Você está na página 1de 4

Nome: Victor Pomares Alves

Nº USP: 8997911

1)

i) Para essa questão, é essencial a análise do que diz o artigo 458 do Código Civil:

“Art. 458. Se o contrato for aleatório, por dizer respeito a coisas ou fatos futuros, cujo risco de
não virem a existir um dos contratantes assuma, terá o outro direito de receber integralmente
o que lhe foi prometido, desde que de sua parte não tenha havido dolo ou culpa, ainda que
nada do avençado venha a existir”

Fica claro pela descrição do caso que o contrato assinado pelas partes chamado na praça de
negócio como “advocacia de partido”, é um tal contrato aleatório. As partes negociantes, por
comodidade, facilidade, celebram um contrato único, em que se prevê o pagamento fixo
mensal para o advogado ou escritório, que como contrapartida, realizará toda as atividades
necessárias para o bom andamento jurídico do seu cliente. Assim, ao invés de se assinar um
contrato cada vez que haja a necessidade da intervenção técnica de um advogado, as partes
optam por cada uma assumir uma parte do risco da outra, como contrapartida da
desburocratização que daí resultará para a relação de ambas. O preço acordado para
pagamento é uma estimativa para ambas de um preço que remunere justamente a quantidade
esperada de trabalho que a outra parte irá ter. Mas como um contrato aleatório que é, essa
estimativa não pode ser alegada em momento futuro, nem se uma das partes trabalhar mais
do que estava esperando quando da realização do contrato, nem tão pouco se pouco ou nada
trabalhar, porque não foi necessário, como motivo para desconstituição do contrato e da
obrigação.

O STJ tem esse entendimento cristalizado, qual seja, que não se deve, pela mera inocorrência
ou ocorrência em demasia das expectativas de um dos negociantes de um contrato aleatório,
exigir restituição ou reparação por parte do outro. O risco é parte integrante de um tal
contrato:

“AGRAVO REGIMENTAL. SEGURO. PRÊMIO. RESTITUIÇÃO. RISCO. CONTRATO

ALEATÓRIO. PRECEDENTES.

- Os valores pagos a título de prêmio pelo seguro por invalidez ou

morte não são passíveis de restituição, uma vez que a entidade

suportou o risco, como é próprio dos contratos aleatórios” (STJ, AgRg no Ag 800429, 3ª Turma/STJ, Min.
Rel. Humberto Gomes de Barros)

CIVIL. PREVIDÊNCIA PRIVADA. DESFILIAÇÃO. A desfiliação do associado


não implica a devolução dos valores por ele pagos a título de

pecúlio por invalidez ou morte - tudo porque, enquanto subsistiu a

relação, a instituição previdenciária correu o risco, como é próprio

dos contratos aleatórios. Agravo regimental não provido (STJ, AgRg no REsp 617152, 3ª Turma, Min.
Rel. Ari Pargendler)

Assim, não procede a alegação da empresa, que deveria pagar Camila até o final da vigência
do contrato, independente desta estar ou não efetivamente diligenciando em favor da
empresa, pois num contrato aleatório tal qual for firmado entre as partes, a não ocorrência do
fato futuro e incerto como uma das partes esperava que seria não a desonera para com sua
obrigação

Portanto, Camila poderá ajuizar uma ação de cobrança contra a empresa, pois aquela estava
sim obrigada a paga-la no período em que o contrato previsse, independente desta ter de fato
ou não prestado serviços a empresa.

ii) Aqui também Camila poderia ajuizar ação de cobrança contra a empresa, e também não
prospera o argumento da empresa de que nada deve, mas as motivações para tal são distintas
do caso anterior. Agora o contratante, mais cauteloso, condiciona o pagamento a Camila à
efetiva realização de alguma diligência dessa em favor da empresa. Ainda que o valor seja o
mesmo do anterior, se acautela a empresa de não correr o risco de ficar obrigada, como ficou
no primeiro caso, a cumprir a obrigação mesmo que não tenha tido nenhuma efetiva
contraprestação a ensejá-la. Contudo, o condicionamento parece bastante claro: “ Desde que
haja diligências a serem realizadas”. Não se faz nenhuma menção no caso em vista à
freqüência ou intensidade dessa atividade. Bastava que Camila fosse efetivamente acionada
para o contrato se aperfeiçoar e , a partir de então, criar deveres e direitos para ambos os
contratantes. Assim, não importa que Camila tenha trabalhado menos do que a empresa
havia previsto. A condição foi implementada. O artigo 459 pode oferecer excelente norte para
como se deve entender tal situação:

“Art. 459. Se for aleatório, por serem objeto dele coisas futuras, tomando o adquirente a si o
risco de virem a existir em qualquer quantidade, terá também direito o alienante a todo o
preço, desde que de sua parte não tiver concorrido culpa, ainda que a coisa venha a existir em
quantidade inferior à esperada.”

Diferencia-se tal situação do primeiro pelo fato de que no primeiro, o contrato já se


aperfeiçoou no momento de sua celebração, criando já naquele momento os deveres e
obrigações de cada parte, haja vista que o risco futuro e incerto fazia parte mesmo daquele
contrato. No segundo, o contrato se aperfeiçoa quando do surgimento de diligências para
Camila realizar. Supondo que findo o tempo do contrato, está não tivesse realizado nenhuma
atividade em favor da empresa, parece claro que a condição para o pagamento não teria sido
implementado, e, portanto, nada deveria a empresa para Camila.

iii) Para tal análise, é necessário se valer da análise dos seguintes artigos:

Art. 460. Se for aleatório o contrato, por se referir a coisas existentes, mas
expostas a risco, assumido pelo adquirente, terá igualmente direito o alienante
a todo o preço, posto que a coisa já não existisse, em parte, ou de todo, no dia
do contrato.

Art. 461. A alienação aleatória a que se refere o artigo antecedente


poderá ser anulada como dolosa pelo prejudicado, se provar que o outro
contratante não ignorava a consumação do risco, a que no contrato se
considerava exposta a coisa.

Essa disposição contratual significa pois, para o adquirente, que este está absorvendo para sua
esfera jurídica o risco do perecimento casual da coisa. Se o contrato poderia a princípio se
anular com o perecimento da coisa, por ter criado para o alienante uma obrigação de dar
futura e certa, com essa nova clausula, ainda que o quadro se perca ou tenha se perdido, o
adquirente estará obrigado a dar um valor para o alienante. É o que se extrai do artigo 460.
Contudo, como o legislador anteviu a possibilidade de está clausula ser usado para perpetrar
fraudes contratuais, dispôs que se o adquirente provar que o alienante sabia ou não ignorava o
risco a que estava exposta a coisa, e ainda assim prosseguiu com a negociação contratual.
Portanto, se ele pudesse provar que a diretora da empresa Brasileira Ltda. Sabia da perda do
quadro pelo incêndio do MASP e ainda assim assinou tal contrato, inclusive com essa clausula,
a alienação poderá ser anulada. Vale dizer, em se constatando a má-fé da diretora, que nesse
caso pareceria irrefutável, caberia conjuntamente um pedido de danos morais

2)

Contratos aleatórios se aperfeiçoam no momento de sua celebração e os riscos de perda e


ganho dele são inerentes de sua figura. Está imiscuída com o escopo desse contrato a
possibilidade de uma das partes não ver satisfeito como previa inicialmente seu interesse, o
que não será base para justificar eventual anulação do contrato ou da obrigação dele
decorrente. Assim, a não equivalência das prestações devidas é figura característica desse
contrato. Quem o celebra já deve levar em consideração a possibilidade de sair perdendo. Há
sempre o risco de uma das partes, ou ainda as duas, verem frustradas parcial ou totalmente
suas expectativas, sem que com isso se desonerem da obrigação.

Outra é a realidade do contrato condicionado. Em regra, as prestações dele decorrentes são


equivalentes (pelo menos subjetivamente) e conhecidas por ambas as partes. Não é o quanto
de perda ou de ganho que está na pendência do fato futuro e incerto (diferentemente do
contrato aleatório), e sim se elas acontecerão ou não, ou até quando, mas não quanto. O
“quanto” acontecerá, se acontecer, já é certo para as partes. O Contrato condicionado (por
condição suspensiva ou resolutiva) não “surpreende” as partes do quanto cada um está
onerado para com a outra. Já nos contratos aleatórios, o evento futuro e incerto determinará
o quanto cada parte está obrigada, fato esse que era desconhecida para elas quando da
celebração do contrato. É comum nos planos de saúde , por exemplo, as seguradoras
estabelecerem preços diferentes para seus segurados em virtude de faixa de idade, uma vez
que ela pretende incorporar no preço os riscos que ela tem em segurar alguém que,
potencialmente, ira usar mais do seu serviço que outras faixas. A parte pode até tentar prever,
precificar o risco, o que é totalmente válido. Mas ainda assim, o fato futuro e incerto poderá
acarretar para ela custos maiores que o previsto, de que ela não poderá se esvair por mera
alegação de que “não sabia que seria assim”.

Você também pode gostar