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Universidade do Estado do Pará

Centro de Ciências Biológicas e da Saúde


Curso de Pós-Graduação em Educação Física Escolar
Metodologia do Ensino da Educação Física – Conteúdo Esporte.

Dérick H. Paranhos de Carvalho

“Educação Física e Esporte: Uma Relação Harmônica, Às Vezes!”


Maio – 2004.

Dérick H. Paranhos de Carvalho

“Educação Física e Esporte: Uma Relação Harmônica, Às Vezes!”

Ensaio produzido à disciplina Metodologia


do Ensino da Educação Física – Conteúdo
Esporte do Curso de pós-graduação em
Educação Física Escolar da Universidade
do Estado do Pará, a titulo de conclusão
da referida disciplina.

Avaliadora: Prof. Josiléia Valinoto

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Belém
2004.

“Educação Física e Esporte: Uma Relação Harmônica, Às Vezes!”

Dérick H. Paranhos de Carvalho


derick@valerry.com.br
Universidade do Estado do Pará – UEPA

RESUMO

Este ensaio foi elaborado como conclusão a disciplina Metodologia do


Ensino da Educação Física – Conteúdo Esporte, do curso de pós-graduação em
Educação Física Escolar pela Universidade do Estado do Pará. Este artigo
constará de dois momentos, no primeiro faremos um levantamento descritivo da
realidade educacional da escola na qual ministramos as atividades desde abril de
2003, as mudanças ocorridas, as dificuldades encontradas e os avanços obtidos
no processo educacional. No segundo momento faremos uma reflexão dessa
realidade e das dificuldades de abordagem de outros conteúdos que não o
Esporte nas aulas de Educação Física tomando como base e referencial teórico o
livro “Reinventando o Esporte” do Professor Sávio Assis (UFPE). É importante
ressaltar que temos a liberdade de utilizar também outros referenciais que nos
ajudarão a solidificar ainda mais a proposta elaborada pela docente da disciplina.

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“Educação Física e Esporte: Uma Relação Harmônica, Às Vezes!”

1º Momento: Entrando em Campo

Ao ser contratado pela escola (a qual passarei a chamar de X, no intuito de


preservar sua identidade) me deparei com uma realidade preocupante: a disciplina
educação física componente curricular obrigatória na escola era substituída pelas
escolinhas de desporto. Em outras palavras, os alunos se matriculavam em uma
das escolinhas ofertadas (Voleibol, Basquetebol, Handebol e Futsal) e estas
representavam a disciplina em seus boletins. Vale ressaltar que essa realidade
incomodava também a coordenadora de educação física (Professora que me
convidará a trabalhar na referida escola) e que foi importante na luta pelo retorno
da educação física e seus conteúdos ao eixo curricular da escola que
posteriormente comentarei com mais detalhes. Assim, percebendo uma
oportunidade de conquistar espaço e experiência pedagógica, de imediato aceitei
a proposta, mesmo deixando clara a insatisfação por ministrar apenas os
conteúdos de Futsal e handebol, e em abril de 2003 comecei as atividades nas
escolinhas de desporto, sempre esclarecendo aos alunos que eles não estavam
fazendo educação física e sim aulas de futsal e/ou handebol, fato que causava
estranheza aos alunos, pois a obrigatoriedade de fazer uma modalidade esportiva
estava condicionada a sua média a disciplina educação física “...a forma e os
motivos como se constitui no único conteúdo... chegando mesmo a ser confundido
com a própria Educação Física;” (CAPARROZ 1997, p. 131-146), sendo este,
mais um fator que nos deixava preocupados (eu e a coordenadora de EF); a
Avaliação. Como proceder a avaliação de um aluno que se vê obrigado a praticar
o desporto sem que este o queira? ou ainda, o que avaliar? Suas habilidades no
trato com a bola? Sua relação com o desporto? Seus avanços no conteúdo
ÚNICO? Por mais que houvesse esforços é extremamente limitante e

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comprometedor buscarmos métodos alternativos tanto na abordagem do conteúdo
como na avaliação condicionada do aluno. Nesse sentido as aulas foram
desenvolvendo-se e o trato pedagógico caracterizado dentro de uma abordagem
desenvolvimentista, o que limitava nossa atuação pedagógica, assim buscamos
primeiramente entender o fenômeno que se materializava no interior da escola
com relação à educação física para então propor a direção pedagógica uma
mudança na sua estrutura curricular. aponta o seguinte:

“A Sociologia do Currículo tem contribuído muito para uma compreensão


de como e por que um componente curricular se constitui (como tal),
desenvolve-se, desaparece (é excluído), reaparece (retorna à condição
de componente), etc. Para isso, concorrem tanto fatores internos quanto
externos à escola, como também fatores macro e micro-estruturais.
Tentar compreender a trajetória sócio-histórica de um componente
curricular por apenas uma via [...] pode conduzir-nos a certos
equívocos.” (CAPARROZ, 2001, p. 33-34 )

Após uma serie de reuniões e de debates pedagógicos acrescidos de uma


reformulação pedagógica na direção da escola, que contribuiu para um maior
diálogo, elaboramos um projeto que foi aprovado pela atual direção resgatando os
demais conteúdos da educação física e possibilitando a prática esportiva dos
alunos (escolinhas) por livre opção.
O próximo passo foi sentarmos para estruturar o planejamento anual que
implementaríamos no ano de 2004. Os conteúdos foram divididos por bimestre,
duas aulas semanais e as series que cada um assumiria, ficando sob minha
responsabilidade as turmas do ensino fundamental.
O Inicio foi difícil, como em todo processo de mudança, com grande parte
dos alunos resistindo bastante (maioria remanescentes da escola) acostumados
com o que historicamente lhes havia sido oferecido (desporto), o que Caparroz
descreve como
“...um nó, que aqui necessita ser desfeito: a escola tende a resistir a
isso, pois o esporte que ela quer é o que ela conhece [...] Os
professores que desenvolvem o ensino do esporte nas aulas de
Educação Física balizados pela perspectiva crítica enfrentam grandes e
sérias resistências, não só por parte dos alunos como pela comunidade
como um todo.” (CAPARROZ, 2001, p. 41)

logo, ratificamos o pensamento de Caparroz, (2001, p. 43) de que essa força de


resistência dos alunos e em especial da escola não reside nela mesma mas na

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trama das relações sociais que a envolvem. Nesse sentido, e diante das
dificuldades enfrentadas durante as atividades já ministradas ate o presente
momento, buscamos como alternativa para esse primeiro momento, a
concomitância de conteúdos, em que abordamos uma aula para o conteúdo
desportivo e uma aula para tratar outro conteúdo da Educação Física conforme
planejamento. Mesmo tendo clareza de que este procedimento limita o trato com
outros conhecimentos e ainda privilegia o desporto como conteúdo hegemônico da
educação física, levamos em consideração que o processo de mudança esta em
curso e que o ponto central desse processo, alem do resgate dos conteúdos, é a
ressignificação dos mesmos, em especial do Esporte. É justamente essa
ressignificação que trataremos no segundo momento deste artigo sob a ótica dos
referenciais propostos.

2º Momento: Ta na Hora da Virada...

Neste momento não entraremos em detalhes sobre como e quais as


dificuldades que estamos enfrentando no trato/abordagem dos demais conteúdos
já vistos (Jogo e Dança), não por serem irrelevantes, mas porque fugiria as
intenções principais deste trabalho que visa discutir a ressignificação do esporte
tomando como base nossa realidade educacional. Para tanto precisamos ter claro,
que discutir as ressignificações do esporte é discutir as concepções de educação
física e o trato destas com o conteúdo Esporte, para então materializarmos em
nosso “fazer cotidiano” as mudanças esperadas. Ressignificar o esporte passa
acima de tudo por um confronto cultural historicamente enraizado na cultura
escolar e por conseguinte nos alunos, e que para tanto ratificamos o pensamento
de ASSIS DE OLIVEIRA (2001, p.126) em que
“...numa perspectiva critica de ensino dos esportes não pode deixar de
fora a abordagem da técnica, como também das regras e das táticas e
[...] esses conhecimentos não podem ser sonegados dos alunos”

portanto do ponto de vistas das concepções criticas os conhecimentos


historicamente produzidos na área dos esportes devem ser abordados
articuladamente com o sentido/significado que lhe é inerente, justamente por

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fazem parte da realidade dos alunos, com a sua ressignificação social para a
superação de determinantes conceituais, atitudinais e factuais deste conteúdo, o
que pode ser facilmente identificado em propostas como a crítico - emancipatória
(Kunz), critico - superadora (Coletivo de autores) e Sistêmica (Betti).
Em suma. Um trato diferenciado e critico do esporte não deve afastar os
alunos do esporte criticado, mas dirigir esse contato através de uma
“transformação” que garanta a preservação do significado, a vivencia do
sucesso nas atividades e a alteração de sentido através da reflexão
pedagógica”. (ASSIS DE OLIVEIRA 2001, p.128).

Diante das considerações acima, convém somar-se a esta as


considerações que ASSIS faz a cerca do trabalho de VAGO em “Educação Física
e aprendizagem Social” quando este trata da impossibilidade da idéia de produção
de uma “cultura escolar” ao afirma que o esporte entrou no “Campo” da escola por
meio dos processos históricos uma vez que este é praticado em seus espaços e
em seus tempos, travando a critica ao debate sobre a temática do Esporte da
escola e na escola, ou seja
“...Isso seria esvaziar de sentido o ensino do esporte como um dos
temas da educação física ou, então, ate mesmo reforçar o seu ensino
nos moldes atuais baseado predominantemente na exclusão de muitos
e na performance de poucos” (ASSIS apud VAGO. 1996, p. 13)

trata-se portanto de possibilidades, possibilidades a partir de realidades concretas,


assim desenvolvemos em nosso cotidiano educacional possibilidades de
transformação no sentido da ressignificação desse conteúdo, mesmo que de
forma lenta e gradativa, mas dentro das possibilidades e limites que nos é imposto
pelos determinantes socioculturais do processo educacional, ou ainda como
refere-se VAGO, no sentido de
produzir uma outra forma de apropriação do esporte, quer seja através
de sua problematização como fenômeno sócio cultural, do confronto dos
valores e códigos que o fazem excludente e seletivo com valores e
códigos [...] que privilegiam a participação, o respeito à corporeidade, o
coletivo e o lúdico”. (ASSIS apud VAGO. 1996, p. 13)

ratificamos que não é possível que o esporte penetre nos portões da escola,
ocupe seus espaços e saia como entrou, sem modificações, alterações de sentido
e significado, que apenas tenha produzido atletas e consumidores de espetáculo
esportivo, e, justamente por isso, enfrentamos as dificuldades que nos são
impostas com o compromisso de criar as possibilidades, mesmo que mínimas,

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para que tais mudanças não se encerrem no interior da própria escola, que
embora determinada socialmente pode transformar-se e gerar transformações,
que me dêem subsídios a continuar lutando.
O que pretendo é buscar uma outra possibilidade de análise da prática
escolar. Quero um outro 'falar' que, dirigido ao dia-a-dia da escola, ao
trabalho realizado por professores e alunos, dêem conta de captar 'cores
e formas' lá existentes e que, em geral, se apagam quando observadas
a partir de uma visão estereotipada e reducionista". KRAMER (1993,
p.31)

Em outras palavras, O JOGO CONTINUA...

Referencias Bibliográficas

ASSIS DE OLIVEIRA, Sávio. A reinvenção do esporte: possibilidades da prática


pedagógica. Recife/PE: UFPE: Dissertação de Mestrado, 1999.

BETTI, Mauro. Educação física e sociedade. São Paulo: Editora Movimento, 1991.

BRACHT, Valter. Sociologia crítica do esporte: uma introdução. Vitória: UFES,


Centro de Educação Física e Desporto, 1997.

CAPARROZ, Francisco Eduardo. O Esporte como Conteúdo da Educação Física: uma


“jogada desconcertante” que não “entorta” só nossas “colunas”, mas também nossos
discursos. Vitória: CEDF – UFES, 1997.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo,


Cortez, 1992.

KRAMER, Sônia. Por entre as pedras: arma e sonho na escola. São Paulo,
Editora Ática, 1993.

Resenha publicada na revista Pro-Posições, vol.5, nº2 [14] Faculdade de Educação


UNICAMP Campinas,1994.

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Perspectivas em Educação Física Escolar, Niterói, v. 2, n. 1 (suplemento), 2001.