação de jacobinismo vermelho”125. Na quarta resposta, diziam que “o
salvador da classe, o venerando ‘Moisés’ da raça, revoltou-se contra os estrangeiros” e teria
“vociferado” “do alto da sua sabedoria que o estrangeiro chega ao Brasil, vai para a fazenda,
passa à cidade, seus patrícios dão-lhe o lugar de servente, põe-lhe a colher e o martelo na
mão, e dias depois ele é mestre, é empreiteiro, está no primeiro plano, sendo o preferido”.
Situação oposta ao do negro, que “por misericórdia continua o amassador de barro, o
carregador de caçambas”. O artigo não discordava dessa realidade, mas questionava de quem
seria a culpa. Entendia que “o elemento estrangeiro” tinha outra educação, que trazia “na
bagagem da sua atividade outras energias, que nós os brasileiros brancos, pardos e pretos não
temos atualmente”, por isso ele era “a maior potência em atividade nacional”126.
A escravidão teria afetado brancos e negros. Os primeiros tiveram uma péssima
educação, em que só aprenderam “a receber e gastar o fruto do trabalho escravo”. Enquanto
“o brasileiro negro, esse é naturalmente inimigo do trabalho, é indolente, é preguiçoso, mas
não por sua culpa”. Era “atavicamente uma vítima do passado e do viciado cativeiro de
quatrocentos anos”. Então, se os brancos estavam perdendo fazendas e empregos para os
estrangeiros, “com muito mais razão tem que acontecer com ao preto brasileiro”; e os
estrangeiros em nada tinham “desse nosso defeito racial”127. No capítulo 1 já foi discutido a
incorporação do discurso de inferioridade racial por parte desses homens de cor, inclusive
com esse texto resposta. Eles entendiam que como escravos os negros não tiveram nenhuma
educação, a não ser via castigos físicos, e, portanto, foram prejudicados. O problema racial,
que se estendia aos brancos, poderia e deveria ser solucionado através da instrução neste
momento de liberdade.
Este artigo expõe soluções distintas para um mesmo problema entre os homens de
cor. Em diversos momentos o Getulino reconheceu que as populações negras eram preteridas

125
“Respondendo I”. Getulino.
126
“Respondendo IV”. Getulino, 26 ago. 1923, p. 2.
127
Idem.
114

em relação aos imigrantes e brancos brasileiros, mesmo quando tinha qualificação suficiente
para o trabalho, criticou duramente os anúncios de vagas de emprego que diziam “prefere-se
brancas”. Concordando, assim, que estrangeiros eram favorecidos. No entanto, os via como
uma força importante para o progresso brasileiro e a sua contribuição ao país legitimava sua
presença. Algo que a “Associação Protetora dos Brasileiros Pretos” parece rejeitar. Os
articulistas do Getulino tiveram embates com alguns estrangeiros e neles fizeram uso de
discursos nacionalistas, em que exaltavam a contribuição negra desde o período da escravidão
e uma harmonia entre brancos e negros. Nestas ocasiões, chegaram a pregar a saída de
imigrantes preconceituosos, mas não de todas as populações imigrantes estabelecidas.
A “Associação Protetora” não era contra a toda imigração no Brasil e nem seu
rival era favorável de qualquer imigrante. Dias após encerrar o debate sobre o artigo contra à
mocidade de cor, o Getulino voltou a criticar a associação, dessa vez porque ela teria “apoiado
com tanto entusiasmo a missão” de Robert Abott, fundador do jornal negro dos Estados
Unidos da América Chicago Defender. Ele defendia que negros estadunidenses emigrassem
para o Brasil porque acreditava que no país não havia racismo128. Benedito Florêncio foi o
articulista que mais criticou essa proposta, porém outros membros do Getulino também se
posicionaram contra e somente Evaristo de Moraes foi favorável. A maioria acreditava que
eles trariam consigo o “ódio de raças” e dificultariam a fusão de raças, que colocaria fim
“gradativo da raça negra”, substituída por uma “raça” mestiça, que seria de fato a brasileira.
Todos os articulistas da Imprensa Negra paulista que participaram desse debate discordavam
da ideia de ausência de racismo. Para Florêncio, ao apoiar esse projeto de imigração “a
‘Protetora’ apenas desprotege”129.
É possível que a “Associação Protetora” tivesse algum apreço pelas conquistas
dos afro-americanos, que compartilhasse das ideias de solidariedade negra transnacional e que
discordasse da fusão de raças, sendo seu projeto de “negro em quatro paredes” ações de
estabelecimento e fortalecimento de instituições exclusivas para negros e seu
desenvolvimento. Em 1918, O Alfinete fazia elogios à ascensão dos negros estadunidenses
que tinham escolas, universidades e empresas próprias130. Como havia grande trocas de

128
Sobre sua presença e proposta ver FRANCISCO, Flávio Thales Ribeiro. Fronteiras em definição: op. cit.;
DOMINGUES, Petrônio. “A Visita de um Afro-Americano ao Paraíso Racial”. Revista de História (USP), v.
155, p. 161-182, 2006; GOMES, Tiago de Melo. “Problemas no paraíso: a democracia brasileira frente à
imigração afro-americana”. Estudos Afro-Asiáticos, Ano 25, n. 2, 2003; LUCINDO, Willian Robson Soares.
“Imagens do Negros dos Estados Unidos nas Páginas do Jornal Negro Getulino”. Anais do XXIX Simpósio
Nacional de História da ANPUH. Brasília: 2017.
129
FLORÊNCIO, Benedito. “Cartas d’uma Negro”. Getulino, 23 set. 1923, pp. 1-2.
130
O Alfinete, São Paulo, 12 out. 1918.
115

informações e valores entre as associações paulistas, não é improvável que em Campinas


houvesse homens de cor que compartilhassem dessa mesma opinião. No artigo de Benedito
Florêncio, ele sugere que Robert Abott trabalhava para alguma associação negra de seu país,
como “Universal Negro Improvement Association” ou “National Association for the
Advancement of the Coloured People”, e demonstrava conhecimento sobre Marcus Garvey e
debates de movimentos negros transnacionais, temas que poderiam ser discutidas na outra
associação. Sem os exemplares de seu jornal e das atas de suas reuniões, só se pode especular
sobre seus posicionamentos, contudo, é necessário apresentar que que Getulino e A Protetora
tinham mais do que uma rixa. Tinham, no mínimo, caminhos distintos para o projeto de
engrandecimento da raça.
Ao longo desta tese haverá alguns momentos em que dirigentes discursavam
sobre as benfeitorias de suas associações em comparação às outras que mal conseguiam se
manter, esta postura sugere que as disputas não se limitaram a essas duas organizações.
Muitas vezes, a intenção, aparentemente, não era de assumir o papel de condutora da luta, e
sim de manter o lugar de prestígio no seio dos homens de cor.

***
No capítulo anterior, discutiu-se as pressões sofridas pelas populações negras e a
resposta das lideranças negras em jornais, que acreditavam que a solução para seus problemas
era de responsabilidade da própria comunidade: em conjunto, os negros conseguiriam
promover a ascensão social da classe. A união era a palavra-chave para a luta contra o
preconceito de cor e a criação de associações era fundamental para conquistá-la. Contudo, não
eram todos os negros que estavam aptos para ocupar estes espaços, era preciso que eles
dominassem certos comportamentos que lhes permitissem serem vistos com respeito pelo
restante da sociedade. Neste sentido, os negros que se associaram e organizaram associações e
escolas buscaram se distanciar da imagem negativa do negro. Não desejavam ser vistos como
bêbados, vagabundos, desordeiros e, no caso específico das mulheres, prostitutas, e não só
modificaram suas condutas, como também adotaram uma identidade racial positiva: a de
homens de cor. Sem deixar de reconhecer que estavam sujeitos aos mesmos problemas dos
negros não associados.
As associações de homens de cor foram formadas para oferecer às populações
negras serviços de saúde, fúnebre, social, econômico e instrutivo, bem como diversões. A
intenção de suas lideranças era unir toda a classe para que pudessem superar o preconceito de
cor, que seria um dos responsáveis pela condição de subalternidade em que vivia a maioria. A
116

criação desses espaços também ocorreu em relações de negociação e conflitos, em que os


homens de cor tiveram que fazer concessões em trocas de benefícios, que às vezes
destinavam-se à própria manutenção de sua associação. Em outras situações, tiveram que
reconhecer os limites de uma entidade e fundar novas associações com outras características.
Elas não eram exclusivas, permitiam e tinham boas relações com pessoas brancas em seus
quadros associativos, porém se esforçaram para que a posição de dirigentes fosse ocupada por
pessoas de cor, para que não perdessem sua principal finalidade: a defesa dos interesses da
classe/raça. Deste modo, as diferentes associações de homens de cor ofereciam atividades
diversas, que funcionavam em um sistema de complementariedade e parceria; contudo,
rivalizaram entre si pelo papel de condutora da defesa da classe, em prol de sua ascensão
social, ou como diziam, do “engrandecimento da raça”.
117

CAPÍTULO 3

Memórias e Homenagens: negros na história dos homens de cor

“Data gloriosa cuja lembrança nos faz arfar o peito de alegria 13 de Maio!”, dizia
Maria Ney, em outubro de 1923. Essa data era um Grande Dia, porque “foi nesse dia que
arrebentaram-se as possantes algemas que oprimiam nossos antepassados”; porque “depois de
grandes lutas o dia 13 de Maio de 1888 sorriu-lhes prazeroso trazendo-lhes a liberdade
bendita”; porque ao ouvirem que eram livres, “com preces fervorosas, e ardentes lágrimas de
contentamento agradeciam os feitos heroicos dos incansáveis abolicionistas”; porque para as
populações negras do início do século XX também era festivo, quando “com mais viva
lembrança recordamos os tristes contos de nossos avós”, que permitiam “nos sentirmos
venturosos e bem dizemos aqueles que com amor ardorosamente trabalharam para nos dar
essa aventura”; porque foi na “gloriosa data em que a felicidade nos quis brilhar”. Por tudo
isso, a autora dava “salve à princesa Redentora, salve Luiz Gama e todos abolicionistas”.
Mais do que a campanha pela Abolição, Gama dava “exemplo lutando pelo engrandecimento
de nossa raça” que faria com que os homens de cor alcançassem, “um dia, a palma da
vitória”1.
O texto da colaborada do Getulino tem muitos elementos que foram usados no
processo de construção de memórias por parte dos homens de cor. A maior parte das
narrativas publicadas na Imprensa Negra assinalava o movimento abolicionista como o
começo da luta pela igualdade e contra a discriminação racial, que era chamada de “defesa da
raça (ou da classe) contra o preconceito de cor”. Os jornais negros paulistas publicaram
muitos textos em homenagem aos abolicionistas, que relatavam suas trajetórias políticas e de
vida, suas ações e a importância das leis contra a escravidão. Por meio de breves biografias,
tentavam mostrar que eles eram parceiros das populações negras no pós-Abolição, ou seja,
que também eram contrários às práticas discriminatórias. Como a intenção era passar a ideia
de continuidade de luta, Luiz Gama e José do Patrocínio se tornaram nos principais

1
NERY, Maria (Mariquita). “Grande Dia”. Getulino, 13 mai. 1923, p. 4.
118

homenageados, porque seus discursos por liberdade tinham a preocupação com a integração
dos negros na sociedade enquanto livres e os postos que ocuparam permitiam que fossem
usados como modelos de sucesso e conduta.
Algumas vezes, os acordos com a Inglaterra pelo fim do comércio de escravos no
Atlântico, de 1817, e a própria lei de 1831 eram exaltados como marcos iniciais do
abolicionismo, entretanto, na maioria das vezes, era a Lei do Ventre Livre que ocupava este
lugar. O dia 28 de setembro de 1871 era entendido como o momento a partir do qual as
mulheres negras puderam ser mães – significava, então, o princípio da igualdade de direitos.
Eles não discutiam as consequências desta lei no cotidiano da escravidão, nem os artigos que
tratavam de outros temas (como o pecúlio ou o rito sumário para os processos de alforria),
concentrando-se em afirmar que ela garantia a liberdade de crianças após sua promulgação e
que, com isso, famílias negras puderam ser mantidas, apesar da condição servil dos pais. A
data era a mais festejada depois do dia 13 de maio, além de ser utilizada para nomear diversas
entidades negras no país. Em 1926 teve início uma campanha para que o dia 28 de setembro
fosse reconhecido como o “Dia da Mãe Preta”; além da efeméride, tentaram arrecadar fundos
para a construção de um monumento. Durante essa empreitada, pode-se notar um choque de
valores sobre o sentido de fraternidade. Enquanto para jornalistas e políticos os laços
fraternais entre brancos e negros se limitavam ao fato de ambas as “raças” dividirem a mesma
nação, para os homens de cor a fraternidade deveria ser sinônimo de igualdade.
Paralelamente às menções ao Abolicionismo, os homens de cor construíram
narrativas sobre a escravidão, em que descreviam os horrores das condições de trabalho e vida
dos negros, mas exaltavam a figura do escravo, considerado um expoente do desenvolvimento
do país. Os artigos da Imprensa Negra afirmavam que os escravos haviam sido os principais
responsáveis pela riqueza do Brasil, apresentavam-nos como os trabalhadores nacionais
legítimos, chegando a recorrer até mesmo a discursos racistas e de personalidades políticas
contrárias ao fim do sistema escravista para fundamentar essa avaliação. A condição de
trabalhadores contrastava com a situação de marginalidade em que viviam as populações
negras no pós-Abolição e com as interdições que sofriam ao buscar certos empregos, além de
serem associados à vadiagem. Por vezes, as mazelas da escravidão eram apresentadas sem que
se apontassem culpados ou responsáveis; em outros artigos, a ganância dos senhores de
escravos era entendida como fator preponderante para a existência do escravismo.
Todas as homenagens e usos da memória por parte dos homens de cor eram feitas
reforçando o vínculo das populações negras com a nação: a “raça negra” era apresentada
como contribuidora para a civilização brasileira, em igualdade com portugueses e, algumas
119

vezes, indígenas. Neste sentido, o diálogo era com a política imigracionista e o favorecimento
dado aos trabalhadores de outros países, ao mesmo tempo que insistiam em condenar o
preconceito de cor como uma atitude antipatriótica. Além disso, os vultos negros, os escravos
e a luta pela liberdade eram usados como exemplos que deviam orientar o comportamento dos
negros. Ao contar as histórias de personagens negras, os homens de cor desejavam inspirar as
populações negras a buscar a respeitabilidade e o sucesso de José do Patrocínio, Luiz Gama,
dos irmãos Rebouças, entre outros; que se educassem, se dedicassem ao trabalho e,
independentemente de sua condição social, participassem da luta coletiva.

3.1. O papel do escravo na história do Brasil


“Os africanos civilizaram campos, enriqueceram-nos no Brasil; cultivando-os,
senhores opulentaram a herança das famílias; criando a riqueza, facilitaram a propagação da
instrução, foram os obreiros reais da prosperidade da nação”, escreveu Evaristo de Moraes em
um de seus artigos para o Getulino. Essa não era somente sua opinião, era a análise de
Eunápio Deiró, um político, poeta, jornalista, formado em Ciências Jurídicas e Sociais, que
viveu entre 1829 e 1909. O articulista usava seu argumento para falar do Papel do Escravo na
Civilização Brasileira, conforme título de seu artigo, porque, acima de todos os papéis que
havia desempenhado, o intelectual fora sempre contrário à abolição da escravatura. Moraes
tentava convencer que as populações escravizadas tinham contribuído para a formação da
riqueza, e que as pessoas que mais sabiam disso eram aquelas que um dia se recusaram a dar
às populações negras a igualdade de direitos e liberdade. Ele afirmou que os “notórios adeptos
da opinião contrária” ao fim do escravismo sabiam que “fo[ra] a escravidão fator irrecusável
da nacionalidade brasileira”, e que “no meio familiar, na vida econômica, em tudo sempre se
tem de notar a influência do deplorável fenômeno social do cativeiro”2.
Em seu longo artigo, Evaristo de Moraes evidenciava uma característica peculiar
da Imprensa Negra no que se refere ao sistema escravista: a defesa dos escravos enquanto um
dos agentes formadores do Brasil, apesar dos horrores da escravidão. Flávio Francisco
analisou esta situação no periódico Clarim da Alvorada e considerou que a intenção era
“enfrentar os discursos, ainda em voga naquele período, de uma nação brasileira
predominantemente branca, utilizando a política de imigração para clarear a sua população”.
Então, jornalistas negros se debruçaram “sobre a história dos negros no Brasil, criando uma
linha interpretativa histórica que se iniciava com a chegada dos cativos africanos e se estendia

2
MORAES, Evaristo de. “O Papel do Escravo na Civilização Brasileira”. Getulino, 12 ago. 1923, p. 1.
120

ao período da Primeira República”. Eles apresentavam a labuta dos escravos como um


exemplo “da participação efetiva dos negros no desenvolvimento econômico do país”3.
O texto de Evaristo de Moraes foi anunciado uma semana antes de sua publicação,
algo que aconteceu com outros artigos especiais, o que pode demonstrar a importância da
linha narrativa construída. Em outra colaboração sua é possível perceber a importância de
recuperar uma história de valorização das populações negras. Dizia que durante a escravidão
“não se dava ao negro outro direito, senão o de trabalhar, exaustivamente, sob chicote, para
pura felicidade do ‘senhor’”, contudo, “a injustiça para com a raça negra não se
circunscrevia” somente à negação de direitos, “ia além”. A restrição dos direitos dos negros
derivava “da condição servil da maioria dos seus representantes” e tinha sua lógica. A falta de
reconhecimento histórico das contribuições das populações negras para o país era a grande
injustiça. Em sua visão, os negros tinham “ajudado os portugueses na conquista da terra, na
resistência a invasão batava, na formação da nacionalidade”; haviam vivido “entrelaçados na
família brasileira, influindo na nossa constituição étnica, na nossa língua, nos nossos usos, nos
nossos costumes, na nossa religião” e haviam sido “os criadores, quase exclusivos, da riqueza
material, que permitiu os nossos progressos intelectuais, a nossa cultura”. E, mesmo assim,
“não mereceram, em tempo oportuno, a atenção dos nossos cientistas, nem dos
historiógrafos”. Ele acreditava que os pesquisadores deveriam ter se preocupado com as
culturas dos povos africanos e sua representação entre os escravos no Brasil4.
Neste artigo, Evaristo de Moraes volta a usar citações de cientistas renomados
para comprovar que os negros tinham valor na sociedade brasileira. O uso de pensadores
célebres servia para estabelecer uma dicotomia entre as pessoas estudadas, “mais ou menos
cultas”, que sabiam das contribuições dos negros, e “os ignorantes ou insinceros”, que as
negavam. Ele criticou a “a teoria do lunático Gobineau, que os alemães puseram a serviço da
megalomania étnica”, segundo a qual a mestiçagem levaria a “consequências ruinosas”. E
tinha “vontade de rir, ao lembrar que, em 1888, Lepouge” discursara contra a abolição da
escravatura, afirmando que, com ela, o Brasil se transformaria “em um século, [em um]
imenso Estado negro, se não voltar, como é provável, à barbárie”. De acordo com
colaborador, o progresso no Brasil era nítido para toda a população, então esses dois
pensadores e, principalmente, seus seguidores brasileiros mereciam seu repúdio5.

3
FRANCISCO, Flavio Thales. “Um Novo Abolicionismo para a Ascensão na Nação da Mãe Preta op. cit. p.
378.
4
MORAES, Evaristo. “A Raça Negra e a Gratidão Nacional”. Getulino, 04 nov. 1923, p.1.
5
Idem, ibidem.
121

O uso de citações não foi uma exclusividade de Evaristo de Moraes, outros


articulistas da Imprensa Negra recorriam a diferentes estudos e pensadores para apoiar seus
argumentos. Este recurso de escrita reforçava a ideia de que os homens de cor não eram
ignorantes, incapazes de agir pela razão, como se divulgava em trabalhos científicos sobre as
raças humanas, na época. Desta forma, essas lideranças negras demonstravam que
dominavam as discussões, sendo, inclusive, capazes de apontar falhas nas linhas de
raciocínio. Ao mesmo tempo, as citações eram usadas como um elemento de instrução, pois
introduziam os homens de cor no debate literário e científico e ajudavam a elevar sua
autoestima, ao informar os leitores de que existiam pontos de valorização dos negros, até
mesmo entre os intelectuais contrários à Abolição e os que insistiam na inferioridade das
populações negras.
A ideia de que os escravos haviam sido os formadores da riqueza do Brasil
apareceu em artigos que criticavam a exclusão das populações negras no mercado de trabalho,
preteridas em prol dos trabalhadores imigrantes. Tentava-se com isto reforçar a brasilidade
dos negros e apresentar as práticas discriminatórias como uma atitude antipatriótica.
Formava-se, desta maneira, o contraste entre a marginalidade das populações negras no pós-
Abolição e a centralidade da figura dos escravos na formação da nação. Entretanto, a imagem
positiva do escravo era acompanhada de outra negativa da escravidão e de discursos de
valorização da liberdade, para que não houvesse dúvida que a vida em cativeiro não era
desejada. O trabalho exaustivo, os castigos corporais, a precária condição de vida e a ganância
dos senhores de escravos faziam parte das narrativas presentes nos folhetins e artigos. A
liberdade era sempre associada à felicidade e sua falta ao sofrimento.
A história de Tio Chiquinho exemplifica isto. Ele e seus “cinco ou seis irmãos”
teriam nascidos livres no Rio de Janeiro, mas foram feitos escravos e ficaram “infelizes
porque amavam a liberdade”. Mesmo sem “se conformar com as algemas do cativeiro”,
Francisco foi levado para São Paulo. Nesta cidade, ele, seus irmãos e outros escravos
passaram uma noite em “um casarão em uma rua deserta, onde os prenderam no fundo do
quintal em um lugar úmido, sujo e sem ar”. A refeição dada pelo “capataz, um homem de
forte musculatura”, limitou-se a pão duro, açúcar preto e água. No dia seguinte, percebeu que
a fisionomia não era boa e teria perguntado: “temos descontentamento, hein?” e Chiquinho,
que entre os escravos era o “mais novo e, portanto, mais destemido”, respondeu que a comida
não era satisfatória para sustentá-los, e que tinham ficado sem comer por dois dias. Depois de
serem melhor alimentados, foram postos à venda. Seus irmãos foram logo comprados por um
dos “diversos compradores [que] disputavam os escravos como os urubus disputavam carniça
122

de animal”. Ele soube que seriam levados para a cidade de Campinas, que ele sempre ouvira
dizer que “era um lugar de martírio”, lembrara da canção “quem tiver de ir pra Campinas /
Leve contas pra rezar / É Campinas, purgatório / Onde as almas vão penar”. Em mais um ato
de coragem, ele “pediu, implorou que não o deixassem” e foi também comprado. Na cidade
do Oeste Paulista, “a profecia dos escravos se realizou, pois bem cedo encontraram a morte
pelos maus tratos que lhes infligiram”, só Tio Chiquinho sobreviveu e na velhice teria
contado sua desventura a José Marques. Este relatou toda a história em uma coluna do jornal,
“para mostrar o quando foram maltratados os nossos antepassados da raça negra”6.
Logo depois desta narrativa está o texto “A Liberdade”, que inicia com a frase
“há uma aspiração que é inata ao ser humano: a liberdade”. Essas palavras reafirmavam a
história narrada acima, que mostrava que o sofrimento das pessoas escravizadas começava
quando lhes retiravam a liberdade, um dom natural das pessoas que, portanto, ficavam
infelizes quando escravizadas. Por isso, faziam todo sacrifício para conquistar a liberdade.
Segundo o autor do texto, “o homem expõe seu peito a bala” para ser livre, “as mães não
hesitam em sacrificar seus filhos, porque todos preferem a morte à submissão”. Até os
animais sabiam disso, porque “no próprio irracional é forte o desejo de ser livre”. No entanto,
a “raça negra” foi “vítima da ganância que a escravizou” e libertada “pelos abolicionistas,
cujos nomes adornam as páginas da história”, que foram heróis “da grande luta da luz contra
as trevas, do bem contra mal”7.
Neste trecho, é possível notar outro elemento que fazia parte da construção da
história da escravidão no jornal: o esforço para humanizar o escravo. Os outros três artigos
também tinham essa característica. Ao narrar uma história sobre a escravidão, os
colaboradores do periódico atribuíam aos cativos adjetivos que seriam naturais do ser
humano, que seguia o modelo universalista existente na filosofia desde o século XVIII. Como
Ferreira, autor do artigo, afirmou havia quem “a muitos pretos” procurava “convencer de uma
inferioridade racial” 8, portanto ele e outros membros da Imprensa Negra tentavam comprovar
que ela não existia. Faziam isso demonstrando em seus textos que havia valores humanos nos
escravos, como medo e coragem, que Tio Chiquinho sentira; o caráter trabalhador dos
escravos que permitiu a construção da nação brasileira e suas riquezas. De todas as formas
possíveis, os homens de cor tentavam provar que negros e brancos eram iguais, as histórias
dos escravos eram mais uma de suas ferramentas para isto.

6
MARQUES, José A. J. “Tio Chiquinho”. Getulino, 23 dez. 1923, p.1.
7
FERREIRA. B. H. “A Liberdade”. Getulino, 23 dez. 1923, p. 1.
8
Idem, ibidem.
123

A escravidão era algo ruim, fruto da ganância dos senhores, que conseguiam
manter seu controle graças ao auxílio de homens brutos, descritos sempre por suas
características físicas, dentre as quais se destacava a grande musculatura, porque seriam assim
“todos os que se entregavam” às funções de capitães do mato e capatazes 9. O fim do cativeiro,
contudo, não pôs fim ao “grande prejuízo do homem preto”, ele ainda tinha que conviver com
o preconceito de cor, que nos textos sobre a escravidão apareciam como um resquício desse
tempo que se fazia presente entre os antigos senhores e seus descendentes. Outra herança
negativa era a “humildade senil”, a ideia de que os negros deveriam aceitar posições
subalternas e marginais na sociedade. Contra isto, B. H. Ferreira convocava os negros a “lutar,
lutar sempre pela completa reabilitação da raça”, e só depois disso que o país poderia ser “um
regime verdadeiramente democrático”.10 Mais uma vez, o fim do tão mencionado preconceito
de cor (que correspondia às ações discriminatórias e, até mesmo, racistas) se relacionava com
a ideia de democracia, modernidade, civilização.
Em se tratando do uso da memória da escravidão para valorizar as populações
negras, a primeira página do Getulino de 23 de dezembro de 1923 é emblemática. Além dos
dois textos apresentados, ela ainda traz a história do “célebre preto abolicionista Quintino de
Lacerda”, que quando prefeito, colocou para fora os vereadores corruptos da cidade de
Andradas e, por isso, era “um preto [que] fez um servicinho de branco”. O periódico criticou
em muitas ocasiões essa expressão popular e de forma irônica demonstrava que as práticas
ruins não eram exclusivas das populações negras, assim como os brancos não eram os únicos
que podiam fazer coisas boas11. Em outro artigo, condenava-se a prática de pretos que se
julgavam “inferiores a qualquer mortal que não tenha a pele da cor da sua”, apesar dos
colaboradores do periódico demonstrarem que que os negros eram “iguais em tudo ao
branco”. O problema, segundo o texto, era que toda a lógica apresentada era arrasada pela
“pela sabedoria do vulgo”, do “sempre ouvimos dizer”. Assim, a inferioridade ficava incutida
também nas populações negras12.
Rodrigo Miranda aponta que os articulistas não conseguiam se desvincular dos
discursos racializantes, mesmo que inconscientemente e, talvez por isso, “buscaram explicar a
origem dos supostos vícios que acometiam o escravo”, que tentavam interpretar como não

9
MARQUES, José A. J. . “Tio Chiquinho”. Op. cit.
10
FERREIRA. B. H. . “A Liberdade”. Op. cit.
11
“Serviço de Branco”. Getulino, 23 dez. 1923, p. 1.
12
Getulino, 23 dez. 1923, p. 1.
124

sendo de natureza biológica, mas que eles acabavam por naturalizar13. A intenção deles era
desvincular as populações negras de qualquer participação ativa no sistema escravista,
apresentando-as como vítimas e, por vezes, afirmavam que o “negro africano” escravizado
tinha “índole passiva, caráter submisso, [de] muçulmana resignação”14. A repetição da
imagem de uma superexploração dos escravos pelos senhores, que tinha “supremacia
absoluta” sobre os cativos e os tratavam com extrema violência, sem que fossem registradas
reações e revoltas, permite entender que o escravo era incapaz de se defender. O legado da
escravidão para os contemporâneos ao Getulino era a resignação, a aceitação, entre os
próprios negros, de que eles eram inferiores.
A ausência de histórias sobre revoltas escravas chama a atenção na Imprensa
Negra paulista do início do século XX. Um artigo de duas partes intitulado “República dos
Palmares” afirmava que Palmares era “o mais belo registro que deixou a escravidão”. O
quilombo seria fruto do “abandono de escravos pelos seus possuidores que se achavam em
guerra com os holandeses”. A chefia de Zumbi é mencionada uma vez e, apesar de relatar que
a sua existência se fez através de conflitos, o foco do texto é a estrutura montada, ou seja, suas
edificações, sistema agrícola e organização política. Palmares era, na visão de Duarte de
Barros, autor do artigo, um “verdadeiro Estado com magistratura e religião próprias”, com
sistemas de defesas que contavam com uma muralha que transformava o espaço em uma
fortaleza. Eles também fizeram com que a região inculta fosse “produtora, mantendo
comércio com as cidades vizinhas”. E, assim como nos outros artigos citados, eles lutaram
pela liberdade e, quando derrotados, “os chefes negros preferiram a morte ao cativeiro”15.
“Terminou [como] o feito mais notável dos escravos no Brasil, em favor de sua liberdade”16.
A ênfase na criação e na organização política do quilombo ao invés do conflito
com os senhores e das fugas diz muito sobre como pensavam os homens de cor. Eles
buscavam o reconhecimento de suas competências e de sua capacidade para serem inseridos
na sociedade republicana, ou seja, queriam poder gozar plenamente sua condição de cidadãos.
A postura ordeira era exaltada sempre, por isso os principais negros homenageados na luta
contra escravidão eram os abolicionistas que agiram através de seus estudos e discursos.
Dentro de suas necessidades, os homens de cor não podiam contar histórias de revoltas
escravas com fugas, agressões e assassinatos de senhores porque isso poderia reforçar a

13
MIRANDA, Rodrigo. Um caminho de suor e letras. Op. cit., p. 126.
14
BARROS, Duarte de. “A República dos Palmares”. Getulino, 26 out. 1924.
15
Idem, ibidem.
16
BARROS, Duarte de. “A República dos Palmares parte II”. Getulino, 02 nov. 1924.
125

imagem dos negros como insolentes e insubordinados, então focalizaram o escravo como
trabalhador e contribuinte para a formação da nação.

3.2. De semente da liberdade ao Dia da Mãe Preta


“O que é a Lei 2.040, de 28 de setembro de 1871? Um feriado nacional?”,
perguntava o jornal paulistano O Alfinete. Respondia que não, mas deveria “ser para os
corações dos homens de cor”. Eles acreditavam que, apesar de dar nomes a muitas sociedades
beneficentes recreativas e times de futebol, poucos negros sabiam da eficácia da lei de 28 de
setembro. Não sabiam que nela constava que “os filhos da mulher escrava, que nascerem no
Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre”, que com ela foi
“plantada a árvore da esperança” pelo fim da escravidão. O editorial apresentava em seguida
um resumo de outros dispositivos contidos no texto legal, evidenciando a questão da
educação, do trabalho e da participação do governo por meio da fiscalização e da tutela. Por
este motivo os membros do periódico negro afirmavam que a classe dos homens de cor
deveria prestar homenagem ao 28 de setembro que, “provavelmente, veio beneficiar muitos
dos nossos, que ainda vivem nesse mundo”. Para tirá-la do ostracismo, o editorial sugeria que
as “tantas sociedades” organizassem todos os anos “uma conferência, onde homens
habilitados viessem nos dizer o porquê destas datas” 17.
O editorial é longo, ocupa toda primeira página do jornal e metade da segunda, e
aponta para o objetivo de prestar homenagens entre os homens de cor: instruir. Quando se
observa os estatutos e as notícias sobre as celebrações das “tantas sociedades” de homens de
cor de São Paulo, é possível questionar os motivos da reiterada necessidade de educar. Antes
de este texto ser publicado, muitas associações negras já organizavam solenidades com
palestras, discursos e conferências educativas. Em 1920, na capital paulista, o “Grêmio
Dramático e Recreativo 28 de Setembro” organizava obrigatoriamente festas no dia de seu
aniversário, 25 de março, e “em comemoração à grande data abolicionista que dá o título a
este grêmio”, conforme seu estatuto de fundação18. O registro desta entidade era de 1920, no
entanto, em 1919 o jornal A Liberdade noticiou que ela havia festejado seu quarto aniversário
na madrugada entre os dias 27 e 28 de setembro, e durante o evento houve discursos de
membros de sua diretoria e de convidados19. Enquanto isso, na cidade de Jundiaí, o clube

17
“Lei do Ventre Livre”. O Alfinete. 28 set. 1921, pp. 1-2.
18
Grêmio Dramático e Recreativo 28 de Setembro. “Estatuto do Grêmio Dramático e Recreativo 28 de
Setembro”. 1º Cartório de Registro Civil. Arquivo Público do Estado de São Paulo.
19
“Grêmio D. R. 28 de Setembro”. A Liberdade, 12 out. 1919, pp. 2-3.
126

homônimo não deixava “cair no olvido a data gloriosa”, organizando festas em sua
homenagem desde 1897. De acordo com o mesmo periódico, a festa de 22 anos desta
agremiação contou com a participação de membros de organizações da capital e do interior de
São Paulo, que assistiram a uma peça e discursos sobre a lei, dançaram, comeram e
beberam20.
Se o escravo merecia homenagens dos homens de cor porque ele era a imagem do
negro trabalhador e um dos formadores da sociedade brasileira, o abolicionismo era retomado
como parte da defesa dos homens de cor contra o preconceito. Neste cenário, a Lei 2.040 de
1871 era entendida, muitas vezes, como marco inicial para o fim da escravidão; foi também a
segunda data mais celebrada entre os homens de cor. Dois pontos parecem fundamentais para
que ela alcançasse este estatuto: primeiro havia garantido a liberdade do ventre e possibilitado
instrução às crianças negras, aspectos imprescindíveis na busca pelos direitos de cidadania;
depois, os homens de cor costumavam dizer que alguns dos dirigentes de suas associações
haviam sido beneficiados por ela e, assim, reforçavam a relação entre passado e presente,
entrelaçando a campanha abolicionista à luta contra o racismo.
De acordo com jornais da época e com a bibliografia, entre 1897 e 1931, houve ao
menos três sociedades beneficentes recreativas com o nome “28 de Setembro” nas cidades de
Jundiaí, Limeira e Campinas, outras duas agremiações esportivas em Piracicaba e São Paulo.
Nestas duas cidades também foram fundadas associações em homenagem ao responsável pela
sanção da lei. O “Grêmio Recreativo Dançante Barão de Rio Branco”, situado na capital
paulista, aparece em notícias da Imprensa Negra e, portanto, fazia parte do conjunto de
associações de homens de cor21, enquanto na cidade do Oeste Paulista houve a “Sociedade
Visconde do Rio Branco” (nada indica que fosse composta por homens de cor, de acordo com
a documentação pesquisada)22. Em todo caso, existem registros de festas celebrando a Lei do
Ventre Livre organizadas por todas essas entidades. Outras entidades também realizaram
atividades em prol da liberdade do ventre, entre 1907 e 1909 e, depois, em 1929 a “Sociedade
Beneficente 13 de Maio”23, por exemplo, foi responsável para que a data não passasse

20
“Jundiahy”. A Liberdade, 12 out. 1919, p. 2.
21
Ver PINTO, Regina Pahim. O movimento negro em São Paulo: op. cit. DOMINGUES, Petrônio. Uma história
não contada. Op. cit.; “Charleston!…”. Clarim d’Alvorada, 22 ago. 1926, p. 4; “Vida Social”. Clarim
d’Alvorada, 24 out. 1926, p. 4.
22
Gazeta de Piracicaba, 29 set. 1908; e Jornal de Piracicaba, 29 set. 1908.
23
Gazeta de Piracicaba, 22 set. 1907; Gazeta de Piracicaba, 28 set. 1907; Gazeta de Piracicaba, 29 set. 1907;
Jornal de Piracicaba, 29 set. 1909; O Patrocínio, 20 out. 1929.
127

despercebida em Piracicaba. Outras leis abolicionistas receberam menos atenção. A lei dos
Sexagenários foi lembrada somente em um artigo do Getulino.
A liberdade do ventre das escravas foi o ponto mais celebrado, mas lei de 1871
também previa o uso do Fundo de Emancipação para conceder anualmente liberdade a uma
quota de escravos; declarava livres os escravos da nação, de usufruto da Coroa e os
abandonados pelos seus senhores; também permitia que os escravos formassem pecúlio e o
usassem para pagar por sua alforria. De acordo com Sidney Chalhoub, sua redação final
continha “uma série de direitos que os escravos haviam adquirido pelo costume e a aceitação
de alguns objetivos das lutas dos negros”, como a formação de pecúlio, além da ideia mestra
da liberdade do ventre. Ele aponta que “os próprios escravos valorizaram bastante a alforria
das mulheres, pois isso significava a garantia de prole livre”, “mesmo que essa ‘liberdade’
tenha sido relativizada por um sem-número de sutilezas”. Por isso, ela “pode ser interpretada
como exemplo de uma lei cujas disposições mais importantes foram ‘arrancadas’ pelos
escravos às classes proprietárias” e, também, “como exemplo do instinto de sobrevivência da
classe senhorial”24.
Lucimar Felisberto dos Santos afirma que, “no que se refere à reunião familiar,
[esta lei] pode até ser interpretada como um recuo em relação ao [direito] conquistado com a
lei de 1869”25. O decreto 1.695 de 15 de setembro de 1869 proibiu “em todas as vendas de
escravos (…) separar marido da mulher, filho do pai ou da mãe” quando fosse menor de 15
anos26, enquanto a lei de 1871 permitia que as crianças fossem entregues aos cuidados do
governo imperial quando completassem 8 anos. Em caso de alienação da mãe escrava, seus
filhos livres a acompanhariam se fossem menores de 12 anos27. Estas novas determinações, de
acordo com a historiadora “renov[aram] a aflição de muitas mães escravizadas” porque não
eliminavam “o risco de ver sua família separada”28. Ela apresentou uma série de fugas de
mulheres escravas acompanhadas por seus filhos ingênuos, o que indicava que, “apesar das
24
CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. 5ª
reimpr. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2003. p. 159-160.
25
SANTOS, Lucimar Felisberto dos. “Páginas da vida: experiências maternais de mães negras no antes e no pós
Lei do Ventre Livre. Rio de Janeiro, 1869 – 1888”. In: 8º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil
Meridional, 2017, Porto Alegre. 8º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, 2017. p. 05.
Disponível em:
http://www.escravidaoeliberdade.com.br/site/images/8encontro/Textos8/lucimarfelisbertodossantos.pdf ,
acessado em 30/01/2019.
26
Decreto nº1695, de 15 de setembro de 1869. Câmara dos Deputados, Legislação. Disponível em:
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-1695-15-setembro-1869-552474-
publicacaooriginal-69771-pl.html, acessado em 21/10/2018.
27
Lei nº 2.040, de setembro de 1871. Presidência da República. Casa Civil. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM2040.htm, acessado em 21/10/2018.
28
SANTOS, Lucimar Felisberto dos. “Páginas da vida…” op. cit.. p. 05.
128

condições submetidas, àquelas mulheres não parecia ‘legal’ que senhores ou instituições
tivessem o usufruto e o direito ao aluguel da mão de obra dos menores em troca do tratamento
e criação”29. Além disso, logo após a Abolição houve discussões sobre a condição dos jovens
que ficaram sob os cuidados dos senhores, se tinham ou não o direito de acompanhar suas
mães, ou se deviam prestar serviços a eles até completar 21 anos.
Dois dias após o fim da escravidão O Paiz publicava que “muitas pessoas por
ignorância ou por má fé têm procurado deter gratuitamente em seu serviço os ingênuos”, o
que seria ilegal, uma vez que a Lei Áurea acabou com todos os vestígios “da negra
instituição”, então não haveria mais ingênuos, não haveria mais libertos condicionais. Os pais
e mães que não tinham conseguido recuperar seus filhos deveriam procurar as autoridades30.
A notícia foi parcialmente transcrita na Gazeta de Piracicaba, concordando com o periódico
da Corte, que a lei de 13 de maio de 1888, “extinguindo a escravidão, virtualmente eliminou,
aboliu todas as obrigações de serviços provenientes da legislação anterior, ou de libertações
condicionais”31. Até meados do mês de junho de 1888, os jornais de São Paulo denunciavam
a situação de muitos ingênuos que não estavam livres das obrigações com os antigos senhores
de suas mães, criticando a atuação pouco eficaz do governo contra tudo isto.
Entretanto, a Imprensa Negra não tratava dos “sem-número de sutilezas” que
relativizavam a liberdade após a promulgação da Lei do Ventre Livre. Seu foco era a
liberdade das crianças. Tudo o mais era ignorado, até mesmos os outros direitos foram
mencionados poucas vezes nos artigos jornalísticos. A estratégia de “esquecer” aspectos ou
momentos que poderiam despertar rancores estava de acordo com o formato da luta contra o
racismo, que era feita através de discursos de valorização da nação e da importância das
populações negras para sua constituição. Os homens de cor argumentavam que as formas de
discriminação racial eram antipatrióticas, que a integração das populações negras era uma
atitude em prol da democracia e da diversidade brasileiras e enfatizavam seu pertencimento
nacional. Deste modo, a defesa da classe dos homens de cor contra o preconceito de cor
apelava para possíveis sentimentos fraternais da sociedade brasileira.
Junto com a liberdade do ventre das mulheres escravas, os homens de cor
homenageavam a memória de Visconde de Rio Branco, considerado o responsável por sua
aprovação. Em 1924, o Getulino publicou um número especial em homenagem à Lei do
Ventre Livre, em que explicava como ela teria sido feita e um histórico de decisões

29
Idem. p. 13.
30
“Noticiário”. O Paiz, 15 mai. 1888.
31
“A Lei Áurea”. Gazeta de Piracicaba, 16 mai. 1888.
129

governamentais que haviam contribuído para o fim da escravidão. De acordo com um artigo
da primeira página, o gabinete presidido pelo Visconde de Rio Branco atuara de modo eficaz
para a eliminação do cativeiro, “fazendo votar, com domínio de uma das mais veementes
oposições que se tem levantado no parlamento a lei de 28 de setembro de 1871”, e com isto
conseguira extinguir com “a pirataria exercida em redor dos berços, nas águas da jurisdição
divina e debaixo das vistas imediatas de um povo cristão”. Apontava, ainda, que “desde que
Euzébio Queiróz abolira o tráfico de escravos, a ideia da libertação dos cativos nascera em
vários espíritos”, por isto que, em 12 de maio de 1871, o então ministro da Agricultura,
Teodoro Machado, pôde propor para Câmara dos Deputados a liberdade de quem fosse nascer
no Brasil. Seguia o texto apresentando o projeto e seu trâmite dentro da câmara, que passara
por uma comissão especial e voltara com um “parecer longo, sugerindo várias emendas”.
Mesmo assim, “Paulino de Souza, deputado fluminense, justificou as representações de vários
fazendeiros de Valença, contra o projeto, que lhes feria direitos” e, discordando de seus
colegas, fizera discursos apaixonados em seu favor32.
As falas de Perdigão Malheiros e Andrade Figueira, que responderam à proposta
antes de Paulino de Souza, junto com Ferreira Viana, José de Alencar, Teixeira Júnior, o
barão de Vila Barra, Junqueira, Capanema, Luiz Carlos, Alencar Araripe, Duque Estrada
Teixeira, Araújo Lima, Mello Mattos e Theodoro da Silva, foram importantes para acalorar os
debates. No entanto, “três memoráveis discursos pronunciados” em julho por José Maria da
Silva Paranhos foram fundamentais para aprovação da lei. O Visconde de Rio Branco
“destruiu toda a argumentação dos contrários, [sendo] sereno, sem se alterar, deixando passar
a onda de apartes que lhe vinham de todos os lados”. No senado, os debates teriam se iniciado
com a informação de que o projeto “não partira do gabinete Rio Branco, mas sim figurava no
programa do Partido Liberal, que lhe era contrário”. O Barão das Três Barras, Carneiro de
Campos, apresentou uma emenda propondo que fosse “totalmente extinta a escravidão em 7
de setembro de 1899”; para Silveira Motta o cativeiro deveria ser inexistente em todo Império
20 anos após a promulgação do projeto. O Visconde de Rio Branco falou por mais duas vezes
antes que no dia “27 de setembro, faltando cinco minutos para as duas horas, Abaeté
anunciava que o projeto passara em terceira discussão, por 33 votos contra 4”, e o periódico
fez questão de listar os nomes de cada um dos votantes e suas posições. Após a decisão, “os
espectadores que enchiam as galerias e tribunas atiraram flores no recinto”, no dia seguinte a

32
“Como Foi Feita a Lei do Ventre Livre”. Getulino, 28 set. 1924, p. 1.
130

lei foi sancionada, “coube a glória de assiná-la a princesa Izabel, que 18 anos depois
completava a vitória de Rio Branco, firmando a lei de 13 de maio”33.
A última parte do artigo é uma breve biografia do visconde, que teria sido
elogiado por Joaquim Nabuco como “a mais lucida consciência monárquica que teve o
reinado”. Em outro artigo, intitulado “Um precursor”, a lei de repressão ao tráfico de
africanos era o marco inicial para o fim do cativeiro, enquanto a Lei do Ventre Livre fora
aprovada “por certo, devido ingentes esforços ao talento, perseverança” do visconde de Rio
Branco, que venceu todas as dificuldades. Neste caso, o Visconde era visto como um “insigne
estadista, distinto por todos os títulos” e com os mais elevados dotes, mas lembrava que Pedro
Pereira da Silva Guimarães fora o primeiro a levar aquela discussão ao parlamento e
apresentara outras três propostas de liberdade do ventre que haviam sido foram rejeitadas34.
Deste modo, o Visconde de Rio Branco era apresentado como protagonista do
processo pelo fim da escravidão, especialmente por sua habilidade em persuadir os contrários
ao projeto, depois de tantas tentativas ao longo do século XIX. Flávio Francisco assinala que
o abolicionismo imaginado e construído no jornal negro Clarim d’Alvorada idealizava alguns
abolicionistas e reinterpretava “seus discursos para fazer uma análise crítica da situação dos
negros no Brasil e estruturar narrativas de uma fraternidade racial brasileira, tratando a
geração de ativistas negros” da época como membros de um “novo abolicionismo”35.
Em 1928, a leitura sobre a Lei do Ventre Livre se modificou entre homens de cor,
aproveitando a campanha para a construção de um monumento em honra à Mãe Preta. Dois
anos antes, o jornalista branco Cândido de Campos lançou no jornal Notícia a iniciativa de
homenagear as antigas babás e amas de leite escravas, personificadas na imagem da Mãe
Preta. Ele entendia que ela era “símbolo, na verdade, do familiar brasileiro”36. Rapidamente a
campanha que começou no Rio de Janeiro chegou a São Paulo e foi abraçada pelos homens de
cor, tanto que, no mês seguinte, o Getulino apresentou seu apoio. No começo, não havia uma
data específica de comemoração, porém, o termo ganhou destaque em textos publicados em
13 de maio e outros, desde então37. Em 1927, a Mãe Preta foi lembrada na edição
comemorativa d’O Clarim d’Alvorada de 13 de maio.

33
Idem.
34
“Um Percursor”. Getulino, 28 set. 1924, pp.1-2.
35
FRANCISCO, Flavio Thales. “Um Novo Abolicionismo para a Ascensão na Nação da Mãe Preta” op. cit. p.
389.
36
CAMPOS, Cândido de. “Mãe Preta”. A Notícia, 24 abr. 1926.
37
Ver: Getulino, 13 mai. 1926; Clarim d’Alvorada, 25 abr. 1926, Clarim d’Alvorada, 20 jun. 1926, Clarim
d’Alvorada, 13 mai. 1927; Auriverde, 13 mai. 1928. O Patrocínio, 28 set.1929.
131

Figura 10. Clarim d’Alvorada, 13 mai. 1927, p. 1.


De um modo geral, a homenagem congregou pessoas de diferentes posições
sociais e políticas, com intenções e entendimentos também diversos. Como apontam Micol
Siegel38 e Paulina L. Alberto39, seus apoiadores tinham em comum a oposição à ideia de que a
mistura racial no país havia enfraquecido de alguma maneira a nação, acreditando que essa
especificidade histórica a transformara para melhor. A Mãe Preta funcionava como o exemplo
máximo da contribuição das populações negras ao Brasil e as justificativas para honrá-la
caíam, mais uma vez, no discurso da fraternidade dos brasileiros.
Segundo Micol Siegel, alguns dos partidários da construção do monumento, “ao
vislumbrarem um Brasil mais branco, lançavam-se em discussões abstratas que realçavam a
‘influência’ e a contribuição moral, espiritual e cultural da mãe preta”, mas evitavam
“associar a temática da miscigenação a um debate mais amplo sobre identidade nacional”. Até
mesmo seu idealizador Cândido Campos “fazia distinções entre ‘nós’ e os brasileiros da
‘própria raça’ da mãe preta”. Esses não propunham um debate sobre igualdade racial e

38
SIEGEL, Micol. “Mães Pretas, Filhos Cidadãos”. In. GOMES, Flávio dos Santos (org); CUNHA, Olívia M. G.
(org.). Quase-Cidadão. Histórias e antropologias da pós-emancipação no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação
Getúlio Vargas, 2007.
39
ALBERTO, Paulina L. . “A Mãe Preta entre Sentimento, Ciência e Mito: intelectuais negros e as metáforas
cambiantes de inclusão racial, 1920-1980”. In. DOMINGUES, Petrônio; GOMES, Flávio dos Santos (Org.).
Políticas da raça: experiências e legados da abolição e da pós-emancipação no Brasil. 1. ed. São Paulo: Selo
Negro, 2014; ALBERTO, Paulina L. Termos de Inclusão: intelectuais negros brasileiros no século XX.
Campinas-SP: Editora UNICAMP, 2018.
132

consideravam que a contribuição da raça negra havia se esgotado, assim como o papel da mãe
preta, no século XIX. Outros “elegeram a mãe preta para proclamar, de forma inequívoca, a
centralidade da cor negra e dos símbolos, pessoas e cultura a ela associada na sociedade
brasileira”. Os discursos dos “afro-brasileiros”, de acordo com a autora, foram bastante
heterogêneos, com lideranças seguindo a linha de pensamento de Campos e “confinando a
importância negra ao passado e a uma esfera cultural e marginal”, enquanto outras “usaram a
narrativa da mãe preta para colocar os afro-brasileiros no centro da política e da sociedade
brasileira moderna”. Também aproveitavam para fazer “críticas nem sempre veladas” à
situação de marginalização que viviam40.
De acordo com Paulina L. Alberto, “a proposta do monumento era, em muitos
aspectos, uma celebração conservadora das supostas tradições da fraternidade racial no
Brasil”, com elementos que sustentaram a ideia de democracia racial no país. Para os homens
brancos, essa fraternidade “implicava a inclusão da raça negra na família brasileira, mas de
uma maneira que expressava nostalgia por um passado hierárquico e escravocrata” e, mesmo
considerando que um “monumento à Mãe Preta honraria as contribuições da raça negra”,
segundo a autora, “eles expressavam abertamente a esperança de que a negritude logo
desaparecesse”. Para eles, a mistura racial era sinônimo de embranquecimento progressivo41.
O choque de sentidos sobre fraternidade fica mais evidente nos discursos sobre a
Mãe Preta e o abolicionismo, contudo, ele está presente em paralelo com outras discussões.
Nas denúncias de interdições e preterimento aos negros no mercado de trabalho, por exemplo,
os apelos nacionalistas da Imprensa Negra apontavam para uma sociedade formada pela
miscigenação, que recebeu contribuições de negros e portugueses em todos os aspectos da
vida social. O uso da história servia, então, para lembrar como o Brasil foi construído e
reforçar o laço fraternal. Os escravos que trabalharam para produzir suas riquezas e
abolicionistas, heróis que lutaram e eliminaram aos horrores da escravidão, deveriam ser
conhecidos e reverenciados por todos.
Em 1926, em uma edição comemorativa do aniversário da Abolição, o Getulino
publicou dois textos sobre a Mãe Preta. Na primeira página, reproduziu a carta do então
presidente da República, Washington Luís, apoiando a construção do monumento. O escrito
presidencial estava entre comentários dos editores do periódico, que defendiam a necessidade
da honraria porque acreditavam que seria “a mais encantadora das iniciativas nacionais”, era

40
SIEGEL, Micol. “Mães Pretas, Filhos Cidadãos”. Op. cit. p. 318.
41
ALBERTO, Paulina L. . “Mãe Preta entre Sentimento, Ciência e Mito”. Op. cit. p.389-390.
133

“carícia”, “agradecimento” e “lembrança ao homem triste”, o escravo. Aquele que


acrescentou ao “caldeamento da nossa nacionalidade a nobreza de caráter, a rigidez de
temperamento, a lealdade de sentir sua raça, infelicitada pela barbaria dos vândalos
estrangeiros, brancos e tristes”42. O artigo reforça a imagem das populações negras como
contribuidoras da colonização, apesar de escravizadas, e mais uma vez o periódico apresenta
os negros africanos como seres explorados pelos brancos europeus. A interpretação
homogênea e maniqueísta entre esses dois povos, ignora as contradições inerentes às
sociedades humanas nos dois casos. Deste modo, não existe em seus escritos elites africanas
lucrando com o comércio de escravizados, guerras entre africanos que tanto foi a origem da
escravização de muitos como também aconteceram como sua resistência43; no periódico,
africanos são geralmente retratados como passivos.
Essas duas posições ocupadas pelos negros no passado eram motivos suficientes
para a homenagem à Mãe Preta. O monumento era “a paga merecida de quanta labuta, de
quanto sofrimento, de quanta decepção, de quanta fidelidade, de quanto carinho, de quanta
dedicação e de quantos sacrifícios pelo ‘filho da Yayá’” haviam feito as mulheres negras
durante a escravidão. A visão romantizada da relação entre escravas e os filhos dos senhores
continuava. As mães pretas do passado não tinham grandes ambições, segundo o texto,
bastasse “que o ‘mimo dengoso da Yayá’ (filho do senhor) ficasse grande, que se casasse com
uma moça ‘danada’ de bonita e que a levasse para a sua cozinha, onde resmungaria o resto da
vida a divina volúpia de o haver criado com a sua seiva” 44.
Este cenário se aproximava a ideia de harmonia racial, que era rejeitada pela
Imprensa Negra, no entanto servia legitimar seu papel de denunciante e para afastar a ideia de
divisão efetiva de raças. O artigo afirmava que o Brasil era “fruto amoroso de três raças
tristes”, ao contrário do que acontecia nos Estados Unidos da América, onde os “preconceitos
etnográficos” deixaram evoluir “duas raças opostas, uma espezinhada, outra” que espezinha,
os “latinos de cor” teriam conseguido promover “a mais empolgante obra fraternal de todos os
tempos: a comunhão dos três diferentes elementos raciais”, que eram “unos, coesos, movidos
por um só sentimento e por uma vontade”. O medo do ódio racial, que estava presente na
sociedade norte-americana, aparece em diversas publicações dos periódicos negros

42
“O Monumento à Mãe Preta e o Presidente da República”. Getulino, 13 mai. 1926, p. 1.
43
Sobre as elites africanas lucrando com a escravização, ver THORNTON, John K. A África e os africanos op.
cit.; WALDMAN, Maurício; SERRANO, Carlos. Memória d’África: a temática africana em sala de aula. São
Paulo: Cortez, 2008.
44
“O Monumento à Mãe Preta e o Presidente da República”. Getulino, 13 mai. 1926, p. 1.
134

paulistas45, neste caso o Getulino considera que a influência cultural das jazz-bands, os
concursos de miss e o cinema poderia vir acompanhada de organizações similares à Ku Klux
Klan46.
Como aponta Paulina Alberto, a fraternidade na campanha pelo monumento da
Mãe Preta defendida pelos escritores negros estabelecia “uma relação familiar e sentimental
entre brasileiros negros e brancos”, na esperança de “fornecer uma alternativa às ideologias
muito mais hostis do chamado racismo ‘científico’, que pregava a absoluta inferioridade dos
negros e justificava sua marginalização política, econômica e social”47. Além disso, os
homens de cor apontavam para os riscos de um possível avanço do racismo quando
colocavam os Estados Unidos como contraponto da sociedade brasileira, e lembravam “aos
conterrâneos que todos davam importância a convencer o mundo da harmonia racial
brasileira”48.
O segundo artigo publicado no Getulino foi uma explicação aos leitores de quem
era a Mãe Preta. Segundo o periódico, ela era a representante de “algumas” mulheres negras
“a quem coube uma certa serenidade de espírito e algo de conforto físico”, que prestavam
“assistência aos pequeninos brancos” e, por isso, conseguiam ter “um motivo de alegria, uma
situação de paz no sacrifício, uma escassa migalha de ventura”. Esse grupo formado por amas
de leite e babás extravasava a “ternura de seu coração numa explosão de beijos”, entendia que
“as crianças não têm culpa dos crimes e crueldade dos pais”, dedicava-se aos cuidados das
crianças dos senhores “com a única recompensa do prazer íntimo e da alegria do coração”.
Desta forma, estabelecia mais uma vez o abuso dos senhores e a dedicação dos negros como
retrato da escravidão. A participação na formação da nação, neste caso, acontecia por causa da
conduta dessas mães pretas e se podia ver na “língua cheia de vocábulos que são corruptelas
de seu dialeto”, na música que se “caldeou na melodia do jongo que elas entoavam” e, até
mesmo, na “superstição, provinda da delicadeza da alma africana”49.
Por cerca de dois anos os discursos da Imprensa Negra se assemelharam a estes
artigos do Getulino, considerando a Mãe Preta um símbolo da participação das mulheres
negras na formação do povo brasileiro, mesmo em condição de escravizadas, e o elo da
fraternidade entre brancos e negros. Em Porto Alegre, Maria Angélica Zubaran e Bianca
Salazar Guizzo apontam que o jornal O Exemplo (1892-1930) omitiu a participação das
45
Este assunto será aprofundado no capítulo 5.
46
“O Monumento à Mãe Preta e o Presidente da República”. Getulino, 13 mai. 1926. Grifos do original.
47
ALBERTO, Paulina L. . “A Mãe Preta entre Sentimento, Ciência e Mito”. Op. cit. p. 381.
48
SIEGEL, Micol. “Mães Pretas, Filhos Cidadãos”. Op. cit. p. 327.
49
IVAN. “Monumento Simbólico à Mãe Preta”. Getulino, 13 mai. 1926.
135

mulheres escravas no trabalho agrícola ao lado dos homens negros, nos textos em apoio à
escultura. Seus articulistas mantiveram em suas narrativas “uma noção de gênero tradicional,
que associa o homem negro ao trabalho e a mulher negra à maternidade, ao cuidado e à
reprodução da espécie”50. Em São Paulo isso não ocorreu. O Clarim d’Alvorada, talvez o
veículo mais ativo entre os negros na campanha, e o Getulino faziam questão de apresentar as
escravas domésticas como um grupo menor entre as escravas, que, por conta de suas
atividades, sofriam menos que as demais, porém, como toda a população escrava, teve que
suportar os horrores daquele sistema.
Por outro lado, os jornais da capital paulista não conseguiram superar os
estereótipos das mulheres negras, ao contrário, aproveitaram-se da imagem de sua sexualidade
excessiva na campanha pelo monumento. Na narrativa nostálgica dos trabalhos das amas de
leite, os elogios aos seus “seios opulentos” e “pojados” foi quase que uma constante, além
disso a gravura que divulgavam em suas páginas se assemelhava o icônico quadro da
“Mucama com criança no colo”. A autoria desta pintura é desconhecida, mas se tornou
bastante conhecida entre as imagens de mucamas e chegou-se a acreditar que o bebê fosse
Dom Pedro II51. A alça caída do vestido da mulher deixa parte de seu seio à mostra, que é
tocado pela mão direita da criança. As posições destas duas personagens foram mantidas nas
imagens encontradas no Clarim d’Alvorada e no quadro da “Sociedade Beneficente Clube 28
de Setembro” de Jundiaí, contudo, uma criança negra foi acrescentada.

50
ZUBARAN, Maria Angélica; GUIZZO, Bianca Salazar. “Imprensa Negra no Rio Grande do Sul: “Raça” e
Gênero na Campanha ao Monumento da “Mãe Preta” (1920-1930)” in Revista de História Regional, vol. 20, pp.
165-179, 2015. p.177.
51
Ver: Auriverde, 13 mai. 1928; ALBERTO, Paulina L. . “A Mãe Preta entre Sentimento, Ciência e Mito”. Op.
cit.; SIEGEL, Micol. “Mães Pretas, Filhos Cidadãos”. Op. cit.
136

Figura 11. “Mucama com criança no colo” Figura 12. “Mãe Preta” d’ O Clarim d’Alvorada.
(artista desconhecido) Clarim d’Alvorada, 28 set. 1928, p.1; 28 set. 1929, p. 1;
Disponível em: 28 set. 1940, p. 1.
https://portalseteartes.blogspot.com/2011/09/
acessado em 03 fev. 2019.

A imagem do periódico negro reflete uma mudança de posicionamento e a


associação entre a Lei do Ventre Livre e a Mãe Preta. A campanha pelo monumento começou
a perder força em 1927, quando seu projeto ficou parado nos órgãos do governo do Rio de
Janeiro. Então Vicente Ferreira, em um discurso no “Centro Cívico Palmares”, propôs a
criação de um feriado em honra à Mãe Preta no dia 28 de setembro. Ferreira era um dos mais
célebres oradores da comunidade negra da cidade de São Paulo, de acordo com as memórias
de José Correia Leite, ele chegou à cidade por volta de 1927, vindo do Rio de Janeiro; com
sua habilidade de fala conquistou as lideranças negras, o que fez com que ele atuasse como
colaborador em vários jornais e frequentasse as muitas associações de homens de cor da
capital paulista. Elas teriam sido o motivo de sua mudança para a cidade, inclusive. Correia
Leite informou que Vicente Ferreira achava que a diversidade de agremiações negras em São
Paulo permitiria a expansão de suas ideias e, talvez não por coincidência, uma delas era
retomar o debate sobre a Mãe Preta. Após seu discurso, os membros d’O Clarim d’Alvorada
encaminharam aos jornais paulistas pedidos de apoio à nova causa; a edição especial de 28 de
setembro de 1928 foi distribuída em várias redações e, nos dias seguintes, foram publicados
os apoios de jornalistas e políticos, como do então presidente Washington Luís e do
presidente do Estado Júlio Prestes52. Com esta nova campanha, a Mãe Preta deixava de fazer
referência às as mucamas e amas de leite, ela passou a representar também a escrava que teve

52
CUTI; LEITE, José Correia. …E disse o velho militante José Correia Leite: op. cit.; O Progresso, 12 out.
1928.
137

um filho livre. Por isto, ao lado, quase que às costas da mulher, há uma criança negra, que
seria seu filho.
Como analisou Paulina L. Alberto, a composição da gravura do jornal “joga com
os temas do preto e do branco”, a cabeça preta coroada pela nuvem branca, os corpos pretos
vestidos por panos brancos53. Sua criança negra está um pouco mais ao fundo, obscurecida
por sua sombra, enquanto o bebê branco se destaca em seu colo. A intenção da ilustração é
simbolizar mais um dos sacrifícios da mulher negra escravizada, o “abandono” a seus filhos.
Esta imagem foi capa d’O Clarim d’Alvorada de 28 de setembro de 1928 (e reproduzida em
1928 e 1940, em versões fac-símile no dia 28 de setembro), que foi distribuída aos jornais de
ampla circulação e marca o início do debate sobre a maternidade incompleta das escravas. A
partir de então, a Lei do Ventre Livre, na interpretação dos homens de cor tanto permitiu que
crianças nascidas de ventre escravo fossem livres, como também concedeu às escravas o
direito de serem mães; no entanto, amas e babás tinham como primeira preocupação a criação
dos filhos dos senhores, por isto seus próprios filhos eram deixados de lado. Era isto que
estava representado na imagem publicada no jornal.
A campanha pelo dia de honrarias não excluía a construção do monumento. Lino
Guedes, editor d’O Progresso na época, defendia a construção de uma estátua de Luiz Gama
em São Paulo e da Mãe Preta no Rio de Janeiro, por exemplo 54. No entanto, os homens de cor
que aderiram ao 28 de setembro como data da homenagem à mãe preta reforçaram a ideia de
uma nação formada por raças distintas. Desde o artigo de Campos, em 1926, havia grupos de
brancos e negros que entendiam que o Brasil era formado por duas ou mais raças
historicamente distintas, defendendo que a homenagem à Mãe Preta deveria ser feita porque
simbolizava o ponto de encontro fraternal das duas raças. Entre os homens de cor, esse
pensamento teve mais força na cidade de São Paulo do que no Rio de Janeiro, segundo
Paulina L. Alberto, especialmente n’ O Clarim d’Alvorada e O Progresso. Para a autora, isso
aconteceu porque a capital paulista estava recebendo muitos imigrantes europeus, assim como
o restante do Estado, o que sustentava a imagem de cidade branca, então, eles enfrentavam
essa situação com ações que visavam comprovar a existência de populações negras e construir
memórias que tratassem delas. Apesar da diferença racial, os homens de cor expunham

53
ALBERTO, Paulina L. . Termos de Inclusão... op. cit. p.136
54
“Filho Dileto da Desgraça”. O Progresso, 24 nov. 1929, p. 1.
138

sempre que ambas as raças eram brasileiras, responsáveis pela formação e engrandecimento
do país55.
Dentro da militância, a mudança principal foi na forma mais contundente de fazer
as denúncias, apoiados na imagem da Mãe Preta. Com a associação entre ela e a Lei do
Ventre Livre, os homens de cor trataram do abandono das crianças negras na discussão sobre
os abusos da escravidão; a mãe preta se tornara “símbolo da redenção e penitência”. De um
lado havia “grandes homens” que militavam na “política nacional, dirigindo os destinos do
país, que tiveram como fonte propulsora da vida, o seio túmido e rígido da mulher negra” 56, e
de outro lado estavam suas crianças, que as mulheres escravas “nunca puderam amamentar,
quanto mais criar”57, como representou a gravura d’O Clarim d’Alvorada. Na edição de 1929,
o texto de capa d’O Clarim d’Alvorada dizia que a Mãe Negra “amamentou e afagou no seu
seio os brancos que roubavam aos pretos a própria gota de leite”58. Neste sentido, a narrativa
da Mãe Preta deixou de focalizar exclusivamente seu papel na criação dos filhos de seus
senhores, para tratar também de suas próprias crianças; os homens de cor reconheceram que a
mãe escrava teve “duas maternidades – a das entranhas que gerava o escravo e a do leite com
que amamentava o ‘sinhó’”59.
A exposição da dupla maternidade evidenciava, ainda mais, a fraternidade entre os
negros. Se com os brancos dividiram o mesmo seio e o leite, entre os negros, as injustiças da
escravidão eram compartilhadas, bem como toda luta contra ela. Na segunda metade da
década de 1920, os homens de cor de São Paulo reestruturavam suas organizações e práticas
de defesa. A participação de migrantes do interior provavelmente contribuiu para isto e, não
por acaso, os dois jornais em que atuaram os dois antigos líderes do Getulino se tornaram
ícones desta mudança. Neste contexto, homenagear a Mãe Preta no dia 28 de setembro
reforçava que ela fazia parte da memória das populações negras - da memória da escravidão e
da luta contra ela. Então, o grande amor doado pelas babás e amas escravas era narrado junto
com as histórias de abandono e desigualdade de tratamento que foram obrigadas a dar a seus
filhos.
A Lei do Ventre Livre em nenhum momento deixou de ser a “semente da
liberdade”. O dia 28 de setembro foi ganhando sentidos complementares, que indicam os
esforços dos homens de cor em construir uma memória que valorizasse a importância das
55
Idem.
56
“28 de Setembro”. O Patrocínio, 28 set. 1929.
57
“Dia da Mãe Preta”. O Progresso, 12 out. 1928, p. 2.
58
“E o Monumento”. O Clarim d’Alvorada, 28 set. 1929.
59
“Dia da Mãe Preta”. O Clarim d’Alvorada, 28 set. 1929.
139

populações negras na formação do Brasil, em um momento em que os trabalhadores


estrangeiros encontravam mais facilidade para conseguir empregos. A fraternidade foi o ponto
crucial para suas tentativas de convencer as pessoas brancas a agir contra a marginalização e a
inferiorização dos negros. Assim como os escravos, o papel da Mãe Preta entre os homens de
cor era evidenciar a contribuição das populações negras na formação do país, bem como os
antigos abusos para que a luta contra as práticas discriminatórias fosse entendida como
extensão do abolicionismo.

3.3. Abolição e o Abolicionismo


A principal celebração dos homens de cor era a que comemorava o fim da
escravidão. A maioria das associações de homens de cor tinha em seu nome a data 13 de
maio; neste dia, os festejos saiam do espaço privado e tomavam as ruas, havia salvas de tiros,
procissões e marchas, missas, discursos dos dirigentes das agremiações e de políticos locais e
bailes que costumavam atravessar a madrugada. Como a data se tornara feriado nacional entre
1890 e 1931, as edições especiais que celebravam o 13 de maio não ficavam restritas à
Imprensa Negra, os jornais de grande circulação também publicavam editoriais e textos em
suas primeiras páginas. De um modo geral as narrativas se assemelhavam, a imprensa
aproveitava o momento para refletir sobre a situação dos escravos e seu papel na formação do
Brasil, a luta dos abolicionistas e as dificuldades de integração das populações negras na
sociedade republicana.
Para muitos jornais diários, a partir de 1890, Abolição e República eram conceitos
quase que indissociáveis, que costumavam ser entendidos como sinônimos de modernização
do país. Alguns negros concordavam com esta interpretação, outros reconheciam a
importância da monarquia no processo abolicionista, o que fez a princesa Isabel ser venerada
por algumas entidades e lideranças negras, ainda havia quem questionasse a associação entre
republicanismo e modernização que, por si só, teria trazido melhoria para os negros. Esta
crítica se tornou predominante nas organizações negras a partir da década de 1920.
Logo após a Abolição, foram divulgadas notícias sobre a fundação de sociedades
beneficentes e de instrução com o nome 13 de maio; algumas eram dirigidas por brancos com
a finalidade de ajudar a integração dos libertos na sociedade pautada no trabalho livre, dando
recursos materiais e financeiros, alfabetizando e ensinando novos ofícios60. Em outros casos,

60
Ver: MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações Raciais op. cit. SCHELBAUER, Analete Regina. Idéias que
não se Realizam: op. cit.; CARVALHO, Marta Maria Chagas. A Escola e A República op. cit.; MORAES,
140

as entidades foram fundadas por pessoas de cor, que além dos objetivos já citados, podiam ser
destinadas à recreação61. Em Bragança Paulista, o “Clube Recreativo e Beneficente 13 de
Maio”, de 1934, fora fundado por membros do “Clube Artístico e Recreativo dos Operários”,
que foi formado, em 1896, por antigos sócios do “Clube dos Escravos”, de 188162. Enquanto
as entidades controladas por brancos restringiram suas comemorações à Lei Áurea em
solenidades fechadas em suas sedes63, as sociedades de homens de cor saíram às ruas desde o
primeiro aniversário da lei; notícias também falam de conjuntos de negros que não
64
representavam nenhuma associação festejando com sambas pelas ruas . Por outro lado, o
poder público estadual e de algumas cidades, como São Paulo e Campinas, não organizaram
nenhuma celebração até o início do século XX. Mesmo as associações de antigos
abolicionistas e políticos republicanos tinham dificuldade de receber ajuda financeira, de
acordo com as críticas d’O Estado de São Paulo65. Este periódico chegou a afirmar, em sua
edição de 13 de maio de 1889, que o aniversário da lei não seria comemorado, no entanto
entre 15 e 17 de maio noticiou celebrações em diversas cidades de São Paulo, nenhuma na
capital66, onde houve confusão porque a polícia impediu a realização de uma conferência67,
segundo informou A Gazeta de Piracicaba.
Na cidade de Campinas, a Abolição só se tornou uma celebração anual pela
imprensa no século XX; antes disso, havia anos em que um ou mais jornal editava um artigo
especial sobre o assunto, em outros nem mesmo notícias sobre alguma festa aparecem nas
páginas jornalísticas68. Em Piracicaba, A Gazeta de Piracicaba sempre publicou editoriais em
sua homenagem, mas as festas negras só foram notícias em 1888 e 1889. De 1902 em diante
as celebrações da “Sociedade Beneficente 13 de Maio” passaram a ser anunciadas
frequentemente. Nas duas cidades, a existência de associações de homens de cor promovendo

Carmen Sylvia Vidigal. A Socialização da Força de Trabalho: op. cit.; BARROS, Surya Aaronovich Pombo de.
Negrinhos que por Ahi Andão: op. cit.
61
MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações Raciais op. cit.; PINTO, Regina Pahim. O Movimento Negro em
São Paulo op. cit.; DOMINGUES, Petrônio. História Não Contada op. cit.
62
SILVA, Jacinto. No tempo da escravidão: experiências de senhores e escravos em Bragança Paulista (1871-
1888). São Paulo: Annablume, 2015. p. 115.
63
Ver: “Amparo”. O Estado de São Paulo, 15 mai. 1897; “Festa da Abolição”. Gazeta de Piracicaba, 13 jun.
1888; “Festejos da Liberdade”. Gazeta de Piracicaba, 12 jun. 1888.
64
Ver: A Província de São Paulo, 13 mai. 1889; O Estado de São Paulo, 13 mai. 1890; O Estado de São Paulo,
14 mai. 1897; O Estado de São Paulo, 15 mai. 1897; Gazeta de Piracicaba, 13 mai. 1889.
65
“Notícias”. A Província de São Paulo, 13 mai. 1889; “Notícias”. O Estado de São Paulo, 15 mai. 1890.
66
“Municípios. A Província de São Paulo, 13 mai. 1889; “Municípios. A Província de São Paulo, 15 mai. 1889;
“Municípios. A Província de São Paulo, 16 mai. 1889; “Municípios. A Província de São Paulo, 17 mai. 1889.
67
“Distúrbios”. Gazeta de Piracicaba, 17 mai. 1889, p. 1.
68
MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações Raciais op. cit.
141

comemorações à lei fez com que seu aniversário não passasse despercebido e que a situação
das populações negras após sua promulgação fosse mais discutida.
Para os jornais diários, o 13 de maio era uma “gloriosa data”; a Abolição era a
“humanitária lei” que expurgou a “mancha negra” da história brasileira, pôs fim a divisão
entre “vencidos e vencedores” ou de “uma raça de exploradores e outra de explorados”,
trouxe a “redenção” e fez com que no Brasil tivesse somente “um povo de irmãos”. A
escravidão teria sido um período de “trevas” e “escuridão”, ela era “um regime tenebroso”,
uma “instituição criminosa” e “nefasta”, que sustentava a “tirania” e o “despotismo” que, por
isso, a mantinha. Os escravos de origem africana eram uma “pobre raça”, uma “raça infeliz”,
de “trabalhadores fortes” que sofreram todas as formas de “abusos” e “crueldades”, e seus
“gemidos” eram constantemente relatados para reforçar seu sofrimento. Por sua vez, o
abolicionismo era a “luz”, uma “manifestação democrática”, a luta de “rebeldes” com
“espíritos livres” e de “alta envergadura” e “arrojados” contra os “conservadores”. Com o fim
do cativeiro, logo se pôs fim à monarquia, porque “a escravidão era a barreira insuperável
para o advento da república”69; com ela, a nação podia, enfim, ser “digna das riquezas” de seu
solo e usufruir de sua “grandeza”.
Adjetivos como estes também apareciam na Imprensa Negra. A principal
diferença estava na narrativa sobre a vida dos escravos, os homens de cor retratavam mais do
que seu sofrimento nos campos de trabalho. Para a defesa dos homens de cor foi importante
apresentá-los como trabalhadores responsáveis também pelas riquezas e desenvolvimento do
país. Outro ponto divergente dizia respeito às representações da monarquia e da república.
Para a imprensa republicana o regime monárquico e a escravidão se sustentavam um no outro,
eram entendidos como inseparáveis e amarras ao progresso e desenvolvimento do país. Além
disso, a glorificação da Princesa Isabel era totalmente rejeitada, seus jornalistas preferiam
apresentar o processo abolicionista como um movimento do povo.
Em 1900, o Diário de Campinas, por exemplo, criticou a postura apática da
população frente ao 13 de maio, que foi “a mais genuína conquista popular” e, denunciando o
esquecimento desta data, apresentou um breve relato do movimento abolicionista e suas
lideranças, afirmando que a Princesa Isabel “não fez mais do que sancionar a vontade
popular”, por isso negava “à história o direito de chamar redentora quem apenas cedeu à força
bruta do momento histórico”. Para o periódico, a Abolição fora feita pelo povo, “fizeram-na
José do Patrocínio, João Cordeiro, Antônio Bento, Luiz Gama, Joaquim Nabuco, Joaquim

69
“13 DE Maio”. A Gazeta de Piracicaba, 12 mai. 1889, p. 1.
142

Serra, Carlos Lacerda e outros brasileiros”70. Em 1902, O Diário voltou a questionar o título
de redentora da princesa, finalizando que “a história imparcial e severa jamais poderá aceitar”
esse título a ela71.
Entre os homens de cor a princesa tinha algum prestígio. Na cidade de Campinas
fora fundada em 1899 a “Sociedade Beneficente Isabel, a Redentora”, que prestava serviços
de mútuo socorro e compunha a rede de associações de homens de cor, de acordo com artigos
do Getulino. Este periódico colocava a princesa entre os principais “estadistas” responsáveis
pela Abolição. No artigo “Treze de Maio e Alguns de seus Obreiros”, de 1923, a decisão dela
em substituir Cotegipe por João Alfredo é entendida como fundamental para aprovar o fim da
escravidão72. Em outro artigo, de 1924, que narrava como teria sido a festa no momento do
anúncio da assinatura da Lei Áurea, dizia-se que se ouvia em meio à “formidável
manifestação os vivas entusiásticos à Princesa d. Isabel, a Redentora, José do Patrocínio,
Saldanha Marinho, Antônio Bento, F. Glycerio, Antônio Sarmento e muitos outros”73.
A relação com a república também trazia algumas semelhanças e divergências.
Em fevereiro de 1889, os homens de cor de Campinas protestaram contra o recrutamento
forçado que a Guarda Negra fazia na cidade, porque ela tentava convencê-los a defender o
trono em troca de gratidão. Segundo a carta publicada no Diário de Campinas, eles entendiam
que a “emancipação fo[ra] feita pelo povo e pelo exército”, por isso eram gratos a todos os
abolicionistas, inclusive à princesa Isabel por quem tinham respeito, mas não se sentiam
obrigados a fazer a defesa de seu trono74. Dias após a Proclamação da República, os homens
de cor daquela cidade lançaram outro manifesto, desta vez apoiando o novo regime após
terem se reunido com alguns políticos. Uma condição para seu apoio foi a formação de uma
comissão em defesa dos negros, isso foi importante porque durante aquele ano correu um
boato de proporção nacional de que os republicanos queriam tomar o poder e depois
escravizar os libertos mais uma vez. José do Patrocínio chegou a escrever textos para
tranquilizar as populações negras75. Em Piracicaba, os homens de cor também rejeitaram a
Guarda Negra, entretanto não parece ter havido recrutamento forçado na cidade. Ali houve

70
Diário de Campinas. 15 mai. 1900.
71
Diário de Campinas. 13 mai. 1902.
72
PINTO, Gueldêsnio. “Treze de Maio e Alguns Obreiros”. Getulino, 13 out. 1923, p. 1.
73
Getulino. 13 mai. 1924, p.1.
74
“Protesto dos Homens de Cor”. Diário de Campinas, 19 fev. 1889.
75
Diário de Campinas, 27 nov. 1889. A transcrição do artigo de José do Patrocínio foi feita pela Gazeta de
Piracicaba, 17 nov. 1889.
143

convites públicos para que participassem da reunião no teatro da cidade, mas os negros não
foram ao local na hora marcada76.
Em 1903, Benedito Florêncio escreveu para O Baluarte que o 13 de maio “em sua
base genésica foi percursor radiante do 15 de Novembro de [18]89”. Toda a movimentação
após a libertação dos escravos anunciava que era preciso “abater o edifício secular da
monarquia e derrocar a velha instituição já carcomida do absolutismo governativo”. Para o
jornalista, a Proclamação da República “fechou com chave de ouro um ciclo notável da nossa
evolução política”77. Nas notícias das festas da “Federação Paulista dos Homens de Cor” há a
indicação de que os discursos de políticos e de jornalistas convidados seguiam esse mesmo
raciocínio; Abolição e República estavam na mesma linha evolutiva.
Durante a década de 1910, a Imprensa Negra paulistana costumava caracterizar o
sistema republicano como um período de oportunidades, por isso cobrava os negros se
instruíssem e tivessem comportamentos adequados, saíssem da apatia em que viviam. Ao
final daqueles anos e no começo dos anos de 1920, surgiram um novo elemento que impedia a
ascensão social das populações negras: a continuidade do pensamento escravocrata78. Os
colaboradores do Getulino e O Patrocínio seguiam essa linha de raciocínio. Eles acreditavam
que o regime republicano não conseguira pôr fim ao preconceito de cor e dar a igualdade
esperada aos negros. Em seus artigos, compreendiam que a marginalização das populações
negras era uma consequência da permanência do pensamento escravocrata, que sustentava o
preconceito de cor.
Petrônio Domingues afirma que “o culto da família imperial, por parte dos
libertos e seus descendentes em São Paulo nas primeiras décadas do século XX, não deve ser
interpretado como decorrência exclusiva da gratidão por um ato do passado – a supressão do
cativeiro”. O apreço também foi fruto do descontentamento com o sistema republicano, com
seus primeiros governos intolerantes “às práticas culturais afrodiaspóricas”, que não tinham
“políticas públicas voltadas para atacar as desigualdades raciais e, particularmente, o descaso
das autoridades do novo regime às carências da ‘população de cor’ [que] não passavam
despercebidos pelos jornalistas e articuladores da imprensa negra”79. Lilia Moritz Schwarcz e
Robert Daibert Júnior consideram também os referenciais culturais africanos em suas análises

76
Gazeta de Piracicaba, 13 de mar. 1889.
77
FLORÊNCIO, Benedito. “O Advento da República”. O Baluarte. 15 nov. 1903, p. 1.
78
Ver: CARDOSO, Paulino A Luta Contra a Apatia op. cit.; LUCINDO, Willian Robson Soares. Educação no
Pós-Abolição op. cit.; PINTO, Regina Pahim. O Movimento Negro em São Paulo op. cit.; DOMINGUES,
Petrônio. História Não Contada op. cit.
79
DOMINGUES, Petrônio. “A Redenção da Nossa Raça” op. Cit. p. 33-34.
144

sobre a popularidade da família real entre as populações negras. Para a autora, a existência de
reinos no continente africano e de escravizados pertencentes a alguma nobreza derrotada, que
buscaram “reconstruir estruturas políticas e religiosas de suas terras distantes”, possibilitam
pensar em manutenção de certo apreço pelo sistema monárquico entre africanos e seus
descendentes. Em festas negras com coroamento, como as congadas, as antigas lideranças
eram rememoradas, glorificadas e a autoridade máxima reconstituída, por isso afirma que elas
permitiam “o surgimento de compreensões diferentes da realeza e mesmo de certa recepção
positiva da Monarquia”80.
Robert Daibert Júnior estudou as construções de imagens da princesa Isabel entre
múltiplos atores do abolicionismo. Entre seus apoiadores, José do Patrocínio e outros
destacavam sua condição feminina para apresenta-la como uma mãe redentora da “raça
africana”, que também remetia a uma imagem religiosa, assim “como Cristo, [ela]
proporcionara a libertação dos cativos e os incorporava como filhos de uma mesma família. A
salvação dos perdidos estava consumada por um ato de entrega e amor incondicional”. Com o
fim da escravidão, sugere o historiador, os negros tinham a possibilidade de “uma melhor
expressão de seus valores culturais dos laços de solidariedade”, ainda que “os negros
vivenciaram a abolição e interpretaram a ação da Princesa (…) valendo-se dos referenciais
transplantados da África para o Brasil”. Essas vivências favoreceram a figura do
abolicionismo monárquico, “a imagem dos negros como meros receptores da benção de
Isabel”, apagando as lutas contra o escravismo. No entanto, “o que para muitos transparecia
como sinônimo de fraqueza e submissão era na verdade um modo próprio de alimentar e
vivenciar o sonho de liberdade”81.
A interpretação de valores transplantados da África pode ser útil para analisar o
apoio das populações nos momentos imediatos à Abolição, a imagem da princesa sofreu
diversas mudanças ao longo dos anos, ora protagonista, ora coadjuvante. Além disso, dentro
dos termos negros, homens de cor e africanos estão pessoas com experiências distintas, que
foram fundamentais para seu posicionamento político. Neste sentido, se Benedito Florêncio e
O Baluarte defendiam a Abolição e a República como parte do mesmo processo, em 1899
outro grupo de homens de cor resolveu fundar uma entidade de auxílio mútuo chamada
“Sociedade Beneficente Isabel, a Redentora” e fez questão de enviar uma cópia de seus

80
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998, pp. 14-15.
81
DAIBERT JÚNIOR, Robert. Isabel, a “Redentora” dos Escravos: uma história da Princesa entre olhares
negros e brancos (1846-1988). Bauru: EDUSC; FAPESP, 2004, p. 225.
145

estatutos à patrona82. Nos textos do Getulino, é possível ler que junto com as homenagens à
monarca o descontentamento com o sistema republicano, como indicado por Petrônio
Domingues. De toda forma, ela entra nas homenagens aos abolicionistas por ter sido a
responsável pela assinatura da lei que pôs fim à escravidão e aparece como combatente
porque o abolicionismo nos periódicos é retratado como um combate.
A luta pelo fim da escravidão era mais árdua na avaliação dos periódicos negros,
apresentando mais obstáculos e sendo mais longa. De um modo geral, os jornais de ampla
circulação tratavam do abolicionismo a partir das ações de algumas lideranças, como Antônio
Bento, José do Patrocínio, e da aprovação das leis como a que pôs fim ao tráfico de escravo,
em 1850, que concedeu a liberdade do ventre, de 1871, e a da Abolição, em 1888; fora isso,
retratavam a escravidão como momento de trevas e sofrimento dos escravos, diante dos
abusos e da crueldade de seus senhores. Em duas ocasiões o Getulino chamou a atenção para
o aniversário do “tratado de aliança e amizade” entre Grã-Bretanha e Brasil, que assumiu o
compromisso dos portugueses de 1817, para cessar o comércio marítimo de africanos
escravizados até 183083. Neste caso, o periódico frisava que o acordo e, posteriormente, a lei
de 1831 foram desrespeitados pelo contrabando que “continuou a fazer-se em grande
escala”84. As duas datas seguiam esquecidas em seus aniversários para os homens de cor, mas,
ao colocá-las no conjunto da legislação abolicionista, o jornal propagava a ideia de que a luta
por igualdade era entendida como um processo mais longo e com muitas resistências.

3.4. Os patronos dos homens de cor


Entre dezembro de 1923 e maio de 1924 o Getulino publicou uma série de
biografias de políticos locais envolvidos na campanha abolicionista85. Nestas e em outras
homenagens, os abolicionistas eram elogiados como grandes estadistas e nacionalistas,
defensores da igualdade e simpáticos às causas dos homens de cor. A narrativa os associava à

82
“Homenagem à Isabel, a Redentora”. O Comércio de São Paulo, 24 jan. 1900.
83
“Extinção do Tráfico”. Getulino, 11 nov. 1923, p. 1; e MORAES, Evaristo de. “Um Abolicionista de Primeira
Obra”. Getulino, 9 mar. 1924, p. 1.
84
“Extinção do Tráfico”. Getulino, 11 nov. 1923, p. 1.
85
Ver: A. JÚNIOR, Christovam. “Abílio Álvaro Miller”. Getulino, 16 dez. 1923, p.1; SÓ, Juvêncio. “Perfis I –
Pedro Magalhães”. Getulino, 27 jan. 1924, p. 1; ______. “Perfis II – Major Antônio Sarmento”. Getulino, 03 fev.
1924, p. 1.; ______. “Perfil III - Álvaro Ribeiro”. Getulino, 24 fev. 1924, p. 1; ______. “Perfis IV”. Getulino, 02
mar. 1924, p. 2. SÓ, Simplício. “Perfis V – Dr. Araújo Mascarenhas”. Getulino, 09 mar. 1924, p. 1; SANTO,
Mário. “Perfis VI – Capitão Luiz Antonio Barbosa”. Getulino, 16 mar. 1924, p. 2; SÓ, Juvêncio. “Perfis VII –
Leopoldo Amaral”. Getulino, 23 mar. 1924, p. 1; ______. “Perfis VIII – Dr. Joaquim Álvaro”. Getulino, 30 mar.
1924, p. 2; ______. “Perfis IX – Cônego Samuel Fragoso”. Getulino, 06 abr. 1924, p. 2; ______. “Perfis X – Dr.
Álvaro Miller”. Getulino, 01 mai. 1924, p. 1; ______. “Perfis XI – Joaquim Sarmento”. Getulino, 13 mai. 1924,
p. 3.
146

defesa da classe e da raça, mesmo já falecidos. Outros políticos de prestígio nacional também
foram homenageados em momentos diferentes ou nas edições de 13 de maio e 28 de
setembro. Luiz Gama e José do Patrocínio eram os mais reverenciados; como homens de cor,
eles serviam tanto para aproximar as frentes de luta, quanto para exemplificar a participação
dos negros na história do Brasil e seu sucesso se tivessem boa conduta e instrução.
Conforme apontando anteriormente, muitas associações de homens de cor
receberam o nome de Luiz Gama e José do Patrocínio. Na cidade de Campinas houve duas
agremiações com o nome do rábula, a “Sociedade Beneficente Luiz Gama” e o “Grêmio
Dramático Luiz Gama”, fundadas em 1888 e 1919 respectivamente, além do jornal Getulino
que era seu pseudônimo. A “Sociedade Beneficente 13 de Maio” de Piracicaba o tomou como
seu patrono, ao lado de Antônio Bento, em sua sede também foi fundada uma escola de
música e depois uma jazz-band chamadas “Luiz Gama”. E quando seus sócios buscaram
trocar o nome da sociedade por outro que agradasse seus aliados da elite, ela foi chamada de
“Luiz Gama” nos jornais86. José do Patrocínio era nome do único periódico negro de
Piracicaba e de um grêmio dançante recreativo de Campinas.
O discurso de Lino Guedes durante a sessão de fundação do “Grêmio Dramático
Luiz Gama” foi publicado em três partes no Getulino, em 1924. O texto “Luiz Gama e sua
Individualidade Literária” contava sua trajetória desde o nascimento, em 1830, um ano
“cheio de doces recordações” para os homens de cor, segundo o jornalista, dando ênfase às
dificuldades que ele encontrou após o afastamento de sua mãe. A narrativa teleológica de
Guedes faz com que Gama seja visto como um predestinado a praticar grandes feitos, “que
viera para suavizar as amarguras da escravidão”, apesar de o destino o ter marcado “e traçado
na terra o itinerário de sua existência errante e desgraçada”. Isto porque logo após seu
nascimento sua mãe, Luiza Mahin, “na revolta da Sabinada foi presa e com outros escravos,
deportada para o Rio de Janeiro”, ele, “o filho dileto da desgraça”, procurou por ela quatro
vezes na corte. A poesia “Minha Mãe” teria sido escrita porque, mesmo ausente, ela fora
“seu anjo de amor, a sua estrela nessa noite tormentosa, nesse céu de trevas”, ela cristalizava
“todo o sentimento filial do poeta”. Nesta primeira parte o pai português é somente
mencionado em seu nascimento87. A poesia foi o único texto de Luiz Gama transcrito no
jornal, ela fecha a primeira parte do texto que focaliza a relação de ambos e, desta maneira,
apresenta a individualidade de sua literatura, fruto de sua vida excepcional.

86
Ver capítulo 2.
87
GUEDES, Lino. “Luiz Gama I”. Getulino, 24 ago. 1924, p. 2.
147

A segunda parte conta a relação de Luiz com o pai, sua vida como escravo e sua
libertação; trechos da carta de Luiz Gama a Lúcio de Mendonça são citados ao longo deste e
do próximo texto. Lino Guedes retratou seu pai como “desumano”, “perdulário e libertino”,
que lhe ofertou uma boa vida na infância, mas quando ficou “reduzido à miséria teve a
fraqueza de vender como escravo o próprio filho”. O jornalista também descreveu a cena de
sua venda, algo que não consta na carta, mas está presente no livro de Osório Duque
Estrada88. No Getulino dizia que tentando ludibriar o filho, “na tarde de 10 de novembro de
1840, mandou-o vestir para passear [e] rumaram para o cais”. Enquanto “o desumano pai”
conversava com o comandante do Saraiva, “o pequeno distraia-se a bordo, porém não tanto
que não visse o pai dissimuladamente entrar no bote”, e responde ao filho que não iriam junto
porque ele havia esquecido algo. “Luiz Gama compreendeu o que se passara; desceu os
degraus da escada, aproximou-se do bote, e (…) exclamou: - meu pai, o senhor me
vendeu!”89. Em sua carta, Luiz Gama apenas disse que seu pai o vendera com a ajuda de seu
amigo Luiz Candido Quintela e, sobre seu pai, que ele era “muito extremoso” com ele
enquanto era rico, que teria sido “revolucionário em 1837” e apaixonado por diversos tipos de
divertimentos, como jogos90.
Depois de ser levado ao Rio de Janeiro, ele foi para Santos e caminhou até
Campinas, com apenas 10 anos, “o que de lembrar faz dó”, de acordo com Guedes. As
tentativas de venda durante o trajeto fracassaram por causa do preconceito contra os escravos
baianos, ele foi escolhido por muitos senhores da capital, Jundiaí e Campinas que, ao saberem
de sua origem, desistiram da compra. Ele “foi como refugo para a residência do Alferes
Antônio Pereira Cardoso” junto com outro escravo baiano, “almas caridosas repartiram com
eles os frutos de suas minguas economias”. O estudante campineiro Antonio Rodrigues do
Prado o ensinou as primeiras letras, então, descreve o articulista de forma romantizada que
“Luiz Gama que aprendia a lavrar, engomar, costurar e os ofícios de sapateiro e copeiro, com
mão trêmula e vacilante pegou na pena levado por uma curiosidade incansável e inexaustível
vontade de saber”. Sua liberdade foi “conquistada à força de sacrifícios” e para garanti-la se
tornou praça por seis anos. Sua dedicação à educação o fez ter sucesso na vida profissional,
primeiro trabalhando como copista no escritório do Major Bendito Coelho Netto e depois
como amanuense na Secretaria de Polícia de São Paulo, nomeado por Francisco Maria de
88
ESTRADA, Osorio Duque. A Abolição: esboço histórico, 1831-1888. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro &
Maurillo, 1918.
89
GUEDES, Lino. “Luiz Gama II”. Getulino, 07 set. 1924, p. 2.
90
GAMA, Luiz. “Carta de Luiz Gama a Lúcio de Mendonça de 25 jul. 1880”. In. MORAES, Marcos Antônio
(org.). Antologia da carta no Brasil: me escreva tão logo possa. São Paulo: Moderna, 2005. pp. 67-75.
148

Souza Furtado Mendonça. Citando a carta, o jornalista indica que estas conquistas
aconteceram por seu caráter, atividade e comportamento91. Entretanto, essas qualidades na
carta foram responsáveis por sua ordenança junto ao gabinete de Mendonça.
A terceira parte apresenta dois trechos de carta de Gama: Pela Última Vez92, uma
resposta sobre as acusações que lhe fizeram após sua saída da Secretaria de Polícia; e a carta
destinada a seu filho, Benedito Gama, em 1885. Em 1868, Luiz Gama foi demitido a bem do
serviço público por ser “turbulento e sedicioso”. A verdadeira razão, em sua opinião foi a
chegada dos conservadores ao poder, uma vez que ele era do Partido Liberal. O periódico em
que atuava, o Radical Paulistano, criticou a decisão da secretaria de afastar Luiz Gama e ele
foi acusado de ter escrito o artigo anônimo. Resolveu então escrever a carta que se tornou
famosa, defendendo-se da acusação de ingratidão e enaltecendo sua relação com Francisco
Maria de Souza Furtado Mendonça, que havia acolhido “em seu gabinete um soldado de pele
negra” que tinha “deixado de pouco os grilhões de indébito cativeiro”. Luiz Gama afirmara
que entrou em seu gabinete levando somente a “ignorância e a vontade inabalável de instruir-
se”, saiu instruído, não diplomado “porque a inteligência repele os diplomas, como Deus
repele a escravidão. Ele também saiu “conhecido na imprensa como extremo democrata” e
dedicado à libertação dos escravos. Então, como desejava e lutava por um país “sem rei e sem
escravos”, ele acreditava ser um digno “discípulo do excelentíssimo senhor conselheiro
Furtado de Mendonça”, refutando o adjetivo de ingrato por isto. Promete continuar a fazer
turbulência através do Partido Liberal, da imprensa, das urnas e da justiça, tanto em
“processos em favor das pessoas livres criminosamente escravizadas”, quanto no auxílio em
conquista de alforrias, porque detestava, dizia ele, o cativeiro e todos os senhores,
principalmente os reis”93.
Lino Guedes não discutiu esta mensagem, pelo menos não em sua transcrição. A
escrita segue com um pequeno contexto sobre onde e quando Luiz Gama escreveu a carta
dirigida a seu filho, que na época tinha 14 anos. Em primeiro lugar, o jovem rapaz deveria
dizer a sua mãe que ela era responsável por se manter honesta e honrada, também não deveria
se aterrorizar pela miséria. Ele deveria evitar a “amizade e as relações dos grandes homens”,
deveria se educar e ser republicano, “como foi o homem Cristo”. Também teria que lutar para
que o país não tivesse mais reis e escravos. Ser “cristão filosófico” era outra obrigação que
seu pai lhe impôs. Acreditava Luiz Gama que “Deus revela-se tão somente na razão do

91
GUEDES, Lino. “Luiz Gama II”. Getulino, 07 set. 1924, p. 2.
92
Correio Paulistano, 03 dez. 1869, p. 1.
93
GUEDES, Lino. “Luiz Gama III”. Getulino, 21 set. 1924, p. 3.
149

homem, não existe em igreja alguma”, por isso recomendava somente dois livros: a Bíblia e
“A vida de Jesus” por Ernesto Renan. Por fim, pedia que trabalhasse e perseverasse, além de
ter compaixão dos inimigos, porque o autor estava naquele momento sofrendo ameaças de
morte94. Esta carta também não foi comentada na versão impressa. O texto termina com uma
citação elogiosa de um colega de Radical Paulistano ao abolicionista.
O discurso talvez tenha sido cortado na versão jornalística, por isso não há mais
comentários de Lino Guedes. Em todo caso, o histórico construído permite entender como
Luiz Gama era reverenciado. Ele não era somente um herói; sua trajetória tinha vários
aspectos que se assemelhavam às experiências de outros negros e, ainda, ele tinha alcançado
muitos dos objetivos estabelecidos pelas lideranças negras para superar o preconceito de cor,
por isso ele também era um exemplo para as populações negras. Como foi apontado no
primeiro capítulo, os homens de cor costumavam apresentar pessoas negras que eram
consideradas exemplos de boa conduta e sucesso como uma forma de reiterar a relação de
ambos; para eles, as populações negras só conseguiam ascender se tivessem um
comportamento aceitável. Este era um ponto chave para defesa da classe e da raça. Os
modelos, além de inspirarem os homens de cor, eram usados nos discursos para conclamar
pela união dos negros, porque mesmo os bem-sucedidos e qualificados sofriam com o
preconceito de cor, então precisavam de ajuda, além disso, todas as pessoas apresentadas
agiram em prol das populações negras, como se o verdadeiro sucesso não pudesse ser
alcançado individualmente. Os escritos sobre Luiz Gama o mostravam desta forma95. Mesmo
passando pelo cativeiro, ele teve sempre a vontade de estudar e fez isto, conseguiu empregos
com certo destaque e arriscou tudo porque fazia parte das campanhas abolicionistas, mesmo
assim pedia a seu filho que também participasse deste combate.
Nem sempre sua postura antimonarquista era divulgada. A maioria dos artigos
sobre ele foi publicada nas comemorações de 13 de maio e os homens de cor exaltavam
também a princesa Isabel nestas ocasiões, como já apontado. Narrava-se a história da
Abolição como se Luiz Gama, José do Patrocínio e a princesa fossem três grandes aliados96.
Isso acontecia porque alguns homens de cor de fato consideravam o papel de alguns
monarquistas importantes na extinção do cativeiro ainda nos momentos imediatos à

94
Idem.
95
MESQUITA, J. Luiz de. “A Raça Negra no Brasil”. Getulino, 07 set. 1924, p. 1; “Honra a Luiz Gama”.
Getulino, 30 set. 1923, p. 1; “Recorte – centenário de Luiz Gama”. O Patrocínio, 20 out. 1929, p. 2;
PRAXEDES. “Olvidado”. Clarim d’Alvorada, 30 ago. 1925, p.4.
96
WERNECK, Lacerda. “Campanha Abolicionista”. Getulino, 30 set. 1923, p. 1; PINTO, Gueldêsnio. “Treze de
Maio e Alguns Obreiros”. Getulino, 13 out. 1923, p. 1.
150

promulgação da lei. Outros se tornam mais críticos com a República, especialmente nos anos
de 1910 e 1920, porque esse sistema de governo não conseguia romper com a discriminação
contra os negros; passavam então a questionar a narrativa dos republicanos, que entendiam a
Abolição como primeira etapa da implementação da República. A admiração de Patrocínio
pela princesa pode ter contribuído para sua imagem positiva entre os homens de cor e sua
associação a Luiz Gama.
Na sessão solene de 13 de maio de 1908, há notícias que se discorreu sobre a
importância dos dois abolicionistas negros na “Sociedade Beneficente 13 de Maio” de
Piracicaba. Na capital Paulista, o “Centro Humanitário José do Patrocínio” rendia homenagem
anualmente a seu patrono, que era um dever estatutário97 e algumas de suas festas foram
noticiadas98. Nos estatutos das associações de homens de cor havia esse tipo de compromisso:
reverenciar abolicionistas e datas importantes do processo; então, o discurso de Lino Guedes
não foi um fato isolado e as publicações da Imprensa Negra podem dar pistas de como eles
eram vistos, porque muitos articulistas eram também oradores das associações.
A trajetória de José do Patrocínio foi pouco explorada nos periódicos negros se
comparada com a de Luiz Gama; até mesmo em Piracicaba, onde um jornal o tomou como
patrono, não foi encontrada nenhuma publicação que destacasse sua biografia. Os articulistas
negros enfatizaram seu estatuto de um dos panteões da liberdade; por vezes ele foi retratado
como um discípulo de Gama, outras como companheiro que deu continuidade à luta
abolicionista, contudo, ambos estão sempre na mesma altura. Por ter produzido artigos após a
Abolição, a ligação direta entre abolicionismo e a defesa da classe/raça era justificada por sua
atuação nos dois momentos. Assim como Gama, ele também foi usado de modelo para os
homens de cor.
Um conto sobre a vida de Patrocínio recebeu o título de Belo Exemplo, inclusive.
Contava, no Getulino, que certa “noite de pompas” no palácio imperial o conde d’Eu
atravessou o salão com a princesa em seu braço, até que conversou e ofereceu “a princesa a
um vulto que se encontrava retraído”. Foi preciso insistir para que ele se levantasse e aceitasse
o “braço da mais bela dama que ali se achava” para dançar. O par da princesa Isabel “era José
do Patrocínio, esse negro a quem coube honrar a sua Pátria trabalhando para levar de sua
história a mancha terrível do cativeiro”. Este episódio era incompatível com o momento

97
Centro Humanitário José do Patrocínio. Estatuto do Centro Humanitário José do Patrocínio. Sociedade Civil
712. 1º Cartório de Registro Civil. Arquivo Público do Estado de São Paulo.
98
“Centro Humanitário José do Patrocínio”. Elite, 17 fev. 1924, p. 4; “Centro Humanitário José do Patrocínio”.
Elite, mar. 1924, p. 6.
151

vivido pelo articulista. “Almofadinhas, despidos de noções de educação e civismo,


sobrecarregados de orgulho inqualificável” não permitiam que homens negros dançassem
com mulheres brancas supostamente de classe superior, adjetivadas por ele como
“melindrosas que por aí andam, sem nenhuma prerrogativa que as poderiam ao menos levá-
las a ser aias99 da princesa Isabel”. Patrocínio era a prova que “o que vale, o que eleva, o que
glorifica, o que causa admiração e simpatia, não é dinheiro, não é cor, não é a alta posição
social do indivíduo. É a sua capacidade intelectual, é a sua conduta moral, é o seu amor à
Pátria e sua obra em benefício da coletividade”. Por isto, ele era admirado pelos “grandes aos
olhos do povo da sua terra e mesmo do velho mundo”100.
José do Patrocínio e Luiz Gama foram tomados como os principais patronos dos
homens de cor porque serviam de modelos, reuniam as qualidades que eles julgavam
necessárias para superar o preconceito de cor. Mas não eram só isso. Ao lado dos escravos,
das campanhas abolicionistas, os dois preenchiam uma lacuna importante da historiografia
brasileira: a “história da raça negra no Brasil”. No início do conto é dito que “os fatos mais
importantes da história da raça negra no Brasil têm ficado à margem das páginas dos livros e
das colunas dos jornais”. Afirmações como estas foram comuns nos artigos sobre a vida
escrava e o abolicionismo. Aparentemente, na opinião do articulista, havia uma tendência
“para que tudo quanto possa dar brilho e honra a essa raça (…) concorre para o
esquecimento”, e as histórias dos escravos enquanto formadores da nação e a luta dos
abolicionistas negros “enobrecem e elevam os descendentes da África aqui domiciliados”101.
Comemorar, de acordo dom Helenice Rodrigues da Silva, é “reviver de forma
coletiva a memória de um acontecimento considerado como ato fundador, a sacralização dos
grandes valores e ideais de uma comunidade constituindo-se no objetivo principal” e envolve
a escolha do que lembrar e esquecer102. Os homens de cor escolheram celebrar do escravo
trabalhador aos combatentes da Abolição, mas esquecer as feridas coletivas. A escravidão era
um grande mal que precisava ser lembrado para que não se voltasse aquele estado. O objetivo
das comemorações dos homens de cor era expor a importância das populações negras na
formação do Brasil e reivindicar igualdade de condições e oportunidades, então, em suas

99
Sf. 1. Preceptora que cuida da educação de crianças, em casa de famílias nobres ou ricas; 2. Dama de
companhia; e 3. Criada de quarto; camareira. Cf. MICHAELIS. Moderno Dicionário da Língua Portuguesa.
Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php>. Acessado em 06/02/2019.
100
MESQUITA, J. Luiz. “Belo Exemplo”. Getulino, 30 nov. 1924, p. 1.
101
Idem.
102
SILVA, Helenice Rodrigues da. “‘Rememoração’/Comemoração: as utilizações sociais da memória”. Revista
Brasileira de História, vol.22, no.44, p.425-438, 2002, p. 432.
152

celebrações, agradeciam a liberdade e denunciavam o preterimento no pós-Abolição. Se


através de comemorações cívicas governantes construíram e reforçaram identidades
nacionais103, os homens de cor ao mesmo tempo em que criaram e reforçaram uma identidade
coletiva entre os negros, tentaram colocar a memória negra na história nacional como forma
de lutar contra a marginalização negra.
***
A memória negra que os homens de cor tentavam construir tanto tinha um caráter
pedagógico para as populações negras que não enquadravam nos códigos de conduta, quanto
era uma forma de combate à discriminação racial, através de um discurso nacionalista e
patriótico em um momento em que trabalhadores negros eram preteridos em relação aos
imigrantes. A escravidão e o abolicionismo eram partes da história dos negros no Brasil, que
eram contadas nas páginas dos jornais, nas conferências das associações de homens de cor,
que estampavam em seus nomes memórias dela, para enaltecer as populações negras e dizer
ao restante da sociedade que as menosprezava que elas foram importantes para a construção
do país. O escravo trabalhador, a Mãe Preta, que sacrificou a criação de seus filhos em favor
dos cuidados das crianças dos senhores, e a luta pela libertação dos escravos eram pontos
fundamentais para a construção da fraternidade brasileira. Para os homens de cor, no entanto,
ela só podia ser completa quando as condições de oportunidades fossem iguais, quando se
reconhecesse que, apesar de todo sofrimentos, os negros tiveram papel imprescindível na
formação da nação e, portanto, as ações discriminatórias contra eles eram atitudes contra o
próprio povo brasileiro.

103
Ver: Idem; ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão do
nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009; HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela Memória:
arquitetura, monumentos, mídia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2004; LE GOFF, Jacques. História e
Memória. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990; NAXARA, Márcia (org.); BRESCIANI, Stella (org.).
Memória e (Res)Sentimento: indagações sobre uma questão sensível. 2ª ed. Campinas: Editora da UNICAMP.
2009; SANTOS, Myrian Sepúvelda dos. Memória Coletiva e Identidade Nacional. São Paulo: Annablume, 2013.
153

CAPÍTULO 4

13 de Maio: sambas, solenidades e cidadania

Com “entusiasmo e júbilo”, Campinas recebera a ideia de criar comissões


responsáveis por angariar donativos e preparar a festa pelo fim da escravidão, que não ficasse
“aquém das [outras] iniciativas por esta incansável população”1. Para o sábado, dia 12 de
maio, “as redações dos jornais mandaram colocar girandolas à porta de seus edifícios para
serem queimados” assim que soubessem que o projeto de lei fosse aprovado no Senado.
Notícia que chegou, via telegrafo, por volta das “4 horas da tarde”, quando “devia ter lugar a
grande procissão cívica”2. Ao amanhecer de domingo, “apesar do mau tempo, notava-se na
cidade um movimento anormal”. “Grupos de cidadãos cônscios de que a áurea lei seria
sancionada” enfeitavam “com afã as diversas ruas, ajudados por muitos ex-escravos, que
procuravam contribuir com seu modesto contingente”. Praças, Largos e ruas ficaram cobertas
com arcos de folhagens, junto com as bandeiras, iluminação a gás e lanternas deram outra
feição a cidade, “tornando-a festiva e alegre”3.
Depois que a comissão vestira a “cidade das galas necessárias para receber a grata
notícia”, a “massa de povo afluiu à praça José Bonifácio” e esperava “ansiosamente” os sons
das girandolas, que daria “o sinal que a pátria estava emancipada da escravidão”. Os foguetes
estouraram no céu por volta das 2h15 da tarde. Entre os estouros, em “júbilo popular”, dava-
se “vivas à nação brasileira, à província de São Paulo, ao patriótico gabinete “10 de Março”, à
princesa regente, à pátria livre”. As bandas dos irmãos Túlio e do maestro Azarias executaram
o hino nacional e outras músicas que mantiveram o povo entusiasmado e alegre. A banda
italiana encabeçara o préstito, que parou em frente aos edifícios de cada jornal da cidade e
ouviu cada um de seus oradores, que foram sempre sucedidos pelo hino nacional. Às 5 horas
da tarde fora interrompida comemoração, que retornou à noite. No entanto, muitos grupos de
ex-escravos que foram chegando durante a passeata, “esparsos pelas ruas”, expandiram-se e
continuaram “a dar vivas aos abolicionistas”. A comissão voltou a concentrar os festejos por

1
A Província de São Paulo, 12 mai. 1888, p. 1.
2
“Municípios Paulistas”. A Província de São Paulo, 13 mai. 1888, p. 1.
3
“A Pátria Livre”. Gazeta de Campinas, 16 mai. 1888, pp.1-2.
154

volta das 7 horas na mesma praça. Os festeiros puderam ver a “deslumbrante iluminação a
gás”, fosse por conta dos efeitos nos arcos, quanto pelas instalações particulares postas
especialmente para aquele momento. Novamente foram feitos discursos, préstito, tudo ao som
das bandas4.
Na segunda-feira, o comércio permaneceu fechado, “permitindo assim que a
briosa classe caixeiral se associasse às festas”. A Câmara Municipal também alterou seu
funcionamento, estabelecendo uma reunião extraordinária, que só funcionou “até a hora em
que o povo e a comissão dos festejos” fossem ouvir o senhor presidente. Neste dia, as
associações particulares participaram da concentração no largo do Teatro. Liderou a
caminhada a Banda Italiana seguida de uma comissão de libertos, o “Circolo Italiani Unitti”
veio logo depois, junto com sua escola, o colégio “Culto à Ciência”, a “Artística Beneficente
14 de Julho”, o “Centro XX de Setembro”, a escola “Ferreira Penteado”, a “Liga Operária”, a
“Concórdia”, a “Beneficência Portuguesa”, “Mendez Nuñez”, “Ginástica Alemã”, “Tocha
Vermelha”, as escolas do senhor J. Fagundes, da excelentíssima dona Deolinda Fagundes, de
Oliveira Leite e do Carlos de Escobar. As associações “Luiz Gama” e “Flor da Mocidade”,
“composta de libertos”, encontraram com a marcha na rua Doutor Quirino. Após discursos,
missas e músicas, à noite “terminaram os festejos por entre as atuações jubilosas da massa
popular, e reinando sempre a melhor ordem”. Um grupo de ex-escravos continuou a percorrer
“as ruas em entusiásticos vivas”5; “muitos pretos com zabumbas (…) até alta noite estiveram
em sambas”, apesar do mau tempo6.
As celebrações da comissão parecem que não foram suficientes aos ex-escravos.
Em duas ocasiões prolongaram seus festejos e, ainda no dia 16 de maio, foi publicada uma
“Manifestação dos Libertos” que convidou os sócios das associações “Filhos de Averno”,
“Luiz Gama” e “Flor da Mocidade”, “assim como todos os libertos residentes na cidade a
reunirem-se” e tratarem de organizar novas comemorações7. Em Piracicaba aconteceu algo
similar. Após os eventos de uma comissão no dia 13 de maio, o cidadão João Pinto de
Almeida percorreu as ruas e fazendas de Piracicaba “a fim de obter donativos para a festa da
redenção”8, junto aos “novos cidadãos brasileiros”9, e a celebração ocorreu no dia 13 de
junho.

4
Idem.
5
Idem
6
“Manifestação dos Libertos”. Diário de Campinas, 16 mai. 1888, p. 3.
7
Idem
8
“Festa da Redenção”. Gazeta de Piracicaba, 31 de Maio de 1888.
9
LEITÃO, Torquato da Silva. “13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 31 de Maio de 1888.
155

De acordo com Iacy Maia Mata10, Wlamyra Albuquerque11 e Walter Fraga


Filho12, as festas em honra à Abolição provocaram tensões no Estado da Bahia. Seus estudos
apontam que antigos senhores, políticos, jornalistas tentavam enquadrar os festejos das
classes populares, repleta de ex-escravos, para que a ordem fosse mantida e que as
celebrações servissem também como um instrumento de aprendizagem. Tratando da
experiência do Rio de Janeiro, Renata Moraes mostra que entre os festejos realizados em 13
de maio de 1888, e em outras comemorações daquele ano, havia uma “tentativa de criação de
memória, alimentada pelos jornais da época, por memorialistas que associaram símbolos,
heróis e textos a esses festejos e também por aqueles que escreveram a História”. Formou-se
um esquema do que teria sido a Abolição e, “no entanto, em todas essas esquematizações um
elemento principal dessa festa foi esquecido: o ex-escravo”13.
Os batuques e as danças dos libertos até altas horas da noite fugiam do controle
das autoridades, bem como a escolha dos heróis e os sentidos de liberdade. A organização de
celebrações aponta para as primeiras manifestações políticas dos libertos, sua compreensão e
seu desejo de exercer sua cidadania, isso fica mais evidente quando se nota que muitas de suas
associações foram fundadas com o propósito de comemorar a Abolição. No entanto, muitas
entidades corresponderam aos desejos de mudanças nas formas de festejar, elas se adequaram,
de alguma forma, às solenizações e reforçaram o caráter cívico do 13 de maio. Neste capítulo,
a intenção é analisar as atividades festivas das associações de homens de cor e sua inserção na
defesa da classe contra o preconceito de cor.

4.1. Libertos, sambas e solenidades


Depois de um mês percorrendo as fazendas de Piracicaba, “o cidadão João Pinto
de Almeida” conseguiu “angariar donativos entre os novos cidadãos brasileiros” e organizar
“as festas da Redenção”14 entre os dias 12 e 13 de junho. As celebrações começaram no
período da tarde com uma “ladainha solene na igreja de São Benedito”, “a qual foi decorada
com muito gosto pelo hábil artista Clarindo José da Silva; e à noite, a banda “Azarias de

10
MATA, Iacy Maia. Os Treze de Maio: ex-senhores, polícia e libertos na Bahia pós Abolição (1888-1889).
Dissertação, UFBA, História: Salvador, 2002.
11
ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de. Algazarra nas ruas: comemorações da independência na Bahia (1889-
1923). 1ª. ed. Campinas: Editora da Unicamp.1999.
12 FRAGA FILHO, Walter. Encruzilhadas da Liberdade – Histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-
1910). Campinas, SP: editora Unicamp, 2006; FRAGA FILHO, Walter. “O 13 de maio e as celebrações da
liberdade, Bahia, 1888-1893”. História Social (UNICAMP), v. n. 19, p. 63-90, 2010.
13
MORAES, Renata. “Os diferentes 13 de maio. História, memória e festa da Abolição”. OPSIS. 2007, vol. 7,
no. 9 jul. – dez; p. 207.
14
LEITÃO, Torquato da Silva. “13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 31 de Maio de 1888.
156

Mello” tocou para os participantes ainda no Largo de São Benedito. No outro dia de manhã,
foi a vez da banda “São Benedito” se fazer “graciosamente ouvir” até que, em procissão, os
festeiros saíssem da mesma igreja e se dirigissem à capela de Santa Cruz, onde fora benzida a
imagem do Coração de Jesus. Levaram a imagem santa até a igreja Matriz e retornaram ao
ponto de partida. Os “libertos” e seus convidados aproveitaram para percorrer as principais
ruas da cidade, “acompanhados por duas bandas de músicas”, estourando fogos de artifício e
dando vivas. Ao passar o préstito em frente à sede da Gazeta de Piracicaba, “foram
correspondidos pelo diretor desta folha, que saudou a liberdade”. Estava previsto que tudo
acabaria com uma ladainha na Matriz, entretanto o vigário Galvão rezou a missa de
encerramento na igreja de São Benedito. A festa se prolongou um pouco mais porque um
“grande número de libertos” dançou e cantou até as 11 horas da noite. Não houve nenhuma
desordem, segundo o periódico da cidade, acreditando que isso demonstrava a “índole pacata
de todo o povo” que participou dos eventos15. A Gazeta de Piracicaba concedeu feriado aos
senhores tipógrafos e seus articulistas, para assistirem aos “festejos promovidos pelos novos
cidadãos brasileiros” e “por ser dia de Santo Antônio, padroeiro da paroquia”. Os
responsáveis pela edição do periódico julgavam que esses fatos e porque completava “um mês
que foi promulgada a grandiosa lei de 13 de maio” era “bem merecido um feriadozinho a
quem tanto trabalha”16.
Em Campinas, “andaram pelas ruas da cidade muitos homens de cor tocando
zabumba, dando vivas à liberdade, ao dr. Antônio Bento, à imprensa etc., e indo dançar em
frente às redações dos jornais”, dias após a promulgação da lei. Em frente ao Diário de
Campinas, ouviram as palavras de Antônio Sarmento, um de seus responsáveis, que
“aconselhou aos manifestantes toda ordem e ao mesmo tempo amor pelo trabalho”.
Prosseguiram para a praça José Bonifácio, “onde estiveram em samba até pouco depois das 11
horas da noite, retirando-se pacificamente e na melhor ordem”17. No domingo, dia 20 de
maio, foi a vez de sair às ruas dois grupos de “libertos”. Em uma pequena nota dizia que “um
numeroso grupo de libertos andou também pelas ruas da cidade”, novamente eles dançavam,
cantavam e “estiveram em samba, até depois da meia noite” na Praça José Bonifácio18.
A manifestação organizada pelas sociedades “Luiz Gama”, “Filhas do Averno” e
“Flor da Mocidade” teve um destaque maior no Diário de Campinas. De acordo com este
15
ALMEIDA, João Pinto de. “13 de Maio: programa das festas da Abolição”. Gazeta de Piracicaba, 12 jun.
1888, p.2; “Festejos da Liberdade”. Gazeta de Piracicaba, 15 jun. 1888, p.1.
16
“Gazeta de Piracicaba”. Gazeta de Piracicaba, 13 jun. 1888, p. 1.
17
“A Abolição”. Diário de Campinas, 17 mai. 1888, p. 2.
18
“Manifestações”. Diário de Campinas, 22 mai. 1888, p. 3.
157

periódico, o cortejo contou com os mesmos ritos das celebrações das comissões da imprensa e
abolicionistas que organizaram as festas ainda no dia 13, ou seja, reuniram-se em uma praça,
caminharam pelas principais vias aos sons de uma banda musical, discursos e vivas à
imprensa e aos abolicionistas. José Lobo foi o principal orador do préstito, declamando todas
as homenagens às redações, personalidades e entidades da cidade. Antônio Sarmento voltou a
dizer aos libertos que eles deveriam “patetear toda a dedicação ao trabalho e amor à ordem,
para se tornarem úteis e corresponderem às esperanças neles postas”. Figuras importantes
como Francisco Glicério, Alberto Sarmento, Atenor Guimarães, presidente da comissão dos
festejos dos dias 12 e 13 de maio e da “Sociedade Luiz de Camões”, também discursaram,
porém, nenhuma parte foi descrita no periódico, somente é dito que eles agradeceram às
homenagens. Os manifestantes foram à casa de diversas pessoas, até mesmo de Antônio
Lobo, que caminhou desde o início, e de Antônio Sarmento, que os atendeu no prédio do seu
periódico, reforçando, assim, suas atuações coletiva e individual. Além dos ilustres da cidade,
“durante todo o itinerário foram levantadas repetidas e entusiásticas aclamações ao dr.
Antônio Bento, ao ministério, à Princesa Regente, Antônio Prado etc.”. A marcha acabou às
22 horas, no ponto de encontro inicial, o Largo do Teatro, em frente ao prédio da “Sociedade
Filhas de Averno”, com as falas de Irineu da Silva, Indalécio de Vasconcellos, Alberto
Sarmento e Antônio da Costa Carvalho19. Em uma nota anterior há informação de que
Antônio Bento fora convidado20, contudo, seu nome não consta entre os presentes.
A diferença de tratamento às “festas dos libertos” talvez seja entendida pelas
relações que cada grupo tinha. Aparentemente, aqueles que “estiveram em sambas” eram
pessoas negras que resolveram se articular entre si para festejar de acordo com seus hábitos e
costumes, como fizeram em outros momentos, como em festas religiosas, por exemplo. É
possível que tenham participado das festas da comissão nos dias 12, 13 e 14, que fossem os
tais ex-escravos esparsos que não interromperam a festa na tarde de domingo e os muitos
pretos com zabumbas que prologaram a celebração até altas horas da noite de segunda-feira.
Os libertos sambistas incorporaram partes das encenações da celebração oficial, mas não
tinham a adesão de seus responsáveis. As associações de homens de cor, ao contrário, tinham.
A “Sociedade Beneficente Luiz Gama” fora fundada após uma reunião de homens de cor “por
iniciativa do sr. Sampaio Peixoto” e de Alberto Sarmento. Ele também ajudou a redigir seus
estatutos, ao lado de seu irmão, Antônio Sarmento, Francisco Glicério, Antônio Lobo, o

19
Idem. pp. 2-3.
20
“Manifestação”. Diário de Campinas, 18 mai. 1888, p. 2.
158

cônego Cipião Junqueira e Antônio C. de Sampaio Peixoto21. Os Sarmentos eram


proprietários do Diário de Campinas, sendo Antônio seu diretor de redação durante as
festividades, ambos foram vereadores e Alberto chegou ao posto de deputado federal. Glicério
e Lobo pertenciam igualmente à classe política da cidade22. E todos eles participaram da
manifestação.
Apesar de não ser organizada por nenhuma associação, a festa de Piracicaba se
assemelhava com a das três entidades campineiras. João de Almeida arrecadou dinheiro em
nome de Torquato da Silva Leitão, que era o tesoureiro da comissão e publicou anúncios
informando quem iria fazer a coleta. Leitão foi um médico da cidade, assim como seu pai, um
português de mesmo nome; ele se casou com Angelina da Conceição, filha de um importante
fazendeiro, Barão e Serra Negra. Também fez parte da Câmara Municipal, onde foi
homenageado com a colocação de seu retrato na seção de municipalidade, atuou como juiz de
paz, coletor e inspetor de instrução pública23. Era esta figura pública dava respaldo à festa dos
libertos.
O tratamento desigual não significa que eram dois ou mais grupos de negros
distintos que não se relacionavam entre si, nem mesmo que eram vistos diferentemente. “Ao
cortejo formado pelas três sociedades”, disse o Diário de Campinas, “agregaram-se muitos
libertos”24, que foram convidados a participar da reunião de organização através de um
anúncio intitulado “Manifestação dos Libertos”25. Enquanto Gazeta de Campinas classificou
as sociedades “Luiz Gama” e “Flor da Mocidade” como compostas por libertos, quando
informou elas participaram do préstito no dia 14 de maio26. Esta identificação não
correspondia aos negros que efetivamente se tornaram livres após a sanção da Lei Áurea, era
mais um termo genérico para se referir aos negros naquele momento imediato à Abolição.
Desta forma, não é difícil de imaginar que ao fim do evento das três associações alguns de
seus participantes tenham ido ao samba na praça. De qualquer modo, as “festas dos libertos”
chamam à atenção para a intenção dos negros em participarem das festas como protagonistas,
em realizarem suas próprias homenagens e festejarem a seu modo.

21
“S. Beneficente Luiz Gama”. Diário de Campinas, 18 mai. 1888, p. 2.
22
Ver: PEREIRA, José Galdino. Os negros e a Construção de sua Cidadania op. cit.
23
Ver: http://historia.camarapiracicaba.sp.gov.br/vereador/438-torquato_da_silva_leitao, acessado em 09 mar.
2019.
24
“Manifestações”. Diário de Campinas, 22 mai. 1888, p. 3
25
“Manifestação dos Libertos”. Diário de Campinas, 16 mai. 1888, p. 3.
26
“A Pátria Livre”. Gazeta de Campinas, 16 mai. 1888, pp.1-2.
159

As comemorações pelo fim do sistema escravista não fizeram parte do debate


historiográfico durante muito tempo, apesar das movimentações e a grande quantidade de
textos produzidos na imprensa. Em 1918, Osório Duque-Estrada escreveu o livro “Abolição –
um esboço histórico (1831-1888)” com um balanço do processo abolicionista. Ruy Barbosa
escreveu o prefácio e indicou que havia disputas de memórias entre “cada facção, cada grupo,
cada interesse, cada seita, cada fanatismo, cada ódio, cada vingança” que tinham “o seu ídolo,
ou sua vítima, a sua calúnia, ou a sua apologia”, que afloravam “em cada comemoração, a
cada aniversário”. E o “trabalho de minudenciosa documentação e imparcial crítica” de
Estrada permitiria aos estudos posteriores realizar, “com seriedade, aprofundar o balanço
dessa época obscurecida pelas adulterações” daquele momento 27. Participante da campanha
abolicionista em 1888, Duque-Estrada também buscou valorizar sua “facção” e no seu
enquadramento histórico “a campanha travada em prol da Abolição” se transformou na “mais
generosa, a mais entusiástica e mais popular” manifestação vista até então28.
O livro está centrado, primeiramente, na legislação e acordos governamentais
contra escravidão, desde 1826, depois trata da campanha abolicionista, seus heróis e seus
adversários. Para ele, a assinatura da lei de 13 de maio de 1888 ocorreu graças à “marcha do
abolicionismo [que] acelerava-se vertiginosamente, conquistando o país inteiro e já o governo
se via desamparado não só da opinião pública e do Exército, como da magistratura e até
mesmo dos próprios fazendeiros”. Para Duque-Estrada, as forças armadas, após a Guerra do
Paraguai, e o povo, sensibilizado pelos discursos e ações de abolicionistas como Antônio
Bento, Luiz Gama e José do Patrocínio, foram responsáveis efetivamente pelo fim do
cativeiro. Políticos do Partido Conservador que demonstraram contradições e mudanças de
posicionamentos teriam se submetido às pressões dessa combinação, assim como as ações
finais da princesa regente eram só reações à vontade popular. Por isso, não deu a ela destaque
por assinar a lei, preferindo tratar do reconhecimento público recebido por Conselheiro
Dantas, a quem chamou de “herói parlamentar do abolicionismo”. Os dez dias de celebração
na Corte logo após a assinatura da lei comprovariam que o povo era parte fundamental do
abolicionismo, porque foram frutos da mobilização constituída anteriormente29.
Apesar de falar constantemente da participação popular na campanha
abolicionista, não é possível definir quem forma o povo descrito por Estrada. Como sugeriu
Renata Figueiredo Moraes, o autor narrou com maior entusiasmo as ações da campanha de

27
BARBOSA, Ruy. “Prefácio”. In. ESTRADA, Osorio Duque. A Abolição op. cit. pp. VI-VII.
28
ESTRADA, Osorio Duque. A Abolição op. cit. p. 14.
29
Idem. p. 16.
160

1888, dando a ela uma conotação de batalha, provavelmente, porque naquele momento ele era
membro da Confederação Abolicionista. Isto também explicaria a escolha dele em reconstruir
a biografia de alguns abolicionistas a partir de suas próprias memórias e as citações de
discursos de José do Patrocínio30. Além disso, optando pela disputa legislativa, ele não tratou
das ações dos escravos e, como conta a com a sanção da lei e o comentário sobre os dias de
festas, não há prognósticos sobre os destinos dos ex-escravos, nem mesmo menciona a adesão
deles à campanha.
Este livro foi bastante utilizado por Emília Viotti da Costa, que, ao contrário de
Estrada, compreendera a Abolição como fruto da disputa política entre as elites imperiais.
Para ela lei de 13 de maio “fora primordialmente uma promoção de branco, de homens
livres”, que “nascera do desejo de libertar a nação dos malefícios da escravatura”, sem se
preocupar com as populações negras e sua integração na sociedade pautada pelo trabalho
livre31. Em “Abolição”, a historiadora reconhece que os avanços do abolicionismo agitaram as
populações negras em prol do fim do sistema escravista, fossem pessoas escravizadas que
fugiam ou em liberdade que participavam de manifestações e ajudavam fugitivos, o que as
tornam, junto com outros populares devotos da causa, em “heróis anônimos sem os quais a
abolição jamais teria sido conquistada”. Por isso, a assinatura da lei pôde ser vista como uma
conquista e uma vitória por eles32. Mas, parlamentares e intelectuais teriam ficado na história
como responsáveis pela extinção do cativeiro, enquanto existiria um “silêncio das fontes sobre
o que aconteceu aos escravos depois da abolição”. Confiante disso, ela não se ocupou em
analisar as festas em regozijo a lei e ignorou a forma como, “nas senzalas e quilombos, os
negros festejaram sua liberdade”, e nas ruas, enquanto pessoas livres antes mesmo da sanção,
eles faziam parte da “população [que] celebrou ruidosamente a emancipação dos escravos”33.
Cléber da Silva Maciel encontrou nas fontes o que teria acontecido com os ex-
escravos de Campinas, em uma das primeiras pesquisas que analisa as populações negras no
momento imediato à Abolição. Concordando com Emília Viotti da Costa que o abolicionismo
e as celebrações da assinatura da lei foram promovidos por homens brancos, ele resolveu
estudar “a vida organizativa da população negra através de sua participação e envolvimento
nas comemorações da data da Abolição da Escravidão”. O historiador percebeu, nos primeiros
anos após a promulgação da lei, olhares atentos da imprensa a esta participação, que ao
30
MORAES, Renata Figueiredo. Os maios de 1888: história e memória na escrita da história da Abolição. O
caso de Osório Duque - Estrada. Dissertação, UFF, Departamento de História: Niterói, 2007.
31
COSTA, Emília Viotti. Da senzala à Colônia. 4ª ed. São Paulo, SP: Editora UNESP. 1998, p. 511.
32
COSTA, Emília Viotti. A Abolição op. cit. p.129.
33
Idem. p.10.
161

mesmo tempo em que congratulava a nova condição dos negros, esperava garantir sua
permanência como força de trabalho barata. Por isso, há muitos artigos que defendiam a
organização do trabalho por parte do governo, como a proposta era criar as agências de
trabalho, e a necessidade dos ex-escravos em incorporar o amor ao trabalho e serem úteis a
pátria. Sua análise das comemorações do 13 de maio vai desde 1888 até ao final da década de
1920. Para ele, no século XIX as notícias sobre festas não foram constantes, bem como os
textos comemorativos, que, quando publicados, tinham o objetivo de traçar um histórico do
processo e reafirmar o papel dos negros como trabalhadores.
Somente com a organização das festas da “Federação Paulistas dos Homens de
Cor”, a partir de 1907, que a celebração se torna pauta anual dos jornais. A Federação teria
adequado as comemorações de 13 de maio aos ritos cívicos da época, feito que lhe garantia
respeito perante as elites dominantes, segundo Maciel, além disso, entre seus associados
estava o jornalista negro Benedito Florêncio que atuou nos principais jornais da cidade, que
garantiria a publicação dos programas e matérias. Contudo, na segunda metade da década de
1910 houve um enfraquecimento do apoio à festa, que ficou cada vez mais restrita aos negros
que deixaram de ocupar as ruas e se limitaram aos festejos em suas sedes. Para ele, as festas
foram usadas, primeiro, para reafirmar uma história oficial e incutir o amor ao trabalho nas
populações negras, depois, usadas pelos negros para fortalecer seus laços de solidariedade e
suas entidades, quando se pôde notar fortes homenagens à princesa.
José Galdino Pereira concorda com essas ideias. Em sua pesquisa de mestrado que
investigava o funcionamento do “Colégio São Benedito”, ele analisou as festas de 13 de maio
da Federação, que controlou o colégio. Parte dos recursos para as comemorações vinham das
esmolas que os estudantes pediam até um mês antes do evento, eles também marchavam em
posição de destaque pelas ruas. Em sua opinião, a “Federação” se destacava das demais
associações de homens de cor exatamente por manter uma escola e por ter políticos brancos
em sua diretoria, como Alberto Lobo. Aproveitando-se destas circunstâncias, seus líderes
perceberam a importância da data e a transformaram em “uma festa política do negro”, por
onde também fazia denúncias da situação dos negros e angariava apoio para suas ações por
sua ascensão social34.
De fato, as fontes jornalísticas apontam para a constante vigilância durante os
festejos, contudo, ao mesmo tempo, informam sobre as tentativas dos negros em participar
daqueles momentos a sua maneira, em celebrar seus heróis e qual importância davam para a

34
PEREIRA, José Galdino, Os Negros e a Construção de sua Cidadania op. cit. p. 90.
162

sanção daquela lei. O periódico The Rio News informou que em Campinas os negros ficaram
quase loucos ao saber da sanção da lei, que organizaram festa e um auto de fé, além de
queimarem todos os instrumentos de tortura que puderam encontrar na cidade35. Algum
articulista do Diário de Campinas viu “exposto na vitrine do ateliê fotográfico dos srs.
Nickelsen & Ferreira” uma homenagem que deveria “ser entregue ao ousado abolicionista dr.
Antônio Bento, em nome dos libertos de Campinas”. Eles escreveram que “os homens de cor,
caluniados durante séculos, sofrendo os horrores da escravidão, têm também um coração que
aninha sentimentos de Amor”; e, que graças à “falange ilustre dos defensores da raça
oprimida”, a qual o doutor ocupava “lugar salientíssimo”, tornou-se “licito à raça que entrou
no convívio social o constituir família”. “Até há pouco”, seguia a homenagem, “transgredindo
todos os preceitos da civilização, ainda se arrancavam dos braços de uma mãe os filhos
adorados!”. E o sofrimento aumentava no caso das meninas, porque as “pobres e infelizes
crianças, partículas da nossa alma, anjos de candura e pureza, tinham de entregar as suas
capelas de virgens ao primeiro dos senhores”, que as obrigariam a serem suas amantes. A lei
de 13 maio de 1888 “terminou de uma vez para o Brasil essa repugnante imoralidade que
maculava duas raças – a dos opressores e dos oprimidos”36.
A abolição da escravatura nos dois casos não significava somente uma mudança
no regime de trabalho, mas também de tratamento. A tortura não caberia mais, por isso seus
instrumentos deveriam ser destruídos. A ideia de inferioridade, a opressão, a violência, os
abusos sexuais teriam que terminar junto com a escravidão. A partir de 13 de maio de 1888,
os negros desejavam serem vistos como iguais, como portadores de sentimentos e direitos e,
assim, alçados a condição de cidadãos e de seres humanos. Os sambas até altas horas da noite
também podem ser interpretados, nesse sentido, como a busca pelo direito ao divertimento, de
ocupar os espaços públicos da cidade e fazer notar a presença daquelas pessoas enquanto
parte da população que celebrava.
O Diário de Campinas, a Gazeta de Piracicaba e A Província de São Paulo do
mês de maio informaram que em muitos lugares de São Paulo havia “pretos” e “libertos” em
sambas, sem detalhar como funcionavam. Em outros lugares do país é possível encontrar mais
informações. Na Corte, por exemplo, “em frente ao escritório da Gazeta de Notícias, no
coreto, a música do 7º batalhão tocou desde o anoitecer umas músicas que pareciam mesmo
feitas de requebros”, segundo um articulista do periódico. Ao ouvir, “a gente sentia não sei o

35
“Provincial Notes”. The Rio News, 24 mai. 1888, p.4.
36
“Felicitação a Antônio Bento”. Diário de Campinas, 20 mai. 1888, p. 2.
163

que, que lhe dançava cá por dentro”, por isso dizia que era “música para se ouvir com as
pernas”, não com os ouvidos. Um dos participantes do “baile público que não estava no
programa dos festejos” dançava como se tivesse trezentos mil diabos no corpo”, com seu
chapéu de palha e calças brancas. Os festeiros resolveram brincar com as pessoas que
passavam pela rua, inconvenientemente na visão do autor do relato. Eles faziam “um círculo –
círculo não imaginado por Dante – e dele só saía o desgraçado que lá estava depois de dançar
o miudinho”, que “apenas um resistiu absolutamente, mas não houve conflito por isso”. E,
para evitar “cenas lamentáveis”, pedia que se decretasse “a abolição... da dança obrigatória”37.
Renata Figueiredo Moraes estudou as festas em homenagem a Abolição ao longo
do mês de sua promulgação na Corte, percebendo que além das celebrações oficiais, diversos
grupos celebraram de alguma forma e que o caso narrado do Diário de Notícias não foi único
não programado. Sobre o modo de festejar das populações negras, a historiadora afirma que
houve vários casos em que “tratavam de se organizar em roda, com cantos e danças que eram
provavelmente uma forma de celebrar suas origens centro-africanas”38. Na Bahia, Walter
Fraga Filho encontrou um trecho de um samba que ficou popular na festa de Nosso Senhor do
Bonfim, “‘Ô ioiô Carigé, de cá meu papé’, uma referência ao abolicionista Eduardo Carigé”39.
É provável que as cantorias no Oeste Paulista seguiam esse padrão, sendo o samba entoado e
dançado em uma roda, exaltando algum abolicionista.
O fim da escravidão gerou uma onda de comoção e comemoração, diversos
setores da sociedade em muitas partes do país organizaram festas para celebrar aquele
momento único na história do Brasil. Ruy Barbosa parece correto quando afirmou que cada
grupo tentava valorizar sua memória a cada comemoração, e as populações negras não
ficaram alheias a isto. Se as fundações de associações e as homenagens aos abolicionistas
precisam ser vistas em sua dimensão política, os sambas dos “libertos” também. As chamadas
“festas dos libertos” mostram o interesse dos negros em participarem como protagonistas do
evento na condição de livres, seja aquelas que tinha seus préstitos programados, quanto as
cantorias e danças durante os intervalos ou ao final das celebrações das comissões. Ser livre
poderia significar estar na rua até altas horas da noite, ocupar as ruas da cidade, festejar a seu
modo. Neste sentido, talvez não tenha sido mera coincidência a comemoração em Piracicaba
começar e terminar na igreja de São Benedito. Iacy Maia Mata aponta que durante as

37
“Abolição – À Noite”. Diário de Notícias, 18 mai. 1888, p.1.
38
MORAES, Renata Figueiredo. As festas da Abolição: o 13 de maio e seus significados no Rio de Janeiro
(1888-1908). Tese PUC/RJ, Departamento de História: Rio de Janeiro, 2012, p. 198.
39
FRAGA FILHO, Walter. Encruzilhadas da Liberdade op. cit. p. 125.
164

comemorações de ex-escravizados no sul da Bahia, houve quem homenageasse o santo como


se ele fosse um dos responsáveis pela Abolição40, além disso, estudos sobre as irmandades
negras mostram que elas atuaram na conquista de alforrias de seus irmãos. Logo, rezar as
missas em sua igreja seria uma forma de homenagear o santo que também foi cativo e, por
isso, tão venerado entre os negros.

4.2. Vivas à Monarquia, Vivas à República


Em 1889, as celebrações do aniversário da Abolição foram marcadas por conflitos
entre republicanos e monarquistas, tanto nas páginas de jornais, quanto nas ruas. A Província
de São Paulo de 12 maio transcreveu em seu editorial um trecho do “Manifesto Republicano”,
o qual dizia que “um fato notável no domínio da monarquia veio exercer grande influência no
progresso da nossa pátria – facilitar a propaganda das ideias republicanas e o advento de uma
nova forma de governo”. O manifesto lembrava que no começo os monarquistas desejavam
que o sistema escravista fosse extinguido lentamente, mas após lei de 28 de setembro de 1871,
a desejou-se acelerar o processo que culminou com o 13 de maio. De acordo com o texto, o
“ato legislativo, emanado dos poderes constitucionais, parlamento e coroa”, ocorreu “pela
vontade popular” e apoiada pelo exército. A assinatura da lei seria uma tentativa dos
monarquistas em se manter no poder, no entanto o fato do fim da escravidão acontecer “em
plena paz, no meio de festas, sem lutas fratricidas, sem estímulos à guerra civil” era “a
afirmação do quanto tempo, a corrente civilizadora e a influenciadas ideias liberais e
democráticas modificaram os velhos costumes”41.
Em Jundiaí, a reunião do “Clube Treze de Maio” “terminou em grande
desordem”. Durante a sessão pública no dia 13 de maio, fora “negada a inscrição a oradores
republicanos”, o que causou indignação. Primeiro, o sócio Antônio Sarmento pediu a palavra
e recebeu a negativa do então presidente, Cavalcanti, “as senhoras e os membros da diretoria,
com exceção do juiz de direito dr. Philadelpho de Castro, que tentou atenuar a indignação dos
sócios, fugiram”. Resolveu-se, então, terminar a reunião e uma “enorme massa de povo
percorreu às ruas da cidade, levantando vivas à República. O chefe republicano Joaquim
Siqueira de Moraes recebeu esplendida ovação”, Sarmento e outros republicanos puderam
discursar, inclusive o Hipólito Medeiros que fora expulso do clube por conta de sua
preferência política. “Oculto no jardim público” estava o capitão Sucupira, “membro da

40
MATA, Iacy Maia. Os Treze de Maios op. cit., ver em especial Capítulo 1.
41
“Reconstituição da Pátria”. A Província de São Paulo, 12 mai. 1889, p. 1.
165

diretória arbitrária, o mesmo que tentou fundar a Guarda Negra” naquela cidade. Os libertos,
no entanto, “estiveram sempre ao lado dos republicanos”, assim como os estrangeiros. Apesar
da confusão inicial, durante os “vivas à República, à raça negra, à soberania popular e a
muitos republicanos”, não foi registrada nenhum distúrbio”42.
Na capital paulista, “deram-se muitos distúrbios, no dia 13”, porque policiais
impediram que uma conferência fosse realizada43. O “acadêmico de direito Diana Terra tentou
realizar uma conferência no Largo da Sé” para cerca de 100 pessoas, mas “foi intimado
brutalmente pelo major de urbanos, a não prosseguir no criminoso intento”. Após protesto,
“como é natural”, ele entendeu “que o melhor partido a tomar, ante as iras de uma autoridade
secundária, era sujeitar-se à intimação”, e, quando já se retirava, alguns espectadores exigiram
que ele tivesse o direito de falar. “Esta exigência irritou, sacudiu os melindrosos nervos da
autoridade urbana”, que mandou aos seus agentes baterem em todos e o povo “foi dispersado
a patas de cavalos e a espadeiradas”, que “feriram de gume os inofensivos cidadãos que
atraídos pelo rumor do motim se aproximavam”. Muitos se esconderam em estabelecimentos
próximos, que foram invadidos pela força policial. Estiveram na confusão Campos Salles,
Horácio de Carvalho, Jesuíno Cardoso, Araújo Guerra e Arlindo Ramos, que chegou a ser
preso44.
No Rio de Janeiro, também houve pequenos conflitos por conta dos “vivas
levantados à República e à Monarquia, por pequenos grupos de populares”, contudo, a ronda
policial soube apaziguar “os ânimos um tanto exaltados”45. Enquanto “foi disparado um tiro
de revolver” em frente ao escritório do Diário de Notícias, quando um préstito passou por lá e
formou-se uma desordem durante a noite46. Segundo uma nota de protesto do jornal
Novidades, estavam previstos “ataques dos libertos de 13 de Maio à imprensa” durante aquele
dia de celebrações. Segundo os responsáveis pelo periódico, eles não tinham inimigos na
Corte, por isso atribuíam a ameaça de assalto e destruição do estabelecimento aos amigos do
ministério, a quem a folha fazia oposição47. No texto em comemoração ao 13 de maio, o
jornal se mostrava contrário ao fim do sistema escravista, que classificava como um ato
“impensado e importuno, feito discricionária e revolucionariamente, [e] foi causador de males
tanto para brancos, como para pretos”, e acusava o “ministério redentor” de ser formado por

42
“Jundiaí. A Província de São Paulo, 15 mai. 1889, p.2.
43
“Distúrbios”. Gazeta de Piracicaba, 17 mai. 1889, p. 1.
44
“Notícias”. A Província de São Paulo, 14 mai. 1889, p. 1.
45
“Os Festejos no Rio”. Idem.
46
“Treze de Maio”. Novidades, 14 mai. 1889, p. 2.
47
“13 de Maio”. A Província de São Paulo, 14 mai. 1889, p. 1.
166

“homens que sempre combateram a abolição, com a fúria de irem até na Bíblia elementos
para (…) contrariar a condenação que resulta palpavelmente do direito natural”. Homens da
“Bíblia e da escravidão”, portanto, que abandonaram o “lavrador aos seus próprios recursos e
o liberto aos seus instintos, sem ter acudido às necessidades de um, nem de outro”48. Para o
Cidade do Rio, dirigido por José do Patrocínio, as críticas irônicas ao governo monárquico
explicitavam “o ódio do Novidades aos libertos” também. Ao ironizar o apelido “a redentora”,
que a princesa Isabel teria recebido do povo, o Novidades achincalhava os libertos naquilo
que tinham “de mais caro, a gratidão, como que julgando-os incapazes de sentimentos dignos
e nobres”49.
Em Minas Gerais, ocorreram “graves desordens promovidas por mais de 100
libertos, que expulsaram violentamente” Luiz Orsini, “ameaçando-o por pretender realizar
uma conferência republicana”50. Suas palestras ainda causavam polêmicas em agosto daquele
ano. Ele era redator do periódico republicano O Movimento, de Ouro Preto, e usou este
periódico para acusar delegado Antônio da Costa Pinto de ameaçá-lo e impedir que
discursasse na Vila do Jequitaí. Em seu No manifesto, Luiz Orsini publicou uma lista de
nomes de pessoas que teriam presenciado tudo e concordavam que fora proibido de palestrar,
fato pode ter contribuído para a demissão de Costa Pinto, no entanto o acusado e ao menos
dois signatários discordavam sobre a responsabilidade dos tumultos. Segundo Costa Pinto, o
republicano insultava o imperador e algumas pessoas tentaram atacá-lo, para evitar maiores
conflitos o então delegado encerrou a conferência. Ao saber do manifesto, Costa Pinto
procurou algumas pessoas que assinaram o documento e soube que elas não sabiam que
seriam usadas em uma acusação contra a sua postura, acreditavam que estavam
testemunhando que o palestrante fora atacado. Corroboraram com o delegado demitido os
senhores Jeronimo Francisco Velloso e João Soares Ribeiro, dizendo que assinaram “o
manifesto, no sentido unicamente do procedimento dos ex-escravos com o cidadão” e que o
“ex-delegado de polícia, dissolvendo a reunião convocada pelo cidadão Luiz Orsini, só teve
em vista manter a ordem e evitar conflito certo, o que por modo algum podia ser reprovado
por quem quer que seja”51.
Três dias depois, em 31 de agosto, um grupo de cidadãos ilustres, como o vigário,
juiz de paz, suplentes de delegado e subdelegados, vereadores entre outros protestaram contra

48
“13 de Maio”. Novidades, 13 mai. 1889, p. 1.
49
FLAG JÚNIOR. “A Redentora”. Cidade do Rio, 27 mar. 1889, p. 1.
50
“Desordens em Minas”. Diário de Campinas, 15 mai. 1889, p. 2.
51
“Villa de Jequithy – Protesto”. A Província de Minas, 28 ago. 1889, p. 3.
167

o manifesto de Orsini e em apoio ao ex-delegado. Para eles, os xingamentos do redator a Dom


Pedro II em um “distrito que é unanimemente monarquista” causaram os distúrbios, ainda
mais “por ser ocasião de festas”, quando o povo estava “um pouco exaltado”. A dissolução da
conferência evitou “conflito grave e certo” e o dito ex-delegado “salvou a vida do
propagandista”, que ao invés de “agradecer o grande benefício que acabava de receber”
resolveu tratar da vida privada de Pinto e dizer “a seu respeito palavras mais injuriosas,
procurando assim massacrar seu crédito, sua reputação honra e dignidade”. Alguns signatários
que fizeram questão de se identificar como eleitores52.
Não houve registros de conflitos como estes nas cidades de Campinas e
Piracicaba, porém eles apontam para as tentativas de usos da Abolição como um suporte às
aspirações de diferentes grupos políticos e os diferentes posicionamentos dos libertos. As
diversas correntes abolicionistas concordavam que colocar um fim à escravidão significava
levar o progresso à nação, por isto, em boa parte de suas discussões, eles tentavam definir a
quem cabia a responsabilidade da Abolição. Os defensores do sistema republicano diziam que
o regime monárquico teria mantido a escravidão por muito tempo, abolindo somente por
pressão popular, mas que seus adeptos não teriam aderido de fato ao movimento. Enquanto
monarquistas lembravam que a lei era obra do Partido Conservador e da Princesa Isabel. E
dos dois lados se construíam narrativas que evidenciavam o apoio dos libertos.
Na dissertação de Iacy Maia Mata é possível ver essa tensão conflito
imediatamente após a Abolição. Em 10 de maio de 1888, surgiu um boato na Vila Viçosa que
fora colocada fim à escravidão e alguns escravos saíram dando vivas, que 9 dias, segundo o
delegado, “influenciados pelo Padre Geraldo”, os libertos saíram “dirigindo vivas e mais
vivas ao Padre Geraldo, à república e ao partido liberal”53. Na Corte, cerca de um mês após a
extinção da escravatura, foi fundada a Guarda Negra, formada por libertos que apoiavam o
regime imperial. E, “entre junho de 1888 e novembro de 1889, a Guarda Negra tumultuou e
inviabilizou comícios, invadiu sedes de jornais, ameaçou de mortes lideranças republicanas e
obrigou muita gente a dar vivas, a contragosto, à monarquia e à princesa Isabel”54.
Para Flávio Gomes, que analisou o papel desta instituição, havia dois
entendimentos do que era a Guarda, no primeiro caso, dizia-se que ela era composta por
navalhistas que somente se utilizava de força bruta, e era sustentada pela Coroa e pelo

52
“Protesto”. A Província de Minas, 31 ago. 1889, p. 3.
53
MATA, Iacy Maia. Os Treze de Maio op. cit. p. 41.
54
ALBUQUERQUE, Wlamyra. “‘É a Paga!’ Rui Barbosa, os capangas e a herança abolicionista”. In GOMES,
Flávio dos Santos; DOMINGUES, Petrônio. Experiências da Emancipação op. cit. p.48.
168

ministério conservador de João Correia de Oliveira, Rui Barbosa defendia essa hipótese;
enquanto José do Patrocínio a definia como um partido político legítimo como qualquer outro.
O historiador considera que a atuação da Guarda Negra remete à discussão sobre a
participação política e autonomia dos libertos, porque eles “podiam ver aqueles ataques ao
Império como uma forma de reversão, pelo menos do ponto de vista jurídico, da sua situação
social que conquistaram com o 13 de maio”. Muitos ex-senhores se tornaram republicanos por
insatisfação com fim a escravatura, por isso, aponta Gomes, “o discurso de indenização
muitas vezes cheirava a reescravização. Mais do que nunca era chegada a hora de os libertos
gritarem mais alto o seu ‘não quero’”55.
A Guarda Negra talvez não tenha tido força nas cidades de Campinas e
Piracicaba. Em fevereiro de 1889, o Diário de Campinas noticiou que aproveitando “uma
festa em honra do padroeiro dos pretos, São Benedito, em frente à respectiva capela (…) os
homens de cor reuniram-se, sem intuitos políticos, para protestarem contra a organização da
Guarda Negra e contra o recrutamento forçado”. No texto lido pelo “cidadão Francisco
Gonçalves de Andrade” dizia que “os libertos” ali “reunidos em assembleia popular para
tratarem dos interesses de sua classe” não concordavam de modo algum com Guarda e a
defesa do trono da princesa, entendia que “a emancipação foi feito pelo povo e pelo exército
brasileiro”, que deviam “gratidão a todos os abolicionistas sem distinção de cor [e] política”.
Eles não se julgavam “obrigados a defender o trono da senhora Princesa D. Isabel, a quem”
eles votavam “respeito igual” ao que tributavam “a todos quantos nacionais ou estrangeiros,
[que] se empenharam na luta abolicionista”. Reiteravam que eram brasileiros e, por isso, não
queriam “ódios de raça”. Contrários ao recrutamento, eles se colocavam dispostos “a fazer
alianças com os patriotas” para reagirem “contra a caçada de homens livres que faz lembrar os
pegas dos antigos escravos”. Finalizavam afirmando: “somos brasileiros, saímos do cativeiro
e queremos viver como homens livres”56.
Em Piracicaba, por “ordem do senhor dr. Antônio Bento, prestigioso chefe da
Guarda Negra” da Província de São Paulo, fora convocada uma reunião dos membros da
entidade para o dia 10 de março. Na noite de domingo, o Teatro Paulo Estevam foi aberto
para aquela recepção e “alguns grupos de curiosos esperavam pelas imediações”, no entanto
quem chegou fora membros de “uma banda de música que executou uma peça qualquer”.

55
GOMES, Flávio dos Santos. “‘No Meio de Águas Turvas’: Raça, cidadania e mobilização política na cidade
do Rio de Janeiro – 1888 – 1889”. In GOMES, Flávio dos Santos; DOMINGUES, Petrônio. Experiências da
Emancipação op. cit. p. 19.
56
“Protesto dos Homens de Cor”. Diário de Campinas, 19 fev.1889, p. 2.
169

Circulou o boato de que o encontro não foi realizado porque “os homens de cor não
apareceram, como forma de protesto tácito – de que não aderiam aquilo de que eles não foram
iniciadores, a que iam servir de instrumentos passivos, aliciados por algumas cabeças sem
princípios, sem escrúpulos e sem patriotismo”. Para a Gazeta de Piracicaba, isso era um
“belo e eloquente exemplo”, enquanto os organizadores da reunião eram pessoas que
“procuram servir-se de todos os meios para fomentar ódios que não existem, e que
acarretariam, como consequência, maior desorganização à lavoura e lutas renhidas entre as
duas raças”. Naquele momento, a “classe de homens resgatados pela áurea lei de 13 de maio”
deveria ser ensinada “a ler, a trabalhar e a conhecer as leis do país em que vivem”, opinava o
periódico, afirmando que “a política que julgarem melhor, eles a terão depois quando forem
cidadãos, em toda extensão da palavra”57.
Dentre as sete assinaturas da chamada de reunião, havia três nomes italianos. É
possível que homens brancos fossem as lideranças e, por isso, os homens de cor se recusaram
a participar. Contudo, não se pode excluir a ideia de que eles não foram, também, com medo
de represálias, afinal houve “alguns grupos de curiosos” pelas imediações, o que será que
queriam esperando os membros da Guarda? Cenas de embates já haviam sido noticiadas em
periódicos do país, o que permite pensar que eles estavam atentos para os problemas que
teriam ingressando nesta associação.
Seja como for, a carta dos campineiros e a justificativa espalhada em Piracicaba
indicam tentativas de ações políticas autônomas dos homens de cor. Chama a atenção que, em
Campinas, os homens de cor tenham associado o recrutamento forçado às práticas de pegas do
período escravocrata, além de enfatizar sua condição de pessoas livres. Eles também se
esquivaram de tomar partido entre republicanos e monarquistas, elegendo o abolicionismo e a
Abolição como movimento e o fato que mereciam sua gratidão. Não é impensável que na
“numerosa reunião” houvesse adeptos das duas correntes, que se sentiam unidos pela luta por
liberdade e sua manutenção e, por isso, tomaram a decisão de não expor uma preferência
partidária. Apesar disso, entre os elogios da imprensa de ampla circulação há a tentativa de
colocá-los a seu lado, mas, seja qual fosse a corrente política, as populações negras foram
colocadas na condição de tuteladas e a par do debate, porque, como evidenciou a Gazeta de
Piracicaba, a elas não seria dada de imediato a cidadania em “toda extensão da palavra”.

57
“A Guarda Negra”. Gazeta de Piracicaba, 13 de mar. 1889.
170

4.3. Festas republicanas do 13 de maio


A República foi proclamada e com ela veio a incerteza das populações negras
sobre a reescravização, por isso Alberto Sarmento se reuniu com os homens de cor de
Campinas para expor, “a pedido dos mesmos” homens de cor, as regras da nova forma de
governo. Novamente, os homens de cor se reuniram no largo de São Benedito e lançaram um
novo documento, desta vez em apoio à República. Eles acreditavam que este governo
garantiria “para a classe dos homens de cor e que, sob a bandeira desse partido patriótico,
devem desaparecer as distinções de classes”, que neste caso significaria eliminações do
preconceito racial e do racismo. Ainda, que aquela forma de governo colocaria “em prática
medidas relativas à instrução popular e à educação dos libertos” e que “conservar-se a classe
dos homens de cor indiferente à transformação política” seria “uma falta de patriotismo”. Por
conta dessas crenças, resolveram “aceitar em absoluto a forma de governo” e “prestar inteira
adesão ao ministério, ao governo provisório do Estado de São Paulo e ao governo local”,
contudo, entendiam que era “de grande necessidade a existência de uma comissão” que
tratasse “dos interesses da classe junto aos governos constituídos”. Escolheram os cidadãos
Antônio Lobo, Alberto Sarmento, e Albino Aranha como seus representantes “em todos os
negócios relativos ao bem-estar e interesse da classe”58.
Em situação similar, a Gazeta de Piracicaba resolveu transcrever o texto de José
do Patrocínio aos libertos em favor da República, a intenção era, de acordo com o periódico,
“preveni-los contra a má fé dos seus inimigos de ontem, que tratam novamente de explorá-los
com mais cinismo e insensatez”. “O distinto Abolicionista” considerava que “em lugares do
interior, tem a perversidade procurado perturbar a tranquilidade de espíritos dos libertos,
insinuando-lhes que a República não respeitará a sua liberdade e os seus direitos”. Mas, era o
contrário, “a República veio para assegurar a liberdade e não destituí-la; veio abrir ao
trabalho, ao talento, às virtudes de todas as raças, as portas do bem-estar, do prestígio e da
veneração pública”. Ele pedia às populações negras que descansassem, porque a “República é
o governo da liberdade, da fraternidade e da justiça”59. Mais do que tranquilizar as populações
negras, os republicanos tentavam eliminar a antiga tensão com os monarquistas e estabelecer
a ideia de que o novo governo seria o estado de liberdade plena. As lideranças locais sabiam
que era necessário negociar com os diferentes segmentos da sociedade para garantir a atuação

58
“Homens de cor”. Diário de Campinas, 27 nov. 1889, p. 2.
59
“José do Patrocínio”. Gazeta de Piracicaba, 17 jan. 1890.
171

do governo provisório nas diferentes esferas, em março de 1890 ainda havia notícia de
capoeiras realizando ataques contra a República60.
Em nível federal, o Governo Provisório instituiu um calendário de festas,
considerando que o regime republicano se baseava “no profundo sentimento da fraternidade
universal”, que não poderia se “desenvolver convenientemente sem um sistema de festas
públicas destinadas a comemorar a continuidade e a solidariedade de todas as gerações
humanas”. O 13 de maio fazia parte do rol das nove datas que mereciam ser festejadas, de
acordo com o decreto nº 155- B, de janeiro de 1890, mas não foi como o dia da extinção da
escravatura. Estabeleceu-se que este dia seria “consagrado à comemoração da fraternidade
dos Brasileiros”61. Talvez, pelo fato de promulgação da lei ter sido feita pelos monarquistas e
já terem disputado a sua responsabilidade, optaram por criar uma memória em que se apagava
a escravidão e se valoriza o elo dos povos que formam a nação. A maioria das comemorações
do decreto visava honrar memórias de independência do Brasil, como o 21 de abril que
celebrava os “precursores da Independência Brasileira, resumidos em Tiradentes”, ou da
América, como o 14 de julho que era destinado à “comemoração da República, da Liberdade
e da Independência dos povos americanos”62.
Com esta medida era de se esperar grandes festas nos dias 13 de maio, contudo o
que se viu foi o contrário. No ano em que o decreto entrou em vigor, O Estado de São Paulo
publicara que não houve “verdadeiramente festa comemorativa da gloriosa data 13 de maio,
como seria de esperar”, apesar da capital ter sido “o centro da direção da campanha
abolicionista em todo o Estado, e que soube entusiasmar-se até ao delírio, por ocasião da
promulgação da lei redentora”, de acordo com o jornal. Só não passou “despercebido
completamente o segundo aniversário da Abolição” porque as repartições públicas e o
comércio estiveram fechados e as ruas do centro foram enfeitadas. A folha aproveitou para
publicar o telegrama enviado pelo “Club Nacional” de Santos ao abolicionista Fernando
Coelho, destacar que um exemplar comemorativo da Redempção circulou naquele dia e que o
doutor Antônio Bento foi cumprimentado “pessoalmente por numerosos amigos”63.

60
Gazeta de Piracicaba, 23 mar. 1890.
61
Decreto nº 155-B, de 14 de janeiro de 1890. Câmara dos Deputados, Legislação, disponível em:
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-155-b-14-janeiro-1890-517534-
publicacaooriginal-1-pe.html, acessado em 07 jun. 2019.
62
Idem.
63
“13 de Maio”. O Estado de São Paulo, 14 mai. 1890, p. 1.
172

Em 1889, a cidade de Campinas não promoveu grandes festejos em memória à


Abolição por causa da epidemia de febre amarela64, isso parece ter acabado com o entusiasmo
da cidade. O brilhantismo e a empolgação como da festa de 1888 só voltaram a ser citados
dez anos depois, quando o Diário de Campinas tomou a iniciativa de realizar a comemoração,
porém, foi a partir de 1907 que a “Federação Paulista dos Homens de Cor” trouxera de volta a
grande comoção pela data. Nas poucas notícias sobre celebrações de 13 de maio encontradas,
os relatos seguem parecidos como o de 1891, quando a “sociedade formada por homens de
cor”, “Treze de Maio”, ofereceu “um animado baile no salão Victoria”, outras sociedades da
cidade enviaram seus representantes. “O baile terminou ao amanhecer”, após muitas trocas de
brindes65. Em 1892, o Diário de Campinas noticiou que recebera o convite para assistir “à
solenidade de batismo do estandarte” da “Sociedade 13 de Maio”, que aconteceria no dia 13
de maio66. Na seção de anúncios, localizada duas páginas depois dessa nota, há o programa de
festa da entidade, onde é possível ler a informação de que o batismo ocorreria durante a
“comemoração à gloriosa data 13 de maio que relembra a época da liberdade dos escravos” e
que a benção seria dada na igreja de São Benedito, e que os sócios da entidade pretendiam
celebrar “modestamente”67. Em 1898, a preparação começou um mês antes com o anúncio da
formação de uma comissão, a concentração foi no Larga de São Benedito, onde teve uma
bateria de fogos na alvorada. Ao som da “Banda de São Benedito” as pessoas desfilaram pela
cidade, as associações se fizeram notar através de seus estandartes, a “Sociedade Luiz Gama”
esteve presente. De acordo com o jornal, o público deu vivas à República, Luiz Gama e
diversos abolicionistas locais, como Francisco Glicério. A noite o cortejo retornou ao Largo
de São Benedito e os festejos terminaram ao som do hino nacional brasileiro68.
Em Piracicaba, não foram encontradas informações sobre festas entre 1890 e
1900, neste intervalo houve anos em que nem mesmo um edital jornalístico foi publicado. Em
1891, a Gazeta de Piracicaba dizia que não podia “passar em olvido a data” porque ela não
significava “somente a libertação de uma raça condenada à escravidão pelo direito do mais
forte. Direito criado pelo despotismo”. Ela também significava o momento quando, com
“apenas bafejado por um sopro de ideia democrática”, o regime monárquico “foi tombando
até ruir na data memorável de 15 de Novembro”. Ou seja, “ela foi a primeira manifestação da
democracia no Brasil – a fraternidade”, afirmava o periódico. Este texto explicitava a tentativa
64
Diário de Campinas, 14 mai. 1889.
65
“S. D. P. Treze de Maio”. Diário de Campinas, 13 mai. 1891, p. 1.
66
“S. 13 de Maio”. Diário de Campinas, 12 mai. 1892, p. 1.
67
“S. Treze de Maio”. Idem, p. 3.
68
“13 de Maio”. Diário de Campinas, 13 mai. 1898.
173

dos republicanos de apagar da memória a participação dos monarquistas na promulgação da


lei de 13 de maio de 1888. A Abolição era um ato democrático, enquanto a escravidão
pertencia a monarquia. E para os redatores da Gazeta de Piracicaba, ela “era a barreira
insuperável para o advento da república, a lei de 13 de Maio de 1888 foi a primeira brecha
nessa barreira, vindo a facilitar a escalada do 15 de Novembro”. Ambas as datas marcavam as
duas revoluções brasileiras, popular e política respectivamente. E lembrava que, ao contrário
dos Estados Unidos da América e sua Guerra Civil, “no Brasil tanto uma como a outra foram
feitas ao som de músicas, festivais e sob chuva de flores”69. Em 1893, em tom melancólico, a
Gazeta de Piracicaba informava que no Rio de Janeiro se preparava “grandes festas para o
dia 13 de maio, data da redenção dos escravos”, que na capital paulista também se pretendia
“solenizar essa data histórica”, enquanto na cidade do interior paulista “talvez nem seja
lembrada”70.
Desta forma, parece que em Campinas e Piracicaba o 13 de maio não conseguia
atrair grande público nas ruas, porém para articulistas republicanos a lei de 1888 poderia ser
explorada para evidenciar seus principais valores, como igualdade e cidadania. Como já
apontado em outros capítulos, os princípios republicanos muitas vezes ficaram na esfera da
retórica quando se tratava de direitos das populações negras e sua participação política no
novo regime político, frequentemente diziam que elas não estavam aptas a gozar de plena
cidadania, que era necessário educá-las para o trabalho e reforçavam sua distinção
adjetivando-as, por exemplo, como a “raça emancipada”. Talvez por conta das tentativas de
destacar diferenças entre uma “raça emancipadora” e outra “raça emancipada”, que as
celebrações de 13 de maio das duas cidades não recebiam atenção. De acordo com as poucas
notas sobre comemorações em Campinas, as festividades se tornaram menores e organizadas
por associações de homens de cor, em outras cidades, como Rio de Janeiro, ainda havia a
participação do governo e políticos que atuaram nas campanhas abolicionistas, o que
justificaria as notas elogiosas.
“Graças à iniciativa de algumas pessoas, chefiadas pelo sr. Pedro Benedicto,
negociante” de Piracicaba, que a data da Abolição “não foi totalmente esquecida”, em 1901.
“Um magnifico préstito foi organizado em frente à casa daquele senhor”. Partiu às 7 horas da
noite e percorreu as ruas da cidade, em um itinerário que a Gazeta de Piracicaba fez questão

69
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 13 mai. 1891, p. 1. A associação entre a Abolição e a Proclamação da
República aparece em editoriais da Gazeta de Piracicaba de 14 de maio de 1893, 13 de maio de 1894 e 13 de
maio de 1900.
70
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 11 mai. 1893, p.1.
174

de publicar. Foram saudados: o “Clube Republicano”; o Jornal de Piracicaba; a “Sociedade


Beneficente Espanhola”; a Gazeta de Piracicaba; a “Sociedade Italiana de Mútuo Socorro”; o
então Delegado de Polícia, Eloy da Costa; o Juiz de Direito; a “Sociedade Beneficente
Portuguesa”; o “Clube Piracicabano”; a “Sociedade XX de Setembro”; e a “Sociedade
Igualitária Instrutiva”. Com exceção da organização espanhola, que se encontrava vazia, em
todas as associações houve discursos de seus representantes que aguardaram a passagem do
préstito. O periódico não informou o teor de todas as falas, preferiu apresentar alguns
resumos71.
Ao ver a multidão de manifestantes em frente a sua residência, o senhor Eloy da
Costa teria feito “um eloquente discurso”. Ele pediu “aos homens de cor que, tendo-se já há
13 anos libertado da pesada corrente que lhes subjugava os braços, fizessem todo o possível
para, educando seus filhos, mandando-os à escola, se libertassem também do cativeiro que
lhes tolhe a ação do cérebro – a ignorância”. O Juiz de Direito falou de sua atuação em prol a
liberdade dos escravos, “quando exercendo a advocacia, pôs a disposição da honrosa causa, a
sua pena no jornalismo e a sua palavra na tribuna”. Caminhou discursando o caminho todo
Antônio Pinto, antigo colaborador da Gazeta de Piracicaba e fundador do Jornal de
Piracicaba, ele tratou do “valiosíssimo concurso da imprensa para emancipação dos
escravos”. Apesar de sua participação, não foi encontrado relato sobre esta celebração em seu
periódico. O redator da Gazeta, Jonathas Mattos, também esteve presente, seria ele quem
puxava as saudações e vivas, atuando assim, como o orador oficial do préstito, inclusive o
agradecimento ao organizador do evento e pedido de brinde final teria sido feito por ele72.
A participação de autoridades locais deu legitimidade à festividade, por isso teve
um espaço de destaque na primeira página do periódico. A notícia foi publicada de modo a
enfatizar ideias que já apareciam nos editoriais de 13 de maio, as sínteses das oratórias
apresentadas diziam respeito ao papel da imprensa na promulgação da lei e a importância da
educação dos libertos, assim a festa respondia aos anseios dos responsáveis pelo periódico,
tentando incutir determinados valores à população. Não se pode afirmar que esta
comemoração foi organizada por homens de cor, entretanto a fala do Delegado de Polícia
permite pensar que eles estavam presentes. Além disso, cerca de 50 pessoas se reuniram seis
dias depois na rua Glória, a mesma onde o préstito se concentrou inicialmente, e fundaram a
“Sociedade Beneficente Antônio Bento”. O que reforça a ideia de que pessoas negras

71
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 16 mai. 1901, p. 1.
72
Idem.
175

participaram inclusive da organização. Em todo caso, mesmo se os homens de cor não


estiveram à frente por essa comemoração, talvez tenham sido motivados por ela a ajustarem
suas comemorações para que tivessem apoio e mobilizassem o município.
Para organizar as comemorações do ano seguinte, o tesoureiro da “Sociedade
Beneficente Antônio Bento” “convidou” seus “sócios em atraso com as respectivas
mensalidades” a pagá-las, cerca de dois meses antes, porque, dizia ele, “estar se aproximando
aquela data [13 de maio]” e a sociedade fora organizada “para o fim exclusivo de comemorar-
se a áurea lei”73. Os diretores da associação também fizeram um convite público à Gazeta de
Piracicaba, que divulgou junto com a programação no início de maio. Pretendiam celebrar
com uma sessão literária no teatro da cidade, discursos de lideranças, “uma apoteose ao
grande abolicionista Antônio Bento” e uma marcha pela cidade74.
“Foi entusiasticamente festejada” em Piracicaba “a data gloriosa da emancipação
da escravatura no Brasil”, contrastando, assim, com os anos anteriores quando ela passava
despercebida. Para os dois jornais da cidade, a associação de homens de cor da cidade
celebrou com brilhantismo. A população foi despertada às 5:30 da manhã com queimas de
fogos e uma bateria de 21 tiros, a “Banda Musical Azarias de Mello” tocava desde o início,
animando os festeiros. O percurso entre a rua da Glória até o Largo do Teatro foi enfeitado
com arcos e bandeirolas, ainda havia a iluminação usada na parte da noite, quando o préstito
saiu da sede da sociedade “conduzindo em andor o busto do dr. Antônio Bento” e “à frente a
bandeira nacional”. As senhoritas, em grande número, levaram “inúmeras bandeirolas”. As
outras entidades sociais e escolas “hastearam seus pavilhões” e, como de praxe, houve
saudações às autoridades, agremiações e imprensa. Às 9:30 da noite, cerca de duas horas e
meia após o início da marcha, os manifestantes chegaram ao Teatro, “o Velho S[anto]
Estevam achava-se literalmente cheio de exímias famílias e cavalheiros”, que escutavam os
hinos nacional e do 13 de maio, de autoria do professor Pedro de Mello, e da Redenção.
Antonio Pinto foi mais uma vez o orador oficial, que aconselhou “os manifestantes a tomarem
por bandeira – o saber, a educação do espírito, única capaz de restaurar de uma vez a
liberdade, de implantar para sempre no solo pátrio a harmonia, o progresso”. Quando se
anunciou dos festejos, a banda tocou mais uma vez o hino da redenção, enquanto se erguia o
pano de fundos para que todos vissem o retrato do patrono daquela associação de homens de

73
LAZARO, José Francisco. “Sociedade Antônio Bento”. Gazeta de Piracicaba, 9 mar. 1902, p. 1.
74
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 8 mai. 1902, p. 2; “Programa da Festa de Treze de Maio Promovida pela
Sociedade Antônio Bento”. Gazeta de Piracicaba, 11 mai. 1902, p. 3.
176

cor, que fora colocado “no cimo duma montanha tapizada de flores e ladeado por diversas
meninas vestidas de branco”75.
Esta não foi o único em homenagem à Abolição. “Na igreja de São Benedito
rezou-se uma missa em ação de graça pela data”, e “animados sambas e batuques,
incomodaram a vizinhança nas noites de 12 e 13”76, sem que se registrasse desordens. Esta
pequena nota veio logo após a longa descrição sobre a comemoração da “Sociedade
Beneficente Antônio Bento”, se não houve um travessão indicando mudança de evento, seria
possível entender que ambos eventos fizeram parte da mesma matéria. No entanto, é bem
provável que para muitos participantes tudo fora uma festa só. A missa pode ter sido o início
das festividades e, caso a batucada tenha começado na noite de 12 e se prolongado até a
madrugada do dia seguinte, os manifestantes aproveitaram que estariam de folga no feriado e
ficaram na rua até mais tarde. Ainda, o Largo do Teatro estava situado onde hoje é a Praça
José Bonifácio, que fica cerca de 500 metros de distância da Igreja de São Benedito, à rua do
Rosário desde 1892, assim, se houve duas noites de sambas, pode-se imaginar, também, que
após as solenidades algumas pessoas resolveram honrar o santo de devoção e celebrar a sua
maneira. Em todo caso, a diferença de tratamento revela que havia, por parte dos jornalistas,
um jeito certo de festejar, e não era com samba e batuques, mesmo quando não causava
desordens. Enquanto a organização das solenidades de 13 de maio era uma prova de
patriotismo dos homens de cor, segundo o Jornal de Piracicaba, os batuques e sambas não
mereceram a sua atenção e não foram sequer citados em suas páginas.
A historiografia sobre o carnaval aponta que, entre a segunda metade do século
XIX e as primeiras décadas do século XX, os festejos públicos passaram por uma série de
discussões e mudanças que visavam adequá-los aos projetos de civilização de Brasil. Em Ecos
da Folia, Maria Clementina Pereira Cunha mostrou que o entrudo era usado genericamente
para designar diversas brincadeiras carnavalescas que eram desqualificadas por jornalistas da
época. Entre 1880 e 1920, de acordo com a autora, tentava-se usar as Grandes Sociedades
Carnavalescas para educar a população, ensinando que o carnaval deveria ser baseado nos
préstitos afrancesados e que se deveria assistir ao desfile comportadamente. Contudo, parte do
povo resistia e insistia em seguir com os antigos costumes, brincava com seringas e bisnagas
com águas para molhar os transeuntes. Outra parte se apropriou e ressignificou o modelo
defendido pelas elites econômica e intelectual, e a festa carnavalesca ficou ainda mais

75
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 15 mai. 1902, pp. 1-2; “13 de Maio”. Jornal de Piracicaba, 14 mai.
1902, p. 1 e 15 mai. 1902, p. 1.
76
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 15 mai. 1902, p. 2.
177

polifônica e polissêmica. Deste modo, as classes populares não aceitaram trocar seu papel de
criadora dos festejos para ocupar o lugar de espectadoras comportadas77.
Maria Clementina Pereira Cunha abriu espaço para outras pesquisas que
focalizaram nas tensões sociais durante o carnaval e em outras festas, superando, deste modo,
a clássica análise da festa como momento de inversão da ordem. A autora mostra que nos
momentos festivos também se pode ver a reafirmação da hierarquia social, ao mesmo tempo
em que ela é questionada. Ou seja, há “elementos que fazem da festa expressão de múltiplas
vontades com várias direções e possibilidades de escolha”78. Leonardo Affonso de Miranda
Pereira segue este método de análise em suas pesquisas. Em O Carnaval das Letras, o
historiador indica que contos e crônicas carnavalescas faziam parte de projetos de intelectuais
para modificação do carnaval carioca, que seus textos dialogavam com as movimentações nas
ruas79. Ainda, em seus trabalhos sobre associativismo recreativo, pode-se notar o esforço dos
membros de diversas associações para escapar da constante vigilância de intelectuais,
políticos e até das forças policiais par se divertirem, tanto nas ruas quanto em suas próprias
sedes. A solução foi, em muitos casos, permitir a entrada de pessoas desses segmentos em
seus quadros associativos, bem como incorporar algumas de suas práticas 80. Ambos
pesquisadores compreendem que essas situações expõem, também, as tensões de relações
raciais das primeiras décadas após a Abolição, quando as tentativas de manter as populações
negras em condições de subalternas se chocavam com a busca dos negros por seus direitos de
cidadania. Eric Brasil voltou toda sua atenção para esse debate em A Corte em Festa81.
Segundo esse historiador, a alegria e o deboche típicos do carnaval foram um
ótimo caminho para entender as mudanças ocorridas na última década do período escravista e,
principalmente, seus sentidos para a “população negra liberta e livre e a população que depois
de maio de 1888 seria ex-escrava, mas não conseguiria apagar da pele o estigma da
inferioridade por longos anos”82. Seu livro apresenta diversos contextos aos quais essa festa
esteve inserida, desde a luta por cidadania, por parte dos negros, aos projetos de país, que

77
CUNHA, Maria Clementina Pereira. Ecos da Folia: uma história social do carnaval carioca entre 1880 e
1920. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
78
Idem, p. 302.
79
PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. O carnaval das letras: literatura e folia no Rio de Janeiro do
século XIX. 2. ed. rev. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004.
80
PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. E o Rio dançou. Identidades e tensões nos clubes recreativos
cariocas (1912-1922). In: Maria Clementina Cunha (org.), Carnavais e outras f(r)estas. Campinas: Ed. da
Unicamp, 2002; PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. “Os Anjos da Meia-Noite: trabalhadores, lazer e
direitos no Rio de Janeiro da Primeira República”. Tempo (Niterói. Online), v. 19, p. 97-116, 2013. pp. 99
81
BRASIL, Eric. Corte em Festa: experiências negras em carnais do Rio de Janeiro (1879-1888). Rio de
Janeiro: Editora Prismas, 2016.
82
Idem, pp. 31-32.
178

podia ou não os incluir dependendo do grupo que projetava, além das estratégias de
racialização que não se limitava ao debate científico. Ele torna perceptível a potencialização
dos conflitos durante aqueles dias de celebração, a procura de novas formas e justificativas de
manutenção da ordem que colocaram no centro do debate, muitas vezes, a própria
“participação da população negra na sociedade carioca”83.
Situações similares aconteceram em outros lugares e em outras festas. Alexandre
Lazzari pesquisou o carnaval de Porto Alegre, entre 1870 e 1915. Neste momento, ricos
comerciantes, membros da imprensa, cidadãos de prestígios tentavam eliminar as práticas do
entrudo e colocar, em seu lugar, os desfiles das Grandes Sociedades Carnavalescas, onde
desfilavam e podiam se exibir com suas famílias, imitando, deste modo, os festejos da Corte e
da Europa. No debate sobre a modificação do carnaval, jornalistas desqualificaram
trabalhadores pobres e medianos que usavam de maneiras baratas para brincar o carnaval, o
que significava andar pelas ruas realizando molhadelas. A imprensa chegou a pedir para que
as sociedades organizassem desfiles deslumbrantes para entreter a população, que distraída
perderia os velhos hábitos e aprenderia que seu lugar era observando o cortejo84.
Na Bahia, Wlamyra Ribeiro de Albuquerque focalizou nas tensões durante as
comemorações de aniversário do dia da independência do Estado no pós-Abolição. Enquanto
“os populares pareciam atribuir a vitória de 1823 muito mais aos caboclos baianos do que ao
militar francês”, Pedro Labatut, o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHBA) e a Liga
de Educação Cívica tentavam convencer, sem grande sucesso, os festeiros a participar da
romaria a igreja de Pirajá e prestar homenagem ao general comandante das tropas brasileira.
As duas entidades também desejavam que as celebrações pelo 2 de julho fossem usadas para
educar o povo, ensinando como agir e quem honrar, por isso chegaram a retirar o carro que
puxava os caboclos das comemorações, sob a justificativa que já existia um monumento, onde
os interessados podiam saudá-los. Para a imprensa, as duas associações levavam o verdadeiro
espírito cívico para as festas, as barraquinhas de comidas e bebidas, frequentadas pelo pobres,
pretos e mulatos, eram condenadas pelo discurso sanitarista e “os sambas incomodavam por
serem tidos como focos de violência, espaços de possíveis desordem moral e corrupção dos
costumes (…) ambientes propícios para obscenidades e quebras de normas sociais”85. Deste
modo, mais uma vez, procurava-se retirar da população o seu papel de criadora e colocá-la na

83
Idem, p. 78.
84
LAZZARI, Alexandre. Coisas para o Povo Não Fazer: carnaval em Porto Alegre (1870-1915). Campinas,
SP: Editora da UNICAMP/CECULT, 2001.
85
ALBUQUERQUE, Wlamyra Ribeiro de. Algazarra nas ruas op. cit. p. 73.
179

condição de espectadora passiva, questionando a participação das populações negras e pobres


na sociedade, quando se recusavam a seguir o modelo idealizado.
São Paulo não esteve de fora da discussão sobre reestruturação das festas de rua,
entretanto parece que a estratégia utilizada pela imprensa piracicabana foi minimizar o espaço
dos eventos que não seguiam o padrão desejado. Em uma pequena nota da Gazeta de
Piracicaba de 1901, encontra-se a informação que “percorreu as ruas da cidade” no dia 1° de
janeiro “um bando de pretos, à imitação da nação dos caiapós, em danças e marchas ao som
de buzinas e outros instrumentos característicos, divertindo o Zé povo”. Ao final há o alerta
que naquele dia 04 de janeiro sairia “à rua o mesmo bando”86. Nas edições posteriores não há
informações sobre um novo desfile. Sem fazer críticas diretas ao comportamento dessas
pessoas, o jornal evidencia seu descontentamento usando termos desqualificatórios: era um
“bando” que divertia “o Zé povo”.
A marcha do bando de pretos fora publicada separada das outras celebrações de
ano novo, que aparecem na primeira página dois dias antes. Em “As Festas”, a Gazeta de
Piracicaba noticiou os festejos pela “passagem do século”, os quais começaram “na [igreja]
Matriz, [com] Te Deum com que os fiéis da religião do Calvário se despediram do século
findo, tendo lugar à meia noite a missa em saudação ao século entrante”. Durante a cerimônia
“a orquestra do distinto maestro Tristão Mariano” executou alguns hinos junto com outras
duas bandas, fazendo-se “ouvir a magnífica orquestra” por toda cerimônia. “Na igreja do
Coração de Jesus também rezou-se missa à meia noite” e, de acordo com essa folha, “todas
estas solenidades tiveram lugar com grande brilhantismo”87.
As atividades do Grêmio Espanhol foram um pouco mais detalhadas e com os
elogios de praxe. Para o periódico, “a sua festa esteve magnífica”, seu quadro de sócios
“iluminou belamente, a giorno, a fachada do edifício”, sua sessão extraordinária contou com
“vários distintos oradores” e a “banda musical Stipp executou, antes da abertura da sessão, o
hino nacional brasileiro e a bela marcha de Cádiz”. O “digno presidente” abriu a sessão e
concedeu a palavra ao orador oficial, “que produziu [um] conceituoso discurso sobre fatos
principais e glórias da história da Espanha”. Jornalistas da Gazeta e do Jornal de Piracicaba

86
Gazeta de Piracicaba, 06 jan. 1901, p. 2. De acordo com Olga von Simson, “os caiapós eram um auto
dramático, em forma de dança, que narrava a história da morte de um pequeno cacique indígena, atingido pelo
homem branco, que conseguia voltar à vida graças às artes do pajé”, era uma das primeiras manifestações lúdicas
de ”negros crioulos”. von SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes. Carnaval em Branco e Negro: carnaval
popular paulistano:1914-1988. Campinas: EDUNICAMP; São Paulo: EDUSP; Imprensa Oficial do Estado de
São Paulo, 2007, p. 96.
87
“As Festas”. Gazeta de Piracicaba, 04 jan. 1901, p. 1.
180

estiveram presentes junto com o representante do periódico O Império, da capital, “distinto


moço sr. Avelino Correa de Moraes”. “Durante toda a festa (…) reinou a mais franca
cordialidade”, tudo “correu, enfim, com o máximo esplendor”. A comemoração nas oficinas
da Gazeta de Piracicaba fora “ligeira, porém esplendida. Regada à cerveja e discursos, a
“modesta festa” dos tipógrafos “reinou [n]a ordem mais absoluta, tendo-se trocado, entre
corpo de direção e redação da folha e o corpo de oficiais, sinceras demonstrações de amizade
recíproca”. A última festa foi realizada na fábrica Santa Francisca, onde o “digno diretor deste
estabelecimento fez distribuir brindes em seu palacete a todos os operários”. Foram servidos
doces, licores, cervejas e água mineral com profusão, transformando aquele espaço em um
“movimento alegre de operários que entravam e saiam, em número superior talvez a trezentas
pessoas, todas satisfeitas, risonhas, uma verdadeira festa, quiçá a que mais agrada e interessa
– a festa do trabalho!”, que para o jornal foi “imponente” 88.
A comparação entre os festejos de ano novo mostra o preterimento da Gazeta de
Piracicaba com celebrações que não se baseavam em certos ritos, com discursos e apelos à
fraternidade, que possibilitavam algum tipo de intervenção educacional. A festa do “bando de
pretos” tinha como principal objetivo a diversão de seus participantes, aproveitando o feriado
para estar entre os seus e celebrar o término de mais um ano, bem como fazer planos para o
ano que começara. Por ser também a virada de um século, o que poderia ter causado uma
comoção maior na população, eles devem ter optado por sair às ruas, exibindo-se,
cumprimentando e dando votos de felicitações para o restante da sociedade. Eles desejavam
fazer parte daquele momento único, mostrar-se como participantes daquela sociedade, porém
o periódico mostrava, em sua pequena nota, que não eram. O tratamento dado a eles visava
reforçar a ideia de distinção. Assim, é possível que as populações negras comemoraram o 13
de maio ao longo da década de 1890, mas que suas celebrações foram silenciadas pela
imprensa porque não as reconhecia como legítimas e, por isso, dizia que a data passava
despercebida.

4.4. As comemorações dos homens de cor de Campinas e Piracicaba


Para Cleber da Silva Maciel, as festas de 13 de maio foram, primeiro, usadas
“pelo grupos dominantes brancos para reafirmação da história oficial e que teve pouca
penetração no meio negro mais pobre”; depois, por volta de 1900, “certos negros de
Campinas já enxergavam a necessidade da organização independente e a urgência de uma luta

88
Idem.
181

específica”, dirigida e direcionada aos negros, para que “a liberdade comemorada” não
passasse “de uma ilusão”; por fim, com o desinteresse dos brancos, “sua comemoração passou
a ser feita, basicamente, por negros através das entidades”, que utilizavam “a data para, além
de homenagear a princesa, reforçar as entidades organizativas mobilizadoras da
comunidade”89. O autor tem razão em apontar que as lideranças políticas, intelectuais e
jornalísticas tentaram criar uma história oficial do processo abolicionista e da Abolição, que
colocavam os republicanos como seus protagonistas e apagando a influência monarquista, no
entanto parece que houve mais do que uma “pouca penetração no meio negro mais pobre”.
Em primeiro lugar, não é possível traçar as diferenças econômicas entre as
populações negras a partir das fontes consultadas e nem mesmo em seu livro. Até quando se
considera que os negros que participavam da vida associativa tinham melhores condições
financeiras que os demais90, não se pode falar de pouca penetração entre os mais pobres, nas
notícias de comemorações sempre apareceram grupos de negros desvinculados à associação.
Depois, a presença de pessoas negras, seja em sambas ou elaborando homenagens à
abolicionistas, demonstra que para além da construção de memória dos brancos, essa data
tinha alguma importância no meio negro que também a utilizava com outro sentido. De
mesmo modo, não parece correto acreditar que somente a partir de 1900 “certos negros”
entenderam que deveriam comemorar dentro de uma pauta de luta para que a liberdade não
fosse uma ilusão. Geralmente, sabe-se das ideias das populações negras por meio da Imprensa
Negra, que é veículo de transmissão de alguns grupos e organizações, e, infelizmente, há
poucas edições de jornais negros no século XX e nenhuma do século XIX, nos casos de
Campinas e Piracicaba. No entanto, os vestígios encontrados nas notícias da imprensa de
ampla circulação mostram que entendiam que, depois da liberdade, precisavam de outras
conquistas para alcançar uma cidadania igualitária. A participação e a organização de festas
de 13 de maio (e de outras também) correspondiam a esse anseio, os negros aproveitavam
esses momentos para se mostrarem como partícipes da sociedade.
As associações de homens de cor foram fundadas para oferecer atividades e
serviços que eram negados às populações negras em outras instituições. Por conta da
constante vigilância e para angariar fundos, seus membros criaram códigos de condutas que
os afastavam da visão negativa dos negros e permitiam que adquirissem o respeito dos demais
setores da sociedade. Ao lado disso, abriram as portas de suas organizações para líderes locais

89
MACIEL, Cléber da Silva. Discriminações raciais op. cit. pp. 95-96.
90
Ver a discussão bibliográfica sobre associativismo negro no capítulo 2.
182

independente do tom de sua pele e nacionalidade, assim, em seus eventos e em seus quadros
de sócios havia pessoas brancas e imigrantes. O êxito destas ações pode ser visto nas festas da
Abolição, que se tornaram notícias frequentes e bastante elogiadas.
A festa da “Federação Paulista dos Homens de Cor” “foi um verdadeiro triunfo”,
de acordo com o Comércio de Campinas de 1907, chegando a surpreender os jornalistas que
não imaginavam que “aquela associação estivesse em condições de poder, sem auxílio oficial,
que lhe foi injustamente negado, levar a efeito uma tão bela comemoração cívica, com o
caráter todo popular”, tal como deveria ser, em sua opinião, todas as comemorações
históricas. Como nas outras ocasiões, a bateria de fogos aconteceu logo cedo, seguido de uma
salva de 21 tiros, a concentração fora no Largo de São Benedito e na igreja deste santo foi
celebrada a “missa em memória das vítimas do cativeiro”. De sua “sede social, à rua Moraes
Sales, nº 109, saiu a vistosa passeata cívica” que andou pela cidade cumprimentando as
autoridades e imprensa. A banda musical Ítalo-Brasileira embalava os participantes e era
seguida de um estandarte nacional, a “Sociedade Beneficente Luiz Gama” se fez notar por
meio de seu estandarte, assim como “Sociedade Beneficente Artística Beneficente”, o
“Circolo Italiano”, “Sociedade Beneficente União dos Padeiros”, a “Liga Operária”, a “União
da Juventude”, o “Clube Atlético Recreativo”, “Sociedade Humanitária Operária”, o “Casino
Familiar” e a “Sociedade 25 de Outubro”. O trajeto foi “longo e brilhante” e foi feito ao som
das falas de “Antônio Sarmento, Benedito Florêncio, professor [Francisco] Oliveira, Turíbio
Costa, dr. Araújo Mascarenhas, drs. Juiz de direito da 1ª e 2ª vara, José Villagelin, dr. Álvaro
Miller, dr. Antônio Lobo, Alberto Faria, José Pereira Rebouças Filho e Henrique de
Barcelos”. Ao “senhor Benedito Florêncio, foram-lhe atiradas pétalas de flores por duas
meninas”, após seu discurso no Comércio de Campinas, onde ele também trabalhava como
jornalista. De volta a sede social, Antonio Sarmento presidiu a sessão solene, a qual teve
diversos discursos, que foram encerrados por ele. E durante o baile, “bebidas e doces em
grande abundância” foram oferecidos aos convidados91.
Entre os oradores se nota a presença de figuras ilustres de Campinas. Destaca-se a
presença de Antônio Sarmento, um político local que pertencia a uma de família de jornalistas
e políticos, que na época era proprietário do Diário de Campinas. O doutor Antônio Álvares
Lobo era o proprietário do jornal Cidade de Capinas, membro do Partido Republicano
Paulista e com ligações antigas com a “Federação Paulista dos Homens de Cor”. Ele

91
“Que Belo”. O Propugnador. 06 out. 1907, p. 2. Este texto é a transcrição do artigo: “13 de Maio”. Comércio
de Campinas, 14 mai. 1907, p. 1.
183

“assessorou a criação do Centro [Literário dos Homens de Cor] e fez parte do Conselho Fiscal
da Federação Paulista dos Homens de Cor quando a entidade abriu-se para a participação de
membros de fora da comunidade negra”92. Para Cleber da Silva Maciel, esses líderes locais
participavam das comemorações para controlar suas narrativas, enquanto José Galdino Pereira
vai mais longe. Para o autor, além do controle, os políticos se aproximaram em busca de
votos. Após a análise dos artigos jornalísticos sobre a importância da Abolição, pode-se dizer
que eles têm razão. Constantemente as autoridades diziam que era necessário: comemorar o
fim do cativeiro; lembrar dos antigos abolicionistas; saudar a República porque por quase
todo período imperial existiu a escravidão, enquanto esse novo regime era pautado pelas
liberdades; e, por fim, que os libertos deveriam incutir o amor ao trabalho. Ainda, o
surgimento da “Federação Paulista dos Homens de Cor” está atrelado ao “Colégio São
Benedito”, ambos tinham a mesma sede em 1907, inclusive, por isso era uma associação de
letrados e, potencialmente, de eleitores. Por outro lado, essa organização teve ganhos com a
presença dessas figuras, por isto, ela fazia questão de convidar.
Como apontado no capítulo 2, no centro da formação da “Federação Paulista de
Homens de Cor” esteve a disputa pelo controle do “Colégio São Benedito” e busca por
autonomia dos negros da “Irmandade de São Benedito”. Em um determinado momento houve
dois colégios São Benedito, um controlado pelos negros e outro pela Igreja, em uma evidente
tentativa de concorrência que almejava confundir a população e, junto a isto, houve notas de
representantes do clero desmoralizando a atuação de Francisco de Oliveira. Os membros da
“Federação” saíram vitoriosos desta batalha, mantiveram sua escola até meados da década de
1940, mas para isto precisaram de apoio, como a assessoria para criar o “Centro Literário dos
Homens de Cor” por onde capitalizaram recursos em um primeiro momento. José Pereira
Galdino conseguiu entrevistar Benedito Evangelista, um militante negro de Campinas que
atuou como procurador dos bens do “Colégio de São Benedito” e era filho de um de seus
fundadores, em seu depoimento dissera que “Antônio Álvares Lobo ajudou muito, porque de
fato passou a ser conselheiro, de conselheiro que segurava a barra”. Ele “escrevia as atas de
fim de ano, os balancetes”, ainda era responsável pelas “compras, os créditos, aquelas coisas
todas (…) ele dirigia tudo”93.
As associações de homens de cor também almejavam prestígio no meio, a
participação desses políticos e a organização de grandes festas eram fundamentais para isto. A

92
PEREIRA, José Galdino. Os Negros e a Construção de sua Cidadania op. cit. p. 89-90.
93
Depoimento de Benedito Evangelista, gravado na “Liga Humanitária dos Homens de Cor” em 1994 apud.
PEREIRA, José Galdino. Os Negros e a Construção de sua Cidadania op. cit. p.91.
184

direção da “Federação Paulista dos Homens de Cor” logo após sua primeira festa de 13 de
maio propôs uma fusão das sociedades de homens de cor, afirmando que nenhuma outra tinha
conseguido “ainda a posição moral e social” que ela tinha, “apesar da indiferença e combates
que certos ignorantes movem contra sua existência”. Dois fatos exemplificavam seus
“progressos” e “fé social, nesta grave batalha da educação cívica dum povo retrogrado e quase
rebelde a todos os princípios elementares da civilização humana”: a campanha contra a guarda
cívica, que não admitia pessoas negras; e “a festa imponente” de 13 de maio de 1907. Insistia
na ideia de reunir “todas num só núcleo, poderoso e forte, ao invés de as ter em tão grande
número somente para bailes”, porque as outras associações “nunca, infelizmente”,
“mereceram os aplausos da imprensa, os convites honrosos” que a “Federação” vinha
recebendo. Seus espaços não eram visitados como os dela, por isso não dispunham da mesma
“força política, moral e social”, não eram “consultadas por outras associações para tomar
parte em certas organizações locais, muito menos conseguiram fazer “uma comemoração tão
imponente e brilhante (a melhor que se tem realizado nesta cidade) no dia 13 de maio” como a
daquele ano94.
De fato, é notável a participação de diversas instituições, líderes locais e
visibilidade que sua comemoração teve, algo que contrasta com os anos anteriores, quando as
festas e textos comemorativos vão desaparecendo, chegando ao ponto de dizer que não houve
homenagem alguma à Abolição. Dois anos antes, em 1905, uma nota do Cidade de Campinas
dizia que, em homenagem ao 13 de maio, “os homens de cor, acompanhados de uma banda
musical fizeram ontem uma passeata à noite, saudando as autoridades jurídicas, policiais e
municipais e a imprensa local”95. Essa era toda a notícia da cobertura, indicando que era
preciso mais do que seguir os ritos cívicos para ser destacada. Os dirigentes da “Federação
Paulista dos Homens de Cor” pareciam entender o potencial de ter como aliados líderes
locais, mesmo que fossem brancos, e os usavam para se lançar como as principais referências
do meio negro. De um lado os homens de cor entendiam que a luta deveria ser coletiva, com o
maior número de negros possíveis articulados, por outro reconheciam que havia várias
vertentes de ação e, consequentemente, disputavam entre si para se estabelecer enquanto
líderes da unidade negra.
Para se mostrar como uma boa opção de liderança, era importante estar sempre
em evidência, por isso antes mesmo do cortejo a “Federação” já mobilizava Campinas. Antes

94
“A Fusão das Sociedades”. O Propugnador. 06 out. 1907, p. 1. De acordo com o periódico paulistano, o texto
era um “transcrito do “Baluarte” órgão da Federação P. dos H. Pretos”.
95
“13 de Maio”. Cidade de Campinas, 14 mai. 1905, p. 1.
185

da realização de suas comemorações de 13 de maio, a “Federação Paulista dos Homens de


Cor” angariava fundos junto ao poder público e, principalmente, por meio de esmolas de seus
estudantes que arrecadavam pelas ruas da cidade por cerca de um mês, solicitava auxílio às
outras sociedades civis e aos cidadãos ilustres. Segundo José Galdino Pereira, reconhecendo a
relevância da data, ele organizou suas comemorações não como “uma festa do negro, mas sim
de uma festa política do negro e da sociedade campineira. Por isso, convida as sociedades de
mútuo auxílio, as entidades escolares, as culturais, as organizações operárias e as autoridades
‘políticas’”96. Em 1909, a “Federação Paulista dos Homens de Cor” montou comissões de
sócios para angariar fundos para a comemoração junto às empresas da cidade, houve
comissões para a Companhia Mogiana, a Companhia Lindgerwood, a Companhia Mc Hardy e
os Armazéns da Companhia Paulista, além de sócios que arrecadaram dinheiro com os
representantes do comércio97. No relato sobre o evento no Comércio de Campinas, a Loja
Maçônica Independência foi quem deu apoio aos homens de cor em seus festejos98. Neste
mesmo ano, de acordo com Cleber Maciel, a comemoração teve seu melhor registro “pelo
Comércio de Campinas, que já um mês antes da data anunciara todos os passos da Federação
Paulista dos Homens de Cor em seus preparativos”, este interesse era fruto da atuação do
jornalista e sócio da “Federação” Benedito Florêncio no periódico99.
O panorama das atividades comemorativas da “Federação” não se alterava ano
após ano, de uma maneira geral, desde que se tornou a principal promotora dos eventos de 13
de maio. As outras associações de homens de cor podiam ser citadas em um ano e no seguinte
não, o que permite entender que sua participação era frequente, possivelmente como
coorganizadoras e/ou apoiadoras. Como foi analisado no capítulo 2, os homens de cor
estavam em diversas associações, principalmente os que fizeram parte de diretorias, e
promoviam eventos em uma entidade para auxiliar outra. Entre 1907 e 1920, encontrou-se a
participação da “Sociedade Beneficente Luiz Gama”, “Sociedade Beneficente 13 de Maio”,
“Sociedade Beneficente Isabel, a Redentora”, “Sociedade Dançante Princesa do Oeste”,
“Centro Cívico dos Homens de Cor”. A partir de 1915 o futebol foi inserido entre as
solenidades, o “Black Team” surgiu neste ano como um selecionado de sócios da própria

96
PEREIRA, José Galdino. Os Negros e a Construção de sua Cidadania op. cit. p. 102.
97
“Federação Paulista”. Cidade de Campinas, 17 abri. 1909, p. 1.
98
Comércio de Campinas, 13 mai. 1909, p. 1.
99
MACIEL, Cléber da Silva. Discriminações raciais op. cit. p. 91.
186

“Federação” reforçado com integrados do “Centro Cívico dos Homens de Cor” e do “Centro
Recreativo Dramático Familiar 13 de Maio100”.
Para Cleber Maciel, a presença da participação das associações de homens de cor
nas notícias sobre as celebrações da “Federação” é inversamente proporcional ao apoio
financeiro que a entidade recebia dos “capitalistas”. Ou seja, conforme políticos, jornalistas,
comerciantes e outros líderes locais foram perdendo interesse nas comemorações à Abolição,
mais elas voltaram a ser uma festa dos negros como foram na última década do século XIX101.
Isso teria acontecido a partir de 1914, quando os antigos financiadores começaram a
homenagear os republicanos falecidos, e, a partir de 1916, a celebração mais importante para
eles passou a ser a memória de Francisco Glicério. Assim, a movimentação nas ruas foi
diminuindo e o papel de protagonista da “Federação Paulista dos Homens de Cor” também foi
se perdendo, cada vez mais outras entidades negras aparecem ao seu lado como realizadora do
evento. Em 1917, há a notícia de duas festas ligadas às associações de homens de cor. Uma
fora organizada pela “Federação”, em sua sede, sem desfiles pelas ruas, a outra era do “Centro
Recreativo Dramático Familiar 13 de Maio”, que contou com representantes de associações
de homens de cor de Jundiaí e da capital paulista102. Segundo Cleber da Silva Maciel, no
segundo evento fora lançado o jornal negro “A União, representante da União Cívica dos
Homens de Cor que pretende[u] ser o porta-voz do pensamento das entidades Estrela Celeste,
União da Juventude, José do Patrocínio, Beneficência dos Homens de Cor e Estrela do
Norte”103.
A partir de 1923 é possível interpretar a mudança da festa de forma diferente da
terceira conclusão de Cleber da Silva Maciel, porque há edições do Getulino. Nos jornais de
grande circulação, é possível notar a perda de interesse e apoio às festas de 13 de maio, que
acarretou em diminuição de espaço da “Federação Paulista dos Homens de Cor”, contudo, o
espaço dado não permite saber os sentidos das celebrações a seus dirigentes, por isso não é
possível taxar que as homenagens à princesa Isabel passaram a ocorrer somente após a
diminuição de apoio. Cabe lembrar que no final do século XIX fora fundada uma associação
de homens de cor em sua honra, o que significa que, ao menos entre um grupo de homens de
cor, ela era prestigiada. Em todo caso, através do periódico, que tinha colaboradores de

100
Idem.
101
Idem, p. 93.
102
“13 de Maio”. Cidade de Campinas, 14 mai. 1917; O Estado de São Paulo, 15 mai. 1917.
103
MACIEL, Cléber da Silva. Discriminações raciais op. cit. p. 94.
187

diversas associações de homens da cidade, é possível compreender o que pensavam algumas


lideranças negras sobre o abolicionismo e a Abolição.
Na edição de 13 maio de 1924 do Getulino as três primeiras páginas tinham
retratos de abolicionistas. Na primeira estava o retrato da princesa em volta de texto que
pretendia contar a história do abolicionismo, Francisco Glicério, Rui Barbosa e Visconde de
Rio Branco dividiram a página seguinte, enquanto o retrato de Luiz Gama foi colocado na
penúltima página. A imagem de Isabel é a única que não divide atenções com outros retratos,
isto porque a terceira página era dedicada a vida social e os editores do periódico resolveram
colocar a foto de Cidinha, filha de Benedito Maria e Didi de Souza, que completara dois anos
de idade. A posição central de seu retrato também dá a impressão que a imagem da princesa
Isabel é bem maior que as demais, inclusive do abolicionista negro.

Figura 13 Princesa Isabel Figura 14. Francisco Glicério, Rui Barbosa e Visconde de Rio Branco
188

Figura 15. Luiz Gama


Getulino, 13 mai. 1924, pp. 1, 2, 3.
189

No texto é dito que “em Campinas, neste recanto da então província de S. Paulo,
onde a lavoura, bastante extensa, e considerada, com verdade, como das mais importantes,
dependia do braço escravo, pois raríssimos eram os fazendeiros que já ensaiavam o trabalho
livre”. O trabalho dos abolicionistas, então, foi mais duro neste lugar porque, assim como “em
todas as cidades [do interior paulista], redobrou a vigilância” por causa das ações de fugas e a
formação dos caifazes, liderados por Antônio Bento. Apesar das vigias, as fugas não eram
contidas porque as ideias abolicionistas tinham chegado ao exército, como um todo, e na
polícia, em partes. Então, foi relatada uma história de uma viúva de Campinas que fora à São
Paulo em “companhia de duas mulatas escravas”, logo que chegou à estação da Luz, “na
confusão dos passageiros, um caifaz achou meio de se apoderar de uma delas e confiscou-a”.
A senhora foi até a delegacia prestar queixa com a sua outra escrava. Enquanto um cabo foi
chamar o chefe, as duas mulheres foram separadas, a queixosa ficara em um gabinete às
portas fechadas e a mulata a aguardava. Em seguida, um segundo cabo apareceu e dissera à
escravizada, “sua senhora está lá embaixo e manda chamar você”, mas “à porta estava um
carro de praça, o cocheiro embarcou nele a escrava” e fugiu com ela. A senhora saía da sala
ouvindo as promessas que os policiais empregariam “todos os esforços para encontrar a
escrava desaparecida na véspera”, quando “verificou que perdera também a outra, dentro da
própria repartição da polícia”. Às queixas e reclamações da senhora, “respondia o cabo
filosoficamente: - Olhe dona, isto aqui em S. Paulo, não se pode fiar. Está tudo perdido!
Vejam só o que lhe sucedeu. Agora só botando anúncio nas foias”104. Com esta pequena saga,
o periódico dava um exemplo da luta dos abolicionistas, como foram colocando suas ideias
em diferentes setores da sociedade escravista para mudá-la, e do porquê caifazes, na figura de
Antônio Bento, mereciam homenagens.
O texto segue apontando que situações como aquela estavam se tornando mais
comum, que as ideias abolicionistas estavam penetrando em mais lugares e com diferentes
atuações, até que fora posto fim à escravidão. Ao final, relatava o suposto clima da cidade no
do dia 13 de maio de 1888, quando a “multidão prorrompeu em gritos de júbilo delirante,
indizível! Velhos ex-escravos choravam de alegria, misturando-se as lágrimas com imenso
prazer de liberdade e com as prolongadas e uníssonas salva de palmas”. Em meio as “músicas
festivas, hino nacional, estrugir de bateria”, vinha desta “formidável manifestação os vivas
entusiásticos à princesa Isabel, a Redentora, José do Patrocínio, Saldanha Marinho, Antônio

104
Getulino, 13 mai. 1924, p. 1.
190

Bento, Francisco Glicério, Antônio Sarmento e muitos outros”105. Parte deste texto foi
apresentado no capítulo anterior, em uma comparação com o artigo de Benedito Florêncio, de
1903, em que ele reiterava a tese de que a Abolição e a República faziam parte de uma linha
evolutiva da política brasileira. Nesta seção, ele serve para expor o local de homenagem à
princesa Isabel entre os homens de cor. A assinatura da Lei Áurea aparece como o desfecho
da luta por liberdade, feita com ajuda de muitos aliados e contra pessoas que se sustentavam
através do trabalho escravo e não admitiam a sua perda, como a viúva queixosa. A história do
abolicionismo nas páginas do Getulino é a de combates e combatentes, e a princesa Isabel foi
alçada ao posto de combatente nas homenagens dos homens de cor.
Sobre as três etapas das festas de 13 de maio de Cleber da Silva Maciel, ao que
tudo indica precisam ser lidas com cautela e relativizadas. As fontes utilizadas não permitem
enxergar as populações negras de Campinas em sua pluralidade, ao contrário. A imprensa de
ampla circulação propositadamente minimizou e, até mesmo, excluiu de suas páginas as
pessoas negras que festejaram fora daquilo que estabeleceu como padrão, entre os homens de
cor, que celebravam de acordo com os ritos desejados, há o silenciamento de seus discursos.
O recorte feito nos periódicos permitiu que as ideias das lideranças da cidade sobre como e o
que comemorar fossem reforçadas, também que eles fossem usados como exemplos aos
outros negros, destacando suas diferenças e excluindo suas semelhanças. Ao resumir as
mensagens de oradores, expondo sempre seus pedidos aos homens de cor que estudassem e se
dedicassem ao trabalho, os jornais endossavam que as populações negras ainda não estavam
prontas para a cidadania plena. Apesar disso, pode-se ver nas ausências, nas notas curtas e nas
longas notícias elogiosas as tentativas de participação das populações negras de serem vistas
como agentes da sociedade pautada pelo trabalho livre, de se colocaram em uma manifestação
política, de dizerem quais momentos e quem são as personalidades relevantes na história
brasileira.
Neste sentido, é preciso atentar para os locais dos festejos. Os pretos com
zabumbas de samba, os homens de cor associados ou não e os da “Federação Paulista dos
Homens de Cor” em algum momento de suas festas se concentraram no Largo de São
Benedito, houve ocasiões que até se encontraram por lá, e não foi por acaso. Como apontou
Regina Célia Xavier, “ainda hoje o Largo de São Benedito é reverenciado como um local
privilegiado para a expressão da comunidade negra da Campinas”106, isto porque entidades

105
Idem.
106
XAVIER, Regina Célia Lima. Religiosidade e escravidão no século XIX: op. cit. p. 346.
191

sociais e agrupamentos das populações negras posteriores à “Irmandade de São Benedito”


ocuparam este lugar em uma espécie de reverência à ancestralidade, mesmo quando a história
da construção da capela já estava esquecida. Entre os festeiros de 13 de maio, o esforço de
mestre Tito e de seus irmãos de devoção ainda estava na memória, também havia os membros
da irmandade e os devotos do santo, então estiveram naquele Largo para prestar suas
homenagens à São Benedito, que em sua história passou pela escravidão, à irmandade e seus
antigos membros. Este gesto dava ao santo, à sua irmandade e aos seus membros a mesma
importância que outros abolicionistas tinham na conquista da liberdade, ainda, para alguns
negros, isso poderia configurar um tipo de culto aos ancestrais. Assim, a saudação a este local
era mais uma demonstração do interesse dos negros em participar ativamente da sociedade
republicana. Esta interpretação pode ser estendida à Piracicaba, onde as celebrações também
passaram nos arredores da igreja de São Benedito.
No terceiro ano de existência da “Sociedade Beneficente Antônio Bento”, em
1904, ela teve certa concorrência na organização das comemorações de 13 de maio. De
acordo com a Gazeta de Piracicaba, “no salão principal do Clube Piracicabano, um grupo de
rapazes do segundo ano da escola complementar” promoveu uma “bonita festa literária”,
enquanto “a “Liga Epworth, sociedade religiosa, fundada pela Igreja Metodista”, efetuou
outra “sessão literária, comemorativa à data”. A sociedade “mantida pelos homens de cor”
preferiu sair às ruas em passeata107. A população piracicabana “foi, logo pela madrugada,
despertada por estridente alvorada” que deu início aos festejos dessa associação de homens de
cor e à noite seus membros e convidados saíram em marcha, “à frente do préstito vinha, em
charola, o retrato de Antônio Bento”. O Jornal de Piracicaba informou que autoridades foram
saudadas, sem dizer, contudo, quais eram elas, também não informa o que seu representante
teria dito aos manifestantes quando pararam em frente a redação108. A Gazeta de Piracicaba
não noticiou como foi a festa dos homens de cor, preferiu relatar os eventos literários,
enfatizando na participação de Antônio Pinto no “Clube Piracicabano”109.
A pouca cobertura da comemoração pode ser justificada pela presença do
jornalista no outro evento e pelas dificuldades que causaram a diminuição do quadro
associativo da agremiação. Em 1903, somente doze sócios assinaram a ata de assembleia em
que fora feita a prestação de contas e a eleição de diretoria, na verdade de reeleição a pedido
dos presentes e sem concorrência, no ano da comemoração não há assinaturas e nem números

107
Gazeta de Piracicaba, 12 mai. 1904, p. 2.
108
“Noticiário”. Jornal de Piracicaba, 14 mai. 1904, p. 1.
109
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 14 mai. 1904, p. 1.
192

de votantes, somente indica que o presidente eleito recebeu dez votos. Entre 1904 e 1908 a
sociedade passou por momentos incertos, antigos sócios depuseram a Eliane Tadeu Terci e
José Francisco Oliveira que em 1905 ela foi fechada110, mas há notícias que indicam seu
funcionamento, o que se sabe é que depois de 1904 não há registro de reuniões em seus livros
de atas e que ela foi refundada em 1908 com novos estatuto e nome.
Os dois jornais da cidade informaram que “a data da libertação dos escravos,
graças à Sociedade Beneficente Antônio Bento”, não passou despercebida em Piracicaba, em
1905. “Um grande préstito” saiu às 7:30 cumprimentando as autoridades jurídicas, as
“sociedades italianas, ‘Mútuo Socorro’ e ‘20 de Setembro’, a portuguesa, espanhola, síria
‘Igualitária Instrutiva’, Beneficente Operária, ‘Gazeta de Piracicaba e Clube Republicano”. A
passeata acabou “às 10 horas da noite, havendo em seguida uma pequena sessão literária”
antes de iniciar um “animado baile” em sua sede111. Um ano depois, os periódicos divulgaram
os programas da festa e agradeceram aos convites, nestes espaços é possível encontrar os
nomes dos diretores da sociedade, o presidente era o mesmo eleito em 1904: Cesário Custódio
de Almeida112. Nesta comemoração houve alvorada com a banda “Lira Piracicabana”, quando
também foram soltos fogos de artifícios, o encerramento do evento matinal foi com uma
missa na igreja de São Benedito. À noite foi a vez do préstito, que conduziu a bandeira
nacional e um busto do patrono, após as saudações típicas, os manifestantes entraram “na sede
da Sociedade Antônio Bento, [onde] seguiu-se um animado baile dos homens de cor”113.
A responsabilidade da festa em 1907 foi de João Miguel Pereira da “Sociedade
Luiz Gama”, ele atuara como tesoureiro da “Sociedade Beneficente Antônio Bento” no ano
anterior. De acordo com a Gazeta de Piracicaba, as duas associações organizaram a festa,
que acabou em baile na sede da “Luiz Gama”, o Jornal de Piracicaba cita somente esta
sociedade como promotora. Esta situação já foi discutida no capítulo 2, sabe-se que a
homenagem ao líder dos caifazes não era bem aceita entre algumas famílias ricas que
colaboravam com a entidade negra, que, por isso, ficou em dificuldades financeiras e seus
membros resolveram trocar seu nome para o atual, “Sociedade Beneficente 13 de Maio”, Luiz
Gama talvez tenha sido um nome que tentaram usar antes da troca definitiva. Sobre a
comemoração daquele ano, há uma pequena mudança de cenário. Na véspera do aniversário

110
TERCI, Eliane Tadeu; OLIVEIRA, José Flávio. Sociedade Beneficente 13 de Maio: op. cit.
111
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 5 mai. 1905, p. 1; “13 de Maio”, Jornal de Piracicaba, 14 mai. 1905, p.
2.
112
“13 de Maio”. Jornal de Piracicaba, 13 mai. 1906, p. 1.
113
“13 de Maio”. Gazeta de Piracicaba, 15 mai. 1906, p. 2; “13 de Maio”. Jornal de Piracicaba, 15 mai. 1906,
p. 1.
193

da Abolição, realizou-se uma encenação no Teatro Santo Estevam, dirigida por José
Campagueli, no dia 13 os ritos seguiram iguais e durante a sessão literária João Miguel
Pereira recitou poesias ao lado de Firmino Sampaio e das “senhoritas Emília da Silvia,
Abigail Pereira, Bendita Pereira, Maria Florência e Benedita de Castro”114. Esta foi a primeira
citação de nomes de mulheres que participaram das festas, em geral, os periódicos diziam que
senhoritas balançavam bandeirolas e que meninas vestidas de branco jogam flores.
A partir de 1908, as comemorações da “Sociedade Beneficente 13 de Maio”
voltaram a ser prestigiadas pelas outras organizações sociais e periódicos. Naquela sessão
havia representantes da “Sociedade Italiana de Mútuo Socorro”, “Sociedade Barão de Rio
Branco”, “Sociedade Beneficente Espanhola”, “Sociedade Beneficente Portuguesa” e da
“Sociedade Beneficente Operária”115. A participação das outras organizações sociais poderia
significar que os homens de cor finalmente inseriram sua sociedade no rol das sociedades
sociais da cidade, no entanto ela continua a não aparecendo nas listas de participantes de
outras festas, como as comemorações de 1º de maio organizadas pela “Sociedade Beneficente
Operária”, que também mobilizava pessoas nas ruas. O envio de representantes também não
resultou em um aumento das festas de 13 de maio, ao contrário, elas ficaram cada vez mais
restritas às missas e solenidades na sede da associação.
Em 1909, por exemplo, o Jornal de Piracicaba dizia que a “Sociedade 13 de
Maio” pretendia promover “pequenos festejos em comemoração à lei da libertação dos
escravos”, o programa constava de “alvorada pela banda União Operária e à noite, na sede
daquela sociedade, à rua da Glória nº 81, realizar-se-á uma sessão cívica”, também haveria
uma missa na igreja de São Benedito116. As dificuldades passadas pela associação na década
de 1910 fizeram com que ela permanecesse por alguns anos fechada, entre 1914 e 1921,
porém seus sócios continuaram a realizar festas no dia 13 maio, que foram ficando cada vez
mais restritas aos homens de cor e, quando a associação voltou a funcionar, à sua sede.
***
As comemorações de 13 de maio permitem discutir a busca por respeitabilidade e
participação política das populações negras, que inseriram elementos dos ritos desejados pelas
lideranças políticas e intelectuais, mas sem deixar de celebrar à sua maneira. Isso significou
tanto usar os espaços públicos para realizar sambas, quanto homenagear a princesa Isabel e

114
Gazeta de Piracicaba, 14 mai. 1907, p. 2
115
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Sessão Solene”. 13 mai. 1908. Livro de Atas n. 1, Arquivo Histórico da
Sociedade Beneficente 13 de Maio.
116
“13 de Maio”. Jornal de Piracicaba, 13 mai. 1909, p. 1.
194

Antônio Bento, quando as imagens ambos não eram bem quistos; era tanto se concentrar no
Largo de São Benedito e honrar o santo protetor, quanto continuar nas ruas após a ordem de
encerramento pelas comissões organizadoras. Todo o esforço empregado nas organizações de
festas sugere que os negros desejavam ser vistos como membros da sociedade pautada pelo
trabalho livre, opinar sobre quem merecia homenagens, mostrar-se como capazes de entender
e executar os rituais cívicos e, principalmente, não deixar esquecer que conquistaram a
liberdade, o que também significava que eram iguais aos demais cidadãos brasileiros, ou
melhor, que eram também cidadãos.
195

CAPÍTULO 5

Comemorações, confraternizações e intercâmbios

Em 1924, Gervásio de Moraes afirmou que seria “ideal” se os homens de cor,


“depois de um dia cheio” de trabalho, pudessem ir a uma agremiação, “onde a par dos bons
ensinamentos” se divertissem “com método”1. Este “método” seria crucial para que
alcançassem o respeito de outros setores da sociedade, diferenciando-se do restante das
populações negras2. Para ele, o modo como se realizava a diversão cotidiana era tão
importante quanto os discursos pelo reerguimento da classe/raça e as solenidades de 13 de
maio. Um bom comportamento também legitimava a aproximação com políticos, jornalistas e
outras lideranças locais, que muitas vezes financiavam diversos eventos.
Além disso, a própria ludicidade constituía uma pauta de luta. As associações de
homens de cor foram fundadas em contexto de perseguição às celebrações e outras práticas de
lazer das populações negras, quando aglomerações de pessoas não brancas eram vistas como
suspeitas e propícias às desordens. Adequando-se aos códigos de posturas de suas cidades,
seus dirigentes conseguiram oferecer a seus sócios divertimentos sem as constantes
reclamações e embates com as forças locais de segurança pública. Este capítulo analisa as
formas de diversão e as interações entre os homens de cor. Por meio de atividades esportivas,
viagens e de concursos de beleza eles criaram e fortaleceram laços de solidariedade que foram
fundamentais para forjar uma mobilização coletiva pela “defesa da raça/classe e contra o
preconceito de cor”.

5.1 O futebol dos homens de cor


A historiografia do futebol sugere que jogadores negros foram incorporados aos
times na década de 1920, quando as ligas amadoras se tornaram mais competitivas e os clubes

1
MORAES, Gervásio de. “Antes Assim VI”. Getulino, 21 set. 1924, p. 1.
2
Ver capítulo 2.
196

passaram a pagar seus atletas, por meio de um tipo de cachê ou oferecendo empregos
vinculados a algum diretor, que os liberava na hora do expediente para treinar e jogar . Esse
fenômeno era chamado pela imprensa paulistana de “falso amadorismo”. No Campeonato
Paulista, desde a década de 1910, alguns times atraíram jogadores de várzea em um momento
em que o esporte já era popular em bairros operários ou mais pobres. Além da capacidade
técnica, que aumentava as chances de vitória, os atletas varzeanos ofereciam sua popularidade
às associações esportivas, que esperavam atrair público e arrecadar mais com a venda de
ingressos3. Nos campos de várzeas havia times de negros pelo menos desde 1909, quando
certos jogadores negros já eram populares, de acordo com os jornais de grande circulação, e
chamavam a atenção de clubes maiores. No entanto, eles eram impedidos de participar do
Campeonato Paulista.
De acordo com Celso Unzelte, o “Sport Club Corinthians Paulista” tentou escalar
um jogador negro chamado David, ainda na década de 1910, mas sua inscrição foi negada
pela “Liga Paulista de Futebol (LPF)”4. Ele era conhecido na época com um “extraordinário
centromédio”5. Em 1919, essa equipe, que tinha fortes laços com o operariado e as classes
pobres da capital paulista, colocou para jogar Asdrúbal Cunha, o Bingo, seu primeiro jogador
negro de fato. No entanto, sua atuação foi curta, por conta de animosidades com outro atleta
do time6. Tatu foi o futebolista negro corintiano mais longevo antes da profissionalização. Ele
foi incorporado ao quadro do Corinthians em 1921. Seu nome era Altino Marcondes e, para o
historiador João Paulo França Streapco, “definir se Altino Marcondes era negro é por si só um
problema sério. Para muitos, não era negro, talvez moreno, talvez mulato, mestiço... O fato é
que, por toda a década de 1920, Tatu foi o único jogador não branco a atuar pela equipe
corintiana”7.
Ao que tudo indica, não se desejava a presença de jogadores pretos retintos, mas
mulatos, pardos e/ou mestiços com tons de pele mais claros conseguiam jogar na liga amadora
da capital. Em depoimento a Antônio Gonçalves, o ex-jogador, colega de clube de Tatu e,

3
Ver RODRIGUES FILHO, Mário. O Negro no Futebol Brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2010; MAZZONI,
Thomaz. História do Futebol no Brasil, 1894-1950. São Paulo: Leia, 1950; CALDAS, Waldenyr. O Pontapé
Inicial: memória do futebol brasileiro 1894-1933. São Paulo: IIBRASA, 1990; STREAPCO, João Paulo França.
“Cego é Aquele que só Vê a Bola”: O futebol em São Paulo e a formação das principais equipes paulistanas: S.
C. Corinthians Paulista, S. E. Palmeiras e São Paulo F. C. (1894-1942). Dissertação de Mestrado, USP,
Departamento de História: São Paulo, 2011; FRANZINI; Fábio. Raízes do País do Futebol: Estudo sobre a
relação entre futebol e nacionalidade brasileira (1919-1950). Dissertação de Mestrado, USP, Departamento de
História: São Paulo, 2000; UNZELTE, Celso Dário. Almanaque do Timão. São Paulo: editora Abril, 2000.
4
UNZELTE, Celso Dário. Almanaque do Timão op. cit. p. 641
5
MAZZONI, Thomaz. História do Futebol no Brasil, 1894-1950 op. cit. p. 119.
6
UNZELTE, Celso Dário. Almanaque do Timão op. cit. p. 641
7
Idem. p. 172.
197

então, artista plástico Francisco Rebolo dizia que era “um absurdo, mas existia mesmo essa
interdição. Os times de elite não admitiam a entrada de jogadores negros”, por isso ele podia
assegurar que não jogou com “preto e nem contra pretos nos jogos da liga”. Ele “só tinha
colegas negros na várzea” 8.
Um dos principais jogadores do início do século também era mulato, Arthur
Friedenreich, conhecido por seu sobrenome ou por El Tigre. Ele começou atuando pelo
“Esporte Clube Germânia” em 1909 e jogou por diversas equipes da capital, inclusive o
“Paulistano”, um clube de elite, em 1914, 1916 e entre 1918 e 1929. Foi também jogador do
“Clube Atlético Santista” e do “Santos Futebol Clube”. Na década de 1930, atuou pelo
“Atlético Mineiro”, em 1933, e pelo “Clube de Regatas Flamengo”, em 1935. Ficou
conhecido internacionalmente por jogar na Seleção Brasileira, em especial no campeonato
Sul-Americano de 1919, quando fez o gol que deu o primeiro título ao país9. Desde 1927, as
associações promotoras do campeonato paulista passaram a organizar um amistoso, nos dias
13 de maio, entre selecionados de pretos contra brancos; Friedenreich sempre atuou pelo
selecionado de jogadores brancos10. Para Renê Duarte, é “bem provavelmente o fato de ser
mestiço também deve ter pesado nessa inadequação de Fried ao Germânia”, sua hipótese está
sustentada no fato de que o jogador teve que lidar com atitudes preconceituosas no início de
sua carreira desde a várzea isso teria pesado, de acordo com relatos de amigos11.
Possivelmente, no caso de mulatos talentosos como Friedenreich e Tatu, a
ascendência africana era atenuada, ao ponto de o primeiro jogar no time dos brancos.
Algumas vezes, a barreira de cor podia ser superada pelas habilidades. Em todo caso, não é
simples definir a situação dos mulatos nesse contexto de interdição e, também, definir com
precisão quais jogadores eram identificados como negros. João Paulo França Streapco indica
que, embora no período o mulato não fosse considerado negro, o “S. C. Corinthians Paulista”
foi um dos primeiros times a ter jogadores negros em grande quantidade no Campeonato
Paulista, a partir da década de 1930. Antes disso, a equipe era formada majoritariamente por
brancos, principalmente de ascendência italiana12.

8
O testemunho demonstra que negro era sinônimo de preto e não era um termo que abarcava todas as pessoas de
cor, como nos dias de hoje. GONÇALVES, Antônio. “A Imagem da Capa”. In RODRIGUES FILHO, Mário. O
Negro no Futebol Brasileiro. 5. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2010, Fascículo sem numeração da página.
9
RODRIGUES FILHO, Mário. O Negro no Futebol Brasileiro op. cit.
10
STORTI, Valmir; FONTENELLE, André. A História do Campeonato Paulista: 1902—1996. São Paulo:
PubliFolha, 1997. Fascículo sem numeração de página.
11
Idem. p. 57.
12
STREAPCO, João Paulo França. “Cego é Aquele que só Vê a Bola” op. cit.
198

O pioneirismo corintiano talvez se restrinja à presença em larga escala de pretos


no campeonato organizado pela “Associação Paulista de Esporte Amador (APEA)”. Em 1926,
houve uma cisão entre clubes e a “APEA”, e o “Paulistano” fundou a “Liga Amadora de
Futebol (LAF)” que organizou, por três anos, outro torneio, também considerado como
Campeonato Paulista para as estatísticas. A “LAF” realizava um amistoso entre times de preto
e de brancos como parte da celebração de 13 de maio, a partir das escalações é possível
verificar que havia pretos disputando sua divisão principal. Em 1927, O “São Bento” cedeu
três jogadores; o “Sport Clube Internacional”, dois atletas; enquanto “Atlético Santista” e
“Antártica” enviou um representante13. Em Campinas, a interdição precisa ser vista com
cautela. A “Associação Atlética Ponte Preta”, o segundo time de futebol mais antigo do Brasil
ainda em atividade, tem, desde sua fundação, atletas e diretores negros.
Assim como o alvinegro paulistano, a associação campineira tem fortes laços com
o operariado e com as classes pobres. Fundada no aniversário de 28 anos da inauguração da
ferrovia que ligava Campinas a Jundiaí, no dia 11 de agosto de 1900, por um grupo de
ferroviários que morava às margens dos trilhos, na antiga rua Ponte Preta (atual Abolição) 14,
esta agremiação teve entre seus fundadores um jovem negro chamado Miguel do Carmo. Ele
atuou como jogador e diretor entre 1900 e 1904, quando retornou a Jundiaí, transferido pela
Companhia Paulista, onde trabalhava como fiscal de linha15. De acordo com José Moraes dos
Santos Neto, em 1908 havia “um contador negro” atuando na associação, chamado Benedito
Aranha16. Na foto oficial após o título de 1912 é possível notar a presença de pretos e mulatos.

13
“Preto x Branco”. A Gazeta, 10 mai. 1927, p. 6. STORTI, Valmir; FONTENELLE, André. A História do
Campeonato Paulista: op. cit.
14
ROSSI, Sergio. História da Associação Atlética Ponte Preta. Campinas, SP: R. Vieira Gráfica e Editora Ltda,
1989, pp. 64-78. O autor aponta que em seus primeiros anos, sua sede mudou algumas vezes, sempre nesta
mesma rua e para casas de algum associado.
15
SANTOS NETO, José Moraes dos. O Início de uma Paixão: a fundação e os primeiros anos da Associação
Atlética Ponte Preta. Campinas, SP: Editora Komedi, 2000.
16
LOURENÇO, Leonardo. “Ponte Preta – Clube quer ser reconhecido por colar em campo o primeiro negro do
futebol brasileiro”. Folha de São Paulo, 12 dez. 2010. (disponível em
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk1212201018.htm, acessado em 08 jul. 2019).
199

Figura 16. Miguel do Carmo Figura 17. Jogadores da A. A. Ponte Preta, de 1912.
SANTOS NETO, José Moraes dos. O Início de uma Paixão op. cit. pp 48 e 54

A entidade mantinha uma estreita relação com os homens de cor. Em 19 de agosto


de 1923, o Getulino deu uma nota sobre o aniversário de José Gomes Moreira, que jogava
pelo time17. Neste mesmo número, se noticiava ainda a festa do 23º aniversário do time da “A.
A. Ponte Preta” e também “a inauguração oficial de sua sede social”, neste evento Benedito
Florêncio foi o orador oficial18. Além disso, a diretoria da associação concedeu ao jornal
entradas grátis “permanentes para os seus jogos”19. E, desde 1927, a “A. A Ponte Preta” cedia
jogadores aos combinados de pretos da “LAF”20.
A presença de pessoas negras no time de futebol e na direção da associação desde
os primórdios talvez tenha facilitado sua aproximação com o Getulino e a comunidade negra
campineira. No entanto, esse jornal nunca tratou a “A. A. Ponte Preta” como uma associação
de homens de cor, ou seja, nunca a considerou como sendo formada por pessoas de cor. É
provável que ela tenha funcionado como algumas sociedades mutualistas que contavam com a
participação de negros, que se pautavam pela identidade de trabalhadores e permitiram, por
isso, que eles ocupassem cargos de direção, como aconteceu com Armando Gomes, que fez
parte da diretoria da “Sociedade Humanitária Operária” e de outras sociedades de homens de
cor21.
A composição racial, o local onde estava estabelecida e as conquistas da “A. A.
Ponte Preta” fizeram com que ela ganhasse a simpatia das populações negras. O Getulino
dava mais informações sobre as partidas desta equipe do que as de outra agremiação da
cidade, como o “Guarani Futebol Clube”, por exemplo. Vitório Luis Oliveira Zago aponta que
o “Guarani F. C” foi fundado em 1911 “por, na maioria, jovens estudantes, descendentes de

17
“Aniversários”. Getulino, 13 ago. 1923, p. 2.
18
“Vida Esportiva”. Getulino, 13 ago. 1923, p. 2.
19
“Vida Esportiva – Ponte Preta”. Getulino, 28 out. 1923, p. 3.
20
“Preto x Branco”. A Gazeta, 10 mai. 1927, p. 6; O Progresso, 07 set. 1928, p. 4; “O 13 de Maio Futebolístico
– Brancos 2 x Pretos 2”. A Gazeta, 14 mai. 1929, p. 7.
21
Ver capítulo 2.
200

italianos, e embora não pertencessem à elite de Campinas, eram ligados às camadas mais
privilegiadas da sociedade campineira”22. Logo nos primeiros anos os dois times se tornaram
nas principais forças da cidade, “Ponte Preta” e “Guarani” eram praticamente opostos, um do
povo, e outro elitizado.
A “A. A. Ponte Preta” fez parte do grupo de times que fundou a “Liga Operária de
Futebol”, em 1912, considerada a primeira competição municipal, e depois, em 1915, esteve
entre as entidades que estabeleceram a “Associação Campineira de Futebol”. Não parece ter
havido qualquer tipo de interdição aos jogadores pretos pelas entidades organizadoras de
torneios da cidade e, por isso, é possível que eles estivessem espalhados em outros times antes
da profissionalização, na década de 1930. Estudos mais aprofundados sobre a presença de
jogadores negros nos times paulistas, interior e capital, permitirão entender se a história da
“A. A Ponte Preta” é uma excepcionalidade ou se a interdição se limitou aos times
paulistanos. É certo que havia pretos jogando a divisão principal do Campeonato Paulista
organizado pela LAF antes da década de 1930 e que, nesse mesmo período, equipes
identificadas como de homens de cor disputaram campeonatos municipais em São Carlos,
Campinas e Piracicaba.
Apesar de Cléber da Silva Maciel ter afirmado que houve uma partida entre
combinados de pretos e brancos na celebração de 13 de maio de 1915, não foram encontradas
mais informações sobre esse jogo e a formação de um time chamado “Black Team”. Naquele
ano, houve um selecionado chamado “Campinas Black Team” que disputou partidas
amistosas e, em janeiro do ano seguinte, oficializou seus estatutos, quando tomou posse a sua
primeira diretoria e passou a disputar os torneios da cidade23. Durante seus seis anos de
existência, em nenhum momento os jornais o caracterizaram como sendo formado por
homens de cor e a foto do elenco não mostra pessoas negras24. Por isso, em Campinas, a
análise ficará concentrada na experiência do “Sport Club José do Patrocínio”, braço esportivo
de um grêmio recreativo dançante de mesmo nome, que reconhecidamente era uma
associação de homens de cor.
Segundo Vitório Luís Zago, entre 1921 e 1934 não houve um campeonato na
cidade, mas em 1923 havia o Campeonato do Interior, uma divisão do Campeonato Paulista

22
ZAGO, Vitório Luís Oliveira. Futebol em Campinas: a história e evolução do dérbi campineiro na sociedade
e imprensa de Campinas. Dissertação de Mestrado, UNICAMP, Instituto de Artes, Campinas, SP: 2002. p. 75.
23
“Campinas”. Correio Paulistano. 13 jan. 1916, p. 4.
24
SANTOS NETO, José Moraes dos. O Início de uma Paixão op. cit. p. 95.
201

da “APEA”, em que os times campineiros jogavam a zona “Paulista”25. Naquele ano, seis
equipes locais e o “Voluntários F. C.”, de Cosmópolis, organizaram um torneio, chamado de
“Liga Municipal” pelo Getulino. O “S. C. José do Patrocínio” disputou essa competição, que
ofereceu “tardes alegres para os que amam o esporte bretão” quando “o futebol em Campinas
já estava em decadência”. Seu sistema era colaborativo, segundo o qual a direção “obedec[ia]
aos sete clubes disputantes” e “todos trabalha[va]m para que o esporte nesta terra volt[asse] a
sua antiga animação”. Mais do que lazer, a formação e a gestão da liga ofereceriam um
ensinamento aos homens de cor, de acordo com o periódico negro. Se eles a tomassem como
exemplo, perceberiam que era “necessário o esforço de todos para o levantamento dos nossos
sentimentos”; a vontade era “o bastante para que a organização de nossa cor sempre tenha
elementos ao seu lado”26. Por diversas vezes, o Getulino relatou divergências derivadas de
vaidades entre os dirigentes das associações de homens de cor, por isso repetidamente
clamava pela unidade e, sempre que possível, apresentava um modelo de sucesso baseado na
união - a gestão da liga era mais um caso.
Pode-se afirmar que a Imprensa Negra como um todo, até a primeira metade do
século XX, compreendia que os problemas das populações negras deveriam ser solucionados
por elas mesmas. Nesse contexto, os dirigentes de associações e jornais encaravam como um
dever cívico, ou melhor, “patriótico”, como diziam na época, promover eventos que
permitissem agrupar, discutir e criar ações para a elevação social e moral. O futebol tinha
potencial para isso. As lideranças negras tentavam atrair mais pessoas de cor para a “defesa da
classe/raça” com os jogos dos times de homens de cor. Em 1923, o Getulino chamava seus
leitores para apoiar o “S. C. José do Patrocínio”, especialmente as mulheres, que poderiam
emprestar sua beleza e eram “indispensável[is] porque traz[em] o encanto, a sedução e
encorajam os nossos companheiros”. Deveriam ir “sem distinção” por não pagarem entrada,
“bastando a vossa beleza para atrair àquele logradouro admiradores seus e dos teams em
disputa”. O Getulino finalizava pedindo: “ide senhorinhas, dar valor aos seus irmãos de cor
que eles vos agradecerão”27. Talvez para atrair as mulheres para as arquibancadas, anunciava-
se que o time faria uma homenagem às vencedoras do concurso de beleza organizado pelo
periódico na ocasião. Certo é que o jornal resolveu retribuir a gentileza e oferecer uma taça

25
ZAGO, Vitório Luís. Futebol em Campinas op. cit. p. 112.
26
LUX Júnior. “Vida Esportiva – Futebol”. Getulino, 21 out. 1923, p. 5.
27
Idem.
202

com seu nome ao vencedor da disputa, que também era válida pelo campeonato da cidade28. A
atitude dos dois órgãos negros reforçava os laços entre as associações de homens cor.
As mulheres negras não aparecem no Getulino em posições de liderança. Elas não
são citadas como diretoras de associações de homens de cor, nem nos textos históricos sobre o
escravismo e o abolicionismo, como lutadoras em prol da liberdade. Geralmente, aparecem na
condição de filhas, esposas e mães de homens com alguma importância no meio negro; elas
também eram musas de poetas e contos, e convidadas a abrilhantar as festas. Os articulistas da
folha reconheciam terem sido elas vítimas da escravidão e do racismo, neste caso até de forma
mais violenta que os homens negros porque preteridas em empregos e alvos da perseguição
policial e da violência sexual. Em outras ocasiões, elas também eram apresentadas como
trabalhadoras, como donas de casa ou ocupando empregos externos. Contudo, suas páginas
não tratam sobre as formas de atuação femininas. Sabe-se que no “Grêmio Recreativo
Dançante Familiar José do Patrocínio” havia um quadro de damas, responsáveis por eventos
específicos e com alguma atribuição na diretoria geral. Desta forma, os lugares em que as
mulheres negras aparecem no Getulino não eram, necessariamente, os únicos ocupados por
elas.
Lívia Maria Tiede fez uma importante reflexão sobre algumas interpretações
consolidadas sobre a Imprensa Negra paulistana e a ausência de muitos de seus exemplares.
Paulina L. Alberto e Petrônio Domingues afirmam que as mulheres eram excluídas dos
jornais negros, enquanto Tiede apresenta uma edição d’O Menelick de janeiro de 1916
anunciando “que seu próximo número seria dedicado aos textos femininos”, porém o número
não está conservado na série Jornais da Raça, por isso pergunta se a exclusão era verdadeira
ou se “a inexistência do periódico que refutaria essa ideia é que leva os pesquisadores a
acreditar que eles [jornais] assim procediam?”29. Desta forma, é possível que outros
documentos, que não estão mais a disposição para pesquisas, revelassem as ações das
mulheres de cor em suas associações e na conjuntura de luta contra o racismo.
Além de agregador, o futebol dava aos homens de cor a oportunidade de mostrar
sua capacidade em disputas em condições supostamente iguais aos brancos. Por isso, ao
relatarem os embates, valorizavam as vitórias e minimizavam as derrotas tentando apresentar
sempre a ideia de que eram capazes de vencer. No duelo pela Taça Getulino, por exemplo, o

28
“S. C. José do Patrocínio”. Getulino, 21 out. 1923, p. 5.
29
TIEDE, Lívia Maria. “Os homens de cor invisíveis da imprensa negra paulistana: como a biografia de um
intelectual negro nascido no século dezenove auxilia a repensar a historiografia do pós-abolição paulistano”.
Intellèctus (UERJ), v. 17, p. 48-72, 2018, p. 54.
203

“S. C. José do Patrocínio” enfrentou o “Fluminense Futebol Clube” – esse nome era uma
homenagem ao time do Rio de Janeiro –, o Getulino somente informou que os homens de cor
venceram o embate entre os segundos quadros, uma espécie de time de aspirantes que
costumava se enfrentar antes da partida principal. A derrota do quadro principal foi narrada
como se os homens de cor tivessem sido melhores que seus adversários.
Assim, “desde o início da luta ficou notória a supremacia do Patrocínio”, que
“conseguiu dominar seu forte antagonista”. Este “organizava umas escapadas isoladas e em
uma dessas vitórias, com espanto geral, conseguiu o primeiro e único ponto”. No segundo
tempo, “os rapazes do Patrocínio entraram dispostos a anularem a vantagem do adversário”,
mas, além do “Fluminense, eles enfrentavam a sorte, que lhe foi inteiramente madrasta”. Para
o jornal, “só mesmo a falta de sorte justifica[va] a derrota do quadro alviverde” porque “o
jogo foi todo disputado no campo Fluminense, uma infinidade de tiros foi perdida por cima e
pelos lados do gol, e outros magnificamente defendidos pelo hábil goalkepper[goleiro]”, sem
contar as bolas que bateram nas traves. “Estava escrito que o Patrocínio tinha que perder”30.
A Taça Getulino foi entregue pela vencedora do concurso de beleza, a senhorinha
Laís de Moraes, “depois de um mimoso discurso do sr. Gervásio de Moraes”. Também
discursaram um representante do time negro, Luiz Teixeira, e outro do jornal. Este enalteceu o
periódico, dizendo que ele era lido e conhecido em todo país e que, “longe de perecer ou, ao
menos, atrofiar, ele tem progredido sensivelmente”, portanto era “inútil, contraproducente” a
“guerra surda, maligna, movida ao Getulino”31. Sua fala poderia ser mais uma retórica sobre a
vaidade que impedia a união dos homens de cor, que acabava fazendo com que as associações
e seus dirigentes não fizessem ações conjuntas; ele colocava seu jornal como uma organização
consolidada que, apesar de ter meses de atividade, não sucumbiria facilmente por causa de
intrigas. É possível, também, que estivesse mandando um recado aos membros da
“Associação Protetora dos Brasileiros Pretos”, com quem os articulistas do Getulino
rivalizaram sobre os rumos do combate ao racismo.
Na avaliação dos colaboradores do periódico, a verdadeira vitória no embate pela
Taça Getulino fora a “festa de cordialidade que se realizava, na qual se viam brancos e pretos
comungar dos mesmos princípios”32. Novamente o discurso da fraternidade se fazia presente.
Apesar de apresentar os times negros com qualidades melhores que seus adversários, os
homens de cor refutavam a ideia de hierarquia racial e de que eram naturalmente melhores

30
“Concurso de Beleza”. Getulino, 04 nov. 1923, pp. 1-2.
31
Idem.
32
Idem.
204

que os brancos; ao contrário, preferiam valorizar a igualdade proporcionada pelo esporte. A


“defesa da classe/raça” era feita, acima de tudo, em busca da igualdade de condições e
tratamento com os brancos. Nos comentários sobre os jogos, pode-se ver que os colaboradores
mais do que torciam pelo time, eles tentavam associar os acontecimentos no campo com
valores positivos.
Em Piracicaba, a situação era a mesma que em Campinas. Em 1929, o “28 de
Setembro Futebol Clube” participou do campeonato municipal e, em junho, teve sua partida
contra o “São João Futebol Clube” noticiada pelo O Patrocínio. Logo de saída, a equipe de
homens de cor teria se lançado ao ataque, mantendo-se por lá “por algum tempo, sendo
interrompido por pequenas investidas da linha contrária”, que resultou no gol do “São João F.
C.”. Depois disso, os homens de cor foram dominados e “os setembrinos mostraram-se um
tanto desaminados” no restante do primeiro tempo. A reação veio após o descanso
regulamentar. “Animados pela assistência [torcida]”, os jogadores do “28 ataca[ra]m com
mais impetuosidade e numa bem feita combinação invest[ira]m na defesa contrária”; o gol
saiu após uma confusão na área. Eles permaneceram no ataque até o final, chegaram a marcar
mais um gol, que foi anulado por impedimento. E o jogo acabou empatado em 1 a 1. Para o
jornal, “o juiz, o jovem esportista Hans Rheder (…) atuou um tanto indeciso, pois deixou
passar várias faltas”. No embate entre os “segundos quadros, o 28 perdeu apenas por 6 a 0”33.
Em outra ocasião, O Patrocínio descreveu as derrotas dos dois quadros do “28 de
Setembro” para a “A. A. Macaembú”, em Dois Córregos, afirmando que os jogos “não foram
totalmente falhos, pouco deixaram a desejar, pois primou-se pela violência dos locais”. De
acordo com o periódico, mesmo perdendo por dois gols no primeiro tempo, os piracicabanos
voltaram ao campo “com vontade de pelo menos empatar a partida”, o que não conseguiram
graças “ao jogo um tanto pesado”, por conta da violência do time local, e à “parcialidade ou
cegueira do juiz”, que inclusive teria validado um gol “marcado por um jogador que estava
visivelmente impedido” 34.
E assim seguiam as narrativas dos times de homens de cor na Imprensa Negra,
apresentando os bons valores de seus homens, não só para a prática do futebol, mas,
principalmente, para a boa conduta. “Vontade” era um termo muito usado para descrever a
atuação dessas equipes, algo que elas sempre tiveram quando em desvantagem no placar.
Também diziam que era preciso ter vontade para unir os negros em busca de igualdade,

33
“Esportes”. O Patrocínio, 7 jul. 1929, p. 4.
34
“Futebol – O 28 de Setembro em Dois Córregos”. O Patrocínio, 20 out. 1929, p. 6.
205

superação do racismo e melhores condições de vida. Os jogadores negros também eram


usados como exemplos iguais aos estudantes, docentes, chefes de famílias e trabalhadores
bem-sucedidos, como os apresentados no primeiro capítulo. Na verdade, no caso dos atletas
ainda há uma particularidade: os jornais negros não costumavam citar seus nomes e nem dar a
responsabilidade da vitória a um ou a alguns jogadores. Era o time que ganhava, era o time
que fazia as jogadas, era o time que se sentia desanimado e recuperava os ânimos para tentar
empatar, era o time que tinha vontade. As equipes de futebol davam um exemplo de
coletividade e do sucesso que os negros poderiam alcançar se agissem coletivamente.
Entre as exaltações das conquistas obtidas, o título da Divisão Municipal da Copa
do Centenário da Independência do Brasil, em 1922, pela “Associação Atlética São Geraldo”
foi a que mais se destacou. Fundada em novembro de 1917, com a intenção de promover
partidas de futebol e as práticas de atletismo35, essa associação não formou o primeiro time de
homens de cor, nem foi o único da capital paulista enquanto esteve em atividade. De acordo
com A Gazeta Esportiva, na primeira década do século XX, havia uma liga de várzea com ao
menos quatro times negros36, e ao longo da década de 1920, teve mais de uma dezena de
outros times de homens de cor. Alguns deles disputaram também os campeonatos organizados
pela “APEA” e/ou pela “LAF”. O “São Geraldo” e o “C. A. Brasil” eram vistos como “os
mais aguerridos rivais da divisão intermediária da LAF”, de acordo com o Correio
Paulistano37. E, para o Auriverde, eram “dois bicudos”, porque eram formados por elementos
de cor38.
A “A. A. São Geraldo” surgiu no bairro da Barra Funda e era formado por
frequentadores da Alameda Glette, onde se realizava “rodas de samba, jogos de pernada,
umbigada e tiririca (espécie de capoeira)” e brincava-se o carnaval nos três primeiros cordões
da cidade, “Barra Funda”, “Campos Elíseos” e “Flor da Mocidade”39. A associação atlética,
inclusive, fundou seu próprio cordão em 1918, chamado “Geraldino”. Para Ieda de Britto, os
conhecidos “negros da Glette” eram respeitados pela sua força física, por isso receberam o
apelido de “valentes da Barra Funda”, também sofreriam discriminações de outros negros por
serem mais pobres, já que eram, basicamente, trabalhadores braçais que prestavam serviços

35
O Progresso, 23 jun. 1928.
36
“Uma Visita aos Quadros de Cor – Os Quadros atuais e Antigos Constituídos Exclusivamente por Jogadores
Pretos – A Curiosa Fundação do E. C. Piracicabano”. A Gazeta Esportiva, 22 jun. 1930, p. 8.
37
“C. A. Brasil”. Correio Paulistano, 27 jun. 1928, p. 7.
38
“S. Geraldo x Brasil”. Auriverde, 29 mar. 1928, p. 3.
39
DOMINGUES, Petrônio. “O ‘campeão do Centenário’: raça e nação no futebol paulista”. História Unisinos, v.
19, p. 368-376, 2015, p. 370.
206

pesados como carregadores e ensacadores. Nas festas do “Cordão da Barra Funda”, eles não
podiam entrar, de acordo com Dionísio Barbosa, seu fundador, que também chamava os
membros do “São Geraldo” de “nego de pinga”40.
Paulino de Jesus Francisco Cardoso afirma que o time foi “durante anos
marginalizado pelas associações negras, [porque] sempre teve sua imagem vinculada aos
violentos Negros da Glette”, mas que na década de 1920 foi incorporado à “comunidade de
letrados”, sendo homenageado em festas de outras associações negras paulistanas41. Os
comentários da Imprensa Negra paulistana indicam que circular pela alameda Glette era algo
difamante, aponta Lívia Maria Tiede, que também levantou dados sobre os locais de moradia
de famílias de cor nos jornais negros e descobriu que “esse local é a terceira maior menção”.
Seu estudo comprova que, caso tenha existido, a exclusão dos “negros da Glette”, e de outros
“negros desclassificados”, por parte de dirigentes de sociedades e de jornais não foi física,
pois eles conviviam nos mesmos bairros. As reclamações da má conduta dos “negros
desclassificados”, talvez, chegassem até eles e, por isso, eram feitas constantemente 42. Cabe
aqui mencionar que Deocleciano Nascimento, poeta, articulista, membro de algumas
associações e um exemplo de homem de cor43, foi um dos dirigentes da “A. A. São Geraldo”
no início dos anos de 1920, o que reforça a tese de Tiede que havia interação entre os dois
grupos de negros.
Saber precisamente quando o time do “São Geraldo” foi introduzido ao rol de
associações de homens de cor, se é que de fato em algum momento não esteve nele incluído,
parece impossível, mesmo com os testemunhos que desqualificam seus sócios. As fontes
jornalísticas até os anos 1930 indicam que grupos carnavalescos e times de futebol não
sofriam as mesmas pressões que as sociedades de cunho recreativo, dançante, dramático,
beneficente, mutualista, instrutivo e cívico para criar ações em prol da elevação da
classe/raça; ou seja, a elas não se pediam atividades instrutivas e nem de auxílio mútuo aos
sócios. Isso pode significar que eram formados por grupos diferentes ou que as entendiam
como espaços voltados somente para recreação, entretanto foram usados para comprovar a

40
BRITTO, Iêda M. Samba na cidade de São Paulo (1900-1930) op. cit. pp. 100-101. Sobre o depoimento de
Dionísio Barbosa, ver página 69.
41
CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco. A Luta contra a Apatia op. cit. p.116.
42
TIEDE Lívia Maria. Sob Suspeita: op. cit. p. 57.
43
Ver capítulo 1.
207

capacidade negra44. E, neste sentido, o “caso mais interessante e do qual [se] possui mais
registro é o do Clube São Geraldo”45.
Em 1922, o time estava filiado a “APEA”, disputou e foi campeão da Divisão
Municipal de futebol, destinada aos times de várzea e que estava três divisões abaixo da
Divisão Principal. Entretanto, naquele ano o certame também comemorou o centenário da
independência brasileira, por isso o título do Campeonato Paulista era a Taça do Centenário
da Independência. Em diversos momentos, a imprensa negra ignorou a existência de divisões
e que o “S. C. Corinthians Paulista” era vencedor entre os times considerados mais fortes;
chamava a “A. A. São Geraldo” de campeã do centenário. Em 1923, ano em que acabou a
primeira divisão do Campeonato Paulista46, uma comitiva de Campinas visitou a cidade de
São Paulo e algumas de suas associações de homens de cor. A sede do São Geraldo foi uma
das paradas dos campineiros, onde foram “gentilmente recebidos pelos diretores desse clube
esportivo de homens pretos, vencedor do Campeonato da 2ª divisão e conquistador do prêmio
municipal Taça do Centenário de 1922”47. Assim, noticiava-se que aquela associação
esportiva vencera um módulo inferior do Campeonato Paulista, mas essa menção sumiu em
jornais negros posteriores.
Em junho de 1928, o time alcançou o primeiro lugar do Campeonato da Primeira
Intermediária da “LAF” e o jornal negro paulistano Progresso publicou que a esquadra
confirmava, “assim, o justo nome de Campeão do Centenário”48. No ano seguinte, celebrou a
participação do time neste torneio com um artigo intitulado “Campeão do Centenário”, em
que fez um breve histórico de seu grande título. No texto dizia que a equipe era “no violento
esporte bretão, uma das agremiações mais respeitadas de São Paulo”, que “seus embates, em
tempos no Pacaembu (fim da rua Tupy), marcaram tardes que acordam recordações que os
anos não conseguem fazer esquecer”. Uma delas era a “história das festas com que se
comemorou, esportivamente, os 100 anos da nossa emancipação política”, quando “o clube
que bem representa os pretos da capital e do Estado de São Paulo (…) conquistou o disputado
título de Campeão do Centenário”. Para o jornal, Deus parecia “que escolhe[ra] a camisa
alvinegra para dar-lhes essa honrosa designação, evidenciando, deste modo, o quanto aos
pretos o Brasil deve a sua Independência”49.

44
LUCINDO, Willian Robson Soares. Educação no Pós-Abolição... op. cit.
45
CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco. A Luta contra a Apatia op. cit. p. 116.
46
STORTI, Valmir; FONTENELLE, André. A História do Campeonato Paulista op. cit.
47
“Concurso de Beleza”. Getulino, 23 dez. 1923, pp. 2-3.
48
“Esportes”. Progresso, 23 jun. 1928, p. 5.
49
“Esporte – Campeão do Centenário”. Progresso, 28 jul. 1929, p. 5.
208

Aqui há mais uma vez ideia de que as populações negras haviam sido
responsáveis pelas riquezas do país, colaborando, mesmo enquanto escravas, para o
engrandecimento da nação. Como apontado em diferentes capítulos desta tese, os homens de
cor se valiam de discursos que apelavam para sentimentos nacionalistas com a finalidade de
superar sua exclusão social. Assim, sempre que possível, evidenciaram a importância dos
negros na história brasileira, com a intenção de constranger aqueles que os preteriam em
relação aos imigrantes e/ou não os viam como iguais.
Outro ponto que chama a atenção é a afirmação de que o clube representaria bem
os pretos, algo bem diferente da visão que se tinha dos negros da Glette. Paulino de Jesus
Francisco Cardoso argumenta que possivelmente a equipe “São Geraldo” se adequou às
normas de conduta “dos negros letrados” quando foi aceita pela “APEA”, afastando-se das
práticas de violência50. Entretanto, Geraldo Filme também deixou um depoimento, parecido
com seu colega Dionísio Barbosa, que permite questionar se a violência fora de fato
abandonada por seus jogadores. Para o sambista nascido em 1927, o time conseguiu disputar
algumas competições porque em determinado momento um chefe de polícia atuava como seu
presidente, garantindo que ele não fosse punido, porque “o pessoal ia jogar lá no campo do
São Geraldo, e o São Geraldo ganhava na bola, ganhava no pau e o chefe da polícia dizia o
presidente do clube sou eu, então tá tudo limpo e...(risos)”51. Ainda, ao longo da década de
1920, algumas equipes acusaram a APEA de permitir o jogo violento, entendido muitas vezes
como consequência da entrada de times operários. O “Paulistano”, em 1922, propôs, sem
sucesso, regras mais rigorosas para coibir a violência, desde a agressão física até a injúria52.
Pode ser que a “A. A São Geraldo” não tenha deixado de lado “seu velho código
de ética” pautado na violência, ou que a imagem de violentos tenha persistido apesar da
mudança comportamental. No caso do depoimento de Dionísio Barbosa, é possível, ainda,
que ele tenha tentado desqualificar um grupo que poderia ser rival. De toda forma, pode-se
perceber que a Imprensa Negra paulistana sofreu alterações no modo de conduzir a “defesa da
classe/raça” em meados dos anos de 1920. A ideia de que a apatia era a principal responsável
pela condição subalterna dos negros e de que se devia buscar respeitabilidade através das
vestimentas foi perdendo força, abrindo espaço para denúncias abertas de práticas
discriminatórias e para a valorização da instrução, que passou a ser considerada o único meio
para a melhoria de vida. Ela também passou a exaltar feitos positivos vinculados aos negros,

50
CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco. A Luta contra a Apatia op. cit. p. 118.
51
FILME, Geraldo. op. cit.
52
STORTI, Valmir; FONTENELLE, André. A História do Campeonato Paulista op. cit.
209

independentemente de seu engajamento com a luta contra discriminação e sucesso via


educação. O grupo de homens de cor que ganhou notoriedade na década de 1920 na cidade de
São Paulo se esforçou em construir narrativas que pudessem elevar a autoestima dos negros. É
neste ponto que a “A. A. São Geraldo” entrava em seus discursos.
Petrônio Domingues afirma que a “conquista da ‘taça’ do Centenário foi,
realmente, vista pelos afro-paulistas como uma grande proeza, que os enchia de orgulho
racial”. Suas vitórias teriam sido usadas para dar uma visibilidade positiva às populações
negras, eram uma espécie de atestado de valor, que não se limitava ao esporte. “Denotando
um sentido cívico-político, o esporte bretão era, neste caso, apropriado para celebrar a “raça”
e a “nação”, combinadamente”53. Em 1934, Deocleciano Nascimento “narrou” como teria
sido a final desta copa no periódico A Voz da Raça, enfatizando o duelo entre um time
composto “somente de elementos de cor” e outro “formado por brancos”, o “Flor do Belém”,
que era o favorito. Assim como no caso dos articulistas piracicabanos e campineiros, seu
relato é coberto de valores que transcendem o campo de futebol. Antes do início do jogo, seus
jogadores “viram a grande responsabilidade” que tinham, mesmo assim, “em cada fisionomia,
notava-se um ar de esperança”, mas seu rival marcou por duas vezes no primeiro tempo,
enquanto eles “produziram pouco ou quase nada”. Na volta do intervalo, o “Flor do Belém”
sucumbiu “diante da formidável pressão dos negros”, que venceram por 3 a 254.
Outra conquista importante do alvinegro da Barra Funda foi o título de sua
divisão, em 1929. De acordo com O Clarim d’Alvorada, graças àquele campeonato “foi um
ano de orgulho para os esportistas negros”, porque o time foi campeão invicto e “apenas uma
meta vazou o gol S. Geraldense, no mais tudo foi levado de vencida”. Diante do feito, o
periódico parabenizava não só os jogadores, como também sua diretoria, a qual foi citada
nominalmente e estava em fim de mandato. E esperava que a nova direção pudesse se
aproveitar “do entusiasmo reinante” para alcançar “outras vitórias futuras”55. Assim, o time
não era apenas valorizado por suas conquistas no passado, mas pelo que fazia cotidianamente,
o que o transformava em um exemplo mais próximo das populações negras.
Jornais e associações de homens de cor também organizaram festivais esportivos
e partidas amistosas valendo taças, com ao menos uma equipe negra. Em 1932, o “São
Geraldo” foi campeão da taça Clarim d’Alvorada, um torneio organizado pelo periódico e
contou com as participações das equipes: “Estrela d’Alva”, “F. C Crisântemo”, “F. C. Extra”,

53
DOMINGUES, Petrônio. “O ‘campeão do Centenário’ op. cit. pp. 371-372.
54
NASCIMENTO, Deocleciano. “Gente e Fatos de Outras Épocas”. A Voz da Raça, 28 abr. 1934, p. 4.
55
“A. A. São Geraldo”. Clarim d’Alvorada, 25 jan. 1930, p. 2.
210

“C. A. Piracicabanos”, “A. A. Palmares”, “C. A. Palmares”, “C. Cravos Vermelhos” e, o vice
campeão, “E. C. Flor da Penha”56. Desta forma, apesar do sucesso em campeonatos mais
tradicionais, o “São Geraldo” manteve-se na rede de associações de homens de cor.
Em outras cidades do Estado também há notícias de times de homens de cor. O
“Grêmio Familiar Recreativo Flor de Maio”, de São Carlos, por exemplo, atuou em seus três
primeiros anos, entre 1928 e 1931, basicamente como uma equipe de futebol. Em Jundiaí,
Sebastião Minas e Antônio de Oliveira pediram para entrar no quadro de sócios do “Clube 28
de Setembro” juntos com outros homens de cor, que estavam formando um time de futebol;
eles desejavam, sob as cores do veterano clube, disputar partidas contra combinados de
brancos. Após três encontros, em que explicaram suas intenções, a diretoria os instruiu sobre
as regras de conduta, que foram aceitas, a entidade passou a ter um time de futebol57.
Luiz Carlo Rigo e Arlei Damo pesquisaram ligas de futebol formadas
majoritariamente por equipes negras no Rio Grande do Sul. O primeiro na cidade de Pelotas,
onde havia a Liga José do Patrocínio, e o segundo em Porto Alegre e a Liga dos Canelas
Pretas, ambos apontam que as barreiras de cor criadas por outros times fizeram com que os
negros fundassem seus times e ligas, que depois entraram em declínio com a incorporação
deles aos campeonatos mais fortes e de maior prestígio58.
Na década de 1930, jornais paulistas de grande circulação fizeram alguns
históricos de como teria sido a incorporação dos negros ao futebol. Nesses textos, apontaram
que a barreira de cor foi superada graças ao talento demonstrado dentro de campo, contudo,
ao tratarem de suas habilidades, os articulistas, geralmente, atribuíram aos jogadores negros
grandes qualidades e um estilo próprio, que eram praticamente inatos à “raça”, que fizeram
mudar o esporte no país, dando uma característica única ao futebol brasileiro. Como sugere
Leonardo Affonso de Miranda Pereira, essa interpretação era comum naquela década, ela
usava o futebol para construir “uma imagem harmônica e coesa do país” e valorizava os
jogadores negros ao mesmo tempo em que promovia um sentimento nacionalista59.

56
“União Esportiva da Raça – a Taça Clarim d’Alvorada foi brilhantemente disputada no dia 24”. Clarim
d’Alvorada, jan. 1932, p. 3. Essa taça também foi disputada em 1926 e 1929.
57
Ata de reunião de 09 fev. 1931; 20 fev. 1931 e 24 fev. 1931.
58
RIGO, Luiz Carlos. Memórias de um Futebol de Fronteiras, Tese de Doutorado, UNICAMP, Faculdade de
Educação: Campinas, 2001; DAMO, Arlei Sander. Futebol e Identidade Social: uma leitura antropológica entre
os torcedores e clubes. Porto Alegre: E. Universidade/UFRGS, 2002.
59
PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: Uma História Social do Futebol no Rio de Janeiro,
1902 – 1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 16. Sobre o sentimento nacional e o futebol ver:
FRANZINI; Fábio. Raízes do País do Futebol op. cit.; DAMO, Arlei Sander. Futebol e Identidade Social op. cit.
211

Os duelos nas festas de 13 de maio aparecem como fundamentais para acabar com
a barreira de cor nesses textos históricos60. De acordo Valmir Sortir e André Fontenelle, os
combinados de pretos foram derrotados em duas ocasiões, em 1931 e 1939, e só houve um
empate, em 1929, em sete confrontos61. Na chamada para o duelo de 1930, A Gazeta escreveu
que essa partida anual era uma “coisa boa que ficou da Liga de Amadores e uma das suas
iniciativas louváveis” porque “veio acabar com esse tolo e injustificado conceito de raça no
meio do futebol” e que “a gente negra tem dado e vem dando de si as melhores provas de
aptidões para o ‘soccer’62. Meses depois, quando o “Hakoah”, um time profissional húngaro,
esteve no Brasil, sugeriu que a “APEA” formasse uma seleção com seus jogadores pretos para
enfrentá-lo, porque havia “elementos de cor nos gramados da Paulicéia que podem elevar
sobremaneira o nosso soccer”. A prova disso seriam as vitórias nos anos anteriores dos pretos
contra os quadros brancos, quando “manejaram a bola com elegância, dando-nos um futebol
de primeira ordem”. Ainda, esta seria uma partida chamaria atenção dos torcedores, porque
era “um encontro de formidável”, com uma “curiosidade única e... renda de monta!”63.
Assim como no caso da Mãe Preta, as partidas entre brancos e pretos foram
usadas como forma de exaltação à fraternidade brasileira; porém, para os homens de cor, as
partidas comemorativas, junto com qualquer outro duelo de times negros, serviam para
exemplificar a capacidade negra. Quando sua participação não era numerosa nos times das
divisões principais, as comemorações de 13 de maio davam a chance aos atletas negros de
divisões municipais e do interior de duelar contra os melhores das divisões superiores, seria
uma oportunidade de jogarem para um público maior e, talvez, subir de categoria. Em 1927,
por exemplo, o combinado de jogadores brancos tinha seis jogadores que fizeram parte da
seleção paulista de 1925, eram eles: Clodô, Barthô, Néco, Athié, Del Debbio e Friedenreich.
Néco ainda era apontado como “o melhor meia-esquerda que apareceu no Brasil”, em 1927,
os demais atletas foram cotados para a seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de
1930, chegaram a participar de treinamentos, mas não foram ao Uruguai 64, o que demonstra
serem jogadores de nível elevado.

60
Ver, em especial, CAMPOS, Salathiel. “O Homem Negro no Esporte Bandeirante”. Correio Paulistano, 3 out.
1934, p7; 5 out. 1934, p. 7; 6 out. 1934, p. 11; 7 out. 1934, p. 12; 9 out. 1934, p. 7; 10 out. 1934, p. 8; 11 out.
1934, p. 7; 24 out. 1934, p. 7; 26 out. 1934, p. 8; 3 nov. 1934, p. 7; 8 nov. 1934, p. 7; 16 nov. 1934, p. 7; 17 nov.
1934, p. 7; 21 nov. 1934, p. 7; 24 nov. 1934, p. 7; e 28 nov. 1934, p. 7.
61
STORTI, Valmir; FONTENELLE, André. A História do Campeonato Paulista op. cit.
62
“O encontro Branco X Preto – A jornada de 13 de maio próximo”. A Gazeta, 20 abr. 1930, p. 10.
63
“Húngaros e Pretos!”. A Gazeta, 26 jun. 1930, p. 9.
64
“Últimas – O selecionado nacional”. A Gazeta, 16 mai. 1930, p. 8.
212

Durante o período de existência da “LAF”, havia quem dissesse que os melhores


jogadores brancos estavam nos times da “APEA” e os melhores jogadores negros na “LAF”,
por isso o confronto de 1930 foi muito aguardado65. O “C. A. Brasil” foi o responsável pela
organização da partida e elegeu dois jogadores para formar os quadros de brancos e pretos, o
goleiro Tuffy e o centroavante Petro. O último comandou os pretos e declarou que, se lhe
fosse dado “um quadro de jogadores pretos e [se pudesse] treiná-los convenientemente”,
excursionaria pela América e Europa para regressar ao Brasil “com uma bagagem especial de
tudo quanto fosse taças, bronzes e títulos de campeões de todos recantos”; ele também achava
que ganharia dos brancos por ampla vantagem66. De acordo com A Gazeta, esta era a opinião
da maioria, que também torcia pelos pretos, por causa do retrospecto. A confiança de Petro se
confirmou em campo: os pretos venceram os brancos por 4x0, mas o encontro entre os
melhores jogadores não pôde ser realizado naquele ano. “Devido à ameaça de péssimo
tempo” muitos atletas brancos faltaram e, também, porque a equipe teria sido “organizada
com concurso de vários jogadores ‘pescados’ a última hora”67.
Os homens de cor levaram o jogo mais a sério. Treinaram ao longo de um mês e
compareceram completos; as notícias dão a entender que Petro conseguiu montar três
quadros. A possibilidade de enfrentarem, finalmente, uma seleção composta pelos melhores
brancos do Campeonato Paulista, o que poria fim à discussão sobre a qualidade dos atletas e,
consequentemente, a proporção de suas vitórias, pode ter motivado os pretos a se dedicarem
mais. Por outro lado, eles parecem ter mais interesse nesses jogos dos que os brancos, até
mesmo quando todos os seus selecionados eram da principal divisão do campeonato, como
aconteceu em 1930. Entre os atletas pretos, A Gazeta considerava que Petro, Pixo e Bisóca
tinham condições de ir ao mundial, sendo que o último chegou a treinar com a equipe. Então,
era mais do que se mostrar para o grande público e ter uma oportunidade: os amistosos
permitiam que os atletas também participassem da festa cívica do 13 de maio, que ainda
mobilizava as cidades.
Além da “LAF” e “APEA”, durante as décadas de 1920 e 1930, equipes da várzea
organizaram esse tipo de jogo nos bairros mais afastados do Centro, o que indica que as
classes mais pobres e trabalhadoras continuavam interessadas em festejar o fim do cativeiro.
No interior paulista, a prática se repetia, apesar de as principais equipes cederem jogadores

65
“O encontro Branco X Preto – A jornada de 13 de maio próximo”. A Gazeta, 20 abr. 1930, p. 10.
66
“A Jornada Futebolística de 13 de Maio – A luta de hoje na Floresta e o entusiasmo reinante”. A Gazeta, 13
mai. 1930, p. 6.
67
“13 de Maio Futebolístico – Os ‘pretos’ venceram os brancos por 4 a 0”. A Gazeta, 14 mai. 1930, p. 8.
213

para os amistosos da capital, principalmente quando disputavam algum módulo do


Campeonato Paulista. Em Campinas e Piracicaba, as iniciativas foram, geralmente, das
associações de homens de cor, como parte das celebrações, os jogadores eram sócios que,
aparentemente, não jogavam regularmente em campeonatos, nenhuma informação foi
encontrada sobre os combinados de brancos que enfrentavam essas equipes, assim como
artigos em seus jornais negros sobre essas partidas, ao contrário da Imprensa Negra
paulistana.
Através dos textos dos periódicos paulistanos, é possível perceber que jornais de
grande circulação usavam esses amistosos para exaltar a fraternidade brasileira, expondo que
a barreira de cor era algo que estava sendo superado, uma vez que os homens de cor estavam
demonstravam habilidades que contribuiriam para a melhoria do esporte. Além disso, para
esses jornais, o estilo de jogo praticado pelos pretos atraía público e, consequentemente,
renda, isso era um motivo a mais para realização desses embates. Entre os homens de cor, o
futebol foi uma ampliação de suas opções de recreação e de atividades mobilizadoras das
redes de solidariedade e da unidade do grupo, que também foi utilizado para evidenciar suas
potencialidades e rebater a ideologia de inferioridade racial. Ao mesmo tempo em que as
partidas entre combinados de negros e de brancos reforçavam a noção de fraternidade entre os
brasileiros, já que estariam todos dividindo o mesmo espaço e o momento de lazer
amigavelmente, elas eram usadas para mostrar a capacidade dos negros no domínio de um
jogo que exige inteligência, disciplina, qualidades físicas e técnicas. O mesmo acontecia nos
jogos dos campeonatos municipais, em que os jornais negros mesmo nas derrotas das equipes
negras exaltavam as virtudes de seus jogadores. Neste sentido, a conquista da Divisão
Municipal da Copa do Centenário pela “A. A. São Geraldo” foi relembrada diversas vezes
porque conseguia ser uma fonte de orgulho racial, tornando-se a maior demonstração de
vitória dos negros.

5.2 Colaborações e intercâmbios


Jayme de Aguiar e José Correia Leite passearam por Piracicaba no dia 8 de
dezembro de 1929 e “aproveitaram-se da oportunidade para abraçar” seu “distinto colega, sr.
Alberto de Almeida, diretor do O Patrocínio”. Almoçaram, “foram até a queda d’Água do
Tietê, assistiram a uma parte do jogo entre os quadros do 28 de Setembro e o Avenida, sempre
214

acompanhados pelas atenções delicadas do redator (…) e outros moços distintos”68. A visita
talvez não fosse um mero passeio despreocupado. Os redatores do Clarim d’Alvorada haviam
escrito ao periódico piracicabano naquele ano, conforme mencionado em capítulos anteriores.
Ambos apelaram aos homens de cor que aderissem aos projetos coletivos de defesa da raça,
em especial do “Congresso Negro” que o trio estava organizando. O evento não chegou a
acontecer69, porém entre 1928 e 1930 os dois jornais tentaram convencer seus leitores e os
dirigentes de associações de homens de cor a patrocinar o evento. O encontro na cidade do
interior paulista pode ter sido usado como oportunidade para uma reunião para alinhar
discursos e fazer planejamentos.
Viagens de homens de cor que estavam à frente de jornais e associações e clubes a
fim de estabelecer parcerias foram comuns. Em dezembro de 1923, o “Grêmio Dramático
Luiz Gama” enviou uma comissão para Piracicaba “a fim de marcar definitivamente [as datas
d]os espetáculos” que faria a convite e financiado pela “Sociedade Beneficente 13 de Maio”70.
Como compartilhavam sócios e diretores, o Getulino fez uma longa descrição sobre essa
viagem e suas reuniões. Um mês antes, Marcolino Evaristo Costa foi à Campinas, em “missão
especial dos homens de cor” de Piracicaba, hospedou-se na residência de Benedito Florêncio
e “conferenciou demoradamente” aos redatores do jornal negro71. Ele ocupava a presidência
da associação de homens de cor de sua cidade. Dias antes da partida do grupo teatral, outro
piracicabano esteve na cidade, Gabriel Alves Rocha. Ele era um “digno representante” da
classe dos homens de cor, inspetor policial e na época presidente da “Irmandade de São
Benedito” de Piracicaba e, de acordo com o periódico, ele também era um dos fundadores da
“Sociedade Beneficente 13 de Maio”72. A informação não pôde ser comprovada nas três atas
de fundação73, já que em nenhuma consta seu nome. Em todo caso, em 1923, ele era um sócio
importante que aparece recepcionando convidados e, inclusive, hospedando os proprietários
do Getulino em sua casa74. Em dezembro de 1923, ele ficou somente um dia em Campinas, o
necessário para fazer uma conversar com colaboradores do Getulino75. É possível que tenha
ido para acertar alguns detalhes da viagem dos campineiros.

68
“Em Piracicaba”. Clarim d’Alvorada, 25 jan. 1930, p. 2.
69
LEITE, José Correia. “Não Principiamos, Continuamos”. Clarim d’Alvorada, 28 set. 1940, p. 1.
70
“Movimento Associativo – G. D. Luiz Gama”. Getulino, 23 dez. 1923, p. 2.
71
“Marcolino Evaristo Costa”. Getulino, 18 nov. 1923, p. 2.
72
“Na Cidade”. Idem., p. 3.
73
Sobre as reaberturas da “Sociedade Beneficente 13 de Maio”, ver capítulo 2.
74
“Excursão”. Getulino, 21 set. 1924, p.3.
75
“Na Cidade”. Getulino, 23 dez. 1923, p. 2.
215

O encontro de articulação ocorreu durante as celebrações de ano novo na


“Sociedade Beneficente 13 de Maio”, que ocorreram nos dias 5 e 6 de janeiro. Estiveram
presentes “convidados de São Paulo, Rio das Pedras, Capivari, São Pedro, [bem] como de
Campinas”. Representando o “Grêmio Dramático Luiz Gama” foram: Martinho José de
Andrade e Benedita Barros; pelo “Grêmio Recreativo Dançante Familiar José do Patrocínio”,
seu presidente Paulo Estevam dos Santos; pelo Getulino, Lino Guedes, que substituiu
Benedito Florêncio que estava enfermo. Almoçaram na sede da sociedade aos sons de
poemas, recitados por Benedita de Barros e Rosa de Lourdes, e do discurso improvisado de
Félix João da Luz, “cheio dos mais sãos conceitos”. Mais tarde, “a caravana campineira
visitou as pessoas gradas do local, a imprensa, sendo acolhida com carinho na redação da
Gazeta”. Na parte da noite foi para o Teatro São Estevão, onde se juntou aos outros
convidados e ouviu o redator-chefe do Getulino. A “Corporação Musical Operária” tocou
algumas marchas antes da abertura da sessão solene, que foi feita pelo então presidente da
“Sociedade 13 de Maio”, que falou “ligeiramente sob[re] a ação dos homens pretos em
Piracicaba”. Houve outros discursos e as duas mulheres recitaram, “com impecável dicção,
versos de [Olavo] Bilac, A Bandeira, e A[ntônio] Carlos Gomes”, desta vez seguidas por Elsa
Garcia, que fez “um mimoso discurso”76.
De acordo com o Getulino, o discurso principal foi dirigido aos membros do
“Grêmio Dramático Luiz Gama”, proferido por Félix João da Luz e Joaquim de Menezes.
Teriam dito que os campineiros os honravam naquela noite e os dirigentes de ambas entidades
estavam “ligados por laços de amizades, trabalhando pelo mesmo ideal, procurando elevar
cada vez mais o renome e a fama que há muito” gozava a anfitriã. Continuaram dizendo que a
entidade piracicabana, quando comparada às transformações da cidade, parecia não progredir,
“no entanto, é ela que, dentre as que aqui existem, a única que vai se destacando”, que era
uma “época de pessimismo, de intrigas e ao mesmo tempo de inveja”, o que dificultava o
trabalho. A parceria com a agremiação campineira ajudaria a entidade a se restabelecer após
cerca de três anos de reativação. O primeiro dia de festa acabou com um baile no Teatro Iris,
“no meio da maior alegria e cordialidade” até os “primeiros alvores da madrugada”77.
Seu discurso é similar ao proferido pelo representante do Getulino na entrega da
Taça Getulino; na verdade, muitos dirigentes de associações de homens de cor fizeram esse
tipo de fala. Muitas vezes, a falta de unidade dos homens de cor era justificada pela ninveja,

76
“Sociedade B. 13 de Maio”. Getulino, 13 jan. 1924, p.2.
77
Idem.
216

intriga e vaidade, que fazia com que eles disputassem entre si ao invés de se ajudar. No caso
específico da entidade piracicabana, pode-se considerar que Félix João da Luz quisesse
também justificar sua estrutura modesta, porque ao longo de sua existência conviveu com
dificuldades financeiras que a fez fechar duas vezes no período entre 1901 e 1921, e, ao
mesmo tempo, marcar o espaço da “Sociedade Beneficente 13 de Maio”. Deste modo, a
sociedade podia ter condições precárias, ter um histórico de instabilidade, mas Félix João da
Luz queria ressaltar que nela havia um grupo que se mantinha trabalhando em seu benefício,
fazendo com que ela não sucumbisse.
As comemorações continuaram no dia seguinte, a partir das 13 horas, quando
Marcolino Evaristo Costa “ofereceu, em sua aprazível residência, um banquete aos
visitantes”, que também participaram da “imponente procissão de São Benedito”. Durante o
resto do dia, os campineiros passearam pela cidade, indo até o mirante do Rio Piracicaba. Às
20 horas, eles festejaram o aniversário de Adelina Marco de Castro, esposa do presidente, em
um chá. Duas horas depois, foram à sede da “Sociedade Beneficente 13 de Maio” para uma
“reunião dançante”, abrilhantada por sua orquestra social. Dançaram até às 2 horas da
madrugada. Os excursionistas tiveram pouco tempo de sono. Às 6:30 do dia 7 de janeiro,
estavam todos no trem, de volta a Campinas. Pode-se dizer que toda a atenção dada pelos
homens de cor piracicabanos valeu a pena, seu convite fora aceito, com agendamento de duas
datas para os espetáculos no mês seguinte78. E nos dias 9 e 10 de fevereiro foram realizados
os dois espetáculos, que o Getulino preferiu não relatar porque “seria repetir aqui a série de
louros” que “os bravos amadores do Luiz Gama” vinham colhendo. As peças foram
encenadas no Teatro Santo Estevam, e “logo após o espetáculo de sábado” a associação
patrocinadora ofereceu um baile que se prolongou, “no meio da animação, até ao alvorecer de
domingo”79.
Era comum fazer longas descrições de passeios e eventos em homenagem às
associações. Aparentemente, desejava-se dar e reforçar o prestígio das organizações
envolvidas, exemplificar o trabalho árduo e coletivo, demonstrando que havia outras
associações batalhando por melhores condições de vida e para convencer outros homens de
cor a se engajarem na “defesa da classe/raça” e a lutarem contra o preconceito de cor. Entre
Getulino e “Grêmio Dramático Luiz Gama” era uma forma de auto elogio. A longa descrição
dos dias de festejos dá a dimensão dos esforços e dos cenários que constituíram as

78
Idem.
79
“G. D. Luiz Gama”. Getulino, 17 fev. 1924, p. 5.
217

sociabilidades dos homens de cor. As parcerias não eram seladas através de simples acordos
de trabalho, era preciso se apresentar, marcar a posição de sua entidade, afagar as coirmãs e os
convidados. As ações coletivas foram estabelecidas, na maioria das vezes, após celebrações
como a da “Sociedade Beneficente 13 de Maio”. Até mesmo o caráter intimista de visitar a
residência e a família aparecem em outros relatos de viagens. A unidade não era construída
somente a partir de interesses políticos, a amizade era fundamental para que eles elaborassem
juntos atividades de “defesa da classe/raça” contra o “preconceito de cor”.
Curiosamente, nessa excursão esteve o presidente do “Grêmio Recreativo
Dançante Familiar José do Patrocínio”, que também promovia encenações dramáticas. No
começo de 1923, Paulo Estevam lembrou ser preciso marcar uma festa em honra da “Liga
Humanitária dos Homens de Cor”, logo após um representante do “Grêmio Dramático Luiz
Gama” pedir o nome da peça que seu grêmio deveria apresentar para os associados da Liga 80.
Outro momento em que estiveram juntos foi no Concurso de Beleza do Getulino. Os
membros do “Luiz Gama” foram responsáveis pela organização da festa de encerramento
desde o início da campanha, contudo o fechamento foi na partida de futebol promovida pelo
“S. C. José do Patrocínio” e a homenagem foi oferecida dias antes da celebração prevista
como final. Pode-se pensar que as associações também mantinham certa competição em busca
de prestígio, seus dirigentes tentavam estar nos eventos de destaque como protagonistas.
A oferta de encenações dramáticas, que incluíam peças teatrais, declamação de
poemas e leituras de contos, esteve presente em diversos clubes negros do Brasil, bem como
nas associações operárias. Como afirmou Beatriz Ana Loner, junto com as outras práticas de
divertimentos, o drama era um elemento usado pelas sociedades recreativas de trabalhadores
para fortalecer “laços de congraçamento e de igualdade entre seus membros, dentro do espaço
associativo, propiciando o necessário convívio aplainador de diferenças”81. Uassyr Siqueira
indica que algumas peças podiam evocar o sentimento nacional, italiano principalmente, e as
ideias libertárias, no caso dos anarquistas, e, ainda, havia uma preocupação para que elas
contribuíssem com a elevação moral do operariado82. No caso do associativismo negro não é
muito diferente. Tentava-se criar a unidade, transmitir as ideias de “defesa da classe/raça” e as

80
Ver capítulo 2.
81
LONER, BEATRIZ ANA. Classe Operária op. cit.;
82
SIQUEIRA, Uassyr. Entre sindicatos, clubes e botequins: identidades, associações e lazer dos trabalhadores
paulistanos (1890-1920). Tese de doutorado. UNICAMP, Departamento de História: Campinas, 2008, p. 91;
sobre o teatro operário, ver também: LIMA, Mariângela Alves de, VARGAS, Maria Thereza, “Teatro Operário
em São Paulo”. in PRADO, Antonio Arnoni (Org), Libertários no Brasil. Memórias, Lutas, Cultura, São Paulo:
Brasiliense, 1986; CADERNOS AEL: Operários e anarquistas fazendo teatro, IFCH/UNICAMP, n°1, 1992.
218

lideranças negras apresentavam o espaço associativo como parte da busca pelo reerguimento
moral e social das populações negras, contudo, em um contexto em que eram vistas como
inferiores, as práticas literárias demonstravam sua capacidade intelectual e se encaixavam na
“defesa da classe/raça” como meio de instrução.
Antes de ir a Piracicaba, o “Grêmio Dramático Luiz Gama” tinha ido a Limeira,
em 1923, patrocinado pela “Sociedade 28 de Setembro” daquela cidade para encenar uma
peça que, de acordo com o Getulino, seria uma “demonstração de arte e progresso”83. Em
1933, o sócio do “Clube 28 de Setembro” de Jundiaí, Crispim pedia em reunião extraordinária
que a entidade também se dedicasse ao “drama”, que não deveria e nem poderia “ter-se
apenas como uma simples diversão porque nele há outras utilidades, como seja o
desenvolvimento pessoal e mesmo [de] leitura”. Acreditava, que com isso poderia ajudar
“rapazes que sabem ler e escrever regularmente, porém não sabem fazer uso da pontuação,
sendo esta, o essencial da leitura” 84. Cabe lembrar que este clube comemorou seu aniversário
de vinte e dois anos, em 1919, com uma apresentação teatral encenada por alguns de seus
sócios, inclusive seu então presidente, Miguel do Carmo85.
O Clarim d’Alvorada exaltou a “Companhia Negra de Revista” que, em 1926,
fazia apresentações no teatro da capital paulista Apolo, porque seu espetáculo e seu público
demonstravam que “os nossos patrícios, de ora avante, desejam labutar para o reerguimento
da nossa raça”. O surgimento do grupo era apontado como fruto da tradição de escritores
“pretos” brasileiros, como Lima Barreto, Cruz e Souza, Luiz Gama e Patrocínio Filho, “um
dos consagrados teatristas brasileiros”, e da iniciativa estrangeira da época, de Josephine
Baker, “essa novidade teatral”, uma companhia de teatro com atores negros, teria surgido com
ela em Paris. O artigo encerrava com um pedido para que os negros fossem “de bom grado”
aplaudir “os patrícios que com ardor e boa vontade estão labutando corajosamente para o
complemento das nossas glórias”86. Desta forma, também associou a encenação dramática à
ideia de progresso e melhoria das condições de vida das populações negras, provavelmente,
por oferecer diversão com instrução, como desejava o senhor Crispim.
A bibliografia sobre o associativismo negro tem apontado que o teatro era uma
das suas atividades recorrentes. Conforme Liane Susan Müller, logo que as associações
negras se firmaram em Porto Alegre “passaram a promover a apresentação de peças teatrais;

83
“Mundo Associativo – G. D. Luiz Gama”. Getulino, 28 out. 1923, p. 2.
84
Ata da reunião da diretoria do Clube 28 de Setembro, de 26 de maio de 1932.
85
Ver introdução. “Jundiaí”. A Liberdade, 12 out. 1919, p. 2.
86
“Tudo Preto”. Clarim d’Alvorada, 24 out. 1926, p. 1.
219

palestras e cursos temáticos. Buscaram ainda fomentar a literatura e poesia entre os negros e,
também, os eventos musicais”, bem como se empenharam em fundar escolas e bibliotecas87.
Fabrício Romani Gomes percebeu que a encenação teatral era vista “como uma atividade
cultural importante para o desenvolvimento intelectual dos membros” da “União Brasileira
dos Homens de Cor”, fundada em 1972, entendimento que também estava presente nas
práticas do “Clube Recreativo Gaúcho” de 1934. Por isso, o autor cogita a possibilidade de
que “o teatro, entre as grandes artes, fosse o que mais impunha dificuldades para o acesso”
para as pessoas negras88. A “Sociedade Beneficente Floresta Aurora”, de Porte Alegre, tinha
seu grupo dramático, que em 28 de setembro de 1904 encenou a peça “A Filha da Escrava”,
que “tinha por conteúdo um diálogo com a lei do ventre livre, promulgada um ano antes da
criação da sociedade, e que podia compor experiências vivenciadas pelos sócios e pelos
ascendentes destes”, de acordo com Fernanda de Oliveira da Silva89. De acordo com Maria
Aparecida de Oliveira Lopes, os articulistas de O Progresso de São Paulo “acreditavam que o
desenvolvimento do intelecto poderia ocorrer via aprendizagem da música, da dança, do
teatro, da literatura etc.”, possivelmente “por ser forte a presença de livros didáticos com
versões pejorativas sobre o negro, visões presentes no imaginário da sociedade brasileira e
usadas para ofender uma criança ou um adulto negro”90.
O teatro enquanto prática recreativa e instrutiva poderia servir para contar o papel
das populações negras na história do Brasil, assim como as palestras e os artigos da Imprensa
Negra. Por esta razão, a “Sociedade Beneficente 13 de Maio” de Piracicaba investiu na
contratação do “Grêmio Dramático Luiz Gama” de Campinas, que permitiria atender à
finalidade de seu curto programa na cerimônia de refundação em 1921: “desenvolver a
educação da raça dos homens de cor”91. Ao divulgar que a comissão campineira não era
composta exclusivamente por sócios do “Luiz Gama”, o Getulino passava a ideia de que um
determinado conjunto de homens de cor estava engajado nas causas da educação e do
progresso da classe/raça por meio da dramaturgia, mesmo em condições que não pareciam

87
MÜLLER, Liane Susan. As Contas do Meu Rosário São Balas de Artilharia: op. cit., p. 162. Sobre teatro no
associativismo negro, ver: SILVA, Joselina da. Renascença, Lugar de Negros no op. cit.; CARVALHO, Andréa
Aparecida de Moraes Cândido. Negros de Lages: Memória e experiência de afrodescendentes no planalto
serrano. Monografia de Conclusão de Graduação, UDESC, Departamento de História: Florianópolis, 2001;
ROSA, Julio César da. Sociabilidades e territorialidade op. cit.
88
GOMES, Fabrício Romani. Sob a Proteção da Princesa e de São Benedito: identidade étnica e projetos num
clube negro de Caxias do Sul (1934-1988). Jundiaí: Paco Editorial, 2013, p. 161.
89
SILVA, Fernanda Oliveira da. As Lutas Políticas Nos Clubes op. cit., p. 77.
90
LOPES, Maria Aparecida de Oliveira. Beleza e ascensão social op. cit., p 26.
91
Sociedade Beneficente 13 de Maio. “Sociedade Beneficente 13 de Maio Recreada a 23 de Junho de 1921”.
Livro de Atas n. 2 (1921-1929). Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio.
220

favoráveis, como indicava o discurso de Félix José da Luz. Na verdade, o modo como
articulistas e dirigentes de associações de homens de cor narram suas ações é construído para
evidenciar seu engajamento com a “defesa da classe/raça”.
Quando se analisa as práticas de sociabilidades e diversões das associações
negras, é importante destacar a ideia de Fabrício Romani Gomes de que os esforços dos
membros do associativismo negro, do oferecimento de instrução às práticas lúdicas passando
também pelo cuidado com as roupas, eram “exemplos da vontade do grupo de ser visto como
distinto e portador de uma autoestima elevada”92. Desta maneira, pensando o uso do teatro nas
organizações negras até meados dos anos 1920, se o racismo científico endossava a
incapacidade dos negros em produzir artes, membros de grupos dramáticos negros e seus
espectadores, majoritariamente negros, provavam o contrário. Eles eram capazes de produzir
e consumir arte.
O teatro e as outras diversões das agremiações de homens de cor tinham outra
função mais prática e de impacto imediato em seu cotidiano: a arrecadação de dinheiro. Assim
como no caso do futebol, em alguns casos, realizava-se um baile com o objetivo de levantar
fundos para contratar um grupo de fora do município, em outros momentos, a agremiação
dramática oferecia a apresentação de uma de suas peças em benefício de outra associação da
cidade. Em ambas as situações, podiam-se cobrar ingressos e a verba ficava para a contratante
ou a beneficiária93.
A poesia foi um elemento artístico frequente no cotidiano dos homens de cor.
Havia publicações regulares na Imprensa Negra e notícias informam que em bailes semanais
as bandas faziam pausas enquanto poesias eram recitadas ao público. Deocleciano
Nascimento talvez tenha sido o mais importante poeta do circuito dos homens de cor paulista
das primeiras décadas do século XX, José Correia Leite o considerava como “uma espécie de
Cruz e Sousa no meio negro” que frequentavam94. Ele colaborou com o Getulino enviando
poesias, como já fazia com os periódicos paulistanos, e vendendo edições do jornal na capital
do Estado95.
Para firmar a parceria, os responsáveis pelo semanário encaminharam, em final de
1923, “uma coleção” dos números anteriores da folha ao fundador do Menelik, que retribuiu a
gentileza com uma carta de agradecimento que teve trechos publicados em 2 de dezembro.
92
GOMES, Fabrício Romani. Sob a Proteção da Princesa e de São Benedito op. cit. p. 143.
93
Liga Humanitária dos Homens de Cor. “Ata de Reunião de 10 de janeiro de 1923”. Arquivo Pessoal de
Benedito Evangelista.
94
LEITE, José Correia; CUTI. E Disse o Velho Militante. Op. cit. p. 19.
95
“Evolução”. Getulino, 25 nov. 1923, p. 3.
221

Mais do que agradecer, ele resenhou o conteúdo dos jornais, que o deixaram encantado e que
julgava serem dignos de “prêmio de recorde, de perfeição”. Da primeira edição, destacou o
retrato de Luiz Gama e o artigo sobre o costume das populações negras em Campinas de
contornarem o Jardim Carlos Gomes. As análises históricas seriam outro ponto alto,
especialmente as de Lacerda Werneck96 e Benedito Florêncio. Deste, fez uma citação para
justificar a importância do registro escrito: “a palavra passa, voa, morre; mas o livro, o jornal,
a palavra escrita, são traços que ficam gravados de gerações em gerações”. Por isso, o
trabalho dos colaboradores do Getulino era tão importante, porque apresentava a luta das
populações negras para a “mocidade de cor”97.
Sua primeira contribuição apareceu já no número seguinte, com um conto
chamado “O Gigante Negro”. Nele, um gigante seguia em direção à estrada do Orco até ser
alertado por um “irmão de raça” que, por aquele caminho, cairia em desgraça. O gesto lhe fez
ficar “com ar alegre” e, “em tom meigo e suave”, iniciou uma conversa perguntando quem era
e de onde vinha o homem que o ajudou. Soube, então, que o outro negro era um “rotineiro” 98,
que acabara de chegar “do reino da civilização Moderna”, onde ouvia “cantar por um bando
de jovens brancas, uma aria de sonhos encantados das epopeias”, ao contrário do “alarido de
saturnal, abrilhantado pelos sorrisos desbotado de Mefistófeles”, que vinha escutando em seu
trajeto até então. O barulho era “como trovoadas em noite de borrasca”, disse o homem que
também quis saber a identidade e origem de seu novo colega. Este era um peregrino, que
viajava “há muitos anos a procura da grandeza e da união universal da raça negra” e se
chamava Futuro, “filho da vontade”. Estava, naquele momento, “entregue à mercê do
vendaval da vida, a tatear nas trevas” e perdido, sem saber em que terra estava. Ao ser
informado pelo rotineiro que estava no Brasil, questionou se era mais um lugar onde “é
tolhida a liberdade dos pretos”. “Foi nos tempos idos”, respondeu o sujeito, que explicava que
a escravidão fora interrompida pela “igualdade - lei ditada ao povo dela [da terra que se
encontravam] pelo imortal Patrocínio, em memória do Getulino, no século dezenove”. O
rotineiro, por fim, indicou o caminho correto ao “caminhante, nobre filho da vontade”, que
deveria encontrar mais adiante um templo, o qual o homem dizia ser o “da nossa regeneração

96
José Ignacio de Lacerda Werneck era jornalista branco que contribuiu com artigos e o folhetim “Cenas do
Cativeiro – A boa Severina” no Getulino. Deocleciano Nascimento se referia ao texto “Campanha Abolicionista”
publicado no dia 30 de setembro de 1923.
97
“Getulino”. Getulino, 02 dez. 1923, pp. 1-2.
98
Provavelmente o poeta queria indicar que este personagem era alguém que agia por rotina, seguindo o
habitual.
222

social, cingido com o luminoso facho da Civilização Moderna”. Sorrindo, o gigante negro
partiu cantando:

Nós somos filhos de Adão


Assim nos fala a ciência
Com sua voz de consciência
Na história da geração.

Na história da geração
Não fala que a preta gente
Veio de outro precedente
A não ser do pai Adão.

Marchemos, ó pois contentes,


Em uma demanda da instrução,
Ao lado das brancas gentes
Que nossos irmãos também são

Salve Deus a Getulino


Salve Deus a Patrocínio!99

Esse texto mostra o uso do mundo fantástico e de alegorias na propaganda pela


“defesa da classe/raça”. O futuro dos negros era fruto da vontade, era grandioso, mas corria
perigo porque estava à deriva em busca da união da “raça”; era preciso que os negros se
colocassem no caminho certo para sua regeneração social. Desta forma, o texto artístico não
se distanciava dos editoriais e artigos críticos e de opinião publicados nos jornais, funcionava
como mais um apelo à unidade. Além disso, também tratava a Abolição como obra de José do
Patrocínio e Luiz Gama, fazendo referência à fraternidade como aspecto de igualdade aos
brancos.
O poeta esteve em Campinas no final de semana em que seu conto foi publicado.
Ele se reuniu com os responsáveis pelo Getulino, visitou o campeão campineiro daquele ano,
o “Guarani F. C”, assistiu a procissão da Nossa Senhora da Conceição e foi à quermesse da
Praça Fluminense no primeiro dia. No segundo dia de sua estadia, aceitou o convite de Paulo
Estevam para participar do baile do “Grêmio Recreativo Dançante Familiar José do

99
NASCIMENTO, Deocleciano. “O Gigante Negro”. Getulino, 09 dez. 1923, p. 1.
223

Patrocínio”. “Foi uma brilhante página de confraternização, [ess]a festa íntima”, em que se
organizou, também, uma sessão literária. “Em nome do quadro de damas” daquela associação,
falou a senhorita Maria Conceição, que lhe entregou um “lindo buquê de flores naturais”. Os
colaboradores do Getulino discursaram, junto com membros da agremiação. O homenageado
“teceu um hino aos homens de cor campineiros e às suas iniciativas”, em agradecimento à
festividade, e, “em meio das danças, que se seguiram, houve recitativos, sendo declamados
versos inéditos pelo poeta Deocleciano Nascimento e Lino Guedes”. E assim seguiu o baile,
entre músicas, danças e poemas100. Antes de retornar a São Paulo, o poeta deixou um soneto
dedicado ao quadro de damas, desejando às mulheres de cor boas festas. Nele falava do gosto
pelas flores, “queridas das gentis donzelas” e que “sem ter receio” daria a elas como presente
de final de ano101.
Em novembro de 1924, Deocleciano Nascimento “deixou o cargo de
correspondente” da folha negra de Campinas; entretanto, o jornal continuou a ser vendido na
capital e receber suas informações pois Nascimento foi substituído por Manoel Ferraz
Júnior102. Uma semana após a saída do poeta, o Getulino apresentou outro ilustre colaborador,
Jayme Aguiar, que escreveu ao menos uma poesia para o semanário 103. Cabe ressaltar que o
periódico não precisava dessas parcerias externas para ter uma produção literária, pois seus
colaboradores de Campinas também publicavam poemas e contos antes do acordo com os
paulistanos. Então, a procura desses parceiros e sua divulgação era mais uma estratégia para
dar corpo e exemplo da unidade e de seu sucesso e, ao mesmo tempo, demarcar uma posição
de prestígio de seus dirigentes.
A atuação de Deocleciano Nascimento mereceu destaque por conta de sua
importância no meio negro e porque ela funcionou por cerca de um ano, com a publicação de
textos assinados. Contudo, o Getulino teve outros correspondentes que também vendiam suas
edições em suas cidades, dentro e fora do Estado. Em Santos, o responsável era Orlando de
Paula; em Limeira, Geraldo Rodrigues; em Itapira, Manoel Ferraz Júnior e Adão G. Pereira,
do Centro Telefônico; em Socorro, Noé Julião; em Jundiaí, Etelvino Barbosa; em Vila
Americana [atual Americana], João Solidário Pedroso; em Pouso Alegre (MG), Joaquim
Mariano; em Lavras (MG), José Luís de Mesquita; em Niterói, Christovam A. Júnior; e em

100
“Hospede Ilustre” Getulino, 16 dez. 1923, p. 2.
101
NASCIMENTO, Deocleciano. “Boas Festas”. Getulino, 16 dez. 1923, p. 1.
102
“Deocleciano Nascimento”. Getulino, 16 nov. 1924, p. 3.
103
“Jayme Aguiar”. Getulino, 23 nov. 1924, p. 2. Sobre a atuação de redator do Clarim d’Alvorada no Getulino,
não é possível afirmar que se limitou a um poema porque não há edições preservadas do ano de 1925 e em sua
segunda fase, em 1926, só há um número disponível para pesquisa.
224

Piracicaba, João da Silva Gomes e Gabriel Alves Rocha – o sócio da “Sociedade Beneficente
13 de Maio” que convidara o “Grêmio Dramático Luiz Gama” para encenar duas peças em
sua cidade. Com exceção de Adão Pereira, os pontos de venda apresentados eram as
residências dos correspondentes104. O Patrocínio era vendido na região noroeste do Estado
graças a Luiz N. Feijó, que morava em Campinas e era diretor musical do cordão “Princesa
d’Oeste”, uma associação de homens de cor acostumada a receber e ser recebida por outras
entidades negras de diversas cidades paulistas, que gozava de enorme prestígio no meio105. A
colaboração dos correspondentes não se limitava à venda do jornal, eles eram responsáveis
também por indicar artigos de periódicos e informar as atividades das associações de homens
de cor de suas respectivas cidades. Era por causa de suas informações que O Patrocínio e o
Getulino divulgavam regularmente os bailes, os aniversários de sócios ilustres, programações
de festas, mudanças de diretoria e outros aspectos do cotidiano de associações de outras
cidades.
José Luiz de Mesquita foi tão ativo quanto Deocleciano Nascimento na
publicação de textos para o Getulino. Professor de escola estadual de Minas Gerais,
costumava escrever contos que poderiam servir para definir valores, como em “Hipocrisia” e
“Inveja”, ou voltados para narrativas históricas, como “Belo Exemplo!”, discutido no capítulo
três, no qual descrevia a dança de José do Patrocínio com a princesa Isabel 106. Em “Negros e a
Literatura Nacional” é possível perceber a importância das artes literárias para o projeto dos
homens de cor. Escreveu que “espíritos retrógrados, mesquinhamente apaixonados; cérebros
entumecidos e carcomidos de inveja e nulidades em conhecimentos históricos e despedidos
das ideias de altruísmo e de sentimento de nobreza” costumavam dizer, “às vezes para fazer
rir”, que os negros eram “burros e sem capacidade intelectual”. Apontava que, apesar dos
impedimentos sofridos pelos negros para ter acesso à escola, havia grandes literatos negros -
eles não contribuíram somente como trabalhadores braçais para a “grande obra do progresso
da Pátria”. Então, apresentava as obras de José do Patrocínio, “eleito para Academia de
Letras, [para] ocupar o lugar de Joaquim Serra”107, e Cruz e Sousa, que era “julgado pelos
críticos com mais responsabilidade e crédito; com mais justiça, e lhe reconhecem alto valor e
merecimento incontestáveis”. Para ele, quanto mais insultos “os incompetentes atiram sobre

104
“Expediente”. Getulino, 26 out. 1924, p. 3.
105
“Sociais”. O Patrocínio, 7 set. 1928, p. 4
106
Outros textos publicados: “O Grito do Ipiranga e a Liberdade Brasileira”. Getulino, 14 set. 1924, p. 1;
107
Patrocínio é um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e escolheu Joaquim Serra para ser patrono
da cadeira 21, na qual ele se sentava.
225

os negros, procurando incapacitá-los de ocuparem o que lhes está reservado no grande


concerto social, maior será a sua vitória”108.

Figura17. Professor José Luiz de Mesquita


Getulino, 20 dez. 1924, p. 8.

Seus outros escritos históricos seguiam a mesma linha, demonstrando a


contribuição das populações negras ao país, que não se limitava à condição de escravizados,
contribuindo para combater o racismo por meio de exemplos de negros ilustres e de seus
grandes feitos. Este seu texto corrobora a ideia de que as artes literárias no meio negro
deveriam ser usadas para questionar a falácia da incapacidade negra e mostrar, ainda, que sua
apropriação e produção não eram exclusivas desse mundo associativo, mas parte de uma
tradição. Seu artigo foi publicado no final de semana em que ele esteve em Campinas para
participar de um festival do “Grêmio Dramático Luiz Gama” em benefício ao Getulino. Ele
apresentou uma conferência, intitulada “A Aurora de uma Raça”, logo após a apresentação da
orquestra do professor João do Amaral. Em seguida, na segunda parte dos festejos, membros
do grêmio e do jornal apresentariam poemas e um concerto de violão. A peça de Lino Guedes,
no entanto, foi suspensa para que o visitante tivesse mais tempo de fala109. Como não há

108
MESQUITA, José Luiz de. “Os Negros e a Literatura Nacional”. Getulino, 20 dez. 1924, p. 8. Itálicos do
original
109
“Casino – Programa do festival”. Getulino, 20 dez. 1924, p. 3.
226

disponível uma edição do periódico logo após a palestra, não é possível ter informações sobre
como foi o evento.
A parceria com Christovam A. Júnior foi estabelecida de forma parecida com o
caso de Deocleciano, ele também recebeu e resenhou edições antigas do periódico. Contudo,
sua contribuição foi menor, em termos de quantidade de publicações assinadas. Há somente
dois artigos com sua assinatura, neles foram feitos elogios à iniciativa de criar um jornal
negro “em combate” para derrubar “de todos os modos as miserandas” ideias contra os
negros, “que em nada condizem com o decreto de 13 de maio e com ideal republicano”. Para
ele “a questão racial” era “um problema magno das academias e da sociedade civil” e a “raça
negra taxada [como] inferior” precisava “solenemente erguer, protestar com veemência” e a
imprensa era “suficientemente forte para isso”110. Os correspondentes de Itapira também
publicaram textos. Manoel Ferraz Júnior dedicou seu conto, “Recordando”, a Adão G.
Pereira, nele relembrava uma tarde no parque111. O artigo de seu conterrâneo era mais uma
narrativa histórica, que valorizava o escravo, condenava a escravidão e exaltava a liberdade,
como uma luta pela igualdade de condições, por isso pedia que “nós hoje, homens livres,
devemos enfrentar todas as dificuldades que porventura encontrarmos”112.
As informações coletadas sobre os correspondentes indicam que eram homens de
um mesmo extrato social, familiarizados com a literatura e, de alguma forma, com o debate
acadêmico, além de circularem pelo meio negro de suas cidades. Alguns participavam do
circuito de associações de homens de cor de Campinas. Gabriel Alves Rocha, Noé Julião, o
professor João Solidário Pedroso e Geraldo Pereira visitaram o município, em momentos
diferentes, junto com suas respectivas famílias; mas também há momentos em que seus
familiares estiveram na cidade sem eles. Com exceção do piracicabano, as visitas desses
correspondentes foram sempre por motivos de recreação: passaram dias de férias,
participaram de ensaios e das festas de carnaval, sem as pompas dos convidados ilustres,
como Deocleciano Nascimento e o professor Mesquita.
Outro que merece atenção é o correspondente de Santos. Orlando de Paula era
motorista, assim como os irmãos Andrade, e o anúncio de seus serviços foi publicado em
todas as edições do jornal113. Martinho e Orlando não mantiveram somente laços de classe
profissional e de cor, eram amigos. Quando o filho do santista esteve gravemente enfermo e
110
A. JÚNIOR, Christovam. “Cartas Fluminenses”. Getulino, 2 set. 1923, p. 1; ______. “Getulino”. Getulino, 20
dez. 1924, p. 5.
111
FERRAZ JÚNIOR, Manoel. “Recordando”. Getulino, 14 set. 1924, p. 1;
112
PEREIRA, Adão G. “Escravo”. Idem, p. 2.
113
Ver capítulo 2.
227

sua filha havia falecido, o proprietário do Getulino foi até Santos, ao lado de sua esposa, dona
Maria Andrade114. Como foi apontado até aqui e será aprofundado a seguir, as colaborações e
os laços de trabalho entre os homens de cor foram formados através de amizades: as
lideranças negras costumavam visitar associações de outras cidades, frequentar e se hospedar
na casa de outros dirigentes, participar de reuniões familiares.
A rede de correspondência, mais do que recolher dinheiro com a venda de
exemplares e apresentar notícias de outras cidades, qualificava o debate promovido pelos
jornais, unia homens de cor de outras cidades, promovendo um intercâmbio de ideias e
pessoas.

5.3 Passeios, excursões e piqueniques


As visitas de homens de cor prestigiados no meio negro e de representantes de
alguma associação foram bem comuns nesse período, e nem sempre tinham como objetivo a
organização de um evento político, a colaboração em jornais ou a realização de parcerias de
cunho profissional. Geralmente, visavam reforçar os laços de amizade entre os membros do
quadro associativo e, também, com as entidades coirmãs de outros municípios, bem como
rever familiares e amigos. De acordo com as entrevistas realizadas por Kim D. Butler, uma
das características da “migração afro-brasileira era que as famílias nem sempre viajavam
juntas. Foi comum que um ou dois membros da família se estabelecessem na cidade” de São
Paulo antes que outros parentes os seguissem. Essa situação fez com que muitos utilizassem
as ferrovias para visitar suas antigas cidades, por isso, “a relação próxima com o interior se
tornou uma marca dos bairros negros de São Paulo e de seus clubes”115. Campinas e
Piracicaba não só recebiam excursões, como suas associações de homens de cor também
circularam pelo Estado.
O “Sociedade Dançante Princesa do Oeste” recepcionou, a seu convite, as
comitivas do “Grêmio Dramático e Recreativo Kosmos”, de São Paulo, e do “Clube 28 de
Setembro”, de Jundiaí, que foram assistir as comemorações que realizou em honra ao
Centenário da Independência do Brasil. Mário Franco de Moura, José Martinho de Moura
Baptista e Frederico Baptista de Souza representaram o clube paulistano e sentiram que as
“gentilíssimas senhoras e senhoritas, muito contribuíram para o brilhantíssimo dessa
festividade”, sendo sempre solícitas com os colegas das suas cidades. Frederico Baptista falou

114
“Vida Social”. Getulino, 30 nov. 1924, p. 3.
115
BUTLER, Kim D. Freedom Gives, Freedoms Won op. cit. p. 75.
228

em nome de seu grêmio e ofertou um buquê de rosas ao presidente da associação anfitriã,


Augusto Cláudio. Ao som da “Banda Ítalo-Brasileira”, dançaram valsas, comeram doces e
sanduíches regados à cerveja até às 5 horas da manhã116.
Benedito Florêncio esteve na celebração e ciceroneou os paulistanos dentro e fora
da sede do grêmio campineiro. Com eles, foi ao Bosque dos Jequitibás que tinha “lugares
apropriados para uma palestra íntima”, observando o “lago onde deslizam os patos grandes”,
os símios menores que “saltam de um lado a outro”, ou qualquer outra ação dos “mil
atrativos” do local. O passeio ficou mais agradável porque o jornalista campineiro se mostrou
“alegre, brincalhão e expansivo, não admitindo um pequeno sinal de tristeza”. Uma cena
causaria aflição entre os visitantes. Eles viram dois sapos, um morto e outro encarando uma
cobra “esperando a hora fatal” em que seria “devorado por tão temível inimigo”. E nem neste
momento Florêncio permitiu outro sentimento que não fosse a alegria. Ele aproveitou a
situação para contar a história do criador de cobras e todos se esqueceram do sofrimento dos
animais. Aquela viagem era para isto, para viver um “dia [que] parecia uma história do
paraíso”. Servia para contemplar a natureza, ir a um bar que convidava “o visitante a um
descanso, a um refresco artificial”. A companhia de duas senhoras tornava, de acordo com o
relator d’O Kosmos, aquele passeio ainda mais parecido com o paraíso117.
A “Sociedade Dançante Princesa do Oeste” oferecia bailes e nos dias de carnaval
também desfiliava pela cidade, além de organizar festejos cívicos. O correspondente d’O
Patrocínio atuava como seu diretor. Os relatos da festa e do passeio no dia seguinte mostram
um pouco do cotidiano das celebrações das associações de homens de cor e a suas conexões.
Nessa festa há o rito de praxe: a fala dos dirigentes, a entrega de mimo por parte dos
convidados, danças, comidas e bebidas, porém também se percebe a atuação das sócias na
recepção dos convidados, que aumentavam o brilho do evento. O destaque pode ter
acontecido porque a matéria fora escrita pel’O Kosmos, órgão de um grêmio dramático e
recreativo de mesmo nome da cidade de São Paulo, que possuía uma comissão de damas que
era constantemente elogiada pelo seu periódico por ser muito engajada. Em 1922, dos três
sócios beneméritos do grêmio, duas eram mulheres, Luiza Moura Baptista e Margarida de
Oliveira118. Em todo caso, essa matéria é mais uma evidência de que os quadros femininos
tinham funções de destaque nas sociedades campineiras, neste caso na recepção de
convidados; em outros, aparecem nas encenações literárias.

116
“Campinas”. Kosmos, out. 1922, p. 3.
117
“No Bosque”. Idem. p. 1.
118
O Kosmos, nov. 1922, p. 2.
229

No bosque, outra face de Benedito Florêncio é apresentada: a de brincalhão. O


lado descontraído de figuras importantes aparece constantemente nos relatos de viagens. Lino
Guedes, por exemplo, “com a graça que lhe é peculiar, recitou algumas de suas apreciadas
poesias humorísticas”, durante uma visita da “Sociedade Beneficente 13 de Maio” de
Piracicaba à Campinas, em 1923119. Apesar de seguirem a mesma programação dos bailes e
dos grandes festejos, as excursões e piqueniques são noticiados de forma mais leve,
focalizando mais as interações e os divertimentos entre os participantes do que o conteúdo dos
discursos dos dirigentes. Cabe aqui ressaltar e repetir: as agremiações de homens de cor foram
fundadas em um contexto de interdição e forte vigilância das festas e outras práticas de lazer
das populações negras, por isso, quando jornais publicavam a maneira adequada de se
divertir, continuavam a cumprir seu papel pedagógico.
Outro ponto que aparece com frequência nas viagens dos homens de cor foi o
cenário: o Bosque dos Jequitibás foi muito frequentado por entidades da capital e do Oeste
Paulista. A diretoria do “Clube Aliados”, uma organização carnavalesca da capital, saiu “no
primeiro trem”, às 5:25 da manhã, seguida de “muitas senhoritas e cavalheiros” de cor e
encontraram uma “imponente recepção dos membros das diversas sociedades campineira”,
liderada por Benedito Florêncio. Da estação foram até o bosque acompanhados pela
corporação musical “Ítalo-Brasileira”, que continuou a tocar “valsas, tangos e dobrados”,
gerando “um pequeno baile ao ar livre”. E tudo ocorreu “no melhor convívio familiar”. “As
principais promotoras do piquenique, as senhoras Martinha de Freitas (presidente), Aurora da
Silva (vice) foram de uma gentileza sem par para com os presentes” e não permitiram
descontentamentos. Foi “servido café em abundância e um apetitoso almoço, acompanhado de
cerveja e doces”. Partiram ao final da tarde “todos alegres e satisfeitos com as amabilidades
recebidas”120. Por conta disso, o presidente do “Grêmio Barão de Rio Branco” fez questão de
elogiar em carta aberta os organizadores, que ele acreditava serem os diretores do “Grêmio
Dramático e Recreativo Kosmos”, e a comissão campineira, em especial Albino de Souza
Aranha e Benedito Florêncio121.
Apesar dos conflitos com a “Associação Protetora dos Brasileiros Pretos”, o
Getulino no relato de viagem da “Sociedade Beneficente 13 de Maio” de Piracicaba chamava
Albino de Souza Aranha de “decano [entre] os homens de cor de Campinas e grande lutador

119
“Piracicaba em Campinas – Excursão da Sociedade 13 de Maio”. Getulino, 09 dez. 1923, pp 2-3.
120
“Piquenique em Campinas”. O Kosmos, nov. 1922, p. 3.
121
LIMA, Adolpho. “Referência”. Idem.
230

em prol da classe”, “velho defensor da classe e zeloso funcionário público”122. Adjetivos bem
diferentes aos que foram usados nas colunas “Respondendo”123. Sua presença na
administração do bosque parece ter sido fundamental para que o local se tornasse um ponto de
encontro das caravanas negras. Durante a passagem dos piracicabanos, ele discursou no início
do piquenique e depois, quando eles estavam de saída, foi visitado em sua residência, onde
houve discursos de agradecimentos124. Assim, além de um facilitador de reserva, ele era uma
pessoa que merecia reverência por parte de outros homens de cor e, talvez, a procura pelo
bosque fosse, também, para prestar certa homenagem a ele.
O articulista d’O Kosmos parece que tinha razão quando afirmou que o Bosque
dos Jequitibás tinha “lugares apropriados para uma palestra íntima”. Anúncios e notas de
fofocas indicam que romances e as aventuras amorosas aconteciam durante as excursões, é
possível que uma das finalidades desses encontros era a formação de jovens casais. Uma
chamada nesse mesmo periódico dizia que se projetava “em breve entre a ‘jeunesse dorée125’
um formidável piquenique” em Campinas, ainda sem data agendada. Sua diretora era uma
senhora que entendia do “métier”, e planejava, como em outras ocasiões, uma abundância de
comida e, especificamente para aquele momento, com “uma infinidade de surpresas mais, a
menor das quais será o estouro de… uma dúzia de corações apaixonados e outros tantos
engrossamentos”. Finalizava pedindo: “apresentem-se, pois, jovens e senhoritas para o
próximo e retumbante piquenique”126.
Assim como nesse anúncio d’O Kosmos, nos casos em que excursões e
piqueniques eram organizados por pessoas de diversas sociedades, as matérias costumavam
dizer que os eventos contavam com a participação de cavalheiros, senhoritas e senhorinhas.
Esse fato é curioso porque os adjetivos mais usados para classificar os dirigentes das
associações eram senhores e senhoras, enquanto suas meninas, filhas e netas, eram chamadas
de senhorinhas. Desta forma, o principal público das viagens parece ser de homens e mulheres
jovens. Talvez tais excursões fossem mais onerosas que os bailes cotidianos, especialmente
para os casais com filhos.
Outro ponto que poderia atrair rapazes e moças para esses eventos seria a
facilidade de conversar com pessoas do sexo oposto. Os estatutos das associações paulistanas
indicam que dentro da sede havia uma vigilância permanente, realizadas por fiscais e mestres-
122
“Piracicaba em Campinas – Excursão da Sociedade 13 de Maio”. Getulino, 09 dez. 1923, pp 2-3.
123
Sobre as brigas entre Albino de Souza Aranha, ver capítulo 2.
124
“Piracicaba em Campinas – Excursão da Sociedade 13 de Maio”. Getulino, 09 dez. 1923, pp 2-3.
125
Juventude de ouro em tradução do livre do francês.
126
“Piquenique”. O Kosmos, 18 mai. 1923, p. 3.
231

salas. No “Grêmio Dramático Recreativo Kosmos”, eles tinham a função de “fiscalizar todas
as festas e reuniões”, chamar a atenção e até suspender quem se comportava
inadequadamente, “fazer com que haja ordem no salão” e garantir que as regras das danças
fossem respeitadas127. Jonatas Roque Ribeiro encontrou um quadro semelhante em Pouso
Alegre, mas no “Clube 28 de Setembro” as mulheres ocupavam o cargo de fiscais porque “os
associados acreditavam ser função das mulheres zelar pela honradez e decência dos
sócios”128. Esse tipo de regra aparece em diversos estatutos de sociedades recreativas, e é
possível que em entidades de outro gênero houvesse uma situação parecida, uma vez que
muitas também promoviam bailes. Diante da fiscalização, a dança oferecia a oportunidade de
uma conversa mais íntima dentro das sedes, mesmo assim era preciso ser discreto, para não
ser exposto nos jornais, como Honório que ficava “dançando com a cabeça encostada com a
dama”129. Nos bosques e jardins, era possível se distanciar um pouco do grupo, mantendo-se à
vista, mas sem serem ouvidos. Além disso, havia a possibilidade de conhecer novas pessoas
que não frequentavam a sua associação.
Dois episódios ilustram o clima de romance das excursões. Em 1920, a
“Sociedade Recreativa Familiar Estrela do Norte”, de Campinas, festejou com membros de
associações conterrâneas e da capital paulista, especificamente o “Grêmio Kosmos”, “Pendão
Brasileiro” e o “Grupo dos XX”. Nesta festa, os articulistas d’A Liberdade pegaram “por
engano” o leque de uma senhora que escondia bilhetes amorosos e os publicou. Eles
divulgaram as iniciais do nome da proprietária do leque, “F. A”, que acreditavam estar
passando por “dissabores por causa de amores, estando, talvez, quase descrente dos homens e
sua palavra”. E desejavam que isso fosse “um pensamento que em breve” desaparecesse,
substituído por outros130. O outro episódio registrou a passagem dos piracicabanos da
“Sociedade Beneficente 13 de Maio” e dos paulistanos da banda “União da Lapa”, em
dezembro de 1923. Lili Prosa131 descreveu acontecimentos a par das solenidades corriqueiras,
que julgou ser “uma sessão de discursos que parecia primeiro ano de escola” e toda sua
descrição segue com esse mesmo tom irônico que usou para classificar os discursos de

127
Grêmio Gramático e Recreativo Kosmos. “Estatuto do Grêmio Gramático e Recreativo Kosmos”. 1º Cartório
de Registro Civil, Arquivo Público do Estado de São Paulo. 01 dez. 1921.
128
RIBEIRO, Jonatas Roque. Escritos da Liberdade: trajetórias, sociabilidade e instrução no pós-abolição sul-
mineiro (1888-1930). Dissertação de Mestrado, UNICAMP, Departamento de História: Campinas, 2015, p. 77.
129
“Na Festa do Kosmos”. O Alfinete, 28 set. 1921, p. 3.
130
“Campinas”. A Liberdade, 31 out. 1920, p. 3.
131
Provável pseudônimo de algum colaborador, impossível de identificar porque aparece esta única vez.
232

Benedito Florêncio, Lino Guedes, Marcolino Evaristo e de outras lideranças negras presentes
no encontro132.
Registrava, então, que a senhorinha Neves aproveitara a ocasião para matar “a
saudade ao lado do Ditinho player”, um dos craques da “A. A. São Geraldo”. Percebeu “os
olhares da senhorinha O. Aranha a um certo jovem, (que lindos olhos)” e que alguém recebeu
“convite particular no bosque”. Viu “a mais bela conquistando novos amores”, enquanto
algumas visitantes ficaram “encantadas com os 3 irmãos, que sorte”, mas, em sua opinião,
havia algum problema com eles, porque logo em seguida comentou: “se elas soubessem,
diriam o contrário”. A senhorita Cecília amolava o autor do artigo “procurando um jovem” e
Ciloca cometeu a gafe de ficar “intrigando um rapaz a sua companheira”, por isso ele dizia: “o
final é [o] suicídio de ambos”. Outros dois casos eram comentados através de insinuações. No
primeiro escreveu que um “amiguinho ia ficando sem dedo por causa de uma viúva”, o que
pode significar que durante a despedida o casal ficou de mãos dadas até o último momento da
partida do trem. No segundo caso, confirmou que o “homem do dia não irá a P… por causa da
guerra em casa”, recomendando que confessasse, “como os rapazes de Piracicaba que a sua
penitência é esta”. No começo do texto, o autor informou que muitos rapazes não gostavam
de seu trabalho porque “há uns águias terríveis que não têm ponto de parada. Às moças
direitas apenas são aeroplanos sem motor”, ou seja, saltavam de uma para outra rapidamente,
usando-as para rápidos casos conjugais. Para um, especificamente, “o rapaz de cor da nossa
bela Campinas”, que foi alçado a homem do dia, sugeriu que se dedicasse a uma sociedade
moral. Diante do perfil traçado de certos jovens e das sugestões feitas, é possível entender que
ele não iria à Piracicaba porque havia tentado ou tivera alguma relação extraconjugal no
evento133.
A bibliografia sobre Imprensa Negra paulistana já discutiu o caráter moralista e
controlador desses jornais, em especial em relação às mulheres 134. Em artigos e editoriais essa
caraterística aparece na forma de críticas genéricas, enquanto nas notas de desgostos e
fofocas, a desaprovação era feita diretamente por meio do uso de nomes e suas abreviações,
apelidos e atributos peculiares. O deboche e a ironia também marcavam esses espaços. Então,
a identidade de F. A. não foi protegida, ao contrário, provavelmente os leitores teriam
facilidade de reconhecê-la. Já a divulgação do conteúdo dos bilhetes poderia ser uma forma de
132
PROSA, Lili. “Prosa”. Getulino, 09 dez. 1923, p. 3.
133
Idem, p. 3.
134
Ver: DOMINGUES, Petrônio. Uma história não contada op. cit.; LUCINDO, Willian Robson Soares.
Educação no pós-Abolição op. cit; CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco Cardoso. A luta contra a apatia op.
cit.; TIEDE, Lívia Maria. Imprensa Negra: op. cit.
233

ridicularizar a dona do leque e condenar seu comportamento. No texto do Getulino, é possível


perceber que, apesar do tom, essa parte da Imprensa Negra também tinha uma função
pedagógica. A conduta e fama de alguns homens mereciam a condenação por não trazerem
respeitabilidade ao grupo; provavelmente reforçariam a ideia de promiscuidade e vadiagem
das mulheres negras e de famílias desestruturadas que foram apresentadas no capítulo um. Se
havia algum estímulo para a formação de casais durante esses passeios, como pôde ser visto
no anúncio e até mesmo no registro de Prosa, especialmente nos casos da senhorinha Neves e
do rapaz que “quase perdeu” a mão, também houve preocupação em regrar como isso podia
acontecer.
Conforme discutido no primeiro capítulo, jornais de circulação ampla, ao tratarem
do suposto vício da raça negra, caracterizavam as mulheres negras como vadias que
ganhavam dinheiro através da prostituição e seus companheiros, quando tinham, como ladrões
(embora geralmente fossem mulheres sem maridos). As cenas de homens negros e mulheres
negras bebendo em bares eram condenadas em suas páginas porque insultavam as famílias,
que também não conseguiam transitar em determinadas ruas onde eles se aglomeravam. Os
dirigentes das associações e de jornais de homens de cor lutavam contra essa visão negativa.
Paulino de Jesus Francisco Cardoso aponta que a “comunidade de letrados” exaltava como
parte de sua moralidade o emprego fixo e a família135 Sônia Maria Giacomini percebe uma
situação parecida no “Renascença Clube”, onde a afirmação incisiva e veemente da existência
de família”, por parte de seus associados, era uma forma de se distinguir dos outros negros,
exibindo “quase como um emblema uma família completa, estável, monogâmica, com
história”136. E, segundo Karla Leandro Rascke, entre os articulistas negros de Florianópolis,
“tornaram-se recorrentes preocupações em enfatizar a família como corpo constituinte dos clubes
gestados e organizados por ‘homens de cor’, denotando o reforço desse comportamento e símbolo
social reatualizado na República”137. O valor da família não foi muito diferente em Campinas e
Piracicaba e é possível ver a família como símbolo de respeitabilidade nos exemplos de
homens de cor. Por conta de tudo isso, não poderiam fazer parte do associativismo negro
homens que se aproveitassem de mulheres direitas, nem mulheres que fossem levadas por
conversas de homens mal-intencionados. Esperava-se que homens e mulheres de cor se

135
CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco. A luta contra a apatia op. cit.
136
GIACOMINI, Sonia Maria. A Alma da Festa: família, etnicidade e projetos num clube social da Zona Norte
do Rio de Janeiro – o Renascença Clube. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2006, p. 74.
137
RASCKE, Karla Leandro. Samba, Caneta e Pandeiro: op. cit., p. 97.
234

apresentassem de maneira diferente das tão criticadas aglomerações de pretas e pretos; por
isso divulgavam seus deslizes, na tentativa de corrigir os desvios.
Sônia Maria Giacomini afirmou, em seu estudo sobre o “Renascença Clube”, que
ele tinha “três imagens, três possibilidades de caracterização: academia de mulatas, espaço de
sociabilidade, organização do movimento negro”, tudo ao mesmo tempo, sem que tivesse
necessariamente etapas bem divididas. Ainda, que quem conheceu e viveu essas três
características, não esconde que, “por trás de seu amor ao Renascença, há uma opção
indisfarçável, ou claramente anunciada, por um momento particular, aquele em que,
realmente, ‘fomos felizes’”, que acontecia por meio de seus saraus, concursos e festas. A
felicidade proporcionada por essa sociedade negra contrastava com o ambiente hostil onde
estava localizada138. Caracterizar-se como um espaço de sociabilidade e de militância negra
não parece exclusividade do “Renascença Clube”, nem a busca e oferta de momentos de
felicidade contrastando com a hostilidade sofrida. Conforme afirmou Alexandre Lazzari, ao
tratar das associações de Porto Alegre, elas “eram o lugar da sociabilidade e do lazer das
famílias negras, servindo também de iniciativas culturais e de solidariedade”, que também
conferiam “dignidade e autoestima a seus integrantes”139.
Era função das associações de homens de cor divertir seus associados e suas
famílias. Junto com as encenações dramáticas e o futebol, a música e as danças aparecem
como as principais formas de divertimento. Em um dos poucos artigos dedicados aos bailes
semanais das associações de homens de cor, Petrônio Domingues conseguiu identificar os
instrumentos que compunham as jazz bands e orquestras que tocavam nesses espaços. Elas
“eram formadas majoritariamente por instrumentos de sopro”, percussão, piano, “ao menos
um instrumento de corda” e não se renunciava ao pandeiro, porque com ele eram tocadas as
músicas consideradas brasileiras140. Em Campinas, valsa, tango, quadrilhas e lanceiro (uma
espécie de quadrilha que ainda se dança no Rio Grande do Sul) são danças que aparecem
frequentemente e chorinho era algo que também se escutava bastante, enquanto sambas e
tambú embalavam os piracicabanos, que também gostavam de caruru, brincar com pau de
sebo e porco engraxado.

138
GIACOMINI, Sonia Maria. A Alma da Festa: op. cit. p. 16 e 26.
139
LAZZARI, Alexandre. Coisas para o Povo Não Fazer: op. cit. pp. 193-194.
140
DOMINGUES, Petrônio. “Nos Acordes da Raça: a era do jazz no meio afro-brasileiro”. Revista Tempo
&Argumento, vol. 10, n. 25, pp 66-98, jul./set. 2018, pp. 74-76.
235

Figura 18. Anúncio de festa da “Sociedade Beneficente 13 de Maio”.


O Patrocínio, 7 set. 1928, p. 4.

O carnaval também parece ter sido importante, porém pouca informação foi
encontrada. Em Piracicaba, a “Sociedade Beneficente 13 de Maio” fundou uma escola de
samba na década de 1940 e em suas atas a preocupação com os folguedos de momo só
aparecem a partir dos anos de 1930. Em Campinas, ao menos três associações de homens de
cor realizavam festas carnavalescas na década de 1920: os “Excêntricos”, que algumas vezes
conseguiu apoio municipal para seus festejos, que foram mais noticiados na década de 1910 e,
provavelmente, tenha desaparecido logo no início dos anos de 1920; a “Sociedade Dançante
Princesa do Oeste”; e o “Grupo Carnavalesco dos Camisas Verdes”, que fora fundado, em
1923, por Hygino de Oliveira, um correspondente do jornal O Kosmos e diretor do grêmio,
que parece ter sido o elo entre paulistanos e campineiros141. Em 1924, “as senhorinhas
Juventina da Silva e Clotilde Rodrigues Alves (Tina), filha do sr. Geraldo Rodrigues”,
correspondente do semanário negro em Limeira, foram a Campinas “a fim de assistir o
carnaval”142. Em 1928, O Patrocínio informava que o cordão “Princesa d’Oeste” de
Campinas, que visitara Piracicaba em janeiro daquele ano, “conquist[ara] o primeiro lugar no
carnaval (…) no concurso de Ranchos e Cordões”, por seus feitos haviam recebido uma taça e
“ao sr. Luiz N. Feijó, coube uma medalha de ouro, como diretor de orquestra”143.
Nos jornais de circulação ampla, destacavam-se os eventos do “Clube
Campineiro”, “Clube Semanal de Cultura Artística”, “Clube Português” e da “Sociedade Luiz

141
Sobre esse sujeito e suas ligações com a capital de São Paulo, ver: “Chapa Oficial para Diretoria do Grêmio”.
O Kosmos, 21 dez. 1924, p. 1; “Grêmio Dramático e Recreativo Kosmos”. O Kosmos, 18 mai. 1924, p. 3;
“Dizem que…”. O Kosmos, 21 dez. 1924, p. 4; “Dizem que…”. O Kosmos, 22 jun. 1924, p. 2; Getulino, 16 mar.
1924, p. 3.
142
“Na Cidade”. Getulino, 9 mar. 1924, p. 3.
143
“Princesa d’Oeste Piquenique Clube”. O Patrocínio, 7 abr. 1928, p. 2.
236

de Camões”. De acordo com Paula Christina Bin Nomelini, um trabalhador campineiro negro
conseguiria se associar às sociedades mutualistas da cidade para conseguir auxílio em caso de
doença, até mesmo nas sociedades italianas ou portuguesas se fosse associado de uma delas, e
colocar seus filhos em uma de suas escolas, “convivendo com filhos de trabalhadores brancos
pobres”. Poderia assistir a palestras e peças nas associações operárias, porém “dificilmente,
estaria presente em bailes de carnavais oferecidos pelas associações portuguesas”. Por isso,
“esse trabalhador negro frequentaria os bailes de associações recreativas negras”144. Essa,
talvez, fosse a razão pela qual alguns colaboradores do Getulino convidaram o “Grupo
Carnavalesco Campos Elíseos” para visitar a cidade, em 1924.
Naquele ano, seguiram “de automóvel para a capital [paulista] os srs. Gervásio de
Moraes, Claudiné Florêncio Lino Guedes e Francisco Marcondes, respectivamente secretário,
colaborador, redator-chefe das oficinas do Getulino” para participar dos festejos de carnaval.
Em São Paulo, estiveram nas associações de homens de cor, em que “foram cumulados de
gentilezas”145 e viram a vitória do “Grupo Carnavalesco Campos Elíseos”. Seu presidente,
Argentino Celso Wanderley146, visitou Campinas logo após o término dos folguedos, sendo
recepcionado por Gervásio de Moraes, que o apresentou à cidade até a hora do almoço.
Comeram na casa do casal Benedito e Brasília Florêncio, acompanhados de outros membros
do periódico. Esta foi primeira visita do dirigente paulistano no município, que ficou
“maravilhado”, por isso prometeu levar seu “afinado” grupo carnavalesco147. E “o campeão
dos pequenos clubes carnavalescos da capital” cumpriu a promessa cerca de um mês depois.
Desfilaram “garbosamente pela cidade, sob aplausos de toda a população” em
direção à casa de Benedito Florêncio, onde “os visitantes, depois de elegantes evoluções,
fizeram alto, para ouvir a quente saudação (…) à alegre mocidade paulistana”. Ela foi
retribuída por João Teodoro de Souza, o orador paulistano. Passadas as solenidades, ritmaram
uma marcha rumo ao Bosque dos Jequitibás, “com afinadas canções”. Tiveram um “ligeiro

144
NOMELINI, Paula Christina Bin. Associações Operárias Mutualistas e Recreativas em Campinas. Op. cit. p.
186.
145
“Excursão”. Getulino, 16 mar. 1924, p. 3.
146
A trajetória de Argentino Celso Wanderley é usada por Petrônio Domingues para indicar equívocos na
dicotomia entre elite de cor e pretos da plebe. Em seus primeiros anos, o cordão era criticado porque, do mesmo
modo que nos bailes públicos, cobrava entradas na porta, o que obrigava a “diretoria a aceitar e recolher toda
espécie de elemento ruim, originando, mais tarde, conflitos, desordens etc.”. As associações da considerada elite
de cor paulistanas, ao contrário, costumavam cobrar as mensalidades dos sócios e só aceitavam convidados com
boa índole comprovada (ver “Campos Elíseos”. A Liberdade, 1 fev. 1920, p. 2.). No entanto, em 1928, ele criou
o jornal O Progresso, “destinado as camadas letradas da população” e que teve a participação de Lino Guedes.
Wanderley também liderou o comitê em prol da construção da herma de Luiz Gama, “o que lhe conferiu
prestígio e respeitabilidade”. DOMINGUES, Petrônio. Protagonismo Negro em São Paulo op. cit. p. 88-89.
147
“Vida Social – Argentino Celso”. Getulino, 30 mar. 1924, p. 3.
237

descanso” até começarem as danças e outros divertimentos, que confundiram em uma só


família “campinenses e paulistanos, emprestando muita vida àquele pitoresco ponto de
diversão”. Havia “grupos de pessoas que se divertiam em pular cordas, cantar desafio ao
violão”, outros estavam no balanço e dançando. Quando o almoço foi servido, os oradores
voltaram a fazer discursos de agradecimentos. A “Sociedade Dançante Princesa d’Oeste”
também estivera presente e tocando ao lado da coirmã convidada. Ao final da tarde, os
visitantes foram embora e o articulista desejava “oxalá que visitas como estas se reproduzam,
para cada vez mais os laços de amizades que unem campineiros e paulistanos estreitem dia a
dia”148.
Pensando na “defesa da classe/raça” contra o “preconceito de cor”, o anseio
manifestado pelo articulista parece ser o principal objetivo dessas viagens: estreitar laços de
amizades. Não é possível dimensionar quais laços, se políticos ou de amizades, uniram mais
os homens de cor nos projetos em busca dos direitos de cidadania; contudo, é possível afirmar
que ambos se misturavam e um dependia do outro. Parcerias de trabalho eram estabelecidas
enquanto relações afetivas se firmavam ou eram reforçadas pelo trabalho coletivo. A prática
rotineira das lideranças negras em receber seus pares de outras cidades em suas casas, junto
com suas famílias, demonstra a mistura do profissional com o pessoal. A exposição da face
jocosas desses líderes reforçava o caráter intimista das reuniões.
Além de homenagear as coirmãs de outras localidades, as “viagens de recreio”
também estavam preocupadas com a conquista de prestígio, tanto dos grupos excursionistas,
quanto dos anfitriões. Neste sentido, a análise de Cláudio Henrique de Moraes Batalha sobre
as celebrações de primeiro de maio organizadas pelas sociedades operárias é um interessante
prisma para entender os ritos das associações de homens de cor. Segundo o historiador, “a
apropriação de locais públicos como espaço da política implica também a observância de
certos procedimentos. A manifestação é um teatro político, que faz uso do espaço como seu
palco”: a teatralização acontece desde a escolha do local, das formas como se manifestam, do
grau da ritualização até a indumentária dos participantes149. No esteio de sua compreensão,
pode-se entender que todas as marchas empreendidas pelos visitantes, bem como a própria
narrativa sobre elas, são teatros políticos. Desfilar com um grupo de negros que era campeão
de carnaval pelas ruas da cidade, sem causar desordem, era uma forma de exibir a capacidade
148
“G. C. ‘Campos Elíseos’ – Sua visita a Campinas”. Getulino, 1 mai. 1924, p. 2.
149
BATALHA, Cláudio Henrique de Moraes. A Geografia “Associativa: associações operárias, protesto e
espaço urbano no Rio de Janeiro da Primeira República”. In: AZEVEDO, Elciene; CANO, Jefferson; CUNHA,
Maria Clementina Pereira; CHALHOUB, Sidney. (Org.). Trabalhadores na cidade: cotidiano e cultura no Rio
de Janeiro e em São Paulo, séculos XIX e XX. Campinas: Editora da UNICAMP, 2009, p.257.
238

negra, que ficava ainda mais evidente com os adjetivos escolhidos para elogiar os
participantes, o que significava também fazer um autoelogio.
Além de intercâmbios e cooperações entre as associações de homens de cor,
membros do associativismo negro participavam de associações operárias mutualistas150 e
interagiam durante as festas, como pôde ser visto, isso fazia com que muitos ritos de operários
e homens de cor tivesse formato e objetivos similares. A estrutura das “festas de propaganda”,
como diz Francisco Foot Hardman, tinha encenações artísticas com dramas e poesias,
seguidas de conferência e no final um baile. A partir de 1917, surgiram os festivais públicos
ao ar livre, com piqueniques, apresentações dramáticas, partidas de futebol e outras atividades
esportivas, músicas e dança, que elevaram os níveis de mobilização. Nas duas situações, seus
dirigentes tentavam promover diversões aliada a ensinamentos em prol da elevação moral da
classe e alcançar a respeitabilidade151.
Já foi afirmado diversas vezes ao longo dos capítulos que o principal objetivo da
maioria das associações de homens de cor foi a diversão. Mesmo que seus dirigentes se
frustrassem, pois acreditavam que elas podiam fazer mais do que bailes, esta meta teve sua
relevância na “defesa da classe/raça” contra o “preconceito de cor”. Era por meio de
divertimentos que eles firmavam e reforçavam os laços de solidariedade e políticos com as
agremiações e figuras importantes de sua cidade e fora dela. Isso fica patente no caso das
viagens, fossem elas a trabalho ou a passeio; é bem verdade que uma se confundia com a
outra. A reunião para fechar um acordo de apresentação de uma peça era feita em meio a
brindes, danças e comilança, enquanto um acordo podia ser construído durante a folia do
carnaval. Mais do que parcerias, os intercâmbios entre as associações proporcionavam
ligações afetivas entre os diversos associados que compunham as excursões. Jovens
cavalheiros, senhoritas e senhorinhas experimentaram romances, alguns sem maiores
consequências, outros se tornariam namoricos e, em alguns casos, dariam origem a famílias
que garantiriam a manutenção das associações por mais uma geração. O destino dos flertes
não importa tanto, o fundamental mesmo é saber que, em meio às pressões e aos
cerceamentos sofridos pelas populações negras, as associações de homens de cor conseguiram
criar momentos em que seus participantes se sentiam em uma “história de paraíso”.

150
Conforme apresentado no capítulo 2.
151
HARDMAN, Francisco Foot. Nem Pátria, Nem Patrão! op. cit. ver em especial capítulo 1.
239

5.4 O exemplo feminino e o Concurso de Beleza do Getulino


“Estando em voga os concursos de beleza” na década de 1920, o Getulino
resolveu realizar o seu, adotando o padrão divulgado por “jornais e revistas modernas”. Logo
em seu segundo número, o Getulino cumpria a promessa de divulgar, ainda “não completa, [a]
lista dos prêmios a ser[em] conferidos às vencedoras em 1º, 2º e 3º lugares”. De acordo com o
periódico, havia muitas famílias de cor na cidade e o concurso seria uma oportunidade para
dar visibilidade a suas jovens de beleza. O final desse “prélio” aconteceria no dia 6 de
outubro, em “uma grande festa no Casino, tomando parte nela o G. D. ‘Luiz Gama’”, para a
qual já se vendiam ingressos. Seus leitores votaram por meio de um “cupom” que
encontravam ao final dos artigos sobre esse assunto. Depois de recortado, devia ser
preenchido com o nome da indicada e do eleitor, e enviado à redação152.

Figura 19. Cupom de Votação.


Getulino, 5 ago. 1923, p. 2

Este era o concurso de beleza citado pel’O Kosmos no primeiro capítulo, que era
apontado com uma das ações que estava unindo os homens de cor e “comprovando na classe
dos homens de cor existe o quê de inteligente (…), o quê de mais digno e belo”. Por meio
desse evento, o Getulino “cumpriu um dever”, segundo a folha paulistana153. Neste sentido,
pretende-se analisar como foi sua organização a fim de entender sua relevância dentro da
“defesa da classe” contra o “preconceito de cor”. Ao que tudo indica, mais do que a elevação
da autoestima de mulheres negras por meio da valorização corpo feminino, os homens de cor
envolvidos tentaram passar às mulheres de cor a imagem de respeitabilidade.

152
“Concurso de Beleza”. Getulino, 5 ago. 1923, p. 2.
153
RODRIGUES, Abílio. “Laís de Moraes”. Getulino, 6 jan. 1924, p. 1.
240

Entre agosto e setembro, o jornal publicou notícias semanais sobre o concurso e as


listas parciais de votos; as fotos das candidatas não foram divulgadas, talvez isso tenha
acontecido na primeira edição. Tal ausência sugere que as moças eram conhecidas do circuito
associativo. Algumas de fato eram. De acordo com uma entrevista dada após o final do
concurso, Laís de Moraes era sobrinha de um dos idealizadores do periódico, no entanto não é
possível saber se era de Alcino de Moraes, que foi sócio de Martino de Andrade nos primeiros
três meses de sua existência, ou de Gervásio de Moraes, redator secretário desde a
fundação154. Luiza de Andrade era sobrinha de Leopoldo, Christino e Martinho Andrade,
segundo uma nota comemorativa de seu aniversário155, contudo, estes eram apontados como
os únicos filhos de Narcisa Andrade em nota de sua missa de sétimo dia156. Seus pais nunca
foram nomeados. Noêmia Nery era irmã de Maria e João Nery, colaboradores do Getulino, e
filha de Manoel Phelippe Nery157. As duas eram frequentadoras do “Grêmio Dramático Luiz
Gama”. Desta forma, os organizadores cumpriam o objetivo de dar visibilidade às jovens de
famílias de cor.
Para premiar as vencedoras, o jornal firmou acordos com uma perfumaria, a Casa
Bucci, uma joalheria, chamada Panoni, e uma loja de roupas, a Casa Alemã, que ofereceram
“ricos e valiosos mimos”158. Ainda colaboraram: a Casa Gerin, com um chapéu; a Casa
Genoud, com um porta-joias e um calendário artístico; a Casa Mousinho, com um vidro de
tinta para caneta; e a Casa Iracema, com um colar159. Apesar das frequentes promessas, o
periódico em momento algum divulgou a lista toda da premiação, talvez por causa de
problemas de organização. Até a publicação do dia 9 de setembro estava prevista que a festa
de encerramento aconteceria no dia 6 de outubro, uma semana depois, em 16 de setembro, a
data foi mudada para o dia 13 de outubro, quando a cerimônia de fato aconteceu. Além das
casas comerciais, o concurso chamou a atenção de cineastas. De acordo com o Getulino, os
proprietários da “Independência Film”, de São Paulo, enviaram um emissário para negociar
uma autorização de filmagens do evento e convidar “as senhorinhas que tiverem a ventura de
ostentarem na fronte as coroas que signifiquem a beleza, para figurar na película Sol e
sombra”160.

154
GUEDES, Lino. “Questionário”. Getulino, 13 out. 1923, pp. 1-2.
155
“Luísa Andrade”. Getulino, 6 jul. 1924, p. 1.
156
“Missa”. Getulino, 30 dez. 1923, p. 3.
157
Sobre a família Nery, ver capítulo 2.
158
“Concurso de Beleza”. Getulino, 19 ago. 1923, p. 2.
159
“Concurso de Beleza”. Getulino, 5 ago. 1923, p. 2.
160
“Concurso de Beleza”. Getulino, 30 set. 1923, p. 3.
241

A votação foi acirrada entre Alice de Campos e Laís de Moraes, que se revezavam
nas duas primeiras posições desde 2 de setembro. Luiza Andrade, que ficou quase todo esse
tempo em terceiro lugar, chegou a ocupar a segunda colocação na lista do dia 23 de setembro.
Na penúltima lista, a senhorita Laís de Andrade tinha 875 votos, 25 a mais que a senhorita
Alice de Campos, porém a vitória da primeira no dia 7 de outubro foi com ampla vantagem,
1.755 a 1.456161. Não foi encontrada nenhuma informação sobre o balancete do periódico, que
possibilitaria saber os números de assinantes e de vendas avulsas durante o período. Chama a
atenção o aumento do número de votos de uma semana para outra: no final, mais de 7.300
cupons foram enviados à redação.

161
“Concurso de Beleza”. Getulino, 2 set. 1923, p. 2; “Concurso de Beleza”. Getulino, 9 set. 1923, p. 3;
“Concurso de Beleza”. Getulino, 16 set. 1923, p. 3; “Concurso de Beleza”. Getulino, 23 set. 1923, p. 3;
“Concurso de Beleza”. Getulino, 30 set. 1923, p. 3; “Concurso de Beleza”. Getulino, 7 out. 1923, p. 3. A Revista
da Semana do Rio de Janeiro cobriu o evento e publicou a vitória de Laís por 5676 votos contra 5001 de Alice.
Revista da Semana, 27 out. 1923, p.14.
242

Figura 20. Fotos das sete primeiras colocadas do Concurso de Beleza do Getulino.
Revista da Semana, 27 out. 1923, p. 14.

A festa de entrega dos prêmios, que “para maior brilhantismo” exigia traje a rigor,
contou com participação da imprensa de ampla circulação local e do Rio de Janeiro, além de
homens de cor de outras partes do Estado162. Lacerda Werneck foi o primeiro a discursar. Ele
colaborava com o jornal publicando um folhetim e era considerado como um “verdadeiro

162
Idem.
243

amigo dos homens pretos” por causa da defesa que deles fazia 163. Sua fala foi toda transcrita,
com exceção da parte final que foi “encoberta por vigorosa salva de palmas”. Ele recorreu à
retórica da fraternidade para sustentar que o concurso era uma ação patriótica, como tudo o
que o Getulino havia feito até então. Colocava-se contra qualquer medida que visasse separar
negros e brancos: “malditos sejam os brasileiros que julgam o negro patrício um ser fora da
comunhão nacional desta pátria”, dizia ele, lembrando as condecorações recebidas por
Henrique Dias por seu heroísmo. Entendia que os “neo-brasileiros” ainda não conseguiam
sentir o mesmo amor pátrio que os brasileiros, porém desejava que os imigrantes que
pensavam em somente ganhar dinheiro no Brasil fossem combatidos. Criticando jacobinos ou
exclusivistas, preferia que se perdesse “a amizade de mil estrangeiros do que o negro a de um
branco ou o branco a de um negro”. Depois de elogiar o “Grupo Dramático Luiz Gama” por
suas ações e afirmar que no país “jamais há de vingar a teoria esposada pelos maus
brasileiros”, segundo a qual aos negros deveria “serem reservados lugares humildes no campo
político e social” e de dar vivas aos dois organizadores da comemoração, o articulista não
conseguiu acompanhar mais as palavras finais do orador164.
Como apontou Maria Aparecida de Oliveira Lopes, todas as notas que envolveram
o “Concurso de Beleza serviram como foco aglutinador das propostas de atuação negra
envolvendo parcela da sociedade negra campineira. Os debates da Imprensa Negra emergiram
nesse “espaço destinado ao culto da beleza negra feminina”165. Então, o papel das populações
negras na história do Brasil, a fraternidade brasileira enquanto igualdade entre brancos e
negros e a ideia de ser o racismo uma prática vinda de fora aparecem na fala de Werneck e em
uma defesa do Getulino contra o Il Pasquino que teria ridicularizado por mais de uma vez a
competição.
Infelizmente não foram encontradas as edições do periódico da colônia italiana de
1923 para que fosse verificado o teor da crítica. Benedito H. Ferreira defendia a iniciativa sob
o argumento que “a gente preta também é humana”, questionando “o que há, pois, de
estranhável em um concurso entre moças pretas, se elas também pertencem ao gênero
humano?”. Na cobertura do evento, o informante do Il Pasquino ainda teria dito que “um
certo cheirinho (…) havia no recinto onde se realizou o baile”. Diante dos insultos de sujeitos
que se sentiam incomodados com os pretos brasileiros, que viviam “em paz e tranquilidade”

163
“Lacerda Werneck”. Getulino, 21 out. 1923, p. 2.
164
“Concurso de Beleza”. Getulino, 21 out. 1923, p. 1.
165
LOPES, Maria Aparecida de Oliveira. Beleza e ascensão social op. cit. p. 107.
244

com os brancos, Ferreira pedia que seguissem o velho ditado: “os incomodados são os que se
mudam”166.
Apesar das denúncias de discriminação e de apontar que parte dos motivos da
situação desigual entre negros e brancos ser fruto de práticas preconceituosas e racistas, era
comum nos artigos da Imprensa Negra paulista a ideia de que a discriminação racial era algo
externo ao Brasil. Parece que a construção de uma narrativa que descrevia o país como
estando próximo de uma harmonia racial era uma tática dos homens de cor contra o racismo,
pois quando apresentavam situações de parceria entre brancos e negros (e, em poucos casos,
indígenas) na construção da nação demonstravam que, por questões patrióticas e nacionalista,
não se podia concordar com qualquer exclusão das populações negras. Desta forma, quando
havia embates com imigrantes ou com defensores de uma imigração em larga escala, os
homens de cor usavam uma retórica nacionalista e anti-estrangeira, afirmando que, como
negros, tinham o direito de estar no Brasil, enquanto os imigrantes deveriam se adequar ao
país, aceitando as pessoas negras em qualquer espaço, ou voltar para seu lugar de origem.
A festa de coroação das jovens seguiu o rito de outras grandes comemorações.
Logo após o discurso, o “Grêmio Dramático Luiz Gama” assumiu o controle da cerimônia,
oferecendo, primeiro um baile de máscara ao som da orquestra do maestro João Amaral,
depois apresentando encenações teatrais. As senhoritas receberam seus prêmios logo em
seguida: Laís de Moraes uma estatueta e um “custoso colar”; Alice de Campos, “um barrete
de ouro com pedras preciosas e um finíssimo colar”; à Luiza Andrade foi dada “uma caixa de
finíssimo pó de arroz e um broche de ouro”; e a quarta colocada, Petronilha Gomes, recebeu
uma corbelha de flores. A comitiva paulistana entregou, através de Benedito Rodrigues de
Camargo, uma medalha de ouro a Laís com a inscrição: “Em homenagem a Luiz Gama,
oferece à vencedora do Concurso de Beleza de Campinas. São Paulo 13 Outubro de 1923”.
Maria Eugenia Paranhos, conhecida como Eugeninha, tocou “com perfeição alguns números”
ao piano, enquanto Lino Guedes cantava e o público dançava167.
A sessão solene voltou no intervalo do baile, com falas de representantes do
Diário do Povo, Gazeta de Campinas, ambos exaltando o fim da escravidão e o progresso das
populações negras, apesar da existência do preconceito168. J. Augusto Marques falou
“sucintamente sobre o dever dos pretos”. Benedito Florêncio disse que “a pena e o livro são as
melhores armas que o preto deve manejar com mais constância para poder ombrear não só

166
FERREIRA, B. H.. “Que Atrevimento!...”. Getulino, 4 nov. 1923, p. 2.
167
Idem.
168
Idem.
245

com os irmãos brasileiros na cor como [com] os povos da civilizada Europa”169. Como
sempre, a instrução apareceu como a principal ferramenta para elevar as populações negras.
No dia seguinte, segunda-feira, houve festas particulares na casa da vencedora, com “uma
agradável reunião dançante” e de Benedito Florêncio, ambas com a presença de comitivas
paulistanas. Na terça-feira, foi a vez das senhorinhas do “Grêmio Dramático Recreativo
Familiar José do Patrocínio” visitarem Laís de Moraes, entregando-lhe “um artístico
ramalhete de flores” e endossarem o convite para a partida de futebol de seu time, que a
homenagearia170. Ao longo da semana, houve outras formas de celebração do Concurso de
Beleza e sua vencedora.
Laís de Moraes não era cortejada somente por sua beleza, seu intelecto e sua
moral eram as qualidades mais exaltadas, ou melhor, exaltava-se a ideia que se tinha desses
seus atributos. As homenagens a essa jovem foram usadas para “difundir a opinião dos
homens sobre a mulher negra ideal para representação do concurso de beleza” 171. Abílio
Rodrigues, que escreveu a Resenha do concurso para O Kosmos, dizia que não bastava a
“beleza do físico, é necessário também estudar os predicados da alma e do intelecto para a
completa formação do ser – a mulher” e que “esses dotes encontram-se em Laís”. Esta tinha
“simplicidade no olhar”, “na palavra franqueza e a lealdade de quem sabe exprimir o
sentimento da alma”; era “despida de preconceitos irrisórios”, de “sorriso amável e um olhar
meigo, que demonstram muito bem ocultar um coração bondoso, preparado para boas
ações”172. A montagem de sua entrevista, feita por Lino Guedes, explicita um pouco mais os
atributos que deveriam ser valorizados nas mulheres de cor.
O entrevistador logo que felicitou Laís de Moraes, teve como primeira resposta “-
Você, Laly, põe a gente em cada situação… Que vou dizer?”, sobre o uso do pronome ele
comentou “Você (tratamento chique, muito em voga no alto mundo carioca, influência talvez
do argentino)”. Aceitando participar da entrevista, ela pede que ele sente mais perto porque
tinha que terminar as aplicações e “datilografar algumas cartas”. O jornalista quis primeiro
saber o que ela achou do concurso, da iniciativa de criar um periódico e aproveitou para
discorrer sobre as dificuldades de ação no meio negro, com suas disputas entre as diversas
organizações. Neste momento, Laís de Moraes o aconselhou e consolou, sugerindo que
buscasse o Espírito Santo, porque era católica apostólica romana. Ela também demonstrou
169
“Concurso de Beleza”. Getulino, 28 out. 1923, p. 2.
170
Idem.
171
LOPES, Maria Aparecida de Oliveira. Beleza e ascensão social op. cit. p. 116.
172
RODRIGUES, Abílio. “Resenha”. O Kosmos, 15 dez. 1923 apud. “Laís de Moraes”. Getulino, 6 jan. 1924, p.
1.
246

conhecer o roteiro de entrevistas e “num cunho de gentileza” se ofereceu a “lhe poupar o


trabalhar de estar perguntando” questão por questão, resolvendo passar de uma vez algumas
informações. Talvez porque ela continuasse ocupada com as aplicações e datilografando.
Disse-lhe que não tinha namorado, que não tinha simpatia pelos bailes porque “os modernos
adeptos da dança não sabem cultivarem-na” como antes, mas idolatrava música e seu
instrumento preferido era o violino, também considerava que a moda era a elegância e que
todos deveriam “dar culto a elegância, pelo menos assim ordena o bom gosto”. Ela se dizia
assídua frequentadora do cinema Rink, que gostava de ler e já tinha “lido vários romances”.
Entendia que no “reino divino” das flores, a rosa era a dona do trono, mas que ela preferia
“procurar no cantinho em que vive a violeta em sua simplicidade graciosa”. O entrevistador
disse que compartilha de sua admiração pelas violetas, porém ela demonstrou ser atenta aos
detalhes e rebateu dizendo que suas palavras tinham o intuito de agradá-la, “pois noto que traz
sempre na lapela um lindo cravo”. Sobre o concurso, acreditava que ele representava uma
grande injustiça, porque outra era merecedora do título, mas ficou “satisfeita em ver que
houve pessoas que habituadas à bondade quiseram” ser-lhe gentil173.
Esse longo resumo se faz necessário porque um trecho da entrevista foi publicado
pelo Diário Nacional, em 1927, para “demonstrar o grau de adiantamento a que chegou a raça
negra em Campinas”174. Desta maneira, o objetivo de se mostrar respeitável e capacitado foi
alcançado, contudo, assim como acontecera com os negros piracicabanos175, os elogios não se
estendiam a todas as pessoas negras, ao contrário, destacavam-se exatamente por não se
parecer com o restante da população negra.
Na descrição de Abílio Rodrigues e na estrutura de apresentação da entrevista de
Lino Guedes, percebe-se a tentativa de colocar a beleza física de Laís de Moraes em um
segundo plano, como se os motivos de sua vitória fossem outros. Ela tinha valores que
mereciam exaltação e, por isso, assim como os homens de sucesso profissional, ela se tornava
um exemplo, não somente para as mulheres de cor, mas especialmente para elas. Ela tinha
ocupação, era estudante, demonstrava capacidade intelectual através do domínio cultural que
tinha e das argumentações bem construídas para defender suas ideias, não se deixava enganar
por palavras de agrado, era humilde e católica. Todos esses atributos contrastavam com as
representações de mulheres negras que estavam fora do mundo associativo. Deborah Silva
Santos estudou memórias de mulheres negras do bairro paulistano Bexiga e percebeu que no

173
GUEDES, Lino. “Questionário”. Getulino, 13 out. 1923, pp. 1-2.
174
“Sociedade”. Diário Nacional, 24 set. 1927, p. 2.
175
Ver capítulo 2.
247

meio negro se dizia que as mulheres negras desassociadas falavam alto e brigavam em
público; dançavam o samba, a umbigada, a gafieira; frequentavam festas desacompanhadas de
homens e em ambientes não familiares; andavam com maus elementos; iam à macumba; e se
vestiam sem decoro176. Eram as “mulheres desclassificadas” que apareciam com frequência
na imprensa de grande circulação, que permitiam de alguma forma que mulheres negras de
uma maneira geral fossem associadas à vadiagem, desordem e prostituição. Por isso, era
preciso que o concurso julgasse mais do que a beleza física, porque isso seria usado para
apresentar outra imagem de mulheres negras.
Giovana Xavier acredita ser possível pensar a beleza negra enquanto um conceito
histórico, porque percebeu, em seu estudo sobre cosméticos destinados às mulheres afro-
americanas que, para elas, “ser bonita dizia respeito à articulação entre good looking e a
feminilidade exemplar, na qual se destacava o exercício de algum tipo de ativismo social em
prol da sua comunidade”177. Sua sugestão parece útil para analisar os concursos de beleza dos
homens de cor. Apesar do concurso do Getulino não ter falas engajadas em prol da causa
negra feitas por mulheres negras e de sua imagem ter sido usada por homens em favor da
comunidade, nota-se que a beleza negra é uma categoria cívica178 que tentava apagar as
marcas da escravidão e de seu legado negativo, o vício da raça, ao mesmo tempo em que se
voltava para as contribuições dos escravos.
Logo após o evento dos campineiros, o “Grêmio Dramático, Recreativo e
Literário Elite da Liberdade” promoveu o Concurso de Beleza da Capital, porém sua votação
foi baixa e, para O Kosmos, isso era um exemplo de que se tinha “um tal estado de anomalia
ou desprezo” diante de “qualquer feito que um irmão de raça ousa, por espírito de coligação,
apresentar revertendo o mesmo em nosso proveito”. Os rapazes de cor demonstraram má
vontade, quando “deviam gloriar-se de entusiasmo” porque uma competição de beleza como
essa significava “colocar as nossas patrícias no grau de superioridade que são merecedoras;
confirmando assim, que, entre elas, existem muitas que são realmente bonitas”. O autor do
texto, Dominó, entendia que o principal motivo para a baixa adesão era a falta de instrução,
então pedia que os negros se educassem para “desmentir o mau conceito” que tinham179.

176
SANTOS, Deborah Silva. Memória e Oralidade: op. cit., p. 30.
177
XAVIER, Giovana. Brancas de Almas Negras? Beleza, racialização e cosmética na imprensa negra pós-
emancipação (EUA, 1890-1930). Tese de Doutorado, UNICAMP, Departamento de História: Campinas, SP,
2012, p. 04.
178
Idem. p. 324.
179
DOMINÓ. O Kosmos, 16 mar. 1924, p. 2.
248

Em 1928, O Progresso realizou outro concurso e as entrevistas com as primeiras


colocadas mostram o engajamento explícito das mulheres. A vice-campeã, Beatriz de
Carvalho, lembrou de Áurea Pires, “poetisa preta”, e considerou ser preciso ter “mais um
grande movimento em favor da mulher preta” para que ela pudesse “libertar-se mais uma
vez”, indo para o mercado de trabalho, em escolas, estabelecimento comerciais, escritórios,
em qualquer posto “em que possa pôr à prova a sua indiscutida capacidade de inteligência”. A
vencedora, senhorita Malvina, disse que não recebia com orgulho “o título de Miss Progresso,
mas com satisfação” porque era cheio de responsabilidade. Pedia que a vissem,
“especialmente as minhas coleguinhas, não um tipo de beleza, mas a imagem apagada, que
encarna todas as virtudes da abnegada Raça Negra”, à qual ela pertencia prazerosamente.
Escolheu homenagear a imagem ancestral da Mãe Preta, que era venerada na época “pelas
noites indormidas que passou com as maiores figuras do Brasil infante”, por isso era “de
muita justiça que cuidemos de suas legítimas filhas”. Para os colaboradores do jornal negro,
ela era uma “moça culta, inteligente [e] sua conversa sadia prende sempre quem dela se
aproxime”. Quase cinco anos depois de sua coroação, Laís de Moraes foi novamente
homenageada e colocou a faixa na vencedora paulistana180. No ano seguinte, o periódico abriu
candidaturas para moças do interior e explicitou ser seu objetivo elevar o “moral da raça”.
Para Maria Aparecida da Silva Lopes, os organizadores tentavam fazer do concurso mais do
que “um simples espaço condecorador do físico feminino”, tentavam combinar, com a fala da
vencedora, a “denúncia [d]a ‘imoralidade’ que reinava no mundo das mulheres e o desamparo
a que estavam submetidas”181.
No primeiro capítulo se discutiu que o racismo para as mulheres negras fez com
que fossem vistas como prostitutas potenciais. A vadiagem e a desordem feminina estiveram
associadas à promiscuidade entendida, muitas vezes, como algo inerente às mulheres negras,
seja por questões biológicas ou por causa do passado escravista. Os homens de cor lutaram
contra essa imagem de diversas formas, desde as recomendações por instrução às notas de
desgostos, passando também pelos concursos de beleza. Como pôde ser visto, a intenção dos
homens de cor era mais do que exaltar o corpo bonito das mulheres, eles priorizaram a
valorização das virtudes das mulheres de cor, mostrá-las como exemplos de bom
comportamento e da capacidade negra.
***

180
“Miss Progresso”. O Progresso, 20 ago. 1930, pp. 3-4.
181
LOPES, Maria Aparecida da Silva. Beleza e Ascensão Social... op. cit. p.122.
249

Como pôde ser visto, a “defesa da classe/raça” contra o “preconceito de cor”


também foi feita por meio de partidas de futebol, em que os homens de cor exaltavam os
talentos de seus jogadores, as vitórias e as conquistas de seus times como forma de evidenciar
a capacidade das populações negras. Narrar, por mais de uma vez, como foi o jogo que deu o
título da Divisão Municipal da Copa Centenário e chamar a “A. A. São Geraldo” de “campeão
do centenário” foram formas de dar às populações negras um sentimento de orgulho, tanto
quanto contar a trajetória de vida e luta dos abolicionistas negros. As partidas entre brancos e
negros não só colocavam em prática uma noção de fraternidade, que envolvia convívio e
igualdade de ambas as “raças”, como permitiam difundir a crença de que, com o esforço
devido, era possível superar obstáculos. O futebol oferecia, em primeiro lugar, aos seus
praticantes e simpatizantes, a diversão, e isto não pode ser esquecido.
O prestígio de futebolistas e das agremiações, que foram usados como exemplos
das qualidades dos negros, era consequência da busca por variados tipos de entretenimento.
Rir, contar piadas, dançar, beber, comer, paquerar, enfim, divertir-se era tão importante
quanto qualquer outra ação feita pelas associações de homens de cor. As matérias sobre as
viagens que realizavam revelam que, mais do que aliados de uma causa, os dirigentes das
organizações negras e seus associados eram amigos que se deslocavam de uma cidade a outra
para cultivar essa amizade, ao mesmo tempo em que combatiam o racismo e tentavam elevar
a classe dos homens de cor. No Concurso de Beleza, o Getulino mobilizou uma série de
parceiros, não só entre os homens de cor. Mais do que pôr em evidência a beleza da mulher
negra, que seria o objeto desse tipo de evento, foi posto em discussão, novamente, a
humanidade da “gente preta”. Os valores morais defendidos por esses homens de cor
apareceram nas exaltações das mulheres negras participantes e, principalmente, na vencedora
Laís de Moraes, que foi alçada à figura exemplar. Desta forma, a luta contra o racismo e pela
união dos negros se fez presente em diversas facetas da vida associativa dos homens e
mulheres de cor.
250

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A busca por direitos de cidadania permeou todos os aspectos do associativismo


negro, da reunião em que se discute a proposta de fundação de uma entidade ao
estabelecimento de critérios para a seleção de sócios; da escolha do nome ao local da sede; da
instrução à diversão. Sim, os divertimentos foram importantes no processo de luta contra a
desqualificação das populações negras. E não somente porque os homens de cor mostravam
que sabiam se divertir de acordo com os padrões das classes dirigentes, mas, principalmente,
porque se divertiam. Após uma semana de trabalho duro é importante aliviar a tensão
cotidiana, esquecer os problemas por algumas horas, não se preocupar com coisa alguma,
conversar com amigos, dançar e se sentir bem. Para os negros que viveram as primeiras
décadas do século XX a importância da diversão, aparentemente, era ainda maior. Vivendo
em um momento de interdição, inferiorização e estigmatização que implicavam uma situação
de vigilância constante, não podiam se divertir em qualquer lugar e nem de qualquer forma.
Esta tese procurou analisar as celebrações dos homens de cor, evidenciando a sua participação
na luta contra o racismo sofrido pelas pessoas negras daquela época.
As primeiras pesquisas que consideraram as sociedades beneficentes recreativas
como parte da história do Movimento Negro, muitas vezes as analisaram a partir de aspectos
comuns ou similares às ações das organizações das décadas de 1970 e 1980. Separaram o que
era militante do que era recreativo, voltando toda a atenção para as ações de engajamento,
mesmo quando reconheciam que as práticas de ludicidade eram mais constantes e atraíam
mais pessoas. Este trabalho não rompe com a interpretação que liga as associações negras
surgidas entre o final do século XIX e do início do século XX com a história do Movimento
Negro, ao contrário, ao longo de cada página o argumento de que estão interligados foi
reforçado. Contudo, tentou-se ampliar os pontos de debates sobre a luta antirracismo do
associativismo negro, compreendendo que a ludicidade e o direito ao lazer fizeram parte do
projeto de “defesa da classe/raça”. E, desta forma, apresentar uma análise que não dividi o
recreativo e o militante. Ao contrário, buscou-se entender os aspectos militantes da recreação.
Em um momento de alta vigilância e de restrição de espaços, como viviam as
populações negras estudadas, é necessário entender a militância pela diversão e o
251

engajamento político na diversão, que vai desde a escolha de homenageados e espaços de


festas à maneira como se portar e se apresentar ao restante da sociedade. Fosse nos grandes
festejos de 13 de maio ou nos bailes cotidianos, pôde-se ver disputas de representação sobre
as populações negras, em que suas imagens inferiorizadas e estigmatizadas eram respondidas
pelos homens de cor com narrativas que valorizavam sua boa conduta, sua capacidade de
realizar festas e manter a ordem, seus conhecimentos.
E o lúdico pôde ser entendido como parte da “defesa da classe/raça” contra o
“preconceito de cor” porque não se entendeu o racismo e suas reações como algo estático. O
racismo se reproduz de forma diferente ao longo do tempo e do espaço, atualizando as
hierarquias sociais de acordo com o que é possível em cada sociedade. E as lutas antirracistas
são respostas a estes cenários diversos. Por isso, foi fundamental identificar as áreas de
atuação do discurso racista para entender atuações cotidianas de homens negros e mulheres
negras, como participar de uma partida de futebol, funcionando, ao mesmo tempo, como
mecanismos de sobrevivência e de luta contra as discriminações que sofriam.
Logo após a Abolição, muitos diziam que as populações negras não poderiam
gozar de plena cidadania porque não sabiam viver em uma sociedade pautada pelo trabalho
livre, confundiam liberdade com ociosidade e, sem emprego, sustentavam-se por meio de
roubos e da prostituição, além de causarem desordens. Para uns, essa postura era fruto de
séculos de escravidão, para outros era uma questão biológica, e ambos construíram narrativas
em que negros se tornavam criminosos em potencial. Contra essa sociedade que os vigiava e
inferiorizava, grupos de negros resolverem criar espaços próprios, onde poderiam agir em
busca de sua cidadania. Os homens de cor tentaram destruir as justificativas que rebaixavam
as populações negras como forma de combater o racismo, promovendo a “defesa da
classe/raça” contra o “preconceito de cor”. Eles acreditavam que, adquirindo o respeito do
restante da sociedade, não deviam mais sofrer nenhum um tipo de discriminação, por isso
investiam em novas condutas, queriam se mostrar de maneira oposta aos estereótipos do
negro, desejavam ser vistos e tratados como cidadãos plenos. No começo do século XX,
aglomerações de negros em bares eram motivos de reclamação e intervenção policial, no
entanto os homens de cor bebiam cerveja em bailes e nos piqueniques no Bosque dos
Jequitibás sem serem incomodados. Isso só foi possível por causa dos códigos de conduta e a
busca pela respeitabilidade. Além da capacidade organizativa, as festas serviam para que eles
exibissem seu bom comportamento, porque sem ele poderiam perder seus espaços de
diversão.
252

Os dirigentes das associações de homens de cor consideravam que uma parcela


dos negros agia mal e que suas posturas inadequadas sustentavam os argumentos contrários a
eles, por isso tentavam instruí-lo para que tivessem um bom comportamento. Criticavam
determinadas condutas desejando que as populações negras como um todo fossem bem vistas,
por isso uma suposta adoção de valores das classes dirigentes não significou elitização ou
branqueamento. Primeiro, a noção do que era ou não adequado foi socialmente transmitida
junto com o uso do cerceamento e da violência, então o código de condutas propugnado pelos
homens de cor era uma forma de evitar qualquer tipo de discriminação. Depois, apesar desses
códigos serem impostos para quem participava do mundo associativo, seus dirigentes
tentavam falar para todos os negros, sabiam que o “preconceito de cor” atingia a todos,
associados ou não. Por fim, eles lutavam contra a generalização racial, apontando que se havia
negros “malcomportados” também havia brancos que não agiam bem e que, desde a
escravidão, as populações negras foram importantes na história brasileira, existiam entre os
negros figuras ilustres que haviam praticado grandes feitos que comprovavam a capacidade
negra. Desta forma, mesmo enfatizando a distinção, a luta dos homens de cor se fazia em prol
de todas as pessoas negras.
Uma frente de “defesa da classe/raça” foi a construção de uma narrativa histórica
que incluía as populações negras. De acordo com os homens de cor, os escravos foram
responsáveis para formação da riqueza do Brasil, ao lado dos colonos portugueses. A
condição de trabalhadores no passado escravista contrastava com um presente de
preterimento. Jornais de grande circulação anunciavam vagas em que se dava preferência para
pessoas brancas, discursavam sobre a ética dos trabalhadores imigrantes e a contribuição
futura que dariam, em um momento de forte imigração europeia nas cidades paulistas. A
valorização da importância do escravo funcionava como uma resposta à política
imigracionista sustentada pela crença de que as populações negras eram propensas à
ociosidade, incapazes de produzir e trabalhar regularmente.
Os argumentos dos homens de cor contra as práticas discriminatórias muitas vezes
apelaram para sentimentos nacionalistas, acreditavam que por toda a sua contribuição, dada
na condição de escravizados, as populações negras não mereciam ser preteridas e quem assim
procedia cometia um ato antipatriótico. Agindo dessa maneira, escancaravam as contradições
dos discursos fraternais que não concebiam a igualdade de condições como premissa.
Enquanto alguns políticos e jornalistas acreditavam que a fraternidade brasileira se limitava à
existência de duas raças que habitavam o mesmo país, entre os homens de cor ela era
praticamente um sinônimo de igualdade. A fraternidade era incompleta para eles. A tentativa
253

de colocar uma memória negra na história brasileira tinha a função de oferecer alternativas
aos discursos de inferiorização das populações negras e, por consequência, completar o elo
fraternal, por isso, os escravos apareciam, nos textos históricos da Imprensa Negra, como
colaboradores da formação do Brasil ao lado dos portugueses.
Os escravos eram dignos de homenagens e elogios não só por seu trabalho em
prol da nação, mas também por terem suportado os horrores da escravidão e pelos sacrifícios
que haviam feito. Seguindo os textos abolicionistas, o sistema escravista era condenado pelos
abusos senhoriais e pela própria privação de liberdade, o escravismo era fruto da ganância. Se
havia discursos que sustentavam que a escravidão não dera aos negros valores fundamentais
para que pudessem usufruir a cidadania, os articulistas negros faziam questão de apresentar
pessoas escravizadas cheias de princípios que consideravam inerentes ao Homem, em uma
visão universalista. Neste sentido, o primeiro sofrimento dos escravos era a falta de liberdade,
porque perdiam um direito inato à humanidade. Nas páginas de jornais negros narravam que
os negros, na África ou no Brasil, quando eram livres, viviam felizes, e quando se tornavam
cativos, entristeciam. Alguns de seus sacrifícios, como os da Mãe Preta que deixava de lado
suas crianças para cuidar dos filhos de seus senhores, eram frutos de seus sentimentos de
bondade. Introduzir uma memória negra na história brasileira foi fundamental para os homens
de cor que buscavam fornecer alternativas aos discursos desqualificantes. Devolvendo a
humanidade aos escravizados, refutavam qualquer ideia de incapacidade negra no pós-
Abolição.
Alguns homens de cor acreditavam que a escravidão, com a sua crueldade, havia
causado um atraso na vida dos negros, que ficaram embrutecidos e sem instrução e, por isso,
sem condições de competir com imigrantes e brancos brasileiros nos primeiros anos após o
fim do regime. A divergência de opinião acontecia porque o grupo de homens de cor era
heterogêneo e, entre suas lideranças, houve casos de disputas. Os homens de cor eram negros
que tentavam se distinguir a partir da experiência associativa, que exigia uma conduta
considerada respeitável, mas também se preocupavam com a elevação social e moral das
populações negras. Podiam, no entanto, divergir sobre os caminhos para se alcançar esse
patamar e nem sempre tinham as mesmas interpretações do que seria essa elevação. As
disparidades entre os homens de cor geraram embates acerca da condução dos projetos de
luta, que apareceram na maioria das vezes em discursos de exaltação de um grupo contra a
falta de unidade entre as muitas associações. As diferenças interpretativas e de
posicionamentos apareceram até mesmo entre pessoas que ocuparam a mesma associação.
254

As narrativas históricas também tiveram a função pedagógica de instruir e elevar a


autoestima das populações negras. Além do escravo trabalhador, que sofreu os piores castigos
no sistema escravista e enriqueceu grandes famílias e o país, elas incluíam o abolicionismo.
Os dirigentes das associações de homens de cor se exibiam como discípulos dos
abolicionistas porque entendiam que as campanhas abolicionistas desejavam mais que o fim
do cativeiro, estiveram engajadas no combate pela igualdade de condições entre brancos e
negros. Como no dia 13 de maio de 1888 só veio a liberdade, assumiram a responsabilidade
de conduzir as campanhas pela igualdade. Luiz Gama e José do Patrocínio foram os mais
homenageados, inspirando a nomenclatura das associações, que os tomavam como patronos,
temas de palestras e de textos históricos. Eles foram usados como exemplos de homens de cor
que haviam alcançado sucesso por meio da educação e não deixaram de lutar com seus irmãos
de cor. Suas histórias eram contadas atrelando a ascensão social que tiveram com o
engajamento na luta pelo fim do cativeiro, também eram mostrados como contribuidores
negros da nação, passando a ideia de que sem eles a escravidão não teria terminado. As
lideranças negras tentavam convencer os outros homens de cor de que o sucesso pessoal pleno
só aconteceria com o fim do “preconceito de cor”, por isso constantemente chamavam aqueles
que haviam conseguido alguma ascensão para formar uma frente de luta explicitamente
política, como o Congresso do Negro. Neste sentido, a história dos abolicionistas negros
funcionava como um reforço a esse apelo.
Pensando a comemoração como a sacralização de valores, pode-se verificar que a
escolha de celebrar os escravos, o abolicionismo e os abolicionistas como atos fundadores da
história dos negros no Brasil tinham a dupla função: questionar a sociedade racista e criar
unidade entre as populações negras. Desta forma, os pontos convergentes e conciliadores não
conseguiam silenciar os conflitos, como acontece nos projetos de história oficial. Os homens
de cor fizeram questão de relembrar os momentos de sofrimentos da escravidão para
reivindicar e, principalmente, lembrar sua condição de trabalhadores e livres.
Se com a exaltação ao escravo era possível mostrar as populações negras como
trabalhadoras, as festas de 13 de maio rememoravam a conquista da liberdade. Entre 1888 e
1930, muitas associações de homens de cor surgiram com a finalidade de organizar algum
tipo de celebração pela abolição da escravatura. Essa data, que atualmente é quase relegada ao
esquecimento entre organizações explicitamente políticas do Movimento Negro1, foi usada

1
É importante frisar que, nessa data, ainda se promove eventos culturais ligados à comunidade negra, e que em
espaços de religiões de matrizes africanas a entidade do Preto Velho é saudada.
255

pelas lideranças negras para mobilizar pessoas em prol de direitos de cidadania. Desde a
promulgação da Lei, homens de cor, negros desassociados e libertos ocuparam as ruas para
celebrar esta grande conquista, todos querendo contribuir de alguma forma e indicando quem
eram os personagens e lugares que mereciam ser homenageados. No entanto, só aqueles que
estavam ligados às associações conseguiram colocar seus festejos no rol de festas cívicas, o
que também significou apoio dos líderes políticos e exposição midiática positiva. Os demais
negros, quando não foram ignorados, foram ridicularizados.
Embora os homens de cor e suas comemorações fossem elogiados pela imprensa
de grande circulação, é provável que muitos associados também frequentassem as festas
organizadas por outros. Contudo, exibir-se como dignos de elogios foi importante para os
dirigentes de associações de homens de cor, porque eles acreditavam que isso era mais uma
conquista rumo ao fim do preconceito de cor, uma vez que destruía, mesmo que parcialmente,
as ideias acerca da incapacidade negra.
A análise das festas de 13 de maio mostra que as disputas de memória faziam
parte da atualização das hierarquias sociais. Em Piracicaba, a homenagem ao abolicionista
radical Antônio Bento pode ter sido responsável pelo primeiro fechamento da “Sociedade
Beneficente 13 de Maio” que, lidando com poucos recursos, perdeu apoio de famílias
importantes. Políticos e jornalistas da cidade exaltaram a história do abolicionismo moderado,
feito a partir das ações parlamentares, jurídicas e da imprensa, apagando as fugas escravas e a
ação dos que colaboravam com elas. Em meio aos quentes embates entre republicanos e
monarquistas, o abolicionista foi acusado de tentar organizar a “Guarda Negra” na cidade. Em
Piracicaba, um mês após a Abolição, ainda havia fazendeiros que mantendo negros como
cativos e havia donos de plantações de cana-de-açúcar que se esforçavam para manter os
negros em seus antigos postos de trabalho, porque não tinham condições de custear viagens
dos europeus. Por tudo isso, mesmo alguns anos depois, era um insulto promover qualquer
honraria a ele, que foi visto como um dos responsáveis pela desorganização da lavoura. A
mudança de nome da associação piracicabana mostra que as homenagens não são neutras, ao
contrário, estão cercadas de conflitos.
Os relatos das festas nas ruas reforçam esse entendimento. Enquanto as
populações negras se organizavam para celebrar a data e se mostrarem membros daquela
sociedade, com importantes contribuições, as lideranças locais citavam somente os discursos
das autoridades, silenciando os homens de cor. O que se lia, desta forma, era a justificativa da
cidadania incompleta das populações negras, que eram aconselhadas a se instruir para ter
256

“amor ao trabalho”. Apagavam toda a história do escravo trabalhador, para mais uma vez
afirmar que as desigualdades eram fruto da falta de apreço ao trabalho.
Nas escolhas dos lugares em que se concentravam e se dispersavam, nos vivas que
bradavam e nos bustos que carregavam, as populações negras, de um modo geral, diziam
quem elas julgavam ser importantes para a conquista de sua liberdade. As igrejas e largos de
São Benedito foram pontos de encontro de sambas e solenidades, momento em que
reverenciavam um santo protetor que também era negro e com passagem por um sistema de
escravidão. Eles deram vivas aos abolicionistas republicanos e monarquistas e à princesa
Isabel, alçada à condição de redentora dos escravos. Alguns homens de cor a saudaram desde
a assinatura da Lei Áurea, outros consideravam que a Abolição era parte do processo
republicano, e sua imagem foi fortemente usada para expor os descontentamentos com a
República.
As comemorações de 13 de maio foram momentos de ensinamento, de busca por
prestígio e respeitabilidade; de reivindicações e lutas entre os homens de cor, entretanto
também eram ocasião de divertimentos. Em meio às tensões, havia algo que causava a
felicidade em homens negros e mulheres negras: a liberdade. A condição de livres merecia ser
celebrada, apesar das contradições que apresentava, não havia mais o domínio senhorial sobre
os homens de cor nos moldes do escravismo. Os enfeites das ruas, as girandolas, os fogos de
artifícios, as bandas, entre outros elementos que compuseram as comemorações animaram os
participantes, muitos deles negros. Os “libertos”, como chamavam os jornais de ampla
circulação, não respeitaram os intervalos da festa de 1888 e continuaram a festejar; entre maio
e junho daquele ano saíram às ruas muitas vezes, dando vivas, agradecendo, exibindo a
alegria de ser livre. Nos outros anos, continuaram a celebrar, mas sem atender os padrões de
articulistas, suas exibições foram totalmente ignoradas ou publicadas em pequenas notas
jornalísticas, quase que escondidas em meio às reclamações de ausência de comemorações
pela Abolição. No entanto, os negros comemoraram. Aproveitavam o dia de folga e viravam
noites em sambas nos largos de São Benedito, organizavam missas, desfilavam como novos
cidadãos brasileiros.
As solenidades conquistaram respeito, espaço nos jornais e nas ruas, mas não
deixaram de ser ocasiões em que se extravasava a alegria de ser livre e de se divertir. Os
amistosos entre brancos e negros surgiram, então, como mais um elemento de entretenimento.
Quando o futebol se tornou popular entre a classe trabalhadora, as populações negras também
se encantaram pelo esporte de origem britânica, jogaram em times exclusivos de negros e em
outros ligados ao operariado, como a “A. A. Ponte Preta”. Os jogos dos campeonatos
257

municipais ofereciam tardes alegres, eram pontos de encontro de jovens e de famílias. Foram
organizados confrontos entre combinados de pretos e de brancos para exaltar a fraternidade
brasileira, colocando-os, nem que seja por alguns minutos, em condições de igualdade.
Para os homens de cor, o esporte também ensinava princípios e a importância da
coletividade e da perseverança. Na capital paulista, onde os times com mais prestígio e
melhores desempenhos só passaram a usar atletas pretos em grande quantidade a partir da
década de 1930, os embates entre selecionados de pretos e de brancos foram usados pelos
homens de cor como forma de mobilizar as populações negras a partir do orgulho racial. O
mesmo acontecia em Campinas e Piracicaba, com as partidas dos campeonatos municipais.
As narrativas dos jogos enfatizavam valores que transcendiam o futebol, o placar era um
detalhe, nos casos de derrotas, então: irrelevante! O que importava nas narrativas dos homens
de cor era a luta, a entrega, a organização tática e, principalmente, a vontade de vencer dos
atletas negros.
É possível analisar a história do associativismo negro a partir da politização do
cotidiano, como já fizeram e fazem historiadores do mundo do trabalho, porque os dirigentes
das associações de homens de cor teatralizaram todos os ritos de suas organizações, inclusive
a narrativa jornalística, a fim de alcançar a respeitabilidade. Da palestra sobre a vida de Luiz
Gama à entrevista com a vencedora de um concurso de beleza, tudo foi montado para
evidenciar a capacidade negra e questionar sua cidadania incompleta. Desta forma, a “defesa
da classe/raça” era parte da luta pela integração dos negros na sociedade pautada pelo trabalho
livre, feita através de ações diversas e próprias de seu tempo, que nem sempre foram similares
às lutas antirracistas dos movimentos sociais negros surgidos nas décadas de 1970 e 1980.
Para quem vivia em um momento de estigmatização, vigilância e preterimentos explícitos, a
criação de espaços de danças livres do racismo foi tão importante quanto os protestos nas
ruas. Para devolver a historicidade do racismo e do antirracismo, é preciso considerar que as
ações de combate às discriminações se adequam às formas que elas assumem em cada época.
258

FONTES E BIBLIOGRAFIA

I Fontes

Fontes Manuscritas
1. Arquivo Público do Estado de São Paulo
• 1º Cartório de Registro Civil, 1902 -1920

2. Arquivo Municipal de Campinas


• Finanças – Correspondências Internas, 1893.
• 1º Cartório de Registro de Imóveis e Anexos, 1902.
• Governo Municipal – Correspondências Recebidas, 1928.

3. Departamento de Documentação e Arquivo da Câmara de Piracicaba.


• Livro de Atas da Câmara de Piracicaba, 1888-1926.

4. Arquivo do Grêmio Recreativo e Familiar Flor de Maio.


• Livro de Atas do Grêmio Recreativo e Familiar Flor de Maio, 1928-1933.

5. Arquivo Histórico da Sociedade Beneficente 13 de Maio


• Livro de Atas nº 1 da Sociedade Beneficente 13 de Maio, 1901-1913.
• Livro de Atas nº 2 da Sociedade Beneficente 13 de Maio, 1921-1929.

6. Arquivo Pessoal de Benedito Evangelista


• Livro de Atas da Liga Humanitária dos Homens de Cor, 1923-1925.

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