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MECANISMOS JURISDICIONAIS PERTENCENTES AO

CONTENCIOSO DA UNIÃO EUROPEIA


O sistema judicial europeu funciona por meio de ações de competência exclusiva do TJUE, que
são de cinco espécies: ação de incumprimento de tratado (instrumento de controlo de atos
nacionais); recurso de anulação (instrumento de controlo dos atos jurídicos europeus); ação por
omissão (instrumento de controlo das instituições europeias); exceção de ilegalidade e reenvio
prejudicial. O desrespeito do direito comunitário pode justificar o recurso a estas vias
contenciosas.

1. REENVIO PREJUDICIAL
CONCEITO (artigo 267º TFUE)

Sendo uma ordem jurídica que aglutina e condensa 28 tradições jurídico constitucionais, culturais
e sociais diferentes, ela apenas pode operar e funcionar normalmente se houver homogeneidade
e uniformidade na aplicação e na interpretação do direito da união, independentemente dos
contextos nacionais em que tenham de ser aplicadas. Tem de ser assim em nome da igualdade
dos cidadãos, uma vez que o DUE deve ser aplicado ao mesmo momento e com idênticos efeitos
em todo o território da União, sem que os Estados Membros lhe possam opor qualquer obstáculo.
Neste sentido, os tribunais nacionais ganharam um papel de relevo porque se articulam, através
do reenvio prejudicial, com o Tribunal de Justiça para nos litígios onde o direito da União é
invocado e/ou aplicável saberem de que forma o deverão interpretar, garantindo a uniformidade
da interpretação das disposições e a validade dos atos jurídicos da União Europeia, bem como a
salvaguarda dos direitos que são conferidos pela União Europeia aos particulares. Isto porque,
são de facto os Tribunais Nacionais que aplicam o Direito e decidem, já que o Tribunal de Justiça
não funciona como uma instância de recurso, ou seja não decide aquele litígio submetido ao juiz
do tribunal nacional, limitando-se a esclarecer o sentido da disposição europeia. (além do TJUE
não se pronunciar sobre o direito nacional, ele oferece ao juiz nacional, através da interpretação,
todos os elementos necessários à conclusão sobre a compatibilidade ou não do direito interno
com o DUE)

Assim, podemos definir Reenvio Prejudicial como sendo uma forma de controlo judicial indireto
e de colaboração na administração da justiça, pelo qual o TJUE interpreta ou aprecia a validade
das normas comunitárias.

Assim, a decisão proferida pelo TJUE tem natureza interlocutória ou incidental, uma vez que não
consubstancia uma solução do litígio em causa, incluindo tão só sobre a validade e interpretação
da norma de direito comunitário que haja suscitado polémica. O juiz nacional é então o
interlocutor direto do Tribunal de Justiça da União Europeia, já que por força do reenvio
prejudicial e com, com base na decisão do TJUE, os tribunais nacionais deverão analisar os factos
relevantes e concretizar o direito aplicável. Deste modo, as decisões adotadas pelo TJUE são
relevantes na medida em que vinculam o tribunal de reenvio: os procedimentos judiciais
nacionais suspende-se enquanto o processo de reenvio prejudicial se encontre pendente.

CONTEXTUALIZAÇÃO

A existência do reenvio prejudicial determinou uma mudança de comportamento e atitude


processual de todos os operadores judiciários, nomeadamente o juiz e os advogados porque
apesar de ser o juiz nacional o competente para realizar o reenvio, os advogados também têm de
estar conscientes da sua existência, porque nada os impede de nas suas peças processuais não
só invocarem o direito da união aplicável como inclusivamente sugerirem a forma de redação da
questão prejudicial a submeter pelo juiz, sensibilizando os juízes nacionais para o Direito da União
aplicável, quer pela faculdade ou obrigatoriedade de enviar. Deste modo, apesar partes não
terem possibilidade de suscitar incidentes no processo, nada as impede de facilitar o trabalho do
juiz.
No acórdão “Gomes Valente”, o STJ dá conhecimentos ao TJ que a sua questão prejudicial lhe foi
oferecida por uma das partes no recurso. É nesta perspetiva de alteração de paradigma que se
afirma que a norma nacional deixa de ser a referência fundamental, na medida em que existe um
corpo jurídico europeu, com o qual a norma nacional tem de se compatibilizar.

OBJETIVO

Uma ordem jurídica como a União Europeia, que consagra 28 tradições jurídico constitucionais,
culturais e sociais diferentes, necessita de que haja um mecanismo que permita promover uma
aplicação do DUE o mais homogéneo possível. O reenvio prejudicial promove essa
homogeneidade da aplicação do DUE, garantindo que se resolve com homogeneidade e
uniformidade casos semelhantes, independentemente do país, para garantir a igualdade entre
os cidadãos que pertencem à união europeia. Deste modo, o reenvio permite aos particulares
aceder, ainda que indiretamente, ao Tribunal Justiça da União Europeia.

DIMENSÕES

Assim, à dimensão objetiva do reenvio prejudicial, ou seja, àquela que o perspetiva como diálogo
formal entre os tribunais nacionais e o tribunal de justiça, adicionou-se uma dimensão subjetiva,
porque leituras mais recentes do reenvio prejudicial reconhecem-no como um mecanismo ao
serviço da tutela jurisdicional efetiva, a qual só ganha observância se for aplicada com a devida
finalidade para que foi criada, isto é, como um mecanismo de proteção, pelos tribunais, dos
direitos decorrentes da ordem jurídica europeia.

Note, se que além do diálogo formal, existe ainda um diálogo informal: delegações do TJUE vão
aos Tribunais nacionais, receção do TJUE de juízes nacionais para discussão em sistema de mesa
redonda dos casos que tenham em mãos, e outras atividades de proximidade promovidas entre
os Tribunais Nacionais e o TJUE.

No Acordão Klober, de 2013, o Tribunal de Justiça da União Europeia, pronunciando-se quanto


aos contornos da responsabilidade do estado juiz por ausência de reenvio, afirma expressamente
que a falta de reenvio prejudicial compromete a tutela jurisdicional efetiva dos direitos dos
particulares. O reenvio permite que em qualquer processo se promova a homogeneidade da
interpretação e da validade dos atos adotados pelas instituições europeias permitindo-se que a
mesma norma seja igualmente aplicada em todo o território da união.

FUNCIONAMENTO

O juiz nacional, precisando de aplicar norma de DUE no processo que tramita perante ele, pode
ou está obrigado a colocar as suas questões de interpretação ou validade ao Tribunal de Justiça
da UE. Em termos processuais tal significa que o processo interno seja suspenso (há suspensão
da instância). No ponto 13 das recomendações, o Tribunal de Justiça da UE dá um alerta aos juízes
dizendo-lhes que, mesmo quando não sejam quem decide em última instância, devem ainda
assim reenviar a fim de promoverem a aplicação uniforme do DUE.

No acórdão “Rheinmuller Dusseldorf”, o TJ explicou que o reenvio prejudicial ainda que


facultativo significa sempre uma faculdade ilimitada do juiz para reenviar. Como a própria
expressão indica tal significa que os juízes nacionais ainda que não estejam obrigados a reenviar
poderão de forma ilimitada fazê-lo por conta daquela necessidade de aplicação uniforme do
direito da união e da tutela jurisdicional efetiva do particular. Por sua vez, ainda que nenhuma
das partes no litígio tenha invocado o Direito da União, por conta desta faculdade ilimitada, o juiz
pode oficiosamente proceder ao reenvio prejudicial.
OBJETO DO REENVIO- artigo 19, nº3, alínea b) TUE; artigo 267º

Ø Reenvio de interpretação- O juiz nacional visa obter do TJ o sentido material das disposições
do Direito da União Europeia que ele considera mobilizáveis para a decisão da causa, ou
seja, visa determinar o sentido e o alcance da disposição europeia, quer esta seja de direito
originário (normas contidas no Tratado da União Europeia, na Carta dos Direitos
Fundamentados ou no TFUE) quer se trate de direito derivado (diretivas e decisões- caráter
vinculativo; instruções e pareceres- não têm caráter vinculativo).

O Reenvio de interpretação é, por regra facultativo, exceto se a dúvida surgir em última


instância, onde já não cabe recurso ordinário. Contudo, se a questão prejudicial surgir em
1º ou 2º instância, o tribunal goza de faculdade ilimitada para reenviar desde o Acórdão
Rheinmuhlen- Dusseldorf. Surgindo alguma dúvida relativa à interpretação de uma
determinada disposição, é recomendável que o reenvio prejudicial seja feito logo em 1º
instância, de modo a termos uma resolução mais rápida e eficiente.

Efeitos materiais de um acórdão interpretativo: O juiz do Tribunal Nacional está vinculado a


respeitar a decisão emitida pelo Tribunal de Justiça da UE, bem como todos os restantes juízes
nacionais e demais instâncias internacionais que venham a contactar com o processo, devido à
uniformização do DUE. A interpretação da disposição que é emitida pelo TJUE é como se se
incorporasse na própria norma- efeito erga-omnes de ato interpretado- artigo 264º, 2º parágrafo
TFUE.

Ø Reenvio de validade- tem em vista obter a apreciação de validade dos atos emitidos pelas
instituições europeias, ou seja, serve para aferir da validade ou invalidade de direito
derivado da ordem jurídica europeia, na medida em que o reenvio não serve para
questionar a validade das disposições dos Tratados e da Carta dos Direitos Fundamentais.
Isto porque, o direito originário é direito constituinte, que serve como referência para
averiguar a compatibilidade das normas de direito derivado com o Direito da União.

Em questões prejudiciais de validade, o TJUE apenas pode retirar a norma do ordenamento


jurídico se a concluir inválida. O Reenvio de validade é sempre obrigatório desde o Acórdão
Photo-Frost, independentemente do processo estar em 1º instância ou já não couber
recurso.

o Embora os órgãos jurisdicionais dos Estados Membros possam rejeitar os fundamentos


de invalidade perante eles invocados, a possibilidade de declarar inválido um ato
adotado por uma instituição, órgão ou organismo da União é, em contrapartida, da
exclusiva competência do Tribunal.

o Qualquer órgão jurisdicional nacional deve, portanto, apresentar um pedido de


decisão prejudicial ao Tribunal, quando tenha dúvidas sobre a validade do tala to,
indicando as razões pelas quais considera que o mesmo pode ser inválido

o No entanto, quando tenha dúvidas sérias sobre a validade de um ato adotado por uma
instituição, órgão ou organismo do União, em que se baseia um ato interno, esse órgão
jurisdicional pode excecionalmente suspender, a título temporário, a aplicação deste
último ou adotar qualquer outra medida provisória a seu respeito. Nesse caso, é
obrigatório colocar a questão de validade ao Tribunal, indicando as razões pelas quais
considera que o referido ato não é válido.
Que vícios podem conduzir à invalidade dos atos jurídicos europeus (direito derivado)?

Os vícios que podem gerar a invalidade de uma norma de direito derivado são os que
figuram no artigo 263º, segundo parágrafo do TFUE, que diz respeito ao recurso de anulação
e que aqui são aplicáveis por analogia.

Ø Incompetência:
§ Interna: quando dentro da própria instituição, os órgãos que a constituem e que
praticam os atos violam suas competências;
§ Externa: quando a instituição que adotou o ato se imiscui nas competências de
outra instituição ou extravasa as competências da própria União elencadas nos
primeiros artigos do TUE- é uma incompetência “ultra viris”.
Ø Violação de formalidades essenciais- não segue os trâmites necessários, por exemplo:
o Falta de publicação em DR
o Insuficiências de fundamentação- é exigida no artigo 296º, nº2 TFUE.
Ø Violação do Tratado ou de uma norma que o aplique: há uma dimensão escondida,
afere-se a violação dos princípios gerais do DUE e dos próprios direitos fundamentais
consagrados na Carta dos direitos fundamentais
Ø Desvio do poder: quando o ato jurídico serve à prossecução de fins diversos daqueles
para os quais o ato teria de ser adotado.

Efeitos materiais dos acórdãos de validade:

Ø O TJUE pronuncia-se como um juiz negativo: ou se pronuncia pela invalidade ou não


invalidade (semelhante ao TC);
Ø Quando há uma declaração de invalidade, essa invalidade vai determinar que o juiz nacional
que reenviou não aplique o ato declarado inválido e, nesse sentido, a jurisprudência.

Efeitos temporais: À partida produz efeitos retroativos. A regra é, a da retroatividade, quer para
os reenvios de validade, quer para os de interpretação. No entanto, por questões de segurança
jurídica e de situações económicas, nos reenvios de validade poderá suceder que,
excecionalmente, o TJUE indique que tipo de efeitos um ato declarado inválido poderá ainda
produzir durante um determinado período de tempo. Isto resulta da aplicação análoga do artigo
264º, 2º parágrafo TFUE. O reenvio prejudicial, assume-se nos processos nacionais, como um
incidente processual, isto é, como uma figura jurídico-constitucional. Assim, o valor das despesas
a ser suportado também é determinado pelo Tribunal Nacional.

NATUREZA

Ø Reenvios obrigatórios:

o Nos reenvios de interpretação, estes só são obrigatórios para o juiz que decide em última
instância por força do artigo 267º, 3º parágrafo;

o Os reenvios de validade serão sempre obrigatórios, ainda que realizados em 1º instância,


por força da jurisprudência Foto Frost e confirmado pela jurisprudência IATA.

Ø Reenvios facultativos: Os reenvios de interpretação são de caráter facultativo nas vezes em


que não sejam decididos em última instância, além disso o juiz goza de faculdade ilimitada
de reenviar (acórdão Rheinmuller-Dusseldorf). A obrigação só se coloca para os que decidem
em última instância, exceto: doutrina do ato claro- isenta o Tribunal Nacional de reenviar
quando é clara e evidente a maneira como o Direito da União Europeia se deverá aplicar e
se já existir jurisprudência do TJUE nessa matéria.
INADMISSIBILIDADE DO REENVIO

Vigora uma presunção de pertinência do reenvio prejudicial: quando são apresentados reenvios
é porque há uma efetiva relevância dos mesmos para a resolução do caso concreto, ou seja, o
reenvio é essencial à boa decisão da causa (acórdãos “Cartesio 2008” e “Elchinov 2012”).

Assim, o reenvio prejudicial só não será admitido em 3 situações concretas (situações em que o
TJUE se declara incompetente:

1. Quando o litígio não tem qualquer relação com o Direito da União Europeia;
2. Quando a questão nada tenha a ver com o litígio ou com o seu objeto;
3. Se o juiz formular questões hipotéticas

O pressuposto único do reenvio prejudicial é que a questão ajude, de facto, no litígio e que tenha
conexão com o direito europeu. É ao juiz nacional que cabe aferir se a questão ajuda na resolução
do litígio ou não. Além disso, aquando do reenvio, o tribunal nacional deverá referir normas
relevantes para a questão, especialmente no que toca a normas nacionais de aplicação ao caso
concreto.

Por conta da presunção de pertinência do reenvio prejudicial, o TJUE pode reformular as questão
prejudiciais que lhe foram colocadas, ou para proceder ao seu aproveitamento ou eventualmente
para mudar a tipologia do reenvio prejudicial, ou seja, o Tribunal nacional até lhe dirigiu uma
questão de interpretação e o TJ considera que a questão se prende com a validade do ato e vice-
versa. No despacho de reenvio também por conta desta presunção de pertinência o juiz nacional
deverá expor quais os factos pertinentes, qual o momento processual em que o litígio se encontra
e as normas nacionais relevantes. O reenvio pode operar-se em qualquer fase do processo
interno, mas é preferível que se realize depois do contraditório já se ter realizado.

O TRIBUNAL OPTA POR NÃO REENVIAR

Ø Quando a questão é tão óbvia e tão fácil de resolver, que o juiz nem coloca a hipótese
de reenvio (teoria do ato claro); no entanto, o acórdão Clifit vem afirmar que, como é
difícil determinar, com segurança, a clareza da questão, é melhor reenviar;

Ø Quando já existe jurisprudência reiterada nesse sentido.

A Doutrina do Ato Claro foi introduzida no acórdão Cilfit de 1982, e baseava–se na ideia que
estando perante uma disposição clara e tão evidente os tribunais não necessitavam de reenviar.
No entanto, surgiu um paradigma porque todos os tribunais começavam a justificar os não
reenvios com a suposta clareza das disposições. Deste modo, o TJUE em 1984 adotou o seguinte
entendimento: o órgão jurisdicional obrigado a submeter a questão prejudicial fica dispensado
deste encargo se estiver diante de:

Ø Um disposição cujo sentido seja tão claro e evidente que não deixe lugar a qualquer
dúvida razoável sobre a solução da questão de Direito em causa e a correta aplicação do
DUE.

Ø Um pronunciamento firme ou jurisprudência consolidada do TJUE naquele domínio,


jurisprudência essa que resulta de uma dúvida coincidente com a dúvida a ser
atualmente tratada , ou seja, se a questão de Direito em causa já tiver sido resolvida
pelo TJUE. Além disso, o juiz nacional era obrigado a consultar as várias versões
linguísticas para conferir a real coincidência entre as duvidas e verificar o sentido dos
termos de modo a garantir que aquela interpretação é, de facto, óbvia para todos os
Estados Membros. O precedente vinculativo funciona mesmo que não esteja diante de
uma situação factualmente idêntica.
PROCESSOS JUDICIAIS

Nos termos do artigo 96º do Regulamento do Processo do TJUE e do artigo 23º dos Estatutos do
TJ, quando o reenvio é recebido pela secretaria do Tribunal de Justiça da União Europeia são
notificadas as seguintes partes/entidades:

Ø Partes do processo principal;


Ø Todos o Estados-Membros;
Ø Comissão Europeia;
Ø Instituição Europeia autora do ato objeto de pedido de interpretação ou de validade.

Na tramitação comum, segue-se uma fase escrita, na qual os entes notificados dispõem de um
prazo de 2 meses para se pronunciarem através de observações escritas, nos termos do artigo
23º, 2º parágrafo. Quando todo o processo da fase escrita está concluído, o relator elabora o
relatório preliminar

A esta fase escrita pode seguir-se uma fase oral, nos termos do artigo 20º, 4º parágrafo do
estatuto do TJ e artigo 70º do Regulamento do Processo do TJ. A regra geral é a dispensabilidade
da fase oral. Para que esta fase se realize terá de ser apresentado um pedido nos termos do artigo
23º do estatuto do TJ.

Havendo fase oral, ocorre a audição das conclusões dos seguintes intervenientes:
- Os advogados das partes;
-Os outros intervenientes que foram notificados pela secretaria, independentemente de terem
ou não apresentado observações escritas: o advogado geral, as testemunhas (é uma raridade) e
os peritos.

Nos termos do artigo 101º do regulamento do processo do Tribunal de Justiça, o Tribunal de


Justiça pode a qualquer momento pedir esclarecimentos adicionais ao tribunal nacional.

TRAMITAÇÃO DO REENVIO

Quanto à tramitação do reenvio, ela pode seguir 1 de 3 formas:

1. Tramitação comum: aquilo que foi explicado até agora. Dura mais ou menos 14,6 meses, o
que se justifica pelo facto de todos os atos serem objeto de tradução para as 24 línguas
oficiais da união europeia.

2. Tramitação acelerada: artigo 23º-A do estatuto do TJ e artigo 105º do regulamento


processual. Esta tramitação tem em vista avaliar o reenvio em circunstâncias de urgência e
será adotada a requerimento do juiz nacional, ou excecionalmente por iniciativa do TJ. O
prazo desta tramitação é de mais ou menos 6 meses. O prazo de observações escritas é
comprimido de 2 meses para 15 dias.

3. Tramitação urgente- artigo 23º- A do estatuto e artigo 107º do Regulamento Processual. A


tramitação urgente é adotada quando a questão objeto do reenvio, se trata de matérias
relativas às liberdades, segurança e justiça, ou seja, uma das matérias elencadas no artigo
67º do TFUE. Nestas, de forma objetiva, verifica-se um periculum in mora ou seja, verifica-
se um perigo na demora excessiva que pode, eventualmente, também decorrer do tempo
que processualmente um reenvio prejudicial decidido através da tramitação comum
poderá determinar.
É adotada com base num pedido fundamentado do órgão jurisdicional de reenvio, sendo
que o pedido deve expor as circunstâncias de direito e de facto comprovativas da urgência.
Mesmo que o Tribunal Nacional não solicite esta tramitação, o Tribunal de Justiça pode
adotá-la oficiosamente, quando tal se justifique (no entanto, se o juiz nacional não lhe der
conhecimento do oficio, ainda que o TJ tenha essa competência, embora a titulo excecional,
o seu uso será muito pouco frequente). Um processo que demora em média 14,6 meses,
pode passar a tramitar em 3 meses.
Quando no processo estão envolvidos menores (Acórdão McB) ou quando existe privação
de liberdade de uma das partes do processo, o tribunal nacional, aquando do reenvio, pode
solicitar ao TJ uma tramitação urgente e acelerada. Contudo, se o TJ assim o entender, pode
fazê-lo oficiosamente, em situações que ele próprio entenda que é necessário acelerar o
processo. A figura da tramitação está prevista no artigo 23º- A do Estatuto do Tribunal de
Justiça da União Europeias, no artigo 105º a 114º Regulamento Proc. TJ e artigo 267º TFUE.

QUANTO AOS PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO

Os princípios gerais podem ser submetidos a questões de reenvio prejudicial. Além disso, podem
servir de base de invalidade dos atos.
JURISPRUDÊNCIA- REENVIO PREJUDICIAL
ACÓRDÃO GOMES VALENTE, de 22 de fevereiro de 2001, Processo C-393/98

Diz respeito a um reenvio prejudicial português, concretamente realizado por parte do


Supremo Tribunal Administrativo. (ainda usa os números do TCE, Tratado prévio ao Tratado de
Lisboa e que foi substituído pelo TFUE- artigo 234º TCE é o 267º TFUE)
No caso concreto, o senho Gomes Valente tinha adquirido em França um veículo automóvel
usado, que tinha sido colocado em circulação, anos antes, em França. Passado esse período,
pretende importá-lo definitivamente para Portugal, tendo declarado o valor monetário que à
data lhe seria atribuível. Foi então ordenado o pagamento do imposto automóvel aplicável,
relativamente ao qual o senhor Gomes Valente não se conformou, impugnando tal decisão
perante os TAF portugueses. A sua pretensão não teve colhimento e o processo chega ao
conhecimento do Supremo Tribunal Administrativo. Perante o STA, o senhor Gomes Valente
invoca que as decisões que lhe haviam sido aplicadas ignoravam a jurisprudência consolidada
do TJ, sendo que caberia aos Tribunais Nacionais desaplicarem o direito interno, na medida em
que o mesmo violava o atual artigo 110º TFUE- é um artigo que diz respeito à não
discriminação através de disposições fiscais, proibindo a aplicação de qualquer tipo de taxas
superiores às que direta ou indiretamente incidem sobre produtos similares mas de origem
nacional. Na realidade estavam a aplicar um coeficiente de imposto ao veículo em questão
superior àquele que seria aplicável a um veículo semelhante com as mesmas características,
mas que nunca tivesse sido proveniente de um outro Estado.
No caso concreto, o reenvio prejudicial em causa tem importância porque demonstra a
dimensão subjetiva do reenvio prejudicial enquanto mecanismo ao serviço da tutela
jurisdicional efetiva. Tal é passível de compreensão porque este acórdão põe em evidência o
papel que os litigantes assumem na sensibilização do juiz nacional para a colocação de questões
prejudiciais e para o desenvolvimento do DUE. Isto sucede porque, muito embora quem tenha
competência exclusiva para reenviar seja o juiz nacional, o próprio conteúdo da questão
prejudicial pode ser sugerido por qualquer das partes no litígio interno. Foi precisamente o
que aconteceu neste caso, uma vez que é a parte que sugere a redação da questão prejudicial,
o que é comprovado pelos considerandos 12 e 13. No caso, o STA adota a redação das questões
prejudiciais, acrescendo-lhe ainda outras questões tal como decorre do considerando 14.

O caso concreto tem relevo para aferirmos que o reenvio prejudicial sofreu uma evolução, ou
seja, deixou de se construir apenas assente numa dimensão estritamente objetiva (a que
demonstra o diálogo de juiz para juiz) para passar a ser também um mecanismo que acautela a
proteção dos direitos conferidos pela ordem jurídica europeia, perante os tribunais que a
compõem, no caso os Tribunais Nacionais, funcionando portanto como um meio ao serviço da
tutela jurisdicional efetiva. (No acórdão “Kobler”, o TJ entende que a ausência do reenvio
frustra as pretensões de tutela jurisdicional efetiva).

Relativamente às questões prejudiciais, o Tribunal de Justiça não se alinha com as alegações do


Senhor Gomes Valente, de que cada veículo e a sua depreciação têm de ser objeto de uma
avaliação individualizada, reconhecendo que cada Estado Membro pode fixar critérios gerais
desde que deles não resulte qualquer efeito discriminatório- considerandos 24, 25 e 26.
Concretamente o governo português nas suas alegações foi apresentar observações escritas e
tentou esclarecer que o sistema de tributação vigente se destinava a tentar restabelecer a
igualdade de tratamento entre o valor comercial praticado sobre veículos usados no mercado
nacional e o valor praticado para os mesmos veículos que eram importados de determinados
estados membros- Cs 42 e 43. Tal argumento é afastado pelo TJ, porque este entende que este
argumento falseia a livre concorrência que o direito da UE visa acautelar e por isso conduz a
uma interpretação equivocada do artigo 110º do TFUE, que é o artigo na base da interpretação
levada a efeito que deu origem ao reenvio prejudicial.

Concluindo, materialmente o acórdão Gomes Valente tem na sua base uma dúvida
interpretativa relativamente ao regime da concorrência que caracteriza a Ordem Jurídica
Europeia.
No entanto, tal acórdão demonstra-nos, no que ao reenvio prejudicial diz respeito, que cada
vez mais se densifica a sua dimensão subjetiva. Assim, para além de funcionar objetivamente
como um mecanismo que permite o diálogo entre os tribunais nacionais, quando aplicam
direito da União, e o Tribunal de Justiça, que é o órgão competente para dirimir tais dúvidas
interpretativas ou de validade, este reenvio atua também como um mecanismo que permite
aos particulares terem uma maior suscetibilidade de os direitos que lhe são conferidos pela
Ordem Jurídica Europeia lhes serem efetivamente assegurados de forma harmoniosa perante
o TN competente para conhecer do seu caso.

ACÓRDÃO CLUB TOUR, de 30 de Abril de 2002, Processo C-400/00

Surge na sequência de um reenvio prejudicial português. No caso concreto, o litígio opunha a


Club Tour, uma empresa no domínio das viagens turísticas, e um particular, no caso o senhor
Gonçalves Garrido, pelo facto de este senhor não ter pago o montante relativo à sua viagem
realizada com a sua família á Grécia. Também a Club Med (entidade turística a quem a Club
Tour recorreu para organizar a viagem), foi chamada a intervir o processo mediante um
conjunto de mecanismos que permitem a intervenção de terceiros, desde que tal seja
relevante- considerandos 6 a 9. No fundo do objeto do litígio estava a questão de saber se a
viagem que o senhor Garrido tinha adquirido se poderia qualificar ou não como uma viagem
organizada, conceito indeterminado este que havia sido sedimentado numa diretiva relativa a
viagens organizadas, férias organizadas e circuitos organizados.

Neste contexto, o senhor Garrido invocava que a viagem que tinha adquirido e não pago se
incluía no âmbito de aplicação desta diretiva, a qual tinha o objetivo primordial de proteger o
consumidor de serviços turísticos, abrindo a possibilidade de se responsabilizar, quer as
agências de viagens, quer os operadores turísticos, pelos danos que haviam sido causados na
execução do contrato- considerando 10º. A Club Tour oponha-se e dizia que aquela não era
uma viagem organizada para efeitos da diretiva, apesar da viagem em causa se tratar da
“típica viagem em tudo incluído” em que o consumidor havia adquirido a viagem e o hotel,
ainda que pequenas alterações ao pacote de férias tivessem sido incluídas a pedido do senhor
garrido. O senhor Garrido respondeu ao pedido de pagamento invocando que a sua viagem
tinha sido profundamente atribulada porque o empreendimento turístico onde tinham ficado
alojados, aquando da sua chegada ao local, se encontrada infestado de milhares de vespas e
tendo solicitado à Club Tour a sua transferência para outro empreendimento, tal não pôde ser
satisfeito pela agência de viagens porque tendo se articulado com a Club Med, esta lhe disse
não ser possível encontrar, em tempo útil, uma solução viável- considerando 8
.
Neste sentido, o Tribunal português que realizou o reenvio queria saber se a expressão
“viagem organizada” constante na diretiva podia ser interpretada no sentido de incluir as
viagens em regime de tudo incluído, oferecidas por uma agência de viagens, ainda que a
pedido do consumidor houvessem determinadas especificidades que haviam sido alteradas.
Relativamente a esta questão o TJ esclareceu que no conceito viagem organizada, no sentido
que a diretiva lhe pretende dar, basta que os serviços vendidos pela agência englobem dois ou
mais serviços decorrentes de um artigo da diretiva, bastando para o efeito que, por exemplo,
se combinem serviços de transporte e de alojamento. Assim sendo, as exigências de proteção
do consumidor são superiores, ainda que do inicio ao fim nem tudo esta salvaguardado, mas
apenas pelo menos dois serviços. Para além disso exige-se que a prestação exceda as 24 horas.
Por último não é relevante, para a integração do conceito, que o consumidor tenha acordado
determinadas particularidades quanto ao fornecimento do serviço- considerando 12 a 15.
Da análise do acórdão podemos verificar que o reenvio prejudicial poderá ser determinante na
boa decisão de um litígio aparentemente tão simplificado como o de uma cobrança de crédito
não pago. Para o efeito, se o reenvio prejudicial não tivesse sido realizado, poderia
eventualmente suceder que a proteção do consumidor podia ser acautelada de forma
diferente, em diferentes estados membro. Mas, sempre que existe uma diretiva, deve
promover-se uma aplicação homogénea do direito da UE. Novamente aqui as sensibilidades
carreadas para o processo por uma das partes, no caso o Senhor Garrido, determinaram que o
juiz nacional fosse sensibilizado para a necessidade de realizar um reenvio prejudicial.
ACÓRDÃO ELCHINOV, de 5 de Outubro de 2010, Processo C-173/09

Tem na sua base a existência, no contexto da UE, de um regulamento que promove a livre
prestação de serviços de saúde entre os Estados Membros. Concretamente, o regulamento
Europeu em causa (de 1971) visou promover a prestação transfronteiriça de serviços de saúde
através do sistema de apoio social do Estado Membro de residência sempre que o tratamento
visado não seja ainda objeto de prestação no Estado Membro de origem ou, tal podendo
acontecer, haja uma lista de espera que conduza a um prejuízo na saúde do requerente que
não se compadecerá com tal espera. No caso, o senhor Elchinov era um cidadão Búlgaro que
sofria de uma doença grave e que querendo ser tratado em Berlim, tinha requerido á
autoridade búlgara (NZOK) competente o documento para beneficiar desse mesmo serviço
em Berlim. Invocou para o efeito o facto de tal tratamento ainda não ser ministrado na
Bulgária- considerando 12. O senhor Elchinov apresenta o formulário ao NZOK e é internado na
Alemanha e submetido ao tratamento- considerando 13. Recebe posteriormente resposta do
NZOK, dizendo-lhe que não suportará as despesas porque entende que não se trata de uma
tratamento constante na sua lista de comparticipações. Perante tal, Elchinov impugna
judicialmente aquela decisão– considerando 14 e 15.

O Tribunal de 1º instância revoga a decisão do NZOK e este recorre e o tribunal de 2º instância


dá razão novamente ao Elchinov e por isso o NZOK recorre para o Tribunal de última instância
que realiza o reenvio prejudicial. No caso concreto estamos perante uma circunstância em que
se preenche o requisito da obrigatoriedade do reenvio prejudicial, nomeadamente nos casos
em que o Tribunal Nacional que decide em última instância se encontre vinculado por força do
direito interno a considerações de direito feitas por um órgão jurisdicional superior. Deste
modo, este acórdão revela-se de extrema importância para o reenvio prejudicial na medida
em que realça que uma norma de direito interno que estabelece uma vinculação quanto ao
sentido jurídico estabelecido pelo órgão superior, não pode pôr em causa a faculdade ilimitada
do juiz que não decide em ultima instância de praticar o reenvio tal como tinha sido enunciado
no Acórdão “Rheinmuller-Dusseldorf”. Assim, e tal como acontece no caso concreto, ao juiz
nacional cabe a faculdade de se auxiliar do reenvio prejudicial sob pena de ser vinculado ás
considerações de direito, ainda que erradas à luz do direito da União, feitas por um tribunal
superior. Em resposta ao reenvio prejudicial, o Tribunal de Justiça entendeu que quando se
esteja em presença de cuidados médicos que não podem ser dispensados no Estado Membro
de origem, esses cuidados se considerarão incluídos nos tratamentos buscados noutro
território que se possam subsumir aqueles constantes da legislação interna concretizadora,
como lhes sendo equivalentes ou sendo prestados em condições semelhantes, ainda que de
natureza evolutiva.

Também se incluirão os tratamentos que revelem uma natureza alternativa aos tratamentos
ministrados internamente quando, aqueles de eficácia equivalente existentes no Estado
Membro de origem não poderem ser prestados em tempo oportuno. Se assim não fosse, violar-
se-ia a finalidade do regulamento. Por sua vez, se a legislação interna previr uma necessidade
de autorização prévia independentemente do grau de urgência do tratamento (como era o
caso), o Tribunal de Justiça considerou tal autorização prévia de natureza absoluta
incompatível com o direito da União. Por último esclareceu que sempre que a prestação de
saúde seja realizada previamente á decisão de autorização que caberá á autoridade
competente do Estado Membro de origem reembolsar as despesas suportadas pelo paciente
pagando-lhe o valor efetivamente devido no Estado Membro da prestação de saúde e não
apenas o valor atribuído internamente aquela prestação ou a uma que lhe seja equivalente.
ACÓRDÃO McB, de 5 de Outubro de 2010, Processo C-400/10 PPU

As letras em frente do processo designam que o processo será objeto de uma tramitação
processual não comum, aplicou-se a tramitação urgente. Umas da matérias do reenvio
subsumia-se ao espaço de liberdade, segurança e justiça, ou seja, correspondia a uma das
matérias elencadas nos artigos 67º ss do TFUE e, de forma objetiva, verifica-se um periculum in
mora ou seja, verifica-se um perigo na demora excessiva que pode, eventualmente, também
decorrer do tempo que processualmente um reenvio prejudicial decidido através da
tramitação comum poderá determinar. A tramitação prejudicial diferente da comum deve ser
requerida pelo juiz nacional para que seja decretada pelo TJ. Apesar de tudo e apenas a titulo
excecional o tribunal de justiça pode decretar esta tramitação.

No caso concreto houve um reenvio prejudicial realizado pelos tribunais irlandeses, acerca de
uma questão relativa à guarda de crianças, caracterizada por uma situação familiar
plurilocalizada, ou seja, os progenitores encontravam-se em mais do que um EM.
Concretamente no caso, estamos perante uma família nómada constituída pela mãe dos
menores, pelo seu companheiro e pai dos menores e pelos seus 3 filhos. A mãe era de
nacionalidade britânica, o pai de nacionalidade irlandesa. O pai e a mãe iam casar mas tal não
chegou a acontecer porque antes disso a mãe sai de casa com os três filhos e desloca-se com
estes para o Reino Unido.

O pai, perante a saída da ex-companheira e dos filhos desta de casa intenta uma ação judicial
nos tribunais irlandeses invocando os direitos de guarda que tinha sobre os filhos. Mas entre
o momentos em que a ação entra no Tribunal Irlandês e o momento em que a mãe tinha de ser
citada para a ação, esta já tinha viajado e já se encontrava no Reino Unido. De acordo com o
direito irlandês, o Tribunal perante esta deslocalização da progenitora declara-se incompetente
para conhecer a pretensão do pai das crianças.

Assim, o pai decide intentar nova ação no Reino Unido, invocando um regulamento da UE,
relativo à guarda de menores que estabelece um regime para as deslocações ilegais de
menores. Neste caso, a questão jurídica relevante é que de acordo com o direito interno dos
Estados o pai da criança não beneficiava de um pleno direito de guarda sobre as crianças,
porque há falta de casamento entre os progenitores, o direito de guarda reconhecido ao pai
tinha de resultar de um acordo celebrado entre os progenitores ou decorrente de decisão
judicial e portanto, quando a mãe tinha deslocado os filhos de um EM para o outro, como era a
única titular dos direitos de guarda não tinha realizado uma deslocação ilegal, à luz do direito
interno do estado aplicável- considerandos 13 e 14

Na realidade, quando os filhos privavam com ele, o pai (McB) nunca tinha realizado nenhuma
diligência para fixar o seu direito de guarda, não podendo á posteriori invocar a ilicitude de
transferência dos menores. Assim, cabia provar-lhe perante o Tribunal do Reino Unido tal
deslocação ilícita. Ele suspende o processo no Reino Unido e vai perante as autoridades
irlandesas tentar obter uma decisão que comprovasse a ilicitude da transferência, o que na 1º
instância irlandesa lhe foi negado porque a transferência dos menores não tinha sido ilícita à luz
do regulamento em causa- considerando 22. Chegada à 2º instância, o Tribunal nacional decide
reenviar para o Tribunal de Justiça a questão de saber se a norma do regulamento deveria ser
interpretada no sentido de, ainda que o pai não tivesse feito diligências tendentes ao
estabelecimento do seu direito de guarda, a legislação interna que sujeitava a aquisição desse
direito de guarda à obtenção prévia de uma decisão judicial que lhe atribuísse esse direito de
guarda poderia justificar o caráter ilícito da deslocação dos menores. O TJ decretou mediante
requerimento do TN, a tramitação prejudicial urgente porque no caso o regulamento objeto de
pedido de interpretação insere-se materialmente na cooperação judiciária em matéria civil que
é uma das linhas que compõem o espaço de liberdade, segurança e justiça. Acresce que, o TN
foi capaz de demonstrar o perigo decorrente de uma demora excessiva associada ao reenvio
prejudicial, porque demonstrou que a questão de fundo dizia respeito a 3 menores que se
encontravam separados do pai, há mais de um ano, o que poderia causar o prejuízo
inultrapassável na relação entre pai e filhos- considerando 28.
Neste caso, o reenvio prejudicial foi decidido em 60 dias. Relativamente à questão de fundo o TJ
esclareceu que o regulamento em causa deveria ser interpretado no sentido de que o direito
interno de um estado que faz depender o direito de guarda da existência de uma relação
registada com a mãe ou na sua ausência, um acordo ou decisão judicial que estabeleça os
seus tramites não compromete a efetividade do direito da união, embora nada obste a que a
deslocação dos menores pela mãe se possa reputar como ilegal.
2. AÇÃO POR INCUMPRIMENTO- artigo 258º a 260º TFUE

É um mecanismo de declaração tendente a reconhecer o incumprimento de um EM, seja esse


incumprimento por ação (prática positiva desconforme ao DUE que pode resultar da adoção de
um ato legislativo, da realização de uma prática legislativa ou da observância de um
comportamento jurisdicional, imputável àquele Estado Membro) ou por omissão (o
incumprimento será declarado por referência à ausência de atividade legislativa, administrativa
e/ ou jurisdicional). Os artigos 258º a 260º estabelecem que o objeto da ação por
incumprimento será a violação dos tratados e das normas que lhes dão cumprimento. Daqui
resulta que a violação poderá ser simultaneamente baseada na aprovação, na adoção e na
manutenção de medidas legislativas regulamentares, ou administrativas por parte de um
Estado incompatíveis com o DUE, bem como poderá resultar de uma inexecução ou execução
tardia ou incompleta de obrigações impostas pelo direito da União aos estados membros.
Nestes casos, independentemente de a violação ser decorrente de uma ação ou uma omissão
praticada por apenas um dos poderes de Estado, a entidade que será sujeita à ação por
incumprimento é o Estado na sua globalidade.

No que diz respeito aos incumprimentos decorrentes da atividade jurisdicional, apenas com o
acórdão Comissão Contra Itália é que o TJUE pela primeira vez declarou o incumprimento de
um estado por referência ao incumprimento do seu poder judicial. Até então, o Tribunal tinha
sempre optado por declarar o incumprimento daí decorrente, associando-o ao incumprimento
perpetrado pelo poder legislativo. Tal é o exemplo do acórdão Comissão contra Itália de 2003.

LEGITIMIDADE PROCESSUAL

A ação por incumprimento terá diferentes tramitações consoante a entidade com legitimidade
ativa para iniciar o processo. A legitimidade ativa pode pertencer:

§ Comissão Europeia: enquanto guardiã dos Tratados, a Comissão tem total liberdade de
reagir perante um EM diante do incumprimento das normas jurídicas comunitárias e,
pode ser por própria iniciativa (artigo 258º, nº1 TFUE).

§ Qualquer EM ou cidadão europeu/ empresas: deve submeter o assunto à apreciação da


Comissão (artigo 259º, nº2 TFUE) através de formulário normalizado e disponibilizado no
site da Comissão, com requisitos como: identificação da pessoa (não há queixa
anónima); descrição breve da situação que clama ser incumprimento; se for possível,
identificar a norma de DUE que não é observada.

A estes EM, chama-mos de EM queixoso.

Quanto á legitimidade passiva, a ação é sempre intentada contra um Estado Membro.


TRAMITAÇÃO PROCESSUAL

Da Comissão Europeia contra um EM incumpridor- tramitação à luz do artigo


258º TFUE

A Comissão europeia toma conhecimento do incumprimento por uma de duas vias possíveis: ou
através das suas próprias diligências, ou mediante queixa recebida apresentada por
particulates. Assim, apesar de os particulares não gozarem, neste mecanismo, de legitimidade
ativa, a realidade é que podem desempenhar um papel muito relevante em conduzir o Estado
ao cumprimento em que está em falta.

1º momento: Fase Pré- Contenciosa

Esta fase antecede a chegada do processo do TJUE e inaugura-se informalmente por um


conjunto de apreciações, também elas informais, realizadas pela comissão europeia junto do
EM potencialmente incumprido, para o sensibilizar a superar aquele incumprimento. Se essas
diligências não chegarem a bom porto, inaugura-se esta fase pelo seu 1º momento formal de
envio da carta de notificação.

Ø Carta de Notificação: endereçada pela CE ao EM incumpridor, onde esta dá


formalmente a conhecer ao EM os argumentos que julga basearem o incumprimento,
para que este querendo, possa defender-se ou suplantar o incumprimento que lhe é
imputado.

Com a Carta espera-se:


o O EM justifica o comportamento e a CE fica sem fundamento para o
incumprimento;
o O EM atua de modo a corrigir a conduta que a Comissão reprova, para sanar o
incumprimento antes do ajuizamento da ação de incumprimento junto ao TJUE.

Deve contemplar os seguintes elementos:


o A identificação do comportamento que se julga ilícito;
o Aclaração de todas as obrigações que não foram cumpridas- esta não tem de
incluir uma detalhada explicação jurídica que ficará para o parecer
fundamentado
o Enunciação de um prazo para que o EM possa responder

Quando o EM não cumpra ou, quando os seus argumentos de defesa não convençam a
comissão, esta irá emanar parecer fundamentado, que é o segundo momento formal
da fase pré contenciosa e aquele que a encerrará.

Ø Parecer fundamentado: neste, sedimenta-se qual será o objeto do litígio e confere-se


ao EM incumpridor um prazo razoável para adotar as medidas necessárias a suplantar
o incumprimento. Tais medidas resultam, muitas vezes, expressas no parecer
fundamentado.

Se os EM não cumprirem o parecer fundamentado, inaugura-se a fase contenciosa.


2º momento: Fase contenciosa

É a fase que ocorre perante o TJUE. As partes, não chegando a uma composição na fase
anterior, propõem no TJUE a ação de incumprimento. Ainda que o EM dê cumprimento depois
de decorrido o prazo conferido no parecer fundamentado, o TJUE considerará a existência de
incumprimento. A CE com base no parecer fundamentado, apresenta a sua petição inicial ao
TJUE. O TJUE aprecia a questão e emite um parecer declaratório em forma de acórdão de
natureza declarativa, com força obrigatória: é declarada ou não a existência de uma violação de
DUE.

Se declarar a existência de incumprimento: o EM deve tomar medidas para se conformar com o


DUE, acetar e agir em conformidade por força do princípio da lealdade. Se não tomar medidas,
desrespeitar a declaração e não acatar a decisão judicial, incorre em crime de desobediência,
violando o princípio da Lealdade e cooperação, havendo a possibilidade de o TJUE o condenar
ao pagamento de quantia fixa ou sanção pecuniária.

Da Estado Membro contra um EM incumpridor- tramitação à luz do artigo


259º TFUE

1º momento: Fase Pré- Contenciosa

Inaugura-se pela apresentação, pelo EM queixoso, de uma queixa perante a Comissão Europeia,
a qual querendo, disporá do prazo de 3 meses para apresentar parecer fundamentado.
Decorrido esse prazo, poderá ocorrer uma de 3 coisas:

a. A Comissão europeia emana parecer fundamentado e o EM queixoso confia nas suas


diligências e não prossegue com o processo enquanto ente com legitimidade ativa.
b. A comissão europeia não emana parecer fundamentado. Decorrido o prazo, o EM
queixoso poderá iniciar a fase contenciosa, apresentando petição inicial ao TJUE para
que este declare o incumprimento.
c. A Comissão europeia emana parecer fundamentado, baseando-se apenas em um ou
alguns dos argumentos que o EM queixoso lhe deu a conhecer. Neste caso, o EM
queixoso poderá limitar-se a acompanhar os argumentos aproveitados pela Comissão
na sua petição inicial, ou poderá acompanhar tais argumentos e invocar aqueles que
por ela não foram aproveitados, inaugurando-se assim a fase contenciosa.

2º momento: Fase contenciosa

Por força do artigo 260º, em regra o acórdão do TJUE será um acórdão declarativo do
incumprimento, o qual se limitará a atestar que aquele Estado violou o direito da União. No
entanto, há duas situações em que o acórdão poderá simultaneamente condenar o EM infrator
ao pagamento de uma sanção pecuniária (a sanção dirige-se à UE):

§ 1º situação: prévia ao Tratado de lisboa e que se manteve com a sua adoção: diz
respeito às situações de incumprimento reiterado, ou seja, aquelas situações em que o
TJUE tendo declarado o incumprimento nem assim o EM o superou, havendo a
possibilidade de iniciar uma segunda ação por incumprimento, a qual se baseará no
incumprimento do acórdão que passará a ser o seu objeto. Nestes casos, por força do
artigo 260º, nº2, 2º parágrafo, para além de declarar o incumprimento reiterado
poderá condenar o EM ao pagamento de uma sanção pecuniária fixa ou progressiva.

§ 2º situação: introduzida pelo tratado de lisboa: possibilidade de logo, na 1º ação por


incumprimento, poder ser aplicada uma sanção pecuniária fixa ou progressiva,
nomeadamente nos casos em que o estado tenha falhado a comunicação das medidas
adotadas tendentes á transposição de diretivas. Neste caso, para que haja
condenação, o TJUE fica sujeito a que tal seja peticionado pela comissão europeia e
limitado ao montante máximo por ela indicado- artigo 260º, nº
3. RECURSO DE ANULAÇÃO- artigo 263º e 264º TFUE

Serve para proceder ao controlo jurisdicional de legalidade dos atos aditados pelas instituições,
órgãos e organismos da UE. Neste caso, vai permitir aos interessados obter a anulação de um
ato ou de uma disposição desse ato, adotado por uma instituição, órgão ou organismo da UE
que se encontre inquinado pelos vícios de incompetência de violação das formalidades
essenciais, de violação dos tratados, de norma que os aplique ou de desvio de poder nos termos
do artigo 263º, 2º parágrafo do TFUE.

Aprecia atos que visem efeitos vinculativos. Assim, quer as recomendações, quer os pareceres,
não são objeto do recurso de anulação. No entanto, se qualquer um destes atos tiver a
suscetibilidade de obrigar terceiros, poderão também eles ser objeto de recurso de anulação.

LEGITIMIDADE PROCESSUAL

ATIVA: Têm legitimidade para intentar o referido recurso os EM, o Parlamento Europeu, o
Conselho, a Comissão e os constantes no artigo 263º, 3º parágrafo TFUE. Tem ainda
legitimidade para intentar o recurso, de acordo com o artigo 263º, nº4 TFUE, qualquer pessoa
singular ou coletiva contra os atos legislativos de que seja destinatário ou, se não for
destinatário do ato, que este o afete de forma direta (que reúna um conjunto de elementos que
coloquem o individuo numa posição menos favorável) e individual (o indivíduo terá de provar
que os efeitos jurídicos produzidos pelo ato afetam a sua esfera jurídica tal como se do
destinatário do ato se tratasse, ou seja, condições análogas à do destinatário), bem como
contra atos regulamentares (atos não legislativos de alcance geral- não confundir com
regulamentos, esses são legislativos) que não necessitem de medidas de execução (o ato ser
exequível por si só).

PASSIVA: o recurso pode ser movido contra o Conselho de Ministros, a Comissão Europeia, ou
o Banco Central Europeu, para a anulação de qualquer ato que não seja recomendação ou
parecer pelo qual, alguma dessas entidades/ instituições seja responsável- artigo 263º, 1º
parágrafo, 1º parte.

Também goza de legitimidade passiva o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu, artigo


263º, 1º parágrafo, 2º parte, quando se trate de um ato legislativo adotado, ora por ambas
ambas as partes, através do procedimento legislativo ordinário, ora por uma delas com
participação da outra, através do procedimento legislativo especial aplicável.

Ainda: Qualquer outro órgão ou organismo da União desde que o seu ato tenha a suscetibilidade
de produzir efeitos relativamente a terceiros.
REQUISITOS DA ANULAÇÃO

O recurso será objeto de admissão perante a verificação de determinadas condições:

Ø Quanto à natureza do ato: : nos termos do artigo 263º TFUE, o TJUE irá fiscalizar a
legalidade dos seguintes atos:
o Atos legislativos- atos jurídicos da União com caráter vinculativo, ou seja,
regulamentos, diretivas e decisões, adotados segundo o procedimento legislativo-
artigos 288º, 289º e 294º TFUE que esclarecem o procedimento legislativo ordinário.

o Atos do Conselho de Ministros, da Comissão e do Banco Central Europeu que não


sejam recomendações e pareceres. Tal justifica-se porque não sendo estes atos
vinculativos (288º, último paragrafo TFUE), não produzem efeitos jurídicos
obrigatórios, o que é pressuposto para o recurso ser interposto.

o Atos do Parlamento europeu e do Conselho europeu, tendentes a produzir efeitos


jurídicos contra terceiros.

o Atos dos órgãos e organismos da União (todos os não referenciados no artigo 13º
TUE) destinados a produzir efeitos jurídicos contra terceiros.

Ø Quanto à pessoa do recorrente:

o Recorrentes institucionais:
§ Recorrentes privilegiados: Comissão, Conselho, Parlamento Europeu e EM,
porque beneficiam de um direito de recurso praticamente incondicionado na
medida em que estão autorizados a impugnar qualquer ato passível de recurso,
não tendo de fazer prova do seu interesse em agir, podendo socorrer-se de todos
os vícios elencados no 2º parágrafo do artigo 263º. O seu elenco faz-se no artigo
263º, º paragrafo, última parte.

§ Recorrentes semi-privilegiados: Tribunal de Contas, Banco Central Europeu e


Comité das Regiões. Possuem menor poder de atuação por terem legitimidade
ativa limitada pela salvaguarda das suas prerrogativas- artigo 263º, nº3 TFUE

o Recorrentes ordinários (ou não privilegiados): são os particulares, nos termos do


artigo 263º, 4º paragrafo. Só depois de demonstrado o seu interesse e agir é que
podem apresentar um recurso de anulação que será aceite perante o TJUE, mais
concretamente perante o tribunal Geral. E para o efeito podemos distinguir 3
situações que poderão em abstrato configurar o interesse em agir destes
particulares:
§ Demonstrando que são destinatários do ato, na medida em que este a eles se
dirigiu.

§ Demonstrando que, ainda que o ato se dirija a outra pessoa ou entidade, este lhe
diz direta e individualmente respeito- critério da afetação direta e individual.

§ Introduzida pelo tratado de lisboa a fim de tentar flexibilizar este requisito da


afetação direta e individual e que determina a possibilidade de recurso de atos
regulamentares desde que demonstre que o mesmo lhe diz diretamente respeito
e cumulativamente não depende de medidas de execução.
Ø Quanto ao prazo do recurso:

O artigo 263º parte final (6º paragrafo) fixa um prazo de 2 meses para a interposição de
recurso. Esse prazo é contado, a partir da publicação do ato, sendo sujeitos a publicação os atos
legislativos, nos termos do artigo 297º,nº1 TFUE. Estão ainda sujeitos a publicação os atos não
legislativos de alcance geral ou seja, que não identifiquem o seu destinatário e que tenham sido
adotados sob a forma de regulamento, diretiva ou decisão- artigo 297º, nº2 TFUE. Ou então
conta-se a partir da data da notificação ao destinatário ou do dia em que o recorrente tenha
tomado conhecimento do ato.

Como se conta esta prazo de 2 meses? O prazo de 2 meses começa a contar a partir do 14º dia
subsequente àquele em que o ato foi publicado - 81 n1 do regulamento do processo do TJUE e
artigo 102 n1 do regulamento do processo do tribunal geral. Acresce ainda uma dilação de 10
dias em razão da distância para todas as circunstâncias. O prazo de dilação foi o mecanismo
encontrado para acautelar a distancia ou outras circunstâncias que possam afetar o
conhecimento imediato do ato.

EFEITOS DO RECURSO DE ANULAÇÃO

O recurso de anulação ou o acórdão proveniente do recurso de anulação relativamente aos vícios


primeiramente invocado assume caracter absoluto. Ou seja, se eu invocar uma incompetência
absoluta e o T entender que a mesma não existe a decisão sedimenta-se não havendo
possibilidade de interpor recurso dessa decisão baseada nos mesmos fundamentos. No entanto,
se os vícios invocados forem diferentes, poderá interpor-se recurso da decisão.

Se o recurso for julgado procedente e a anulação for decretada, o ato anulado terá de ser retirado
da ordem jurídica europeia, tendo a decisão do TJ, em regra, efeitos retroativos, ou seja, tudo
tem que se passar como se o ato não tivesse existido - artigo 264. No entanto, o TJ poderá fixar
quais os efeitos do ato que poderão prevalecer, invocando, por exemplo, questões de segurança
jurídica - 264 segundo parágrafo.

JURISPRUDÊNCIA:

Acórdão Codorniu, de 18 de maio de 1994, Processo C-309/89

Acórdão Woonlinie, de 27 de fevereiro de 2014, Processo C-133/12 P

Acórdão Comissão Europeia contra República Portuguesa, de 22 de março de 2017,


Processo C-665/15

Acórdão Comissão contra República Francesa, de 4 de outubro de 2018, Processo C-416/17

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