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Sistemática, anatomia, fisiologia e ecologia de peixes

Chapter · August 2015

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Alexandre Peressin Thiago Teixeira Silva


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1

Tópicos de Manejo e
Conservação da Ictiofauna
para o Setor Elétrico
1

Companhia Energética de Minas Gerais - Cemig

Tópicos de Manejo e Conservação da Ictiofauna


para o Setor Elétrico

1ª edição

Belo Horizonte

Cemig

2015
2

ISBN: 978-85-87929-58-7
Copyright: Companhia Energética de Minas Gerais - Cemig
Presidência: Mauro Borges Lemos
Diretoria de Geração e Transmissão: Franklin Moreira Gonçalves
Superintendente de Gestão Ambiental da Geração e Transmissão: Enio Marcus Brandão
Fonseca
Gerente de Estudos e Manejo da Ictiofauna e Programas Especiais: Newton Jose Schmidt Prado

Organizadores:
Cintia Veloso Gandini
Raquel Coelho Loures

Coordenação de Edição:
Daniella Delbem de Amorim

Endereço:
Cemig – Companhia Energética de Minas Gerais
Superintendência de Gestão Ambiental da Geração e Transmissão
Av. Barbacena, 1.200 – 13º A1
30.190-131 Belo Horizonte (Minas Gerais) / Brasil

C737 Companhia Energética de Minas Gerais.


Tópicos de manejo e conservação da Ictiofauna para o setor
Elétrico / Organizadores: Cintia Veloso Gandini, Raquel Coelho
Loures. – Belo Horizonte: Cemig, 2015.

243p.: il.; color.


ISBN:

1. Peixes – Aspectos ambientais. 2. Usinas hidrelétricas –


Segurança ambiental. I. Companhia Energética de Minas
Gerais. II. Gandini, Cintia Veloso. III. Loures, Raquel Coelho. IV.
Título.

CDD: 590
597.5
620
Tópicos de Manejo e Conservação da Ictiofauna para o Setor Elétrico
11

CAPITULO 1 1

SISTEMÁTICA, ANATOMIA, FISIOLOGIA E ECOLOGIA DE PEIXES

Alexandre Peressin
Thiago Teixeira Silva

Atualmente, existem mais de 50 mil espécies de animais vertebrados. Destes, 28 mil são
peixes que habitam desde lagos tropicais, onde a temperatura pode ultrapassar os 36 oC, até
mares polares onde a água está sempre próxima do ponto de congelamento.

Das 28 mil espécies de peixes existentes, cerca de 15 mil são descritas para ambientes de
água doce, sendo mais de 6 mil encontradas na região neotropical (América do Sul). A fauna
de peixes de água doce da América do Sul é a mais rica do mundo e apresenta uma grande
diversidade biológica e adaptativa. No Brasil, há aproximadamente 2500 espécies de água
doce. Minas Gerais abriga um pouco mais de 350 espécies, o que representa quase 12% do
total registrado no Brasil.

Peixes ocorrem em dois tipos principais de ambientes: a) lóticos – aqueles que


apresentam fluxo de água, como riachos, cabeceiras e calhas dos rios; b) lênticos – aqueles
com nenhum ou pequeno fluxo de água, como lagoas, lagos e reservatórios. Alguns peixes
vivem em lagoas rasas, com menos de 50 cm de profundidade e outros nas fossas abissais do
oceano, a mais de 2.000 metros abaixo da superfície. Algumas espécies de peixes atingem sua
maturidade sexual com menos de 2 cm de comprimento e outros, como o tubarão baleia,
podem atingir mais de 10 m. Esta grande variedade de modos de vida implica em uma grande
variação anatômica e fisiológica entre as espécies. Será objetivo desta apostila, abordar
apenas espécies de peixes de água doce, que habitam rios e lagos da região tropical brasileira.

1. Sistemática

Sistemática é a ciência que trata da classificação dos seres vivos, organizando-os em:
Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero e Espécie. Os peixes pertencem ao Reino Animalia,
Filo Chordata e Sub-filo Vertebrata e estão divididos em dois Infrafilos: Agnatha e
Gnathostomata.

Peressin A. & Silva T. T. (2015) Sistemática, anatomia, fisiologia e ecologia de peixes. In: Gandini C. V. & Loures R. C. (orgs.)
Tópicos de Manejo e Conservação da Ictiofauna para o Setor Elétrico. Belo Horizonte: Companhia Energética de Minas
Gerais, pp. 11 – 33.
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Agnatha (Figura 1): são os vertebrados mais primitivos, desprovidos de mandíbulas e


maxilas e, por isso, sua boca é circular. Possuem o corpo alongado, cilíndrico e sem
escamas. São ectoparasitas de peixes ou necrófagos. Seus representantes são
popularmente chamados de lampréias e bruxas (também conhecidas como feiticeiras). As
lampréias (classe Petromyzontidae) são tanto de água doce quanto de água salgada,
porém não ocorrem no Brasil. Já as bruxas (classe Myxini) são exclusivamente marinhas.
Ambas ocorrem apenas em regiões temperadas. Não há nenhum registro de exploração
econômica destas espécies.

Figura 1 – Exemplo de peixe do infrafilo Agnatha.

Gnathostomata: são vertebrados que possuem mandíbulas. Os peixes deste infrafilo


estão classificados em duas classes: Chondrichthes e Osteichthyes (ou Teleostomi).

A classe Chondrichthyes (Figura 2) é composta por mais de 800 espécies. Sua


principal característica é o esqueleto cartilaginoso, sem ossos verdadeiros. Tubarões (ou
cações) raias e quimeras são os representantes mais conhecidos desta classe. A maioria
das espécies é marinha, mas existem espécies dulcícolas (de água doce), inclusive no
Brasil. As raias de água doce que ocorrem no Brasil costumam causar acidentes devido ao
ferrão que possuem na cauda. Apesar de várias espécies de Chondrichthyes serem
explorados pela pesca comercial, com a finalidade de abate para o consumo humano ou
de uso como ornamentais, não existe cultivo destas espécies.
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Figura 2 – Exemplo de peixe da classe Chondrichthyes.

A classe Osteichthyes (Figura 3) é composta pelo maior número de espécies, cerca de


21 mil. Ao contrário da classe anterior, os Osteichthyes possuem o esqueleto formado por
ossos. Dentre estas espécies encontram-se os peixes mais intensamente pescados e
aqueles cultivados para fins de alimentação humana, pesca esportiva, ornamentação e
outras finalidades. Estes peixes são dominantes desde o período Cretáceo, compreendido
entre 145 a 65 milhões de anos atrás.

Figura 3 – Exemplo de peixe da classe Osteichthyes.

A classe Osteichthyes é dividida em duas subclasses:

· Sarcopterygii: peixes que possuem nadadeiras carnosas (lobadas), representados


pelos peixes pulmonados (Dipnoi – Pirambóia) e Celacantos (Coelacanthini). Há
poucas espécies existentes deste grupo, que é filogeneticamente o mais próximo dos
vertebrados tetrápodas.

· Actinopterygii: peixes ósseos com nadadeiras sustentadas por filamentos rígidos. Esse
grupo possui 5 infraclasses. Quatro delas são representadas por apenas algumas
poucas espécies: os Branchiopterygii (Polipterus) os Chondrostei (Esturjões), os
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Ginglymodi (Gars) e Halecomorphi (Amnias). A outra é a infraclasse Teleostei,


responsável por cerca de 23 das 28 mil espécies de peixes descritas em todo o mundo.

Dentro da infraclasse Teleostei, estão os Ostariophysi. É a superordem com maior


número de espécies nos rios do mundo. Possuem 27% do total de espécies de peixes e mais
de 60% dos peixes de água doce. O nome se refere aos pequenos ossos (ostar = pequeno
osso) que conectam a bexiga natatória (physa = bexiga) ao ouvido interno. Dessa forma, a
bexiga natatória é utilizada como um amplificador e os pequenos ossos como condutores
(sistema conhecido como aparelho de Weber). Esse aparelho incrementa a audição nesses
peixes. É um grupo muito diverso, com mais de 6500 espécies, incluindo os bagres, as carpas,
os barbos, os peixes elétricos, tuviras e os characiformes (ordem que engloba muitos dos
peixes com escamas conhecidos no Brasil). Quase todas as espécies capturadas em
monitoramentos nas áreas de influência de usinas hidrelétricas, resgatadas em drenagens
e/ou envolvidas em acidentes no Brasil (Pimelodus maculatus – mandi; Prochilodus sp –
curimba; Salminus sp – dourado; Pinirampus pirinampu – barbado; Leporinus sp – piau,
piapara; Wertheimeria maculata – roncador; Franciscodoras marmoratus – serrudo; e outros)
pertencem a esse grupo.

A partir de agora, vamos estudar a anatomia e a fisiologia dos peixes da infraclasse


Teleostei e, em alguns casos, citaremos peculiaridades dos demais. Começaremos pelas
características externas.

2. Anatomia e Fisiologia

Formato do Corpo: quando pedimos a uma criança para que desenhe rapidamente um
peixe, o resultado é quase sempre um animal fusiforme (cilíndrico ou alongado) visto de
perfil. Se perguntarmos a esta mesma criança se todos os peixes que conhece se parecem
com o desenho, possivelmente a resposta será um sim, seguido de uma série de observações
relativas às espécies que possuem outro formato. Caso façamos a mesma solicitação a um
aquarista ou um produtor de peixes ornamentais, provavelmente não teremos nenhum
desenho, pois estas pessoas estão acostumadas a ver peixes com os mais diversos formatos, e
esta variação morfológica é uma das características de um peixe ornamental.

Diversas espécies comerciais possuem o formato "padrão" fusiforme, sendo a altura do corpo
maior que sua largura e o comprimento maior que ambas. Este formato reduz a resistência da
água ao movimento do peixe, permitindo uma redução do gasto de energia para o
deslocamento e possibilitando a natação em alta velocidade. O atum, o marlim e
determinadas espécies de tubarões são bons exemplos desta situação. Dentre as espécies
comerciais podemos observar este formato nas carpas, na truta, no salmão, na matrinxã e
mesmo em alguns peixes ornamentais como os barbos, os labeos e as botias. Apesar de este
formato ser o que produz menor resistência ao movimento, nem todos os peixes necessitam
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de nadar velozmente ou vencer fortes correntezas, por isso muitas espécies, a partir do
processo evolutivo, hoje possuem outros formatos mais adequados a certos nichos. O
extremo oposto ao formato fusiforme é uma forma esférica ou cúbica. Estas formas
apresentam grande resistência ao deslocamento e por isso as espécies que as possuem são
peixes que nadam lentamente, como por exemplo o baiacu e o peixe cofre, que são peixes
marinhos. Estas espécies possuem estruturas especiais para defesa e são muito apreciadas
como peixes ornamentais.

Existem peixes que possuem o corpo achatado lateralmente e, de perfil, apresentam um


formato arredondado. Algumas espécies criadas para abate, como o tambaqui e o pacu,
possuem esse formato e por isso são conhecidas como peixes redondos. Mas nenhuma outra
espécie merece tanto este nome como o acará-disco. Alguns exemplares de acará-disco
parecem ter sido feitos com um compasso. Dentre os peixes marinhos, também,
encontramos espécies com este formato como, por exemplo, o peixe-lua.

Outro formato incomum é o das enguias, das moréias e do mussum. Estes peixes são
alongados e seu comprimento excede em muitas vezes sua altura, com isso assemelham-se a
uma cobra. Os bagres possuem um formato semelhante ao fusiforme, porém, possuem a
largura maior que a altura do corpo. Assim, sua seção reta tem um aspecto comprimido no
sentido dorso ventral. Mesmo nas espécies que possuem formatos exóticos como o acará-
disco, o cavalo marinho e o linguado, as larvas nascem com formato fusiforme e à medida que
se transformam em alevinos e juvenis vão passando por sucessivas mudanças. No caso do
linguado, que vive apoiado lateralmente no fundo, essa metamorfose é tão complexa que o
adulto possui um lado do corpo que fica em contato com o fundo do mar e outro onde ficam
os dois olhos, sendo que o peixe nada de lado.

Coloração: a coloração dos peixes pode ser bastante variada dada a presença de
cromatóforos, células que contêm pigmentos. Estão presentes na pele (derme), tanto por
fora como por baixo das escamas. Os pigmentos podem ser da cor preta (melanina), amarela,
alaranjada ou vermelha (carotenóides), e as células podem conter combinações destes
pigmentos, que resultam em outras cores como o marrom e o verde.

Os pigmentos têm a função de proteger o peixe da ação dos raios solares, uma função
tão importante que já nos primeiros dias de vida aparece a coloração escura. Em diversas
espécies a cor muda durante o crescimento e é uma indicação da maturidade sexual. Além
dos pigmentos, os peixes possuem cristais que refletem a luz em diferentes comprimentos de
ondas (cores). A cor é refletida pelos cristais em função da sua largura e da profundidade em
que se encontram na derme. Estes cristais também são responsáveis pelo aspecto prateado
de muitos peixes.

Na maioria dos peixes, a intensidade da cor varia com a intensidade de luz na água.
Algumas espécies, como salmões e ciclídeos (carás, tucunarés e tilápias), tem sua cor alterada
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em função do período reprodutivo. Para que as mudanças na coloração ocorram, algumas


regiões concentram os pigmentos dos cromatóforos, enquanto em outras estes pigmentos se
espalham. A coloração também pode ser modificada pela ingestão de substâncias
pigmentárias, como os carotenóides. Outros fatores que produzem alterações na coloração
são o estresse e determinadas doenças. As modificações na coloração provocadas pelo
estresse são em geral passageiras.

Pele: a pele (epiderme) dos peixes é lisa e contínua, recobrindo o peixe completamente,
inclusive nos olhos. Ao longo do corpo do peixe, percebe-se uma seqüência de poros que
formam a linha lateral. Esses poros se comunicam com um canal longitudinal que fica abaixo
das escamas no qual existem células mecanorreceptoras, que permitem ao peixe perceber
mudanças na pressão ou ondulações provocadas por presas e predadores.

A pele dos peixes apresenta um grande número de glândulas mucosas. O muco secretado
permite a redução da resistência da água ao movimento de natação, mas serve,
principalmente, como proteção. O muco protege o peixe da infestação por fungos e parasitas.
Esse fato é facilmente observado nas pisciculturas. Quando se realiza qualquer manejo que
retire o muco, nos dias seguintes pode-se observar o surgimento de peixes com infestações
fúngicas, problema que é agravado mais ainda no inverno. Os peixes são animais
ectotérmicos, o que significa que a velocidade de suas reações metabólicas é reduzida em
quase 10% a cada redução de 1 grau na temperatura da água. Com isso, a produção de muco
no inverno é mais lenta e o peixe fica mais susceptível aos fungos e parasitas.

Escamas (Figura 4): as escamas são estruturas ósseas de origem mesodérmica, possuindo
diferentes formatos. Nas escamas da linha lateral, observa-se uma abertura. Na maioria das
espécies, as escamas estão imbricadas, formando uma estrutura semelhante a um telhado
com telhas de barro. Em algumas espécies podem ser separadas ou mesmo ausentes. Em
alguns peixes há placas ósseas, como nos cascudos. Apesar de os peixes poderem repor
rapidamente as escamas perdidas por acidente, as escamas são permanentes e se
desenvolvem durante toda a fase de crescimento do peixe. Quando o peixe habita uma região
onde ocorre uma estação fria bem definida, pode-se observar nas escamas que os anéis
formados durante a estação fria são mais densos e mais opacos. Estes anéis podem servir
para indicar a idade do animal.
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Figura 4 – Escama de peixe ósseo mostrando anéis de crescimento.

Esqueleto e Musculatura (Figura 5): o esqueleto dos peixes pode ser formado por
cartilagens, mas na maioria das espécies (Osteichthyes) é formado por ossos. O esqueleto
compreende o crânio, a mandíbula, a coluna vertebral, as costelas, a cintura peitoral e os
pterigióforos, que sustentam os raios das nadadeiras. A coluna vertebral é muito flexível,
porém, sua ligação com o crânio é feita por uma articulação dupla, que impede o peixe de
virar sua cabeça. Na cabeça do peixe encontramos o opérculo, que é o osso que protege a
cavidade branquial e que possui funções relacionadas a deglutição e respiração. Podemos
destacar os ossos intramusculares que são espinhas em forma de Y. Os músculos dos peixes
são segmentares (miômeros) e localizados entre as vértebras e na cabeça. Entre os grupos de
miômeros são encontrados tabiques (membranas) de tecido conjuntivo.

Figura 5 – Esqueleto de peixe ósseo visto ao raio X.

Nadadeiras (Figura 6): as nadadeiras dos peixes são expansões membranosas da pele e,
possivelmente, têm sua origem evolutiva nas dobras dos tegumentos dos cordados
primitivos. Possuem raios ósseos recobertos por uma membrana e podem variar em formato,
coloração, tamanho e posição.
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Figura 6 – Anatomia externa de peixe ósseo.

As nadadeiras pares mais próximas ao crânio, situadas na lateral do corpo, são as


nadadeiras peitorais. O par seguinte é o das nadadeiras pélvicas, que podem estar próximas
às brânquias, no abdômen ou mesmo ausentes. Próximo ao ânus existe uma pequena
nadadeira chamada nadadeira anal, que nos peixes machos da família Poecilidae (guarus,
guppys, molinésias, espadas e platis) é modificada em um órgão copulador, denominado
gonopódio. Sobre o dorso dos peixes existe uma nadadeira denominada nadadeira dorsal.
Esta pode ser única, dupla, múltipla ou contínua e em algumas espécies é ausente. Em alguns
peixes, como no caso da tilápia, os primeiros raios desta nadadeira são rígidos, pontiagudos e
salientes, constituindo um elemento de defesa. Nesta espécie e em outros ciclídeos, a
nadadeira dorsal do macho é pontiaguda e maior do que a da fêmea. Diferentemente das
demais, a nadadeira adiposa não possui raios, sendo de aspecto carnoso. Esta nadadeira não
está presente na maioria das espécies e é considerada primitiva. A nadadeira caudal
apresenta três tipos básicos:

Heterocerca: o tipo heterocerca é observado em tubarões e em alguns peixes ósseos


como o esturjão. Nessa nadadeira, as vértebras do final da coluna apresentam inflexão
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para a parte superior da nadadeira, que pode ser bifurcada ou ter o aspecto de uma
foice. Uma variação do tipo heterocerca é observada no celacanto. Nesta espécie, a
inflexão é reduzida e a nadadeira é lobada. Este tipo é conhecido como heterocerca
abreviada.

Dificerca: o tipo dificerca é característico dos peixes pulmonados, como a pirambóia, e


tem como característica possuir dois lobos iguais e as vértebras presentes até a
extremidade da nadadeira em posição mediana.

Homocerca: o tipo mais comum nos peixes teleósteos é a nadadeira caudal


homocerca, na qual as vértebras terminam no pedúnculo caudal. O formato da
nadadeira é bastante variado, mas o mais comum é o de leque.

Quando os peixes nadam para frente, em grande velocidade, apenas a nadadeira caudal
é utilizada no movimento, mas é a movimentação das demais nadadeiras que permitem as
manobras mais complexas como desviar de obstáculos ou nadar para trás. Além de serem
utilizadas na natação as nadadeiras podem servir para apoiar o peixe no substrato, para
cortejar a fêmea e para movimentar a água ao redor dos ovos. Estas funções ocorrem apenas
em um reduzido número de espécies.

Aparelho Digestivo: nos peixes, o aparelho digestivo é composto pela boca, dentes,
faringe, rastros branquiais, esôfago, estômago, intestino e glândulas anexas. Veremos a seguir
cada um deles.

Boca: a boca possui diversos formatos e estes estão relacionados ao hábito alimentar
e, mais precisamente, à forma de apreensão do alimento. Em geral, a boca é terminal
e sua abertura pode ser à frente ou um pouco acima ou abaixo da linha mediana. Este
padrão é comum aos peixes que se alimentam na coluna d'água. Peixes que se
alimentam na superfície possuem a boca voltada para cima como no caso do
tambaqui e do pacu. Em algumas espécies a boca é praticamente dorsal, como é o
caso do betta e do aruanã. Em peixes que se alimentam no fundo podemos observar a
boca ventral, presente nos cascudos, ou com estrutura protáctil, como na carpa e no
curimba. Quando fechada, a boca protáctil fica em posição mediana, mas, ao abrir, ela
forma um tubo voltado para baixo e que auxilia na sucção de detritos e outros
alimentos presentes no sedimento.

Dentes: em geral, os dentes dos peixes são cônicos, podendo ter apenas uma cúspide
ou várias. Algumas espécies possuem placas ásperas que são formadas por inúmeros
dentes filiformes (estes dentes formam a “lixa” dos bagres e mandis). Também são
comuns espécies desprovidas de dentes maxilares e/ou de dentes mandibulares. Na
carpa, por exemplo, ocorrem dentes faríngeos que não têm função de apreensão do
alimento, mas sim de trituração. Nos peixes, a língua é totalmente presa ao assoalho
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da cavidade bucal e não tem função de deglutição, como em outros animais, mas no
caso de algumas espécies ela possui uma aspereza que auxilia a manter capturadas as
presas vivas. O pirarucu é um exemplo disto, sua língua óssea e áspera é inclusive
comercializada como lixa. Na cavidade bucal existem glândulas mucosas, porém, as
salivares, que são comuns aos mamíferos, não são observadas. O processo de ingestão
de alimentos por um peixe tem duas etapas. Na primeira, o animal fecha a boca e abre
o opérculo, permitindo a saída da água. O alimento é então retido pelos rastros
branquiais. O alimento é deglutido na segunda etapa, indo para o esôfago. Neste
processo, o peixe ingere água que depois é eliminada pelo processo de excreção.

Rastros (Figura 7): rastros são estruturas ósseas, presentes nos lados da faringe, que
se prolongam do arco branquial. Este por sua vez é o osso que sustenta os filamentos
branquiais, que são a parte avermelhada da brânquia e possuem função respiratória.
Os rastros branquiais variam em número e em formato. Seu conjunto forma uma
malha que retém o alimento impedindo que ele retorne ao meio, juntamente com a
água expelida. A malha formada pelos rastros branquiais determina o tamanho
mínimo das partículas ingeridas. Peixes com rastros finos e abundantes podem filtrar e
ingerir plâncton de origem animal ou mesmo o fitoplâncton em casos mais
específicos. Peixes carnívoros possuem rastros mais largos e em menor número, pois
retém partículas de alimento maiores.

Figura 7 – Arcos branquiais de peixe ósseo.

Esôfago e Estômago: o esôfago é curto e se comunica com o estômago, que por sua
vez pode ter diversos formatos ou mesmo estar ausente. Na carpa comum não há
uma porção do tubo digestivo com as características de um estômago, mas as células
secretoras de ácido clorídrico e de pepsina, que normalmente ficam no estômago,
estão presentes em diversas partes do intestino delgado. Nos peixes carnívoros, o
estômago é relativamente grande, enquanto que nos onívoros e nos herbívoros é
menos evidente. O estômago é delimitado pela válvula pilórica, que marca o início do
intestino delgado. Nessa região, a maioria dos peixes possuem estruturas
denominadas cecos pilóricos, que têm por finalidade melhorar o processo de digestão
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através do aumento do tempo de permanência do alimento. Os cecos são projeções


do intestino delgado em forma de sacos e seu número é bastante variável.

Intestino e Glândulas Anexas: associados ao intestino delgado existem os seguintes


órgãos: fígado, vesícula biliar e pâncreas. O fígado dos peixes é geralmente grande e sua
função está relacionada à produção de bile e aos ciclos de ácidos graxos (gorduras). Associado
ao fígado está uma pequena vesícula biliar que se liga ao intestino pelo ducto biliar, por onde
passa a bile. O pâncreas é difuso, mas apresenta as mesmas funções do pâncreas humano,
que é a secreção de enzimas (tripsina e quimotripsina) e de hormônios. O intestino grosso
não é muito característico nos peixes, assim as funções de recuperação dos sais biliares são
feitas em diversos locais do intestino delgado. O intestino termina em um ânus. O tamanho
do intestino varia entre espécies e tem relação com o habito alimentar. Em carnívoros,
especialmente os piscívoros, o intestino normalmente mede aproximadamente o mesmo
comprimento do corpo de peixe. Nos herbívoros e detritívoros, o intestino pode ultrapassar
em 20 vezes o comprimento do corpo.

Aparelho Respiratório (Figura 8): Os peixes respiram por meio de brânquias localizadas
em uma câmara comum, denominada câmara branquial. Nos peixes ósseos, as brânquias são
protegidas pelos opérculos, e nos peixes cartilaginosos ocorrem as fendas branquiais. Além
destas estruturas existem, na cavidade bucal, valvas orais passivas. A respiração nos peixes
cartilaginosos ocorre da seguinte forma: a água entra pela boca e o peixe, ao fechá-la e
levantar o assoalho da cavidade bucal, força a água a passar pelas brânquias e sair pelas
fendas brânquias. Com os peixes ósseos é diferente: depois que a água entra pela boca, eles
fecham as valvas orais e a cavidade bucal é contraída, forçando a água a passar pelas
brânquias e a sair pelos opérculos, que possuem membranas para evitar o refluxo da água.
Como os filamentos branquiais são muito irrigados e com paredes finas, ocorre a troca
gasosa. O oxigênio da água entra na circulação e o gás carbônico vai para o meio externo.
Como estes processos ocorrem em função da diferença de concentração entre o plasma
sanguíneo e a água, baixas concentrações de oxigênio dissolvido ou altas concentrações de
gás carbônico reduzem este processo. Os peixes possuem um mecanismo de contracorrente
para aumentar a eficiência das trocas gasosas, assim o sangue dos filamentos circula no
sentido oposto ao da água. Durante a respiração, o peixe não ingere água, mas diversos
nutrientes e substâncias tóxicas são assimiladas diretamente pelas brânquias. Dentre elas
alguns minerais como o cálcio, o fósforo e o alumínio e substâncias tóxicas como a amônia.
Como o processo de respiração está intimamente relacionado à integridade das brânquias,
qualquer lesão nestas reduz a eficiência respiratória. São comuns lesões causadas por
substâncias tóxicas, deformações devido à deficiência de vitamina C e/ou de cálcio e
obstruções causadas por material em suspensão. Diversos parasitas também causam lesões
mecânicas nas brânquias, por nelas se alojarem.
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Figura 8 – Foto mostrando a brânquia (Br), coração (co) e bexiga natatória (bn) de peixe ósseo.

A bexiga natatória não faz parte do aparelho respiratório da maioria das espécies de
peixes, sua função é hidrostática. O volume de gases pode ser rapidamente ajustado e
permite ao peixe flutuar ou afundar com mais facilidade e se ajustar às diferenças de pressão
ao nadar em profundidades distintas. A bexiga natatória é intensamente vascularizada em
alguns peixes, tendo função semelhante ao pulmão em peixes como a pirambóia. Com isso,
esta espécie pode permanecer respirando fora d'água por longo período. Graus de
vascularização intermediários existem em outras espécies e são importantes durante
situações de hipóxia (falta de oxigênio), pois permitem que o peixe utilize o oxigênio
atmosférico. A bexiga natatória pode ser ligada ou não à faringe pelo ducto pneumático. Em
alguns peixes, chamados fisóstomos, há conexão da bexiga natatória com o esôfago. Assim, o
peixe infla e esvazia sua bexiga com rapidez, pois pode engolir ar para inflar a bexiga e
posteriormente expelir rapidamente este ar. Nos peixes fisóclistos, o enchimento e
esvaziamento são feitos pela corrente sanguínea, o que torna o processo mais demorado.
Esta diferença na condição fisiológica influencia a susceptibilidade dos peixes à operação de
usinas: na passagem por turbinas, principalmente considerando peixes oriundos de
montante, o tempo de esvaziamento da bexiga é crucial, já que a descompressão provocada
pela passagem pela turbina causa expansão do ar presente na bexiga natatória que, se não
for expulso a tempo, pode causar eversão de órgãos, rompimento da bexiga e morte do
peixe. Assim, peixes fisóclistos são mais vulneráveis à passagem por turbinas. No entanto,
considerando peixes oriundos do canal de fuga, a maior resistência ao trauma por pressão
pode permitir ao peixe se aproximar mais perto da turbina, o que aumenta a chance de
choque mecânico.

Aparelho Circulatório (Figura 9): o coração dos peixes é bastante simples e possui apenas
duas câmaras, um átrio (aurícula) e um ventrículo. O coração está situado logo abaixo da
faringe e das brânquias, próximo à inserção da nadadeira peitoral. O sangue chega ao coração
pelo seio venoso, deste vai para o átrio para depois ir para o ventrículo. Esta última cavidade
possui sua parede muscular muito mais espessa que as demais. Entre estas câmaras ocorrem
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válvulas que impedem o refluxo do sangue. Os batimentos do ventrículo (contrações)


expelem o sangue para o cone arterial e deste para a artéria aorta ventral, que se divide em
quatro pares de artérias branquiais aferente. Cada artéria branquial aferente distribui o
sangue para capilares que irão irrigar uma das oito brânquias do peixe. Após passar pela
brânquia, o sangue oxigenado segue por capilares até a artéria branquial aferente, que o
conduz à artéria aorta dorsal que distribui o sangue para todo o corpo. Através das veias
cardinais anteriores e posteriores e da veia hepática, o sangue desoxigenado retorna ao
coração. Pode-se perceber, então, que no coração dos peixes passa apenas sangue
desoxigenado. O sangue dos peixes contém hemácias (eritrócitos) arredondadas, com a
presença de núcleo e de vários tipos de leucócitos. Estas células são produzidas no baço. O
volume de sangue em peixes é pequeno quando comparamos com o dos mamíferos. O
sangue, além de gases, transporta hormônios, nutrientes, anticorpos e substâncias
metabólicas.

Figura 9 – Sistema circulatório dos peixes.

Aparelho Excretor (Figura 9): os peixes possuem um par de rins, do tipo mesonefro,
escuros e filiformes (alongados), situados no dorso da cavidade celomática (abdômen), acima
da bexiga natatória, onde os metabólitos presentes no sangue são filtrados. A urina é
eliminada na água através do seio urogenital. O nitrogênio proveniente do metabolismo
protéico é eliminado na urina sob as formas de amônia e/ou uréia, mas a maior parte deste
nitrogênio é eliminado sob a forma de amônia pelas brânquias. Em algumas espécies, o ducto
urinário e o reprodutor não se encontram associados nos machos, apenas nas fêmeas, sendo
este um caráter que ajuda na distinção dos sexos. Uma importante função do sistema
excretor em peixes é a osmorregulação. Os peixes de água doce (dulcícolas) vivem em um
meio no qual a concentração de sais (concentração iônica) é muito inferior (meio hipotônico)
à do sangue e, por isso, absorvem involuntariamente grandes quantidades de água pelas
brânquias e pela membrana da boca e da faringe. Também ocorre perda de sais pelas fezes,
Tópicos de Manejo e Conservação da Ictiofauna para o Setor Elétrico
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urina e brânquias. Para manter seu equilíbrio osmótico, estes peixes produzem uma grande
quantidade de urina. A urina dos peixes dulcícolas é muito diluída e seu volume pode ser até
dez vezes superior ao produzido por um peixe marinho de mesmo tamanho, nos quais o
problema é justamente o oposto.

Aparelho Reprodutor: o aparelho reprodutor é composto pelas gônadas (testículos e


ovários) e pelos ductos por onde passam os gametas. As gônadas são formadas após o
nascimento dos peixes e têm a mesma origem celular. Este fato permite que sejam feitos
processos de inversão sexual em diversas espécies de peixes. Nos machos, pode ser verificada
a presença de um par de testículos cuja coloração e formato variam durante seu ciclo
reprodutivo. Os testículos podem ser ambos funcionais, ou em algumas espécies, um pode
ser atrofiado. Nas fêmeas, a gônada pode variar de um pequeno filamento translúcido, em
peixes imaturos, até atingir 25% do peso do peixe quando maduras, dependendo da espécie.

3. Ecologia e comportamento

A diversidade de padrões ecológicos de peixes é fabulosa, por isso iremos nos concentrar
no hábitat, reprodução e alimentação de peixes de água doce e, principalmente, nas espécies
mais vulneráveis à operação de usinas.

Habitat: raízes, troncos, gramíneas e macrófitas submersas são ótimos refúgios,


especialmente para espécies de pequeno porte ou juvenis. É comum capturar peixes
pequenos em “peneiradas” na vegetação submersa. Tuviras (ou sarapós) são frequentemente
vistas paradas em partes vegetais durante o dia. Raízes e troncos são especialmente
importantes para peixes de riachos, predominantemente de pequeno porte. Além disso,
abrigam muitos invertebrados que servem como alimento. Além das margens, matacões e
blocos de rochas presentes no canal do rio também servem como substrato para o
crescimento de macrófitas que, por sua vez, fornecem abrigo aos peixes. Mandis e outros
bagres vivem em tocas formados pelas pedras do fundo do rio, inclusive lutando por elas.
Estes mesmos peixes e os mussuns também são conhecidos por viverem em tocas na margem
dos rios. Outros peixes se enterram na areia (pacamã) ou na lama (bagres africanos). Já
muitos pequenos e grandes Characiformes, como pacus, dourados, lambaris, piracanjubas e
piabas são nadadores ativos da coluna d’água, que podem inclusive formar cardumes mistos.
Por isso a importância da heterogeneidade ambiental e preservação das características
originais do rio: cada elemento do canal do rio serve de abrigo, local de desova ou
alimentação para espécies diferentes. Assim, a redução do número de habitats disponíveis
também reduz a quantidade de espécies que o local pode abrigar.
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Alimentação: talvez a característica mais marcante da ictiofauna brasileira quanto a dieta


seja o oportunismo: aproveitam o(s) recurso(s) com maior energia, quantidade e facilidade de
obtenção num dado momento. No entanto, isso não significa que não exista nenhuma
preferência: um bom pescador saberia que uma determinada isca funciona melhor para
determinada espécie do que para outras. Mas significa que há capacidade de consumir
grande espectro de itens alimentares dependendo da disponibilidade, o que facilita a
sobrevivência em um ambiente altamente sazonal e variável como rios neotropicais. Pacus,
tambaquis e matrinxãs entram nas matas alagadas durante a estação das cheias e consomem
enorme quantidade de frutos e sementes, entre elas as castanhas. As cheias também são
boas oportunidades para herbívoros, como os ximburés (também conhecidos como
campineiros, taguaras ou piavas) Schizodon spp, que aproveitam o alagamento da vegetação
para se alimentar de capim. Mas embora preferencialmente herbívoros, os ximburés podem
consumir invertebrados também. A baixa no nível dos rios e consequente aumento na
transparência facilita a alimentação de piscívoros como o dourado. Mandis e pacus-caranha
podem consumir grandes quantidades de grãos como soja e milho acumulados em rios
próximos a plantações ou portos fluviais. Doradideos (armado, abotoado, roncador, roque-
roque) podem se alimentar basicamente de qualquer material orgânico de origem antrópica
descartado, incluindo cascas de frutas. Piranhas e pirambebas (Pygocentrus spp e Serrasalmus
spp) se alimentam de pedaços de peixes e nadadeiras. Contudo, frutos e vegetais já foram
encontrados em seus estômagos. Tal ingestão de vegetais pode ser acidental – durante a
captura de presas escondidas na vegetação - ou não. Candirus se alimentam de restos e
carcaças de animais. Este hábito necrófago inclui um peixe em evidencia ultimamente: a
piracatinga (Calophisus ornatus) que tem sido pescada com uso de carne de jacaré e boto,
levando a caça destas espécies. O tricomicterídeo Paravandelia oxyptera parasita brânquias
de peixes se alimentado de sangue. A lepidofagia (ato de se alimentar de escamas de outros
peixes) é praticada por certas espécies do gênero Roeboides e Odontostilbe. Aruanãs
(Osteoglossum spp) saltam para capturar insetos fora da água e Gymnotiformes como o
poraquê (Electrophorus electrus) e as tuviras (Gymnotus spp) produzem descargas elétricas
para comunicação e/ou paralisação de presas. Nos grandes lagos africanos, há peixes
especializados em retirar filhotes guardados na boca das mães e pais. Cascudos raspam o
perifíton (camada de algas) aderido em troncos e pedras. Os panaques, tipo diferenciado de
cascudo vivente na Amazônia, comem pedaços da madeira. Curimbas e saguirus comem
basicamente detrito - restos de material orgânico, animal ou vegetal, em diferentes estágios
de decomposição, depositado no fundo do rio. O dourado, a cachorra e grandes bagres como
a piraíba, o jau, surubim e o pintado comem quase exclusivamente peixe. Sarapós e tuviras
consomem principalmente insetos. Lambaris, mandi-amarelo, pacu-caranha, piracanjubas,
matrinxãs, armados, piaus, piaparas e muitos outros podem consumir basicamente qualquer
tipo de alimento, vegetal ou animal. Em geral, entre os itens mais consumidos estão o próprio
detrito - presente em diferentes quantidades na dieta de muitas espécies, peixe, insetos e
outros invertebrados, como crustáceos, moluscos e vermes. Algas e material de origem
vegetal também são comuns.
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Reprodução: em peixes ciclídeos (Tucunarés, Tilápias e Carás), peixes extremamente


diversos nos grandes lagos africanos, mas também presentes no Brasil, é comum que os
machos se tornem mais coloridos e desenvolvam estruturas diferenciadas durante o período
reprodutivo. Os salmões do Pacífico (Oncorrhynchus spp), por exemplo, mudam sua coloração
e morfologia das maxilas ao longo do amadurecimento das gônadas. Nos Cyprinodontifprmes
poecilídeos (lebistes, guarus, barrigudinhos, molinésias, espadas e platis) há fecundação
interna, como nos cangatis (Auchenipteridae). Nestes últimos, a fêmea pode inclusive
armazenar esperma do macho para fecundações posteriores. No caso dos
Cyprinodontiformes e ciclídeos, há dimorfismo sexual (diferenças morfológicas entre macho e
fêmea). Os Cyprinodontiformes não desovam, são vivíparos. Nos ciclídeos, assim como nas
traíras (Hoplias spp), no pirarucu (Arapaima gigas) e pacamã (Lophiosilurus alexandrii), há
cuidado parental. Estas espécies fazem ninhos onde são depositados os ovos e que são
vigiados por um dos pais ou por ambos. Centrarchídeos (Black bass) depositam seus ovos em
galhadas submersas. Nestas espécies, é comum o territorialismo: não permitem aproximação
da área onde está o ninho, sendo espécies bastante agressivas que atacam quem se aproxime
dos ovos ou juvenis. Algumas piranhas e carpas depositam seus ovos em raízes de macrófitas
flutuantes (aguapé, alface d’água e outras). Alguns cascudos (Loricariidae) podem carregar
seus ovos aderidos em folhas ou no próprio corpo. Estas espécies que apresentam cuidado
parental tendem a produzir ovos maiores, em menor quantidade e com múltiplos eventos de
desova ao longo do ano. Os peixes migradores neotropicais (peixes de piracema) e alguns
outros não migradores como os saguirus, por sua vez, apresentam comportamento diferente:
desovam dezenas a centenas de milhares de ovos pequenos que não são guardados por
nenhum dos pais. Estes ovos são carreados pela corrente e se desenvolvem em locais
diversos, que podem ser o canal do próprio rio, corpo do lago ou lagoas marginais. A desova
destas espécies pode ocorrer em um (desova total) ou mais (desova parcelada) eventos de
desova, quase sempre concentradas na estação chuvosa.

A piracema (Figura 10): para que ocorra a desova, é necessário que os óvulos estejam
amadurecidos. O amadurecimento começa com a diferenciação de uma célula chamada
ovogônia, que se desenvolve passando por diversas fases, aumentando de tamanho. A
ovogônia recebe uma substância proveniente do fígado, importante para nutrir o embrião e a
larva. Essa substância tem o nome de vitelo. Também o núcleo desta célula sofre
transformações e migra para a periferia, onde existe um orifício chamado micrópila, pelo qual
o espermatozóide penetra para realizar a fecundação. Processo semelhante ocorre nos
machos, nos quais as espermatogônias amadurecem e se transformam em espermatozóides.
Para que estes processos ocorram, é necessária a interferência de diversos hormônios. Os
estímulos ambientais decorrentes da alteração na duração do dia (fotoperíodo) e da variação
de temperatura estimulam o hipotálamo de algumas espécies a liberar hormônios que atuam
sobre a hipófise. A hipófise, então, produz os chamados hormônios gonadotrópicos, que
atuam sobre ovários e testículos, promovendo respectivamente a maturação dos óvulos e
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espermatozóides. Em cativeiro, com água parada, as espécies que realizam piracema têm o
desenvolvimento dos óvulos paralisado na fase anterior à maturação final. Quando a
maturação final ou a reprodução não ocorre, os óvulos são reabsorvidos. O processo em que
o óvulo é destruído por enzimas é chamado de atresia folicular. Quando ele começa, mesmo
ocorrendo uma desova, a porcentagem de fecundação será muito baixa. Dizemos que os ovos
estavam passados, ou mais propriamente, atrésicos. O acúmulo de ácido lático representa um
estímulo vital para maturação. Após a maturação, a desova ocorre da mesma forma que para
as espécies ovíparas que desovam em água parada. Por este motivo, a construção de
barramentos nos rios pode causar o gradual desaparecimento de diversas espécies como o
pacu, os curimbas, os piaus, os dourados, piracanjubas, matrinxas, pintados, cacharas e jaús.

Figura 10 – Fenômeno da Piracema

4. Principais espécies de peixes envolvidas em acidentes ambientais

a) Nome Popular: curimatã, curimatá-pacu, curimbatá, curimba


Nome Científico: Prochilodus sp.
Ordem/Família: Characiformes/Prochilodontidae
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Distribuição Geográfica: bacias Amazônica e Araguaia-Tocantins (P. nigricans), Prata (P.


lineatus,), São Francisco (P. argenteus e P. costatus) e Doce (P. vimboides). Também foram
introduzidas nos açudes do Nordeste. Hoje, existe conhecimento da presença das espécies do
rio São Francisco nos rios Doce e Jequitinhonha, devido a introduções artificiais.

Descrição: peixes de escamas. A principal característica da família é a boca protrátil, em


forma de ventosa, com lábios carnosos sobre os quais estão implantados numerosos dentes
diminutos dispostos em fileiras. As escamas são ásperas e a coloração é prateada. A altura do
corpo e o comprimento variam com a espécie. Pode alcançar de 30 a 80 cm de comprimento
total e 15 kg de peso, dependendo da espécie.

Ecologia: espécies detritívoras alimentam-se de matéria orgânica e microorganismos


associados à lama do fundo de lagos e margens de rios. Realizam longas migrações
reprodutivas. São capturadas em grandes cardumes, sendo espécies importantes
comercialmente, principalmente para as populações de baixa renda. Embora o valor
comercial da carne seja baixo, o grande volume de capturas torna a espécie importante na
pesca. Na bacia do Prata, o curimba representa mais de 50% da biomassa total de peixes que
vivem no rio.

b) Nome Popular: mandi; mandi – amarelo; mandi-guaçu


Nome Científico: Pimelodus sp.
Ordem/Família: Siluriformes/Pimelodidae

Distribuição Geográfica: o mandi-amarelo (Pimelodus maculatus), espécie de ampla


distribuição geográfica e de grandes variações cromáticas e até estruturais (Santos, 1954),
pode ser encontrado na Amazônia, Guianas, Venezuela, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina,
Bacia do Paraná, do Prata, Rio Uruguai e Rio Iguaçu (Godoy, 1987).

Descrição: peixe de médio porte, alcançando cerca de 50 cm de comprimento e peso de


até 3 kg. O corpo é alto e a cabeça é curta e baixa, com a boca terminal e a fenda bucal
ampla, não possuindo dentes no palato. Os barbilhões maxilares são longos, alcançando a
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região do pedúnculo caudal. O dorso é castanho escuro, com 3 a 4 séries longitudinais de


manchas negras sobre o flanco. As nadadeiras possuem manchas negras e pequenas.

Ecologia: de hábito alimentar onívoro com tendência à ictiofagia (Basile-Martins 1978;


Souza 1982; Menin & Mimura 1991), o mandi-amarelo apresenta ampla plasticidade da dieta,
podendo comer praticamente qualquer matéria de origem orgânica, desde frutos e sementes
até peixe. Há uma tendência de a espécie se tornar piscívora com o crescimento, passando a
consumir principalmente peixes a partir dos 25 cm de tamanho (Lima-Junior & Goitein 2003).
Como na maioria dos peixes de couro, habita o fundo dos ambientes aquáticos. É geralmente
considerado um peixe de piracema, fazendo a migração reprodutiva rio acima para a desova,
que ocorre com a elevação do nível das águas em razão das chuvas. No entanto, esta
condição migratória é controversa, pois a espécie também é abundante em cascatas de
reservatórios, o que seria incompatível com a migração reprodutiva. Especula-se que a
espécie seria migradora opcional ou que as populações originalmente conteriam os dois
fenótipos (migrador e não migrador), que por sua vez seriam selecionados de acordo com
ambiente. O comprimento médio na primeira maturação sexual varia de 12,5 a 18 cm para
machos e 12 a 19 cm para as fêmeas. É uma espécie abundante e importante na pesca
comercial (Lolis et al. 1996), com boa aceitação pelo mercado consumidor (Souza & Torres
1984). É também a espécie mais comum em resgates durante paradas de máquina em usinas
da Cemig. A presença de três ferrões, um na nadadeira dorsal e outros dois nas nadadeiras
peitorais pode causar acidentes dolorosos e recomendam cuidado no manuseio dos
indivíduos.

c) Nome Popular: piapara


Nome Científico: Leporinus sp.
Ordem/Família: Characiformes/Anostomidae

Distribuição Geográfica: bacias Amazônica e Araguaia-Tocantins, Prata e São Francisco.

Descrição: peixe de médio porte, alcançando cerca de 50 cm de comprimento e podendo


atingir o peso de até 6 kg. Na bacia do Prata estão presentes L. obtusidens e L. piavussu. Em
Leporinus piavussu a boca é terminal, enquanto em Leporinus obtusidens esta é subinferior.
Possui seis dentes incisiviformes inclinados para frente, tanto na maxila superior quanto na
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inferior. O corpo é alongado e comprimido lateralmente, sendo o dorso castanho-escuro e o


abdome amarelo. As escamas do tronco são castanho-escuras na base, dando o seu conjunto
a impressão de listras longitudinais interrompidas. Possui três manchas negras ovais ou
alongadas verticalmente, não bem delimitadas, sobre a linha lateral. As nadadeiras peitorais,
pélvicas e anal são amarelas. Sua coloração varia conforme a transparência da água do rio.
Observamos que com transparência maior, as piaparas tendem a ter cores mais fortes.

Ecologia: possui hábito alimentar onívoro alimentando-se de insetos, vegetais, peixes e


eventualmente de moluscos. Possui importância comercial na pesca de diversas bacias, tendo
carne apreciada pelo mercado. É um peixe de piracema, vivendo no canal dos rios.

d) Nome Popular: dourado


Nome Científico: Salminus sp.
Ordem/Família: Characiformes/Characidae

Distribuição Geográfica: bacias do Prata (S. brasiliensis) e São Francisco (S. franciscanus).

Descrição: é o maior dos peixes de escama da bacia do Prata, podendo atingir mais de um
metro de comprimento e 30 kg de peso. O corpo é alto e as escamas são relativamente
pequenas. A boca possui duas séries de dentes, tanto no pré-maxilar, quanto no dentário. A
séria externa é composta de dentes cônicos muito maiores que os da interna. O dorso é
castanho escuro. Na região central, as escamas dorsais apresentam uma mancha, formando,
em conjunto, estrias longitudinais. O abdome e a região inferior do corpo são amarelo-vivos,
com uma listra negra sobre os raios caudais medianos. A nadadeira anal é áspera nos machos,
devido a inúmeras espículas que aparecem entre os raios na época da reprodução.

Ecologia: é um peixe de piracema, reproduzindo-se normalmente de novembro a janeiro.


No rio São Francisco, a jusante de Três Marias, o período com maior intensidade reprodutiva
seria de dezembro a março (Andrade et al. 2008). O macho atinge a maturidade sexual com
dois anos de idade, enquanto a fêmea alcança aos três anos. O hábito alimentar piscívoro
desta espécie já está estabelecido em alevinos de 8 cm de comprimento, sendo o adulto um
piscívoro exclusivo, engolindo a presa inteira. Sua carne é muito apreciada pelo mercado,
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sendo considerada uma das melhores entre peixes de água doce. Pela qualidade da carne
tamanho, é um dos eixes mais procurados por pescadores.

e) Nome popular: barbado


Nome Científico: Pinirampus pirinampu
Ordem/Família: Siluriformes/Pimelodidae

Distribuição Geográfica: bacia do Prata, incluindo os rios Grande e Paranaíba.

Descrição: peixe de grande porte, alcançando cerca de 60 cm de comprimento e 10 Kg de


peso. O dorso é verde-claro e o ventre esbranquiçado. A nadadeira dorsal é longa com um
acúleo flexível e seis raios, a adiposa é muito longa e a anal possui onze raios. O peso médio
gira em torno de 3 a 5 kg.

Ecologia: o período reprodutivo coincide com a enchente de rios. É um peixe muito voraz
e pode atacar peixes presos em malhadeiras. É oportunista e tem dieta variada. O local mais
provável para a sua captura é no leito de rios de médio e grande porte. É bastante procurado
por pescadores profissionais, que utilizam principalmente espinhéis iscados com peixe em sua
captura. Esta espécie merece atenção especial durante as paradas de máquinas pois tem
aumentado a sua abundância em muitos reservatórios da bacia do Paraná e se mostra
extremamente frágil e sensível ao estresse por manuseio e confinamento, ao contrário do
mandi que é uma espécie bastante resistente. Durante os resgates de peixes deve-se dar
prioridade a esta espécie sob o risco de ocorrerem mortandades.

f) Nome popular: corvina


Nome Científico: Plagioscion squamosissimus
Ordem/Família: Perciformes/Sciaenidae
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Distribuição Geográfica: nativa da bacia Amazônica, hoje atinge os reservatórios da bacia


do Prata chegando aos rios Grande e Paranaíba.

Descrição: corpo alto, boca terminal, pré-maxilar e dentário com várias séries de dentes.
Corpo prateado, nadadeiras claras.

Ecologia: esta espécie se reproduz em ambientes lênticos sendo uma das espécies
exóticas que mais impactam a comunidade de peixes nativa de diversos reservatórios da
Cemig. Seu hábito alimentar é piscívoro, mas a espécie também pode utilizar outros itens
alimentares como crustáceos e insetos. Em muitos casos, camarões de água doce são seu
alimento principal. Entre todas as espécies citadas, é a única que apresenta condição
fisóclista. É bastante procurada por pescadores em reservatórios e sua carne possui boa
aceitação.

5. Bibliografia sugerida

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Pós-Graduação em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre, Universidade
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