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FUNDAMENTOS SOCIOLÓGICOS

E ANTROPOLÓGICOS
DA EDUCAÇÃO
Sumário

UNIDADE 1 – SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA:


COMPREENDENDO NOSSA SOCIEDADE

INTRODUÇÃO ................................................................7
1. O estudo das Ciências Sociais como forma de
conhecimento científico ....................................................7
2. O ambiente para a formação da Sociologia ................12
3. O espaço de surgimento da Antropologia: o que é esta
ciência? .........................................................................16
CONCLUSÃO ...............................................................21
ELEMENTOS COMPLEMENTARES ...................................22
REFERÊNCIAS ................................................................23

UNIDADE 2 – SOCIOLOGIA CLÁSSICA I

INTRODUÇÃO ..............................................................25
1. A sociedade, “um objeto estranho” ..............................25
2. Auguste Comte ..........................................................28
2.1 A Lei dos Três Estágios ..............................................32
3. A herança positiva no estruturalismo de Émile Durkheim 34
3.1 As formas de solidariedade .......................................36
3.2 Anomia e patologia .................................................. 39
3.3 A consolidação de Durkheim .................................... 40
CONCLUSÃO ............................................................... 41
ELEMENTOS COMPLEMENTARES ................................... 42
REFERÊNCIAS ................................................................ 43

UNIDADE 3 – SOCIOLOGIA CLÁSSICA II

INTRODUÇÃO .............................................................. 45
1. Karl Marx, o materialismo histórico dialético ................. 45
1.1 As relações que produzem a vida .............................. 49
1.2 A Ciência deve fazer a crítica .................................... 50
2. A Sociologia de Max Weber ........................................ 51
3. Os tipos de ação segundo Weber ................................ 54
3.1 Racional com relação a fins ...................................... 55
3.2 Racional com relação a valores ................................. 56
3.3 Afetiva ..................................................................... 58
3.4 Tradição .................................................................. 59
CONCLUSÃO ............................................................... 59
ELEMENTOS COMPLEMENTARES ................................... 60
REFERÊNCIAS ................................................................ 61

UNIDADE 4 – DOS CLÁSSICOS EM DIANTE: COMO


PENSAR A SOCIOLOGIA?

INTRODUÇÃO .............................................................. 63
1. Os clássicos ainda importam? ..................................... 63
2. A Sociologia de Pierre Bourdieu .................................. 66
3. Fundamentos sociológico da Educação ....................... 72
4. Sociedade na contemporaneidade e sua relação com a
Educação ...................................................................... 75
CONCLUSÃO ............................................................... 82
ELEMENTOS COMPLEMENTARES ................................... 83
REFERÊNCIAS ................................................................ 84
Unidade
1

SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA:
COMPREENDENDO NOSSA SOCIEDADE
Professor Tiago Valenciano

Objetivos de aprendizagem
da unidade
• Identificar a importância do estudo da Sociologia e da
Antropologia como saberes científicos
• Conhecer o ambiente que propiciou o surgimento da
Sociologia e da Antropologia
Unidade
1 Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade

INTRODUÇÃO
Caro(a) aluno(a), você já parou para pensar sobre a quantidade de pessoas que vivem em sua
cidade? Já refletiu, ainda, sobre a diferença de ideias, estilos de vida e preferências que cada uma
tem? Já analisou que essas pessoas estão permanentemente pensando em algum assunto? Essas
e outras perguntas serão debatidas nesta unidade, que tem como objetivo demonstrar e analisar
o processo de formação de nossa sociedade atual a partir de uma visão muito particular: a das
Ciências Sociais.

O enfoque partirá da importância de estudarmos a Sociologia e a Antropologia


enquanto saberes científicos, isto é, enquanto áreas de conhecimento relevantes para o
processo de formação e aprimoramento de cada carreira acadêmica. Veja: não pretendemos
fazer uma simples defesa do conteúdo dessas áreas, mas dialogar com os demais campos do
conhecimento, ressaltando a necessidade de nos conhecer primeiramente para posteriormente
analisar a realidade do outro.

Nosso itinerário inicia na constituição das Ciências Sociais enquanto forma de conhecimento
científico, ou seja, como essa área é subdividida e o que ela pretende estudar. Em seguida, vamos
demonstrar o ambiente que propiciou o surgimento da Sociologia a partir das transformações sociais
que ocorreram na Europa no Século XIX. Por fim, o terceiro aspecto analisa o nascimento e a relevância
da Antropologia no universo acadêmico, sobretudo em uma disciplina em que o(a) futuro(a) docente
irá lidar diariamente com a humanidade. Assim, nosso caminho inicia na Sociologia e na Antropologia,
demonstrando o papel de cada uma na abordagem acadêmica.

Portanto, pretende-se nesta unidade apresentar um panorama das Ciências Sociais e da formação
da atual civilização ocidental, apontando soluções para a resposta da “grande” questão que envolve esses
conhecimentos: afinal, o que foi, o que é e o que poderia ser nossa sociedade?

1. O ESTUDO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS COMO


FORMA DE CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Se utilizarmos a tática de separar o nome “Ciências Sociais”, teremos um paradoxo na construção
desse conceito. A ciência é uma forma de organizar sistematicamente o conhecimento adquirido, ou
seja, de dispor algo que aprendemos ordenadamente para que esse “novo” conhecimento possa ser
facilmente entendido. É também uma forma de pensar e agir, isto é, algo que pensamos e fazemos de
determinada maneira.

Essa forma de analisar o que é a ciência também nos faz compreender o que ela aponta. Em geral,
a palavra “ciência” tem relação com a pesquisa e com a descoberta de novos conhecimentos, que serão
posteriormente utilizados em nosso cotidiano. Qual é, porém, a necessidade de haver uma Ciência Social,
um conhecimento da sociedade e sobre ela? É justamente neste ponto que o paradoxo citado acontece.

A sociedade é um grande corpo em movimento. Tal qual uma máquina em que cada peça
é responsável por efetuar determinada função, ela possui seus vícios e virtudes, suas vantagens e
desvantagens, que estão presentes invariavelmente em qualquer uma das áreas. Se, por um lado, uma área
pode ser muito especializada em fabricar produtos de madeira, a outra pode ser primaz na elaboração de
material em plástico. Observe que as especialidades fazem com que a sociedade seja formada e moldada
de acordo com o interesse de cada ser que a integra.

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Unidade
Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade 1

Nota-se, ainda, que a sociedade é dinâmica, que se inventa e reinventa a cada novo produto, nova
moda, nova forma de aprendizado e de trabalho ou, ainda, a cada novo século. Por esse caráter — de
permanente mudança social construída diariamente — é que o paradoxo se estabelece: ao passo que
a ciência é fixa, com sua metodologia bem delimitada e que busca um “padrão” de comportamento e
atitude para que se obtenha um resultado, a sociedade se move, sendo construída diariamente por todos
nós. Portanto, fica o questionamento: como se podem tirar leis gerais a partir do conhecimento científico
para a compreensão da sociedade?

A busca pelo conhecimento

Fonte: Pixabay.

Esse é o desafio das Ciências Sociais desde sua gênese: explicar a partir de mecanismos
científicos o comportamento da sociedade, que se move constantemente em busca de uma realidade
diferente daquela que nós vivenciamos. Talvez por esse estilo peculiar é que o conteúdo aprendido
seja tão abstrato e tão difícil de ser medido e tocado. Nosso esforço está em demonstrar como as
ciências sociais se tornaram um importante e necessário instrumento para a análise deste “mundo
de maluco” em que vivemos, que clama a cada nova descoberta por uma análise apurada de nossa
realidade social.

Costumamos argumentar que as Ciências Sociais anseiam pelo conflito e pelo debate. De fato:
sem os problemas entre as relações humanas seria muito difícil imaginar como o cientista social teria
seu objeto de estudo, isto é, a sociedade, caracterizada pelas disputas sociais existentes. Desta forma,
reafirmamos o ponto de largada da trajetória de formação dessa área: o conflito entre os seres humanos.

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Unidade
1 Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade

Não tratamos aqui das brigas entre vizinhos e familiares ou as que acontecem em um jogo de futebol,
mas sim as disputas quase invisíveis na sociedade, que o cientista social tornará objeto de seu estudo.
Ou seja, os espaços de disputa política em que um grupo debate contra outro(s); a afirmação de práticas
culturais e os conflitos ocasionados por essas políticas afirmativas com as demais culturas existentes; a
dinâmica competitiva do mercado de trabalho e, por fim, as próprias relações sociais, palco de todos os
primeiros conflitos.

Observe que “conflito” é a palavra-chave para compreender as Ciências Sociais. Quais são, porém,
as origens dessa área de conhecimento? Qual a relevância de estudarmos esse tipo de conteúdo no Ensino
Superior? Além disso, será que as Ciências Sociais irão colaborar com a formação acadêmica? São essas
as perguntas que pretendemos responder neste tópico.

Nossa jornada se inicia na Grécia Antiga, em 500 a. C., quando a sociedade se diferenciava
das demais por um motivo: foi a primeira vez que se tentou organizar uma corrente de pensamento
sobre a vida humana em sociedade. Pelo desenvolvimento típico da Democracia e do contato
com diferentes culturas, os gregos puderam não depender necessariamente da Igreja e do Estado
— detentores do poder político, econômico e ideológico daquele período — para pensar sobre a
natureza dos homens e da sociedade.

Prova desse argumento são as ideias de Platão e Aristóteles sobre a melhor forma de organizar
a política em sociedade, que ganharam força e vigor na Grécia Antiga e até hoje balizam discussões
sobre a política. Cada qual à sua maneira, ambos proporcionaram o pioneirismo da Grécia, que
recebeu o título distintivo de “berço da civilização ocidental”, pela forma “evoluída” que sua
população se comportava.

Apesar dos avanços proporcionados pelos gregos, a primeira universidade só surgiu no século
XII, com a consolidação dos intelectuais no mundo acadêmico após a ruptura do comando da Igreja
sobre a educação. Neste hiato, as produções isoladas refletiam o comando da Igreja sobre a condição
individual e social de pesquisa, o que não contribuiu para o progresso das Ciências Humanas, sobretudo.
A instituição das universidades delimitou, de alguma forma, uma separação entre o mundo “exterior”
(a sociedade em si) e o mundo “interior” (as instituições de ensino), o que levava novamente à reflexão
sobre a importância da discussão da vida em sociedade.

Collins (2009) ratifica a relevância do surgimento das universidades para as pesquisas sobre as
humanidades:
Com o surgimento das universidades e especialmente em virtude da criatividade da faculdade
filosófica, os intelectuais ganharam seu próprio “lar” e conquistaram maior clareza acerca
de seus próprios propósitos. A história do pensamento humano a partir de então oscilou
entre uma interação entre a comunidade intelectual e o mundo exterior e um isolamento das
universidades em relação a questões práticas e ortodoxias ideológicas, bem como entre as
formas como essas questões penetravam nesse ambiente, oferecendo aos intelectuais novas
demandas e novos problemas (COLLINS, 2009, p. 19).

Observamos que, apesar das universidades terem surgido como espaço para a transmissão
do conhecimento, precisavam dialogar mais com a comunidade, uma crítica que permanece até
os dias de hoje. O papel, portanto, das Ciências Sociais neste contexto é estabelecer a conexão
entre o acadêmico e o popular, entre a erudição do conhecimento e a praticidade das pessoas,
entre a teoria e a prática.

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Unidade
Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade 1

Somente após o Renascimento é que as Ciências


Sociais começaram a assumir seu espaço de atuação.
Contudo, convém ressaltar que o período conhecido
como Renascença (que ocorreu entre o fim do século
XIV e início do   XVII) teve grande relevância para
compreender o campo de trabalho de um cientista
social. Tal argumento se baseia nas transformações econômicas, políticas e sociais do período,
com fenômenos que alteraram as estruturas da sociedade desde então. Além da valorização
de elementos da Antiguidade Clássica (por isso o nome “Renascimento”), citamos a transição
do modo de produção feudal para o capitalista como chave para o entendimento das cisões
ocasionadas pelo turbilhão de transformações sociais.

Fonte: Elaborado pelo autor.

A ruptura cultural ocasionada a partir do Renascimento e do fim da sociedade medieval na Europa


oportunizou que o homem (pautado pelo antropocentrismo) passasse a figurar como centro das
preocupações de pesquisas acadêmicas, discussões filosóficas e da sociedade em si. O foco direcionado
para o homem enquanto “centro do universo” abriu espaço para o protagonismo das Ciências Sociais,
que são basicamente um produto das transformações ocorridas no período entre e a Revolução Industrial
e a Revolução Francesa (principalmente após esses períodos), conforme trataremos a seguir.

É nesse cenário que as Ciências Sociais começaram a ganhar forma no campo de conhecimento
das humanidades. A primeira a ganhar autonomia de atuação para a reprodução e produção do saber foi
a Antropologia. A partir das descobertas de sociedades tribais na América, na África e no Pacífico com
as grandes expedições marítimas, o homem europeu passou a conhecer realidades muito distintas das
que já estava acostumado no velho continente.

Com tais descobertas, a explicação medieval de que a sociedade europeia era uma “operação
divina” deixou de imperar, surgindo assim diversas teorias para explicar a evolução da sociedade e do
seu relacionamento com o outro. Um processo de estranhamento, isto é, de olhar o outro de forma
diferente para conhecer melhor a si mesmo, obteve sucesso na relação da Antropologia com as demais
ciências. Paralelo a isso, a Antropologia dialogou com a Medicina, buscando explicações biológicas para
a existência de um outro não europeu.

Outra vertente de atuação da Antropologia é a chamada Antropologia Cultural ou Histórica,


que tem por objetivo estudar os padrões de cultura de determinados grupos sociais ou de sociedades
específicas, a fim de compreender como essas comunidades estão organizadas, quais são seus costumes,
sua organização interna, seu relacionamento com outras sociedades, entre outros aspectos.

Após essa divisão de áreas de atuação entre o antropólogo de campo (que trabalhava em conjunto
com pesquisas na seara da Biologia e da Medicina) e o antropólogo histórico-cultural, a Antropologia
passou a ter de forma evidente seu objeto de pesquisa, consolidado na segunda metade do século XIX:
o homem e seu duplo relacionamento, com seu eu interior e com o mundo exterior, ou seja, a sociedade
propriamente dita.

Em segundo lugar, destacamos a Sociologia como ciência que se estabeleceu no campo das
Ciências Sociais. Por seu caráter mais generalista, as raízes para seu estabelecimento são as mais diversas:
inspirou-se na História, na Filosofia, na Política, na Economia, na Antropologia, na Psicologia, entre
outras. Abrangente em relação aos objetos de pesquisa, a Sociologia pode ser considerada como a mãe
de todas as Ciências Sociais.
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Unidade
1 Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade

Produto indireto das Revoluções Burguesas, a Sociologia tem como foco o estudo da sociedade
e das diversas implicações que essa relação pode estabelecer. Ela nasce “da constatação de que a ordem
social moderna desorganizou as formas de convívio social, gerando problemas novos que reclamavam
interpretações e soluções inovadoras” (SELL, 2012, p.18). Em suma: a Sociologia está destinada a
analisar as relações sociais e tentar fixar leis gerais do comportamento da sociedade. Como exposto, essa
paradoxal tarefa motiva os sociólogos a continuar atuando na área, tentando decifrar uma encantadora
personalidade: o homem atuando em sociedade, seja ativa ou passivamente.

A preocupação em estabelecer a Sociologia como ciência foi um dos objetivos de Auguste Comte,
considerado por alguns como o “pai da Sociologia”. Ele foi responsável por popularizar a expressão
“Física Social”, que posteriormente seria conhecida como a Sociologia propriamente dita. A Física Social
de Comte reflete, assim, dois conceitos distintos em união para um mesmo ambiente: a sociedade. Ao
passo que a Física estuda o movimento dos corpos em sociedade, a Física Social nada mais é do que o
estudo da dinâmica da ação das pessoas socialmente, as quais são influenciadas pela sociedade, ditando
suas normas, as normas do trabalho e do seu campo próprio de atuação.

Foi neste contexto que a Sociologia passou a intervir nas discussões políticas da sociedade. Daí
nasce a terceira e mais recente das Ciências Sociais: a Ciência Política. Dialogando com a política
permanentemente — e, por que não, praticando a política desde seu nascimento —, a Sociologia
estabeleceu uma relação de proximidade com a política, até mesmo conversando com a Filosofia, que
em sua origem se destinou a estudar os comportamentos políticos.

A Ciência Política teve origem no final do Século XIX nos Estados Unidos e buscava se estabelecer
desde então como uma ciência “autônoma”, isto é, uma área de atuação própria, sem ser confundida com
a Filosofia, a Sociologia ou encarada como uma subárea do Direito, por exemplo. Por esse caráter recente
e multifacetado, tem quebrado barreiras quanto ao pensamento político, na busca de estabelecer o seu
principal objeto de pesquisa: as relações de poder.

Além de estudar as relações de poder, a Ciência Política tem o desafio de explicar como o Estado
é constituído, seja enquanto ente governamental ou como espaço em que os políticos irão expor suas
ideias, conduzir os rumos de uma determinada população, enfim, fazer política. A última vertente
de estudo da Ciência Política são os Sistemas Políticos, que têm por finalidade estruturar um Estado
específico, além de incorporar as regras de disputas eleitorais, por exemplo. Observamos, assim, que
há um ingrediente específico para que haja um cientista político analisando algum fenômeno em
geral: o poder e o local onde esse poder é aplicado, normalmente um Estado, um partido político ou
um conjunto de forças políticas.

As três áreas das Ciências Sociais (Antropologia, Sociologia e Ciência Política) tentam explicar,
ora em conjunto, ora em separado, a complexa sociedade em que vivemos. Cultura, relações sociais e
relações de poder são as palavras-chaves que estruturam o grande leque do aprendizado que essas áreas
podem nos proporcionar, variando de acordo com o interesse de cada pesquisador.

Você se lembra de que, no início deste tópico, foi visto que a ciência busca um padrão de
comportamento que a sociedade, às vezes, não pode oferecer por seu dinamismo próprio? Após nossos
últimos apontamentos, esse paradoxo ficou mais fácil de ser enxergado. Isso porque as Ciências Sociais
não são exatas, mas são múltiplas e dependem de diversos ingredientes para que haja um produto final,
uma conclusão de determinado fenômeno social.

É assim, caro(a) aluno(a), que as Ciências Sociais justificam sua presença neste livro sobre
os fundamentos sociológicos e antropológicos da Educação: não é possível educar sem conhecer a
diversidade de aspectos que formam a sociedade em que vivemos. É muito difícil educar e transmitir o

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Unidade
Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade 1

conhecimento somente a partir da sua própria realidade, sem considerar que o processo de formação
educacional está em constante movimento e em constante mudança.

Quer uma prova desse argumento? Basta olharmos para a trajetória da educação brasileira nos
últimos anos. Saímos de uma educação rígida, em que as carteiras da sala de aula eram enfileiradas;
em que os alunos, na maioria das vezes, não tinham a palavra durante as aulas; em que o professor era
a autoridade absoluta e em que o giz e o apagador faziam sucesso. Hoje, a educação mudou. Os alunos
aprendem muitas vezes em grupos, nos quais o diálogo e a troca de conhecimento vale muito mais do
que diversas aulas. O professor, ao mesmo tempo que transmite o conhecimento, recebe-o dos alunos.
Além disso, o ensino a distância se tornou uma realidade possível e praticável para quem não pode estar
fisicamente presente em uma carteira escolar.

Note que a educação se transforma a partir das mudanças que a sociedade impõe. Da mesma forma,
a sociedade impõe novos desafios à educação e está também em processo diário de aprimoramento,
devendo aderir aos anseios das pessoas. Essa via firmada entre a sociedade e a educação jamais pode
ser interrompida, uma vez que elas estão interligadas e são interdependentes entre si, o que justifica a
necessidade das Ciências Sociais durante a formação educacional no Ensino Superior.

A trajetória percorrida até aqui procurou oportunizar a você, aluno(a), a possibilidade de conhecer
e avaliar a importância das Ciências Sociais diante dos fundamentos da educação, analisando como e
porque a Antropologia, a Sociologia e a Ciência Política são sua base principal.

Dessas três áreas, neste livro vamos nos concentrar somente em duas: a Antropologia e a Sociologia,
analisando a relevância de ambas para a educação. Obviamente, as duas dialogam entre si quando o
assunto é educação e suas bases, contribuindo para a formação do cidadão atuante, que irá compreender
e transmitir os ensinamentos aqui adquiridos durante sua atuação profissional.

Nosso próximo objetivo é avaliar, de forma pontual, o panorama em que a Antropologia e a


Sociologia foram constituídas. A apresentação deste cenário é importante para verificarmos como e
porque essas duas áreas importam para fundamentar as bases da educação. Vamos lá!

A metodologia de ensino da sociologia é algo presente


em mais de duzentos anos da formação escolar, seja ela
no ensino médio ou superior, abordando autores, ideias e
contextos em que visualizamos em nosso cotidiano. O artigo
que você pode acessar no link abaixo, da Universidade Federal
da Paraíba, mostra na prática como acadêmicos puderam
enxergar esta relevância, bem como dialogaram com a sociologia ao longo de sua formação
profissional. Confira o material em: <http://www.prac.ufpb.br/anais/IXEnex/iniciacao/
documentos/anais/4.EDUCACAO/4CEDFEMT01.pdf>.

2. O AMBIENTE PARA A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA


Em um curto período, a produção no modo de vida rural da Europa terminou, e as pessoas passaram
a conviver na sociedade urbana. Nesse cenário, a tendência para o “caos” é grande, concorda? Se uma
localidade tem capacidade de receber certo número de moradores, com a expansão sem planejamento
ela tende a entrar em colapso. Foi isso que ocorreu com as transformações sociais derivadas do modo de
produção capitalista na Europa.
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Unidade
1 Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade

Com o desenvolvimento da indústria e a capacidade produtiva integrada a uma cadeia mundial


de produção, há uma mudança nas condições de vida dos seres humanos. Essa mudança se fez sentir,
primeiramente, na Europa, após a Revolução Industrial, e depois se propagou para diversas regiões do Planeta.

A indústria sediada na Europa necessitou cada vez mais de matéria-prima vinda de diversas partes
do mundo, assim como o mundo passou a consumir em uma escala crescente os produtos industriais.
Nesta cadeia produtiva nas áreas industriais e nos centros econômicos, nesta fase do capitalismo, ocorre
um crescimento da população urbana. Uma realidade que trará impasses e incertezas no decorrer dos
séculos XIX e XX. Isso levará um número crescente de pensadores sociais a buscar entender qual será o
futuro da sociedade diante de uma concentração populacional nunca vista na história humana. A cidade
se tornou um ambiente de tensão, que exigiu preocupação por parte dos cientistas europeus.

Se a ciência foi um instrumento de dominação para a conquista de novos territórios, para a


expansão do capitalismo ocidental fundado na empresa mercantil e, posteriormente, industrial, agora
deveria atender à ordem social instituída na própria Europa. Entender as relações sociais constituídas
no Ocidente se tornou uma prioridade. Buscar uma ação para sua transformação será o objeto de
preocupação das forças políticas e também dos cientistas.

O crescimento urbano desse período pode ser medido pela vida em Londres, a primeira grande
cidade industrial do mundo, no centro de uma economia que já foi por quatro séculos a maior do
mundo, a inglesa. Londres praticamente triplicou a sua população entre os séculos XVIII e XIX. A massa
populacional que passou a migrar para a cidade, com o chamado êxodo rural, fez crescer uma cidade
desconexa e desordenada.

A sociedade urbana em formação

Fonte: Pixabay.

Os operários se concentraram em torno das fábricas ou em cortiços. Sem vias planejadas, as cidades
estavam com problemas de ocupação. As moradias eram mal ventiladas, muitas delas tinham apenas um
cômodo, onde ficava toda família, faltava saneamento e todos estavam expostos a um ambiente úmido
e insalubre que provocava doenças, como tifo, cólera, varíola e escarlatina. Essas epidemias passaram
a preocupar o Estado. A busca de um saneamento básico levaria, entre outras atitudes, a promover o
zoneamento urbano e as políticas de saúde pública.
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Unidade
Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade 1

A desigualdade de condições ficou expressa também na vida das classes mais abastadas, que tinham
acesso aos benefícios dos produtos que a economia mundial permitia. A elite londrina, por exemplo,
consumia produtos de luxo vindos das mais diversas partes e, também, aqueles que eram produzidos na
indústria do seu país. As classes populares, em sua grande maioria formada de operários, não tinham
acesso a esses bens.

Outros problemas também surgiram com a formação dos núcleos urbanos industriais, com a
concentração populacional. O alcoolismo, o crescimento dos homicídios, os latrocínios e a prostituição
são alguns deles. Até mesmo os manicômios começaram a se propagar como uma alternativa para o
tratamento de pessoas que demonstravam desequilíbrio de comportamento. Essas situações se justificam
diante da condição de vida do operariado, que trabalhava em torno de 15 horas por dia, sem descanso.
Até mesmo crianças de 10 anos eram encontradas nas fábricas sujeitas às mesmas jornadas dos adultos.

A massa humana que veio do campo, onde trabalhava subordinada ao regime feudal fundado na
subsistência, agora se via em uma condição oposta. Inserido em um regime frenético de trabalho que
nada lembrava as relações no mundo rural, o operariado viu se desfazerem os vínculos sociais que foram
a base de sua identificação. A economia capitalista fez emergir as relações centradas na racionalidade e
na busca de orientar a convivência social pela produtividade. A vida passou a valer na proporção em que
gerava a riqueza e na lógica de mercado.

Dentro dessa lógica do mercado de trabalho, a quantidade de seres humanos disponíveis para
trabalhar nas fábricas apresentava uma qualificação básica. A empresa capitalista estava ainda dando os
seus primeiros passos nos séculos XVIII e XIX, longe de uma complexa rede de produção com setores
específicos em um alto grau de qualificação como temos hoje. A sobrevivência passa a custar a sujeição
a uma condição desumana de trabalho.

As condições de trabalho da classe operária durante a Revolução Industrial e sua propagação pela
Europa foi tema de análise de Eric Hobsbawm em sua obra Era das Revoluções. O historiador inglês
estabelece uma relação direta entre a quantidade de mão de obra ofertada para a produção, o nível de
qualificação e as condições de trabalho:
Conseguir um número suficiente de trabalhadores era uma coisa; outra coisa era conseguir
um número suficiente de trabalhadores com as necessárias qualificações e habilidades. A
experiência do século XX tem demonstrado que este problema é tão crucial e mais difícil
de resolver do que o outro. Em primeiro lugar, todo operário tinha que aprender a trabalhar
de uma maneira adequada à indústria, ou seja, num ritmo regular de trabalho diário
ininterrupto, o que é inteiramente diferente dos altos e baixos provocados pelas diferentes
estações no trabalho agrícola ou da intermitência autocontrolada do artesão independente.
A mão de obra tinha que aprender a responder aos incentivos monetários. Os empregadores
britânicos daquela época, como os sul-africanos de hoje em dia, constantemente reclamavam
da “preguiça” do operário ou de sua tendência para trabalhar até que tivesse ganhado
um salário tradicional de subsistência semanal, e então parar. A resposta foi encontrada
numa draconiana disciplina da mão de obra (multas, um código de “senhor e escravo” que
mobilizava as leis em favor do empregador etc.), mas acima de tudo, na prática, sempre que
possível, de se pagar tão pouco ao operário que ele tivesse que trabalhar incansavelmente
durante toda a semana para obter uma renda mínima [...]. Nas fábricas onde a disciplina
do operário era mais urgente, descobriu-se que era mais conveniente empregar as dóceis
(e mais baratas) mulheres e crianças: de todos os trabalhadores nos engenhos de algodão
ingleses em 1834-47, cerca de um quarto eram homens adultos, mais da metade eram
mulheres e meninas, e o restante de rapazes abaixo dos 18 anos. Outra maneira comum de
assegurar a disciplina da mão de obra, que refletia o processo fragmentário e em pequena
escala da industrialização nesta fase inicial, era o subcontrato ou a prática de fazer dos
trabalhadores qualificados os verdadeiros empregadores de auxiliares sem experiência
(HOBSBAWM, 1982, p. 66-7).

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Unidade
1 Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade

Em certa maneira, até nossos dias, a qualificação de mão de obra é um elemento determinante
para a forma como se estabelece a relação de trabalho e sua remuneração. Como Hobsbawm aponta,
nos primeiros momentos da Revolução Industrial essa condição já se apresentava. Ela se agravou com a
massa de pessoas disponíveis para serem utilizadas pela produção capitalista, mas o grau de qualificação
se ampliou e se aprofundou. Com isso, a maioria dos seres humanos disponíveis hoje para o trabalho
não é utilizada.

Nos primeiros tempos da Revolução Industrial, os trabalhadores eram recém-chegados da zona


rural, tinham uma padronização de qualificação, mas eram utilizados em funções que exigiam um
grau baixo de especialidade. As operações de trabalho poderiam ser ensinadas sem dificuldade pelos
empregadores, partindo de capacidades que os trabalhadores já tinham adquirido em sua vida rural.
Como afirma Hobsbawm, os menos qualificados eram, muitas vezes, entregue ao comando de um
trabalhador mais qualificado por meio da terceirização das relações de produção.

As relações de trabalho são marcadas pela violência sem nenhuma garantia. Não há, nos primeiros
tempos da indústria, uma legislação favorável aos operários. A violência das relações no ambiente
industrial se estende pela vida urbana e se expressa no cotidiano das cidades europeias durante o
nascimento da indústria. Uma violência que terá formas distintas de ser compreendida e de gerar reação.

Para o poder público, buscando atender ao interesse da empresa nascente, será fundamental
estabelecer mecanismos de controle social para garantir a ordem nos espaços urbanos. Policiamento
ostensivo nas ruas e instituições para o aprisionamento e tratamento daqueles que não se adaptavam à
vida urbana era um exemplo.

As escolas voltadas às classes populares e mantidas pelo poder público teriam como característica
retirar os ociosos do mundo urbano e preparar os cidadãos para o trabalho. A educação, que sempre
existiu como forma de organização da vida social e preparação das futuras gerações para a necessidade
coletiva, agora deveria exercer essa função visando ao mundo da empresa capitalista, que se generalizava.
Entre os movimentos operários que surgiram na Europa, alfabetizar os filhos era uma garantia de não
reproduzir a relação que os pais estavam sujeitos para os filhos.

Para enfrentar a violência que o mundo urbano apresentava, a classe operária se organizou
em associações e sindicatos. Assim, enfrentou o ambiente de trabalho imposto pelas empresas e os
empresários capitalistas, dando início aos confrontos em forma de “quebra de máquinas” e paralisação
de trabalhadores. Aconteceram greves ocasionadas pela luta por melhores condições de trabalho, como
o Movimento Cartista na Inglaterra do século XIX.

Os problemas sociais urbanos chegaram a um determinado grau em que até mesmo as forças
sociais e políticas opostas de trabalhadores e patrões passaram a lutar contra problemas comuns e se
associar em campanhas para romper comportamentos que se mostravam nocivos à sociedade. Um
desses “inimigos comuns” foi o consumo de bebidas alcoólicas. Como afirma Hobsbawm:
Por outro lado, havia muito mais pobres que, diante da catástrofe social que não conseguiam
compreender, empobrecidos, explorados, jogados em cortiços onde se misturavam o frio e a
imundice, ou nos extensos complexos de aldeias industriais de pequena escola, mergulhavam
em total desmoralização. Destituídos das tradicionais instituições e padrões de comportamento,
como poderiam muitos deles deixar de cair no abismo dos recursos de sobrevivência, em que
as famílias penhoravam a cada semana seus cobertores até o dia do pagamento, e em que o
álcool era “a maneira mais rápida para se sair de Manchester” (ou de Lille ou de Borinage).
O alcoolismo em massa, companheiro quase invariável de uma industrialização e de uma
urbanização brusca e incontroláveis, disseminou “uma peste de embriaguez” em toda a
Europa. Talvez os inúmeros contemporâneos que deploravam o crescimento da embriaguez,
como da prostituição e de outras formas de promiscuidade sexual, estivessem exagerando.

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Unidade
Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade 1

Contudo, repentina aparição, até 1840, de sistemáticas campanhas de agitação em prol da


moderação, entre as classes médias e trabalhadoras, na Inglaterra, Irlanda e Alemanha, mostra
que a preocupação com a desmoralização não era nem acadêmica nem tampouco limitada a
uma única classe. Seu sucesso imediato teve pouca duração, mas durante o restante do século
a hostilidade à embriaguez permaneceu como algo que tanto patrões quanto movimentos
trabalhistas tinham em comum (HOBSBAWM, 1982, p. 223-4).

Podemos considerar que diante desse ambiente, que trazia condições de degradação para parte
considerável dos trabalhadores (às vezes até para a classe média e para o patronato), a ação pública
deveria ser pontual e estar dentro de uma política geral de governabilidade da vida social urbana. Ou
seja, era preciso uma ação dos governos municipais das cidades industrializadas. Eles necessitavam ter
a capacidade de colocar, diante dos conflitos que se intensificam e de práticas que denegriam as forças
sociais, mecanismos eficientes de ação.

Se a necessidade de racionalizar a vida social era uma emergência para o poder público, ela estaria
na pauta de discussão do mundo científico. As correntes de pensadores que se debruçaram sobre os
problemas da vida urbana e das condições humanas na sociedade industrial são sensíveis a partir do
século XVIII. Contudo, foi no século seguinte que essa preocupação se intensificou.

Das correntes liberais ao Socialismo, as teses políticas emergiram à procura de dar resposta ao
contexto tenso que o mundo industrial urbano apresentava. Os valores que orientavam o homem
europeu tinham se alterado e seriam um modelo para as demais formas de compreensão que surgiram
em diversas partes do mundo. Se o movimento liberal e socialista surgiu na Europa, sua propagação
pela América, Ásia e África foi corrente. A influência da intelectualidade europeia se demonstrou com o
surgimento dos Estados nacionais em áreas antes colonizadas pelos europeus.

Paralelamente a essas correntes, e muitas vezes sendo um contraponto a elas, os movimentos


herdados das correntes naturais também emergiram. É o caso do Positivismo, inaugurado por Comte na
França. As teses do pensador francês viriam a inspirar aqueles que consideravam que a análise da vida
social deveria estar fundada nos mesmos critérios dos fenômenos biológicos.

O canal do YouTube Pensamento Crítico comentou o


livro "A Era dos Extremos", de Eric Hobsbawn, destacando o
didatismo do livro e a importância de uma leitura crítica do autor.

Acesse: <https://www.youtube.com/watch?v=IJdGy-14s6o>.

3. O ESPAÇO DE SURGIMENTO DA
ANTROPOLOGIA: O QUE É ESTA CIÊNCIA?
Quando falamos sobre o surgimento de uma nova ciência, logo vem à mente algo inédito,
fascinante e voltado para um “conhecimento superior”. Porém, a inserção de novos conhecimentos nas
humanidades é um fato que ocorre “naturalmente”, com a necessidade de especificar as subáreas do
pensamento humano.

Demonstramos que a Sociologia é produto das ideias de sua época, um período de grande
transformação social baseado nas mudanças sociais da Europa dos séculos XIX e XX. O itinerário de
formação da Antropologia não foi diferente, já que também é fruto da busca por conhecer o “novo”,

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Unidade
1 Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade

por descobrir algo que encantava: o contato com novos povos e novas culturas por intermédio das
grandes navegações.

Como pensar o surgimento de uma nova ciência?

Fonte: Pixabay.

Antes de falarmos de uma metodologia para explicar o que é e como estudar a Antropologia,
podemos afirmar que já existia uma espécie de “pensamento antropológico”, isto é, já havia um
número considerável de pensadores refletindo sobre os desdobramentos do estudo do homem e de
sua relação consigo e com a sociedade. A questão fundamental da Antropologia é, portanto, entender
como nós, seres humanos, tão parecidos em aspectos biológicos, podemos ser tão diferentes em
aspectos culturais.

Essa questão começou a ser respondida a partir da cultura europeia, dominante nos primórdios da
Antropologia. Diante do expansionismo europeu com as grandes navegações — iniciadas em Portugal
e na Espanha e, posteriormente, na Inglaterra, na França e nos demais países — podemos verificar que
a relação entre dominante e dominado passou a pautar as principais questões voltadas à Antropologia.
Afinal, a força do homem branco europeu era suficiente para dominar culturalmente um “novo homem
descoberto”? Quem detinha, então, o domínio das relações culturais: o dominante (aqui visto como o
Europeu) ou o dominado de qualquer localidade outrora “descoberta”?

Estabeleceu-se, assim, um paradoxo para a Antropologia: como agir diante dessa situação? Em
Aprender Antropologia, François Laplantine faz um resgate histórico dessa ciência, trazendo à luz uma
importante contribuição acerca da fundamentação desse “novo” conhecimento.
O projeto de fundar uma ciência do homem — uma antropologia — é, ao contrário, muito
recente. De fato, apenas no final do século XVIII é que começa a se constituir um saber
científico (ou pretensamente científico) que toma o homem como objeto de conhecimento, e
não mais a natureza; apenas nessa época é que o espírito científico pensa, pela primeira vez,
em aplicar ao próprio homem os métodos até então utilizados na área física ou da biologia
(LAPLANTINE, 1987, p. 7).

17
Unidade
Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade 1

Nota-se que a Antropologia é uma ciência racional, direcionada ao conhecimento do homem por
meio de seu contato com a sociedade, analisando as influências que um tem sobre o outro. Diante dessa
face de troca do saber entre o individual e o social, ela se constitui, formando a cultura, um dos seus
principais objetos de análise.

Como a Antropologia está dividida? Quais são suas áreas e o que ela pesquisa afinal? Mais que
isso: qual a função de conhecermos a Antropologia para os fundamentos da educação? É esse o caminho
que pretendemos demonstrar a você, caro(a) acadêmico(a), a fim de articular o conhecimento da
Antropologia com as ações de sua vida cotidiana enquanto estudante das humanidades.

Segundo Marconi e Presotto (2007), existem dois grandes grupos que estruturam a Antropologia:
a Antropologia Física ou Biológica e a Antropologia Cultural, que, com suas peculiaridades, auxiliam
no entendimento do seu campo de atuação.

A Antropologia Física ou Biológica é destinada a estudar a posição do homem enquanto “herdeiro


biológico”, ou seja, o homem e a evolução dele desde o surgimento da espécie até a atualidade. Surge,
então, o primeiro trabalho do antropólogo físico, que é estudar a Paleontologia, destinada a buscar o
entendimento do homem a partir da interface com a Biologia, a Genética, a Arqueologia e outras áreas.

A Paleontologia é um subcampo do conhecimento antropológico, uma vez que se articula


com as demais áreas relacionadas a conhecer os fósseis humanos, realizar escavações em sítios
arqueológicos, entre outros. Por meio do estudo do aspecto biológico humano, a Paleontologia
articula as ciências naturais com a História, compreendo como o homem estava situado na terra
dos primórdios até a atualidade.

Por outro lado, a Antropologia Cultural tem como missão o estudo dos aspectos que irão formar
a sociedade a partir daquilo que nós humanos consideramos como cultura, ou seja, algo que será
perpetuado de geração em geração, constituindo o conjunto de várias áreas do conhecimento. A palavra
“cultura” expressa o cultivo de elementos, como o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os
costumes e todos os hábitos e as aptidões adquiridos pelo ser humano.

Neste sentido, a Antropologia Cultural tem por objetivo o estudo das diferentes culturas para
cada sociedade, por meio de alguns questionamentos: existe um padrão de cultura? É possível mensurar
semelhanças e diferenças entre diferentes culturas? O que faz com que a cultura de um povo seja formada?
Ela é sempre imutável ou ela pode ser transformada de acordo com a evolução da sociedade? São essas as
questões que permeiam há anos a Antropologia Cultural, um campo dessa ciência que estuda o homem
e, sobretudo recentemente, os possíveis “padrões de cultura” identificados na sociedade.

Laplantine (1987) salienta que a Antropologia Social e Cultural (ou Etnologia) é hoje o principal
campo de atuação da Antropologia, uma vez que corresponde a praticamente tudo o que há na sociedade:
“seus modos de produção econômica, suas técnicas, sua organização política e jurídica, seus sistemas de
parentesco, seus sistemas de conhecimento, suas crenças religiosas” (LAPLANTINE, 1987, p. 19).

Portanto, a Etnologia é a área destinada a compreender a sociedade a partir do ponto de vista do


homem. Conforme você, aluno(a), viu durante a formação das ciências sociais, a Antropologia pretende
estudar a relação do homem em/na sociedade, enquanto o sociólogo estuda o funcionamento da
sociedade, seja a partir das suas instituições ou a partir dos mecanismos desenvolvidos pelos humanos
para que a sociedade progrida.

Será que a Antropologia sempre estudou os aspectos culturais para entender a ação do homem?
Um dos pioneiros da área é Bronislaw Malinowski (1884-1942), que atribuiu a ela um caráter científico.

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Unidade
1 Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade

Com a utilização da Etnografia, o autor ia até o campo de estudo para compreender melhor o dia a dia
das comunidades do pacífico ocidental.

A ideia de Malinowski para o trabalho do antropólogo é simples: nada como se tornar um deles
para conhecê-los melhor. Seguindo essa máxima, o autor se mudou para as Ilhas Trobriand, defendendo
durante sua pesquisa aquilo que acreditava: é preciso fazer Antropologia no momento onde observamos
determinado acontecimento. Com isso, afastava-se a possibilidade de atuar antropologicamente a partir
de informações alheias, isto é, sem ter a fidelidade dos conhecimentos adquiridos no campo (na área de
pesquisa) pelo próprio antropólogo.

Seu método conhecido como “observação participante” até hoje pauta os trabalhos na
Antropologia. Portanto, segundo Malinowski, não há melhor maneira de se fazer Antropologia senão
participar cotidiana e rotineiramente com o nativo, ou seja, com o estranho que se tentará entender,
para posteriormente estabelecer um padrão de cultura delimitado acerca de seu comportamento. Em Os
Argonautas do Pacífico Ocidental, o autor se depara com essa realidade, traduzindo em seus diários as
ações cotidianas do “nativo estranho” com o qual se deparou.

O nascimento da Antropologia, como exposto, teve como objeto de estudo o homem não europeu.
Ela se debruçou sobre o comportamento de civilizações encontradas pela expansão europeia e sua
dominação nas mais diferentes partes do mundo. Considerou, dessa forma, comparações, classificações
e escalonamento mediante valores que o homem ocidental impunha aos demais povos.

Essa escala serviu para estabelecer a “linha evolutiva” que tinha a “Europa civilizada”, como afirma
Augusto Comte, no topo. O pensador francês, fundador das teses positivistas, estabelecia no princípio da
evolução civilizadora as sociedades que tinham comportamentos próximos ao dos primatas. Mais tarde,
Morgan e mesmo Hegel seguiram por caminhos diferentes o mesmo critério de colocar os ocidentais na
cadeia evolutiva.

Charles Darwin é o autor de maior lembrança quando falamos de evolução, por mais que suas
colocações são interpretadas de forma equivocada como uma justificativa de superioridade natural do
homem europeu. O antropólogo francês considera que a lei do melhor adaptado reside mais na capacidade
de assimilação do ser vivo ao meio do que de sua competência mental para garantir a permanência.
Ou seja, formas mais complexas de espécies podem ser eliminadas se não assimilarem determinadas
mudanças no meio.

A literatura também foi uma expressão da superioridade ocidental. Romances e aventuras


fortaleceram o ideal do vitorioso homem branco. Nas páginas dos livros que se transformaram em
clássicos durante os séculos XIX e XX, os personagens vitoriosos eram os exemplares fiéis do corpo
social do ocidente. Talvez, nenhum romance de aventura expressou com maior intensidade esta ideia do
que a Lenda de Tarzan.

O homem branco está fadado, segundo a produção científica e literária produzida pelo ocidente,
à conquista, à superioridade e à responsabilidade de civilizar o mundo e, como um deus, recriá-lo a
sua imagem e semelhança. Na conquista estabelecida sobre diversos povos, o homem ocidental julgou,
absolveu e condenou. Sua sentença sempre está calcada na busca por si mesmo, segundo François
Laplantine. Por isso, os que lhe pareciam conhecidos eram absolvidos e os que lhe causavam estranheza
e o negavam deviam ser exterminados.

Esse panorama da Antropologia, conforme anunciamos anteriormente, mudou: o que está em


voga na modernidade é a busca pelo conhecimento dos padrões de cultura e comportamento de cada
sociedade, além da valorização da peculiaridade das culturas. Antes vistas como estranhas e desvalorizadas,

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Unidade
Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade 1

as culturas não europeias passaram a ter a devida importância na discussão antropológica. O que vale
hoje para a Antropologia é a igualdade de análise das culturas, reforçando as particularidades e não a
supremacia cultural de um em relação a outrem.

Entretanto, para compreendermos essa abordagem, Laplantine esclarece ser necessário conhecer
os conceitos de “social” e de “cultura”, uma vez que tanto a Antropologia quanto a Sociologia têm como
finalidade o homem como objeto de estudo:
O social é a totalidade das relações (relações de produção, de exploração, de dominação…)
que os grupos mantêm entre si dentro de um mesmo conjunto (etnia, região, nação, etc.) e
para com outros conjuntos, também hierarquizados. A cultura por sua vez não é nada mais
que o próprio social, mas considerado dessa vez sob o ângulo dos caracteres distintivos que
apresentam os comportamentos individuais dos membros desse grupo, bem como suas
produções originais (artesanais, artísticas, religiosas, etc.) (LAPLANTINE, 1987, p. 120).

Dessa forma, nota-se que a cultura reflete na sociedade os comportamentos individuais de cada
grupo, que posteriormente irá formar a sociedade. A cultura, como já adiantamos, é a transmissão e o
cultivo dos saberes e costumes de um grupo humano de forma coletiva, ou seja, com o convívio em/na
sociedade. Logo, a cultura passa a integrar um objeto antropológico de conhecimento, na tentativa de
responder quais são os padrões de cultura assumidos por cada grupo na humanidade.

Observe que no itinerário que propusemos, da formação da Antropologia até a investigação da


cultura para essa ciência, tentamos demonstrar a peculiaridade e a multiplicidade de culturas que você
irá lidar ao longo da carreira docente. Veja que o processo de considerar as diferentes culturas (cada qual
com sua importância) é algo próprio da Antropologia. Roberto DaMatta define esse conceito como a
“relativização” das culturas:
O “relativizando” que nomeia este livro, portanto, nada tem a ver com uma ideologia
substantiva do universo social humano, segundo a qual tudo é variável e tudo é válido. Muito
ao contrário, trata-se de uma atitude positiva e valorativa, expressa no meu “relativizando”, a
cobrir o abraço destemido que damos quando pretendemos entender honestamente o exótico,
o distante e o diferente, o “outro” (DAMATTA, 1981, p. 10).

Relativizar, segundo DaMatta, é valorizar as diferenças culturais existentes, sabendo tolerá-las


e, sobretudo, integrá-las na vida social. Portanto, a Antropologia aplicada à educação demonstra que,
durante a carreira docente, é preciso saber relativizar as culturas, os modos de comportamento e o estilo
de vida de cada aluno(a), na tentativa de facilitar o relacionamento estabelecido no ambiente escolar.

Diante desse cenário, demonstramos que a Antropologia cumpre seu papel quanto aos
fundamentos da educação: ela auxilia na compreensão e comparação entre os dois objetos fundamentais
e em constante mudança no processo de formação educacional, ou seja, a sociedade e a cultura. Ainda
que ambas tenham boa linearidade de pensamento, são peças em aperfeiçoamento permanente, em uma
engrenagem complexa que é a história e a evolução do pensamento humano.

O educador, nesta seara, deve estar preparado para utilizar o que a Antropologia melhor oferece,
que é a “relativização” das culturas, além de se colocar no lugar do outro para melhor compreendê-lo,
em um processo interminável de observação participante, conforme Malinowski, que poderá facilitar
o entendimento das mudanças que a sociedade sofre. Assim, esperamos que a Antropologia possa
fundamentar as bases do conhecimento das humanidades e, em conjunto com a Sociologia, ser parte da
produção do saber.

20
Unidade
1 Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade

Os pensadores que denominamos clássicos


das ciências sociais irão produzir seus argumentos
neste ambiente de confronto direto entre a massa de
trabalhadores, as empresas, os empresários capitalistas
e o poder público. Os problemas emergentes da vida
urbana alimentaram as análises de pensadores, como
Durkheim, Marx e Weber. Eles darão as diretrizes para a compreensão da vida social, dos
meios para a organização das instituições e do seu papel na construção da ordem coletiva. O
que podemos destacar a princípio, e que será amplamente discutido na próxima unidade, é a
importância do trabalho como condição para a orientação do homem em sociedade.

Esse foi o ambiente que propiciou a formação da Sociologia, uma ciência da sociedade,
que procura compreender a relação do homem com seu espaço e seu tempo. Para isso, faz
uso do passado histórico, para o entendimento de determinados contextos; do presente, para
explicação de fenômenos “atuais” e, por fim, da correlação de fatos para possíveis cenários
futuros. Resta-nos, então, responder: qual é a relação do homem consigo mesmo e quais são
suas ações presentes na sociedade? É isso que vamos debater agora, diante do ambiente de
formação da Antropologia.

Fonte: Elaborado pelo autor.

CONCLUSÃO
Nesta unidade, trabalhamos com a formação das Ciências Sociais ao longo dos anos, isto é,
apresentamos a você, caro(a) aluno(a), como e porque existem três ciências que se dedicam a estudar a
sociedade sob três pontos de vista: a Sociologia, a Antropologia e a Ciência Política.

Quanto à Sociologia, que tem a sociedade como grande laboratório, pudemos constatar seu
ambiente de formação, tendo como plano de fundo a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, dois
marcos importantes para a compreensão de que a vida citadina possui maior complexidade do que a
campesina, o que reflete nas novas relações sociais, trabalhistas, políticas e comportamentais.

Tal alteração do modo de vida do homem fez com que ele passasse a explorar novos espaços, ainda
não descobertos (ou não explorados), o que demonstra a necessidade de compreendermos a cultura
do outro para melhor nos entendermos. Surgia aí a Antropologia, destinada a estudar o homem e sua
trajetória em/na sociedade.

A jornada até aqui estabelecida conduz para o propósito deste livro, indicado nesta Unidade 1:
aguçar o senso crítico da vida que estabelecemos socialmente. Ou seja, olhar para além do já fixado, do
que é dado pela sociedade para nós e do que ofertamos em troca para a sociedade. Em suma: a proposta
é melhor compreender o meio em que vivemos, dialogando, criticando e debatendo os caminhos para
melhorar o convívio social.

Dessa forma, ainda fica a questão motriz do livro, porém já pautada de antemão: quais são os
fundamentos sociológicos e antropológicos e a respectiva contribuição de ambos para a educação?
É o que pretendemos demonstrar nesta trajetória, iniciando pelos chamados autores clássicos da
sociologia, que expuseram com propostas centrais um a um os estilos de vida na sociedade urbana em
seus primórdios.

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Unidade
Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade 1

ELEMENTOS COMPLEMENTARES
#LIVRO#

Título: Teoria social

Autor: Ana Christina Vanali (Organizadora)

Editora: Núcleo de Estudos Paranaenses

Sinopse: O presente trabalho articula em coletânea um resumo


dos principais teóricos da Sociologia, possibilitando que o(a)
acadêmico(a) possa “viajar” pela matriz de conhecimento dessa
área. Karl Marx, Émile Durkheim, Max Weber, Karl Polanyi, Karl
Mannheim, Norbert Elias, Howard Becker e Pierre Bourdieu são
retratados nesta obra, de fácil leitura e de conteúdo didático.

#FILME#

Título: Tempos Modernos

Ano: 1936

Sinopse: Clássico que retrata a frenética vida de um operário


em uma linha de produção, esse filme de Charles Chaplin
demonstra as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores
depois da Revolução Industrial. É ótimo para retratar as
mudanças da Europa, em sua transição de rural para urbana.

#WEB#

Ofício do Sociólogo: Neste texto-resumo, é possível observar os comentários de Pierre Bourdieu


e de outros autores acerca da prática da sociologia no dia a dia.

Link: <http://sociodialy.blogspot.com.br/2007/06/o-ofcio-de-sociolgo.html>.

22
Unidade
1 Sociologia e Antropologia: compreendendo nossa sociedade

REFERÊNCIAS
COLLINS, R. Quatro tradições sociológicas. Petrópolis: Vozes, 2009.

DAMATTA, R. Relativizando: uma introdução à Antropologia Social. Rio de Janeiro: Rocco, 1981.

HOBSBAWM, E. J. Era das revoluções: Europa 1789-1848. Tradução de Maria Tereza Lopes Teixeira e
Marcos Penchel. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

_______. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995.

LAPLANTINE, F. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 1987.

MARCONI, M. de A.; PRESOTTO, Z. M. N. Antropologia: uma introdução. 6. ed. São Paulo: Atlas,
2007.

MILLS, C. W. A imaginação sociológica. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.

SELL, C. E. Sociologia clássica: Marx, Durkheim e Weber. Petrópolis: Vozes, 2012.

VANALI, A. C. (Org.) Teoria Social. Curitiba: Edições NEP, 2016.

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Unidade
2

SOCIOLOGIA CLÁSSICA I

Professor Tiago Valenciano

Objetivos de aprendizagem
da unidade
• Identificar e compreender aspectos que buscam explicar a
sociedade e suas complexidades
• Conhecer o pensamento e as contribuições de Auguste
Comte e de Émile Durkheim para a Sociologia
Unidade
2 Sociologia Clássica I

INTRODUÇÃO
Prezado(a) aluno(a), o desenvolvimento da Sociologia e da Antropologia está ligado diretamente
ao desenvolvimento da sociedade ocidental capitalista. Nela surgiu a necessidade de compreender as
transformações que passou a Europa. A formação de uma vida urbana tensa gerou novos fatos sociais
ainda desconhecidos para o mundo europeu.

As tensões sociais se agravaram com o desenvolvimento industrial. Homicídio, alcoolismo e


suicídio são alguns dos fatos que geraram preocupação para o destino da vida social na cidade. O
crescimento urbano acarretou desordens e fez surgir as revoltas operárias e as primeiras manifestações
contrárias à sociedade industrial nascente. A cidade foi o palco da crise social, por meio dos
movimentos quebra-máquinas e da formação do Partido Social Democrata alemão, tendo como um
de seus fundadores Karl Marx.

Na crise, os pensadores europeus passaram a se dedicar a entender os comportamentos sociais


urbanos e suas razões. Quais fatores promoviam a violência, o alcoolismo, o suicídio e os homicídios?
Por que em tão grande escala a vida social se degenerava?

Nesta unidade, vamos sempre associar os métodos aos fenômenos sociais. Não podemos abrir
mão de uma análise dos clássicos sem entender os fenômenos que estimularam os pensadores europeus
que fundaram a Sociologia.

Em uma sociedade considerada perdida pelo caos instalado e expresso no conflito entre os grupos
humanos, alguns acreditavam que a crise passaria e que era necessário acomodar a ordem social ao
desenvolvimento. Auguste Comte e Émile Durkheim são os teóricos a serem analisados, já que buscaram
respostas para a sociedade de seu tempo e estabeleceram as bases de uma Ciência que se desenvolveu e
prosperou até nossos dias.

Se hoje ainda estudamos os clássicos e consideramos válidas suas análises, é porque muitos dos
problemas sobre os quais eles se debruçaram ainda continuam se apresentando, talvez apenas com uma
nova roupagem.

1. A SOCIEDADE, “UM OBJETO ESTRANHO”


A análise da vida social foi preocupação para vários cientistas sociais. A maioria buscava
estabelecer princípios de moralidade e uma idealização de conduta necessária, orientando a ação na vida
social com elementos de ética e moral que pudessem superar os atritos da vida coletiva. As instituições
religiosas se dedicaram a compreender os males sociais como algo orientado pelas tendências malignas
que atentavam a vida humana.

Os homens da racionalidade, por sua vez, valorizavam a razão como forma de compreensão e
ação, mas sem o entendimento do fenômeno social. Partia-se do princípio de que o homem deveria se
orientar diante dos outros, os quais eram desconhecidos da compreensão da Ciência.

Dois acontecimentos de grande tensão social, que emergiram da necessidade de uma compreensão
científica da sociedade, foram a industrialização e o crescimento das cidades de forma desordenada. A
vida urbana produziu fenômenos de instabilidade social em uma proporção nunca vista. São exemplos
o desenvolvimento do alcoolismo, da prostituição, do homicídio, do suicídio e do latrocínio. Sem contar
os distúrbios provocados por manifestações coletivas, que eram encarados por muitos intelectuais e
homens de Estado como um “problema”.

25
Unidade
Sociologia Clássica I 2

Nos séculos XVIII e XIX emergiram grandes cidades e bairros formados sem planejamento, pois
em muitos casos havia uma concentração desordenada de indivíduos. Nesses ambientes periféricos e
urbanos, eram confrontadas as regras estabelecidas na vida rural, que não se podia mais reproduzir na
cidade. Ao mesmo tempo, as condições de sobrevivência no mundo urbano se mostravam violentas.

Revoltas populares contra as máquinas no século XVIII, na Inglaterra, foram uma expressão
dessa contradição. Os operários consideravam que os maus-tratos impostos a eles eram consequência
da existência das máquinas. Dessa forma, se elas fossem destruídas a relação com a classe patronal seria
mais humana. Ao longo da história, a luta contra o desenvolvimento tecnológico se mostrou em vão.

Outras tendências se colocavam em oposição ao caos social, resgatando as “tradições” e


considerando que a perda de um comportamento moral seria responsabilidade das transformações
econômicas que a sociedade estava vivendo. O regime de liberdade era questionado e colocado como o
fator de permissividade para o que se chamava de “imoralidade”.

Em alguns países, como a França, logo após a derrota de Napoleão Bonaparte, em 1815, quando
se viveu a restauração do “antigo regime”, aconteceu o retorno ilusório de uma sociedade de ordens que
prometeu resgatar o caos, mas apenas aprofundou a crise social. Uma lição que se tirou da Europa no
século XIX é que não há retorno quando se tem mudança, principalmente uma revolução.

A sociedade europeia não foi a mesma após a Revolução Industrial (1750) e Revolução Francesa
(1789). As correntes liberais ascenderam na vida pública e passaram a dominar o cenário político no
Continente. Fora da Europa, e como um desdobramento dos seus movimentos liberais, os Estados
Unidos foram a primeira colônia a se tornar independente e iniciar a ruptura das colônias europeias
na América. A implantação dos regimes liberais, porém, não foi compreendida como a superação dos
problemas sociais. As críticas às teses liberais e aos governos que ela respaldou, sejam monarquias ou
repúblicas, acentuaram-se.

Duas tendências cresceram no contexto de crítica aos problemas urbanos nas cidades
industrializadas da Europa. O primeiro foi o socialismo, inicialmente utópico, que se propagou na França
e Inglaterra. A tendência de crítica estabelecida por essa corrente não refutava efetivamente a economia
industrial, mas considerava que a desigualdade deveria ser combatida pelo Estado. O governo deveria
se comprometer a intervir na vida social e econômica, visando garantir as condições mínimas para os
indivíduos que se encontravam ameaçados pela exploração econômica e pela miséria que a constituição
do proletário estabeleceu.

Mais tarde, o socialismo enriqueceu suas teses e gerou uma crítica mais contundente ao
capitalismo em desenvolvimento. Com Karl Marx, teórico alemão, foi estudado criteriosamente.
Seus estudos iniciaram pela mercadoria, pela produção da vida material e pelas relações entre as
classes formadas pela economia, pelos proprietários dos meios de produção (a burguesia) e pela
força de trabalho (o proletário).

A tese do materialismo histórico e dialético será entendida ainda nesta unidade. Aqui, porém, é
importante pontuar que no nascimento da Sociologia há um posicionamento da sociedade capitalista
em formação, seja na crítica, como as teses de Marx, ou na defesa de uma reorganização da vida em
sociedade, como propôs Comte ou Durkheim, os quais passaremos a analisar a partir de agora.

A preocupação com a organização da vida social foi cultuada por muitos pensadores. Podemos
considerar que mesmo entre os liberais havia a busca de estabelecer uma relação entre a particularidade
das sociedades e os problemas que elas atravessavam, sejam eles comuns ou não. A distinção de valores
entre uma nação e outra era clara, afinal sempre foi perceptível ao homem que o comportamento de

26
Unidade
2 Sociologia Clássica I

determinadas sociedades diante de problemas idênticos não era o mesmo. Dessa forma, seria possível
estabelecer um critério comum na análise de sociedades distintas?

A instalação do liberalismo gerou uma euforia nos países da Europa onde ele foi instalado. Na
França e Inglaterra, onde as ideias liberais se consolidaram, na primeira em forma de revolução e na
segunda como reorganização do poder, o liberalismo promoveu o expansionismo da empresa econômica
associada à ação militar.

Pesquisando nossa sociedade

Fonte: Pixabay.

Entre os ingleses, o desenvolvimento de uma indústria fundada na maquinofatura gerou a busca


por novos mercados e a necessidade do estado intervir na vida social para adaptar a sociedade à empresa
capitalista emergente. Não é por acaso que os interesses do parlamento inglês tinham dois direcionamentos.
Primeiramente criar um ambiente que facilitasse o desenvolvimento dos meios industriais, por meio de
capitais que eram obtidos externamente para serem aplicados no território britânico. Depois, forçar a
abertura de mercados em todo o mundo para a compra de produtos ingleses, utilizando todo o aparato
bélico e principalmente naval, necessário para esse intento.

A contradição se estabeleceu no território britânico, que passou a ter acesso a uma quantidade imensa
de produtos e capitais que nunca antes na história britânica migraram para o seu território. Ao mesmo
tempo, parte considerável da população de trabalhadores ingleses vivia em condições de miséria extrema.
Assim, a riqueza e a pobreza se apresentavam como condições antagônicas de um mesmo sistema.

Na França, o processo revolucionário que se instalou com a Queda da Bastilha (1789) deu
início a uma guerra civil e, posteriormente, a um confronto com os países vizinhos. Essa sequência
de conflitos marcou a história da Europa e se tornou o marco da passagem do Período Moderno
para o Contemporâneo. A população francesa não conheceu a paz ou a realização do ideal liberal
idealizado antes do processo revolucionário. O que os franceses tiveram que conviver foi com uma
sequência de regimes que se proclamavam liberais, mas não conseguiam gerar a paz para estabilizar
a vida social e econômica.

27
Unidade
Sociologia Clássica I 2

Quem acabaria por estabelecer a paz com durabilidade dentro do território francês, mas também
não por muito tempo, foi Napoleão Bonaparte. O general que se fez imperador assumiu o governo da
França em 1799, após um golpe de estado, e foi derrubado por uma coligação de países que o depôs
definitivamente em 1815. Contudo, o período napoleônico significou uma mudança definitiva na vida
social e econômica francesa. Bonaparte inspirou músicos como Ludwig van Beethoven e intelectuais
como Auguste Comte. Enquanto o primeiro se arrependeu de uma sinfonia dedicada a Bonaparte, o
segundo se inspirou para desenvolver a defesa do governo da eficiência.

Em uma sociedade como a nossa, na qual


discutimos a necessidade do ensino técnico
profissionalizante, as teses positivistas nos orientariam
para o investimento na qualificação. Ou seja, na
promoção de um ensino voltado ao mercado de
trabalho, nos mais diferentes níveis de conhecimento
e grau de complexidade. Essa necessidade deve estar, para o positivismo, acima dos desejos
particulares. Os cargos de comando social devem ser ocupados por quem tem uma qualificação
de maior custo e tempo para o Estado, por isso, seria relegada a poucos.

Fonte: Elaborado pelo autor.

O estudo da sociedade enquanto um “objeto estranho” faz


parte do tipo de pesquisa da maioria dos sociólogos. Em algum
momento da vida, estes pararam para pensar justamente nas
complexidades da vida social e no que isso poderia implicar nas
suas reflexões pessoais – seja em relação ao estilo de vida que eles
próprios levam, seja em consideração às atribuições da vida em
sociedade. O texto da professora Marília Reis, da UNESP, reflete bem essas preocupações. Ele está
disponível em: <https://acervodigital.unesp.br/bitstream/123456789/168/3/01d09t02.pdf>.

2. AUGUSTE COMTE
Nascido em 1798, na França, em Montpellier, Auguste Comte foi ainda muito jovem um
especulador da vida social e da dinâmica das Ciências Naturais. Dois interesses que na maioria dos
pensadores era uma contradição inconciliável, mas para aquele que veio a ser um dos fundadores
da Sociologia era uma possibilidade que se mostraria inovadora por meio da busca de trazer as leis
naturais para a análise da vida social.

Em 1814, já na decadência do Império Napoleônico, Comte ingressa na Escola Politécnica de Paris,


um centro de formação de cadetes, carreira que Comte pretendia seguir, voltado ao desenvolvimento
do corpo intelectual do estado francês. Contudo, ele foi levado a ingressar no Movimento Socialista
Francês, liderado por Saint-Simon, na busca de desenvolver um modelo ideológico que influenciasse a
administração francesa a fim de atender às melhorias da vida da população, uma ilusão que Comte em
pouco tempo desfez.

28
Unidade
2 Sociologia Clássica I

Auguste Comte

Fonte: Wikipedia.

O rompimento entre Comte e Saint-Simon ocorreu por diversos fatores, o mais conhecido foi a
mania do mestre do socialismo utópico de roubar as ideias de seus discípulos. Simon não costumava
ser muito original em suas ideias, mas por discordância teórica, já que os dois apresentavam análises
opostas. Enquanto Comte acreditava em uma interferência neutra do Estado, Saint-Simon tendia
a um acordo político de tendência pequeno burguesa. Comte chegou a acusá-lo de se aproximar de
empresários franceses e favorecê-los, manipulando os movimentos sociais franceses. Outra crítica foi
a de intelectualizar o movimento político e gerar uma casta intelectual beneficiária da liderança social.

Traçando um caminho próprio, Comte busca então uma análise mais objetiva dos fenômenos
sociais e passa a considerar o método das Ciências Naturais como um instrumento fundamental na
construção de princípios para entender o desenvolvimento da sociedade humana. Para ele, a sociedade
ocidental era o cume de uma cadeia evolutiva do conhecimento desenvolvido pelas sociedades humanas.
Nesta evolução, as sociedades passaram por estágios semelhantes, mas algumas ainda se encontram,
segundo ele, em uma etapa mística do pensamento, a infância.

Para ele, a própria Física Social, nome dado à Sociologia em sua origem, estava ligada a esse
processo de desenvolvimento e deveria ter como objeto de estudo a compreensão dos fenômenos sociais
como resultado da evolução que as diferentes civilizações viveram até chegar à “Europa civilizada”:
Entendo por Física Social a ciência que tem por objeto próprio o estudo dos fenômenos sociais,
considerados com o mesmo espírito que os fenômenos astronômicos, físicos, químicos e
fisiológicos, isto é, como submetidos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta é o objetivo
especial de suas pesquisas. Propõe-se, assim, a explicar diretamente, com a maior precisão
possível, o grande fenômeno do desenvolvimento da espécie humana, considerado em todas
as suas partes essenciais; isto é, a descobrir o encadeamento necessário de transformações
sucessivas pelo qual o gênero humano, partindo de um estado apenas superior ao das
sociedades dos grandes macacos, foi conduzido gradualmente ao ponto em que se encontra
hoje na Europa civilizada. O espírito desta ciência consiste, sobretudo, em ver, no estudo

29
Unidade
Sociologia Clássica I 2

aprofundado do passado, a verdadeira explicação do presente e a manifestação geral do futuro


(COMTE, 1989, p. 53).

É possível perceber que a Ciência tem um papel fundamental na teoria de Comte, mas não a
Ciência de uma forma geral. Para ele, as Ciências Naturais são as verdadeiras Ciências Positivas, que se
somam para a construção da superioridade da civilização ocidental, para gerar a maturidade necessária
para que o conhecimento possa intervir na análise da vida social. Por isso, para ele, a Ciência já teria
atingido esse grau de maturidade no Ocidente, no que ele chama de “Europa civilizada”.

Na própria citação, é possível compreender a evolução do conhecimento científico e os seus


estágios. A Física Social é fruto de um desdobramento das Ciências Naturais, por meio de um processo
de evolução que tem como princípio a Matemática, desdobrando-se em sua evolução na Astronomia,
na Física, na Química e na Biologia (Fisiologia para ele). A Medicina seria para Comte a Ciência que
se aproximaria no exercício da profissão do perfil de interferência do físico-social. Cabe ao médico
diagnosticar a doença diante dos dados levantados empiricamente, cabe ao sociólogo a análise dos fatos
sociais diagnosticados pelos mesmos critérios da Medicina, ou seja, a Fisiologia.

Se considerarmos quem seriam os precursores da Ciência Positiva, Comte aponta Bacon, Galileu
e Descartes. Para ele, foram os que deslumbraram a capacidade de a Ciência compreender, por meio dos
fenômenos físicos, as leis que regem a natureza. Mais que isso, criaram um método seguro que permite
a acumulação do conhecimento e seu desenvolvimento posterior.

Segundo o próprio Comte (1989):


A época em que as ciências começaram a tornar-se verdadeiramente positivas deve ser reportada
a Bacon, que deu o primeiro sinal dessa grande revolução; a Galileu, seu contemporâneo,
que lhe deu o primeiro exemplo, e, por fim, a Descartes, que destruiu irrevogavelmente nos
espíritos o jugo da autoridade em matéria científica. Foi então que a filosofia natural nasceu
e que a capacidade científica encontrou seu verdadeiro caráter, como elemento espiritual de
um novo sistema social.
A partir dessa época, as ciências tornaram-se sucessivamente positivas na ordem natural que
deviam seguir para tal fim, isto é, segundo o grau maior ou menor de suas relações com
o homem. Foi assim que a Astronomia em primeiro lugar, em seguida a Física, mais tarde
a Química, e, enfim, nos nossos dias, a Fisiologia, constituíram-se em ciências positivas.
Esta revolução está, portanto, plenamente efetuada em todos os nossos conhecimentos
particulares, e tende evidentemente a operar-se hoje na Filosofia, na Moral e na Política, sobre
as quais a influência das doutrinas teológicas e da metafísica já foi destruída aos olhos de
todos os homens instruídos, sem que, contudo, estejam elas ainda fundas em observações.
É a única coisa que falta ao desenvolvimento do nosso sistema social (COMTE,1989, p. 55).

Nesta citação, fica claro o papel das Ciências Naturais como também da ruptura que pensadores
como Bacon, Galileu e Descartes fizeram com a Filosofia Humanista. Não podemos esquecer que o
conhecimento científico que foi promovido partindo da lógica da Ciência Moderna acabou por romper
com a tradição filosófica da racionalidade científica. Pensar o homem era pré-requisito para pensar
as coisas, em especial os elementos da natureza. O que Comte propõe é a razão inversa: nós somos
elementos dentro de uma lógica universal, obedecemos às leis naturais dentro da vida social, assim como
a astronomia e a física já demonstraram por meio da comprovação da existência empírica destas leis.

Vale ressaltar que, para Comte, o único conhecimento o qual, partindo da abstração, consegue se
positivar por meio da experimentação é a Matemática. Ela é a Filosofia das Ciências Naturais. A lógica
matemática se constitui na raiz do pensamento positivo, das ciências que se positivaram. O avanço do
conhecimento científico partindo da Matemática gerou a capacidade de dimensionar de forma precisa
a condição dos fenômenos físicos e compreender o seu movimento lógico. Ou seja, se observarmos os
fundamentos da Física, Química e Biologia, vamos encontrar a Matemática servindo como base.
30
Unidade
2 Sociologia Clássica I

Quando Comte fala da positivação da política e da moral, ele acredita que a maturidade do
homem culto se libertou de princípios superficiais sobre a conduta social e seus fatores. Para ele, o
comportamento dos homens em sociedade deveria ser orientado pela racionalidade estabelecida
mediante a compreensão dos fenômenos sociais fundados na condição coletiva da vida. Ou seja, não se
deve analisar e julgar um fenômeno social utilizando critérios teológicos ou abstratos, mas sim dados
científicos, elementos que comprovam a função e a condição de existência de tais fenômenos. Aqui, seria
importante lembrar que os fenômenos sociais estão, muitas vezes, carregados de um julgamento místico
e religioso. Se considerarmos, por exemplo, a questão polêmica do aborto na sociedade brasileira, ela é
tratada mais pela mistificação do fenômeno do que pela sua compreensão científica.

Segundo a análise de Comte, deveríamos ter a preocupação de trazer essa questão para a lucidez
dos fatos e para a necessidade de uma intervenção eficiente do estado, sem mistificá-la. Se há um
número excessivo de abortos, é preciso ter conhecimento da proporção do que ele ocasiona e os fatores
que o determinam. Por não termos essa compreensão racional e positiva dos fenômenos do aborto,
promovemos a manutenção de uma prática que a justiça condena, mas não contém. Ou seja, proibir não
significa conter.

Por isso, para Comte, a eficiência deveria ser determinante no trato das questões sociais e na
superação dos problemas que a vida em sociedade gera. A eficiência da Ciência que se fundamenta na
objetividade não está só em detectar os conflitos e os impasses para o desenvolvimento, mas também
preveni-los e gerar a capacidade de antecipar crises. Para isso, é necessária a administração tecnocrata,
ou seja, especialistas nas áreas de governança. Para as mais diferentes especialidades que o Estado atua
deve haver um técnico ou um cientista para realizar a condução.

Muitos governos se instituíram como voltados a esse propósito. Na história brasileira, o princípio
do positivismo inspirou principalmente os militares, em especial do Exército. Crentes em um governo
fundado na eficiência e na meritocracia, os militares tomaram o poder diversas vezes na defesa de
uma modernização do Brasil por meio das teses positivas. Mesmo a Proclamação da República (1889),
feita pelos militares, foi inspirada na purificação do regime, na moralização do Estado e na eficiência
da máquina pública, ou seja, nas teses positivistas. O lema expresso na bandeira brasileira (Ordem e
Progresso) é inspirado nas teses de Comte. A ordem científica promove o progresso humano.

O método defendido por Comte se sustenta nos mesmos critérios das Ciências Naturais. Para ele,
o pesquisador dos fenômenos sociais deve se postar diante de seu objeto da mesma forma que o físico,
o químico ou o biólogo. Deve-se ater, ainda, aos fatos observáveis, mensuráveis e que necessitam ser
comparados e classificados. A objetividade é um critério fundamental para o cientista social positivista.

Outro aspecto importante do método positivo, que costumeiramente gera polêmica, é a


neutralidade científica. Ou seja, o pesquisador não pode se deixar envolver pelos valores subjetivos,
teológicos ou abstratos que deturpem a análise do fenômeno ou que lhe imponha um julgamento prévio.
A objetividade está ligada diretamente à neutralidade.

Caso se dedique exclusivamente aos fatos observáveis, passíveis de mensuração, de proporcionalidade


e de correlação objetiva com outros fenômenos a ele relacionados pela ligação direta e objetiva, o pesquisador
atingirá a verdade. Um exemplo a ser considerado é a prática do homicídio: por mais que haja repulsa
moral à sua prática, ele existe ao longo da história e é uma constante social. Segundo Enzensberger (1995, p.
9), “os animais lutam, mas não fazem guerra. O homem é o único primata que planeja o extermínio dentro
de sua própria espécie e o executa entusiasticamente e em grandes dimensões”.

Quantos fatos não são uma constante? O comportamento social se mantém em algumas
sociedades como uma necessidade da própria ordem. Um elemento que garante a eficiência da vida

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Unidade
Sociologia Clássica I 2

social. Esses fenômenos merecem um destaque maior na análise das diferentes sociedades. Se levarmos
em consideração que o trabalho desempenha um papel vital para a manutenção da vida coletiva, em
qualquer período histórico, ele é uma dessas constantes. O engraçado nos dias atuais é o quanto as
pessoas desprezam a função do trabalho na construção de um projeto de estabilidade futura.

Comte, quando analisou a ordem econômica, considerava que o trabalho em uma sociedade
complexa como a capitalista industrial, fundada em uma divisão de trabalho, necessita preparar os seus
membros para cumprirem as diferentes funções que a vida social exige. Dessa forma, para ele, cabe ao
Estado orientar o desenvolvimento de uma sociedade, estimulando o trabalho especializado para que
cada um dos seus membros se adéque às necessidades que a sociedade exige.

Em uma sociedade como a nossa, na qual discutimos a necessidade do ensino técnico


profissionalizante, as teses positivistas nos orientariam para o investimento na qualificação. Ou seja, na
promoção de um ensino voltado ao mercado de trabalho, nos mais diferentes níveis de conhecimento e
grau de complexidade. Essa necessidade deve estar, para o positivismo, acima dos desejos particulares.
Os cargos de comando social devem ser ocupados por quem tem uma qualificação de maior custo e
tempo para o Estado, por isso, seria relegada a poucos.

A escolha dos que deveriam ascender às funções mais importantes deve privilegiar o grau de
eficiência com um critério de avaliação que priorize a competência para o cargo. Devem-se priorizar os
benefícios da ordem social e não os interesses particulares, de setores determinados. Se determinados
grupos estão sendo marginalizados, deve-se entender os fatores desta marginalização. Eles não devem,
porém, colocar em risco as prioridades da ordem. Não podemos estimular as diferenças em detrimento
da ordem social eficiente.

A maturidade social não é algo fácil dentro de uma sociedade na qual as forças são diversas. Para
Comte, a conquista de um desenvolvimento econômico em um grau mais elevado só pode ser alcançada
após a sociedade atingir uma maturidade na capacidade de agir fundada na razão científica. Para ele,
o crescimento do capitalismo está relacionado diretamente a isso. A economia só pode se desenvolver
na condição da sociedade industrial após o aprimoramento científico e técnico dos meios de produção.
Dessa forma, o capitalismo é um estágio superior do desenvolvimento econômico, em especial quando
se deixa levar pelas leis de mercado e se orientar por uma racionalidade científica.

2.1 A Lei dos Três Estágios


Um dos princípios fundamentais defendidos por Comte é a Lei dos Três Estágios. Nela, o autor
busca a compreensão do desenvolvimento social mediante a presença do conhecimento científico na vida
social. A Ciência está presente nas relações entre o homem e as instituições que servem de orientação
para a ordem social. Também podemos considerar a própria explicação do homem sobre a natureza e os
elementos que atingem diretamente sua relação com as leis naturais.

Por isso, anteriormente, as leis naturais desvendadas nas teses de Galileu e Bacon são elogiadas
por Comte como uma conquista importante na busca de compreender as leis universais e orientar o
homem para o conhecimento científico moderno, separando a Ciência da Filosofia. Essa maturidade do
pensamento, para ele, atingiu outros campos de conhecimento e hoje já estaria em seu grau satisfatório
para ser usada na análise do desenvolvimento social humano.

Quais seriam, porém, esses estágios de desenvolvimento? O primeiro é o estado teológico, em


que os fenômenos naturais só podem ser compreendidos com a crença em um elemento divino, que
oriente a vida dos homens e promova as condições nas quais ele está inserido. Logo, o conhecimento
que temos da vida e das coisas que nos cercam é considerado, neste estágio de desenvolvimento, como

32
Unidade
2 Sociologia Clássica I

superficial. Esse estado permite ao homem uma verdade carregada de princípios sustentáveis apenas
se admitirmos a existência de uma entidade acima da capacidade de compreensão humana, que seria
o verdadeiro condutor da vida.

O segundo é o estado da abstração que, para Comte, desempenha o papel de passagem do estágio
teológico para o físico, que veremos logo mais. Nele, o homem rompe com as explicações teológicas e
estabelece uma relação racional com o mundo, tentando entendê-lo dentro de categorias lógicas. Esse
estágio permite a análise pela cadeia de fenômenos observáveis, mas apenas de forma superficial, ainda
sem uma comprovação empírica e que siga leis previamente estabelecidas pela observação.

O pensamento abstrato é resultado das condições de desenvolvimento da racionalidade científica


fundada em leis naturais. Os dados observáveis vêm daquilo que existe enquanto fenômeno, mas a
compreensão de sua essência ainda não é entendida desta forma pelo pensamento abstrato. As regras do
conhecimento não estão estabelecidas a partir das leis observáveis e nela se sustentam.

Há leis naturais que regem os fenômenos para Comte, as quais devem ser os elementos que
conduzem a observação. Contudo, resultam da pesquisa constante de comprovação de sua existência,
como as leis da Física e da Química. Um avanço neste sentido só foi possível na sociedade atual. Nela, o
pensador considera que a maturidade atingida pela Ciência já permite utilizar os métodos das ciências
naturais para compreender os fenômenos sociais.

Por isso, é necessária a compreensão sobre os fenômenos físicos, fundamentais para consolidar
o desenvolvimento da Ciência. Eles já atingiram todos os níveis necessários nos demais campos
dos conhecimentos, segundo Comte. Já se alcançou a maturidade do pensamento na Astronomia,
Física, Química e Biologia (nas Ciências Naturais de uma forma geral). Agora, o próximo passo será
o amadurecimento dos demais campos do conhecimento. Logo, para ele, não só a Sociologia seria o
resultado do avanço das Ciências Naturais, mas também a Economia, a Política e até mesmo a Ética
poderiam ser conduzidas pelos mesmos critérios das Ciências Naturais.

Diante dessa maturidade do pensamento físico e da possibilidade de um estágio superior da


organização da vida social, a sociedade poderia atingir um progresso nunca visto antes, que resultaria
de uma harmonia estabelecida entre os diferentes órgãos (funções) sociais. Integrados e na busca de um
mesmo sentido de ação, os organismos sociais resultariam, então, em uma submissão ao órgão maior, o
corpo social.

Este estágio superior de organização da vida social é o estágio positivo, isto é, aquele em que os
fenômenos sociais podem ser compreendidos através da comprovação da própria ciência. O estágio positivo,
para Comte, é o positivismo em si, desenvolvimento máximo de seu modo de pensar a sociedade e, da
mesma forma, quanto à organização das ciências. A característica basilar deste estágio de desenvolvimento
humano é, portanto, a de investigar a natureza e comprovar as descobertas realizadas de modo a garantir a
aplicação prática destas, levando ao desenvolvimento tecnológico e a mais conforto material.

O estágio positivo é o último na escala do pensamento de Auguste Comte, direcionado para


organizar as teorias acerca da sociedade via física social, ou seja, a partir da explicação de uma ciência
que possa analisar os movimentos dos corpos em/na sociedade. O positivismo, que posteriormente se
tornou uma filosofia de vida e religião, em que a ciência era a máxima de seus dogmas, obteve muitos
adeptos no Brasil do contexto da Proclamação da República em 1889. O lema da bandeira nacional
(ordem e progresso) é uma derivação do lema do positivismo proposto por Comte: o amor por princípio,
a ordem como base e o progresso por fim. Vale ressaltar que a religião positivista era vista como a “religião
da humanidade”, uma espécie de profecia imanada por Comte, que imaginava angariar adeptos, crentes
em seus ideais.

33
Unidade
Sociologia Clássica I 2

Este estágio superior de organização da vida social é o estágio positivo, isto é, aquele em que os
fenômenos sociais podem ser compreendidos através da comprovação da própria ciência. O estágio positivo,
para Comte, é o positivismo em si, desenvolvimento máximo de seu modo de pensar a sociedade e, da
mesma forma, quanto à organização das ciências. A característica basilar deste estágio de desenvolvimento
humano é, portanto, a de investigar a natureza e comprovar as descobertas realizadas de modo a garantir a
aplicação prática destas, levando ao desenvolvimento tecnológico e a mais conforto material.

O estágio positivo é o último na escala do pensamento de Auguste Comte, direcionado para


organizar as teorias acerca da sociedade via física social, ou seja, a partir da explicação de uma ciência que
possa analisar os movimentos dos corpos em/na sociedade. O positivismo, que posteriormente se tornou
uma filosofia de vida e religião, em que a ciência era a máxima de seus dogmas, obteve muitos adeptos
no Brasil do contexto da Proclamação da República em 1889. O lema da bandeira nacional (Ordem e
Progresso) é uma derivação do lema do positivismo proposto por Comte: o amor por princípio, a ordem
como base e o progresso por fim. Vale ressaltar que a religião positivista era vista como a “religião da
humanidade”, uma espécie de profecia imanada por Comte, que imaginava angariar adeptos, crentes em
seus ideais.

O condutor no sentido de integrar e dar eficiência à sociedade seria o Estado, e este, administrado
por políticos que conduzissem a sociedade para a superação de seus problemas de forma racional e objetiva.
Por isso, como comentamos anteriormente, a necessidade de positivar a política. O homem público deve
ter uma ação fundada na objetividade do conhecimento e sua escolha deve se pautar na eficiência.

O pensamento de Comte auxiliou no entendimento da vida social e ofereceu a possibilidade de


formar um método de análise criterioso e com meios de mensurar os fenômenos sociais na mesma
condição dos fenômenos naturais. Muitas dessas teses positivistas serão questionadas, mas também
utilizadas ao longo do amadurecimento da Ciência fundada pelo pensador francês. Não se pode negar,
porém, a importância que tiveram as primeiras bases de análise de Comte. Elas permitiram a busca por
delimitar um campo de atuação para uma Ciência que tivesse como foco a vida social e seus fenômenos.

Você já pensou em criar sua própria religião, baseando-se


em suas ideias, seu estilo de vida, o que você pensa em relação ao
mundo? Auguste Comte criou a Igreja Positivista e há, inclusive,
uma sede no Brasil.

Acesse: <http://templodahumanidade.org.br/a-religiao-da-
humanidade/a-igreja-positivista-do-brasil/>.

3. A HERANÇA POSITIVA NO ESTRUTURALISMO


DE ÉMILE DURKHEIM
Também francês, o pensador Durkheim foi influenciado pelas teses comtinianas. Contudo, não
foi apenas um desdobramento ou aprimoramento; foi a superação das teses positivas e a apresentação de
novos ingredientes, que deram um salto qualitativo na análise da sociedade industrial.

Durkheim foi um acadêmico preocupado em fazer seu método ser reconhecido pelos colegas de
universidade. Para ele, era fundamental estabelecer um território reconhecido pelos demais cientistas e
ingressar a Sociologia como disciplina dentro das instituições de ensino. E ele conseguiu.

34
Unidade
2 Sociologia Clássica I

Esse reconhecimento não foi tarefa fácil para ele, que foi também fundador da escola francesa.
Durkheim influenciou os pensadores que vieram depois dele a se aprofundarem na relação entre ciência e
sociedade. O critério científico ao conhecimento social foi a tônica de sua obra. Contudo, esse conhecimento
deve traçar regras claras para a análise da vida social, sem deixar de levar em consideração as diferenças
existentes em condições distintas de sociedade. Ou seja, não é possível uma generalização da ordem social
estabelecida, mas é possível entender a dinâmica de cada sociedade com suas especificidades, por meio do
conjunto de relações solidárias e do grau de coerção e coesão que ela promove.

Durkheim parte de um pressuposto fundamental, o tratamento do fato social na mesma condição


de “coisa material”. Dessa forma, o cientista social deve ter a mesma “estranheza” que o cientista natural
diante de seu objeto. Sobre como se sentir diante do desconhecido, afirma Durkheim (1960):
Os fatos sociais devem ser tratados como coisas — eis a proposição fundamental de nosso
método, e que mais tem provocado contradições. Esta assimilação que fazemos, das
realidades do mundo social às realidades do mundo exterior, foi interpretada como paradoxal
e escandalosa. Estabeleceu-se singular confusão a respeito do sentido e da extensão desta
assimilação; seu objetivo não é rebaixar formas superiores às formas inferiores do ser, e sim,
ao contrário, reivindicar para as primeiras um grau de realidade pelo menos igual ao que
todos reconhecem como apanágio das segundas. Com efeito, não afirmamos que os fatos
sociais sejam coisas materiais, e sim que constituem coisas ao mesmo título que as coisas
materiais, embora de maneira diferente (DURKHEIM,1960, p. 52).

Quando falamos da estranheza que o pesquisador social deve ter diante do objeto ao tratá-lo
na condição de “coisa material”, estamos levando em consideração aquilo que Durkheim expressa
em sua citação acima: “com efeito, não afirmamos que os fatos sociais sejam coisas materiais, e
sim que constituem coisas ao mesmo título que as coisas materiais, embora de maneira diferente”
(DURKHEIM,1960, p. 52).

Isso significa que os fenômenos sociais não podem ser considerados na mesma condição por não
poderem ser analisados com a mesma condição dos fenômenos materiais. Estes podem ser extraídos da
sociedade e levados a um laboratório para serem desmembrados, dissecados e estudados em suas partes
decompostas, com a objetividade da observação descritiva e comparativa, o que seria impossível aos
fenômenos sociais.

Não podemos reproduzir os fenômenos sociais em laboratório. Seria impossível isolá-los da


condição social onde se realizam, já que estão presos à sociedade e somente nela é possível observá-los.
Contudo, nem por isso devemos deixar de tratá-los na condição de coisa material. Para isso, devemos
quantificá-los e proporcioná-los dentro da ordem em que se estabelecem.

Com uma observação objetiva dos fenômenos sociais, podemos compreender os elementos que
influenciam a sua condição. Para Durkheim, os fenômenos sociais são uma condição coletiva que leva
em consideração a coação e coesão social dentro da condição solidária em que se realiza.

É importante definir neste momento o termo “solidariedade”, que é a condição em que os fenômenos
ocorrem, ou seja, a cumplicidade entre os agentes que proporcionam a existência dos fenômenos. Isso não
indica a consciência por parte daqueles que praticam o ato. Se pensarmos na Educação e nos elementos que
contribuem para que ela ocorra, nem todos têm a dimensão de que sua ação vai refletir na condição de educar.

As condições em que se realiza a Educação estão baseadas em fatos que interligados, de alguma
forma, vão gerar os fatores que permitem que ela ocorra. Logo, o ambiente de educar e os condicionantes
da educação não são apenas os seus agentes diretos (alunos, escola, professores, funcionários, currículo
escolar, etc.). Muito mais que isso, a Educação é resultado de uma complexidade social mais intensa e
ampla; uma relação que vai além dos muros da escola e que envolve a construção solidária de todos os
35
Unidade
Sociologia Clássica I 2

seus elementos. Os seres humanos que convivem dentro do ambiente escolar são resultado de outros
fenômenos que os produzem fora do dia a dia da sala de aula.

Um aluno é filho ou pai, é jovem ou idoso, é casado ou solteiro, trabalha ou não, locomove-se
mediante os meios de transportes dos mais variados. Todos esses fatores e muitos outros, os quais seria
impossível relacionar, contribuem para o entendimento da educação como um fenômeno social. Podemos
considerar pelos mesmos critérios a condição do professor, do diretor e de todos que estão envolvidos
com a educação. Logo, se formos dimensionar a complexidade da construção da educação, ela só seria
possível diante de um estudo profundo e demorado, por meio de uma observação minuciosa de todos
seus elementos condicionantes. É sempre bom lembrar, porém, que os elementos condicionantes aqui
considerados são fatos na condição de coisa material.

Outro elemento importante a ser considerado é a condição em que a sociedade organiza a sua vida
material. Durkheim busca no entendimento da divisão do trabalho social a premissa para a compreensão
dos fenômenos que a sociedade produz. As sociedades, ao longo da história, promoveram um crescimento
da divisão do trabalho e se organizaram de forma cada vez mais complexa. Nas sociedades industriais,
segundo o pensador francês, a divisão do trabalho social atingiu um grau intenso e extenso, o que
promoveu uma tensão entre os elementos que a compõe. Contudo, e pela divisão social do trabalho, não
podemos considerar particularidade e individualidade como critérios para o entendimento da ordem
social e dos fatos que ela produz.

Quanto mais a sociedade divide suas funções, mais a particularidade perde sentido como
referência para o entendimento do corpo social. Ou seja, não está no comportamento do indivíduo um
padrão para o comportamento coletivo, quando falamos de sociedades com um alto grau de divisão do
trabalho social. Na sociedade industrial, a condição de vida para atender às necessidades dos membros
da sociedade é fruto de um número imenso de indivíduos e, por isso, não é no olhar sobre esse elemento
particular que vamos entender a vida social.

Se abrirmos a geladeira em nossa casa e olharmos os produtos que estão à nossa volta, dos mais
elementares aos de uso fútil, iremos perceber que há uma quantidade imensa de trabalho coletivo para a
existência deles. Seria impossível quantificar o número de indivíduos que participam da produção diária
de nossas vidas. Logo, nem nós nem cada um desses indivíduos tem em seu comportamento o padrão
da vida social, ela é o encontro solidário de todos esses elementos enquanto um organismo que gera as
condições de todos e de cada um.

3.1 As formas de solidariedade


Solidariedade é o conjunto dos agentes sociais que produzem a vida humana, não sendo um
encontro espontâneo e carregado de afetividade, mas uma condição típica das sociedades humanas e da
organização física da vida social. Ser solidário é estar ligado à sociedade diretamente ou integrado por
uma cadeia de relações estabelecidas entre as diferentes instituições sociais que a compõe. O homem
é um ser social e está ligado à dependência dos membros de uma coletividade, assim como constrói
o sentido de sua existência dentro desta coletividade. Podemos considerar que a sociedade constrói e
determina a condição individual. O homem é uma concessão social.

Durkheim procura esclarecer que há uma diferença fundamental entre o objeto de estudo da
Sociologia (que é o fato social) e da Psicologia (voltada a entender o comportamento individual). Ele
estabelece um parâmetro para diferenciar os dois campos de conhecimento:
A proposição que se apresenta os fenômenos sociais como exteriores aos indivíduos não
foi menos vivamente discutida do que a precedente. Já nos concedem hoje, com assaz boa
vontade, a existência de certo grau de heterogeneidade entre os fatos da vida individual e os da

36
Unidade
2 Sociologia Clássica I

vida coletiva; pode-se mesmo dizer que um acordo, se não unânime, pelo menos muito geral,
está nesse ponto em vias de se conseguir. Não existem mais quase sociólogos que neguem à
Sociologia toda e qualquer especificidade. Mas, porque a sociedade é composta de indivíduos,
parece ao senso comum que a vida social não pode ter outro substrato senão a consciência
individual; caso contrário, como que ficaria no ar, planando no vácuo.
Contudo, admite-se correntemente nos outros reinos da natureza aquilo que com tanta
facilidade julgamos inadmissível ao se tratar dos fatos sociais. Todas as vezes que, ao se
combinarem e devido à combinação, quaisquer elementos desencadeiam fenômenos novos,
não se pode deixar de conceber que estes são contidos, não nos elementos, mas no todo
formado pela união. [...]
Ao aplicarmos ao mesmo princípio à Sociologia. Se a síntese sui generis que constitui toda
sociedade desenvolve fenômenos novos, diferentes daqueles que se passam nas consciências
solitárias (ponto cuja admissão já alcançamos), concorde-se também que a sede de tais fatos
específicos e a própria sociedade que os produz, e não as partes desta, isto é, seus membros
(DURKHEIM, 2002, p. 23-4).

Logo, a sociedade é uma formação da coletividade estabelecida dentro de uma relação entre
instituições e indivíduos que provocam os fenômenos sociais ao se encontrarem dentro de determinados
ambientes, como agentes químicos que se misturam em determinadas condições e provocam, por isso,
reações que só podem ser explicadas com aqueles elementos determinados e suas condições. Por isso, os
fenômenos sociais obedecem às mesmas leis dos fenômenos naturais. É preciso compreender o ambiente
e as relações que determinados agentes propiciam e os fenômenos a elas relacionados.

Para compreendermos a complexidade dessas relações, temos que considerar que há dois tipos
de solidariedade estabelecida por Durkheim: a primeira liga diretamente o indivíduo à sociedade, o
que chamamos de solidariedade orgânica. A segunda, só pode ser entendida na complexidade das
relações sociais em sua divisão do trabalho social, na qual o indivíduo é apenas um componente dentro
da complexa cadeia de dependência. Nesta, o indivíduo exalta suas particularidades e parece negar sua
relação com a sociedade.

Durkheim define assim as duas formas de solidariedade:


Como a solidariedade negativa não produz por mesma nenhuma integração e, além disso,
não tem nada de específico, reconhecemos somente duas espécies de solidariedade positiva,
nas quais se notam as seguintes características:
1) A primeira liga diretamente o indivíduo à sociedade, sem nenhum intermediário. Na
segunda, ele depende da sociedade porque depende das partes que a compõem.
2) A sociedade não é vista sob o mesmo aspecto nos dois casos. No primeiro, o que chamamos
por esse nome é um conjunto mais ou menos organizado de crenças e sentimentos comuns a
todos os membros do grupo: o tipo coletivo. No segundo caso, ao contrário, a sociedade na qual
somos solidários é um sistema de funções diferentes e especiais, que unem relações definidas.
Essas duas sociedades são apenas uma. São duas faces de uma única e mesma realidade, mas
nem por isso têm menos necessidade de ser distinguidos (DURKHEIM, 2002, p. 27).

Aqui Durkheim estabelece um paralelo entre as duas formas de solidariedade. A primeira, mecânica,
está ligando diretamente o indivíduo à sociedade por apresentar uma baixa divisão social do trabalho. Ou
seja, a dependência entre os elementos sociais é pequena, desta forma, a individualidade não se exalta e
não contraria as formas de identificação com a sociedade. Logo, o sentimento de pertencimento e a fusão
entre as crenças sociais e particulares são elevadas. Essa forma de organização é típica das sociedades
primitivas, estando presente na vida social de cada um, mas também se expressando na coletividade.

Um dos exemplos usados pelo próprio Durkheim são as sociedades primitivas, organizações
humanas que vivem em um sistema tribal onde não há uma complexa divisão do trabalho social. Nelas,
prevalece principalmente a divisão natural do trabalho, ou seja, a divisão entre o trabalho masculino
e feminino. Além disso, a condição de trabalho está ligada diretamente a todas as outras condições e

37
Unidade
Sociologia Clássica I 2

instituições que a sociedade estabelece. A simplicidade das relações condiciona o homem para uma vida
particular em sintonia constante com o interesse coletivo. O que uma mulher faz em uma coletividade
primitiva todas as outras fazem. Assim também os homens.

Nessas sociedades, o pai é o chefe de família e também o líder religioso, o orientador para a vida
do trabalho, para a vida moral e para a vida sexual. Há uma reprodução constante das atividades que se
simplificam em uma conduta única. Um homem e uma mulher reproduzem em sua vida praticamente
todas as funções coletivas em sua vida privada. Se compararmos com nossa sociedade, nós não
produzimos em nossas vidas as funções vitais de nossa coletividade. Isso porque seria impossível
ser, ao mesmo tempo, o professor, o médico, o educador, o líder religioso, o juiz, o policial, o pai, o
soldado, etc.

Em nossa sociedade, as atividades que nos sustentam estão divididas, dessa forma não reproduzimos
os papéis necessários para nossa própria existência. Não seria possível quantificar os indivíduos que
participaram da produção do computador que uso agora para poder produzir este livro. Talvez um
número bem maior que uma cidade de média proporção se analisarmos as condições que o fazem ser
usado neste momento, a energia elétrica, a mesa e a cadeira que me servem de suporte para este trabalho,
os livros, a lâmpada, as canetas, o papel, a impressora, enfim, uma imensidão de elementos que produzem
diariamente a existência de outros tantos. Por isso, nossa sociedade é orgânica, diferente das sociedades
primitivas, onde predominavam a solidariedade mecânica.

A essa dinâmica das sociedades (solidárias mecânicas e orgânicas), é preciso acrescentar outros
ingredientes: a coesão, a coação, a unidade e o condicionamento. Trata-se de uma relação vital na
formação do indivíduo dentro do corpo social para que as funções necessárias à vida coletiva sejam
produzidas. Nela se estabelece a necessidade do todo e a de cada um em condições diferentes e, muitas
vezes, aparentemente antagônicas.

É importante entender como esses elementos se dão e o que eles significam. A coesão é a unidade
de ação de diversos agentes em um mesmo sentido. Imagine a densidade de uma mesa e o quanto é difícil
romper sua unidade, ou seja, quebrá-la requer um grau elevado de força. Logo, se pensarmos por que a
madeira é resistente, podemos concluir que há uma grande coesão (unidade) entre suas moléculas. Logo,
as moléculas de uma mesa são mais resistentes à coação por serem mais coesas. Se pensarmos em uma
folha de papel, chegaremos à conclusão oposta: ela é mais flexível por ter moléculas menos coesas e, logo,
resiste menos à coação. Basta uma pequena força e você pode rasgá-la.

Em um movimento grevista, no qual há um grau elevado de adesão de trabalhadores a uma


paralisação, há um grau elevado de coesão. Logo, romper o movimento, pressionar os trabalhadores a
voltarem ao trabalho sem atender as suas reivindicações seria difícil e exigiria grau elevado de coação.
Um aparato policial dispersando manifestantes em uma passeata seria um bom exemplo de coação. Por
isso, imagine o papel do Estado como agente de coação para garantir a ordem social e o quanto, também,
pode ser uma expressão de coesão ao executar uma sentença e promover a justiça sob um valor que une
a maioria dos elementos sociais que se sentem atingidos pelo crime cometido, e reagem com a sentença
aplicada, há uma coesão social.

Em sala de aula, a manutenção da disciplina para o desenvolvimento de um conteúdo é, ao mesmo


tempo, fruto das partes que executam a prática educativa (professor e alunos) e da unidade que eles
estabelecem para executar a função para as quais existem. Quanto mais coesos neste sentido forem os
membros que executam a Educação, mais eficiente ela será e menos espaço para ações contrárias. Quem
tentar a indisciplina será coagido tanto pelos iguais como pelos diferentes. Um aluno que tente promover
a desordem sofre a coação dos colegas (alunos) e, também, do contrário (professor).

38
Unidade
2 Sociologia Clássica I

Aqui estamos usando o exemplo da escola, mas poderíamos estender essa explicação para todas as
instituições sociais. O funcionamento de uma sociedade complexa como a nossa acontece devido a uma
gama imensa de funções, que se estabelecem para poder dar condições de funcionamento e atendimento
às necessidades coletivas e particulares. Por isso, para Durkheim, seria a divisão de trabalho a mais
importante solidariedade entre os elementos sociais, devendo ser preservada e valorizada por todas as
partes do corpo social.

Para Durkheim, a sociedade tem funções primordiais, como o trabalho que comentamos
anteriormente. Desta forma, existe uma gama de valores que estão escalonados moralmente e devem ser
estimulados para todos os componentes da sociedade. Esses comportamentos e valores são passíveis de
transformação e podem mudar seu sentido. Há valores, porém, que devem ser preservados sob pena de
colocar a sociedade em risco. O trabalho, como falamos, é um deles.

3.2 Anomia e patologia


Entre os trabalhos importantes de Durkheim estão a definição da anomia e patologia, dois
elementos diferentes da sociedade atual que merecem um olhar mais cauteloso em nossa sociedade. Faz-
se necessário compreender que eles não cumprem a mesma função dentro do corpo social. Mais ainda,
as sociedades não apresentam o mesmo perfil médio de conduta. Ou seja, o que pode ser considerado
patológico e anormal para uma determinada sociedade, para outra pode não ser.

Logo, o que temos que levar em conta neste momento sobre anomia e patologia é a condição em
que os dois elementos se dão em uma determinada sociedade. Determinados fenômenos são naturais
a determinados momentos e tendem a se acomodar ao longo do tempo e desaparecer dentro da ordem
social ou estabelecer um novo comportamento. Isso se chama anomia, que pode ser um fenômeno de
transição ou só existir na condição de passagem para outro estágio da vida social.

Se pensarmos que certas condições tendem a promover um ambiente favorável a um comportamento


anormal, temos então uma patologia, um fator de desordem temporário. Um exemplo são mães que têm
depressão pós-parto e, muitas vezes, cometem o infanticídio, ou seja, matam os próprios filhos. Essa é
uma anomia, uma condição temporária que foge ao controle da própria mãe.

Em momentos de revolução, uma sociedade apresenta comportamentos que fogem à normalidade.


A desordem se estabelece pela falta de uma regulagem dentro da ordem social, na qual acontecem as
diferentes funções que a sociedade necessita para sua existência. As condições sociais nesse ambiente
de transição acabam por propiciar, por exemplo, ações de violência ou de degradação moral. Não é por
acaso que se desenvolveram alcoolismo e homicídio durante a Revolução Industrial.

Logo, a anomia não é em si um problema a ser resolvido como uma ameaça à sociedade, mas uma
condição de sua reordenação, seja de todo o corpo social ou de alguma de suas partes. As mudanças
são constantes e quando ocorrem em determinados pontos da sociedade, podem promover uma
acomodação que envolva grande parte do corpo social. Logo, vai se estender para diversas instituições
até se estabilizar.

O processo de emancipação da mulher e o papel que ela passa a exercer em diversas instituições
sociais, , por exemplo, reflete em todo o corpo social. Em alguns casos, de forma imediata e principalmente
no núcleo familiar, promove de forma imediata uma desordem e reações agressivas. A violência contra as
mulheres, a crise de identificação masculina, os problemas de convivência com os filhos e o processo de
emancipação política são alguns desses dilemas e representam exemplos de anomia.

Já a patologia é um fenômeno que se apresenta dentro de uma ordem estabelecida com normas
organizadas e que atende a determinada condição social, mas que apresenta comportamento fora
39
Unidade
Sociologia Clássica I 2

da normalidade. Esse é um problema a ser considerado como nocivo à sociedade. Se propagado em


determinada dimensão, pode desestabilizar a ordem e promover uma série de outros fenômenos,
gerando um grave problema social em cadeia.

Muitas vezes, confundimos a anomia com a patologia por apresentarem o mesmo comportamento,
mas elas têm funções distintas dentro do corpo social. Um dos comportamentos considerados tanto
uma anomia quanto uma patologia é o suicídio. Ele pode significar o reforço de um comportamento
necessário, a falta de acomodação de um determinado segmento ou, até mesmo, o substrato social. Já
em outros momentos e em determinadas sociedades, o suicídio é uma demonstração de problema, de
uma patologia. Representa, dessa forma, uma falta de orientação para os membros de uma determinada
sociedade que não consegue ser incorporada ao corpo social.

Ambientes com jovens que têm renda elevada, alto grau de ociosidade diária e falta de laços
afetivos familiares podem ser propícios para o suicídio. Também pela falta de afetividade, pela ociosidade
e pela rejeição funcional os idosos têm mais propensão ao suicídio. Mulheres se suicidam menos que os
homens. Elas tendem a constituir vínculo intenso com as comunidades e promover eficiência de função
em instituições sociais.

Segundo dados do Ministério da Saúde e da Associação Brasileira de Psiquiatria, no Brasil ocorrem


9 mil casos de suicídio por ano, 24 por dia. A maioria é de homens com mais de 65 anos. Em comparação
com outros países, a taxa brasileira é baixa, fica em 4,5 para cada 100 mil habitantes. Já em países como a
Rússia e a Ucrânia ela pode chegar a 30. Se considerarmos os idosos no Brasil, esse índice sobe para 17.
Na maioria dos países, as pessoas da terceira idade são as que mais se suicidam, o que indica um alerta
para as condições sociais dessa parcela da população na sociedade.

Temos que lembrar que para Durkheim o suicídio é um fato social, analisado pela condição
coletiva do fenômeno e não pela sua particularidade. Não interessa quem o cometeu, mas quais os
fatores que o fazem ocorrer em determinada proporção e com um perfil que se destaca na ordem
social. Dessa forma, por mais que o suicídio pareça, a uma primeira vista, uma decisão do indivíduo,
ele é visto pela Sociologia como uma condição construída pela sociedade, um ambiente fértil para
o autoextermínio.

3.3 A consolidação de Durkheim


Com o pensador francês, fundador da escola francesa de Sociologia, a análise da sociedade
como um objeto de estudo da Ciência Acadêmica foi reconhecida. A capacidade de compreensão do
mecanismo social e a influência disso na vida dos componentes da sociedade foram estabelecidas de
forma magistral por Émile Durkheim.

Na Educação, ele chegou a desenvolver uma análise exclusiva sobre a importância da instituição de
ensino na formação do homem moderno. Durkheim considera que a consciência dos diversos campos do
conhecimento e dos profissionais que exercem uma atividade prática na vida social sobre a solidariedade
orgânica traria o respeito à vida profissional.

Defensor da organização das corporações profissionais, afirmava que elas podem exercer
um papel importante na preservação da sociedade naquilo que ela tem de mais elementar: a
divisão do trabalho social. Para ele, se a divisão de funções separou o homem da relação direta
com a sociedade, a dependência que se construiu entre as diversas partes do corpo social deve
ser fator de aproximação consciente e de preservação da unidade por meio do respeito às mais
variadas profissões.

40
Unidade
2 Sociologia Clássica I

Se pudéssemos resumir a sociologia de Émile Durkheim,


o que seria considerado para este autor? Quais são as ideias que
mais impactaram ao longo dos anos? Este pequeno resumo,
da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, mostra-nos
brevemente as principais contribuições do autor francês para o
pensamento sociológico. Vale lembrar que esta é uma contribuição
complementar para nosso material, destacando assim os principais elementos considerados por nós
para a compreensão do autor.

Referência: <http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=167>.

O casamento ainda pode ser considerado um


fato social, na visão de Émile Durkheim? Segundo os
dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), houve aumento do número de casamentos
no país em 2015, em relação ao ano anterior. Tal fato
revela a confirmação de que o casamento ainda pode
ser considerado um exemplo de fato social segundo os conceitos do sociólogo francês. Este
fato social aponta como a sociedade exerce uma espécie de “pressão social”, fazendo com que
nós passemos a acreditar nesta força, não vista ou tocada, mas que nos conduz a agirmos de
determinadas formas.

Fonte: <https://noticias.r7.com/brasil/casamentos-aumentam-e-divorcios-caem-no-brasil-
aponta-ibge-24112016>

CONCLUSÃO
Caro(a) aluno(a), concluímos que Comte e Durkheim foram os fundadores da Sociologia de
duas formas diferentes. Enquanto o primeiro conseguiu estabelecer um campo de investigação e gerar
os primeiros critérios de análise sobre os fatos sociais, Durkheim teve o reconhecimento das demais
ciências sobre a existência da Sociologia. Ela entrou no mundo acadêmico e está até hoje, e se isso não
tivesse acontecido, este texto não seria escrito.

A principal característica desses dois autores, que são uma continuidade, é a herança metodológica
das Ciências Naturais. Eles se espelharam no desenvolvimento do conhecimento físico, químico
e biológico para organizar os critérios necessários da Sociologia (nesse aspecto, mais Comte do que
Durkheim). O campo do conhecimento que se estabeleceu com eles prosperou e gerou a possibilidade
de um olhar científico e objetivo para uma sociedade que era vista pelo particularismo moral.

Hoje, temos a construção de um aparato significativo de mecanismos de monitoramento da


sociedade, que serve para dar subsídios às pesquisas nos campos da Sociologia e Antropologia. A
preocupação com a análise dos fenômenos sociais chegou à Medicina, ao Direito, à Pedagogia, à
Administração, à Psicologia e à História.

Comte considerava a Sociologia como uma ciência que ainda estava dando os seus primeiros
passos, mas já se fazia necessária pelo grau de maturidade que a sociedade tinha alcançado. Ela surge

41
Unidade
Sociologia Clássica I 2

para cumprir o papel de engajamento pela mudança ou melhora da sociedade. Independentemente de


qual postura, era uma ciência para o entendimento do fenômeno social com a responsabilidade científica.
Dessa forma, os pensadores franceses clássicos cumpriram seu papel.

Assim, esperamos que essa contribuição acerca da Sociologia proposta por Comte e Durkheim
possa esclarecer a linha de pensamento dos autores, que é estabelecer métodos para essa “nova” ciência,
fundamentada sobretudo na Sociologia francesa.

ELEMENTOS COMPLEMENTARES
#LIVRO#

Título: O discurso sobre o espírito positivo

Autor: Auguste Comte

Editora: Martins Fontes

Sinopse: Neste trabalho, Comte apresenta as diretrizes do método


positivista e os elementos que orientam o olhar do investigador que
se dispõe a ingressar na análise da sociedade tendo como referência
as Ciências Naturais. Por sinal, na primeira parte da obra, ele
apresenta a origem do método da Física Social (Sociologia).

#FILME#

Título: A Vila

Ano: 2004

Sinopse: Em 1897, uma vila parece ser o local ideal para viver:
tranquila, isolada e com os moradores vivendo em harmonia.
Porém, esse local perfeito passa por mudanças quando os
habitantes descobrem que o bosque que os cerca esconde uma
raça de misteriosas e perigosas criaturas chamadas por eles de
“Aquelas de Quem Não Falamos”.

42
Unidade
2 Sociologia Clássica I

#WEB#

Em um breve texto elucidativo, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná disponibiliza os


principais conceitos de Émile Durkheim.

Link: <http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=167>.

REFERÊNCIAS
COMTE, A. Sociologia. Tradução de Evaristo de Moraes Filho. São Paulo: Ática, 1989. (Coleção Grandes
Cientistas Sociais).

DURKHEIM, É. As regras do método sociológico. 2. ed. Tradução de Maria Isaura Pereira de Queiroz.
São Paulo, 1960.

ENZENSBERGER, H. M. Mediocridade e loucura e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1995.

_______. Objetividade e identidade na análise da vida social. In: FORACCHI, M. M.; MARTINS, J. de
S. Sociologia e sociedade. 22. ed. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora S. A., 2002.

FILOUX, J. C. Émile Durkheim. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010.

VALCARENGHI, A. L. Psiquiatra afirma que as políticas nacionais de prevenção do suicídio “não saíram
do papel. Agência Brasil: Brasília, setembro de 2012. Disponível em: <http://www.ebc.com.br/2012/09/
psiquiatra-afirma-que-as-politicas-nacionais-de-prevencao-do-suicidio-nao-sairam-do-papel>. Acesso
em: 13 ago. 2017.

43
Unidade
3

SOCIOLOGIA CLÁSSICA II

Professor Tiago Valenciano

Objetivos de aprendizagem
da unidade
• Conhecer as principais ideias de Karl Marx
• Conhecer as principais ideias de Max Weber
Unidade
3 Sociologia Clássica II

INTRODUÇÃO
A crítica ao capitalismo teve nas teses de Karl Marx a sua principal expressão. Construída ao longo
do século XIX, quando o processo revolucionário capitalista ainda se encontrava em fase de consolidação,
Marx desenvolveu uma análise da política econômica burguesa e, por meio dela, analisou as relações
sociais vinculadas à economia capitalista e desenvolveu a Teoria Socialista.

O pensador alemão foi um marco na defesa da implementação do socialismo científico, que,


segundo ele, realizar-se-ia a partir do momento em que a classe operária tivesse consciência de seu papel
revolucionário e houvesse a destituição do modo de produção capitalista.

Marx influenciou uma geração de pensadores e passou a ser uma referência na academia. Os
argumentos materialistas influenciam até hoje um vasto número de campos de conhecimento, entre
eles a Pedagogia. Suas teses consideram que as relações de produção implantadas pela classe burguesa
determinam uma limitação à grande massa de trabalhadores e promove a desigualdade em seu sentido
mais amplo.

No contraponto ao materialismo histórico dialético, apresentamos as teses de Max Weber.


Também alemão, como Marx, mas de uma orientação intelectual diferente e em alguns pontos
divergente, Weber irá estabelecer uma relação entre a economia e a cultura. Ele buscou promover o
entendimento entre as condições racionais da vida e o sentido a partir do qual elas são interpretadas
dentro da vida humana.

Os modelos de ação, que são conjunto de valores que orientam o comportamento do indivíduo e
buscam lhe dar sentido, são os objetos de estudo de Max Weber. Ele procura romper com o determinismo
histórico e econômico que Marx estabelece. A economia pode ser entendida pela materialidade e
racionalidade, mas também pelo sentido ético que os indivíduos atribuem às atividades produtivas,
finalizando a tônica do pensamento do autor.

1. KARL MARX, O MATERIALISMO HISTÓRICO


DIALÉTICO
A crítica ao capitalismo é a característica mais forte do alemão Karl Marx. Ele foi um herdeiro
da escola idealista, que teve em Hegel sua maior expressão, e não poupou a sociedade capitalista de
sua forma irônica de tratar temas caros ao interesse do liberalismo. Em outros momentos, enfatizou
as contradições que a sociedade industrial apresentou em seu tempo e ainda hoje expressa. De suas
teses, e por ele mesmo, nasceu a defesa do socialismo científico e a idealização da sociedade comunista.
O socialismo deve ser, para ele, uma busca da classe operária, que vive uma luta de classes como em
nenhuma outra sociedade que a antecedeu. O proletário deve ser a classe revolucionária sob a pena de
perder o bonde da história.

Obviamente, iniciamos nossa discussão falando de um Marx “panfletário”, parcial e engajado


na defesa de um projeto político e ideológico. Essa é uma diferença em relação ao autor que
analisamos anteriormente, Émile Durkheim. A parcialidade é inerente ao cientista social, diferente
dos pesquisadores das Ciências Naturais. Esse é um ponto importante nas teses do materialismo
histórico e dialético: a imparcialidade do pesquisador. Para Marx, as Ciências Naturais têm um método
incompatível com o das Ciências Sociais e Humanas. O homem que analisa a sociedade está inserido
nela e tem em si os seus valores. O olhar do pesquisador carrega inerentemente um posicionamento
político e ideológico.

45
Unidade
Sociologia Clássica II 3

Karl Marx

Fonte: Pixabay.

O próprio Marx jamais fugiu da parcialidade em sua análise e na busca de implementar uma
sociedade socialista. Ele considerava que, diante do posicionamento ideológico que o pensador social
traz consigo, o pensamento deve ser direcionado para uma luta política fundada em um projeto
científico de sociedade. Esse projeto deve partir de uma análise crítica ao capitalismo, análise fundada
no conhecimento científico. Da crítica que se faz, deve-se elaborar um projeto de sociedade para a
superação dos problemas que o capitalismo apresenta. Por isso, para ele, a Economia e a História têm
destaque como instrumento de análise. Esses dois campos do conhecimento são capazes de dar subsídios
para a compreensão das transformações que os homens promoveram em si e na natureza mediante os
meios de produção.

Para Marx, a sociedade capitalista foi resultado das transformações que ocorreram na Europa com
o advento das práticas mercantis. Nesse contexto, a classe burguesa organizou o seu projeto de sociedade
e estabeleceu o seu poder sobre a economia e o Estado. A burguesia se constituiu como classe dominante
na sociedade capitalista após tomar o poder e destituir o sistema feudal. As teses liberais, para Marx,
seriam a expressão ideológica da burguesia, seu instrumento de explicação do mundo. Essa ideologia foi
imposta aos demais membros da sociedade e serve para legitimar os interesses da dominação.

O proletário deve se libertar dessa dominação ideológica, mas para isso deve compreender
cientificamente como a sociedade capitalista se sustenta. Quais são as condições em que o capitalismo
constrói a vida humana, as formas de dominação e, principalmente, de exploração. Por isso, a necessidade
de entender o modo de produção da vida material no capitalismo e desvendar as condições em que se
dá o acesso dos seres humanos às suas necessidades. É aqui que se destaca o papel da mercadoria, a
condição única em que se adquirem as necessidades humanas. Tudo o que necessitamos só pode chegar
até nós em forma de mercadoria na sociedade capitalista.

Em seu maior livro O Capital, Marx faz uma crítica à economia política e desvenda as condições em
que a sociedade capitalista se organiza. Ele parte da mercadoria para entender a relação dos homens com
46
Unidade
3 Sociologia Clássica II

a natureza e a transformação desta nos bens necessários para a produção de outros bens ou para atender
às necessidades humanas. De um alimento a uma máquina industrial, a mercadoria é a condição em que
objetos se transformam e cumprem o seu destino de atender à vida material e imaterial do homem.

Contudo, com o desenvolvimento da divisão do trabalho associado à maquinofatura, o


capitalismo aprimorou as técnicas de produção da vida material e rompeu a consciência do homem
de seu papel na produção do que necessita. O ser humano da sociedade industrial já não consegue
perceber a importância do seu trabalho na produção de sua existência e dos demais seres que com ele
compartilham os interesses de consumo dos bens industriais. A complexa rede de produção industrial
fez com que os trabalhadores não fossem mais capazes de entender como os bens foram gerados. Por
isso, a burguesia utiliza os meios imateriais mediante a ideologia para incutir na classe operária a falsa
ideia das condições e das relações sociais.

A mercadoria, então, é a chave para entender as relações capitalistas, nela há muito mais que o
valor de um produto, está toda a condição de organização da sociedade na produção da vida humana.
Não é por acaso que Marx se dedicou a vida toda a entender o funcionamento da economia capitalista,
tendo na mercadoria um dos seus elementos mais importantes.

Ao definir a mercadoria, em O Capital, Marx afirma:


A mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades,
satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do
estômago ou da fantasia. Não importa a maneira como a coisa satisfaz a necessidade humana,
se diretamente, como meio de subsistência, objeto de consumo, ou indiretamente com meio
de produção. [...]
À primeira vista a mercadoria pode parecer coisa trivial, imediatamente compreensível.
Analisando-a, vê-se que ela é algo muito estranho, cheia de sutilezas metafísicas e argúcias
teológicas. Como valor-de-uso, nada há de misterioso nela, quer a observamos sob o aspecto
de que se destina a satisfazer necessidades humanas, com suas propriedades, quer sob o ângulo
de que só adquire essas propriedades em consequência do trabalho humano. É evidente que o
ser humano, por sua atividade, modifica do modo que lhe é útil a forma dos elementos naturais.
Modifica, por exemplo, a forma da madeira, quando dela faz uma mesa. Não obstante a mesa
ainda é madeira, coisa prosaica, material. Mas logo que se revela mercadoria, transforma-se
em algo ao mesmo tempo perceptível e impalpável. Além de estar com os pés no chão, firma
sua posição perante outras mercadorias e expandem as ideias fixas de sua cabeça de madeira,
fenômeno mais fantástico do que se dançasse por iniciativa própria (MARX, 2002, p. 46 e 56-7).

Essa forma da mercadoria que Marx expõe é o fetiche. Ele se constitui como o valor estabelecido
pela burguesia para o produto, no qual a mercadoria encobre a condição material e real de produção,
passando a ser propagada como fruto de uma idealização do homem. A vida se justifica na imagem
fantástica dos objetos produzidos pela sociedade industrial. Esse preenchimento que ela produz com
seu encantamento em forma de mercadoria, um objeto que só falta “dançar por conta própria”, preenche
o vazio entre as condições de produção e a consciência do homem. Isso demonstra que o ser humano
perdeu a compreensão das relações que produzem sua vida.

Se considerarmos as condições em que vivemos na sociedade atual, levando em consideração a


teoria de Marx, o fetiche está propagado. Nossa relação com os objetos de consumo é marcada por um
mundo de fantasias mais irreal que um conto de fadas. Tudo porque a divisão do trabalho se ampliou e
se transformou em uma cadeia mundial de produção. O bem de consumo pronto, ao alcance de nossas
mãos, ou melhor, de nosso bolso, fisicamente próximo, está distante de ser compreendido por nós em
sua cadeia complexa de produção.

O poder de determinação da burguesia sobre a sociedade se intensificou na mesma intensidade


em que a sociedade capitalista viu expandir a divisão do trabalho promovida pela maquinofatura e em
47
Unidade
Sociologia Clássica II 3

que a mercadoria passou a envolver um maior número de indivíduos em suas relações de produção e de
consumo. O ideário burguês se alastrou por meio do liberalismo e se impôs como condição de poder em
quase todos os cantos do mundo.

Essa condição capitalista é o fator determinante das instituições que temos hoje em nossa
sociedade. Independentemente da proposta de ação e atuação promovida pelas mais diversas instituições
sociais, dando sempre este ar de aparência democrática, ela está subordinada às condições capitalistas
de produção e, por isso, reproduz seus interesses. A escola é um bom exemplo dessa falsa ideia de
liberdade de pensamento que o liberalismo induz. Segundo Marx, a educação está instituída dentro das
relações capitalistas, dessa forma, o conteúdo e as disciplinas apresentados aos alunos e a forma como
são organizados acabam por favorecer a compreensão burguesa de mundo.

A burguesia utiliza todos os meios para justificar o seu poder, mas principalmente justificar a
propriedade privada dos meios de produção; formas que permitem a ela dominar as relações que produzem
a vida material. Desde que a maquinofatura se estabeleceu como principal meio de transformação da
natureza em produto, a classe burguesa passou a ampliar a capacidade produtiva das máquinas. Dessa
forma, a dominação se torna mais intensa na medida em que os trabalhadores se transformam apenas
em uma extensão das máquinas que detêm a inteligência produtiva. Tendo a propriedade das máquinas,
a classe burguesa detém o controle sobre a produção da vida.

Para entender melhor a relação entre meios de produção, burguesia e classe operária, é bom
esclarecer as condições em que a nossa vida é mantida por meio da aquisição da mercadoria, o que já
falamos anteriormente. Perceba que tudo o que nos rodeia, sem tirar qualquer elemento, só é possível
atender às nossas necessidades se for adquirido em forma de mercadoria. Da luz que se dá com o apertar
de um botão ao alimento que adquirimos nas gôndolas dos mercados, qualquer produto que sofra a
transformação humana só pode ser adquirido em forma de mercadoria.

Se a mercadoria atende às necessidades da vida humana, então podemos medir o valor da existência
de um indivíduo por meio da mercadoria e da sua capacidade de adquiri-la. Como isso pode ocorrer?
Basta entendermos que, para adquirir as condições necessárias para suprir nossas necessidades, temos
que consumir mercadorias, logo, o nosso salário é a proporção de vida que podemos adquirir. O salário
é, então, a proporção mensal que a existência humana pode merecer.

É bom fundamentar, porém, que o salário nada mais é que a quantia paga pela venda de nosso
trabalho. Se vendemos o nosso trabalho por um determinado valor, o que determina o quanto ele vale?
Se entendermos o mercado de trabalho, ele vale a proporção de riqueza que é capaz de produzir e a
quantidade de pessoas habilitadas para realizá-lo. Quanto mais indivíduos aptos à realização de uma
determinada tarefa, mais baixo será o salário (lei da oferta e procura).

Para obter maior produtividade sem depender da força de trabalho, a classe burguesa desenvolve
tecnicamente os meios de produção. Dessa forma, aprimorando o maquinário industrial, a burguesia
reduz a necessidade de trabalhadores e, por consequência, o número de operários dos quais depende. Os
que são menos necessários como força de trabalho tendem a ganhar cada vez menos ou serem excluídos
da condição de força produtiva.

O cálculo do salário do trabalhador também deve ser considerado no valor da mercadoria. O preço
do produto tem nele a quantia de trabalho exercida pelo operário. Contudo, a remuneração dada ao
trabalhador não é proporcional à riqueza que ele produz. A porcentagem do trabalho que o trabalhador
aplica para a produção de uma mercadoria é remunerada por um valor menor. Se um operário imprime
R$ 20,00 no valor de cada produto em forma de trabalho, vai receber pelo trabalho aplicado R$ 5,00. Essa
é a mais valia absoluta.

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3 Sociologia Clássica II

Existe também, segundo Marx, a mais valia relativa, que são as mudanças efetuadas nas técnicas de
produção que reduzem o custo final do produto. Equipamentos novos, formas de organização espacial
do maquinário, terceirização de etapas da produção, enfim, tudo o que permite reduzir os custos de
produção. Hoje vivemos um investimento acentuado nas inovações técnicas da produção. O principal
motivo é garantir uma maior lucratividade das empresas capitalistas nos custos finais dos seus produtos.

1.1 As relações que produzem a vida


Para Marx, a sociedade se organiza nas condições de produção que estabelecemos anteriormente.
A vida social se constrói dentro da lógica da mercadoria, da busca da acumulação de riqueza e da
manutenção dos interesses da classe dominante, a burguesia. Vale lembrar, como falamos anteriormente,
que a classe burguesa utiliza todos os meios para garantir a permanência das condições de acumulação.
O Estado desempenha, nesta lógica, um papel central. É mediante o controle do Estado e da política pela
classe burguesa que se atende aos interesses da economia capitalista.

O Estado, então, representa um dos instrumentos principais da vida social. Nele, busca-se a
legitimação da propriedade e das relações de produção. O poder público assume para si a condição de
manter os interesses da classe dominante por meio das garantias das relações monetárias, da compra da
mercadoria, do controle sobre a classe trabalhadora e sua qualificação, assim como da manutenção da
propriedade privada sobre os meios de produção.

Para manter sua máquina pública, o próprio Estado é um consumidor das mercadorias burguesas.
Se formos considerar as teses de Marx para analisar o papel que o poder público desempenha como
consumidor de produtos e serviços, podemos notar que ele é o maior cliente das mercadorias burguesas.
O Estado consome mercadorias utilizando os impostos arrecadados, em parte, dos trabalhadores e da
própria classe burguesa. Enquanto para os trabalhadores os impostos não retornam, para a burguesia
retornam em forma de consumo de suas mercadorias. Dessa forma, os burgueses de maior poder de
produção e que detêm a fabricação dos produtos mais importantes para a manutenção da vida acabam
por ficar com uma fatia da arrecadação pública.

Não é por acaso que as grandes empresas se interessam por processos eleitorais que determinam os
líderes políticos, chamados de “representantes públicos”. As empresas de grande poder de capital, que se
beneficiam das obras públicas, empenham-se em investir em campanhas políticas buscando fazer valer
seus interesses, por meio dos candidatos que apoiam seus projetos. Ao serem eleitos, os que receberam
o financiamento burguês de campanha passam a defender a busca de lucro das empresas patrocinadoras
da sua campanha.

Na educação, essa dependência ocorre da mesma forma segundo as teses de Marx, já que em
qualquer instituição pública a finalidade é a manutenção da ordem social e a garantia de sua permanência.
Para que isso ocorra, atendendo aos interesses da classe dominante, o Estado promove práticas que
legitimem as relações de mercado, ou seja, o consumo da mercadoria, a preparação da mão de obra para
se submeter à economia burguesa, mas também a idolatria ao sucesso dos personagens que a burguesia
se espelha.

Os ídolos da história, os grandes cientistas e o importante literário são fruto de sua competência
e nunca do meio onde vivem e das condições sociais que os geraram. Para Marx, a burguesia esconde
por trás da idolatria ao líder e ao personagem de destaque todas as relações sociais de produção que o
geraram. Fantasiosamente, tudo se resume na competência de um homem só.

Essa lógica que estabelecemos anteriormente serve também para entendermos a cultura propagada
pela burguesia. Ela defende a competência particular acima da coletividade. As condições humanas

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Sociologia Clássica II 3

que são geradas por toda uma relação de produção, que apresenta a desigualdade entre os homens, é
encoberta pela personificação, pela idolatria à particularidade, pelo heroísmo egocêntrico e autonomista
estabelecido nas obras típicas do capitalismo, segundo as teses de Marx.

1.2 A Ciência deve fazer a crítica


Conforme Marx, a Ciência tem um papel fundamental na crítica à sociedade. Somente com
o conhecimento científico que denuncie as relações e condições que a vida humana é produzida é
que se pode organizar uma proposta racional de libertação da maioria da sociedade das condições
de exploração estabelecidas pelo capitalismo. Os que defendem uma “escola libertadora” partem
desse princípio.

Dentro do ambiente educacional, é possível fazer essa crítica e compreender as verdadeiras relações
sociais. Por isso, o cientista social, para Marx, deve ser um teórico engajado. Tem que estar militando
em defesa da classe operária. Deve usar seu conhecimento para desvendar as relações de opressão e lutar
pela libertação mediante um projeto socialista.

Na educação, Dermeval Saviani é uma das maiores expressões nessa linha de defesa com base no
materialismo histórico, por meio da educação histórico-crítica. Nela, Saviani defende o papel político do
educador e sua capacidade de introduzir dentro da sala de aula, no exercício de sua atividade pedagógica,
a consciência crítica e a compreensão das relações sociais. A escola, para ele, é uma expressão das relações
sociais, nela se percebem as contradições que as relações de produção estabelecem.

O papel do conhecimento dentro das instituições de ensino tem trazido controvérsias no


debate sobre o papel que a educação deve exercer na vida social. Os que consideram a educação
um meio de preparar o indivíduo para a sociedade não concordam com as teses histórico-críticas.
Para eles, a educação deve estar mais voltada a adequar o indivíduo do que lhe dar conteúdos
de questionamento sem o devido preparo para a vida em sociedade. Cabe ao educador, porém,
posicionar-se e colocar em questão qual o papel que o aluno considera exercer em sociedade. Por
isso, a importância em definir um método e uma postura política. Vamos tratar desse assunto ao
final desta unidade, em nossas conclusões.

Será que todo trabalho que executamos é um


trabalho que nos aliena? Na visão de Karl Marx, o
próprio ato em si de trabalhar na sociedade capitalista é
um ato de alienação, em que a força produtiva advém do
trabalhador e os ganhos do capital são condicionados à
burguesia. Neste sentido, Marx aponta que há alienação
no trabalho executado, uma vez que quem o executa não enxerga as possibilidades que esta
ação pode condicionar. O texto sobre a divisão de trabalho, de Celina Bruniera, mostra-nos tal
compreensão do autor.

Fonte: <https://educacao.uol.com.br/disciplinas/sociologia/marx-e-a-divisao-do-trabalho-a-
alienacao-do-trabalho.htm>

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3 Sociologia Clássica II

Muito se fala sobre o pensamento de Marx em relação à


política e ao proletariado. Mas será que isso se confirma? Quais
eram as ideias do chamado "Marx panfletário", que analisou as
condições dos trabalhadores da Europa de sua época? Confira na
leitura na íntegra do "Manifesto do Partido Comunista".

Fonte: <http://www.portalabel.org.br/images/pdfs/manifesto-comunista.pdf>

2. A SOCIOLOGIA DE MAX WEBER


De todos os sociólogos que vimos até agora, Max Weber é o que ocasiona um sentido importante
de reflexão sobre as contradições humanas. Ele coloca uma questão vital em sua obra: seria o homem um
ser puramente racional e capaz de direcionar sua vida pela razão? Esse é um tema central no trabalho do
pensador alemão e um dos precursores do existencialismo.

Weber representa o resgate da individualidade não como conceito filosófico, mas como condição
de análise social. Não significa que todos os indivíduos são objeto de estudo da Sociologia, mas em cada
um há o sentido que uma coletividade apresenta sobre a vida social. Em cada um de nós há elementos
que nos colocam na condição de civilização, os quais se expressam em nossas ações. Somos ocidentais, o
que significa que há elementos comuns na construção de modelos de ação, nos valores que cultuamos e
nas ações que praticamos. São nossas ações que denunciam nossos valores.

O que quer dizer “a sociedade está em nós”? Se colocarmos em evidência os momentos em que a
história denunciou as contradições entre a lógica racional, que deveria apontar a ação para uma determinada
direção, e o que assistimos enquanto fato, entenderemos que o determinante ao comportamento não é a
razão lógica e objetiva, já que outros fatores dão direcionamento ao comportamento social. Muitas vezes,
o peso de um comportamento arraigado ao longo da história pode ser determinante para dar sentido a
uma ação social. Um dos exemplos que podemos estabelecer sobre esse tema coloca Weber na crítica às
teses de Marx sobre a capacidade da consciência de si e para si.

Quando observamos o comportamento da classe operária alemã entre 1870 a 1914, período que
vai da unificação do Estado Nacional Alemão à Primeira Guerra Mundial, percebemos que foi também o
momento em que Marx construiu suas teses e as propagou para a classe operária na Alemanha. Se havia
um operário que tinha tido contato com as teses marxistas era o trabalhador germânico, considerado
por muitos adeptos do socialismo científico o mais preparado para um posicionamento de crítica ao
Estado capitalista e, por consequência, engajado na proposta de uma sociedade comunista. Esse mesmo
operário, porém, acabou sendo seduzido pelo nacionalismo que formou a Alemanha, lutando pela sua
formação em 1871.

Quando o estado alemão iniciou sua política imperialista e procurou estabelecer colônias e iniciar
uma corrida armamentista na Europa, desafiando o poder inglês, o operário alemão apoiou e se alistou.
Ele foi à Primeira Guerra Mundial (1914-1918), perdeu o conflito e se engajou novamente em mais uma
guerra, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ou seja, por mais que a guerra fosse considerada uma
expressão do imperialismo capitalista e uma ação de interesse da burguesia alemã, o proletário é mais
germânico do que socialista. Ele preferiu morrer pela Alemanha.

Diante desse exemplo, podemos começar a entender as teses de Weber. Para ele, a racionalidade
não significa uma ação consciente. Não existe na ação social que promovemos um sentido lógico e
objetivo exclusivamente. Isso não quer dizer que todo comportamento é irracional. Há uma intenção

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Sociologia Clássica II 3

racional de quem pratica determinado ato, mas nunca essa razão será pura para ela. As relações que os
homens estabelecem em sociedade têm uma gama de intenções subjetivas, que são construídas em grau
de importância diferente para cada indivíduo e para cada coletividade.

Um indiano está mais apto a certos comportamentos por ter uma cultura que o predispõe a isso. Há
uma herança cultural que permite que certos tipos de ação se potencializem em determinadas sociedades
mais do que em outras. Usamos aqui os indianos como exemplo, mas poderíamos nos referir a outros
povos. Ao observar a paciência que têm em ficar horas na fila para assistir a uma sessão de cinema,
podemos considerar seu gosto pelos filmes, o que é óbvio. Vemos, ao mesmo tempo, o quanto eles se
sujeitam a esperar horas para assisti-los, o que só pode ser entendido pela sua cultura contemplativa, ou
seja, diante do desejo, eles têm a paciência para buscá-lo. Isso não quer dizer que sejam passivos, mas que
para determinados fins é possível ter parcimônia, o que em determinadas sociedades seria impossível,
mesmo naquelas em que se valoriza a produção cinematográfica.

Por isso, deve-se considerar que para Weber não seria possível ter uma análise puramente racional
de determinado fenômeno pela análise objetiva dos fatos (Durkheim) ou pela consciência das relações
racionais da economia e da história da produção da vida material dominada por uma determinada classe
(Marx). Ao mesmo tempo, não se podem desprezar os fatos sociais, que devem ser entendidos pelo
sentido que os sujeitos, agentes da ação, dão a eles. Esse sentido não é de quem observa, do cientista, mas
sim de quem é observado, daquele que pratica o comportamento.

A pesquisa sociológica e a compreensão da sociedade

Fonte: Pixabay.

Se considerarmos a própria vida de Marx sob o olhar de Weber, o pensador socialista viveu a crítica
à sociedade capitalista, passou por diversos países, sua família viveu todas as consequências de ter que
fugir e de não ter condições econômicas para se sustentar. Contudo, Marx fazia questão de que suas filhas
tivessem aulas de canto, poesia e piano, como toda jovem da aristocracia ou da burguesia emergente.

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3 Sociologia Clássica II

Marx era conservador em relação à vida amorosa de suas filhas, controlava seus relacionamentos
e influenciava a escolha de seus maridos. Marx é um homem como pensador e outro ao agir dentro
das relações sociais. O que ele preservava em suas relações domésticas não serve para legitimar seu
pensamento. Não podemos desprezar as teses do materialismo histórico e dialético, mas não podemos
considerar que nelas está expresso o ser humano Marx. É sobre essa condição humana que Max Weber
se debruça em seus estudos.

O argumento de Weber se destaca à Teoria dos Modelos de Ação, na qual busca uma
compreensão dos sentidos das ações sociais pelos agentes que a praticam. Para isso, ele considera
que os modelos e valores subjetivos dados ao comportamento social são carregados de uma escala
de valor, uma cadeia de entendimentos e de interesses que se elabora subjetivamente e se expressa
no comportamento. Por isso, para ele, nem todo o comportamento praticado pelos indivíduos é
social. Só o é quando está direcionado ao outro, envolve o interesse de reação de outro ou busca
uma resposta em outro. Essa pessoa com quem se relaciona pode ser um conhecido, um imediato,
um ser construído e fictício ou mesmo um princípio a que se obedece, uma regra moral religiosa
que se traduz em um comportamento “ético” esperado.

Se não quero pecar não pratico tal ato, porque as consequências virão no juízo final. Esse
comportamento pode não ser ilegal, não ter qualquer tipo de restrição jurídica nem provocar uma
reação social que o condene, mas muitas pessoas não o praticam, temendo uma suposta punição em
uma existência pós-morte. Esse é um exemplo de um fato social inspirado em modelo. Nela, a ética
religiosa determina uma ação.

Os modelos, para Weber, são construídos nas relações sociais. Nelas somos orientados pelas
tradições das relações sociais que nos antecederam, nas heranças passadas, nas quais os comportamentos
e valores que nos identificam foram construídos ao longo do tempo e passados pelas gerações. Essa
herança se dá nos ensinamentos religiosos, nas práticas do folclore, na educação de história e nos valores
passados no ambiente doméstico onde nossos pais reforçam valores morais.

Também temos modelos construídos nas condições presentes, na vida que levamos e nas relações
que estabelecemos. Aprendemos, na busca de resolver problemas atuais, a construção de sentidos a
valores que herdamos, mas também valores novos que incorporamos nas práticas diárias. Ao passar
por uma dificuldade econômica, há uma herança de valores que me fará lidar com essa condição de
uma determinada forma ou de outra. Dependendo das condições que passe e como tenho que agir para
superá-la, pode reforçar os valores que tenho ou modificá-los, até mesmo rompê-los.

Há também a construção futura dos modelos de ação, em que se estabelece o sentido por meio
do interesse de um resultado que virá depois da ação praticada. Uma ação preventiva é, também,
uma ação fundada no modelo futuro. Um pai preocupado com seu filho pode abrir uma caderneta
de poupança, esse é um exemplo de uma ação futura. Em algumas civilizações, já que falamos do ato
de poupar, a preocupação em prevenir uma possibilidade de crise pode ter consequência direta em
uma política econômica. Os japoneses têm, por tradição, o hábito de poupar. Logo, em alguns casos,
aquecer a economia nipônica dá relativo trabalho, já que fazer os japoneses irem às compras não é
uma tarefa fácil. No Brasil, pelo resultado do endividamento das famílias brasileiras pelo crédito fácil,
o modelo econômico é oposto.

Esses modelos se interagem dentro dos indivíduos ao longo do tempo e podem ganhar
interpretações novas com as mudanças das condições presentes. O que é uma tradição ligada a um ritual
moral de responsabilidade pode se associar apenas à comercialização de uma festa, um momento de
êxtase sem compromisso futuro. Se usarmos o casamento como um fenômeno social, sua permanência
como ritual de associação à união conjugal está perdendo importância.
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Sociologia Clássica II 3

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística do Censo de 2010 (IBGE, 2010),
hoje mais de 50% dos casais não se casou no civil ou no religioso. Ou seja, a maioria dos casais não adota
o ritual do casamento, a cerimônia. Porém, as festas de casamento são cada vez mais um espetáculo. Sua
idolatria está na aparência requintada da cerimônia e não na permanência da união. Se casar é uma festa,
o casamento, para alguns, é uma prisão.

Logo, muitos dos comportamentos que temos em nossa sociedade têm um sentido
diferente do que há décadas. O que antes poderia ser associado a um ritual de importância
para a coletividade, hoje pode estar associado apenas a uma superficialidade momentânea. A
família está em constante transformação, contudo ainda se preserva o modelo tradicional —
patriarcal monogâmica e consanguínea — na busca de constituir uma união estável. Porém,
estatisticamente, segundo o Censo de 2010, novos modelos familiares estão surgindo. A família
tradicional está em decadência.

Por isso, deve-se considerar que para Weber não


seria possível ter uma análise puramente racional de
determinado fenômeno pela análise objetiva dos fatos
(Durkheim) ou pela consciência das relações racionais
da economia e da história da produção da vida material
dominada por uma determinada classe (Marx). Ao
mesmo tempo, não se podem desprezar os fatos sociais, que devem ser entendidos pelo sentido
que os sujeitos, agentes da ação, dão a eles. Esse sentido não é de quem observa, do cientista,
mas sim de quem é observado, daquele que pratica o comportamento.

Fonte: Elaborado pelo autor.

3. OS TIPOS DE AÇÃO SEGUNDO WEBER


Se os modelos de ação são construídos nas relações sociais mediante as heranças das gerações
passadas, das condições presentes e do sentido futuro, os modelos foram classificados por Weber em
quatro características ideais: racionais com relação a fins; racionais com relação a valores; tradicionais
e afetivos.

Esses modelos serão explicados aqui separadamente, mas apenas como uma forma didática para
facilitar a compreensão, pois na vida social se dão em conjunto. Jamais encontraremos um modelo
agindo de forma pura. Por muitas vezes, a existência de um determinado modelo está associada a
existência de outro. Um exemplo, que veremos a seguir, é a tradição e a emoção, modelos que tendem a
se complementar.

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3 Sociologia Clássica II

Como o ser humano pensa?

Fonte: Pixabay.

3.1 Racional com relação a fins


Weber considera que a civilização ocidental tem sua organização fundada na racionalidade lógica.
Nossa forma de compreender as instituições, suas funções e nossas relações com elas é toda orientada
pela razão. A legislação que o Ocidente criou para orientar sua conduta em sociedade é racional lógica.
Há uma intenção racional na forma como nos organizamos e buscamos manter nossas instituições.

Consideramos que a racionalidade é a condutora para o progresso humano, e que a vida em


sociedade deve ser pautada na compreensão dos fenômenos sociais pela racionalidade científica. É por
meio dela que orientamos nossa ação para a superação de problemas, que podem ser de ordem coletiva ou
particular. Se estivermos doentes, devemos procurar um médico, se uma sociedade tem uma epidemia, o
Estado deve tomar atitudes racionais para tentar sanar o problema, buscando a prevenção e a cura.

A racionalidade lógica está sustentada na busca de atender interesses utilizando uma ação fundada
na razão objetiva. Uma busca determinada sempre necessita de ações lógicas para que seja executada. Um
dos exemplos utilizados por Weber é do engenheiro que constrói uma ponte porque tem que estabelecer
uma ligação nas duas margens do rio. Outro exemplo é o aluno que, se quer fazer um determinado curso,
matricula-se em uma universidade. Se uma mulher deseja evitar ter filhos, toma anticoncepcional. Se
alguém deseja chegar a um determinado lugar, vê o caminho mais eficiente e seguro.

Quando observamos o comportamento social, podemos concluir que pela ação poderíamos
deduzir a intenção de quem a pratica. Em uma sociedade capitalista, na qual a economia exerce um
papel fundamental em nossas vidas, nosso comportamento com o dinheiro deveria ser racional e lógico,
já que ele é apenas um meio de atender às nossas necessidades.

Se tenho necessidades vitais para me manter e garantir a minha sobrevivência, devo fazer com
que o dinheiro cumpra essa função. Logo, deveria investir em atividades de qualificação ou aplicar em
bens que me permitam obter mais dinheiro para minha segurança futura e melhora da minha qualidade
de vida. Se não tenho qualificação e necessito melhorar minha condição de vida, posso investir em um
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Sociologia Clássica II 3

curso técnico ou superior e jamais utilizar de meu dinheiro para comprar um automóvel diante dessa
necessidade racional e lógica.

A economia, por exemplo, é em sua essência racional com relação a fins. A aquisição de um
determinado bem implica a obtenção de um determinado valor em dinheiro para poder adquiri-lo. Em
uma sociedade como a nossa, na qual tudo se estabelece por uma relação econômica, o valor monetário
do que está a nossa volta não deveria ser desprezado em momento algum. Marx acreditava que isso
seria uma forma de dar ao homem uma consciência das suas relações sociais, percebendo a dinâmica da
sociedade capitalista. Para Weber, essa concepção puramente racional e lógica não existe de forma pura
e não é única determinante das atividades econômicas.

Quando falamos de economia, da vida cotidiana permeada pelas condições econômicas, temos
que entender outro modelo de ação, o lógico em relação a valores. Vamos tratar dele a partir de agora.

3.2 Racional com relação a valores


Uma crença, um valor moral e um sentido emocional que exija um ritual associado a um
comportamento esperado. A racionalidade é uma exigência aparente da forma como avaliamos o
comportamento do outro, mas o valor a ela associado pode ser um determinante para o comportamento
que nossa busca de racionalizar não consegue compreender de imediato, a não ser quando analisamos
com mais cuidado. Por isso, há uma associação de um determinado valor a um comportamento que
se pratica. Uma necessidade de cumprir um ritual para atingir um benefício que nem sempre está
denunciado diretamente ao comportamento.

Pelo senso comum, afirmamos que os alemães são orgulhosos, assim como os japoneses.
Comentamos do nacionalismo norte-americano, do bom humor italiano e da hospitalidade brasileira
como características desses povos. Essas características são esperadas quando nos relacionamos com
alguém que tenha como identidade uma dessas nacionalidades e sua característica específica. Não espero
de um italiano a mesma passividade de um nipônico diante de uma mesma situação.

Esses valores podem ser apenas fantasiosos, não se comprovando em sua maioria, mas podem ter
uma expressão de verdade diante de determinadas condições em que se exija um comportamento mais
adequado para um do que para outro. Podemos considerar, por exemplo, a destruição de um país, como
aconteceu com os japoneses depois do tsunami em 2011. Assolado, o país precisou agir rápido e teve que
se organizar para superar problemas ocasionados pela catástrofe.

Foi preciso procurar sobreviventes, restaurar a rede de energia, recuperar as estradas, tratar os
doentes, realizar o abastecimento de água e alimento para a população, entre outras tantas necessidades.
O mundo assistiu à organização da sociedade no dia a dia, sua capacidade de cooperar em momentos
críticos, esperar na fila para obter água e alimento, para pegar um transporte coletivo, para abastecer
um veículo e para usar um telefone. Essa prática coletiva está além da racionalidade, está ligada ao valor
moral que atinge o conjunto social.

Essa condição que se estende por um número de indivíduos e que os identifica por um comportamento
comum é que chamamos de valor associado. Os japoneses foram racionais ao se comportarem de forma
organizada, mas também havia um sentido comum de valor ao considerarem que essa prática levaria ao
restabelecimento de seu país e de sua nacionalidade que é tão cara para a população.

A honra é para algumas comunidades algo caro, que deve ser preservada e estar presente diante
de situações em que aquilo que se deseja preservar está ameaçado. Colocamos no início dessa exposição

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3 Sociologia Clássica II

os indianos e sua organização, mostrando a forma como eles se comportam em determinado momento
associada a um valor que não existiria em outra civilização, é isso que estamos reforçando aqui.

A economia tem em seu desenvolvimento inúmeros casos que podem servir para tratar do
comportamento lógico em relação a valores. O dinheiro, como falamos, é um meio, mas onde ele é
aplicado depende da intenção de quem o tem. Dessa forma, investir, consumir, usar o dinheiro para
aplicar e obter mais ou gastar para adquirir objetos de prazer imediato são opções de quem tem o
dinheiro e dependem dos valores do ser humano diante da condição econômica. Pessoas com a mesma
quantidade de dinheiro, tendo a mesma escolaridade e acesso às mesmas informações sobre objetos
de consumo e possibilidades de aplicação financeira, podem não ter o mesmo comportamento. Em
parcela considerável de uma sociedade esse pode ser um comportamento comum, como falamos dos
japoneses anteriormente.

O trabalho, enquanto atividade racional, a dedicação a ele e a valorização social de sua prática
devem ser considerados em relação ao valor que ele estabelece. Em um de seus trabalhos, A ética
protestante e o espírito capitalista, Max Weber analisa o trabalho de operárias protestantes e pietistas, que
se concentram de forma singular em relação ao trabalho, quase não cometendo acidentes e se igualando
às operárias conservadoras:
Uma imagem retrógrada da forma tradicional do trabalho é atualmente apresentada muitas
vezes por operárias, especialmente pelas que não são casadas. [...] O contrário se dá geralmente
e este não é um ponto insignificante de acordo com a nossa visão, apenas com moças com
uma formação especificamente religiosa, em especial a pietista. Ouve-se frequentemente,
e confirma-o a investigação estatística, que de longe, as melhores oportunidades de
uma educação econômica são inegavelmente encontradas neste grupo. A capacidade de
concentração mental, tanto quanto o sentimento de obrigação absolutamente essencial para
com o próprio trabalho, estão aqui combinados com uma economia estrita que calcula a
possibilidade de altos vencimentos, um autocontrole e uma frugalidade que enormemente
aumentam a capacidade de produção (WEBER, 1980, p. 193).

Logo, pela colocação de Weber, a formação religiosa influencia o desempenho no trabalho


e determina um ritmo à atividade econômica. Investe-se no trabalho para obter um determinado
interesse atendido e se busca realizar pela atividade profissional um reconhecimento religioso. O
sucesso profissional é, então, uma fusão da dádiva divina e do resultado de uma disciplina que se
associa à ética religiosa.

Em nossa sociedade, na qual associamos a atividade econômica apenas à aquisição de bens e não
compreendemos a lógica racional da economia, estamos gerando uma problemática entre o desejo de
ter pela simples emotividade, sem ter um valor associado que gera o merecimento. O valor social do
consumo não estabelece associado a ele um comportamento de produtividade laboral, ou seja, o trabalho.

Vale lembrar que a educação deve ser analisada por esse aspecto do valor associado à dedicação
do conhecimento. A busca por compreender racionalmente o mundo a nossa volta tem que ter um
sentido que vá além da objetividade de estudar. A razão lógica que justifica o estudo já é conhecida e,
por muitas vezes, vira apenas retórica. Agora, compreender os benefícios culturais que a educação gera
está associado a valores agregados à busca do saber. Enquanto estivermos valorizando os que não têm
uma dedicação ao estudo, estimularmos os benefícios aos que se desviam da conduta do conhecimento,
vamos colher problemas.

As relações que estabelecemos na vida profissional, no ambiente familiar e nas atividades de


lazer tem pouco sentido de reconhecimento da educação como ato de valor. Deveríamos reverter
esse aspecto. O estímulo à educação deve compreender não só as associações racionais, mas as
demais atividades do cotidiano. Os méritos dos mais dedicados devem associar as posições sociais
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Unidade
Sociologia Clássica II 3

de maior relevância. Se tivermos os nossos expoentes sociais associados ao conhecimento e à busca


de competência intelectual, científica e técnica levaríamos os demais elementos sociais a perceber a
associação do sucesso à educação.

Agora vamos tratar dos demais modelos de ação que ainda restam abordar aqui, o emocional e o
tradicional, que se completam, determinando também as ações sociais, segundo Weber.

3.3 Afetiva
A ação afetiva é aquela na qual o comportamento é movido por um sentimento, seja ele de
afetividade, de rejeição, de sedução ou de ódio. A vingança também pode ser considerada um modelo
determinante da ação social. Vivendo um momento de êxtase coletivo, uma paixão por determinado
evento político, o comportamento da sociedade pode ser alterado. A associação da emotividade à
tradição pode ser um exemplo dessa intenção.

Na Alemanha, o que levou o país à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi o sentimento de
vingança do povo alemão, a busca de um revanchismo pela humilhação sofrida no final da Primeira
Guerra Mundial (1914-1918). Esse mesmo sentimento foi um campo fértil para o surgimento do nazismo,
fundado em uma exaltação do germanismo. Weber considera que lideranças políticas acendem com um
sentimento de identificação com o líder, como uma relação de emotividade carismática.

Em uma sociedade, pode ocorrer uma emotividade associada a fatos que abalam o sentimento
de unidade coletiva, como já vimos o exemplo da Alemanha entre as duas guerras mundiais. Há,
porém, a emotividade que pode levar à depressão e descrença na unidade. Em alguns países, o
sentimento de depressão gerou comportamentos preocupantes. Se pensarmos na grande crise
econômica durante a quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, o número de suicídios cresceu
significativamente. Não podemos negar o sentimento de desespero que levou uma parte dos
suicidas a colocarem fim em suas vidas por terem perdido todo o seu patrimônio. Em outros países,
a falência não traria esse desespero, principalmente naqueles em que a oportunidade econômica
não é vista com uma condição para todos.

No extremo oposto da emotividade que leva ao suicídio, vale descrever os kamikazes na Segunda
Guerra Mundial (1939-1945). Eles morreram pela pátria em um sentimento de nacionalidade. A
vida pela glória do japonês. No Brasil, vale ressaltar, imigrantes japoneses não aceitaram a derrota
na Segunda Guerra Mundial e consideravam uma desonra quem a admitisse. Uma série de ações
de vingança e luta entre os membros da comunidade nipônica demonstra o sentimento patriótico
mesmo não vivendo no Japão.

Nas relações individuais, a ação afetiva é facilmente percebida. Quantas vezes não praticamos
o sentimento de vingança ou por paixão promovemos ações irracionais? Em diversos momentos, é a
emotividade que, junto com outros modelos, impulsiona a nossa relação com outras pessoas. Quando
observamos a sedução, fica mais nítido o sentido emocional. Agimos para atrair a atenção, ter o
reconhecimento, receber destaque em meio a uma multidão. Em empresas, a emotividade é utilizada
para incentivar determinados tipos de comportamento no trabalho. Na escola, ela pode ser um grande
aliado na busca de melhorar o desempenho dos alunos, mas também, por ela, pode-se prejudicar o
desempenho escolar. Em diversos ambientes de ensino, o aluno com mau comportamento é retratado
como o destaque entre os colegas.
ƚƌĂĚŝĕĆŽ͕ƋƵĞǀĞƌĞŵŽƐĂƉĂƌƟƌĚĞĂŐŽƌĂ͕ƚĂŵďĠŵĠƵŵĚŽƐŵŽĚĞůŽƐĚĞĂĕĆŽƚƌĂďĂůŚĂĚŽƐ
por Weber.

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3 Sociologia Clássica II

3.4 Tradição
A tradição é um modelo de repetição associado a um valor que permanece. Muitas vezes, o
comportamento permanece, mas o valor acaba se desassociando dele. Uma tradição é a condição em que
se mantém um determinado comportamento arraigado em uma sociedade e que gera um sentimento
(modelo emocional) muitas vezes de segurança. A permanência de um regime de governo, um ritual
religioso, uma comida típica e uma tradição de liderança são alguns exemplos.

O comportamento tradicional, em sua origem, poderia estar associado a uma razão lógica ou
a um valor, mas com o passar do tempo, sua permanência ganha um sentido próprio e se perpetua
relacionado a um número significativo de elementos, muito além do que lhe deu origem. O casamento
pode ser considerado uma tradição, mas nem por isso está associado à manutenção de uma relação
duradoura. Nas comidas típicas, a permanência pode ser uma associação de valores comerciais ou
mesmo de identidade social com um passado, sem que o alimento continue sendo uma expressão lógica.
Na origem da comida típica, há uma condição de ambiente, clima e disponibilidade de ingredientes, que
podem não existir mais, mas o alimento ainda é produzido.

Na política, podemos exemplificar a condição do mando, da associação do poder com determinados


grupos sociais. Ao repetir o mando ao longo de gerações, associa-se o poder a determinados personagens
e sua hereditariedade. Nos países onde a monarquia se mantém, pode-se dizer que é fruto de uma tradição
que não encontra respaldo racional lógico. O modelo monárquico inglês, com seu parlamento, é um
bom exemplo. O império japonês também poderia ser colocado como uma manutenção tradicional. No
Brasil, a política coronelista, o mando de determinadas famílias em regiões de predomínio agrário ainda
se mantém. Por mais que os coronéis tiveram sua origem em uma sociedade agrária exportadora durante
a primeira república, e o mando do proprietário de terra remonte o período colonial, as oligarquias
agrárias ainda continuam tendo uma forte influência sobre o poder no país.

A tradição deve ser entendida como uma condição importante para que certos comportamentos
se realizem e acabem por valorizar a prática necessária em uma sociedade. Hábitos repetidos ao longo
do tempo e que demonstram civilidade acabam por valorizar uma relação estável. A preservação da
democracia como um ambiente político é uma racionalidade, mas também pode ser uma expressão de
tradição ao longo do tempo.

O artigo do professor Carlos Eduardo Sell avalia como a


questão da racionalidade está presente em Max Weber, um dos
principais teóricos da sociologia clássica. Complementando as
discussões sobre a razão em nosso material didático, Sell aponta
como a racionalidade surge no pensamento do autor, além
de fazer um relevante balanço sobre o tema (estado da arte),
sinalizando como a razão é objeto de estudo ao longo dos anos.

Fonte: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092012000200010>

CONCLUSÃO
Caro(a) aluno(a), o estudo dos clássicos é fundamental para podermos alicerçar qualquer análise dos
fenômenos contemporâneos. Por mais que adotamos posturas de autores da atualidade, o conhecimento
das teses contemporâneas é fundamental, pois permite um embasamento teórico coerente que garante
59
Unidade
Sociologia Clássica II 3

uma base sólida de análise para o enriquecimento de informações e a possibilidades de compreensão da


vida social.

Clássicos como Marx e Weber são autores que mudaram a estratégia de ação sobre a sociedade.
Em Marx, compreendeu-se não só uma forma crítica de entender a sociedade capitalista, como também
um projeto de sociedade que se propôs a superar as relações capitalistas de produção.

Já Max Weber, em sua análise cultural, quando traz a compreensão da economia e sua relação com
a ética religiosa, avança sobre um campo inovador em sua época. Entender o efeito das culturas sobre a
vida material e sobre o comportamento concreto. Em sua principal obra, A ética protestante e o espírito
capitalista, a história da civilização ocidental ganha um contorno novo, a contribuição econômica para o
sentido da lucratividade e da materialidade do capitalismo.

Max Weber vai além da perspectiva meramente objetiva da análise social. Ele quer entender os
sentidos que os sujeitos que praticam a ação dão a ela. Qual é a orientação do comportamento que será
relacionado a outro. O legado cultural de uma nação pode influenciar seu destino econômico e pode
potencializar momentos que se tornam únicos e promovem guindas significativas na vida social.

A realidade econômica para sociedades que construíram um legado cultural distinto sobre o
enriquecimento pode ter influências diferentes para as práticas econômicas. Para Weber, sociedades
protestantes, principalmente puritanas, e católicas dão um significado diferente ao enriquecimento.

ELEMENTOS COMPLEMENTARES
#LIVRO#

Título: A ética protestante e o espírito do capitalismo

Autor: Max Weber

Editora: Pioneira

Sinopse: Considerado pela crítica como “o livro do século”,


nele Weber ensaia a relação casual entre o capitalismo e a ética
do protestantismo, em explosão na Europa após a Revolução
Protestante.

60
Unidade
3 Sociologia Clássica II

#FILME#

Título: Os delírios de consumo de Becky Bloom

Ano: 2009

Sinopse: Baseado na série de livros da britânica Sophie Kinsella, essa


comédia mostra os problemas causados pelos exagerados desejos de
consumo da protagonista, enquanto tenta um emprego numa revista.
É interessante para avaliar os aspectos do consumismo, criados a partir
do capitalismo exacerbado.

#WEB#

Texto acadêmico que faz referências à questão do conceito de dominação criado pelo sociólogo
Max Weber.

Link: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2238-38752014000200587>.

REFERÊNCIAS
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2010 - Características gerais
da população brasileira. Disponível em: <http://censo2010.ibge.gov.br/> Acesso em: 01 jul. 2017.

MARX, K. A mercadoria: fundamentos da produção e do conhecimento. In:   O capital: crítica da


economia política (vols. 1 e 2). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

_______. Sociologia. Tradução de Maria E. Mascarenhas e Fausto N. Pellegrini. São Paulo: Ática, 1988.
(Coleção Grandes Cientistas Sociais).

VIEIRA, I. Pesquisador da Unesp diz que piadas racistas reforçam padrão colonialista e estereótipos.
Agência Brasil: Brasília, 2012. Disponível em: <http://www.ebc.com.br/2012/11/pesquisador-da-unesp-
diz-que-piadas-racistas-reforcam-padrao-colonialista-e-estereotipos>. Acesso em: 14 ago. 2017.

WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. In: WEBER, M. 1864-1920. Textos


selecionados. Seleção e tradução de Maurício Tragtenberg. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Coleção Os
Pensadores).

61
Unidade
4

DOS CLÁSSICOS EM DIANTE: COMO


PENSAR A SOCIOLOGIA?
Professor Tiago Valenciano

Objetivos de aprendizagem
da unidade
• Compreender a Sociologia sob o aspecto de seus autores
clássicos (Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber), além
da perspectiva teórica de Pierre Bourdieu
• Compreender os fundamentos sociológicos da Educação
Unidade
4 Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia?

INTRODUÇÃO
Afinal, os clássicos da Sociologia ainda importam para o estudo de nossa sociedade no modelo
atual globalizado? Essa questão permeia esta unidade, que tem o objetivo de situar você, aluno(a), em
um ponto fundamental para compreender o que foi tratado até aqui: diferenciar Comte, Durkheim,
Weber e Marx, apontando as possíveis semelhanças e as múltiplas diferenças entre eles. Nossa proposta
é instigá-lo a equacionar o seguinte problema: a Sociologia, na diversidade de seus autores denominados
“clássicos”, colabora em minha formação acadêmica?

Para além dos clássicos, seguimos nossa viagem apresentando a sofisticada Sociologia de Pierre
Bourdieu, voltada para a explicação de conceitos, como campo, habitus e capital, fundamentais para
expor a diversidade que é nossa sociedade, que possui símbolos e regras próprias de um jogo disputado
a cada dia em busca da hegemonia social. Bourdieu traz à tona questões estruturais da Sociologia, talvez
em menor complexidade metodológica do que seus antecessores, mas com um legado importante para
seus sucessores.

Indagaremos, ainda, quais são os fundamentos sociológicos para a educação, ou seja, o próprio
título desta disciplina. A proposta é relacionar, em um tom ensaísta, os principais conceitos dos autores
abordados, no sentido de pensar a relação entre a Sociologia e a Educação para a nossa sociedade e
qual seu impacto. Os apontamentos aqui efetuados surgem com o objetivo de explorar sua imaginação
sociológica, estabelecendo um papel questionador do status quo do modelo de sociedade que vivemos.

Com esse itinerário, esperamos conduzir nosso diálogo para um balanço da produção sociológica
clássica, articulando-a com nossa realidade, com as perspectivas do(a) aluno(a) para o Ensino Superior
e, sobretudo, com as novas experiências profissionais vindouras.

1. OS CLÁSSICOS AINDA IMPORTAM?


Durante nossa jornada, analisamos alguns autores considerados clássicos da Sociologia (Émile
Durkheim, Max Weber e Karl Marx), que formam sua base de explicação tradicional. De antemão,
sinalizamos que eles são os mais explorados pela Sociologia, tanto no Ensino Médio quanto no Ensino
Superior. Evidentemente que, em algum momento de nossas vidas, estudamos esses autores como se
falassem a “verdade absoluta” sobre a Sociologia, o que evidencia a face da disciplina perante as demais.

Quando ouvimos a expressão “fato social”, prontamente a ligamos a Durkheim, autor que
a cunhou para explicar como o poder de coerção de tais fatos pode influenciar os comportamentos
individuais e coletivos de cada indivíduo. Da mesma forma, falar em ação social ou nas formas puras de
dominação prontamente nos remete a Weber, que, a partir de sua Microssociologia, delimitou como as
ações individuais, extremamente racionais, são experimentadas em microespaços, porém, com reflexos
amplamente sociais. Por fim, a visão acerca do capitalismo proporcionada por Marx nos faz enxergar
como a sociedade, ao mesmo tempo inclusiva, pode ser excludente no tocante às desigualdades sociais.

Essa caminhada sobre os chamados “clássicos” da Sociologia nos remete à seguinte questão: será
que esses autores, cada qual com sua possibilidade de reflexão, ainda podem ser considerados clássicos?
Além disso: qual é a medida encontrada para dizer que Durkheim, Weber e Marx ainda influenciam os
comportamentos sociais, isto é, a nossa vida e as nossas atitudes em/na sociedade? São essas questões
que pretendemos discutir a fim de expor os motivos pelos quais tais autores ainda importam (ou não) no
ambiente de reflexão da Sociologia.

Antes de examinarmos essa questão, vale ressaltar que um autor se torna clássico quando tem
o poder de perpetuar seus ensinamentos ao longo dos anos. Qual é a origem desse termo, então? Se
63
Unidade
Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia? 4

verificarmos o ambiente do Classicismo (período de valorização dos padrões estéticos do mundo antigo),
notamos que as manifestações dessa corrente se dão na modernidade, com a visão antropocêntrica sendo
valorizada. Logo, o Classicismo ressalta que o homem deve estar no centro das pesquisas filosóficas,
sendo, dessa forma, a razão e a chave para compreensão da natureza humana.

Nesse sentido, notamos que a razão e a explicação da existência humana em/na sociedade são
questões inerentes aos chamados “clássicos” da Sociologia. Perceba que os três autores aqui elencados
se preocuparam em compreender como, de forma racional e justificada, o homem se relaciona consigo
mesmo e expõe essa relação na vida social. Ora, podemos visualizar que Durkheim obteve tal preocupação
de imediato: a justificativa do nascimento da Sociologia, uma ciência destinada a estudar a dinâmica da
sociedade e a publicação de um livro destinado a compreender os principais métodos dessa nova ciência
são fatos que demonstram a preocupação do autor em consolidar esse novo campo de conhecimento.

Da mesma forma, Weber observou, a partir de fenômenos sociais, como os indivíduos se


relacionavam objetivamente perante à sociedade, esperando que determinadas pessoas agissem de
acordo com cada intenção em cada ação específica. A partir dessa observação, Weber pôde compreender
que o capitalismo se desenvolveu de forma racional, por exemplo. Por outro lado, Marx notou que, em
um ambiente pautado pela Revolução Industrial e pela crise de origem de uma sociedade urbana não
igualitária, era possível observar que alguns comportamentos inerentes às diferentes classes sociais se
repetiam ao longo dos anos.

Nesses três exemplos basilares, compreendemos inicialmente como tais autores, considerados
clássicos da Sociologia, ainda têm importância no estudo dessa ciência. Além da influência do Classicismo
nas origens da expressão, tais pensadores assumem o caráter de autores atemporais, isto é, não deixam
de influenciar correntes de pensamento ou não perdem o poder com o passar dos anos. Observe que até
hoje possuímos adeptos das suas ideias, bem como uma infinidade de teorias sociológicas, de produções
acadêmicas, de debates, de conferências e até mesmo de centros de pesquisa criados justamente para
tentar explicar essa evidente ascendência.

Observamos a seguir um quadro que demonstra justamente essa atualidade dos clássicos da
Sociologia e em qual medida eles (ainda) influenciam o estudo da sociedade.

Quadro 1 — Abordagens sociológicas da sociedade moderna


SOCIEDADE MODERNA
Pensador Relação entre indivíduo e sociedade Conceitos principais
Émile Durkheim (1858-1917) Ser indivíduo é ser social; indivíduo Fato social; ordem; anomia;
como simples executor da estrutura objetividade; coerção social;
(resíduo); a ação é subproduto da coesão social; divisão social do
Sociologia positivista/funcionalista/
abstração. trabalho; solidariedade mecânica e
objetivista
orgânica; consciência coletiva.
Max Weber (1864-1920) Sentido da ação de acordo com o Ação social e individual; sentido;
sujeito; mundo social como uma rede subjetividade; significado de
de intersubjetividade; eu/ “outro”. ação; autonomia; racionalidade;
Sociologia compreensiva/
burocracia.
fenomenológica.
Karl Marx (1818-1883) Indivíduo como produto das relações Materialismo histórico;
sociais de produção. superestrutura; infraestrutura;
fetichismo da mercadoria; capital;
Objetivismo
alienação; exploração; luta de classes;
ditadura; revolução; dialética.
Fonte: Ribeiro (2016, p. 157)

64
Unidade
4 Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia?

Veja que nesse quadro cada um dos autores clássicos da Sociologia possui relação com a sociedade
moderna e, por que não, com a atual sociedade pós-moderna/globalizada. Analisando cada um deles,
notamos que o relacionamento entre o indivíduo e o outro/mundo exterior é diferente, porém, com o
sentido de que a sociedade é um elemento essencial para compreensão de nossa realidade.

Durkheim estabelece essa relação entre o indivíduo e a sociedade a partir do momento em que
se assume que o ser é estritamente social. Isso significa que o indivíduo executa um modelo baseado na
força que a sociedade pode exercer sobre as pessoas. Logo, o fato social se justifica, e exemplos como
a escola, o casamento, a religião, entre outros, demonstram que os fatos sociais, no período analisado
pelo autor, tinham a preocupação de demonstrar essa estrutura montada, em que o individual “apenas”
executaria algo elaborado pelo coletivo.

Por outro lado, Weber pondera que cada ação possui sentido a partir do momento em que um
indivíduo a exercer. Logo, a sociedade é uma espécie de “rede” em que a subjetividade constante dos
indivíduos está presente e só é desfeita a partir do momento em que uma ação se torna social, isto é, tem
como sentido a pessoa que a recebe de quem a executa.

Já Marx sinaliza que o indivíduo apenas reproduz o que as relações sociais de produção fornecem.
Ou seja, na visão do autor, somos fruto da sociedade capitalista, na qual as relações de troca das
mercadorias são constantes e fundamentais para o convívio em/na sociedade. Veja que em Marx essa
relação é importante para compreender o modo que o autor analisa a sociedade, possuindo como ponto
de partida as disputas ocasionadas pelo capital e seus desdobramentos.

O quadro a seguir também auxilia na compreensão dos motivos pelos quais tais autores são
considerados clássicos da Sociologia. São abordados, ainda, os períodos históricos que cada um dos
autores analisou, a sociedade e a afirmação de teorias assertivas acerca da realidade social.

Quadro 2 — Relação de autores e períodos históricos


IDADE MEDIEVAL IDADE MODERNA IDADE CONTEMPORÂNEA
Sociedade Tradicional Mudança social Modernidade
MARX Modo de produção antigo Revolução Industrial Modo de produção capitalista
e feudal
DURKHEIM Solidariedade mecânica Divisão do trabalho social Solidariedade orgânica
WEBER Sociedades teocêntricas Racionalização Sociedade secularizada
(desencantamento)
Fonte: Sell (2012, p. 17).

Nessa abordagem, Sell aponta quais são os legados que cada um desses autores deixou para análise
da sociedade contemporânea. Marx analisou a Revolução Industrial como basilar na Idade Moderna,
e tal revolução culminou na consolidação do modo de produção capitalista e suas possibilidades de
configuração social ainda vigentes.

Já Durkheim optou pela divisão do trabalho social na Idade Moderna, apontando que a solidariedade
orgânica — aquela em que cada indivíduo cumpre seu papel específico na sociedade complexa — é
o elemento que explica a contemporaneidade. Por fim, Weber, em um processo de racionalização e
desencantamento do mundo, via a ação social (cada qual com um sentido específico), e observou que
a secularização, elemento agregador a partir da religião, deixou de constar com a devida importância.

Muitos consideram desnecessário retomar uma produção científica quase toda produzida no século
XIX. Há sempre o questionamento que esses conhecimentos estão superados e seu entendimento não terá
65
Unidade
Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia? 4

validade para quem quer compreender os dilemas da sociedade atual. Esse tipo de posicionamento é um
engano, isso porque necessitamos compreender a tendência dos pensadores da atualidade, pois ainda é nos
pensadores clássicos que os contemporâneos buscam a sustentação de suas teses, senão na totalidade.

Outro fator que nos faz considerar importante o estudo dos clássicos das Ciências Sociais é o preparo
que ele nos dá para a leitura de outros teóricos da atualidade que possuem uma formação fundada no
trabalho dos primeiros grandes cientistas sociais e suas análises de uma sociedade que continua baseada
nos elementos da economia de mercado, industrial e financeira; isso acrescido de um aumento complexo
das relações de produção e de divisão do trabalho social.

Dessa forma, demonstramos a necessidade de estudar e analisar os clássicos da Sociologia, uma vez
que esses autores (Durkheim, Marx e Weber) ainda influenciam não somente os autores contemporâneos,
mas explicam as relações sociais estabelecidas na atualidade. Assumindo esse caráter “clássico”, eles
fornecem instrumentos para compreendermos a necessidade justificada de uma Ciência da Sociedade
que irá pensar os fundamentos da relação entre a sociedade e a educação.

Muitos consideram desnecessário retomar uma


produção científica quase toda produzida no século XIX.
Há sempre o questionamento que esses conhecimentos
estão superados e seu entendimento não terá validade
para quem quer compreender os dilemas da sociedade
atual. Esse tipo de posicionamento é um engano, isso
porque necessitamos compreender a tendência dos pensadores da atualidade, pois ainda é nos
pensadores clássicos que os contemporâneos buscam a sustentação de suas teses, senão na
totalidade.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Você já parou para pensar que os clássicos da sociologia e


suas explicações ainda auxiliam no entendimento da vida social
na atualidade? Observe o artigo a seguir e compreenda como
estes autores ainda permeiam nosso convívio.

Referência: <http://seer.unipampa.edu.br/index.php/
siepe/article/view/5929>

2. A SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU


Outro autor que pode ser inserido nesta seleta categoria de clássicos da Sociologia é Pierre Bourdieu,
nascido em 1930 e falecido em 2002. Com raízes fincadas no campo, desenvolveu boa parte de sua
Sociologia (e por que não Antropologia) buscando evidenciar a necessidade de abordar a(s) disciplina(s)
como fundamental(is) para compreender a natureza humana.

66
Unidade
4 Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia?

Como os seres humanos enxergam o mundo?

Fonte: Pixabay.

Bourdieu também possui destacada bibliografia na área da Educação, articulando os principais


conceitos desenvolvidos ao longo dos anos para compreender como ela se relaciona com a vida humana
e, da mesma forma, como nossa vida se liga à Educação diariamente. O propósito do autor, em uma
sofisticada leitura sociológica, é nos fazer pensar sobre as relações sociais existentes e como elas ocorrem
em nosso cotidiano.

Diante desta tentativa, Bourdieu apresenta importantes conceitos que iremos tratar nesta
unidade a fim de evidenciar e analisar uma leitura complementar aos clássicos da Sociologia que,
dependendo de quem a apresenta, pode ser considerada ou não como parte integrante da trinca de
sociólogos já abordados.

Com os conceitos de “habitus” e “campo”, o autor inaugurou uma nova análise acerca das
estruturas sociais existentes. De saída, recorremos a Bourdieu para explicar o que é o habitus, a
nosso ver o primeiro conceito fundamental para compreender o pensamento do autor. A reunião de
influências sofridas por um indivíduo ao longo dos anos é denominada por Bourdieu como habitus,
que nada mais é do que:
[...] sistemas de posições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como
estruturas estruturantes, quer dizer, enquanto princípio de geração e de estruturação de
práticas e de representações que podem ser objetivamente “reguladas” e “regulares”, sem que,
por isso, sejam o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu objetivo
sem supor a visada consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para
atingi-las e, por serem tudo isso, coletivamente orquestradas sem serem o produto da ação
combinada de um maestro (BOURDIEU, 1994, p. 60-1).

Na definição clássica de Bourdieu, o habitus é um sistema de posições sociais duráveis que o


indivíduo sofre ao longo dos anos e que tem por objetivo a articulação da sociedade com o comportamento
individual. A partir desse comportamento “moldado” pela sociedade e com as influências individuais, o
67
Unidade
Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia? 4

sujeito aprende uma língua, obtém costumes, valores e a noção da realidade social, além, é claro, de criar
suas próprias ideias, que também irão contribuir para a modificação da sociedade em que está postado.

A proposta de Bourdieu em relação ao habitus demonstra a sequência de ações ordenadas com a


dinâmica social em que um sujeito está localizado. Se considerarmos um político, por exemplo, podemos
afirmar que o tipo de ação voltada para a sociedade desses indivíduos possivelmente irá refletir o habitus
adquirido ao longo dos anos com a participação política. Portanto, se um indivíduo tem uma ideologia
política — avaliada a partir do conceito de habitus —, tal ideologia poderá refletir as práticas sociais desse
grupo, formadas tanto pela relação sociedade-sujeito quanto pela interferência dos comportamentos do
sujeito diante da sociedade.

A proposta de Bourdieu em relação ao habitus


demonstra a sequência de ações ordenadas com a
dinâmica social em que um sujeito está localizado. Se
considerarmos um político, por exemplo, podemos
afirmar que o tipo de ação voltada para a sociedade
desses indivíduos possivelmente irá refletir o habitus
adquirido ao longo dos anos com a participação política. Portanto, se um indivíduo tem uma
ideologia política — avaliada a partir do conceito de habitus —, tal ideologia poderá refletir
as práticas sociais desse grupo, formadas tanto pela relação sociedade-sujeito quanto pela
interferência dos comportamentos do sujeito diante da sociedade.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Outro destaque relacionado ao habitus é a questão da aprovação ou sanção de propostas nessa


relação entre indivíduo e grupo. Se, por um lado, um indivíduo político pode (ou até deve) aceitar as
medidas desencadeadas pela instituição que integra, por outro ele também será ator na confecção dessas
medidas, o que poderá acarretar novas práticas institucionais. Portanto, um político, ao mesmo tempo
em que aceita as medidas impostas pela política quanto à disposição do organismo que participa, também
irá condicionar os rumos da política, articulando sua trajetória individual a uma “estrutura estruturante
e estruturadora de práticas” (FREITAS, 2012, p.11).

Essa predisposição do habitus em fornecer práticas ideológicas, sociais e políticas mostra como
esse é um conceito que reúne uma vasta quantidade de informações:
O termo habitus é utilizado, assim, como um conceito teórico que sistematiza um conjunto
de saberes construídos ao longo da história da filosofia e das ciências sociais. Envolve todas as
influências que cada ser humano assimila dos meios sociais e culturais que mantêm contato,
que vão se fixando em sua mente, como um “depositário de experiências”, mas que também
o tornam capacitado para agir na prática de uma maneira inovadora para resolver os novos
problemas que surgem na convivência social e satisfazer suas necessidades e suas concepções
(PRAXEDES, 2015, p. 15).

Dessa forma, o habitus é constituído de maneira articulada à sociedade. Não poderíamos afirmar
que um político, em nosso exemplo, é um sujeito desconexo, que vive fora em relação ao seu grupo social.
Ao passo que o indivíduo adquire o habitus, este poderá obter a noção de praticidade da vida, em especial
quanto aos assuntos relativos aos campos sociais em que poderá atuar: a ação política em um partido;
as atividades cotidianas profissionais; o engajamento religioso; a convivência cultural de determinada
comunidade quanto às manifestações artísticas; o engajamento educacional, que o conduzirá para o

68
Unidade
4 Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia?

aprimoramento profissional com o avanço dos conhecimentos adquiridos; e a participação institucional,


sendo a maçonaria um exemplo disso. Bourdieu denomina “campos sociais” esse conjunto de inserção
nesses meios:
Em termos analíticos, um campo pode ser definido como uma rede ou uma configuração
de relações objetivas entre posições. Essas posições são definidas objetivamente em sua
existência e nas determinações que elas impõem aos seus ocupantes, agentes ou instituições,
por sua situação (situs) atual e potencial na estrutura da distribuição das diferentes espécies de
poder (ou de capital) cuja posse comanda o acesso aos lucros específicos que estão em jogo no
campo e, ao mesmo tempo, por suas relações objetivas com as outras posições (dominação,
subordinação, homologia, etc.) (BOURDIEU, 1990, p. 72).

Logo, um campo é uma teia em que as relações objetivas, dotadas de significado e finalidade
específica, são colocadas em prática por intermédio da posição em que um agente se localiza. A partir
dessas posições do campo, os atores distribuem suas forças (ou capital, ao modo de Bourdieu), impondo
os limites de atuação, a correlação de virtudes, enfim, o espaço próprio de atuação.

Um campo, na visão de Bourdieu, pode ser algo mais específico (como uma cidade, uma
comunidade com regras próprias) ou nossa sociedade em geral. A ideia de campo, para o autor, surge no
sentido de demonstrar que existem campos sociais específicos, em que cada sujeito dispõe de suas forças
e fraquezas para jogar o jogo que cada campo requer. Ou seja, não basta pertencer a um campo ou a uma
sociedade: é preciso conhecer e se habituar às regras existentes para poder melhor conviver neste campo
ou nesta sociedade.

Lahire (2002) analisa elementos relacionados às características de um campo, a saber:


- Um campo é um microcosmo incluído no macrocosmo constituído pelo espaço social
(nacional) global.
- Cada campo possui regras do jogo e desafios específicos, irredutíveis às regras do jogo ou aos
desafios de outros campos (o que faz “correr” um matemático — e a maneira como “corre” —
nada tem a ver com o que faz “correr” — e a maneira como “corre” — um industrial ou um
grande costureiro).
- Um campo é um “sistema” ou um “espaço” estruturado de posições.
- Esse espaço é um espaço de lutas entre os diferentes agentes que ocupam as diversas posições.
- As lutas dão-se em torno da apropriação de um capital específico do campo (o monopólio
do capital específico legítimo) e/ou da redefinição daquele capital.
- O capital é desigualmente distribuído dentro do campo e existem, portanto, dominantes e
dominados.
- A distribuição desigual do capital determina a estrutura do campo, que é, portanto, definida
pelo estado de uma relação de força histórica entre as forças (agentes, instituições) em
presença no campo.
- As estratégias dos agentes são entendidas se as relacionarmos com suas posições no campo.
- Entre as estratégias invariantes, pode-se ressaltar a oposição entre as estratégias de
conservação e as estratégias de subversão (o estado da relação de força existente). As primeiras
são mais frequentemente as dos dominantes e as segundas, as dos dominados (e, entre estes,
mais particularmente, dos “últimos a chegar”). Essa oposição pode tomar a forma de um
conflito entre “antigos” e “modernos”, “ortodoxos” e “heterodoxos” [...].
- Em luta uns contra os outros, os agentes de um campo têm pelo menos interesse em que o campo
exista e, portanto, mantêm uma “cumplicidade objetiva” para além das lutas que os opõem.
- Logo, os interesses sociais são sempre específicos de cada campo e não se reduzem ao
interesse de tipo econômico.
- A cada campo corresponde um habitus (sistema de disposições incorporadas) próprio do
campo (por exemplo, o habitus da filologia ou o habitus do pugilismo). Apenas quem tiver
incorporado o habitus próprio do campo tem condições de jogar o jogo e de acreditar na
importância desse jogo.
- Cada agente do campo é caracterizado por sua trajetória social, seu habitus e sua posição
no campo.

69
Unidade
Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia? 4

- Um campo possui uma autonomia relativa; as lutas que nele ocorrem têm uma lógica
interna, mas o seu resultado nas lutas (econômicas, sociais, políticas...) externas ao campo
pesa fortemente sobre a questão das relações de força internas (LAHIRE, 2002, p. 47-48).

Em decorrência dessa disputa de um campo apropriado, os integrantes a realizam em busca da


obtenção de um capital específico, que trará legitimidade dentro do campo. Qual é, então, o conceito de
capital para Bourdieu? É mais do que a questão relacionada à economia: é um bem ou poder manifestado
na sociedade, em suas formas específicas de condicionamento desse capital. Nesse sentido, haverá uma
tendência na aproximação dos sujeitos que possuem um mesmo capital, que poderão ser convergentes
ou divergentes em relação a um determinado assunto. Bourdieu (1989) ratifica essa disposição do capital:
Sem dúvida, os agentes constroem a realidade social; sem dúvida, entram em lutas e relações
visando impor sua visão, mas eles fazem sempre com pontos de vista, interesses e referenciais
determinados pela posição que ocupam no mesmo mundo que pretendem transformar ou
conservar (BOURDIEU, 1989, p. 8).

Bourdieu argumenta que são quatro os capitais existentes: econômico, cultural, social e simbólico. O
capital econômico é formado a partir da reunião de fatores determinados à economia, como os meios de
produção e as relações de mercado. Já o capital cultural é o conjunto de propriedades intelectuais transmitido
pela família ou pela escola, sendo esse dividido em três: estado incorporado como disposição duradoura
do corpo; estado objetivo, bem cultural e estado institucionalizado. O capital social é a união de relações
sociais estabelecidas por um indivíduo em sociedade. Por fim, o capital simbólico está ligado diretamente ao
reconhecimento, sendo associado aos demais capitais, não existindo sem eles e agregando valor a eles:
O capital simbólico é esse capital denegado, reconhecido como ilegítimo, isto é, ignorado
como capital (o reconhecimento no sentido de gratidão suscitado pelos benefícios que podem
se derivar de um dos fundamentos desse reconhecimento), constitui, sem dúvida, com o
capital religioso, a única forma possível de acumulação quando o capital econômico não é
reconhecido (BOURDIEU, 2009, p. 196).

O capital simbólico é o que mais nos interessa, pois tem a capacidade de influenciar o tipo de ação
existente dentro do campo. Ele é a maneira que legitima, portanto, o poder simbólico que, de acordo com
a posição de quem age dentro do campo, pode então dominá-lo:
O capital simbólico confere poder e legitimidade — poder simbólico — ao agente ou grupo
que o possui, a partir de seu reconhecimento dentro de determinado campo. Essa posse
também está relacionada à posição do agente dentro do campo, e se dá em relação aos
demais agentes, pressupondo o “desconhecimento da violência que se exerce através dele”
(BOURDIEU, 2004, p. 194).

Portanto, o capital simbólico poderá ocasionar “poder e legitimidade” ou, então, “poder
simbólico” ao agente social, mediante a sua identificação no campo. Cada campo também é detentor
de um habitus próprio, e somente quem compreende as regras do campo pode se apropriar desse
habitus e, consequentemente, entender o estilo de determinado campo. Da mesma forma, cada
integrante do campo é descrito conforme a trajetória social adquirida (como visto, a trajetória é a
construção de certos capitais acumulados ao longo dos anos), além do habitus e da posição ocupada
dentro do campo.

Nesta sofisticada Sociologia de Bourdieu, compreendemos que há uma nova visão de sociedade
imposta pelo autor para nós. Ao passo que as tendências sociológicas de Durkheim, Weber e Marx nos
são conhecidas amplamente, os adeptos de Bourdieu tem ampliado nos últimos anos em decorrência
de utilizar os conceitos de habitus, campo e capital, por exemplo, para explicar questões sociológicas
mais densas.

70
Unidade
4 Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia?

Assim, Bourdieu demonstra com esses conceitos um pouco de seu pensamento sociológico que, em
conjunto com Durkheim, Marx e Weber, integra um grupo de autores fundamentais para compreensão
da Sociologia ao longo dos anos. Por se tratar de uma “nova” Ciência, a Sociologia se dedica ao estudo
de fenômenos comportamentais gerais, ao contrário da Psicologia, que busca entender as necessidades
individuais diante da sociedade.

O propósito da Sociologia é, portanto, como exposto, comparar autores e teorias que, em


conjunto, servem como base para fundamentar as teorias que regem nossa sociedade, nosso cotidiano
e as relações sociais que nos permeiam. Existe um autor A ou B com a razão neste campo científico,
portanto, é necessário ponderar para utilizar cada um na medida correta, relacionando teorias e
construindo novas pesquisas.

Trajetórias e biografias: notas para uma análise


bourdieusiana

A relação entre biografia e história insere-se em um conjunto


mais vasto de dualidades que percorrem a Sociologia desde muito
tempo, baseadas na exploração da dialética indivíduo/sociedade,
ação individual/coletiva, liberdade/determinismo, individual/coletivo, estrutura/indivíduo e outras.
Neste último caso, aponta-se para a manutenção, no indivíduo, de componentes subjetivos sociais
e ligados ao grupo onde ele vive, ou, inversamente, a busca do que é extremamente único e pessoal
dentre um aparato mais vasto de representações da memória, internalizadas a partir da sociedade.

Pode-se mesmo afirmar que as três grandes matrizes teóricas presentes na Sociologia,
desde seus primórdios, giram em torno dos debates sobre a preeminência de uma ou outra forma
de análise do mundo social, ou uma ou outra forma de encarar filosoficamente a sociedade. Se
aceitamos sem discussão o ponto de vista da sociologia durkheimiana, o peso da sociedade tem
uma preponderância sobre as individualidades e a subjetividade do indivíduo.

Fonte: Montagner (2007, on-line). <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-


45222007000100010&script=sci_abstract&tlng=pt>

Um exemplo prático da teoria do habitus de


Pierre Bourdieu diz respeito à educação. Segundo
o argumento do autor, o habitus é algo que vamos
aprendendo ao longo dos anos, assimilando conceitos,
"depositando" em nossa caixa de conhecimento um
pouco mais do que vivemos, do que somos, do que
podemos conhecer em relação ao nosso cotidiano. O ato de educar, é, portanto, um ato prático
do habitus de Bourdieu.

71
Unidade
Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia? 4

3. FUNDAMENTOS SOCIOLÓGICOS DA
EDUCAÇÃO
Quando pensamos sobre o título deste livro didático (Fundamentos Sociológicos e Antropológicos
da Educação), a sensação que temos é que em algum momento nós, autores, vamos desvendar esses
fundamentos, quase como tópicos autoexplicativos acerca do que fundamenta, por parte da Sociologia e
da Antropologia, a difícil tarefa de educar.

A educação pensando o futuro

Fonte: Pixabay.

Essa questão é inerente à trajetória desenvolvida por nós até aqui: expomos as diferenças e
semelhanças entre as Ciências Sociais (Antropologia, Sociologia e Ciência Política); definimos o escopo
e objeto de análise da Sociologia e da Antropologia; argumentamos e debatemos a visão de autores
clássicos da Sociologia (Durkheim, Marx e Weber), além das contribuições de Bourdieu para tal análise
e, por fim, comparamos esses autores, incitando você, aluno(a), a pensar sobre essa teoria da Sociologia.

O itinerário percorrido busca ampliar as provocações existentes sobre a Sociologia e dialogada


lado a lado com a Antropologia, exercendo um papel questionador — ainda que implícito — para quem
o lê. Do que foi exposto até então, a pergunta basilar do título do livro ainda se mantém: quais são
esses fundamentos da Sociologia e da Antropologia? No que eles irão colaborar para a minha formação
docente? Eles serão importantes e úteis na minha carreira de educador? É o que pretendemos responder
a partir de agora (no tocante à Sociologia).

A Sociologia é uma Ciência questionadora por natureza. Desde o nascimento da Física Social, com
Auguste Comte, houve a procura da definição de um método sociológico, aprimorado posteriormente por
Émile Durkheim, a fim de constituir seu escopo de atuação. Citamos a Sociologia como questionadora
por natureza dada a própria dinâmica da Física Social, destinada a estudar a movimentação da

72
Unidade
4 Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia?

sociedade, isto é, como nós, seres humanos que integramos, interagimos e ao mesmo tempo fazemos
a sociedade em que nós vivemos, podemos tentar entendê-la melhor, buscando solucionar conflitos e
equacionar problemas.

Note, caro(a) aluno(a), que a proposta de Comte, enquanto fundamento sociológico da educação,
está direcionada sobre dois aspectos: chamar atenção para a análise da sociedade e debater com o
positivismo a possibilidade de melhor estruturar os currículos escolares, de forma metódica, com o
decorrer dos anos.

Em primeiro lugar, é importante salientarmos que a crítica de Comte no momento em que a fez
(século XIX) demonstra a preocupação do autor em estudar os problemas inerentes à sociedade. Ora,
em um contexto da Idade Média marcado estritamente pelo aspecto campesino, Comte traduz em seu
pensamento a necessidade de estudar o fenômeno social advindo da urbanidade, isto é, os problemas
existentes nas relações sociais e, sobretudo, a dinâmica assumida pelo movimento da sociedade.

Observamos, assim, que Comte, com a Física Social, desejava estudar a movimentação da sociedade
e seu destino, seguindo os pressupostos do positivismo: criar leis gerais para entender o corpo social. A
proposta do autor surge no sentido de enxergarmos que a sociedade é um corpo que se movimenta, com
leis e regras próprias e, neste sentido, a Educação precisa enxergar tais movimentos para que não seja um
oásis em um universo marcado por disputas territoriais e conflitos sociais latentes.

Além disso, Comte se debruçava sobre o positivismo, uma teoria destinada a explicar o próprio
destino da sociedade em três estados: o teológico (infância), o metafísico (juventude) e o positivo
(virilidade). Destacamos que o positivismo é uma teoria filosófica-social pautada na elaboração de leis
gerais para problemas sociais, sendo, portanto, o ápice da maturidade social.

Diante do método positivista de estudo estritamente científico dos fenômenos sociais, a escola
se desenvolveu no Brasil pautada em um currículo multidisciplinar e fragmentado, direcionado para
a interdisciplinaridade do conhecimento e para a articulação dos saberes em busca do conhecimento
científico. O próprio Auguste Comte elaborou em seu Curso de Filosofia Positiva uma série de saberes
que, encadeados entre si, formavam uma sequência de conhecimentos, a fim de que o conhecimento
mais aprimorado de todos fosse o sociológico, inspirado na própria filosofia positivista.

Se, por um lado, Comte expressa tais contribuições para fundamentar a Sociologia relacionada
à Educação, Durkheim sinaliza que o indivíduo possui duas esferas próprias de ação: a individual e a
social. Na esfera social, a educação age, responsável pela educação moral, ética e religiosa do indivíduo,
cada qual com seu campo específico e com sua abrangência própria. Obviamente, sinalizamos que a
Educação Religiosa, na perspectiva de Durkheim (inspirado nas ideias cientificistas de Comte), não é
apropriada para o ambiente escolar, ao passo que a ética pode ser, então, produto de estudo, por exemplo.

A partir da Educação é que o indivíduo pode manter laços de solidariedade que os une em
sociedade, evitando que algum sintoma análogo à patologia possa atingi-lo. Enxergando a sociedade
enquanto um organismo em que cada parte, em um ambiente complexo, é responsável por executar
um papel específico (solidariedade orgânica), a Educação cumpre o papel de não somente manter em
coesão o corpo social, mas também de debater os valores e educar a partir do que desejam as pessoas que
integram tal corpo.

Outrossim, a escola (ou por que não a Educação) pode ser vista como um fato social, na perspectiva
sociológica de Durkheim: ela tem o poder de coerção social, isto é, sem a educação — seja ela formal
em um ambiente escolar ou construída socialmente — é muito difícil aprender algo, inclusive o próprio
convívio em/na sociedade. Ela possui o caráter de exterioridade, pois existe independentemente das

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Unidade
Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia? 4

vontades ou dos desejos do indivíduo, sendo também geral, pois se expressa na maioria das pessoas
(senão em todas).

Já para Marx, destacamos que a educação é um instrumento fundamental para que haja
a chamada “luta de classes”, em que a burguesia capitalista, classe dominante desde então, pôde
sucumbir graças à organização do proletariado para a tomada societal. Neste sentido, Marx enxerga
que a Educação é peça fundamental para que haja a revolução, meio possível para que o sistema
capitalista caia em derrocada.

Ainda assim, a Educação é um instrumento transformador da vida social, em que o indivíduo


pode, por intermédio dela, ganhar liberdade de pensamento e ação, uma vez que abre portas para
um mundo mais questionador e indagador e menos conformista. Apesar de não ter se dedicado
integralmente à produção de uma Sociologia da Educação, podemos concluir esses pontos acerca
dos fundamentos fornecidos pela Sociologia para a Educação como um todo, seguindo as premissas
de Marx.

Por fim, Weber fornece os fundamentos sociológicos para a educação quando acredita que, pela
racionalidade, é possível transmitir o conhecimento adequado para a sociedade. A racionalidade,
palavra-chave da Sociologia Weberiana, prevê basicamente que somente por intermédio de uma
pesquisa científica, dotada de pressupostos racionais, lógicos e com ações voltadas necessariamente
para esse fim, é possível compreender a importância da educação para nossa sociedade.

Além da contribuição da racionalidade, Weber defende a separação entre a Ciência e Política, na


conferência que depois se transformou no livro Ciência e política: duas vocações. Nessa obra, o autor
destaca que a vocação é uma das premissas para o exercício de duas das mais importantes atividades
humanas: a Ciência e a Política. É nessa conferência que Weber define o típico político por vocação,
famoso em diversas análises políticas. Entretanto, como o que nos interessa é a questão educacional, vale
ressaltar que ele sinaliza o valor da especialização no campo científico, dotado de conhecimento próprio
e racional.

Note, caro(a) aluno(a), que os três autores clássicos da Sociologia se relacionam na produção
de um conhecimento sociológico importante para sua carreira profissional. É nesse sentido que este
livro didático de fundamentos sociológicos e antropológicos da educação nasce, isto é, para fornecer
subsídios teóricos e empíricos destas duas áreas de conhecimento (Sociologia e Antropologia) para a
posteridade de sua carreira de pesquisas científicas. É importante ressaltar, sobretudo, que os conteúdos
aqui abordados são de grande necessidade para articular conceitos e fornecer pontes inteligíveis que se
relacionem a outros autores.

O fato é que o conhecimento sociológico aqui abordado pode abrir novos horizontes, novas
indagações, novas inquietudes, pontos típicos do pensar sociológico, uma construção contínua do objeto
de análise da disciplina:
Estimule a reabilitação do artesão intelectual despretensioso, e tente se tornar você mesmo tal
artesão. Deixe que cada homem seja seu próprio metodologista; deixe que cada homem seja
seu próprio teorizador; deixe que teoria e método se tornem parte da prática de um ofício.
[...] Seja uma mente independente na confrontação dos problemas do homem e da sociedade
(MILLS, 2009, p. 56).

Portanto, o fazer Sociologia, na visão de Wright Mills, é quase fazer um artesanato, em que as
peças de uma obra de arte são colocadas estrategicamente e diariamente, com sentido e significado
próprios para, posteriormente, dialogar com os problemas existentes na vida social. Essa também é a
tarefa da Sociologia quando articulada com a Educação: pensar, refletir, planejar e agir em busca de uma

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Unidade
4 Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia?

sociedade melhor que, apesar da visão crítica e fundamentada dos problemas que tem, pode visualizar
um futuro melhor.

Os pensadores que denominamos clássicos


das ciências sociais irão produzir seus argumentos
neste ambiente de confronto direto entre a massa de
trabalhadores, as empresas, os empresários capitalistas
e o poder público. Os problemas emergentes da vida
urbana alimentaram as análises de pensadores, como
Durkheim, Marx e Weber. Eles darão as diretrizes para a compreensão da vida social, dos
meios para a organização das instituições e do seu papel na construção da ordem coletiva. O
que podemos destacar a princípio, e que será amplamente discutido na próxima unidade, é a
importância do trabalho como condição para a orientação do homem em sociedade.

Esse foi o ambiente que propiciou a formação da Sociologia, uma ciência da sociedade,
que procura compreender a relação do homem com seu espaço e seu tempo. Para isso, faz
uso do passado histórico para o entendimento de determinados contextos; do presente, para
explicação de fenômenos “atuais” e, por fim, da correlação de fatos para possíveis cenários
futuros. Resta-nos, então, responder: qual é a relação do homem consigo e quais são suas ações
que estão presentes na sociedade? É isso que vamos debater agora, diante do ambiente de
formação da Antropologia.

4. SOCIEDADE NA CONTEMPORANEIDADE E
SUA RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO
Para compreendermos a organização da sociedade contemporânea, é necessário relembrar
que a atual sociedade atravessa um momento de alteração das concepções de sujeito. Saímos de
um sujeito iluminista, passando por um sociológico até atingirmos o pós-moderno (HALL, 2006),
que auxiliam na explicação da trajetória do homem se relacionando e vivendo em/na sociedade
ao longo dos anos. Critérios como o lugar em que um produto é fabricado ou o tempo em que há
comunicação — seja essa distante fisicamente — demonstram como a sociedade globalizada tende
a consumir tudo o que está a sua volta.

75
Unidade
Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia? 4

A evolução da sociedade

Fonte: Pixabay.

Antes de argumentar acerca de cada tipo de sujeito, conforme fez Stuart Hall em A identidade
cultural na pós-modernidade (2006), vamos estabelecer um panorama da atual sociedade, o que nos
auxiliará a compreender por que chegamos nesse estágio de desenvolvimento humano. Sem dúvida, a
capacidade de produção gera uma parte considerável dos bens de consumo que são ofertados em nossas
vidas. Além disso, também influencia as produções regionais, sejam elas integradas à cadeia mundial de
produção ou as que atendem a mercados locais. Estamos ligados às condições econômicas mundiais,
mas não percebemos isso. Se observarmos a nossa volta, há uma grande quantidade de bens de consumo
que só poderia ser produzida por essa integração mundial, o que Octávio Ianni denomina “nova divisão
internacional do trabalho”.

A fragmentação da produção atingiu um grau elevado e especializou determinadas economias em


seu entorno. Hoje, determinadas regiões se transformaram em produtoras exclusivas de bens específicos.
A maioria do que se consome nessas regiões vem de outros lugares ou do comércio nacional ou
internacional. Contudo, a fronteira entre os produtos, sua origem e identidade também estão alterados.
O que, voltando a lembrar de Octávio Ianni, é a territorialização e desterritorialização dos produtos e de
seus símbolos.

Nessa cadeia de produção mundial, os produtos que consumimos e as condições de vida que
estamos estabelecendo acabam indiretamente nos marcando pelos bens de consumo, ou seja, somos
um rótulo dos produtos que consumimos. Hoje nos integramos ao mundo pela internet, ela nos inclui,
muitas vezes, mais do que o lugar onde vivemos ou do que as pessoas com quem convivemos. Nosso
círculo virtual de amigos nos permite sentimentos empolgantes de pertencimento, que não encontramos
em nossa vizinhança. Mentir e ser enganado na rede mundial de computadores é um ritual estimulante
para os internautas. Nela, podemos ser o que queremos sem termos que assumir o peso de uma escolha
que a vida real exige.

Vivemos duas vidas e nos sentimos um único ser. Posso ter que me incomodar com o meu
trabalho, com as atividades reais que exerço para sobreviver, mas também posso construir um círculo de
amizades que me desloque para uma condição oposta à minha vida do trabalho. Meus laços de amizade
e de convívio social podem gerar um agrupamento com rituais próprios e vestimentas específicas.
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Unidade
4 Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia?

Tribalizamos o mundo urbano e constituímos identificações que a moda fornece os objetos sagrados.
Emo, dark, skinhead, se quiser reeditar o movimento hippie também é possível.

A fragmentação da produção atingiu um grau


elevado e especializou determinadas economias em seu
entorno. Hoje, determinadas regiões se transformaram
em produtoras exclusivas de bens específicos. A maioria
do que se consome nessas regiões vem de outros lugares
ou do comércio nacional ou internacional. Contudo, a
fronteira entre os produtos, sua origem e identidade também estão alterados. O que, voltando
a lembrar de Octávio Ianni, é a territorialização e desterritorialização dos produtos e de seus
símbolos.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Toda uma identidade está à venda no mercado, como a estampa do Che Guevara, um dos
líderes da Revolução Cubana. Os ecologistas estão se transformando também em uma tribo, o
engajamento nas questões ambientais ganha, muitas vezes, o aspecto de uma marca de um bem de
consumo. Um bem de consumo fica mais fácil de ser propagado quando a campanha publicitária é
a linguagem de comunicação.

A camiseta com o símbolo da campanha de combate ao câncer é mais conhecida do que a causa,
já virou grife. O que acontecerá se um dia a causa pela qual se luta atingir seu objetivo e o inimigo a
ser combatido for vencido? Teremos que gerar uma nova luta para manter o símbolo vivo, pois ele é o
elemento mais importante. O que se tem não é uma defesa racional de uma causa necessária, mas sim
uma religiosidade, uma crença em um deus simbólico.

Um dos lugares onde se pode entender a eficiência que os símbolos atingiram em nossas vidas é a
sala de aula. Nossos alunos se encantam pelos objetos colecionáveis. Eles se submetem passivamente à
idolatria de marcas que lhes dão sentido e lhes possibilitam uma vida de magia que a realidade lhe nega.
O não ser nada se modifica com a obtenção de um bem cobiçado. Ter determinado produto faz de um
ser insignificante uma celebridade em questão de segundos. Por isso, o esforço em desenvolver a ciência,
a tecnologia e a busca de compreensão do mundo pela razão é ineficaz diante da mágica que os bens de
consumo promovem.

Estamos nos rodeando dos bens de consumo. Eles estão por todos os lugares e é com eles que
construímos uma convivência íntima. Eles nos identificam e nos colocam no centro de um mundo
aparente de movimento. Tudo à nossa volta parece se movimentar, parece estar agindo com uma dinâmica
que nos agrada, pois estamos no comando com nossos “controles remotos” e botões digitais dando
movimento e parando uma parafernália eletrônica que se movimenta ao nosso prazer. Se entendermos
as condições em que esse convívio ocorre, vamos perceber que estamos parados, estáticos, enquanto
as coisas se movimentam à nossa volta. Nossos filhos falam do cansaço do dia marcado por horas à
frente do computador, navegando na internet, conversando pelo celular por mensagens que não têm fim.
Estamos exaustos de não fazer nada e de dialogar com “coisas” e não com pessoas.

Jean Baudrillard, cientista social, filósofo e fotógrafo francês, tem como um dos seus principais
temas a “sociedade de consumo”. Ele considera que estamos vivendo a vida dos objetos, estamos cada vez
mais rodeados desses bens eletrônicos:

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Unidade
Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia? 4

À nossa volta, existe hoje uma espécie de evidência fantástica do consumo e da abundância,
criada pela multiplicação dos objetos, dos serviços, dos bens materiais, originando como
que uma categoria de mutação fundamental da ecologia da espécie humana. Para falar com
propriedade, os homens da opulência não se encontram rodeados, como sempre acontecera,
por outros homens, mas mais por objetos. O conjunto das suas relações e a manipulação de
bens e de mensagens, desde a organização doméstica muito complexa e com suas dezenas de
escravos técnicos até ao “mobiliário urbano” e toda a maquinaria material das comunicações
e das atividades profissionais, até ao espetáculo permanente da celebração do objeto na
publicidade e as centenas de mensagens diárias emitidas pela “mídia de massas”; desde o
formigueiro mais reduzido de quinquilharias vagamente obsessivas até aos psicodramas
simbólicos alimentados pelos objetos noturnos, que vêm a invadir-nos no próprio sono
(BAUDRILLARD, 1995, p. 15).

O que deve ser lembrado é que o consumo se transformou no desejo implacável de todos os
homens; uma condição que nos coloca na inclusão com os demais. Se não consumirmos, não somos
nada. Necessitamos estar incluídos na vida social pela aquisição. Só ela poderá nos dar o sentimento
de pertencimento. A igualdade buscada pelas teses liberais, por meio da racionalidade do convívio
social, agora está traduzida na coleção de objetos disponíveis no mercado. A democracia, a república
e a liberdade, conceitos fundamentais da vida humana, têm na aquisição de bens no mercado o meio
mais eficiente de se fazer sentir cidadão. Não se quer o direito à defesa de uma sociedade para todos, se
quer o direito a poder consumir de cada um. As teses educacionais, as propostas de programa de saúde
e a necessidade de organização da vida pública e do planejamento urbano estão colocadas em segundo
plano diante da necessidade de consumir.

Baudrillard (1995) acredita que a sociedade de consumo está realizando de forma superficial a


grande busca de igualdade que se defende nas teses liberais e que inspirou as revoluções burguesas nos
séculos XVII e XIX. O Estado de Bem-Estar, que foi uma das promessas do liberalismo ao tentar garantir
aos indivíduos uma condição mínima de existência, está incorporado no mundo do objeto:
A “Revolução do Bem-Estar” é a herdeira, a testamenteira da Revolução Burguesa ou
simplesmente de toda a revolução que erige em princípio a igualdade dos homens sem a poder
(ou sem conseguir) realizar a fundo. O princípio democrático acha-se então transferido de
uma igualdade real, das capacidades, responsabilidades e possibilidades sociais, da felicidade
(no sentido pleno da palavra) para a igualdade diante do objeto e outros signos evidentes
do êxito social e da felicidade. É a democracia do “standing” [estar de pé], a democracia da
TV, do automóvel e da instalação estereofônica, democracia aparentemente concreta, mas
também inteiramente formal, correspondendo para lá das contradições e desigualdades
sociais à democracia formal inscrita na constituição. Servindo uma à outra de mútuo álibi,
ambas se conjugam numa ideologia democrática global, que mascara a democracia ausente e
a igualdade impossível de achar (BAUDRILLARD, 1995, p. 48).

Essa falsa busca de igualdade por meio do consumo encanta até mesmo nas políticas
governamentais. Se considerarmos o interesse do Estado em promover o acesso da população a bens
por meio de crédito, concluímos que se transformou em programa social a inclusão da cidadania na
condição de consumidor.

Nesse mesmo sentido, exaltam-se os programas de inclusão digital que promovem a informatização
das escolas e o acesso dos alunos à internet, como se o objeto pudesse dar habilidade ao usuário apenas por
existir. Estamos distantes de uma alfabetização adequada e já não conseguimos estabelecer uma relação
lógica entre a mensagem e seus interlocutores em sala de aula, pois agora consideramos que a presença
do computador realizará a competência de quem o manipula. Isso não irá ocorrer. Não é difícil perceber,
porém, de onde surge a ideia de eficiência com a aquisição. Uma parte considerável dos celulares que estão
nas mãos dos cidadãos não está executando a função de comunicar, mas promovendo atividades para
preencher a ociosidade. A aula passa mais rápido com um computador ou celular nas mãos.

78
Unidade
4 Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia?

Esse contexto demonstra que os argumentos fornecidos por Stuart Hall estão corretos. Vivemos
em um período em que as identidades sociais, isto é, aquilo que nos define perante à sociedade, estão em
constante processo de mudança. É muito difícil neste contexto de ambientação de consumo, globalização
exacerbada e conectividade a toda prova definir quem é o indivíduo do século XXI. Segundo Hall:
Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens,
pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação
globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas –
de tempos, lugares, histórias e tradições específicas e parecem, flutuar livremente (HALL,
2006, p. 75).

Ora, as identidades que assumimos perante a sociedade estão livres, não dispostas de lugares fixos,
trafegando de forma individual de acordo com o interesse de cada cenário. Somos atores prontos para
vestir um novo personagem, preparados para entrar e roubar a cena, conectados permanentemente à
internet, ditando padrões de moda, comportamento e relações sociais — ainda que ditar um padrão não
seja o objetivo.

Qual é, porém, a concepção de identidade assumida nesta sociedade globalizada/pós-moderna


em que vivemos? Segundo Hall (2006), existem três concepções distintas de sujeitos que lidam com
a questão das identidades culturais ao longo dos anos e, neste sentido, auxiliam no entendimento de
nossa realidade:

1 — Sujeito do Iluminismo: o indivíduo era centrado na razão, como um ser unificado, capaz de,
com sua razão individual, ser o centro do pensamento.

2 —  Sujeito sociológico: reflete a constante complexidade do mundo moderno, um sujeito que


enxerga a necessidade de interagir com o mundo exterior para melhor se entender e, consequentemente,
possuir a noção de que não há autossuficiência na vida em/na sociedade, necessitando se relacionar com
os demais indivíduos.

3 — Sujeito pós-moderno: não possui uma característica ou uma identidade fixa, uma vez que
busca a “celebração do móvel”: ainda que parado, o sujeito pós-moderno é aquele que precisa ter a
sensação de que está em constante movimento, isto é, que o mundo está se movendo e ele, da mesma
forma, se move em conjunto com esse mundo.

Note que esses três tipos de sujeito auxiliam na compreensão de nossa relação com o meio
social com o passar dos anos. A Sociologia, enquanto Ciência, surge justamente no apogeu do sujeito
sociológico e, conforme apontado na Unidade I, as preocupações giravam em torno da complexidade da
sociedade moderna.

Por outro lado, o sujeito pós-moderno se relaciona diretamente com a sociedade de consumo
globalizada, em que a noção de tempo/espaço está alterada constantemente, ou seja, torna-se
difícil mensurar que um acontecimento distante espacialmente falando possa ocorrer tão próximo
temporalmente falando, pois uma transmissão em tempo real pode facilitar que esse mecanismo ocorra.
Logo, a noção de perto/longe e tempo/espaço são alteradas nessa sociedade globalizada.

Enfim, consideramos que o consumo estabelece uma perversa relação conosco em nosso modelo
societal: consomem-se não somente ideias (ou a falta delas), mas sobretudo a sensação de pertencer a uma
pós-modernidade, em que há a celebração da constante mudança nas identidades culturais. Dizer quem
é o sujeito pós-moderno é uma tarefa singular, uma vez que a bricolagem de papéis sociais estabelecidos
para cada evento faz com que essa noção de identidade fixa, impermeável, de fato não ocorra.

79
Unidade
Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia? 4

O que observamos — respondendo à pergunta motriz deste tópico — é que a análise sociológica
nunca esteve tão em alta em um modelo de sociedade de múltiplas vertentes e diferentes anseios
populacionais. Os padrões de resposta para a clássica pergunta (qual é o relacionamento do indivíduo
em/na sociedade?) já não existem mais e, nesse sentido, espera-se que o cientista social possa mensurar,
avaliar, comparar e, nem sempre de forma definitiva, delinear uma sociedade marcada geralmente pelo
consumo e pelas diferentes identidades, mas que permanece em constante processo de construção, em
um tempo e espaço jamais definidos.

Nesse ambiente de consumo global, qual é a trajetória e o papel da Educação na atualidade? Seria
impossível avaliar aqui toda a trajetória da Educação no Ocidente e o seu papel social. O que desejamos
é apenas indagar sobre as mudanças que a Educação Institucional acabou sofrendo dentro de uma
sociedade Ocidental com significativas transformações nos últimos 30 anos.

Sempre vale lembrar que a Educação reflete e interage com a vida social. Ela não é um
determinante absoluto, mas também não é passiva. Sofre os efeitos das relações sociais e tem tido
dificuldade de intervir nessa tendência de individualização dos interesses sociais e da influência da
sociedade de consumo.

Não podemos esquecer que a vida em sala de aula é construída por seres humanos que têm
uma vida de relações dentro do mundo integrado pela economia mundial. Não é difícil perceber essa
integração se considerarmos a parafernália de objetos que invadiram a sala de aula e expressam a idolatria
pelo consumo. Nota-se a quantidade de materiais escolares coloridos, bem como variados equipamentos
da tecnologia moderna, como os celulares, tablets e computadores. Quando esses equipamentos não
existem, há uma tendência em defendê-los dentro do ambiente escolar. Hoje, é retórica nas campanhas
de política social a chamada “inclusão digital”: quem não tiver ao menos um e-mail e um perfil em uma
rede social é como se não existisse.

A inclusão, porém, não se dá exclusivamente pelos produtos de informática. Ela se dá de todas as


formas possíveis de aquisição, em que ter um determinado objeto gera inclusão em círculo de pessoas e
de relações inclusivas que determinam nosso dia a dia. Ser um deles é ter o que eles têm, é frequentar os
lugares que frequentam e viver as idolatrias que professam.

Dentro da escola, o grande desafio é colocar a produção científica como um instrumento


de formação de um ser humano que não se deixa seduzir exclusivamente por esse imediatismo do
consumo. O entendimento da vida mediante à Ciência, que é uma das ações fundamentais da escola,
tem se perdido. Ela está isolada da condição de instrumento de compreensão e crítica da vida social.
Mesmo quando se tratam das Ciências Exatas ou Naturais, o conhecimento científico se empobrece e não
consegue desvendar as condições de materialidade que existem nos produtos disponíveis no mercado.
Não podemos empobrecer a Ciência e lhe dar apenas um papel decorativo ou de ritual sem sentido na
vida do ser humano, esteja ele em qualquer nível da Educação que estiver.

Temos que considerar que a Ciência é o instrumento fundamental para a compreensão e


superação dos dilemas humanos. Foi por meio do conhecimento científico que a sociedade ocidental se
fez e conseguiu atingir o grau de complexidade que se apresenta em nossos dias. Estamos propagando
a ideia de que o conhecimento chegou até nós por “magia”, que tudo do que usufruímos é uma mera
contribuição de “gênios” e não de uma possibilidade humana, nesse sentido, a escola e a academia têm
que ser um instrumento de luta contra esses conceitos. Cabe a nós, educadores, ou os que têm lucidez,
romper com essa superficialidade que domina os discursos sobre a vida social.

Foi dentro da construção de uma economia racional, fundada no poder do Estado e nas práticas de
desenvolvimento do conhecimento científico para atender necessidades humanas que o conhecimento

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que temos sobre a nossa existência se fez. Não podemos desprezar séculos de história que colocaram a
produção científica no centro das necessidades humanas e como o principal instrumento da superação
de nossas dificuldades, sendo condição vital para a superação de nossas necessidades.

Avançar, dessa forma, requer um comprometimento do educador em se posicionar diante do


mundo, ter uma análise sobre as condições em que vivemos e agir no sentido de crítica. Não é só o
profissional da área das Ciências Humanas ou socioeconômicas que deve ter esse posicionamento. Ele
passa por todo e qualquer produtor do conhecimento, por qualquer indivíduo que tenha como profissão
o uso da ciência. Indo mais longe, de qualquer ser humano que necessita superar sua condição de homem
em sociedade. A Ciência é uma necessidade de todos, não é por acaso que a educação deve estar próxima
de todas as pessoas e que se tornou um instrumento fundamental da vida humana. Ela, a Ciência, está
por todos os lados e nós temos que perceber e despertar isso.

O itinerário percorrido nesta unidade visou dois objetivos claros e pontuais acerca da Sociologia:
a relação dos clássicos com a atualidade e como essa Ciência tem se relacionado com a globalização,
presente em nosso cotidiano. Observe que esses objetivos nos auxiliam a compreender a questão geral
implícita nos estudos sociológicos apresentados: demonstrar a importância e a objetividade da Sociologia
em uma sociedade cada vez mais complexa e difícil de ser compreendida.

O passeio realizado pelos clássicos — Durkheim, Weber e Marx, auxiliados pela teoria social de
Pierre Bourdieu — foi importante para expor as diferenças entre períodos históricos que influenciaram
diretamente no estabelecimento do pensamento de cada um dos autores. Nossos quadros comparativos
são fundamentais para compreender tais diferenças, bem como evidenciar, de forma clara, a trajetória
intelectual desses autores.

No segundo momento, debatemos dois conceitos relevantes da atualidade: a pós-modernidade/


globalização e a sociedade de consumo, fruto dos padrões de vida estabelecidos atualmente. A ideia de
pós-modernidade/globalização segue com os tipos de identidade fixadas, como a iluminista, a sociológica
e a pós-moderna. A característica geral desse sujeito pós-moderno é a rapidez nas relações sociais e a
alteração da noção de espaço/tempo e tempo/espaço, uma relação modificada diante da possibilidade de
comunicação ao vivo proporcionada fundamentalmente pela internet.

Tal alteração se reflete nas relações sociais, cada vez mais efêmeras, fugazes, em que
a existência de relacionamentos duradouros é bem menor. Essa agilidade na comunicação,
transposta para as relações sociais, remete ao conceito de “modernidade líquida”, trabalhado pelo
sociólogo Zigmunt Bauman:
São esses padrões, códigos e regras a que podíamos nos conformar, que podíamos selecionar
como pontos estáveis de orientação e pelos quais podíamos nos deixar depois guiar, que estão
cada vez mais em falta. Isso não quer dizer que nossos contemporâneos sejam livres para
construir seu modo de vida a partir do zero e segundo sua vontade, ou que não sejam
mais dependentes da sociedade para obter as plantas e os materiais de construção. Mas
quer dizer que estamos passando de uma era de ‘grupos de referência’ predeterminados a
uma outra de “comparação universal”, em que o destino dos trabalhos de autoconstrução
individual […] não está dado de antemão, e tende a sofrer numerosa e profundas mudanças
antes que esses trabalhos alcancem seu único fim genuíno: o fim da vida do indivíduo
(BAUMAN, 2001, p. 22).

O argumento de Bauman diz respeito às mudanças dos padrões de comportamento impostos pela
sociedade, agora transformados para o condicionante individual ou de grupos específicos: estes vão se
formando ao longo dos dias, sendo muito difícil transcrever como cada grupo se posicionará em relação
a determinados assuntos.

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Dos clássicos em diante: como pensar a Sociologia? 4

Veja que, na pós-modernidade/globalização, estamos a todo tempo escrevendo uma nova história
cujos fragmentos, colados a um grande quebra-cabeças sem fim, formam esse modelo societal, pautado
pelas relações sociais líquidas e por um consumo exacerbado de bens dispostos pelo capitalismo.

Esse cenário nos conduz a respostas ainda não finalizadas acerca de nossa sociedade, por exemplo:
qual o destino desse modelo societal? A denominada “sociedade de consumo” ainda imperará por muitos
anos? Além disso, essas relações sociais indicam a fugacidade dos contatos, isto é, tendemos a chegar em
um momento em que tais relações serão necessariamente virtuais e não reais? Essas e outras perguntas
ainda estão sem resposta definida, mas são importantes para traçarmos o futuro do pensamento filosófico
e sociológico acerca da humanidade.

Por fim, encerramos esta unidade destacando que a educação terá uma parcela considerável na
formação dessa nova sociedade em que a escola poderá se constituir como um espaço democrático,
destinada a compreender as necessidades do cidadão e seu relacionamento com a sociedade em que
vive. A Sociologia, nesse sentido, tem o papel fundamental de auxiliar na explicação dessas novas
configurações sociais, em que o líquido parece substituir o concreto e as “antigas” teorias precisam de
uma explicação “reinventada” ou uma exemplificação palpável a fim de constituir verdades acerca do
futuro da sociedade.

CONCLUSÃO
Nesta unidade, procuramos abordar a Sociologia sob o aspecto de seus autores clássicos (Émile
Durkheim, Karl Marx e Max Weber), além da perspectiva teórica de Pierre Bourdieu. O enfoque surgiu
a partir de um trabalho-resumo, no sentido de estabelecer as principais diferenças entre a trinca clássica
da Sociologia, complementada por Bourdieu.

No segundo momento, nosso propósito foi debater os fundamentos sociológicos da Educação, ou


seja, a base fornecida até aqui para a Educação e como essa base de pensamento pode se articular com a
Educação, em um mecanismo que a sociedade integra e molda diretamente ao sistema de transmissão
de conhecimento.

Além da ótica crítica de que a Sociologia pode subsidiar os debates acadêmicos, pretendemos
aguçar um olhar sociológico em que somos agentes e analistas do meio social em que vivemos. Esse
olhar sociológico tem como foco a preparação para respondermos duas questões importantes para o
debate da próxima unidade: quais são os fundamentos antropológicos da Educação e como a Sociologia
lida diariamente com o mundo globalizado?

Como exposto, a proposta aqui abordada se refere às bases da Sociologia Clássica, solidificando
um caminho para traçarmos o destino da Ciência da sociedade do presente e do futuro, sem jamais
esquecer da Educação, edificada diariamente, lado a lado da Sociologia, da Filosofia, da Psicologia e de
outras áreas do conhecimento.

Esperamos assim, caro(a) aluno(a), que o conteúdo aqui abordado possa auxiliar na pergunta
fundamental desta unidade: afinal, quais são os possíveis usos dos fundamentos sociológicos para a
articulação de ideias sobre a Educação? Essa é a proposta que nós, professores, pretendemos deixar para
que você possa refletir, além é claro de solidificar os conhecimentos acerca da Sociologia.

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ELEMENTOS COMPLEMENTARES
#LIVRO#

Título: Textos Básicos de Sociologia

Autor: Celso Castro

Editora: Zahar

Sinopse: De passagem panorâmica acerca dos principais


sociólogos, Celso Castro reúne nesta coletânea fragmentos de
autores consagrados das Ciências Sociais, como Karl Marx, Émile
Durkheim, Gerog Simmel, Max Weber, Norbert Elias, Erving
Goffman, Howard Becker, Pierre Bourdieu, Zygmunt Bauman,
Wright Mills e William Foote White.

#FILME#

Título: Crash — No Limite

Ano: 2004

Sinopse: A proposta do filme é debater a mistura étnica


de diferentes classes sociais após Jean Cabot, esposa de um
promotor de uma cidade ao sul da Califórnia, ser assaltada
por dois negros. Após o roubo, um acidente de trânsito acaba
aproximando diferentes pessoas, o que demonstra os atuais
modelos de relações sociais da pós-modernidade.

#WEB#

Em uma breve entrevista, Zygmunt Bauman expõe seu conceito de pós-modernidade.

Link: <https://www.youtube.com/watch?v=aCdUuQycl6Q>.

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REFERÊNCIAS
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