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AS CINQUENTA SOMBRAS

DE CASTANHO

Integrative Human Biochemistry ©

Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa


2018 -2019
Caro colega,
/* Fingir que há uma introdução toda bonitinha que só a FML sabe fazer, mas que ninguém lê */
Graças aos seguintes lindos e maravilhosos alunos do 17-23 foi possível realizar a tradução do
belíssimo “Integrative Human Biochemistry” escrito pelo Prof. Dr. Miguel Castanho (😍) e pela Dra.
Andrea T. Da Poian:
Capítulo 1 – João Patrício
Capítulo 2 – Laura Gomes
Capítulo 3 – Zita Matias, Gabriela Rodrigues, Nuno Loureiro e Diogo Rodrigues
Capítulo 4 – Beatriz Correia
Capítulo 5 – Felipe Bezerra (Formatação)
Capítulo 6 – José Verdasca e Catarina Vaz
Capítulo 7 – Vasco Martins e Beatriz Pereira
Capítulo 8 – Joana Barroso e Ivo Palmeiro
Capítulo 9 – Gonçalo Correia e Catarina Cardoso
Capítulo 10 – Diana Santos e Hugo Rafael
Capítulo 11 – Carolina Monteiro e Mariana Soares

P.S.: Alguém tem um dicionário para os nomes das/dos enzimas?

i
As Moléculas da Vida
1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas! 1
1.1 Exemplo Ilustrativo #1: A Origem Molecular da Vida 1

1.1.1 A Hipótese Replicadora 4


1.1.2 A Hipótese Metabólica 4
1.2 Exemplo Ilustrativo #2: Vírus, Máquinas Moleculares A Interferir Com A Vida 8
1.3 Exemplo Ilustrativo #3: Moléculas enquanto Ferramentas, Descoberta e
10
Desenvolvimento de Drogas
Bibliografia Selecionada 17

2 A Química e a Física da Vida 18

2.1 O Básico da Química das Células e Tecidos 21


2.1.1 Tampões Biológicos Principais 29
2.2 Mais do que Só Química: Também Há Física 30
Bibliografia Selecionada 37

3 As Famílias das Moléculas Biológicas 38

3.1 Lípidos e a Organização das suas Agregações Supramoleculares 39


3.1.1 Estrutura das Membranas Biológicas 46
3.1.2 A Estrutura de Lipoproteínas 54
3.2 Sacáridos e os Seus Polímeros e Derivados 58
3.2.1 De Monómeros a Polímeros: Polissacáridos 64
3.2.2 Conjugados Moleculares de Monossacáridos 68
3.2.3 Conjugados Moleculares de Oligossacáridos 71
3.2.4 Conjugados de Polímeros de Sacáridos: Ácidos Nucleicos 74
3.3 Aminoácidos e os Seus Polímeros: Péptidos e Proteínas 79
3.3.1 Dos Monómeros aos Polímeros: Péptidos e Proteínas 83

ii
iii Conteúdos

3.3.2 Estrutura e Função das Proteínas 89


3.3.3 Interações Cooperativas Entre a Estrutura Terciária e Quaternária 95
3.3.4 Enzimas 100
Bibliografia Selecionada 107

A Interação e a Regulação do Metabolismo


4 Introdução ao Metabolismo 108
4.1 Reações Consecutivas Sem Enzimas 109
4.2 Reações Consecutivas Com Enzimas 114
4.2.1 As Bases para a Catálise Enzimática e o Seu Impacto no
115
Metabolismo
Bibliografia Selecionada 126

5 A Regulação dos Metabolismos 127


5.1 Níveis de Regulação: Impacto e a Escala de Tempo 131
5.2 Inibição e Ativação de Enzimas pelos Ligandos 132

5.2.1 Nomenclatura dos Ligandos 138


5.3 A Disponibilidade dos Precursores Primários numa Via Metabólica 139
5.3.1 Transporte de Metabolitos e Efetores Através de Membranas 139

5.4 Mecanismos Lentos (Mas Eficientes!) do Controlo da Ação Enzimática 144


5.5 Moléculas-Chave do Metabolismo Energético 147

Bibliografia Selecionada 150

6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 151


6.1 Fermentação: A Via Anaeróbica da Síntese de ATP 152
6.1.1 Uma Perspetiva Histórica da Descoberta do Processo da
152
Fermentação
6.1.2 Uma Visão Geral da Síntese de ATP Através da Fosforilação ao Nível
155
do Substrato Durante a Fermentação
6.1.3 Reações de Fermentação da Glucose 157
6.2 Fosforilação Oxidativa: O Mecanismo Principal de Síntese de ATP na Maioria
159
das Células Humanas
6.2.1 Uma Perspetiva Histórica da Compreensão da Respiração Celular 160
6.2.2 Uma Visão Geral Sobre o Processo da Fosforilação Oxidativa 164
6.2.3 O Sistema Transportador de Eletrões 166
6.2.4 A Síntese de ATP Através da Fosforilação Oxidativa 174
6.2.5 Regulação da Fosforilação Oxidativa 176
Bibliografia Selecionada 180

7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 182


7.1 Uma Visão Geral Sobre o Catabolismo 182
7.2 Ciclo do Ácido Tricarboxílico: A Via Central para a Oxidação das Três Classes
185
de Moléculas dos Nutrientes
Conteúdos iv

7.2.1 As Reações do Ciclo TCA 186


7.2.2 O Ciclo TCA como uma Via Dinâmica 187
7.2.3 Visão Histórica da Descoberta do Ciclo TCA 188
7.2.4 Regulação do Ciclo TCA 190
7.3 O Catabolismo dos Hidratos de Carbono 190

7.3.1 As Reações de Oxidação dos Hidratos de Carbono 191


7.3.2 Regulação da Conversão do Piruvato em Acetil-CoA 193
7.4 Catabolismo dos Lípidos 193
7.4.1 Mobilização dos TAG e Transporte dos Ácidos Gordos na Corrente
195
Sanguínea
7.4.2 Ativação dos Ácidos Gordos 195
7.4.3 Transporte de Ácidos Gordos para a Mitocôndria 196
7.4.4 -Oxidação: A Via para a Degradação dos Ácidos Gordos 197
7.4.5 Regulação da Oxidação dos Ácidos Gordos 201

7.4.6 Conversão de Ácidos Gordos em Corpos Cetónicos 202


7.5 Catabolismo de Aminoácidos 203
7.5.1 Uma Visão Geral do Catabolismo de Aminoácidos 203

7.5.2 Metabolismo de Aminoácidos no Fígado 204


7.5.3 Metabolismo de Aminoácidos Noutros Tecidos 210

Bibliografia Selecionada 211

8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia: Regulação e Integração no Estado de


212
Absorção
8.1 Deteção de Glicose pelas Células 214
8.2 Biossíntese de Glicogénio 219

8.2.1 Formação de UDP-Glicose 220


8.2.2 Reações para a Iniciação da Síntese de Glicogénio a partir de UDP-
221
Glicose
8.2.3 Reações de Elongamento da Cadeia de Glicogénio 222
8.2.4 Regulação da Síntese de Glicogénio 222
8.3 Biossíntese de Lípidos 228
8.3.1 Síntese de Ácidos Gordos 229

8.3.2 Síntese de Triacilglicerídeos 243


8.4 Respostas Hormonais à Hiperglicemia: o Papel da Insulina 245
8.4.1 Descoberta da Insulina 245
8.4.2 Mecanismos de Ação da Insulina 246
8.4.3 Efeitos da Insulina no Metabolismo Energético 249
8.5 Interação Metabólica na Resposta à Hiperglicemia 251
v Conteúdos

Bibliografia Selecionada 252

9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 253


9.1 Perspetiva Geral do Metabolismo Durante Jejum: Exemplificando com Estudos
255
sobre Jejum Prolongado Terapêutico
9.2 Degradação do Glicogénio no Fígado 258
9.2.1 Reações da Degradação do Glicogénio 260
9.2.2 Regulação da Degradação de Glicogénio no Fígado 262

9.3 Gliconeogénese 263


9.3.1 Reações da Gliconeogénese 264
9.3.2 Percursores para a Síntese de Glicose 267
9.3.3 Regulação da Gliconeogénese 268
9.3.4 Utilização Dinâmica dos Precursores da Gliconeogénese 270
9.4 Respostas Hormonais à Hipoglicemia 273
9.4.1 Glicagina: Mecanismo de Ação e Efeitos no Metabolismo Energético 273
9.4.2 Glucocorticoides: Mecanismo de Ação e Efeitos no Metabolismo
277
Energético
Bibliografia Selecionada 280

10 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Atividade Física 282


10.1 Contração Muscular 282

10.1.1 Organização Estrutural do Aparelho Contrátil 283


10.1.2 O Mecanismo da Contração Muscular 287
10.1.3 Regulação da Contração Muscular 289
10.2 Os Diferentes Perfis Metabólicos das Fibras Musculares Esqueléticas 292

10.3 Visão Geral da Síntese de ATP nas Células Musculares 293


10.4 O Metabolismo das Células Musculares Durante a Atividade Física 294
10.4.1 O Papel da Carga Energética Celular no Metabolismo da Célula
295
Muscular
10.4.2 Vias Metabólicas Para a Síntese de ADP no Músculo Esquelético 298
10.5 Regulação Hormonal Durante a Atividade Física: Papel da Adrenalina 304
10.5.1 Mecanismos Moleculares da Ação da Adrenalina 304

10.5.2 Efeitos da Adrenalina no Metabolismo Energético 306


Bibliografia Selecionada 308

11 Controlo do Peso Corporal e as Doenças Metabólicas Atuais 310

11.1 Controlo Humoral da Ingestão de Alimentos 312


11.1.1 Uma Perspetiva Histórica do Papel do Hipotálamo na Ingestão de
312
Alimentos
11.1.2 Leptina: Uma Hormona Indicativa da Adiposidade 314
11.1.3 Péptidos Intestinais: Desencadeadores da Saciedade Pós-Prandial 318
Conteúdos vi

11.1.4 Grelina: A Principal Hormona Orexigénica 321


11.1.5 O Núcleo Arqueado e o Sistema da Melanocortina 323
11.2 Controlo do Consumo Energético 324
11.2.1 Termogénese Adaptativa 325
11.2.2 Papel das Hormonas Tiroideias 327

11.3 Obesidade e Síndrome Metabólica 332


11.3.1 Inflamação Crónica e Resistência à Insulina na Obesidade 332
11.3.2 Origem da Inflamação na Obesidade 334
Bibliografia Selecionada 336
As Moléculas da Vida
Introdução: A Vida É Feita de Moléculas!

Tradução: João Patrício


Revisão: Gabriela Rodrigues
(Páginas 3-21)

Estudar as moléculas é a chave para percebermos a vida. Uma definição de vida comummente aceite,
conhecida como a Hipótese da NASA (North American Space Agency), afirma que “A vida é um sistema
químico autossustentável capaz de sofrer evolução Darwiniana” (Fig. 1.1). A ligação entre moléculas e
vida pode ser difícil de explicar, mas é fácil de se ilustrar.
Nesta introdução selecionámos 3 exemplos que são suficientes para mostrar que o conhecimento
molecular é essencial para pensar sobre a vida em si mesma, a saúde e a doença.
1. Procurar pela origem da vida é uma “aventura” química que envolve as moléculas da Terra primitiva
e a sua reatividade.
2. Os vírus são máquinas moleculares incríveis, demasiado simples para serem considerados seres
vivos para a maior parte dos investigadores, mas com uma agilidade incrível para interferir com o
decurso da vida, por vezes de forma trágica.
3. O mundo da descoberta e desenvolvimento de drogas consiste em moléculas a serem desenhadas
e sintetizadas e a interagirem com outras moléculas in silico, in vitro e in vivo com o objetivo de
interferirem com processos fisiológicos vitais.
É tudo sobre moléculas. É tudo sobre vida.

1.1 Exemplo Ilustrativo #1: A Origem Molecular da Vida


Nada há nada melhor do que tentar responder à pergunta “Qual é a origem da vida?” para se perceber
que as moléculas são a base da vida. Desde o trabalho pioneiro de Aleksandr Oparin, a origem e
evolução da vida foram elucidadas com base na química das moléculas que contêm car3..000bono. Ao
introduzir este conceito, Oparin verdadeiramente revolucionou a forma como a ciência interpreta a vida.
Hoje em dia, existem duas grandes hipóteses que explicam a evolução da complexidade da
organização molecular naquilo a que hoje chamamos de células, a “replicadora” e a “metabólica” (Fig.
1.2). Estás hipóteses são baseadas em duas características específicas comuns a todos os seres vivos:
Apesar da diversidade tremenda existente entre espécies, todas as formas de vida organizam-se em
células e todas estas têm um polímero replicador (DNA) e uma membrana com permeabilidade restrita
(uma “membrana” que contém lípidos na sua constituição). Portanto, não é surpreendente que as
hipóteses prevalentes na explicação da origem da vida sejam modelos que elaboram no aparecimento
do polímero replicador e na compartimentação. O polímero replicador é essencial para transmitir a
informação molecular herdada da geração anterior e a membrana que forma um compartimento que
separa a célula ancestral do ambiente é essencial para assegurar que as moléculas neste espaço
possam reagir entre elas numa forma controlada e autorregulada (um “proto-metabolismo”), com um
impacto mínimo de flutuações em condições ambientais. Estes dois aspetos são consensuais entre os
investigadores que estudam a origem da vida, mas os detalhes e a ordem cronológica dos eventos que
resultaram nas células tal como as conhecemos hoje está longe de estar definido.

1
2 1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas!

Fig. 1.1 Linha temporal da definição de vida ou ser vivo. Figura reproduzida com permissão de Moreva & López-
Garcia, Nat. Rev. Microbiol. 7:306–311, 2009
1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas! 3

Fig. 1.2 Representação esquemática das hipóteses replicadora e metabólica para descrever a origem da vida.
Ambos são de natureza molecular e concordam nos papéis cruciais que a molécula replicadora e a
compartimentação desempenham, mas diferem na sequência de eventos. Figura representada com autorização
de Saphiro, Investigacion y Ciencia 371, 2007
4 1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas!

De acordo com a hipótese replicadora, a vida começou com uma molécula que foi formada
aleatoriamente, mas tinha a capacidade de se replicar. É um evento extremamente improvável,
dificilmente possível de ocorrer duas vezes no universo, mas que um já é possível na hipótese de que
tenha ocorrido. A primeira “escolha” óbvia para a molécula replicadora é o DNA, o atual replicador
universal, mas isto deixa-nos com um paradoxo: são necessárias proteínas para gerar DNA e é
necessário DNA para gerar proteínas. O que apareceu primeiro então? É possível que o DNA tenha tido
um ancestral com capacidade autocatalítica. O RNA é elegível para esse papel. O RNA não é tão
quimicamente estável como o DNA, por isso não é tão adequado para armazenar informação por
longos períodos de tempo, mas pode constituir material genético (muitos vírus, como o VIH ou o vírus
da dengue, têm genoma de RNA). Concomitantemente, a dinâmica conformacional do RNA permite
atividade catalítica, a combinação perfeita para o replicador original. A introdução de mutações e outros
erros na replicação, juntamente com outros fatores, levaram à evolução e à seleção. Como este
processo está associado ao aparecimento de um metabolismo é difícil de conceber, mas o
confinamento de replicadores em ambientes separados pode ter favorecido algumas reações químicas
que evoluíram nesse espaço restrito de forma a causar um metabolismo (Fig. 1.2).

Um modelo alternativo salta o calcanhar de Aquiles da hipótese replicadora. Segundo ele, a origem da
vida não é dependente de um evento que é praticamente impossível de ocorrer. A chave do processo
terá sido o confinamento de pequenas moléculas que reagiram entre elas. Nalguns casos,
agrupamentos organizados de moléculas poderão ter formado ciclos reativos estáveis que se foram
tornando cada vez mais complexos. O resultado foi a criação de um metabolismo e de complexas
moléculas poliméricas, incluindo replicadores (Fig. 1.2). Naturalmente, os limites do ambiente
confinado onde estas reações ocorriam teriam de ter uma permeabilidade seletiva para a matéria. A
permeabilidade permite crescimento e replicação.
Atualmente, virtualmente todas as membranas celulares são formadas não exclusivamente, mas
maioritariamente por lípidos. Os lípidos modernos são produtos resultantes de metabolismos. Assim
sendo, quais terão sido os predecessores das membranas lipídicas no confinamento das primeiras
reações “proto-metabólicas”? Orevices presentes nas camadas externas das rochas são uma
possibilidade. Fosfolípidos e outras moléculas surfactantes podem ter começado como coberturas
que, devido às suas dinâmicas intrínsecas e capacidade de se expandirem numa película e de selarem,
podem ter evoluído para membranas. Lípidos e outros surfactantes têm a habilidade de formar
estruturas tridimensionais para além de lamelas que pode ter contribuído para o confinamento de
sistemas químicos (Fig. 1.3).
1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas! 5

Fig. 1.3 A estrutura de agrupamentos lipídicos depende maioritariamente do grau de hidratação e da estrutura
molecular dos lípidos. Os lípidos podem organizar-se de diferentes formas: bicamadas rígidas (L), bicamadas
fluidas (L), micelas (M) ou fases hexagonais (H)

Os metabolismos evoluíram no sentido da autorregulação, criando a homeostase, uma situação


onde existe equilíbrio. Perturbações pequenas a moderadas neste equilíbrio despoletam respostas que
tendem a restabelecer o equilíbrio original. A habilidade de certos metabolitos (moléculas intermédias
numa complexa sequência de reações num sistema vivo) de ativarem ou inibirem reações específicas
num metabolismo foram uma grande contribuição para a homeostase (Fig. 1.4).
Atualmente, até as células mais simples, bactérias micoplasmáticas, por exemplo, são sistemas
extremamente complexos do ponto de vista químico/molecular. Considerando a evolução natural,
todos os metabolismos em todas as células vivas estão relacionados entre si por laços históricos e
“mapas metabólicos”, mostrando que sequências metabólicas principais podem ser concebidas (Fig.
1.5). É incrível que estas complexas séries de reações operem e não entrem em conflito umas com as
outras. Na realidade, nem todas as reações representadas na Fig. 1.5 ocorrem nas mesmas espécies
e as que ocorrem dentro de uma mesma espécie podem não estar presentes em todas as células. Caso
estas coexistam na mesma célula, elas podem não ocorrer no mesmo compartimento celular, e caso
estejam no mesmo compartimento, podem não funcionar ao mesmo tempo. “Complexo” não é o
mesmo que “confuso”.
6 1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas!

Fig. 1.4 A evolução das redes de reações químicas. Reações cíclicas simples (esquerda) podem ter evoluído em
complexidade (direita). A interferência de certos metabolitos no decurso das reações terá possivelmente resultado
em metabolismos autorregulados. Figura reproduzida com autorização de Saphiro, Investigacion y Ciencia 371,
2007

Tendo em conta que as vias metabólicas (conjuntos de reações metabólicas) evoluíram a partir do
mesmo fundo histórico, todas as moléculas de todas as células vivas estão também relacionadas por
laços históricos. As suas raízes comuns determinam que, apesar de toda a aparente diversidade
molecular, praticamente todas as moléculas em todas as células podem ser agrupadas em algumas
famílias. É também intrigante à primeira vista que com tantos elementos químicos conhecidos pelo
Homem (Fig. 1.6), as células dependem imensamente de poucos deles: hidrogénio, carbono, oxigénio
e azoto constituem 99% de todos os átomos que constituem uma célula. Como pode ser este aparente
puzzle explicado? Essencialmente, vai tudo dar ao antepassado comum de todas as células vivas: estes
eram os elementos mais abundantes em solução no oceano primitivo. Estes eram os elementos base
e a vida evoluiu a partir deles.
Iremos abordar com mais detalhe a natureza química das células no Capítulo 3.
1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas! 7

Fig. 1.5 Um mapa metabólico que mostra uma célula hipotética, onde todo o metabolismo se reuniria em diferentes
metabolismos sectoriais: aminoácidos, fosfolípidos, esteroides, lípidos, sacáridos, etc. Na realidade, nem todas as
células realizam todos os metabolismos sectoriais; aqueles que ocorrem numa dada célula podem não ocorrer no
mesmo organelo e aqueles que ocorrem no mesmo organelo podem não ocorrer ao mesmo tempo. O metabolismo
como um todo é normalmente tão complexo que na prática tende-se a referir-se-lhe como “metabolismos”,
referindo os metabolismos sectoriais. A palavra pode ser enganadora, visto que pode deixar a impressão de que
há muitos metabolismos independentes. Os metabolismos não são independentes uns dos outros e estão
altamente correlacionados, mesmo os que ocorrem em diferentes órgãos. A necessidade de regulação metabólica
estende-se a todo o corpo humano. Figura reproduzida com permissão de IUBMB, International Union of
Biochemistry and Molecular Biology
8 1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas!

Fig. 1.6 Tabela periódica dos elementos, realçando a abundância de alguns nos seres vivos (marcados a vermelho).
Deve ser notado que são poucos os elementos necessários para “construir” a quase totalidade das células e que
alguns elementos estão apenas presentes em pequenas quantidades (marcados a cor-de-rosa). Ainda assim, os
elementos que são raros podem ser absolutamente essenciais à vida. O cobalto, Co, por exemplo, faz parte da
vitamina B12 (ver Caixa 3.8)

1.2 Exemplo Ilustrativo #2: Vírus, Máquinas Moleculares A Interferir Com A Vida
Os vírus não são considerados como seres vivos por muitos investigadores. Estão no limite que divide
o vivo do não-vivo, capazes de interferir com a homeostasia. Eles têm constituintes moleculares
semelhantes comparativamente com as células (proteínas, lípidos, ácidos nucleicos, etc.) mas existem
diferenças importantes. Acima de tudo, os vírus não possuem um metabolismo próprio. A sua
simplicidade não é uma consequência de antiguidade nem está relacionada com qualquer forma de
vida primitiva sobrevivente. Em vez disso, é uma consequência de parasitismo e de evolução
regressiva. Alternativamente, os vírus podem ter sido partes de células. Genomas de tamanho mínimo
implicam uma taxa reprodutiva mais acelerada para os vírus e, como tal, uma vantagem evolutiva.
Pode-se argumentar que, apesar não possuírem um metabolismo próprio, os vírus são entidades físicas
capazes de se auto-replicarem e de evoluírem, sendo assim seres vivos. Ainda assim, é questionável
que possam ser considerados seres vivos, visto que não se replicam ou evoluem de forma
independente das células. Virtualmente, todos os parasitas precisam de um hospedeiro para
sobreviverem e se multiplicarem, mas, para além disto, os vírus são incapazes de evoluírem de forma
independente: eles são dependentes das células para evoluírem porque eles não possuem a sua própria
maquinaria de síntese molecular.
As interações vírus-célula são maioritariamente físicas nas primeiras etapas de infeção celular, visto
que não há reações químicas envolvidas (não são criadas nem destruídas ligações covalentes). Vamos
considerar como exemplo o vírus influenza, o vírus causador da gripe (existem 3 tipos de vírus Influenza,
A, B e C, sendo que o A é o responsável pela gripe sazonal). O vírus influenza A é um vírus encapsulado,
cujo genoma consiste em 8 moléculas de RNA de cadeia simples que codificam entre 11 e 12 proteínas
(Fig. 1.7). O vírus possui a proteína hemaglutinina A (HA) na sua superfície. Esta proteína permite a
entrada do vírus nas células hospedeiras ligando-se a um sacárido, o ácido siálico ligado a moléculas
(glicanos) presentes na superfície da célula, conhecidos como recetores do vírus. O HA reconhece o
ácido siálico devido a uma combinação precisa de pontes de hidrogénio e de reações iónicas, entre
outras, entre átomos da proteína e átomos da molécula de ácido siálico bem estabelecidos (Fig. 1.7).
1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas! 9

Fig. 1.7 Vírus Influenza a entrar numa célula que contém recetores de ácido siálico na sua superfície. A orientação,
natureza química e distância dos aminoácidos responsáveis pela ligação da hemaglutinina (HA) são tais que o
ácido siálico é capaz de desenvolver pontes de hidrogénio e outras forças atrativas. O painel (a) mostra um
aumento de parte do esqueleto proteico da HA a contactar com o ácido siálico (esqueleto de carbono proteico a
verde; esqueleto de carbono do ácido siálico a amarelo). Depois da acidificação das vesículas endocíticas no
interior da célula, a HA sofre mudanças conformacionais (não mostradas) que fazem com que as membranas viral
e celular entrem em contacto (Painel (b)), o que leva ao colapso das membranas (chamado de fusão), com
consequente libertação do conteúdo viral dentro da célula

Estes átomos, tanto os da proteína como do sacárido, estão a distâncias e orientações precisas entre
eles, para que a combinação única das forças crie uma forte ligação entre eles. O vírus influenza A pode
estabelecer contacto com muitas células do corpo humano, mas só irá às que possuírem um recetor
que contenha ácido siálico na sua superfície (maioritariamente, células do epitélio do trato respiratório
superior). Consequentemente, estas são as células preferencialmente infetadas pelo vírus. A ligação
vírus-célula (ligação HA-ácido siálico, mais precisamente) induz a entrada do vírus via endocitose. O
vírus é envolvido numa vesícula no espaço citosólico. Com a acidificação do meio da vesícula
endocítica, o HA é clivado e sofre mudanças conformacionais que resultam da exposição a um
segmento terminal hidrófobo, chamado péptido de fusão, à membrana da vesícula endocítica. O
10 1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas!

equilíbrio entrópico serve como a força motriz (ver Secção 3.1) que promove a fusão do péptido com a
membrana da vesícula endocítica. Posteriormente, mudanças adicionais na conformação da proteína
levarão a que a o invólucro viral e a membrana vesicular se juntem. Ambas são bicamadas lipídicas e,
como tal, colapsam. No final, elas irão fundir completamente e o conteúdo viral deixa de estar separado
do citoplasma. As moléculas de RNA viral seguem para o núcleo, onde serão transcritas e replicadas.
Os mRNA virais transcritos são traduzidos usando a maquinaria celular de síntese proteica. O recém
sintetizado genoma viral é empacotado por algumas das proteínas virais, formando a núcleo-cápsula,
enquanto as proteínas membranares virais migram para a superfície celular pelo caminho secretor
celular. A núcleo-cápsula associa-se depois às proteínas membranares na membrana plasmática e
novos vírus saem das células, prontos para iniciarem um novo ciclo de infeção.
Quando duas estripes diferentes infetam a mesma célula, o RNA das duas pode coexistir no núcleo.
Misturas de RNA originam novos vírus que possuem misturas aleatórias do material genético de ambas
as estripes. Os vírus combinados podem não ser funcionais, mas, ocasionalmente, uma nova estripe
de eficácia aumentada pode ser criado. Por exemplo, é possível que estripes de gripe suína e das aves
se combinem com a da gripe humana para formar novas estripes de gripe humana. Estes eventos,
combinados com mutações aleatórias nas proteínas virais, podem resultar em vírus extremamente
letais. Este foi o caso em 1918, quando uma estripe de gripe, erradamente chamada de “Gripe
Espanhola”, matou centenas de milhões (!) de pessoas na Europa e nos EUA (ver Caixa 1.1). A mutação
de um simples aminoácido no local de ligação do HA nos recetores de um vírus aviário foi o suficiente
para que pudesse infetar tecidos humanos (Fig. 1.8), uma pequena mudança numa molécula com um
impacto trágico para a humanidade.

1.3 Exemplo Ilustrativo #3: Moléculas enquanto Ferramentas, Descoberta e


Desenvolvimento de Drogas
Desenhar novas drogas que possam ser desenvolvidas em novos medicamentos requer
conhecimentos sobre o papel de diferentes moléculas em diferentes patologias. É necessário um alvo
ao nível molecular para a droga candidata, e o investigador precisa de ter uma noção de como eles vão
interagir para que o alvo seja inibido ou ativado. Uma droga candidata que tem como alvo uma proteína,
como uma enzima ou um recetor membranar, por exemplo, precisa de um local de ligação de possa
reagir, ou fixar-se tanto forte como seletivamente. “Seletivamente” significa que distinguirá este local
de todos os outros no mesmo alvo ou em qualquer outra molécula do corpo. Esta singularidade de local
de ligação é direcionada pelo arranjo preciso dos átomos no espaço. Idealmente, apenas aquele local
tem os átomos certos à distância certa, na orientação certa para maximizar as forças moleculares de
atração (ver o exemplo da ligação HA-ácido siálico na Fig. 1.8). Pontes de hidrogénio, forças
iónicas/eletroestáticas, forças de van der Waals, etc., todas elas estão dependentes do arranjo espacial
dos elementos tanto da droga candidata como do alvo. O modelo Beckett-Casy para recetores opioides
ilustra a base destes princípios (Fig. 1.9). Para além da eficácia da ligação ao seu alvo, as drogas
moleculares não podem ser excessivamente tóxicas ou ter outros efeitos indesejados, que estão
diretamente relacionados com a sua reatividade e seletividade.
O mesmo se aplica a moléculas terapêuticas complexas, tais como anticorpos. Tomemos um dos
anticorpos que têm como alvo a proteína gp120 na superfície do vírus da imunodeficiência humana
(VIH) (Fig. 1.10). Esta proteína é responsável pela ligação aos recetores e co-recetores dos linfócitos T,
sendo este o primeiro passo para a infeção na síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA). Quando
um anticorpo se liga à gp120, pode bloquear o acesso desta aos recetores e co-recetores, prevenindo
assim a infeção. Anticorpos anti-VIH são uma das esperanças para futuras terapêuticas, apesar da taxa
de mutações da gp120 e da presença de grupos glicosilados na sua superfície se apresentem como
problemas difíceis de ultrapassar.
Alguns investigadores dedicam o seu trabalho à engenharia de anticorpos, isto é, manipulação de
anticorpos para uma finalidade específica. Alguns tentam encontrar a porção mais pequena de um
anticorpo que esteja ainda ativa, para que a terapia com anticorpos possa tornar-se mais simples e
com menor proporção de custo/benefício. Manipular anticorpos requer conhecimento das interações
1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas! 11

Fig. 1.8 A hemaglutinina 3 está adaptada a células humanas; a hemaglutinina 5 está adaptada a pássaros. Em
1918, uma mutação num único aminoácido no local de ligação da hemaglutinina aviária fez com que ela
conseguisse ligar-se a células humanas que tivessem ácido siálico na sua superfície. Isto levou a uma trágica
pandemia de gripe entre humanos – a “Gripe Espanhola” ou “Gripe de 1918”. Figura reproduzida com permissão
de Stevens et al., Science 303:1866–1870, 2004

ao nível molecular que estes têm com os antigénios. A este nível, as forças responsáveis pela
seletividade e força da ligação não são diferentes daquelas estabelecidas por pequenas moléculas (tal
como os opioides da Fig. 1.9) com as suas moléculas alvo, mas o número total de ligações (pontes de
hidrogénio, interações eletroestáticas, forças de van der Waals, etc.) envolvidas pode ser maior,
resultando em forças e seletividade elevadas.

Caixa 1.1: “Gripe Espanhola”, Terrível e Quase Esquecida


Entre Abril de 1918 e Fevereiro de 1919, o mundo sofreu a pandemia mais severa dos tempos
modernos. Terá sido provavelmente a pior pandemia desde a praga da Morte Negra do século
catorze. Influenza, o vírus que causa a gripe, infetou centenas de milhões de pessoas e matou,
direta ou indiretamente, entre 50.000.000 e 100.000.000 pessoas, números tão elevados que é
difícil estimar. Para além dela, a Europa estava a ser devastada pela Primeira Guerra Mundial. A
mobilização dos exércitos e as condições precárias de assistência médica ajudaram a doença a
espalhar-se. Mais, os horrores da guerra e a censura das notícias da frente de batalha distraíram
a atenção da humanidade da verdadeira dimensão da pandemia, que continua largamente
ignorada.
Apesar de chamada de “Gripe Espanhola”, a doença não começou em Espanha. Visto que
tinha uma menor censura das notícias devido à sua neutralidade, Espanha tornou-se uma fonte
privilegiada de informação acerca da doença, o que pode ter levado à impressão de que a doença
estava de alguma forma relacionada com Espanha. Na realidade, acredita-se que a pandemia
tenha começado na região do estado do Kansas, nos EUA, em Março de 1918. A nova estripe
viral causava efeitos súbitos, matando em apenas alguns dias. Nos piores casos, os pacientes
sofriam de dores de cabeça, dor pelo corpo todo, febre, cianose, tosse com sangue e
sangramentos nasais. A maioria das mortes estava associada a pneumonia, que era uma
consequência da infeção oportunista dos pulmões por bactérias. As propriedades histológicas
dos pulmões eram transformadas, e havia acumulação de fluídos que, literalmente, sufocavam
as vítimas, tal como se elas estivessem a afogar-se.
O microscópio eletrónico foi inventado nos anos 40. Antes deste avanço tecnológico, era
muito difícil estudar vírus. Outros avanços se seguiram, tal como o desenvolvimento
12 1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas!

microscópios óticos de alta resolução e da técnica de PCR (reação em cadeia da polimerase),


mas a singularidade molecular do vírus de 1918 é ainda um desafio. A busca pela sequência dos
resíduos de aminoácidos das proteínas da estripe de 1918 é uma história de persistência e de
devoção. Em 1940, Johan Hultin, um estudante de Medicina, passou o verão no Alaska. Ele ouvira
sobre a Missão Teller, uma pequena comunidade de missionários que desapareceu literalmente
em Novembro de 1918. Setenta e duas vítimas de gripe foram enterradas numa vala comum.
Mais tarde, Hultin desenvolvera a ideia de recuperar o vírus da gripe de 1918 dos corpos das
vítimas das vítimas da Missão Teller, presumidamente conservados no gelo do Alaska. No verão
de 1951, ele uniu forças com dois colegas da Universidade de Iowa, um virologista e um
patologista, e regressou ao Alaska para visitar a antiga Missão Teller, entretanto rebatizada como
Missão Brevig. Com consentimento prévio da tribo local, Hultin obteve amostras de tecido
pulmonar de algumas das vítimas de 1918. A equipa tentou isolar e cultivar o vírus usando as
mais avançadas técnicas disponíveis, mas não foram bem sucedidos. Foi uma grande desilusão.
Hultin desistiu do seu doutoramento e especializou-se em patologia. 46 anos depois, em 1997,
estava ele reformado em São Francisco (Califórnia, EUA), quando lê um artigo científico sobre o
estudo dos genes da estripe viral de 1918 obtida a partir de autópsias realizadas entre 1918 e
1919, utilizando PCR. Entusiasticamente, Hultin recuperou a intenção de estudar as amostras da
Missão Teller/Brevig. Um dos colegas de Hultin de Iowa mantivera as amostras desde 1951 até
1996! As amostras tinham sido eliminadas um ano antes! Hultin não desistiu e pediu permissão
para repetir a colheita de amostras. Desta vez, ele encontrou o corpo de uma jovem obesa, cujos
pulmões haviam sido conservados pelas baixas temperaturas e pela camada de gordura que as
rodeava. O genoma completo da estripe viral de 1918 foi obtido a partir destas amostras.
A sequência da hemaglutinina da estripe de 1918 (H1) foi reconstruída a partir do genoma do
vírus. O local de ligação ao ácido siálico sofrera mutações nos seus resíduos de aminoácidos a
partir do vírus aviário (H5), que alargou o local de ligação, permitindo aos vírus mutados ligarem-
se e infetarem células humanas. Estudos modernos da árvore filogenética dos vírus da gripe, que
inclui agora informação de amostras da Carolina do Sul, Nova Iorque e Brevig, todas de 1918,
relacionam a origem do vírus a uma estripe aviária encontrada num ganso (Alaska, 1917) (ver
figura). Apesar desta hipótese não ser totalmente consensual entre os investigadores, o medo
de que novos vírus anormalmente letais adaptados a humanos evoluam a partir de gripes aviárias
persiste e é uma questão de vigilância constante por parte de autoridades de saúde por todo o
mundo.
1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas! 13

Fig. 1.9 Hipótese de Beckett-Casy para a ligação entre uma molécula analgésica (tal como a morfina, que está
ilustrada) a um recetor opioide. Ainda que o estrutura exata do recetor não seja conhecida, as forças de
interação/atracão fundamentais foram identificadas: atracão eletrostática, pontes de hidrogénio e forças de van
der Waals. O recetor e tão específico ao ligando que moléculas quirais (que possuem os mesmo grupos químicos,
mas numa orientação diferente no espaço) não encaixam

Todo o processo de planear e estudar drogas (frequentemente chamado de “pipeline”) tem três
etapas principais: pesquisa, desenvolvimento e registo (Fig. 1.11). A etapa de pesquisa é tipicamente,
mas não exclusivamente, conduzida em universidades e centros de pesquisa académica. Durante esta
fase, alvos relevantes para certas patologias são identificados e a molécula a interferir com eles é
selecionada. A molécula é designada por “lead” e o processo de aperfeiçoamento é designado por
otimização da “lead”. A etapa da pesquisa dura muitos anos (raramente menos de 5).
O desenvolvimento pré-clínico é o primeiro passo da fase de desenvolvimento e o último antes dos
ensaios clínicos. Estudos pré-clínicos consistem no máximo de experiências in vivo e in vitro (tanto em
células como em sistemas artificiais) necessárias para assegurar que uma certa “lead” otimizada é
segura a um certo intervalo de dosagem quando preparada como uma formulação selecionada
específica e usando um modo definido de administração. O objetivo é minimizar os riscos ao mínimo
possível quando administrando a “lead” em humanos. A eficácia vem a seguir à segurança na lista de
prioridades. Esta é a razão pela qual os primeiros testes em humanos (Fase I dos ensaios clínicos) são
feitos em alguns voluntários saudáveis e não nos pacientes. Na Fase I dos ensaios clínicos, é a
segurança que é testada, usando doses pequenas dos componentes em estudo. Tolerância à droga,
absorção, distribuição pelo corpo e excreção são monitorizados. A Fase II dos ensaios clínicos inclui
pacientes e a eficácia, para além da segurança, é também testada. As drogas são administradas em
números que vão às várias centenas de indivíduos por várias semanas ou alguns meses, tipicamente.
A amplitude de dosagem da droga é aperfeiçoada durante os ensaios. É de salientar que todos os
ensaios são cientificamente controlados para a significância estatística dos resultados. O efeito
placebo (Caixa 1.2) também é tido em conta nos ensaios. O processo de desenhar ensaios clínicos,
recolher dados e análise relevante dos dados é, em si mesma, uma disciplina complexa.
14 1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas!

Fig. 1.10 (a) Ilustração que representa uma partícula de VIH, onde está marcada a cápsula (magenta), que rodeia
o ácido nucleico viral e as proteínas do envelope (cor-de-rosa). Para além da cápsula, o vírus está carregado com
muitas outras proteínas com diferentes funções no ciclo da replicação (reproduzido com autorização de Goodsell,
The Machinery of Life, 2009). (b) Anticorpos monoclonais amplamente neutralizantes ligam-se a motives
específicos (epítopos) na superfície das proteínas do envelope, gp120 e hp41. O modelo representado foi gerado
por recolha de dados científicos de diversas fontes. O contorno das proteínas do envelope e da membrana viral é
mostrado a cinzento; o que é conhecido da estrutura da gp120 é mostrado a cores. A porção glicosídica (sacárido)
da proteína é mostrada a verde e azul. MPER significa Região Membranar Externa Proximal (Membrane Proximal
External Region) e refere-se à porção proteica da gp41 mais próxima da membrana viral (reproduzido com
permissão de Burton & Weiss, Science 239:770–772, 2010). (c, d) Alguns anticorpos, tal como o 4E10, reagem com
esta porção da proteína. Nos pontos de contacto entre os resíduos de aminoácidos do anticorpo e da gp41, forças
atrativas como iónicas, pontes de hidrogénio e forças de van der Waals contribuem para uma ligação forte. A
natureza química e o arranjo espacial dos aminoácidos conferem seletividade à interação anticorpo-epítopo.
Figura reproduzida com permissão de Elsevier from Cardoso et al., Immunity, 22:163–173, 2005

A Fase III dos ensaios clínicos são uma réplica da Fase II, mas são usados milhares de indivíduos e
o tratamento pode estender-se no tempo. A Fase III é, assim, um refinamento da Fase II, quer em termos
de segurança como de eficácia. Acontecimentos raros como um efeito colateral indesejado do qual
não se estava à espera que pudessem não ter sido detetados na Fase II são agora mais facilmente
detetados. A preocupação pelo aparecimento de efeitos colaterais indesejados e raros que possam
ameaçar a segurança das drogas, até a apenas pequenas e específicas subpopulações de pacientes,
está sempre presente, mesmo depois da droga já ter sido aprovada como medicamento para uso
clínico. Isto é por vezes designado como “Fase IV” e consiste em monitorizar como as drogas se
comportam no “mundo real”, fora de um ambiente altamente controlado.
1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas! 15

Fig. 1.11 A descoberta de uma droga e o seu processo de desenvolvimento, normalmente referido como “pipeline”
na indústria farmacêutica. Há 3 etapas principais, pesquisa, desenvolvimento e registo (centro), distribuídas por
vários anos (linha temporal numérica). Cada etapa está dividida em subfases. Durante a fase da pesquisa, alvos
relevantes para determinadas patologias são identificados e as moléculas que interferem com esses alvos são
selecionadas (“leads”). A etapa de pesquisa demora tipicamente por volta de 5 anos. A fase de desenvolvimento
pode decorrer pelos 7 anos seguintes, durante as quais as drogas são testadas em termos de segurança e eficácia
em ensaios clínicos animais e humanos cuidadosamente planeados. No final de cada fase há uma avaliação dos
resultados; problemas relacionados com um destes dois critérios podem evitar a progressão para futuros testes.
Tipicamente, por cada 1000 moléculas que começam o processo, apenas uma chega ao fim da última fase com
sucesso. Esta taxa, chamada “taxa de atrito”, é incrivelmente baixa. Mais ainda, nem todas as moléculas recebem
aprovação para entrar no Mercado por razões regulamentares, e as que entram são ainda monitorizadas
posteriormente (Fase IV)

Caixa 1.2: O Efeito Placebo, o Poder do Nada


(baseado no “O Poder do Nada” de Michael Specter, no The New Yorker, 12 de Dezembro de 2011)
Um placebo é um tratamento simulado ou medicamente ineficaz para uma doença ou outra
condição médica com o fim de enganar aquele que o toma. Alguns pacientes que recebem o
tratamento placebo vão ter melhorias ilusórias ou mesmo reais de uma dada condição médica,
um fenómeno comummente referido como o efeito placebo.
Por grande parte da história da humanidade, os placebos foram uma ferramenta fundamental
do armamento de qualquer médico, por vezes a única. Quando não havia mais nada a oferecer,
16 1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas!

os placebos eram uma pomada. A palavra em si vem do Latim para “Eu irei dar prazer”. Na época
medieval, enlutados de contrato que participavam nas Vésperas pelos Mortos cantavam muitas
vezes a linha nove do Salmo 116: “Eu agradarei aos mortos na terra dos vivos”. Visto que os
enlutados eram contratados, as suas emoções eram consideradas insinceras. As pessoas
chamavam-lhes de “placebos”. A palavra sempre carregou conotações mistas. Os placebos são
muitas vezes tratados como uma “fraude pia”, pois pílulas de pão, gotas de água colorida e pós
de cinza de nogueira, por exemplo, podem levar a uma perceção de melhoria por parte dos
pacientes.
O primeiro teste controlado com placebo reconhecido publicamente – e ainda entre os mais
memoráveis – foi feito a pedido do rei Louis XVI, em 1784. O médico alemão Franz Anton Mesmer
tornou-se famoso em Viena por um novo tratamento ao qual ele chamava, “magnetismo animal”,
na qual ele teria descoberto um fluído curativo que conseguiria “curar” muitas doenças. Mesmer
tornou-se extremamente procurado em Paris, onde ele, de forma rotineira, “mesmerizava” os
seus seguidores, entre eles, Marie Antoinette. O rei pediu então a uma comissão da Academia de
Ciências Francesa para investigar estas reivindicações (entre os membros estavam o químico
Antoine Lavoisier e Joseph Guillotin – que inventou o dispositivo que iria eventualmente separar
a cabeça do rei do resto do corpo). A comissão replicou algumas das sessões de Mesmer e, num
dado caso, pediu a um jovem para abraçar árvores magnetizadas que se presumia conterem os
poderes curativos invocados por Mesmer. Ele fez como ordenado e respondeu como esperado:
ele abanou-se, convulsionou-se e desmaiou. No entanto, as árvores não eram magnéticas, e
Mesmer foi denunciado como uma fraude. Os conceitos de placebo e mentira entrelaçaram-se
na mente do público.
Passaram 150 anos até que os cientistas voltassem a ficar-se no papel que as emoções
podem ter na cura. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Tenente-coronel Henry Beecher
encontrou-se com mais de 200 soldados, gravemente feridos, mas em condições de falarem; ele
perguntou a cada um se queria morfina. 75% recusaram. Beecher ficou espantado. Ele sabia da
sua experiência pré-guerra que civis com feridas semelhantes estariam a implorar por morfina, e
ele já vira soldados saudáveis a reclamarem em plenos pulmões pela dor associada a pequenas
inconveniências, como serem vacinados. Ele conclui que a diferença estava nas expectativas;
um soldado que tivesse sobrevivido a um terrível ataque tem muitas vezes uma visão mais
positiva porque ele ainda estava vivo. Beecher fez então uma observação simples, mas poderosa:
as nossas expectativas podem ter um profundo impacto na forma como nós nos curamos.
Também existe o “efeito nocebo”. Quando se espera que um placebo faça mal ou cause dor,
as pessoas sentem-se piores, não melhores. Quando foi dito a participantes de um notável
estudo que dores de cabeça eram um efeito secundário de punções lombares, o número de dores
de cabeça reportado depois de o estudo estar acabado subiu exponencialmente.
Durante anos, os investigadores podiam fazer pouco mais do que tentar adivinhar a biologia
complexa da resposta ao placebo. Uma imagem significativa começou a emergir apenas nos
anos 70 com a descoberta das endorfinas, analgésicos endógenos produzidos pelo cérebro.

A aprovação regulatória segue a Fase III e precede a Fase IV e inicia a Fase de registo. Os resultados
do desenvolvimento da droga, desde a molécula ao homem, do banco ao lado da cama, são submetidos
a agências reguladoras, que avaliam os resultados e conclusões de todo o desenvolvimento clínico
baseando-se na avaliação feita por peritos independentes. A necessidade dessa nova droga específica
e o quão inovadora é quando comparada a drogas existentes com o mesmo fim é algo que também se
deve ter em consideração. A decisão de permitir que uma molécula específica faça parte de um novo
medicamento ou não pertence a estas agências.
Os números associados à dificuldade em desenvolver uma droga bem sucedida, que é mais tarde
incorporada num novo medicamento, são absolutamente impressionantes. Por cada 1-5 milhões de
“novas entidades químicas” (moléculas investigadas pelo seu interesse farmacológico), apenas 1000
1 Introdução: A Vida É Feita de Moléculas! 17

têm resultados positivos nos testes in vitro, dos quais apenas 70 são selecionados como “leads”, que
são depois otimizados para formar 7 drogas candidatas a entrar em ensaios clínicos. Destes 7, apenas
2-3 chegam à Fase III dos ensaios clínicos e apenas 1 é aprovado pelas entidades reguladoras. Todo o
processo leva 15 anos para completar-se (Fig. 1.11) e tem um custo estimado de muitos milhões de
dólares americanos por cada nova droga aprovada, em média. É importante salientar que estes são
números brutos que variam muito com as diferentes áreas da medicina, mas servem para ilustrar os
esforços necessários para lutar continuamente contra a progressão de uma doença. Reduzir a taxa de
atrito (número de novas entidades químicas que falham durante o processo de desenvolvimento de
uma droga), acelerar o processo e torná-lo o mais eficaz possível é muito trabalhoso, no entanto, são
trabalhos urgentemente necessários.

Bibliografia Selecionada
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A Química e a Física da Vida

Tradução: Laura Gomes


Revisão: Vasco Martins
(Páginas 23-47)

A nossa ideia do interior de uma célula à escala molecular é frequentemente ingénua. Se alguém
pudesse ver o interior de uma célula com resolução molecular, não veria uma solução aquosa de
moléculas com organelos celulares suspensos. O crowding molecular particularmente o crowding
macromolecular, dentro de uma célula é tal que o interior desta se assemelha mais a um gel que a uma
solução. O empacotamento molecular é tão denso que a difusão livre das macromoléculas é difícil. A
presença ubíqua do citoesqueleto e de agregados moleculares num espaço que é altamente restrito
devido aos organelos celulares tornam o interior da célula firmemente empacotado (Fig. 2.1). Mesmo
assim, é um ambiente altamente hidratado, onde a solvatação é feita por moléculas de água (Fig. 2.1)
e os espaços vazios são preenchidos por água que solubiliza iões e pequenas moléculas. Assim,
virtualmente, todas as moléculas expostas numa célula estão sobre a influência química e física da
água. O interior de uma célula não é uma solução aquosa, mas as reações químicas das células vivas
são tipicamente reações de soluções aquosas.
A vida começou na água e, quimicamente falando, ainda é dominada pela água. Até a composição
elementar das moléculas numa célula foi determinada pela água. Com algumas exceções, a
abundância de elementos numa célula reflete a abundância dos mesmos elementos nos oceanos (Fig.
2.2). Ferro, fósforo, ou nitrogénio fazem parte destas exceções: em média, são mais abundantes no
interior das células do que nas águas do mar devido à sua utilidade química. A estrutura eletrónica do
nitrogénio (Fig. 2.2) torna-a apropriado, enquanto dador de eletrões, estabelecer ligações covalentes
dativas, também conhecidas como ligações dipolares ou coordenadas. O fósforo é um elemento
extraordinário pelas suas capacidades na química de coordenação (Fig. 2.2). A química do fosfato,
PO3-4 , é tão útil para as células que a fosforilação/desfosforilação é um mecanismo omnipresente para
ativar ou inibir enzimas ou determinar a reação na qual participará uma molécula, numa sequência
metabólica. O ferro pode ter sido um dia abundante como Fe2+ solúvel, que foi depois oxidado a Fe 3+
aquando do aparecimento do oxigénio molecular, O2, na atmosfera terrestre. O Fe3+ formou óxidos e
hidróxidos que precipitaram, tornando o ferro menos abundante na água do mar. No entanto, o ferro já
estava a ser usado pelas células e a sua “utilidade química” determinou que as células mantivessem
este elemento a níveis mais elevados na sua composição. O ferro é capaz de participar na química
coordenativa dos complexos organometálicos, sendo a hemoglobina um exemplo.
Elementos que são muito abundantes na crusta terreste, mas não nos oceanos, como alumínio (8,2%
dos átomos) ou silício (28% dos átomos!), também não são abundantes nas células por,
maioritariamente, fazerem parte de óxidos insolúveis. Apenas 1% do total de átomos nas células não
são hidrogénio (62,8%), oxigénio (25,4%), carbono (9,4%) ou nitrogénio (1,4%). No entanto, muitos
elementos que estão apenas presentes em quantidades residuais podem fazer parte de moléculas ou
processos essenciais à vida, como o boro (B), o cobalto (Co), o cobre (Cu), o manganésio (Mn) ou o
molibdénio (Mo).
Portanto, a água impôs constrangimentos severos à evolução molecular das células. E ainda o faz!
A água é uma pequena, mas fantástica molécula. Apesar da sua simplicidade e abundância, a água
ainda fascina os químicos. Em particular, a sua polaridade e habilidade de estabelecer pontes de
hidrogénio são determinantes para influenciar as reações químicas em regiões onde a água serve como
o solvente major, o que corresponde a que quase toda a célula (sendo as membranas lipídicas a

18
19 2 A Química e a Física da Vida

Fig. 2.1 Empacotamento na organização molecular das células. Mesmo nas células simples como as bactérias
(ex. E coli, a), o citoplasma é um empacotamento denso de macromoléculas (ex. proteínas e ácidos nucleicos) e
moléculas menores como água, nucleótidos e aminoácidos (b). Esta situação é frequentemente designada como
aglomerado molecular (“molecular crowding”). O interior da célula é assim mais similar a um gel do que a uma
solução. Não obstante, virtualmente toda a superfície externa das macromoléculas, pequenas moléculas e iões
está em contacto com a água (c). Aminoácidos, sacáridos, ATP e muitas outras pequenas moléculas orgânicas
estão representadas a cor-de-rosa. Iões metálicos estão representados a vermelho, iões fosfato a amarelo e a
laranja e iões cloro a verde. As moléculas de água estão a turquesa. Embora em muitos casos as moléculas de
água possam ser confinadas às cápsulas de solvatação (camadas de água que rodeiam outras moléculas),
impõem muitos constrangimentos químicos e físicos à organização molecular e reatividade nas células. As
moléculas de água são polares e propensas a estabelecer pontes de hidrogénio (d). Embora o interior da célula
não seja uma solução, a química e física da mesma é dominada pela água

principal exceção). Se não fosse pelas pontes de hidrogénio, por exemplo, a água não seria um líquido
às temperatura e pressões a que os humanos e a maioria dos animais estão adaptados. O metano, com
uma estrutura molecular que pode ser comparada à da água, não é tão importante como a água na
história da vida: o ponto de ebulição do metano é -162ºC (Fig. 2.3).
Moléculas que são polares, principalmente aquelas que conseguem estabelecer pontes de
hidrogénio com a água, podem ser distribuídas no corpo humano por difusão simples, como no sangue
e/ou fluidos cérebroespinais, enquanto moléculas apolares tem uma baixa solubilidade e podem
apenas ser distribuídas por sistemas de transporte específicos, como as lipoproteínas. A glucose (Fig.
2.4), por exemplo, distribui-se no corpo humano sem um transportador, podendo a sua concentração
no sangue atingir valores elevados sem problemas de solubilidade. O colesterol é o oposto, já que a
sua solubilidade em meios aquosos é muito baixa, pelo que formaria cristais e precipitaria caso não
fosse mantido num meio apolar, como o núcleo hidrocarbónico de membranas lipídicas ou o interior
de lipoproteínas. Algumas situações patológicas, como pedras na vesícula, relacionam-se com a baixa
solubilidade de moléculas relacionadas com o colesterol, o que leva à formação de agregados (devido
ao efeito entrópico), que, por sua vez, nucleiam pequenas estruturas cristalinas que se tornam “pedras”
que podem chegar a medir alguns centímetros.
A solubilidade é tão importante para a farmacologia como para a fisiologia. Uma droga que precipite
e cristalize no sangue, ou mesmo no estômago após ser engolida, é dificilmente eficaz, já que não pode
ser distribuída e/ou absorvida no corpo. Drogas apolares são normalmente misturadas com outras
moléculas em formulações que previnem a agregação de drogas em meios aquosos. A solubilidade é
um dos parâmetros chave a ter em conta para conceber estratégias no desenvolvimento de drogas.
A tendência que a drogas têm para se instalarem em regiões aquosas ou hidrofóbicas dos tecidos,
como as lipoproteínas, bicamadas lipídicas ou depósitos adiposos, é estudada em farmacologia
medindo a distribuição do fármaco entre o octanol e a água, dois solventes imiscíveis. O octanol é um
solvente orgânico, em grande parte apolar. Apesar da popularidade deste método, o octanol não
consegue reproduzir exatamente os ambientes lipídicos e existem alternativas mais modernas, como
trabalhar com suspensões aquosas de vesículas lipídicas (Fig. 2.5).
2 A Química e a Física da Vida 20

Fig. 2.2 O painel (a) mostra que a abundância dos elementos químicos no corpo humano corresponde à
abundância desses mesmos elementos na água do mar, com algumas exceções. O ferro, o fósforo e o nitrogénio
fazem parte dessas exceções porque são muito abundantes no corpo humano. Elementos como o carbono, o
hidrogénio e o oxigénio não se encontram representados no gráfico porque são extremamente abundantes. O
nitrogénio liga três hidrogénios no amoníaco (NH3). As ligações covalentes são formadas com as órbitas s do H
(cinzento) e uma mistura das s (não representadas) e das três p do N (vermelho) (b). Uma quarta órbita sp tem
eletrões que estão disponíveis para participar em ligações dativas (de coordenação). Uma representação
simplificada da molécula representa estes eletrões como •• acima do N (c). O oxigénio na água ou na molécula de
dioxigénio (O2) também tem eletrões disponíveis para participar em ligações dativas, por exemplo, com iões
metálicos. O painel (d) mostra o catião tetraaminodiaquacobre (II) [Cu(NH3)4(H2O)2]2+, no qual um ião Cu2+
central aceita eletrões de duas moléculas de água e quatro moléculas de amoníaco. A ligação do dioxigénio ao
ferro na molécula de hemoglobina segue o mesmo princípio

Fig. 2.3 Água vs. Metano: geometria molecular semelhante, mas polaridade diferente (o eixo de assimetria da
carga é representado a azul a partir da ligeiramente mais alta densidade eletrónica nas órbitas não-ligantes do O a
verde para uma mais baixa densidade eletrónica no H) e diferentes capacidades de ligação do H, o que determina
pontos de ebulição muito diferentes: 100ºC para a água, -162ºC para o metano
21 2 A Química e a Física da Vida

Fig. 2.4 Moléculas muito hidrófilas são polares, como a glucose (a). Tal como a água, a glucose pode estabelecer
várias pontes de hidrogénio por molécula. A sua solubilidade na água é, portanto, muito elevada e a glicose pode
ser distribuída livremente no corpo humano quando solubilizada no plasma sanguíneo. Em contraste, o colesterol
(b), tendo apenas um único grupo polar, o álcool (-OH), é muito hidrofóbico (apolar) e não é solúvel em meios
aquosos, como plasma sanguíneo. A distribuição do colesterol e outras moléculas apolares no corpo humano
requer estruturas especiais que emulsionam estas moléculas hidrofóbicas no sangue, as lipoproteínas. Algumas
moléculas biológicas e drogas, como o ibuprofeno (c), por exemplo, podem ser casos intermédios e ter uma
solubilidade limitada devido a presença simultânea de grupos hidrofóbicos e hidrófilos na mesma molécula (o
ibuprofeno tem um anel fenil e um grupo carboxilo), o que é muito importante para a ADME: absorção, distribuição,
metabolização e excreção pelo corpo humano. As solubilidades de moléculas biológicas selecionadas e drogas
encontram-se em (d)

A polaridade de uma determinada molécula também é determinante para sua excreção. Moléculas
polares são mais fáceis de excretar devido à sua solubilidade no sangue e na urina. A estratégia
principal do corpo humano para eliminar xenobióticos (moléculas que não são constituintes naturais
de tecidos humanos) consiste no enxerto de grupos hidroxilo (OH), para que se tornem mais polares e,
portanto, mais solúveis em fluidos aquosos. Este é um método eficiente que pode ser aplicado a uma
ampla diversidade de moléculas, servindo o propósito de baixa especificidade para uma ampla
proteção do corpo humano contra múltiplas moléculas tóxicas. O complexo molecular responsável pela
poli-hidroxilação de diferentes compostos é o citocromo P450, um grande complexo proteico que
contém ferro (Fig. 2.6).
A hidrofobicidade (mais precisamente dir-se-ia o "efeito entrópico") é importante não só para a
absorção, distribuição e excreção de moléculas, como discutido nesta seção, mas também para manter
unidas as mais onipresentes estruturas supramoleculares não covalentes das células: as membranas
de bicamadas lipídicas. A importância desta questão é tal que continuaremos para uma explicação
detalhada numa seção posterior (Secção 3.1).

2.1 O Básico da Química das Células e Tecidos


É difícil estabelecer os limites entre a Química e a Física à escala molecular. A interface entre ambas é
um campo científico rico designado como Físico-Química ou Química Física. Estas disciplinas lidam
tipicamente com a estrutura molecular e com a forma como esta afeta a reatividade. Uma distinção
funcional, que é muito prática para aqueles que trabalham com moléculas, é considerar reações
químicas todas as transformações de matéria que envolvem formação ou quebra (ou ambos) de
ligações covalentes. Transformações que não envolvem alteração de ligações covalentes são
consideradas processos físicos. Assim, a luz sendo absorvida pelas moléculas na superfície da pele
por um creme protetor solar constitui um processo físico, enquanto que a radiação UV atingir as células
da pele e danificar o DNA devido à clivagem de uma ligação covalente é química. À escala
macroscópica, esta fronteira funcional entre Química e Física pode perder o sentido intuitivo: um
canalizador, ao cortar um tubo metálico ou de PVC, estaria a fazer Química uma vez que o que ele está
realmente a destruir são ligações químicas.
2 A Química e a Física da Vida 22

Fig. 2.5 (a) O octanol é uma molécula anfifílica com uma cadeia acilo de oito carbonos e um grupo álcool (-OH)
polar. A sua hidrofobicidade impede a sua miscibilidade com a água. Dependendo da sua própria polaridade, os
solutos distribuem-se mais extensivamente ao octanol ou à água. A razão das concentrações de equilíbrio do
soluto em ambas as fases é constante, independentemente da quantidade total de soluto ou do volume de cada
fase, que é a razão pela qual esta relação é referida como constante de partição, POW. Este parâmetro é utilizado
para estimar a tendência que as moléculas em estudo (por exemplo, um candidato a fármaco para um futuro
medicamento) têm para interagir com membranas e outras estruturas lipídicas, como as lipoproteínas ou gotículas
lipídicas. (b) Técnicas mais recentes usam diferentes abordagens (bicamadas lipídicas artificias em suspensão).
Apesar da onipresença e simplicidade da abordagem octanol/água, o octanol é uma réplica pobre de lipídios. As
vesículas lipídicas em suspensão são bicamadas lipídicas de composição muito bem definida. Embora careçam
de muitas características de membranas biológicas (recetores, transportadores, ancoragem do citoesqueleto,
aglomeração de lipídios específicos, etc.), são muito mais realistas como miméticos de membrana biológica do
que octanol
23 2 A Química e a Física da Vida

Fig. 2.6 O complexo citocromo P450 (a; PDB 1W0E) usa ferro e oxigénio para adicionar um grupo hidroxilo (OH) a
moléculas orgânicas (genericamente representadas por RH no painel b), tornando-o mais solúvel em água,
possibilitando a sua excreção através da urina. Este é um importante mecanismo de desintoxicação no corpo
humano

Na prática, uma definição clara do que é a química por oposição ao que é a física não é necessária
ou útil. Muitos profissionais usam os dois e realmente não se importam ou pensam em denominar o
que fazem em termos da classificação Química vs. Física.
A "vida química" das células é muito rica e diversificada. Muitos tipos diferentes de reações podem
ocorrer. Provavelmente todos os tipos de reações que ocorrem em meios aquosos, descritos nos livros
de química orgânica mais completos, podem ser encontrados em células. Neste capítulo, vamos focar-
nos apenas naqueles que são mais importantes para entender a regulação metabólica humana, o
núcleo atual da bioquímica integrativa humana (isto é, bioquímica em relação a outras disciplinas como
histologia, fisiologia, farmacologia, e até mesmo anatomia, para que uma perceção global da
homeostase do corpo humano seja alcançada). Deve-se enfatizar que tais reações são favorecidas pela
presença de água como solvente. Como a interação com as moléculas de solvente afeta a distribuição
eletrónica das moléculas, a sua reatividade é afetada pelo solvente. Se a evolução natural a nível
molecular fosse baseada num solvente diferente (por exemplo, octanol), o “portfólio” das reações
químicas da vida seria diferente.
Reações de oxidação-redução estão entre as reações mais importantes do mundo vivo. Como o
nome indica, reações de oxidação-redução são aquelas nas quais eletrões são doados (oxidação) ou
recebidos (redução). Como os eletrões nas células não permanecem isolados, individualmente, como
iriam no vácuo no espaço, eles são transferidos entre moléculas ou iões e, portanto, a oxidação e a
redução coexistem. Estas transferências são, portanto, designadas como reações de oxidação-
redução. Muitas moléculas diferentes podem ser oxidadas ou reduzidas. Alguns estão particularmente
bem adaptadas como agentes redutores, como o NADH (Fig. 2.7); outras estão particularmente bem
adaptadas para fazer parte de uma cadeia de transferências eletrónicas sucessivas, como algumas
metaloproteínas. As metaloproteínas possuem elementos metálicos na sua composição que facilitam
a receção e doação de eletrões. O sistema transportador de eletrões, por exemplo, tem várias destas
proteínas (ver Secção 6.2.3).
As reações ácido-base constituem outra classe de reações extremamente importantes e
omnipresentes no “mundo vivo”. Estas são reações nas quais um protão (H+) é doado (por um ácido)
ou recebido (por uma base). Em meio aquoso, como quase na totalidade da célula, o H+ não existe
como tal porque as moléculas de água capturam o protão, formando H 3O+ ou doam um protão,
2 A Química e a Física da Vida 24

Fig. 2.7 Exemplo de uma reação de oxidação-redução. O lactato é oxidado para formar piruvato (a).O seu grupo –
OH é transformado num grupo C=O (carbonilo) e, durante o processo, os eletrões foram transferidos para o NAD +,
que foi transformado em NADH (b)

formando OH-, o anião hidróxido. Estas espécies químicas (OH-, H3O+ e H2O) estão todas relacionadas
e o equilíbrio entre eles pode ser alcançado:
2H2O ⇌ H3O+ + OH-
A constante de equilíbrio para esta reação é:
[H3 O+ ][OH- ]
Keq = 2
[H2 O]
Como a [H2O] (concentração molar da água) é constante independentemente da temperatura e pressão,
o produto iónico da água, KW, é usado em vez de Keq, pela sua simplicidade:
Kw = [H3O+][OH-]
25 2 A Química e a Física da Vida

A 25ºC, KW = 1 x 10-14 mol2 dm-6 (1 x 10-14 M2). Isto pode parecer não ter sentido ao inicio, mas é a partir
daqui que podemos concluir que na água pura o valor de pH é 7. Na água pura, um ião H3O+ é formado
por cada HO-, pelo que:
[H3O+]eq [OH-]eq = 1 x 10-14 M2 ⇔
2
[H3 O+ ]eq = 1 x 10-14 M2

[H3O+]eq = 1 x 10-7 M
Consequentemente:
[H3O+]eq = 1 x 10-7 M ⇔
-log[H3O+]eq = 7 ⇔
pH = 7
Assim, na água pura, a uma temperatura próxima de 25 ° C, o pH é 7.
O citoplasma das células está, aproximadamente, a pH 7, embora o pH possa variar em certos
organelos celulares. No corpo humano como um todo, os valores de pH de diferentes ambientes são
muito diversos, desde o suco gástrico extremamente ácido ao meio básico do lúmen intestinal (Fig.
2.8).
Outros tipos de reações de eliminação (“addition elimination”) ou substituições nucleofílicas
também são muito frequentes, mas as reações ácido-base continuarão a ser o foco da nossa atenção
pela importância que o controlo do pH tem na homeostase. Variações no pH podem causar variações
na protonação/desprotonação de proteínas e outras moléculas biológicas, o que, por sua vez, afeta a
sua função. Tomemos o exemplo das enzimas: a protonação ou desprotonação de grupos químicos na
estrutura da proteína provoca variação na carga, levando a novos conjuntos de atrações e repulsões
entre as diferentes partes da molécula, que podem fazer com que alguns segmentos da proteína
contraiam e outros se tornem mais laxos, dificultando ou facilitando a função ideal da catálise
enzimática (tornar-se-á mais claro na Secção 3.3, onde iremos abordar a estrutura das proteínas em
detalhe). O mesmo impacto na estrutura e função molecular aplica-se a outras moléculas biológicas,
como os polissacarídeos. Portanto, estabilizar o pH, a fim de garantir a estrutura adequada e função de
moléculas biológicas é muito importante. Isto não quer dizer que o pH deva ser o mesmo em todos os
tecidos ou em todas as células do mesmo tecido ou em todos as organelos da mesma célula. O pH é
ativamente controlado em diferentes ambientes anatómicos, histológicos e celulares, mas não é o
mesmo em todos os casos. O pH do plasma sanguíneo, por exemplo, é estritamente controlado e só
pode variar num intervalo muito restrito em torno de 7,4. Isto não é surpreendente porque a eficácia
com a qual a hemoglobina transporta o O 2 é muito dependente do pH. No entanto, o CO 2, que é uma
molécula que tem o potencial de ter um grande impacto sobre o pH (ver próximo esquema de reação),
difunde-se livremente no sangue.
CO2 + H2O → H2CO3 ⇌ HCO-3 + H+ , H+ + H2O → H3O+
Então, como é possível para o nosso corpo lidar com a difusão de CO 2 e ainda manter o pH do
plasma sanguíneo rigidamente controlado, centrado em pH 7,4? A resposta reside num mecanismo
enganosamente simples do controlo do pH denominado “tamponamento de pH” (Fig. 2.9).
Os tampões de pH não são mais do que misturas de ácidos fracos ou bases fracas com as suas
bases ou ácidos conjugados, respetivamente. Na prática, uma solução aquosa de um ácido fraco ou
base fraca em equilíbrio é um tampão de pH porque estas espécies químicas dissociam-se numa
extensão moderada formando misturas que são tampões de pH. O motivo pelo qual estas misturas
conseguem manter constante o pH está relacionado com os princípios básicos do equilíbrio químico.
Considere um ácido fraco genérico, representado por HA por uma questão de simplicidade, em solução
aquosa:
HA + H2O ⇌ A- + H3O+
[A- ][H3 O+ ]
Keq =
[HA]
2 A Química e a Física da Vida 26

Fig. 2.8 (a) Protonação (da direita para a esquerda) e desprotonação (da esquerda para a direita) de um ácido
carboxílico. O pH do meio depende desse tipo de reação. (b) Uma grande variedade de ambientes com pH’s
diferentes pode ser encontrada no corpo humano

Fig. 2.9 Como funciona um tampão de pH. Uma solução tampão de pH é uma mistura de um ácido fraco (HA) com
a sua base conjugada (A-) ou vice-versa. Quando um ácido é adicionado à solução, as espécies desprotonadas
(A-) reagem com o ácido adicionado para formar a forma protonada (HA). Parte do H3O+ é, assim, consumida e a
queda de pH é assim atenuada. Quando a solução adicionada é uma base, parte do OH - é consumido por reação
com HA, a forma acídica do tampão, e o aumento do pH é assim atenuado. Adições de quantidades significativas
de ácidos ou bases a soluções tamponadas resultam numa variação modesta do pH, enquanto as espécies tampão
protonadas (HA) e desprotonadas (A-) coexistam

Após a adição de um ácido forte, HA′ (por definição, os ácidos fortes têm dissociação completa), a
concentração de H3O+ aumenta:
HA' + H2O → A’− + H3O+
27 2 A Química e a Física da Vida

O recém-formado H3O+ tem um impacto sobre o equilíbrio do ácido fraco, que irá progredir na direção
inversa (formação de HA) para consumir parte do H3O+. A extensão desse consumo de H3O+ pode ser
calculada com base na constante de equilíbrio, que permanece inalterada: as concentrações de H3O+ e
HA aumentam e a concentração de A− diminui até o ponto em que Keq é mantido (ver Caixa 2.1).

Caixa 2.1: Tampões de pH e a Origem da Equação de Henderson-Hasselbalch


A situação inicial, antes da adição do ácido forte, é:
HA + H2O ⇌ A- + H3O+
[A- ][H3 O+ ]
Keq =
[HA]
Após a adição de ácido forte (HA’), [H3O+] aumenta:
HA' + H2O → A’− + H3O+
Mas o equilíbrio da dissociação de HA é o mesmo em ambas as situações, por isso:
[A- ]i [H3 O+ ] [A- ]f [H3 O+ ]
i f
Keq,i = Keq,f ⟺ = ⟺
[HA]i [HA]f
[H3 O+ ]f [A- ]i [A- ]f
= /
[H3 O+ ]i [HA]i [HA]f

(i e f correspondem a inicial e final, respetivamente)


[H3 O+ ]f
Esta equação mostra que como > 1, o equilíbrio do ácido fraco é perturbado de forma
[H3 O+ ]i
a favorecer a formação de HA, consumindo H3O+. Todo o HA′ é convertido em H3O+ e, na ausência
do ácido fraco, a concentração de H3O+ aumentaria correspondentemente. Na presença do ácido
fraco, parte do H3O+ é consumido por A− para formar HA, atenuando assim a queda do pH
causada pelo ácido forte. Este é o mecanismo molecular do tamponamento de pH (veja também
a Fig. 2.9 para uma explicação ilustrada).
Se uma base forte é usada, aplica-se o mesmo princípio, desta vez com a “intermediação” do
produto iónico da água:
BOH → B+ + OH-
OH- + H3 O+ ⇄ 2H2 O
Além disso, se uma base fraca é usada em vez de um ácido fraco, existe a mesma capacidade
de tamponamento.
A equação de Henderson-Hasselbalch é uma maneira muito simples e robusta de mostrar
como o pH deve evoluir quando [A−] e [HA] são perturbadas e mudar quando novos equilíbrios
são formados devido ao aparecimento de novos ácidos ou bases em solução. A equação de
Henderson-Hasselbalch
[A- ]
pH = pKa + log
[HA]
não é mais que uma reformulação da constante de equilíbrio (aqui designada Ka para mostrar
que se refere a um ácido):
[A- ][H3 O+ ] [HA]
Ka = ⟺ [H3 O+ ] = Ka ⟺
[HA] [A- ]
[HA] [A- ]
-log[H3 O+ ] = − log Ka − log ⟺ pH = pK + log
[A- ] a
[HA]
2 A Química e a Física da Vida 28

Uma representação gráfica esquemática desta equação (veja a figura) mostra que o pH varia
muito pouco quando ácidos ou bases fortes são adicionados a tampões, principalmente quando
o pH está dentro da faixa de pKa ± 1. Este intervalo é centrado em torno do ponto onde [A−] = [HA],
como está implícito na equação de Henderson-Hasselbalch quando pH = pKa. Naturalmente, a
eficiência do tampão aumenta com [HA] porque maior [HA] implica que mais H3O+ de OH− possa
ser adicionado à solução antes de [A−] chegar a zero, o ponto em que o mecanismo de
tamponamento fica esgotado.

Alterações no pH numa solução tamponada são muito menos severas do que seriam numa solução não
tamponada. Exemplos de variação de pH numa solução inicialmente em pH 9 após a adição de ácido forte,
com uma concentração total de HA de 0,1 M, quando o pKa de HA é 7 (azul), 5 (vermelho) ou 3 (amarelo). A
curva verde tracejada indica a queda de pH se HA estiver ausente (solução sem tamponamento, 0 <[H 3O+]ad
< 0,1 M). A concentração do H3O+ adicionada à solução é [H3O+]ad e é representado em relação à
concentração total de HA usada no tampão ([HA]total). A zona de tampão (linhas de variação de pH quase
horizontais) é sobretudo no intervalo de pH que ficaria dentro de pKa ± 1, e a capacidade de tamponamento
(isto é, os limites de [H3O+]ad na zona de tamponamento) depende do [HA]total. Este exemplo ilustra como
grandes quantidades em H3O+ adicionado causam modestas alterações no pH no intervalo pKa ± 1. O caso
em que uma base é adicionada a uma solução ácida é semelhante. Concentração de OH- aumenta, o que é
concomitante com uma diminuição de H3O+, e a situação é simétrica à obtida aqui (aumento do pH em vez
de queda).

Embora a equação de Henderson-Hasselbalch seja importante na compreensão fundamental


da química do tamponamento de pH, a sua raiz histórica está na medicina. Lawrence Henderson
era um médico interessado em alterações do pH do plasma na patologia. Ele criou o conceito de
equilíbrio ácido-base. Karl Hasselbalch estudou o efeito de CO2 na hemoglobina com Christian
Bohr (que deu o nome ao efeito de Bohr – ver Secção 3.3.3). As obras de ambos os médicos
abriram o caminho para o estudo da perturbação respiratória e metabólica do equilíbrio do pH
do plasma sanguíneo, um avanço significativo na fisiologia do início do século XX.
29 2 A Química e a Física da Vida

A generalização dos conceitos e equações mencionados anteriormente deve ser feita cautelosamente
por várias razões:
(a) Do ponto de vista do rigor científico, os coeficientes de atividade devem ser utilizados em adição às
concentrações em todas as equações acima mencionadas. Os coeficientes de atividade são usados
em termodinâmica para explicar os desvios do comportamento ideal numa mistura de substâncias
químicas. Por razões práticas, assume-se que os coeficientes de atividade não alteram as
constantes de equilíbrio nas condições experimentais abordadas.
(b) A água dissocia-se para formar H3O+; portanto, os iões H3O+ estão sempre presentes em soluções
aquosas. Nas equações e raciocínios acima mencionados, o produto iónico da água nunca foi
considerado, o que é válido em circunstâncias onde as espécies ácidas estão presentes em
concentrações muito superiores às envolvidas no produto iónico da água ([H 3O+] = 10-7 M).
(c) Nós explorámos o conceito de tampões em situações nas quais existe equilíbrio químico. Isto nem
sempre é o caso em situações biológicas.
Apesar de todas estas limitações, o conceito geral de tampão ainda se aplica às células e órgãos.
As equações devem ser aplicadas judiciosamente a problemas químicos em sistemas vivos, mas o
conceito de tampão de pH in vivo ainda é válido. Onde quer que ácidos fracos ou bases fracas estão
presentes nas células ou fluidos corporais, contribuem para formar um tampão. Iões como H 2PO4-/
HPO42- (pKa = 6,8) são muito importantes para tamponar o pH citoplasmático (observe que o pH do
citoplasma é de cerca de 7,0, bem dentro da faixa de H2PO4-/HPO42- = pKa ± 1 = 6,8 ± 1), mas não o do
plasma. H2CO3/HCO3- é muito mais importante para tamponar o pH do plasma. Os grupos –COO- e
–NH3+ presentes nas proteínas plasmáticas também contribuem para o tamponamento do plasma,
mas não tanto como os hidrogenocarbonatos (H2CO3/HCO3-): enquanto as proteínas contribuem para
24% da capacidade de tamponamento do plasma, H2CO3 / HCO3- contribuem com 75% (o 1% restante
é uma contribuição modesta do H2PO4-/ HPO42-). A prevalência do H2CO3/HCO3- não é surpreendente,
uma vez que o CO2 se difunde livremente no plasma, apesar de a hemoglobina ter uma certa capacidade
de fixar CO2. O dióxido de carbono é extensamente convertido a di-hidrogenocarbonato pela enzima
carbonato-desidratase nos eritrócitos:
C2O + H2O → H2CO3.
O H2CO3 está então presente no plasma, onde está em equilíbrio com o carbonato de hidrogénio
(também conhecido sob o nome popular de "bicarbonato"), HCO-3 :
H2 O + H2 CO-3 ⇌ HCO-3 + H3 O+ pKa = 6,1 (plasma)
HCO-3 existe no plasma com concentrações típicas na faixa de 22 a 26 mM.
Deve-se ressaltar que o equilíbrio H2CO3/ HCO3- in vitro tem pKa = 3,8, bem diferente do pKa no
plasma (6,1), que é dito ser um aparente pKa porque está sob a influência da produção enzimática de
H2CO3. Para ter em conta a alteração do pH devido à flutuação nos níveis plasmáticos de CO2, pode-se
aplicar a equação de Henderson-Hasselbalch para os múltiplos equilíbrios.
C2O + H2O ⇆ H2CO3
H2 CO3 + H2 O ⇆ HCO-3 + H3 O+
CO2 + 2H2 O ⇆ HCO-3 + H3 O+
-
[HCO3 ][H3 O+ ]
Ka, aparente =
[CO2 ]
A concentração da água é constante e é, assim, incorporada em Ka, aparente; as variáveis estão no lado
direito da equação, e o lado esquerdo da equação é constante. Seria uma complicação desnecessária
ter [H2O], que é constante, no lado direito da equação.
Surge agora a questão de qual é a maneira mais apropriada de expressar [CO2] porque, à pressão
de 1 atmosfera e temperaturas usuais, o CO2 é um gás e as unidades molares não são adequadas para
gases. [CO2] deve então ser convertido em pressão parcial, pCO2:
[CO2] = 0,03  pCO2
2 A Química e a Física da Vida 30

para [CO2] em mM e pCO2 em mmHg. Assim:


-
[HCO3 ][H3 O+ ]
Ka, aparente = ⟺
0,03pCO2
-
[HCO3 ]
pH = 6,1 + log
0,03pCO2
Esta equação ajuda ao antecipar a queda no pH quando a pCO2 aumenta, mas deve-se enfatizar que
um aumento na pCO2 também causa um aumento na HCO-3 , mitigando o impacto da flutuação dos
níveis dos níveis plasmáticos de CO2 no pH.

2.2 Mais do que Só Química: Também Há Física


Dada a importância das reações químicas nas células e nos organismos como um todo, tendemos a
esquecer a importância dos processos físicos na vida. Eles também são importantes para entender a
vida no nível molecular. Além de todas as questões relacionadas à solubilidade de moléculas em meios
aquosos, as quais foram discutidas no início deste capítulo, a interação da luz com biomoléculas, por
exemplo, é de extrema importância. Isto torna-se claro ao estudarmos a visão dos animais, a
fotossíntese em plantas ou a bioluminescência de microrganismos, nomeando alguns exemplos. Em
relação à bioquímica humana no campo das ciências da saúde, os temas de eleição são os primeiros
eventos da visão e os efeitos da luz ultravioleta (UV) em tecidos como a pele e o cabelo. Outros tópicos,
como os efeitos da radioatividade e outros efeitos não óticos da radiação em humanos, são deixados
de fora deste livro, embora sejam interessantes e muito relevantes em situações particulares.
Quando a radiação interage com a matéria, podem ocorrer diferentes tipos de fenómenos, tais como
absorção, dispersão ou difração. A absorção implica que a energia da radiação corresponda à energia
necessária para alterar estados moleculares. Isso significa que a energia da radiação é usada na
mudança da configuração molecular dos núcleos e/ou eletrões para que a radiação se extinga no
processo (é “absorvida”). Isto acontece quando um fotão entra nos nossos olhos e desencadeia uma
mudança radical na conformação do retinol na retina, iniciando assim o processo fisiológico que
termina com a perceção visual. A dispersão diz respeito à radiação que interage com moléculas e não
é absorvida, mas faz com que as moléculas emitam radiação secundária, tendo a mesma energia ou
não. Isto é o que acontece quando a luz colide com a matéria e não é absorvida: a radiação provoca
oscilações na nuvem eletrónica de moléculas que, por sua vez, provocam a emissão simultânea de
radiação, a dispersão de luz. A dispersão é responsável pela cor branca do leite, cor azul do céu, ou cor
avermelhada do pôr-do-sol. A dispersão excessiva de luz nos olhos humanos causa borrões na visão.
A difração é um tipo particular de dispersão que ocorre quando a radiação incide sobre matéria que
tem espaços vazios de tamanho comparável ao comprimento de onda da radiação. Os raios-X, por
exemplo, são difratados por cristais moleculares porque as distâncias entre os núcleos, o comprimento
das ligações químicas, são semelhantes ao seu comprimento de onda, isto é, na ordem de décimo de
nanómetro. O padrão espacial dos raios X difratados pode ser analisado para revelar a estrutura 3D de
moléculas cristalizadas, mesmo que sejam bastante grandes e complexas, como proteínas (Fig. 2.10).
A gama completa de frequências (isto é, energias) de radiação conhecidas até agora constitui o
chamado espectro eletromagnético (Fig. 2.11a). Inclui radiação de baixa energia (baixa frequência,
comprimento de onda longo), como radiação de rádio e televisão, bem como radiação de alta energia
(alta frequência, comprimento de onda curto), como raios X e gama, capazes de ionizar moléculas e
romper ligações covalentes. Radiação de muito baixa energia dificilmente provoca alterações nas
moléculas e, portanto, não é propensa a produzir efeitos em organismos vivos. Radiação de alta energia
(a partir da radiação UV, de alta frequência) é capaz de perturbar moléculas destruindo ligações
químicas e, portanto, é um risco potencial para a química da vida (uma exceção extraordinária é
apresentada na Caixa 2.2). Não é surpreendente, portanto, que fenómenos naturais em seres vivos
envolvendo radiação ocorram numa gama limitada de energias, desde as micro-ondas até próximo das
radiações UV (de menor frequência). Mesmo assim, devemos perguntar-nos por que muitos olhos de
animais, incluindo humanos, usam uma fração muito menor de radiação, de cerca de 400 nm (luz azul)
a cerca de 800 nm (luz vermelha). A resposta é simples e pode ser encontrada na evolução molecular
no sentido do uso otimizado dos recursos ambientais: a faixa de 400-800 nm corresponde à radiação
solar mais abundante que atinge a superfície do planeta Terra (Fig. 2.11b). Além disso, esta radiação
31 2 A Química e a Física da Vida

penetra na água até dezenas de metros. Naturalmente, isso ditou o curso da evolução da visão. O
mesmo aconteceu com organismos fotossintéticos.
No olho humano, a rodopsina, uma proteína de membrana (opsina) que existe na haste da retina
possui uma molécula retinal, ligada covalentemente, que adota duas formas isoméricas estáveis: cis e
trans (Fig. 2.12). Quando o resíduo cis-retinal ligado à proteína absorve a luz, converte-se em trans-
retinal, sendo este o evento desencadeador da visão. O retinal não muda apenas a forma, de uma
estrutura curvada para um arranjo praticamente linear, mas também se separa da opsina. O all-trans-
retinal (em tradução livre, “retinal todo trans”) (isto é, o retinal “linear”, com todas as ligações duplas na
configuração trans) não cabe na bolsa formada pelas hélices transmembranares da opsina ao contrário
do isómero cis, causando tensões na estrutura da proteína, que tem que mudar a conformação (forma)
para se adaptar. Uma redução no GMP cíclico resulta deste processo, que por sua vez desencadeia
uma série de reações que produzem uma corrente elétrica ao longo da célula. A intensidade desta
corrente é proporcional à intensidade da luz que atingiu a retina. Assim, é criado um impulso elétrico
que é detetado pela célula ganglionar e depois pelo nervo ótico. As fibras nervosas atingem a parte de
trás do cérebro (lobo occipital), onde as imagens são criadas. Esta região é designada córtex visual
primário. Algumas das fibras visuais estendem-se a outras partes do cérebro para ajudar a controlar os
movimentos dos olhos, as respostas das pupilas e da íris, e o comportamento.

Fig. 2.10 Dorothy Mary Crowfoot Hodgkin no seu estúdio em casa retratada por Maggi Hambling (óleo sobre tela,
1985). A representação da cientista com quatro mãos simboliza o seu trabalho incomum a sua e capacidade
empreendedora. Dorothy Hodgkin fez contribuições extremamente valiosas para o avanço da bioquímica. Ela
revelou a estrutura do colesterol, penicilina, insulina e vitamina B12, entre outras moléculas. Contribuiu também
para o refinamento da espectroscopia por difração de raios X para desvendar a estrutura de proteínas. Um modelo
estrutural de insulina está à esquerda
2 A Química e a Física da Vida 32

Os efeitos da luz ultravioleta na pele e no cabelo constituem outros exemplos de como a interação
radiação-matéria é importante nos processos naturais. Em termos práticos, a radiação UV é dividida
em três categorias, de A a C, de acordo com seus efeitos biológicos. UV-A é a classe de energia mais
baixa (320 a 400 nm). UV-C é a faixa de energia mais alta (200–290 nm) e é, em grande medida, filtrada
pela camada de ozono na atmosfera. Uma parte da radiação UV-B é também absorvida pelo ozono.
Tendo energia suficiente para as quebrar ligações químicas dos ácidos nucleicos das células expostas
nas camadas da pele perto da superfície, os UV-C e, em menor medida, UV-B são perigos sérios para
saúde em relação aos tumores de pele, principalmente aquando da exposição prolongada ao sol e
outras fontes de UV. Sempre que a camada de ozono é ameaçada, o risco de cancro de pele aumenta.
No entanto, os efeitos mais notáveis e imediatos da UV-B são os eritemas, como aqueles associados
a “queimaduras solares” na superexposição solar a curto prazo. Sendo radiação de moderada a alta
energia, a UV-C e UV-B interferem em muitos processos moleculares. A consequência disto é que a sua
penetrância é superficial na pele (são totalmente absorvidos nas camadas externas da pele - epiderme
e derme adjacente; Fig. 2.13), onde são responsável por alguns processos bioquímicos que ocorrem
naturalmente, como a conversão do aminoácido tirosina em melanina (um pigmento que confere
proteção solar contra radiação e colore a pele), mas também por algumas lesões, como o
descolamento da epiderme da derme (“bolhas de queimadura solar”). A UV-A penetra mais
profundamente na pele porque não é tão energética, atingindo o cerne da derme. Também estimula a
formação de melanina (“bronzeado”), que fornece alguma proteção à pele contra os efeitos da radiação
solar. No entanto, ao contrário da crença popular, a extensão dessa proteção é muito limitada (Índice
de Proteção Solar, IPS, de 2 a 4, muito abaixo do IPS mínimo recomendado de 15 para exposição direta
da pele à radiação solar).

2.11 (a) O espectro eletromagnético com as frequências típicas de radiação, dispositivos que as usam e seus
efeitos bioquímicos/fisiológicos típicos. A estreita faixa de radiação ótica (em termos práticos, a radiação que
pode ser conduzida usando lentes e espelhos), para a qual os olhos humanos são sensíveis, é destacada. (b)
Espectro de energia total de radiação solar que atinge a superfície terrestre. A faixa de potência máxima é
coincidente com a radiação ótica a que se chama “luz visível”, a radiação a que os olhos de muitos animais,
incluindo humanos, se adaptaram. Essa radiação penetra na água até dezenas de metros, o que foi também
importante para a evolução da visão
33 2 A Química e a Física da Vida

Caixa 2.2: A Célula Mais Resistente da Terra


Em 1956 Arthur Anderson, a trabalhar em Oregon (EUA), estava a estudar se comida enlatada
podia ser esterilizada usando altas doses de radiação gama. Apesar do facto que ele estava a
usar doses suficientes para destruir todas as formas de vida conhecidas pelo homem para
esterilizar carne, a comida estragava-se subsequentemente. Uma bactéria, Deinococcus
radiodurans, foi isolada e responsabilizada por este resultado. Mais tarde, estudos revelaram que
é extremamente resistente à radiação ionizante de diferentes frequências, dessecação e agentes
oxidantes. Enquanto uma bactéria como E. coli pode suportar até 200-800 Gy, a D. radiodurans
pode suportar até 5000 Gy. As células humanas têm níveis de tolerância muito menores: abaixo
de 5 Gy.
Do ponto de vista químico, a composição do DNA da D. radiodurans não é diferente da de
outros organismos. A chave para a resistência não é a natureza química do DNA, mas a eficácia
dos mecanismos de reparação. A radiação interage com as ligações químicas do DNA de
maneira semelhante em todas as células, causando quebras ocasionais nessas ligações quando
sua energia é alta o suficiente. É impossível para a grande maioria das células lidar com ruturas
muito frequentes e simultâneas das ligações covalentes do DNA. A D. radiodurans, no entanto,
tem seu DNA embalado em tiroides e múltiplas cópias do genoma, geralmente 4–10. Toda a
maquinaria de reparo permite a reconstrução do genoma completo a partir de pedaços
quebrados em horas. A transferência do DNA entre bactérias também pode desempenhar um
papel no aumento da resistência.
Uma questão interessante que surge das propriedades surpreendentes da D. radiodurans é:
“Poderia uma bactéria como esta ter-se desenvolvido num planeta onde não há ambientes com
altas doses de radiação ionizante?” Tem sido sugerido que a origem de D. radiodurans é
extraterrestre porque adquiriu resistência a um conjunto de condições ambientais físico-
químicas muito severas, como as esperadas em Marte. No entanto, a bactéria é genética,
bioquímica e microbiologicamente muito semelhante a outras bactérias, e não há provas de vida
marciana. Como a desidratação e a radiação causam tipos de dano no DNA muito semelhantes,
é possível que a resistência à radiação seja um efeito colateral da pressão seletiva em direção à
resistência à desidratação. A D. radiodurans está extremamente bem adaptada a ambientes
secos.
As notáveis propriedades bioquímicas de D. radiodurans podem torná-la num poderoso aliado
na limpeza de áreas radioativas contaminadas, nas quais a bactéria pode sobreviver e operar.
Esse tipo de abordagem é chamado de biorremediação. Resíduos tóxicos radioativos seriam
processados por bactérias que naturalmente colonizariam áreas de alto risco.
A resistência extrema de D. radiodurans inspirou pesquisadores e profissionais de
comunicação científica, que frequentemente a chamam “bactéria Conan”. Em 1998, o Guinness
Book of World Records listou a D. radiodurans como “a forma de vida mais resistente à
radiação…”.

Deinococcus radiodurans (créditos: Sandra P. Santos e Célia Romão, ITQB-UNL, Portugal)


2 A Química e a Física da Vida 34

O IPS é determinado a partir do tempo de exposição a UV que é necessário para o aparecimento de


um eritema mínimo (isto é, eritema após 24 h). Especificamente, é a relação entre o tempo necessário
para um eritema mínimo na pele protegida a dividir pelo tempo necessário na pele desprotegida. É
determinado indoor com uma fonte de luz que se destina a reproduzir o sol do meio-dia. O IPS é
principalmente útil para ter uma escala quantitativa de proteção UV-B quando são usados filtros
solares. Um filtro solar com um IPS de 10 filtra 90% da luz UV-B, por exemplo (em outras palavras, uma
pessoa que teria queimaduras solares após 20 minutos de exposição ao sol, usando protetor solar de
IPS 10, tem o mesmo efeito após 200 min). Cremes solares, loções, sprays, géis ou outras formulações
tópicas têm moléculas orgânicas na sua composição que absorvem a luz UV. Note que desses
compostos, o mais comum têm anéis aromáticos na sua estrutura (Fig. 2.13), que são grupos que
absorvem luz UV, e/ou compostos metálicos inorgânicos (óxido de zinco, por exemplo) que dispersam
a luz UV (a eficácia da dispersão é para UV, não para luz visível).

Fig. 2.12 Secção transversal anatómica do olho (a), destacando a retina (b), onde as células dos bastonetes estão
localizadas. A rodopsina sensorial (c; PDB 2I35) liga-se ao retinal (d), que altera a conformação com a absorção
de luz

Fig. 2.13 Duas moléculas que absorvem UV, frequentemente encontradas em formulações de filtros solares:
octildimetilaminobenzoato (OD-PABA), a azul, e 2-hidroxi-4-metoxibenzofenona (HM-BZP) a vermelho. O grupo
químico responsável pela absorção de radiação (“cromóforo”) é o anel aromático (benzénico), presente em ambas
as moléculas, tal como em muitos outros componentes dos filtros solares
35 2 A Química e a Física da Vida

Embora os efeitos da radiação UV na pele geralmente monopolizem a nossa atenção, a bioquímica


envolvida nos danos causados pela radiação UV noutras estruturas, como no cabelo e nos olhos, é
digna de consideração. O cabelo é uma organização celular extremamente bem adaptada: conjuga
flexibilidade e força. O cabelo tem uma cutícula proteica externa, um núcleo interno chamado medula
e uma camada intermediária chamada córtex (Fig. 2.14). A cutícula é formada por placas proteicas que
são lubrificadas pela presença de lípidos. As placas são rígidas, mas a lubrificação permite
flexibilidade. A exposição à luz UV, principalmente UV-B, provoca a “fusão” dessas placas,
transformando a cutícula numa estrutura rígida, não flexível como um todo. O cabelo torna-se propenso
a quebra. O cabelo com pontas quebradas perde a sua aparência natural, e a proteção UV do cabelo é
um dos principais tópicos da pesquisa cosmética. A perda de coloração devido à oxidação dos
pigmentos de melanina causada pela radiação UV é outro fator que contribui para a perda da aparência
natural.

Fig. 2.14 A superfície do cabelo vista sob o microscópio eletrónico (a) revela escamas. A camada externa da haste
capilar, denominada cutícula (b), é formada por placas proteicas que deslizam umas sobre as outras devido à
lubrificação dos lípidos, o que torna o cabelo flexível. A exposição intensa a UV leva à “fusão” das placas em toda
a cutícula (c, d). As cutículas “fundidas” perdem flexibilidade e quebram facilmente (d)

Enquanto a radiação solar UV-B pode ser bloqueada e impedida de entrar e danificar os nossos olhos
usando óculos (não necessariamente usando lentes escuras porque como os raios UV são incolores,
materiais transparentes podem ser eficientes no bloqueio da luz UV), devemos perguntar-nos como a
evolução molecular natural lidou com a exposição inevitável dos olhos à radiação UV. A resposta está
no mesmo conceito que os protetores solares químicos que usamos para proteger a pele. Toda a luz
entra no olho através do cristalino (também chamado de “lentes”, Fig. 2.15). Existem moléculas naturais
que absorvem a luz UV que estão presentes no cristalino. Para garantir uma filtragem eficiente de toda
a gama de luz UV, as moléculas dos olhos humanos evoluíram de forma a criar uma família de
compostos derivados do triptofano, um aminoácido que entra na constituição de proteínas. Todas
essas moléculas absorvem a luz UV em faixas de comprimento de onda ligeiramente diferentes. O
efeito da soma de todos os espectros é um bloqueio generalizado da radiação UV na entrada do olho.
Esta é a barreira natural à radiação UV que protege a retina.
2 A Química e a Física da Vida 36

Fig. 2.15 A proteção natural preventiva dos olhos contra os raios UV consiste na presença de uma família de
derivados do triptofano no cristalino (a). Cada uma dessas moléculas absorve a luz UV numa faixa de comprimento
de onda ligeiramente diferente. Numa ação conjunta, elas são capazes de filtrar uma ampla gama de luz UV que
entra no olho. O uso de óculos pode ser uma forma de reforçar a proteção dos olhos contra a radiação UV.
Dependendo dos materiais utilizados na sua fabricação, as lentes podem absorver luz UV e/ou visível. As lentes
transparentes não interferem significativamente com a luz visível, mas podem filtrar, pelo menos parcialmente, a
luz UV. Óculos de sol com lentes de boa qualidade geralmente filtram uma fração substancial da luz visível
(portanto, o termo “óculos escuros” também usado para óculos de sol) e a maioria dos raios UV. O painel (b) mostra
o exemplo da filtragem de luz por material vítreo com dois revestimentos possíveis diferentes (a transmitância é a
fração da intensidade da luz que atravessa o material)
37 2 A Química e a Física da Vida

Deve-se ressaltar que as células possuem processos bioquímicos que reparam os danos causados
pela radiação UV nos ácidos nucleicos e noutras moléculas. Como esta seção se concentra na
interação luz-matéria, esse assunto não será aprofundado, mas é importante ter em mente que, mesmo
quando ocorrem lesões moleculares e celulares devido à ação da radiação, existem mecanismos de
reparo. Situações patológicas surgem quando tanto os mecanismos preventivos e como os de
reparação não conseguem lidar com todas as agressões provocadas pela exposição à radiação.

Bibliografia Selecionada
Dobson CM, Gerard JA, Pratt, AJ (2001) Foundations of Chemical Biology. Oxford Chemistry Primers
Gensler WJ (1970) Physical versus chemical change. J Chem Educ 47:154–155
Hubel DH (1995) Eye, Brain, and Vision. Scientific American Library Series, New York
As Famílias das Moléculas Biológicas

Tradução: Zita Matias, Gabriela Rodrigues, Nuno Loureiro e Diogo Rodrigues


Revisão: João Patrício, Diana Santos, Beatriz Correia e Beatriz Pereira
(Páginas 49-128)

A diversidade é essencial à sustentabilidade dos sistemas biológicos. Isto é verdade para as espécies
nos ecossistemas tal como o é para as moléculas situadas nas células, nos tecidos e nos organismos.
No entanto, da mesma maneira em que as espécies diferentes são relacionadas entre si por
antepassados comuns e podem ser agrupadas em categorias taxonómicas de acordo com certas
características que partilham entre si, também as moléculas podem ser agrupadas em classes e
classificadas de acordo com as suas características químicas e físicas comuns. Uma destas
características é a solubilidade em água (por outras palavras: como é que os átomos polares estão
distribuídos dentro da estrutura tridimensional das moléculas). Uma classe das moléculas biológicas,
os lípidos, só inclui aquelas moléculas com uma baixa solubilidade em água (“hidrofóbicas”), sendo
esta então a característica que define a classe. Outras classes incluem moléculas que na sua maioria
são razoável ou altamente solúveis em água e podem ser identificadas pela presença dominante de
grupos químicos específicos: OH em sacáridos (também referidos como “hidratos de carbono”) e uma
combinação de grupos amina e carboxilo nos aminoácidos. Os lípidos, os sacáridos e os aminoácidos
podem reagir com moléculas da sua classe para formar polímeros (moléculas maiores formadas ao
juntar moléculas mais pequenas através de ligações covalentes sucessivas), como os polissacáridos
e as proteínas, ou agregados supramoleculares (combinações organizadas de moléculas que estão em
contacto, mas não estão covalentemente ligadas entre si), como a bicamada lipídica nas membranas
celulares. É frequente encontrar moléculas e agregados supramoleculares que combinam estruturas
de classes diferentes, como os nucleótidos, que contêm sacáridos. Neste aspeto, as proteínas são
extremamente versáteis, pois as suas interações com sacáridos, lípidos e ácidos nucleicos (polímeros
de nucleótidos) são ubíquas em praticamente todas as células.
A Figura 3.1 mostra os princípios básicos que suportam a organização das moléculas biológicas
em classes diferentes.

38
39 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.1 Três classes de moléculas fundamentais (“blocos de construção”) são suficientes para poder organizar a
maioria das macromoléculas biológicas (polímeros) e os agregados supramoleculares (como bicamadas lipídicas
e gotículas lipídicas) em famílias diferentes. Os ácidos nucleicos são polímeros de nucleótidos, que contêm
resíduos sacarídeos na sua composição. As proteínas são exemplos de polímeros que são frequentemente
combinados com resíduos moleculares de outras classes como os sacáridos (nas glicoproteínas ou
proteoglicanos, quando têm um alto teor sacarídeo). Os glicolípidos (lípidos glicosilados – lípidos com grupos
sacarídeos associados) também são comuns nas membranas. Tanto os blocos de construção como os polímeros
e agregados são importantes na estrutura e funcionamento das células, constituindo a vasta maioria de matéria
numa célula (excetuando a água). O glicogénio é um polímero sacarídeo (polissacárido) ramificado. Esta molécula
ramifica-se aproximadamente a cada 10 resíduos monoméricos de glucose (Esta ramificação está salientada
pouco realisticamente na figura por motivos ilustrativos)

3.1 Lípidos e a Organização das suas Agregações Supramoleculares


Os lípidos são moléculas altamente hidrofóbicas que podem, não obstante, ter grupos químicos polares
na sua composição. Como uma parte da estrutura da molécula é polar e a outra é não-polar, a molécula
é referida como sendo anfifílica, palavra que enfatiza a sua natureza dupla: a parte polar vai tender a
interagir com água e com outras moléculas polares, e a outra parte vai tender a minimizar as suas
interações com as mesmas. Ainda assim, é importante considerar que os lípidos são moléculas
predominantemente hidrofóbicas, mesmo quando são anfifílicas. Esta definição é qualitativa, não
tendo limites claros em termos de estrutura molecular, mas, ainda assim, uma definição útil para
trabalhar, porque a sua hidrofobicidade permite que os lípidos se organizem em agregados
supramoleculares muito distintos das moléculas polares. Tomando as bicamadas lipídicas como
exemplo: estas são agregados supramoleculares com uma organização bastante extensa e uma
estrutura muito estável, mas que não implicam ligações covalentes entre moléculas lipídicas. Os lípidos
associam-se entre si espontaneamente em ambientes aquosos, com os lípidos anfifílicos arranjados
numa configuração particularmente organizada. Isto é devido ao dito efeito hidrofóbico, apesar de que
o termo mais apropriado seja “efeito entrópico”.
O efeito entrópico é um corolário da segunda lei da termodinâmica, em que uma das suas possíveis
afirmações implica que todos os eventos físicos e químicos tendem a evoluir duma forma tal que a
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 40

entropia (“desordem”) total aumente. Considere a Fig. 3.2; moléculas fortemente anfifílicas com uma
forma genérica cilíndrica ou cuboide retangular genérica irão formar espontaneamente uma bicamada
para minimizar o contacto entre as regiões não-polares e a água. As forças responsáveis por este
fenómeno podem ser consideradas contraintuitivas à primeira vista: a bicamada é o arranjo que
corresponde ao sistema mais desordenado. Isto pode parecer absurdo pois tendemos a focar a nossa
atenção no soluto (neste caso, os lípidos) e esquecemo-nos do solvente (água); no entanto, o ganho
em entropia refere-se a ambos. Os lípidos tornam-se mais ordenados comparados entre si, mas o
contacto entre os grupos hidrofóbicos e as moléculas de água impõe restrições à liberdade da
orientação da água, o que é muito significativo em termos de entropia.
Duma forma geral, os lípidos diacilos (i.e., lípidos contendo duas cadeias de acilos-alifáticas) com
“cabeças” polares, como a maioria dos lípidos presentes nas membranas celulares, possuem uma
forma genérica com as características mostradas na Fig. 3.2.
O efeito entrópico obriga estas moléculas a associarem-se duma forma ordenada e paralela. Este é
o processo físico que mantém a estabilidade das membranas celulares, como iremos verificar na
Secção 3.1.1. Agora observaremos mais de perto a estrutura química dos lípidos diacilos: apesar de
terem tendência a juntarem-se em bicamadas, as suas diferenças na sua composição química
determinam em que processos químicos é que podem participar (p.e., sinalização celular) e a sua
tendência a associar-se a proteínas de membrana e/ou formar domínios específicos dentro da
membrana. A maioria dos lípidos triacilos na natureza, como os triacilglicerídeos (frequentemente
referidos como triglicéridos), não têm um grupo polar maciço como “cabeça” e, portanto, não
demonstram a tendência para formar estruturas supramoleculares ordenadas como as membranas
(Fig. 3.3). Em vez disse, eles autoassociam-se desordenadamente, formando agregados, como as
gotículas lipídicas encontradas dentro das células dos local onde estes lípidos são sintetizados
(hepatócitos) ou armazenados (adipócitos). A Figura 3.3 mostra imagens histológicas do tecido

Fig. 3.2 Uma representação simplificada de duas moléculas lipídicas com duas cadeias alifáticas (hidratos de
carbono) e uma cabeça “polar”. As cabeças polares tipicamente contêm fosfato (fosfolípidos) e outros grupos
polares (ver painel esquerdo). As regiões não-polares dos lípidos tendem a associar-se entre si, pois assim menos
moléculas de água ficam expostas às cadeias alifáticas (ver painel direito). As cadeias alifáticas expostas obrigam
a que as moléculas orientem o seu átomo de oxigénio de modo a afastá-lo das porções hidratos de carbono: elas
forçam o solvente a um certo grau de ordenação. Quando duas moléculas lipídicas se associam, um menor número
de moléculas de água é obrigado a ordenar-se e, ainda de que as moléculas lipídicas se tornem mais ordenadas
entre si, os sistemas moleculares no seu conjunto (incluindo a água) tornam-se mais desordenados, em
concordância com a formulação entrópica da segunda lei da termodinâmica. Portanto, isto é apelidado o efeito
entrópico (por vezes referido imprecisamente como o “efeito hidrofóbico”). O mesmo princípio se aplica quando
3, 4, 5, …, n moléculas formam grandes agregados de lípidos, como as bicamadas lipídicas (ver Secção 3.1.1)
41 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

adiposo nas quais se detetada a presença de agregados lipídicos que ocupam quase todo o volume
celular.
Os ácidos gordos podem ser considerados como a unidade fundamental comum à maioria dos
lípidos nas células humanas. São compostas por uma cadeia alifática linear não-ramificada (ou a
“cauda”) com um grupo carboxilo (Fig. 3.4a). A cadeia alifática pode ser saturada (ou seja, ter todas as
ligações carbono-carbono reduzidas a ligações simples, sem ligações duplas ou triplas) ou ser não-
saturada. A maioria dos ácidos gordos humanos têm um número par de carbonos, variando entre 10 e
28. Os ácidos gordos são moléculas importantes para o metabolismo energético do organismo, e
podem ser encontrados em forma “livre” (não ligados a outras moléculas) ou ligado a outras estruturas
moleculares através de ligações éster (Fig. 3.4d, e). Os ácidos gordos livres diferem entre si pelo
número e posição das ligações duplas que estes possuem, tal como o comprimento das cadeias (na
prática, o número de carbonos). A mudança destas características permite uma diversidade quase
infinita nestas moléculas, mas na prática, nem todas as combinações se verificam na natureza (a
Tabela 3.1 mostra exemplos dos ácidos gordos mais frequentes nas células humanas). Naturalmente,
a nomenclatura dos ácidos gordos salienta as diferenças características em termos de número e
posição das ligações duplas, tal como o comprimento da cadeia (Fig. 3.4b). Os sistemas mais recentes
de nomenclatura são muito descritivos acerca destas características, ainda que sistemas mais antigos
e tradicionais continuem a ser bastante utilizados. A nomenclatura mais recente identifica os átomos
de carbono numa cadeia por um número, começando consecutivamente pelo grupo carboxilo (ver Fig.
3.4b). As ligações duplas, se presentes, são identificadas pelo número do carbono componente da liga-

Fig. 3.3 Os triacilglicerídeos não têm grupos polares maciços como “cabeça”, o que os impede de se auto-
associarem em bicamadas (a). Os triacilglicerídeos agregam-se em estruturas aglomeradas desordenadas que
podem ser detetadas em preparações histológicas de adipócitos (b). No painel (b) os lípidos foram extraídos,
deixando para trás zonas brancas e vazias; as setas apontam para o núcleo. A Figura foi reimpressa com a
autorização do Instituto de Histologia e Biologia do Desenvolvimento, Faculdade de Medicina, Universidade de
Lisboa, FMUL
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 42

Fig. 3.4 (a) Representação pictórico de ácidos gordos livres, salientado o grupo carboxilo polar em azul e a cadeia
alifática não-polar em cinzento; as ligações duplas impõem restrições na conformação da cadeia, prevenindo que
haja estiramentos e rotações sobre o eixo da cadeia dos carbonos, por exemplo. (b) Exemplos ilustrativos da
aplicação dos diferentes sistemas de nomenclatura. Os sistemas mais recentes (numerando os átomos de
carbono a partir do grupo carboxilo) são mais precisos e descritivos, mas os sistemas mais antigos (utilização das
letras gregas e numeração “ω” a partir do carbono terminal não-carboxilado) ainda são bastante utilizadas em
disciplinas como a nutrição. Os nomes triviais (não-sistematizados), (Tabela 3.1) nunca foram abandonados
devido à sua acessibilidade aos utilizadores. (c) Os ácidos gordos formam ligações éster com outras estruturas
moleculares para formar lípidos mais complexos como os triacilglicerídeos [exemplo detalhado no painel (d)],
glicerofosfolípidos, ou esfingolípidos. Os resíduos de ácidos gordos estão presentes em todas estas moléculas.
Nas esfingomielinas, há sempre um grupo polar ligado ao fosfato, este que pode ser colina ou etanolamina [painel
(e)]. O exemplo do triacilglicerídeo específico em (d) é o 1-palmitoilo-2,3-dioleilo-glicerol. (e) Os glicerofosfolípidos
formam classes diferentes dependendo da natureza química da “cabeça polar” (as cadeias de ácidos gordos
usadas neste exemplo são meramente ilustrativas)
43 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Tabela 3.1 Nomenclatura dos ácidos gordos mais comuns em humanos, saturados (só ligações carbono-carbono
simples) e não-saturados

Nº de C Nº de Sistema de nomenclatura
(comprimento ligações
da cadeia) Saturado Não-saturado duplas   n
14 Mirístico
16 Palmítico Palmitoleico 1 16:1 9 16:1 −7 16:1 n−7
18 Esteárico Oleico 1 18:1 9 18:1 −9 18:1 n−9
Linoleico 2 18:2 9,12 18:2 −6 18:2 n−6
-Linoleico 3 18:3 9,12,15 18:3 −3 18:3 n−3
-Linoleico 3 18:3 6,9,12 18:3 −6 18:3 n−6
20 Araquídico Araquidónico 4 18:4 5,8,11,14 18:4 −6 18:4 n−6
24 Lignocérico
Há nomes triviais e abreviações descritivas. Os nomes triviais normalmente referem-se à forma neutra (protonada)
do ácido, mas deve ter-se em consideração que, à maioria dos pHs fisiológicos (incluindo o pH do plasma, 7.2-
7.4), os grupos ácidos não estão protonados (pH acima de 4-5). As nomenclaturas abreviadas salientam o número
de átomos de carbono na cadeia alifática e o número e posição das ligações carbono-carbono não-saturadas. A
numeração dos carbonos varia de acordo com a utilização dos sistemas modernos ou antigos (ω, n). Os sistemas
mais antigos ainda são utilizados em áreas como a nutrição.

-ção que tenha a menor número. A nomenclatura “ω”, ou n, numera os carbonos na ordem inversa (ver
Fig. 3.4b). Outra nomenclatura, ainda popular entre muitos bioquímicos, identifica os átomos de
carbono por letras gregas em ordem alfabética (α, β, γ, δ…) começando pelo carbono adjacente ao grupo
carboxilo (ver Fig. 3.4b). O processo da degradação metabólica dos lípidos é apelidado a “β-oxidação”
devido à importância do carbono β.
Os glicerolípidos, como os diacilglicerídeos e triacilglicerídeos, resultam da ligação química entre
uma molécula de glicerol com ácidos gordos através da esterificação (Fig. 3.4). No entanto, os
glicerolípidos podem também conjugar-se com outros grupos além dos ácidos gordos. Normalmente,
um grupo fosfato é utilizada como ponte de ligação entre o glicerol e um grupo polar, formando os
glicerofosfolípidos (Fig. 3.4). O fosfato liga o glicerol com os grupos polares através de ligações
fosfodiéster, que são ubíquas nos processos bioquímicos pela sua importância na estrutura e energia
moleculares.
Os glicerofosfolípidos são nomeados de acordo com os ácidos gordos ligados à molécula de
glicerol e à natureza química do grupo polar (Fig. 3.4e).
Os esfingolípidos constituem outra classe de lípidos presentes em muitas células humanas, sendo
estes responsáveis pelos domínios rígidos nas membranas. A Figura 3.5 mostra que, ainda que estes
lípidos sejam estruturalmente semelhantes aos glicerofosfolípidos, diferem quimicamente. Estas
diferenças químicas são responsáveis pela formação de bicamadas rígidas quando misturadas com
os fosfolípidos e colesterol.
Os esteróis, dos quais o colesterol é um exemplo (Fig. 3.6), são álcoois extremamente hidrofóbicos.
Estas moléculas são caracterizadas por um sistema plano e rígido de anéis de carbono,
ciclopentanoperidrofenantreno, e possuem propriedades notáveis:
1. Só um grupo polar pequeno presente (OH em colesterol; C=O nas cetonas correspondentes).
2. Uma molécula bastante plana formada de quatro anéis coplanares.
3. Quando colocadas em bicamadas lipídicas, estas agem como um regulador da fluidez (não tão
rígido que comprometa a dinâmica, mas não tão fluido que comprometa a integridade da barreira).
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 44

Fig. 3.5 Estrutura molecular dos esfingolípidos. Tal como os glicerofosfolípidos, os esfingolípidos formam classes
dependendo da natureza química da “cabeça polar” [a cadeia de ácidos gordos neste exemplo é meramente
ilustrativa]. Glu – glucose, Gal – galactose, NacGal – N-acetilgalactosamina, NacNeu – ácido N-acetilneuramínico

Fig. 3.6 O ciclopentanoperidrofenantreno [painel (a)] é a estrutura base dos esteróis [painel (b)], no qual R é um
grupo genérico. O sistema de numeração dos carbonos está salientado. O ciclopentanoperidrofenantreno é uma
molécula extremamente rígida, planar e hidrofóbica. Os esteróis são uma subfamília de esteroides com um grupo
hidroxilo (álcool) no carbono 3 (ver Tabela 3.2). Os esteróis podem ser encontrados nas membranas lipídicas dos
animais, fungos e plantas, mas não nas bactérias. Os esteróis são os alvos de alguns fármacos anti-infeciosos nos
humanos (este tema será revisitado na Fig. 3.9)

O colesterol é uma molécula vital para os humanos (Caixa 3.1). Além das suas propriedades como
parte integrante de membranas, também participa noutros fenómenos bioquímicos como a síntese de
algumas hormonas. Mesmo assim, a gravidade dos problemas associados ao seu consumo excessivo
em dietas pouco saudáveis, associado à sua baixa solubilidade em meio aquoso, tornam esta
importante molécula potencialmente letal. Curiosamente, ainda que o colesterol seja essencial para
muitas espécies na natureza, incluindo os humanos (Tabela 3.2), a sua síntese é relativamente recente
em termos evolutivos pois utiliza oxigénio molecular, que só começou a estar presente na atmosfera
após a origem da fotossíntese.
45 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Caixa 3.1: Colesterol: Um Herói com Má Fama


Concentração elevadas (“nível”) de colesterol a circular no sangue são um fator de risco major
para doenças cardiovasculares, que afetam uma proporção significativa da população de muitos
países. As campanhas para prevenir as doenças cardiovasculares centram-se frequentemente
na redução do colesterol na dieta, o que deixa a impressão de que o colesterol é algum tipo de
veneno ou uma toxina que devia ser banida. Doses pouco saudáveis de colesterol persistentes
na dieta são de facto prejudiciais, mas isto não deve criar a ilusão de que o colesterol é por si só
prejudicial às células. Praticamente todas as moléculas em doses excessivas são prejudiciais e
o colesterol não é uma exceção. Para além disso, o corpo humano depende tanto do colesterol
que sintetiza o seu próprio colesterol e tem mecanismos homeostáticos para regular a sua
produção em conjunção com vários processos metabólicos.
A forma em quem o corpo humano funciona aos níveis bioquímico e fisiológico está
fulcralmente dependente do colesterol. Esta molécula extremamente hidrofóbica participa em
três processos principais nos seres humanos:
(a) Contribui para o equilíbrio nas propriedades físico-químicas da dinâmica das membranas
lipídicas nas células; isto inclui a membrana plasmática e as membranas intracelulares.
(b) Faz parte da síntese de ácidos biliares; estes são importantes para absorver os lípidos
existentes na comida após ingestão.
(c) Também toma parte da síntese da vitamina D e de hormonas tão importantes como o
estrogénio nas mulheres e a testosterona nos homens.
Devido à sua hidrofobicidade, a sua solubilidade é bastante baixa em meios aquosos como o
sangue. Existem estruturas especializadas, lipoproteínas, que incorporam o colesterol e formam
emulsões estáveis em meio aquoso. Quando o colesterol não está contido nestas estruturas
e/ou as lipoproteínas se degradam devido à oxidação, formam-se depósitos no tecido endotelial
que constitui os vasos sanguíneos. Estes depósitos são indicadores típicos da aterosclerose.
Nos casos mais extremos, os vasos sanguíneos podem ficar ocluídos e os tecidos adjacentes
não serem irrigados. A falta de nutrientes e oxigénio (isquemia) pode causar lesões severas nos
tecidos. As placas ateroscleróticas vulneráveis podem também separar-se e obstruir outros
vasos. Qualquer uma destas situações é chamada um enfarte. Um exemplo é o enfarte do
miocárdio, vulgarmente conhecido como ataque cardíaco. Outro exemplo é o enfarte cerebral,
mais vulgarmente referido como AVC.
As diferentes lipoproteínas transportam colesterol para destinos diferentes (ver Secção
3.1.2). O colesterol associado às HDL (lipoproteínas de alta densidade, ou high-density
lipoproteins) pode ser desviado para formar ácidos biliares, enquanto que o colesterol associado
às outras lipoproteínas como as LDL (lipoproteínas de baixa densidade, ou low-density
lipoproteins) não podem. Estas então têm sido referidas como bom colesterol (“associado às
HDL”) e colesterol mau (“não associado às HDL”). Esta distinção simplifica a comunicação
médica para o público leigo, mas não faz sentido nenhum na perspetiva bioquímica. A síntese,
distribuição e transformação do colesterol pode ser considerado como um processo íntegro e
interligado no corpo humano.
O exemplo mais ilustrativo da importância do colesterol é a síndrome de Smith-Lemli-Opitz.
Esta é uma doença rara caracterizada por falhas no desenvolvimento; atraso mental; problemas
visuais; malformações nas mãos, pés e/ou órgãos internos; suscetibilidade aumentada para
infeções e problemas digestivos, entre outros. Esta síndrome é uma doença genética causada
por um defeito na síntese do colesterol, nomeadamente a deficiência da enzima 3 β-
hidroxiesterol-delta7-redutase, a última enzima da via sintética dos esteróis, que converte o 7-
desidrocolesterol (7DHC) em colesterol (a via completa da síntese do colesterol está descrita na
Caixa 8.8). Isto resulta em níveis baixos de colesterol plasmático e em níveis elevados dos
precursores de colesterol, incluindo o 7DHC.
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 46

Tabela 3.2 Esteróis encontrados na natureza

O conceito ilustrado na Fig. 3.2 pode ser aplicado à associação de várias moléculas lipídicas. O efeito
entrópico vai causar a automontagem ordenada das moléculas, em última análise formando
bicamadas de lípidos com um centro hidrofóbico (Fig. 3.7). Se estas bicamadas forem suficientemente

Fig. 3.7 As moléculas lipídicas com uma forma geral quase cilíndrica, como os fosfolípidos (b) tendem a fazer
automontagem ordenadamente devido ao efeito entrópico (Fig. 3.2). A automontagem extensa forma as
bicamadas lipídicas (a) que no final se dobram e curvam para encerrar sobre si próprias, formando vesículas (c).
As vesículas são os protótipos mais simples das membranas celulares
47 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

extensas para que a estrutura completa se possa dobrar, então a bicamada vai encurvar-se, permitindo
o encerramento dos bordos hidrofóbicos. Todas as cadeias alifáticas hidrofóbicas ficam protegidas da
água porque as únicas regiões em contacto direto com o ambiente aquoso circundante são as
superfícies externas e internas (“luminais”) formadas pelos grupos polares de cabeça dos lípidos. Isto
está ilustrado na Figura 3.7.
As vesículas lipídicas formam-se espontaneamente e são os modelos mais simples das membranas
biológicas. Espantosamente, não há uma única célula conhecida na natureza que não tenha as suas
membranas formadas com bicamadas lipídicas até certo ponto. A diversidade surge da utilização dos
tipos diferentes de lípidos e da sua combinação com outras moléculas, porém a organização estrutural
da membrana em si está fixa nas bicamadas lipídicas. Algumas células (p.e. bactérias, fungos e
plantas) podem também ter uma parede celular além da membrana celular, que cumpre funções
estruturais e/ou protetoras.
De facto, as membranas lipídicas são relativamente maleáveis e frágeis. No entanto, esta
maleabilidade e fragilidade aparente são características extremamente importantes numa perspetiva
dinâmica: a divisão e fusão de membranas, por exemplo, são favorecidas, já que estes processos não
implicam a quebra ou a formação de ligações covalentes entre lípidos, e as bicamadas lipídicas são
flexíveis. A fusão de membranas é vantajosa em vários fenómenos biológicos (Fig. 3.8). Na
biotecnologia, principalmente na farmacêutica e cosméticos, as vesículas lipídicas são ferramentas
úteis devido às suas propriedades (Caixa 3.2).
Como as bicamadas lipídicas são a estrutura básica das membranas celulares, vários fármacos
destinados a bactérias e fungos têm como alvo a organização das suas bicamadas lipídicas. Vários
péptidos antibióticos, por exemplo, são catiónicos para se ligarem irromperem as membranas lipídicas
das bactérias, que são altamente aniónicas. Os antibióticos polienos como a nistatina B e a anfotericina
B ligam-se especificamente ao ergosterol, interrompendo a permeabilidade seletiva da membrana e por
fim causando a lise dos fungos (Fig. 3.9) pois o ergosterol só existe na membrana dos fungos.
Enquanto que as vesículas lipídicas ilustradas na Fig. 3.7 são formadas só por lípidos (só um lípido
puro ou uma mistura de lípidos), as membranas biológicas são muitas vezes compostas por lípidos,
proteínas e sacáridos. A forma como estes componentes se organizam na membrana tem sido o tema
de pesquisa científica intensiva durante vários anos (Fig. 3.10). Atualmente, a membrana biológica
duma célula humana é considerada como uma bicamada lipídica com uma distribuição heterogénea
dos lípidos tanto dentro de cada camada como entre as camadas. Esta heterogeneidade leva à
formação de domínios específicos de lípidos com funções definidas. As plataformas rígidas, por
exemplo, podem servir como ancoragem para proteínas na membrana (Fig. 3.11). A membrana celular
está diretamente ligada ao citoesqueleto através duma série de proteínas, as chamadas âncoras do
citoesqueleto. A superfície externa das membranas celulares pode ter lípidos e proteínas que estão
glicosilados (ou seja, ligados covalentemente a sacáridos), contribuindo para a rica diversidade química
à superfície das células (Fig. 3.10).
A composição lipídica das membranas celulares varia muito entre espécies, entre organelos na
mesma célula, e entre a lâmina interna e a lâmina externa na mesma membrana (Fig. 3.12). Esta
variedade de composição permite a diversidade necessária às membranas para que sejam específicas
para certas funções, apesar da característica comum a todas as membranas de todas as células: são
construções baseadas em bicamadas lipídicas.
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 48

Fig. 3.8 A fusão da membrana lipídica ocorre na natureza associada a uma multiplicidade de processos celulares
(a). Alguns destes processos como a endocitose ou aparecimento das vesículas a partir do complexo de Golgi
exigem a indução duma curvatura nas membranas para que possam formar vesículas. Esta indução é conseguida
pela ação de proteínas especializadas (b) que são curvadas e aderem à superfície das bicamadas lipídicas (b,
cima), estabilizam curvaturas espontâneas (b, centro), ou se inserem só numa lâmina da bicamada, forçando o
dobramento da membrana (b, baixo) [reproduzida com a autorização de Zimmerberg & Kazlov, Nature Rev Mol Cell
Biol 7: 9–19, 2006]. A fusão membranar implica a junção entre duas bicamadas diferentes (c, d), que acontece
devido à ação de proteínas que inserem as duas bicamadas e promovem alterações na sua conformação que
causam o contacto entre as bicamadas lipídicas. Primeiramente, uma bicamada comum é formada pela mistura
das duas membranas (estado de hemifusão), e depois a fusão total funde as duas entidades que inicialmente
estavam encerradas nas suas próprias membranas. O painel (c) mostra um exemplo de fusão membranar durante
a neuro transmissão, nomeadamente um neurotransmissor a ser libertado numa sinapse. As proteínas
responsáveis pela fusão denominam-se SNAREs (representadas pelos filamentos verde, rosa e azul). O painel (d)
mostra os detalhes da hemifusão e fusão dum vírus de invólucro viral, como o do vírus de influenza, HIV, ou do
vírus da dengue com a célula-alvo. Neste caso, as proteínas virais à superfície do vírus inserem-se na membrana
da célula-alvo e passam por alterações conformacionais, resultando na fusão e consequente libertação dos
conteúdos virais para o citosol
49 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Caixa 3.2: Vesículas Lipídicas em Farmacêutica e Cosmética


Por várias décadas, os lípidos eram considerados como sendo biologicamente inertes, tendo
funções de armazenamento de energia no tecido adiposo ou de constituição duma matriz para
as membranas celulares. Portanto, em geral, havia pouco interesse na pesquisa para descobrir
as propriedades, estruturas, vias de biossíntese, usos biológicos e outras funções dos lípidos.
Atualmente, a situação é completamente diferente. Os lípidos são vistos como moléculas
biológicas importantes que, além de servirem como reservas de energia e componentes da
membrana, participam na regulação de vários processos bioquímicos nas células e na regulação
endócrina fisiológica do corpo humano. Aliás, os lípidos são agora ferramentas importantes nas
indústrias farmacêutica e cosmética, pois podem ser usados em compostos que distribuem e
administram fármacos ou outras moléculas biologicamente ativas no corpo humano. Na maioria
destes compostos, os lípidos fazem automontagem entre si em bicamadas que formam
sistemas vesiculares extensos, os lipossomas (ver figura), que podem encapsular moléculas
com os propósitos desejados. Os lipossomas são sistemas muito versáteis pois as moléculas
hidrofóbicas podem-se acumular nas regiões lipídicas, e as moléculas hidrofílicas podem
manter-se solubilizadas nas regiões aquosas dentro das vesículas.
Nas aplicações cosméticas, os lipossomas podem fazer parte de compostos para serem
aplicadas topicamente na pele. Os lípidos ajudam na difusão do composto através das camadas
externas da pele. Para além disso, simplesmente o facto de que os lípidos e a água formem uma
emulsão irá ajudar o composto a hidratar as áreas desejadas da pele.
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 50

O encapsulamento pelo lipossoma pode melhorar a ação dum fármaco substancialmente,


como a toxicidade diminuída observada com a anfotericina B (ver Fig. 3.9). A anfotericina B
convencional tem sido geralmente vista como o fármaco de escolha para muitos tipos de
infeções fúngicas sistémicas. Estas infeções são um risco grande para aqueles cujos sistemas
imunitários estão comprometidos, como os doentes a passar por quimioterapia para o cancro,
recipientes de transplantes de medula óssea e doentes com SIDA. No entanto, a anfotericina B é
muito tóxica, limitando, assim, a sua utilidade. Para estes doentes, que têm uma alta taxa de
morbilidade e mortalidade, há uma forma desta dosagem diferente da anfotericina B
convencional, que consiste dum complexo de anfotericina B com dois fosfolípidos numa
proporção molar de aproximadamente 1:1 em termos de fármaco para lípido: L--
dimiristoilfosfatidilcolina. (DMPC) e L--dimiristoilfosfatidilglicerol (DMPG), presentes num rácio
molar de 7:3. A doxorrubicina é outro exemplo. A doxorrubicina lipossomal é feita para ser
dirigida às células tumorais e deixar os tecidos saudáveis intactos, mantendo a sua eficácia e
reduzindo a toxicidade. A doxorrubicina convencional, um fármaco muitas vezes usado para
tratar certos cancros, é limitada pelo seu risco de causar vários efeitos secundários graves,
particularmente lesões cardíacas irreversíveis.
Os investigadores estão a desenvolver lipossomas inovadores com propriedades de entrega
precisa de fármacos como parte de medicamentos novos. Alguns têm a sua superfície
modificada com proteínas ou outros polímeros específicos para se dirigir às células-alvo.
Fosfolípidos sintéticos são úteis para aplicações específicas em marcação lipossómica e terapia
genética. A terapia genética baseia-se na entrega eficiente dos genes aos seus alvos
pretendidos. Os investigadores já colocaram DNA dentro dos lipossomas com sucesso e
alcançaram a fusão destes lipossomas às células. Os cientistas também já conseguiram
proteger estes lipossomas contra a degradação e são capazes de modular o seu tempo de
circulação.

Fig. 3.9 (continuação) pias, e péptidos catiónicos anfipáticos com propriedades antibacterianas (c) são dirigidas
às membranas celulares. A anfotericina B liga-se ao ergosterol, formando complexos ordenados em que os lados
hidrofóbicos dos anéis de polieno ficam virados para os lípidos e os lados polares estão virados entre si, formando
um poro hidrofílico (a, direita). A filipina não é tão seletiva para o ergosterol comparada com o colesterol. A
anfotericina B é, portanto, mais tóxica para as células humanas. O painel (b) (direita) mostra imagens do
microscópio de força atómica dos poros criados por filipina em bicamadas contendo colesterol (setas). As
estruturas grandes à superfície da bicamada lipídica (b, centro) são agregados de filipina. O painel (c) (esquerda)
também mostra imagens de microscopia de força atómica, mas duma bactéria individual (E. coli). A exposição da
bactéria ao péptido catiónico anfipático BP100 causou o colapso da membrana bacteriana. A membrana
bacteriana é aniónica atraindo, assim, os péptidos electrostaticamente, que posteriormente se agregam na
bicamada lipídica causando perturbação e aumentando a permeabilidade. Esta perturbação pode ser causada pela
formação de poros ou por destruição inespecífica da organização lipídica (c, direita, mostra a ação de rBPI21, um
péptido derivado da proteína bactericida aumentadora de permeabilidade que pode ser útil contra a meningite). As
Figuras no painel (b) direita são reimpressos com a autorização de Santos et al., Biophys J. 75:1869–1873, 1998.
As Figuras no painel (c) esquerda são reimpressas com a autorização de Alves et al., J. Biol. Chem. 285:27536–
27544, 2010. As Figuras no painel (c) direita são reimpressas com a autorização de Domingues et al., PLoS ONE,
4:12, e8385, 2009
51 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.9 Alguns fármacos como a anfotericina B (a), um fungicida usado no tratamento das infeções de Candida
sp. entre outros, ou filipina (b), um fungicida também tóxico às células humanas e, portanto, não utilizados em tera-
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 52

Fig. 3.10 (a) A evolução histórica do conceito das membranas celulares (de acordo com Ole Moritsen; reimpresso
com a autorização de Biol. Skr. Vid. Selsk. 49:7–12, 1998). A bicamada lipídica foi identificada em primeiro lugar,
seguindo-se a descoberta que as proteínas interagem com os lípidos. O conceito de que existem proteínas
integrais incorporadas na bicamada lipídica formando uma estrutura dinâmica veio com o modelo do fluido
mosaico de Singer e Nicholson em 1972, que é ainda aceite como a base por detrás da estrutura membranar.
Mesmo assim, a partir daí, a organização das membranas celulares está constantemente a ser desvendada. Sabe-
se agora que os lípidos fazem automontagem em domínios laterais com uma composição diferente, e algumas
proteínas de membrana estão fixas (“ancoradas”) ao citoesqueleto (A(e) e A(f)). A perspetiva moderna sobre as
membranas celulares está esquematizada em (b), em que as cores lipídicas representam composições lipídicas
heterógenas. A superfície externa das membranas celulares (b, cima) tem lípidos glicosilados (contêm sacáridos,
preto) e proteínas glicosiladas com funções diferentes (ver Secção 3.2). O citoesqueleto e as proteínas de
ancoragem ao citoesqueleto são representados em castanho

lípido em verde para salientar a conformação dobrada (cortesia do Dr. Claudio Soares, ITQB-UNL, Portugal). Os
lípidos com cadeias mais longas e saturadas irão adotar conformações mais rígidas e lineares pois interagem
mais fortemente entre si. A mistura entre lípidos rígidos e fluídos causa uma segregação parcial dos lípidos. A
imagem dum microscópio de força atómica mostrando a mistura dum lípido fluído não-saturado (palmitoil-oleil
fosfatidilcolina, POPC – 50% molar) com um lípido saturado rígido (dipalmitoil-fosfatidil colina DPPC) é mostrado
no painel (b) esquerda; as regiões segregadas estão limpas, e o perfil da altura seguindo a linha vista na imagem
de cima (gráfico em baixo) mostra que as regiões segregadas são mais altas, correspondendo, portanto, a regiões
mais rígidas da membrana. As imagens epifluorescentes das bicamadas tendo um dos lípidos marcados com um
corante fluorescente confirmam a segregação dos dois lípidos (b, direita). A Figura foi reimpressa com autorização
de Franquelim et al., J. Am. Chem. Soc. 130:6215–6223, 2008; e Franquelim et al., Biochim. Biophys. Acta.
1828:1777–1785, 2013. Estas regiões mais rígidas da membrana estão mais adaptadas às proteínas de
ancoragem e aos recetores de membrana (c). Os esfingolípidos e o colesterol, por exemplo, aumentam ainda mais
estas características. As proteínas ligadas covalentemente aos lípidos são tipicamente encontradas nestas
plataformas rígidas
53 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.11 Heterogeneidade nas membranas lipídicas. Ainda que os fosfolípidos sejam muitas vezes ilustrados
numa forma simplificada com cadeias alifáticas ordenadas e esticadas, como na Fig. 3.2, na realidade, a maioria
das moléculas em bicamadas lipídicas em condições fisiológicas celulares têm cadeias de acilo que são muito
flexíveis e muito dinâmicas. O painel (a) mostra uma simulação da dinâmica molecular dos lípidos com um único
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 54

Fig. 3.12 Ainda que todas as membranas celulares na natureza sejam construções baseadas em bicamadas
lipídicas, a composição de membrana varia muito entre espécies (cima), entre os organelos da mesma célula
(baixo), e até entre as duas lâminas da mesma membrana (não mostrado)

Como as bicamadas lipídicas são barreiras hidrofóbicas, as moléculas hidrofílicas como a glucose
não podem atravessá-las livremente, mas esta limitação é ultrapassada pelos canais e transportadoras
nas membranas. Os canais e transportadores são proteínas específicas para certas moléculas ou iões
que facilitam ou permitem a translocação de tais moléculas ou iões através das membranas. Este
assunto será revisto na Secção 5.3.1, após reflexão considerada de estrutura proteica.

As lipoproteínas são agregados organizadas de lípidos e proteínas duma grande variedade de


tamanhos e densidades (Fig. 3.13). Estes agregados têm um centro lipídico formado principalmente
por triacilglicerídeos e ésteres de colesterol, cobertos por uma monocamada de fosfolípidos. O arranjo
global é principalmente determinado pelo efeito entrópico pois a monocamada de fosfolípidos
minimiza o contacto entre os componentes não-polares e moléculas de água no sangue (Caixa 3.3). As
lipoproteínas transportam lípidos entre tecidos diferentes. Existem proteínas inseridas na camada
lipídica, expostas à superfície da lipoproteína, como ilustrado na Fig. 3.14.
55 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.13 As lipoproteínas são agrupadas de acordo com as suas densidades e tamanhos, apesar de que a
nomenclatura mais comum se refira à densidade (HDL lipoproteína de elevada densidade, LDL lipoproteína de baixa
densidade, VLDL lipoproteína de muito baixa densidade). As quilomicras são as estruturas formadas com os lípidos
dietéticos no enterócito (dos intestinos) e libertadas no plasma

Caixa 3.3: Lipoproteínas: O Problema do Transporte Lipídico


Os lípidos têm extremamente pouca solubilidade em meio aquoso. Portanto, como consequência
do efeito entrópico (ver Secção 3.1), os lípidos tendem a fazer automontagem quando colocados
num meio aquoso. A maioria dos fosfolípidos, tendo uma “cabeça” hidrofílica e duas cadeias
hidrofóbicas de acilo, tendem a empacotar-se lado a lado e formar bicamadas. O colesterol não
tende a formar agregados supramoleculares muito organizados, mas pode inserir-se nas
bicamadas lipídicas e contribui para a sua estabilidade. Os triacilglicerídeos (“triglicéridos”) e
ésteres de colesterol (ésteres de colesteril; ver figura) não têm as propriedades anfipáticas e os
requisitos estruturais para formar bicamadas lipídicas. Ao invés disso, os triacilglicerídeos e os
ésteres de colesteril amalgamam-se num agregado, não tendo uma superfície polar. Estes
agregados tendem a ser esféricos, a geometria que minimiza a área de superfície exposta ao
solvente. Os agregados lipídicos tendem a acumular-se até os lípidos livres estão quase
ausentes, a menos que uma monocamada fosfolipídica cubra a superfície destes agregados,
formando uma interface favorável à entropia. As monocamadas fosfolipídicas estabilizam os
agregados lipídicos e formam uma emulsão. Numa emulsão, os lípidos estão distribuídos
heterogeneamente à escala microscópica, porque os lípidos se juntam em agregados, mas
distribuídos homogeneamente à escala macroscópica pois os agregados em si estão
distribuídos igualmente num solvente.

Exemplo dum éster de colesteril: nonanoato de colesteril. A molécula é composta duma fração de colesterol
e uma fração de ácido gordo (ácido nonanóico neste caso)

No corpo humano, encontram-se agregados lipídicos muito grandes nas células do tecido
adiposo (adipócitos), ocupando quase todo o espaço citoplasmático. É um lugar de
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 56

armazenamento. Os agregados mais pequenos são encontrados emulsificados no sangue, em


associação com proteínas específicas. Estes agregados mais pequenos são levados pelo
sangue e servem como transportadores lipídicos. Em ambos os casos, os agregados são
cobertos por monocamadas de fosfolípidos com os grupos polares expostos ao meio aquoso e
as “caudas” de acilo em contacto com os lípidos. O conjunto formado pelo agregado lipídico
emulsificado coberto com a monocamada fosfolipídica e associada com as proteínas
específicas constitui uma lipoproteína (ver Fig. 3.14 no texto principal). As proteínas em si são
apelidadas apolipoproteínas. A lipoproteína como um todo é uma entidade carregadora de
lípidos; as apolipoproteínas ligam-se a recetores específicos de modo que os lípidos são
dirigidos apenas às células-alvo.
As lipoproteínas variam entre si na proporção dos triglicéridos/ésteres de colesteril/proteína,
o que interfere diretamente no seu estado de compactação e densidade. Estudos iniciais sobre
as propriedades das lipoproteínas puderam separar várias classes de lipoproteínas baseados
nas suas densidades diferentes, tal que a nomenclatura baseada em densidade foi adotada
naturalmente, desde lipoproteínas de alta densidade (HDL) até lipoproteínas de densidade muito
baixa (VLDL) e quilomicras (ver tabela abaixo). Há uma mudança concomitante em volume, mas
não é importante em termos da classificação de lipoproteínas. Também vale a pena salientar
que as apolipoproteínas também estão divididas em classes (A, B, C, etc.) e que as HDLs são as
únicas lipoproteínas que não possuem apolipoproteínas B, o que é uma característica distintiva.

Propriedades de lipoproteínas plasmáticas


Densidade Diâmetro
Lipoproteínas plasmáticas (g ml-1) (mm) Apolipoproteína Função fisiológica
Quilomicra <0,95 75-1200 B48, C, E Transporte de
gordura dietética
Lipoproteína de muito baixa 0,95-1,006 20-80 B100, C, E Transporte de
densidade (VLDL) gordura endógena
Lipoproteína de densidade 1,006-1,019 15-35 B100, E Precursor de LDL
intermédia (IDL)
Lipoproteína de baixa 1,019-1,063 18-25 B100 Transporte de
densidade (LDL) colesterol
Lipoproteína de elevada 1,063-1,21 7,5-20 A Transporte inverso
densidade (HDL) de colesterol
TAG triacilglicerídeo, CE colesterol éster, C colesterol livre, PL fosfolípido, P proteína

Durante a digestão, os lípidos são parcialmente degradados e emulsificados no lúmen


intestinal por ácidos biliares, moléculas semelhantes ao colesterol, mas que têm vários grupos
polares. Os lípidos e os outros nutrientes são absorvidos pelas células intestinais, os enterócitos
(ver figura). As quilomicras são formadas nestas células e libertadas no sangue. Oitenta a
noventa porcento dos lípidos nas quilomicras são triglicéridos, que é responsável pela sua baixa
densidade. A carga restante é colesterol livre (1-3%), ésteres de colesteril (3-6%), e fosfolípidos
(7-9%). As quilomicras circulam no sangue, onde ocorre a degradação dos seus triacilgliceróis
em ácidos gordos livres. Parte destes ácidos gordos é entregue ao tecido adiposo e aos tecidos
periféricos. As quilomicras remanescentes ligam-se às células hepáticas através de recetores
específicos. O excesso de nutrientes incorporados após a digestão é convertido em lípidos no
fígado, onde formam VLDLs num processo parecido à formação de quilomicras no intestino. As
VLDLs são libertadas das células hepáticas. Na corrente sanguínea, os ácidos gordos livres são
removidos dos seus triacilgliceróis, formando lipoproteínas de densidade intermédia (IDLs) e
lipoproteínas de baixa densidade (LDLs), que dirigem os lípidos para tecidos periféricos com
recetores de LDL. Hepatócitos com recetores de LDL também se ligam a LDL. Por outro lado, os
HDLs transportam colesterol de tecidos periféricos para o fígado, onde existem células com
recetores específicos para o HDL. O colesterol é, então, utilizado para sintetizar ácidos biliares.
As HDLs são as únicas lipoproteínas que descartam o colesterol. A esta característica se deve o
nome “bom colesterol” para o colesterol associado às HDL em campanhas de saúde pública para
o público geral. Este nome não faz sentido na perspetiva bioquímica, mas ajuda a divulgar a
57 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

mensagem que, na avaliação de risco cardiovascular, é importante diferenciar entre o colesterol


que está a ser removido e o colesterol que está a ser absorvido. É interessante, na perspetiva
bioquímica, que o colesterol para ser descartado está associado a lipoproteínas sem
apolipoproteína B e colesterol para ser absorvido está associado a lipoproteínas contendo
apolipoproteína B.

Origem e destino das lipoproteínas plasmáticas

Os LDLs são degradados dentro das células depois de serem captados por endocitose. O
recetor de LDL é segregado na vesícula endocítica, que depois se divide em duas: uma vesícula
vazia, com os recetores na membrana, que regressa para a superfície da célula e a outra vesícula,
que tem as proteínas e os lípidos das lipoproteínas, que se funde com o lisossoma. O colesterol
derivado de LDL pode, então, ser utilizado nas membranas celulares, como precursor para
sintetizar hormonas esteroides ou ácidos biliares ou pode, simplesmente, ser armazenado como
ésteres de colesterol. O destino exato do colesterol na célula depende do tipo de célula e do seu
estado metabólico. O colesterol da dieta suprime a síntese do colesterol pelo corpo e níveis
elevados de colesterol livre inibem a síntese de recetores de LDL. A captação celular é, então,
inibida na presença de colesterol em excesso e o nível de LDL no sangue aumenta. Para além
disso, os LDLs demoram mais tempo a serem captados e circulam no sangue por períodos mais
longos. Isto aumenta as hipóteses de o LDL ser exposto a agentes oxidativos, tais como o NO, o
peróxido de hidrogénio ou o ião superóxido. LDLs oxidados são, então, removidos da circulação
pelos macrófagos, mas os macrófagos ficam com as suas propriedades severamente alteradas,
transformando-se nas chamadas células-espuma. Estas células acumulam-se nas paredes do
endotélio, libertando fatores de crescimento e citocinas que estimulam a migração de células
musculares lisas, que proliferam no local de acumulação das células- espuma e formam matrizes
de colagénio. Isto consiste no depósito de placas ateroscleróticas, o que representa um grave
risco cardiovascular.
Curiosamente, as proteínas responsáveis pela conversão de triacilglicerídeos em ácidos
gordos no coração (enzimas lipases lipoproteicas do coração) têm uma afinidade bastante maior
para os triacilglicerídeos do que para as proteínas correspondentes no tecido adiposo. O
parâmetro de afinidade, 1/KM, que será abordado no Secção 4.2.1, é cerca de dez vezes maior no
coração. Durante o jejum, os níveis de triacilglicerídeos no plasma diminuem, mas a entrega dos
ácidos gordos a partir dos triacilglicerídeos é mantida no coração, mesmo quando está
suprimida no tecido adiposo.

As diferentes classes de lipoproteínas diferem na densidade (devido às diferenças nas quantidades


relativas de proteínas, fosfolípidos, colesterol, triacilglicerídeos e ésteres de colesterol na sua
composição), tamanho e proteínas específicas associadas (ver Tabela na Caixa 3.3). Mesmo assim,
estas classes são nomeadas apenas segundo as diferenças de densidade, o que está relacionado com
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 58

Fig. 3.14 Estrutura genérica global partilhada por todas as classes de lipoproteínas. Uma única camada de
fosfolípidos e colesterol cobrem uma gota lipídica de triacilglicerídeos e de ésteres de colesterol. Existem
proteínas na superfície (não aparecem na figura), as apolipoproteínas, que são específicas de cada classe de
lipoproteínas e servem para reconhecimento celular, isto é, atuam na interação com recetores específicos nas
células

a propriedade “mais prática” que pode ser utilizada para a sua separação em diferentes frações (ver
Fig. 3.13). As lipoproteínas formadas no intestino com lípidos da dieta são conhecidas como
quilomicras e as restantes classes variam de lipoproteínas de muito baixa densidade (VLDLs − very-
low-density lipoproteins) a lipoproteínas de elevada (HDLs − high-density lipoproteins). As lipoproteínas
de densidade intermédia (IDLs − intermediate-density lipoproteins) e as lipoproteínas de baixa
densidade (LDLs − low-density lipoproteins) estão entre as anteriores.
As várias classes de lipoproteínas têm diferentes funções e tecidos-alvo para a sua ação (ver Caixa
3.3). O reconhecimento do alvo depende da especificidade das proteínas presentes na superfície da
lipoproteína (referidas como apoliproteínas para realçar que apenas a parte proteica está a ser
abordada) para recetores bem definidos.
Existem outros conjuntos supramoleculares lipídicos, como gotas lipídicas no fígado e depósitos
lipídicos no tecido adiposo. Os depósitos lipídicos podem ocupar a maior parte do volume de um
adipócito, as células do tecido adiposo (ver Fig. 3.3), confinando seu o citoplasma a uma fração muito
pequena da célula. Estes depósitos lipídicos são, também, cobertos por fosfolípidos que são
estabilizados como consequência do efeito entrópico.

3.2 Sacáridos e os Seus Polímeros e Derivados


Os sacáridos, ao contrário dos lípidos, são extremamente polares e, por isso, moléculas hidrofílicas.
São aldeídos lineares ou cetonas com grupos hidroxilos ligados aos carbonos que não formam os
carbonilos (C=O). Muitas destas moléculas têm apenas C, H e O na sua composição e inserem-se na
fórmula (CH2O)n. Esta característica espúria levou a designação “hidrato de carbono”, que é ainda muito
utilizada para identificar sacáridos, apesar da sua total inadequação em termos químicos: nem todos
os sacáridos obedecem à regra (CH2O)n e isto não reflete a hidratação do carbono, mas apenas uma
proporção molar específica entre átomos de C, H e O. Referir os sacáridos como “açúcares” é
igualmente inadequado e enganador. O termo “açúcar” está relacionado com uma propriedade, a
doçura, que nem todos os sacáridos possuem e estende-se a outras moléculas, que não sacáridos, tais
como adoçantes peptídicos (Caixa 3.4). Os sacáridos ou oses são, assim, as nomenclaturas preferidas
para os bioquímicos, apesar dos termos “hidratos de carbono” ou “carbohidratos” e “açúcares”, serem
comummente utilizados em áreas de estreita relação, tais como a nutrição, por exemplo.
59 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Caixa 3.4: Adoçantes e Substitutos do Açúcar


O problema da popularização das dietas altamente calóricas estimulou a procura por substitutos
do açúcar. A sacarose, o açúcar mais comummente utilizado para cozinhar, é uma molécula doce
natural a partir da qual uma certa quantidade de energia pode ser utilizada pelo corpo humano
após metabolização. Contudo, existem moléculas conhecidas como adoçantes de elevada
intensidade, que têm, muitas vezes, o poder adoçante da sacarose. A sacarina, por exemplo, é,
aproximadamente, 300 vezes mais doce do que a sacarose, quando se comparam quantidades
iguais. O aspartame e o acessulfame-K são, aproximadamente, 200 vezes mais doces do que a
sacarose. Para a sucralose, a razão aumenta para 600 vezes mais doce. Uma modificação
química específica no aspartame, o advantame, garante um impressionante aumento da doçura
em 20 000 vezes, relativamente à sacarose. Desta forma, é necessária uma menor quantidade
de adoçante para alcançar o sabor doce de uma comida ou bebida. Apesar de o “conteúdo
calórico” de uma massa unitária da molécula ser equivalente à sacarose, nalguns casos, a
quantidade total usada é muito inferior e o total de calorias na dieta diminui drasticamente.
A estrutura química da sacarose e da maior parte dos adoçantes artificiais é bastante
diferente. A sacarose é um dissacárido composto pelos resíduos dos monossacáridos glucose
e frutose. A sucralose é preparada a partir da sacarose através da substituição de três grupos
hidroxilos por três cloretos. A sacarina e o acessulfame-K têm estruturas bastante diferentes. O
aspartame é o éster de metil do dipéptido L-aspartil-L-fenilalanina.

A estrutura molecular dos adoçantes deve ser tal para que estes se liguem a um recetor
molecular específico na superfície da língua. O recetor está acoplado a uma proteína G (ver
Secção 5.4), que se dissocia quando o adoçante se liga ao recetor. Esta dissociação conduz a à
ativação de uma enzima que, por sua vez, leva a uma sequência de eventos, resultando em sinais
que são transportados e interpretados pelo cérebro. A perceção da doçura depende
minunciosamente da interação entre o recetor e o adoçante. A importância da forma molecular
para a doçura é ilustrada pelo caso do aspartame, já que o seu esteroisómero, L-aspartil-D-
fenilalanina metil ester, tem um sabor amargo e não doce.
Tem havido uma longa e contínua controvérsia sobre o impacto dos adoçantes artificiais na
saúde, o que levou a muita pesquisa sobre a possível toxicidade dos seus produtos metabólicos.
A sacarina tem sido muito controversa e proibida em alguns países. No corpo, o aspartame é
dividido em/absorvido como produtos, que incluem aspartato, fenilalanina e metanol. A
fenilalanina é tóxica para indivíduos com fenilcetonúria, uma doença genética em que os
indivíduos afetados não conseguem processar fenilalanina. Produtos que contenham aspartame
devem, assim, estar etiquetados para a fenilalanina. Os produtos de decomposição do
aspartame – fenilalanina e aspartato, tal como o metanol e os seus produtos de decomposição
(formaldeído e formato) – são assuntos de debate. Independentemente das controvérsias e
limitações no seu uso, os adoçantes artificiais têm um papel importante na melhoria da
qualidade de vida dos diabéticos, que estão limitados no consumo de sacarose e outros
sacáridos.
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 60

Os sacáridos são as biomoléculas mais abundantes e devem esta ubiquidade à sua reatividade e
plasticidade estrutural, que permitem uma grande variedade de funcionalidades, incluindo
armazenamento energético, comunicação celular e proteção celular contra agressões mecânicas e
desidratação. Para entender tal plasticidade estrutural e as funcionalidades que advêm da mesma, tem
de se começar com a química básica e reatividade dos sacáridos. Apesar de ser uma área ampla e
complexa no domínio da bioquímica, iremos dedicar-nos apenas ao entendimento dos sacáridos mais
importantes da bioquímica humana. Iremos fixar-nos no básico deste mundo fascinante por questões
de clareza e foco nos processos fundamentais de outras disciplinas médicas, tais como a histologia e
a fisiologia.
Os sacáridos mais simples têm cadeias de três carbonos, ou seja, estes são trioses (“tri” para três
carbonos, “ose” para sacárido). Dependendo da posição do grupo carbonilo, C=O, que pode ser terminal
(aldeído) ou não (cetona), o sacárido é uma aldose ou uma cetose. No caso específico das trioses,
apenas são possíveis o gliceraldeído e a dihidroxicetona (Fig. 3.15). Mas até nestes casos, existem dois
tipos de reações químicas comuns e possíveis: a esterificação e a redução (Fig. 3.16).

Fig. 3.15 Glicerol [(a); também na Fig. 3.4d] está relacionado com um aldeído, o aliceraldeído (b), que tem um
isómero de cetona, dihidroxiacetona (c), que, por sua vez, está relacionado com uma cetona (d), dimetil cetona. OS
grupos aldeído e cetona do gliceraldeído e da dihidoxiacetona estão destacados nas estruturas químicas (b) e (c),
respetivamente, por uma caixa sombreada

Fig. 3.16 O gliceraldeído pode ser reduzido a glicerol após redução química do grupo C=O no carbono 1 (os
carbonos são numerados começando no do grupo carbonilo, de forma semelhante ao que acontece nos ácidos
gordos, em que os carbonos são numerados a partir do grupo carboxilo). O ácido fosfórico (HPO42-) pode reagir
com o carbono 3, por exemplo, para formar um éster, o gliceraldeído-3-fosfato. Estes são exemplos de reações
muito frequentes que envolvem sacáridos
61 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.17 L- e D-gliceraldeídos são imagens em espelho. A mesma nomenclatura foi extrapolada para os
aminoácidos (a alananina é apresentada como um exemplo)

A estrutura química do gliceraldeído merece grande atenção, já que o seu carbono central (C2) tem
quatro substituintes diferentes (isto é, está ligado a quatro átomos ou grupos de átomos diferentes),
sendo referido como carbono quiral ou centro quiral. Imaginem a permutação dos substituintes do H e
OH, por exemplo. Desta troca vai resultar uma molécula diferente (Fig. 3.17).
Apesar de terem a mesma composição elementar e estruturas muito semelhantes, as duas
moléculas não podem ser sobrepostas dado que a orientação espacial dos substituintes H e OH é
diferente. A diferença é clara se a molécula for representada numa perspetiva 3D. Uma observação
mais detalhada revela que ambas as moléculas são imagens em espelho uma da outra, isto é, elas são
enantiómeros. Para distinguir os dois enantiómeros do gliceraldeído, um é nomeado “L” e a outra é
nomeado “D”. Estas legendas foram dadas, arbitrariamente, por Emil Fischer, mas são utilizados para
nomear sacáridos e aminoácidos, por extrapolação do gliceraldeído (Fig. 3.17): D representa dextro
(direito, em Latim) e refere a estrutura com o grupo OH no carbono quiral para a direita, quando
projetado na direção do observador; L representa levo (esquerdo, em Latim) e refere a estrutura com o
grupo OH no carbono quiral para a esquerda, quando projetado na direção do observador.

Na investigação bioquímica, existem duas outras nomenclaturas convencionais para enantiómeros,


que são independentes uma da outra: o sistema R e S, baseado na classificação do grupo substituinte,
com base no número atómico de átomos ligados ao átomo central (centro quiral); ou o sistema + ou -,
baseado na atividade ótica, ou seja, na direção da rotação da luz polarizada do plano incidente. Os
símbolos + e – são, por vezes, substituídos por d- (dextro-rotatório) e l- (levo-rotatório), mas d- e l- são,
facilmente, confundidos com D- e L- e propensos a engano. Ambos os sistemas são mais fortes do que
os sistemas D- e L- de Fischer porque não dependem da comparação com o gliceraldeído. Os químicos
tendem a usar R/S ou +/-, mas bioquímicos ainda utilizam o sistema D/L, por uma simples razão: a
diversidade quiral entre os sacáridos biológicos e aminoácidos é bastante restrita. Os sacáridos mais
abundantes na bioquímica humana são, de longe, os D-. Curiosamente, L- é a forma preferida nos
aminoácidos. A evolução natural favoreceu uma forma especificamente, provavelmente por ser mais
simples ter apenas uma forma como “bloco de construção” dos polímeros dos sacáridos
(polissacáridos) e dos polímeros dos aminoácidos (proteínas). Uma pequena proteína com 100
resíduos de aminoácidos, que poderia ser D- ou L-, teria 2100 possíveis estruturas isoméricas
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 62

diferentes. Como são utilizados apenas L-aminoácidos, apenas uma forma isomérica é permitida.
Porquê especificamente L-aminoácidos e D-sacáridos e não as outras formas? Não é certo;
provavelmente teve origem a partir de processos inicialmente aleatórios que, mais tarde, se difundiram
e convergiram pela evolução em enantiómeros específicos da nossa natureza atual.
Considerando cadeias de carbono mais longas são possíveis mais complexos sacáridos,
dependendo de:
1. Comprimento das cadeias de carbono
2. Posição do grupo carbonilo na cadeia de carbono
3. Número e localização dos centros quirais
Apesar de ser possível encontrar diferentes sacáridos no corpo humano, pentoses e hexoses são
os mais frequentes nos processos metabólicos. Por isso, nós iremos agora focar-nos nestas
moléculas, nomeadamente, na ribose e na glucose (Fig. 3.18).

Fig. 3.18 D- e L-isómeros de ribose (pentose) e glucose (hexose). As formas D- são as formas mais relevantes na
natureza

Aldoses, como gliceraldeído, ribose e glucose, reagem com água, formando um hidrato. Isto
acontece no grupo C=O porque o átomo de oxigénio atrai os eletrões, deixando o átomo C com défice
de eletrões e, dessa forma, propenso a interagir com os eletrões do oxigénio da água (Fig. 3.19). A
reação é reversível, portanto uma solução aquosa de aldoses contem misturas dos seus aldeídos e das
formas hidrato. Todavia, as pentoses e hexoses podem reagir intramolercularmente, de uma forma
semelhante à hidratação. Como a cadeia de carbono é capaz de se dobrar e é dinâmica (tal como as
cadeias alifáticas saturadas nos lípidos), o grupo carbonilo pode contactar os grupos álcool (OH –
Hidroxilo) na mesma molécula e reagir com estes. O resultado é a formação de uma molécula cíclica,
pela conversão do grupo carbonilo num grupo hemiacetal (Fig. 3.19). A ciclização é reversível e, nas
células, as formas cíclicas de ribose e glucose coexistem com as formas lineares, mas as formas
cíclicas são dominantes. Após a ciclização, dois enantiómeros são formados porque o grupo hidroxilo
no C1 pode ligar-se a qualquer um dos dois lados do plano do anel: no α-anómero, o grupo OH no C1
está no local oposto ao do plano do anel, relativamente ao carbono terminal, C6 (-CH2OH) e, no β-
anómero, estão ambos do mesmo lado. A glucose adota a conformação em “cadeira” em desacordo
com o estrito anel planar de ribose (Fig. 3.19), mas anómeros α e β existem da mesma maneira. A
existência de enantiómeros tem implicações drásticas na polimerização de hexoses.
63 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.19 A hidratação do gliceraldeído forma um hidrato (a). Esta reação é reversível, por isso, o gliceraldeído
coexiste com o seu hidrato. O carbono, originalmente apresentado como um grupo carbonilo, é o único carbono
com duas ligações ao oxigénio. Uma reação similar pode ocorrer intramolercularmente em pentoses (b) e hexoses
(c). O painel (b) apresenta em detalhe a reação do C=O (C1) com o grupo OH no C4, análogo à hidratação. Uma
pentose cíclica é, então, formada. Tal como com a hidratação, esta reação é reversível e ambas as formas
coexistem, apesar de a forma cíclica ser mais abundante. A forma cíclica da glucose hexose não é planar como a
ribose, dado que o hexágono molecular é flexível e adota outras conformações, tal como a conformação “cadeira”
(c). A ciclização resulta na formação de dois anómeros (d), porque o grupo OH formado no C1 pode ser colocado
em dois locais diferentes do novo anel molecular formado: no α-anómero, o grupo OH no C1 está no local oposto
ao do plano do anel, relativamente ao carbono terminal, C6 (−CH2OH) e, no β-anómero, estão ambos do mesmo
lado. Tanto a representação de hexoses “cadeira” (c), como a planar mais simplista (d), são utilizadas neste livro
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 64

Sacáridos, tais como hexoses e pentoses, podem reagir entre si, formando cadeias que podem alcançar
tamanhos consideráveis. As moléculas construídas a partir da associação de moléculas mais
pequenas de um certo tipo são, normalmente, chamadas de polímeros e polímeros formados a partir
de unidades de sacáridos, como a ribose ou a glucose, são nomeadas de polissacáridos. As unidades
que formam os polissacáridos chamam-se monossacáridos. Uma associação covalente de dois
monossacáridos é um dissacárido. A associação de “alguns” monómeros forma “oligossacáridos”; o
limite do tamanho entre os oligossacáridos e polissacáridos não é muito bem definido.
Dois monossacáridos podem associar-se por desidratação. Tenhamos como exemplo duas
moléculas de glucose a formarem uma molécula de maltose (um dissacárido) por desidratação (Fig.
3.20). C4 numa molécula e C1 na outra ligam-se covalentemente por uma ligação acetal ou O-
glicosídica. A água resultante disso é formada com o oxigénio previamente ligado ao C1. O processo
inverso é a hidrólise da maltose em dois monómeros de glucose, que, apesar de termodinamicamente
favorável, é uma reação muito lenta. Na prática, quando enzimas degradantes não estão presentes, o
processo pode ser tão lento que se torna irrelevante.

Fig. 3.20 Duas moléculas de glucose podem associar-se covalentemente por desidratação (a). Quando C1 numa
α-glucose (α anómero) reage com C4 noutra glucose, forma-se maltose. A maltose é, assim, um dissacárido
formado pela ligação de duas moléculas de glucose através de uma ligação acetal ou O-glicosídica. Esta ligação
é chamada de “α-(1,4)” para salientar que o C1 no α anómero se liga ao C4 na outra molécula. Sacarose e lactose
(b) são outros exemplos de dissacáridos. Ambos são formados pela conjugação de diferentes constituintes
monossacáridos: glucose e frutose, no caso da sacarose e galactose, e glucose, no caso da lactose. A sacarose
envolve uma ligação α-(1,2), enquanto que a lactose envolve ligação β-(1,4)

A estereoquímica (isto é, a orientação espacial dos grupos químicos na molécula) é muito


importante porque a ligação covalente de duas moléculas impõe restrições no modo como as
moléculas se conseguem movimentar no espaço. Dependendo se os monómeros serem anómeros α
ou β, existem diferentes graus de restrição. A flexibilidade do conjugado é muito dependente dos
enantiómeros porque a interação entre grupos moleculares no dissacárido é muito diferente (Fig.
3.21a). Este efeito está amplificado em polímeros grandes; polissacáridos podem ter uma elevada
variedade de flexibilidades, indo desde extremamente rígido e reto a enrolado e deformável, isto
dependendo dos enantiómeros usados. A celulose, por exemplo, é um polímero de glucose formado
com ligações β(1,4), que é extremamente resistente mecanicamente, enquanto que a amilose é um
exemplo de um polímero flexível formado por um esqueleto principal α(1,4) (Fig. 3.21b, c). As
propriedades da celulose determinaram a sua seleção evolucional, relativamente às suas funções
estruturais nas plantas, formando as paredes celulares, o que tem impacto nas propriedades
macroscópicas da madeira.
65 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.21 Dois monossacáridos, tal como a D-glucose, ao formarem um dissacárido (a) têm restrições muito
diferentes para se articularem e se moverem, dependendo no facto de a ligação glicosídica ser -(1,4) ou -(1,4).
Quando vários monómeros se ligam para formarem um polímero (b), as sucessivas ligações -(1,4) ou -(1,4) con-
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 66

A amilose é o componente do amido, uma molécula que se enrola, formando hélices, e é armazenado
nas plantas para ser utilizado no metabolismo energético. O amido é o polissacárido mais comum na
dieta humana. A celulose e a amilose são exemplos marcantes de como, aparentemente, pequenos
detalhes podem realmente determinar diferenças profundas nas propriedades e estruturas moleculares
e, por isso, também nas funções.
O carbono 6 está, também, disponível para reação, pelo que os polímeros lineares formados a partir
de cadeias C1-C4 podem ramificar-se quando as ligações C1-C6 também são formadas (Fig. 3.21d). A
amilose passa a amilopectina quando ligações β(1,6) são formadas. O glicogénio é o polissacarídeo
de armazenamento humano e é muito semelhante à planta amilopectina (Fig. 3.21e). Diferem apenas
na frequência da ramificação e no tamanho médio dos segmentos α(1,4). A vantagem de ter glicogénio
como armazenamento de energia relativamente a um polissacárido linear (sem ramificação) deve-se
ao facto do glicogénio ser enzimaticamente degradado pela hidrólise de sacáridos das unidades
terminais. Uma molécula ramificada tem diversas terminações que podem ser degradadas todas ao
mesmo tempo, fazendo com que a glucose esteja prontamente disponível em grande proporção.
Dependendo da sua composição química e estereoquímica, os polissacáridos encontrados na
natureza têm uma de três funções: (1) proteção estrutural/mecânica, (2) armazenamento de energia e
(3) ligação de água (proteção contra desidratação). Vários exemplos estão listados na Tabela 3.3. O
ácido hialurónico é particularmente interessante pelo seu envolvimento no tecido conjuntivo. O seu
interesse estende-se da bioquímica à histologia. O ácido hialurónico, um polissacárido com grupos
sulfato (SO42- tem propriedades semelhantes às do PO42-), forma uma matriz extracelular com
colagénio, formando uma estrutura histológica hidratada flexível, mas resistente (Fig. 3.22).

Tabela 3.3 Exemplos de polissacáridos encontrados na natureza: estruturais (Str), armazenamento de energia
(Sto), hidratação por ligação de água (Wat) (D-Glc, D-glicose; D-GlcNAc, N-acetil-D-GLUCOSAMINA; D-GlcUA, ácido
D-glucónico)
Monossacárido Monossacárido Principal
Polissacárido 1 2 Ligação Ramificação Local função
Bactéria
Peptidoglicano D-GlcNAc D-MurNAc -(1,4) − Parede Str
bacteriana
Dextrano D-Glc − -(1,6) -(1,3) Cápsula Wata
Animais
Quitina D-GlcNAc − -(1,4) − Insetos, Str
caranguejos
Glicogénio D-Glc − -(1,4) -(1,6) Fígado, Sto
músculos
Ácido D-GlcUA D-GlcUA -(1,4) − Tecido Str, Wat
hialurónico -(1,3) conjuntivo
aMateriaiscapsulares, como os dextranos, podem ser muito produzidos quando as bactérias são alimentadas com
sacáridos para se tornarem reservas para o metabolismo subsequente

Fig. 3.21 (continuação) -ferem propriedades distintas ao polímero: ligações -(1,4) possibilitam a torção entre
monómeros, o que resulta em polímeros enrolados, tais como a amilose (c) e as ligações β-(1,4) mais rígidas entre
monómero levam a polímeros lineares retos, tal como a celulose. Assim sendo, a celulose é encontrada em
elementos estruturais das plantas, enquanto a amilose é utilizada pelas plantas como armazenamento de energia.
Os humanos também utilizam um sacárido poli-α-(1,4) como armazenamento de energia. A ramificação periódica
α-(1,6) a cada 10 resíduos, aproximadamente, permite ainda uma organização globular deste polissacárido (d). O
resultado final é um polímero de D-glucose regularmente ramificado chamado glicogénio (e). A síntese de
glicogénio é iniciada por uma proteína e a sua elongação requere diversas enzimas (ver Secção 8.2)
67 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.22 A matriz extracelular tem ácido hialurónico na sua composição. (a) Preparações histológicas de crista de
galo destacando a matriz de ácido hialurónico (esquerda, microscópio eletrónico convencional; centro, réplica de
carbono-platina; direita, proteínas hialurónicas e extracelulares fortemente glicosiladas coradas de cor azul
preservadas, a “matriz proteoglicanos”). Figura impressa com a permissão do Instituto de Histologia e Biologia do
Desenvolvimento, Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa, Portugal. (b) Representação esquemática da
organização molecular da matriz extracelular, que é composta por sacáridos formadores de gel, ligados a um
esqueleto principal de ácido hialurónico, interligado entre fibrilhas de colagénio. Os polissacáridos formam géis
devido à elevada densidade das ligações de H. Estes géis conferem uma estrutura moderadamente rígida e
proteção mecânica às células e retêm água, o que previne dessecação dos tecidos
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 68

Em secções anteriores, vimos que os monómeros de sacáridos oferecem diversas possibilidades de


reação e, por isso, são as moléculas que formam muitos conjugados na natureza. Os derivados mais
importantes são os ésteres de fosfato. O ácido fosfórico é capaz de formar até três ligações ésteres
(Fig. 3.23), apesar de os tri-estéres não serem comummente encontrados na natureza. Porém, diésteres
são importantes e possibilitam aos fosfatos de sacáridos formarem polímeros (por exemplo, ácidos
nucleicos) ou unir os sacáridos com outras moléculas orgânicas.
Os grupos fosfatos a formarem ésteres são aniónicos no ambiente aquoso nos intervalos de pH
biológicos mais comuns. Isto significa que moléculas neutras, tal como a glucose, ficam carregadas
quando esterificadas com um fosfato. A consequência é o aumento na solubilidade na água e a
diminuição da capacidade de atravessar as dublas camadas lipídicas, por exemplo. Isto é considerado
importante, uma vez que o metabolismo da glucose começa com a formação de fosfato de glucose
(Fig. 3.23a).
A hidrólise de ésteres fosfato é um processo espontâneo, mas muito lento, que ocorre por controlo
enzimático nas células. Para além disso, muitos processos químicos a ocorrerem nas células, como a
condensação de polímeros com formação de água, são processos desfavoráveis (há “excesso” de água
na maioria dos ambientes celulares); as enzimas aumentam a velocidade da reação, mas não mudam
o equilíbrio na direção da condensação. O uso de derivados de fosfato de monómeros no processo de
condensação facilita a reação, sendo que os fosfatos são assim chamados de bons grupos de saída:
eles alteram a reatividade de espécies químicas transientes no decorrer do mecanismo da reação.
O ATP (adenosina trifosfato, Fig. 3.23b) está entre as moléculas biológicas que são derivados de
sacáridos e tem um éster de fosfato. Uma ligação diéster de fosfato a ligar dois outros fosfatos é outra
característica interessante desta molécula. A energia envolvida nas ligações fosfato-fosfato faz com
que esta molécula seja essencial no metabolismo energético. Catiões bivalentes, tal como Mg 2+, são
habitualmente associados ao ATP e outras moléculas que têm grupos difosfato. Isto reduz a repulsão
electroestática entre o átomo de oxigénio da água e a carga negativa dos grupos fosfato, facilitando a
hidrólise dos derivados de fosfato.
Provavelmente não tão famosa como o ATP, mas igualmente importante na bioquímica, é a
coenzima A (Fig. 3.23c). Esta é uma molécula relativamente pequena, porém complexa.
Surpreendentemente, a coenzima A tem grupos fosfato e sacáridos, mas deve a sua reatividade a um
grupo tiol terminal (−SH). Este grupo tiol pode ligar-se a resíduo acetil através de uma ligação tioéster,
mas pode também ligar-se a um ácido gordo, formando acil-CoA, que é envolvido no metabolismo
lipídico.
O dinucleótido adenina nicotinamida (NAD+) é outro interessante caso de um derivado de sacárido
que também contém fosfatos. O NAD+ intervém em reações de redução-oxidação, onde pode aceitar
ou doar eletrões, passando de NAD+ para NADH + H+ ou vice-versa. Um grupo fosfato extra transforma
NAD+ em NADP+, que tem propriedades de redução-oxidação semelhantes, mas consegue ligar-se
apenas a enzimas específicas que normalmente não se ligam a NAD+. Isto implica que haja papéis
metabólicos específicos para o NADP+, que são distintos dos de NAD+. Os fosfatos estão envolvidos
em reconhecimento enzimático, mas não na atividade de redução-oxidação propriamente dita (Fig.
3.23d). O mesmo acontece com o dinucleótido adenina flavina (FAD e FADH2; Fig. 3.23e).
Os próprios nucleótidos merecem uma maior atenção, dado que eles polimerizam para formarem
assim os ácidos nucleicos. Estes serão deixados para posterior discussão, na próxima secção. Para
terminar, deve-se salientar que muitas drogas terapêuticas são também derivados de sacáridos, tal
como a digoxina (Fig. 3.23f), usada no tratamento de doenças cardíacas. A azidotimidina (AZT) é outro
exemplo. É um análogo de timidina que pode inibir a ação transcriptase reversa do HIV. Foi a primeira
droga usada no tratamento da SIDA. Enzimas celulares convertem o AZT na forma 5-trifosfato efetiva
(Fig. 3.23g). Uma vez ligado à transcriptase reversa, o grupo azida, N3, é responsável pela inibição
química. Com base no sucesso da AZT (Fig. 3.24), muitos nucleósidos estão sob desenvolvimento para
serem criados novos inibidores da transcriptase reversa do HIV para lutar contra a SIDA.
69 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.23 Os fosfatos são capazes de formar ésteres ou diésteres ao ligarem duas moléculas orgânicas (a). O
fosfato confere uma carga aniónica à nova entidade química formada porque a ionização do grupo fosfato ocorre
a pH >, aumentando a sua solubilidade no meio aquoso e diminuindo a sua capacidade de atravessar as
membranas lipídicas. Este é o caso da glucose-6-fosfato, que está “presa” no citosol das células, onde irá ser
processada em diferentes vias metabólicas. A adenosina trifosfato, ATP (b), e a coenzima A, CoA (c), são
importantes moléculas biológicas com um resíduo de sacárido ligado a um grupo fosfato. O ATP também contém
uma ligação fosfodiéster, muito importante para a sua reatividade nas células. A CoA tem dois grupos fosfato
ligados um ao outro, mas a sua reatividade nas células é ditada pelo grupo sulfidrilo (−CSH). O dinucleótido adenina
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 70

Fig. 3.23 (continuação) nicotinamida (NAD+) é outro derivado de sacárido com resíduos de sacáridos ligados a
fosfatos. O NAD+ pode ser reduzido a NADH (d). As reações de redução-oxidação de NAD+/NADH ocorrem num
resíduo cíclico específico da molécula, envolvendo um átomo de azoto (direita). Fosfato NAD +/NADH,
NAD+/NADPH (d), também participa nas reações de redução-oxidação no metabolismo humano. O NADH e o
NADPH não podem ser distinguidos pelas suas propriedades redutoras porque o grupo fosfato que os distingue
não interfere com o átomo de azoto que possui as propriedades de redução-oxidação. Ainda assim, as enzimas
usam especificamente NADH ou NADPH e por isso não há redundância entre estas moléculas. FAD e FADH 2 (e)
são moléculas semelhantes ao NAD+ e NADH, em que ambos constituem nucleótidos adenina e o seu papel nas
reações de redução-oxidação metabólicas. Digoxina e digitoxina (f) são exemplos de drogas com monossacáridos
na sua estrutura; mais especificamente, três resíduos são especificamente combinados como parte de uma
estrutura única. Outro exemplo de uma droga que é um derivado de sacárido é a azidotimidina (AZT), que é
convertida em trifosfato nas células (g) e é capaz de se inserir no centro ativo da transcriptase reversa do HIV
porque é estruturalmente semelhante ao substrato natural. Porém, o substrato natural não tem o grupo N 3. A
presença deste grupo bloqueia a conversão do RNA viral em DNA
71 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

É importante salientar que a combinação de monómeros de sacáridos podem gerar grande diversidade
de produtos quando comparados aos aminoácidos (Fig. 3.25). Duas glucoses, por exemplo, conseguem
ligar-se através de 6 carbonos em cada monómero, sendo, assim, capaz de formar 36 moléculas
diferentes. Considerando os anómeros, a diversidade aumenta. Não surpreendentemente, os
oligossacáridos estão presentes na superfície das células como recetores de estrutura única (ver um
exemplo na Caixa 3.5), enquanto os aminoácidos formam polímeros (proteínas) que têm domínios com
muito poucas estruturas restritas e bem definidas. Para além disso, os monossacáridos ou os
oligossacáridos são, frequentemente, encontrados na natureza ligados a proteínas.

Fig. 3.24 Campanhas preventivas salientando a necessidade de mudar comportamentos de risco tiveram um
impacto forte na divulgação da SIDA nos EUA, com uma marcada diminuição no número de casos diagnosticados
e mortes por ano, após 1993-95. O uso da AZT e de outros medicamentos tiveram um efeito adicional muito
importante na redução da mortalidade causada pela SIDA

Fig. 2.25 (continuação) covalentemente ligados a lípidos, habitualmente lípidos rígidos, tal como a ceramida, para
uma melhor ligação à membrana (b). Os glicolípidos (isto é, associações de sacáridos e lípidos) determinam os
grupos sanguíneos, por exemplo (ver Caixa 3.5). O mesmo princípio se aplica aos oligossacáridos ligados a
proteínas, isto é, as glicoproteínas (c). A cadeia lateral do aminoácido asparagina pode reagir com um sacárido
por desidratação, formando uma ligação N-glicosídica (análoga a uma ligação O-glicosídica, mas envolvendo o N
em vez do O). Da mesma forma, a cadeia lateral do aminoácido serina pode reagir com um sacárido, formando
uma ligação O-glucosídica. As sequências oligoméricas de sacáridos ligados à proteína IgG são apresentados, em
baixo, no painel (c), como exemplo
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 72

Fig. 3.25 Uma combinação de dois aminoácidos gera um único dímero, mas existem várias maneiras de dois
monossacáridos se combinarem para formar um dissacárido (a). Os sacáridos são mais adequados para
formarem estruturas altamente específicas das membranas celulares (b) ou proteínas (c). Tags de sacáridos são
73 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Caixa 3.5: Os Grupos Sanguíneos ABO


Existem diferentes grupos sanguíneos de acordo com as diferentes moléculas imunogénicas
presentes nos eritrócitos. A classificação mais importante dos grupos sanguíneos baseia-se em
três antigénios, A, B e O, que formam 4 grupos: A, B, O e AB – os grupos sanguíneos ABO. Os
antigénios do grupo sanguíneo ABO são cadeias de oligossacáridos ligadas a proteínas e lípidos,
localizados na superfície mais exterior dos eritrócitos. Um único resíduo de um pequeno
oligossacárido determina se o antigénio é A, B ou O (ver a figura).

Fuc representa o monossacárido fucose, Gal, galactose, GalNAc, N-acetilgalactosamina e GlcNAc


representa N-acetilglucosamina

O sistema imunitário de um indivíduo produz anticorpos contra os antigénios ABO que não
estão presentes nos seus próprios eritrócitos. Indivíduos no grupo A terão anticorpos contra B e
vice-versa. O tipo O, o mais comum, não contém o último resíduo, que é o antigénio, na sua
estrutura (de facto, a nomenclatura original era 0 – zero – mas passou à letra O). Por isso,
indivíduos do grupo sanguíneo O vão ter anticorpos tanto anti-A como anti-B. Indivíduos do grupo
sanguíneo AB são raros e, naturalmente, não têm anticorpos anti-A ou anti-B. Isto tem
implicações tremendas nas transfusões sanguíneas, dado que um paciente não pode receber
eritrócitos contra os quais tem anticorpos. Indivíduos AB, em princípio, recebem sangue de
qualquer dador; indivíduos O podem doar sangue a qualquer indivíduo; indivíduos A e B podem
apenas doar e receber sangue para/de indivíduos pertencentes ao mesmo grupo sanguíneo.
Acredita-se que a produção de anticorpos ABO é estimulada quando o sistema imunitário
contacta com comida ou com microrganismos com os antigénios sacáridos, que estão ausentes
nos eritrócitos. As funções dos antigénios do grupo sanguíneo ABO não são conhecidas.
Indivíduos a quem falta os antigénios A e B são saudáveis, sugerindo que qual seja a função que
os antigénios tenham, esta não é importante, pelo menos não nos tempos modernos.
A doença hemolítica do recém-nascido (hemolytic disease of the newborn – HDN) é um
problema médico sério, que ocorre quase exclusivamente em bebés do grupo sanguíneo A ou B,
que nascem de mães do grupo O. Isto ocorre porque o anti-A e o anti-B, formados nos indivíduos
do grupo O, tendem a ser do tipo IgG, que pode atravessar a placenta. HDN tende a ser
relativamente moderada, principalmente porque eritrócitos fetais não expressam níveis adultos
de antigénios A e B. Porém, a severidade precisa da HDN não pode ser prevista.
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 74

Os nucleótidos que compõem o ácido desoxirribonucleico (DNA) e o ácido ribonucleico (RNA) são
formados por 2-desoxirribose ou ribose, respetivamente, ligada a uma base heterocíclica, uma purina
(adenina, guanina) ou uma pirimidina (citosina e uracilo ou timina) e um grupo fosfato ligado ao carbono
5 do resíduo de ribose. Para evitar ambiguidade na numeração dos carbonos da base heterocíclica, os
números dos carbonos da ribose e desoxirribose são identificados com uma premissa: a ligação éster
do fosfato ocorre em C5’ (Fig. 3.26). As características físicas e químicas das bases heterocíclicas são
extremamente importantes, dado que são determinantes no modo como os polímeros nucleotídicos
(ácidos nucleicos) se organizam. As bases são planas, cíclicas, moléculas aromáticas com átomos N
e O, capazes em participar na ligação do hidrogénio no plano do anel. As bases são grupos de baixa
polaridade pouco solúveis, pelo que ambas as faces do plano da base de anéis serão razoavelmente
hidrofóbicas e, assim, sujeitas a efeitos entrópicos significativos.
Existem quatro nucleótidos diferentes possíveis no RNA e DNA. O RNA é formado por adenosina-5’-
monofosfato (AMP), guanosina-5’-monofosfato (GMP), citidina-5’-monofosfato (CMP) e uridina-5’-
monofosfato (UMP). O DNA é formado por desoxirribose, que é denotada pelo prefixo d em dAMP, em
dGMP, em dCMP e em dTMP. dTMP significa timina-5’-monofosfato, usando desoxirribose; o DNA não
contém dUMP.

Fig. 3.26 Os nucleótidos são formados com ribose ou 2-deoxiribose, fosfato e uma base heterocíclica, purina
(adenina ou guanina) ou pirimidina (citosina, uracilo ou timina) (a). O grupo fosfato estabelece uma ligação
fosfodiéster no C5 e a base heterocíclica liga-se a C1. O nucleótido fosfato de deoxitimidina é mostrado como
exemplo (b). Um dímero dos nucleótidos poderá ser formado por desidratação, o que cria uma ligação fosfodiéster
entre os monómeros através do C5’ e do C3’ (c). No RNA X=OH, no DNA X=H
75 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Uma vez que os nucleótidos são monoésteres de fosfato, estes conseguem formar ligações éster
adicionais a outros álcoois, tais como os grupos OH noutros nucleótidos. Por outras palavras, eles
conseguem formar polímeros através de reações de desidratação. Os ácidos nucleicos são formados
por ligações fosfodiéster entre C5’ de um nucleótido e C3’ de outro nucleótido (Fig. 3.26c). O resultado
é um polímero linear com bases heterocíclicas e os grupos fosfatos, em lados opostos, sendo os
grupos fosfato aniónicos (Fig. 3.27). Algumas representações simplificadas de ácidos nucleicos
identificam esta característica (por exemplo, Fig. 3.27b), que se mantém elusiva quando o ácido
nucleico é representado apenas por uma sequência de letras, identificando os nucleótidos (T, timina; C,
citosina; G, guanina; A, adenina; U, uracilo). Por convenção, a sequência do ácido nucleico é escrita da
extremidade C5’ para a extremidade C3’, 5’→ 3’ (Fig. 3.27).

Fig. 3.27 Polímeros naturais de nucleótidos são chamados de ácidos nucleicos. O ácido desoxirribonucleico (DNA)
tem resíduos de 2-desoxirribose e usa guanina, citosina, adenina e timina, mas não uracilo (a). Ambos os polímeros
são formados por pontes de fosfodiéster C3’−C5’. Por uma questão de simplicidade, a estrutura química dos
monómeros são normalmente omitidos, e outras formas de apresentar as sequências de resíduos nucleotídicos
são preferíveis. A forma mais simples e comum representa os nucleótidos através do código de uma letra (a
primeira letra do nome da base: G, A, C, T ou U). O final está livre, C5’ ou C3’, não é mencionado explicitamente,
mas é estabelecido por convenção que as sequências são apresentadas nas direções de 5’ a 3’ (b)
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 76

Fig. 3.28 As bases heterocíclicas são planas. As pontes de hidrogénio ocorrem no plano dos anéis. As purinas e
as pirimidinas são capazes de interagir por causa da correspondência no número e na orientação dos grupos
doadores/recetores de H. Visto que as bases são planas, relativamente hidrofóbicas em ambos os lados, e sofrem
emparelhamento de bases, os ácidos nucleícos podem ligar sequências complementares de nucleótidos no
mesmo polímero ou formar um polímero diferente. O efeito entrópico vai causar este arranjo para torcer à volta do
seu longo eixo formando uma dupla hélice na qual as partes polares da molécula, os resíduos de fosfato e de
pentose, são expostos ao meio aquoso protegendo as bases relativamente hidrofóbicas. No centro da hélice, as
bases empilhadas e paralelas entre si e são ligeiramnete rodadas relativamente a cada uma. Este tipo de
organização pode ser encontrado até em alguns domínios dos RNA’s transferência (b; PDB 2TRA). Os grupos OH
presentes nos grupos C2’ do RNA (asterisco no painel (c) direita) mas não no DNA (painel (c) esquerda) têm
implicações estruturais na conformação dos ácidos nucleícos, pois estes grupos contribuiem para proteger o
núcleo das cadeias duplas do ambiente aquoso. Painel (c) foi reproduzido pelo Goodsell, The Machinery of Life,
2009
77 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Ao contrário dos polissacarídeos, os ácidos nucleícos são moléculas anfifílicas (Fig. 3.27) portanto
o efeito entrópico vai ser uma força motriz significante para dobrar num ambiente aquoso. As bases
heterocíclicas tendem em formar um núcleo para minimizar o seu contacto com as moléculas de água.
A estrutura cristalina do RNA transferência (tRNA) mostra que as bases se empilham paralelamente
entre cada uma, o que é favorecido pela sua estrutura estritamente planar. Além disso, os ácidos
nucleicos tendem a torcer-se ao longo do seu eixo principal, formando uma hélice que expõe os
fosfatos ao meio ambiente e tem as bases presas no seu núcleo. Além disso, grande parte das regiões
helicoidais do tRNA consiste em duas sequências da mesma cadeia de RNA que percorre direções
diferentes com bases em sequências opostas contactando entre si, perto o suficiente e com o arranjo
estereoquímico adequado para estabelecer pontes de hidrogénio entre elas. Este arranjo adequado
ocorre apenas se as purinas emparelharem com as pirimidinas, como nos para A-U e G-C (Fig. 3.28).
Isto é conhecido como emparelhamento de bases Watson-Crick. As ligações de hidrogénio ocorrem
nas pontas das bases heterocíclicas, no plano dos anéis.
Em regiões em que duas sequência de tRNA antiparalelas opostas têm uma variedade considerável
de pares de bases complementares, ambas as sequências de RNA dobram numa estrutura helicoidal
para manter as pares de bases empilhadas e paralelas no núcleo rodeado pelas pentose e pelo
esqueleto de ésteres de fosfato. Esta é a estrutura em dupla hélice frequentemente associada ao DNA,
mas igualmente presente em algumas regiões da molécula de RNA. A estrutura do RNA ribossomal é
semelhante ao do tRNA (Fig. 3.28). Vale também a pena enfatizar que os polímeros de DNA poderão
ter polímeros de RNA complementares associados com eles e até dobrados em hélices. No entanto, o
grupo álcool, OH, no C2’ torna a estrutura do RNA menos compacta devido ao seu volume e polaridade.
A estrutura do RNA não é apenas menos compacta, mas é também menos estável quimicamente.
O grupo OH no C2’ está perto da ligação de diéster de fosfato com qual consegue reagir para hidrolisar
o RNA (fig. 3.29). Tendo em conta que as moléculas de RNA têm funções transicionais, elas não são
armazenadas por longos períodos nas células; esta limitação do RNA não é um problema. O DNA é
menos propenso à hidrólise porque lhe falta um grupo OH no C2’, sendo a moléculas que a evolução
natural selecionou para armazenar a informação genética por longos períodos.
Alguns medicamentos afetam o DNA tirando vantagem das bases heterocíclicas empilhadas e
paralelas. Notavelmente, grande parte destas moléculas são compostas por grupos heterocíclicos
planares hidrofóbicos capazes de intercalar os pares de bases do DNA (Fig. 3.30). Algumas destas
moléculas são usadas no tratamento do cancro porque elas evitam a multiplicação celular.

Fig. 3.29 A hidrólise intramolecular das ligações fosfodiéster do RNA causada por uma base (superior). A ausência
do grupo hidroxilo no C2’ aumenta a estabilidade hidrolítica do DNA relativamente ao RNA (estruturas sombreadas
inferiormente)
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 78

Fig. 3.30 A actinomicina D é um antibiótico com atividade anticancerígena (a). Esta liga-se ao DNA porque tem um
plano policíclico e um grupo relativamente hidrofóbico capaz de intercalar as bases empilhadas do DNA,
prevenindo a síntese de DNA. A adriamicina (a) é também um medicamento anticancerígeno que atua com o
mesmo mecanismo de ação: intercalação de um grupo policíclico hidrofóbico e plano entre os pares de bases do
DNA, prevenindo a proliferação celular. Já a mitomicina C (b) tem um diferente mecanismo de ação: este
estabelece uma ligação cruzada no DNA, ligando covalentemente duas guaninas. O contacto direto com estes
resíduos de nucleótidos é possível porque este medicamento é um policíclico plano e uma molécula relativamente
hidrofóbica
79 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

3.3 Aminoácidos e os Seus Polímeros: Péptidos e Proteínas


Quimicamente falando os aminoácidos são moléculas que simultaneamente têm um grupo carboxilo
(−COOH) e um grupo amina (−NH2). Os bioquímicos focam-se nos α-aminoácidos, nos quais estes
grupos estão ligados ao mesmo carbono terminal (o tão falado carbono α nas velhas nomenclaturas
de química orgânica), porque as proteínas que ocorrem naturalmente são polímeros de α-aminoácidos.
Estes aminoácidos têm a sua estrutura representada na Fig. 3.31. Além dos grupos amina e ácido
carboxílico, o carbono α (também chamado de carbono central) liga-se ao átomo de hidrogénio e outro
grupo, a tão designada cadeia lateral que é representada por R. Na natureza, o R é um dos mais de 20
grupos comuns com algumas exceções, que normalmente derivam destes 20 grupos.

Fig. 3.31 A estrutura dos α-aminoácidos. Dependendo do pH, numa solução aquosa, o grupo amina pode ser
protonado e o ácido carboxílico desprotonado, o que torna os aminoácidos potenciais Zwitterion trazendo duas
cargas opostas. Sendo bases e ácidos fracos, os aminoácidos têm a capacidade de constituir, eles próprios, uma
solução tampão (veja Secção 2.1.1)

Outra peculiaridade interessante sobre os aminoácidos que ocorrem naturalmente, para além de
serem α-aminoácidos, é que eles são quase exclusivamente L-enantiómeros enquanto que os carbonos
α são centros quirais. O outro enantiómero é designado de D. A nomenclatura do L e do D para a
estereoquímica dos aminoácidos foi estabelecida por Emil Fisher em analogia com o gliceraldeído, que
tem também um centro quiral singular com dois possíveis enantiómeros. Outra nomenclatura, mais
complexa e que segue as regras modernas, existe para descrever a estereoquímica dos aminoácidos,
mas a predominância dos L-aminoácidos e a simplicidade do sistema L vs. D resultou numa
longevidade a longo prazo e uma universalidade deste sistema.
Uma simples regra empírica para distinguir o L- do D- enantiómeros é adotar uma perspetiva, da
estrutura química do aminoácido, ao longo do eixo H-αC (Fig. 3.32). Os grupos COOH, NH2 e H aparecem
projetados como os vértices de um triângulo. Consegue agora reconhecer “corn” escrito no sentido
horário nos L-enantiómeros ou no sentido anti-horário nos D-enantiómeros. Esta é a regra chave, a regra
CORN.
A natureza química da cadeia lateral, R, é determinante para os processos bioquímicos nos quais
os aminoácidos participam e para a estrutura que as proteínas adotam quando tais aminoácidos estão
presentes. Amplamente falando, os aminoácidos podem ser agrupados em quatro categorias
diferentes baseadas na polaridade e na natureza ácida/básica do R (Fig. 3.33): ácido, básico, polar
neutro, e neutro não polar. Outros sistemas de classificação são baseados na natureza química do R:
hidrocarbonos, ácidos carboxílicos, amidas (−CONH2), contendo nitrogénio acíclico, hidroxilo, contendo
enxofre, e heterocíclos de nitrogénio. A figura 3.33 inclui o agrupamento dos aminoácidos de acordo
com a polaridade e a carga e mostra a natureza química das cadeias laterais. A tabela 3.4 clarifica, na
íntegra, a relação entre os nomes dos aminoácidos e a nomenclatura de abreviatura em código de três-
letras e uma-letra. Esta também sumariza as propriedades mais relevantes dos aminoácidos.
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 80

Fig. 3.32 A nomenclatura L vs. D revelada pela regra do CORN. Quando R=H (isto acontece na glicina, o aminoácido
mais simples), a quiralidade não existe pois dois constituintes iguais (neste caso H) estão ligados ao carbono
central. O exemplo do L- e D-alanina é apresentado destacando que eles são imagens espelhadas

Fig. 3.33 Arranjo periódico de tipo gráfico dos aminoácidos naturais. Figura reimpressa com a permissão de
Bachem, Bubendorf, Switzerland
81

Tabela 3.4 Nomenclatura dos aminoácido naturais (código de três letras e de uma letra) e principais propriedades. Um aminoácido essencial não pode ser sintetizado de novo
e, por isso, devem ser obtidos através da dieta

Lógica da
nomenclatura de uma Código de três Código de uma
letra Aminoácido letras letra Principais propriedades
A primeira letra é única Cisteína Cys C A cadeia lateral de tiol é suscetível à oxidação de modo a formar dissulfuretos
Histidina His H Aminoácido essencial com uma cadeia lateral de imidazol. A cadeia lateral de
imidazol tem um pKa de aproximadamente 6.0, o que indica que pequenas alterações
nos valores de pH fisiologicamente relevantes vai alterar a carga média, o que por sua
vez pode afetar significantemente a estrutura da proteína
Isoleucina Ile I Aminoácido essencial isómero da leucina. Cadeia lateral quiral
Metionina Met M A cadeia lateral possui um possui um tioéter de S-metilo, que pode ser uma fonte de
enxofre para a regeneração da cartilagem. Tem sido sugerido que a metionina é
capaz de fortalecer a estrutura do cabelo e das unhas porque as suas cadeias
laterais podem realizar uma reação cruzada
Serina Ser S Os resíduos de serina são encontrados em alguns fosfolípidos (além das proteínas)
Valina Val V Aminoácido essencial. Tal como a Leu e a Ile, tem uma cadeia lateral ramificada
A primeira letra não é Alanina Ala A A D-Alanina ocorre nas paredes celulares das bactérias e em alguns antibióticos
única. Os aminoácidos peptídicos. A cadeia lateral é muito pequena (grupo metilo)
mais frequentes têm Glicina (Glycine) Gly G A cadeia lateral consiste em H, fazendo da Gly o único aminoácidos não-quiral e
prioridade também o mais pequeno
Leucina Leu L Aminoácido essencial com cadeia lateral ramificada
Prolina Pro P O nitrogénio amina está ligado a dois grupos alquilo formando uma cadeia lateral
cíclica, que confere à prolina uma conformação excecionalmente rígida, comparada
aos outros aminoácidos. Quando a prolina está envolvida em ligações peptídicas, o
seu nitrogénio não está ligado a nenhum hidrogénio, o que significa que não
consegue agir como um doador de hidrogénio, causando uma disrupção da hélice α
e das folhas β
Treonina Thr T Aminoácido essencial. Cadeia lateral quiral. O grupo hidroxilo da cadeia lateral
(Threonine) encontra-se suscetível à glicolisação e à fosforilação
3 As Famílias das Moléculas Biológicas
Tabela 3.4 (continuação)

Lógica da
nomenclatura de uma Código de três Código de uma
letra Aminoácido letras letra Principais propriedades
A primeira letra não é Arginina Arg R O grupo guanidino da cadeia lateral é carregado positivamente, dentro dos limites
única e menos fisiológicos de pH, por isso, é suscetível à ligação a grupos carregados
frequente: letra com negativamente. Este grupo tem também a capacidade de formar múltiplas ligações
fonética semelhante ou de H
devido à natureza da Asparagina Asn N O seu grupo lateral é curiosamente uma amida (tal como nas ligações peptídicas).
cadeia lateral (cadeia lateral Possui este nome graças ao aspargo porque foi primeiramente detetado no sumo
3 As Famílias das Moléculas Biológicas

contém N) de aspargo
Aspartato Asp D Juntamente com o ácido glutâmico, o aspartato é um aminoácido acídico devido ao
grupo carboxilo da cadeia lateral
Glutamato Glu E Para além do seu papel no metabolismo das proteínas e dos aminoácidos, nas
neurociências o glutamato é um neurotransmissor muito importante
Glutamina Gln Q A sua cadeia lateral é curiosamente uma amida (tal como nas ligações peptídicas)
formada pela substituição da cadeia lateral de hidroxilo do Glu por um grupo
funcional amina
Fenilalanina Phe F Aminoácido essencial com uma cadeia lateral de benzilo, o que o torna fluorescente
(Phenylalanine) e neutro
Tirosina Tyr Y A tirosina possui um grupo fenol na sua cadeia lateral, o que a torna fluorescente.
(Tyrosine) Mais importante, o grupo fenol funciona como um recetor de fosfato mediado pelas
proteínas cinases (conhecidos como tirosinas cinases) resultando em alterações da
atividade da proteína-alvo
Triptofano (cadeia Trp W Aminoácido essencial com um grupo funcional indole fluorescente na cadeia lateral.
lateral com duplo O grupo indole é volumoso e hidrofóbico, logo o Trp é comumente encontrado em
anel) domínios proteicos que contactam com lípidos, como nas regiões
transmembranares das proteínas membranares ou nos domínios de fusão das
proteínas virais
Primeira letra mais Lisina (Lysine) Lys K Aminoácido essencial acídico. Tal como na Arg, na Lys a cadeia lateral participa na
próxima ligação de hidrogénio e é catiónica num domínio de pH fisiológico, por isso, é
suscetível à ligação a grupos carregados negativamente
Desconhecido (Aminoácido − X Os aminoácidos não identificados num péptido ou numa estrutura proteica são
desconhecido) genericamente representados com um X
82
83 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Deve ser mantido em mente que os estados de ionização dos aminoácidos variam com o pH, desta
forma, dependendo do pH, os aminoácidos podem ter diferentes cargas. O exemplo da histidina é
apresentado na Fig. 3.34. A histidina é peculiar, visto que a cadeia lateral muda de ionização (pKa ~ 6)
não muito longe da extensão do plasma e de pHs citoplasmáticos. O valor intermediário da extensão
da neutralidade (de um pH de 6 para 9), o designado de ponto isoelétrico, pI, é 7.6, dentro do alcance
do plasma e do pH citoplasmático, que acontece apenas para a histidina.

Fig. 3.34 Variação da carga da His com o pH. A molécula tem três grupos ionizantes, um ácido e dois básicos.
Desta forma, permitindo que as cargas totais variem de -1 até +2. No entanto, nos pHs fisiológicos mais comuns,
a carga global é aproximadamente nula

Os grupos amina e carboxílico podem reagir, formando ligações amida (Fig. 3.35). As ligações de amida
conectam diversos aminoácidos formando um péptido. Muitos aminoácidos ligados através de pontes
de amida forma uma proteína. Não existe um limite para separar o número de monómeros de
aminoácidos em péptidos e proteínas, no entanto 30 é normalmente tido como um valor de referência.
Entre os bioquímicos, as ligações de amida que formam péptidos ou proteínas são geralmente
referidas como ligações peptídicas. Visto que as ligações peptídicas são muito planares (as ligações
C=O, C-N e N-H são complanares) devido às limitações da distribuição eletrónica imposta pelas orbitais
moleculares específicas e têm o grupo R em grande proximidade, a cadeia de ligações peptídicas forma
um polímero que não é livremente flexível. Este articula-se com constrangimentos espaciais, que
significa que a cadeia polimérica tende a adotar ângulos fixos entre os seus grupos amidas; estes
ângulos são os que permitem a acomodação das cadeias laterais dos aminoácidos e a adaptação da
orientação das ligações de amida entre si (Fig. 3.35). Como apresentado na Fig. 3.33, existe uma grande
variedade de carga, polaridade e tamanho das cadeias laterais. Todos estes parâmetros influenciam a
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 84

Fig. 3.35 As reações de desidratação entre os aminoácidos levam à polimerização através de ligações amida
(também conhecida como “péptido”) (a). As Ligações CO, CN e NH são complanares por causa da distribuição
eletrónica entre o conjunto de átomos das ligações OCN (b). Isto implica que quando cadeia polimérica dobra, a
flexibilidade é limitada e são adotados rearranjos específicos, que incluem hélices α (c) e folhas β (d). Quer uma
determinada sequência de resíduos de aminoácidos adote a conformação de hélice α, folha β, ou outra depende
muito dos aminoácidos envolvidos, a sua ordem e os fatores ambientais tais como a polaridade do solvente, o pH,
e a temperatura. Ambas as hélices α e as folhas β são conformações que permitem a ocorrência de frequentes
pontes intramoleculares de hidrogénio e exteriorizar a localização das cadeias laterais [(c) e (d)]. As proteínas
podem ser formadas, quase exclusivamente, por hélices α, tal como a hemoglobina (veja a figura 3.42), ou folhas
β, tal como a porina (d, inferior) ou podem ser uma mistura das duas. As imagens das porinas são uma cortesia
do Dr. Cláudio Soares, ITQB-UNL, Portugal
85 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

maneira como a proteína dobra para lidar com a electroestática, ligações de hidrogénio, efeitos
entrópicos (hidrofobicidade), e a ocupação espacial 3D. No final, todos estes fatores determinam que
os polímeros de aminoácidos têm dois diferentes tipos favoritos de conformação regular: hélices α e
folhas β. Existem muitas outras dobras, mas não tão comuns porque estas duas são as que melhor
acomodam a estabilização das sequências de aminoácidos.
Nas hélices α, a sequência de ligações peptídicas (p.ex., o esqueleto de um péptido ou de uma
proteína) adota uma estrutura helicoidal projetando as cadeias laterais, R, para o exterior da hélice. Esta
é uma estrutura muito estável porque não existem quase restrições para acomodar espacialmente o R
e porque o grande conjunto de grupos C=O e N−H no esqueleto interagem fortemente através de
frequentes pontes de hidrogénio. Muitas proteínas como a hemoglobina são compostas por muitos
segmentos helicoidais na sua sequência de resíduos de aminoácidos. Para facilitar a leitura e a
representação da proteína os segmentos helicoidais são normalmente representados como uma fita
helicoidal ou um cilindro. Esta realça a conformação dos segmentos, no entanto, omite quais os
aminoácidos específicos que estão envolvidos.
As folhas β são conformações extensas que viram em pontos específicos resultando em muitas
sequências lineares de sequências de resíduos de aminoácidos antiparalelas entre si. Tal como nas
hélices, estas permitem frequentes pontes de hidrogénio no esqueleto da proteína e a projeção dos
grupos das cadeias laterais para o exterior desta conformação compacta. É permitido um certo grau
de ligação, e grande extensões de folhas β são normalmente associadas a muitas estruturas proteicas
estáveis, tal como os poros membranares. A representação das folhas β é normalmente efetuada com
fitas retas e/ou setas (Fig. 3.35d).

Fig. 3.36 As estruturas de nível secundário como as hélices interagem intramolecularmente ou


intermolecularmente através de forças electroestáticas (3), pontes de hidrogénio (2) ou fatores do efeito entrópico
que resultam na exposição de grupos polares, tais como −COO- e −NH3+, ao solvente aquoso, e a associação dos
grupos hidrofóbicos com a menor exposição ao ambiente aquoso (1). Dois resíduos de Cys em contacto podem
reagir através dos grupos tiol (−SH) nas cadeias laterais formando pontes dissulfureto (S−S) que contribuem
fortemente para a estabilização da estrutura das proteínas (veja como exemplo a estrutura da insulina na Fig. 3.37)
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 86

Fig. 3.37 A hormona insulina, da estrutura primária atá à quaternária. (a) Sequência de aminoácidos (código de 3-
letras), a estrutura primária. (b) Segmentos envolvendo a estrutura de nível secundário de hélice α são
representados como fitas helicoidais. (c) A proteína dobra numa estrutura a nível terciário que é estabilizada por
pontes dissulfureto (a amarelo na estrutura da proteína). As pontes de dissulfureto são o resultado da oxidação de
dois grupos tiol (-SH) para formarem uma ligação S-S (e). É normal que os resíduos de Cys reajam desta forma nas
proteínas extracelulares. (d) Seis monómeros de insulina associados formam um homohexâmero, a estrutura
quaternária. A estrutura quaternária é estabilizada pela presença de dois iões de zinco (esfera central) e devido
aos contactos entre as superfícies hidrofóbicas dos monómeros (efeito entrópico). A insulina é armazenada nas
células beta pancreáticas e secretadas na corrente sanguínea sobre a forma de agregados destes hexâmeros
compactos. Após a diluição no sangue, a insulina dissocia-se e acredita-se que a forma ativa seja o monómero

A estrutura completa da proteína é descrita em três ou quatro níveis. O nível primário é


simplesmente a sequência de aminoácidos que compõe a proteína, contada convencionalmente deste
o terminal livre de amida até ao terminal livre carboxilo. Isto elucida a natureza química da proteína,
mas diz-nos pouco acerca de quais são os domínios que envolvem hélices α, folhas β, ou nenhuma, que
formam as estruturas de nível secundário. As hélices α e as folhas β de diferentes partes da mesma
proteína tendem a interagir entre elas em direção à estabilização mútua através das forças
electroestáticas, pontes de hidrogénio, e contribuições dos efeitos entrópicos (Fig. 3.36). O nível
terciário surge das hélices α, folhas β, e outros rearranjos locais que se organizam no espaço, formando
a estrutura da proteína por eles próprios.
87 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Ocasionalmente, existem diferentes partes da geometria global da proteína que formam partes
razoavelmente independentes e separáveis, que têm frequentemente dinâmicas específicas e funções
específicas. Estes são conhecidos como domínios. Um nível superior existe para proteínas que se
associam com outras proteínas, iguais ou não, para formarem complexos organizados de proteínas: a
estrutura de nível quaternário. Os diferentes níveis para a estrutura da proteína estão ilustrados na Fig.
3.37, usando como exemplo a insulina, cuja estrutura foi descoberta por Dorothy Hodgkin, que também
descobriu a estrutura do colesterol (veja Fig. 2.10).
As pontes de hidrogénio são frequentemente o fator não-covalente mais forte em manter os níveis
terciário e quaternário da estrutura das proteínas. A enolase é um bom exemplo. Embora não haja
ligações covalentes entre ambas as proteínas no dímero, as pontes de hidrogénio são frequentes (Fig.
3.38). De modo geral, a soma de todas as pontes de hidrogénio cria um rede forte de forças de adesão
na superfície de contacto das proteínas. As pontes de hidrogénio são direcionais; elas ocorrem numa
direção bem definida entre grupos químicos numa distância definida; isto contribui para manter a
estrutura das proteínas. A grande contribuição das pontes de hidrogénio para a estrutura do polímero
pode não ser intuitiva, mas é necessário ter em mente que o Kevlar, um material extremamente
resistente usado nos itens de proteção, tais como os coletes à prova de bala, que deve as suas
propriedades, em parte, às pontes de hidrogénio (Fig. 3.38).

Fig. 3.38 Exemplos da contribuição das ligações de hidrogénio na estrutura do polímero. (a) A enzima enolase
(PDB 1IYX) é um dímero em que ambas as subunidades estão ligadas por uma densa matriz de ligações de
hidrogénio na superfície de contacto entre elas. (b) A estrutura de um polímero de amida (como as proteínas)
conhecidas comercialmente por Kevlar. Esta envolve uma rede densa de pontes de hidrogénio, que conferem uma
grande resistência, e o Kevlar é usado em materiais de proteção como capacetes e coletes à prova de bala.
Compare os detalhes a nível molecular do Kevlar e das folhas β nas proteínas; existe um paralelismo entre a
resistência do Kevlar e a grande estabilidade dos agregados formados pela justaposição das folhas β nas placas
de amiloide (ver Caixa 3.6)
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 88

O Kevlar foi assim designado em honra da sua inventora, a química Stephanie Louise Kwolek, que
tinha planeado seguir uma carreira médica, mas começou um trabalho temporário em química e
finalmente acabou por deixar a carreira médica. O paralelismo histórico entre os materiais poliméricos
artificiais e as moléculas biológicas remonta a 1920, quando Hermann Staudinger propôs que a
borracha e outras moléculas poliméricas, tais como o amido, a celulose, e as proteínas, são longas
cadeias de pequenas unidades moleculares repetidas ligadas por ligações covalentes, um conceito
disruptivo na altura. Staudinger usou o termo macromolécula (“makromoleküle”) pela primeira vez, um
termo agora muito popular entre os bioquímicos. Paul Flory, um químico pioneiro nos estudos da
organização tridimensional dos polímeros e a sua relação com as dinâmicas, também trabalhou para
a indústria da borracha durante alguns períodos das sua carreira. O seu trabalho abriu o campo para o
estabelecimento da relação estrutura-função na bioquímica macromolecular. Flory foi premiado com o
Prémio Nobel da Química em 1974 “pelas suas conquistas fundamentais, tanto teórica como
experimental, na química física das macromoléculas.”
Pensando nos tecidos de proteínas naturais, tais como a seda e as teias de aranha, e os tecidos
artificiais feitos de nylon e outros polímeros, ajuda-nos a perceber que no mundo molecular as barreiras
entre os tecidos manufaturados e os naturais são extremamente ténues.

Como foi mencionada anteriormente, existem também contribuições covalentes no nível terciário
da estrutura das proteínas, nomeadamente, as ligações dissulfureto (ou “pontes”) e a fixação de metal
ou outro grupo não-proteico a mais do que um resíduo de aminoácido. As ligações de dissulfureto são
formadas por oxidação de dois grupos Cys tiol (-SH) em contacto originando uma ligação S-S entre os
resíduos de Cys (cisteína). O citosol da célula é um ambiente redutor relativamente forte, e a
contribuição das ligações de dissulfureto para a estabilização das proteínas citosólicas é limitada.
Contudo, noutras circunstâncias, as pontes de dissulfureto formam-se e são fortes estabilizadoras da
estrutura da proteína a um nível terciário. A insulina, uma hormona peptídica, é um exemplo (ver Fig.
3.37).
Os metais podem ligar múltiplos ligandos e ligar covalentemente diferentes resíduos de
aminoácidos numa proteína. Assim sendo também contribuem para estabilizar a estrutura terciária.
Frequentemente, os metais ligam-se ao grupo tiol da Cys. Nas proteínas da cadeia transportadora de
eletrões, muitos complexos metálicos estão presentes, que além das funções químicas também
contribui para a estabilidade das proteínas (Fig. 3.39; ver também Secção 6.2.2).
Quando se refere a uma estrutura quaternária, normalmente refere-se a proteínas que se associam
com grande especificidade e uma função bem definida, tal como a hemoglobina. Isto não inclui casos
patológicos nos quais a agregação de proteínas conduz a uma perda de função e aumento da
toxicidade. Alterações extensas a nível terciário são observados quando as fibras amiloides se formam,
após agregação de proteínas ou quando os priões desencadeiam alterações conformacionais de
89 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.39 Complexos metálicos, tais como centros ferro-enxofre (a), são comuns entre as proteínas da cadeia
transportadora de eletrões. Os complexos de ferro com átomos de enxofre, mas também com um grupo tiol da
cadeia lateral dos resíduos de Cys, resultam na estabilização da estrutura das proteínas onde são inseridos. Os
átomos de nitrogénio nas cadeias laterais da His são também propensos à formação de complexos com metais.
Painel (b) mostra um detalhe da formação do complexo com metais no complexo IV (PDB 1OCC) do sistema de
transporte de eletrões (ver também Secção 6.2.3). Um ião de ferro (esfera vermelha) complexa simultaneamente
os átomos N das duas cadeias laterais de His (azul), estabilizando a estrutura terciária da proteína. Este também
se liga a uma molécula não proteica, o heme a (estrutura orgânica vermelha), que também é associada ao complexo
IV

proteínas nativas (ver Caixa 3.6), por exemplo. Estas são designadas como doenças no dobramento
das proteínas. O dobramento é a expressão usada para compreender as estruturas secundária e
terciária juntas.

As proteínas podem adotar muitas estruturas diferentes a um nível terciário, desde uma barra alongada
até uns glóbulos compactos. Proteínas alongadas podem associar-se em fibras e as proteínas
globulares podem ter domínios flexíveis capazes de ligar outras moléculas. Isto dá a impressão de que
as proteínas com uma conformação alongada, como a queratina, o colagénio, ou a fibroína da seda,
são adequadas para manter a estrutura dos tecidos ou biomateriais, enquanto as proteínas globulares
intervêm nos processos dinâmicos, o que explica o porquê de as enzimas serem proteínas globulares.
Apesar de isto ser normalmente verdade, é também necessário que se saiba que a fronteira entre
ambas não é sempre clara. Por exemplo, a actina é uma proteína globular que se prende a outras
moléculas de actina para formar fibras a nível quaternário no citoesqueleto e no sistema contráctil
muscular. A actina é um exemplo da uma proteína globular que tem uma função estrutural. (Fig. 3.40;
ver também Secção 10.1.1).
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 90

Caixa 3.6: Amiloides e Priões: Quando o Incorreto Dobramento se Transforma em Doença


A relação entre a estrutura e a função das proteínas tem sido um dos principais problemas da
bioquímica moderna por décadas. As proteínas mutadas podem ter mudanças importantes na
sua estrutura e podem, portanto, exibir uma função defeituosa. Contudo, o conhecimento de que
as proteínas sem mutação podem dobrar em diversas formas, algumas delas patológicas, é
recente. O dobramento das proteínas é a chave para doenças importantes como o Alzheimer, no
qual grandes pilhas de proteínas em folhas β dobradas estão acumuladas no cérebro. Estas
pilhas formam placas que são proteínas insolúveis no tecido extracelular, que não conseguem
ser quebradas por enzimas. Quando estas placas foram encontradas pela primeira vez, elas eram
descritas como relacionadas com os sacarídeos e designadas como amiloides. Apesar de se
saber que a natureza química das placas não está relacionada com os sacarídeos, o nome
“amiloide” é ainda usado e o grupo de doenças é conhecido como amiloidoses.
As placas amiloides crescem com uma estrutura ordenada formando longos filamentos
(fibrilhas). Existem cerca de 20 proteínas diferentes que podem agir como os blocos de
construção destas fibrilhas, que cada uma está associada com doenças diferentes. Nas
amiloidoses sistémicas tão faladas, os precursores destas placas são transportados através da
corrente sanguínea desde o seu ponto de origem até ao seu ponto de deposição. As amiloidoses
localizadas são de grande significância clínica, pois afetam principalmente o sistema nervoso
central, cujo tecido extracelular é particularmente suscetível a danos.
As encefalopatias espongiformes transmissíveis (TSE’s), que incluem a doença das vacas
loucas (encefalopatias espongiforme bovina; BSE) e a doença Creutzfeldt-Jacob (CJD) em
humanos, são formas de amiloidoses em que o cérebro doente degenera para uma estrutura
porosa como uma esponja. Estas doenças aparecem quando as proteínas humanas
denominadas priões dobram incorretamente. O prião humano é um componente da membrana
das células nervosas saudáveis (designadas PrPc) que pode dobrar incorretamente de uma
maneira particular. Espantosamente, o prião incorretamente dobrado pode induzir a dobragem
incorreta ao prião vizinho se ocorrer contacto entre ambas as moléculas. Tem a aparência de um
processo de infeção no qual a molécula dobrada incorretamente “infeta” a molécula “saudável”.
Os priões “infetados” podem ser transmitidos na dieta, desencadeando um efeito domino nos
priões saudáveis.
Na doença de Alzheimer as placas amiloide β são formadas pela clivagem da proteína
percursora amiloide (APP) por duas atividades enzimáticas, que libertam fragmentos peptídicos
que têm 40 a 42 aminoácidos de comprimento. Quando estes péptidos se dobram em folhas β e
se agregam, as fibrilhas formam-se, rodeando os neurónios causando danos. Isto não acontece
quando os mesmos péptidos dobram diferentemente. É apenas nas folhas β que os aminoácidos
hidrofóbicos são expostos, e eles ligam-se rapidamente a grupos hidrofóbicos de outros
péptidos devido ao efeito entrópico. A estrutura da folha β, sendo muito ordenada, é propensa
ao empilhamento regular, conduzindo ultimamente à formação de fibrilhas.
No painel (a) da figura seguinte, um domínio da proteína prião PrP(121-231) é apresentado
na forma não infeciosa (rato, PDB 1AG2). A forma infeciosa, que tem uma estrutura não
conhecida em detalhe, porém denominada por fios beta (tentativamente representado;
vermelho), pode induzir mudanças conformacionais na proteína não infeciosa para produzir uma
replica dela própria. O processo pode amplificar e agregados da forma infeciosa podem
acumular em condições patológicas. Na doença de Alzheimer, as placas β amiloide não são
formadas por uma propagação tipo-infeciosa das proteínas dominadas pelos domínios fios-beta.
O painel B mostra a clivagem da APP com concomitante libertação de péptidos (verde) que se
dobram em folhas β e se agregam.
91 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Outra molécula interessante que desafia a dicotomia clássica das proteínas estrutura/extensa vs.
função/globular é a elastina pulmonar. Quando relaxado, a elastina é uma proteína globular, mas ela
alonga permitindo a expansão pulmonar. As moléculas de elastina estão interconectadas
covalentemente pela cadeia lateral dos quatro resíduos de Lys: ligações de desmosina com ligações
cruzadas (Fig. 3.40). Desta maneira, a contínua alteração entre as conformações globular e estendida
da elastina confere ao pulmão a habilidade de expandir e contrair sem lesões histológicas. Finalmente,
deve-se enfatizar o facto que existem também proteínas que têm ambas os domínios estendido e
globular. Este é o caso da miosina, outra proteína central na contração muscular, na qual um domínio
estendido forma fibras oligoméricas (Fig. 3.40; ver também Secção 10.1.1).

Fig. 3.40 (continuação) É importante perceber que o colagénio tem um resíduo de Gly a cada terceira posição da
sua sequência de aminoácidos. A Gly é um aminoácido muito pequeno porque a cadeia lateral é H. Isto cria uma
linha ao longo da superfície da hélice onde duas outras hélices similares podem anexar-se quando em contacto
próximo. As cadeias laterais de Lys são expostas no colagénio e formam ligações cruzadas que fortalecem as
fibras de colagénio. O processo químico desta reação de ligação cruzada entre as terminações das cadeias laterais
de Lys depende da vitamina C (ácido ascórbico). Os resíduos de Lys estão também envolvidos na ligação cruzada
da elastina (d), uma proteína de elasticidade incomum do tecido conjuntivo. A ligação cruzada envolve quatro
resíduos de Lys formando um arranjo de desmosina. A actina (e) é uma proteína globular que se associa a si
própria formando fibras importantes para a contração muscular. A miosina (f), por outro lado, é uma combinação
de um domínio extenso com um domínio globular (“cabeça”) que tem uma atividade catalítica. O domínio extenso
associa-se a outras proteínas formando oligómeros tipo-fibra responsáveis pela contração muscular (ver Secção
10.1.2) Hyp – Hidroxiprolina
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 92

Fig. 3.40 Proteínas como a queratina (a) e o colagénio (b, PDB 1BKV) adotam conformações tipo-fio (hélices muito
extensas) que se associam para formar fibras que estabilizam as estruturas, tais como o cabelo ou as unhas
(queratina), ou o tecido conjuntivo (colagénio). A fibroína da seda (c) forma folhas β muito extensas e ricas em Gly
e Ala que se associam de forma antiparalela formando um biomaterial muito resistente tal como a teia de aranha.
93 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Para além das fibras de colagénio estarem empacotadas paralelamente e de um modo rígido, as
proteínas ligam-se covalentemente a outras proteínas em diferentes fibrilhas de colagénio, através das
cadeias laterais dos resíduos de Lisina (Lys) (Fig. 3.40). Quando a resistente malha covalente de
colagénio é perturbada, as propriedades do tecido conjuntivo são muito afetadas, causando doenças
(Caixa 3.7). Do mesmo modo, mutações nos resíduos de Glicina (Gly) têm um impacto dramático na
estrutura do colagénio e na função do tecido conjuntivo. Isto tem um efeito particular nos ossos de
tenra idade: eles perdem resistência e quebram facilmente. Esta doença é conhecida por osteogénese
imperfeita, síndrome de Lobstein ou, mais comummente, por “doença dos ossos de vidro”.

Caixa 3.7: Escorbuto: Um exemplo de uma Patologia Diretamente Associada à Estrutura Proteica
O escorbuto é uma patologia caraterizada por fadiga, anemia, gengivite (doença das gengivas) e
hemorragias cutâneas, causada por dietas com uma deficiência prolongada de ácido ascórbico
(Vitamina C). Era uma doença frequente dos marinheiros em longas viagens, durante as pioneiras
descobertas intercontinentais do século XV. Muitos homens morreram até que foi descoberto
que o escorbuto podia ser curado e prevenido através do consumo de citrinos, como laranjas,
limões e limas. O navegador português Vasco da Gama foi o primeiro europeu a liderar uma frota
que atingisse a Índia pelo mar, ligando a Europa e a Ásia, o Atlântico e o Índico. O drama do
escorbuto na sua primeira viagem à Índia (1497-99) é eloquentemente descrito num poema épico
de Luís de Camões, na obra Os Lusíadas (1572):

“Os Lusíadas” (Canto V, 81 e 82)

Quase dois terços dos marinheiros da frota de Vasco da Gama morreram durante a viagem,
embora documentos da época mostrem claramente que os navegadores portugueses sabiam
que uma dieta baseada em fruta e outros alimentos não processados era um tratamento para o
escorbuto. Um manuscrito de um navegador da frota de Pedro Álvares Cabral, descobridor do
Brasil em 1500, diz que uma dieta rica em comida fresca, incluindo ovelha, frango, pato, limões
e laranjas era usada para curar o escorbuto.
Foi apenas no século XVIII que o médico escocês James Lind relacionou o escorbuto com
dietas pobres em citrinos, de uma forma razoavelmente científica. O ácido ascórbico foi
descoberto pelo bioquímico Albert Szent-Gyorgyi (nascido húngaro, tornando-se depois cidadão
dos Estados Unidos da América), galardoado com o Prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia em
1937 (Szent-Gyorgyi também realizou estudos importantes na área da contração muscular; ver
Caixa 10.1). O ácido ascórbico participa em várias vias bioquímicas, sendo a síntese do colagénio
uma delas. Especificamente, é necessário na hidroxilação de proteínas, que é uma modificação
pós-traducional em que um grupo hidroxilo (-OH) é adicionado a um resíduo proteico. O colagénio
é naturalmente hidroxilado em indivíduos saudáveis. O ácido ascórbico é também necessário na
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 94

biossíntese da carnitina. Síntese de carnitina e colagénio defeituosas explicam os sintomas


comuns do escorbuto.
Os defeitos primários observados nos dentes podres ou soltos, tendões rígidos ou fragilidade
cartilagínea observada no escorbuto residem no tecido conjuntivo. Sem ácido ascórbico, o
colagénio não é hidroxilado e, assim, é formado um colagénio não fibroso, defeituoso e
incompleto ao invés de um colagénio fibroso, devido à deficiência das ligações cruzadas. A
enzima prolil-4-hidroxilase, por exemplo, hidroxila um resíduo de Prolina (Pro) usando um átomo
de ferro que é oxidado no processo. O ácido ascórbico é usado para reduzir o ferro e tornar a
enzima novamente ativa (ver figura).

As lisinas hidroxilases também são operacionais. Hidroxilações de resíduos de Prolina (Pro)


e Lisina (Lys), ambos expostos na tripla hélice do colagénio, favorecem adesões
intermoleculares através de ligações por pontes de hidrogénio e outras modificações químicas,
que vão ficando mais fortes com a idade (esta é uma das razões pelas quais a carne de animais
jovens é mais tenra do que a de animais mais velhos).
A carnitina está envolvida no transporte de ácidos gordos para o interior da mitocôndria, onde
eles são oxidados (ver Secção 7.4.3). O ácido ascórbico é usado por duas enzimas diferentes na
síntese da carnitina. Sem o ácido ascórbico, a produção de carnitina diminui e os ácidos gordos
não podem ser usados como fonte de energia. Isto provoca fadiga, que é um dos sintomas de
escorbuto. Curiosamente, a fadiga aparece antes dos outros sintomas. Isto pode ser explicado
pelo facto de as enzimas da biossíntese da carnitina necessitarem de uma maior concentração
de ácido ascórbico para funcionarem (têm uma “afinidade menor” para o ácido ascórbico)
quando comparado com as hidroxilases.
Outras patologias, como o Síndrome Ehlers-Danlos (SED) e a osteogénese imperfeita (OI) são
doenças genéticas associadas a deficiências nas interações proteína-proteína no colagénio.
Uma fração dos resíduos de Lisina (Lys) no colagénio reagem entre eles, formando ligações
covalentes cruzadas nas fibras de colagénio. Em algumas formas de SED, estas ligações
cruzadas são afetadas, fazendo com que a pele fique menos firme e menos resistente,
híperelástica. O colagénio contribui para a força mecânica da pele, articulações, músculos,
ligamentos, vasos sanguíneos e órgãos. Na OI, a substituição de resíduos de glicina (Gly) na
sequência dos resíduos de aminoácidos do colagénio impossibilita a proteína de formar uma
tripla hélice perfeita porque todos os outros resíduos são mais volumosos que a glicina (Gly).
Isto leva a uma condição severa caraterizada por alterações nas propriedades físicas do
colagénio e perturbações nos processos bioquímicos envolvidos na homeostasia do colagénio.
Esta relação entre as fibrilhas de colagénio e os cristais de hidroxiapatite durante a formação
óssea é alterada, causando fragilidade óssea. Por esta razão, a OI é também conhecida como a
“doença dos ossos de vidro”.
95 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Uma propriedade notável de muitas proteínas globulares é a capacidade de ligação a outras


moléculas e, simultaneamente, a mudança de conformação aquando da ligação. Tomando como
exemplo a adenilato ciclase, a ligação a moléculas como ADP ou ATP provoca a mudança de posição
de domínios muito móveis da proteína (Fig. 3.41). Isto leva frequentemente a distorções dinâmicas nas
moléculas do ligando devido ao contacto com os resíduos de aminoácidos. Como resultado, podemos
ter a formação ou quebra de ligações covalentes e, por conseguinte, a transformação química do
ligando num produto. Na prática, a ação da proteína é aumentar a taxa de transformação deste ligando
no produto. Se apenas o ligando, não a proteína, é quimicamente transformado neste processo, isto
pode ser visto como catálise enzimática, ou seja, o aumento da velocidade de reações químicas
caudado por proteínas, as enzimas. Nestes casos, o ligando (reagente) é chamado substrato.

Fig. 3.41 Adenilato ciclase (ou adenilil ciclase), livre (PDB 4AKE; esquerda) e ligada (PDB 1AKE; direita) a um
análogo de um dinucleótido (vermelho). Aquando da ligação a um análogo de um dinucleótido, os domínios móveis
adaptam-se, mudando de posição

Como discutido na secção anterior, a estrutura terciária de uma proteína é determinada e mantida pelo
conjunto de locais nos quais existem forças de atração e repulsão entre grupos de átomos. Este é um
balanço relativamente delicado. Quando um número significativo destes locais é alterado, a
conformação da proteína adapta-se através da adoção de uma nova estrutura terciária, que
corresponde a um novo balanço de forças. Do mesmo modo, nos casos em que existe uma estrutura
quaternária, as alterações na conformação de um monómero proteico na superfície de contacto com
outros monómeros podem provocar alteração nos locais onde estão presentes forças de atração e
repulsão (pontes de hidrogénio, repulsão e atração electroestática, fatores entrópicos, etc.) tanto que
o segundo monómero altera a sua conformação para se adaptar. Na prática, isto significa que
alterações de conformação numa proteína podem ser transmitidas às proteínas vizinhas, em contacto
com ela. Por outras palavras, alterações ao nível da estrutura terciária podem ser transmitidas e
amplificadas a outras proteínas através da estrutura quaternária, sendo a hemoglobina um bom
exemplo. Esta é formada por duas subunidades, α e β, formando um dímero que se associa a outro
dímero – um tetrâmero que é, na realidade, um dímero feito de dímeros. Os dímeros são numerados
por 1 e 2; deste modo, a hemoglobina é um tetrâmero com quatro subunidades: β1, α1, β2 e α2 (Fig.
3.42). As forças de atração α–β são mais fortes que as forças de atração 1–2, mas ambas são
suficientes para transmitir aos monómeros vizinhos alterações conformacionais. Isto afeta a afinidade
dos monómeros de hemoglobina para o oxigénio. Cada monómero de hemoglobina está
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 96

Fig. 3.42 Hemoglobina é um tetrâmero (a), cada subunidade contendo um grupo heme (vermelho). A
desoxihemoglobina (esquerda; PDB 2HHB) e oxihemoglobina (direita; PDB 1GZX) mostra alterações de
conformação subtis, mas importantes. A ligação de oxigénio molecular ao grupo heme [(b), esquerda; PDB 1HHO]
provoca uma alteração na orientação do heme relativamente ao resíduo de histidina quando comparado ao heme
na desoxihemoglobina [(b), direita; PDB 4HHM]. Esta ligeira distorção na posição do heme leva a uma alteração de
conformação da proteína, que se propaga para os monómeros vizinhos do tetrâmero. Os monómeros vizinhos
adquirem uma afinidade maior para O2 (c)

covalentemente associado a um grupo não-proteico, ou seja, um grupo prostético, da família das


porfirinas (Caixa 3.8). Neste caso, a porfirina liga-se no centro a um ião de ferro, formando um heme. O
ião ferro forma um complexo com o heme através de quatro ligações no plano da porfirina e a uma
cadeia lateral de um resíduo de Histidina (His) ortogonal ao plano do heme. Outra ligação ortogonal,
oposta à Histidina (His), é estabelecida com pequenas moléculas possuidoras de átomos dadores de
eletrões, como O2 ou CO. Quando uma molécula de O2 se liga ao ferro no heme, a posição do ferro
altera-se ligeiramente, o que por sua vez afeta a posição do resíduo de Histidina (His). Quando o resíduo
de histidina é puxado, toda a estrutura da proteína muda ligeiramente. Esta modificação de
conformação induz uma alteração da conformação dos monómeros vizinhos. Como consequência,
esses monómeros vizinhos adquirem uma maior afinidade para se ligar a uma molécula de oxigénio.
Então, a ligação de O2 a um monómero aumenta a probabilidade de uma segunda molécula de O2 se
ligar a outro monómero do tetrâmero, relativamente a um tetrâmero sem moléculas de O2 ligadas. Isto
é chamado de cooperatividade positiva, ou seja, várias entidades influenciam-se mutuamente de modo
a favorecer um determinado evento.
97 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Caixa 3.8: A Importância dos Grupos Heme nas Proteínas

Muitas proteínas naturais estão associadas a grupos prostéticos de natureza química


semelhante, denominados porfirinas. As porfirinas são compostos macrocíclicos relacionados
com a porfina (ver imagem). As hemoglobinas, por exemplo, ligam-se a grupos porfirina, como
o heme b (ver figura). Os hemes são porfirinas que se ligam a iões de ferro no centro. A notável
capacidade para se ligarem a iões de carga +2 e +3 no centro do anel pode explicar o sucesso
destas moléculas durante a seleção natural e, por conseguinte, a sua ubiquidade na natureza. O
macrociclo de porfirina tem cerca de 26 eletrões deslocalizados (π), sendo classificado como
aromático do ponto de vista químico. Este sistema de eletrões deslocalizados estende-se aos
átomos de nitrogénio e está disponível para se ligar a metais catiónicos. É também responsável
pelas intensas bandas de absorção na região visível da radiação eletromagnética. Esta é a razão
pela qual compostos com porfirinas, como a hemoglobina e a clorofila, são intensamente
corados. Devido às suas propriedades eletrónicas únicas, proteínas que contém heme, as
hemoproteínas, e outras proteínas possuidoras de metais, as metaloproteínas, são adequadas
para as ligações transitórias de gases diatómicos que ocorrem durante o seu transporte no
sangue e para a transferência de eletrões (ou seja, doação e receção de eletrões para e de outros
compostos). É possível que as hemoproteínas tenham evoluído a partir de formas proteicas
ancestrais cuja função era transferir eletrões no processo de fotossíntese baseada em enxofre,
feito nos ancestrais de cianobactérias, antes do oxigénio molecular existir na atmosfera.
Para além das peculiares propriedades intrínsecas dos hemes e outras associações entre
metais e porfirinas, a interação entre a porfirina e os resíduos de aminoácidos no local onde se
insere na proteína é de uma importância extrema. Variações na forma, volume e composição
química do local de ligação, no modo de ligação do heme e no número e natureza de interações
heme-proteína resultam em ambientes heme significativamente diferentes nas proteínas com
diferentes funções biológicas. O resultado é um controlo preciso das propriedades do heme.
Tome-se a estrutura 3D da cadeia de hemoglobina como exemplo. A posição do resíduo de
Histidina (His) é tal, que a sua protonação interfere com a libertação de oxigénio do ião de ferro.
A acidificação do meio provoca a protonação da Histidina (His), o que facilita a libertação de
oxigénio. Isto é conhecido como efeito de Bohr (ver figura 3.44 no texto principal), não sendo
uma simples curiosidade: na vascularização pulmonar, o pH é mais elevado do que nos tecidos
periféricos porque ele é afetado pela abundância local de CO2; deste modo, o efeito de Bohr ajuda
a aumentar a eficácia da ligação de oxigénio nos pulmões e a sua libertação nos tecidos
periféricos.
Os grupos porfirina são igualmente importantes na estabilização da estrutura proteica e na
resistência à proteólise, embora essas propriedades sejam frequentemente negligenciadas.
Mesmo nos casos em que as porfirinas não estão covalentemente ligadas à proteína, a interação
entre resíduos de aminoácidos e grupos não proteicos é muito específica.
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 98

Os monómeros de hemoglobina interagem de um modo cooperativo para se ligarem até 4 moléculas


de oxigénio. A mioglobina, uma proteína abundante nos músculos, também se liga ao O2, mas esta
proteína existe sob a forma de monómeros, ao contrário da hemoglobina. Ao comparar-se a
hemoglobina com a mioglobina, consegue pôr-se em evidência o efeito da cooperatividade. A fração
de mioglobina que se liga ao O2, relativamente ao total de mioglobina, aumenta linearmente de acordo
com a pressão parcial de oxigénio, até se atingir a saturação. Para sermos mais precisos, esta variação
é hiperbólica. Por outro lado, a hemoglobina liga-se ao O2 num valor estreito de concentrações, no qual

Fig. 3.43 A mioglobina (a) é uma proteína monomérica que liga ao oxigénio. Tal como um monómero de
hemoglobina, liga-se ao oxigénio através de um grupo heme (estrutura orgânica vermelha). A ausência de
cooperatividade na mioglobina, quando comparada com a hemoglobina, implica capacidades distintas de ligação
a diferentes pressões parciais, pO2 (b). A hemoglobina tem uma transição abrupta de baixa para elevada ligação
quando pO2 varia de valores típicos de tecidos periféricos para valores típicos dos pulmões. À medida que os
eritrócitos passam adjacentes aos alvéolos, O 2 e CO2 difundem-se livremente através das células arteriais e
pulmonares devido a gradientes de pressão parcial (c)
99 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

atinge a saturação. A hemoglobina alterna entre um estado altamente insaturado e estado de elevada
saturação num intervalo estreito de pressão parcial de O2. Curiosamente, esse intervalo de transição
para quase saturação corresponde à pressão parcial de oxigénio encontrado nos tecidos periféricos
(Fig. 3.43), longe dos alvéolos pulmonares. Deste modo, a cooperatividade entre monómeros de
hemoglobina permite à hemoglobina saturar-se de oxigénio nos pulmões e entregar a sua “mercadoria”
aos tecidos periféricos. A mioglobina não seria adequada para essa função uma vez que se encontra
quase saturada em ambas as situações. A mioglobina tem a função de armazenar oxigénio nas células
musculares. A libertação de oxigénio ocorre quando o consumo na mitocôndria é tal que a célula fica
praticamente sem oxigénio (Fig. 3.43).
É importante notar que a hemoglobina transporta a maioria, mas não a totalidade de oxigénio
utlizado nos tecidos. O oxigénio, tal como o dióxido de carbono, é uma pequena molécula hidrofílica
que se difunde facilmente em meio aquoso. Embora seja hidrofílica, é uma molécula muito pequena e
difunde-se livremente nos tecidos. Esta é a razão pela qual as células não necessitam de
transportadores ou canais de oxigénio. O mesmo acontece com o CO2, mas este tem uma menor
afinidade para a hemoglobina. Além do mais, o CO2 é convertido em HCO-3 , que se equilibra com o
H2CO3 (ver Secção 2.1.1). Deste modo, o transporte de CO2 no plasma não depende de nenhuma
proteína.
Apesar da ligação direta de CO2 à hemoglobina não ser significativa, a hemoglobina é muito
importante na química e fisiologia do CO2 no corpo humano, já que a proteína é ou um ácido fraco, ou
uma base fraca, dependendo do pH. Nos tecidos periféricos, nos quais o CO2 está presente a pressões
parciais superiores, CO2 difunde-se para o plasma e, assim, para os eritrócitos. A anidrase carbónica
converte então o CO2 em H2CO3, acidificando o meio. O pH ácido leva à protonação da hemoglobina,
tendo assim uma menor afinidade para o O2. Perto dos alvéolos pulmonares, o CO2 plasmático difunde-
se para os alvéolos devido ao gradiente de pressão parcial de CO2 (Fig. 3.43). Esta diminuição na
pressão parcial de CO2 no plasma faz com que a anidrase carbónica converta H2CO3 em CO2, alterando
assim o equilíbrio HCO-3 /H2CO3 no sentido do consumo de HCO-3 e H+. Esta ligeira queda de pH causa
a desprotonação da hemoglobina, tendo assim uma maior afinidade para o oxigénio. Deste modo, há
um acoplamento entre o pH e a eficiência da captura, transporte e libertação de oxigénio (Fig. 3.44).
Este acoplamento é conhecido como “Efeito de Bohr.”

Fig. 3.44 O Efeito de Bohr associado à hemoglobina. Os níveis de CO2 no sangue influenciam o transporte de O2
pela hemoglobina através do pH plasmático, porque a protonação/desprotonação da hemoglobina afeta a
cooperatividade na ligação de O2. pH mais baixo (encontrado nos tecidos devido à libertação de CO 2 no plasma)
favorece a protonação da hemoglobina e dissociação do oxigénio. Hb – hemoglobina, HHb – hemoglobina
protonada
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 100

Da mesma forma que a ligação, transporte e libertação de hemoglobina são afetados pelo pH, a
ligação de 2,3-bifosfoglicerato (2,3-BPG) também influencia a fixação de oxigénio, de tal modo que a
curva de ligação do oxigénio à hemoglobina é alterada na direção de maiores pressões parciais de
oxigénio (Fig. 3.45). Isto está longe de ser uma mera curiosidade: 2,3-BPG forma-se a partir de 1,3-BPG,
um metabolito da via da glicólise (ver Secção 6.1.3). Quando a glicólise está altamente ativa, 2,3-BPG é
formado e a libertação de O2 da hemoglobina torna-se mais eficaz. Isto é conveniente para a célula, já
que uma maior atividade glicolítica implica, em princípio, uma maior necessidade de oxigénio por parte
das células humanas. A fixação de oxigénio nos pulmões não é afetada.

Fig. 3.45 2,3-BPG forma-se a partir de 1,3-bifosfoglicerato, um metabolito intermediário da glicólise; é, portanto,
um sinal químico da atividade glicolítica (a). Ao ligar-se à hemoglobina, 2,3-BPG afeta a cooperatividade de tal
forma que as curvas de ligação do O2 são desviadas, sendo a libertação de O2 nos tecidos periféricos é facilitada,
mas a captura de O2 nos pulmões não é afetada (b)

A secção anterior mostrou quão dinâmica pode ser a ligação de proteínas a outras moléculas. No caso
da hemoglobina, o oxigénio liga-se ao ferro do grupo heme. No entanto, é frequente que moléculas mais
complexas se liguem diretamente às cadeias laterais de certos resíduos de aminoácidos. Conjuntos
específicos de resíduos de aminoácidos numa proteína podem localizar-se e orientar-se de um modo
preciso no espaço e ter corretas propriedades físicas (carga, polaridade, grupos aceitadores/dadores
de hidrogénio, etc.) de modo a ligar-se especificamente a moléculas que estabelecem forças atrativas
com eles (Fig. 3.46). As nuvens eletrónicas destas moléculas são distorcidas pelo contacto com os
resíduos de aminoácidos que, por sua vez, adaptam a sua estrutura terciária à presença das moléculas.
Esta adaptação mútua entre a proteína e as moléculas ligadas frequentemente enfraquece algumas
ligações químicas das moléculas, podendo assim ser destruídas. Do mesmo modo, a formação de
outras ligações também é possível. O resultado disto é que a molécula que está ligada à proteína é
convertida numa molécula diferente. Se o produto resultante se dissociar da proteína e esta regressar
ao mesmo estado que tinha antes da ligação da molécula original, então a proteína em questão é uma
enzima, ou seja, um catalisador proteico natural. A molécula original que se liga à enzima e participa na
reação química é designada por substrato, tal como mencionado na Secção 3.3.2.
Como as enzimas interagem com o substrato e facilitam a sua conversão em produtos, elas
aumentam muito a velocidade das reações químicas, tipicamente em magnitudes superiores 107 vezes.
Em alguns casos, este aumento pode ser de 1017 vezes, o que é algo difícil de compreender
101 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

Fig. 3.46 Malato desidrogenase (PDB 2DFD) é uma enzima homodimérica que catalisa a oxidação do malato em
oxaloacetato concomitantemente com a redução de NAD+ em NADH [evidenciado com a cor laranja em (a)]. Um
conjunto específico de aminoácidos da enzima tem as propriedades (carga, capacidade de ligação ao H, etc.),
localização e orientação certas para enquadrarem simultaneamente na molécula de malato (b). Este conjunto de
resíduos forma o tão chamado local ativo (ou centro ativo) da enzima. NAD + liga-se a outro local, específico para
o mesmo, na proximidade do centro ativo e participa na oxidação do malato facilitado pela ação dos aminoácidos
[(b), estrutura inferior]

intuitivamente. Considerando que um aumento de 2108 vezes na velocidade de uma caminhada


relaxada (~1,5 ms-1) faria com que viajássemos à velocidade da luz (~3108 ms-1) torna-se mais clara
a perceção intuitiva. 1017 vezes é mais que a diferença entre uma caminhada relaxada e uma velocidade
100 milhões de vezes mais rápida que a velocidade da luz no vácuo. No capítulo 4 iremos ver que,
apesar das enzimas serem capazes de acelerar reações, elas não conseguem fazer com que reações
impossíveis se tornem possíveis. No entanto, conseguem tornar reações muito lentas (tão lentas que,
na prática, elas parecem não poder ocorrer) em reações rápidas. Na prática, é como se a intervenção
da enzima tivesse transformado uma reação impossível numa reação possível.

3.3.4.1 A Importância de Estudar Enzimas


Enzimas são moléculas interessantes uma vez que a dinâmica da sua estrutura terciária implica
atividade catalítica, que moldou a vida tal como ela existe hoje. Até mesmo os vírus necessitam de
enzimas para serem eficazes. Como as enzimas são tão competentes em acelerar reações, controlar
a atividade das enzimas é, portanto, controlar o curso das reações químicas numa célula. Esta é uma
peça fundamental para impor ordem na química das células. Para além disso, controlar a atividade das
enzimas garante que certas reações apenas ocorrem numa extensão significativa, onde e quando a
enzima está dentro da célula. Isto previne reações conflituosas numa célula bem regulada e permite
que certas reações sejam acopladas. Imaginemos um substrato A e um substrato B; agora imaginemos
que a enzima EA converte A em B e que uma segunda enzima, EB, converte B em C. A presença
simultânea de ambas as enzimas nos mesmos compartimentos celulares tem como consequência
prática a transformação de A em C. Este acoplamento de reações pode alcançar uma complexidade
considerável, com muitos substratos, reações e enzimas envolvidas, por vezes com sequências de
reações ramificadas e cíclicas (rever Fig. 1.3 e 1.4). Esses conjuntos de reações são referidos de um
modo geral como “metabolismos”. A regulação dos metabolismos está largamente dependente de
enzimas. Os mecanismos de regulação metabólica são extremamente importantes e irão ser
abordados no capítulo 5. Um metabolismo regulado é uma condição indispensável para um estado
particular dos organismos, denominado “saúde”.
No entanto, a relação estrutura-atividade nas enzimas e o significado das mesmas na regulação
metabólica é apenas parte da importância de estudar enzimas. Por exemplo, as enzimas podem operar
fora das células e serem usados em processos industriais, na indústria farmacêutica e alimentar e no
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 102

Fig. 3.47 Fosfatase ácida específica da próstata humana, PSAP [(a); PDB 1cvi], e aspartato aminotransferase, ASP
[(b); PDB 3II0], são marcadores do cancro da próstata e hepatite, respetivamente. Piridoxal 5-fosfato é um cofator
que é representado ligado ao ASP (amarelo)

processamento e produção de detergentes. Mais importante que isso, nas ciências biomédicas e
prática clínica, podem ser usadas como ferramentas viáveis de diagnóstico. Quando as enzimas que
deveriam estar confinadas a compartimentos celulares em tecidos específicos são encontradas em
níveis elevados no plasma, é um sinal de lesões teciduais com rutura de membranas celulares (e
consequente libertação de enzimas no plasma). A morte de células nos tecidos implica um fluxo
constante de conteúdos intracelulares para o plasma, mas em tecidos não lesionados isto ocorre numa
extensão muito limitada. Uma lesão severa no fígado, coração, entre outros órgãos, leva a níveis
plasmáticos anormalmente altos de enzimas específicas para esse órgão. A fosfatase ácida específica
da próstata (PSAP, Fig. 3.47), por exemplo, é uma enzima produzida pela próstata, que pode ser
encontrada em elevadas quantidades no sangue de homens que têm cancro da próstata. Um pequeno
número de outras doenças também pode causar aumentos moderados nos níveis de PSAP, mas
apenas lesões diretas da próstata, como as provocadas por tumores neste órgão, causam elevados
níveis da proteína no plasma. A PSAP é então classificada como um marcador do cancro da próstata.
Sendo altamente irrigado (ver Caixa 8.1) e particularmente exposto à ação de medicamentos e
outros químicos exógenos e vírus, o fígado é um órgão que sofre agressões frequentes que levam à
presença de enzimas hepáticas no plasma. Duas transaminases, a alanina transaminase (ALT) e a
aspartato transaminase (AST), são marcadores de lesões frequentemente doseados quando existe
uma suspeita de hepatite, envenenamento ou fígado alcoólico. No entanto, é necessário ter em conta
que estas enzimas também estão presentes noutros órgãos, mas em concentrações mais baixas. Um
diagnóstico completo é composto por dados que têm em consideração não apenas a análise
bioquímica, mas também os sintomas, a história, o estilo de vida e outros resultados de diagnóstico.
As enzimas lactato desidrogenase (LDH) e creatina cinase (CK) têm um interesse particular porque
são marcadores de lesão muscular. Embora estas enzimas também existam em músculos para além
do coração, há diferenças na composição de aminoácidos que permitem a deteção de variantes
cardíacas. Enzimas com atividade semelhante e uma extensa homologia estrutural são conhecidas
como isoenzimas. Por exemplo, três isoenzimas da CK foram descobertas: CK-MM ou CK3, encontrada
sobretudo no músculo esquelético; CK-BM ou CK2, encontrada sobretudo no miocárdio; e CK-BB, ou
CK1, concentrada nos pulmões e cérebro. Por causa desta distribuição de isoenzimas CK, um
103 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

embolismo pulmonar está associado a níveis elevados de CK-BB. Por outro lado, um enfarte agudo do
miocárdio está associado a níveis elevados de CK-MB e lesões ao nível do músculo esquelético causam
níveis elevados de CK-MM. Isoenzimas da LDH são tetrâmeros, quer no coração, quer noutros
músculos. Estes tetrâmeros podem ser destruídos e reagrupados na forma de tetrâmeros
heterogéneos mistos porque a estrutura dos monómeros é bastante semelhante. De qualquer forma, a
presença dominante de isoenzimas cardíacas pode ser detetada no plasma em caso de enfarte agudo
do miocárdio. As alterações enzimáticas no plasma num enfarte agudo do miocárdio são mostradas
na Fig. 3.48. A isoenzima CK-MB atinge o pico em primeiro lugar, AST a seguir e depois a LDH.

Fig. 3.48 O miocárdio é o músculo do coração (a). O enfarte do miocárdio envolve morte tecidular parcial (necrose)
causado por um défice local de fornecimento de oxigénio, como consequência da obstrução do fluxo sanguíneo
do tecido. Enzimas do músculo cardíaco, como CK-MB, AST e LDH, aparecem no sangue após o enfarte (b). A
informação combinada da CK-MB e LDH permite estimar a hora do enfarte, ajudando assim na criação de uma
estratégia terapêutica. CK – creatina cinase, AST – aspartato transaminase, LDH – lactato desidrogenase
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 104

Também existem marcadores não enzimáticos que são usados no diagnóstico de enfarte agudo do
miocárdio: a mioglobina e duas troponinas cardíacas, troponina I (cTnI) e troponina T (cTnT). CK-MB e
a isoenzima LDH cardíaca são os marcadores mais importantes devido à sua especificidade. As
troponinas cardíacas também são importantes devido aos seus níveis séricos estarem frequentemente
elevados durante as primeiras horas de enfarte agudo do miocárdio, mesmo quando as atividades da
CK e CK-MB ainda se encontram dentro dos valores de referência, mas não se encontram
completamente estabelecidas como marcadores enzimáticos.
Enquanto a disciplina clínica e científica destinada ao estudo enzimático para aplicação direta no
diagnóstico clínico, a enzimologia clínica, se encontra em expansão e a ganhar importância, é curioso
mencionar que tecido cerebral morto não liberta no sangue quantidades significativas de enzimas.
Apesar da frequência de AVC’s, não existe qualquer teste enzimático para os mesmos, devido à barreira
hematoencefálica (Fig. 3.49), a rede de capilares que irriga o sistema nervoso central. As células destes
capilares estão ligadas por junções de oclusão (tight junctions) e moléculas de adesão que restringem
severamente a difusão de macromoléculas hidrofílicas no líquido cefalorraquidiano. Pequenas
moléculas gasosas, como O2 e CO2, difundem-se passivamente através da barreira, e alguns nutrientes
e hormonas são ativamente transportados através de proteínas específicas (isto irá ser revisitado, por
exemplo, na Caixa 9.3, que discute o transporte de glucose através da barreira hematoencefálica).

Fig. 3.49 A barreira hematoencefálica é a rede de capilares cerebrais (topo). Esta fotografia mostra o resultado de
uma técnica usada na conservação de estruturas anatómicas, chamada plastinação, aplicada à barreira
hematoencefálica humana (reimpressa com a permissão de von Hagens Plastination, Germany: ©
www.vonHagens-Plastination.com). A rede de artérias muito finas que penetram no cérebro formam uma rede
muito reticulada. Os capilares estão associados a uma membrana basal espessa e a pés terminais astrocíticos
(células castanhas que cobrem o endotélio; imagem inferior). A passagem de moléculas através das células
endoteliais da barreira hematoencefálica é muito seletiva. Enzimas libertadas das células nervosas depois do AVC
não conseguem atingir o sangue, o que torna o diagnóstico muito difícil. A imagem inferior é um trabalho de Bem
Brahim Mohammed, reproduzido sob a Creative Commons License
105 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

3.3.4.2 A Nomenclatura das Enzimas


Uma enzima é única, visto que é muito específica para um substrato, ou para uma família, ou para
moléculas com estrutura muito semelhante. Nos primórdios dos estudos metabólicos, as enzimas
eram nomeadas individualmente, uma por uma, com nenhuma preocupação acerca de uma
nomenclatura generalizada. Com o tempo, a diversidade de nomes e a multiplicidade de critérios para
identificar enzimas recém-descobertas era tanta que a falta de uma nomenclatura que pudesse ser
usada a nível global desencadeou o progresso da enzimologia (disciplina científica dedicada ao estudo
das enzimas). A União Internacional de Bioquímica Pura e Aplicada (IUPAB), uma organização
internacional que surgiu a partir da conjugação de esforços de muitas sociedades nacionais de
bioquímicos em todo o mundo, nomeou um grupo de trabalho com o objetivo de propor regras gerais
que poderiam ser usadas para classificar e identificar enzimas. O resultado foi uma nomenclatura
baseada no tipo de reações catalizadas pela enzima, consistindo em:
− Um nome baseado na contração de “substrato + sufixo ase” (ex., ureia + ase = ureiase, uma enzima
que catalisa a reação com a ureia). Este nome tem alguma flexibilidade.
− Um número rígido de quatro dígitos, precedido por EC (“Comissão Enzimática”), que é único para
cada enzima (ou conjuntos de isoenzimas). O número refere-se a uma família de enzimas e três
subfamílias sucessivas (Caixa 3.9). EC 5.2.1.3, por exemplo, identifica uma enzima da família 5
(”isomerases – catalisam uma reação de isomerização), primeira subfamília 2 (“isomerização cis-
trans”), e o código total identifica especificamente a isomerase retiniana, uma enzima envolvida na
visão (ver secção 2.2). Parte da árvore completa das nomenclaturas enzimáticas é apresentada na
Caixa 3.9.

Caixa 3.9: Nomenclatura e Classificação Enzimática


A IUBMB, a União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular, é a organização responsável
pelas recomendações de nomenclatura e classificação de enzimas. A classificação de enzimas
e as regras rígidas de nomenclatura permitem uma identificação não ambígua de enzimas. Um
grupo de trabalho, a Comissão Enzimática, foi estabelecido em 1956 com o objetivo de propor
uma classificação universal e um sistema de nomenclatura. Quase 659 enzimas eram
conhecidas na altura, e o caos na nomenclatura era claro. Hoje em dia, mais de 5500 enzimas
são conhecidas, e seria virtualmente impossível comunicar em enzimologia se sistemas oficiais
e universais de classificação e nomenclatura não tivessem sido estabelecidos.
Em 1961, a Comissão Enzimática apresentou o seu relatório, no qual as enzimas seriam
divididas em 6 classes de acordo com a reação que catalisam. Encontram-se numeradas classes
e três níveis de subclasses. A Comissão Enzimática identifica então as enzimas de acordo com
um número de 4 dígitos precedido pelas letras EC de modo a identificar claramente que o código
numérico corresponde à classificação estabelecida pela Comissão Enzimática. A própria
Comissão Enzimática foi renomeada, embora a comissão a que se referem não tenha mudado.
Para além do código numérico EC, também é usado um nome, visto que os nomes são mais
intuitivos e imediatos que os códigos numéricos. Desde que não seja ambíguo, o nome mais
comummente usado para a enzima tem preferência, embora existam sistemas alternativos com
o objetivo de descrever de uma forma não ambígua a catálise. Os nomes sistemáticos consistem
em duas partes: a primeira contém o nome do substrato ou, no caso de uma reação bimolecular,
dos dois substratos separados por uma vírgula; a segunda parte, terminada em -ase, indica a
natureza da reação, ex: oxirredutase, oxigenase, transferase (com um prefixo indicando a
natureza do grupo transferido), hidrolase, liase, racemase, epimerase, isomerase, mutase e
ligase.
Na prática, a classificação e nomenclatura têm origem na classificação de reações
catalisadas por enzimas e não nas estruturas proteicas. A mesma proteína pode ter dois ou mais
números EC se catalisar duas ou mais reações. Este é o caso, por exemplo, de duas proteínas na
Escherichia Coli, cada uma das quais catalisando as reações de aspartato cinase e homoserina
desidrogenase. Também pode acontecer que duas ou mais proteínas, sem qualquer evidência
de homologia, catalisem a mesma reação. Por exemplo, várias proteínas diferentes catalisam a
3 As Famílias das Moléculas Biológicas 106

reação de superóxido desmutase e partilham um único número EC, EC1.15.1.1. Este último caso
é relativamente raro, mas é praticamente universal o facto de proteínas que catalisam a mesma
reação em organismos diferentes, ou conjuntos de isoenzimas num só organismo, serem
homólogas, com semelhanças facilmente reconhecíveis.
Tome-se a classe de enzimas EC 1 como exemplo. Esta classe contém enzimas que
catalisam reações de oxidação. Como a oxidação de um grupo tem de ser acompanhada pela
redução de outro, são agrupadas como oxirredutases. O nome enzimático sistemático está na
forma de “dador/recetor oxirredutase”. O substrato que está a ser oxidado é designado por dador
de hidrogénio. Comummente, o nome é “desidrogenase dador”. Embora o termo redutase seja
por vezes usado em alternativa, é importante lembrar que o nome recomendado não define a
posição de equilíbrio da reação nem a direção in vivo do fluxo através da enzima. O termo
“oxidase dador” é apenas usado quando O2 é o aceitador.
Classes Enzimáticas
Existem seis classes de enzimas:
EC 1: As oxirredutases catalisam reações em que um substrato doa um ou mais eletrões a um
aceitador de eletrões, tornando-se oxidado no processo.
EC 2: As transferases catalisam reações em que um grupo químico é transferido de um substrato
dador para um substrato aceitador.
EC 3: As hidrolases catalisam reações em que uma ligação num substrato é hidrolisada para
produzir dois fragmentos.
EC 4: As liases catalisam reações não hidrolíticas em que um grupo químico é removido de um
substrato deixando uma ligação dupla.
EC 5: As isomerases catalisam reações de um substrato ou um produto que podem ser
conhecidas como reações de isomerização.
EC 6: As ligases catalisam a junção de duas ou mais moléculas acopladas à hidrólise de ATP ou
de uma molécula análoga. Estas enzimas são por vezes chamadas sintetases, um nome que
já era usado antes da criação da Comissão Enzimática original.
Na realidade todas as enzimas das classes 1 a 3 satisfazem a definição de transferases. No
entanto, como estas três classes são todas grandes quando comparadas aos outros três grupos,
é conveniente quebrá-las em três classes e reservar o nome transferase para enzimas que não
são oxirredutases nem hidrolases.
Subclasses Enzimáticas
Cada uma das seis classes está dividida em subclasses, com base nas diferenças salientes entre
as enzimas da classe. Na EC 1, por exemplo, as subclasses definem o tipo de substrato em que
atuam:
EC 1.1: atuam em grupos de dadores CH-OH
EC 1.2: atua em grupos de dadores aldeído ou oxo
EC 1.19: atuam em flavodoxina reduzida como dador
EC 1.97: outras oxirredutases
Esta última subclasse é numerada EC 1.97 porque é provisória. Com o passar do tempo, as
enzimas que contém podem ser reclassificadas de um modo mais apropriado. O relatório original
tinha duas subclasses, EC 1.98 e EC 1.99, que foram removidas quando informação suficiente
para colocar as enzimas noutros grupos ficou disponível.
As classes EC 3 a 5 são divididas com base nos tipos de substrato, da mesma forma que EC
1. Em EC 2, no entanto, era muito mais útil enfatizar a natureza do grupo transferido. Temos por
exemplo:
EC 2.1: transferem grupos de um carbono
EC 2.2: transferem resíduos de aldeídos ou cetonas
EC 2.3: aciltransferases
EC 2.8: CoA-transferases
Em EC 6 a divisão em subclasses é feita com base no tipo de produto:
107 3 As Famílias das Moléculas Biológicas

EC 6.1: formam ligação carbono-oxigénio


EC 6.2: formam ligações carbono-enxofre
EC 6.3: formam ligações carbono-azoto
EC 6.4: formam ligações carbono-carbono
EC 6.5: formam ligações fosfoester
Sub-subclasses Enzimáticas
As subclasses são divididas em sub-subclasses da mesma forma que as próprias subclasses
são definidas. Por exemplo, EC 1.16 (oxirredutases que oxidam iões metálicos) contém duas
sub-subclasses:
EC 1.16.1: com NAD+ ou NADP+ como aceitadores
EC 1.16.2: com oxigénio como aceitador
No que diz respeito à numeração de subclasses, 99 (ou um número menor, se for necessário)
é usado para sub-subclasses que contém um grupo diverso de enzimas. Por exemplo, a
subsecção EC 1.6 contém oxirredutases que atuam no NADH ou NADPH e, dentro dela, existe o
EC 1.6.99 para aceitadores diversos.
Também há a divisão em sub-subclasses em que cada enzima é identificada por quatros
números. A divisão de sub-subclasses em sub-subsubclasses segue o mesmo raciocínio de
antes. Uma abordagem exaustiva do quarto nível de classificação não é aqui justificável.

Nota Final: texto baseado em “Enzyme Classification and Nomenclature” de S Boyce e K Tipton
(Encyclopedia of Life Sciences, 2001) e “Current IUBMB recommendations on enzyme
nomenclature and kinetics” de A, Cornish-Bowden (Perspectives in Science, 2014, 1, 74-87)

Bibliografia Selecionada
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Cornish-Bowden A (2014) Current IUBMB recommendations on enzyme nomenclature and kinetics. Perspect Sci
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Stevenson J, Brown AJ (2009) How essential is cholesterol? Biochem J 420: e1–e4
Westheimer FH (1987) Why nature chose phosphates. Science 235:1173–1178
A Interação e a Regulação
do Metabolismo
Introdução ao Metabolismo

Tradução: Beatriz Correia


Revisão: Joana Barroso
(Páginas 131-156)

As células são feitas de moléculas, mas não são simples misturas ou conjuntos de moléculas. Se junto
separadamente num tubo de ensaio ou numa mistura aleatória, o conjunto completo das moléculas de
uma célula interagiria física e quimicamente, mas não formaria uma célula espontaneamente. As
células formam-se e existem porque os eventos moleculares que as criam e mantêm são altamente
ordenados. A sequência e lugar específico dos eventos e dos fluxos de matéria e de energia é tal que a
célula é capaz de preservar a estabilidade e evoluir por adaptação até certo ponto, como abordado na
Secção 1.1. Na Parte II, focar-nos-emos em algumas das mais importantes reações químicas que
ocorrem nos diferentes tecidos do corpo humano e na sua coordenação, para que se possa perceber
como é que as mudanças da matéria e das transferências energéticas permitem ao corpo humano
existir, mover-se, adaptar-se a desafios externos, e reproduzir-se. Este conjunto de reações é chamado
de metabolismo.
Dado que o metabolismo no seu todo é uma série tão complexa de reações químicas, os
bioquímicos tendem a estudar e a focar-se em subgrupos de reações separadamente. A forma mais
simples de perceber e explicar o metabolismo é dividi-lo em partes consoante a natureza química das
moléculas envolvidas, isto é, de acordo com as famílias de moléculas abordadas na Parte I. Assim, por
razões práticas e para o bem da simplicidade, o metabolismo completo, que é uma única rede muito
complexa de reações químicas e eventos físicos, é considerado como uma soma de “metabolismos”:
o metabolismo dos sacáridos, o metabolismo dos aminoácidos, o metabolismo dos lípidos, etc.
A parte do metabolismo mais relacionada com a absorção de nutrientes e a produção de ATP é o
“metabolismo da energia”. O corpo humano está continuamente a transformar moléculas, por vezes
formando produtos de massa molecular mais elevada, outras decompondo moléculas em entidades
de menor massa molecular. Tipicamente, estas situações correspondem, respetivamente, à
incorporação de massa e energia a partir de nutrientes, ou ao consumo de massa e energia na ausência
do consumo de nutrientes. Os “metabolismos” do primeiro tipo são conhecidos como anabólicos
(construção), sendo os últimos conhecidos como catabólicos (degradação). Deste modo, “catabolismo
dos aminoácidos”, por exemplo, refere-se à decomposição de aminoácidos em moléculas mais
pequenas, em oposição à síntese de aminoácidos (anabolismo de aminoácidos). Os aminoácidos, por
sua vez, podem polimerizar e formar proteínas: anabolismo proteico, ao contrário da degradação
proteica, da qual resultam aminoácidos (catabolismo proteico). Os subgrupos de reações ativas em
condições anabólicas e catabólicas são anfibólicas (o prefixo “anfi” refere-se à sua natureza dual). É
este o caso do ciclo do ácido tricarboxílico (TCA), também conhecido por ciclo de Krebs (ver Secção
7.2).
Na Fig. 4.1 está esquematizado um exemplo de um metabolismo genérico. Independentemente do
quão complexo um metabolismo possa parecer à primeira vista, a interpretação de um esquema de
reações consecutivas é simples e depende da identificação de 5 fatores chave:

1. Os reagentes que originam o processo


2. Os produtos da reação, independentemente de serem formados em reações intermédias ou na
reação final

108
109 4 A Interação e a Regulação do Metabolismo

3. Os pontos de bifurcação, isto é, passos em que a sequência de reações pode seguir cursos
diferentes
4. As reações irreversíveis
5. As reações específicas que são catalisadas por enzimas que são finamente reguladas e que, por
isso têm a capacidade de acelerar grandemente, ou não, segmentos do metabolismo

Fig. 4.1 Metabolismo esquemático hipotético, envolvendo os metabolitos de A a K e as enzimas E (o subscrito X


no E, representa o substrato, X = A a K). O metabolismo é “alimentado” por A e tem K, F e J como “produtos finais”.
Uma fonte externa de G pode levar à formação de J e de F, mas não de K. Contudo, se E D não estiver presente ou
não estiver operacional, F não será formado. Do mesmo modo, se EB2 não estiver presente ou não estiver
operacional, K, G, H, J e I não se formarão, mesmo na presença de uma alta concentração de B. Se E B1 e EB2 nunca
estiverem ativas ou estiverem inativas ao mesmo tempo, F é sempre formado, mas não J; o esquema reacional
assegura a formação permanente de F, mas a formação seletiva de J quando o controlo do curso da reação é feito
por estados de atividade alternados de EB1 e EB2

Estes cinco fatores chave para a interpretação de um metabolismo irão ajudar o leitor a não ver o
metabolismo como um conjunto caótico de produtos químicos, enzimas e setas de reação. O
metabolismo é um texto apelativo e amplamente informativo sobre a organização da vida, se o
conseguirmos interpretar.
As enzimas são protagonistas fundamentais dos metabolismos, juntamente com os metabolitos
(isto é, os reagentes/produtos intermédios das reações dos metabolismos). As enzimas não só
aceleram grandemente as reações, como são as entidades que fazem com que o metabolismo ocorra
em direções específicas. A sua importância e ação é melhor ilustrada se se considerar primeiramente
um metabolismo hipotético sem enzimas (descrito na Secção 4.1) e a mesma série de reações com
enzimas (descrita na Secção 4.2).

4.1 Reações Consecutivas Sem Enzimas


Considere a reação química simples:
A+B⇌C
que pode ser representada de maneira mais agradável aos bioquímicos se for escrita como:

de modo a salientar a conversão de A em C com a intervenção de B. Não obstante, a importância de B


no equilíbrio de energia e massa da reação não deve ser subestimada, mesmo que B seja, por exemplo,
4 A Interação e a Regulação do Metabolismo 110

H2O ou um pequeno ião, e A e C sejam moléculas grandes e complexas. A, B e C são igualmente


importantes para estudar o curso e a velocidade da reação, isto é, a termodinâmica da reação. Para
perceber melhor os princípios básicos que governam uma reação química, começaremos com
formulações muito simplistas. Vai assumir-se que A e B são misturados num instante específico no
tempo (t = 0) e que a reação se inicia formando C. Assim que C é formado, vai começar também a
converter-se em A + B, mas no início existem poucas moléculas de C, logo a velocidade da conversão
de A + B em C é maior que a conversão contrária, C em A + B. Naturalmente, nestas condições, a
concentração de C irá aumentar até ao ponto em que as velocidades de ambas as reações serão
correspondentes; a velocidade com que C é formado é a velocidade com que é consumido. A reação
ocorre porque A e B são transformadas continuamente em C e vice-versa, mas as concentrações de A,
B e C presentes em solução não mudam. Este é o ponto de equilíbrio. A esta altura é importante
dissociar a extensão da reação (isto é, a fração de A e B que foi transformada para atingir o equilíbrio)
da velocidade da reação, que está relacionada com o tempo necessário para atingir o equilíbrio. Uma
reação muito extensa é representada por:
A+B→C
e é denominada “irreversível” (e, portanto, representada com uma seta de sentido único), mas isto não
nos diz absolutamente nada sobre a velocidade da reação. Na realidade, a conversão de A e B em C
pode ser tão lenta em termos práticos que C não é formado. Assim, para estudar reações químicas, é
necessário abordar tanto a extensão como a velocidade das reações. Uma reação favorável tem um
grau de conversão de reagentes em produtos alto; uma reação rápida atinge o equilíbrio num curto
espaço de tempo. Os dois aspetos são independentes um do outro, e por isso não é surpreendente que
possam ser modulados por meios separados no metabolismo.
A extensão de uma reação é descrita pela constante de equilíbrio, que em termos práticos é
calculada a partir das concentrações no equilíbrio:
[C]eq
Keq =
[A]eq [B]eq

É óbvio que reações não favoráveis têm um baixo Keq e reações favoráveis têm um alto Keq. O Keq varia
desde zero a infinito. As determinantes que contribuem para o valor do Keq numa dada reação (isto é,
quão favorável é esta reação) estão relacionadas com o equilíbrio da energia libertada e com a ordem
do ambiente em que a reação ocorre. Nenhuma delas é intuitiva, mas ambas podem ser demonstradas
experimentalmente. As reações químicas tendem a consumir mais reagentes, uma vez que os produtos
são mais estáveis (“menos energéticos”) e o ambiente se torna mais desorganizado com a presença
dos produtos (isto é, mais próximo de uma organização aleatória). O grau de desorganização é
genericamente referido como entropia. Os equilíbrios da energia e da entropia estão de tal forma
enraizados na termodinâmica que são o tema da primeira e da segunda leis da termodinâmica,
respetivamente, enquanto princípios fundadores desta disciplina. A relação quantitativa exata entre o
balanço da energia libertada sob a forma de calor (a entalpia ΔH) e o balanço da entropia (ΔS) é dado
pelo parâmetro ΔG, a diferença da energia de Gibbs durante a reação química:
ΔG = ΔH – TΔS
Assumindo que a temperatura, T, não se altera durante o processo, ΔG está relacionado com a
concentração de reagentes e produtos:
[C]
ΔG = ΔG0 + RT ln
[A][B]
Em equilíbrio ΔG = 0; logo,

ΔG0 = –RT ln Keq


Apesar de a termodinâmica poder utilizar formulações complexas para explicar a interação da
energia com a matéria, restringir-nos-emos às mais importantes na bioquímica médica. As equações
anteriores sobre o ΔG são úteis porque nos fornecem informação sobre a espontaneidade das reações.
111 4 A Interação e a Regulação do Metabolismo

Se ΔG < 0 (reação exergónica), a reação irá progredir espontaneamente até ao equilíbrio; se ΔG > 0
(reação endergónica), a reação não será espontânea; se ΔG=0, a reação encontra-se no equilíbrio. ΔG
ser positivo, negativo ou nulo depende largamente da concentração de reagentes e de produtos, e a
reação irá continuar até estas concentrações atingirem o equilíbrio (ΔG=0). A ΔGeq0 está relacionado
especificamente com as concentrações no equilíbrio e, portanto, fornece informação sobre a extensão
final da reação (isto é, quão longe a reação prossegue até ao equilíbrio):
ΔG0 << 0 – elevada extensão da reação (elevado Keq)
ΔG0 >> 0 – baixa extensão da reação (baixo Keq)
A Caixa 4.1 ilustra estes conceitos para uma reação simples. A Figura 4.2 mostra dois exemplos de
como ΔH pode dominar sobre ΔS e vice-versa e ser determinante para a extensão da reação, isto é,
para ΔG. Contudo, na maioria dos processos biológicos relacionados com o uso de nutrientes, ΔH é
alto comparado com TΔS, o que torna ΔH, o “valor” calórico dos alimentos, uma medida aproximada
da energia total que pode ser usada pelo corpo humano.

Caixa 4.1: Termodinâmica Básica da Reação Mais Simples


No caso muito simples de termos um único reagente (R) a ser transformado num único produto
(P):
R⇌P
a constante de equilíbrio é:
[P]eq
Keq =
[R]eq
e
[P]eq
ΔG0 = –RT ln Keq = –RT ln
[R]eq
É óbvio que:
ΔG0 < 0 se [P]eq > [R]eq (Keq > 1)
ΔG0 > 0 se [P]eq < [R]eq (Keq < 1)
As reações com Keq mais altos têm ΔG0eq. Se o equilíbrio ainda não tiver sido obtido, duas
situações são possíveis:
[R] > [R]eq (i.e. [P] < [P]eq)
1.
[P] [P][R]eq
ΔG = ΔG0 + RT ln = + RT ln ( )
[R] [R][P]eq

que é obviamente negativo. As reações irão prosseguir com a transformação de R em P até


ao equilíbrio, isto é, ΔG>0 indica a transformação espontânea de reagentes em produtos.

2. [R] < [R]eq (i.e. [P] > [P]eq)

Este é o caso oposto, em que ΔG<0 e o processo espontâneo é a reação inversa, isto é, a
transformação do produto P no reagente R.
A relação entre ΔG, ΔG0, e o curso da reação está representada na figura abaixo.
4 A Interação e a Regulação do Metabolismo 112

Reações isoladas como as consideradas anteriormente raramente são relevantes no metabolismo, já


que este consiste em reações consecutivas. Por isso, consideremos agora a reação
C⇌D+E
associada à primeira reação, A + B ⇌ C, para formar:
A+B⇌C⇌D+E
No equilíbrio, é óbvio que as concentrações de A e B estão relacionadas com as concentrações de D e
E porque C faz parte de ambas as reações. Em termos de constantes de equilíbrio:
[C]eq
Keq,1 =
[A]eq [B]eq

[D]eq [E]eq
Keq, 2 =
[C]eq

(1 e 2 referem-se à primeira e segunda reações na sequência).

Fig. 4.2 Algumas reações ocorrem porque a energia libertada, ΔH, compensa a diminuição de ΔS (a), ou o aumento
da desordem compensa a absorção de calor (b)
113 4 A Interação e a Regulação do Metabolismo

Logo,
[D]eq [E]eq
Keq,1 Keq,2 =
[A]eq [B]eq

que é a constante de equilíbrio aparente da forma abreviada (“soma de reações”) das reações acima,
A + B ⇌ C e C ⇌ D + E:
A+B⇌D+E
Keq,ap,1,2 = Keq,1•Keq2
A consequência espantosa é que ΔG0 do processo global é a simples soma de ΔG das duas reações
consecutivas:
ΔG0eq,1,2 = −ln Keq,ap,1,2 = −ln(Keq,1 Keq,2) = −ln Keq,1 – ln Keq,2 = ΔG0eq,1 + ΔG0eq,2
As consequências do metabolismo são imensas porque está implícito que a conversão de C em D + E
pode ser extremamente desfavorável, mas a extensão a que A + B é convertido em C “empurra” a reação
para a formação de D + E através de um aumento da concentração de C. Isto pode ser generalizado a
qualquer série de reações consecutivas, e os metabolismos são geralmente compostos por reações
favoráveis e desfavoráveis que se influenciam. No caso extremo em que uma reação irreversível se
segue a uma ou mais reações reversíveis, como em
A+B⇌C⇌D+E→F
é óbvio que independentemente do quão desfavoráveis a primeira e segunda reações sejam, o
resultado final é a completa depleção de A e/ou B e a formação de F. O mesmo aconteceria em

mas não em:

em que os produtos finais seriam tanto F como G. Apesar de tanto a formação de F como de G serem
irreversíveis, são reações competitivas. Ainda que ocorram ambas com a depleção completa de pelo
menos um dos reagentes, o produto da reação mais rápida domina. Uma das reações pode ser muito
mais rápida que a outra, sendo que nesse caso apenas um dos produtos se forma na prática.
Numa série ramificada de reações com uma conversão irreversível como, por exemplo,

o resultado final depende criticamente dos passos irreversíveis e dos pontos de ramificação. Logo, os
resultados podem ser complexos.
Dada a importância da velocidade das reações para a determinação do curso das cadeias de
reações, abordaremos agora a cinética com maior detalhe, já que ΔG0 apenas se refere a quão longe a
reação vai em termos de conversão de reagentes em produtos, e não à cinética.
4 A Interação e a Regulação do Metabolismo 114

4.2 Reações Consecutivas Com Enzimas


A cadeia de reações acima é dominada pela irreversibilidade das reações D + E → F e D + E → G (ΔG0
<< o para ambas). Se a última reação, por exemplo, for muito mais rápida que a primeira, os metabolitos
G, H e I dominarão. No caso oposto, dominarão F, J, K e L.
Imagine agora que (i) E é um reator chave com reatividade alta que torna irreversíveis a maioria das
reações em que entra (ΔG0 << 0 – na natureza, este papel é executado pelo ATP, o que torna o
metabolismo criticamente dependente desta molécula, Caixa 4.2), e (ii) que ambas as reações são
catalisadas por enzimas. A combinação destes dois fatores tem um grande impacto na variação da
concentração dos metabolitos ao longo do tempo (veja um exemplo na Fig. 4.3). De extrema
importância, a concentração de E e a regulação da atividade das enzimas são formas de controlar o
curso das reações. As situações típicas seguintes são possíveis:

1. Baixo “nível” (concentração) de E resulta na “acumulação” (aumento da concentração) de D.


2. Uma catálise muito ativa de D + E → F com ausência simultânea de uma enzima que catalise D + E
→ G, ou a presença de uma enzima que esteja inibida, resulta na produção de F a uma velocidade
elevada. Se F ⇌ J + K não for catalisada, ocorre uma acumulação transitória de F.

Fig. 4.3 Evolução da


concentração de metabolitos
numa reação hipotética.
Dependendo da reversibilidade
das reações e da sua
velocidade, a concentração de
metabolitos após a adição de
A e B em concentrações iguais
muda dramaticamente ao
longo do tempo, caso as
reações D + E → F e D + E → G
estejam a ocorrer (a) ou não
(painel b). No painel a, assume-
se que a velocidade da
formação de F ultrapassa a de
G. No painel b, [E] é igual a [D]

Na maioria das sequências de reações metabólicas (“vias”), todas as reações são catalisadas por
enzimas, o que gera uma situação em que a concentração de metabolitos pode mudar muito
rapidamente em intervalos de amplitude elevada, dependendo da termodinâmica das reações
envolvidas, das enzimas presentes, e do grau eventual em que a sua atividade é afetada por outras
moléculas ou condições físicas como a temperatura.
115 4 A Interação e a Regulação do Metabolismo

Como abordado em secções anteriores e na Caixa 4.2, o ATP ou os nucleótidos de trifosfato


relacionados são um impulsionador quási-universal do metabolismo, graças à sua desfosforilação
hidrolítica com ΔG0 << 0. Associar esta reação a outras numa via metabólica permite que se realizem
reações que de outra forma ocorreriam num nível muito baixo. Enquanto houver ATP disponível na
célula, o processo está assegurado. Esta simplicidade contrasta com a aparente complexidade do
controlo da atividade enzimática no ambiente celular. Dizemos aparente porque esta a complexidade
se baseia em princípios básicos simples e não é difícil de compreender. Os fatores que afetam a
atividade enzimática são basicamente os que afetam a estrutura proteica, uma vez que a essência da

Caixa 4.2: ATP - O Impulsionador Quási-Universal do Metabolismo


O ATP é uma molécula fascinante pela sua ubiquidade. A hidrólise do ATP em ADP + PO3- 4 ou
AMP + PO2- 3 – O – PO 2-
3 tem ΔG 0
<< 0, e estas reações estão presentes em vários metabolismos,
associadas a reações desfavoráveis. Qualquer quebra de ligações químicas envolve gasto de
energia, e o ATP não é exceção. A ideia que o ATP tem “ligações de alta energia” entre os grupos
fosforil cuja energia é libertada e usada para forçar a ocorrência de reações desfavoráveis é
enganadora, ainda que vastamente disseminada. A reação completa da hidrólise do ATP é:

ATP + 3H2 O → ADP + PO3-


4 + 2H3 O
+

mas a intervenção da água é frequentemente desprezada. O balanço das ligações quebradas e


criadas nesta reação é tal que é libertada energia, ainda que as ligações químicas propriamente
ditas não sejam reservatórios de energia que libertam energia quando quebradas. É o balanço da
dinâmica das ligações envolvidas na reação que importa. Parte deste mal-entendido vem do
facto de se tender a simplificar demais a escrita de reações químicas. Quando escrita como
ATP → ADP + P
o envolvimento da água é implícito, mas frequentemente desprezado. Apenas a fissão de uma
ligação é mostrada, o que leva a crer que a energia libertada está contida na própria ligação
química, o que é ilusório.
A Figura 3.23 mostra a estrutura do ATP. À primeira vista, pode parecer intrigante que a
hidrólise do ATP em ADP ou AMP envolva diferentes ΔG0.
Isto acontece porque os grupos fosforil não são equivalentes. A distribuição eletrónica na
molécula, por exemplo, como demonstrado na figura seguinte.

Ter uma reação de hidrólise comum altamente endergónica para associar a outras reações é
uma grande vantagem para as células, já que apenas é necessário sintetizar uma molécula para
impulsionar o metabolismo, e a complexidade e diversidade das enzimas envolvidas é muito
4 A Interação e a Regulação do Metabolismo 116

menor comparativamente a uma situação onde muitas e diversas reações endergónica sejam
usadas. Para impelir o metabolismo, as células usam quase exclusivamente ATP e enzimas que
catalisam a sua hidrólise, associando-a a reações desfavoráveis simultâneas. Assegurar que o
ATP está sempre presente e nunca completamente esgotado é vital para a célula.
Processos específicos que precisem de ser impulsionados termodinamicamente pelo uso de
reações endergónica, mas que não devam estar dependentes do ATP utilizam moléculas
semelhantes como GTP ou UTP.
É interessante que a hidrólise de ATP → ADP, ATP → AMP, e P2 O7 → 2PO3- 0
4 envolve ΔG << 0
em qualquer dos casos. Não obstante, a frequência da reação ATP → ADP nos processos
metabólicos em relação às outras é muito maior. A vantagem eventual pode ter sido que,
paralelamente aos mecanismos dedicados que as células têm para converter ADP de volta em
ATP usando a energia dos nutrientes, o ATP pode ser facilmente obtido a partir de ADP + ADP →
ATP + AMP (ver Secção 8.4), O aparecimento de AMP pode sinalizar um estado de esgotamento
de ATP que despoleta eventos reguladores na célula que favorecem a síntese de ATP. Este
assunto é ainda controverso e será abordado novamente no Cap. 8 juntamente com o uso de
ATP na contração muscular.

catálise enzimática é a dinâmica conformacional da proteína com o substrato a ela ligado. Os fatores
ambientais que afetam a catálise, como o pH e a temperatura, não são muito importantes na regulação
da atividade das enzimas porque a maioria dos organelos da célula têm pH tamponado e temperatura
constante. A atividade das enzimas muda dependendo destas condições, mas não é praticável para as
células alterar o pH ou a temperatura para influenciar o curso das reações metabólicas. Assim, as
enzimas têm uma estrutura adaptada a uma atividade ótima a uma temperatura e intervalo de pH
específicos (relembre o pH de diferentes tecidos humanos na Fig. 2.8), e a sua atividade depende
maioritariamente de ligandos, denominados efetores, que podem aumentar a atividade (“ativadores”)
ou diminuí-la (“inibidores”). O mecanismo exato que estes ligandos usam para agir como ativadores ou
inibidores de enzimas depende muito da estrutura da enzima e de como a catálise ocorre. A
termodinâmica e a atuação das enzimas enquanto catalisadores pode ser estudada sob princípios
simples ainda que abstratos que descrevem genericamente como a velocidade da catálise é
independente da extensão da reação e de como esta se altera com a concentração de substrato e de
efetores, mas não fornece informação sobre como uma enzima específica se liga ao substrato e
distorce a sua estrutura eletrónica para facilitar a catálise (ver Secção 3.3.4).
A descrição termodinâmica mais simples da catálise está explicada na Caixa 4.3. Esta ilustra que a
velocidade das reações é independente de ΔG0. A formulação mais simples para uma reação
enzimática foi construída maioritariamente por Leonor Michaelis e Maud Menten (Caixa 4.4).

Caixa 4.3: A Termodinâmica de uma Reação Catalisada Simples


A isomerização é um processo simples que usaremos para ilustrar a termodinâmica associada
à cinética das reações e o efeito das enzimas em ambas. A isomerização cis-trans, por exemplo,
pode ser representado por um esquema simplificado:
117 4 A Interação e a Regulação do Metabolismo

em que R1 e R2 são qualquer grupo de moléculas diferentes de H. Dependendo da temperatura,


solvente, e natureza química exata de R1 e R2, a dinâmica conformacional destas moléculas varia,
mas há sempre um certo grau de flexibilidade que torna algumas moléculas mais distorcidas
que outras num dado instante. Algumas destas moléculas adquirem uma estrutura intermédia
entre o isómero-cis e o trans, R1, R2, e o H a estar localizado numa posição mais instável o que
torna a molécula mais energética. Estados de maior energia associados a conformações
intermédias são muito instáveis, e poucas moléculas adquirem estas conformações, apesar de
poder acontecer ocasionalmente. Marcando um ponto para cada molécula num gráfico de
energia (da totalidade da molécula) vs. grau de conversão estrutural, obter-se-ia num dado
instante, em equilíbrio, a distribuição ilustrada na figura seguinte. Muitas moléculas estão nos
estados cis e trans porque correspondem a mínimos energéticos, mas poucas moléculas
atingem conformações entre estes dois estados porque estas conformações correspondem a
distribuições eletrónicas e a localizações nucleares que não são ótimas no equilíbrio das
distribuições de cargas. A diferença entre a energia do reagente (isómero cis neste caso) e a
energia associada à molécula no estado menos provável (máximo energético) é a denominada
energia de ativação porque a evolução destes pontos para os produtos pressupõe perda de
energia (diminuição de ΔG), i.e., a molécula progride espontaneamente para o produto (isómero-
trans) após este ponto.

Energia de cada molécula de acordo com o seu grau de conversão entre a conformação cis e trans. Cada
ponto representa uma molécula. Esta é a distribuição hipotética de uma população de moléculas no
equilíbrio num dado instante do tempo. A maioria das moléculas estão na conformação de isómero cis e
trans, que correspondem a mínimos energéticos. As conformações intermédias correspondem a moléculas
em estados de energia elevados, logo menos povoados, na prática, isto implica que muito poucas moléculas
se convertem espontaneamente entre conformações.

Quando a energia de ativação é elevada, é muito raro que uma molécula adquira a energia
necessária para adotar o estado intermédio que permite a conversão espontânea a produto. Por
outras palavras, a reação progride muito lentamente. As enzimas ligam-se aos substratos e
distorcem a estrutura das moléculas de maneira que a distribuição eletrónica e as interações
nucleares sejam mais favoráveis. A energia de ativação associada ao reagente diminui, e a
consequência é que mais moléculas atingem o máximo energético e progridem para produtos.
Isto significa que a velocidade da reação aumenta (ver figura). ΔGcis0 e ΔGtrans0 mantêm-se
inalterados, o que significa que a reação catalisada atinge o estado de equilíbrio mais
rapidamente, mas a extensão da reação (fração de reagentes convertida a produtos) não é
alterada pela ação da enzima.
4 A Interação e a Regulação do Metabolismo 118

As enzimas distorcem a estrutura molecular dos substratos tonando as conformações intermédias menos
energéticas, logo mais provável. Dado que mais moléculas atingem a conformação intermédia, é atingida
uma velocidade maior de formação de produtos

No seu modelo abstrato de catálise, a enzima genérica Ez ligar-se-ia ao substrato genérico S, para
formar um complexo de natureza indeterminada do qual o produto genérico P se formava
irreversivelmente:
Ez + S ⇌ EzS → Ez + P
A dedução matemática da Caixa 4.4 mostra que neste caso a velocidade da reação (i.e., a variação de
[P] por unidade de tempo) é:
Vmax [S]
v=
Km + [S]

Caixa 4.4: Fundamentos da Cinética Enzimática de Reações Simples


As enzimas (Ez) associam-se a substratos (S) através de resíduos de aminoácidos que distorcem
o substrato e tornam a conversão para produtos (P) mais rápida. A enzima interage ativamente
com a molécula S no decurso da catálise, mas o fim da reação resulta na libertação de P com Ez
no estado original tal como antes da ligação a S. De forma abstrata, esta situação pode ser
representada por:
k-1 k-2
Ez + S ⇌ EzS ⇌ Ez + P (1)
k1 k2
EzS é o complexo transitório em que Ez e S estão em contacto, estando S distorcido, kx são as
constantes da taxa cinética de cada conversão (x = 1, 2, -1, -2), que são fatores de
proporcionalidade, entre a velocidade e a concentração dos reagentes. Em termos gerais, pode
dizer-se que kx é a propensão intrínseca para o passo x ocorrer (p.e., k1 é a propensão intrínseca
para o desligamento rápido de Ez e S após a formação de EzS, enquanto que k2 é a propensão
intrínseca para a libertação de P após a formação de EzS; assim que EzS se forma, os processos
a que k1 e k2 estão associados competem um com o outro). As velocidades de cada um dos
quatro eventos da reação são:
119 4 A Interação e a Regulação do Metabolismo

v1 = k1[ Ez ][S], v-1 = k-1[ EzS ], v2 = k2[ EzS ], v-2 = k-2[ Ez ] [S] (2)
Assumindo que a reação procede a um ritmo constante, a concentração de EzS não muda com o
tempo, i.e., a velocidade da criação EzS iguala a velocidade de consumo de EzS:
v1 + v-2 = v2 + v-1 (3)
(k1[S] + k-2[P])[ Ez ] = ( k-1 + k2)[ EzS ] (4)
[Ez] e [EzS] não são variáveis práticas com que trabalhar como o é a concentração da enzima total
([Ez]o = [EzS] + [Ez]) que é mais conhecida ou mais facilmente mensurável numa experiência. Ao
mesmo tempo, a velocidade da reação é a velocidade a que P é produzido, v:
v = k2[ EzS ] − k-2[ Ez ][P] (5)
Combinando todas as equações, pode deduzir-se que a velocidade de formação do produto é:
k2 k1 [S] − k-2 k-1 [P]
v = [Ez]0 (6)
k-1 + k2 + k1 [S] + k-2 [P]

Esta é uma equação interessante que descreve como a velocidade de uma reação catalisada
varia com a concentração total da enzima, a concentração de substrato, e a concentração de
produto. Também descreve como a velocidade muda consoante as propriedades cinéticas
intrínsecas de cada passo (k1, k2, k-1, k-2).
Independentemente das [S], [P] particulares, ou das constantes cinéticas, a equação mostra
que v é sempre proporcional a [Ez]o. A concentração total da enzima tem um impacto direto na
velocidade da reação. De facto, nas células, aumentar ou diminuir a expressão de enzimas é uma
maneira de interferir diretamente com o ritmo de passos críticos do metabolismo.
É importante explorar mais profundamente esta equação em situações particulares que
podem ser significativas:
1. [P]  0 e/ou k-2  0 ou quaisquer outras condições em que k-2[Ez][P] << k2[EzS] (condição de
Michaelis-Menten)
Neste caso a reação simplifica-se para
k-1 k2
Ez + S ⇌ EzS → Ez + P (7)
k1

e v simplifica-se para ([P]  0 e/ou k-2  0 na Eq. (6) desta caixa):


k2 [Ez ]0 [S]
v = k-1 + k (8)
2
+ [S]
k1

Vmax [S]
v= (9)
KM + [S]

k2[Ez]o corresponde à velocidade da reação quando todas as moléculas da enzima estão


ligadas a S, que é a velocidade máxima possível, Vmax; (k-1 + k2)/k1 corresponde à constante
de equilíbrio da dissociação de EzS e é denominada de constante de Michaelis. Como Km-1 se
relaciona com a extensão da associação entre Ez e S no equilíbrio, é frequentemente tratada
como uma medida da afinidade enzima-substrato.
As condições de Michaelis-Menten levam a uma dependência de v por [S] que é hiperbólica
(ver figura). Apesar de corresponder a uma condição muito particular de um esquema
reacional muito simples, a equação de Michaelis-Menten [Eq. (9)] tem uma importância
histórica muito importante, sendo que a maioria das enzimas com uma cinética tipo hipérbole
são descritos pelo KM e Vmax aparentes, ainda que o esquema reacional nem sempre siga
exatamente o da Eq. (7).
4 A Interação e a Regulação do Metabolismo 120

A dependência de v em [S], como previsto pela Eq. (9) (equação de Michaelis-Menten). Esta dependência é
um caso particular de uma hipérbole retangular (i.e., com assíntotas perpendiculares aos eixos do x e do y;
as hipérboles retangulares podem ser expressas como (x-h)(y-t) = m, em que h, t e m são constantes que
podem ser rearranjadas no formato da equação de Michaelis-Menten para casos particulares de h, t e m

2. [S]  0 e/ou k1  0 ou quaisquer outras condições em que k1[Ez][S] << k-1[EzS]


Esta é uma situação semelhante a uma de Michaelis-Menten, mas num sentido inverso:
k-2
Ez + S  EzS ⇌ Ez + P (10)
k-1 k2
e a dependência da velocidade por [P] é semelhante ([S] = 0 ou k1 = 0 na Eq. (6)):
V-max [P]
v= (11)
K-M + [P]

(Os subscritos “-” são usados para referir o sentido inverso da reação, i.e., velocidades
negativas.)
121 4 A Interação e a Regulação do Metabolismo

3. Valores intermédio de [S] e [P]


Porque estamos a trabalhar com um exemplo em que a conversão entre S e P segue uma
estequiometria 1:1, pode considerar-se uma situação em que a reação começa com S
estando em concentração [S]0, na ausência e P:
[S] = [S]0 − [P] (12)
Combinando as Eqs. (12) e (6):
[P]
k2 k1 − (k2 k1 + k-2 k-1 )
[S]0
v = [Ez]0 k2 + k [P]
(13)
-1
+ k1 + (k-2 − k1 )
[S]0 [S]0

Para uma dada concentração inicial de S, a velocidade da ração muda à medida que P é
produzido, como demonstrado na figura abaixo. As curvas exatas dependem dos valores
específicos de k1, k2, k-1 e k-2 das reações, mas os exemplos ilustrativos da figura mostram
que, quando [S] domina sobre [P] ([P]/[S]0  0), a reação prossegue com a conversão de S em
P com velocidade proporcional à [S]. Quando a [P] domina sobre a [S] ([P]/[S] 0  1), a reação
prossegue com a conversão de P em S com velocidade proporcional à [P]. Os valores
negativos de v no gráfico refletem a conversão de P em S (i.e., um curso geral da reação no
sentido inverso). O ponto de [P]/[S]0 em que v = 0 (i.e., a velocidade da formação e de consumo
de P é igual) é obtido inserindo v = 0 na Eq. (13):
[P] k2 k1
([S] ) = (14)
0 v=0 k2 k1 + k-2 k-1

Isto mostra que o ponto de viragem em que a ação da enzima muda o sentido da reação é, na
realidade, um equilíbrio entre os parâmetros dos passos do sentido direto e inverso da reação.

A velocidade de uma reação reversível catalisada por uma única enzima em ambos os sentidos muda de
positiva (consumo de substrato e produção de P) para negativa (consumo de P e produção de substrato),
dependendo do equilíbrio das constantes cinéticas envolvidas e da concentração de substrato e de produto.
[P] k2 k1
O ponto de viragem (v=0) é atingido quando [P] em relação à [S]0 é
[S]0
=
k2 k1 + k-2 k-1
.
A linha verde corresponde a k-2 = 0 (condição de Michaelis-Menten), k1 = k-1 = k2; a linha azul corresponde
a k1 = 0, k-1 = k-2 = k2; a linha vermelha corresponde k1 = k-1 = k-2 = k2; a linha magenta corresponde a k1 = k-1
= k2 = k-2/10

A implicação prática da Eq. (13) é imensa. Mostra que as enzimas que catalisam a reação
simples descrita pela equação 1 são capazes de aumentar a velocidade da reação nos dois
sentidos dependendo se é S ou P a acumular-se, favorecendo sempre o consumo do metabolito
(S ou P) que se está a acumular. Isto é vital para entender a regulação metabólica.
4 A Interação e a Regulação do Metabolismo 122

em que Vmax é a velocidade máxima possível para a reação a uma dada concentração de enzima e Km
é a constante de dissociação de EzS (se a primeira reação atingir o equilíbrio). Km é denominado
constante de Michaelis e Km-1 reflete a extensão a que Ez se liga a S, frequentemente referido como
“afinidade” de Ez para S, um conceito intuitivo, mas bastante ambíguo.
O passo irreversível torna o modelo mais simples, mas em muitos casos o segundo passo é
reversível, e a mesma enzima pode catalisar uma reação em ambos os sentidos, de S para P e vice-
versa. Quando S está em excesso, a reação dominante é S → P, e, quando P se acumula, P→ S domina.
A Caixa 4.4 mostra que, numa reação irreversível, a velocidade da reação é dependente das
concentrações relativas de S e P. Quando a concentração de P atinge certos pontos críticos, a
velocidade da conversão de P em S ultrapassa a velocidade do processo oposto, e o resultado é o
consumo de P e a produção de S (Fig. 4.4). Isto é muito importante no metabolismo, já que a maioria
das enzimas catalisa reações em ambos os sentidos e o sentido dominante depende das
concentrações relativas dos metabolitos.

Fig. 4.4: Velocidade da reação reversível S ⇌ P catalisada por uma enzima. [S]0 é a concentração inicial de
substrato; [P] iguala [S]0 ([P]/[S]0 = 1) quando todo o S foi convertido a P; os valores negativos correspondem à
conversão de P a S. A [P]/[S]0 exata a que v = 0 (sem produção de P a S) depende das enzimas e substratos
específicos considerados, mas a transição de valores de velocidade positivos a negativos é uma tendência
genérica entre enzimas que catalisam reações reversíveis. A linha vermelha corresponde à variação da velocidade
para uma enzima que catalisa a conversão de S em P e P em S de forma igual. Neste caso, o ponto de viragem da
velocidade corresponde à meia conversão dos substratos ([P]/[S] 0 = 0.5). A linha magenta corresponde a uma
enzima que é mais eficiente a converter P em S: uma pequena concentração de P é suficiente para impulsionar a
reação no sentido de converter P em S. A linha verde corresponde a uma enzima de Michaelis-Menten: a catálise
apenas converte S em P (apenas velocidades positivas) com velocidade máxima para concentração máxima de
[S] ([P] = 0). A linha azul corresponde a uma enzima de Michaelis-Menten que apenas converte P em S: a velocidade
é sempre negativa e máxima para uma concentração máxima de P ([S] = 0)

É importante realçar que uma determinada enzima pode catalisar a conversão de S a P de forma
irreversível, e uma segunda enzima pode catalisar a reação inversa também de forma irreversível. Deste
modo, S e P são interconversíveis, mas estão envolvidas duas enzimas. Para além disso, terceiras
moléculas podem estar envolvidas em apenas um dos sentidos. Este é o caso de

em que duas enzimas diferentes estão envolvidas, e a conversão de P em S também pode implicar
conversão de a em b, o que pode ter ΔG0<<0 para tornar esta reação em particular mais favorável. Deve
notar-se que com este esquema reacional, a conversão de S em P pode ser bloqueada (E z1 ausente ou
123 4 A Interação e a Regulação do Metabolismo

inativa) sem interferir na conversão de P em S, ou mesmo enquanto Ez2 está ativada. Quando a mesma
enzima catalisa S ⇌ P, esta possibilidade não existe; esta enzima pode ser ativada ou inibida, apesar
de que isso irá afetar ambos os sentidos. Na reação acima catalisada pela Ez1 e Ez2, um controlo fino
da direção da reação é possível, mas em S ⇌ P não.
Regressando ao último esquema metabólico na Secção 4.1, agora modificado para incluir reações
catalisadas por enzimas:

É claro que Ez3, Ez4, Ez5 e Ez6 são as que determinam a direção do fluxo do metabolismo. Há
mecanismos que impedem as células de terem Ez5, Ez6 e Ez3, e Ez4 simultaneamente ativadas, de forma
a que, dependendo exclusivamente de qual destas enzimas chave está ativa ou inativa, esta via
metabólica produza L ou I, ou ambos, havendo consumo de A e B, ou produza A e B, havendo consumo
de I ou L ou ambos. Este é o conceito chave na regulação metabólica. Os mecanismos usados nas
células para ativar ou inibir enzimas são, pois, um assunto de importância crítica e será abordado no
Cap. 5.
Um fator adicional melhora ainda mais os processos metabólicos. As velocidades das reações
catalisadas por enzimas chave como Ez3, Ez4, Ez5 ou Ez6 usualmente não seguem uma equação.
Enquanto as enzimas que seguem cinética tipo Michaelis-Menten aumentam a velocidade das reações
proporcionalmente à concentração de substrato quando [S] é baixa, estas outras enzimas mudam a
velocidade da reação abruptamente perto de concentrações críticas de substrato. A velocidade varia
segundo uma sigmoide em resposta à [S] (Fig. 4.5), do mesmo modo que a eficiência da fixação de
oxigénio pela hemoglobina depende da concentração de oxigénio. Isto significa que algumas reações
são despoletadas em velocidades elevadas apenas quando o substrato se acumula a um certo nível.

Fig. 4.5 Dois tipos de velocidades de reações catalisadas por enzimas dependentes da concentração de substrato.
As enzimas que seguem a cinética de Michaelis-Menten (A) têm una velocidade dependente de [S] de forma
hiperbólica. A tendência inicial (até [S]1) é linear. Neste domínio, a acumulação de substrato é contrabalançada por
um aumento proporcional da velocidade da sua conversão a produto. As enzimas com cinética do tipo sigmoide
(B) têm um regime inicial mais atrasado em que a velocidade é baixa até que [S] atinge um valor crítico, [S] 1, após
o qual a velocidade aumenta abruptamente. Em ambos os casos (A e B), concentrações de substrato elevadas ([S]
> [S]2) correspondem à velocidade quase máxima da reação catalisada. Nesta situação, as enzimas não modulam
a velocidade em resposta à concentração de substrato porque já estão a trabalhar à capacidade máxima possível
4 A Interação e a Regulação do Metabolismo 124

Caixa 4.5: A importância de KM, a Constante de Michaelis


Em termos estritos, KM apenas é válido para uma enzima que catalise uma reação descrita por
k-1 k2
Ez + S ⇌ EzS → Ez + P (1)
k1
como explicado na Caixa 4.4 Na prática, a maioria das reações não pode ser descrito desta
forma. Por exemplo, reações que envolvam mais do que um substrato não encaixam neste
esquema. No entanto, KM é uma combinação de todas as constantes cinéticas ((k2+k-1)/k1) que
reflete a extensão da dissociação de EzS quando as condições de equilíbrio são atingidas (k2 <<
k-1). Logo, Km-1 reflete a “afinidade” de S para com Ez e é uma ferramenta extremamente valiosa
para comparar a “preferência” de uma mesma enzima por substratos diferentes. Por esta razão,
KM adquiriu uma grande importância no estudo de enzimas desde os primórdios da enzimologia,
a disciplina que se dedica ao estudo das enzimas. Mesmo enzimas que não seguiam o esquema
reacional 1, mas que possuíam dependências de velocidade catalítica vs. [S] hiperbólicas foram
atribuídas um Km-1 aparente. Outras enzimas foram estudadas em condições e, que a velocidade
variasse de forma hiperbólica consoante [S] e Km-1 aparente foi calculado. Quando mais do que
um substrato é usado, por exemplo, se todas as concentrações de substrato forem mantidas
elevadas e apenas uma concentração de substrato varie, a velocidade da reação depende da
concentração desse substrato. A dependência é normalmente hiperbólica e um KM aparente é
estimado, que é válido para aquele substrato específico. De forma algo enganadora, KM tornou-
se no parâmetro chave para descrever as propriedades cinéticas das enzimas, e a procura de
métodos para calcular KM para pares Ez−S específicos tornou-se uma parte importante da
bioquímica durante muitos anos.
É óbvio que, a partir da equação de Michaelis-Menten:
Vmax [S]
v= (2)
KM + [S]

que quando [S] iguala KM, v=Vmax/2, a interpretação gráfica é imediata, como demonstrado na
figura em baixo. Vmax é o limite assintótico de v quando [S] tende para infinito; KM é a [S] em que
v é metade de Vmax. Esta é a razão pela qual KM é tão popular entre bioquímicos que estudam o
metabolismo. Quando a concentração de substrato desce abaixo de KM, a velocidade da reação
é consideravelmente inferior a Vmax e o processo a ser catalisado perde eficácia. Por isso, KM é o
valor de referência para estimar o impacto metabólico de quedas na concentração de
metabolitos.
O cálculo de KM é, portanto, da maior importância. No entanto, num gráfico experimental de v
vs. [S] com dados discretos, Vmax não é fácil de identificar, uma vez que dados experimentais com
uma [S] alta são difíceis de obter (ver figura abaixo). Atualmente, uma regressão não linear
computacional da Eq. (2) aos dados experimentais seleciona os melhores KM e Vmax de forma
simples, rápida e precisa, mas no início do século XX, quando Leonor Michaelis e Maud Menten
derivaram a Eq. (1), isto não era uma opção. Nos anos 30, Dean Burk e Hans Lineweaver
ultrapassaram a limitação da determinação de Vmax ao linearizarem a equação de Michaelis-
Menten. Quando reescrita na forma 1/v vs. 1/[S], a Eq. (1) torna-se:
1 KM 1 1
= + (3)
v Vmax [S] Vmax
125 4 A Interação e a Regulação do Metabolismo

que descreve uma linha reta de onde tanto KM como Vmax são rapidamente calculados (ver painéis
c e d abaixo).

Interpretação gráfica da hipérbole retangular de Michaelis-Menten (a). KM é a concentração de substrato a


que a velocidade da reação é metade da velocidade máxima, Vmax, que é o limite assintótico da velocidade
para [S] infinita. Na prática, com dados experimentais (b), Vmax é muito difícil de identificar, já que [S] não
pode ser estendido indefinidamente devido à solubilidade ou limitações de custo. Historicamente, a opção
mais comum para obter KM e Vmax era proceder a uma linearização do gráfico de Michaelis-Menten para
estimar graficamente KM e Vmax (c): a interseção com y é 1/Vmax e o declive é KM/Vmax, KM também pode ser
estimado a partir da interseção com o x, que é -1/KM. O painel (d) mostra a linearização dos dados do painel
(b). para os dados apresentados na figura, KM=6.39 mM e Vmax=0.085 Ms-1. Os dados foram extraídos de
um estudo de 1951 sobre a hidrólise de carbobenzoxyglicil-L-triptofano utilizando carboxipeptidase
pancreática (R. Lumry, E. L. Smith, e R. R. Glantz, 1951, J. Am. Chem. Soc. 73, 4330). A linearização da
equação de Michaelis-Menten deve-se a Hans Lineweaver e Dean Burk, que usaram o método pela primeira
vez em 1934. Com as técnicas computacionais e métodos estatísticos modernos, a linearização não é
obrigatória, porquanto Vmax e KM podem ser estimados por métodos de regressão não linear que adequem
a equação de Michaelis-Menten diretamente aos dados experimentais [linha vermelha no painel (b)]
4 A Interação e a Regulação do Metabolismo 126

Bibliografia Selecionada
Newsholme P (2009) A brief history of metabolic pathways and their regulation. Mapping life’s reactions. The
Biochemist, June issue, 4–7
Bar-even A, Flamholz A, Noor E, Milo R (2012) Rethinking glycolysis: on the biochemical logic of metabolic
pathways. Nat Chem Biol 8:509–517
Kornberg A (1993) Recollections: ATP and inorganic pyro- and polyphosphate. Protein Sci 2:131–132
A Regulação dos Metabolismos

Tradução: Felipe Bezerra


Revisão: Zita Matias
(Páginas 157-184)

Nas células, o fluxo de matéria e energia é extremamente controlado, de tal modo que estas mantêm a
sua organização e dividem-se quando necessário. No capítulo anterior vimos que reações consecutivas
podem ser favorecidas através da junção de reações favoráveis a reações não favoráveis, muitas das
quais beneficiam da G0 resultante da hidrólise do ATP. A síntese de ATP envolve o uso da energia
associada ao processamento químico dos nutrientes ou moléculas armazenadas para este propósito
(metabolismo catabólico). Quando em excesso, os nutrientes tendem a realizar uma série de reações
cujos produtos finais são moléculas de armazenamento (metabolismo anabólico) para o uso posterior.
Esta mudança implica uma rede complexa de metabolismos que deve ser inibida ou ativada. A inibição
e ativação ocorrem seletivamente em determinadas reações que, por sua vez, ocorrem em locais
específicos e em momentos precisos no interior das células. Além disso, a mudança requer que
diferentes células no mesmo tecido ou em tecidos diferentes trabalhem de forma coordenada. O fígado,
o tecido adiposo, os músculos e o cérebro, por exemplo, necessitam de coordenação de modo que
quando o cérebro e o tecido muscular necessitarem de nutrientes específicos para funcionarem, este
processo não se torne conflituoso com processos que ocorrem em outros órgãos e para que a falência
do organismo como um todo não ocorra.
Apenas um conjunto de reações especificamente selecionado ocorre num determinado período em
cada organelo de uma célula. Entidades químicas (hormonas) circulam no organismo e são capturadas
por recetores que iniciam pequenas sequências de reações químicas, genericamente designadas de
“vias de transdução de sinais” (ver Caixa 5.1 e Fig. 5.1) através de ligações. No final, estas pequenas
sequências reacionais modificam enzimas que estimulam ou inibem a catálise das reações químicas
(Fig. 5.1). A mesma hormona pode atuar em células diferentes em órgãos distintos. Os eventos
metabólicos que se iniciam em órgãos distintos não são necessariamente os mesmos, mas são
coordenados. Por exemplo, durante o exercício aeróbico prolongado, os músculos consomem ácidos
gordos, que são mobilizados do tecido adiposo; nesta situação, tanto o tecido muscular como o tecido
adiposo não estão a ativar as mesmas vias metabólicas, no entanto, trabalham de forma coordenada.
Uma queda na glicémia (concentração de glicose no sangue) conduz à libertação de glicagina, uma
hormona peptídica sintetizada no pâncreas e que se liga aos recetores dos hepatócitos (células do
fígado) e iniciam uma série de eventos que ativam reações que levam à produção de glicose (ver Cap.
9). A glicose é posteriormente libertada para a corrente sanguínea através da rede capilar otimizada ao
longo de toda a extensão hepática. Este assunto será melhor abordado na Caixa 8.1.

127
128 5 A Regulação dos Metabolismos

Fig. 5.1 Quando há ligação da hormona (círculo verde) ao seu recetor, que pode estar localizado na membrana ou
no interior da célula, isto traduz-se numa pequena sequência de reações químicas (exemplificado aqui como os
compostos de A’ a C) designada de “transdução do sinal”. Uma das consequências poderá ser a modificação de
uma enzima (Ez para Ez’ na imagem). Esta transformação poderá ser uma fosforilação, por exemplo (neste caso,
Ez’ seria Ez covalentemente ligado a um grupo fosfato). Nesta situação hipotética na qual Ez e Ez’ catalisam
reações irreversíveis opostas, o efeito prático da ação da hormona é a de ditar o sentido das reações metabólicas.
Neste caso, a presença da hormona na corrente sanguínea leva à formação do metabolito G no interior da célula
da esquerda. A mesma hormona poderá atuar ao mesmo tempo em diferentes células (coloridas de azul claro e
salmão) em órgãos distintos iniciando vias metabólicas diferentes. A hormona poderá favorecer as vias que levam
ao consumo do metabolito G nas células de outros órgãos (e.g., conduzindo à inibição da enzima que converte K
em J)

Caixa 5.1: Sinalização Celular - Comunicação Entre Células e no Interior das Células
Num organismo complexo, como o ser humano, que tem sistemas especializados com órgãos,
tecidos e células especializadas, a coordenação exige aperfeiçoamento e fiabilidade. A
homeostase do organismo humano requer que a ação de diferentes órgãos não se torne
conflituosa. Imaginemos uma situação como, por exemplo, a de fome prolongada. O fígado
sintetiza glicose e liberta-a para a corrente sanguínea de forma a manter a glicémia dentro de
valores de segurança para o funcionamento do cérebro. O que aconteceria se outros órgãos tal
como o músculo estriado retirassem a glicose da corrente sanguínea para a síntese de
glicogénio, por exemplo? O conflito gerado entre a ação do fígado e do músculo estriado poderia
ser fatal ou, pelo menos, resultaria num enorme desperdício de energia e matéria. Existem
mecanismos de previnem conflitos deste tipo. Estes mecanismos coordenam a ação das células
que poderão estar em contacto umas com as outras num mesmo tecido ou em locais muito
distantes relativamente uma a outra, assim como acontece em órgãos distintos. Existem
moléculas que atuam como “sinais” e que são libertadas de modo a iniciarem eventos
sincronizados e compatíveis em células diferentes. Este fenómeno é conhecido como
comunicação celular ou sinalização celular.
Naturalmente, a sinalização celular, tal como qualquer processo de comunicação, requer uma
origem para o sinal (e.g., hormona), um meio pelo qual o sinal é disseminado e um recetor ou
recetores. O sinal é uma molécula que é sintetizada, pelo que as etapas para a sinalização celular
são (1) síntese da molécula que servirá de sinal; (2) libertação da molécula sinalizadora; (3)
transporte/disseminação até as células-alvo, i.e., células que têm recetores que se ligam e
produzem resposta a molécula sinalizadora; (4) interação com o recetor, habitualmente uma
proteína localizada na célula-alvo; (5) início de eventos físicos ou químicos no interior da célula
que resultam diretamente da interação sinal-recetor (“transdução do sinal”); e (6) geração de
5 A Regulação dos Metabolismos 129

outros eventos, frequentemente uma série de eventos (“cascata” ou “via de sinalização”), que
constitui a resposta final da célula face o sinal.
Hormonas, neurotransmissores, prostaglandinas, fatores de crescimento e citocinas, tal
como as interleucinas e interferões, funcionam como sinais de comunicação bioquímicos. Estes
sinais poderão ser de curto ou longo alcance (ver figura). A comunicação de curto alcance
envolve a difusão dos sinais no meio extracelular numa pequena vizinhança à volta da célula que
secreta a molécula sinalizadora sendo designado de sinalização parácrina. A sinalização
sináptica é um exemplo de sinalização parácrina: a terminação neuronal liberta
neurotransmissores que se ligam aos recetores das células pós-sinápticas. A comunicação de
longo alcance é conhecida com sinalização endócrina. Neste caso, células especializadas em
órgãos especializados sintetizam hormonas, que habitualmente são libertadas na corrente
sanguínea e distribuídas por todo o organismo. As hormonas hidrofílicas são solúveis no sangue
e por isso são facilmente distribuídas; as hormonas hidrofóbicas poderão necessitar de
transportadores e/ou têm limitações severas da concentração que poderão atingir no sangue.
As hormonas esteróis, por exemplo, são hormonas hidrofóbicas derivadas do colesterol e
necessitam de uma associação com proteínas transportadoras de modo as serem distribuídas
no organismo através do sangue.

Existe ainda uma terceira forma de sinalização para além da endócrina e parácrina: autócrina.
No entanto, este tipo de sinalização é habitualmente encontrado em situações patológicas como
nos cancros. As células tumorais libertam fatores de crescimento que se ligam aos recetores da
superfície da própria célula que os liberta, estimulando o crescimento e a divisão celular. Estes
acontecimentos tornam-se desequilibrados e os tumores crescem descontroladamente.
A maioria dos sinais moleculares tem uma elevada seletividade e afinidade para os seus
recetores. Uma elevada seletividade implica que o recetor produza uma resposta apenas quando
contacta com uma estrutura muito precisa do ligando, i.e., a molécula que serve de sinal. Uma
elevada afinidade implica que o equilíbrio da ligação do sinal ligando ao recetor seja
extensivamente desviado para o complexo ligando-recetor unido, que na prática implica que
concentrações muito baixas do ligando produzam uma elevada resposta integrada por parte do
130 5 A Regulação dos Metabolismos

recetor. Concentrações nanomolares (10-9 M) de hormonas habitualmente é suficiente para


iniciar uma resposta fisiológica porque a elevada afinidade para o recetor compensa a baixa
concentração do ligando.
Dependendo se as hormonas sofrem ou não translocação através da membrana plasmática,
os recetores poderão estar localizados à superfície das células ou no seu interior, no citoplasma
ou no núcleo. A adrenalina, a insulina e a glicagina, por exemplo, têm recetores de superfície; pelo
contrário, a testosterona e a progesterona, por exemplo, ligam-se aos recetores intracelulares.
Através da ligação do ligando ao recetor, o processo de transdução do sinal poderá ser de um
dos três principais tipos diferentes, dependendo da funcionalidade do recetor:
1. Quando o recetor é um canal iónico, o ligando poderá ativar ou inibir o fluxo de iões através
do canal. Este é o caso dos recetores de acetilcolina da junção neuromuscular.
2. Quando o recetor está acoplado a uma proteína G (proteínas de ligação a nucleotídeos
guanosina), a ligação do ligando provoca mudanças conformacionais no recetor que
indiretamente ativa a proteína G, que a separa do recetor e liga-se ao adenilato ciclase
(também conhecida como adenilil ciclase) ou a uma fosforilase ou ainda a outra enzima que
catalisa a formação de moléculas designadas segundos mensageiros. Os segundos
mensageiros posteriormente iniciam uma série de reações que irão interferir com o processo
metabólico. O AMP cíclico, o GMP cíclico, o trifosfato de inositol e o diacilglicerol são
exemplos de segundos mensageiros e os recetores de adrenalina e serotonina são exemplos
de recetores acoplados à proteína G.
3. Quando o recetor possui atividade catalítica da tirosina cinase, a ligação do ligando provoca
alterações conformacionais que torna a enzima ativa e, consequentemente, capaz de
fosforilar proteínas nos resíduos de Tyr utilizando ATP como fonte de fosfato. O recetor de
insulina é deste tipo.
As vias de sinalização intracelular que se seguem após a ligação da molécula sinalizadora ao
recetor são diversas. A principal via de sinalização associada à regulação do metabolismo está
discriminada individualmente no texto principal.

A glicémia é um fator chave no metabolismo energético uma vez que o cérebro utiliza
exclusivamente a glicose como fonte para produção de ATP (a única exceção conhecida ocorre durante
períodos de fome prolongada; ver Secção 9.3.4) e não há nenhum mecanismo que mantenha uma
concentração mais elevada de glicose no sistema nervoso central do que no sangue porque os
transportadores de glicose da barreira hematoencefálica não atuam contra um gradiente de
concentração. Assim, a coordenação dos metabolismos que ocorre em diferentes órgãos
simultaneamente é tal que a concentração de glicose no sangue é mantida mais elevada do que um
certo valor limite. Valores abaixo deste valor limite provoca perda de consciência, coma e até mesmo
a morte (Fig. 5.2). Dada a importância do controlo da glicémia e o investimento representado pelas vias
de regulação não é surpreendente que os bioquímicos tendam sobrevalorizar a importância da glicose
como um nutriente em comparação com os aminoácidos e lípidos. Ainda assim, os lípidos e as
proteínas são as reservas energéticas de maior importância do corpo humano (ver Tabela 9.1). Os
metabolismos energéticos são habitualmente, mas de forma errada, associados apenas ao
metabolismo dos hidratos de carbono. Na realidade, os metabolismos dos ácidos gordos, dos
aminoácidos e da glicose estão interligados. No entanto, e apesar das ligações, os metabolitos
pertencentes a cada via não são necessariamente conversíveis entre si. Os lípidos são tipicamente
moléculas de armazenamento, pelo que não podem ser convertidos a glicose ou proteínas; só podem
ser convertidos em metabolitos que, em princípio, seguirão vias de reação que levam a síntese de ATP
(Fig. 5.2).
5 A Regulação dos Metabolismos 131

Fig. 5.2 Vias de conversão permitidas e proibidas do metabolismo humano. A glicose e os ácidos gordos não
podem ser convertidos a proteínas. Os ácidos gordos não podem ser convertidos a proteínas ou glicose. Tal
implica que todo o excesso de nutrientes obtidos na ingestão da comida termine como lípidos, armazenados no
tecido adiposo. A glicémia (concentração de glucose no sangue) precisa ser mantida acima de um certo valor
limite, mesmo na ausência da ingestão de comida. Neste caso, a síntese de glicose é possível utilizando os
aminoácidos resultantes da degradação proteica dos músculos

Em suma, os metabolismos necessitam de regulação tanto no interior das células quanto em


diferentes tecidos, frequentemente em órgãos distintos. Assim, existem diferentes níveis de regulação
aos quais estão associados mecanismos com diferentes eficácias, períodos de tempo e áreas de
impacto.

5.1 Níveis de Regulação: Impacto e a Escala de Tempo


Pense nas tarefas mais simples da sua rotina diária, como, por exemplo, comer, andar e dormir. Elas
parecem ser extremamente banais e simples, passando quase despercebidas nas nossas vidas, no
entanto, são desafios exigentes do ponto de vista metabólico. Estas tarefas envolvem alterações
relativamente rápidas entre o estado de abundância (refeições) e ausência de nutrientes (jejum),
descanso (e.g., ao dormir), exercício moderado (e.g., caminhar), exercício abrupto (e.g., pequena corrida
para apanhar um autocarro) ou exercício intenso prolongado (e.g., um atleta a correr ou a nadar) e todas
as possíveis combinações do estado de alimentação com exercício. Ao mesmo tempo, existem
processos que constantemente consomem energia, tal como a atividade cerebral (qualquer atividade
basal e não apenas exercício mental), o batimento cardíaco ou a manutenção da temperatura corporal.
A adaptação metabólica às condições variáveis para além das atividades basais permanentes exige
mecanismos para a regulação do metabolismo que sejam (1) rápidos, (2) eficientes e (3) robustos. De
facto, estes fatores não são independentes: a robustez advém da redundância dos mecanismos – a
existência de mais do que um mecanismo que assegure o mesmo efeito reduz as possibilidades de
falha; a redundância é uma combinação cooperativa de mecanismos semelhantes – um que seja
rápido, embora não seja tão eficiente e um eficiente, ainda que não seja muito rápido. Habitualmente
os mecanismos de regulação rápidos consistem no controlo da disponibilidade de substrato e/ou da
atividade enzimática, enquanto os mecanismos de regulação extremamente eficientes consistem no
controlo da presença das enzimas, i.e., a sua expressão genética, que obviamente é um processo mais
lento. A expressão genética é habitualmente dependente das hormonas, que garantem a coordenação
do metabolismo em órgãos distintos, todos eles sobre a influência das mesmas hormonas circulantes.
Esta interação entre mecanismos está ilustrada na Fig. 5.3.
132 5 A Regulação dos Metabolismos

Fig. 5.3 Os diferentes níveis de regulação são (1) a disponibilidade de substrato através do controlo do transporte
através das membranas (metabolito B); (2) a ativação enzimática pelos metabolitos a montante (B) da via
metabólica e/ou a inibição enzimática pelo produto dos metabolitos a jusante (E) da via metabólica; (3) a ativação
ou inibição das enzimas através da ligação covalente de um grupo fosfato (P), que é habitualmente o
acontecimento final de uma cascata de eventos provocados pela ligação de uma hormona ao seu recetor
(transdução do sinal); e (4) a expressão/tradução da enzima reguladora controlada pelas hormonas através da
transdução do sinal no interior das células. Os mecanismos dependentes da ação hormonal são mais lentos; o
efeito direto dos metabolitos nas enzimas (ativação ou inibição) é mais rápido porque as enzimas coexistem com
metabolitos de regulação (denominados efetores) no mesmo compartimento celular

5.2 Inibição e Ativação de Enzimas pelos Ligandos


Como foi mencionado na secção anterior, o controlo da atividade enzimática (i.e., alterações das suas
características cinéticas como, por exemplo, a KM ou a Vmax) constitui uma forma rápida de influenciar
a rapidez e o curso das vias metabólicas. Fatores físicos como a temperatura e o pH têm um efeito
direto na estrutura das proteínas porque alteram as forças intramoleculares que estabilizam o folding
proteico. Logo, afetam a atividade enzimática. As enzimas possuem intervalos ótimos de temperatura
e pH nos quais operam (Fig. 5.4). Abaixo ou acima destes intervalos a velocidade da reação na qual
participam diminui. As enzimas humanas estão adaptadas à temperatura do corpo humano e, por isso,
possuem uma atividade ótima de atuação por volta dos 37 ºC. Também estão adaptadas ao pH dos
locais em que se encontram. A pepsina e outras enzimas do estômago, por exemplo, têm uma atividade
ótima num pH ácido.
Existem microrganismos a viver em ambientes extremos como nas fontes termais, com um baixo
pH e temperaturas elevadas. Por este motivo são conhecidos como extremófilos. Não obstante,
mesmo nestes casos, existe uma adaptação das enzimas ao pH local e temperatura. Estas moléculas
são muito apelativas para a indústria bioquímica uma vez que podem ser usadas em processos
industriais que combinam pHs extremos e temperaturas elevadas; no entanto, não fazem parte do
domínio da bioquímica humana, pelo que não serão aqui mencionadas.
Teoricamente, a atividade enzimática poderia ser modulada através de alterações do pH ou da
temperatura; no entanto, não seria uma boa opção uma vez que estes fatores não afetam
especificamente apenas uma enzima numa via metabólica específica. A inibição ou ativação de uma
enzima tem que ser muito seletiva. Encerrar uma via metabólica exige a inibição e/ou ativação de
5 A Regulação dos Metabolismos 133

Fig. 5.4 As enzimas sofrem alterações estruturais do seu folding quando fatores físicos como a temperatura (a)
ou o pH (b) são alterados, que, por sua vez, causam alterações na cinética catalítica. A velocidade da reação é
máxima num intervalo limitado de temperatura ou pH, diminuindo para valores maiores ou menores. As enzimas
estão adaptadas ao pH local dos diferentes microambientes do corpo humano desde do muito ácido (como a
pepsina) até ao mais básico (como a fosfatase alcalina), tal como ilustrado no gráfico (b)

enzimas muito específicas (rever Secção 4.2.1), o que não é compatível com a manipulação do pH ou
da temperatura. Em vez disso, ter pequenas moléculas que se ligam especificamente a um local de
ligação único das enzimas, alterando as suas conformações e influenciando as suas cinéticas
enzimáticas, é uma forma muito mais eficaz de modular especificamente a atividade de enzimas
selecionadas. Estas pequenas moléculas são denominadas ligandos, podendo desacelerar (inibidores)
ou acelerar (ativadores) os processos catalíticos.
No caso de uma enzima que obedeça a cinética de Michaelis-Menten, os ligandos podem,
teoricamente, afetar a Vmax, a KM ou ambas. Os mecanismos moleculares por detrás da influência dos
ligandos na Vmax ou na KM poderão ser muito diversificados, mesmo que o resultado final seja o mesmo.
Dois inibidores diferentes poderão ter um impacto na Vmax, por exemplo, ao se ligarem a locais
diferentes da mesma enzima e produzindo efeitos diferentes na estrutura enzimática. Por outras
palavras, as alterações provocadas pelos ligandos nos parâmetros cinéticos não refletem acerca de
como os ligandos e as enzimas interagem. Para relacionar a cinética enzimática com o mecanismo de
interação, deve-se recorrer a modelos, i.e., formulações hipotéticas e eventos postulados, de modo a
deduzir a cinética final.
Isto significa que os exemplos dados no Caixa 4.4 podem ser extrapolados para o caso em que uma
molécula adicional, o inibidor ou o ativador, interage com a enzima EZ, para além de S (o substrato) e P
(o produto). Vejamos um exemplo muito simples. Partindo do princípio que existe um ligando que se
liga a EZ e impede que S se ligue a EZ (neste caso o ligando atua como um inibidor e será representado
por I), o mecanismo reacional será composto por
EZ + S ⇌ EZ S → EZ + P (Atividade catalítica sem a perturbação em si) (5.1)
EZ + I ⇌ EZ I (Ação do inibidor) (5.2)
A ação de I é de impedir que parte de EZ participe da reação. A concentração efetiva de EZ disponível
para interagir com S diminui e, consequentemente, a KM parece ter aumentado. Ao termos uma ligação
menos extensiva de EZ a S aparentemente há uma diminuição da afinidade de E Z para S. Na realidade,
a ligação intrínseca de EZ a S não é alterada; é o “aprisionamento” de EZ feito por I que provoca a
alteração da KM. Para uma concentração muito elevada de S, sendo S tão abundante relativamente a I
que, na prática, a influência de I na ligação de EZ a S não é relevante, pelo que Vmax mantém-se constante.
A Vmax é k2·[EZ]0 (Caixa 4.4) e I não altera k2 ou [EZ]0. O gráfico da velocidade da reação vs. [S] mostra
134 5 A Regulação dos Metabolismos

Fig. 5.5 Dois possíveis efeitos de um inibidor na cinética de uma enzima de Michaelis-Menten. (a,b) KM aumenta
sem alteração de Vmax. (c,d) Vmax diminui sem alteração de KM. Alterações simultâneas de Vmax e KM também são
possíveis (não representadas), que na prática representam as situações mais frequentes

um pequeno declive para uma pequena [S], mas o mesmo valor da assíntota (Vmax) na presença de I
quando comparado com o gráfico na ausência de I (Fig. 5.5).
Se I liga-se irreversivelmente a EZ (EZ + I → EZ I), parte da população enzimática é permanentemente
bloqueada por I, pelo que a concentração efetiva de EZ livre e disponível para interagir com S diminui,
mesmo que a concentração de S seja elevada. Neste caso, Vmax diminui (recorde-se que Vmax = k2·[EZ]0
– Caixa 4.4).
Nos esquemas reacionais em (5.1) e (5.2) mostrados acima, partiu-se do princípio que EZ ligou-se a
S ou a I, mas não aos dois simultaneamente. É esperado que tal ocorra nos casos em que S e I
competem pelo sítio catalítico ativo da enzima. Este mecanismo é, portanto, denominado
“competitivo”. Existem outros esquemas reacionais que consideram a ligação simultânea de I e S a E Z
(o que pressupõe que não estejam a competir para o mesmo sítio de ligação – inibição “não
competitiva”):
EZ + S ⇌ EZ S → EZ + P (Atividade catalítica sem a perturbação em si) (5.3)
EZ + I ⇌ EZ I (Ação do inibidor) (5.4)
EZ I + S ⇌ EZ SI (Ligação da enzima a S depois da ligação a I) (5.5)
EZ S + I ⇌ EZ SI (Ligação da enzima a I depois da ligação a S) (5.6)
5 A Regulação dos Metabolismos 135

Neste caso, a ligação de I a EZ dificulta o processo catalítico, mas não a ligação de S ao sítio
catalítico em si, pelo que Vmax diminui, mas KM não é alterado (Fig. 5.5). Mesmo para uma elevada [S],
uma fração de EZ liga-se a I. A quantidade total de EZ disponível para o processo catalítico diminui e
Vmax também diminui (novamente, relembre que Vmax = k2·[EZ]0 – Caixa 4.4). Na prática, não é frequente
encontrar inibidores que perturbem as estruturas proteicas com um efeito seletivo sobre a Vmax sem
alterar KM, no entanto, a inibição não competitiva mantém o interesse didático.
É interessante notar que Vmax também diminui nos casos em que k2 diminui. Tal pode ocorrer quando
EZSI, nas reações 3 e 4 acima, mantém uma atividade catalítica (EZ SI ⇌ EZ S + P), mas mais lentamente
quando comparada com EZ livre. A constante da taxa catalítica (k2) diminui na fração da enzima
associada a I (EZI) e Vmax diminui.
Também poderá acontecer de EZ ligar-se a ligandos que têm um efeito oposto dos inibidores de E Z:
aumentar k2, logo aumentando a velocidade do processo catalítico. Neste caso, o ligando é denominado

Fig. 5.6 Quatros exemplos de mecanismos reacionais e respetivas alterações cinéticas nas enzimas de Michaelis-
Menten ou semelhantes. Dependendo dos mecanismos e respetivos esquemas reacionais, o resultado aparente
de Vmax e KM poderão diferir ou não de Vmax e KM na ausência do inibidor, I. O primeiro mecanismo é denominado
“inibição competitiva”, no entanto, os outros possuem nomes que nem sempre são consensuais. O segundo e o
terceiro mecanismos são habitualmente referidos como “não competitivo” e o quarto como “incompetitivo”
136 5 A Regulação dos Metabolismos

“ativador”, em oposição a “inibidor”. Também existem ativadores que diminuem KM. A ligação de S a EZ
poderá ser afetada quando a estrutura do sítio catalítico de E Z é alterada em consequência de uma
alteração conformacional provocada pela ligação do ativador a um sítio de ligação específico na
proteína.
Dependendo das características dos esquemas reacionais, nomeadamente, a estequiometria das
interações, a diversidade das moléculas de interação, a reversibilidade das reações, etc., a cinética
expectável poderá ser muito variável. Na Figura 5.6 está um simples exemplo ilustrativo baseado na
cinética de Michaelis-Menten.
Quando se trabalha no campo da enzimologia, deve-se ter em conta que não existe uma
correspondência direta entre a cinética experimental, os esquemas de reação e os mecanismos
moleculares de ação. Poder-se-á conceber mecanismos, inferir sobre os esquemas de reação
subjacentes, deduzir matematicamente a cinética associada e estudar a ligação entre a cinética
deduzida e os dados experimentais, no entanto, o inverso não é possível. Não é possível deduzir,
inequivocamente, mecanismos a partir das curvas da cinética experimental. Sendo assim, é precipitado
afirmar que um mecanismo é competitivo numa situação em que os dados experimentais mostram um
KM mais elevado e um Vmax igual a outro mecanismo que resulte de uma cinética semelhante. No
entanto, para a maioria das situações práticas relacionadas as ciências da saúde, os mecanismos
exatos de ação não são todos relevantes, pelo que o raciocínio de pesquisa prática em enzimologia
não será mais desenvolvido.
É importante realçar que tudo aquilo já mencionado sobre enzimas que possuem uma cinética de
Michaelis-Menten (ou que são semelhantes) é válido, com algumas adaptações, para enzimas com
uma cinética mais complexa como a sigmoide (Fig. 5.7). Assim, o conceito geral da inibição ou ativação
de enzimas utilizando pequenas moléculas como os ligandos poderá ser potencialmente aplicado para
todas as enzimas do metabolismo.

Fig. 5.7 Efeito da ativação ou inibição catalítica na cinética sigmóidea. O impacto poderá ser na [S] necessária para
atingir 50% da velocidade máxima (K0.5) (a) ou velocidade máxima atingida, Vmax (b)

A importância dos inibidores enzimáticos na descoberta e desenvolvimento de fármacos é enorme.


Muitos dos fármacos dos medicamentos atuais têm como alvos enzimas (Tabela 5.1) e foram
concebidos para bloquear processos nos quais estas enzimas são essenciais. A inibição da HMG-CoA
redutase, por exemplo, resulta na inibição da síntese de colesterol. Uma das estratégias mais comuns
para a criação de inibidores é a síntese de moléculas que são semelhantes o suficiente para que o
substrato se ligue ao sítio catalítico, mas que seja incapaz de sofrer o processo catalítico. A Figura 5.8
mostra vários exemplos de substâncias naturais e moléculas semelhantes que atuam como inibidores
5 A Regulação dos Metabolismos 137

Tabela. 5.1 Exemplos de fármacos, enzimas-alvo e área terapêutica

Fármaco Enzima-alvo Área terapêutica


Aspirina Cicloxigenase Anti-inflamatório
Captopril e enalapril Enzima conversora da Anti-hipertensivo
angiotensina (ECA)
Sinvastatina HMG-CoA redutase Diminuição dos níveis de
colesterol
Desipramina Monoamina oxidase Antidepressivo
Clorgilina Monoamina oxidase A Antidepressivo
Selegilina Monoamina oxidase B Tratamento da doença de
Parkinson
Metotrexato Diidrofolato redutase Anticancerígeno
5-Fluorouracil Timidilato sintase Anticancerígeno
Viagra Enzima fosfodiesterase Tratamento da disfunção erétil
masculina
Alopurinol Xantina oxidase Tratamento da gota
U75875 Protease do VIH Terapia da SIDA
Ro41-0960 Catecol O-metiltransferase Tratamento da doença de
Parkinson
Omeprazol ATPase da bomba protónica de Terapia da úlcera
H+/K+
Organofosfatos Acetilcolinesterase Tratamento da miastenia gravis,
glaucoma e doença de Alzheimer
Acetazolamida Anidrase carbónica Diurético
Zileuton 5-Lipoxigenase Antiasmático

das enzimas. Em alguns casos, a ligação do inibidor à enzima é reversível, mas noutros casos, os
inibidores reagem covalentemente com a enzima e a ligação é, na prática, irreversível.

Fig. 5.8 Exemplos de inibidores enzimáticos que são muito semelhantes na sua estrutura química a substâncias
naturais
138 5 A Regulação dos Metabolismos

O ligandos para além dos substratos que possuem um efeito significativo na velocidade catalítica são
geralmente denominados efetores. Estes podem ser ativadores (aumentam a rapidez da reação) ou
inibidores (diminuem a rapidez da reação). Teoricamente, os efetores ligam-se e dissociam-se das
enzimas sem sofrer alterações químicas, ao contrário dos substratos. Por razões históricas, alguns
substratos onipresentes, como o NADH ou NADPH, são muitas vezes nominados separadamente como
coenzimas. Estas tais coenzimas são pequenas moléculas que transferem ou aceitam grupos de
outros substratos. Estes não devem ser confundidos com os grupos prostéticos. Os grupos prostéticos
são entidades químicas de natureza não proteica ligados covalentemente a enzimas, tal como os
grupos heme dos centros de ferro-enxofre (Fig. 5.9). Estes grupos têm um papel direto no processo
catalítico, no entanto, não são considerados substratos, uma vez que, em termos químicos, fazem parte
da própria enzima.

Fig. 5.9 Os centros de ferro-enxofre (a) e os grupos heme (b) são exemplos de grupos prostéticos uma vez que
não são resíduos de aminoácidos e ligam-se covalentemente às enzimas. A estrutura em múltiplos anéis de A-D
(tetrapirrol) no painel (b) é uma estrutura base da família de moléculas denominadas porfirinas. O ião metálico
central varia de acordo com a porfirina. Os conjugados iónicos férricos das porfirinas são os hemes. Os dois
estados de oxidação do ferro (+3, esquerda ou +2, direita) são suportados pelo tetrapirrol, o que significa que o ião
de ferro central pode participar de reações de redução-oxidação enquanto está inserido no heme. Os grupos
orgânicos de R1-R3 variam de acordo com o heme de diferentes origens

As regras de nomenclatura são se encontram bem definidas. O ATP, por exemplo, é muitas vezes
referido como uma coenzima, no entanto, esta não é uma regra geral. O mesmo acontece com a CoA.
O NADH e o NADPH são mais consensualmente classificados como coenzimas. O FADH é
frequentemente referido como uma coenzima, mas surge na natureza ligado covalentemente a
proteínas, pelo que na realidade é um grupo prostético. Apesar de ser importante ter uma nomenclatura
precisa de modo a que a comunicação seja eficiente e imparcial, não se deve sobrevalorizar a
denominação em prol da ação, pelo que a semântica não será mais discutida.
5 A Regulação dos Metabolismos 139

5.3 A Disponibilidade dos Precursores Primários numa Via Metabólica


Numa via metabólica como aquela representada na Fig. 5.1, a velocidade das reações não é unicamente
controlada pelas características cinéticas das enzimas envolvidas, mas também pelo acumulo de G na
célula onde aparece como produto final e disponibilidade de G na célula em que é o precursor primário.
De modo a sair de uma célula e entrar em outra, o metabolito G precisa atravessar as membranas das
duas células. Assumindo que G é polar, este não irá difundir-se através da bicamada lipídica da
membrana. Será, então, necessário ser transportado por moléculas especializadas ou agregados
moleculares. Tomado a glicose como exemplo. Esta poderá ser produzida pelos hepatócitos numa via
metabólica denominada gliconeogénese e ser consumida nos neurónios. A glicose é uma molécula
polar, solúvel no plasma. Para sair dos hepatócitos e entrar nos neurónios, a glicose utiliza proteínas
transmembranares que auxiliam no processo de translocação da glicose através de membranas.
Dada a importância do transporte através de membranas para os metabolitos, iremos discutir mais
detalhadamente este assunto na próxima secção.

Na Figura 5.10 estão representadas as seis vias alternativas típicas que as moléculas utilizam para
atravessar as membranas. As moléculas hidrofóbicas relativamente pequenas como o etanol poderão
não necessitar de um transportador uma vez que são capazes de se difundirem através da bicamada
lipídica. Os pequenos iões são impedidos de se difundirem através da bicamada devido à sua
polaridade, no entanto, são capazes de atravessar as membranas se forem envolvidos por agentes
quelantes que são solúveis em lípidos. Os iões também podem atravessar as membranas através dos
canais iónicos, que são proteínas que conectam os dois lados das membranas e que são seletivamente
permeáveis a iões específicos. Proteínas semelhantes constituem canais para pequenas moléculas,
que têm a sua difusão facilitada através da membrana. Todos estes processos, desde a difusão
simples até a difusão facilitada, funcionam com a translocação líquida de moléculas numa direção, de
um gradiente eletroquímico mais elevado para um gradiente eletroquímico mais baixo. Se a
concentração e a distribuição de carga elétrica forem iguais nos dois lados da membrana, não há
movimento líquido de massas através da membrana, uma vez que a velocidade de transferência num
sentido é igual à velocidade no sentido oposto.

Fig. 5.10 Seis vias diferentes que as moléculas e iões podem utilizar para a translocação de membranas lipídicas:
difusão simples (a), mediado por um ionóforo (b), canais de sódio (c), difusão facilitada (d), transporte ativo
primário (e) e transporte ativo secundário (f). As vias de (a)-(c) são controladas pelo potencial do gradiente
eletroquímico (diferença de concentração e distribuição de carga elétrica entre os dois lados da membrana) –
transporte passivo. As vais de (e)-(f) utilizam a hidrólise do ATP ou a dissipação do gradiente iónico,
respetivamente, como fontes de energia – transporte ativo
140 5 A Regulação dos Metabolismos

Na Figura 5.11 destaca-se a estrutura molecular de um canal específico de K+ e de uma aquaporina,


um canal de água através de membranas.
O transporte de moléculas contra o gradiente eletroquímico não é um processo energeticamente
favorável. Assim, para transportar moléculas contra um gradiente eletroquímico, é necessário utilizar
uma fonte externa de energia. Alguns utilizam ATP (transporte ativo primário – Fig. 5.10d); outros
acoplam o transporte de um soluto ao transporte de um ião através do seu gradiente eletroquímico

Fig. 5.11 (a) Estrutura molecular do canal de K+ de Streptomyces lividans (PDB 1BL8) visualizada longitudinalmente
(em baixo) e perpendicularmente (em cima) em relação à membrana. Os canais de K+ são os canais iónicos mais
amplamente distribuídos em organismos vivos. Quatro subunidades, contendo duas hélices transmembranares
cada, organizadas numa estrutura cónica na qual os oxigénios do esqueleto central do carbonilo formam poros
seletivos de K+ nos quais encaixam de forma precisa o ião (ver detalhes à esquerda, PDB 1J95), removendo a
camada de hidratação do ião quando este entra no canal. O canal acomoda quatro locais para o K + que são
ocupados alternadamente. (b) Estrutura de uma aquaporina de um espinafre (PDB 2B5F) visualizada
longitudinalmente (em baixo) e perpendicularmente (em cima) em relação à membrana. A aquaporina transporta
seletivamente moléculas de água para dentro e fora das células. A proteína é um tetrâmero com subunidades
idênticas, cada uma das quais contém um poro transmembranar (ver detalhes à direita). Todas as aquaporinas
possuem uma sequência conservada de Asn-Pro-Ala (destacada a amarelo) que faz parte do canal de água. O
canal de água também possui uma His conservada que estreita o diâmetro do poro, limitando a passagem de
moléculas maiores do que a água e uma Arg conservada que repele catiões, incluindo o H3O+ (destacado a laranja).
O posicionamento da molécula de água é apenas uma tentativa ilustrativa do processo
5 A Regulação dos Metabolismos 141

(transporte ativo secundário – Fig. 5.10e). O acoplamento pode ser tal que tanto o ião quanto o soluto
são co-transportados na mesma direção (simporte) ou em direções opostas (antiporte). Os
mecanismos dos transportes primário e secundário são coordenados quando estes transportam iões
ou solutos comuns (Fig. 5.12). Um exemplo de difusão simples e antiporte é mostrado na Fig. 5.13. O
transporte da glicose nas células do epitélio intestinal está representado na Fig. 5.14 como um exemplo
da agregação dos transportes que podem ser encontrados nos epitélios humanos.
Os canais e os transportadores trabalham sobre as mesmas condições termodinâmicas das
enzimas. A difusão através de membranas mediada por transportadores tem uma energia de ativação
mais reduzida (Fig. 5.15). Para além disso, os transportadores são proteínas cujas ações partilham
semelhanças com as enzimas. Admitindo o transporte de um soluto, S, do exterior para o interior de
uma membrana pelo transportador, T, sendo descrito como
Sext + T ⇌ ST → Sint + T
a cinética associada ao transporte é hiperbólica, tal como um processo de Michaelis-Menten (Fig. 5.16).
Da mesma forma, existem inibidores e ativadores de transportadores. Assim, os transportadores
também podem ser pontos de regulação do metabolismo e, consequentemente, alvos para fármacos.
Outra maneira de controlar a ação dos transportadores é através do controlo da sua disponibilidade
na superfície das células. Os transportadores encontram-se incorporados na matriz da bicamada para
que sejam removidos da superfície celular através do processo de vesiculação. Isto acontece com os
transportadores de glicose como o transportador de glicose tipo 4 (GLUT4). O GLUT4 é responsável
pelo aporte de insulina estimulado pela glicose nos músculos e tecido adiposo. A ligação da insulina
ao seu recetor na superfície das membranas conduz à fusão das membranas das vesículas
intracelulares contendo GLUT4 com a membrana da célula, expondo os transportadores (ver Secção
8.4.3). O transporte da glicose ocorre, ficando esta molécula disponível no interior das células (Fig.
5.17). A partir deste momento, as vias metabólicas que têm a glicose como precursor, tal como a
glicólise, poderão ter início.

Fig. 5.12 O transporte unidirecional de um único soluto é designado uniporte (a). O co-transporte implica que dois
solutos (ou um soluto e um ião) sejam transportados simultaneamente, na mesma direção (simporte – b) ou em
direções opostas (antiporte – c). O transporte ativo primário (d) às vezes é acoplado a um co-transporte (e) através
da criação de um gradiente iónico ou molecular (molécula amarela) que é utilizado para transportar o soluto
vermelho independentemente do seu gradiente
142 5 A Regulação dos Metabolismos

Fig. 5.13 Transporte de iões e solutos através da membrana dos eritrócitos. O CO 2 é uma pequena molécula capaz
de se difundir diretamente através da membrana de acordo com a seu gradiente de concentração (nos pulmões:
dentro → fora; nos tecidos: fora → dentro). O ácido carbónico (bicarbonato) é co-transportado juntamente com o
cloreto. A direção do transporte depende da concentração de CO 2 porque o CO2 entra em equilíbrio com o HCO3-

Fig. 5.14 O sistema de transporte da glicose nas células do epitélio intestinal é complexo e inclui o transporte do
lúmen intersticial para o citoplasma e do citoplasma para o sangue. O Na+ possui um papel central uma vez que
faz parte dos dois processos
5 A Regulação dos Metabolismos 143

Fig. 5.15 Termodinâmica da passagem de uma molécula polar ou de um ião (círculo verde) através de uma
membrana lipídica. A difusão simples (a) implica um custo energético elevado para remover a camada de
hidratação à volta do soluto. A ação do transportador (b) conduz a uma diminuição da energia de ativação (o G
representado no painel à esquerda) de translocação membranar pela molécula ou ião. O transportador substitui a
água através da formação de ligações de hidrogénio com o soluto

Fig. 5.16 Cinética semelhante à de Michaelis-Menten de um transporte de soluto através de membranas. Kt é


equivalente a KM, com a exceção de diz respeito a um transporte e não a um processo catalítico

Fig. 5.17 Exposição do GLUT4 pelo estímulo de insulina à superfície dos músculos e adipócitos. As vesículas que
contêm GLUT4 são recrutadas e fundem-se com a membrana plasmática. O GLUT4 é automaticamente exposto.
Na ausência de insulina, o processo é revertido
144 5 A Regulação dos Metabolismos

5.4 Mecanismos Lentos (Mas Eficientes!) do Controlo da Ação Enzimática


A resposta enzimática aquando da ligação do efetor é extremamente rápida. Ao mesmo tempo que
ocorre o acúmulo ou diminuição da quantidade do efetor, a ligação ou dissociação, respetivamente,
deste é quase imediata. Mesmo assim, a eficácia do processo de inibição ou ativação é dependente da
concentração. Se as concentrações forem extremas o efeito também será extremo, no entanto, se as
concentrações do efetor forem intermédias, a inibição ou ativação dá-se apenas parcialmente. Ao
contrário da ligação não-covalente dos efetores, existem dois mecanismos de ação enzimática que são
extremamente eficientes, apesar de não serem imediatos. Estes incluem a modificação covalente das
enzimas utilizando fosfatos, que poderá demorar minutos, e a síntese ou degradação das próprias
enzimas, que poderá levar horas ou dias.
A fosforilação das enzimas ocorre nos grupos –OH; assim, este é um processo que ocorre ao nível
dos resíduos expostos de Ser, Thr ou Tyr. Este processo frequentemente envolve ATP e é catalisado
por uma segunda enzima, uma cinase. O processo inverso, a desfosforilação, também é catalisado por
enzimas, designadas fosfatases (Fig. 5.18). O fosfato é o grupo onipresente utilizado para a
modificação covalente de enzimas na natureza, mas não existem regras que ditem que a forma ativa
de uma enzima é fosforilada ou não. Na Tabela 5.2 estão exemplos de enzimas que se encontram
ativas ou inativas quando fosforiladas.

Fig. 5.18 Reações comuns


para a fosforilação ou
desfosforilação de
enzimas. O processo
envolve a ação de outras
duas enzimas: uma cinase
e uma fosfatase

A presença ou ausência de um grupo fosfato na proteína poderá tem um grande impacto no domínio
em que a reação acontece. Alterações locais da estrutura poderão propagar-se através da arquitetura
tridimensional da proteína e iniciar ou bloquear a atividade enzimática. A razão pela qual os fosfatos
são a única opção utilizada pela natureza para realizar está tarefa é intrigante. Acredita-se que está
relacionada com a abundância dos fosfatos e a sua natureza química. Os fosfatos ligam-se a moléculas
orgânicas, formando ésteres, mantendo a sua carga aniónica, o que os protege da hidrólise. Os
nucleófilos, como o ião hidróxido, são repelidos por cargas negativas e, portanto, reagem menos
rapidamente com aniões do que com substâncias neutras. Para além disso, o mesmo é verdade para
os nucleófilos eletricamente neutros como é o caso da água.
A constante de velocidade para a reação do hidróxido com o anião dimetil-fosfato é menor do que
para a reação do ião hidróxido com o fosfato trimetílico, sendo a razão maior do que 10 5 (Tabela 5.3).
5 A Regulação dos Metabolismos 145

Tabela 5.2 Algumas enzimas tornam-se ativas quando fosforiladas; outras tornam-se inativas. Não há uma regra
geral para este processo

Via metabólica Enzima Forma fosforilada


Ativa Inativa
Glicogenólise Cinase da glicogénio fosforilase ✓
Glicogénio fosforilase ✓
Glicogénese Glicogénio sintetase ✓
Glicólise e gliconeogénese Fosfofrutocinase 2 ✓
Frutose 2,6-bifosfatase ✓
Piruvato cinase ✓
Lipólise (conversão de triacilglicerídeos Lipase ✓
em glicerol e ácidos gordos)
Lipogénese Citrato liase ✓
Acetil-CoA carboxilase ✓
HMG-CoA redutase ✓

Tabela 5.3 Velocidade das reações Éster k (M-1s-1) Vezes maior em ka


dos ésteres com OH- a 35 ºC
(CH3O)2PO-2 210-9 1,0
(CH3O)3P=O 3,410-4 1,7105
CH3O32C2H5 1,010-2 5,0106
aRelativo a (CH3O)2PO-2

O mecanismo da fosforilação/desfosforilação que ativa e desativa as enzimas está presente nas


enzimas-chave do metabolismo. O principal evento que desencadeia a fosforilação ou desfosforilação
de enzimas é a interação de uma hormona com o seu recetor, tal como ilustrado na Fig. 5.1. A figura
mostra que a ligação de H ao seu recetor inicia uma série de transformações cujo resultado final é a
fosforilação/desfosforilação da enzima-chave. Os passos intermédios são geralmente referidos como
a transdução do sinal e as espécies químicas envolvidas são os segundos mensageiros. Não iremos
desenvolver o tema da transdução do sinal em detalhes porque nesta secção o nosso objetivo é
clarificar as bases da regulação do metabolismo (a transdução do sinal desencadeada por hormonas
específicas será abordada em detalhe nos capítulos que exploram a regulação do metabolismo em
diferentes situações fisiológicas – Caps. 8-11). Não obstante, vale a pena mencionar que existem duas
classes principais de recetores que desencadeiam a transdução do sinal: recetores acoplados à
proteína G e recetores ligados a cinases. A ligação do ligando (habitualmente designado “agonista” em
farmacologia) aos recetores do primeiro tipo provoca a conversão de GDP a GTP e a libertação de um
complexo proteico associado ao recetor que será associado a outros alvos moleculares, tal como a
adenilato ciclase, que converte ATP em AMP cíclico (cAMP). O aumento da concentração de cAMP
poderá estimular outras reações químicas como numa cascata de eventos.
Para além dos recetores acoplados à adenilato ciclase (Fig. 5.19), existem outros casos, como os
recetores acoplados à fosfolipase C. Neste caso, a libertação do complexo proteico associado ao GTP
associa-se a fosfolipase C e conduz à hidrólise do difosfato de fosfatidilinositol das membranas em
diacilglicerol e trifosfato de inositol, sendo o último um segundo mensageiro.
Os recetores ligados a cinases são proteínas transmembranares com domínios extracelulares que
se ligam aos ligandos agonistas, incluindo as hormonas, e domínios intracelulares que possuem
resíduos aminoácidos que sofrem fosforilação. Uma cascata de eventos é iniciada (“cascata da
cinase”).
Os sistemas de transdução do sinal mais importantes para a dinâmica e regulação do metabolismo
serão apresentados ao longo dos capítulos que se seguem, juntamente com a via metabólica para o
qual sejam relevantes. No entanto, é importante realçar quem o efeito final de algumas hormonas que
se ligam aos recetores da superfície celular poderá ocorrer no núcleo, como o recrutamento dos fatores
de transcrição (Fig. 5.20). Assim, as hormonas são capazes de controlar a atividade enzimática num
146 5 A Regulação dos Metabolismos

Fig. 5.19 Representação genérica de um recetor acoplado à proteína G. Após a ligação do ligando agonista ao
recetor (e.g., norepinefrina), a adenilato ciclase é ativada e cAMP é produzido

nível mais avançado: biossíntese enzimática. As hormonas não só são capazes de ativar/inibir as
enzimas através de fosforilação ou desfosforilação, mas também conseguem controlar a
disponibilidade enzimática através do controlo da sua biossíntese. Esta redundância assegura uma
elevada eficiência numa larga escala de tempo uma vez que a modificação covalente de enzimas é
conseguido num intervalo de minutos enquanto que o controlo da síntese é conseguido num intervalo
de horas ou dias. A síntese do colesterol é tida como um exemplo na Fig. 5.21.

Fig. 5.20 Impacto do recetor


do agonista na via de
transcrição da adenilato
ciclase. As hormonas poderão
interferir na biossíntese
enzimática utilizando
mecanismos semelhantes. Gs
– proteína G reguladora e
estimuladora, PKA – Proteína
cinase A, PKA-C – subunidade
catalítica da PKA, CREB –
proteína de ligação ao
elemento de resposta do
cAMP
5 A Regulação dos Metabolismos 147

Fig. 5.21 A HMG-CoA redutase é uma enzima-chave na biossíntese do colesterol. É regulada por mecanismos
lentos: modificação covalente (inativação por fosforilação) e inibição da transcrição pelo produto final, o colesterol.
A insulina e a glicagina produzem um efeito oposto: a insulina estimula a síntese do colesterol e a glicagina
estimula a inibição da HMG-CoA redutase, encerrando a via da síntese

5.5 Moléculas-Chave do Metabolismo Energético


Da mesma maneira que o ATP é frequentemente utilizado no metabolismo porque à sua hidrólise
favorável é acoplada reações desfavoráveis fazendo com que o conjunto das reações químicas seja
favorável, o NADH (ver a estrutura química do NADH na Fig. 3.23) também é uma molécula
frequentemente utilizada nas reações de redução-oxidação. O processo pode ser representado por
NAD+ + 2H ⇌ NADH + H+
no entanto, não se torna elucidativo o seu papel nas reações de redução-oxidação. Uma melhor
representação será
NAD+ + RH2 ⇌ NADH + RH+ (ou NADH + R + H+)
em que RH2 é uma molécula genérica. Nesta reação a redução do NAD+ é acompanhado da oxidação
do RH2. Este será o caso da reação seguinte

NAD+ + ⇌ NADH + + H+
Ácido lático Ácido pirúvico

Na literatura bioquímica, a estequiometria das reações e a participação da H 2O e do H+ (ou H3O+)


nem sempre são representadas por questões de simplificação, sendo que este processo poderá ser
simplesmente escrito como
NAD+ NADH

Ácido pirúvico Ácido lático

NADH NAD+
148 5 A Regulação dos Metabolismos

no entanto, não se deve esquecer dos pormenores químicos implícitos ainda que não estejam
representados.
O NADH está tão onipresente nas células que pode ser considerado um portador “universal” de
eletrão. O NADH é utilizado nas células devido ao seu grande poder redutor (dador de eletrões); O NAD+
é convertido a NADH através da oxidação de outras moléculas. A maioria das reações metabólicas que
envolvem o NADH/NAD+ são catalisadas. As enzimas que catalisam a oxidação de um substrato
juntamente com a transferência de um ou mais hidretos (H-) para um aceitador de eletrões como o
NAD+ (ou uma molécula equivalente como o NADP+, o FAD ou o FMN; ver Fig. 3.23) são designadas
desidrogenases.
Existem outros exemplos de moléculas onipresentes no metabolismo, apesar de não serem tão
notáveis quanto o NADH ou o ATP. A biotina, por exemplo, é um grupo prostético (não é um resíduo
aminoácido) não proteico que se encontra nas carboxilases e participa na adição de grupos CO2 do
HCO3- nas moléculas orgânicas, como está exemplificado na Fig. 5.22 (na qual EZ é a enzima):

Fig. 5.22 A biotina encontra-se


nas carboxilases (Ez-biotina) e
participa na adição dos grupos
CO2 do HCO3- nas moléculas
orgânicas como o piruvato

A acetil-CoA (acetil ligado a uma coenzima A, CoA – Fig. 5.24) é uma molécula extraordinária uma
vez que é um metabolito comum. A acetil-CoA é importante para o metabolismo da glicose, para a
degradação dos ácidos gordos, para o metabolismo dos aminoácidos e para a síntese do colesterol. A
sua onipresença não é tão fácil de explicar como a universalidade do ATP (hidrólise com G0 << 0), do
NADH (elevado poder redutor; G0 << 0 na redução) ou da biotina (funcionalidade específica nos
processos de carboxilação). Os grupos acetil parecem ser a “unidade de transferência de carbono”
universal e a CoA o seu transportador para este efeito. O acetil (ou etanoil) é um grupo com dois
carbonos do tipo:
R
|
C=O
|
CH3
Nesta fórmula o R representa uma molécula genérica à qual o grupo acetil se liga (i.e., a molécula
acetilada). Na acetil-CoA, o R é representado pela CoA. A degradação da glicose, dos ácidos gordos ou
dos aminoácidos resulta em grupos acetil ligados à CoA. Os grupos acetil podem depois ser utilizados
para formar NADH a partir de NAD+, que, por sua vez, auxiliará na transformação de ADP em ATP. Para
além disso, sobre circunstâncias diferentes, os grupos acetil da acetil-CoA poderão também ser
5 A Regulação dos Metabolismos 149

utilizados na síntese de moléculas, funcionando como um fornecedor de carbonos para o crescimento


dos esqueletos de carbono. A CoA, neste caso, compete com as enzimas que contêm biotina.
Um esquema genérico dos metabolismos construídos em função das “moléculas universais” ATP,
NADH e acetil-CoA está representado na Fig. 5.23.
É muito curioso que a fração estrutural das moléculas de ATP, NADH ou acetil-CoA envolvidas na
própria reatividade química seja muito pequena quando comparada com a molécula como um todo
(Fig. 5.24). Além disso, em princípio poderá parecer intrigante que em algumas reações do
metabolismo o ATP seja substituído por GTP ou UTP e o NADH seja substituído por FADH 2 ou NADPH
(Fig. 5.24).

Fig. 5.23 Visão muito ampla e breve do metabolismo energético do ser humano. Os metabolitos intermédios não
estão representados por questões de simplificação. As principais interações do NADH, acetil-CoA e do ATP estão
em destaque. TCA - Ciclo dos ácidos tricarboxílicos (também conhecido como ciclo do ácido cítrico ou ciclo de
Krebs)

O GTP ou o UTP não diferem do ATP quando há a quebra da ligação fosfodiéster de modo a formar
ADP (que é análogo do GDP ou do UDP). A fosforilação do NAD de modo a formar NADPH ocorre num
local que não afeta o grupo dador de eletrões. Assim sendo, qual será a vantagem de ter moléculas
relativamente grandes para realizar reações químicas simples que envolvem apenas pequenos grupos
das suas estruturas? Qual será a vantagem de ter moléculas análogas com a mesma reatividade que
apenas diferem na parte “inerte” destas moléculas? As respostas são muito simples: ao ter moléculas
com uma dimensão significativa facilita-se o reconhecimento e a especificidade dos locais de ligação
das enzimas e pequenas variações da estrutura química destas moléculas determina que outras
enzimas possam ser utilizadas. Nas reações em que o NADPH participa, a enzima associada é
específica para o NADPH e não para o NADH. A ocorrência destas reações é uma vantagem uma vez
que permite a doação de eletrões sem afetar os níveis de NADH da célula. A reação só ocorre se o
NADPH estiver presente. Logo, o uso de NADPH para além do NADH permite que reações específicas
de redução-oxidação na célula possam ser reguladas independentemente do estado metabólico da
célula naquele momento, i.e., independentemente dos níveis de NADH. Os mecanismos protetores
150 5 A Regulação dos Metabolismos

Fig. 5.24 Os grupos reativos do ATP, do NAD+ ou da CoA são relativamente pequenos quando comparados com a
molécula em si. As moléculas análogas ao ATP ou NAD+ diferem na parte “não-reativa” da molécula. Apesar de
não estarem diretamente envolvidos na reatividade, estas partes das moléculas são importantes uma vez que
garantem a especificidade para as diferentes enzimas

contra as espécies reativas de oxigénio (ROS), por exemplo, estão muito dependentes da ação redutora
do NADPH. A capacidade de reparar os danos químicos causados pelas ROS é mantida
independentemente da baixa concentração de NADH (ver Secção 6.2.5). Da mesma forma, o uso de
GTP ou UTP em algumas reações em vez que ATP poderá apresentar as mesmas vantagens.
Nos capítulos que se seguem iremos voltar a nossa atenção para a síntese de ATP, que, por sua vez,
é dependente da produção de NADH, que, por sua vez, é dependente da acetil-CoA que é obtida dos
nutrientes: ácidos gordos, monossacáridos e aminoácidos.

Bibliografia Selecionada
Laskowski RA, Gerick F, Thornton JM (2009) The structural basis of allosteric regulation in proteins. FEBS Lett
583:1692–1698
Dagani R (2003) Straightening out enzyme kinetics. Lineweaver and Burk’s 1934 paper showed biochemists a better
way to plot their data. Chem Eng News 81:27
Lineweaver H, Burk D (1934) The determination of enzyme dissociation constants. J Am Chem Soc 56:658–666
Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da
Síntese de ATP

Tradução: Catarina Vaz e José Verdasca


Revisão: Nuno Loureiro e Catarina Vaz
(Páginas 341-374)

Em organismos vivos, tipos diferentes de energia são convertidos uns nos outros dentro de uma célula,
assegurando assim que as variadas funções celulares sejam realizadas. Isto pode ser ilustrado através
de vários exemplos, tal como a conversão de energia luminosa em energia química em organismos
fotossintéticos, e ainda a conversão de energia química em energia mecânica na contração muscular.
Adicionalmente, todas as células necessitam de utilizar energia química para o transporte de iões e
outros compostos através da membrana celular, gerando assim um gradiente de concentração, ou seja,
convertendo energia química em energia osmótica. Finalmente, a energia química é continuamente
convertida em diferentes formas de energia química durante a biossíntese de novas moléculas no
metabolismo celular.
No princípio do século XX, um conjunto de experiências conduzido por Arthur Harden e William J.
Young, nas quais foi demonstrada que a presença de fosfato é essencial para a fermentação alcoólica
das leveduras, iniciou uma nova era na compreensão de como a energia é obtida a partir do ambiente
e armazenada nas células para uso tardio. Esta descoberta foi a primeira associação entre fosfato e
transformação de energia em células vivas, trilhando o caminho para a subsequente identificação do
ATP, mais especificamente da sua ligação fosfoanidrido, como o principal transportador de energia.
Neste capítulo, iremos discutir os princípios e os passos mais relevantes do principal mecanismo
de síntese de ATP em células heterotróficas.
Organismos heterotróficos conservam a energia dos nutrientes ao combinarem a quebra de
ligações químicas com a síntese de ATP, que ocorre através de dois mecanismos distintos.
O primeiro mecanismo da síntese de ATP a ser identificado é conhecido como a fosforilação ao
nível do substrato. Não depende da presença de oxigénio, pelo que pode ocorrer em anaerobiose. O
princípio envolvido na síntese de ATP a partir deste mecanismo é a formação de uma molécula
fosforilada que apresenta uma ligação fosfato de elevada energia ou, num termo mais preciso
apresentado por Fritz Lipman, um grande potencial de transferir o seu grupo fosfato, que é usado para
a fosforilação de ADP, gerando ATP.
O segundo mecanismo da síntese de ATP é conhecido como fosforilação oxidativa. Depende de
membranas organizadas, e, em células eucarióticas, ocorre na mitocôndria. O desvendar deste
mecanismo foi possível devido a alguém que conseguiu ver para além da energia das ligações
químicas. Este homem foi Peter Mitchell, que postulou a revolucionária teoria quimiosmótica, onde
constata que a síntese de ATP a partir de ADP e de fosfato inorgânico (Pi) é provocado por um gradiente
de pH que atravessa a membrana interna da mitocôndria, com a formação consequente de um
potencial elétrico transmembranar.

151
152 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

6.1 Fermentação: A Via Anaeróbica da Síntese de ATP


Visto que as primeiras formas de vida na Terra surgiram quando a atmosfera ainda não continha
oxigénio, podemos considerar o uso anaeróbico de glucose como a via metabólica de conservação de
energia mais antiga.
Nos seres humanos, esta via é ainda muito importante visto existirem tipos de células que não
possuem aparelho oxidativo, especialmente a mitocôndria, organelo no qual a fosforilação oxidativa
toma lugar. Estas células incluem eritrócitos desenvolvidos, células do cristalino, e algumas células da
retina. Há ainda várias situações em que a disponibilidade de oxigénio é limitada, e a síntese de ATP
através da fermentação torna-se essencial. Este é o caso de células musculares em casos de contração
intensa, operando em condições de oxigénio reduzido devido à contração dos vasos periféricos pela
ação da adrenalina (ver Capítulo 10). Há ainda situações patológicas em que a fermentação supera a
fosforilação oxidativa mesmo em presença de oxigénio. Este é o caso das células cancerígenas, num
processo denominado como “Efeito de Warburg” (ver Caixa 6.4)
É ainda importante notar que apenas os sacáridos podem ser usados como fonte de energia em
condições anaeróbicas. A degradação dos outros nutrientes, os lípidos e as proteínas, depende de vias
metabólicas que ocorrem na mitocôndria e que culminam com a síntese de ATP através da fosforilação
oxidativa, que requer oxigénio como substrato último (ver detalhes na Secção 6.2).

Desde tempos antigos, o Homem tem lidado com processos que envolvem a fermentação, embora
apenas recentemente se terá compreendido a fermentação como uma via metabólica associada às
transformações de energia essenciais à vida.
A fermentação é a base da produção de pão, cerveja, e vinho, atividades que acompanham a
Humanidade desde o princípio da civilização. O termo fermentação adveio destas práticas, começando
da palavra Romana fermentare, que se relaciona com a formação de bolhas. Ou seja, a fermentação foi
inicialmente associada com um processo no qual ocorre a formação de gás. Embora agora saibamos
que dependendo do organismo a fermentação conduz a diferentes produtos, que nem sempre incluem
um gás, na fermentação alcoólica, que ocorre durante a produção de pão, cerveja, e vinho, sacáridos
das frutas e dos cereais são convertidos em etanol e CO2, que corresponde ao gás libertado.
Embora durante o século dezanove tenham ocorrido vários avanços nos estudos científicos da
fermentação, Louis Pasteur foi o primeiro a relacionar organismos vivos com a fermentação, que era a
base da compreensão deste processo biológico (ver Caixa 6.1).
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 153

Caixa 6.1: O Impacto das Ideias de Pasteur Sobre a Fermentação


O conceito de que a fermentação era realizada por organismos vivos não foi aceite prontamente
quando proposta por Pasteur, especialmente porque parecia reforçar a teoria do vitalismo, que
assumia que as substâncias orgânicas em organismos vivos só poderiam ser formadas a partir
de uma misteriosa “substância vital”. Jakob Berzelius, Justus von Liebig, e Friedrich Wohler,
químicos importantes da altura, discordavam das ideias vitalistas, e apesar de estarem corretos
sobre os seus conceitos relativamente aos processos químicos, as suas convicções tornaram-
nos muito relutantes em reconhecer as valiosas contribuições das observações de Pasteur. Esta
relutância pode ser ilustrada pelo texto irónico publicado por Woehler e von Liebig em 1839 nos
Anais de Química, relacionado com a participação das leveduras na transformação de açúcares
em etanol e CO2 durante a produção de cerveja: “A levedura da cerveja, quando dispersa em água,
divide-se num número infinito de pequenas esferas. Se estas esferas são transferidas para uma
solução aquosa com açúcar, elas desenvolvem-se em pequenos animais. São dotados de uma
espécie de tronco de sucção com o qual engolem o açúcar da solução. A digestão é imediata e
claramente reconhecível devido à excreção de fezes. Estes animais evacuam álcool dos seus
intestinos e dióxido de carbono dos seus órgãos urinários. Assim, é possível observar como um
fluído claramente mais leve é excluído pelo ânus e ascende verticalmente, enquanto que uma
corrente de CO2 é ejetada em curtos intervalos dos seus enormes genitais.”

Pasteur observou glóbulos microscópicos numa amostra de vinho (Fig. 6.1a) e defendeu que estes
glóbulos eram microrganismos responsáveis pela transformação de açúcar em etanol e CO 2. Ele
demonstrou ainda que cada tipo de fermentação está associado a um microrganismo específico, ou,
como por ele referido, um específico “fermento”. Curiosamente, glóbulos similares já foram descritos
em amostras de cerveja em 1680, por Anton von Leeuwenhoek, o pioneiro do uso do microscópio (Fig.
6.1b), apesar de não existirem evidências de que van Leeuwenhoek tenha associado estes glóbulos a
organismos vivos.
Para além da associação da fermentação à presença de organismos vivos, Pasteur também realizou
experiências que provaram que a fermentação ocorria na falta de oxigénio. Estas experiências
desacreditaram a visão corrente de que a fermentação como um processo químico resultava na reação
entre oxigénio e açúcares, reforçando a ideia de que a fermentação é um processo biológico. As
descobertas de Pasteur também permitiram a formulação de outros dois importantes conceitos
biológicos derivados das suas experiências. O primeiro foi o de que algumas formas de vida podem
existir sem oxigénio, ao que ele se refere num dos seus artigos mais famosos, publicado em 1861,
como la vie sans l’air (a vida sem ar). O segundo conceito veio da intrigante observação que ele fez nas
suas experiências: havia mais CO2 a ser produzido pelas leveduras na ausência de oxigénio do que na
sua presença, um fenómeno conhecido como “efeito Pasteur” (Fig. 6.1c), que é agora explicado pelo
facto de que o número de moléculas de ATP a ser produzido por molécula de glucose na fermentação
é muito menor que na fosforilação oxidativa (ver no Capítulo 4 a estequiometria da síntese de ATP na
fosforilação oxidativa de diferentes nutrientes).
O próximo avanço significativo na compreensão da fermentação veio de uma observação
inesperada. Eduard Buchner, ao trabalhar com o seu irmão Hans na preparação de um extrato de
leveduras para tratar pacientes com tuberculose, descobriu que mesmo quando todas as células eram
quebradas, a fermentação continuava a proceder normalmente. Esta descoberta marca o fim da teoria
do vitalismo ao provar que a presença de células vivas não era necessária para a fermentação, e pode
ser vista como o começo da bioquímica, introduzindo o conceito de que as reações biológicas são
catalisadas por moléculas, que Buchner chamou de zimases, o termo usado para referir ao que agora
chamamos de enzimas. Devido ao grande impacto das suas descobertas, Eduard Buchner foi o primeiro
cientista a receber o Prémio Nobel da Química, em 1907.
Finalmente, devemos comentar a experiência de Harden e Young, mencionada no princípio do
capítulo. Utilizando o sistema acelular desenvolvido pelos Buchners, eles observaram que a taxa de
154 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Fig. 6.1 (a) O microscópio usado por Pasteur para observar as amostras de vinho e os seus desenhos
representando os “glóbulos” que ele tinha observado na amostra (adaptado do livro de Pasteur “Études sur la bière,”
1876). (b) Desenho por van Leeuwenhoek, reportando em 1680 a observação de uma amostra de cerveja no
microscópio que ele tinha desenvolvido. © Representação do “efeito Pasteur”, no qual a produção de CO 2 pelas
leveduras é muito superior na ausência do que na presença de oxigénio

fermentação, que decrescia ao longo do tempo, podia ser restaurada com a adição de sais de ácido
fosfórico (Fig. 6.2). Foi a primeira evidência de que o fosfato estava envolvido no metabolismo celular,
abrindo o caminho para nos anos seguintes ocorrer o reconhecimento das cruciais fosforilações
biológicas.
Alguns anos mais tarde, Otto Meyerhof, ao estudar a contração muscular em diferentes organismos,
mostrou que a contração ocorria na ausência de oxigénio, um fenómeno similar ao observado por
Pasteur na fermentação alcoólica das leveduras (Fig. 6.3a). No entanto, no caso da fermentação das
células musculares, o produto final era lactato. A similaridade molecular dos produtos das
fermentações alcoólica e láctica sugeria que os dois processos seriam equivalentes (Fig. 6.3b).

Fig. 6.2 Figura original do artigo por Harden e Young publicada em 1906 (adaptada de Harden & Young. Proc. Royal
Soc. Lond. B 77:405-520,1906) demonstrando a produção de CO2 por leveduras a fermentar glucose na ausência
de qualquer adição (curva A) e quando sais de ácido fosfórico são adicionados nos tempos indicados (curvas B e
C)
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 155

Fig. 6.3 (a) Representação esquemática dos resultados obtidos por Otto Meyerhof quando uma fibra muscular era
incubada com glucose; a tensão devido à contração e produção de lactato foram medidas em função do tempo.
(b) A análise dos produtos finais de tanto a fermentação alcoólica realizada pelas leveduras como da fermentação
láctica realizada por fibras musculares é similar

Adicionalmente, o mesmo requerimento de fosfato foi observado na fermentação de células


musculares. Atualmente sabemos que os processos são realmente idênticos, com exceção da última
reação (ver a próxima Secção).

O mecanismo geral para a síntese de ATP que ocorre durante a fermentação consiste numa série de
reações que vão rearranjar a estrutura molecular de um monossacárido inicialmente fosforilado, uma
hexose fosfatada, de forma a formar compostos fosforilados com elevado potencial de transferirem o
seu grupo fosfato (ver Caixa 6.2). Estes intermediários de elevada energia são trioses fosfatadas
originárias de um passo de clivagem e cujo grupo fosfato é transferido para o ADP, gerando ATP (Fig.
6.4a). Este processo de síntese de ATP é nomeado fosforilação ao nível do substrato, já que o grupo
fosfato dos intermediários da via metabólica é usado diretamente para fosforilar ADP.
O substrato inicial para a fermentação é habitualmente a glucose, o monossacárido mais abundante
derivado da dieta humana regular. Os dois passos iniciais da fosforilação usam ATP como dador do
grupo fosfato (Fig. 6.4a). Isto pode parecer ilógico à primeira vista, se considerarmos que é uma via
metabólica para a produção de ATP. No entanto, como ficará claro pela observação da estequiometria
da via no seu todo, apesar de serem gastas duas moléculas de ATP por cada hexose que entra na via
metabólica nos seus passos iniciais, quatro moléculas de ATP são sintetizadas no final, constituindo
um balanço positivo de duas moléculas de ATP por cada hexose que é metabolizada. Para além disso,
o consumo de ATP é obrigatório para forçar a ocorrência dos primeiros passos, em termos de
termodinâmica (ver Caixa 4.2).
As trioses fosfatadas com alto potencial de transferência do seu grupo fosfato são a 1,3-
difosfoglicerato e a fosfoenolpiruvato (Fig. 6.4b). No caso da 1,3-bifosfoglicerato, uma ligação anídrica
liga o grupo carboxilo ao fosfato, formando um composto conhecido como acil-fosfato. No caso do
fosfoenolpiruvato, a ligação dupla entre os carbonos 2 e 3 favorece a transferência do grupo fosfato.
156 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Fig. 6.4 Visão geral dos essenciais do processo de fermentação. (a) A via inicia-se com uma hexose (habitualmente
glucose). Depois de dois passos de fosforilação com ATP como dador de fosfato, a hexose bifosfatada resultante
é clivada em duas trioses fosfatadas, que se podem interconverter. Uma delas segue a via metabólica, que incluí
uma reação de oxidação NAD+ dependente e duas transferências do grupo fosfato de uma triose fosfatada de alta
energia para ADP, gerando ATP e como segundo produto das reações, piruvato. O piruvato deve ser reduzido para
permitir a reoxidação através do NADH. Os principais produtos finais da fermentação são o lactato ou etanol e
CO2, dependendo do organismo. (b) Estrutura química de uma triose fosfatada de alta energia: 1,3-difosfoglicerato
e fosfoenolpiruvato

Adicionalmente, a via incluí um passo oxidativo no qual a oxidação de um intermediário de 3


carbonos é acoplada à redução de uma coenzima dinucleótido de nicotinamida e adenina (NAD+),
originando NADH. Já que a quantidade normal e NAD+ no citoplasma é muito inferior à quantidade de
glucose metabolizada, a fermentação deve concluir com um passo que assegure a reoxidação da
molécula de NADH. A reação que permite isso é aquela que sintetiza o produto final da via metabólica,
sendo que nas células humanas é o lactato (Fig. 6.4a).

Caixa 6.2: Os Conceitos de Compostos Fosfatados Ricos em Energia


No seu clássico artigo de 1941, Fritz Lipmann classificou os compostos fosfatados como sendo
ricos ou pobres em energia. Esta classificação tinha por base a ideia de que a energia libertada
pela hidrólise destes compostos era determinada essencialmente pela natureza da ligação
química que ligava o grupo fosfato à restante molécula. Ligações fosfoanídridos geravam
compostos ricos em energia, enquanto que ligações fosfoéster geravam compostos pobres em
energia. De acordo com este conceito a energia livre da hidrólise de um composto fosfatado
seria determinada essencialmente pela contribuição da entalpia. Devido às abordagens
experimentais da altura, a contribuição do ambiente no qual a reação toma lugar não poderia ser
tomado em consideração, mas novos dados surgiram depois de 1970 que introduziram a ideia
de que a energia da hidrólise de compostos fosfatados seria também determinada pelas
diferenças na energia de solvatação, e, portanto, iriam variar de acordo com o meio. Esta ideia
foi comprovada para compostos com ligações fosfoanídridos, tal como o ATP, pirofosfato, acil-
fosfatos, mas não para compostos cujo grupo fosfato se encontra incluído através de uma
ligação fosfoéster (ver a figura a comparar a energia da hidrólise de uma ligação fosfoanídrido
de uma molécula de pirofosfato e de uma ligação fosfoéster de uma molécula de glucose-6-
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 157

fosfato em relação à atividade da água). Baseando-se nestas observações, uma nova conceção
foi formulada por Leopoldo de Meis, de acordo com a qual moléculas contendo ligações
fosfoanídridos são suscetíveis a mudanças na energia entrópica (dependentes da energia de
solvatação e, portanto, dependentes do ambiente), o que contribui para a energia livre envolvida
na reação.

Efeito da atividade aquática (Wa) na energia da hidrólise de pirofosfato (círculos amarelos) e glucose-6-
fosfato (círculos azuis). Gráfico reproduzido de Meis em Cálcio e Metabolismo Celular: Transporte e
Regulação, capítulo 8. Plenum Press, NY, 1997

Com isto em mente, é possível compreender o mecanismo de síntese de ATP pela ATP sintase
apresentado na secção 6.2.4, no qual a energia requerida para a reação não é necessária para a
condensação de ADP e Pi, mas sim para a libertação de ATP da zona catalítica da enzima.

As primeiras dez reações do processo de fermentação, começando com a glucose e terminando com
a formação de duas moléculas de piruvato, são iguais em muitos organismos que sintetizam ATP
anaerobicamente. O último passo, que envolve a reoxidação do NADH, é diferente dependendo do
organismo, resultando tanto em lactato como etanol e CO2. Mais ainda, as reações da glucose a
piruvato são também as mesmas que ocorrem quando hidratos de carbono são usados aerobicamente
(ver Secção 7.4).
A via de glucose a piruvato é denominada glicólise e pode ser dividida em duas partes.
Na primeira parte, dois passos de fosforilação usando ATP vão formar uma hexose com dois grupos
fosfato ligados, a frutose-1,6-bifosfato, que foi o composto descoberto por Harden e Young (ver Secção
6.1.1), e o primeiro intermediário da fermentação a ser identificado, conhecido como éster de Harden e
Young. No primeiro passo de fosforilação, a enzima hexocinase catalisa a conversão de glucose em
glucose-6-fosfato, que é depois isomerada em frutose-6-fosfato pela fosfo-hexose isomerase. O
segundo passo de fosforilação é catalisado pela fosfofrutocinase e ocorre no grupo hidroxilo do
carbono 1 da frutose-6-fosfato, gerando frutose-1,6-bifosfato. A frutose-1,6-bifosfato é depois clivada
pela aldolase em duas moléculas de triose-fosfato, gliceraldeído-3-fosfato e di-hidroxiacetona fosfato.
Estas trioses-fosfatadas podem interconverter-se numa reação catalisada pela triose-fosfato
isomerase, com di-hidroxiacetona a formar moléculas de gliceraldeído-3-fosfato (Fig. 6.5). À luz do
discutido na secção anterior, é importante notar que todos os compostos fosforilados na primeira parte
da glicólise são fosfoésteres.
158 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Fig. 6.5 Reações da fermentação da glucose em lactato. As primeiras dez reações consistem na via metabólica
denominada glicólise, que é também a via para o metabolismo aeróbico dos sacáridos. O último passo ocorre
quando o piruvato não é oxidado através do metabolismo aeróbico e o NADH tem de ser reoxidado. Deve notar-se
que cada molécula de frutose-1,6-bifosfato conduz a duas moléculas de gliceraldeído-3-fosfato. Os nomes das
enzimas estão apontados em caixas amarelas. Os passos que envolvem a fosforilação ao nível do substrato estão
também indicados

Na segunda parte da via, cada gliceraldeído-3-fosfato é oxidado numa reação NAD+ dependente,
seguida de um passo de fosforilação, numa reação catalisada pela gliceraldeído-3-fosfato de-
hidrogenase, que forma 1,3-bifosfoglicerato. De notar que este passo de fosforilação vai utilizar fosfato
inorgânico diretamente, e não ATP como dador de fosfato. 1,3-bifosfoglicerato é então o primeiro
composto de elevada energia gerado pela via metabólica. A oxidação de um grupo aldeído do
gliceraldeído acoplado à reação de fosforilação forma, em vez de um grupo carboxil livre, um acil-
fosfato, do qual o grupo fosfato é transferido ao ADP, gerando ATP e 3-fosfoglicerato, numa reação
catalisada pela enzima fosfoglicerato cinase. Fosfoglicerato mutase vai converter 3-fosfoglicerato em
2-fosfoglicerato, sendo que o último será desidratado pela enolase, formando assim o segundo
composto com grande potencial de transferir o grupo fosfato, o fosfoenolpiruvato (PEP). De seguida,
fosforilação ao nível do substrato ocorre, com o grupo fosfato do PEP a ser transferido para ADP,
gerando ATP e piruvato, numa reação catalisada pela piruvato cinase (Fig. 6.5).
A última parte da fertilização da glicose nas células humanas é a redução do piruvato a lactato,
catalisada pela lactato desidrogenase, possibilitando a reoxidação do NADH (Fig. 6.5)
Quando a glicólise é o meio para a utilização de hidratos de carbonos com consequente utilização
de oxigénio, em vez do piruvato ser reduzido na última parte da fermentação, é completamente oxidado
a CO2 nas mitocôndrias (ver Secção 7.4).
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 159

6.2 Fosforilação Oxidativa: O Mecanismo Principal de Síntese de ATP na Maioria


das Células Humanas
A fosforilação oxidativa compreende 95% da síntese de ATP no organismo humano. Esta via metabólica
está compartimentalizada na mitocôndria, os organelos que compreendem a maioria das funções
bioenergéticas dentro de uma célula eucariótica (ver Caixa 6.3).
As mitocôndrias são organelos únicos compostos de duas membranas lipídicas (Fig. 6.6). A
membrana externa contém variadas porinas, proteínas que tornam a membrana permeável a iões e
pequenas moléculas (de massa molecular inferior a 5kDa).

Fig. 6.6 A estrutura de uma mitocôndria. As mitocôndrias são organelos formados por uma membrana externa
permeável e uma membrana interna altamente impermeável com várias convoluções denominadas cristas. O meio
intra-mitocondrial forma a matriz mitocondrial

A membrana interna tem um rácio proteína-lípido elevado, e é rica num fosfolípido pouco usual,
cardiolipina. É muito impermeável, com o transporte de moléculas e iões, incluindo H+, ocorrendo
apenas por proteínas específicas. A membrana tem uma elevada área de superfície conseguida pelas
convoluções que se denominam cristas mitocondriais (Fig. 6.6). A membrana interna encerra a matriz
mitocondrial, que compreende a maioria das enzimas do metabolismo oxidativo, os ribossomas
mitocondriais, tRNA, e ainda várias cópias de DNA mitocondrial (Fig. 6.6).

Caixa 6.3: A Teoria Endossimbiótica para a Origem da Mitocôndria


A incorporação da mitocôndria foi um importante evento na evolução de células eucarióticas.
Acredita-se que terá ocorrido há mais de 1,5 biliões de anos atrás, pela invasão de uma célula
heterotrófica anaeróbica por uma bactéria aeróbica. Isto é conhecido como a Teoria
Endossimbiótica, que foi postulada no princípio do século XX, mas que foi recuperada e melhor
argumentada por Lynn Margulis, em 1960. Várias evidências genéticas sugerem que um
simbionte ancestral seria uma alfa-proteobactéria aeróbica que consumia oxigénio por uma
cadeia respiratória. O papel do anfitrião anaeróbico na simbiose seria o de tornar o piruvato
acessível ao metabolismo do endossimbionte.
Por outro lado, as evidências indicam que o papel do simbionte ancestral na fase inicial da
evolução da mitocôndria seria de proteger os componentes celulares anaeróbicos dos efeitos
160 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

tóxicos do oxigénio através da atividade do último composto da cadeia respiratória, a enzima


citocromo oxidase, que converte oxigénio em água (ver próximas secções do capítulo). De facto,
o grande aumento na tensão de oxigénio por volta de há 2 biliões de anos atrás introduziu uma
grande ameaça para as antigas células anaeróbicas, que não tinham enzimas desintoxicantes
como as peroxidases, catalases, ou superóxido dismutases que protegem células modernas
contra os efeitos tóxicos de espécies reativas de oxigénio. Assim, o simbionte aeróbico
funcionaria como absorvente de oxigénio no interior da célula anfitriã. Com tempo, a evolução
do genoma anfitrião provavelmente contribuiu com novas funções para o simbionte, incluindo o
transporte de ADP/ATP, transformando-o assim num organelo com uma função de exportação
de ATP.

Desde as experiências de Lavoisier que no século dezoito correlacionaram respiração à combustão de


matéria orgânica, ambos os processos envolvendo consumo de oxigénio e libertação de CO 2 e ainda
produção de calor, que o conceito de que o metabolismo aeróbico procede de uma reação direta do
oxigénio com compostos orgânicos do corpo foi estabelecida. No entanto, a ligação entre reações
metabólicas oxidativas e o consumo de oxigénio permaneceu ilusivo por algum tempo.
Nas primeiras décadas do século vinte, houve uma séria controvérsia em relação aos mecanismos
de oxidação biológica em metabolismos aeróbicos (Fig. 6.7).
Por um lado, Heinrich Wieland postulou, juntamente com Torsten Thumberg, que em oxidações
biológicas, as reações catalisadas pelas desidrogenases ativavam alguns átomos de hidrogénio dos
intermediários metabólicos, tornando-os acessíveis ao transporte a um aceitador de protões. É
importante reconhecer que a sua hipótese, embora incompleta por não ter em conta o papel do
oxigénio, corretamente suportou o conceito de que oxigénio livre não reage diretamente com carbono
para formar CO2.

Fig. 6.7 Solução da controvérsia Wieland-Warburg com a descoberta dos citocromos de Keilin. Wieland postulou
que as reações catalisadas por desidrogenases “ativavam” alguns átomos de hidrogénio dos intermediários
metabólicos, tornando-os passíveis de serem transferidos a um aceitador de hidrogénio, enquanto que Warburg
defendia a hipótese de ativação do oxigénio, na qual oxidações biológicas seriam catalisadas por uma enzima
contendo ferro. Keilin propôs que os citocromos uniam as desidrogenases e oxidases, sendo alternativamente
reduzidas pelas desidrogenases e oxidadas pelo oxigénio pela enzima de Warburg

Do lado oposto estava Otto Warburg (Caixa 6.4), que defendia que a hipótese de ativação de
oxigénio, na qual ele argumentava que o conceito de desidrogenase seria desnecessário. Nesta
hipótese, Warburg postulava que a oxidação era catalisada por uma enzima que continha ferro, à qual
ele chamou de Atmungsferment (que significa enzima transferidora de oxigénio) e em qual o átomo de
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 161

ferro seria oxidado ao seu estado férrico (Fe3+) pelo oxigénio e reduzido de volta ao seu estado ferroso
(Fe2+) após reação com novas substâncias.
A solução para resolver a controvérsia Wieland-Warburg foi providenciada por David Keilin, quem
trabalhando como entomologista e parasitologista alterou a bioquímica com as suas descobertas (Fig.
6.7).

Caixa 6.4: A Diversidade das Contribuições de Otto Warburg para a Ciência


Otto Warburg foi um cientista interdisciplinar e muito ativo, dando contribuições extraordinárias
em diferentes áreas da ciência, incluindo respiração, fotossíntese, e metabolismo de células
cancerígenas.

Warburg fortemente defendeu o uso de métodos quantitativos e trabalhou na melhoria dos


instrumentos de medição para conseguir medidas precisas. Utilizando técnicas manométricas,
ele desenvolveu um aparelho, o respirómetro de Warburg, para quantificar a absorção de O2 em
pequenas camadas de tecido, através de mudanças de pressão na câmara, medidas pelas
conexão de um manómetro à ponta de uma junção de vidro. O aparelho também permitiu a
medição das emissões de CO2 ao adicionar, por exemplo, hidróxido de potássio à câmara, para
fazer precipitar o CO2. Graças aos seus estudos pioneiros em respiração celular no princípio do
século XX, no qual ele propôs a existência de uma enzima respiratória que contivesse ferro, foi-
lhe atribuído o Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1931.
Warburg também dedicou grande parte da sua vida a investigar o metabolismo de células
cancerígenas. Estudando diferentes tipos de células cancerígenas na década de 1920, Warburg
fez uma observação intrigante: ele apercebeu-se que havia um comportamento oposto ao efeito
de Pasteur (a inibição da fermentação pelo O2; ver Secção 6.1.1). Warburg mostrou que células
cancerígenas produzem ácido lático a partir de glucose mesmo em condições aeróbicas, o que
é conhecido como o efeito de Warburg. Isto foi em princípio interpretado como uma
consequência da respiração danificada em células cancerígenas, mas atualmente
reconhecemos que o efeito de Warburg ocorre devido a alterações na regulação da glicólise na
tumorigénese.

Os efeitos de Pasteur (P) e Warburg (W). O gráfico da esquerda foi reproduzido com a permissão de
Macmillan Publishers Ltd: Gatenby & Gillies. Nat. Rev. Cancer 4:891–899, 2004
162 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Estudando a fisiologia dos insetos, Keilin redescobriu uma substância que tinha sido descrita há
mais de um século por Charles A. Macmunn, mas que fora esquecida depois de ter sido considerada
um contaminante de hemoglobina presente nas preparações de Macmunn (ver Caixa 6.5). Keilin
mostrou que não era hemoglobina e chamou à substância de “citocromo” (que significa pigmento
celular) pois ele encontrou a substância em células de vários organismos distintos, tais como insetos,
vermes, leveduras, e plantas, e devido ao seu espetro de absorção característico contendo 4 bandas
distintas, denominadas como a, b, c e d. Keilin propôs que o pigmento atuou como a ligação entre as
desidrogenases de Wieland e a oxidase de Warburg, sendo alternativamente reduzida e oxidada por
oxigénio através da enzima de Warburg.
As experiências de Keilin ofereceram um grande avanço na compreensão das transformações de
energia em organismos aeróbicos, estabelecendo o conceito do que conhecemos como cadeia
respiratória, uma série de transportadores redução-oxidação associados a uma membrana que
transferem eletrões de metabolitos para oxigénio molecular. No entanto, o processo pelo qual esta
sequência de reações redução-oxidação é acoplado à manutenção de energia seria ainda
desconhecido na época.

Caixa 6.5: A Descoberta do Citocromo por David Keilin


As características básicas da cadeia respiratória foram estabelecidas entre 1920 e 10930 pelo
entomologista e parasitologista David Keilin. Em 1925, ele publicou o seu primeiro trabalho na
área, entitulado “On cytochrome, a respiratory pigment, common to animals, yeast, and higher
plants” (Keilin Proc. R. Soc. Lond. B 98:312-339, 1925), marcando uma nova fase nos estudos
das oxidações biológicas. É interessante revisitar as reflexões de E.F. Hartree, que trabalhou com
Keilin sobre este assunto, publicadas na revista periódica Educação Bioquímica, em 1973, na
qual ele comenta a história da descoberta dos citocromos: “Por estes dias, quando o mundo da
ciência encontra-se sob pressão para se organizar a fim de procurar fins concretos, quando a
escala da descoberta científica está a tornar o entalhe solitário num anacronismo, é bom
relembrar as conquistas mais simples dos homens da ciência, estimuladas unicamente pela
vontade de compreender o mundo vivo. A descoberta dos citocromos é um exemplo notável de
tais conquistas, não só pela simplicidade desarmante da abordagem experimental do seu
descobridor, David Keilin, mas também porque a sua descoberta veio num momento crítico.
Resolveu um dilema sério que estava a impedir a evolução da bioquímica desde um ramo
confuso e algo primitivo da química para uma disciplina científica maior: mais sucintamente a
transformação de Bio-Química em “Bioquímica.” Nessa altura, Keilin estava interessado em
estudar as adaptações da larva de mosca para parasitar os estômagos dos cavalos. Utilizando
um microespetroscópio para comparar o espetro de absorção das larvas com o músculo
torácico adulto, ele reparou na presença de quatro bandas de absorção no espetro do músculo
adulto, que eram muito diferentes das bandas vistas para a hemoglobina e oxi-hemoglobina (ver
a figura dos resultados publicados no trabalho de 1925 com uma representação esquemática da
experiência). Intrigado por este padrão de absorção, ele examinou muitos outros organismos,
incluindo diferentes insetos, leveduras, e outros microrganismos, plantas e tecidos animais,
encontrando sempre o mesmo espetro de absorção de quatro bandas.
Uma observação mais interessante foi que quando a suspensão de leveduras era submetida
a agitação vigorosa, as bandas desapareciam, aparecendo de novo após um período de repouso.
A interpretação de Keilin deste fenómeno foi que o pigmento, denominado citocromo, ficaria
oxidado durante a agitação no ar, conduzindo ao desaparecimento das bandas. Após a
interrupção da agitação, a atividade respiratória conduzia à redução do pigmento, que na forma
reduzida mostrava um espetro de absorção de 4 bandas. Utilizando insetos, Keilin observou
resultados semelhantes: o padrão do espetro de absorção observado no músculo torácico era
forte quando as asas eram estimuladas para vibrar, mas desapareceu após a paragem do
movimento. Assim, Keilin concluiu que o citocromo estava a agir como um transportador
respiratório ligando o oxigénio e o intermediários metabólicos oxidáveis.
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 163

Umas das marcas da descoberta deste elo em falta foi o artigo publicado por Belitser e Tsybakova
em 1939, mostrando uma correlação direta entre o consumo de oxigénio na respiração celular e
esterificação fosfatada, tal como pode ser observado na Fig. 6.8, uma reprodução da figura original
deste artigo.

Fig. 6.8 Correlação entre a incorporação do fosfato (em cima) e consumo de O2 (em baixo) numa preparação de
músculo de um pombo nas seguintes condições: (I) antes de qualquer incubação; (II) na ausência de O2 (uma
atmosfera de N2) sem qualquer adição de substrato respiratório; (III) na presença de piruvato mas na ausência de
O2; (IV) na presença de piruvato e O2; (V) na presença de O2 mas na ausência de piruvato. Figura adaptada de
Belitser & Tsybakova. Biokimia 4:516-535, 1939
164 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Depois disto, anos e anos foram gastos na procura de um intermediário de alta energia, que, em
analogia do processo da fosforilação ao nível do substrato, já conhecido como sendo o mecanismo de
síntese de ATP na fermentação (ver Secção 6.1.2), podia acoplar o processo de redox à síntese de ATP.
Este intermediário nunca tinha sido descoberto, e como ocorria a fosforilação oxidativa permaneceu
uma das questões mais desafiantes da Bioquímica por muito tempo. Os princípios básicos por detrás
deste processo só puderam ser percebidos após a proposta da hipótese quimiosmótica por Peter
Mitchell (ver próxima secção).

Nas reações oxidativas de catabolismo, os eletrões removidos dos intermediários metabólicos são
transferidos para grandes coenzimas transportadoras de eletrões, dinucleótido de nicotinamida e
adenina (NAD+) e dinucleótido de flavina e adenina (FAD), que são então convertidas nas suas formas
reduzidas, NADH e FADH2 (ver Capítulo 7). Estas reações são catalisadas por desidrogenases, tal como
postulado pela primeira vez por Wieland e Thumberg (ver Secção 6.2.1).
Fosforilação oxidativa depende do transporte de eletrões do NADH ou FADH 2 para o O2, que é
reduzido a H2O. O transporte de eletrões ocorre através de um número de complexos proteicos
associados à membrana mitocondrial interna. Parte destes complexos contém citocromos (o pigmento
de Keilin) como parte das suas estruturas. Estes citocromos são de facto proteínas que contém um
grupo heme prostético. O Heme é uma estrutura em anel complexa denominada protoporfirina que se
liga a um átomo de ferro. Como detetado por Keilin, há diferentes classes de citocromos que contém
diferentes tipos de heme (Fig. 6.9), distinguíveis pelo seu espetro de absorção característico. A
oxidação do Heme conduz a um decréscimo da absorção de luz, explicando as observações feitas por
Keilin nas suas experiências (ver Caixa 6.5). O grupo heme nos citocromos a e b estão fortemente
ligados, mas não é uma ligação covalente à proteína, enquanto que no citocromo c, o heme está
covalentemente ligado a resíduo Cys específicos da proteína.
As estruturas dos complexos respiratórios são hoje conhecidas com detalhe, tal como será
explicado na próxima secção, mas podemos seguramente dizer que o conceito e princípios do seu
papel no transporte de eletrões foi estabelecido por Keilin depois da descoberta e estudo dos
citocromos, os quais ele definiu como catalisadores redução-oxidação (ver Secção 6.2.1).
O mecanismo pelo qual o transporte de eletrões está acoplado à síntese de ATP foi proposto por
Peter Mitchell, em 1961, na sua revolucionária teoria quimiosmótica. Inicialmente foi difícil de ser
aceite, já que a maior parte dos cientistas na área acreditavam que um intermediário de alta energia
ligaria reações de oxidação e fosforilação (tal como ocorre na fosforilação ao nível do substrato; ver
Secção 6.1.2). No entanto, a teoria quimiosmótica foi provada como correta, e Mitchell recebeu o
prémio Nobel da Química em 1978.
A teoria quimiosmótica postula que a transferência de eletrões através dos complexos da cadeia
respiratória está acoplada ao bombeamento de protões através da membrana interna da mitocôndria,
impermeável, desde a matriz mitocondrial ao espaço intermembranar. O bombeamento de H + gera o
que Mitchell chamava de força protomotriz, o efeito simultâneo do efeito do gradiente de pH através
da membrana e o potencial elétrico transmembranar que conduzia a síntese de ATP desde ADP e Pi
(Fig. 6.10).
O bombeamento de protões ocorre através de segmentos proteicos específicos que fazem parte de
alguns complexos respiratórios. A síntese de ATP é catalisada por outro complexo proteico na
membrana mitocondrial, a ATP sintase, através do qual o H+ regressa à matriz mitocondrial (Fig. 6.10).
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 165

Fig. 6.9 Os tipos distintos de grupos heme prostéticos dos citocromos: heme a, que tem uma longa cauda
isoprenóide ligada ao anel de porfirina; heme b, que é uma protoporfirina IX; e heme c, que está ligado
covalentemente a resíduos Cys na cadeia poliproteica do citocromo c

Fig 6.10 Representação esquemática do mecanismo geral da síntese de ATP na fosforilação oxidativa. Eletrões
são transferidos do NADH e FADH2 através de um número de complexos proteicos associados à membrana
mitocondrial interna para o aceitador final, oxigénio, que é reduzido a H2O. O transporte de eletrões é acoplado ao
bombeamento de H+ pela membrana mitocondrial interna, gerando um gradiente de pH e um potencial elétrico
transmembranar, que é a força motriz da síntese de ATP pela ATP sintase. De notar que isto é um esquema
simplificado em que os complexos associados a NAD- ou FAD- são representados como uma só entidade, apesar
de serem complexos proteicos diferentes. No entanto, é importante apontar que o transporte de eletrões por
complexos associados ao FAD não está acoplado ao bombeamento de H+ através da membrana mitocondrial,
como detalhado na próxima secção
166 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Os complexos transportadores de eletrões são proteínas integrais de membrana que contêm grupos
químicos associados (flavinas, grupos ferro-enxofre, heme ou iões de cobre) capazes de aceitar ou
doar eletrões (ver estruturas detalhadas na próxima secção).

6.2.3.1 A sequência de transferência de eletrões entre os grupos transportadores de


eletrões
Uma forma de deduzir a sequência pela qual os eletrões são transferidos entre os transportadores é
comparar o potencial de redução de cada um destes grupos (Tabela 6.1). O potencial de redução é uma
medida de quão fácil é para uma molécula aceitar um eletrão.

Tabela 6.1 Potencial de redução dos transportadores de eletrões da cadeia respiratória

Reação Poder redutor (V)


2H+ +2e- → H2 -0,414
NAD + H+ + 2e- → NADH -0,320
NADH desidrogenase (FNM) + 2H+ + 2e- → NADH desidrogenase (FNMH2) -0,300
Ubiquinona + 2H+ 2e- → ubiquinol 0,045
Citocromo b (Fe3+) + e- → citocromo b (Fe2+) 0,077
Citocromo c1 (Fe3+) + e- → citocromo c1 (Fe2+) 0,220
Citocromo c (Fe3+) + e- → citocromo c (Fe2+) 0,254
Citocromo a (Fe3+) + e- → citocromo a3 (Fe2+) 0,290
Citocromo a3 (Fe3+) + e- → citocromo b (Fe2+) 0,350
½ O2 + 2H- + 2e- → H2O 0,817

A sequência deduzida pelo potencial de redução foi confirmada experimentalmente. Keilin nas suas
primeiras experiências com citocromos (ver Caixa 6.5) observou que as bandas não aparecem nem
desaparecem simultaneamente. A partir desta observação, deduziu que o que anteriormente tinha
denominado apenas como citocromo era na verdade uma mistura de pigmentos com três
componentes, designados citocromo a, b e c. Posteriormente, foi possível distinguir dois componentes
no que era considerado como citocromo a, cujas bandas de absorção estavam sobrepostas. Um
destes, o citocromo a3, é o último componente da cadeia, sendo diretamente oxidado pelo oxigénio.
Além disso, o uso de inibidores específicos de transportadores de eletrões permitiu a dedução da
sequência completa, confirmando que esta seguia a ordem de aumento do potencial de redução, como
esperado.

6.2.3.2 A organização dos complexos respiratórios na membrana mitocondrial interna


Apesar das experiências de Keilin terem permitido determinar a sequência através da qual os eletrões
circulam na cadeia respiratória, na altura nada se sabia sobre a forma como os grupos de transferência
de eletrões estavam organizados. Keilin trabalhava sempre com uma preparação de músculo cardíaco
moído que mais tarde foi identificado como partículas submitocondriais, que são na verdade vesículas
da membrana mitocondrial interna. No final dos anos 40, o grupo de David Green foi capaz de fracionar
quatro componentes da cadeia respiratória, que foram designados Complexos I, II, III e IV. Estes
componentes correspondiam a quatro complexos de proteínas integrais de membrana, a
NADH/ubiquinona oxirredutase (ou NADH desidrogenase), a sucinato/ubiquinona oxirredutase (ou
sucinato desidrogenase), a ubiquinona/citocromo c oxirredutase (ou complexo citocromo bc1) e a
citocromo c oxidase, respetivamente (Fig. 6.11).
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 167

Fig. 6.11 Representação esquemática dos complexos de transferência de eletrões na membrana mitocondrial
interna. Os eletrões circulam do NADH para o O 2 através de três complexos proteicos: NADH/ubiquinona
oxirredutase (verde claro), ubiquinona/citocromo c oxirredutase (azul claro) e citocromo c oxidase (rosa). A
transferência de eletrões da NADH/ubiquinona oxirredutase para a ubiquinona/citocromo c oxirredutase é
mediado por uma molécula solúvel na membrana a ubiquinona (hexágono verde legendado com a letra Q) e a
transferência da ubiquinona/citocromo c oxirredutase para a citocromo c oxidase é mediada por uma pequena
proteína, o citocromo c (azul escuro legendado co cytC). O2 também é reduzido por eletrões vindos do FADH2, que
está ligado a desidrogenases dependentes de FAD, tais como sucinato/ubiquinona oxirredutase (verde escuro),
acetil-CoA desidrogenase (laranja) e a glicerol-fosfato desidrogenase (azul). Os eletrões provenientes do FADH 2
são transferidos para a ubiquinona e atingem o O2 através da ubiquinona/citocromo c oxirredutase e da citocromo
c oxidase citocromo c oxidase, como descrito para os eletrões provenientes do NADH. A transferência de eletrões
através da NADH/ubiquinona oxirredutase, da ubiquinona/citocromo c oxirredutase e da citocromo c oxidase está
associado ao bombeamento de H+ para o espaço intermembranar. O H+ regressa à matriz mitocondrial através da
enzima ATP sintetase, levando à síntese de ATP. A microfotografia de transmissão eletrónica à esquerda mostra
uma pequena secção de uma célula cm uma mitocôndria (cortesia do Prof. Marlene Benchimol)

Agora sabe-se que em adição a estes quatro complexos proteicos, existem duas outras proteínas
que participam na transferência de eletrões de substratos metabólicos para a cadeia respiratória, a
acetil-CoA desidrogenase e a glicerol-fosfato desidrogenase (Fig. 6.11).
O transporte de eletrões entre os complexos respiratórios é feito através de dois transportadores de
eletrões móveis, a ubiquinona (também chamado de coenzima Q), uma molécula muito hidrofóbica
com uma grande mobilidade na membrana mitocondrial (independentemente do seu estado de
protonação), e o citocromo c, uma pequena proteína associada à face externa da membrana
mitocondrial interna (Fig. 6.11).
O NADH formado em reações oxidativas metabólicas dependentes do NAD+ é um transportador de
eletrões solúvel em água que se associa reversivelmente a desidrogenases específicas. Os eletrões
são transferidos do NADH para o O2 através de três complexos proteicos: NADH/ubiquinona
oxirredutase, ubiquinona/citocromo c oxirredutase e citocromo c oxidase.
O transportador de eletrões FAD está, geralmente, covalentemente ligado a desidrogenases
dependentes de FAD. Este tipo de enzima inclui a sucinato desidrogenase, a acetil-CoA desidrogenase
e a glicerol-fosfato desidrogenase. Nas reações catalisadas por estas três enzimas dependentes de
FAD, o FAD é reduzido a FADH2, cujos eletrões são então transferidos para o O2 através da
ubiquinona/citocromo c oxirredutase e da citocromo c oxirredutase, como descrito para os eletrões da
NADH/ubiquinona oxirredutase (Fig. 6.11).
A numeração dos quatro primeiros complexos transportadores de eletrões identificados de I a IV e
o conceito de que formam uma cadeia, conforme inferido pelo nome geralmente usado de “cadeia
transportadora de eletrões” ou “cadeia respiratória”, deu origem à ideia não completamente correta de
que os complexos transportadores de eletrões estão arranjados sequencialmente e de que o transporte
de eletrões ocorre através de um percurso linear.
168 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Fig. 6.12 Sistema transportador de eletrões convergente. A ubiquinona recebe os eletrões de quatro complexos
proteicos diferentes: NADH/ubiquinona oxirredutase (ou Complexo I), sucinato/ubiquinona oxirredutase (ou
Complexo II), FTE/Q oxirredutase (FTE) e gliceraldeído desidrogenase (GpDH). O NADH vem das desidrogenases
dependentes de NAD, principalmente gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase, piruvato desidrogenase, isocitrato
desidrogenase, α-cetoglutarato desidrogenase e malato desidrogenase. O FADH2 está ligado ao
sucinato/ubiquinona oxirredutase, GpDH, ou acil-CoA desidrogenase, que por sua vez está associada ao FTE.
Depois, os eletrões são transportados para o O2 através de um caminho “linear” composto pelo
ubiquinona/citocromo c oxirredutase (ou Complexo III), citocromo c e citocromo c oxidase (ou complexo IV)

Uma terminologia mais apropriada provem do conceito de um “sistema transportador de eletrões”


convergente, como proposto por Erich Gnaiger, no qual os eletrões tanto provenientes do NADH via
Complexo I como do FADH2 através dos três diferentes complexos associados a FAD, o Complexo II, a
flavoproteína de transferência de eletrões (FTE) ou a glicerol-fosfato desidrogenase (GpDH),
convergem para a ubiquinona, na chamada “junção-Q” (Fig. 6.12). Depois deste ponto de convergência,
os eletrões fluem para o oxigénio através de um percurso “linear” composto pelo Complexo III,
citocromo c e Complexo IV.

6.2.3.3 A estrutura dos componentes de transferência de eletrões


Em baixo está presente uma descrição detalhada de cada componente de transferência de eletrões da
cadeia respiratória, já que estes são casos pragmáticos de corelação estrutura/função.
A NADH/ubiquinona oxirredutase (ou Complexo I) é composta por 45 cadeias polipeptídicas
associada a diversos grupos de transferência de eletrões: o nucleótido flavina (FMN) e vários centros
ferro-enxofre (Fe-S). A estrutura cristalina completa da NADH/ubiquinona oxirredutase está apenas
disponível para as enzimas procariotas mais simples (Fig. 6.13a), mas o elevado grau de conservação
de sequência sugere que a enzima bacteriana representa um modelo minimalista da enzima humana.
Os eletrões removidos do NADH circulam através do FMN e, posteriormente, para os grupos Fe-S
para finalmente reduzirem a ubiquinona a ubiquinol (Fig. 6.13b). A transferência de eletrões através dos
componentes da enzima leva ao transporte de quatro protões da matriz para o espaço intermembranar.

A sucinato/ubiquinona oxirredutase (ou Complexo II) é uma enzima de membrana mitocondrial


dependente de FAD que catalisa a oxidação do sucinato a fumarato, uma reação do ciclo do ácido
tricarboxílico (TCA), ciclo este que é responsável pela oxidação completa do acetil-CoA, que, por sua
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 169

vez é o produto convergente dos processos de degradação de lípidos, açúcares e alguns aminoácidos
(ver Secção 7.2.). Esta enzima é geralmente designada como sucinato desidrogenase, mas um vez que
a oxidação do sucinato a fumarato está associada à transferência de eletrões para a ubiquinona,
sucinato/ubiquinona oxirredutase é uma designação mais precisa. A enzima contém quatro cadeias
polipeptídicas, um heterodímero catalítico composto por uma subunidade A, que contem um FAD
covalentemente ligado, e uma subunidade B, que contem três centro Fe-S, e dois polipéptidos
transmembranares que ancoram a enzima na membrana mitocondrial e onde se encontra um grupo
heme b (Fig. 6.14).

Fig. 6.13 (a) Estrutura do complexo NADH/ubiquinona oxirredutase de Thermus thermophilus (PDB 3M9S), com
cada subunidade com uma cor diferente. Este complexo catalisa a oxidação do NADH para NAD +, com a redução
da ubiquinona (Q) a ubiquinol (QH2). (b) A transferência de eletrões (e-) do NADH para a ubiquinona (representada
por traços magenta), que circulam através do FMN (representado por traços verdes) e dos centros ferro-enxofre
(esferas amarelas e laranja), está representada pelas setas vermelhas ao longo do mapa de superfície da proteína.
A transferência de eletrões está associada à translocação de quatro protões
170 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Fig. 6.14 (a) Estrutura do complexo sucinato/ubiquinona oxirredutase de coração de porco (PDB 1ZOY). A proteína
associada ao FAD, ou subunidade A, está representada em azul; a proteína ferro-enxofre, ou subunidade B, está
representada em amarelo claro; e as proteínas transmembranares estão coloridas de rosa e laranja. A enzima
catalisa a oxidação dependente de FAD do sucinato a fumarato, com a consequente redução da ubiquinona (Q) a
ubiquinol (QH2). (b) O percurso da transferência de eletrões (e -) do FAD (representado por traços laranja) para o
heme b (traços vermelhos), seguindo através dos centros Fe-S (esferas laranja e amarelas) para finamente reduzir
a ubiquinona (em traços magenta), está representado por setas vermelhas ao longo do mapa de superfície da
proteína

A acil-CoA desidrogenase (ACAD) catalisa o primeiro passo na oxidação mitocondrial de ácidos


gordos: a conversão de um acil-CoA a trans-2,3-enoil-CoA com a redução da coenzima associada à
enzima FAD (ver Secção 7.4.4). A ACAD associa-se à flavoproteína de transferência de eletrões (ETF),
que reoxida o FADH2 associado a ACAD. A ETF depois transfere os eletrões para a ETF/Q oxirredutase
que por sua vez reduz a ubiquinona depois do transporte de eletrões ser feito através dos centros Fe-S
(Fig. 6.15). Existem cinco isoformas desta enzima que têm especificidade distinta para os diferentes
comprimentos da cadeia gorda do acil. A acil-CoA desidrogenase de cadeia muito longa (VLCAD) forma
homodímeros com subunidades de 67 kDa ligadas à membrana interna mitocondrial através dos
últimos 180 resíduos da extremidade C-terminal. Estes resíduos não estão presentes nas acil-CoA
desidrogensases de longa, média e curta cadeia (LCAD, MCAD, e SCAD, respetivamente), isoformas
que são homotetrameros solúveis com subunidades de 45 kDa.
A desidrogenase glicerol-fosfato (GpDH) é uma enzima dimérica associada à face externa da
membrana interna mitocondrial que oxida o glicerol-3-fosfato a dihidroxiacetona fosfato (DHAP) com
redução do FAD associado à enzima que medeia a transferência de eletrões para a ubiquinona (Fig.
6.16).
A ubiquinona é uma benziquinona solúvel em lípidos com uma cauda isoprenoide, que nos
mamíferos é composta por 10 unidades isoprenil, fazendo com que a molécula seja muito hidrofóbica
e por isso solúvel em membranas (Fig. 6.17). É reduzido a ubiquinol depois de aceitar dois eletrões e
dois H+ da NADH/ubiquinona oxirredutase, da sucinato/ubiquinona oxirredutase, da ETF/Q oxirredutase
ou da GpDH e difunde-se na membrana atingindo a ubiquinona/citocromo c oxirredutase para a qual
os eletrões são transferidos.
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 171

Fig. 6.15 Representação das múltiplas etapas da transferência de eletrões de um acil-CoA (oxidado a trans-enoil-
CoA) para a ubiquinona (Q, reduzida a ubiquinol, QH2). As estruturas conhecidas utilizadas como exemplo são o
dímero VLCAD humano (PDB 3B96) complexado com o substrato miristoil-CoA (representado por esferas rosa); a
ETF humana (PDB 1EFV); e o ETF/QO de fígado de porco (PDB 2GMH) complexado com ubiquinona (representado
por traços magenta). Os eletrões (e-) são transferidos através de cada FAD ligado às enzimas (representado por
traços laranja) para o centro Fe-S (esferas amarelas e laranja) no ETF/QO para finalmente reduzir a ubiquinona

Fig. 6.16 Estrutura do dímero GpDH de E.coli (PDB 2QCU), com o FAD ligado à enzima (representado por traços
laranja), que transfere os eletrões (e-) para a ubiquinona (Q, reduzida a ubiquinol, QH2; estrutura molecular
representada em traços magenta)
172 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Fig. 6.17 Estrutura das formas redox da coenzima Q: a ubiquinona é a forma oxidada que é completamente
reduzida a ubiquinol ao aceitar dois eletrões e dois H+ nas reações catalisadas pela NADH/ubiquinona oxirredutase,
da sucinato/ubiquinona oxirredutase, da ETF/Q oxirredutase ou GpDH. O ubiquinol é reoxidado pela
ubiquinona/citocromo c oxirredutase. A redução da ubiquinona e a oxidação do ubiquinol envolve um passo
intermédio no qual é formado um radical semiquinona ( •Q-) meia-reduzido. As implicações disto serão discutidas
na Secção 6.2.5

A ubiquinona/ citocromo c oxirredutase (ou Complexo III) transfere os eletrões do ubiquinol para o
citocromo c com o transporte associado de quatro H+ da matriz para o espaço intermembranar. Este
complexo proteico tem uma estrutura dimérica, sendo que cada monómero é um complexo resultante
da associação de 11 cadeias polipeptídicas. Os eletrões são transportados através de três grupos
funcionais associados a cada monómero: citocromo b, que contém dois grupos heme tipo b, um centro
Fe-S e citocromo c1 que contem um grupo heme tipo c (Fig. 6.18).
O citocromo c é uma proteína monomérica que contem um grupo heme (Fig. 6.19). Esta proteína
está localizada no espaço intermembranar numa associação estreita com a membrana mitocondrial
interna. É reduzida pela ubiquinona/citocromo c oxirredutase e é reoxidada pela citocromo c oxidase.
A citocromo c oxidase (ou Complexo IV) é um complexo dimérico com 13 subunidades
monoméricas que transfere eletrões do citocromo c para o O2, formando H2O. Contem dois iões Cu
associados aos grupos SH das duas Cys da subunidade que recebe os eletrões do citocromo c e os
transfere para um grupo heme tipo a que por sua vez transfere os eletrões para outro grupo heme a,
heme a3, estando este associado a outro ião Cu, que finalmente transfere os eletrões para o O 2 (Fig.
6.20).
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 173

Fig. 6.18 (a) A estrutura dimérica completa da ubiquinona/citocromo c oxirredutase bovina (PDB 1BE3) com as 11
subunidades com uma cor diferente. (b) O percurso da transferência de eletrões (e-) do ubiquinol para o citocromo
c, passando através dos grupos heme b (traços vermelhos) da subunidade citocromo b (roxo claro em A), o centro
Fe-S (esferas laranja e amarelas) e o grupo heme c (traços vermelhos) da subunidade citocromo c1 (colorido a
rosa em A), para finalmente reduzir o citocromo c, está representado por setas vermelhas ao longo do mapa de
superfície da proteína

Fig. 6.19 Estrutura do citocromo c humano (PDB 1HCR), com o grupo heme representado por traços vermelhos

Fig. 6.20 (a) Estrutura dimérica da citocromo c oxidase bovina (PDB 1OCC), com as 13 subunidades de cada
monómero representadas de uma cor diferente. A enzima catalisa a oxidação do citocromo c com a redução do
O2 a H2O. (b) Os eletrões (e-) são transferidos sequencialmente através do centro CuA (esferas castanhas), para o
heme a (traços vermelhos) e heme a3 (traços vermelhos) – centro CuB (esferas castanhas) para finalmente reduzir
o O2 a H2O, conforme representado pelas setas vermelhas ao longo do mapa de superfície da proteína
174 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

A síntese de ATP é catalisada por um grande complexo proteico, a ATP sintetase, localizado, como os
complexos respiratórios, na membrana mitocondrial interna. A enzima usa como substratos o ADP e o
Pi numa reação dependente do fluxo de H+ do espaço intermembranar para a matriz mitocondrial.
Numa imagem de microscopia eletrónica, a ATP sintetase tem a forma característica de uma cabeça
ligada à membrana mitocondrial interna através de uma longa haste. Através de estudos feitos
utilizando a técnica de criotomografia eletrónica, foi possível observar que os dímeros da ATP sintetase
estão arranjados em longas filas, ao longo das cristas encurvadas das mitocondrias, uma organização
semelhante em mitocôndrias de mamíferos, fungos e plantas (Fig. 6.21).

Fig. 6.21 (a) Fatias tomográficas revelando os arrays dos dímeros da F1-F0 ATP sintetase (setas amarelas) numa
mitocôndria inteira de Podospora anserina. (b) Filas de F1-F0 ATP sintetase em membranas mitocondriais de
coração de porco, Yarrowia lipolytica, Podospora anserina, Saccharomyces cerevisiae e batata. Nas aproximações
vê-se uma vista lateral de cada um dos arrays com os dímeros em relação com a membrana. As setas amarelas
indicam a cabeça F1 de um dímero. Escala, 50 nm. Em baixo está uma representação da superfície de cada um dos
dímeros. Figuras reproduzidas com permissão de Davies et al. Proc. Natl. Acad. Sci. USA 108:14121-14126, 2011

6.2.4.1 A estrutura da ATP sintetase


A estrutura global desta enzima pode ser dividida em dois grandes componentes: a porção F 1, uma
proteína de membrana periférica vista claramente em imagens de microscopia eletrónica como
projeções da membrana mitocondrial interna (ver Fig. 6.21.) e a porção F0 (cuja denominação se deve
à sua sensibilidade à oligomicina), uma proteína de membrana integral, através da qual passa um fluxo
de H+ do espaço intermembranar para a matriz mitocondrial (Fig. 6.22).
A porção F1 da ATP sintetase foi isolada e purificada por Efraim Racker, cujos estudos foram
decisivos para a compreensão do mecanismo da reação de síntese de ATP. A estrutura cristalográfica
da porção F1, determinada por John E. Walker (Fig. 6.22a), revelou que tem nove subunidades de cinco
tipos diferentes: três subunidades α, três subunidades β, uma subunidade γ, uma δ e uma ε (Fig. 6.22).
As subunidades δ e ε interagem com as hélices transmembranares embebidas na membrana da porção
F0 da enzima. Os locais catalíticos da síntese de ATP estão localizados em cada uma das subunidades
β, cuja conformação na estrutura da enzima é diferente da das outras subunidades β devido às
diferentes interações com as outras subunidades da enzima. Isto é essencial ao mecanismo de síntese
de ATP, como estará descrito na próxima secção.
O complexo F0 é composto por três tipos de subunidades: uma subunidade a, duas subunidades b
que se associam com as subunidades α e β de F1 e 10-12 pequenas subunidades c, que são
polipéptidos hidrofóbicos que consistem em duas hélices transmembranares que formam um cilindro
embebido na membrana que interage com as subunidades δ e ε do complexo F 1 (ver representação
esquemática na Fig. 6.22b).
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 175

Fig. 6.22 (a) Estrutura da porção F1 e parte da porção F0 da ATP sintetase de Saccharomyces cerevisiae (PDB
2XOK). As subunidades α, β, γ e ε de F1 estão representadas em azul ciano, roxo, verde claro e rosa, respetivamente.
As subunidades c de F0 estão representadas a vermelho. (b) Representação esquemática de toda a F0-F1 sintetase,
mostrando a subunidade δ da porção F1, assim como as subunidades a e b de F0, que ainda não estavam
determinadas e que por isso não estão representadas na estrutura cristalográfica em (a)

6.2.4.2 O Mecanismo de Síntese de ATP pela ATP Sintetase


A síntese de ATP a partir do ADP e Pi é uma reação muito endergónica numa solução aquosa. No
entanto, um ponto importante para perceber o mecanismo de síntese de ATP a partir da ATP sintetase
é que quando esta reação se dá no ambiente de F1 é reversível com uma variação de energia livre
próxima de zero (ver Caixa 6.2). Para a reação catalisada por F1, a barreira de energia consiste no passo
de libertação do ATP pela enzima. Esta barreira de energia é ultrapassada pela energia fornecida pelo
gradiente de H+, uma vez que ao atravessar a porção F0 promove alterações conformacionais na
subunidade β, fazendo com que esta perca a sua afinidade para o ATP.
Esta perspetiva da síntese de ATP foi formulada por Paul D. Boyer. Dos seus estudos cinéticos,
emergiram dois novos conceitos. O primeiro foi que os três locais catalíticos da ATP sintetase
participam sequencialmente e cooperativamente no ciclo catalítico; o segundo foi que o mecanismo
catalítico trata-se de uma “catálise rotativa” como Boyer denominou, no qual os três locais catalíticos
alternam a reação de catálise (ver Caixa 6.6). Uma pista para esta proposta foi dada pela estrutura
cristalográfica de F1, que revelou que as três subunidades β estavam ocupadas de forma diferente
durante o ciclo catalítico, uma tinha um ADP ligado, outra tinha um ATP e terceira estava vazia (ver Fig.
6.23a).
O mecanismo da catálise rotativa pode ser resumido pelo modelo da Fig. 6.23b. O ADP e o Pi do
meio ligam-se ao local catalítico da subunidade β que está na conformação β-ADP. A conformação
desta subunidade β altera-se para a conformação β-ATP devido à rotação da enzima impulsionada pelo
fluxo de H+ através da porção F0. Nesta conformação a subunidade β estabiliza o ATP, que está em
equilíbrio com o ADP e o Pi no centro ativo. Depois dá-se outra rotação da porção F1, levando a que esta
subunidade β sofra outra mudança conformacional, agora adquirindo a conformação vazia, que perde
a afinidade para o ATP, fazendo com que este seja libertado para o meio. Inicia-se outro ciclo quando
outra rotação da porção F1 coloca uma subunidade β na conformação β-ADP. Este movimento rotativo
justifica o nome de “máquina molecular” que é frequentemente dado à ATP sintetase.
176 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Fig. 6.23 (a) Estrutura da porção F1 mitocondrial bovina com um ADP ligado a uma das subunidades β, em amarelo,
e um análogo de um ATP não hidrolisado (éster ácido-adenilato fosfoaminofosfónico) ligado a outra subunidade
β, em laranja (PDB 1BMF). (b) Representação esquemática das diferentes conformações assumidas pelas
subunidades de F1: ADP e Pi ligados à subunidade β catalítica, que está na conformação β-ADP. A rotação da
enzima, possível pelo fluxo de H+ através da porção F0, promove uma alteração conformacional na subunidade β
que adquire a conformação β-ATP, que estabiliza ATP no centro ativo. Posteriormente, outra rotação da porção F1
leva a subunidade à sua conformação vazia, que perde a sua afinidade para o ATP libertando-o para o meio

Caixa 6.6: A confirmação do Modelo de Boyer por microscopia em tempo real


A rotação da porção F1 pode ser diretamente vista numa experiência engenhosa realizada pelos
grupos de investigadores de Masasuke Yoshida e Kazuhiko Kinosita (publicado em Nature 386:
299-302, 1977), no qual se ligou à subunidade γ de F0 um longo filamento de actina fluorescente
e se observou o seu movimento à medida que o ATP era hidrolisado, em tempo real num
microscópio, em relação ao centro α3β3 imobilizado na preparação. Também se observou que a
rotação ocorria em três movimentos discretos de 120˚, confirmando completamente o modelo
de Boyer.
Devido a este grande contributo para a compreensão do mecanismo de síntese de ATP, Boyer
partilhou o Prémio Nobel da Química, em 1997, co John Walker, que determinou a estrutura
cristalográfica da porção F1 da enzima, um passo essencial para a compreensão do mecanismo
catalítico.

A fosforilação oxidativa é geralmente limitada pela disponibilidade de ADP, de tal modo que o principal
controlo da síntese de ATP por fosforilação oxidativa é a necessidade celular de ATP.
Quando os substratos respiratórios estão disponíveis, o ATP é sintetizado de modo que o ratio
ATP/ADP aumenta. Se os níveis de ADP se tornarem muito baixos (quando a síntese de ATP ultrapassa
o seu consumo no metabolismo celular) mas os substratos continuam disponíveis, o gradiente de H +
atinge o seu nível máximo. Isto previne o transporte de eletrões e consequentemente o processo
respiratório uma vez que gradiente não pode ser dissipado através da ATP sintetase, que não consegue
funcionar devido à ausência do seu substrato, o ADP. Esta situação é chamada respiração de nível 4
(Fig. 6.24) e ilustra a baixa permeabilidade da membrana mitocondrial interna para H + e para o
transporte de eletrões para a síntese de ATP.
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 177

Fig. 6.24 Representação da extensão do gradiente de protões, consumo de oxigénio e síntese de ATP quando um
substrato respiratório (ex.: sucinato), ADP e um desacoplador (ex.: p-trifluorometoxicarbonil cianide fenilhidrazone,
FCCP) são adicionados a mitocôndrias intactas in vitro

Quando o ADP fica disponível, a ATP sintetase fosforila-o a ATP, e o gradiente de H+ é reduzido de
tal modo que é possível que a respiração se volte a dar, enquanto o ADP está disponível. Nesta situação,
a respiração ocorre ao mesmo ritmo que a síntese de ATP, sendo esta fase chamada de respiração de
nível 3 (Fig. 6.24).
No entanto, mesmo no nível 4 ou quando a fosforilação do ADP é inibida (ex.: utilizando oligomicina)
é observado algum consumo de oxigénio, demonstrando que a associação da respiração à síntese de
ATP é imperfeita e parte da energia será normalmente dissipada sob a forma de calor. Isto ocorre até
certa extensão devido à dissipação de H+ através da membrana mitocondrial interna. Este fenómeno
pode ser reproduzido pelo uso de substâncias chamadas desacopladores (e.g., p-
trifluorometoxicarbonil cianide fenilhidrazone, FCCP), cujo efeito no consumo de O 2, no gradiente de H+
e na síntese de ATP está representado na Fig. 6.24. Na presença de desacopladores, o H+ desloca-se
rapidamente para a matriz, sem passar na ATP sintetase e colapsando o gradiente, o que leva a que a
respiração seja acelerada mas dissociada da fosforilação do ADP.

6.2.5.1 Proteínas Desacopladoras: Os Desaclopadores Fisiológicos


Fisiologicamente, a desassociação do transporte de eletrões da fosforilação do ADP é feita por uma
família de proteínas desacopladoras (UCP). A melhor estudada e a primeira a ser identificada, UCP1, é
expressa exclusivamente num tecido especializado, o tecido adiposo castanho (BAT). Ao contrário dos
adipócitos brancos, os adipócitos castanhos contêm várias gotículas lipídicas e um número muito mais
elevado de mitocôndrias (Fig. 6.25a), o que confere a cor castanha ao tecido.
178 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Fig. 6.25 (a) Micrografia de transmissão eletrónica de um adipócito de um corte de tecido adiposo castanho,
mostrando gotículas lipídicas (LD) e um número elevado de mitocôndrias (M); N: núcleo (Cortesia da Prof. Marlene
Benchimol). (b) As UCPs são proteínas integrais da membrana mitocondrial interna que permitem que o fluxo de
H+ não atravesse a ATP sintetase, dissipando o gradiente e acelerando a respiração. (c) Western blotting revelando
o padrão de expressão das três isoformas da UCP em tecidos de rato (Reproduzido com a permissão de Portland
Press de Ricquier & Bouillaud. Biochem J. 345: 161-179, 2000)

Em humanos, o tecido adiposo castanho é encontrado maioritariamente em recém-nascidos,


regulando a termogénese através da expressão de UCP1. Esta proteína ocorre em abundância na
membrana mitocondrial interna e oferece uma passagem alternativa para o H + regressar à matriz
mitocondrial sem passar na ATP sintetase, dissipando o gradiente e acelerando a respiração,
resultando na produção de calor de uma forma regulada (Fig. 6.25b). Até recentemente, era
considerado que este tecido não tinha relevância fisiológica em humanos adultos, mas algumas
descobertas recentes sugerem que as células reminiscentes de BAT podem proliferar quando expostas
ao frio (Caixa 6.7). Este efeito parece ser mais prenunciado em indivíduos magros, sugerindo que a
respiração regulada através de desacopladores pode ser uma forma de controlar o dispêndio de
energia. (ver Capítulo 11).

Duas outras isoformas de UCP foram caracterizadas, UCP2 e UCP3. Estas revelam uma distribuição
nos tecidos mais alargada (Fig. 6.25c) e provavelmente têm como papel proteger as células contra
espécies reativas ao oxigénio, que podem ser produzidas em excesso nas mitocôndrias em certas
situações, como quando é fornecida uma quantidade excessiva de substrato às células (ver próxima
secção).

Caixa 6.7: Tecido adiposo castanho em humanos adultos


Scans de tomografia com emissão de positrões combinada com tomografia computorizada
(PET-CT) utilizando como marcador 18F-fluorodeoxiglucose (18F-FDG) são geralmente utilizados
para diagnosticar neoplasias e as suas metástases, uma vez que as células tumorais têm um
muito consumo de glucose do que as outras células (ver Caixa 6.4 sobre o efeito de Warburg).
Nestes testes, é frequentemente observado um consumo elevado de glucose no tecido
supraclavicular, às vezes confundindo o diagnóstico. É especulado que estas células altamente
glicolíticas, nesta região, possam ser tecido adiposo castanho (BAT). Recentemente, foram
efetuados estudos para investigar este tecido. Em alguns destes estudos, voluntários saudáveis
foram expostos a 16 ˚C durante 2h, antes dos testes. Scans PET-CT comparativos revelaram um
grande aumento do uptake de 18F-FDG na região supraclavicular quando exposta ao frio (ver
6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP 179

imagem). Além disso, foram realizadas biópsias ao tecido para imunocoloração com um
antisérum específico para UCP1, confirmando a presença de quantidades substanciais de BAT
metabolicamente ativo em humanos adultos. Uma examinação sistemática da presença e
distribuição de BAT em homens magros e obesos durante exposição a temperaturas baixas
mostrou que a atividade do tecido adiposo castanho é inversamente proporcional ao índice de
massa corporal (BMI). Adicionalmente, a análise de 3640 scans PET-CT consecutivos realizados
por diversas razões de diagnóstico em 1972 pacientes mostraram deposições substanciais de
BAT em regiões que se estendem do pescoço anterior ao tórax em 76 de 1013 mulheres (7.5%)
e em 30 de 959 homens (3.1%), com uma maior massa também nas mulheres.

Presença de BAT em humanos detetada por scans PET-CT após exposição ao frio (canto superior esquerdo)
e em condições termoneutras (canto superior direito) e imagens histológicas de biópsias de indivíduos com
coloração para UCP1 (meio direita) e a quantificação da prevalência (canto inferior esquerdo) e quantidade
(canto inferior direito) de BAT em homens (azul) e mulheres (rosa). (Reproduzido com permissão de
Lichtenbelt et al. New Engl. J. Med. 360:1500-1508, 2009 e Cypess et al. New Engl. J. Med. 360:1509-1517,
2009)

6.2.5.2 Produção de espécies reativas ao oxigénio na mitocôndria


Em situações fisiológicas ou patológicas nas quais a entrada de eletrões na cadeia respiratória
ultrapassa a sua transferência para o oxigénio, como na hipoxia, a formação de espécies reativas ao
oxigénio (ROS) é aumentada. Isto acontece porque a passagem de eletrões do complexo I para a
ubiquinona e da ubiquinona para o complexo III envolve a formação de um radical de ubiquinona
parcialmente reduzido (•Q-) como intermediário. Quando o fluxo de eletrões através da cadeia
respiratória é muito elevado, a probabilidade de este radical reagir com componentes celulares antes
180 6 Conversão Energética no Metabolismo: O Mecanismo da Síntese de ATP

Fig. 6.26 Um radical de ubiquinona parcialmente reduzido (•Q-) é formado como um intermediário na redução da
ubiquinona a ubiquinol pelo complexo I e na oxidação do ubiquinol a ubiquinona pelo complexo III. Se o •Q-
acumular, pode reagir com o O2 formando •Q2- e •OH. As células têm diferentes sistemas enzimáticos para prevenir
danos oxidativos causados por ROS, incluindo as enzimas superóxido dismutase, glutationa peroxidase e catálase

de ser completamente reduzido ou oxidado aumenta substancialmente. •Q- pode reagir com o oxigénio
formando o radical superóxido (•Q2-). Este radical é muito reativo e a sua formação pode levar à
produção de um radical ainda mais reativo, o radical hidroxilo (•OH). Estas espécies reativas ao oxigénio
(ROS) podem reagir e danificar enzimas, lípidos e ácidos nucleicos. Podem ainda alterar a expressão
celular de genes, levando a diversas modificações nas funções celulares.
As células têm diferentes sistemas enzimáticos para prevenir danos oxidativos causados por ROS.
Estes sistemas incluem a enzima superóxido dismutase que converte •Q2- em peróxido de hidrogénio
(H2O2), que por sua vez pode ser utilizado pela glutationa peroxidase para reduzir glutationa ou pela
catálase para formar H2O (Fig. 6.26).

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Catabolismo das Principais Biomoléculas

Tradução: Vasco Martins e Beatriz Pereira


Revisão: Catarina Cardoso e Ivo Palmeiro
(Páginas 223-257)

O Catabolismo é o grupo de vias metabólicas em que a energia química contida nas moléculas dos
nutrientes é transferida para outros compostos, particularmente o ATP, que, por sua vez, é a fonte de
energia de diferentes processos celulares como a síntese de novas biomoléculas, transporte de iões
pelas membranas celulares e a contração muscular.
Na secção 6.2. discutimos em detalhe o mecanismo da síntese do ATP por fosforilação oxidativa,
que começa com o eletrão transferido das coenzimas reduzidas NADH e FADH2 para os componentes
da cadeia respiratória. Neste capítulo iremos apresentar as vias metabólicas pelas quais a oxidação
das moléculas dos nutrientes resulta na redução do NAD+ e do FAD, gerando as coenzimas reduzidas
que alimentam o sistema transportador de eletrões.

7.1 Uma Visão Geral Sobre o Catabolismo


Os hidratos de carbono, lípidos e proteínas são os principais constituintes dos alimentos e servem
como moléculas de combustível do corpo humano. O saldo energético gerado para o metabolismo de
cada um destes nutrientes nos humanos foi determinado no final do século XIX pelo trabalho pioneiro
de Wilbur O. Atwater, que desenvolveu um calorímetro de respiração humana (ver Caixa 7.1) e obteve
os valores de 4.0, 4.0 e 8.9 kcal/g para os hidratos de carbono, proteínas e gorduras, respetivamente,
valores que ainda hoje são considerados válidos.
Os principais produtos da digestão dos hidratos de carbono, lípidos e proteínas (monossacáridos,
ácidos gordos e aminoácidos, respetivamente) alcançam a corrente sanguínea e entram nas células,
onde são primeiramente metabolizados por uma via catabólica específica que converge numa via
central do metabolismo, o Ciclo do Ácido Tricarboxílico (ciclo TCA) (Fig. 7.1), também conhecida como
Ciclo de Krebs (ver Secção 7.2.3).
A formação de uma molécula de acetil-coenzima A (acetil-CoA) é o ponto de convergência das vias
de degradação dos monossacáridos, ácidos gordos e de alguns aminoácidos (Fig. 7.1). A seguir, o
acetil-CoA é completamente oxidado em CO2 no ciclo TCA, para o qual os produtos da degradação dos
outros aminoácidos também convergem. Nas reações oxidativas do ciclo TCA, os eletrões são
transferidos dos intermediários do ciclo TCA para o NAD+ ou FAD, gerando NADH e FADH2 que, por sua
vez, vão transferir os eletrões para o O2 através do sistema respiratório (ver Secção 6.2.2). Assim, no
processo geral, é consumido O2 e produzido CO2. Este processo é chamado de respiração celular, em
analogia ao termo fisiológico respiração, que é atribuído às trocas gasosas que ocorrem nos pulmões.

182
183 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

Caixa 7.1: Wilbur O. Atwater e os Estudos da Nutrição Humana


Atwater começou a sua carreira científica na química agrícola, estudando fertilizantes, mas as
suas maiores contribuições para o avanço da ciência vieram quando ele mudou o seu interesse
científico para a nutrição humana, depois de passar um período no laboratório de Carl von Voit’s,
na Alemanha. Atwater desenvolveu estudos sistemáticas sobre a composição e digestibilidade
dos alimentos e sobre o tipo de alimentos que as pessoas de diferentes grupos étnicos em áreas
geográficas diferentes ingeriam. Nessa altura, parte do seu interesse estava focado em descobrir
como é que as pessoas mais pobres podiam fazer escolhas mais económicas sobre os
alimentos, mantendo o seu valor nutricional. Em 1893, o grupo de Atwater desenvolveu um
calorímetro respiratório para estudos do metabolismo humano, conhecido como calorímetro
humano de Atwater-Rosa-Benedict (ver figura). Este sistema permitiu-lhes medir o contributo de
energia metabolizável de cada uma das moléculas dos nutrientes.

Vista interior do calorímetro da respiração humana de Atwater-Rosa-Benedict (imagem de http://vlp.mpiwg-


berlin.mpg.de/references?id=lit15620&page=p0213) e representação esquemática dos seus componentes
(reproduzida do livro The Elements of the Science of Human Nutrition, by Lusk G, 1917). O indivíduo em
estudo entra numa câmara de cobre com capacidade para 1123L, deita-se numa cama e a câmara é fechada
hermeticamente. O ar de dentro da câmara passa por três garrafas previamente pesadas contendo (1) ácido
sulfúrico, que remove a água; (2) cal sodada húmida, que remove o CO2; (3) e ácido sulfúrico, uma vez mais,
que absorve a humidade removida da cal sodada. O ganho de massa da garrafa 1 representa a água
absorvida e o ganho de massa das garrafas 2 e 3 corresponde ao CO 2 absorvido. Um cilindro de O2
alimentou o sistema automaticamente e o consumo de O 2 foi calculado pesando o cilindro antes e depois
da experiência

As vias específicas de degradação dos ácidos gordos e glicose, a β-oxidação e a glicólise,


respetivamente, também têm etapas oxidativas nas quais o FAD e/ou o NAD+ são reduzidos (Fig. 7.1).
Por outro lado, as reações do metabolismo dos aminoácidos, que geram os intermediários da via
metabólica central, consistem basicamente em reações de transaminação ou desaminação que
removem o grupo amina das moléculas de aminoácido, seguidas em alguns casos por rearranjos no
esqueleto de carbono.
Neste capítulo, vamos focar-nos, em primeiro lugar, na via central de oxidação do acetil-CoA, o ciclo
TCA, para o qual convergem, por fim, todos produtos da degradação dos nutrientes, para alimentar o
sistema transportador de eletrões. De seguida, vamos descrever cada via específica de degradação
dos monossacáridos, ácidos gordos e aminoácidos.
É importante ter em mente que o uso de cada molécula dos nutrientes como fonte de energia para
a síntese de ATP depende do estado metabólico. (Fig. 7.2). Por exemplo, depois de uma refeição
equilibrada, o aumento da glicose sanguínea espoleta uma série de eventos reguladores que elegem
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 184

Fig. 7.1 Representação esquemática de uma célula genérica, mostrando as vias catabólicas. A digestão dos
carboidratos origina monossacáridos, principalmente glicose, que é degradada na glicólise em duas moléculas de
piruvato. Nesta via, uma etapa oxidativa é acoplada à redução do NAD +, originando NADH que alimenta a cadeia
respiratória (sistema transportador de eletrões, ETS ou STE) com eletrões que reduzem, por fim, o O 2 a H2O. O
piruvato é convertido a acetil-CoA na matriz mitocondrial numa reação que envolve uma descarboxilação oxidativa
com a concomitante redução do NAD+ a NADH. A degradação dos ácidos gordos ocorre pela via conhecida como
β-oxidação, que remove, sequencialmente, um fragmento de dois carbonos da cadeia do ácido gordo, sob a forma
de acetil-CoA, com a concomitante redução do FAD e do NAD+. Os aminoácidos, os produtos da hidrólise das
proteínas, passam por reações de transaminação ou desaminação que removem o seu grupo amina e geram
intermediários da via metabólica central. Os círculos na representação dos eletrões indicam que estes não estão
livres no meio celular, mas são transferidos pelos compostos de cada via

os carboidratos como a principal classe de nutrientes a ser usada como fonte energética, enquanto que
as gorduras são armazenadas no tecido adiposo (ver Cap. 8). Por outro lado, durante os intervalos entre
refeições ou durante períodos de jejum ou dietas pobres em hidratos de carbono, os ácidos gordos são
mobilizados a partir do tecido adiposo e tornam-se a principal fonte energética para a maioria dos
tecidos do corpo (ver Capítulo 9).
185 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

Fig. 7.2 Visão geral da integração do metabolismo em diferentes estados metabólicos, enfatizando o catabolismo
das diferentes moléculas dos nutrientes. (a) Depois de uma refeição equilibrada, o metabolismo dos carboidratos
é a principal via para a síntese de ATP, praticamente, em todas as células do corpo. Os lípidos ingeridos são
armazenados no tecido adiposo. O excesso de glicose é armazenado como glicogénio no músculo e nas células
do fígado ou convertida em lípidos no fígado e no tecido adiposo. (b) Quando a concentração de glicose no sangue
diminui, os ácidos gordos são mobilizados do tecido adiposo, tornando-se a principal fonte energética para a
maioria dos tecidos. As células que não possuem mitocôndrias, como os eritrócitos, ou que estão isoladas da
circulação sistémica, como as do sistema nervoso central, são exceções por manterem o catabolismo da glicose
nesta situação

7.2 Ciclo do Ácido Tricarboxílico: A Via Central para a Oxidação das Três Classes
de Moléculas dos Nutrientes
No metabolismo aeróbico, os produtos da degradação dos nutrientes convergem no ciclo TCA, uma via
central que consiste em oito reações (Fig. 7.3). Nesta via, o grupo acetil do acetil-CoA resultante do
catabolismo dos monossacáridos, ácidos gordos ou aminoácidos é completamente oxidado a CO2 com
a concomitante redução das coenzimas transportadoras de eletrões (NADH e FADH2).
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 186

Fig. 7.3 Reações do ciclo TCA: As moléculas de NAD+ ou FAD reduzidas a NADH ou FADH2 estão indicadas nas
respetivas reações de oxidação, tal como o CO 2 libertado nas reações de descarboxilação. A molécula de GTP
sintetizada pela fosforilação ao nível do substrato também é mostrada. Os nomes das enzimas estão evidenciados
nas caixas amarelas. Lembremo-nos que a sucinato desidrogenase é o Complexo II do sistema transportador de
eletrões

Começamos a descrição das reações do ciclo TCA com a condensação do acetil-CoA e do


oxaloacetato, que gera citrato (Fig. 7.3). As sete etapas seguintes, que regeneram o oxaloacetato,
incluem quatro reações de oxidação nas quais o NAD+ ou o FAD são reduzidos a NADH ou FADH2, cujos
eletrões serão transferidos para o O2 na cadeia respiratória. Adicionalmente, uma molécula da GTP ou
ATP é formada diretamente pelo mecanismo de fosforilação ao nível do substrato (ver Secção 6.1).
A condensação dos grupos acetil, com dois carbonos, do acetil-CoA, com a molécula de
oxaloacetato, de quatro carbonos, formando citrato, uma molécula de seis carbonos, é catalisada pela
enzima citrato sintase. Um intermediário tioéster, o citroil-CoA, é formado no centro ativo da enzima, e
a sua hidrólise torna a reação altamente exergónica. A coenzima A libertada nesta reação pode ser
reciclada na conversão do piruvato a acetil-CoA pelo complexo piruvato desidrogenase (ver Secção
7.3).
O citrato é depois transformado em isocitrato, numa reação catalisada pela enzima aconitase.
A reação seguinte é uma descarboxilação oxidativa catalisada pela isocitrato desidrogenase, que
converte o composto isocitrato, de seis carbonos, na molécula de cinco carbonos, α-cetoglutarato, com
libertação de CO2 e redução de uma molécula de NAD+.
O passo seguinte também é uma descarboxilação oxidativa, a conversão do α-cetoglutarato na
molécula de quatro carbonos succinil-CoA, catalisada pelo complexo enzimático α-cetoglutarato
desidrogenase. Nesta reação liberta-se CO2 e o NAD+ funciona como aceitador de eletrões, com a
187 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

subsequente ligação da coenzima A por uma ligação tioéster, formando succinil-CoA. É interessante
notar que a α-cetoglutarato desidrogenase é estruturalmente semelhante ao complexo piruvato
desidrogenase, o complexo enzimático que catalisa a conversão do piruvato em acetil-CoA (ver Secção
7.3.1).
O succinil-CoA é então convertido a succinato pela succinil-CoA sintetase. Nesta reação, a hidrólise
da ligação tioéster do succinilo-CoA com a concomitante fosforilação enzimática está acoplada à
transferência de um grupo fosfato ligado à enzima para o GDP ou ADP pelo mecanismo de fosforilação
ao nível do substrato.
A succinato desidrogenase oxida o sucinato a fumarato. Esta enzima é o complexo II do sistema
respiratório (ver Secção 6.2), uma enzima ligada ao FAD pela qual os eletrões do succinato entram na
cadeia respiratória.
Depois, o fumarato é hidratado para formar malato pela enzima fumarase.
Por fim, o oxaloacetato é regenerado pela oxidação do malato catalisada pela malato
desidrogenase, com a concomitante redução do NAD+.
É importante notar que apesar de o O2 não participar diretamente no ciclo TCA, o ciclo opera apenas
em condições aeróbicas já que o NAD+ oxidado e o FAD são regenerados na cadeira respiratória.

O ciclo TCA não é uma via alimentada apenas pelo acetil-CoA. Como tal, o CO2 não é o seu único produto
final. Diferentes intermediários metabólicos de quatro e cinco carbonos podem entrar no ciclo em
diferentes pontos para serem oxidados, tal como ocorre, por exemplo, com o aminoácido glutamato
depois de ser convertido a α-cetoglutarato por uma reação de transaminação (para detalhes, ver Secção
7.5). O mesmo ocorre com outros aminoácidos, que também são convertidos em intermediários do
ciclo TCA.

Caixa 7.2: O Papel Anabólico do Ciclo TCA


Muitos dos intermediários do ciclo TCA podem ser usados como precursores de vias
biossintéticas (ver figura). O citrato sai da mitocôndria produzindo acetil-CoA para a síntese de
ácidos gordos e outros lípidos (ver Secção 8.3). O α-cetoglutarato e o oxaloacetato são os
percursores de vários aminoácidos. A síntese de porfirinas começa com o succinil-CoA. O
oxaloacetato origina glicose pela via da gliconeogénese (ver Secção 9.3.1) e é também um
precursor de purinas e pirimidinas para formar nucleótidos. É importante mencionar que quando
os intermediários do ciclo TCA são retirados para processos biossintéticos, um mecanismo de
substituição deve operar para evitar prejuízos no metabolismo oxidativo. Isto ocorre por reações
de reabastecimento, conhecidas como reações anapleróticas, nas quais o piruvato ou
fosfoenolpiruvato (PEP) é carboxilado, originando oxaloacetato ou malato (ver figura).
A mais importante destas reações é aquela catalisada pela piruvato carboxilase (ver Secção
9.3.1). Esta reação é altamente regulada pelo acetil-CoA, logo, quando esta molécula se acumula,
indicando que os intermediários do ciclo não são suficientes para fazer a sua oxidação completa,
o piruvato é desviado para a formação de oxaloacetato, aumentando a capacidade do ciclo TCA
para oxidar o acetil-CoA. O piruvato também pode ser convertido em malato pela enzima málica.
A outra reação anaplerótica é catalisada pela PEP carboxicinase, que origina oxaloacetato a
partir do PEP com a transferência de fosfato do PEP para o GDP, formando também uma
molécula de GTP. Esta reação ocorre na direção oposta na via da gliconeogénese (ver Secção
9.3.1).
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 188

Os intermediários do ciclo de TCA mostrados nas caixas laranja podem ser usados como precursores para
a síntese de ácidos gordos, colesterol e esteroides, aminoácidos, purinas e pirimidinas, porfirinas e heme.
Reações anapleróticas (mostradas pelas setas verdes), catalisadas pelas enzimas piruvato carboxilase
(PC), fosfoenolpiruvato carboxicinase (PEPCK), ou enzima málica (ME), reabastecendo o ciclo, mantendo a
capacidade oxidativa

Apesar de receber intermediários metabólicos para serem oxidados, o ciclo TCA tem também um
papel anabólico no metabolismo, já que muitos dos seus intermediários podem ser retirados do ciclo
para serem usados como percursores de processos biossintéticos (ver Caixa 7.2). Devido ao seu papel
tanto no catabolismo como no anabolismo, o ciclo TCA é considerado uma via anfibólica.

O ciclo TCA, também conhecido como “Ciclo de Krebs” em reconhecimento da contribuição de Sir Hans
Krebs para a sua descoberta (ver Caixa 7.3). Tal como exposto no obituário de Krebs, escrito por J. R.
Quayle, “o trabalho da sua vida, publicado em mais de 360 publicações, transpôs toda uma era da
bioquímica, nomeadamente com a explicação da maior parte do metabolismo intermediário central e
da sua regulação... Talvez a sua maior contribuição para as ciências biológicas como um todo tenha
sido a sua descoberta do conceito de ciclos metabólicos, como reconhecê-los, como estabelecê-los de
forma inequívoca e como delinear e avaliar a sua função fisiológica.”
189 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

Caixa 7.3: Sir Hans Krebs e a Descoberta do Ciclo TCA


Sir Hans Krebs foi galardoado com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina em 1953, pela
descoberta do ciclo TCA. O prémio foi partilhado com Fritz Lipmann, que descobriu a coenzima
A e a sua importância para o metabolismo intermediário (ver Caixa 7.4). Krebs começou os
estudos que o levaram à descoberta do ciclo TCA trabalhando com Otto Warburg (ver Caixa 6.6),
que lhe apresentou a técnica de usar cortes de tecido nos estudos metabólicos. Este
procedimento experimental permitiu-lhe trabalhar com células intactas num meio controlado
com troca livre de gases entre as células e o meio, uma abordagem possível anteriormente
apenas para estudos microbiológicos. Com esta técnica, Krebs pode propor pela primeira vez
uma via cíclica no metabolismo intermediário, o ciclo da ureia (ver Secção 7.5). No caso do ciclo
TCA, Krebs baseou a sua proposta em várias observações levadas a cabo na década de 1930.
Em 1935, Albert Szent-Gyorgyi descobriu a sequência de reações desde o succinato ao fumarato,
ao malato e ao oxaloacetato (ver figura), mostrando que estes ácidos dicarboxílicos presentes
em tecidos animais estimulavam o consumo de O2. Dois anos mais tarde, Carl Martius e Franz
Knoop encontraram a sequência desde o citrato ao α-cetoglutarato e ao succinato. Krebs
integrou estas descobertas às suas próprias observações sobre o efeito da adição de ácidos
tricarboxílicos aos cortes de peito de pombo. Descobriu que estes ácidos, mesmo em muito
baixas concentrações promoviam a oxidação de uma quantidade muito maior de piruvato nos
cortes de músculo, sugerindo um efeito catalítico destes compostos. Observou também que o
malonato, um inibidor da succinato desidrogenase, inibia a oxidação do piruvato e a adição de
fumarato ao meio nesta condição restaurava o consumo de piruvato (ver figura). Juntando estas
informações, Krebs mostrou de forma elegante a natureza cíclica desta via.

Sequência de reações descritas por Szent-Gyorgyi (roxo), Martius e Knoop (verde) e Krebs (azul). O gráfico
à direita mostra os resultados da experiência crucial feita por Krebs que provou a natureza cíclica das
reações de oxidação do piruvato: a inibição do consumo de piruvato pela adição do malonato (um inibidor
da enzima sucinato desidrogenase) foi anulada pelo fumarato adicionado ao sistema

Quando Krebs propôs o ciclo TCA, em 1937, pensou que o citrato era sintetizado a partir de
oxaloacetato e piruvato (ver Caixa 7.3). Como tal, o ciclo TCA foi visto como uma via que servia apenas
para a oxidação dos carboidratos, já que o piruvato era conhecido como o produto da metabolização
dos carboidratos (ver Cap. 6). A importância do ciclo TCA na oxidação de outros compostos, como os
ácidos gordos, só foi percebida depois de três importantes descobertas a meio do século vinte: (a) o
isolamento da coenzima A (CoA), por Fritz Lipmann, em 1945 (ver Caixa 7.4); (b) o isolamento do acetil-
CoA por Feodor Lynen, em 1951; e (c) o trabalho subsequente de Joseph Stern, Severo Ochoa e Lynen,
mostrando que a reação entre o acetil-CoA e o oxaloacetato formando citrato, era acompanhada pela
formação de quantidades estequiométricas de grupos sulfidrilo, indicando que o acetil-CoA era a
molécula que doava o grupo acetil ao oxaloacetato.
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 190

Caixa 7.4: Sir Hans Krebs e a Descoberta do Ciclo TCA


A descoberta da coenzima A levou Fritz Lipmann a ser galardoado com o Prémio Nobel de
Fisiologia ou Medicina, em 1953. Lipmann dedicou muitos anos da sua carreira científica a
trabalhar no processo de síntese de ATP. Em 1941, publicou um artigo que constituiu um marco,
no qual introduziu o termo “ligação fosfato de alta energia” (“energy-rich phosphate bond”) e
estabeleceu a base do entendimento do mecanismo de síntese de ATP por fosforilação ao nível
do substrato (ver Cap. 6). Como seguimento a estes estudos, Lipmann interessou-se pela
capacidade de algumas moléculas transferirem grupos acetil, o que ele pensou ser uma
importante etapa nalguns processos biossintéticos. Durante a procura deste “acetato ativado”
Lipmann encontrou um fator dialisável, estável ao calor, presente em todos os tecidos que ele
estudou, que não podia ser substituído por nenhum outro cofator conhecido.
Purificou e identificou esta nova coenzima e chamou-lhe coenzima A, na qual o “A” está
relacionado com a ativação do acetato. A coenzima A é composta por um difosfato de
fosfoadenosina ligado por uma ligação fosfoéster a um ácido pantoténico, que está, por sua vez,
ligado por um ligação amida a um β-mercaptoetilamina (ver figura).

Visto que o acetil-CoA é o produto da oxidação do piruvato (e hidratos de carbono) (Ver Secção 7.3)
e dos ácidos gordos (ver Secção 7.4), sendo também formado na metabolização de alguns
aminoácidos (ver Secção 7.5), podemos reconhecer o acetil-CoA como o ponto de convergência do
metabolismo oxidativo (ver Fig. 7.1).

A intensidade do ciclo TCA é regulada, basicamente, pelo fluxo das desidrogenases – isocitrato
desidrogenase, α-cetoglutarato desidrogenase, succinato desidrogenase e malato desidrogenase. A
atividade das desidrogenases, por sua vez, é determinada pelos rácios NADH/NAD+ e FADH2/FAD na
mitocôndria, que dependem do rácio ATP/ADP. Assim sendo, quando a concentração de ATP aumenta,
o fluxo de eletrões pela cadeia transportadora de eletrões diminui e os rácios NADH/NAD+ e FADH2/FAD
aumentam, levando a uma diminuição do ritmo do ciclo TCA. Por outro lado, quando o ATP é
consumido, o aumento dos níveis de ADP permitem o transporte de eletrões, aumentando a oxidação
do NADH e do FADH2 e, como tal, elevando a taxa do ciclo TCA.

7.3 O Catabolismo dos Hidratos de Carbono


A dieta humana contém diferentes hidratos de carbono, incluindo polissacáridos, como a amido e o
glicogénio; dissacáridos como a sacarose, lactose e a maltose; e monossacáridos, como a glicose e a
frutose. Os polissacáridos e dissacáridos são partidos no trato digestivo nos seus respetivos
monossacáridos, que, em conjunto com os monossacáridos livres presentes na dieta, alcançam a
corrente sanguínea e entram nas células. Dentro das células, os monossacáridos são convertidos num
derivado fosforilado que é degradado em duas moléculas de piruvato por uma via metabólica chamada
glicólise (Fig. 7.4).
É importante mencionar que além de ser a via para a digestão dos hidratos de carbono em aerobiose,
a glicólise também contribui para a síntese de ATP na ausência de oxigénio (ver Cap. 6).
191 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

A glicólise, em si, é composta por dez reações, apresentadas em detalhe na Secção 6.1.3. Como tal,
nesta secção vamos focar a nossa atenção na conversão do piruvato em acetil-CoA, o ponto de
conexão entre a glicólise e o ciclo TCA.

Fig. 7.4 Os hidratos de carbono provenientes da dieta são digeridos e alcançam a corrente sanguínea
principalmente como monossacáridos, que entram nas células e são fosforilados e degradados em piruvato pela
via da glicólise. O piruvato é transportado para dentro da mitocôndria, onde é convertido em acetil-CoA que, por
sua vez, é completamente oxidado no ciclo TCA. G6P, glicose-6-fosfato; F6P, frutose-6-fosfato; F1,6BP, frutose-1-
6-bifosfato; F1P, frutose-1-fosfato; G3P, gliceraldeído-3-fosfato; DHAP, diidroxiacetona fosfato

As moléculas de piruvato formadas no citosol como produtos tanto da glicólise como da


degradação de alguns aminoácidos necessitam de ser transportadas para a matriz mitocondrial, onde
são convertidas em acetil-CoA (Fig. 7.4).
A descarboxilação oxidativa do piruvato para formar acetil-CoA é catalisada por um dos maiores
complexos multienzimáticos celulares conhecidos, o complexo piruvato desidrogenase (PDH), com
cerca de 50 nm de diâmetro e uma massa molecular de quase 10 MDa (Fig. 7.5a). A PDH eucariótica é
composta por múltiplas cópias de quatro proteínas diferentes, três delas apresentando atividade
enzimática, E1 (piruvato descarboxilase), E2 (diidrolipoil acetiltransferase) e E3 (diidrolipoil
desidrogenase) e a quarta, E3-binding protein (E3BP), que medeia a integração da E3 no complexo.
Adicionalmente, cinases reguladoras e fosfatases também estão associadas ao complexo PDH.
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 192

Fig.7.5 (a) Microscopia crioeletrónica de PDH de bovino, mostrando o complexo multienzimático com ~ 500 Å. (b)
Estrutura reconstruída do complexo reconstituída e a sua secção mediana (à direita), mostrando o núcleo em forma
de dodecaedro formado pelos domínios catalíticos E2 (verde) e o ligando interno E2 (azul) que conecta o núcleo à
cobertura exterior E1-E3 (amarelo). (c) Representação diagramática dos quatro domínios estruturais de E2
conectados pelos ligandos: o domínio catalítico, o E1-binding domain (E1B), e os dois domínios lipoil (L) que
formam o “braço pendente”. (a) e (b): reproduzidos com a permissão de Zhou et al. Proc. Natl. Acad. Sci. USA
98:14807, 2001

O núcleo do complexo PDH é formado por 60 subunidades E2 dispostas como um dodecaedro


pentagonal de 20 trímeros E2, que atuam como um esqueleto para a organização do complexo (Fig.
7.5b). A E2 humana contém quatro domínios distintos conectados por ligandos (Fig. 7.5c). A metade
correspondente ao C-terminal compreende o domínio catalítico, que se auto associa formando um
núcleo organizado. A metade correspondente ao N-terminal está estendida, originando uma separação
anelar entre o núcleo e a cobertura exterior E2E3. Contém, além do E1-binding domain, um “braço
pendente” no qual dois domínios lipoil altamente flexíveis permitem a transferência eficiente dos
intermediários da reação entre centros ativos. A organização estrutural da E3BP humana é muito
semelhante à da E2, e supõe-se que a sua adição à estrutura do núcleo substitui parte das subunidades
E2, originando uma estrutura final do núcleo contendo até 48 E2 e cerca de 12 subunidades E3BP. Para
este núcleo, estima-se que 20-30 tetrâmeros α2β2 E1 e 6–12 homodímeros E3 estejam fortemente
ligados.
A reação catalisada pelo complexo PDH consiste em cinco etapas em que os intermediários
permanecem ligados aos componentes enzimáticos (Fig. 7.6). Em primeiro lugar, a E1 catalisa a
descarboxilação dependente do difosfato de tiamina (TPP) do piruvato, com a libertação de CO2 e a
formação de um derivado do hidroxietil ligado ao TPP. Isto é seguido pela transferência de dois eletrões
e do grupo acetil remanescente para o grupo lipoil oxidado ligado ao domínio lipoil da E2, uma reação
que também é catalisada pela E1. O ligando flexível que conecta o domínio lipoil da E2 permite o
movimento do grupo acetil para o centro catalítico da E2, onde a sua transferência para a CoA é
catalisada, originando acetil-CoA que é libertado da enzima. Depois, o grupo lipoil que é reduzido nesta
altura move-se para o centro catalítico de E3 onde é oxidado com a redução da enzima ligada ao FAD.
Por fim, os eletrões são transferidos do FADH2 ligado à E3 para o NAD+, formando NADH. Os domínios
lipoil flexíveis permitem aos intermediários da reação serem canalizados entre os centros catalíticos
durante o ciclo catalítico, no que é chamado de “mecanismo do braço pendente” (“swinging-arm
mechanism”) (Fig. 7.6).
193 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

Fig. 7.6 Representação esquemática do ciclo catalítico do complexo PDH. A etapa (1) consiste na descarboxilação
do piruvato dependente do TPP, catalisada pela E1, na qual é libertado CO2 e um derivado do hidroxietil permanece
ligado ao TPP. Na etapa (2), também catalisada pela E1, dois eletrões reduzem o grupo lipoil ligado à E2 e o grupo
acetil remanescente é transferido para um dos grupos sulfidril reduzidos. Na etapa (3) o grupo acetil é transferido
para a coenzima A, formando acetil-CoA. Na etapa (4) o sulfidril reduzido transferiu os eletrões para a E3 ligada ao
FAD. Na etapa (5) os eletrões são transferidos do FADH2 para o NAD+, originando NADH

O complexo PDH é regulado principalmente por fosforilação e desfosforilação, catalisadas pela


piruvato desidrogenase cinase (PDK) e pela piruvato desidrogenase fosfatase (PDP), respetivamente.
Ambas as enzimas estão ligadas ao domínio lipoil da E2 no complexo PDH.
Foram identificados na enzima humana três locais de fosforilação, todos localizados na E1: local 1
na Ser264, local 2 na Ser271 e local 3 na Ser203. A fosforilação leva à inativação enzimática, sendo a
fosforilação do local 1 a que têm o maior efeito.
Foram identificadas quatro isoformas da PDK com expressão específica em tecidos. A PDK1 é
expressa sobretudo no coração, a PDK2 na maioria dos tecidos, a PDK3 nos testículos e a PDK4 no
coração e no músculo esquelético. Foram identificadas duas isoformas da PDP, a PDP1 e a PDP2,
ambas necessitando de Mg2+ para a sua atividade.

7.4 Catabolismo dos Lípidos


Os ácidos gordos são a principal fonte de energia para a maioria das células humanas. São
armazenados no tecido adiposo como triacilgliceróis (TAG), uma molécula formada por um glicerol
esterificado em três moléculas de ácidos gordos. Os TAGs podem ser obtidos pela dieta ou podem ser
sintetizados a partir dos hidratos de carbono e acumulados em adipócitos depois de serem
transportados a partir do intestino ou do fígado por lipoproteínas especializadas (ver Caixa 7.5).
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 194

Caixa 7.5: As Lipoproteínas e o Transporte de Lípidos no Corpo


O transporte de lípidos nos fluidos corporais necessita de condições especiais devido às suas
propriedades químicas (ver Cap. 3). A maioria dos lípidos são insolúveis em meio aquoso e
formariam gotas quando em circulação, causando embolias de gordura. Outros lípidos têm
propriedades anfipáticas que afetariam a integridade da membrana. Estes problemas podem ser
ultrapassados porque os lípidos circulam associados a complexos de lipoproteínas.
As lipoproteínas diferem no tamanho e composição de acordo com a sua origem (para
detalhes sobre os diferentes tipos de lipoproteínas, ver Secção 3.1.2). Os lípidos obtidos da dieta
são incorporados em lipoproteínas chamadas quilomicra, libertadas no sistema linfático para
alcançar o sangue. As quilomicra transportam TAGs sobretudo para o tecido adiposo, onde são
armazenados como gotas lipídicas (ver figura). O excesso de hidratos de carbono é convertido
em lípidos no fígado e no próprio tecido adiposo (ver Cap. 8). Os TAGs sintetizados no fígado
são transportados para o tecido adiposo associados a lipoproteínas de muito baixa densidade
(VLDL).

Transporte de lípidos nos fluidos corporais por diferentes lipoproteínas. As lipoproteínas contêm um núcleo
de lípidos neutros, principalmente triacilgliceróis e ésteres de colesterol (TG e CE, representados com
círculos amarelos e azuis, respetivamente), rodeados por uma monocamada de fosfolípidos (PL) à qual
estão associadas diferentes proteínas (representadas nas estruturas a rosa – as apolipoproteínas são
nomeadas por letras, por vezes seguidas de números que correspondem à sua massa molecular)

Fig. 7.7 (a) Secção de tecido adiposo branco, mostrando os adipócitos com uma grande gota de lípidos dentro
(Reproduzido com a autorização do Instituto de Histologia e Biologia do Desenvolvimento, Faculdade de Medicina,
Universidade de Lisboa, FMUL). (b) Modelo de uma gota lipídica em formação. Os lípidos neutros sintetizados
acumulam-se entre os folhetos da membrana do retículo endoplasmático até as gotas lipídicas brotarem como
um organelo independente limitado por uma monocamada fosfolipídica com proteínas associadas, das quais as
mais abundantes são os membros das proteínas PAT (perilipina, ADRP e TIP47)
195 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

Nos adipócitos, os TAGs acumulam-se em grandes gotas lipídicas que ocupam a maioria do volume
celular (Fig. 7.7a). Este organelo brota do retículo endoplasmático (RE) depois da acumulação de
lípidos entre os folhetos da membrana do RE. As gotas lipídicas consistem num núcleo hidrofóbico
contendo sobretudo lípidos neutros, como TAGs e ésteres de colesterol, rodeados por uma
monocamada de fosfolípidos com proteínas associadas (Fig. 7.7b). A proteína mais abundante nas
gotas lipídicas dos adipócitos é chamada perilipina que, para além da sua função estrutural, tem um
papel central na ativação da lipólise (ver a próxima secção).

As hormonas, sobretudo as catecolaminas e também, provavelmente, a glucagina, secretadas em


resposta à hipoglicémia e outras situações de stress, desencadeiam uma via de sinalização nos
adipócitos que culmina na ativação da proteína cinase A (PKA) (ver Caps. 9 e 10).
A PKA fosforila duas proteínas dos adipócitos essenciais à mobilização dos TAG, a perilipina, a
maior proteína à superfície das gotas lipídicas dos adipócitos e a enzima lipase hormono-sensível (HSL,
hormone-sensitive lipase), que catalisa a hidrólise das ligações éster das moléculas de TAG. A perilipina
fosforilada recruta HSL para as moléculas de TAG. Por sua vez, a HSL torna-se ativa pela fosforilação,
convertendo os TAGs em glicerol e ácidos gordos, que são libertados na corrente sanguínea (Fig. 7.8).
Os ácidos gordos circulam associados à albumina sérica, alcançando os diferentes tecidos do corpo
onde são usados como fonte de energia.

Fig. 7.8 Mobilização dos TAG no adipócito. A PKA, ativada por sinalização hormonal, fosforila a enzima HSL e a
proteína de superfície das gotas lipídicas perilipina. A fosforilação ativa a HSL e induz um rearranjo conformacional
na perilipina que permite o acesso da HSL às moléculas de TAG dentro das gotas lipídicas. A HSL catalisa a
hidrólise dos TAGs em glicerol e ácidos gordos, que são libertados na corrente sanguínea. Os ácidos gordos
circulam associados à albumina sérica. O símbolo “P” nos círculos cor-de-rosa representa o grupo fosfato

A oxidação dos ácidos gordos ocorre no interior da mitocôndria. Para serem transportados para a
matriz mitocondrial, os ácidos gordos de cadeia longa têm de ser ativados numa reação dependente
de ATP na qual o seu grupo carboxilo é ligado ao grupo tiol da coenzima A por uma ligação tioéster,
formando acil-CoA, numa reação catalisada pelas acil-CoA sintetases. Nesta reação, o ATP é clivado
formando AMP e pirofosfato. O pirofosfato, por sua vez, é imediatamente hidrolisado pela ação da
pirofosfatase inorgânica, produzindo duas moléculas de fosfato. O AMP é ligado temporariamente ao
grupo acil gordo, que é depois transferido para a coenzima A (Fig. 7.9).
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 196

Fig. 7.9 Ativação dos ácidos gordos pela formação de acil-CoA. A acil-CoA sintetase liga o grupo carboxilo das
moléculas de ácidos gordos ao grupo tiol da coenzima A, numa reação dependente da hidrólise de ATP em AMP e
PPi com uma etapa intermédia na qual o grupo acil gordo está ligado ao AMP. O PPi é hidrolisado pela enzima
pirofosfatase inorgânica, conduzindo todo o processo em direção à formação de acil-CoA

As acil-CoA sintetases consistem numa família de isoenzimas que diferem na sua localização
subcelular e especificidade para ácidos gordos com cadeias de tamanhos diferentes. A acil-CoA
sintetases de cadeia longa estão associadas à membrana mitocondrial externa, aos peroxissomas e à
membrana do RE. Atua eficientemente para ácidos gordos saturados de 10 a 20 carbonos ou ácidos
gordos insaturados de 16 a 20 carbonos, que são os ácidos gordos mais comuns usados como fonte
energética pelas células. Ácidos gordos com menos de dez carbonos atravessam livremente a
membrana mitocondrial e são ativados na matriz mitocondrial por acil-CoA sintetases de cadeia curta
ou média.

Os acil-CoA gordos formados no citosol não podem ser transportados diretamente para a matriz
mitocondrial porque a membrana mitocondrial interna é impermeável à coenzima A. Como tal, para
serem transportados, o grupo acil gordo é transferido primeiro da coenzima A para a carnitina (Fig.
7.10a). Esta reação é catalisada por uma enzima associada à superfície externa da membrana
mitocondrial externa chamada carnitina/palmitoil transferase I (CPT-I), que gera acil-carnitina e
coenzima A livre no citosol (Fig. 7.10b).
A acil-carnitina atravessa a membrana mitocondrial interna pelo transportador carnitina-acil-
carnitina, uma proteína tansmembranar que troca acil-carnitina por carnitina (Fig. 7.10b).
Por fim, o grupo acil da acil-carnitina é transferido para uma coenzima A mitocondrial, numa reação
catalisada por uma enzima localizada na superfície interna da membrana mitocondrial interna, a
carnitina/palmitoil transferase II (CPT-II) (Fig. 7.10b).
197 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

Fig. 7.10 (a) Estrutura molecular da carnitina. (b) Representação esquemática do transporte do acil-CoA gordo
através das membranas mitocondriais. A CPT-I catalisa a transferência do grupo acil da acil-CoA para a carnitina,
formando acil-carnitina e coenzima A livre no citosol. O transportador da carnitina-acil-carnitina na membrana
interna da mitocôndria faz a troca da acil-carnitina por carnitina livre, formada na matriz mitocondrial através da
ação da CPT-II, que catalisa a transferência do grupo acil da acil-carnitina para a coenzima A, formando a acil-CoA
na matriz


A principal via para a oxidação dos ácidos gordos é a -oxidação, um processo durante o qual unidades
de dois átomos de carbono são progressivamente removidas da extremidade C-terminal (carboxil-
terminal) da molécula do ácido gordo. No caso da oxidação de ácidos gordos saturados, o processo
consiste em quatro reações que originam acetil-CoA e a molécula de acil-CoA com menos 2 carbonos,
com a redução concomitante de FAD e NAD+. Estas reações repetem-se continuamente até o acil-CoA
ser completamente oxidado a acetil-CoA.
As experiências realizadas por Franz Knoop no início dos anos 1900s foram determinantes para
esclarecer a via de oxidação dos ácidos gordos (Caixa 7.6). Estas experiências mostraram que o átomo
carbono  da molécula do ácido gordo é oxidado, levando à quebra da ligação entre o carbono  e o .
Desta forma, esta via ficou conhecida por -oxidação. Atualmente, a nomenclatura dos carbonos dos
lípidos foi alterada (ver Secção 3.1), mas a designação da via manteve-se.

Caixa 7.6: Franz Knoop e a Descoberta da -Oxidação dos Ácidos Gordos


Em 1904, Franz Knoop explicou a oxidação dos ácidos gordos através de uma experiência
brilhante que provavelmente terá sido a primeira vez que um marcador foi usado para seguir o
trajeto de um composto ao longo da sua via metabólica. Knoop alimentou cães com moléculas
de ácidos gordos de cadeias de diferentes comprimentos, em que o grupo metil terminal tinha
sido substituído por um anel fenil. Depois, encontrou na urina destes cães os produtos que
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 198

continham fenil. Descobriu que quando um ácido gordo era ingerido com um número par de
átomos de carbono, o produto final era sempre acetato de fenil, excretado como ácido
fenilacético, um conjugado da glicina (ver figura).
Por outro lado, quando as moléculas de ácidos gordos tinham um número ímpar de átomos
de carbono, originavam benzoato, que era excretado como ácido hipúrico, também um
conjugado da glicina (ver figura). A partir destes resultados, Knoop concluiu que os ácidos gordos
eram degradados através da oxidação do carbono , seguida pela quebra da ligação entre os
carbonos  e . Este processo sequencial dava origem a moléculas com dois átomos de carbono,
que Knoop assumiu serem acetato. Atualmente, sabe-se que este produto composto por dois
átomos de carbono, resultado da oxidação dos ácidos gordos, é acetil-CoA.

7.4.4.1 Oxidação de Ácidos Gordos Saturados com um Número Par de Átomos de Carbono
As quatro reações da β-oxidação de ácidos gordos saturados são repetidas em ciclos sucessivos. Cada
ciclo consiste numa sequência de uma oxidação dependente de FAD, uma hidratação, uma oxidação
dependente de NAD e uma tiólise.
A primeira reação é a oxidação do acil-CoA em trans-enoil-CoA com a redução concomitante de uma
molécula de FAD associada a uma enzima (Fig. 7.11). Esta reação é catalisada por quatro tipos de acil-
CoA desidrogenases (ACADs). As ACADs apresentam especificidades para comprimentos de cadeia
diferentes mas sobreponíveis, sendo então designadas por acil-CoA desidrogenases de cadeia muito
longa (very long), longa (long), média (medium), e pequena (small) - VLCAD, LCAD, MCAD, e SCAD – e
têm atividades ótimas para ácidos gordos com 16, 14, 8 e 4 átomos de carbono, respetivamente. VLCAD
199 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

é um homodímero associado à membrana interna da mitocôndria, enquanto as outras três ACADs são
homotetrâmeros e estão na matriz mitocondrial.
O FADH2 associado às ACADs que resulta da reação é reoxidado pela flavoproteína transportadora
de eletrões (ETF), que, por sua vez, transfere os eletrões para outra flavoproteína, a ETF/ubiquinona
oxidorredutase. Por fim, esta última enzima transfere os eletrões para a ubiquinona na cadeia
transportadora de eletrões (ver Secção 6.2.3).

As três outras reações da -oxidação também são catalisadas por famílias de enzimas com
especificidades de comprimentos de cadeia. As reações são a hidratação do trans-enoil-CoA a β-
hidroxiacil-CoA, catalisada por enoil-CoA hidratases; a oxidação do β-hidroxiacil-CoA a β-cetoacil-CoA,
com a redução concomitante de NAD, catalisada por β-hidroxiacil-CoA desidrogenases; e a quebra da
ligação entre os carbonos α e β do β-cetoacil-CoA, com a transferência do resíduo acil resultante com
menos dois carbonos para a coenzima A, catalisada por tiolases (Fig. 7.11a).
As enzimas com especificidade para cadeias longas formam um complexo associado à membrana
interna da mitocôndria, o complexo trifuncional da β-oxidação (Fig. 7.11b). Este complexo direciona os
substratos de uma enzima para a outra, de forma a impedir que os intermediários sejam isolados da
mitocôndria. As enzimas com preferência para acil-CoA de cadeias média e curta são proteínas
solúveis na matriz mitocondrial. Desta forma, um modelo para o processo completo da β-oxidação iria
incluir uma fase inicial na qual os intermediários de cadeia longa seriam processados por enzimas

Fig. 7.11 (a) Reações da β-oxidação. (b) Representação esquemática das enzimas da β-oxidação: as com
especificidade para cadeias longas estão associadas à membrana interna da mitocôndria e as com especificidade
para cadeias curtas localizam-se na matriz. As acil-CoA gordas de cadeias longas são oxidadas por enzimas
associadas à membrana e são encurtadas até terem entre 12 a 8 átomos de carbono, tornando-se depois substrato
para enzimas da matriz. (c) Esquema representativo das reações sequenciais da β-oxidação, resultando na
conversão de um ácido gordo de n átomos de carbono em n/2 moléculas de acetil-CoA
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 200

associadas à membrana (VLCAD e o complexo trifuncional da β-oxidação). Quando as moléculas de


acil-CoA ficam com 8 a 12 átomos de carbono, as enzimas associadas à membrana perdem a afinidade
para elas. Estes intermediários de cadeia média tornam-se substratos para as enzimas solúveis que
atuam neles até as moléculas de acil-CoA serem totalmente oxidadas a acetil-CoA, que podem
finalmente entrar no ciclo dos ácidos tricarboxílicos (ciclo TCA).
A oxidação de um ácido gordo com 16 átomos de carbono, após sete ciclos das quatro reações de
β-oxidação, origina oito moléculas de acetil-CoA, sete de FADH2 e sete de NADH. É importante reparar
que as reações da β-oxidação reduzem os transportadores de eletrões NAD e FAD, que, por sua vez,
transferem os eletrões para os componentes da cadeia respiratória. O FADH2 associado a ACADs
transporta os eletrões para a ubiquinona através da ETF, e o NADH é oxidado pelo complexo NADH
desidrogenase ou complexo I da cadeia respiratória (ver Secção 6.2.3). Desta forma, mesmo se o acetil-
CoA não entrar no ciclo TCA, a própria via da β-oxidação resulta na síntese de ATP através da
fosforilação oxidativa.
É importante referir que a β-oxidação de alguns ácidos gordos pode ocorrer noutro organito, o
peroxissoma. Neste caso, a via não está diretamente associada à síntese de ATP, mas sim à formação
de peróxido de hidrogénio (H2O2) (ver Caixa 7.7).

Caixa 7.7: β-Oxidação nos Peroxissomas


Os peroxissomas são organitos celulares (ver figura), cuja principal função é a quebra de ácidos
gordos de cadeia muito longa através da β-oxidação. Os peroxissomas têm acil-CoA oxidases
em vez de ACADs. A acil-CoA oxidase é também uma enzima associada a FAD, mas os eletrões
transferidos para o FAD pela oxidação da molécula de acil-CoA reduzem diretamente o O2, dando
origem a H2O2. Desta forma, nestes organitos é consumido O2, mas não há produção de ATP.
Como a catalase existe nos peroxissomas, o H2O2 é imediatamente convertido em H2O. As outras
etapas da β-oxidação nos peroxissomas são os mesmos da β-oxidação nas mitocôndrias, mas
as enzimas do peroxissoma são específicas para acil-CoAs de cadeias longas e ramificadas.
Assim, os produtos da β-oxidação nos peroxissomas são acil-CoAs de cadeia curta,
principalmente octanoil-CoA, acetil-CoA e NADH.
As moléculas de acetil-CoA e acil-CoA de cadeia curta são depois enviadas para a mitocôndria
através de um sistema de transporte de carnitina, também presente nos peroxissomas.

Micrografia eletrónica de transmissão de uma fina secção de fígado mostrando os peroxissomas (P) e as
mitocôndrias (M) (cortesia de Prof. Marlene Benchimol)
201 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

O destino das moléculas de acetil-CoA geradas na β-oxidação depende da situação metabólica ou


do tipo de célula: podem ser completamente oxidadas no ciclo TCA, podem ser usadas na síntese de
corpos cetónicos (ver Secção 7.4.6), ou podem ser usados como substrato para a síntese de alguns
aminoácidos.

7.4.4.2 Oxidação de Ácidos Gordos de Cadeia Ímpar


A dieta humana é principalmente constituída de ácidos gordos com um número par de átomos de
carbono, mas também podem aparecer ácidos gordos com número ímpar de carbonos, principalmente
em dietas que contenham vegetais e organismos marinhos. Os ácidos gordos de cadeia ímpar também
são oxidados através da via da β-oxidação. A diferença entre esta e a oxidação de ácidos gordos de
cadeia par é que o último ciclo de reações origina uma molécula de acetil-CoA e uma de propionil-CoA
(molécula com três carbonos), em vez de duas moléculas de acetil-CoA. O propionil-CoA é depois
convertido em succinil-CoA, um intermediário do ciclo TCA, através de uma série de três reações que
ocorrem na matriz mitocondrial (Fig. 7.12).

Fig. 7.12 O propionil-CoA formado no último ciclo da β-oxidação de ácidos gordos de cadeia ímpar é convertido
em succinil-CoA por uma reação de carboxilação dependente de ATP, sendo esta seguida de rearranjos estruturais

7.4.4.3 Oxidação de Ácidos Gordos Insaturados


A dieta humana também contém ácidos gordos monoinsaturados, tais como o ácido oleico, ou ácidos
gordos polinsaturados, como o ácido linoleico e o ácido linolénico. Estas moléculas são oxidadas
através da via da β-oxidação até terem uma ligação dupla. Aí, se essa ligação dupla tiver a configuração
trans e ocorrer entre carbonos  e , este intermediário vai entrar na β-oxidação na reação da enoil-CoA
hidratase. Porém, nos ácidos gordos insaturados que ocorrem naturalmente, as ligações duplas têm a
configuração cis. Desta forma, é necessária uma enzima adicional: a enoil-CoA isomerase que converte
a ligação dupla cis numa ligação dupla trans. O produto, uma trans-enoil-CoA, pode depois seguir para
a via da β-oxidação. Além disto, se a dupla ligação não estiver na posição certa, é também necessária
uma redutase.

O principal ponto de regulação da oxidação dos ácidos gordos é a reação catalisada pela CPT-I, que é
inibida pelo malonil-CoA. O malonil-CoA é o produto da carboxilação do acetil-CoA, uma reação
catalisada pela acetil-CoA carboxilase (ACC). A reação da ACC é normalmente ativada quando a
concentração de glucose no sangue é elevada (ver Secção 8.3.1). Desta forma, quando a glucose está
bastante disponível como fonte de energia, a oxidação dos ácidos gordos é inibida, por outro lado
quando a concentração de glucose no sangue diminui, os níveis intracelulares de malonil-CoA
diminuem, permitindo o transporte de acil-CoA para a matriz mitocondrial onde é oxidado.
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 202

As moléculas de acetil-CoA produzidas na β-oxidação nem sempre entram no ciclo TCA; o seu destino
pode ser diferente de acordo com a situação metabólica. Como foi mencionado no início deste capítulo,
(ver Secção 7.1), os ácidos gordos, mobilizados do tecido adiposo, tornam-se a principal fonte de
energia para a maioria dos tecidos do corpo quando a concentração de glucose no sangue começa a
diminuir durante períodos entre as refeições ou em situações de jejum. Nestas situações, o fígado tem
um papel essencial na manutenção da glicémia ao sintetizar glicose por uma via conhecida por
gliconeogénese (ver Cap. 9).
Na gliconeogénese, os intermediários do ciclo TCA são usados como substratos para a síntese de
glucose e, assim, estas moléculas, especialmente o oxaloacetato, são removidas do ciclo (Fig. 7.13a).
Os níveis baixos de oxaloacetato diminuem a capacidade do ciclo TCA para oxidar o acetil-CoA, que se
acumula na matriz mitocondrial. O acetil-CoA, mesmo quando em excesso, continua a ser produzido,
garantindo a síntese de ATP no fígado (recorde-se de que as etapas oxidativas da β-oxidação originam
FADH2 e NADH, permitindo a síntese de ATP através da fosforilação oxidativa, sem ser necessário o
ciclo TCA). Desta forma, para reciclar as reservas de coenzima A mitocondrial, o acetil-CoA é convertido
em acetoacetato, β-hidroxibutirato, e acetona (Fig. 7.13b), moléculas conhecidas como corpos

Fig. 7.13 (a) Representação esquemática de uma situação de hipoglicémia, na qual o acetil-CoA no fígado é
transformado em corpos cetónicos, que são lançados na corrente sanguínea e usados como fonte de energia por
vários tecidos. A seta amarela no hepatócito destaca a via de síntese dos corpos cetónicos, que ocorre apenas no
fígado; a seta verde destaca a via de degradação dos corpos cetónicos, que ocorre em diferentes tecidos extra-
hepáticos. (b) Reações para a síntese de corpos cetónicos, uma via restrita ao fígado. (c) Reações para a
degradação de corpos cetónicos, que ocorrem em vários tecidos extra-hepáticos, incluindo no músculo
esquelético e cardíaco, rins e cérebro. Os nomes das enzimas aparecem destacados nas caixas amarelas
203 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

cetónicos, uma nomenclatura um tanto inapropriada, dado que estas moléculas não são insolúveis,
como sugere a palavra “corpos”, nem o β-hidroxibutirato tem a função cetona na sua estrutura
molecular. De facto, dois dos “corpos cetónicos” são ácidos carboxílicos, fazendo com que este grupo
funcional seja tão importante como o grupo cetona nos “corpos cetónicos”.
Os corpos cetónicos são libertados na corrente sanguínea, e vários tecidos extra-hepáticos,
especialmente o cérebro, rins, coração, e músculo esquelético, podem usar estas moléculas como
fonte de energia (Fig. 7.13a). Nestes tecidos, o β-hidroxibutirato e o acetoacetato são convertidos em
acetil-CoA (Fig. 7.13c), que entra no ciclo TCA para ser completamente oxidado. A utilização de corpos
cetónicos pelo cérebro assume uma especial importância durante períodos prolongados de jejum,
como será aprofundado em detalhe no capítulo 9.

7.5 Catabolismo de Aminoácidos


O catabolismo dos aminoácidos varia muito dependendo da situação metabólica, mas calcula-se que
cerca de 15% da energia gasta em repouso vem da oxidação de aminoácidos em diferentes tecidos,
em particular no fígado, o principal local de metabolização dos aminoácidos, e no músculo,
especialmente no caso de aminoácidos de cadeia ramificada.
É importante ter em conta que os aminoácidos não podem ser armazenados no corpo, isto quando
usamos a palavra “armazenamento” no seu sentido literal. As proteínas no corpo têm várias funções e
mesmo aquelas que existem em quantidades elevadas, como as proteínas contráteis do músculo, não
podem ser vistas, de forma rigorosa, como reserva de energia. Porém, as proteínas estão
constantemente a ser sintetizadas e degradadas, como resultado do processo normal de turnover de
proteínas, bem como devido a uma degradação controlada de uma proteína específica. Acredita-se que
por dia, num adulto de estatura média, são formadas e destruídas entre 200 e 300g de proteína.
Para além disto, o teor de proteína na dieta também é um fator determinante para a sua utilização
como fonte de energia. Desta forma, o equilíbrio entre a disponibilidade de aminoácidos e a sua
mobilização para a síntese proteica pode resultar num excesso de aminoácidos livres, que ficam assim
disponíveis para a degradação oxidativa.

Tal como acontece com o catabolismo de hidratos de carbono e ácidos gordos, os produtos da
degradação de aminoácidos convergem para o ciclo TCA (Fig. 7.1). Contudo, o facto de existirem pelo

Fig. 7.14 Visão geral da degradação de aminoácidos no fígado


7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 204

menos 20 tipos diferentes de aminoácidos e a presença de azoto na sua estrutura molecular torna o
catabolismo de aminoácidos mais complexo que o da glucose e dos ácidos gordos.
Antes dos aminoácidos serem usados no metabolismo, o azoto deve ser separado do esqueleto de
carbono do aminoácido para ser excretado ou reciclado na biossíntese de compostos azotados, tais
como nucleótidos e outros aminoácidos (Fig. 7.14). O azoto é removido das moléculas de aminoácidos
na forma de amoníaco (NH3) que, em solução, a pH fisiológico, existe como ião amónio (NH4+). Isto
acontece através de reações de desaminação, que têm de ser reguladas de forma precisa, uma vez que
o amoníaco é bastante tóxico. O fígado é o principal local onde ocorre o metabolismo dos aminoácidos,
onde o NH4+ é convertido em ureia, o composto azotado excretado pelos humanos.
Apesar de serem necessárias diferentes vias de degradação para cada esqueleto de carbono que
tem origem num aminoácido diferente, todos os aminoácidos acabam por ser convertidos em piruvato,
acetil-CoA, ou num dos intermediários do ciclo TCA, que pode ser completamente oxidado. No fígado,
os produtos da degradação de aminoácidos podem ser convertidos em glucose ou corpos cetónicos
que são libertados na corrente sanguínea e usados por outros tecidos (Fig. 7.14).

O fígado é o principal local onde os aminoácidos são metabolizados. A via que converte NH4+ em ureia,
o composto azotado excretado pelos humanos, ocorre apenas no fígado, tal como a principal estratégia
metabólica utilizada para separar o azoto do esqueleto de carbono dos aminoácidos, que consiste na
combinação de uma transaminação seguida de uma desaminação, processo este conhecido por
transdesaminação.

7.5.2.1 Desaminação Oxidativa dos Aminoácidos


A estratégia evolutiva para lidar com a diversidade de aminoácidos baseia-se na conversão de todos
os aminoácidos num aminoácido específico, glutamato (Glu), seguida pela sua desaminação específica

Fig. 7.15 (a) Reação catalisada pela GDH. (b) Estrutura da GDH humana hexamérica com cada subunidade
representada numa cor diferente (PDB 1L1F), mostrando o domínio de ligação ao NAD/NADP e o centro ativo
205 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

e eficiente. A desaminação oxidativa do glutamato é de importância central para o metabolismo dos


aminoácidos e é a principal reação de desaminação no fígado. Esta reação origina α-cetogluterato e
NH4+ e é catalisada pela Glu desidrogenase (GDH), uma enzima hexamérica existente apenas nas
mitocôndrias do fígado, que tem a capacidade invulgar de usar tanto NAD+ como NADP+ como
aceitador de eletrões (Fig. 7.15). O facto de as primeiras etapas da conversão de NH4+ em ureia
ocorrerem nas mitocôndrias dos hepatócitos previne que ocorra disseminação de amoníaco pelo resto
do corpo, evitando assim os seus efeitos tóxicos.
Como a GDH apenas utiliza glutamato (Glu), é necessário um mecanismo para a conversão de todos
os outros aminoácidos em glutamato. Isto acontece através de reações de transaminação.

7.5.2.2 Interconversão de Aminoácidos: As Reações de Transaminação


As enzimas transaminases ou aminotransferases convertem aminoácidos nos seus respetivos α-
cetoácidos ao transferir o grupo amina de um aminoácido para um α-cetoácido, numa reação
dependente do cofator piridoxal fosfato, ou vitamina B6, que se liga covalentemente à enzima. Isto
possibilita a interconversão entre os aminoácidos (Fig. 7.16).
O principal α-cetoácido que funciona como recetor do grupo amina é o α-cetogluterato, que é o
produto da reação da GDH e cuja transaminação origina glutamato (Glu). Assim, as reações de
transaminação acabam por converter todos os aminoácidos em glutamato (Glu), que por sua vez é
desaminado pela GDH (Fig. 7.17). Através desta estratégia, os grupos amina de todos os aminoácidos
são separados do seu esqueleto de carbono.
As transaminases existem tanto no citoplasma como nas mitocôndrias, mas a sua elevada atividade
no citoplasma leva a que o glutamato (Glu) formado seja transportado até à matriz mitocondrial onde
se encontra a GDH.
É importante ter em conta que as transaminases também existem noutros tecidos além do fígado,
onde a sua função principal é a interconversão dos aminoácidos e não a formação de glutamato (Glu),
uma vez que a síntese de ureia e GDH é restrita ao fígado.

Fig. 7.16 (a) Esquema geral da reação de transaminação. Grupos radical R1 e R2 são trocados entre um aminoácido
e um α-cetoácido. (b) Reação de transaminação que converte todos os aminoácidos em glutamato (Glu), que usa
α-cetoglutarato como o α-cetoácido aceitador do grupo amina do aminoácido, dando origem a glutamato (Glu) e
ao α-cetoácido correspondente ao aminoácido
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 206

Fig. 7.17 Combinação das reações de transaminação e desaminação oxidativa no fígado. A transaminação de
cada aminoácido com α-cetoglutarato origina glutamato (Glu) que é, por sua vez, substrato da GDH que remove o
grupo amina do glutamato (Glu) sob a forma de NH4+, regenerando o α-cetoglutarato

7.5.2.3 Vias para o Metabolismo dos Esqueletos de Carbono dos Aminoácidos


Tal como referido no início desta secção, a existência de pelo menos 20 aminoácidos diferentes implica
existirem várias vias distintas para o seu metabolismo. Aqui mostraremos apenas uma visão global do
processo. As vias detalhadas para o metabolismo de cada aminoácido podem ser encontradas em
literatura mais especializada.
No caso de alguns aminoácidos, uma única etapa de transaminação origina diretamente um
intermediário da via metabólica principal. Isto acontece na transaminação da alanina (Ala), do aspartato
(Asp) ou do glutamato (Glu) formam diretamente piruvato, oxaloacetato ou α-cetogluterato,
respetivamente. Para outros aminoácidos, é necessário um conjunto de reações mais complexo. Para
além disso, há aminoácidos que são convertidos noutros antes de se proceder à remoção do grupo
amina: a fenilalanina (Fen) é convertida em tirosina (Tir) e a glicina (Gli), histidina (His), prolina (Pro) e
arginina (Arg), são convertidas em glutamato.
Mas, independentemente de o metabolismo ser mais simples ou complexo, o produto final é um
destes seis intermediários da via metabólica principal: piruvato, acetil-CoA ou um dos quatro
intermediários do ciclo TCA, α-cetoglutarato, succinil-CoA, fumarato ou oxaloacetato (Fig. 7.18).
Dependendo da situação, o esqueleto de carbono formado por transdesaminação no fígado, em vez
de ser diretamente oxidado nos hepatócitos, pode ser convertido em glucose ou corpos cetónicos que
são libertados na corrente sanguínea para serem usados por outros tecidos como fonte de energia (ver
Cap. 9).
Também é importante referir que a oxidação completa não é o destino de todos os esqueletos de
carbono gerados pela degradação de aminoácidos. Quando o piruvato e/ou acetil-CoA são formados,
a oxidação completa pode acontecer diretamente. Por outro lado, a entrada no ciclo TCA em etapas
diferentes do acetil-CoA aumenta a quantidade de intermediários do ciclo, o que significa um aumento
da capacidade oxidativa do ciclo. No entanto, isto não leva à oxidação de todo o composto que entrou
no ciclo em CO2. Neste caso, os intermediários podem ser convertidos em oxaloacetato, que pode ser
convertido em fosfoenolpiruvato (PEP) pela enzima PEP carboxinase (ver Secção 9.3.2). De seguida, o
PEP é convertido em piruvato pela enzima glicolítica piruvato cinase (ver Secção 6.1.3) e depois em
acetil-CoA, o qual pode ser completamente oxidado através das reações do ciclo TCA.
207 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

Fig. 7.18 Entrada dos aminoácidos desaminados no ciclo TCA

A glucose é formada a partir de aminoácidos que originam intermediários do ciclo TCA ou piruvato,
que são convertidos em oxaloacetato que, por sua vez, segue uma via conhecida por gliconeogénese
(ver Cap. 9). Estes aminoácidos são classificados como aminoácidos gliconeogénicos. Aminoácidos
que apenas originam acetil-CoA (leucina e lisina) não podem ser convertidos em glucose.
Os corpos cetónicos são formados a partir de aminoácidos cujo metabolismo origina acetil-CoA (ver
Secção 7.4.6). Estes aminoácidos são classificados como aminoácidos citogénicos.

7.5.2.4 Síntese de Ureia para a Excreção de Azoto


Como falado na Caixa 7.3, no início deste capítulo, a via que converte NH4+ em ureia foi o primeiro ciclo
metabólico a ser descrito. Este marco na Bioquímica foi descoberto por Hans Krebs. Teve lugar em
1932, mas continua a ser um plano de trabalho ilustrativo e intemporal na Bioquímica (ver Caixa 7.8).
Na verdade, Krebs é considerado atualmente um dos bioquímicos mais notáveis de sempre.

Caixa 7.8: Hans Krebs e a Descoberta do Ciclo da Ureia


O que motivou Krebs a estudar a síntese da ureia foi a experiência de trabalhar com cortes de
tecido quando estava no laboratório de Otto Warburg. Krebs estava impressionado com as novas
possibilidades trazidas pela utilização de cortes de tecido, que permitiam abordagens que antes
apenas eram possíveis usando microorganismos. A partir do momento em que Warburg usou
esta técnica para estudar vias metabólicas unicamente de degradação (glicólise e respiração),
Krebs decidiu verificar se também seria possível explorar processos de biossíntese, nessa altura
apenas estudados em organismos completos e órgãos perfundidos. Escolheu a síntese de ureia
porque esta parecia ocorrer através de uma via simples a uma taxa muito elevada. Primeiro,
Krebs desenvolveu um método simples e reproduzível de medir a ureia e criou um novo meio de
reação que simulava o plasma do sangue. Com este sistema, Krebs e Kurt Henseleit, um
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 208

estudante de medicina cuja tese de mestrado sobre este tema tinha sido supervisionada por
Krebs, criaram um plano de trabalho que incluía a quantificação da síntese de ureia usando como
substratos uma combinação de amoníaco com diferentes aminoácidos. Estas experiências
resultaram em duas observações principais aparentemente não relacionadas: (a) a descoberta
inesperada que ornitina com amoníaco origina taxas excecionalmente elevadas de síntese de
ureia e (b) a presença da enzima arginase, que converte o aminoácido arginina (Arg) em ornitina
e ureia, em níveis altos no fígado. A relação entre estas descobertas chegou com a posterior
observação que para cada ornitina adicionada ao meio, se formavam 20 moléculas de ureia e
que o total de azoto na ureia era equivalente ao amoníaco que desaparecia. Isto levou à proposta
crucial de que a ornitina poderia funcionar como catalisador: era combinada com o amoníaco
originando um intermediário na produção de arginina (Arg), cuja hidrólise restabelecia os níveis
de ornitina no sistema, formando ureia como produto final.
As etapas seguintes foram procurar os intermediários entre a ornitina e a arginina. Ao mesmo
tempo, os dois bioquímicos identificaram a citrulina como sendo a molécula que iria preencher
esta lacuna. De facto, quando Krebs testou o efeito da citrulina na síntese de ureia a partir do
amoníaco, esta funcionou da mesma forma que a ornitina. Assim, Krebs propôs o primeiro ciclo
metabólico da via de síntese da ureia. A descoberta de mais intermediários veio mais tarde a
completar o ciclo, como o conhecemos hoje (ver figura).

A ureia é formada quase exclusivamente no fígado, a partir do qual é libertada na corrente sanguínea,
chegando aos rins para ser excretada na urina. A molécula de ureia tem dois átomos de azoto, um que
vem do ião NH4+ produzido pelas reações catalisadas pela GDH ou glutaminase dentro das
mitocôndrias e outro que vem do grupo amina do aminoácido aspartato (Asp), formado no citoplasma
dos hepatócitos através da transaminação de qualquer aminoácido com oxaloacetato. Através de uma
série de reações, estes dois grupos amina acabam por se tornar parte da molécula de arginina (Arg),
que após hidrólise forma ureia e ornitina (ver figura na Caixa 7.8). A sequência detalhada de reações
que constituem esta via está representada na Fig. 7.19 e é descrita abaixo.
Primeiro o ião NH4+ reage com HCO3- e duas moléculas de ATP na matriz mitocondrial, numa reação
catalisada pela enzima carbamoil fosfato sintetase I, formando dois ADPs e um Pi (fosfato inorgânico)
e o intermediário carbamoil fosfato, que entra no ciclo ao transferir o seu grupo carbamoil para a
209 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

Fig. 7.19 Ciclo da ureia. A ureia é sintetizada no fígado através de uma via cíclica com parte das reações a ocorrer
nas mitocôndrias e outra parte a ocorrer no citoplasma. Um dos átomos de azoto da molécula de ureia vem do ião
NH4+ produzido pela GDH ou por reações da glutaminase (destacadas com uma caixa azul) dentro da mitocôndria.
O outro átomo vem do grupo amina do aspartato (Asp) (destacado com uma caixa roxa). Os nomes das enzimas
estão destacados em caixas amarelas

ornitina, formando citrulina e Pi , numa reação catalisada pela ornitina transcarbomoilase. A citrulina
abandona a mitocôndria e reage com aspartato (Asp) numa reação dependente de ATP e catalisada
pela enzima aginino-succinato sintetase, que origina argininosuccinato, AMP e PPi (pirofosfato
inorgânico). A enzima argininosuccinase quebra o argininosuccinato em fumarato e arginina, que por
fim é hidrolisada em ureia e ornitina pela enzima arginase (Fig. 7.19).
É importante referir que as moléculas de oxaloacetato retiradas do ciclo TCA para sofrerem a
transaminação, originando aspartato (Asp), são restabelecidas dado que a reação da
argininosuccinase liberta fumarato, que entra no ciclo TCA para regenerar oxaloacetato.
7 Catabolismo das Principais Biomoléculas 210

Apesar de estar disponível muito mais informação sobre o metabolismo dos aminoácidos no fígado,
há outros tecidos que também oxidam aminoácidos, temos, em particular, a utilização de aminoácidos
de cadeia ramificada pelo músculo.
As reações de desaminação dos aminoácidos em diferentes tecidos originam NH4+ que
normalmente é combinado com glutamato (Glu) para originar glutamina (Gln), numa reação catalisada
pela enzima glutamina sintetase (Fig. 7.20). A glutamina (Gln) é depois libertada na corrente sanguínea,
e é o principal transportador de grupos amina no sangue. Isto explica por que é que a concentração de
glutamina (Gln) no sangue é muito mais elevada do que a de outros aminoácidos. A glutamina (Gln) é
aceite principalmente pelo fígado e pelo rim, onde a enzima glutaminase retira o grupo amina da
glutamina (Gln), regenerando glutamato (Glu) e NH4+. No fígado, o ião NH4+ entra no ciclo da ureia, e o
glutamato (Glu) sofre desaminação oxidativa pela GDH (ver secção anterior). No rim, o ião NH 4+ é
excretado diretamente (Fig. 7.20).

Fig. 7.20 (a) Reações catalisadas pela enzima glutamina sintetase e pela enzima glutaminase. (b) Integração do
metabolismo dos aminoácidos. Em tecidos extrahepáticos (particularmente no músculo esquelético), ácidos da
dieta, do turnover intracelular de proteínas ou da degradação sofrem transaminação com piruvato, o que origina
alanina (Ala) ou desaminação, o que origina NH4+ que é combinado com glutamato (Glu) para formar glutamina
(Gln). A glutamina (Gln) e a alanina (Ala) são libertadas na corrente sanguínea e alcançam o fígado, onde a alanina
sofre uma transaminação com α-cetoglutarato, formando piruvato e glutamato (Glu). O glutamato (Glu) sofre uma
desaminação oxidativa, originando NH4+ que entra no ciclo da ureia. O piruvato ou é convertido em glucose ou é
completamente oxidado. A glutamina (Gln) é desaminada, originando NH4+ que entra no ciclo da ureia e glutamato
(Glu) que sofre desaminação oxidativa. A ureia é libertada na corrente sanguínea e excretada pelos rins. Os nomes
das enzimas estão destacados em caixas amarelas
211 7 Catabolismo das Principais Biomoléculas

Os aminoácidos no músculo também sofrem transaminação com piruvato, formando alanina (Ala).
Isto é particularmente importante no jejum, quando os aminoácidos libertados pela degradação de
proteínas contráteis são convertidos em alanina (Ala) que, por sua vez, é libertada na corrente
sanguínea e alcançam o fígado, onde o piruvato é regenerado (e convertido em glucose) e o ião NH 4+ é
convertido em ureia (Fig. 7.20) ver também Secção 9.3.4. De facto, durante o jejum, as proporções de
aminoácidos libertados pelo músculo não refletem a composição proteica do músculo. A alanina (Ala)
e a glutamina (Gln) correspondem a cerca de 60% dos aminoácidos libertados na corrente sanguínea
por células musculares.

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Respostas Metabólicas à Hiperglicemia: Regulação e
Integração no Estado de Absorção

Tradução: Joana Barroso e Ivo Palmeiro


Revisão: Laura Gomes e Diogo Rodrigues
(Páginas 259-304)

Os hidratos de carbono, os lípidos e as proteínas são os principais componentes dos alimentos e


funcionam como o “combustível” do organismo humano, na medida em que fornecem a energia
necessária para as mais variadas reações metabólicas que ocorrem no interior das nossas células.
Uma refeição é, por norma, composta por 45-65% de hidratos de carbono, 20-35% de lípidos e 10-30%
de proteínas. Após ingestão, estes nutrientes sofrem um processo de digestão, sendo quebrados em
moléculas cada vez mais pequenas, que são subsequentemente absorvidas e, posteriormente,
metabolizadas (Ver Capítulo 7).
Os produtos finais da digestão dos hidratos de carbono e das proteínas são, respetivamente, os
monossacáridos (principalmente a glicose) e os pequenos péptidos e aminoácidos, que, ao serem
absorvidos pelas células intestinais (Fig. 8.1) alcançam a veia porta hepática (sistema porta) e entram,
desta forma, em circulação. Antes de entrarem na circulação sistémica, estes metabolitos passam pelo
fígado, que absorve e armazena entre ½ a ¾ dos nutrientes provenientes do trato gastrointestinal (Caixa
8.1).
O monoacilglicerídeo e os ácidos gordos de cadeia longa, resultantes da digestão lipídica, não são
solúveis em meio aquoso e necessitam de mecanismos de transporte específicos. São reconvertidos
a triacilglicerídeos nas células da mucosa intestinal e são depois libertados no sistema linfático sob a
forma de lipoproteínas chamadas quilomicras (Fig. 8.1).
Este capítulo abordará as adaptações metabólicas que ocorrem após a ingestão de nutrientes, que
permitem que componentes da dieta sejam utilizados como fontes de energia ou armazenados sob a
forma de reservas que poderão ser mobilizadas num eventual estado de jejum. Este tópico é introduzido
com uma discussão acerca da forma como as células conseguem sentir as variações de concentração
de glicose no sangue, de como é que respondem face a esta alteração, e como é que este mecanismo
de sensação controla a secreção de insulina. Depois, discutiremos em detalhe as vias metabólicas
envolvidas na biossíntese das principais moléculas de armazenamento energético, glicogénio e
triacilglicerídeos. Adicionalmente, apresentaremos o mecanismo de ação da insulina e os seus efeitos
nos diferentes tecidos-alvo, oferecendo uma visão geral do destino dos principais metabolitos
absorvidos após uma refeição, nos diferentes tipos celulares.

212
213 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Caixa 8.1: O Sistema Porta-Hepático


O suprimento sanguíneo do fígado é um traço distintivo deste órgão abdominal. O sangue
alcança o fígado por intermédio da artéria hepática e da veia porta hepática, constituindo,
portanto, um sistema de fornecimento sanguíneo duplo, em que coexiste um sistema de
suprimento arterial, através da artéria hepática própria, e um sistema de suprimento venoso,
através da veia porta. Cerca de 75% do sangue que entra no fígado trata-se de sangue venoso
proveniente do trato gastrointestinal e dos principais órgãos abdominais, como o pâncreas e o
baço e, como tal, tudo o que é absorvido ao longo do tubo digestivo – desde nutrientes a
secreções pancreáticas, toxinas, células sanguíneas e produtos da sua degradação, que são
libertados pelo baço – passa pelo fígado antes de atingir a circulação sistémica. O restante
aporte sanguíneo do fígado, na ordem dos 25%, é da responsabilidade da artéria hepática própria
e representa sangue arterial proveniente da circulação sistémica que se encarrega da
oxigenação do tecido hepático.
A unidade funcional do fígado é o lóbulo hepático. O lóbulo hepático clássico traduz a maneira
tradicional de descrição da organização do parênquima hepático e é nessa classificação que nos
basearemos. O lóbulo hepático consiste num arranjo hexagonal de pilhas de placas de
hepatócitos, separadas por um sistema de sinusoides que estabelecem inúmeras anastomoses
entre si. Os sinusoides são canais vasculares que recebem o sangue proveniente dos ramos
terminais tanto da veia porta como das artérias hepáticas. Estes canais são alinhados por células
endoteliais altamente fenestradas (ou seja, possuem descontinuidades), o que permite que uma
quantidade significativa de plasma seja filtrada para o espaço entre o endotélio que reveste os
sinusoides e os hepatócitos. No centro do lóbulo encontra-se a veia central, para onde discorre
o sangue dos sinusoides de cada lóbulo. As veias centrais dos vários lóbulos acabam por se
reunir e formar as veias hepáticas, que abandonam o fígado para se juntar à veia cava inferior.
Para este capítulo, interessa-nos perceber que através deste sistema o fígado é capaz de
remover uma parte da glicose no sangue e de a converter em glicogénio ou em lípidos, antes de
alcançar a circulação sistémica.

Representação esquemática dos lóbulos hepáticos. Os ramos da veia porta e os sinusoides, que
transportam sangue venoso, estão representados a azul e os ramos da artéria hepática estão ilustrados a
vermelho. Os ductos biliares, que transportam a bile dos hepáticos ou até à vesícula biliar ou até ao duodeno,
estão representados a verde
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 214

Fig. 8.1. Absorção dos principais nutrientes. A digestão dos hidratos de carbono e das proteínas origina,
respetivamente, monossacáridos e aminoácidos, que são absorvidos e viajam através do sistema da veia portal
até ao fígado, entrando na circulação geral através da veia hepática. A digestão dos lípidos origina ácidos gordos
e monoacilglicerol, que são libertados na linfa

8.1 Deteção de Glicose pelas Células


O aumento da concentração de glicose no sangue sinaliza à maioria das células do organismo humano
que ocorreu a ingestão de alimentos, seja direta ou indiretamente, através da regulação da secreção de
diferentes hormonas, que, por sua vez controlam o metabolismo energético. Após uma refeição rica
em hidratos de carbono, o aumento da concentração de glicose no sangue estimula a secreção da
hormona insulina (Fig. 8.2a). A ação desta hormona nas suas células-alvo e o próprio aumento da
glicémia induzem uma rápida utilização de glicose pelos diferentes tecidos, que tanto pode ser utilizada
como fonte de energia, tanto como precursor para a biossíntese de moléculas de reserva.
A homeostase do metabolismo da glicose depende de respostas rápidas face à variações da
glicémia. Estes mecanismos entram em ação não só quando a concentração de glicose no sangue
diminui (ver capítulo 9), como também quando a glicémia aumenta. Em ambos os casos, estas
adaptações metabólicas ocorrem até que se reestabeleça o valor basal de concentração de glicose no
sangue, que é aproximadamente 5 mM. Este limiar é mantido graças ao efeito oposto da glicose na
taxa de secreção pancreática das hormonas insulina e glicagina, que apresenta um ponto de
cruzamento de 5mM de glicose (Fig. 8.2b), concentração de glicose abaixo da qual predomina a ação
da glicagina, e acima da qual prevalece a de insulina.
A insulina é produzida e secretada pelas células β das ilhotas de Langerhans do pâncreas. O
mecanismo envolvido na indução da secreção será abordado na Secção 8.4, no entanto, a questão que
se coloca nesta fase é a de como é que as células beta detetam o aumento da concentração de glicose
no sangue e prontamente ripostam com um aumento da secreção de insulina?
Para responder a esta questão, comecemos por analisar dois passos importantes que precedem e
determinam a utilização de glicose no metabolismo celular: (a) o transporte de glicose através da
membrana plasmática e (b) a sua fosforilação a glicose-6-fosfato.
215 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Fig. 8.2 (a) Perfil diário da glucose no plasma e de soro de insulina de novos sujeitos humanos (média + desvio
padrão). As letras L, D e B indicam, respetivamente, almoço (L – lunch), jantar (D – dinner) e pequeno-almoço (B –
breakfast). A barra preta representa o período de sono (Reproduzido com a permissão de Biston et al. Hypertension
28:863-871, 1996). (b) Perfil de secreção hormonal do pâncreas, em função da concentração de glicose. A região
a sombreado corresponde ao intervalo fisiológico de concentração de glicose no sangue (Reproduzido com a
permissão da American Society for Clinical Investigation, de Matschinsky et al. J. Clin. Invest. 92:2092-2098, 1993)

A glicose entra nas células por difusão facilitada medida por proteínas de transporte da membrana
citoplasmática, os transportadores de glicose (GLUTs). Nas células humanas são expressadas 14
isoformas de GLUTs, caracterizadas por diferentes propriedades cinéticas e/ou regulatórias, diferente
especificidade de substrato, diferente localização celular e que apresentam expressão específica num
determinado tecido. Os GLUTs melhor estudados são as isoformas 1-4 (Tabela 8.1) e desempenham
um papel fundamental na homeostase da glicose ao conferir propriedades específicas à sua captação
em função do tipo de célula. As outras isoformas aparentam transportar frutose, mioinositol e urato,
em adição à glicose, e estão provavelmente envolvidos no transporte de substratos ainda a identificar.
No fígado e nas células-beta pancreáticas, a captação de glicose ocorre predominantemente por
intermédio do GLUT-2, que é caracterizado por um KM muito alto para a captação de glicose (~17 mM)
e por um elevado nível de expressão, o que confere a estas células uma elevada capacidade de
transporte. Estas características asseguram uma rápida estabilização das concentrações extracelular
e citosólica (intracelular) de glucose após uma qualquer alteração dos níveis fisiológicos de glicémia.
Assim, embora as proteínas GLUT sejam importantes para a regulação da captação de glicose
noutros tecidos (ver Secção 8.4.3 para o transporte de glicose no músculo e no tecido adiposo), no
caso das células-beta, as propriedades do GLUT-2 são importantes para assegurar o balanço entre as
concentrações extra- e intracelulares de glicose.
Para completar a resposta à nossa questão acerca de como é que as células- pressentem as
alterações dos valores de glicémia, temos também de ter em atenção o próximo passo na utilização de
glicose pelas células. A metabolização da glicose começa com a sua fosforilação a glicose-6-fosfato,
uma reação que é catalisada por uma família de enzimas chamadas hexocinases (HK). Uma vez
fosforilada, a glicose não consegue abandonar a célula a menos que o grupo fosfato seja removido por
ação de uma outra enzima, a glicose-6-fosfatase. Como a glicose-6-fosfatase é expressa somente nas
células do fígado e do rim (ver Secção 9.3.1), a fosforilação da glicose na maioria das células (incluindo
as células β do pâncreas) marca-a para metabolização no interior da célula.
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 216

Tabela 8.1 Propriedades das quatros isoformas do GLUT mais bem estudadas
Transportador KM (mM) Distribuição Características Estrutura pressupostaa
GLUT-1 1-2 Universal, Constituinte do
eritrócitos transportador da
glicose
GLUT-2 20 Fígados, Células , Baixa afinidade,
intestino, rim elevada capacidade
de transporte
GLUT-3 1 Neurónios, Transportador de
Placenta baixa afinidade
GLUT-4 5 Tecido adiposo, Transportador
músculo dependente da
esquelético, insulina
coração
aAs estruturas dos GLUTs de mamífero ainda não foram identificadas, pelo que a figura ilustra a estrutura dos
GLUTs homólogos de E. Coli, o xilose-H+ simporte (Xy1E), complexado com xilose (laranja) (PDB 4GBBY). Contém
12 segmentos que cruzam a membrana plasmática, formando um “poro” através do qual o açúcar é transportado

Existem 4 isoformas das HK (HK 1-4). A isoforma expressa nas células β pancreáticas é a HK-4,
também chamada de glucocinase (GK), uma vez que apresenta uma preferência para a glicose como
substrato. A GK é um monómero com baixa afinidade para a glicose, com um S0.5 de 8 mM, e
cooperatividade com um extremo máximo de 1.7, dando à curva que descreve a sua atividade em
função da concentração de glicose um ponto de inflexão de aproximadamente 4 mM de glicose (Fig.
8.3). Adicionalmente, ao contrário das outras isoformas de HK, a GK não é inibida pelo seu próprio
produto de reação, a glucose-6-P, o que significa que a conversão de glicose a glicose-6-P continua a
ocorrer apesar do aumento da concentração de glicose-6-P no citosol. Estas propriedades cinéticas
tornam possível que alterações da atividade da GK ocorram no intervalo fisiológico de concentração
de glicose no sangue, como se observa facilmente na Figura 8.3, que compara o perfil da atividade das
isoformas das HK em função da concentração de glicose. A atividade da HK 1 mantém-se constante (e
máxima) no intervalo fisiológico de concentração da glicose no sangue, ao passo que se verifica um
grande aumento de atividade da GK à medida que a concentração de glicose aumenta de 2 mM para
12 mM. Relembrando que as concentrações extra- e intracelulares de glicose são equalizadas graças
às propriedades do GLUT-2 nas células β, as propriedades cinéticas do GK tornam possível que a taxa
de metabolização de glicose nestas células seja determinada pela concentração de glicose no sangue,
fazendo da GK um sensor intracelular da glicémia.
A GK parece desempenhar o papel de sensor de glicose em todas as células que expressem esta
isoforma, nomeadamente (para além das células-), os hepatócitos, neurónicos hipotalâmicos
especializados e enterócitos endócrinos. No entanto, a resposta face à variação da concentração de
glicose pode não ser a mesma para os diferentes tipos de células. Nas células β, o aumento da
concentração de glicose estimula a secreção de insulina (ver Secção 8.4.2), ao passo que nos
hepatócitos induz a expressão de genes glicolíticos e lipogénicos. Adicionalmente, a deteção de glicose
por células hipotalâmicas participa na regulação da ingestão de comida e gasto energético, tendo
impacto no controlo do peso corporal, como será abordado no Capítulo 11.
Antes de descrever os mecanismos envolvidos na secreção de insulina e os seus efeitos na
regulação do metabolismo das suas diferentes células-alvo, apresenta-se em detalhe as principais vias
metabólicas que são ativas quando a glicémia aumenta.
A Figura 8.2a demonstra a rapidez com que a glicose é removida da corrente sanguínea num período
de 2h após uma refeição rica em hidratos de carbono. Neste período, os principais destinos da glicose
são (a) a sua utilização enquanto fonte de energia pela maior parte, senão mesmo por todas, as células
do organismo (o que não implica que a glicose seja a única fonte de energia do corpo humano); (b) a
217 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Fig. 8.3 Comparação entre as propriedades cinéticas das isoformas HK. O intervalo fisiológico de concentração
de glicose no sangue está indicado pela secção cinzenta (Reproduzido de Cardenas et al. Biochim. Biophys. Acta
1401:242-264, 1998, com permissão de Elsevier)

sua incorporação em moléculas de glicogénio, em que a glicose é armazenada por polimerização (ou
seja, sem que envolva mudanças bruscas na sua estrutura molecular); e (c) a sua transformação em
ácidos gordos, que são incorporados em moléculas de triacilglicerídeos, a principal fonte de
armazenamento de energia do organismo humano (Fig. 8.4).

Caixa 8.2: Patologias Associadas à GK


O papel da GK enquanto sensor de glicose nas células β pancreáticas é fortemente apoiado pelas
consequências que se testemunham quando existem mutações no gene GK, que se manifestam
em pelo menos três patologias: (a) hipoglicémia hiperinsulinémica persistente (PHHI), causada
por mutações que ativam a enzima; (b) diabetes mellitus neonatal permanente (PNDM), que
ocorre em recém-nascidos que transportam mutações que inativam ambos os alelos do gene; e
(c) maturity-onset diabetes of the young (MODY), que ocorre graças à existência de uma mutação
num alelo, que inativa a enzima. O limiar de estimulação de glicose para libertação de insulina
das células β (GSIR – glucose stimulation of insulin release) pode ser tão baixo quanto 1.5 mM
em pacientes com PHHI, devido quer ao diminuto S0.5 quer e/ou ao aumento do kcat, quanto pode
estar aumentado até 7 mM devido a uma única mutação inativante em pacientes com MODY
(figura). Assim, estes síndromes podem ser explicados com base no facto de o limiar de
concentração de glicose para o GSIR ser determinado pela capacidade catalítica e/ou na
afinidade do substrato da GK das células β pancreáticas, apoiando o conceito de que esta enzima
desempenha um papel fundamental no pressentimento de variações na concentração de glicose.
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 218

Comparação da taxa relativa de fosforilação da glicose em função da concentração de glicose para o


indivíduo wild type (WT) – laranja – e para indivíduos com diferentes mutações na GK – azul claro (MODY)
e azul escuro (PHHI). A linha a tracejado indica o limiar para a estimulação de glicose para a libertação de
insulina, GSIR (Baseado nos dados de Matschinsky. Diabetes 51:S394-S404, 2002)

A utilização de glicose enquanto fonte de energia já foi discutida nos Capítulos 6 e 7. Neste capítulo,
vamos detalhar as vias metabólicas que convertem glicose em reservas energéticas, a síntese de
glicogénio e a síntese de lípidos. Falar-se-á também da via das fosfatos de pentose, que constitui uma
via alternativa para a oxidação de glicose-6-P e que culmina com a formação de NADPH e pentose de
fosfato para a síntese de nucleótidos.

Fig. 8.4 Possíveis destinos da glicose após a sua captação pelas células. As vias metabólicas que a glicose pode
seguir estão explícitas nas caixas em azul
219 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

8.2 Biossíntese de Glicogénio


O glicogénio é um polímero ramificado de glicose, que forma estruturas granulares correspondentes a
agregados de glicogénio associado às enzimas envolvidas na sua síntese e degradação, bem como à
sua maquinaria de regulação (Fig. 8.5).
No ser humano, o glicogénio é acumulado essencialmente no fígado e no músculo esquelético, face
a um aumento da concentração de glicose no sangue que normalmente ocorre num estado pós-
prandial. O glicogénio serve como uma fonte imediata de glicose, que no fígado é libertada para
manutenção da glicémia (ver Secção 9.2.1), enquanto que no músculo funciona como uma reserva de
combustível para assegurar a síntese de ATP durante uma atividade contráctil intensa (ver Secção
10.4.2). Os princípios gerais de armazenamento e mobilização de glicogénio são idênticos nos dois
tecidos, com ligeiras diferenças nas enzimas, especialmente no que concerne os mecanismos da sua
regulação.
No início do século X, Carl e Gerty Corti descobriram e estudaram a glicogénio fosforilase (GP), a
enzima que catalisa a reação de degradação de glicogénio (ver Secção 9.2.1). Desde que
demonstraram, utilizando diferentes preparações de tecidos, que a reação catalisada por esta enzima
era reversível in vitro, a síntese de glicogénio foi inicialmente concebida como sendo o inverso da
glicogenólise.
A existência de uma via diferente para a síntese de glicogénio tornou-se mais clara após a
descoberta da causa da doença de McArdle, a desordem mais comum do metabolismo do glicogénio,

Fig. 8.5 Grânulos de glicogénio no fígado e no músculo. O glicogénio, um polímero de moléculas de glicose, é
armazenado principalmente no fígado e no músculo, sob a forma de grânulos, em que a molécula de glicogénio
surge no centro e é rodeada por proteínas e enzimas envolvidas no seu metabolismo. As imagens de microscopia
eletrónica mostram grânulos de glicogénio do músculo esqulético (em cima) e dos hepatócitos (em baixo) nos
quais os depósitos de glicogénio podem ser vistos como densidades eletrónicas. (Transmissão das imagens de
microscopia eletrónica: secção de músculo esquelético, proveniente dos arquivos do Prof. David Ferreira, com
permissão de Karin David Ferreira; secção de hepatócito, cortesia da Prof. Marlene Benchimol)
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 220

que é causada por uma mutação da isoforma muscular da GP, culminando numa enzima não funcional
e num bloqueio total da degradação de glicogénio no músculo. Pacientes com a doença de McArdle
possuem reservas crónicas de glicogénio muscular anormalmente altas, o que demonstra que a
biossíntese de glicogénio ocorre independentemente da atividade da GP.
Tanto no fígado como no músculo, a glicose no sangue é o precursor major para a síntese de
glicogénio, que é maioritariamente regulada pela ação da insulina, como será discutido na Secção 8.4.
No músculo esquelético, também o transportador de glicose para o interior das células é dependente
da presença de insulina (transportador GLUT-4).
A síntese de glicogénio pode ser separada em duas partes distintas: as fases de iniciação e de
elongamento. A fase de iniciação pressupõe que se está a formar uma nova molécula de glicogénio (e
não se está apenas a polimerizar uma molécula de glicogénio pré-existente) e é mediada pela
glicogenina, uma proteína que, para além de catalisar a incorporação da primeira unidade de glicose na
cadeia nascente de glicogénio, permanece covalentemente ligada ao final da molécula de glicogénio.
A fase de elongamento depende de duas enzimas diferentes: (a) a glicogénio sintase (GS), que catalisa
a adição sucessiva de unidades de glicose (ligação alfa-1,4) a uma extremidade não redutora da cadeia
de glicogénio; e (b) a enzima ramificadora, que é responsável pela introdução de ramificações na
molécula de glicogénio, ao criar ligações glicosídicas alfa-1,6.
As reações de iniciação e de elongamento pressupõem que o dador de unidades de glicose para
incorporação na molécula de glicogénio é a UDP-glicose.
A função da UDP-glicose como dador de unidades de glicose para a síntese de dissacáridos e
glicogénio foi descoberta por Luis Leloir, um bioquímico argentino. Após as descobertas de Leloir,
tornou-se evidente que a formação de um nucleótido de açúcar era uma etapa geral de ativação nas
reações de polimerização das hexoses, incluindo a formação de dissacáridos, glicogénio,
polissacáridos extracelulares e amino-hexoses e desoxihexoses encontradas em alguns destes
polissacáridos. Devido a esta grande contribuição científica que possibilitou o entendimento da
biossíntese de hidratos de carbono, Leloir foi galardoado com o Prémio Nobel de Químca em 1970.

A via de formação de UDP-glucose a partir de glicose do sangue é inicialmente diferente no fígado e no


músculo, mas converge para as mesmas reações metabólicas no final (Fig. 8.6a).
Nos hepatócitos, a glicose entra na célula através do GLUT2 e é fosforilada pela GK. Como já foi
demonstrado para as células  pancreáticas (ver Secção 8.1), isto torna a síntese de glicose-6-P
dependente da concentração de glucose no sangue. Adicionalmente, tendo em conta que os
hepatócitos expressam a enzima glicose-6-fosfatase, que é responsável pela remoção do grupo fosfato
da glicose-6-P, quando a concentração intracelular de glicose-6-P aumenta significativamente, algumas
destas moléculas podem ser desfosforiladas a glicose, que pode então abandonar a célula. Assim,
parte das moléculas de glicose que entram no fígado são metabolizadas neste órgão, mas o excesso
retorna para a corrente sanguínea para ser utilizado por outros tecidos.
Nas fibras musculares, a glicose é transportada para o citosol por intermédio da isoforma GLUT4.
Este transporte é dependente da ação da insulina e será abordado em mais detalhe no Secção 8.4. Uma
vez dentro da célula, a glucose é fosforilada a glicose-6-P pela HK, que possui uma grande afinidade
por glicose.
221 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Fig. 8.6. (a) Via de conversão de glicose a UDP-glicose no fígado e no músculo. A glicose entra na célula por
intermédio do GLUT-2 ou do GLUT-4 e é fosforilada pela GK ou pela HK nos hepatócitos e nas fibras musculares,
respetivamente. A glicose-6-fosfato (G6P) é convertida a glicose-1-fosfato (G1P), que é o substrato para a
formação de UDP-glicose em ambos os tipos celulares. A UDP-glicose é o substrato para a síntese de glicogénio.
Os nomes das enzimas estão em destaque nas caixas amarelas. (b) Reação de síntese de UDP-glicose catalisada
pela UDP-glicose pirofosforilase

A partir deste ponto, quando a glicose-6-P é formada, tanto no fígado como no músculo, a enzima
fosfoglucomutase converte a glicose-6-P a glicose-1-P, que é o substrato para a síntese de UDP-glicose.
A glicose-1-P reage com o UTP para formar UDP-glicose, que é precursor imediato para a síntese de
glicogénio (Fig. 8.6b). Esta reação é catalisada pela enzima UDP-glicose pirofosforilase, com a
formação de pirofosfato para além da molécula de UDP-glicose. Apesar do nome da enzima, UDP-
glicose pirofosforilase, ser referente à reação inversa, a síntese de UDP-glicose é irreversível em
condições fisiológicas, uma vez que o pirofosfato é prontamente hidrolisado pela enzima fosfatase
inorgânica, numa reação bastante exergónica que puxa a síntese de glicogénio para a frente.

A iniciação da síntese de glicogénio depende de uma proteína extremamente pouco usual, chamada
glicogenina (Fig. 8.7), que ocupa o centro da molécula de glicogénio.
A glicogenina é um membro da superfamília das glicosiltranferases. É dimérica e partilha com
outras glicosiltranferases a extremidade de ligação nucleotídica possuindo, assim, um domínio de
quatro cadeias , que é responsável pela maioria das interações com a metade do UDP da UDP-glicose
(Fig. 8.7a). Nos mamíferos, existem duas isoformas de glicogenina específicas do tecido em que se
encontram: glicogenina-1, predominante expressa no músculo, e glicogenina-2, expressa sobretudo no
fígado.
A reação inicial catalisada pela glicogenina é única, na medida em que a proteína é o substrato, o
catalisador e o produto de reação. Primeiro, a glicogenina catalisa a glicolisação da sua própria Tyr195,
ao transferir a unidade de glicose da UDP-glicose, de modo a formar uma ligação glicose-1-O-tirosil (Fig.
8.7b). Depois, a glicogenina sequencialmente incorpora resíduos de glucose (por ligações glicosídicas
alfa-1,4) à cadeia nascente de glicose, a partir da glicose ligada à Tyr195 e utilizando UDP-glicose como
substrato, até que a cadeia alcance os 8 resíduos de glicose. A cadeia mantém-se ligada à glicogenina
(Fig. 8.7b).
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 222

O elongamento da cadeia de glicogénio depende da atividade de duas enzimas: a GS (glicogénio


sintase) e a enzima ramificadora.
A GS catalisa a formação de ligações alfa-1,4 entre a unidade de glicose da UDP-glicose e a
extremidade não reduzida da cadeia de glicogénio (Fig. 8.8a).

Fig. 8.7 (a) Estrutura da glicogenina-1 humana (PDB 3T7O), evidenciando a Tyr195 (vermelho), o resíduo que é
glicolisado pela transferência de uma unidade de glicose da UDP-Glicose (laranja). (b) As duas reações
quimicamente distintas que são catalisadas pela glicogenina: a glicolisação inicial da Tyr195 através da formação
da ligação glicose-O-tirosil (em cima) e a subsequente formação da ligação glicosídica α-1,4 (em baixo)

Quando a cadeia de glicogénio alcança pelo menos 11 resíduos de glicose, torna-se substrato para
a enzima ramificadora, que catalisa a transferência de um segmento terminal de 7 resíduos de glicose
para um grupo hidroxilo na posição 6 do resíduo de glicose na mesma ou na cadeia vizinha, criando
uma ramificação com uma ligação glicosídica α-1,6 (Fig. 8.8b). A adição de novos resíduos à cadeia de
glicogénio agora ramificada pode continuar por ação da GS.
A atividade da enzima ramificadora é importante não só porque os ramos aumentam a solubilidade
do glicogénio no interior da célula, mas também porque aumenta o número de extremidades não-
redutoras que são locais de ação da GS e da GP, fazendo com que a molécula de glicogénio seja mais
rapidamente metabolizada.
A molécula de glicogénio habitualmente cresce até sejam encontradas 12 fileiras, cada uma com
12-14 resíduos de glicose e dois ramos, resultando em aproximadamente 55.000 resíduos de glicose
incorporados, o que dá à molécula um peso molecular médio de 10 7 e um diâmetro de 21 nm.

A glicogénio sintase (GS) é a enzima chave na regulação da síntese de glicogénio. A atividade da GS é


inibida por fosforilação, que pode ocorrer em múltiplos locais da proteína por ação de pelo menos 11
diferentes proteínas cinases. (Caixa 8.3)
Apesar de fosforilação provocar inibição da GS, este efeito pode ser completamente ultrapassado
pela ligação de glicose-6-P, que representa o principal ativador alostérico da GS (Fig. 8.9).
223 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Fig. 8.8 (a) Reação de elongamento da cadeia de glicogénio, catalisada pela GS. (b) Reação de ramificação da
molécula de glicogénio, catalisada pela enzima ramificadora

Caixa 8.3: Os Múltiplos Locais de Fosforilação na Inativação da GS


Nos seres humanos, existem 2 isoformas da enzima glicogénio sintase, com cerca de 70% de
correspondência: a isoforma do músculo, que é expressa na maioria dos tecidos, e a isoforma
hepática, cuja expressão é específica do fígado. A região catalítica da enzima localiza-se na
região central da sua sequência primária e presenta o maior grau de identidade entre as duas
isoformas, a rondar os 80% de correspondência. As extremidades N-terminal e C-terminal
apresentam um menor grau de homologia entre as duas isoformas (50 e 46%, respetivamente) e
contêm múltiplas regiões de fosforilação: 2 e 2a na extremidade N-terminal e 3a, 3b, 3c, 4,5, 1a e
1b na extremidade C-terminal (ver figura). Pelo menos 11 proteínas cinases diferentes estão
envolvidas na fosforilação da GS, que resulta na inativação da enzima: proteína cinase
dependente de cAMP (PKA), proteína cinase de Ca2+-calmodulina (CaMK), proteína cinase C
(PKC), fosforilase cinase (PK), proteína cinase dependente de cGMP (PKG), proteína cinase
ativada por AMP (AMPK), proteína cinase II da proteína ribossomal S6 (S6KII), proteína cinase 2
associada ao mitogénio (MAPK2), caseína caseína I (CKI), cinase da glicogénio sintase 3 (GSK3)
e caseína cinase II (CKII). É interessante notar que o mecanismo de regulação da glicogénio
sintase (GS), envolvendo múltiplas fosforilações, é muito diferente do mecanismo de regulação
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 224

da glicogénio fosfatase (GP), enzima que catalisa a degradação da molécula de glicogénio, que
é ativa por fosforilação de um único resíduo de serina por ação da enzima fosforilase cinase (ver
Secção 9.2.2).

Representação esquemática da sequência primária das isoformas muscular e hepática da GS,


demonstrando as regiões de fosforilação e possíveis proteínas cinases envolvidas na fosforilação.
(Reproduzido de Ferrer et al. FEBS Lett. 546:127-132, 2003, com permissão de Elsevier)

Fig. 8.9 Efeitos da fosforilação e


da glicose-6-fosfato na atividade
da GS. A GS é ativada pela
glicose-6-fosfato (G6P) tanto
quando está fosforilada (laranja)
ou desfosforilada (azul), mas
sem G6P (que é o substrato da
GS), a atividade basal da enzima
é inibida por fosforilação.
(Baseado nos dados de Pederson
et al. J. Biol. Chem. 275:27753-
27761, 2000)

O mecanismo molecular que está na base da alternância entre o efeito inibitório da fosforilação da
GS e a ativação enzimática por ligação de glicose-6P depende de um agregado de seis resíduos
conservados de arginina localizados na região C-terminal desta enzima (Caixa 8.4).
A principal enzima envolvida na inativação da GS é a GSK3 (glycogen synthase kinase 3), que catalisa
a incorporação sequencial de grupos fosfato em regiões de fosforilação adjacentes da GS. No entanto,
evidências da década de 80 sugeriam que a ação isolada da GSK3 não é suficiente para fosforilar e
inativar a GS, sendo necessário uma atividade concertada de mais do que uma proteína cinase (Caixa
8.5).
225 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Caixa 8.4: O Modelo de 3 Estados da Regulação da GS


A estrutura cristalina da GS da levedura revela que as enzimas eucarióticas são tetraméricas. A
localização da hélix que contém os resíduos conservados de Arg indica-nos que estes resíduos
interagem com os grupos fosfato tanto da glicose-6P como das regiões fosforiladas, sugerindo
um modelo de 3 estados para a regulação da atividade da GS (ver figura). O estado I, que
corresponde à forma desfosforilada da enzima, demonstra uma atividade basal intermédia, dada
a sua baixa afinidade para glicogénio. O estado T corresponde à forma fosforilada da enzima,
em que a interação entre os resíduos fosforilados e os resíduos de arginina bloqueia o centro
ativo da enzima, levando à inativação enzimática da GS. O estado R é alcançada através da
ligação de glicose-6P, cujo grupo fosfato interage com dois resíduos de arginina, resultando no
desbloqueio do centro ativo da enzima, permitindo a ligação e a reação entre a UDP-glicose e a
cadeia de glicogénio.

Representação esquemática dos estados conformacionais da GS propostos por Baskaran et al. Proc. NatI
Acad Sci USA 107:17563-17568, 2010. Os resíduos regulatórios de arginina (rotulados com R) interagem
com os grupos fosfato da Tyr668 num estado fosforilado, bloqueando a enzima na fase T. A ligação da
glicose-6-P (G6P) liberta esta restrição, conduzindo a enzima à fase R, em que está completamente ativa.
O hexágono rotulado com U representa a molécula de UDP-glicose
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 226

Caixa 8.5: A Inativação da GS pela GSK3


Os resultados de experiências de fosforilação in vitro em enzimas recombinantes da isoforma
muscular da glicogénio sintase (GS), demonstram claramente que a atividade isolada da enzima
GSK3 não é suficiente para fosforilar e inativar a GS, requerendo fosforilações prévias por parte
da caseína cinase II (ver figura). A caseína cinase II é capaz de incorporar um grupo fosfato (na
região de fosforilação 5; ver Box 8.3) por subunidade de GS, mas esta fosforilação por si só tem
um efeito mínimo na atividade enzimática da GS. Por outro lado, uma vez fosforilada pela CKII, a
GS torna-se um substrato eficaz para a ação da GSK3, que introduz quatro grupos fosfatos
adicionais na GS (nas regiões de fosforilação 4, 3c, 3b e 3a), resultando numa diminuição
significativa da atividade da enzima. Isto acontece uma vez que a GSK3 precisa inicialmente de
um fosfato ao qual se ligar de maneira a cumprir a sua função e catalisar a fosforilação da
subsequente região de fosforilação da GS. Esta última região, agora fosforilada, torna-se um
novo local de ligação de GSK, que ao se ligar ao grupo fosfato deste local passa a ser capaz de
agir na região de fosforilação imediatamente subsequente e assim sucessivamente. Esta
fosforilação sequencial continua até que cinco grupos fosfato sejam incorporados nas regiões
de fosforilação da extremidade C-terminal da GS.

Esquerda: quantificação de grupos fosfato incorporados (painel de cima) e o seu efeito na atividade
enzimática (painel de baixo) após incubação com apenas caseína cinase II (círculos abertos), apenas GSK3
(círculos preenchidos), ou com GSK3 adicionada após 30 minutos de incubação com a enzima caseína
cinase II (triângulos) (Reproduzido de Zhang et al. Arch. Biochem. Biophys. 304:219-225, 1993, com
permissão de Elsevier). Direita: Estrutura da GSK3 (PDB 1H8F). Os resíduos carregados positivamente,
Arg96, Arg180 e Lys205 (cadeias laterais representadas a vermelho) interagem com os grupos fosfato
incorporados na GS pela caseína cinase II, permitindo a ocupação do centro ativo da GSK3 (evidenciado a
verde), com subsequente fosforilação da GS. Assim, a GS desliza de forma a permitir a interação do fosfato
incorporado com os resíduos da GSK3 positivamente carregados, permitindo que a próxima região de
fosforilação ocupe o centro ativo

É de salientar que a GSK3 tenha sido descoberta como agindo em função de uma ativação
mediada por insulina, é agora reconhecida como uma proteína cinase ativa constitutiva, que
fosforila um vasto leque de substratos. A GSK3 está envolvida em vários processo celulares, tais
como proliferação celular, funcionamento neuronal, oncogénese e desenvolvimento
embrionário., para além de participar no metabolismo do glicogénio e na via de sinalização da
insulina. É interessante reparar que muitos dos substratos da GSK3, para além da GS, necessitam
de uma primeira fosforilação num resíduo Ser/Thr localizado a +4 resíduos da região de
fosforilação pela GSK3 na enzima GS.
227 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Como a GSK3 é uma enzima constitutiva, a GS é mantida constantemente fosforilada e,


consequentemente, inativa até que a GSK3 seja inibida. A GSK3 é inibida por fosforilação mediada pela
ação da insulina (ver o mecanismo detalhado na Secção 8.4). Assim, quando a glicémia aumenta e há
secreção de insulina, a GSK3 torna-se inativa, permitindo que a GS seja desfosforilada e,
subsequentemente, ativa. Para lá de mediar a inibição da atividade da GSK3, a ação da insulina também
promove a síntese de glicogénio ao induzir a desfosforilação da GS. A desfosforilação da GS é
catalisada pela proteína fosfatase 1 (PP1), que se associa a grânulos de glicogénio em resposta à via
de sinalização da insulina e que também age na enzima GP e na enzima fosforilase cinase, (envolvidas
na degradação de glicogénio) culminando nas suas inativações, o que favorece a acumulação de
glicogénio no interior da célula, na medida em que se promove a simultânea ativação da GS e inativação
da GP.
É de notar que a PP1 não atua nos seus substratos de forma simultânea no interior da célula, uma
vez que se a sua atividade está associada a proteínas regulatórias, que funcionam como subunidades
que especificam o substrato sobre o qual a PP1 tem de agir. Estas proteínas encarregam-se, portanto,
de recrutar a PP1 para alvos específicos no interior da célula. A PP1 está associada aos grânulos de
glicogénio através de uma família destas proteínas, conhecidas como subunidades-alvo de G (G target
subunits), que medeiam a atividade da PP1 na GS, GP e na fosforilase cinase (Fig. 8.10).
No músculo, a PP1 liga-se ao glicogénio essencialmente através da subunidade-alvo GM, que
aumenta a sua atividade contra a GS, a GP e a fosforilase cinase (Fig. 8.10). Na GL e GC hepáticas (ou
PTG) são expressas nos mesmos níveis. A GL possui um local de ligação à GPa, que inibe a atividade
da PP1. A ligação de glicose à GP, para além de inibir a sua atividade, promove também a sua libertação
de GL, ativando a PP1 e, consequentemente, a desfosforilação e ativação da GS. Assim, durante
condições de hiperglicemia, o aumento da concentração de glicose dentro do hepatócitos inibe direta
e indiretamente a degradação de glicogénio e ativa a sua síntese (Fig. 8.10).
As isoformas muscular e hepática da GS também diferem na sua localização celular. Nas fibras
musculares, quando a concentração intracelular de glicose não é muito elevada, a GS acumula-se no

Fig. 8.10 As enzimas do metabolismo do glicogénio (GS, GP e fosforilase cinase, PK) estão associadas aos
grânulos de glicogénio nas células do fígado (esquerda) ou do músculo (direita). Nos hepatócitos, as células do
fígado, um aumento da concentração intracelular de glicose inativa a GP e induz a dissociação de GL, que se liga
aos grânulos de glicogénio e recruta a PP1, que, por sua vez, desfosforila a GS, ativando-a, e a GP e a PK, inativando-
as. No músculo, a GM recruta a PP1, levando a uma aumento da sua atividade contra a GS, GK e PK. Os PP1-binding
motifs em cada da uma das target subunits (como identificado pelo trabalho de Fong et al. J. Biol. Chem 275:35034-
35039, 2000), estão representados nas caixas
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 228

núcleo destas células. Pelo contrário, quando a insulina é libertada em circulação face a um aumento
da glicémia, a concentração intracelular de glicose aumenta face à sua entrada para o interior das
células por transporte mediado pelo GLUT4, um transportador dependente de insulina, e a GS é
translocada para o citosol, onde se torna ativa, tanto por ligação a glicose-6P, como por desfosforilação
mediada por insulina. Nos hepatócitos, a GS distribui-se de forma difusa pelo citosol da célula e
acumula-se à periferia da célula em resposta ao aumento da concentração intracelular de glicose, que,
neste caso, reflete diretamente um aumento da glicémia graças às propriedades já abordadas do
GLUT2 e da GK. À medida que a síntese de glicogénio prossegue, os depósitos de glicogénio estendem-
se desde a periferia da célula em direção ao seu centro, e a GS mantém a sua co-localização com as
moléculas de glicogénio.

8.3 Biossíntese de Lípidos


A maior reserva energética do ser humano é constituída por lípidos, que são armazenados sob a forma
de triacilgliceróis em gotículas lipídicas, no interior dos adipócitos, que são o tipo celular primário do
tecido adiposo (Fig. 8.11). O tecido adiposo corresponde a 12-20% do peso corporal de um homem não
obeso e pode conter mais de 100.000 kcal passíveis de utilização após degradação.
Adicionalmente, outros lípidos desempenham papéis igualmente importantes no organismo
humano: os fosfolípidos e o colesterol são constituintes das membranas celulares, os esteroides atuam
como hormonas, os ecosanóides são mensageiros extra- e intracelulares, e a vitamina K, que funciona
como cofator de reações enzimáticas, entre outros.

Fig. 8.11 Secções histológicas de tecido adiposo (Reeditado com a permissão do Instituto de Histologia e Biologia
do Desenvolvimento, Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa, FMUL). Em detalhe encontra-se uma
microscopia eletrónica de um adipócito, salientando-se as reservas lipídicas no seu interior, onde se armazenam
triacilgliceróis

Os lípidos foram considerados, durante muito tempo, como componentes relativamente inertes do
organismo, principalmente devido a as metodologias mais precoces de estudo do metabolismo terem
sido desenvolvidas em sistemas aquosos. Este panorama começou a mudar significativamente após
estudos pioneiros de Rudolf Schoenheimer, que revolucionou o conceito de atividade metabólica ao
fundir física atómica e fisiologia através da incorporação de átomos isotópicos em posições
229 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

específicas de moléculas orgânicas. Esta abordagem permitiu que tanto a via como o destino das
diferentes moléculas orgânicas fossem traçados, e assim se ultrapassaram as limitações impostas
pela ligação, a estas moléculas, de grupos químicos detetáveis, que introduziriam alterações
estruturais nas moléculas-alvo e as modificariam de forma drástica em comparação com os seus
análogos naturais.
Schoenheimer alimentou ratos com ácidos gordos deuterizados e descobriu que os lípidos ingeridos
são permutados com os lípidos dos diferentes tecidos e que, até mesmo em ratos que tinham perdido
peso, uma grande proporção de ácidos gordos previamente marcados tinham sido depositados, o que
demonstra que as gorduras não eram imediatamente catabolizadas seguindo a absorção, mas antes
que eram mobilizadas das reservas armazenadas no tecido adiposo. A partir destes resultados,
Schoenheimer concluiu: “Os tecidos gordos são geralmente referidos como armazenamento para uma
altura de necessidade e têm sido frequentemente comparados com um armazenamento morto ou uma
adega de alimentos para emergências. Com base nas novas descobertas, os tecidos gordos poderão
ser melhor comparados a um frigorífico no qual o excesso é armazenado pelo curto intervalo entre as
refeições.”

As descobertas de Schoenheimer deram aso a uma nova maneira de abordar o metabolismo, que
passa então a ser estudado enquanto um estado dinâmico de constituintes orgânicos. Este conceito já
tinha sido introduzido no século XIX por Claude Bernard (ver Secção 9.2), mas só com as experiências
de Schoenheimer se conseguiu provar esta hipótese.
Desde então se tornou evidente que a conversão de hidratos de carbono em gorduras seria uma
importante via do metabolismo da glicose. De facto, várias experiências em que animais eram privados
de gorduras e alimentados com glucose previamente marcada isotopicamente, vieram demonstrar a
incorporação de átomos derivados da glicose nas reservas de gordura.
Nesta secção, iremos apresentar as vias metabólicas para a síntese de ácido gordos e mostrar
como estas moléculas são incorporadas nos triacilglicerídeos. Adicionalmente, a integração do
metabolismo dos hidratos de carbono e da síntese de ácidos gordos será abordada, incluindo como a
glicose é convertida em ácidos gordos e como um desvio da via glicolítica, a via das pentose-fosfato, é
essencial para gerar o poder redutor necessário para a biossíntese lipídica.

Até à década de 50, a síntese de ácidos gordos era concebida como a reação inversa à da -oxidação.
Esta ideia era sustentada pelo facto de que, na altura, todas as enzimas envolvidas na -oxidação
tinham sido purificadas e de cada reação ter sido demonstrada como sendo reversível. No entanto,
apesar de a síntese de ácidos gordos envolver a adição sequencial de unidade acetil numa cadeia
nascente de ácidos gordos, sabemos hoje que esta via ocorre no citosol, em contraste à localização
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 230

mitocondrial da -oxidação, e é catalisada por enzimas diferentes – duas enzimas multifuncionais


anormalmente largas, a ACC (acetil-CoA carboxilase) e a FAS (fatty acid synthase). A síntese de ácidos
gordos ocorre principalmente no fígado e no tecido adiposo, bem como na glândula mamária durante
a amamentação.

8.3.1.1 Reações para a Síntese de Ácidos Gordos


A incorporação de unidades acetil num ácido gordo em formação requer a criação prévia de malonil-
CoA. Esta molécula, para além de ser o substrato para a síntese de ácidos gordos, é também um
regulador negativo da oxidação de ácidos gordos, ao inibir a carnitina aciltransferase 1 e,
consequentemente, bloqueando o transporte de acil-CoA para o interior da mitocôndria (ver Secção
7.4.3).
O malonil-CoA forma-se pela carboxilação de acetil-CoA, numa reação catalisada pela enzima ACC
(acetil-CoA carboxilase) (Fig. 8.12). A ACC é uma das enzimas carboxilases dependentes de biotina, e
integra um grupo de enzimas que utiliza a mesma estratégia bioquímica para superar a alta barreira
energética que a reação de carboxilação representa. Estas enzimas possuem duas atividades
enzimáticas, catalisadas pelas suas duas componentes biotina carboxilase (BC) e carboxil transferase
(CT), e realizam uma reação em duas fases, em que a biotina ligada à enzima é carboxilada numa
reação dependente de ATP (Caixa 8.6). A ACC humana é uma proteína de ~250 kD em que as atividades
de BC e CT estão separadas em dois domínios na mesma cadeia polipeptídica. Um terceiro domínio
desta enzima, o BCCP, contém o grupo prostético de biotina ligado de forma covalente a um resíduo de
lisina. A organização estrutural da enzima permite o movimento da biotina de um centro catalítico para
outro durante a catálise.

Fig. 8.12 Reação catalisada pela ACC. Primeiro, o componente BC da ACC catalisa a carboxilação dependente de
ATP do grupo prostético de biotina ligado ao componente BCCP da enzima. Depois, o braço de biotina move a
carboxibiotina para o componente CT da ACC, que catalisa a transferência do grupo carboxil da biotina para o
acetil-CoA, formando malonil-CoA
231 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Caixa 8.6: As Carboxilases Dependentes da Biotina


As carboxilases dependentes de biotina incluem a acetil-CoA carboxilase (ACC), a propionil-CoA
carboxilase (PCC), a 3-metilcrotonil-CoA carboxylase (MCC), a piruvato carboxilase (PC; ver
Secção 9.3.1) e a uréia carboxilase (UC). Estas enzimas contêm três componentes distintas na
sua estrutura: a biotina carboxilase (BC), a carboxil transferase (CT) e a proteína transportadora
da biotina-carboxilo (BCCP), que podem ocorrer, dependendo dos organismos, enquanto
subunidades individuais (habitualmente em bactérias), ou então como parte de uma proteína
multidomínio (como ocorre nos eucariontes), com algumas estruturas intermédias também
presentes na natureza. Estas proteínas possuem um grupo prostético de biotina ligado
covalentemente a um resíduo de lisina do componente BCCP e exibem duas atividades
enzimáticas distintas. Primeiro, o componente BC catalisa a carboxilação do cofator de biotina,
utilizando bicarbonato como dador de CO2, e depois o componente CT catalisa a transferência
de CO2 da carboxibiotina para o substrato (ver figura).
A ligação à cadeia lateral de Lys na BCCP forma um braço de 16 Å de comprimento
extremamente flexível composto por oito grupos metileno com dez ligações individuais
rotacionais, levando à hipótese de um “modelo do braço nadador” para o mecanismo de
translocação da biotina desde a BC até aos sítios ativos da CT, nos quais a flexibilidade do braço
permite a movimentação da BC para os sítios da CT. No entanto, a determinação estrutural de
várias carboxilases dependentes da biotina revela que a distância entre a BC e os sítios ativos de
CT varia entre 55 a 85 Å, sugerindo que para além do movimento do braço flexível de biotina, é
necessária também uma translocação do domínio da BCCP para que a biotina chegue até à BC
e aos sítios ativos da CT, pelo que foi designada “modelo do braço nadador” a atividade catalítica
das carboxilases dependentes de biotina.

Representação esquemática das reações dependentes de biotina, catalisadas por carboxilase. Primeiro,
com componente BC catalisa a carboxilação do grupo prostético de biotina, ligado ao componente BCCP
da enzima, numa reação dependente de hidrólise Mg2+-ATP. Depois, a flexibilidade do braço de biotina, em
conjunto com a translocação do componente BCCP, permite que a biotina carboxilada se mova na direção
do componente TC, que catalisa a transferência do grupo carboxilo ligado à biotina para o substrato (que,
neste exemplo, é o acetil-CoA). Figura reproduzida com autorização de Tong, Cell. Mol. Life Sci. 70:863-891,
2013
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 232

Identificaram-se 2 isoformas de ACC, que apresentam cerca de 73% de correspondência entre as


sequências de aminoácidos. Estas isoformas encontram-se altamente segregadas pela célula e
desempenham diferentes funções no metabolismo (Fig. 8.13). A ACC1 é expressa em todos os tecidos,
mas em maior grau no fígado, tecido adiposo e glândula mamária em período de amamentação, e é
responsável por produzir malonil-CoA para a síntese de ácidos gordos. A ACC2 é altamente expressa
no músculo esquelético e no músculo cardíaco e está associada à membrana mitocondrial, onde o
malonil-CoA sintetizado atua como um inibidor do sistema de transporte da canitina/palmitoil,
impedindo que a beta-oxidação ocorra. As implicações do destino da malonil-CoA produzidas por cada
isoforma da ACC na regulação do metabolismo lipídico serão abordadas na próxima secção.

Fig. 8.13. Isoformas da ACC e a sua localização intracelular. A ACC1 é altamente expressa no citosol das células
do fígado, do tecido adiposo e da glândula mamária em período de amamentação, onde converte acetil-CoA a
malonil-CoA, que é utilizado como substrato da sintetase de ácidos gordos (FAS), na síntese de ácidos gordos. Em
contraste, como a ACC2 está associada à membrana mitocondrial, o malonil-CoA produzido age como inibidor da
carnitina/palmitol transferase (CPT), comprometendo o transporte de acil-CoA para a matriz mitocondrial e,
consequentemente, a sua oxidação. O substrato de ambas as isoformas de ACC, acetil-CoA, é produzido no
citoplasma a partir de citrato, que abandona a matriz mitocondrial após acumulação derivada de uma elevada taxa
de metabolização de glicose. As linhas a tracejado representam reações inibidas

O malonil-CoA produzido pela ACC1 é o substrato imediato para a síntese de ácidos gordos, que
culmina geralmente com a formação de palmitato, um ácido gordo saturado de 16 carbonos (ver
Secção 3.1 para recordar). Ácidos gordos com cadeias de maior comprimento e/ou contendo
insaturações são produzidos por modificações do ácido palmítico previamente sintetizado.
O processo geral da síntese de palmitato é catalisado pela enzima multifuncional FAS (ver Caixa
8.7) e ocorre através de uma condensação sequencial de sete unidades de 2 carbonos derivados do
malonil-CoA a um grupo acetilo primário derivado do acetil-CoA.
233 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Caixa 8.7: As Isoformas da FAZ


Apesar da biossíntese de ácidos gordos ocorrer através de um conjunto de reações químicas
conservadas em todos os organismos, a organização estrutural da enzima FAS varia. Nos
animais e nos fungos, a FAS é uma enzima citosólica multifuncional gigante, à qual se chama
FAS tipo I, ao passo que nas plantas e bactérias as diferentes atividades enzimáticas para a
síntese de ácidos gordos são conseguidas por cadeias polipeptídicas separadas, conhecidas em
conjunto como o sistema FAS tipo II. É de notar que isto é similar ao que é observado para a ACC
procarionte, que revela os seus três componentes enquanto subunidades separadas, em
contraste à proteína multidomínio dos eucariontes, como já se abordou na Box 8.6. Acredita-se
que o ancestral da FAS tipo I se assemelhava ao sistema dissociado da FAS tipo II e que a
duplicação génica, perda de função e fusão génica tenham dado origem à multienzima
encontrada nos mamíferos.

A FAS humana é um homodímero citosólico com monómeros de 270 kDa, altamente expresso no
fígado, tecido adiposo e glândula mamária em período de lactação, apesar de ser detetada atividade
basal em praticamente todos os tecidos do corpo humano. Realiza sete atividades enzimáticas, que se
encontram distribuídas por seis domínios da mesma cadeia polipeptídica. Adicionalmente, um sétimo
domínio, a proteína transportadora de acilo ,contém um grupo prostético de fosfopanteteína, ao qual
os intermediários são ligados durante as reações de síntese. Estes sete domínios são denominados de
acordo com a função enzimática que desempenham e ocorrem da seguinte forma, a partir da
extremidade N-terminal: -cetoacil sintetase (KS); malonil/acetil transferase (MAT), que é um domínio
bifuncional catalisador de reações de transferência de acetil e malonil; -hidroxiacil desidratase (DH);
enoil redutase (ER); -cetoacil redutase (KR); proteína transportadora de acil (ACP); e a tioesterase (TE)
(Fig. 8.14a). Apesar de cada monómero possuir todas as atividades, apenas a forma dimérica é
funcional. Tal é explicado pelo facto de que no dímero, os monómeros formam um entrelaçado em
forma de X, cabeça com cabeça homodímeros, de uma maneira que completa um ciclo de reações
dependentes das atividades localizadas em monómeros distintos (Fig. 8.14b, c).
A síntese de palmitato começa com um grupo acetil e um grupo malonil associados à enzima por
intermédio de uma ligação tioéster. O grupo acetil provém do acetil-CoA e é transferido para um grupo
tiol de um resíduo de cisteína na porção KS da enzima, pela atividade enzimática acetil transferase do

Fig. 8.14 (a) Estrutura primária da FAS, evidenciando a posição dos seus sete domínios, desde a extremidade N-
terminal até à extremidade C-terminal da sequência: -cetoacil sintetase (KS), malonil/acetil transferase (MAT), -
hidroxiacil desidratase (DH), enoil redutase (ER), -cetoacil redutase (KR), proteína transportadora de acil (ACP) e
tioesterase (TE). (b) Representação esquemática forma dimérica em forma de X da FAS. Cada monómoro está
ilustrado numa cor diferente. (c) Estrutura cristalográfica da FAS (purificada de porco). A estrutura evidencia cinco
dos sete domínios catalíticos da enzima (os domínios ACP e TE continuam por resolver). Dois domínios não
enzimáticos foram também evidenciados na cristalografia: um domínio pseudo-cetoredutase (ΨKR, colorido a
amarelo) e um domínio pseudo-metiltransferase (ΨME, colorido a bege), que é provavelmente remanescente de
um domínio metiltransferase ancestral, que é mantido em enzimas relacionadas (Adaptado de Liu et al. Int J
Biochem Mol Biol 1:69-89, 2010, utilizando o ficheiro PBD 2VZ8)
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 234

domínio MAT da FAS. O grupo malonil derivada do malonil-CoA e é transferido para o grupo tiol no final
do cofator de fosfopanteteína no domínio ACP da enzima, pela atividade enzimática malonil transferase
do domínio MAT da FAS (Fig. 8.15a).
Uma reação de condensação descarboxilativa entre os grupos acetil e malonil, com a consequente
eliminação de CO2, forma um grupo acetoacetil ligado ao grupo tiol do domínio ACP da FAS. Este passo
é catalisado pela atividade enzimática da KS da FAS e é favorecido energeticamente pela
descarboxilação do grupo malonil (Fig. 8.15a).
O acetoacetil-ACP é reduzido a B-hidroxibutiril-ACP pela atividade enzimática da KR, com
concomitante oxidação de NADPH a NADP+. O B-hidroxibutiril-ACP é desidratado, originando uma
ligação dupla que forma o transbutenoyl-ACP, numa reação catalisada pela atividade enzimática da DH.
Posteriormente, a ligação dupla é reduzida pela atividade enzimática do domínio ER da FAS, numa
reação acoplada à oxidação de mais uma molécula de NADPH a NADP+, que origina butiril-ACP
saturado (Fig. 8.15a). Estas últimas três fases correspondem ao reverso das primeiras reações da beta-
oxidação (ver Secção 7.4.4), mas em vez de serem transferidos para o NAD+ ou para o FAD, os eletrões
provêm do NADPH.
Após o primeiro ciclo de síntese, o grupo butiril ligado ao ACP é transferido para o grupo tiol do
resíduo de cisteína do KS (Fig. 8.15a), sem se dissociar da enzima. Depois, outra malonil-CoA é
transferida para o grupo tiol desocupado da fosfopanteteína da ACP, começando a segunda ronda da
síntese dos ácidos gordos, que origina um produto intermediário de seis carbonos, pela sua
condensação com o grupo butiril ligado ao grupo tiol da KS, na qual as reações subsequentes são
repetidas.
Depois de sete ciclos de condensação e redução, o grupo palmitoil é libertado da ACP pela atividade
da FASTE, originando palmitato livre no citosol (Fig. 8.15b), que pode ser incorporado em moléculas de
triacilglicerídeo ou fosfolípidos.
A estrutura longa e flexível do grupo fosfopanteteína ligado ao ACP permite a entrega dos produtos
intermediários aos sítios ativos de todos os domínios catalíticos. Ao longo da síntese, os produtos
intermediários permanecem ligados covalentemente como tioésteres a um grupo tiol na enzima, seja
KS ou ACP. A primeira evidência disto foi obtida na década de 1950, em experiências nas quais após
incubação de uma preparação enzimática de fígado de pombo com acetato marcado isotopicamente,
a radioatividade foi encontrada associada apenas aos ácidos gordos com 16 carbonos e não
uniformemente distribuída pelos produtos intermediários de diferentes comprimentos de cadeia (Fig.
8.15c).
É interessante notar que a estrutura tridimensional do dímero FAS mostra que toda a estrutura pode
ser dividida em duas porções: a porção de condensação, que contém os domínios KS e MAT, e a porção
de modificação, contendo os domínios DH, ER e KR (Fig. 8.14c).
É importante notar que a biossíntese dos ácidos gordos, bem como outros processos biossintéticos,
ocorre inteiramente no citosol, ao contrário da maior parte das reações de oxidação que ocorrem na
matriz mitocondrial. O uso de NADPH em vez de NADH como dador de eletrões na síntese de ácidos
gordos é muito importante neste contexto, uma vez que a glicólise, que ocorre simultaneamente com
à síntese de ácidos gordos no citosol, requer um baixo rácio NADH/NAD+ para permitir a oxidação do
gliceraldeído-3-fosfato a 1,3-bifosfoglicerato, uma reação dependente de NAD+, catalisada pela
gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase (ver Secção 6.1). Assim, rácios NADPH/NADP+ elevados e
NADH/NAD+ baixos permitem que a reação oxidativa da glicólise ocorra ao mesmo tempo e no mesmo
compartimento celular que a reação redutora da síntese de ácidos gordos. É interessante notar que o
grupo fosfato no NADPH/NADP+ não interfere com a reação de redução-oxidação em si mesma.
Apenas garante especificidade para o reconhecimento da enzima (ver Secção 5.5).
A acetil-CoA, para além de ser o substrato imediato para a síntese de ácidos gordos (tanto como
substrato para a ACC, gerando malonil-CoA, e como dadora da primeira unidade de acetil transferida
para a FAS KS), é também o precursor para a síntese de colesterol (Caixa 8.8). As moléculas
precursoras de acetil-CoA usadas para estes processos biossintéticos são maioritariamente os
hidratos de carbono ingeridos, como será discutido no tópico seguinte.
235 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Fig. 8.15 (a) Representação esquemática da síntese dos ácidos gordos, começando com a transferência dos
grupos acetil e malonil das moléculas de acetil-CoA e malonil-CoA para os grupos SH dos domínios KS e ACP,
respetivamente. A atividade da KS condensa os grupos acetil e malonil, gerando β-cetobutiril ligado à ACP, que é
sequencialmente reduzida, desidratada, e reduzida, pela ação das KR, DH, e ER, respetivamente. Nas reações de
redução, a molécula dadora de eletrões é o NADPH. Estas séries de reações geram um grupo butiril ligado à ACP,
que é transferido para o grupo SH da KS, fazendo com que a ACP fique livre para receber outro grupo malonil da
malonil-CoA, o que permite o começo da segunda ronda da síntese dos ácidos gordos. (b) Após sete ciclos
começados pela transferência do malonil para a ACP, o palmitato é libertado pela atividade da TE. (c) Distribuição
dos ácidos gordos de cadeia longa 14C sintetizados em preparação de fígado de pombo incubada com acetato-
14C, depois de separação pelo sistema de cromatografia em papel (Reproduzido de Porter & Tietz, BBA 25:41-50,

1957 com permissão da Elsevier), a experiência que mostrou que apenas quando o ácido gordo apenas é libertado
da enzima quando atinge 16 átomos de carbono. As atividades enzimáticas da FAS que ocorrem em cada passo
são mostradas nas caixas amarelas, com a respetiva posição realçada na estrutura do dímero
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 236

8.3.1.2 Origem da Acetil-CoA para a Síntese dos Ácidos Gordos


A síntese dos ácidos gordos ocorre maioritariamente no fígado e tecido adiposo, devido à elevada
expressão de ACC1 e FAZ nas células hepáticas e adiposas. Em ambos os tecidos, o uso de glicose
aumenta quando a glicémia sobe, tanto pelas propriedades cinéticas do GLUT2/GK no fígado (ver Sec.
8.1) ou pela entrada de glicose insulinodependente nas células adiposas (ver Sec. 8.4.3).

Caixa 8.8: Biossíntese do Colesterol


O colesterol é um esteroide de 27 carbonos com um papel-chave no metabolismo. É um
componente estrutural essencial nas membranas das células animais, modelando a sua fluidez
e permeabilidade (ver Sec. 3.1), e é também um precursor das hormonas esteroides, ácidos
biliares, e vitamina D. A síntese do colesterol é muito complexa (ver figura) e pode ser
didaticamente dividida em três partes. Na primeira fase, três unidades de acetil são usadas para
sintetizar o isopentenil pirofosfato, que atua como o bloco construtor da síntese do colesterol.
Esta fase inclui o passo-chave na regulação do processo, a formação de 3-hidroxil-3-metilglutaril-
CoA a partir de acetil-CoA e acetoacetil-CoA, catalisada pela enzima 3-hidroxil-3-metilglutaril-CoA
redutase. Na segunda fase, seis moléculas de isopentenil pirofosfato são condensadas para
formar esqualeno, um isoprenoide de 30 carbonos. Na terceira fase, o esqualeno cicliza para
formar uma estrutura tetracíclica, que se rearranja para formar lanosterol. O lanosterol é, então,
convertido em colesterol através de 19 reações, catalisadas pelas enzimas associadas à
membrana do retículo endoplasmático, incluindo alguns membros da superfamília do citocromo
P450 (ver Caixa 8.9).

Biossíntese do colesterol com as transformações moleculares mostradas à direita e as reações retratadas


à esquerda. Os nomes das enzimas estão dentro das caixas amarelas, com alguns inibidores indicados.
Figura reproduzida a partir de Goodsell DS. The machinery of life. Springer, New York, 2009

À medida que a glicólise se procede e o piruvato é completamente oxidado no ciclo TCA, os NADH
e FADH2 resultantes alimentam a cadeia transportadora de eletrões, cuja atividade culmina na síntese
de ATP, através da fosforilação oxidativa (ver Cap. 6) (Fig. 8.16). Quando o rácio ATP/ADP é elevado, a
237 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

síntese de ATP decresce devido à falta de ADP, resultando na acumulação de transportadores de


eletrões reduzidos (NADH e FADH2) na matriz mitocondrial. Isto leva à inibição das desidrogenases do
ciclo TCA, que dependem dos transportadores de eletrões oxidados (NAD+ e FAD) para atuar. A
consequência final desta situação é a acumulação de citrato, que deixa a mitocôndria através do
transportador de citrato (Fig. 8.16).
No citosol, o citrato é quebrado em acetil-CoA e oxaloacetato, através de uma reação dependente
de ATP catalisada pela citrato liase. Esta molécula de acetil-CoA é, então, usada como substrato para
a síntese de ácidos gordos.

Fig. 8.16 Representação esquemática da transformação da glicose em ácidos gordos no fígado e no tecido
adiposo. A oxidação completa da glicose resulta em NADH e FADH2 que alimentam a cadeia transportadora de
eletrões, cuja atividade gera ATP. Quando o rácio ATP/ADP é elevado, a síntese de ATP decresce devido à falta de
ADP, resultando na acumulação de NADH e FADH2 na matriz mitocondrial, inibindo as desidrogenases do ciclo
TCA, que dependem do NAD+ e do FAD para atuar, o que leva à acumulação de citrato. O citrato abandona a
mitocôndria, sendo quebrado em acetil-CoA e oxaloacetato pela citrato liase no citosol. O acetil-CoA é usado na
síntese de ácidos gordos o oxaloacetato é convertido em malato, com oxidação concomitante de NADH a NAD +,
favorecendo a glicólise, que requer NAD+ para a reação da gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase. O malato pode
entrar na mitocôndria, onde regenera oxaloacetato, ou pode ser convertido em piruvato, pela enzima málica, numa
reação que gera parte do NADPH necessário para a síntese dos ácidos gordos. Os nomes das enzimas estão
realçados nas caixas amarelas
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 238

O oxaloacetato não regressa diretamente à mitocôndria devido à falta de um transportador na


membrana mitocondrial. Assim, é primeiramente convertido pela malato desidrogenase citosólica em
malato, que entra na mitocôndria, onde regenera o oxaloacetato. A reação da malato desidrogenase é
também importante para reoxidar o NADH produzido na glicólise (na reação catalisada pela
gliceraldeído desidrogenase; ver Secção. 6.1.3), permitindo a manutenção de um rácio NAD+/NADH
elevado no citosol, necessário para a via glicolítia se proceder (Fig. 8.16).
Alternativamente, o malato pode ser convertido em piruvato, pela enzima málica, numa reação que
usa NADP+ como recetor de eletrões, gerando parte do NADPH necessário para a síntese de ácidos
gordos (Fig. 8.16).

8.3.1.3 Origem do NADPH para a Síntese de Ácidos Gordos


A maior parte do NADPH usado na síntese de ácidos gordos é fornecido pela via das pentoses-fosfato,
uma via alternativa que oxida glicose-6-fosfato (ver também a Caixa 8.9).
A primeira evidência de uma via oxidativa que convertesse glicose-6-fosfatos numa pentose-fosfato
foi demostrada em leveduras, na década de 1930, pelos estudos pioneiros de Otto Warburg, que
também mostrou que esta via era dependente de uma coenzima diferente daquela que era requerida
na glicólise (nomeada por Warburg naquela altura como TPN, de nucleótido trifosfopiridina, hoje
conhecida como NADPH). Os trabalhos posteriores de Frank Dickens vieram provar que esta via ocorria
em vários tecidos animais e se procedia independentemente da rota glicolítica, já que elevadas
concentrações de inibidores glicolíticos, como iodoacetamida, não tinham efeitos na sua atividade.
A via das pentoses-fosfato pode ser dividida em duas fases: (a) uma fase oxidativa, em que a
glicose-6-fosfato é convertida numa pentose-fosfato, com dois passos de oxidação dependentes de
NADP+, sendo o último acoplado a uma reação de descarboxilação, e (b) uma fase não-oxidativa, em
que os esqueletos de carbono das pentoses-fosfato são rearranjados para gerar intermediários da via
glicolítica, frutose-6-fosfato e gliceraldeído-3-fosfato. Uma representação esquemática destas duas
fases é mostrada na Fig. 8.17.

Fig. 8.17 Representação esquemática das duas fases da via das pentoses-fosfato e as suas relações com a
glicólise
239 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

A fase oxidativa começa com a oxidação da glicose-6-fosfato em 6-fosfogliconolactona, numa


reação catalisada pela glicose-6-fosfato desidrogenase, na qual o NADP+ é o recetor de eletrões,
gerando NADPH. Depois, uma reação de hidrólise forma 6-fosfogliconato que passa por uma oxidação
dependente de NADP+ e uma descarboxilação, catalisada por 6-fosfogliconato desidrogenase, que
forma ribulose-5-fosfato e uma segunda molécula de NADPH (Fig. 8.18).

Caixa 8.9: Outras Funções da Via das Pentoses-Fosfato


Além de produzir o poder redutor na forma de NADPH para os processos biossintéticos, a via
das pentoses-fosfato têm outros papéis importantes no metabolismo humano. Em células com
um ritmo de divisão elevado, como as da medula óssea, pele e da mucosa intestinal, a glicose-6-
fosfato segue a fase oxidativa da via das pentoses-fosfato, gerando ribose-5-fosfato, que é usada
na síntese de nucleótidos e ácidos nucleicos, bem como NADH, FADH 2 e coenzima A (ver a figura
do topo). Outro papel importante do NADPH produzido na via das pentoses-fosfato é prevenir o
dano oxidativo. Este é o caso dos eritrócitos, que estão diretamente expostos ao oxigénio e são
altamente dependentes da redução da glutationa como mecanismo protetor contra o stress
oxidativo (ver a figura do meio). A glutationa é um tripéptido composto por Glu, Cys e Gly que
está presente numa concentração intracelular elevada (~5 mM). O grupo sulfidril do resíduo Cys
atua como agente redutor, que é oxidado com formação de uma ponte dissulfeto que liga duas
moléculas de glutationa (representada como GSSG), prevenindo o dano oxidativo nas moléculas
celulares. A glutationa é convertida de volta na sua forma reduzida (GSH) pela enzima glutationa
redutase, numa reação dependente de NADPH. Assim, para manter a glutationa na sua forma
reduzida, os eritrócitos estão altamente dependentes da via das pentoses-fosfato para gerar
NADPH. Adicionalmente, a metabolização de vários medicamentos e outros químicos tóxicos,
bem como de componentes endógenos, tal como lípidos e hormonas esteroides, é efetuada pela
família de enzimas que usa o NADPH produzido na via das pentoses-fosfato como dador de
eletrões. Estas enzimas são monooxigenases que contêm heme, conhecidas por citocromos
P450 (abreviados como CYP). Os CYPs catalisam a hidroxilação de substratos orgânicos,
usando um átomo de oxigénio proveniente de O2 e eletrões de duas moléculas de NADPH (ver a
figura de baixo), numa reação que envolve o átomo de ferro do grupo heme da enzima (ver o ciclo
completo na Fig. 2.6). No genoma humano, foram encontrados 57 genes que codificam enzimas
citocromo P450. A maior parte deles são expressos no fígado, onde os CYPs têm papéis cruciais
na metabolização dos medicamentos e na desintoxicação, mas estas enzimas também são
encontradas em tecidos extra-hepáticos, onde a sua função principal é processar substratos
endógenos, como esteroides e vitaminas. A maior parte dos CYPs estão localizados nas
membranas do retículo endoplasmático, mas também foram encontradas isoformas
mitocondriais, especialmente aquelas envolvidas no processamento das hormonas esteroides
nas glândulas suprarrenais.
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 240

Papéis da via das pentoses-fosfato no fornecimento de ribose-5-fosfato para a síntese de nucleótidos em


células em divisão (topo), de NADPH para a reação da glutationa redutase que protege os eritrócitos contra
o dano oxidativo (meio), e o ciclo de reação do citocromo P450 responsável pela metabolização dos
medicamentos e substratos endógenos no fígado (base).
241 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Fig. 8.18 Reações da via das pentoses-fosfato. Na fase oxidativa, a oxidação dependente de NADP+ da glicose-6-
fosfato gera NADPH e 6-fosfogliconolactona, que é hidrolisada em 6-fosfogliconato, que por sua vez passa por
uma descarboxilação oxidativa, gerando CO2, NADPH e ribulose-5-fosfato. A ribulose-5-fosfato pode ser
isomerizada ou epimerizada em ribose-5-fosfato ou em xilulose-5-fosfato, respetivamente, que seguem a fase não-
oxidativa em que fragmentos de dois ou três carbonos são permutados para finalmente formarem frutose-6-
fosfato e gliceraldeído-3-fosfato. A estequiometria da reação é mostrada na caixa. Os nomes das enzimas são
mostrados nas caixas amarelas

A ribulose-5-fosfato pode ser convertida no seu isómero ribose-5-fosfato pela enzima fosfopentose
isomerase ou pode ser epimerizada em xilulose-5-fosfato, numa reação catalisada pela pentose-5-
fosfato epimerase. A ribose-5-fosfato e a xilulose-5-fosfato seguem ambas a fase não-oxidativa da via
das pentoses-fosfato (Fig. 8.18). Importa notar que se a ribose-5-fosfato for requerida, por exemplo,
para a síntese de nucleótidos, a via das pentoses-fosfato termina neste ponto.
A fase não-oxidativa compreende dois tipos de reações: (a) a transferência de um fragmento de dois
carbonos de um dador cetose para um aceitador aldose, catalisada pela enzima transcetolase, e (b) a
transferência de um fragmento de três carbonos também de um dador cetose para um aceitador
aldose, catalisada pela enzima transaldolase.
A transcetolase primeiro transfere um fragmento de dois carbonos da xilulose-5-fosfato para a
ribose-5-fosfato, formando um produto de sete carbonos sedoheptulose-7-fosfato e gliceraldeído-3-
fosfato. Depois, a transaldolase transfere um fragmento de três carbonos da sedoheptulose-7-fosfato
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 242

para o gliceraldeído-3-fosfato, formando frutose-6-fosfato e eritrose-4-fosfato. Finalmente, a


transcetolase transfere o fragmento de dois carbonos de outra xilulose-5-fosfato, desta vez para a
eritrose-4-fosfato, formando frutose-6-fosfato e gliceraldeído-3-fosfato, que pode regressar à via
glicolítica (Fig. 8.18).

8.3.1.4 Regulação da Síntese de Ácidos Gordos


A reação da ACC é o principal ponto de controlo da síntese de ácidos gordos. Ambas as isoformas da
ACC são alostericamente reguladas de um modo similar, sendo ativadas pelo citrato e inibidas pelo
acil-CoA gordo saturado de cadeia longa.
Na presença de citrato, a ACC polimeriza em longos filamentos, que consistem na forma ativa da
enzima.
O citrato é, de facto, um sinal importante para o armazenamento de nutrientes. O aumento da sua
concentração no citosol é o resultado da inibição das desidrogenases do ciclo TCA, que ocorre devido

Fig. 8.19 Papel do citrato citosólico na regulação das vias metabólicas. Como consequência do elevado rácio
ATP/ADP provocado pela disponibilidade de nutrientes, o NADH e o FADH2 acumulam-se na matriz mitocondrial,
inibindo as desidrogenases do ciclo TCA e levando à acumulação de citrato. O citrato abandona a mitocôndria,
onde atua como ativador alostérico da ACC, induzindo a sua polimerização para a forma polimérica ativa.
Adicionalmente, o citrato atua como inibidor alostérico da PFK1, fazendo decrescer o fluxo glicolítico e permitindo
que a glicose-6-fosfato seja usada na síntese de glicogénio ou que seja oxidada na via das pentoses-fosfato,
gerando NADPH para a síntese de ácidos gordos
243 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

ao elevado rácio ATP/ADP que, por sua vez, é uma consequência da elevada disponibilidade de glicose
(ver secção anterior). Para além de ativar a ACC e, assim, favorecer o armazenamento de carbonos
provenientes de carboidratos ingeridos na forma de lípidos, o citrato também atua como um inibidor
alostérico da enzima glicolítica fosfofrutocinase 1 (PFK1), fazendo decrescer o fluxo glicolítico e
permitindo que parte da glicose-6-fosfato seja incorporada em glicogénio ou metabolizada através da
via das pentoses-fosfato, que produz NADPH para a síntese de ácidos gordos (ver a secção anterior)
(Fig. 8.19).
Importa notar que os produtos da fase não-oxidativa da via das pentoses-fosfato, frutose-6-fosfato
e gliceraldeído-3-fosfato, podem voltar à via glicolítica, mantendo o fluxo de carbono na direção da
síntese de ácidos gordos, até mesmo com uma diminuição da atividade da PFK1 (Fig. 8.19).
A ACC também é regulada pela fosforilação/desfosforilação. A fosforilação leva à dissociação da
ACC em monómeros e perda de atividade, ambas despoletadas por hormonas (mediadas pela PKA, ver
Caps. 9 e 10 para detalhes desta via de sinalização) ou pelas alterações na carga energética celular
(mediadas pela proteína cinase ativada por AMP, AMPK, ver Cap. 10 para detalhes sobre esta cinase).
A insulina medeia a desfosforilação da ACC, permitindo a polimerização induzida por citrato.
A PKA fosforila a isoforma ACC1 na Ser1200. Assim, quando o efeito da glicagina (em hipoglicémia;
ver Cap. 9) ou da adrenalina (durante atividade física intensa ou stress; ver Cap.10) predominam, a
ACC1 é fosforilada e, consequentemente, inibida. Isto resulta no bloqueamento da síntese dos ácidos
gordos, o principal destino do malonil-CoA produzido por esta isoforma da ACC.
A AMPK fosforila a isoforma ACC1na Ser80 e Ser81 e a isoforma ACC2 na Ser219 e Ser220. Assim,
o decréscimo da carga energética celular, que indica que os nutrientes não estão em excesso, leva à
inibição da formação de malonil-CoA pela ACC1, cujo destino é o armazenamento de ácidos gordos,
bem como a formação de malonil-CoA pela ACC2, cujo decréscimo na concentração citosólica cessa
a inibição do sistema de transporte (shuttle) carnitina/palmitoil (ver Sec. 7.4.3), permitindo o transporte
de moléculas de acil-CoA gordo para a mitocôndria, onde são oxidadas.
A síntese de ácidos gordos também é regulada ao nível da expressão génica, tanto pelos
componentes da dieta, como pelas hormonas. Uma dieta rica em carboidratos induz a transcrição de
ACC1, ACC2 e FAS. Adicionalmente, a insulina regula por upregulation o promotor do ACC1, enquanto
que a glicagina o regula por downregulation. Assim, uma elevada ingestão de carboidratos, diretamente
ou indiretamente (através da ação da insulina) induz a expressão das enzimas da via da síntese de
ácidos gordos, levando à acumulação de lípidos.

A maior parte dos ácidos gordos sintetizados no organismo são incorporados em triacilglicerídeos, que
são ésteres de acil gordo de glicerol (ver Sec. 3.1). Para formar a molécula de triacilglicerol, os ácidos
gordos são primeiramente esterificados com a coenzima A numa reação catalisada pela acil-CoA gordo
sintetase (Fig. 8.20), a mesma enzima que ativa os ácidos gordos para sofrerem -oxidação (ver Sec.
7.4.4).
Importa notar que a acil-CoA gordo sintetase não discrimina os ácidos gordos no citosol vindos da
síntese ou da mobilização do tecido adiposo, reforçando a importância dos mecanismos reguladores
desencadeados pela situação fisiológica, tal como o efeito inibidor do malonil-CoA na CPT1 (ver Sec.
8.3.1), que evita a oxidação dos ácidos gordos recém-sintetizados, prejudicando o seu transporte para
a matriz mitocondrial. Assim, após a síntese do palmitato ou de outros ácidos gordos, o primeiro passo
da síntese de triacilgliceróis é a sua conversão em acil-CoA gordo (Fig. 8.20).
A parte glicerol da molécula de triacilglicerol vem do glicerol-3-fosfato, que é formado a partir da di-
hidroxiacetona-fosfato, um composto intermediário da glicólise, numa reação dependente de NADH,
catalisada pela glicerol-3-fosfato desidrogenase. As células do fígado também têm a enzima glicerol
cinase, que catalisa a formação do glicerol-3-fosfato a partir de glicerol (Fig. 8.20).
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 244

Fig. 8.20 Representação esquemática da síntese de triacilgliceróis no fígado e no tecido adiposo. Os ácidos gordos
são sintetizados em ambos os tecidos a partir do excesso de glicose. Para serem incorporados na molécula de
triacilglicerol, a principal reserva de energia humana, os ácidos gordos são primeiramente esterificados com a
coenzima A pela acil-CoA gordo sintetase. Parte das moléculas de di-hidroxiacetona-fosfato (DHAP) formadas na
glicólise podem ser usadas para gerar glicerol-3-fosfato (glicerol-3P), numa reação catalisada pela glicerol-3P
desidrogenase. No fígado, o glicerol-3P também pode ser formado pela fosforilação do glicerol pela glicerol cinase.
Os grupos acil de duas moléculas de acil-CoA gordo são transferidos para cada um dos grupos hidroxilo livres de
uma molécula de glicerol-3P, gerando o ácido fosfatídico. Depois, o grupo fosfato da molécula de ácido fosfatídico
é hidroxilado e um grupo acilo gordo de outro acil-CoA gordo é transferido para o grupo hidroxilo resultante da
molécula de diacilglicerol (DAG) formada, gerando uma molécula de triacilglicerol (TAG). No tecido adiposo, os
TAGs são diretamente armazenados nas gotas lipídicas (LP, do inglês, lipid droplets). As moléculas de TAG
sintetizadas no fígado são incorporadas nas VLDL para serem transportadas para o tecido adiposo. Depois de
entregarem os TAGs no tecido adiposo, as VLDL tornam-se em IDL, que regressam ao fígado

Os dois grupos hidroxilo livres do glicerol-3-fosfato são primeiramente acilados por duas moléculas
de acil-CoA gordo, numa reação catalisada pela acil transferase, produzindo diacilglicerol-3-fosfato,
também chamado de ácido fosfatídico. O grupo fosfato do ácido fosfatídico é depois hidrolisado pela
ácido fosfatídico fosfatase para formar 1,2-diacilglicerol, que é esterificado com um terceiro acil-CoA
gordo para formar a molécula de triacilglicerol.
Quando sintetizados nos adipócitos, os triacilgliceróis são diretamente armazenados nas gotas
lipídicas dentro destas células (Fig. 8.20).
Os triacilgliceróis sintetizados no fígado têm de ser transportados para o tecido adiposo para serem
armazenados, o que não é uma tarefa trivial devido à sua solubilidade extremamente baixa em
ambiente aquoso do sangue. Para ultrapassar esta barreira, eles são incorporados nas lipoproteínas
de muito baixa densidade (VLDL, do inglês, very low-density lipoprotein), que viajam pela corrente
sanguínea do fígado para o tecido adiposo, onde entregam parte do conteúdo lipídico, convertendo-se
em lipoproteínas de densidade intermédia (IDL, do inglês, intermediate-density lipoprotein) (Fig. 8.20).
As IDL regressam ao fígado ou são convertidas em LDL (ver detalhes sobre a estrutura das
lipoproteínas na Sec. 3.1.2).
245 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

8.4 Respostas Hormonais à Hiperglicemia: o Papel da Insulina


A principal resposta hormonal à hiperglicemia é a secreção de insulina, cujo efeito global imediato é
reduzir a concentração de glicose no sangue. A perda dos efeitos mediados pela insulina resulta numa
incapacidade de controlar a glicémia, o que caracteriza a doença conhecida por diabetes mellitus.
O papel da insulina na redução da glicémia pode ser ilustrado comparando o resultado do teste de
tolerância oral à glicose entre sujeitos não-diabéticos e diabéticos (Fig. 8.21). Enquanto que em sujeitos
não-diabéticos a glicémia recupera rapidamente os níveis basais devido à ação da insulina, os sujeitos
diabéticos experienciam elevada glicémia durante um longo período depois da ingestão de glicose.
Nesta secção, vamos discutir como é que a insulina, através de uma cascata de sinalização
complexa, controla o metabolismo em diferentes tecidos, promovendo um uso rápido da glicose, o que
resulta numa redução da sua concentração na corrente sanguínea. As principais respostas à insulina
serão descritas em detalhe, incluindo (a) captação de glicose nos tecidos muscular e adiposo, (b)
utilização de glicose como fonte de energia por todas as células do organismo, (c) armazenamento de
glicose na forma de glicogénio no músculo e fígado, (d) conversão de glucose em lípidos de reserva no
fígado e tecido adiposo e (e) inibição da produção de glicose através da gliconeogénese e glicogenólise
no fígado. É importante ter em mente que, para além destes efeitos metabólicos, a insulina controla
vários outros processos biológicos, incluindo o crescimento e diferenciação, que não estarão em foco
deste capítulo.

Fig. 8.21 Comparação dos resultados do teste da tolerância à glicose entre um sujeito diabético e outro não-
diabético. Neste teste, uma solução com uma elevada concentração de glicose é ingerida e, posteriormente, são
colhidas amostras de sangue para determinar quão rapidamente a glicose é removida do sangue

Até ao princípio do século XX, a deficiência de insulina, que é conhecida como diabetes tipo I, era uma
doença devastadora. O impacte da descoberta da insulina pode ser percebido ao ler a introdução do
livro de Michael Bliss, na qual afirma que a descoberta da insulina foi “um dos eventos mais
impressionantes na história do tratamento da doença ... e os que viram os primeiros diabéticos,
esfomeados, alguns em estado de coma, a receber insulina e a regressaram à vida assistiram a um dos
verdadeiros milagres da medicina moderna, ... a aproximação mais semelhante da ressurreição do
corpo... o elixir da vida para milhões de pessoas por todo o mundo” (Bliss M. The discovery of insulin.
University of Chicago Press, 1982).
A história da descoberta da insulina é, de facto, extraordinária. Na década de 1880, Josef von Mering
e Oskar Minkowski mostraram que a pancreatectomia total em animais experimentais, normalmente
cães, resultava no desenvolvimento de hiperglicemia aguda e glicosúria, levando à morte dos cães pela
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 246

diabetes severa. Isto levantou a possibilidade de que o metabolismo da glicose era promovido por uma
“secreção interna” produzida pelo pâncreas (em oposição às enzimas digestivas secretadas pelo
pâncreas para o intestino – a “secreção externa”). Durante mais de 30 anos, diversos investigadores
tentaram isolar esta substância, que já fora, entretanto, nomeada de insulina devido à especulação de
que era produzida pelas ilhotas de Langerhans, mas todos os esforços foram em vão, provavelmente
devido à sua digestão proteolítica pelas enzimas pancreáticas. O ponto de viragem nesta história
ocorreu quando Frederick G. Banting, um jovem cirurgião, intuiu, enquanto estudava a função
pancreática para preparar uma palestra, que a laqueação dos ductos pancreáticos iriam permitir o
isolamento da secreção pancreática interna livre de proteólise.
Em 1921, Banting, juntamente com o estudante de Medicina Charles H. Best, com o apoio de John
J. K. Macleod, um cientista Canadiano importante no campo do metabolismo dos carboidratos,
realizaram experiências decisivas que definitivamente demonstraram que uma substância secretada
pelas ilhotas pancreáticas de Langerhans era capaz de baixar os níveis plásmicos de glicose de cães
diabéticos. Em apenas um ano, esta substância foi (a) isolada e testada em cães; (b) purificada por
James Bertram Collip, que se juntou ao grupo para fazer a preparação adequada para ser injetada em
humanos; e (c) utilizada com sucesso no primeiro paciente, Leonard Thompson, um rapaz de 14 anos
de idade, que recuperou de um estado de diabetes severa. No mesmo ano, a preparação foi usada para
tratar outros voluntários diabéticos. Em 1923, apenas 2 anos depois de Banting idealizar as primerias
experiências, Banting e Macleod foram galardoados com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina,
numa cerimónia controversa, na qual Banting anunciou que iria partilhar a sua metade do prémio com
Best, o que levou Macleod a anunciar que iria partilhar a sua metade do prémio com Collip.

A insulina é uma pequena proteína cuja forma madura é composta por duas cadeias polipeptídicas (A
e B) ligadas por pontes dissulfeto (Fig. 8.22; ver também Sec. 3.3.1). É sintetizada como um polipéptido
único chamado de pré-pró-insulina. A sua sequência N-terminal, que consiste num péptido de
sinalização, é clivado assim que o polipéptido é translocado para o RE. Esta clivagem proteolítica induz
a formação de três ligações dissulfeto, produzindo a pró-insulina, que é transportada para a rede trans-
Golgi. A ação das pró-hormonas convertases, endopeptidases que hidrolisam um segmento interno da
pró-insulina, chamado péptido C, tal como a carboxipeptidase E, gera a insulina madura. A insulina é
empacotada dentro de grânulos intracelulares que são secretados por exocitose, juntamente com o
péptido C, sob estimulação (ver abaixo).
A secreção de insulina é dependente do metabolismo energético das células . Tal como discutido
na Sec. 8.1, a utilização da glicose pelas células  ocorre em paralelo com a subida da glicémia, devido
aos valores elevados de KM do GLUT2 e da glicocinase. Assim, o aumento da concentração de glicose
no sangue é seguido por um aumento no rácio ATP/ADP dentro das células  (Fig. 8.22).
247 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Fig. 8.22 Representação esquemática de uma ilhota de Langerhans, mostrando a localização das células  (à
esquerda) e o mecanismo de secreção de insulina em detalhe (à direita). O aumento dos níveis de ATP nas células
, devido ao aumento da assimilação e metabolização de glicose, inibe os canais de K+ sensíveis ao ATP, levando
à despolarização da membrana e à libertação de Ca2+ do RE e absorção do meio extracelular. A elevada
concentração citosólica de Ca2+ estimula a via de secreção, resultando na libertação de insulina das células . A
insulina madura é formada pelo processamento proteolítico da pré-pró-insulina (em baixo). Primeiro, a pré-pró-
insulina é convertida em pró-insulina pela clivagem do seu péptido de sinalização da N-terminal, o que leva à
formação de três ligações dissulfeto. Depois, a insulina madura é formada pela remoção do segmento do péptido
C através da ação das pró-hormonas convertases

A elevada concentração intracelular de ATP inibe os canais de K+ sensíveis ao ATP da membrana


plasmática das células , resultando na retenção de K+ dentro da célula. A elevação da concentração
intracelular de K+ leva à despolarização da membrana, o que favorece a abertura dos canais de Ca 2+
dependentes de voltagem, permitindo o aumento da concentração citosólica de Ca2+, o que ativa a via
de secreção, levando à libertação de insulina das células  (Fig. 8.22). É importante ter em mente que
a preexistência de vesículas intracelulares carregadas de insulina permite uma secreção muito rápida
de insulina, sob estimulação.
O mecanismo de ação da insulina nas suas células-alvo é complexo e inicia-se com a insulina a ligar-
se ao seu recetor na superfície da célula. O recetor de insulina é expresso em praticamente todas as
células, mas as diferenças nos componentes da via intracelular de sinalização, bem como a presença
ou não de enzimas-alvo ou das suas isoformas específicas resulta em efeitos distintos da insulina em
cada tecido.
O recetor de insulina é uma proteína tetramérica composta por duas subunidades  extracelulares,
que contêm o local de ligação da insulina, e por duas subunidades  transmembranares, que exibem
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 248

uma atividade intrínseca de tirosina cinase (Fig. 8.23). A ligação da insulina à subunidade  promove
uma alteração de estrutura que é transmitida à subunidade , causando a sua autofosforilação e
ativação. A subunidade  fosforilada recruta e fosforila uma família de proteínas conhecida por
substratos do recetor de insulina (IRS, do inglês, insulin receptor substrates), o que conecta a ativação
do recetor de insulina com as vias de sinalização subsequentes (ver Caixa 8.10), regulando uma ampla
gama de funções fisiológicas.
Apesar de muito complexos, os efeitos mediados pela insulina na função celular podem ser
sumarizados numa via dupla simplificada: (a) a via mediada pela fosfatidilinositol 3-cinase (PI3K, do
inglês, phosphatidylinositide 3-kinase), que controla o metabolismo, e (b) a via mediada pelas proteínas
cinases ativadas por mitogénios (MAPK, do inglês, mitogen-activated protein kinases), que regula a
expressão génica e a proliferação celular (Fig. 8.23). A via mediada pelas MAPK não irá ser discutida
neste livro.

Fig. 8.23 Panorama geral da via de sinalização da insulina. O recetor de insulina é composto por subunidades ,
que contêm o local de ligação da insulina, e por subunidades , que exibem uma atividade intrínseca de tirosina
cinase responsável pela autofosforilação do recetor. As subunidades  fosforiladas recrutam e fosforilam os
substratos do recetor de insulina (IRS), que medeiam as duas principais vias nas células-alvo, uma que resulta na
regulação da expressão génica e outro que modifica a atividade das enzimas metabólicas. Os efeitos metabólicos
são mediados pelo recrutamento de p85, a subunidade reguladora da PI3K, que liga e ativa a subunidade catalítica
p110 da PI3K. A PI3K ativa fosforila o fosfatidilinositol 4,5-bifosfato (PIP2) da membrana plasmática na posição 3
do anel inositol, gerando fosfatidilinositol 3,4,5-trifosfato (PIP3), que medeia vários efeitos metabólicos da ação da
insulina. As alterações ao nível da expressão génica são maioritariamente mediadas pela ativação das proteínas
cinases ativadas por mitogénios (MAPK). A proteína Grb2 associa-se ao recetor fosforilado e recruta a proteína
Sos, que por sua vez ativa a Ras, que ativa a Raf. A Raf é uma proteína cinase que fosforila e ativa outra proteína
cinase, a MEK, que, por sua vez, fosforila e ativa a MAPK
249 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

Caixa 8.10: Proteínas IRS, Proteínas Adaptadoras na Sinalização da Insulina


As proteínas IRS não têm atividade enzimática, mas desempenham um papel-chave na conexão
da ativação do recetor de insulina às enzimas subsequentes que regulam diversas funções
celulares. As proteínas IRS são caracterizadas por três elementos estruturais principais, o que
lhes permitem transmitir o sinal da insulina. A extremidade N-terminal dobra-se em dois domínios
conservados: um domínio “pleckstrin homology” (PH), que contém resíduos básicos
conservados que permitem a interação com os fosfolípidos aniónicos, recrutando a proteína para
a membrana celular, e um domínio com ligação à fosfotirosina (PTB, do inglês, phosphotyrosine-
binding), através do qual a proteína interage com o recetor de insulina fosforilado (ver figura).
O C-terminus contém vários motivos Tyr de fosforilação que, quando fosforilados, são locais
de ligação para as enzimas ou proteínas que contêm outro tipo de domínio de interação proteína-
proteína, os domínios “Src homology 2” (SH2). As proteínas SH2, por sua vez, frequentemente,
possuem domínios SH3 que reconhecem os motivos fosforilados noutras proteínas
intracelulares, levando à transdução subsequente do sinal.

A habilidade do domínio PH para interagir com os fosfolípidos não só facilita a ligação das
proteínas IRS ao recetor de insulina, mas também permitem o recrutamento de fosfatidilinositol
3-cinase (PI3K), uma enzima SH2, para a membrana plasmática, onde o seu substrato, o
fosfatidilinositol 4,5-bifosfato (PIP2), está localizado (ver Sec. 8.4.3). Adicionalmente, a
extremidade C-terminal também contém regiões ricas em Ser/Thr que podem ser reconhecidas
pelas cinases que atuam como reguladores negativos da ação da insulina (ver Sec. 11.3.1).

Os efeitos da insulina no metabolismo são maioritariamente mediados pela PI3K, uma enzima
composta por duas subunidades, uma subunidade reguladora p85 e uma subunidade catalítica p110.
Quando a p85 se liga à Tyr-fosforilada IRS, recruta e ativa a subunidade catalítica, que fosforila o
fosfatidilinositol 4,5-bifosfato (PIP2) na posição 3 do anel de inositol, gerando fosfatidilinositol 3,4,5-
trifosfato (PIP3) (Fig. 8.23). O PIP3 recruta várias Ser/Thr cinases para a membrana plasmática,
incluindo a proteína cinase dependente de 3-fosfoinisitide (PDK, do inglês, 3-phosphoinisitide-dependent
protein kinase). Na membrana plasmática, a PDK fosforila e ativa outra Ser/Thr cinase, AKT (também
conhecida por proteína cinase B, PKB), que, por sua vez, fosforila várias proteínas-alvo, como GSK3,
levando à ativação da síntese de glicogénio (ver Sec. 8.2.4), e AS160, levando ao aumento da
assimilação de glicose através do GLUT4 no músculo e tecido adiposo (ver a próxima secção).
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 250

8.4.3.1 Efeitos da Insulina na Assimilação de Glicose pelo Músculo e Tecido Adiposo


No músculo e tecido adiposo, a glicose é transportada através da membrana plasmática pelo GLUT4.
Esta isoforma do GLUT não está constitutivamente presente na superfície da célula, mas permanece
sequestrada nas vesículas intracelulares até que a via de sinalização da insulina seja ativada (Fig. 8.24).
Assim, enquanto que a concentração da glicose no sangue é mantida nos níveis basais, estes tecidos
não conseguem assimilar glicose a partir da corrente sanguínea e os seus principais substratos
metabólicos são os ácidos gordos. No entanto, após uma refeição rica em carboidratos, quando a
glicose sanguínea sobe e a insulina é secretada, este quadro muda completamente. A ligação da
insulina ao seu recetor nas células do músculo e tecido adiposo desencadeia a sequência de eventos
descrita acima, levando à ativação da AKT (ou PKB). Um dos substratos da AKT é a proteína AS160 (do
inglês, AKT substrate 160), que regula negativamente a migração e fusão das vesículas intracelulares
com a membrana plasmática. A AS160 é inativada pela fosforilação mediada pela insulina, permitindo
assim a translocação das vesículas que contêm GLUT4 para a superfície celular (Fig. 8.24).

8.4.3.2 Efeitos da Insulina nas Vias Metabólicas


A sinalização da insulina transmitida através da ativação da PI3K altera a atividade de várias enzimas
em diferentes vias metabólicas.
O glicogénio é armazenado devido à ativação simultânea da sua síntese e à inibição da sua
degradação. Isto ocorre através dos efeitos combinados da fosforilação da GSK3 pela AKT, o que
resulta na sua inibição, e da ativação da PP1. A PP1 está ligada aos grânulos de glicogénio, onde
catalisa a desfosforilação da GS, promovendo a sua ativação, e também atua na GP e na fosforilase
cinase, levando à sua inativação (ver detalhes na Sec. 8.2.4). Assim, a GS é mantida ativa através da
sua desfosforilação pela PP1, juntamente com a inibição da sua fosforilação pela GSK3, levando à
síntese de glicogénio tanto no fígado como no músculo (Fig. 8.25).

Fig. 8.24 Diagrama esquemático da exposição do GLUT4 na superfície das células do músculo e tecido adiposo,
mediada pela insulina. A cascata de sinalização da insulina (descrita na Fig. 8.23) resulta na ativação da PDK, que
fosforila a AKT, levando à sua ativação. A AKT catalisa a fosforilação e inativação da AS 160, que regula
negativamente a translocação do GLUT4 para a superfície da célula
251 8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia…

A glicólise é estimulada no fígado devido à desfosforilação da enzima bifuncional fosfofrutocinase-


2/frutose-2,6-bifosfatase (PFK-2/F2,6-BPase, do inglês, phosphofructokinase-2/fructose-2,6-
bisphosphatase; ver Sec. 9.4.1 para detalhes), que resulta na ativação da PFK2 e na inibição da
F2,6BPase, levando a um grande aumento na concentração de frutose-2,6-bifosfato que, por sua vez,
ativa a PFK1 e inibe a frutose-1,6-bifosfatase, favorecendo a glicólise e parando a gliconeogénese (Fig.
8.25).
A síntese de ácidos gordos e triacilglicerol é estimulada pela insulina, cuja via de sinalização leva à
desfosforilação da ACC, permitindo as polimerização e ativação induzidas pelo citrato, tanto no fígado
como no tecido adiposo (Fig. 8.25). A regulação da expressão génica pela insulina também favorece a
biossíntese de lípidos, uma vez que induz a expressão do gene ACC.

8.5 Interação Metabólica na Resposta à Hiperglicemia


As respostas à hiperglicemia começam com o fígado e as células  a sentirem os níveis mais elevados
de glicose no sangue, através dos sensores GLUT2/GK (ver Sec. 8.1). As células  respondem ao
aumento da glicémia pela secreção de insulina, que atua nos tecidos e órgãos, estimulando a utilização
e armazenamento de glicose.

Fig. 8.25 Interação metabólica em hiperglicemia, mostrando as enzimas e as vias metabólicas reguladas em cada
célula

Nas células do fígado, a glicose sanguínea é internalizada pelo GLUT2 e convertida em glicose-6-
fosfato, que tem pelo menos quatro destinos diretos: (a) conversão em glicogénio (ver Sec. 8.2), (b)
degradação através da glicólise (ver Sec. 7.4), (c) metabolização através da via das pentoses-fosfato
(ver Sec. 8.3), ou (d) reconversão em glicose pela glicose-6-fosfatase. A ação da insulina nos
hepatócitos resulta num aumento da acumulação hepática de glicogénio e numa estimulação da
8 Respostas Metabólicas à Hiperglicemia… 252

glicólise com subsequente transformação da glicose em ácidos gordos, que são depois incorporados
nas moléculas de triacilglicerol. Os triacilgliceróis viajam pela corrente sanguínea após a sua
incorporação nas VLDL para alcançar o tecido adiposo, onde são armazenados (Fig. 8.25).
O GLUT4 é o principal transportador de glicose no músculo e tecido adiposo. Assim, a translocação
insulinodependente do GLUT4 para a superfície da célula resulta num grande aumento da entrada de
glicose nestas células. A ação da insulina também resulta numa mudança rápida na utilização de
glicose como principal substrato metabólico nestas células. Uma vez que o músculo e o tecido adiposo
representam, juntos, mais de 60% do peso corporal e contribuem com quase um terço do ritmo
metabólico basal do organismo (Tabela 8.2), a sua atividade metabólica nesta situação causa uma
remoção rápida de glicose da corrente sanguínea da corrente sanguínea com o seu armazenamento
na forma de glicogénio no músculo e de triacilglicerol no tecido adiposo (Fig. 8.25).

Tabela 8.2 Distribuição do peso e contribuição estimada dos diferentes órgãos e tecidos para o ritmo metabólico
basal

Tecido Massa (kg) % da massa corporal % do ritmo do metabolismo basal


Músculo 28 40 22
Tecido adiposo 15 21,4 4
Fígado 1,8 2,6 21
Cérebro 1,4 2,0 20
Coração 0,33 0,5 9
Rim 0,31 0,4 8
Outros (pele, intestino, 23,16 33,1 16
ossos, glândulas, etc.)
Total 70 100 100
Adaptado de Elia, Nutr. Res. Ver. 4:3-31, 1991, com permissão

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Regulação e Integração do Metabolismo Durante a
Hipoglicemia

Tradução: Gonçalo Correia e Catarina Cardoso


Revisão: Hugo Rafael e José Verdasca
(Páginas 305-340)

Nos seres humanos, a glicose sanguínea é o principal indicador dos estados de jejum e de pós-
alimentação. A sua concentração regula diretamente a secreção de hormonas, incluindo glicagina e
insulina pelo pâncreas e glucocorticoides pelo córtex da glândula suprarrenal. Estas hormonas, numa
ação coordenada, regulam o metabolismo energético em diferentes órgãos, permitindo que a
concentração sanguínea de glucose se mantenha dentro de um curto intervalo de valores através de
um sistema exato que contrabalança a produção de glucose pelo fígado e a sua utilização por tecidos
periféricos.
O fundamento para este papel importante da glucose em controlar o metabolismo humano pode ser
discutido no contexto da evolução humana. Há cerca de 4 milhões de anos, os glícidos eram
componentes importantes na dieta dos primatas e dos antepassados pré-humanos, o que
possivelmente favoreceu que o encéfalo e os tecidos reprodutivos desenvolvessem uma necessidade
específica para a glucose como o seu combustível primário. Os períodos subsequentes da evolução
humana foram dominados por períodos glaciares severos que selecionaram hominídeos que tivessem
desenvolvido habilidades de caça e pesca e que consumissem dietas ricas em proteína e pobres em
glícidos. Isto levou a adaptações metabólicas para proteger o encéfalo e os tecidos embrionários da
baixa disponibilidade de glucose, resultando num aumento da eficiência da produção hepática de
glicose e numa diminuição na utilização periférica de glicose. Além disso, a alternância entre períodos
de escassez e de abundância de comida selecionou mecanismos metabólicos que aumentassem a
deposição de reservas energéticas durante períodos de abundância para uso subsequente quando não
havia comida disponível, favorecendo a acumulação de lípidos e o desenvolvimento de tecido adiposo.
Contudo, a chegada da agricultura após a última Idade do Gelo modificou muito a quantidade de
glícidos consumidos por humanos, e a Revolução Industrial no século XIX mudou dramaticamente a
qualidade dos glícidos ingeridos (ver Caixa 9.1). Estes eventos levariam a um aumento da glicémia e
insulinémia pós-prandial, provavelmente contribuindo para a predisposição das doenças modernas
conhecidas como síndromes metabólicas (ver Capítulo 11).
Hoje em dia, nas culturas ocidentais, os humanos têm 3 refeições principais por dia e a quantidade
de glícidos numa refeição normal é cerca de 50-60%. Após a digestão e absorção dos glícidos, a glucose
chega à corrente sanguínea e a glicémia aumenta rapidamente do valor basal de 4 mM para à volta de
10 mM (ver Figura 8.2). No capítulo 8, discutimos os mecanismos bioquímicos que explicam o porquê
da concentração de glucose no plasma diminuir abruptamente entre a primeira e a segunda horas após
uma refeição.
Neste capítulo vamos voltar a nossa atenção para as horas subsequentes, que são caracterizadas
por uma diminuição lenta da glicémia. Vamo-nos focar nas vias metabólicas e nos mecanismos
envolvidos na manutenção da concentração de glucose sanguínea quando não há ingestão de glícidos,
o que inclui os períodos entre refeições, durante dietas pobres em glícidos ou em jejuns prolongados.
Além disso, as inter-relações metabólicas que acontecem em diferentes órgãos e a regulação hormonal
nesta situação também serão discutidas.

253
254 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

Caixa 9.1: A Evolução da Dieta Humana


As dietas paleolíticas e as dietas ocidentais atuais mostram diferenças profundas na sua
composição, especialmente relativamente à qualidade e conteúdo de glícidos (ver figura).Vários
estudos sugerem que 2 grandes mudanças dietéticas ocorreram durante a evolução humana: (a)
no Neolítico (há cerca de 10.000 anos), quando surgiu a agricultura, levando a um aumento no
consumo de cereais domesticados e a adoção da dietas ricas em glícidos, e (b) após a Revolução
Industrial (~1850), com a introdução de farinha e açúcar processados industrialmente. Isto levou
à hipótese, proposta num artigo clássico publicado por Eaton e Konner em 1985, de que a
predisposição das doenças modernas conhecidas como síndrome metabólica, resulta de uma
discordância evolutiva entre as adaptações estabelecidas na era Paleolítica (há 2,6 milhões a
12.000 anos atrás) e o modo de vida no mundo industrializado. Com base nisto os autores
propuseram a “dieta Paleolítica” como uma referência para a nutrição humana. Contudo, esta
visão está a ser questionada atualmente, especialmente porque (a) implica que os antecedentes
genéticos humanos não mudaram desde o Paleolítico, apesar de os humanos terem continuado
a evoluir no período Neolítico, com mudanças genéticas relacionadas diretamente com
alterações na dieta, tal como nos genes que codificam a produção de amílase (enzima que
degrada o amido), e (b) não tem em conta a herança não-genómica, como a regulação
epigenética da expressão genética, que altera a aptidão em mudanças ambientais de curto-
prazo, tal como no desenvolvimento uterino.
Os impactos dietéticos durante a evolução humana podem ser exemplificados com um
estudo interessante que analisou a diversidade genética da microbiota oral de placas dentárias
calcificadas obtidas de esqueletos humanos europeus pré-históricos, incluindo os restos mortais
dos últimos recolectores na Polónia e da primeira cultura agrícola na Europa (Cultura da
Cerâmica Linear, LBK), assim como populações do fim do Neolítico (cultura do Vaso
Campaniforme, BB), início e fim da Idade do Bronze e populações medievais rurais e urbanas (ver
na figura um exemplo de frequências de filos obtidas comparando uma região específica do
genoma). Este estudo revelou que a microbiota oral se tornou marcadamente menos
diversificada nos tempos modernos, com a dominância de bactérias potencialmente
cariogénicas, como S. mutans (ver figura).

O consumo de glícidos por antepassados do Homem corresponde a cerca de 35% da energia total ingerida,
que vêm principalmente de frutas e vegetais, enquanto 50% da energia diária numa dieta ocidental é obtida
de glícidos, dos quais cerca de 15% vem de açúcares adicionados à comida durante o seu processamento
ou consumo, e cerca de 20% vem de cereais refinados (Baseado nos dados de Eaton SB. Proc. Nutr. Soc.
65:1-6, 2006). O impacto das mudanças no conteúdo e qualidade dos glícidos na dieta humana na
diversidade da microbiota oral. (Reproduzido com permissão de Macmillan Publishers Ltd: Adler et al., Nat.
Genet. 45:450-456, 2013)
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 255

A manutenção da glicémia pode ser explicada por dois fenómenos distintos: a diminuição na
utilização de glucose pelos diferentes tecidos e o aumento da sua produção e libertação para a corrente
sanguínea pelo fígado e rim (Fig. 9.1). Quando a concentração plasmática da glicose está acima dos
níveis basais, a secreção de insulina é estimulada e a ação desta hormona permite a rápida utilização
da glicose por todos os tecidos (ver Cap. 8). Contudo, quando a glicémia diminui, a secreção de
glicagina vai predominar, levando a uma mudança completa no metabolismo, que é caracterizada por
uma diminuição na utilização de glicose, especialmente pelos tecidos muscular e adiposo, e uma
libertação contínua de glicose na corrente sanguínea pelo fígado e, em menores quantidades, pelo
córtex renal, tal como vamos discutir nas próximas secções.

Fig. 9.1 Figura clássica pelo Dr. George Cahill na qual descreve 5 estados metabólicos entre o estado pós-absortivo
e o quase fixo estado de jejum prolongado. A figura foi construída baseada em estudos realizados pelo Dr. Cahill
e o seu grupo com pacientes submetidos a jejum terapêutico nos anos 60 (ver Caixa 9.2). rbcs eritrócitos
(Reproduzido com permissão de Cahill. Ann. Ver. Nutr. 26:1-22, 2006)

9.1 Perspetiva Geral do Metabolismo Durante Jejum: Exemplificando com


Estudos sobre Jejum Prolongado Terapêutico
Para introduzir o tema do controlo da glicémia, vamos tirar partido de alguns estudos realizados entre
os anos 50 e os anos 60, quando o jejum prolongado terapêutico era usado como uma estratégia para
tratar a obesidade (Caixa 9.2). É importante notar que esta situação extrema foi escolhida como um
exemplo para clareza, mas as adaptações e as vias metabólicas que vão ser discutidas ao longo deste
capítulo também ocorrem em situações mais comuns, tais como dietas pobre em glícidos, jejum
nocturno ou até durante os períodos entre refeições.
256 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

Caixa 9.2: Jejum Prolongado Terapêutico


Os estudos usados aqui para exemplificar as adaptações metabólicas à hipoglicémia foram
realizados pelo grupo do Dr. George F. Cahill (1927-2012) durante os anos 60. Tal como
salientado por Richard W. Hanson num artigo retrospectivo sobre as contribuições do Dr. Cahill
para a compreensão do metabolismo humano, o facto de ele não ter sido um bioquímico, mas
sim um médico-cientista fez com que a sua abordagem na pesquisa fosse integrativa e não
reducionista na sua natureza. Esta visão integral permitiu-lhe fazer uma descoberta crucial a
respeito do metabolismo do encéfalo durante o jejum que explicou como é que os humanos
conseguem sobreviver por mais de 60 dias sem comida: corpos cetónicos, moléculas derivadas
do metabolismo dos ácidos gordos, que fornecem a maioria das necessidades energéticas do
encéfalo durante o jejum (ver detalhes na Secção 9.3.4). Esta descoberta “resultou numa
reavaliação total da hierarquia de combustíveis usados pelos diferentes tecidos humanos”, tal
como declarado pelo Dr. Oliver E. Owen, que trabalhou com o Dr. Cahill nestas experiências
clássicas. Nos anos 50 e 60, o jejum prolongado terapêutico de sujeitos obesos estava em voga.
Os estudos descritos aqui foram realizados no Peter Bent Brigham Hospital, que tem um Instituto
Nacional de centros de pesquisa clínica apoiados na Saúde onde os pacientes foram alojados e
observados continuamente durante os protocolos experimentais. Os pacientes passaram 5-6
semanas em jejum com total abstinência de calorias, onde a ingestão diária consistia numa
cápsula multivitamínica, água e um substituto do sal. O Dr. Owen conta num dos seus artigos
que quando alguém lhe perguntou o porquê de ter escolhido um período de jejum de 6 semanas,
ele respondeu citando São Mateus 4:2: “(Jesus) Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites,
e por fim teve fome”. Durante o tratamento, os pacientes voluntariaram-se para colheitas de
sangue e de urina para medir as concentrações plasmáticas de diferentes metabolitos. Além
disso, alguns foram submetidos a cateterização para determinar o consumo e produção de
metabolitos por diferentes órgãos ao medir as diferenças arteriovenosas dessas substâncias.
Alguns dos dados originados destes estudos vão ser usado neste capítulo para discutir vários
aspetos da adaptação humana ao jejum.

A variação da concentração sanguínea de diferentes metabolitos durante o jejum vai ser usada
como ponto de partida para a nossa discussão sobre as adaptações metabólicas à hipoglicémia (Fig.
9.2).
Tal como visto na Fig. 9.2, a concentração de ácidos gordos no sangue, após um ligeiro aumento,
mantém-se constante durante todo o período de jejum devido ao equilíbrio entre o seu uso como fonte
de energia por vários tecidos e a sua mobilização a partir dos triacilglicerídeos armazenado no tecido
adiposo. De facto, o conteúdo de triacilglicerídeo armazenado no corpo humano pode fornecer energia
para aproximadamente 2 meses de jejum (Tabela 9.1).
Como os corpos cetónicos são o principal produto da oxidação dos ácidos gordos no fígado (ver
Secção 7.4.6), é esperado que a sua concentração aumente ao longo do período de jejum, tal como
observado na Fig. 9.2. É possível reparar em 2 fases diferentes no perfil da concentração sanguínea de
corpos cetónicos. Nos primeiros 10 dias de jejum, há um aumento constante nas suas concentrações,
que depois gradualmente chegam a um patamar após 25 dias. Esta segunda fase poderá ser explicada
pelo aumento no consumo dos corpos cetónicos e/ou excreção pelo organismo. De facto, a adaptação
do encéfalo para o uso de corpos cetónicos como a sua principal fonte de energia contribui para a sua
remoção da corrente sanguínea tal como para a diminuição das necessidades de glicose do corpo
inteiro (para mais detalhes, ver Fig. 9.16).
Uma observação notável a respeito do perfil dos metabolitos plasmáticos durante o jejum é que a
concentração de glicose, após uma pequena diminuição nos primeiros 3 dias, é mantida constante
durante todo o período de jejum prolongado. A partir desta observação, levantam-se várias questões:
Porque é que é necessário manter a glicémia? Porque não usar só ácidos gordos como fonte de energia
durante o jejum já que eles são, quantitativamente, a maior reserva energética no corpo (ver Tabela
9.1)? A resposta está no facto de algumas células dependerem de glicose como a sua fonte energética
exclusiva ou preferencial. É este o caso das células que não têm mitocôndrias, tais como os eritrócitos
e as células do cristalino, que dependem do metabolismo anaeróbico (fermentação de glucose, ver
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 257

Fig. 9.2 (a) Peso médio de um grupo de 11 pacientes obesos antes e depois de serem submetidos ao tratamento
no Centro Clínico do Peter Bent Brigham Hospital. (b) Concentrações de diferentes metabolitos no plasma e
glicogénio no fígado durante o jejum (Baseado em dados de Owen et al. J. Clin. Invest. 48, 574-583, 1969)

Tabela 9.1 Reservas nutricionais humanas (típicas de um homem de 70 kg)


Valor energético Período como única
Molécula Massa (g) (kcal) fonte energética (dias)
Triglicerídeo (tecido adiposo) 9.000-15.000 ~108.000 60
Glicogénio (fígado) 90 360 0,2
Glicogénio (músculo) 250 1000 0,55
Glicose (sangue e fluidos corporais) 20 80 0,044
Proteínas (principalmente músculo)a 8000 32.000 17,8
aDeve ser salientado que a maioria das proteínas musculares não estão logo disponíveis para mobilização

Secção 6.1) para sobreviver. Também é o caso das células do sistema nervoso e dos tecidos
embrionários, que estão isolados da circulação sistémica por barreiras sanguíneas que não permitem
a absorção de ácidos gordos, já que estas moléculas estão ligadas à albumina, a sua principal forma
de transporte na corrente sanguínea (Caixa 9.3). Assim, torna-se essencial que a glicose seja
constantemente produzida e libertada na corrente sanguínea durante os períodos em que não é
ingerida. As vias metabólicas envolvidas na manutenção da glicémia vão ser discutidas nas próximas
secções.

Caixa 9.3: Transporte de Glicose Através da Barreira Hemato-Encefálica (BBB)


A BBB é uma barreira de permeabilidade altamente selectiva que restringe a passagem da
maioria das substâncias do sangue circulante para os fluídos do sistema nervoso central (CNS)
(ver também Seção 3.3.4.1). É formada por 3 componentes celulares (ver figura): (a) as células
endoteliais dos capilares encefálicos; (b) os prolongamentos terminais dos astrócitos, que
cobrem a parede do vaso mantendo a barreira endotelial; e (c) os pericitos. As células endoteliais
dos capilares encefálicos estão ligadas por junções de oclusão que tornam o transporte
paracelular de substâncias através da BBB insignificante em condições fisiológicas. Além disso,
estas células expressam vários transportadores de expulsão de drogas, tais como a
glicoproteína P (Pgp) e vários membros da família de proteínas multidrug resistentes (MDR), que
impede a entrada ou remoção de drogas e outras substâncias do CNS. O transporte de glicose
pela BBB é mediado pelo GLUT1 (ver Secção 8.1). É importante relembrar que os GLUTs são
transportadores de difusão facilitada, o que significa que a glicose não pode ser transportada
contra um gradiente da corrente sanguínea para o CNS. Além disso, KM do GLUT1 para a glicose
258 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

é cerca de 1-2 mM. Deste modo, o encéfalo humano não pode ser abastecido de glicose quando
a sua concentração sanguínea é baixa (normoglicémia é cerca de 5 mM), sendo que a única
estratégia para proteger as células do encéfalo do jejum prolongado é prevenir a hipoglicémia.

Micrografia de uma secção de um micro-vaso do encéfalo a mostrar o GLUT1 marcado com uma sonda
fluorescente verde (esquerda) e a representação esquemática da BBB com os seus 3 componentes
celulares (direita), salientando o transporte de glicose através dos GLUT1 (representados como rectângulos
verdes). (Reproduzido com permissão de Macmillan Publishers Ltd: Löscher & Potschka. Nature Ver
Neurosci 6:591-602, 2005)

9.2 Degradação do Glicogénio no Fígado


O papel crucial do metabolismo do fígado na produção de glicose para manter a glicémia começou a
ser elucidado em meados do século XIX, com os estudos pioneiros de Claude Bernard (Caixa 9.4).
Em 1853, Claude Bernard mostrou que o fígado era capaz de libertar glicose na corrente sanguínea
mesmo quando não havia glícidos presentes na dieta. Esta descoberta mudou completamente a ideia
vigente acerca da nutrição animal. Contrariou os conceitos aceites que os animais decompõem sempre
substâncias complexas obtidas da comida e pela primeira vez sugeriu que as funções do organismo
seriam mantidas por uma interação metabólica entre diferentes tecidos. Alguns anos mais tarde,
Claude Bernard isolou do fígado uma substância a que chamou “la matière glycogène” (a substância
que gera glicose), o glicogénio.
Nessa altura, ainda não era claro que a glicose era libertada pelo fígado por uma combinação de 2
processos: a degradação de glicogénio e a síntese de glucose a partir de percursores não-glicídicos. O
glicogénio pode ser visto como uma reserva transitória de açúcar ingerido que é mobilizado quando
necessário, enquanto diferentes moléculas não glicídicas podem ser convertidas a glicose por uma via
chamada gliconeogénese. Isto vai ser discutido nas próximas secções deste capítulo.
Em vários tecidos, especialmente no fígado e músculos, o glicogénio é a forma de reserva de glicose,
sendo observada como grânulos densos ao microscópio (ver Fig. 8.5). O conteúdo de glicogénio no
fígado pode corresponder a cerca de 10% do peso líquido deste órgão em humanos bem alimentados.
Nos músculos, o conteúdo de glicogénio pode representar 1-2% do seu peso líquido, mas como os
músculos ocupam uma área do corpo maior do que o fígado, o conteúdo total de glicogénio no tecido
muscular é duas vezes mais alto do que o do fígado.
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 259

Caixa 9.4: Claude Bernard: O Fundador da Medicina Experimental


Talvez o feito mais importante de Claude Bernard foi a introdução da metodologia científica na
medicina e fisiologia, estabelecendo as regras básicas para a experimentação nas ciências da
vida. Isto é evidente numa das suas cartas para a sua amiga Mme. Raffalovich: “O cientista deve
ter imaginação, mas deve dominar esta imaginação e friamente explorar o desconhecido.
Contudo, se ele se deixar levar pela sua imaginação ele vai ser superado pelas vertigens e, tal
como Faust e outros, cair no abismo da magia e sucumbir aos fantasmas da mente.” No início
da sua carreira, a sua intenção era seguir o destino do açúcar absorvido da comida no corpo
animal. A sua hipótese na altura era que o açúcar ingerido era queimado nos pulmões, passando
pelo fígado pelo sistema da porta hepática (ver Caixa 8.1) sem qualquer processamento para
chegar à corrente sanguínea. Para confirmar esta hipótese (e também para descartar que o
açúcar não era destruído no fígado, como parece que ele suspeitava), Claude Bernard mediu a
quantidade de açúcar nas veias porta e hepática de um cão alimentado com leite doce. Ele ficaria
convencido quando encontrasse uma grande quantidade de glicose no sangue que já tivesse
passado pelo fígado, mas não ficou, tal como salientou no seu livro Introduction à l’Étude de la
Medicine Expérimentale: “Mais de um investigador teria parado aqui e achado que qualquer
experiência de controlo era inútil. Mas eu realizei uma experiência de controlo porque estou
convencido que em fisiologia deve-se sempre duvidar mesmo quando a dúvida parece não ser
permitida.” O controlo era uma experiência parecida em que o cão era alimentado apenas com
carne. Para sua surpresa, encontrou uma grande quantidade de açúcar na veia porta, o que o
levou a afirmar: “Já não percebo nada.”

Esta descoberta inesperada levou Claude Bernard a isolar o glicogénio alguns anos mais
tarde, mas a sua contribuição para o entendimento do metabolismo animal não parou aí. A
observação de que o fígado liberta glicose para o sangue levou-o a estabelecer o conceito de
“secreção interna”. Além disso, Claude Bernard foi o primeiro a expressar a ideia que os animais
têm um meio interno, diferente do meio externo, cuja estabilidade seria um requisito para a
manutenção da vida (a base a partir da qual o princípio da homeostase surgiu), tal como afirmou:
“la fixité du milieu intérieur est la condition d’une vie libre et independente” (a estabilidade do
meio interno é a condição para um vida livre e independente).

O processo da degradação do glicogénio, conhecido como glicogenólise, foi quase inteiramente


elucidado por Carl e Gerty Cori. Eles descobriram (a) a natureza da reação de degradação do glicogénio,
uma reação de fosforilação; (b) a enzima que a catalisa, a glicogénio fosforilase; e (c) o seu produto,
glicose-1-fosfato. Devido a esta grande contribuição para o metabolismo dos glícidos, Carl e Gerty Cori
foram premiados com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina em 1947.
260 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

O glicogénio é um polímero altamente ramificado de glicose que contém ligações α1,6-glicosídicas nos
pontos de ramificação, com 10-12 resíduos de glicose ligados por ligações α1,4-glicosídicas entre cada
ramo (ver Secção 3.2.1). A sua degradação é dependente de duas enzimas, a glicogénio fosforilase
(GP) e a enzima desramificadora.
A GP catalisa a fosforólise da ligação α1,4-glicosídica numa unidade de glicose terminal através das
pontas não reduzidas da molécula, produzindo glicose-1-fosfato (Fig. 9.3). Nos seus primeiros estudos
sobre a degradação do glicogénio, os Coris mostraram que a reação catalisada pela GP era reversível
in vitro. Contundo, agora é claro que a fosforólise é muito favorecida in vivo devido à muito alta razão
[Pi]/[glicose-1-fosfato] intracelular, e a síntese de glicogénio tem de ocorrer por outro processo (ver
Secção 8.2).

Fig. 9.3 (a) Representação esquemática da degradação do glicogénio. (b) Reações catalisadas pela glicogénio
fosforilase (em cima) e a atividade glucocidase da enzima desramificadora (em baixo)
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 261

A estrutura ramificada do glicogénio permite a sua rápida degradação, já que cerca de 50% das
unidades de glicose estão nos ramos exteriores. As unidades de glicose são removidas
sequencialmente até 4 unidades antes do ponto de ramificação, onde a enzima perde a sua atividade,
deixando o que é conhecido como uma dextrina limite (uma molécula com curtos ramos de 4 unidades
de glicose de comprimento).
A remoção subsequente de unidades de glicose de uma molécula de glicogénio depende da
atividade da enzima desramificadora. Esta enzima tem duas atividades diferentes na mesma cadeia
polipeptídica. A primeira é uma atividade de glucosiltransferase, na qual uma unidade de trissacáridos
no final do ramo é transferida através de uma ligação α1,4 para uma ponta não reduzida do fim de outro
ramo, resultando num ramo estendido suscetível à ação da GP (Fig. 9.3). A segunda atividade é uma
amilo-1,6-glucosidase, em que a ligação α1,6-glicosídica nos pontos de ramificação é hidrolisada para
formar glicose. É interessante reparar que devido à sua atividade, cerca de 7% dos resíduos de glicose
no glicogénio são libertados como glicose e não como glicose-1-fosfato.
A glicose-1-fosfato produzida durante a glicogenólise pode ser convertida em glicose-6-fosfato pela
ação da enzima fosfoglucomutase (Fig. 9.3).
No fígado, a glicose-6-fosfato pode ser desfosforilada através da ação da glicose-6-fosfatase
(G6Pase), permitindo que as unidades de glicose sejam removidas do glicogénio e libertadas na
corrente sanguínea. A G6Pase é uma proteína integral da membrana do retículo endoplasmático com
o centro ativo no lado do lúmen deste compartimento (Fig. 9.4). Só é expressa no fígado e rim, e como
as células musculares não têm esta enzima, as unidades de glicose removidas do glicogénio muscular
são metabolizadas no próprio tecido muscular.
Nos seus primeiros estudos fisiológicos sobre o metabolismo dos glícidos, os Coris propuseram
que o lactato produzido no músculo a partir da degradação do glicogénio (e subsequente glicólise)
chegava ao fígado através da corrente sanguínea sendo depois reconvertido a glicogénio, num ciclo
que ficou conhecido como o “ciclo de Cori”. Contudo, apesar de a ideia de metabolitos circulantes entre
vários tecidos ser um conceito importante, o “ciclo de Cori”, exatamente como foi proposto, não ocorre
fisiologicamente. A glicose produzida no fígado através do lactato muscular, em vez de ser convertido
a glicogénio, é libertada na corrente sanguínea para ser utilizada pelo encéfalo, pelos eritrócitos e por
outras células dependentes da fermentação. Além disso, é muito improvável que a glicose produzida
no fígado vá para os músculos, já que a sua internalização nas células musculares depende da ação da
insulina, que não está a operar nesta situação (ver Secção 8.4). De facto, podemos construir uma
imagem mais complexa da circulação do glicogénio/glicose-lactato pelos diferentes órgãos, tal como
apresentado na Fig. 9.5.

Fig. 9.4 (a) Reação da glicose-6-fosfatase. (b) Localização intracelular da glicose-6-fosfatase. A enzima é uma
proteína integral da membrana do retículo endoplasmático (ER) que catalisa a desfosforilação da glicose-6-fosfato
no lúmen deste organelo. O substrato da enzima (glicose-6-fosfato) e os seus produtos (glicose e fosfato
inorgânico) são transportados através da membrana do ER por transportadores específicos
262 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

Fig.9.5 Circulação glicogénio/glicose-lactato: a degradação de glicogénio nos músculos forma lactato, que é
libertado na corrente sanguínea e entra no fígado, onde é convertido a glicose pela gliconeogénese. A glicose
libertada pelo fígado para a corrente sanguínea é absorvida pelas células dependentes de glicose, tais como as do
encéfalo e os eritrócitos. A absorção de glicose pelo músculo esquelético (formando o chamado ciclo de Cori) é
hipotética porque as condições fisiológicas que favorecem a produção de lactato pelas células musculares não
favorecem a absorção de glicose por estas células (ver texto)

O conteúdo de glicogénio do fígado varia muito em resposta à ingestão de comida (Fig. 9.6). O
glicogénio acumula-se rapidamente após a ingestão de glícidos e depois é gradualmente mobilizado
para produzir glicose livre entre refeições.

Fig. 9.6 Variação no conteúdo de glicogénio no fígado após cada refeição

A degradação do glicogénio é principalmente controlada pela regulação da atividade da GP. Esta


enzima é um dímero que existe em duas conformações diferentes, uma mais ativa, chamada fosforilase
a, e uma muito menos ativa, chamada fosforilase b (Fig. 9.7). Estas duas formas são interconversíveis
por fosforilação/desfosforilação de um resíduo de serina (Ser14), induzida por ação hormonal (ver
Secção 9.3.3).
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 263

Fig. 9.7 Regulação da atividade da GP por fosforilação. No fígado, a ação da glicagina desencadeia a fosforilação
da forma menos ativa da GP, chamada fosforilase b (PDB 1FC0), na sua Ser14, o que promove uma alteração
estrutural para a forma ativa, a fosforilase a (PDB 1FA9). O segmento N-terminal, que contém o local de fosforilação
(Ser14), passa de uma conformação completamente desordenada para uma estrutura bem ordenada, e ocorrem
várias transições estruturais no centro ativo (salientado a verde). Para facilitar a visualização das alterações
conformacionais enzimáticas, as estruturas dos monómeros são mostradas na figura, apesar da enzima existir
como homodímero

O maior modulador alostérico da isoforma hepática da GP é a glicose, que altera o equilíbrio entre
os estados conformacionais para o lado da fosforilase b (Fig. 9.7). Assim, quando a concentração
intracelular de glicose é alta, a degradação de glicogénio é inibida. A regulação alostérica da isoforma
muscular da GP é mais complexa e foi discutida no capítulo 7.
A degradação do glicogénio também é controlada por hormonas. Numa situação de hipoglicémia, a
secreção de insulina pela células β-pancreáticas é inibida, levando a um aumento da secreção da
glicagina pelas células α. A acção da glicagina no tecido hepático (detalhada na Secção 9.4) resulta na
activação da enzima fosforilase cinase, que catalisa a fosforilação da GP. A fosforilação mantém a GP
na sua forma ativa (Fig. 9.7), favorecendo a degradação do glicogénio. A hormona adrenalina também
controla a degradação de glicogénio no fígado (discutida na situação de exercício no capítulo 10).
É importante salientar que nos humanos o glicogénio armazenado no fígado dura entre 12 e 24
horas durante o jejum (ver Fig. 9.2). Desta forma, a contribuição da glicogenólise no fígado no controlo
da glicémia é limitada e é preciso outra via de produção de glicose para manter a concentração
sanguínea de glicose.

9.3 Gliconeogénese
A gliconeogénese é a síntese de glicose (e outros glícidos) a partir de compostos não glicídicos. Esta
via ocorre principalmente no fígado, mas também no córtex renal.
Durante muitos anos pensava-se que a gliconeogénese ocorria como o inverso da via glicolítica. No
entanto, algumas das reações glicolíticas são altamente exergónicas (Fig. 9.8), o que faz com que seja
muito improvável que estas sejam reversíveis no interior das células.
264 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

Fig. 9.8 (a) Reações da glicólise (para mais detalhes ver Capítulo 6). (b) Variações de energia livre entre cada passo
da glicólise. Os números correspondem às reações indicadas em (a)

Esta barreira de energia impede a reversibilidade em 3 pontos da via glicolítica: a conversão de (a)
piruvato a fosfoenolpiruvato (PEP), (b) frutose-1,6-bifosfato em frutose-6-fosfato, e (c) glicose-6-fosfato
em glicose. Para estas reações ocorrerem, as enzimas glicolíticas teriam de ser contornadas.

A primeira via alternativa é a conversão de piruvato em PEP, o que requere 2 reações, envolvendo 2
enzimas: a piruvato carboxilase (PC) e a PEP carboxicinase (PEPCK).
A PC é uma enzima mitocondrial que catalisa a carboxilação, dependente da biotina, do piruvato
para produzir oxaloacetato. A PC humana é ativa na forma tetramérica e contém 3 domínios funcionais
na mesma cadeia polipeptídica: os domínios da proteína transportadora de biotina-carboxil (BCCP), da
biotina carboxilase (BC), e da carboxiltransferase (CT) (Fig. 9.9; ver também Caixa 8.6 para mais
informação sobre carboxilases dependentes de biotina).
Para além destes têm um quarto domínio funcional central que contêm o local de ligação do ativador
alostérico acetil- CoA. A biotina está ligada covalentemente a um resíduo de Lys no domínio BCCP. A
reação ocorre em dois passos. Primeiro, o domínio BC catalisa a carboxilação da biotina numa reação
que usa bicarbonato como substrato e requere a hidrólise de uma molécula de ATP, gerando ADP e Pi
(Fig. 9.9). Depois, o grupo carboxilo da carboxibiotina é transferido para o piruvato para formar
oxaloacetato numa reação catalisada pelo domínio CT da enzima. Na forma tetramérica da PC, os
domínios estão arrumados de maneira que a carboxiotina é transferida do domínio BC para o domínio
CT vizinho de cadeias polipeptídicas opostas, explicando o porquê de a enzima apenas ser ativa como
um tetrâmero (Fig. 9.9).
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 265

Fig. 9.9 (a) Estrutura primária da PC e a estrutura do monómero da PC de Staphylococcus aureus salientando os 3
domínios funcionais: BC (azul), CT (amarelo), e BCCT (vermelho), e o domínio alostérico (verde). (b) Representação
esquemática do tetrâmero da PC mostrando o movimento do domínio BCCP entre centros ativos BC e CT vizinhos
em cadeias polipeptídicas opostas. (Reproduzido de Jitrapakdee et al. Biochem. J. 413:369-387, 2008. Portland
Press Ltd, London). (c) Reações catalisadas pela PC: primeiro o bicarbonato é usado para carboxilar a biotina
ligada à enzima numa reação dependente da hidrólise de ATP; depois o grupo carboxilo é transferido para o
piruvato gerando oxaloacetato

A carboxilação dependente da biotina também ocorre noutras vias metabólicas, tais como a síntese
de ácidos gordos (ver Secção 8.3), em que o domínio BC da acetil-CoA carboxilase partilha homologia
sequencial com o domínio BC da PC.
É importante salientar que para além do seu papel crucial na gliconeogénese, a reação da PC
desempenha uma função anaplerótica importante, reabastecendo oxaloacetato que é retirado no ciclo
TCA em várias situações metabólicas (ver Secção 7.3).
A formação de PEP a partir de oxaloacetato é catalisada pela PEP carboxicinase (PEPCK), numa
reação que requere a transferência de um grupo fosfato da GTP (Fig. 9.10).
266 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

Fig. 9.10 Estrutura da PEPCK citosólica humana: (a) complexada com um análogo não hidrolisável da GTP (PDB
1KHE) e (b) complexada com PEP (PDB 1 KHF). (c) Conversão de oxaloacetato em PEP, usando GTP como dador
de fosfato, a reação foi catalisada por PEPCK animal. Pelo contrário, PEPCKs de bactérias, fungos e plantas usam
ATP como dador de fosfatos

Em células humanas, a PEPCK está distribuída entre a mitocôndria e o citosol, e a isoforma usada
vai depender indiretamente da razão [NADH]/[NAD+] no citosol. A razão para isto é que a reação
catalisada pela gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase requere NADH para ocorrer na direção inversa da
glicólise, de 3-fosfoglicerato para gliceraldeído-3-fosfato (Fig. 9.11).
Quando a razão [NADH]/[NAD+] é muito baixa, equivalentes do NADH são transportados da matriz
mitocondrial para o citosol pelo shuttle malato-oxaloacetato. O oxaloacetato é convertido a malato pela
malato desidrogenase mitocondrial com oxidação de NADH a NAD+ no interior da mitocôndria. O malato
atravessa as membranas mitocondriais e chega ao citosol onde é reconvertido em oxaloacetato pela
ação da malato desidrogenase citosólica, com formação de NADH no citosol.
Assim sendo, nesta situação, a PEPCK citosólica é usada para gerar PEP, enquanto a PEPCK é
preferida quando a razão [NADH]/[NAD+] citosólica permite que a reação da gliceraldeído
desidrogenase ocorra na direção da formação de gliceraldeído-3-fosfato (Fig. 9.11).
A segunda via alternativa é a conversão de frutose-1,6-bifosfato em frutose-6-fosfato. Nesta reação,
o grupo fosfato associado ao carbono 1 da frutose-1,6-bifosfato é removido por hidrólise através da
ação da enzima frutose-1,6-bifosfatase.
Finalmente, a terceira via alternativa é a conversão de glicose-6-fosfato em glicose. Tal como
discutido na secção anterior, tanto no fígado como nos rins, a enzima glicose-6-fosfatase catalisa a
desfosforilação da glicose-6-fosfato gerando glicose, que pode ser libertada para a corrente sanguínea
(ver Fig. 9.4).
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 267

Fig. 9.11 Localização intracelular da primeira via alternativa da gliconeogénese. A PC é uma enzima mitocondrial
e por isso o piruvato é convertido em oxaloacetato no interior da mitocôndria. A PEPCK está distribuída igualmente
no citosol e na mitocôndria, por isso o oxaloacetato pode ser convertido a PEP em ambos os compartimentos.
Quando a razão [NADH]/[NAD+] no citosol permite que a reação catalisada pela gliceraldeído-3-fosfato
desidrogenase (G3PDH) ocorra de 1,3-bifosfoglicerato (1,3-BPG) para gliceraldeído-3-fosfato (G3P), pode ser
usada a isoforma mitocondrial. Quando é preciso a formação de NADH adicional, o oxaloacetato é convertido a
malato na matriz mitocondrial pela malato desidrogenase (MDH) com oxidação da NADH. O malato é transportado
para o citoplasma onde é convertido a oxaloacetato pela MDH citosólica, gerando NADH para a reação da G3PDH.

A este ponto já é possível visualizar como é que diferentes precursores podem entrar na via da
gliconeogénese. Tal como detalhado em baixo, os principais percursores são o lactato, aminoácidos e
glicerol. Para além destes, o propionil-CoA formado na oxidação de ácidos gordos de cadeia ímpar
também pode contribuir para a síntese de glicose, apesar de numa escala muito menor devido à baixa
disponibilidade de ácidos gordos de cadeia ímpar no metabolismo humano.
Vários estudos que começaram no século XX mostraram que o lactato podia ser convertido em
glicose (e glicogénio) no tecido hepático. Nessa altura, o interesse estava mais focado na síntese de
glicogénio no corpo e menos atenção era dada às reações envolvidas na conversão de lactato a glicose.
Agora sabemos que a conversão de lactato em glicose (gliconeogénese) e de glicose em glicogénio
(gliconeogénese) são processos que não ocorrem simultaneamente (ver a última secção deste
capítulo). Provavelmente como resultado disto, havia muitas observações controversas na altura.
O lactato entra na via da gliconeogénese através da conversão do piruvato numa reação catalisada
pela enzima lactato desidrogenase (Fig. 9.12). Nesta reação, o NAD+ é reduzido a NADH, aumentando
a razão [NADH]/[NAD+] no citosol e favorecendo a formação de PEP dentro da mitocôndria (ver secção
anterior).
Provas de que os aminoácidos podem atuar como substratos para a síntese de glicose vieram dos
estudos iniciais sobre a formação de glicogénio feitos por Claude Bernard no século XIX, nos quais
alimentou cães com refeições constituídas apenas por carne e descobriu um aumento da glicose
libertada pelo fígado (ver Caixa 9.4).
268 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

Fig. 9.12 Entrada de precursores na via da gliconeogénese. O lactato é convertido em piruvato pela lactato
desidrogenase (LDH). Os aminoácidos têm os seus grupos amina removidos por transaminação e / ou
desaminação, gerando intermediários do ciclo TCA que convergem para o malato, que é convertido em
oxaloacetato e depois para PEP no citosol. O glicerol é convertido em fosfato de glicerol e depois em fosfato de
di-hidroxiacetona (DHAP), que entra na gliconeogénese. F1,6BP, frutose-1,6-bisfosfato; F1,6BPase, frutose-1,6-
bisfosfatase; F6P, frutose-6-fosfato; G6P, glucose-6-fosfato; G6Pase, glucose-6-fosfatase; as outras abreviaturas
são as mesmas que as usadas na Fig. 9.11. Os nomes das enzimas estão destacados em caixas amarelas.

Para entrar na gliconeogénese, o grupo amina dos aminoácidos deve ser removido por
transaminação e/ou desaminação. Após essa metabolização, dezoito dos vinte aminoácidos mais
comuns geram α-cetoglutarato, succinil-CoA, fumarato, oxaloacetato ou piruvato (ver Secção 7.5). Os
intermediários do ciclo TCA convergem para o malato através da ação das enzimas do ciclo. O malato
deixa as mitocôndrias e é convertido em oxaloacetato, que então forma PEP no citosol (Fig. 9.12).
O produto da metabolização da leucina ou lisina é a acetil-CoA, que não pode ser usada para sintetizar
glicose, pois os seus dois átomos de carbono são completamente oxidados a CO 2 no ciclo de TCA,
impedindo assim a acumulação equilibrada de carbonos a serem incorporados na molécula de glicose
recém-sintetizada. Por está razão, os animais não podem transformar os ácidos gordos em glicose.
Finalmente, o glicerol, que é convertido em fosfato de glicerol após ser transportado para as células,
é convertido em fosfato de di-hidroxiacetona pela glicerol-fosfato desidrogenase, entrando na
gliconeogénese nesse momento (Fig. 9.12).

A glicólise e a gliconeogénese partilham múltiplas reações e ambos os processos são exergónicos em


condições intracelulares. Por isso, estes processos devem ser reciprocamente regulados para permitir
que um se sobreponha ao outro em cada situação específica. Na realidade, no fígado, os rácios de
glicólise e gliconeogénese são ajustados de forma a manter a concentração de glicose sanguínea
estável.
O maior elemento de regulação recíproca da glicólise e gliconeogénese é a interconversão entre
frutose-6-fosfato e frutose-1,6-bifosfato pelas enzimas fosfofrutocinase-1 (PFK-1) em caso de glicólise,
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 269

e fructose-1,6-bifosfatase (F1,6BPase) em caso de gliconeogénese. Este elemento é controlado por


ação hormonal com especial importância da molécula fructose-2,6-bifosfato (Fig. 9.13)
A fructose-2,6-bifosfato em concentrações sub-micromolares ativa simultaneamente a PFK-1 e inibe
F1,6BPase. Esta molécula é sintetizada pela fosforilação da frutose-6-fosfato numa reação semelhante
à que é catalisada pela PFK-1,mas com a transferência de um grupo fosfato de ATP para o carbono 2
e não para o carbono 2 da frutose. A enzima que catalisa esta outra reação foi chamada
fosfofrutocinase-2 (PFK-2) para evitar confusão com a clássica PFK-1. Fructose-2,6-bisfosfato é
hidrolisada a frutose-6-fosfato pela enzima frutose-2,6-bisfosfatase (F2,6BPase).

Fig. 9.13. (a) Estrutura da fructose-2,6-bifosfato. (b) Síntese e degradação de fructose-2,6-bifosfato e o seu efeito
na atividade da PFK-1 e F1,6BPase no fígado

É muito interessante notar que estas duas atividades antagónicas, a PFK-2 e a F2,6BPase, estão
presentes na mesma cadeia polipeptídica, constituindo uma enzima bifuncional (Caixa 9.5).

Caixa 9.5: A Evolução da Enzima Bifuncional PFK-2/F2,6BPase


Acredita-se que a enzima bifuncional PFK-2/F2,6BPase tenha resultado da fusão de genes
codificando diferentes enzimas. Isto parece ter ocorrido no início da evolução, num ancestral
comum a todos os eucariotas. Em todos os grupos taxonómicos, a enzima tem um núcleo
catalítico central com os domínios da PFK-2 e da F2,6BPase em tandem e em extensões nos
terminais N- e C- [ver exemplos em (a)]. Em alguns casos, uma das atividades está comprometida
por deleções ou inserções. Os domínios cinase e a fosfatase são semelhantes estruturalmente
às enzimas de um único domínio cinase ou fosfatase (ver figura).

(a) Representação esquemática da sequencia primária dos domínios de localização da PFK-2 e da


F2,6BPase em diferentes organismos. (b) Comparação da estrutura de uma enzima humana bifuncional
dimérica com gluconato cinase, em vermelho; PhoE fosfatase, em azul. Reproduzido com a permissão de
Michels & Rigden. IUBMB Life 58:133–141, 2006
270 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

A enzima bifuncional apresenta um domínio regulador na sua ponta terminal N, que contêm um
resíduo de serina (Ser32) que pode ser fosforilado e desfosforilado em resposta à ação da glicagina
(ver Secção 9.4.1) ou da insulina (ver Secção 8.4), respetivamente. Quando a Ser32 é fosforilada, a
enzima sofre mudanças conformacionais que favorecem a atividade da F2,6BPase. Em contraste,
quando é desfosforilada, a atividade da enzima torna-se a de PFK-2.
A gliconeogénese também é regulada aquando do seu primeiro nível de bypass. A carboxilação do
piruvato para oxaloacetato é totalmente dependente da presença de acetil-CoA, que age como um
ativador específico da PC pela sua ligação reversível ao domínio alostérico da enzima (ver estrutura da
PC na Fig. 9.9).
Isto é um exemplo interessante de como informação sobre uma situação fisiológica pode ser
transmitida localmente a um componente celular específico por um modulador alostérico. Em
hipoglicemia, os triglicerídeos armazenados no tecido adiposo são mobilizados, gerando glicerol e
ácidos gordos (ver Secção 7.4.1). O aumento disponibilidade de ácidos gordos na corrente sanguínea
permite que sejam utilizados como fonte de energia para diversos tecidos. A β-oxidação dos ácidos
gordos, que ocorre dentro da mitocôndria (ver Secção 7.4.4), aumenta a concentração de acetil-CoA na
matriz mitocondrial onde a PC está localizada. Assim, a mobilização de triglicerídeos em resposta à
hipoglicemia resulta na geração de um ativador essencial de uma enzima importante para a síntese de
glucose, um percurso crucial nesta situação.
A atividade da PEPCK é regulada unicamente a nível transcricional. O gene que codifica a forma
citosólica da PEPCK no fígado contém diversos elementos que respondem a hormonas, incluindo
glucocorticoides, AMP cíclico e insulina, além de responderem a hormonas tiroideias e ácido retinoico.
Através de diferentes mecanismos de ação, os glucocorticoides e a glicagina realçam a transcrição do
gene PEPCK (ver Secção 9.4), enquanto que a insulina reprime a sua expressão basal e hormono-
induzida.

A quantidade de glicose diária requerida pelo organismo humano adulto gira à volta dos 120g. Numa
situação de jejum prolongado, onde não há glicose a ser ingerida, a contribuição de cada precursor da
gliconeogénese é ilustrada na Tabela 9.2.

Tabela 9.2 Contribuição de cada precursor Quantidade de glicose produzida diariamente (g)
da gliconeogénese para a produção de Precursor Jejum de 1 dia Jejum de 5 semanas
glicose
Lactato 39 39
Glicerol 19 19
Aminoácidos 60 16

Tendo em conta que cada precursor é originado num tecido específico, a concentração sanguínea
de glicose pode ser mantida devido à interação entre os diferentes tecidos do organismo (Fig. 9.14). O
glicerol é gerado pela hidrólise de triacilglicerídeos no tecido adiposo. A proteólise das proteínas
contráteis das células musculares gera aminoácidos que sofrem transaminação, principalmente com
o piruvato ou α-cetoglutarato dentro das células musculares, formando alanina e glutamina. O lactato
é continuamente produzido pelas células dependentes da fermentação, como os eritrócitos.
É importante notar que esta situação muda se a glicose não for ingerida por períodos mais longos.
Se a mobilização de proteína fosse mantida na mesma taxa que no início do jejum, após cerca de um
mês sem ingestão de alimentos, metade das proteínas do corpo teriam sido consumidas. Isto pode ser
calculado a partir dos dados mostrados nas Tabelas 9.1 e 9.2 (para estes cálculos, a estequiometria
da síntese de glicose a partir de aminoácidos deve ser tomada em conta: para produzir um grama de
glicose , cerca de dois gramas de aminoácidos são necessários).
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 271

Fig. 9.14. Interação de metabólitos entre órgãos. A hidrólise de triacilglicerídeos no tecido adiposo gera glicerol e
ácidos gordos que são libertados na corrente sanguínea. Os ácidos gordos de cadeia par formam acetil-CoA,
enquanto cada molécula de ácido gordos de cadeia ímpar forma uma molécula de propionil-CoA além de acetil-
CoA. O propionil-CoA pode entrar na gliconeogénese após sua conversão em succinil-CoA e depois malato através
de reações do ciclo TCA. O glicerol entra nas células do fígado, onde é convertido em DHAP e depois em glicose.
A proteólise das proteínas contráteis das células musculares gera aminoácidos que são liberados na corrente
sanguínea entrando no fígado, onde passam por transaminação/desaminação gerando piruvato ou intermediários
do ciclo TCA que finalmente, formam malato para entrar na via da gliconeogénese. O lactato é continuamente
produzido e liberado pelas células fermentativas, como os eritrócitos, atingindo o fígado, onde é convertido em
piruvato, que entra na via da gliconeogénese. A glicose produzida é principalmente utilizada pelas células do
sistema nervoso central e pelas células dependentes da fermentação. Todas as abreviaturas foram usadas
conforme na Fig. 9.12

Contudo, o corpo humano está adaptado para sobreviver períodos muito mais longos em jejum.
Mesmo no jejum terapêutico para o tratamento da diabetes apresentado no início deste capítulo, os
pacientes sobreviveram mais de um mês sem qualquer ingestão alimentar. Os estudos realizados com
estes doentes permitiram entender o processo por detrás desta adaptação. A cateterização dos vasos
encefálicos demonstrou que cerca de dois terços da energia consumida pela cérebro em jejum
prolongado provém do metabolismo do beta-hidroxibutirato e acetoacetato, marcando uma
necessidade decrescente de glicose, e, portanto, da sua produção pela proteólise muscular que fornece
precursores da gliconeogénese. De facto, o decréscimo da proteólise muscular durante períodos
longos de jejum pode ser adivinhado através da observação do perfil de excreção de azoto de um
paciente submetido a jejum terapêutico. É interessante perceber que a diminuição da eliminação de
azoto está claramente correlacionada com o aumento da concentração de corpos cetónicos no sangue
(Fig. 9.15.a).
272 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

Fig. 9.15 (a) Excreção de diferentes compostos nitrogenados durante o jejum (Reproduzido de Owen, Biochem.
Mol. Biol. Educ. 33: 246–251, 2005) e a sua correlação com o aumento da concentração sanguínea em corpos
cetónicos (β-hidroxibutirato e acetoacetato). (b) Encefalização durante a evolução humana (Reproduzido de
Cunnane & Crawford, Comp. Biochem. Physiol. 136: 17-26, 2003, com permissão da Elsevier). (c) Dependência em
função da idade da concentração de β-hidroxibutirato no sangue durante o jejum (Reprodução autorizada por:
Cahill. Ann. Rev. Nutr. 26: 1–22, 2006)

Para entender melhor esta adaptação, é importante ter alguma informação sobre a captação
cerebral de corpos cetónicos. Os corpos cetónicos são transportados através da barreira
hematoencefálica através dos transportadores de monocarboxilato (MCTs), especialmente MCT1, que
é altamente expresso nas células endoteliais que formam os vasos da barreira hematoencefálica. O
MCT1 transporta uma larga gama de monocarboxilatos de cadeia curta, incluindo lactato, piruvato,
acetoacetato e β-hidroxibutirato. Os valores de KM para esses substratos estão contidos num intervalo
entre 5 a 10 mM. Assim, o aumento da concentração de corpos cetónicos no sangue durante o jejum
favorece o transporte dessas moléculas através da barreira hematoencefálica. Como visto na Fig.
9.15a, a concentração sanguínea de β-hidroxibutirato alcança o intervalo de KM do MCT1 após os
primeiros dias de jejum, de tal forma que esta molécula se torna cada vez mais disponível para as
células cerebrais conforme o processo de jejum. Além disso, a cetonemia prolongada, que ocorre
durante o jejum ou durante uma dieta baixa em carboidratos, induz a expressão do gene MCT1, também
contribuindo para o aumento do transporte de corpos cetónicos mediados por MCT1 para as células
do sistema nervoso central. Assim, ao longo da primeira semana de jejum, o uso de corpos cetónicos
pelas células do sistema nervoso central diminui muito a necessidade de glicose como fonte de energia
para essas células. Como o metabolismo do cérebro corresponde à maior parte do uso de glicose no
corpo (aproximadamente 100 g dos 120 g necessários diariamente), é fácil imaginar que a taxa de
gliconeogénese possa ser consideravelmente reduzida à medida que a concentração sanguínea dos
corpos cetónicos aumenta.
O uso de corpos cetónicos pelo cérebro também parece ter sido muito importante durante a
evolução humana, que foi caracterizada por um notável aumento do peso do cérebro (Fig. 9.15b). No
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 273

entanto, o “custo” da encefalização é o aumento das demandas energéticas. O cérebro de um adulto


humano moderno corresponde a 2,3% do seu peso corporal, mas representa 23% do consumo de
energia do organismo. Em crianças, a demanda de energia para o cérebro é ainda maior
(aproximadamente 75% da demanda total de energia do organismo). O fato de a relação cérebro / corpo
ser semelhante entre humanos e chimpanzés sugere que os primatas têm, em geral, o potencial de ter
cérebros de grandes proporções. Durante o desenvolvimento, contudo, o quociente cérebro / corpo nos
chimpanzés torna-se menos de metade do dos humanos. Uma observação interessante que pode
explicar esse fato é que os humanos são os únicos entre os primatas que nascem gordos. Isto
provavelmente permite produzir corpos cetónicos para uso cerebral durante o desenvolvimento do
recém-nascido. De fato, o metabolismo do recém-nascido humano é essencialmente cetónico, já que
quanto maior o quociente cérebro/corpo, mais rapidamente se desenvolve cetose (Fig. 9.15c).

9.4 Respostas Hormonais à Hipoglicemia


Uma das principais adaptações metabólicas à hipoglicemia é a produção de glicose pelo fígado. Como
discutido ao longo do capítulo, acontece pela combinação da degradação de glicogénio hepático (nas
primeiras horas) e produção de glicose a partir de precursores não glicídicos. Adicionalmente, a
mobilização de triacilglicerídeos do tecido adiposo ocorre simultaneamente, garantindo o suprimento
de energia para a maioria dos tecidos.
A ativação simultânea dessas vias é regulada principalmente pela ação da glicagina e dos
glucocorticoides. A secreção dessas hormonas é potencializada pela diminuição da concentração de
glicose no sangue e o seu papel é informar as diferentes células e órgãos sobre a situação de
hipoglicemia.
Nesta secção, as vias de sinalização, bem como os efeitos da glicagina e dos glucocorticoides nas
suas principais células-alvo serão detalhados.

A glicagina é uma hormona peptídica de 29 resíduos de aminoácidos, secretada pelas células α


pancreáticas, que compõem as ilhotas de Langerhans juntamente com as células β que secretam
insulina (ver secção 8.4) e células  que secretam somatostatina (Fig. 9.16).
A glicagina foi descoberta nos anos 20 como um fator hiperglicémico produzido pelo pâncreas. Este
achado foi correlacionado com a degradação do glicogénio no fígado, um assunto extensivamente
estudado na época (discutido no início deste capítulo), dando à glicagina o seu nome original: "fator
glicogenolítico-hiperglicémico". Durante o século XX, a estrutura do gene que codifica a glicagina, o
processamento complexo do seu produto, bem como a via de sinalização da glicagina e os seus efeitos
nas células-alvo foram elucidados.
Em situações de níveis baixos de glicose, um conjunto de canais iónicos na membrana de células α
geram potenciais de ação que ativam os canais de Ca2+ tipo L dependentes de voltagem, levando a
ondas de Ca2+ intracelulares que induzem a exocitose dos grânulos de glicagina, bem como a
expressão do gene da glicagina (Fig. 9.16). A repolarização da membrana pelo fluxo de K + através dos
canais tipo A desencadeia sinais oscilatórios de Ca2+, de modo que a secreção de glicagina siga um
padrão pulsátil. Embora pareça claro que a glicagina seja libertada constitutivamente a partir de células
α, alguns fatores, como catecolaminas e aminoácidos (principalmente arginina), podem atuar como
reguladores positivos da sua secreção, aumentando a amplitude das pulsações elétricas nas células α.
No entanto, o principal controlo da concentração sanguínea da glicagina ocorre pela inibição de sua
secreção. A glicose e a insulina são os principais reguladores negativos da secreção de glicagina, de
modo que o perfil da concentração sanguínea de glicagina é a imagem espelhada da glicemia. Portanto,
a glicagina transmite aos diferentes órgãos do corpo a informação da hipoglicemia, levando a
respostas adequadas da parte dos tecidos específicos que permitem ao organismo lidar com essa
situação.
274 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

Fig. 9.16 Representação de uma ilhota de Langerhans, mostrando em detalhe a célula α e o mecanismo de
secreção de glicagina. A secreção de glicagina é controlada por um conjunto de canais iónicos nas células α que
geram potenciais de ação de Na+ e Ca2+. Em situações de níveis baixos de glicose, a atividade dos canais de K +
sensíveis a ATP produz um potencial de membrana que estimula a abertura dos canais de Ca 2+ tipo T, levando à
despolarização da membrana que, por sua vez, ativa os canais de Na+ e Ca2+ tipo N. As ondas de Ca2+ intracelulares
causadas pela entrada de Ca2+ pelos canais de Ca2 + do tipo N induzem a exocitose dos grânulos de glicagina. O
fluxo de K+ através dos canais do tipo A medeia a repolarização da membrana, de modo que esta atividade elétrica
oscilatória resulta em um padrão pulsátil de secreção de glicagina. Um aumento na entrada de glicose nas células
α eleva a relação intracelular de ATP/ADP, bloqueando os canais de K+ sensíveis a ATP. Isso causa despolarização
da membrana e diminuição no influxo de Ca2+, inibindo a secreção de glicagina.

A glicagina , como outras hormonas hidrofílicas, atua nas suas células-alvo por ligação a um recetor
na superfície da célula (ver Cap. 5). O recetor da glicagina não está uniformemente distribuído entre os
diferentes tecidos: é expresso em altos níveis no fígado, rins e pâncreas e também foi detetado no
tecido adiposo e no coração, mas está ausente nas células musculares esqueléticas.
O recetor da glicagina pertence à superfamília dos recetores acoplados à proteína G (ver também
Secção 10.5.1.1). Os principais efeitos da glicagina nos seus tecidos-alvo são mediados pelo aumento
dos níveis intracelulares de AMP cíclico (cAMP), através do mecanismo clássico de ação dos recetores
acoplados à proteína G (Fig. 9.17). As proteínas G são compostas de três subunidades, ,  e . A
subunidade α liga-se ao GTP e catalisa sua hidrólise em GDP, cujo permanece ligado à proteína
mantendo-a inativa, associado às subunidades β e . Quando o glucagon se liga ao seu recetor, ele
sofre uma mudança conformacional que é transmitida para a proteína G, levando à substituição do GDP
pelo GTP. Quando ligada ao GTP, a subunidade α dissocia-se das subunidades β e γ e movimenta-se
livremente no lado interno da membrana celular até atingir a enzima adenilato ciclase. Esta enzima é
ativada pela subunidade α da proteína G e catalisa a conversão do ATP no cAMP, levando a um aumento
na concentração intracelular desta molécula. A afinidade da subunidade α para a adenilato ciclase
diminui após a hidrólise do GTP, levando a própria subunidade α a dissociar-se da adenilato ciclase e a
reassociar-se às subunidades β e .
O aumento das concentrações intracelulares de cAMP como resposta à ligação da glicagina ao seu
recetor promove a ativação de uma importante enzima, a proteína cinase dependente de cAMP (PKA)
(Fig. 9.17). Esta cinase é composta por duas subunidades reguladoras e duas catalíticas. O cAMP liga-
se às subunidades reguladoras, que se dissociam das catalíticas tornando-se livres para catalisar a
fosforilação de várias enzimas importantes, modulando assim suas atividades (conforme resumido na
Fig. 9.17).
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 275

Fig. 9.17 Mecanismo de ação da glicagina , mostrando os seus efeitos nas atividades enzimáticas no fígado. A
glicagina (estrutura mostrada em verde, PDB 1GCN) liga-se ao seu recetor acoplado à proteína G (PDB 4ERS e
4L6R), promovendo a substituição do GDP pelo GTP na subunidade α da proteína G. Está dissocia-se das
subunidades β e  e associa-se à adenilato ciclase, levando a um aumento da concentração intracelular de cAMP.
Este segundo mensageiro liga-se às subunidades reguladoras (não representadas nesta figura simplificada) da
proteína cinase A (PKA), levando à libertação das subunidades catalíticas ativas. A PKA ativa catalisa a fosforilação
de várias enzimas (representada pelo “P” no círculo cor-de-rosa), alterando suas atividades conforme indicado pelo
“+” verde, para ativação, e pelo“ -” vermelho, para inibição. Os caminhos que são ativados, devido a essas mudanças
nas atividades enzimáticas, são mostrados nas caixas azuis

9.4.1.1 Efeitos da Glicagina no Metabolismo Hepático


O metabolismo do fígado é drasticamente afetado pela glicagina. A glicogenólise hepática é ativada,
enquanto que a síntese de glicogénio é inibida. Simultaneamente, a gliconeogénese é ativada e a
glicólise inibida. Como resultado, a glicose é produzida e libertada na corrente sanguínea. Além disso,
a síntese de ácidos gordos é inibida (ver Seção 8.3), permitindo que os ácidos gordos que entrem na
célula sofram a β-oxidação, assegurando a geração de ATP. O controlo coordenado dessas diferentes
vias metabólicas é possível, porque as enzimas-chave de cada uma dessas vias têm as suas atividades
moduladas pela fosforilação promovida direta ou indiretamente pela PKA (Fig. 9.18). Além disso, o
aumento na concentração intracelular de cAMP também pode regular a expressão genética, uma vez
que vários genes apresentam na sua região promotora um elemento responsivo ao cAMP (CRE).
A conversão da enzima chave da degradação de glicogénio, GP, para sua forma ativa ocorre através
da fosforilação de Ser14, catalisada por PK (ver Seção 9.2.2). Esta enzima, por sua vez, também é
ativada pela fosforilação, neste caso catalisada pela PKA. Assim, a ativação da PKA em resposta à
ligação da glicagina às células do fígado, resulta na fosforilação da GP, que se torna ativa e promove a
degradação do glicogénio (Fig. 9.18). A via de sinalização desencadeada pela glicagina não estimula
apenas a degradação do glicogénio, mas também prejudica sua síntese. Isto acontece porque a
atividade da enzima chave na síntese de glicogénio, a glicogênio sintase (GS), também é regulada pela
276 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

Fig. 9.18 Integração dos efeitos da glicagina no fígado e no tecido adiposo, mostrando as enzimas e as vias
metabólicas reguladas em cada célula. O P dentro de um círculo rosa representa o grupo fosfato introduzido na
enzima pela PKA; + e - indicam os estados ativado ou inibido, respetivamente. As linhas tracejadas representam
reações inibidas. PFK-1, fosfofructocinase-1; F1,6BPase, frutose-1,6-bisfosfatase; PFK-2/F2,6BPase,
fosfofructocinase-2 / frutose-2,6- bifosfatase F2,6BP, frutose-2,6-bisfosfato; LHS, lipase hormono-sensível. Outras
abreviaturas são as mesmas que as utilizadas nas Figs. 9.11, 9.12 e 9.14

fosforilação mediada por PKA (para detalhes sobre a via de síntese de glicogénio, ver Secção 8.2).
Contudo, a fosforilação, nesse caso, causa a inibição da atividade enzimática (Fig. 9.18). A PKA pode
fosforilar diretamente a GS ou pode fosforilar outra proteína-cinase, a glicogénio sintase cinase 3
(GSK3), que também fosforila a GS. Assim, a hiper-fosforilação da GS prejudica a síntese de glicogénio.
Conforme discutido na secção. 9.3.3, a frutose-2,6-bisfosfato é uma molécula-chave na regulação
recíproca da glicólise / gliconeogénese. Este composto é formado / degradado pela ação da enzima
bifuncional PFK-2 / F2,6BPase, que também é um substrato para PKA. A fosforilação mediada por PKA
de Ser32 da enzima bifuncional estimula a F2,6BPase e inibe as atividades de PFK-2, conduzindo à
degradação de frutose-2,6-bifosfato e, portanto, a ativação da gliconeogénese e inibição da glicólise
(Fig. 9.18).
A captação e a capacidade do fígado de usar aminoácidos também são aumentadas em resposta
à glicagina. Isto parece ocorrer principalmente a nível transcricional, devido à indução da expressão
dos genes que codificam o transportador hepático de alanina e as diferentes transaminases, como
alanina aminotransferase, aspartato aminotransferase e tirosina aminotransferase. Esse controlo
permite o uso mais eficiente dos aminoácidos como precursores da síntese de glicose através da via
da gliconeogénese.
O metabolismo lipídico no fígado também é regulado pela fosforilação dependente de PKA. A
enzima que tem sua atividade regulada é acetil-CoA carboxilase (ACC), uma enzima chave na via de
síntese de ácidos gordos (ver Seção 8.3). O ACC fosforilado é inativo, prejudicando a síntese de ácidos
gordos. Além disso, o malonil-CoA, o produto da reação catalisada pelo ACC e um importante
intermediário dessa via, é um potente inibidor do transporte de moléculas de acil-CoA através das
membranas mitocôndricas. Como o malonil-CoA não é formado devido à inibição mediada por
glucagon de ACC, a β-oxidação hepática pode ocorrer durante a situação de hipoglicemia.
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 277

9.4.1.2 Efeitos da Glicagina no Tecido Adiposo


Um importante efeito da glicagina no tecido adiposo é a ativação da lipólise, que garante o aumento da
concentração de ácidos gordos no sangue, disponibilizando estas moléculas como principal fonte de
energia para diferentes tecidos. A fosforilação da lipase hormono-sensível pela PKA no adipócito ativa-
a, aumentando a hidrólise dos triacilglicerídeos em glicerol e ácidos gordos, que são então liberados
na corrente sanguínea (Fig. 9.18; ver também Secção 7.4.1). O glicerol pode ser usado como substrato
para a gliconeogénese, enquanto os ácidos gordos sofrem β-oxidação em diferentes tecidos.

Os glucocorticoides são hormonas esteroides sintetizados a partir do colesterol, no córtex das


glândulas suprarrenais (Fig. 9.19). Nos humanos, os principais glucocorticoides produzidos são o
cortisol (80-90%) e a corticosterona.
A síntese dos glucocorticoides é estimulada pela hormona adrenocorticotrópica (ACTH), uma
hormona peptídica produzida na glândula pituitária anterior. A liberação de ACTH pela hipófise é, por
sua vez, estimulada por outra hormona, a hormona libertadora de corticotrofina (CRH). Esta hormona é
produzida pelo hipotálamo e alcança a hipófise através de um sistema porta (Fig. 9.19). Assim, a
síntese e a secreção de glucocorticoides pelas glândulas suprarrenais estão sob o controlo do eixo
hipotálamo-hipófise-adrenal, num exemplo clássico da integração dos sistemas nervoso e endócrino.
Além disso, há um controlo de feedback negativo da produção de glucocorticoides, na qual a liberação
de ACTH e CRH é suprimida quando os níveis circulantes de glucocorticoides atingem um limiar
específico.
A secreção de glucocorticoide pode ser regulada em dois níveis. O primeiro nível é constitutivo e
segue o ritmo circadiano, levando a um pico na concentração de cortisol no sangue no início da manhã.
Este padrão é ajustado por hábitos individuais através dos ciclos claro/escuro. O segundo nível
corresponde a uma resposta a praticamente todos os tipos de stress físico ou mental (Fig. 9.19), nos
quais a hipoglicemia pode ser incluída.

Fig. 9.19 (a) Eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal e secreção de glucocorticoides. (b) Representação da glândula
suprarrenal, mostrando as duas partes distintas: o córtex adrenal e a medula suprarrenal e as três zonas do córtex,
a zona glomerulosa, a zona fasciculada e a zona reticular. O cortisol e a corticosterona, os glucocorticoides
humanos naturais, são sintetizados na zona fasciculada e na zona reticular (A imagem histológica foi reimpressa
com a permissão do Instituto de Histologia e Biologia do Desenvolvimento, Faculdade de Medicina, Universidade
de Lisboa, FMUL)
278 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

Devido à sua natureza hidrofóbica, os glucocorticoides entram nas células e ligam-se aos recetores
intracelulares (ver Cap. 5). O complexo hormona-recetor migra para o núcleo, onde interage com
regiões específicas do genoma, induzindo ou reprimindo a expressão de vários genes.
O recetor de glucocorticoide pertence à superfamília dos recetores de hormonas nucleares, que
também inclui os recetores para mineralocorticoides, androgénio, progesterona, hormonas tiroideias,
ácido retinoico e retinol. A estrutura de todos esses recetores mostra três domínios distintos: um
domínio N-terminal que interage com o DNA e / ou com outros fatores transcricionais, um domínio
central com dois motivos zinc-finger responsáveis pelo reconhecimento e ligação a sequências
específicas de DNA, e um domínio C-terminal que se liga à hormona.
Quando não ligado à hormona, o recetor de glucocorticoide associa-se a um complexo multi-
proteico, que inclui algumas das proteínas de choque térmico (Hsp). A interação com o glucocorticoide
resulta na dissociação do recetor deste complexo e na sua hiper-fosforilação, que expõe sequências
de localização nuclear que permitem que o complexo hormona-recetor, quando no citosol, migre para
o núcleo. No núcleo, o complexo hormona-recetor forma dímeros e os segmentos de ligação ao DNA
ficam expostos, permitindo a regulação da expressão genética (Fig. 9.20). As sequências às quais o
complexo glucocorticoide-recetor se liga são pequenas sequências palindrómicas de 15 nucleótidos
conhecidas como elementos responsivos a glucocorticoides.

Fig. 9.20 Mecanismo de ação dos glucocorticoides. A ligação intracelular do glucocorticoide ao seu recetor
promove a dissociação do recetor do seu complexo multi-proteico inibitório (Hsp - heat shock proteins) e migra
para o núcleo onde o complexo hormona-recetor se liga aos segmentos do DNA contendo os elementos da
resposta ao glicocorticóide, levando à expressão génica.

9.4.2.1 Efeitos dos Glucocorticoides no Metabolismo Muscular


A regulação do metabolismo das proteínas e dos aminoácidos pelos glucocorticoides está entre as
primeiras ações dessas hormonas a serem caracterizados. Os glucocorticoides parecem ter um papel
crucial na mobilização de proteínas musculares na hipoglicemia, produzindo aminoácidos para a
gliconeogénese hepática e renal. De facto, vários estudos mostraram que os glucocorticoides
estimulam a degradação de proteínas. Os mecanismos dessa regulação ainda não estão
completamente esclarecidos, mas a proteólise induzida por glucocorticoides parece estar restrita aos
músculos.
Medições das diferenças arteriovenosas nos músculos durante o jejum revelaram que ocorreu uma
libertação de aminoácidos musculares e, mais interessante, que 60% deles eram alanina e glutamina
9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia 279

(Tabela 9.3), embora estes dois aminoácidos correspondam a aproximadamente 10% do conteúdo
muscular em proteínas.

Tabela 9.3 Aminoácidos libertados pelo músculo esquelético durante o jejum no Homem (baseado em informação
de Felig. Annu. Rev. Biochem. 44:933-955.1975)
Aminoácido Diferença arteiro-venosa (mol/L) Percentagem Total
Alanina -70 30
Glutamina -70 30
Glicina -24 10
Lisina -20 9
Prolina -16 7
Treonina -10 4
Histidina -10 4
Leucina -10 4
Valina -8 3
Arginina -5 2
Fenilalanina -5 2
Tirosina -4 2
Metionina -4 2
Isoleucina -4 2
Cisteína +10 −
Serina +10 −

Portanto, parece claro que os diferentes aminoácidos produzidos pela proteólise muscular devem
ser preferencialmente convertidos em Ala e Gln antes de serem liberados das células musculares.
Neste ponto, o papel dos glucocorticoides é muito importante. Os genes que codificam as diferentes
transaminases possuem elementos responsivos aos glucocorticoides e, portanto, têm sua expressão
induzida por estas hormonas. O aumento da síntese das transaminases e, consequentemente, p
aumento das suas atividades permite a interconversão de diferentes aminoácidos em Ala e Glu (ver
Seção 7.5), com a subsequente aminação de Glu para gerar Gln (Fig. 9.21).

Fig. 9.21 Integração dos efeitos dos glucocorticoides em diferentes órgãos, mostrando a regulação das vias
metabólicas em cada tipo de célula. O quadrado vermelho com um C representa o cortisol ; os quadrados amarelos
representam o recetor dos glucocorticoides em cada célula ; as enzimas em caixas amarelas são aquelas cuja
síntese é induzida pelo cortisol
280 9 Regulação e Integração do Metabolismo Durante a Hipoglicemia

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