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Quentin Skinner – Uma genealogia do Estado moderno

Sobre o conceito de Estado, para Skinner através da genealogia é possível


captarmos as diferenças lexicais que vão se sobrepondo a ele. A análise conjuntural,
pois, é adotada para tanto. Ele se aproxima das fontes anglófonas por entender que a
análise das possiblidades semânticas de um vocábulo, ou melhor, os sentidos que um
determinado termo pode levar consigo a nível lexical, deve ser localizada apenas ao
redor de determinada comunidade linguística.1 Isso para defender o seu argumento de
que devido às condições as quais achava-se o termo em diferentes locais e disputas
ideológicas, qualquer tentativa de unificar o seu sentido seria uma abstração sem
substância concreta. Além disso, Skinner se pergunta se um esforço de estudo
genealógico que tem como objeto o conceito de Estado pode nos ajudar a flexibilizar a
aceitação ordinária de que a ideia de estado se assemelha ao conceito de governo.
Acredito que se se expandir este estudo a outras localidades, línguas, seria possível.

Para os estudos sobre o estado em língua inglesa, a gênese sobre a sua acepção
aparece entre o final do Dezesseis e início do Dezessete. Skinner cita O Príncipe, de
Maquiavel como exemplo da utilização do termo estado no sentido das ações que um
príncipe deveria ter em mente para que pudesse manter o seu estado, isto é, sua
prerrogativa de comando sobre determinado corpo político. Estado, aqui, parece
assemelhar-se, pois, com a condição atual do soberano, com as ações que ele deveria
preconizar para manter a sua situação. Prova disso, pois, é a presença da crítica em
alguns tratados políticos modernos sobre o comportamento de alguns soberanos que
acabam por solapar o seu controle sobre o seu estado. Este corpo político deveria ser
cuidado diligentemente pelo príncipe, para que pudesse manter o seu estado. A ideia de
que o príncipe era a cabeça do corpo político favorece a compreensão do significado do
termo, que evoca equivalências “biológicas” para ser semântico, e do entendimento de
que estado, aí, se trata de “estado”, portanto flexão do verbo ser.

Nesse ínterim, ocorre uma inflexão conceitual, em que “em vez de enfatizarem
[os jurisconsultos] a necessidade de os governantes manterem o seu próprio estatuto ou

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estado, estes autores começaram a sublinhar a sua obrigação de preservar os estados a
cujos destinos presidiam.” 2

Jean Bodin, parece, ser o primeiro a propor uma definição de estado com essa
acepção. A ideia de estado, centrado no estado do príncipe, volta-se para um âmbito
comunitário, em que são as pessoas sob a égide de um governo que configuram a
existência de um estado. Skinner chama esse pensamento de teoria absolutista, pois
defende a regulação desse estado por um monarca responsável por cuidar da boa saúde
de sua comunidade, por ser sua “cabeça”. Interessante é que, neste ponto, Skineer diz
que algumas respostas na Inglaterra a essa ideia de estado foram flexibilizadas a partir
dos argumentos defendidos por representantes da Segunda Escolástica, como Francisco
de Vitoria, principalmente quando defendem a universitas do povo como o centro
emanador do poder supremo. Ele parece não visualizar este argumento como um dos
polos de onde surgiram as primeiras ideias sobre o estado moderno, pelo menos não na
Inglaterra.3 Dessa teoria absolutista do estado, unem-se perspectivas que apontam para o
comando do rei não só na esfera do corpo político desse mesmo estado, mas, pela
legitimidade originária da Providência, de aspectos ligados ao poder eclesiástico.

A crítica a esse paradigma teorético aparece, por sua vez, à medida que vozes
dissonantes coadunam em flexibilizá-la, demonstrando que a sociedade, o “universal”,
não precisaria necessariamente deste centro monárquico para existir. Constrói-se, assim,
outro paradigma regulatório da sociedade, em que o estado é concebido a partir do
povo, que é detentor do poder soberano. Skinner denomina essa visão de paradigma
populista do estado.4 Este modelo foi marcado pelo estudo comparado envolvendo
arquétipos de estado que podiam ser encontrados em outros lugares. Os estados
populares existentes na Europa comprovavam a sua existência.

Note-se que esses estados populares tinham como insígnia a representação em


assembleias, que achavam-se separados por partes que representavam, cada um à sua
forma, o estado ou estatuto. Essa designação servia, via de regra, para separar o estado,
corpo político representado pelo povo, e a monarquia, entendida como cabeça. Os
chamados anatomistas políticos, a exemplo de Edwin Sandys, tinham como exemplo de
comunidades que se configuravam dessa forma ideal a Itália. Ou seja, a designação de

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P.16
estado já revela nesse caso outro significado, aquele que aponta a existência de células
independentes que, quando aglutinadas, formam o estado, e que, por sua vez, são
autorreguladas por suas normas. Esse paradigma começou a ser defendido enquanto
mesmo era delineado, ao passo que a dependência do corpo político para com a
monarquia começou a ser vista em semelhança à escravidão. Estes autores passam a ver
o estado não apenas como parte de um regime politico organizado em comunidade;
começam a vê-lo como contraponto à monarquia, sendi um estado livre.5

Uma das soluções a este conflito adveio de Henry Parker, durante a década de
1640 e a disputa de poder entre o monarca Carlos V e o Parlamento inglês. Parker, em
1644, no seu Ius Populi, definirá que o corpo do estado é representado politicamente
pelas duas câmaras no parlamento, que servem de organismo artificial representante dos
interesses do povo, proporcionalmente.6

A resposta “conservadora”, absolutista, de pronto surgiu, depois da crescente


expansão do argumento “populista”. O argumento teológico foi acionado para ratificar o
providencial poder real. Para aqueles, o rei era um ente emanador do poder, e por isso
conferia aos demais componentes do corpo social suas faculdades, prerrogativas. Por
outro lado, teorias absolutistas com caráter inédito também surgiram no período, como a
que pode ser vista em The Elements of Law, de Thomas Hobbes, de 1640, e o
Leviathan, do mesmo autor, de 1651. Para Hobbes, a argumentação Providencial acerca
do poder real era insuficiente, já que ele não estava acima dos indivíduos que compõe o
corpo social, e porque o monarca possuía apenas prerrogativas especificas dentro do
estatuto social, não extrapolando as prerrogativas de qualquer representante autorizado7.
Daí surge o conceito de pessoa, que, para Hobbes, é assegurado através de um pacto
social, de um lado representado pela figura do soberano, o qual possui autoridade
através da concessão advinda de outra pessoa, esta sendo o que ele entende por Estado. 8
Ou seja, o soberano representa o Estado.

Skinner explica que tal teoria, assim como as anteriores por ele citadas,
procuram entender as raízes das ações dos governantes, a sua legitimidade. Daí em
diante, a teoria do estado de Hobbes, denominada de ficcional por Skinner, espalhou-se
pelo continente europeu, sendo assimilada amplamente. Das suas formulações surgiu,
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P. 27.
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P.30.
de modo sumário, a ideia de que o Estado, para além de ser o ente que emana o poder
atribuível ao soberano, é também o ente que legitima o exercício do poder soberano.9
Disso também surge a ideia de Estados Soberanos, que relacionam-se entre si, por não
estarem vinculados, dependentes de outros estados. Independente da forma que o Estado
assumir, monárquico ou democrático, por exemplo, ele precisa de uma representação
pública.

Com essas discussões em torno do conceito de estado, Skinner busca descontruir


a ideia de estado que ele entende por possuir uma conotação reducionista; a de que o
estado é sinônimo de governo. Para ele, o estado não está a morrer, como alguns
teóricos acreditam, pois ele possui importância vital no que se relaciona ao vinculo entre
estados soberanos; e no que se refere á teoria ficcional do estado, menos ainda, já que,
para ele, é impossível pensar no poder público sem essa ideia de pessoa moral fictícia.10

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P. 35.
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P.45.

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