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Uma visão do Estado contemporâneo a partir da obra “O Estado e

o direito depois da crise” de José Eduardo Faria


Vitor Luis Xavier Benucci, Sala 14, nº USP 8997438

Teoria Geral do Estado II – Faculdade de Direito do Largo de São


Francisco

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO.................................................................................................................3
1. NOTAS BIOGRÁFICAS DO AUTOR.........................................................................3
2. CONTEXTO EM QUE A OBRA FOI ESCRITA........................................................3
3. APRESENTAÇÃO DA TEMÁTICA...........................................................................4

DESENVOLVIMENTO....................................................................................................5
1. O PROBLEMA ABORDADO......................................................................................5
2. A TESE APRESENTADA............................................................................................8
3. O RACIOCÍNIO DESENVOLVIDO..........................................................................13

CONCLUSÃO.................................................................................................................16

BIBLIOGRAFIA.............................................................................................................17

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INTRODUÇÃO

1. NOTAS BIOGRÁFICAS DO AUTOR


Autor de obras como “O direito na economia globalizada” e “O Estado e o
direito depois da crise”, José Eduardo Faria nasceu em 1949. Filho de advogado e
também professor da Universidade de São Paulo, o autor do livro tratado neste trabalho
foi desde o início influenciado por um cenário transbordado de saber na família
(principalmente relativo ao pai). Foi criado no meio urbano, porém sua família possuía
tradições rurais.

Trabalhou como jornalista nos jornais “Da Tarde” e “O Estado de São Paulo”, e
cursou direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1968, onde se
tornou mestre em 1977, doutor em 1981 (realizando pós-doutorado na Winsconsin
University), livre docente em 1982 e professor titular em 1998, lecionando no
Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito na mesma universidade.

Também trabalhou como executivo financeiro no Banco Itaú, sendo assessor de


Olavo Setúbal a partir de 1979. Coordenou a área de ciências humanas da Fapesp,
representou a área de direito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico e foi também avaliador de cursos de pós-graduação da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Foi tutor e introdutor do programa
PET/Capes na faculdade do Largo de S. Francisco em 1979.

2. CONTEXTO DA OBRA
O contexto em que a obra foi escrita refere-se à posição que toma o Estado e as
eventuais manobras e transformações do direito durante o período de recuperação do
mundo globalizado, após a grande recessão econômica decorrente da crise que se
avultou em 2008. Tal crise é chamada por alguns de crise dos Subprimes, por ter sido
originada através de empréstimos de alto risco a pessoas sem histórico de crédito ou
com histórico ruim, principalmente dirigidos ao setor imobiliário, por parte de bancos e
instituições financeiras norte-americanas, o que resultou em inadimplências em massa,
após um disparo de juros e retração de preços dos imóveis.

Tal inadimplência levou os bancos à situação de insolvência de credores e


consequente falência destas muitas instituições financeiras, levando também diversas
empresas à moratória, o que abalou seriamente a bolsa de valores não apenas dos

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Estados Unidos, mas também de diversas regiões do mundo, como um efeito de ondas,
gerando um estado de crise financeira global. O PIB da Zona do Euro teve uma queda
de 1,5% no quarto trimestre de 2008, em relação ao trimestre anterior, a maior
contração da história das economias do euro.

Tudo isso clamou por uma ação do Estado, correlacionado com o Direito, como
aprovação de auxílios e modificações em leis de teto da dívida. Nos Estados Unidos,
aprovou-se às pressas no Congresso um pacote de 700 bilhões de dólares destinados ao
auxílio de instituições financeiras, e por volta de outubro de 2008, o auxílio já contava
com mais de 2 trilhões de dólares. Na Europa, a Alemanha, França, Itália, Países Baixos
e Áustria destinaram conjuntamente um pacote que totalizou 1,17 trilhão de euros, em
auxílio às instituições financeiras daqueles países. Após todo este cenário, veio a grande
recessão, que gerou consequências como desemprego e queda do crescimento
econômico. Neste cenário onde começamos a deixar aos poucos a recessão, José
Eduardo Faria analisa, em sua obra, as eventuais transformações que tal momento
econômico causou no Estado e no Direito.

3. APRESENTAÇÃO DA TEMÁTICA

A obra de José Eduardo Faria, por nós trazida à luz da argumentação neste
trabalho, expõe os paradigmas que as crises trazem para o cenário político, a respeito
das políticas econômicas dos Estados, sejam elas mais voltadas ao livre mercado ou à
supervisão estatal. Como exemplo a ser citado, José Faria expõe duas teorias
econômicas do século XX de grande importância, sendo elas a de Joseph Alois
Schumpeter e a de John Maynard Keynes, a respeito da posição do Estado e das leis
diante da economia.

José Eduardo Faria, através de uma análise dos fatores originários e derivados da
crise que se vultou no ano de 2008, faz uma relação entre o direito e o poder político, e
de ambos em relação à economia, dando enfoque a adversidades como a globalidade das
operações financeiras, ao passo que sua regulação varia localmente, gerando uma
incrível dificuldade de unificação legislativa capaz de gerar efeitos a nível internacional.

O autor também ressalta uma tensão intrínseca entre democracia e capitalismo, e


como a crise econômica de 2008 produziu efeitos ligados ao conceito de Estado
Nacional e às crises sociais, chegando a um ponto em que houve uma tentativa de
unificação entre os Estados, no que diz respeito à tomada de decisões econômicas, para
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que seus efeitos possam ser minimamente équos. Tal tentativa de internacionalização
das decisões econômicas se dá num momento em que o mundo começa a deixar a
recessão originada pela crise econômica de 2008, porém ainda sofre com os seus
efeitos, o que com certeza também exercerá influência sobre o futuro do direito.

Várias hipóteses surgem a respeito do futuro do direito, e por consequência, do


Estado. Como o retorno do Estado forte e regulador, ou até mesmo a possível criação
num futuro de um “Estado de direito global” regulado por entidades internacionais. E as
possibilidades encaradas pelo autor como mais plausíveis, como a formação de maiores
blocos econômicos e o fenômeno da “multisoberania” e a evolução da globalização,
com modelos particulares de auto-governança das entidades comerciais, sem que estas
entrem em conflito com o direito positivo estatal.

DESENVOLVIMENTO

1. O PROBLEMA ABORDADO

O problema abordado trata justamente da dificuldade já superficialmente


apresentada na seção anterior, de produzir uma unificação legislativa a nível de produzir
efeitos internacionalmente, devido a alguns fatores, como a globalidade das operações
financeiras, frente às diferenças de como a economia é encarada e tratada nas diversas
partes do planeta, com imposições do direito diferentes entre uma localidade e outra.

No cenário mundial globalizado, uma interação econômica pode acontecer em


frações de minuto, abrangendo milhares de entes envolvidos em várias localidades e
distâncias. As bolsas de valores movimentam milhões de dólares, euros e libras em
questão de minutos. Os preços das ações têm picos e fundos num mesmo dia. A
quantidade de capital que tais transações movimentam, a rapidez com que são feitas e a
enorme área geográfica que podem abranger, torna difícil o trabalho de produzir um
regulamento eficiente para o mercado. Cada nação possui seu próprio modelo de Estado
e direito, dando o tratamento à economia que julga mais adequado à sua realidade e
benefício nacional.

Um bom exemplo são os Estados Unidos, maior nação capitalista do mundo


atual, que adota um modelo econômico marcado pelo livre mercado e tradicionalmente
de pouca intervenção estatal, onde existem impostos e saturação de mercado, leis
trabalhistas associadas a direitos fundamentais, e a China, governada por um partido

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comunista, onde seu direito permite em certas ocasiões a economia de mercado desde
que atendam às restrições governamentais, não havendo leis trabalhistas, ou não sendo
as mesmas maduras o suficiente para sustentar os direitos fundamentais.

Assim, uma unidade de uma determinada empresa A que se encontre nos


Estados Unidos, terá de atender a certas leis trabalhistas e arcar com determinados
impostos, ao passo que uma empresa análoga B que se encontre na China, não terá que
seguir tais leis trabalhistas, e também não os mesmos impostos, pois em certas ocasiões
há isenções fiscais. Assim, após o final do processo produtivo, iniciando a
comercialização, as economias que a empresa B teve por não seguir as leis trabalhistas e
não pagar os mesmos impostos, poderão ser convertidas em um preço de venda do
produto inferior ao da empresa A que teve de arcar com aquelas restrições, resultando
portanto numa vantagem competitiva da empresa B sobre a A, decorrente das diferenças
entre os sistemas jurídicos das localidades em que possuem seus meios de produção.
Isso atua como uma das formas a desregular o mercado.

Em contrapartida, a forma com que as transações econômicas se dão


rapidamente em vastas áreas, assim se dão também as crises financeiras. Nestas últimas,
a desunião jurídica e de decisões internacionais (relativas ou absolutas) entre os países,
decorrente de diversos modelos de Estado e direito a respeito do mercado, atua para o
agravamento das consequências econômicas da crise financeira.

Os Estados muitas vezes buscam particularmente sanar os próprios prejuízos,


com medidas locais, sem muito se fazer em relação ao cenário mundial que os causou.
As crises financeiras então tendem a tomar grandes proporções, através de um efeito
dominó, que propaga-se por uma vasta área do planeta.

A exemplo do último parágrafo, José Eduardo Faria utiliza a crise de 2008 para
fundamentar sua teoria. Um pontual problema no setor bancário de empréstimos
arriscados dirigidos ao mercado imobiliário (subprimes), precipitou a incipiente crise na
concordata do específico banco Lehman Brothers, o qual o governo americano negou-se
a entregar o controle a um banco inglês, preferindo cuidar do assunto particularmente.
Em poucos dias num efeito dominó, foi levada à falência técnica a American
International Group (AIG), maior seguradora dos Estados Unidos. Assim, em menos 24
horas, o governo norte-americano tomou uma medida local, numa tentativa desesperada
de salvar as operações da AIG, injetando dezenas de bilhões de dólares naquela
seguradora.
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As medidas locais do governo dos Estados Unidos não pararam o avanço da
estreante crise financeira, que em poucas semanas cruzou o Oceano Atlântico, causando
prejuízos vultosos nas mais importantes instituições financeiras do mundo, como
Société Générale, Swiss Re e Northern Rock, na França, Suíça e Reino Unido
respectivamente. Em pouco tempo, Alemanha, França, Países Baixos e Áustria
organizaram um pacote de mais de 1 trilhão de euros, destinado a salvar suas
instituições financeiras.

Repetindo o comportamento do governo norte-americano, os governos europeus


buscaram medidas locais para sanar seus prejuízos, o que mais uma vez não teve
sucesso em parar a onda devastadora. Assim a crise espalhou-se por praticamente toda a
Europa, e não apenas por este continente. No Brasil, empresas como o grupo
Votorantim e Sadia, foram vítimas de prejuízos bilionários.

Desta forma fica validada através de exemplo a posição de José Eduardo Faria,
onde a ausência de decisões internacionais (relativas ou absolutas) e a dificuldade de
unificação jurídica concorreram para o agravamento do quadro financeiro mundial. As
decisões locais, voltadas somente para o próprio espaço, tanto do governo norte-
americano quanto dos governos europeus, falharam em anular ou simplesmente frear o
avanço da crise mundial que se originara com um pequeno rombo bancário nos Estados
Unidos (subprimes).

A desunião jurídica atuou nas consequências financeiras da crise, as quais se


agravaram em localidades de mercado mais liberal, inclusive obrigando governos
tradicionalmente liberais, como o dos Estados Unidos, a tomarem medidas
interventoras, como a injeção de capital em empresas, e até mesmo a estatização das
mesmas, como foi o caso da estatização das seguradoras Fannie Mae e Freddie Mac. Na
Islândia, o governo estatizou o Kaupthing, maior banco do país. Assim, fica evidente a
posição do autor da obra, onde a falta de uma decisão internacional potencializou os
danos da crise, seguido da desunião jurídica, que gerou consequências diversas
(variando entre menos e mais graves), e acarretou mudanças e manobras bruscas do
direito nos distintos Estados.

2. A TESE APRESENTADA
Partindo dos problemas impostos pelas atuais relações entre o Estado, o Direito e
uma economia cada vez mais globalizada, o autor constrói seus argumentos acerca do

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que será do Direito e da internacionalização das decisões econômicas. É importante
ressaltar que os problemas mencionados pelo autor derivam de medidas econômicas
adotadas e fatos ocorridos no século XX e que possuíram grande repercussão, como o
término da vinculação do valor do dólar americano ao ouro, pondo fim a um importante
alicerce do sistema de Bretton Woods; as crises do petróleo, que afetaram o câmbio das
moedas e as taxas de juros de diversos países; a desregulamentação do mercado
financeiro americano, principalmente com o fim do Glass-Steagall act, que tratava da
relação entre bancos e seguradoras; a queda do muro de Berlim e da União Soviética,
que deu origem a um mundo policêntrico; e o desenvolvimento das tecnologias de
telecomunicações.

Todos estes elementos culminaram em mudanças estruturais na economia


global, impondo novos patamares para o comércio internacional, alterações na forma de
se trabalhar e produzir, a fragilização do sistema financeiro e econômico dos Estados
nacionais e abalando inclusive a sua forma, que antes era a de um Estado do bem-estar
social. O sistema financeiro atual, claramente globalizado, é mais rápido do que a
regulação por parte do Estado, este não é capaz de prever o que aquele fará. Tudo isso
leva a uma situação onde o mercado financeiro não pode ser regulado por ninguém além
de si mesmo, sua característica multicêntrica o tornou independente da vontade do
Estado.

Buscando uma resposta para qual direção o Direito anda tomando frente a todas
estas adversidades que se tornaram clarividentes com a crise financeira de 2008, José
Eduardo Faria elabora cinco modelos hipotéticos que tem como função ilustrar
possíveis futuros para o Estado e o Direito, não se tratando de apenas uma previsão para
o futuro.

O primeiro cenário hipotético trata de um suposto Estado global com seu


respectivo Direito global. Tendo como indícios os processos em desenvolvimento para a
unificação da legislação de diversos Estados, este cenário seria marcado pelo
surgimento de uma ordem jurídica mundial, onde os diversos Direitos convergem em
um só. É importante ressaltar que este possível caminho do Direito e do Estado tem,
como um de seus amparos teóricos, o pensamento liberal das Relações Internacionais,
marcado pela defesa de um Estado cosmopolita em formato federativo, que, portanto

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insere muito ênfase no Direito Internacional e nas instituições internacionais 1. Faria
ressalta que isso não seria o fim do Estado nacional, já que este ainda existiria, mas
passaria a ser só um dos estratos da ordem mundial. Nesta perspectiva, surgiriam
instituições supranacionais capazes de criar e aplicar uma regulação que seria imposta
ao mercado financeiro.

O segundo possível caminho do Estado e do Direito apresentado pelo autor é


algo que assemelharia um suposto retorno ao antigo Estado forte, existente no ápice do
welfare state. Junto a esse novo Estado que é eficaz nas medidas que adota, viria
também uma regulação normativa que não fosse desviada pela economia globalizada.
Essa hipótese seria algo completamente contrário ao cenário socioeconômico mundial,
marcado por um mundo cada vez mais interconectado e a influência do Estado nacional
cada vez mais relativizada. Este cenário bota em questão a redução do papel do Estado e
possui duas variantes.

A primeira variante tratada por José Eduardo Faria é a que se expôs no leste
asiático, onde os Estados estimularam o desenvolvimento econômico e tecnológico de
forma inusitada. Nestes países, a industrialização que se deu por meio do modelo de
export-oriented industrialization, ocorreu devido a intensas medidas governamentais.
Medidas regulatórias, incentivos à associação entre empresas e instituições de pesquisa,
incentivos financeiros, a adoção de uma política monetária favorável, direitos autorias
assegurados, uma boa oferta de crédito e restrições a alguns tipos de importações foram
algumas das atitudes adotadas pelos países do leste asiático e que foram bem sucedidos
no seu próprio modelo de um Estado forte que assegurou um bem-estar econômico.

A outra alternativa para a concretização deste cenário que prevê um Estado forte
e uma regulação normativa se baseia na teoria econômica de Karl Polanyi, onde,
segundo a alegoria do “moinho satânico”, o capitalismo e a sociedade nem sempre
andam juntos, podendo aquele se desvincular do controle desta e passar a causar danos
socioeconômicos. Tendo em vista isso, cabe à regulação estatal manter o capitalismo
sob controle e impedir que ele gere prejuízos sociais. Por meio de um Estado forte, a
regulação será efetivada, o mercado controlado, a proteção social garantida, e o
crescimento econômico e o emprego serão assegurados.

1
SNYDER, Jack. One World, Rival Theories. Foreign Policy.

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Após expor as duas formas de Estado forte, o José Eduardo Faria menciona
como este tipo de instituição é inovador e, portanto, se difere do Estado do pós-guerra
da metade do século passado, cuja duração se estendeu até meados da década de 70.
Primeiramente, este tipo de Estado envolve novas formas de planejamento econômico e
intervenção estatal, novas maneiras de se estimular a economia, novas formas de se
estabelecer a relação entre o Estado e o setor privado, assim como as atividades públicas
e privadas, além de incluir uma nova maneira de se efetivar os atos normativos estatais.

Entretanto, diversos são os obstáculos que devem ser enfrentados por este
cenário. Além de precisar de arranjos institucionais eficientes que garantam a
implementação da regulação econômica, o Estado forte tem uma limitação material, já
que seu campo de atuação é limitado pelas suas despesas e pelo limite de aumento da
dívida pública. A limitação é maior ainda quando se lembra que a capacidade de
arrecadar recursos estatais é restringida pelo mercado globalizado, que se desloca para
onde os custos são menores, ou seja, onde o Estado cobra menos tributos. Outro
questionamento feito seria até que ponto é possível garantir que este Estado forte que
poderia surgir não seria uma mera reprodução do Estado que praticava políticas
protecionistas na economia, e, consequentemente, trazer de volta todos os malefícios
presentes nesta instituição.

Ainda seguindo a ideia de que o Estado e o Direito podem tomar novos rumos,
tem-se uma terceira hipótese: a governança global, e consequentemente o direito
mundial, determinado por instituições internacionais e supraestatais. Uma governança
que, segundo José Eduardo Faria, se encontra à margem do direito positivado
tradicional. Os fundamentos deste cenário seriam que jamais existirá um local onde será
formulada uma política global, que a justiça social se dá sem qualquer tipo de atividade
por parte do Estado e que as divisões territoriais dão espaço, atualmente, a uma divisão
funcional. As legislações nacionais perdem espaço na medida em que suas lacunas são
preenchidas por normas formadas entre setores da iniciativa privada conforme estes se
relacionam e negociam, tais normas possuem um papel semelhante a uma convenção
entre as partes.

O quarto cenário que se enquadra como um possível futuro para o Estado e o


Direito seria baseado nos blocos comerciais e no que José Eduardo Faria denomina de
“multissoberania”. Com isso, e a maior evidência deste caminho é a União Europeia, a

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legislação seria dividida horizontalmente e verticalmente entre as instâncias
competentes. Na União Europeia, existem medidas normativas que servem para
exemplificar este modelo da “multissoberania”, são eles os regulamentos e as diretivas.
Enquanto aquela é vinculante, na medida em que obriga todos os Estados-membros a
adotarem-na, estas apenas impõem o que deve ser realizado, sendo a forma e o meio
determinado pelo Estado-membro da forma que este achar mais conveniente.

Esta construção institucional de viés jurídico-política torna possível uma


integração que atenue as assimetrias de poder econômico entre os países do mesmo
bloco. Neste processo, o Estado delega alguma de suas funções normativas para
entidades supraestatais ou infraestatais. A última etapa deste cenário seria a integração
econômica integral.

Porém, este cenário demonstra dificuldades de concretização, pois, como se


verifica na União Europeia, como na má situação das despesas públicas gregas, alguns
países enfrentam dificuldades econômicas, e isso acaba por gerar conflitos regionais
dentro da própria União. Como consequência, torna-se mais difícil para o próprio bloco
falar em nome de todos. A heterogeneidade da situação econômica dos países da União
Europeia é capaz de gerar uma situação em que alguns países resolvam deixar o bloco
em benefício próprio, já que o valor da moeda única é influenciado pela economia dos
países mais ricos. Retornando a suas antigas moedas, os Estados que deixaram o bloco
teriam um maior controle sobre sua política monetária e, a partir daí, poderiam
estimular o crescimento da economia nacional. Porém, esta estratégia traria diversos
riscos, e pode ocasionar em desvalorização da moeda nacional, fuga de capitais e
inadimplência.

Neste cenário da “multissoberania” nos blocos comerciais, tem-se, como medida


para garantir a coesão e a estabilidade econômica, as soluções criadas pela União
Europeia. Tal bloco criou um fundo monetário, cujo objetivo era auxiliar os países com
dificuldades financeiras e garantir com que um problema nas contas públicas de um
certo Estado não viesse a abalar a confiança dos mercados no bloco inteiro. Além disso,
tem-se que o Banco Central Europeu pode aplicar penas aos países que forem
irresponsáveis com suas finanças.

Por fim, José Eduardo Faria esboça o que seria o último cenário hipotético que
representa um outro caminho que pode ser adotado pelo Estado e o Direito. Este cenário

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englobaria a expansão dos sistemas privados de governança econômica, mas sempre
preservando a importância dada ao regime normativo estatal. Neste modelo, os diversos
regimentos normativos atuam de forma paralela e não contradizem o ordenamento
jurídico estatal. Estes sistemas de normas não agem de forma isolada, eles se articulam
entre os diversos setores funcionais e o Estado, gerando uma rede interconectada de
regimes normativos privados e públicos. O Estado não perde espaço na geração de
normas, mas deixa de ter o monopólio, inclusive dentro de seu próprio território. O
regime normativo privado ultrapassa fronteiras territoriais e leva à homogeneização dos
procedimentos em determinadas áreas, tendo, como objetivo, a criação de um melhor
ambiente para negócios e produção.

Caso o Direito e o Estado assumam a forma prevista neste modelo onde


prevalece o pluralismo jurídico e a continuação do processo de globalização econômica,
haverá forte impacto nos investimentos, nos níveis de produção e no grau de otimização
dos sujeitos participantes do cenário econômico e na segurança jurídica acerca dos
contratos. Com esses impactos em mente, pode-se afirmar que o Direito oriundo deste
cenário, segundo José Eduardo Faria, funcionaliza vínculos entre o trabalho, o crédito e
os bens em todos os níveis, da esfera local até o supranacional. Este modelo é uma rede
policêntrica, onde coexistem diversas formas de regulação.

Não seria errado, portanto, afirmar que as políticas públicas relacionadas ao


bem-estar social, neste último modelo citado, permaneceriam dentro da capacidade
decisória do Estado. Já os temas relativos à energia, segurança internacional,
transportes, telecomunicações, finanças, comércio e meio ambiente seriam tratados em
um âmbito internacionalizado do ponto de vista jurídico. Enquanto uma normatividade
surge espontaneamente dentro de um Estado devido à falta de atenção ou capacidade de
tratar do tema por parte dele, no círculo empresarial, tal normatividade é intrínseca ao
meio, não possuindo eficácia em um determinado território, e sim em uma atividade
comercial ou financeira específica. A normatividade existente no meio empresarial é
oriunda de costumes e convenções e serve para regular a própria atividade comercial.

Por fim, cabe citar quais são as fontes de produção normativa deste cenário
hipotético. Existem as fontes supranacionais, que surgem quando os Estados delegam
parte de sua atividade reguladora para uma instituição multilateral internacional.
Ressalta-se também as fontes privadas, que englobam as práticas das entidades

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empresarias. Por fim, encontra-se as fontes técnicas e comunitárias, sendo que aquela é
baseada no conhecimento especializado e com embasamento científico, enquanto esta é
fundamentada em movimentos sociais e na capacidade de mobilização da população.
Vê-se enfim a flexibilidade deste modelo, que está constantemente se adaptando e onde
as diversas ordens detentoras de capacidade normativa e reguladora são capazes de
efetivar o que determinam.

Portanto, com estes cinco cenários em mente, é possível raciocinar o que a atual
relação entre o Direito, o Estado e a Economia, marcadas pelos efeitos da crise
financeira de 2008, podem conceber num futuro próximo. A tese de José Eduardo Faria
se baseia em dizer o que pode vir a ser o Direito e o Estado, tendo como pano de fundo
a atual conjuntura socioeconômica. Todos estes cenários hipotéticos dão origem a um
questionamento, ou seja, o desenvolvimento da tese, que aborda fatos que envolvem o
sistema jurídico de múltiplas ordens.

3. O RACIOCÍNIO DESENVOLVIDO

O autor desenvolve sua tese de modo a ‘testar’ teoricamente as hipóteses


anteriormente levantadas. De seu ponto de vista, os três primeiros são pouco exequíveis.
Ele desconfia da inexistência de um “mundo comum”, apesar da globalização, e de um
ente regulador global efetivo; entende que Estados fortes não conseguem sobreviver
isolados do mundo financeiro; e não acredita que os atores econômicos tenham
responsabilidade suficiente para gerir todo um cenário global.

O que chama de “república mundial” é sabidamente utópico. Não há hoje no


mundo condições para seu exercício. Sendo uma boa ideia para o campo econômico,
não encontra a mesma fundamentação sólida no campo político, dada a complexidade e
variedade das realidades sócio-culturais ao redor do planeta.

O Estado forte parece padecer de problema mais grave, pois além das
dificuldades econômicas impostas pelo isolamento em relação ao mercado financeiro,
teria grandes chances de enfrentar resistências políticas internas e externas tendentes a
minguar seu poder e sua sustentabilidade como modelo. No mundo atual, os países que
adotaram a ideia de isolamento e “independência” dos mercados globais terminaram por
desenvolver também sistemas antidemocráticos, conscientemente ou não. Exemplos
deles são a Coréia do Norte e Cuba que, à margem do sistema financeiro, receberam
retaliações dos Estados que se apoiam no atual sistema econômico para se desenvolver.
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É digno de nota o fato de serem tão distintos os cenários propostos. José Eduardo Faria
não chega a mencionar isso, mas são quase opostas essas hipóteses: uma busca a
solução global, ao passo que a outra aposta na individualização das políticas por cada
Estado.

O terceiro cenário, também diverso, fala de autorregulação. Ele alça o Direito a


um patamar mundial sem que para isso exista um Estado desse nível. O problema
político da primeira situação até poderia ser aqui superado, mas haveria um novo: muito
poder estaria concentrado nas mãos de grupos cuja moralidade não é conhecida; grupos
que não teriam a quem se reportar e que, portanto, poderiam ficar sem controle.

Ao mesmo tempo em que trata das hipóteses mais exequíveis, José Eduardo
Faria explica o que aconteceu previamente em boa parte dos Estados do mundo. Houve
uma desjuridificação de muitos processos. Isso se deu através de revisão de políticas
legislativas com consequente enxugamento do ordenamento jurídico local. O Estado
ainda deteve consigo o poder e a autoridade, mas diminuídos em função da delegação e
da permissão concedidas a determinados agentes sociais e, principalmente, econômicos
de resolver seus próprios problemas, sem ter que recorrer ao Direito positivo estatal. A
isso se soma a crescente influência desses agentes também na formação do Direito e das
normas às quais se sujeitariam. Pode-se dizer que o Estado resolveu se afastar das
negociações privadas porque assim imaginava conservar seu poder e facilitar o
funcionamento de um mundo globalizado e, portanto, mais veloz e dinâmico. Nesse
sentido, o Estado aumentou o poder do terceiro setor e dos segmentos privados,
vendendo empresas e rompeu monopólios estatais. A própria criação do Direito foi
flexibilizada, pois o legislador passou a ouvir muito mais os agentes econômicos. Isso
se deveu a um medo do próprio governante de, em função de padrões rígidos e
impostos, ser desmoralizado e deslegitimado.

O Estado nacional e o Direito sofreram uma metamorfose: aquele passou a não


ser o único emanador de normas, e este teve que coexistir com outras fontes de
regulação. Por mais que continue existindo e valendo, o Direito posto agora figura como
parte de um todo normativo, estando o sistema jurídico composto de múltiplos níveis, a
saber: local, nacional, supranacional, transnacional, internacional limitado e
internacional global.

José Eduardo Faria defende que a crise financeira seja enfrentada globalmente e
em conjunto pelos Estados e demais agentes que se mostraram “produtores” de normas
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de economia mundial. Neste ponto traz à discussão o G-20, que concluiu que medidas
keynesianas locais não seriam capazes de solucionar o problema que atingiu o mundo
todo, assim como políticas exclusivas de países desenvolvidos. Os Estados – marcos
políticos e administrativos – podem, sem precisar consultar seus filtros legislativos [e
isso claramente demonstra como o Direito positivo de cada um perde a exclusividade],
aplicar decisões de organismos multilaterais e supranacionais, como FMI, OCDE e
OMC.

O autor firma sua crença em algo próximo ao quarto ou quinto cenários como
futuro do que chama “arcabouço do Direito” depois da crise, reforçando a ideia de
“multissoberania” geradora e aplicadora de normas tão vigentes quanto as estatais. Já
em termos locais e nacionais, ele acredita que os Estados tenderão a estabelecer e
regulamentar um piso social e um teto econômico, valendo-se de políticas e normas que
não necessariamente estarão sujeitas à influência de organismos supranacionais. Neste
ponto também cresce a participação de outros entes que não o Estado, mas de forma
moderada e sem a presença dos grandes conglomerados econômicos. Ao mesmo tempo
– e para manter a eficácia do estrato piso-teto –, aumenta a severidade do Direito Penal.
Não em qualquer matéria, mas nas que dizem respeito à economia. Essa parte penal diz
respeito tanto a realidades nacionais quanto a internacionais e se relaciona com políticas
de prevenção, como decisões do Basel Commite on Banking Supervisor e
recomendações como as dos Acordos de Basileia. Estes últimos preveem a criação de
reservas econômicas para o sistema financeiro, cobrindo os grandes bancos com
“colchões” fixos e anticíclicos de conservação. Há também sugestões de criação de um
Consumer Financial Protection Bureau e de um sistema de estatização temporária de
determinados setores em crise, a título de intervenção cirúrgica no sistema financeiro.

Depois da crise financeira, a tendência observada e desenhada por José Eduardo


Faria é, de certo modo, uma manutenção do que já se aplica. Isso significa que o Estado
ainda existe e detém o poder sobre o sistema jurídico, mas este passa a ser difuso. Ele
acredita ainda que a regulação econômica crescerá, apesar dos custos para tal, em
função do trauma recente – causado, em parte, pelo descontrole generalizado sobre os
processos financeiros – e visando o bem maior chamado “estabilidade sistêmica”.

CONCLUSÃO

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Esta última crise econômica desestabilizou em muitos aspectos o cenário
mundial. Ao mesmo tempo em que aumentou as apostas, especulações e engrossou
projetos de internacionalização e união das esferas de poder, expôs certos problemas a
esse tipo de tese. Em cenário de crise, muitas vezes os instintos humanos ficam mais
evidentes e a defesa própria aparece em primeiro lugar. Nesse sentido é que vieram,
com força sem precedentes, movimentos separatistas, principalmente na Europa e
notadamente na Espanha e no Reino Unido. É paradoxal ver, por um lado, o
aprimoramento de organizações reguladoras supranacionais (UE, OMC, FMI) somado a
“junções” de Estados em certos aspectos e, de outro, as tentativas de redução a um
caráter mais local dos centros de decisões (Escócia e Catalunha nunca antes foram tão
fortes e enfáticas quanto à separação).
Parece-nos claro o aspecto cíclico da economia, em função do qual, de tempos
em tempos surge uma crise. Mutatis mutandis, repetem-se padrões periódicos de
Estados liberalizantes, crises, Estados fortes, reformas de pensamento econômico,
Estados liberalizantes e crises. A História mostra como essas crises vêm e vão, e como
os Estados se portam para superá-las e, sem sucesso, extingui-las. Em face disso,
ultimamente vêm ganhando força os organismos internacionais de controle econômico.
É preciso ter em mente que eles já existem (como a OMC) e que, se têm sido pouco
efetivos, é por falta de aprimoramento e vinculação de suas decisões. Talvez falte
também uma “Organização Mundial do Mercado Financeiro”, daí sugestões de criação
de órgãos como o Consumer Financial Protection Bureau ou o Basel Commite on
Banking Supervisor, porque a desregulamentação ou autorregulação dos mercados
financeiros se mostrou um tanto quanto inexitosa.
Em meio a tudo isso, ocorrem modificações no Estado e no Direito. As relações
econômicas há muito superam os limites de Estados-nacionais, bem como o fluxo de
capitais, mercadorias, tecnologias e informações. Os Estados até participavam desse
mercado globalizado, mas como agentes econômicos e não como “normatizadores”. O
que se observa é que houve um enorme atraso dos Estados em subirem o nível das
normas para o mesmo patamar em que se encontravam as negociações, permanecendo
aquelas locais enquanto estas já eram mundiais.
A crise foi o estalo que alertou o mundo para isso e, portanto, trouxe consigo
modificações. Se antes o Estado não atingia com seu ordenamento jurídico o nível
internacional e, mesmo no nacional, flexibilizava suas normas, hoje ele passa a perder a
primazia sobre o controle de negócios, dando lugar a um sem-número de organizações e

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agentes. O Direito, por sua vez, continua o mesmo, tendo o mesmo valor, a mesma força
coercitiva, a mesma validade. Mas ele já não é mais a única fonte de normas, pois no
mesmo ritmo que o Estado perde a primazia normativa, o Direito positivo perde a
exclusividade. Isso é uma tendência.
O que parece ser uma alternativa saudável para o cenário de globalização e
desregulação econômico-financeira é uma flexibilização de fontes normativas, mas não
flexibilização de normas. Isso significa dizer que é irreversível o fato de o Estado não
mais regular sozinho – o que seria impossível, porque de um único lugar não se pode
extrair regras para todo o mundo – o cenário do planeta, mas que a regulação em si
precisa ser aprimorada para ter mais efeitos, o que passa pela criação de regras mais
rígidas e estáveis. O objetivo central dos Estados, agentes e reguladores é atingir uma
estabilidade que, não sendo eterna, como mostra a História, seja duradoura e sólida o
bastante para minimizar os efeitos de uma nova crise. Como que estabelecendo limites
para a onda de energia que irradia após uma explosão, o desafio do Estado, do Direito e
das organizações supranacionais é formar um piso que garanta que o desemprego e as
mazelas sociais não atinjam tão fortemente as populações mundiais a cada ciclo
econômico encerrado. O sistema financeiro precisa servir a economia real sem
apropriar-se dela.

BIBLIOGRAFIA
FARIA, J. O Estado e o Direito depois da Crise. São Paulo: Editora Saraiva, 2010.

SNYDER, Jack. One World, Rival Theories. Foreign Policy, n. 145, p. 52-62, 2004.

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