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3.

Comilo Costelo Bronco,


Amor de PerdiÇÕo

Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, a 16 de março de 1825, e, aos 2 anos, ficou órfão de mãe,
tendo sido enviado para casa de uma tia, em Vila Real.
Volúvel nos amores, casa aos 16 anos, mas a sua vida é feita de relações fugazes e intensas até encontrar
Ana Plácido, casada com o comerciante Pinheiro Alves, que conhece no período de 1848-1850, quando
vivia uma existência boémia e escandalosa no Porto, fazendo parte do grupo dos"Leões"do Café Guichard.
lncapaz de matar a sua paixâo proibida, rapta Ana Plácido, tornando-se ambos fugitivos procurados
por crime de adultério, pelo qual foram presos em I860, na cadeia da Relação do Porto.
Em I861, são absolvidos e vão viver para Lisboa, onde nasce o filho Jorge, e, mais tarde, para S. Miguel
de Seide, após a morte de Pinheiro Alves, para uma casa que era propriedade deste Último.
Com o nascimento de mais um filho, Nuno, tendo já um suposto filho de Pinheiro Alves (Manuel
Plácido), Camilo vê-se obrigado a escrever a um ritmo febril, de modo a conseguir enfrentar as crescentes
dificuldades financeiras, que o levam a vender a sua biblioteca em leilão.
Os anos finais da sua vida foram angustiantes, porque teve de enfrentar a cegueira progressiva que o
impedia de escrever, a loucura do filho Jorge e a vida ociosa de Nuno.
Em 1890, a tragédia atingiu o desenlace:na casa de Seide, no dia 1 de junho, Camilo suicidou-se com
um revólver, deixando uma obra vasta e diversificada, da qual se destacam: Onde está a felicidade? (1856);
Mistérios de Lisboa (1858); Amor de Perdiçao (1862); AQueda dum Anjo (1866); Eusébio Macário (1879);
A Corja (1880).

) Noto
. Todas as citaçÕes da obra Amor de Perdiçdo seguem a edição da Coleção Educação Literária, da Porto Editora,
2016.

a. A estrutura da obra
Amor de Perdiçao, cujo subtítulo é Memórias de uma família, aponta para dois níveis de ação: por um
lado, serão narrados os factos trágicos da personagem principal, Simão Botelho, que podem ser resumidos
na simbólica frase "Amou, perdeu-se e morreu amando"; por outro, apresenta-se, em tons memorialísticos, a
genealogia da família Botelho.
Foi precisamente a história do seu tio paterno que Camilo teve como missão contar, como relata na
Introdução. "Amou" (1 .a parte) / "perdeu-se" (2.a parte) / "morreu amando" (3.4 parte). Assim, Amor de Perdi-
çôo possui uma estrutura sequencial, em gradação crescente, sem pausas (pelo menos significativas, como
=
qre ocorre no capítulo X, em que o narrador caracteriza
u a vida corrupta do Convento deViseu) nem des-
=
- vios, ate ao ponto máximo do desenlace.
- Acompanhemos, então, o percurso deste amor trágico.
221
Copítulo lV. Ldlcocóo -le.ór o. l ."ono

i . Apresentação de Simão Botelho, condenado ao degredo na Índia


lntrodução . Reflexôes do narrador
. Diálogo com o leitor

| " Apresentação da árvore genealógica da família Botelho


Caoítulo 'I I o Caracterizacão de Simão aos 15 anos: rebelde estudante
i
em Coimbra
l

] . Liberalismo de Simão, que o leva à cadeia, em Coimbra, e ida para Viseu ao fim de 6 meses
I . Paixão por Teresa, filha de Tadeu de Albuquerque, de uma família rival da sua
I - Mudança de comportamento de Slmão, que se torna mais moderado e sereno
Capítulos
--r'--'-- "ll-lll
"' i

I " Descoberta da relação porTadeu de Albuquerque, que ameaça enclausurar a filha num
]-y!,lvULl(uvulLlvYvv

] convento e promove a aproximação de Baltasar Coutlnho, seu primo


l

u Baltasar é recusado porTeresa, que se confessa apaixonada por 5imão

Capítulo lV

i. Refúgio de Simão em casa do mestre ferrador, que deve a sua vida a Domingos Botelho,
Capítulos V-lX I pai de Simão, enquanto Teresa é enviada para o convento em Viseu
I

' Carinho de Mariana, filha de João da Cruz, alraÍar de Simão; Mariana apaixona-se por ele
], Pluno de Tadeu de transferir a sua filha para o convento de Monchique, no Porto, o que leva
L simao a preparar um plano para a resgatar
. Ajuda de Mariana, que se prontifica a fazer chegar uma carta de Simão a Teresa

lda de Simão ao convento de Viseu, onde se encontra com Baltasar, matando-o e sendo depois
Capítulo X pÍeso

Abandono de Simão pela sua família, passando a contar apenas com o auxílio de Mariana
Condenação de Simão à forca, após sete meses de prisão, o que deixa Mariana desvairada,
passando a ser o seu pai o adjuvante na troca de correspondência entre os dois apaixonados
Doença de Teresa, que anseia pela morte, apesar de Simão, com quem se corresponde
secretamente, através de Mariana, a incitar a não desistir
Decisão deTadeu em trazer a filha para Viseu quando sabe do seu estado de saúde frágil,
mas também porque toma conhecimento de que 5imão será transferido para o Porto

Capítulos Xl-XX Recusa deTeresa em aceitar a vontade de seu pai


Assassínio de João da Cruz pelo filho do almocreve que tinha matado há dez anos
Condenação de Simão ao degredo na Índia, por dez anos, sendo que Mariana tem intenções
de o acompanhar
Súplica vã de Teresa para que Simão não aceite o degredo e cumpra o mesmo período
na cadeia
Partida de Simão para a Índia, na companhia de Mariana, no momento em que é informado
da morte de Teresa

Conclusão Morte de Simão passados dez dias e suicídio de Mariana, que se atira ao mar, na companhia
do corpo do seu amado

222
3 . Comilo Costelo Bronco, Amor de Perdição

b. A concentração temporal da ação


Apesar de a obra abarcar um período lato, quando é referida, no capítulo l, a árvore genealógica da
família Botelho, a intriga está bastante concentrada, visto que poucos anos decorrem entre a apresentação
do jovem Simão, com 15 anos, estudante rebelde em Coimbra, e a sua prisão, com 18 anos, após ter assas-
sinado Baltasar.
Toda a ação concorre sem desvios para o final, como podemos ver pelo esquema que se segue:

,. i

(apítulo l '
'--*-*-t"
i Capítulo l.XX Conclusáo

Genealogia da família Botelho


I

l
. Rebeldia e subsequente prisáo de Simão Partida de Simão para a Índia
(período de 40 anos) . Paixão proibida porTeresa Morte de Teresa
. Explicação do ódio entre as . Morte do seu antagonista Morte de 5imão
famÍlias . Prisão e condenaçáo ao degredo Suicídio de Mariana
(período entre 1 801 -1 807) (10 dias)
I
"-.-L- "--"---..

c. Caracterização das personagens


Sugestão biográfica: Simão e o narrador
A partir da observação da árvore genealógica de Camilo que a seguir se apresenta, é possível compro-
var que a história da sua família é o pretexto ideal para a ficção, tendo em conta, porém, que as persona-
gens referenciais (históricas) foram, em certos casos, adulteradas pela imaginação do escritor.

Encarcerado por suspeita de tentativa de regicídio,


mas ilibado de culpa por volta de 1758

Marcos Botelho

Assassino em defesa de seu irmão


Marcos numa contenda de ciúmes

Raptor
e
desertor

Degredado para a índia


onde chegou a
7 de novembro de 1807

Orfão de mãe aos 2 anos e de pai aos 10,Íraz no sangue as duas forças motrizes da família:
a Violência e o Amor. Entre as mulheres vítimas da sua paixão, contam-se a aldeã Joaquina
Pereira, com quem casou aos 16 anos; Patrícia Emília; a freira Isabel Cândida e Ana Plácido
Nuno Jorge - a sua "mulher fatal'i com quem casou dois anos antes da morte' Estiveram ambos presos
(vadio) (louco) na Cadeia do Porto, em
'1860.

ÍI

§ Nu Introdução, são estabelecidas as relaçoes de semelhança entre o herói romântico e o próprio


o
ã Camilo, pois este está encarcerado no mesmo local onde o seu tio esteve, havendo coincidência nos moti-
z
I vos também: um amor proibido.
223
Copítulo lV . EducoçÕo Literório ' ll.' ono

modo a entender o cruzamento entre o


Analisemos, então, os tópicos fundamentais da lntrodução, de
Ê

título(ÁmordePerdiçao)eosubtítulo(Memóriasdeumafamítia)daobra:E
. a obra instaura-se enquanto texto ficcional baseado em factos reais
a partir do título, ao mesmoí
e familiar verídico' Há, pois, o
tempo que o subtítulo evidencia a sugestão de relato memorialístico
E

recurso a documentos oficiais:


desejo de conferir veracidade aos factos narrados através do
,,Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da Relaçao do Porto, li, no das

entradas dos presos desde 1 803 a 1 805, a folhas 232' o seguinte:


e estudante na lJniversidade de Coim-
Simao Antonio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro,
sua prisao na cidade de Viseu, idade de dezoito
bra, natural da cidade de Lisboa, e assistente na ocasião de
Preciosa Catdeirao Castelo Branco; estatura ordi-
anos, filho de Domingos José Correia Botetho e de D. Rita
preta, vestido com iaqueta de baetao azul, colete de
ndria, cara redonda, olhos castanhos, cabelo e barba
que assinei ' Filipe Moreira Dias'
fustao pintado e calça de pano pedrês. E fiz este assento,
À margem esquerda deste assento está escrito:
Foipara a índia em 17 de março de 1807;'
"estatura ordinária, cara redonda'
. a caracterização de Simão é feita através de dois processos: direta »
olhos castanhos, cabelo e barba preta", e indireta » apaixonado,
vítima do amor e do destino' sofredor'

imaturo - colhendo a simpatia do narrador;


da vida desgraçada do
. o discurso é emotivo, pautado por enumerações exclamativas reveladoras
herói;
,,Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manha da vida! As louçanias do coraçao que ainda nao
Dezoito anos! o amor daquela idade!"
sonha em frutos, e todo se embalsama no perfume das flores!

. que Sintetiza o percurso biográfico de Simão e


a fraSe-Ch ave é "AmOt), perdeu-se, e morreu Amnndo"
revela a unidade de ação, sem desvios narrativos,
precipitando-se para o desenlace;
público-leitor se identifique com a história
. verifica-se a expectativa por parte do narrador de que o
pelos factos narrados - empatia com o leitor;
narrada, partilhando consigo a doç amargura e respeito
a mulher, a criatura mais bem formada das
a história. E história assim poderá ouvila a olhos enxutos
,,É

branduras da piedade, a que por traz consigo do céu um reflexo da divina misericórdia; essa, a minha
vezes
que o pobre moço perdera
leitora, a carinhosa omiga de todos os infelizes, nõo choraria se lhe dissessem
que o desper-
honra, reabilitaçao, pótria, liberdade, irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da primeira mulher
tou do seu dormir de inocentes deseios?!"
narrada e estabe-
. o estatuto do narrador: não participante (heterodiegético), mas sensível à história
partilhar emoçôes'
lecendo uma relação com o leitoç que é convocado para com ele

Construção do herói romântico


e desejoso de liberdade' Nas-
simão é o prototipo do herói romântico transgressor das regras sociais
e rebelde, características herdadas da
cido em Lisboa, na freguesia da Ajuda, em 1784,tem um génio bravo
seis meses, em coim-
sua mãe, a par da beleza, como se lê no capítulo l, o que o levou a estar preso durante
bra, pela defesa dos ideais revolucionários franceses'
de Albuquerque, o que levou
Contudo, este ímpeto social acalmou quando, em Viseu, conheceu Teresa
futuros vieram provar' Assim, quando
à sua regeneração, embora não definitiva, como os acontecimentos
volta a revelar toda a sua veia
percebe que tem de lidar com a feroz oposição deTadeu de Albuquerque,
pretendente da sua amada, Baltasar Cou-
sanguinária, enfrentando os seus adversários, nomeadamente o
em simão, pois não deixa de re-
tinho, que acaba por matar. No entanto, também encontramos dualidade
de forma cruel um empregado de
velar o seu espírito nobre quando João da Cruz, pai de Mariana, mata
(cop. Vtl ou quando toma conhecimento do espancamento de uma
mendiga pelo hortelão do con-
Baltasar
vento (Cop. lxl.
3 . Comilo Coslelo Branco, Amor de PerdiÇoo

Enquanto está em casa de João da Cruz, Simão transforma-se em poeta, sendo a carta que escreve a
Teresa, no capítulo X, a prova disso - é o herói romântico.
Para mostrar a sua verticalidade, embora tenha a hipótese de fugir ou de mentir ao juiz, nega essa hipó-
tese. Também revela a sua coragem ao recusar a ajuda monetária da mãe, que lhe tinha escrito uma carta
na qual mencionava o seu nascimento em circunstâncias difíceis (cop xl!.
A sua força é inabalável, mesmo quando é condenado à forca, após sete meses de cadeia, afirmando
que'Aforca é a única festa do povol" (cop xttl. É, então, transferido para a cadeia do Porto, onde alude ao seu
destino trágico em cartas dirigidas a Teresa, para além de escrever as suas reflexoes.
Elogiado pelo corregedor Mourão Mosqueira, Simão vê a sua pena alterar-se para o degredo na Índia,
durante dez anos. Mais tarde, contudo, pode optar por cumprir dez anos na cadeia, perto de Teresa, ou a
Iiberdade relativa do degredo. O seu génio volta a revelar-se e recusa ir para Vila Real, pelo que no dia 10 de
março de 1807 recebe ordem de embarcar, numa altura em que o estado de saúde de Teresa se agrava.
Quando embarca, no dia 17, Simão ainda avista Teresa no mirante do Convento. No entanto, esta morre
logo. Já no barco, lê uma carta muito especial da sua amada que continha os projetos iniciais dos dois
amantes. Doente, morre no dia27 e o seu corpo é atirado ao mar.
Em suma, podemos concluir que Simão é uma personagem modelada, pois evidencia diferentes com-
portamentos ao longo da novela, principalmente depois de ter conhecido a salvação através do amor por
Teresa, que o tornou mais ponderado, mais sereno, mais estudioso, mesmo que não tenha abandonado as
suas firmes convicçÕes. Prefere abraçar a liberdade relativa do degredo à clausura da prisão em Vila Real.
Os seus ímpetos mais latentes foram suavizados pelo amor, mas continuou a latejar dentro de Simão uma
rebeldia que só encontra fim na morte.

Relações entre personagens


Num primeiro momento, é importante atentarmos no triângulo amoroso desta novela.

Simão
. apaixonado porTeresa
. fiel aos seus princípios

Teresa Mariana
. apaixonada . apaixonada
por 5rmao por Simão
. corajosa perante . cúmplice dos
o seu par dois amantes

225
CPEN-P1 2-1 5
CopÍtulo lV. Educoçõo Literório . ll " ono

Para além deste triângulo, convém analisar as relaçôes que se estabelecem entre estas personagens e
as restantes:

Família Botelho Família Albuquerque Outras personagens z


!
Oponente da relação Oponente da relação ,
, Apaixonada por
: entre o seu filho e entre a sua filha e
i
' Simão, mesmo
Teresa, visto que Simão, visto que o sabendo que náo é
r o pai desta é seu seu
pai deste é i
, correspondida,
inimioo. Tadeu de
inimigo. i
sacrifica o seu
uomrngos Mariana amor-próprio ao
Botelho i Albuquerque
I
; Partir com ele Para o
r degredo, anulando,
:

I com a morte de
Simão, a sua vida.

'l_ -

Maternal e Jovem (1 5 anos), rica r Protetor de Simão,


preocupada com o i herdeira e bonita, por dívida de
l

filho, é incapaz de revela uma força de I gratidão Para com o


D. Rita Teresa i
carácter excecional João da Cruz I Pai dele, Domingos
se opor à decisão
Preciosa Albuquerque para a época, r Botelho.
do marido.
quando se opoe às
decisôes de seu pai.

lndiferentes ao Lonvencrdo, lntermediária entre


irmão, sendo que prepotente e os dois amantes.

apenas Rita (tia que egotista, não se


lrmãos de Baltasar
acolheu Camilo conforma com o Mendiga
Simáo Coutinho facto de a prima
após a morte da
mãe) se preocupa o ter preterido.
com Simão.

Sensível à coragem
de Simão, comuta-lhe
Corregedor a pena para o
degredo, em vez
da forca.

Pelo apoio prestado a Simão, iremos agora atentar nas personagens João da Cruz e na sua filha
Mariana.

João da Cruz Mariana

. Embora seja uma personagem ficcionada, é a mais r. Com 24 anos, bonita (até mais do queTeresa), Mariana
verosímil da novela , representa a jovem popular, inculta e supersticiosa,
. : que é derrotada por um amor não correspondido
Homem do povo e ferrador de profissão, oscila entre
a gratidão para com o pai de Simão e a crueldade , . f*emplo de abnegação e de sofrimento, a apaixonada
com que mata um dos homens de Baltasar Coutinho d" Sirnão vive do e para o amor, que encara como
. única razão da sua existência
Aconselha-se a leitura dos capítulos lV V Vl, Vlll, X, XV
e XVll, para completar a sua caracterização . Ainda que obediente ao seu pai, recusa firmemente
I outros pretendentes
,. Paru ela, o amor é visto como algo sagrado, ainda

, Ou. Simão apenas sinta um amor fraterno por ela


i. Desprendida dos bens terrenos, não hesita em
j abandonar tudo depois da morte de seu pai, para
I acompanhar Simão no degredo

226
3 . Comilo Coslelo Bronco, Amor de perdição

d. O amor-paixão
Nesta obra, Camilo aborda a temática do carácter fatal do amor-paixão, associando-lhe a ideia do
Destino e da Morte, conferindo ao Amor uma sacralidade que impôe o sofrimento e a expiação na Terra
enquanto se aguarda a redençâo espiritual.
O capítulo X e bem revelador desse pulsar amoroso intenso que, agrilhoado às normas sociais, torna
Simão eTeresa em duas almas penadas que só encontrarão a paz para Iá da Terra. Na missiva que
Simão
escreve à sua amada, há uma forte carga dramática, visível a partir da leitura da primeira frase "Considero-te
perdida, Teresa" e reiterada através de expressoes como "Parece que o frio da minha sepultura
me está
passando o sangue e os ossos".
O desejo de vingança de Simão, contudo, sobrepôe-se ao sentimento amoroso o herói romântico
- é
incapaz de viver sabendo que o infame que ultrajou Teresa está vivo "Poderia viver com a paixao
- infeliz;
mas este rancor sem vingança é um inferno. Nao hei de dar barata a vida, nao. Ficarós sem mim, Teresa;
mas
nao haveró aíum infame que te persiga depois da minha morte.,,
Visível é também a crença num amor para além deste mund o, capazde transcender o físico para atingir
o espiritual e eterno: "Tu verás esta carta quando eu estiver num outro mundo, esperando as orações das tuas
lógrimas. As orações! Admiro-me desta faísca de fé que me alumia nas minhas trevas!.. . Tu deras-me com
o
amor a religiao, Teresa."
Assim, é possível concluir que:
. o amor-paixão se concretiza na morte dos amantes, que enfrentam a violência repressiva das leis
familiares e religiosas;

' o amor é elevado a um patamar sagrado, em que há a redenção pelo sofrimento e a expiação dos
pecados;
. o amor transpoe barreiras físicas, instituindo-se para além da morte;
. o Destino domina estas personagens, incapazes de concretizarem os seus caminhos individuais.
O amor que une Simão a Teresa leva a que os dois jovens se comportem de forma transgressora, desa-
fiando os limites sociais e familiares impostos. No entanto, é impossível escapar ao Destino implacável que
se abate sobre estas personagens e que, simultaneamente, eleva este amor à dimensão espiritual.

e. A obra como crónica da mudança social


Em diversos momentos, a obra pode ser lida enquanto anunciadora de ventos de mudança, no que diz
respeito à ordem social estabelecida. o Capítulo IV é, assim, revelador da transgressão social presente em
Amor de Perdiçao. A construção do retrato de Teresa apresenta uma jovem:

' perspicaz, pois percebe a hipocrisia social, que potencia a mentira, o engano, a falsidade;
. determinada em seguir o seu coração, o que a leva a opor-se a seu pai, pois prefere morrer a casar
com o seu primo;
. com grande autodomínio, visto que não chora quando o pai a amaldiçoa;
- insubmissa e desafiadora da lei paterna.
"Para finos entendedores, o diólogo do anterior capítulo definiu a fitha de Tadeu de Albuquerque.
É mu-
lher varonil, tem força de carócter, orgulho fortalecido pelo amor, despego das vulgares apreensões, se sao
apreensões a renÚncia que uma filha faz do seu alvedrio às imprevidentes e caprichosas vontades de seu
pai. l. ..1Teresa adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na estrada real da vida, e que os melhores
fins se atingem por atalhos onde nao cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis sao raros na idade
inexperta deTeresa; mas a mulher do romance quase nunca é trivial, e estd, de que rezam os meus aponta-
mentos, era distintíssima. A mim me basta, para crer em sua distinçao, a celebridade que ela veio a ganhar
à conta da desgraça."
227
CopÍtulo lV. Educoçoo LilerÓrio ' ll.'ono

Teresa é rebelde na forma como não segue o caminho que seu pai para si traçou, o que seria expectável I
na época, e está confiante na sua crença de casar por amor - sinal da mudança dos tempos e das conven-
§

çôes sociais da época. ã

A partir da leitura do capítulo lV na sua globalidade, é possível elencar alguns dos aspetos que tornam $

esta obra uma crónica anunciadora da mudança social não só ao nível do matrimónio' Desta forma:
. apresenta-seuma sociedade em transformação, na qual ecoam os ideais da Revolução Francesa, de
que Simão Botelho se apresenta como defensor;
. critica-se uma sociedade retrógrada e feita de desigualdades, a começar pela insignificância social da
mulher;
. denuncia-se uma sociedade repressora em diferentes quadrantes - social (através da discriminação
de géneros, como já referido); jurídico (com a corrupção da justiça, manietada pelos poderosos, como
quando Domingos Botelho interfere junto de um corregedor de forma a obter o perdão para o seu
filho Manuel, que tinha desertado do exército); religioso (com a tirania dos conventos); familiar (atra-
vés dos casamentos por conveniência e da autoridade paterna, que era inquestionável);
. apontam-se as contradiçôes entre o ser e o parecer, com a vida dissoluta que reinava nos conventos;
. valoriza-se o papel do homem enquanto indivíduo que pugna pelos ideais da liberdade, da digni-
dade e da honra.

Não podemos deixar de referir que Camilo era particularmente sensível a estes aspetos, pois também
ele foi vítima de uma sociedade opressora, que limita a liberdade de açôes dos indivíduos, impedindo-os
de atingirem a felicidade. Há, efetivamente, nesta obra um carácter revolucionário, com a insubordinação
de Teresa, que não aceita casar com quem seu pai lhe impôe. Desta forma, a Revolução Francesa é trazida
para dentro da família.

g. Linguagem e estilo
O narrador
Partindo do título e do subtítulo da obra, encontramos duas dimensóes - a ficcional e a memorialista -, o que
nos |eva a nova distinção, desta feita do narrador enquanto autor e do narrador enquanto porta-voz da ficção.
O narrador-autor evidencia-se nos seguintes momentos:
. na lntrodu çáo: "Folheando os livros de antigos ossentamentos, no cartório das cadeias da Relaçao do
Porto, li, no das entradas dos presos...";
. nas linhas finais da Conclusão, quando identifica Manuel Botelho como seu pa|.'A última pessoa fale-
cida, há vinte e seis anos, foi Manuel Botelho, pai do autor deste livro".

Quanto ao narrador da ficção, as suas marcas estão presentes quando:


. hâÍÍâ com evidente comoção a história dos amores trágicos: "Dezoito anos!... E degredado da pÓtria, do
amor e da família! Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmõos, nem mãe, nem reabilitação,
nem dignidade, nem um amigo!... Étriste!" fiífioduçáol;
. se comove com as ações das personagens ou quando as elogia: "Para finos entendedores, o diálogo do

anterior capítulo definiu a filho deTadeu de Albuquerque" lcop.Ív1;


. tece comentários pessoais: "O coração de Teresa estava mentindo. Vao lá pedir sinceridade ao coraçõo!"
(cop. tvli "O que tu sofrias, nobre coraçao de mulher pura! Se o que fozes por esse moço é gratidao ao homem
que salvou a vido de teu pai, que rara virtude a tua!" lcop.txl;
. interpela o narratário, isto o leitor, com a intenção de suscitar a sua reflexã o: "O leitor decerto se com-
é,
pungia;e a leitora, se lhe dissessem em menos de uma linha a história daqueles dezoito anos, choraria!"
(lnlroduçôol.
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3 . Comilo Coslelo Bronco, Amor de perdiçõo

Este narrador, ora mero relator, ora observador crítico, ao


optar pelo processo da caracte rizaÇáoindireta
das personagens como tipo de caracterização dominante, intercala
a focalização externa com a interna,
predominando a primeira enquanto se assume como narrador
das memórias da família, que dá lugar à
segunda, à medida que a intriga avança. Neste sentido, facilmente
se compreende o porquê de o trio amo-
roso ir surgindo de forma mais simpática aos leitores, através
de um efeito cÍaro de verosimilhança.
o narrador intervém ainda na obra através de comentários, parando o relato para
tecer considerações
pessoais -" mas a mulher do romance quase nunca é trivial,
e esta de quem rezam os meus apontamentos era
d i sti n tíss i m a" 1cop. tV1.

Os diálogos
Nota-se a preocupação de camilo em conseguir o efeito de verosimilhança
através dos diálogos que
marcam os momentos quer de tensão, quer de paixão, quer ainda
de sofrimento amoroso.
os diálogos são também instrumentos únicos de descodificação das
características específicas de de-
terminado grupo social, nomeadamente da nobreza/burguesia (com
um registo cuidado) e do povo (com
a sua linguagem coloquial e familiar).
Vejamos, pois, como essas marcas se concretizam no excerto do
capítulo X que se segue:

Tadeu enxugou as lágrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que


não ergueu
do chão os olhos.
- Teresa... - disse o velho.
- Aqui estou, senhor _ respondeu a filha, sem o encarar.
- Ainda é tempo - tornouA_lbuquerque.
- Tempo de quê?
- Tempo de seres boa filha.
- Não me acusa a consciência de o não ser.
- Ainda mais?!... Queres ir para tua casa, e esquecer o maldito que nos faz a todos
desgraçados?
- Não, meu pai. O meu destino é o convento. Esquecê-lo nem por morte. Serei
filha desobediente, mas mentirosa é que nunca.
Teresa, circunvagando os olhos, üu Baltasar, e estremeceu, exclamando:
- Nem aqui!
- Fala comigo, prima Teresa? _ disse Baltasaq, risonho.
- Consigo falo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presença? [...] tcop. xl

. Diálogo marcado por forte tensão dramática e que:


) acentua as características românticas de Teresa;
» reforça a sua rebeldia e inconformismo face à vontade de seu pai
e face às convençôes sociais da sua
época;
» reitera os contornos trágicos deste amor.

. Salientam-se:
» as frases curtas e incisivas, que refletem a tensão vivida entre pai
e filha;
) o uso de reticências a sugerir a pausa no discurso, para reflexão, provando
o confronto de ideologias
antagónicas;
» as frases exclamativas de Tadeu ou as de Teresa, mostrando estas
a exasperação da jovem perante a
presença de Baltasar;
o
» o recurso a um registo cuidado, adequado à posição social das personagens,
z marcando a distância
geracional.
229
CopÍtulo lV. Educoçoo Llterório . ll." onô

" Prisão de 5imão na cadeia " Prisão de Camilo, na cadeia


de Relação do Porto por de Relação do Porto, pela
ter assassinado o seu sua relação adúltera com
adversário Ana PIácido
,,Abandono de Simão pela " Orfandade precoce de
sua família Camilo
5ugestão
biográfica:
Simão e o
narrador " 5imão, personagem
modelada e protótipo do
herói romântico, é o refl exo
da vida conturbada,
polémica e infeliz do autor,
Camilo

' 5imão e Teresa: amor correspondido, físico e intenso


Relação
., Simão e Mariana: amor não correspondido, fraternal da parte
entre as
de Simão e intenso da parte de Mariana, que não aguenta viver
personagens
sem o seu amor, suicidando-se

Simâo Botelho: o percurso do herói romântico

Estatuto nobre
Rebelde e impulsivo
Apaixonado e movido pelo amor que o une a Teresa (e ao mesmo tempo o afasta dela)
Moderado, calmo, tranquilo, ainda que não perca a veia sanguinária que pulsa dentro de si

Desafiador das convençoes sociais e morais


Ansioso pela liberdade

A obra como crónica da mudança social

Crítica ao ser vs. parecer


, Denúncia dos privilégios das classes superiores
. Condenação dos casamentos por conveniêncla
- Oposição a uma sociedade repressiva e retrógrada, associada ao poder de instituiçÕes como a Justiça e a lgreja
, Defesa da liberdade individual e da valorização dos ideais nobres

230