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XVIII Encontro de Iniciação à Pesquisa

Universidade de Fortaleza
22 à 26 de Outubro de 2012

“Coraline e o mundo secreto” em diálogo com a psicanálise.

Nathássia Matias de Medeiros¹(IC)*, Taíse Araújo Lopes ²(IC).


¹ Aluna da Universidade de Fortaleza.
² Aluna da Universidade de Fortaleza.
Nathassiamm@hotmail.com

Palavras-chave: Melanie Klein. Coraline. Psicanálise.

Resumo
O presente trabalho busca ressaltar as possíveis interlocuções entre a teoria Kleiniana e o filme “Coraline e
o mundo Secreto”, no que diz respeito às questões da infância. O filme, de direção e roteiro de Henry
Selick, foi utilizado neste trabalho, pois mostrou-se um material de extrema riqueza para os mais diversos
diálogos com a psicanálise. O trabalho em questão foi realizado durante a disciplina de Ludoterapia,
ministrada pela professora Rosane Muller, e trata-se de um levantamento bibliográfico da teoria Kleiniana,
buscando tecer um diálogo a partir do material observado no filme citado. Através da apreciação deste, foi
possível fazer uma compreensão mais aprofundada das teorias Kleiniana, levantando as temáticas da
transição da posição esquizoparanóide para a posição depressiva. Pode-se concluir que o diretor retratou
de forma clara e simples a angústia vivida pelo bebê na posição esquizoparanóide, O desfecho do filme e,
por conseguinte, a inteligente solução do diretor para este conflito, foi a transição desta personagem para a
posição depressiva. Com isto, o autor em consonância com Melanie Klein, mostra que os processos vividos
na posição esquizoparanóides são cruciais para a constituição da criança, entretanto necessitam ser
ultrapassados.

Introdução
O presente trabalho busca tecer interlocuções possíveis entre a teoria Kleiniana e o filme “Coraline
e o mundo Secreto” no que diz respeito às questões da infância. O filme, de direção e roteiro de Henry
Selick, mostra-se um material de extrema riqueza para os mais diversos diálogos com a psicanálise.
Melanie Klein foi uma psicanalista britânica de origem austríaca, que iniciou seus estudos através
do incentivo de seu então analista, Karl Abraham, seguidor de Freud. O conceito de posições é muito
importante na escola kleiniana, pois o psiquismo funciona a partir delas, e todos os demais
desenvolvimentos são invariavelmente baseados em seu funcionamento. Klein reformulou as ideias
freudianas clássicas, criando um novo campo na psicanálise, a análise de crianças (PEREIRA DE
OLIVEIRA, 2011). Uma das principais divergências de Klein em relação à Freud diz respeito à idade em
que acontece o complexo de édipo. Segundo Klein (1981), o conflito edípico já acontece na segunda
metade do primeiro ano de idade da criança, já se configurando aí a edificação superegóica,
estabelecendo-se, a partir disso, os primeiros sentimentos de angústia e culpa relacionados aos impulsos
agressivos.
Um pilar da teoria Kleiniana, que dirá respeito a este trabalho, é a forma de estruturação psíquica
da criança a partir das noções de posições, chamadas posição esquizoparanóide e posição depressiva.
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Segundo Klein (1982), o bebê, quando está na posição esquizoparanóide experimenta fontes de ansiedade
internas e externas, que perturbam o equilíbrio entre pulsão de vida e de morte, provocando a
agressividade oral. Esta leva o bebê a ter sentimentos de frustração, fortalecendo os impulsos agressivos.
O instinto de morte produz ansiedade e é defletido, convertendo-se em agressividade e, em parte,
projetado no seio mau, que é sentido como ameaçador, dando origem a um sentimento de perseguição.
Esse sentimento é dividido em vários pedaços, confrontando o ego com vários perseguidores. O instinto de
vida também é projetado, criando um objeto de satisfação, o seio bom. O que fica no ego desse instinto de
vida é utilizado para estabelecer relação libidinal com o seio ideal.
Klein (1982) coloca ainda que o curso mais saudável de desenvolvimento para a criança é que ela
passe dessa posição explicitada anteriormente, para uma posição depressiva, onde o ego é fortalecido
para suportar a ansiedade, modificando os processos de defesa, diminuindo-se as ansiedades
persecutórias. Projeção diminui e há identificação com o objeto ideal. O seio bom e mal começam a ser
identificados em uma pessoa total, que pode ser às vezes boa e às vezes má. Os impulsos destrutivos
contra o objeto são inibidos, surgindo a culpa por eles e o desejo de reparação.
O trabalho em questão teve como objetivo a elaboração da teoria Kleiniana através de um filme
que retrata questões pertinentes da infância, chamado “Coraline e o mundo Secreto”, a fim de se
compreender as teorias estudadas na cadeira de Ludoterapia, ministrada pela professora Rosane Muller.
Este filme em específico apresenta um material de extrema riqueza para os mais diversos diálogos com a
psicanálise, sendo bastante usado para como técnica pedagógica.

Metodologia
O presente trabalho trata-se de um levantamento bibliográfico da teoria Kleiniana, buscando tecer
um diálogo a partir do material observado no filme “Coraline e o mundo Secreto”.
A utilização do filme para a discussão teórica foi realizada, pois o recurso cinematográfico mostra-
se uma excelente ferramenta de aprendizagem e de facilitação de discussões teóricas, pois contém a
possibilidade de demonstração da teoria ocorrendo na prática.
Suponho que poderia fazer parte importante da formação
docente a educação do olhar, a educação de sensibilidade,
a educação ética, cuja fonte poderia ser, dentre tantos
possíveis, alguns exercícios de imersão nas linguagens
audiovisuais: exercícios de entrega aos sons, movimentos,
diálogos e cores das imagens do cinema e da televisão;
exercícios de entrega a narrativas que fogem aos
esquemas convencionais das chamadas estruturas de
consolação. (FISCHER, 2009, pág. 02)

Tal articulação teórica ilustrada em imagens mostra-se uma alternativa a uma reflexão puramente
abstrativa, pois proporciona uma experiência mais concreta com a teoria, facilitando o processo de
aprendizagem.

Resultados e Discussão

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A personagem principal, Coraline Jones, é uma menina comum que havia acabado de se mudar
para essa casa antiga e sem graça, perdendo a companhia dos seus amigos de infância e ficando
perambulando sozinha nesse lugar estranho, já que os pais não lhe davam atenção. A aparência da casa e
do jardim era de um lugar sem vida, sem cor, entediante para uma menina de 11 anos. A personagem
explicita no inicio que o seu nome é diferente do nome comum Caroline, sendo ela singular. Já nessa
passagem, pode-se constatar que ela possui uma posição egocêntrica frente ao mundo.
Inicialmente, o filme mostra Coraline sofrendo de frustração em relação aos seus pais e, em
particular, sua mãe. Há uma privação de amor e de atenção por parte da mãe verdadeira. Isso é projetado
e a mãe é vista como a mãe má, o seio mau. Além dessa privação advinda da mãe, Coraline sofre ainda
com diversas outras privações, como de diversão, de amigos, de ocupação de tempo e até mesmo de
alimentação. Ela vive em uma casa completamente distinta do que qualquer criança deseja ou espera ao se
mudar para um lugar com um nome promissor de Palácio Cor de Rosa.
No decorrer do filme, a protagonista encontra uma portinha estanhar que está barrada por uma
parede de tijolos – assim como o nosso inconsciente – entretanto, Coraline consegue acessá-la através
dos seus sonhos. Daí se constitui a máxima de Freud (1900) de que “O sonho é a via real para o
inconsciente”, em que foi pela via do sonho que a personagem entrou nos seus conteúdos inconscientes
como realização dos seus desejos primitivos, assim como uma defesa psíquica para lidar com essa
realidade entediante e angustiante. Outro significante apresentado é do túnel com aparência de útero,
como uma passagem para entrar nesse mundo, representando também a regressão. Ele é uma alusão à
loucura, mostrando no decorrer do filme a relação da perda com a realidade, com se ela caísse no mundo
interno da loucura.
Este “mundo dos sonhos” é projetado para satisfazer totalmente os desejos da personagem
Coraline, como se tudo tivesse sido criado para ela, constituindo-se como um Ego narcísico, ligado à
onipotência infantil. Coraline começa então a alucinar com esse mundo paralelo, onde ela encontra uma
mãe boa, que supre todas as suas necessidades e vontades, o seio bom. A fantasia do objeto ideal se
fusiona com experiências gratificantes de ser amado. Melanie Klein (1982) diz que um recurso defensivo
contra a ansiedade é a projeção do que é mau e introjeção do que é bom. Assim, Coraline projeta somente
as coisas más na sua mãe verdadeira, enquanto introjeta o que é bom, criando a fantasia de uma mãe boa.
A mãe boa do mundo paralelo, mais adiante na estória, decepciona Coraline quando lhe pede que
a deixe costurar botões no lugar dos olhos. Em seguida, ela descobre que a mãe do mundo paralelo devora
olhos e almas de crianças. A mãe vira má porque quer costurar os botões nos olhos de Coraline. Ela
percebe que aquilo vai significar ser aprisionada para sempre naquele mundo de fantasia. Coraline
experiência ansiedade por perder controle de ambos os objetos, ideal e persecutório. Essa mãe que antes
era boa, agora é vista como perseguidora e devoradora. Ela equivale à mãe má da fase esquizoparanóide
e consiste na projeção do instinto de morte do bebê. Segundo Segal (1975), nesse estágio o psiquismo do
bebê divide (split) a mãe em duas, a boa e a má, e o seu Eu ainda não é maduro o suficiente para inte grá-
las em uma só. No filme, é muito bem ilustrada a manifestação agressiva do instinto de morte, um exemplo
é a situação de quando a mãe má torna o amigo de Coraline mudo, de acordo com a própria vontade da
menina, e então costura a boca dele formando uma expressão de sorriso.
Pode-se dizer que o mecanismo de defesa contra a ansiedade utilizado por Coraline seja o de
identificação projetiva. Para Melanie Klein, de acordo com Segal (1975), esse mecanismo produz diversas
ansiedades, “As duas mais importantes são as seguintes: o medo de que o objeto atacado retalie

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igualmente por projeção; a ansiedade de ter partes de si mesmo aprisionadas e controladas pelo objeto no
qual foram projetadas.” (p. 42). Coraline mostra esses processos quando rejeita a mãe má (Bela Dama) e
têm medo de que a mãe má a ataque por isso.
Pode-se perceber, dessa forma, que Coraline, começa a colocar-se em uma posição regredida e
vários elementos mostrados no filme remetem a essa regressão. Temos, por exemplo, o gato que vai se
constituir no decorrer do filme como uma figura de ligação da Coraline com a realidade, mostrando-se como
sendo o único que não perde sua identidade e permanece íntegro numa posição depressiva bem
formulada. É como se ele a ajudasse a realizar a transição da posição esquizoparanóide para a depressiva,
transição que será abordada mais à frente neste trabalho. Talvez não seja incorreto afirmar que a presença
do gato seja um resquício de um cuidado materno que Coraline teve da sua mãe, o que é essencial para
que ela não permaneça na posição esquizoparanóide. É como se o gato representasse traços mnêmicos da
sustentação materna que acompanha Coraline ao mundo paralelo, sempre aconselhando-a e ajudando-a.
Talvez ela tenha conseguido sair da fantasia se fixando nele, porque sua mãe, em algum ponto de sua
estória, conseguiu ser suficientemente boa e restaram traços disso que aparecem através do gato.
Outros elementos que simbolizam a regressão são os vizinhos de Coraline no Palácio Cor-de-rosa,
vale ressaltar o nome da casa como uma contradição do que ela realmente é e também como um
significante de regressão, infantil. O primeiro dos vizinhos é o Sr. Bobinsk, que se apresenta como um
velho doido com pensamentos persecutórios e de grandeza, em que revela ter sido um extraordinário
personagem circense, e, no momento, estava se dedicado a montar um espetáculo extraordinário com
ratinhos de circo saltitantes. Em seguida, Coraline conhece as duas velhinhas que moram no andar de
baixo. Elas se apresentam como artistas do teatro, vivendo num tempo passado em que fizeram sucesso, e
eram amadas por homens. Esses três personagens estão, portanto, paralisados num tempo perdido do
passado, congelados na linha temporal. Eles representam sujeitos com dificuldades de elaborar suas
perdas permanecendo num tempo primário de suas evoluções psíquicas, como numa recusa ao desmame
(do seio parcial para as relações com as pessoas). Vários elementos que apresentam mostram a não
elaboração da perda, sendo eles: cachorros empalhados, que depois viram morcegos símbolos da
agressividade oral do homem; os bombons de muitos anos atrás; a aparência desses personagens, as
maquiagens e a forma que se utilizam dos seus corpos, como se ainda pudessem ser jovens.
Outro objeto simbólico do filme é a boneca parecida com Coraline, exceto pelos botões pretos no
lugar dos olhos. Os olhos de botões são os olhos que não enxergam, constituindo novamente uma
regressão a um tempo primitivo da relação mãe-bebê/boneca, relação de simbiose. A representação da
boneca que não vê remete à própria castração edípica, em que a boneca/criança passa a ser objeto de
gozo absoluto do seu dono, ficando fora do campo simbólico e perdendo o elo com a realidade.
Quando Coraline depara-se com a mãe má e deseja retornar ao mundo original, e, ao retornar, não
encontra mais os seus pais em casa. Coraline passa então a viver sem os pais durante um período e pode-
se dizer que Coraline então percebe sua dependência em relação a seu objeto, que é percebido como
possível de se afastar. Segundo Segal (1975), esse processo é próprio da posição depressiva.
Coraline então descobre que os pais foram aprisionados em um espelho, que cai e é quebrado em
mil pedaços. Para Segal (1975), é exatamente esse o sentimento do bebê na posição depressiva em
relação à mãe: “Além do mais ele também a destruiu como objeto interno, o qual agora é sentido como
estando em pedaços.” (p.83). Coraline sente culpa por ter sido responsável por colocar os pais naquela
situação e empreende um enorme esforço para salvá-los. Pode-se dizer que, a partir desse momento,

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Coraline inicia uma transição da posição esquizoparanóide que ocupava anteriormente para a posição
depressiva.
Conforme a teoria Kleiniana, o sentimento de culpa e o mecanismo de reparação buscam restaurar
o objeto antes atacado e são fenômenos característicos da fase depressiva. A criança aqui “Acreditando
que seus próprios ataques destrutivos foram responsáveis pela destruição do objeto, acredita também que
seu próprio amor e seu próprio cuidado podem desfazer os efeitos da agressividade.” (SEGAL, 1975, p.
85).
Coraline, ao voltar para o mundo paralelo e com a ajuda do objeto mágico entregue pelas suas
vizinhas, começa a ver a realidade do mundo paralelo. Essa radical alteração da visão da realidade do
bebê é marca da elaboração da posição depressiva no bebê. Como afirma Segal (1975), “A integração do
ego e do objeto ocorre simultaneamente” (p.81).
Coraline destrói a Bela Dama ao final, e esta se despedaça. Talvez isso aconteça porque ela não é
um objeto total e sim parcial, ela é pedaços. Sobra apenas uma mão, que aparenta um animal ruim, uma
espécie de aranha, remetendo ao que há de mais primitivo. Dessa forma, algo resta daquela experiência e
é abafado dentro de um poço, entretanto vai sempre permanecer como um fantasma da sua loucura.
A mãe má e a mãe boa são, somente nesse estágio depressivo, integradas e se tornam a mesma
pessoa para o psiquismo do bebê. Coraline começa a aceitar a sua mãe verdadeira, com as suas
qualidades e defeitos. Sua mãe torna-se uma mãe total, que “(...) às vezes pode ser boa, às vezes má,
presente ou ausente, e que pode ser tanto amada como odiada.” (SEGAL, 1975, p. 81). A mesma mãe
então é fonte de experiências boas e más e não há mais divisão entre seio bom e mau.
Ao final do filme, após recuperar os seus objetos de amor e voltar para a realidade, a personagem
passa a ter uma atitude ativa frente a sua realidade angustiante e frustrante, alterando-a. Coraline planta
as suas sementes no jardim tornando ele colorido e com vida, mudando o cenário que se apresentou no
inicio. Ela consegue reunir a vizinhança para interagirem e compartilharem suas vivências.

Conclusão
Quanto ao filme, foi possível observar que este de fato possui intrínseca relação com a teoria
Kleiniana, já que o autor retratou de forma clara e simples a angústia vivida pelo bebê na posição
esquizoparanóide, em que a personagem principal divide a mãe em boa e má – o seio bom e o seio mal,
ficando ela também cindida. A trama vai desencadear na transição desta personagem para a posição
depressiva, mostrando a necessidade de reparação e integração da mãe em uma só, e,
conseqüentemente, da personagem também.
Pode-se dizer, realizando um apanhado geral do filme, que o significado da estória reside no fato
de que a criança precisa passar por situações de frustração e de amor. Dar tudo o que a criança deseja,
como a Bela Dona fez, é prejudicial para a constituição do desenvolvimento saudável do bebê, entretanto,
uma atenção que atenda às necessidades dele também se faz necessário para a sua constituição psíquica.
Os processos vividos na posição esquizoparanóides são cruciais para a constituição da criança, entretanto
necessitam ser ultrapassados para que se possa chegar à posição depressiva.

Referências
FISCHER, Rosa Maria Bueno. Docência, cinema e televisão: questões sobre formação ética e estética.
Revista Brasileira de Educação v. 14 n. 40 jan./abr. 2009.

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FREUD, S. (1900). A interpretação dos Sonhos. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago,
1996. vol. IV.
KLEIN, Melanie. Psicanálise da Criança. 3ed. São Paulo: Mestre Jou, 1981.
KLEIN, Melanie. Algumas conlusões teóricas sobre a vida emocional do bebê. In: Klein, Melanie et al. Os
progressos da psicanálise. 3ed. Guanabarakoogan, 1982.
PEREIRA DE OLIVEIRA, Marcella. Melanie Klein e as fantasias inconscientes. Winnicott e-prints, São
Paulo, v. 2, n. 2, 2007, pp. 1-19.
SEGAL, Hanna. Introdução à Obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Agradecimentos
À Universidade de Fortaleza (UNIFOR). À professora Rosane Muller.

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