O Positivismo sem Negacionismo1 na Geografia

RESUMO Este artigo objetiva comentar o capítulo “A Filosofia (Neo) Positivista e a Geografia Quantitativa2”, de José Carlos Godoy Camargo e Dante Flávio da Costa Reis Júnior, inserido na obra “Contribuições à História e à Epistemologia da Geografia”. Busca-se destacar a amplitude da Geografia, em sua relação dialética com a ciência, e como os paradigmas nela estabelecidos não são excludentes entre si, até pelo caráter plural da disciplina, sendo perfeitamente factível a coexistência de correntes como a teoretica-quantitativa, radical-crítica, e humanistacultural, entre outras, da mesma forma que se faz necessário um diálogo entre elas. A estrutura deste artigo está composta por: 1. Introdução, onde se destacam os principais argumentos do trabalho de Camargo e Reis Júnior (2007), incluindo comentários; 2. Questões epistemológicas envolvendo a geografia; 3. A geografia teoretica-quantitativa e sua relação com o (neo) positivismo: possibilidades e limites; 4. Considerações finais, destacando a pluralidade da geografia e a necessidade do diálogo entre suas várias correntes. ABSTRACT This article aims to comment on the chapter “The (Neo) Positivistic Philosophy and the Quantitative Geography”, by José Carlos Godoy Camargo e Dante Flávio da Costa Reis Júnior, in “Contributions to the History and Epistemology of Geography” 3. Particular emphasis is given to Geography’s wide scope, and its dialectical relationship with science, also showing how paradigms in that field are not mutually exclusive, due to its pluralistic character, and how feasible it is their co-existence, be it, for instance, the theoretic-quantitative, radical-critical, or humanisticcultural branch, calling for a necessary dialogue among them. The structure of this article goes as follows: 1. Introduction, where the main points of Camargo & Reis Júnior (2007) ideas, including comments; 2. Epistemological issues concerning Geography; 3. The Theoretic-quantitative Geography and its relationship with (neo) positivism: possibilities and limits; 4. Final remarks, evidencing Geography’s plurality and the need of dialogue among its multiple tendencies. 1. Introdução As diversas correntes da geografia lhe conferem um caráter dinâmico e plural – uma característica que leva a repensar constantemente sua natureza. Camargo e Reis Júnior (2007, p. 84) enfatizam a necessidade de os geógrafos terem conhecimento das várias escolas epistemológicas, e a consequente opção/apoio a uma ou outra corrente que mais se identifica com suas respectivas áreas de trabalho. Denomina-se Geografia “Teorética e Quantitativa” ou Geografia “Neopositivista” a corrente que começou a se formar logo após a Segunda Guerra Mundial e que terminou por trazer
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Negacionismo (do francês négationnisme) é a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável. Fonte: Maslin, J. Michael Specter fires bullets of data at cozy antiscience in “denialism”. The New York Times. 4 de novembro de 2009. Acesso em 17 de fevereiro de 2011. 2 Neste trabalho, a Geografia Quantitativa poderá ser chamada de Teoretico-quantitativa ou mesmo Nova Geografia. 3 CAMARGO, J. C. G.; REIS JUNIOR, D. F. da Costa.A Filosofia (Neo) Positivista e a Geografia Quantitativa. In: Contribuições à História e à Epistemologia da Geografia (Org: Vitte, A. C.) Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2007, pp. 83-99.

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profundas modificações teóricas e metodológicas, caracterizando-se pelo emprego maciço das técnicas matematico-estatisticas na geografia. Segundo Burton, “a revolução quantitativa na Geografia começou no fim da década de 1940 ou no início da de 1950, atingiu seu máximo no período de 1957 a 1960 e agora está terminada [ou seja, se tornou corriqueira]” (Burton, 1977, p. 66) 4. Em seu trabalho original5, Burton afirma que técnicas quantitativas são o método mais apropriado para o desenvolvimento da teoria em geografia. O autor enfatiza que qualquer ramo da geografia que se diz científico tem a necessidade do desenvolvimento de uma teoria, e qualquer ramo da geografia que necessite de teoria necessita de técnicas quantitativas. Camargo e Reis Júnior (2007, p. 84) seguem afirmando que os geógrafos que adotaram a linha “quantitativa”, na ânsia de tornar a geografia uma verdadeira ciência, foram buscar os embasamentos teóricos na chamada Filosofia Neopositivista. O positivismo6 é um movimento relacionado com o empirismo e o naturalismo introduzido em meados do sec. XIX por Auguste Comte, juntamente com o reformador social SaintSimon. O que destaca o positivismo na sua forma original é a tentativa de descrever a história do pensamento humano como uma evolução em certos estágios definidos, que Comte classificou de religioso, metafísico, e científico. A ciência se tornou mais autoconsciente, e mais preocupada em extirpar os elementos metafísicos da própria ciência. Ela é baseada na observação, e não deveria apelar para aquilo que não puder ser observado. No seu aspecto social e ideológico, o pensamento conservador subjacente ao positivismo encarnava os interesses das classes dominantes européias, que precisavam encontrar uma solução para suas crises políticas e sociais, particularmente no final do século XIX. Vale lembrar que a República brasileira nasceu sob a égide positivista, permeada nas forças armadas de então, e sintetizada pelo slogan da bandeira da “Ordem e Progresso”, numa tentativa de inocular o princípio na cultura da jovem nação que se formava7. Na vertente científica, o positivismo assume o papel de valorizar o conhecimento racionalizado, que era considerado útil, técnico, objetivo, baseado nos fatos concretos observados no mundo real e que poderiam ser apreendidos pelo sujeito do conhecimento. Depreende-se daí o quanto a filosofia dá importância ao que se verifica pela via empírica, a ponto de considerar a observação e a experimentação os únicos critérios para atestar a veracidade, a única base possível para se atingir o conhecimento de fato. O empirismo é o método positivista por excelência: qualquer observação que embasa o nosso conhecimento, ou os elementos pelos quais é construído pela experiência dos cinco sentidos tradicionais8. O empirismo tem suas raízes na idéia de que todos nós podemos saber sobre o mundo e o que o mundo quer nos dizer; nós devemos observá-lo de forma neutra e não passional, e qualquer tentativa de moldar ou interferir no processo de receber tal informação pode levar à distorção e imaginação arbitrária. A passagem do positivismo tradicional para um novo – o Positivismo Lógico (ou Neopositivismo ou empirismo lógico/linguístico) – se deu nas primeiras décadas do século XX, em Viena, Áustria. O princípio central da doutrina do movimento, normalmente chamado de princípio
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BURTON, I. A revolução quantitativa e a geografia teorética. Boletim de Geografia Teorética. Rio Claro, v. 7, n. 13, 1977, p. 63-84. Apud CAMARGO e REIS JUNIOR (2007, p. 84). Considera-se finalizada pelo método ter alcançado o status de “normal” dentro da geografia. 5 BURTON, I (1968). 6 HONDERICH (1995, p.705-706). 7 Comentário deste autor. 8 HONDERICH (1995, p.226-229).

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Camargo e Reis Junior (2007. mas a singularidade é de primordial importância (Hartshorne. 10 Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 3 . Por sua vez. p.F. de cunho neopositivista. 141 f. Lacoste (1992. com a noção de que sentenças individuais ganham seu sentido por alguma especificação dos passos reais que tomamos para se determinar sua veracidade ou falsidade. Dissertação de mestrado em geografia. O excepcionalismo na geografia: um estudo metodológico. 193916. A filosofia no século XX: ensaios e textos. 1978. o autor enuncia: “Uma descrição. 1953. da C. D. 4)12 enuncia que “a linguagem da física é de imediato considerada. Annals of the Association of American Geographers. F. por princípio. p. E este processo de inferir resultados genéricos (replicáveis) a partir de fatos particulares devidamente experimentados trouxe avanço no conhecimento (…). atacando os sistemas explicativos de até então. p. Significado e verdade. ao contrário do positivismo tradicional. p. mesmo seguida por uma classificação. Rio Claro. Apud CAMARGO e REIS JUNIOR (2007. 7. p. Para Reis Júnior (2003. Rio Claro. Neste sentido. o neopositivismo acarretou o estabelecimento da teorização. A valorização do procedimento indutivo. a principal diferença entre o positivismo e o neopositivismo é a existência de enunciados protocolares ou axiomas no segundo. significa sempre reconhecê-los como casos ligados a leis. p. começa a ser novamente ensejada. 92). Fred Schaefer foi um dos autores seminais para a mudança de postura da geografia – de idiográfica (análise das partes separadamente) para nomotética (estabelecimento de leis gerais). p. 33) 10. Apud CAMARGO e REIS JUNIOR (2007. 14 SCHAEFER. F. 11). K. (…) a ciência não se interessa tanto pelos casos individuais quanto pelos padrões que eles exibem. p. 432). 2003. Schaefer (1953. 2003. 13.” 14 Schaefer (1953)15 classificou de “excepcionalista” qualquer crença de que a metodologia científica da geografia era de alguma forma diferente daquela praticada geralmente na ciência. por exemplo. a tarefa essencial da filosofia consiste em analisar as sentenças do conhecimento com o propósito de torná-las claras e não ambíguas. como linguagem universal da ciência. p. Apud CAMARGO e REIS JUNIOR (2007. Campinas: Papirus. 94) 15 Schaefer. o que culminou com o aparecimento da geografia quantitativa. 94) relembram que entre as décadas de 50 e 60 passaram a ser comuns declarações solicitando a quantificação e a matematização em áreas de interesse da geografia. p. 89) 11 RUSSEL. 43. 1992. Rio de Janeiro: Zahar. pressupondo leis gerais operantes na manifestação de fenômenos 11. Uma das principais razões para ter uma visão excepcionalista era a singularidade da localização dos dados arranjados no espaço: “o grau em que os fenômenos são únicos não é somente maior na geografia do que em muitas outras ciências. como a única linguagem que permite aos homens comunicar-se com clareza”. Se as sentenças sob escrutínio não se enquadram no teste de verificabilidade. Explicar os fenômenos. O humano pelo viés quantitativo: um exame do (neo) positivismo em Speridião Faissol através da análise de textos selecionados. J. Reverenciando a física como modelo e acatando os efeitos epistemológicos da adoção de um viés matematizante. 5-37. v. 22) 13. Boletim de Geografia Teorética. que foram descritos. p. Em seu artigo Exceptionalism in geography: a methodological examination (1953). auxiliado pela análise lógica. Exceptionalism in geography: a methodological examination. No âmbito da geografia. 226-49 Apud BIRD (1993. Pode-se dizer que o neopositivismo conserva o monismo ideológico original. para os membros do Círculo de Viena. K. B. não explica a maneira pela qual os fenômenos estão distribuídos no mundo. no. Segundo Feijó (2003. 1977.da verificação9. 90) 12 LACOSTE. 91) 13 REIS JÚNIOR. Apud CAMARGO e REIS JUNIOR (2007. Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista. 239). disse: 9 ibid Apud CAMARGO e REIS JUNIOR (2007. enquanto que o primeiro não admitia apriorismos. p. p. então são consideradas sem sentido. ao comentar o enunciado.

Ela visa três objetivos: 1. 10 de junho 1836) foi um físico... do mundo real (. 1939. ou seja. a Matemática é então o melhor instrumento de que dispomos para este fim.“Daí. Um objetivo metodológico para fazer compreender as modalidades de aquisição e de organização dos conhecimentos que serão utilizados. 20 de janeiro 1775 — Marselha. 5) 19 André-Marie Ampère (Lyon. à medida que a matemática foi se mostrando capaz de abarcar também relações de natureza mais qualitativa. equilíbrio. Questões epistemológicas envolvendo a geografia. cientista e matemático francês que fez importantes contribuições para o estudo do eletromagnetismo. ora trivial (Teoria dos Conjuntos). Cit. neste sentido que a matematização mantém elo com a visão neopositivista do mundo. a epistemologia adquiriu seu estatuto científico dentro da linhagem da filosofia das ciências após dois trabalhos seminais: o Discurso do Método de Descartes (1637) e o Ensaio sobre a filosofia das ciências de Ampère (1860) 19. p. 94). Teoria da Complexidade). Um objetivo de conhecimento do pensamento dominante. p. Apud CAMARGO e REIS JUNIOR (2007. homeostase. deixou por Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 4 . mesclando-a tanto quanto possível. R. a necessidade de aperfeiçoar a teoria e de testá-la pela previsão. mais ou menos consensualmente. 2. se não impossíveis. De acordo com Bailly e Ferras (2001. ou seja. sistema aberto etc. The nature of geography.) Vale reforçar que. 11). Entre suas obras. ora mais aprimorado (Teoria dos Jogos. no empenho da coleta das idéias fundamentais dos procedimentos de controle dos resultados. portanto. Vale ressaltar que os geógrafos da corrente neopositivista ocuparam-se com estudos de processo e difusão espacial a partir do momento em que.). filósofo. p. a nova geografia apela para a quantificação maciça. Sobre o emprego da matemática na geografia. 3. A epistemologia18 é abordada em seu senso etimológico como teoria da ciência. Penn: Asociation of American Geographers. ela foi ganhando crédito junto aos que viriam a se constituir nos defensores de seu uso nas ciências sociais ou humanas – é. com um instrumental teórico e/ou quantitativo.”17 Burton também destaca que outro método importante incorporado à Nova Geografia foi a construção e o emprego de modelos. Lancaster. 75) é enfático: “Dada a necessidade de concordar com os ditames rigorosos do método científico. Burton (1977. fato é que eles advêm de alguma maneira. a pesquisa da problemática ou das problemáticas maiores. Muito embora os conceitos em matemática não possuam propriamente um conteúdo realístico. 2. p. para Camargo e Reis Junior (2007. Um objetivo de iluminar as maneiras de agir privilegiadas pela organização do pensamento científico. p.” Por outro lado. atração-repulsão. a fim de melhor compreender as organizações verificadas no espaço. entropia. BIRD (1993. p. difusão. 95) 18 Segundo Bailly e Ferras (2001. 17 Op. 16 Hartshorne. e qualquer predição em geografia é de valor insignificante. 5). os geógrafos neopositivistas assimilaram prontamente a Teoria Geral dos Sistemas. como dinâmica de um pensamento e de um discurso científicos. E. o uso das técnicas matematico-estatísticas que se mostravam à disposição. além da transmutação da física para a geografia (conceitos de gravidade. a geografia foi assumindo a tarefa de lidar com a “organização espacial” dos fenômenos. as generalizações na forma de leis são inúteis.

que. tal conhecimento é tanto sintético como apriorístico. 3. conquanto a essência das coisas [ou noumena] pode ser pensada. não podem ser baseadas na evidência empírica (sua aprioridade). Explanation in geography. ao conhecimento do mais complexo. fazer enumerações tão completas. são exemplos de tais proposições. e movimento das partículas das quais era composta. Conduzir os pensamentos de tal forma que. o autor ressalta a questão metafísica. 1969. Londres: Edward Arnold. R. cientista e filósofo. 100) 24 Moss. cuja influência. 2. 21) 22 HONDERICH (1995. que se possa ter certeza de que nada foi omitido. Na obra. De acordo com Harvey (1969) 23.Nesse sentido. p. ocasionalmente conhecido como o caminho “baconiano” ou indutivo. de tal forma a conduzir a uma resposta adequada. forma. mas também propõe que seus referentes podem ser derivados de uma análise de seus conceitos (sua sinteticidade). P. entendida como o conhecimento filosófico que transcende os limites da experiência 22. há dois caminhos para a explicação científica. Um grande contraponto ao discurso cartesiano foi o trabalho seminal de Immanuel Kant (1724-1804). p. South African Geographical Journal. dessa forma. isso envolve uma forma perigosa de generalização a partir do caso particular. p. como argumenta Moss (1970) 24. excluindo-se qualquer sombra de dúvidas. ainda se faz sentir 20 (…). Acesso em 16 de fevereiro de 2011. 435-438) 23 Harvey. Os enunciados: “Deus existe” e “Todo evento tem uma causa”. Apud JOHNSTON (1986. considerado o mais importante filósofo europeu dos tempos modernos: Crítica da Razão Pura. 20 HONDERICH (1995. Em todas as ocorrências. 4. 122-124) 21 DESCARTES (2008. D. passo a passo. não como realmente são. porque. 52. 1970 Apud JOHNSTON (1986. e revisões tão gerais. Assim. O programa cartesiano pressupunha que todos os fenômenos físicos são explicáveis em termos de modelos ou modificações de extensão. com efeito. p. e. nome dado ao movimento inaugurado por René Descartes (31/03/1596 – 11/02/1650). mas não sabida. a seguir21: 1. p. o conhecimento humano é limitado a aparências ou fenômenos. O filósofo argumenta que. matemático francês. Para Kant. Para Kant. Fonte: Wikipédia. a aceitação das interpretações depende muitíssimo do carisma do estudioso envolvido. o método científico é o do segundo caminho terminar Ensaio sobre a filosofia das Ciências. mesmo hoje. isto significava mostrar como que toda a aparente complexidade e diversidade da matéria poderiam ser contabilizadas pela simples referência de tamanho. que moldou o cenário filosófico do começo do período moderno. 100) Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 5 . isto resulta que nós podemos conhecê-los somente na forma que parecem. O primeiro. a metafísica se propõe não somente prover as verdades necessárias. cuidado no sentido de evitar precipitação e preconceito. uma vez que os objetos devem parecer para nós de acordo com as formas percebidas pelos sentidos. começando pelos objetos mais simples e fáceis se possa ascender pouco a pouco. e não adicionar nada a mais no julgamento do que aquilo que foi apresentado na mente tão clara e distintamente. Authority and charisma: criteria of validity in geographical method. na qual iniciou a classificação do conhecimento do homem. ou seja. O método cartesiano envolve quatro ações distintas. deriva suas generalizações das observações: um padrão é observado e uma explicação é desenvolvida a partir dele e para ele. Nunca aceitar nada como verdadeiro aquilo que não tiver total certeza. Dividir cada uma das dificuldades sob escrutínio em tantas partes quanto possível. V. 13-37. Entretanto. Em outras palavras. não há como falar de método científico sem que se remeta ao cartesianismo.

seria zero. merecedoras do título “ciência”. a nova crença consistia na negação de uma teologia científica. ou verificação. É fácil obter confirmação. do que outras. Irrefutabilidade não é uma virtude de uma teoria.. Popper (1963.). ou do conhecimento teológico. O conhecimento pode ser somente sobre a Natureza. 47-48). Após o advento do Iluminismo. melhor ela é. pela introdução ad hoc de alguma condição auxiliar. 1969. Toda boa teoria científica é uma proibição: ela proíbe certas coisas de acontecer. é que uma generalização pode ser feita. em suas reflexões. um dos mais influentes filósofos de nossa era. digno do nome. que é conhecimento genuíno. Todo teste genuíno de uma teoria é uma tentativa de faseá-la. Algumas teorias genuinamente testáveis. Confirmações deveriam contar somente se elas forem o resultado de predições arriscadas. em 1934. ele então faz experimentos. Karl Popper. e isto significa que ela pode ser apresentada como uma tentativa séria. mas há graus de testabilidade: algumas teorias são mais testáveis. deveríamos ter esperado um evento que era incompatível com a teoria – um evento que teria refutado a teoria. p. seus critérios na aplicação prática do termo. são ainda encampadas por seus admiradores – por exemplo. Este também começa com um observador percebendo padrões no mundo. Tal era o critério da honestidade científica (. Um cientista. 5. p. “Uma lei científica pode ser interpretada como uma generalização que é empírica e universalmente verdadeira. Somente quando suas idéias forem testadas com sucesso. 7. 3. Foi somente com a queda da teoria Newtoniana no século XX que fez com que os cientistas tomassem consciência de que seus padrões de honestidade tinham sido utópicos. em relação a dados diferentes daqueles dos quais elas foram derivadas. argumentou que a probabilidade matemática de todas as teorias. mas mal sucedida em falsear a teoria. Quanto mais uma teoria proíbe. os cientistas afrouxam.. científicas ou pseudocientíficas. mas este novo tipo de conhecimento tinha de ser julgado pelos padrões tirados diretamente da teologia: ele tinha de ser provado além da dúvida. quando provadas em contrário. se. p. ou pela reinterpretação da teoria ad hoc de tal forma que ela escapa à refutação. numa certa medida. destaca que: 1. não elaboradas pela teoria em questão. não podia “achar”: ele tinha que provar cada sentença proferida através dos fatos. 4. dado qualquer quantidade de evidência. Confirmação de evidência não deveria contar exceto quando ela é resultado de um teste genuíno da teoria. 6. e que é também uma parte integral de um sistema teórico no qual temos uma confiança suprema. Entretanto. elas se sujeitam a maiores riscos. mais expostas à refutação. 2.[ou dedutivo]. se procurarmos por confirmações. praticamente em toda teoria. 105) 25 Lakatos (2001. 25 Ibid Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 6 . Tal interpretação rígida poderia provavelmente significar que as leis científicas não teriam existência em todas as ciências. para provar a veracidade das explicações que ele produziu para esses padrões. 2-3) lembra que os cientistas querem fazer com que suas teorias sejam respeitáveis. mas um vício. O autor cita que. Testabilidade é falsificabilidade.” (Harvey. ou alguma outra espécie de teste. ou seja. Uma teoria que não é refutável por nenhum evento concebível não é científica. ou refutá-la.

28 Bailly e Ferras (2001. Para o autor. Um dos conceitos-chave do livro é o de paradigma27. P. afirmando que. isto constitui num pluralismo intolerável. 1970. para Popper. ou refutabilidade. considerado pelo segundo como uma ameaça à ciência. Musgrave (eds. de acordo com Kuhn: “determinação do fato significativo. Criticisms and the growth of knowledge. 13). melhor e mais espaçoso. de valores comuns e das técnicas próprias a um grupo (característica sociológica) que permitem trazer as soluções de problemas científicos pendentes (característica filosófica)”. as teorias científicas não somente são improváveis como também não-prováveis. que. Os cientistas não abandonam uma teoria meramente por causa dos fatos que a contradizem. A ciência normal lida com três classes de problema. não demarcaríamos teorias científicas das pseudocientíficas. Chicago: University of Chicago Press. “é o conjunto de crenças. Uma crise é uma pré-condição para a emergência de novas teorias. 34). Neste último aspecto. 1970. e articulação da teoria” (Kuhn. e podemos quebrá-lo novamente” 30 (. generalizações e experimentos executados para prová-lo são formulados. First Pub. O autor coloca que o critério de falseabilidade de Popper não é a solução do problema da demarcação entre ciência da pseudociência. In I. 51-8. que pode então ser descrito como “ciência normal”. comparação dos fatos com a teoria. apesar de usado por Kuhn em diversas maneiras. uma teoria é “científica” se alguém está preparado para especificar antes um experimento (ou observação) crucial que possa falseá-la. e é pseudocientífica se alguém se recusa a especificar tal “falseador potencial” – neste caso. Vale destacar que o principal trabalho de Kuhn sobre filosofia da ciência. 1962. via pesquisa “extraordinária” levando a um novo metaparadigma via revolução científica. tem sido muito influente no âmbito da ciência. R. o critério do status científico de uma teoria é sua falseabilidade. O autor complementa que é uma característica notável desses problemas normais de pesquisa o quão pouco eles estão propensos a produzir maiores novidades. tais abordagens são muito diferentes umas das outras. ao seu turno.Concluindo. Ed). p. Lakatos. podemos quebrar o arcabouço a qualquer momento. and A. 15). Então. eles a ignoram e dirigem sua atenção para outros problemas. Uma crítica implícita à proposta de Kuhn vem da pergunta: quais os critérios científicos para a mudança da crença de um metaparadigma para outro? Popper. Apud BIRD (1993. Apud BIRD (1993. “paradigma é um arcabouço filosófico e teórico de uma escola ou disciplina científica dentro do qual teorias. “se tentarmos.. 28 Uma diferença fundamental entre o pensamento de Kuhn e Popper29 é a crença da ciência “normal” como o estado básico da ciência. pode significar uma filosofia compartilhada por um grupo de pensadores. além do mais.). A Estrutura das Revoluções Científicas (1962) 26. Isto porque não leva em conta a admirável tenacidade das teorias científicas. Eles normalmente ou inventam alguma hipótese de resgate para explicar o que chamam de mera anomalia ou. p. K.” Tradução livre. Normal science and its dangers. Lakatos argumenta que. p. 30 Ibid Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 7 . Para alguns geógrafos. uma metateoria a orientar seu trabalho. conceituais ou fenomenológicas. S. 6) 29 Popper. nos encontraremos num outro arcabouço. 27 Segundo o Merriam Webster’s Collegiate Dictionary (10ª. outros buscam acomodação via ecletismo.) arcabouços para ações de pesquisa em geografia são diferentes de qualquer perspectiva que pudesse ser chamada de método científico. Cambridge: Cambridge University Press. leis. mas um método científico do não científico. se não puderem explicar a anomalia.. critica a “ciência normal” em seu trabalho O Mito do Arcabouço. 1962. 26 Kuhn. Segundo define o autor. ou testabilidade. T. The structure of scientific revolutions. se Popper estiver certo. há concordância com o que disse Popper.

as correntes teoretica-quantitativa. Assuntos como o tamanho e localização das cidades e a localização dos negócios tinham sido estudados por geógrafos urbanos e econômicos. levaria a generalizações. Qualquer reconstrução racional da história precisa ser suplementada por uma história externa empírica (sócio-psicológica). 6) defende que a crítica elaborada é sempre construtiva: não há rejeição sem uma teoria melhor. p. radical-crítica. 419) Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 8 . a divisão entre a nova e antiga geografia seria a divisão entre os novos e velhos geógrafos (Martin.. 1957-1977: the Augean Period” Annals AAG 69: 139-150. Numa certa medida. a geografia. 2. A Filosofia da ciência proporciona metodologias normativas em termos de que o historiador reconstrói a “história interna”. A História da Ciência refuta tanto Popper quanto Kuhn: numa inspeção de perto tanto os experimentos cruciais popperianos quanto as revoluções kuhnianas não passam de mitos: o que acontece normalmente é que os programas progressivos de pesquisa substituem os decadentes. (. (. nem do regionalismo da escola francesa. como poderia prever o modelo kuhniano: ao invés disso.. Os proponentes da “Nova Geografia” [ou teoretica-quantitativa] argumentavam que a geografia tradicional era intelectualmente fraca e que os acadêmicos de outras disciplinas a enxergavam meramente como uma interpretação de lugares únicos (Gould. 3. e procurava leis de dados aleatórios e processados em computador. mudando a linguagem usada de narrativa para numérica. P. p. enquanto ciência. Duas metodologias concorrentes podem ser avaliadas com a ajuda da história (interpretada normativamente).Lakatos (2001. 3. agregando elementos gerados pela própria evolução científica. 419). Neste sentido.) A nova geografia prometeu maior precisão. O objetivo era fazer a geografia mais científica (ibid). 31 GOULD. 102): 1. em busca de um entendimento e de sua respectiva sedimentação da organização e da evolução da paisagem. A geografia teoretica-quantitativa e sua relação com o (neo) positivismo: possibilidades e limites. e. 1979) 31. 1979 Apud Martin (2005.. duas das mais desenvolvidas áreas na geografia americana por décadas. a imagem de uma espiral ascendente reflete melhor a realidade. e poderia ser cumulativa na sua construção do conhecimento científico. o que implica na necessidade de um melhor diálogo entre elas. e humanista-cultural acabam encontrando pontos de interseção.) Inicialmente ela adicionou menos ao conteúdo do que ao método. Historicamente. não caminha por saltos. R. Eles também acreditavam que através da nova metodologia a geografia poderia se juntar às principais tendências da ciência. na qual a disciplina sempre recorre a modelos históricos das diversas escolas. portanto proporciona uma explicação racional para o crescimento do conhecimento objetivo. Kuhn estaria errado ao pensar que as revoluções científicas são mudanças súbitas e irracionais de visão. 2005. sob pena do dogmatismo ou da redução de seu caráter científico. Ela tentou reorganizar a maneira com que os geógrafos faziam medidas. poderia ser verificada.. a geografia [pósmoderna] não pode prescindir do caráter físico da escola alemã. Essa geografia recém-criada procurava analisar o que dava à paisagem sua feição (tanto física quanto cultural).. Ela também ocupava significativas áreas de crescimento da disciplina. O autor argumenta que (p. p. “Geography. por outro lado.

. uma corrente relevante deste campo se voltou contra a análise de dados espaciais quantitativos. Como delimitação do campo. um dos mais intrigantes paradoxos aos analistas do desenvolvimento da geografia é o fato de que. estatística e análise exploratória de dados espaciais.O conhecimento científico obtido através do método dedutivo é “uma espécie de especulação controlada” (Harvey. é uma prática comum considerar o método científico e o positivismo moderno como sinônimos. os autores colocam que a geografia quantitativa consiste em uma ou mais das seguintes atividades: a análise dos dados espaciais numéricos. xi). D. Replicabilidade. Uma razão comumente expressada para tal atitude negativa contra um dos elementos básicos da disciplina é a desilusão com a filosofia positivista subjacente aos primeiros trabalhos da geografia quantitativa (décadas de 1950 e 1960). matemática e otimização. Murray (2009. conhecido como positivismo. 46). 1969. O método. p. Um observador neutro. análise regional. Explanation in Geography. e foi esse conhecimento que um número crescente de geógrafos humanos procurou aplicar durante os anos 50.) Ele está baseado na concepção de um mundo objetivo. Testabilidade. derivará uma hipótese (uma lei especulativa) sobre algum aspecto da realidade e. 100) 33 Observação deste autor Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 9 . Apud Johnston (1986. ciência da computação e simulação. 5) 32. ao final do século XX. todas33 de ampla utilização prática na sociedade moderna. Isto levaria a uma aceitação na comunidade científica ampla e propiciaria tanto a explicação quanto a predição. p. com as seguintes cinco características principais: • • • • • Objetividade (via uma metodologia livre de valores). Método hipotético-dedutivo (via observação guiada por teoria). Habilidade preditiva. Fotheringham et al (2005. que acabou relegada ao segundo plano pelos novos paradigmas em geografia humana. para Bird (1993. testará aquela hipótese: a verificação de sua hipótese traduz a lei especulativa para o nível de lei aceita. com base tanto em observações como em suas leituras das pesquisas de outros. e. p. no qual seus discípulos não são mais meros importadores de técnicas de outras disciplinas. sensoriamento aéreo. Segundo Fotheringham et al (2005. e a construção e o teste dos modelos matemáticos dos processos espaciais. estruturalismo e humanismo. p. Da mesma forma. p. então. Tal posicionamento não leva em conta os trabalhos mais abrangentes desenvolvidos nas duas últimas décadas. durante as décadas de 20 e 30 [como mencionado anteriormente] (. 1969. 1) fala de seis grandes categorias usadas para discutir a amplitude dos métodos encontrados na geografia quantitativa: sistemas de informação geográfica. o desenvolvimento de uma ciência espacial [no contexto da geografia quantitativa] subentendia a assunção da filosofia positivista – que limita o conhecimento a fatos que podem ser observados e a relações entre os fatos. p. no qual uma ordem existe – padrões espaciais de variação e covariação no caso da Geografia – ela não pode ser contaminada pelo observador. mas principalmente exportadores de novas idéias sobre a análise de dados espaciais. Vale destacar que.. tanto no setor público quanto no privado. 4) alegam que seu livro foi escrito num período quando a geografia quantitativa alcançou o estágio da maturidade. tal como o Marxismo. pós-modernismo. Londres: Edward Arnold. 32 HARVEY. o desenvolvimento da teoria espacial. na mesma medida em que outras disciplinas passaram a reconhecer sua importância. foi desenvolvido por um grupo de filósofos de Viena.

) teorias e modelos lógica e internamente consistentes. Guelke (1971. A outra é o conjunto restrito de ferramentas que temos para testar e refinar tais modelos (Ibid. Amorim Filho (1985. Contudo. 50-1) 34 sumariza que: “A Nova Geografia (. atemporal. enquanto perderam sua compreensão da realidade. como em outras disciplinas. a acusação de que a “Nova Geografia” se transformou em um neopositivismo cientificista e “reducionista”. sem um embasamento teórico suficiente ou sem um teste empírico adequado.) parece pouco provável que possa produzi-las no futuro.De acordo com Fotheringham et al (2005. L. os geógrafos fisico-quantitativos. (.. Todavia. a ênfase da análise quantitativa na geografia humana é de reunir evidência suficiente que torne a adoção de uma linha particular de pensamento convincente.). gerando uma expectativa não satisfeita em relação à capacidade de explicação científica da geografia. o capitalismo. problemas de medida e incerteza.) não produziu ainda quaisquer leis científicas e (..... p. pelo fato de suas investigações serem mais prováveis de envolver processos previsíveis.. p. baseado praticamente apenas na estatística descritiva e inferencial. Tipicamente na geografia. De um lado..) Os novos geógrafos têm insistido com (.. a pesquisa empírica tem dependido das idéias teóricas como guia. por exemplo. p. e a sua dependência ainda se faz sentir nesta direção. 7). a procura não é geralmente pela evidência pura de que leis globais do comportamento humano existem.. Eles alcançaram consistência interna. onde o objeto é tipicamente obscurecido pelas idiossincrasias humanas. (. 206) Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 10 . Na geografia humana. De outro lado. p. 2. 46) destaca a polarização das críticas à Nova Geografia (ou teoretico-quantitativa) em duas grandes direções: 1. 5). A aplicação de modelos matemáticos puros ou de esquemas teóricos como os sistêmicos. Para essa corrente crítica a “Nova Geografia” foi capaz de desenvolver uma explicação no máximo estruturalista. uma vez que os componentes socioeconômicos e históricos do fenômeno estudado não tinham sido analisados de forma eficaz (. a acusação de que o desenvolvimento teórico e metodológico da “Nova Geografia” tem sido insuficiente.. Existem no mínimo duas limitações envolvendo a pesquisa empirico-quantitativa na geografia.” 34 GUELKE. com o advento de novas idéias e técnicas na análise de dados espaciais exploratórios. p. Uma consiste na nossa limitada habilidade de pensar sobre como os processos espaciais operam e para produzir insights que levem a formas melhoradas dos modelos espaciais.. levou à “neutralização” da geografia como uma ciência crítica e ao insucesso de muitas de suas explicações. p. cujos trabalhos – conscientemente ou não – colocam a serviço da ideologia dominante. tendem a adotar um ponto de vista naturalista mais frequentemente do que seus colegas humanistas..) As teorias e modelos (. Ao invés disso.. utilizando um instrumento estatístico ainda muito limitado. 38-53. no caso. a pesquisa empírica está sendo cada vez mais usada para guiar o desenvolvimento teórico para formar uma simbiose equilibrada (Ibid.) não são suscetíveis de teste empírico. 1971 Apud Johnston (1986. nenhum de seus construtos teóricos foi complexo o suficiente para descrever com exatidão o mundo real. Problems of scientific explanation in geography.. The Canadian Geographer 15.13).

Uma observação direcionada pela teoria enxerga os dados em isolamento do “ruído” em volta. 194) 36 afirma que: “Assim. Se o cientista assume que ele é separado dos dados. 5. 133) 35coloca que: “O mundo só pode ser conhecido indiretamente através de idéias (. Journal of the Minnesota Academy of Science. P. 4. Croom Helm. Londres. O conhecimento científico social é construído conscientemente contra o conhecimento assumido como certo do mundo social (Bourdieu e 35 GUELKE. 1981.” Bird (1993. dentro do argumento de que a ciência é empírica. Geography: de facto or de jure. Idealism. Bourdieu é um crítico feroz do positivismo. p 133-47 Apud Johnston (1986. 210) 36 LUKERMANN. Para assumir uma realidade independente do observador é ilógico porque o observador é sempre parte do mundo real sendo observado. todas as metodologias têm de colocar limites entre elas e um contexto infinito. Um geógrafo positivista poderia replicar (p. F. 3. e os ganhos resultantes da seletividade e canalização de esforço pode amputar o que poderia ser um contexto essencial. Pode-se mostrar que a metodologia de fato vicia os resultados. 4. p. em última análise. mas na observação apoiada na teoria é necessária. Segundo Swartz37. 3. e compreende construtos mentais e idéias. vemos a explicação científica afastar-se do contexto ao qual os geógrafos macroscópicos queriam nos levar. Themes in geographic thought. p. Uma metodologia livre de valores é por si uma ideologia. isto é uma crítica sustentável ou não.46) destaca as cinco maiores críticas da metodologia positivista: 1. 32. que é uma das condições subentendidas na hipótese a ser testada. E. por causa de sua 2. p. A ciência não explica a realidade.) de que todo conhecimento está. p. L.” Lukerman (1965. 47): 1. O método científico não impede a inserção de detalhes humanos esclarecedores exemplificando questões importantes. que pode gerar resultados por métodos aceitáveis de testes. baseado em uma experiência individual subjetiva do mundo. O objetivo de um geógrafo humanista não é a explicação dos fenômenos. portanto. É pouco factível assumir que o observador. Bourdieu defende que a evidência não fica simplesmente esperando por ser descoberta. É verdade que o olho tende a ver o que procura. torna-se uma ideologia classificada como de direita no mundo ocidental. Porque tudo é conectado a tudo. p. 189-96. mas não positivista.250-251) Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 11 . alegada neutralidade apóia o status quo subliminarmente. 109) 37 SWARTZ (1997.Em outro trabalho... e todo trabalho é sujeito a crítica. contudo. que. mas a compreensão das ações dos seus pares humanos.). o “cientista” possa objetivamente se separar do objeto observado. a possibilidade dos dados contrariarem a hipótese inicial. ela explica a conseqüência de suas hipóteses. Não há nenhum mundo real que possa ser conhecido independentemente da mente. Guelke (1981. Holly (eds. p. o produto final da pesquisa geográfica. A assunção de uma metodologia livre de valores é um experimento do pensamento (via hipótese) do tipo possibilitante “se”. 2. e. 1965 Apud Johnston (1986. Harvey e B. In: M.

No lugar da idéia de um sujeito de escolha livre presente na natureza humana. então.os números daquela época talvez o justificassem: o Gráfico 1 ilustra que a economia brasileira cresceu vertiginosamente até a década de 1970. e político brasileiro. La spécifité du champ scientifique et les conditions sociaux du propre de la raison. Em suma. Nas décadas de 70 e 80 havia uma corrente na geografia econômica brasileira que compartilhava o preceito da célebre frase de Antonio Delfim Netto 44: “É preciso crescer o bolo para depois reparti-lo” . Bourdieu pensa sobre a racionalidade humana como uma possibilidade histórica que não é inata. é paradoxal: ele propõe tanto uma visão histórica da razão como uma visão normativa e universal. WACQUANT. Ele admite que “o sujeito universal é uma realização histórica que jamais será completada. 1975 apud Swartz (1997) 40 Op. ao invés de um acúmulo de fatos. de maio de 1928. 42 Op. P. D. até meados dos anos 2000. Além do mais. Para Bourdieu. Chicago: University of Chicago Press. tendo impactos sociais diretos na execução de políticas públicas. diminuindo o ritmo após este período. Cit. A seguir. Sociologie et Sociétés. mas nos aparentes mecanismos sociais anárquicos de competição entre estratégias armadas com instrumentos de ação e de pensamento capazes de regular seus próprios usos. 1992:19043). J. ao invés de natural. As propostas teóricas originam da posição do pesquisador no campo intelectual tal como dos limites conceituais da disciplina intelectual. Por outro lado. dois exemplos [recentes] que ilustram o quão inexato – ou manipulável – pode se tornar o método quantitativo. An invitation to reflexive sociology. Ele coloca que a razão científica se realiza quando se inscreve não em normas éticas de uma razão prática ou nas regras técnicas de uma metodologia científica. Acesso em 16 de fevereiro de 2011. Montréal. Fonte: Wikipedia. P. 43 Op. professor universitário. Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 12 . O conhecimento sociológico é fundamentalmente histórico e político. L. 38 BOURDIEU. Bourdieu (1975b39. Cit. mas deve ser conquistada pouco a pouco numa luta sem fim contra o mundo das determinações sociais. no âmbito da geografia. Cit. 41 Op. 1992 apud Swartz (1997) 39 BOURDIEU. tanto no âmbito interno quanto internacional. a ciência progride pelos novos insights críticos dentro do mundo das relações de poder do que é assumido como certo.Wacquant 1992:23538). A posição do autor. e que isto seria um evento desejável. nascido em São Paulo em 1º. 44 Economista. que progredimos em direção a um pouco mais de universalidade” (Bourdieu e Wacquant. nos espaços históricos de forças. ao invés de estabelecer uma razão universal ou um sujeito racional tal como o cogito cartesiano. Cit. Bourdieu sugere que haja o desenvolvimento de uma possibilidade histórica de algo como uma razão universal ou um sujeito racional. a ênfase que Bourdieu dá para o poder e violência simbólicos sugere fortemente que o estudo de fatos “sociais” é bem diferente do estudo de fatos “naturais”. avr. Bourdieu e Wacquant 1992:17640) argumenta que a ciência é um campo de luta pela legitimação social. e nas disposições duráveis que o funcionamento deste campo produz e pressupõe (Bourdieu e Wacquant 1992:18941). O autor admite (1975B 42) que a ciência social não pode nunca alcançar o grau de autonomia das forças externas presente na ciência natural. É através das lutas históricas.

implicando em um problema de escala. pelo gráfico. com o concomitante retardo do desenvolvimento social brasileiro. não demonstrava melhoras palpáveis.pdf . Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 13 . mesmo com a evolução dos indicadores de desigualdade de distribuição de renda no Brasil. que é possível repartir o bolo. Fica implícita a tentativa de se justificar [através de números de crescimento de PIB] uma política econômica concentradora de renda.br/pec/appron/apres/Palestra%20IBEF%20160410%20v03. podemos verificar através da Figura 1 que. tendo o índice alcançado um mínimo histórico no contexto brasileiro. que exprime a desigualdade da renda familiar per capita [no Brasil]. tanto num ambiente de crescimento econômico quanto de recessão (Ver Gráfico 2). o coeficiente de GINI. desde a década de 70 até meados dos anos 2000. quando o país cresceu em torno de 10% 45). 45 Dados disponíveis em http://www. mesmo num contexto de crescimento econômico (especialmente nos anos 2004-2005. Acesso em 22 de janeiro de 2011.Por sua vez. deduz-se. Não obstante. a situação de assimetria social relativa ao resto do mundo é ainda bastante desfavorável.bcb.gov. indicando menor desigualdade.

Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 14 .

Acesso em 26 de janeiro de 2011.” 46 The New York Times.” 46 O outro lado da moeda está contido no artigo do estatístico Edward Wegman 47. Enquanto uma corrente [aparentemente majoritária] apela para o envolvimento urgente dos líderes mundiais no sentido de mitigar o problema. Tradução livre. Artigo disponível em http://www. Um acredita que a ciência está estabelecida. O jornal New York Times assim estabelece um lado da questão: “O Aquecimento Global tem se tornado talvez a questão mais complicada para os líderes mundiais. uma vez que um número cada vez maior de elaborações científicas aponta para os perigos crescentes do aumento dos gases do efeito estufa provocados pelo homem – produzidos principalmente pela queima de combustíveis fósseis e de florestas. O autor coloca que: “No debate sobre aquecimento global. Por outro lado.Outra questão envolvendo posições controversas é a do aquecimento global (Ver Figura 2). e que ações urgentes devem ser tomadas para mitigar ou prevenir uma calamidade futura. particularmente diante de um cenário de desaceleração econômica mundial. Disponível em http://topics. Por um lado.2011. no âmbito da Geografia do Clima. que o aquecimento global é sério e provocado pelo homem. 13. os avisos da comunidade científica estão se tornando mais enfáticos. há essencialmente dois campos majoritários. Acesso em 26 de janeiro de 2011.html?id=22003a0d-37cc-4399-8bcc-39cd20bed2f6&k=0 . e que a prudência pede mais pesquisa e cuidado antes de uma intervenção maciça na economia. enfatizando que os cientistas do clima tem feito um trabalho inadequado na incorporação da tecnologia estatística.canada.com/top/news/science/topics/globalwarming/index. questões tecnológicas. Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 15 . global warming.nytimes.html .com/nationalpost/story. 47 PhD em estatística matemática pela Universidade de Iowa. que pouco é conhecido sobre aquecimento global ou seus efeitos prováveis. Tradução livre. ed. outra argumenta que não há evidências que subsidiem o pânico.01. econômicas e políticas têm de ser resolvidas antes que um esforço mundial coordenado para a redução de emissões possa começar. O outro acredita que a ciência está longe de ser estabelecida.

e como que tais elementos implicam na necessidade de melhoria do diálogo entre as múltiplas correntes que a compõem. enfrentar a possibilidade de que a mente humana. dentro da sociedade (ibid. 23). bem como de todas as questões públicas e perturbações privadas. a “ciência” parece [a muitos] menos um elemento moral criador e uma forma de orientação do que um grupo de Máquinas Científicas. como realidade social. com lucidez. p. enquanto ciência. 20-21) citam Piaget. Pois é a ameaça aos valores existentes – como a liberdade e a razão – que constitui a substância moral necessária de todos os problemas significativos da pesquisa social. p.. seus inventores também não compreendem muito mais (…). e não obstante. perceber o que está acontecendo no mundo. Homens de ciência. O autor (p. “Filosofia da ciência sem história da ciência é vazia. A formulação de qualquer problema exige que exponhamos os valores em causa e as ameaças que sobre ele pesam. destacando o valor do contexto histórico no desenvolvimento epistemológico e identitário da geografia. Por sua vez. 14). possa estar se deteriorando qualitativamente e em nível cultural. o que está ocorrendo no mundo e o que pode estar acontecendo dentro deles mesmos. considerando sua experiência idêntica à experiência humana. Não será esse um dos sentidos da racionalidade sem razão? Da alienação humana? Da ausência de qualquer papel livre para a razão nas questões humanas? A acumulação dos recursos técnicos oculta esses sentidos: os que usam tais recursos não os compreendem.. (. pelo que se acredita geralmente.. hoje. Depois de refletirmos sobre o papel do positivismo na geografia. Além disso.4. Enquanto isso. Considerações finais. como minúsculos pontos de cruzamento da biografia e da história. mas indissociáveis”: as racionalizações são geradas pela Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 16 . Muito do que se considerava como “ciência” passou a ser visto hoje como uma filosofia dúbia.190) questiona se não devemos. história da ciência sem filosofia da ciência é cega.). e compreender o que está acontecendo com eles. já não tentam retratar a realidade como um todo ou apresentar um esboço verdadeiro do destino humano. 11) também coloca que não é apenas informação que [os homens comuns] precisam – nesta Idade do Fato. É essa qualidade que jornalistas e professores. em suma. muito do que se considerava como “verdadeira ciência” frequentemente nos proporciona apenas fragmentos confusos das realidades entre as quais vive o homem. operadas por técnicos e controladas por economistas e militares. reduzindo a capacidade de apreensão da realidade.. e percebermos as virtudes e limitações inerentes ao modelo.” Imanuel Kant. Mills (1980. Bailly e Ferras (2001. p. e pretendendo que somente pelos seus métodos podem os problemas da vida ser resolvidos (ibid. os filósofos que falam em nome da ciência com frequência a transformam num “cientificismo”. é uma qualidade de espírito que lhes ajude a usar a informação e a desenvolver a razão. que distingue dois aspectos do conhecimento “irredutíveis.. a informação lhes domina com frequência a atenção e esmaga a capacidade de assimilá-la (. p. É por isso. em nossa época.. O que precisam. muitos não o percebem devido à esmagadora acumulação de recursos técnicos. que não a representam nem a compreendem como ética e orientação. cientistas e editores estão começando a esperar daquilo que poderemos chamar de imaginação sociológica. enquanto metodologia científica. que por meio da imaginação sociológica os homens esperam.). finalizaremos com algumas reflexões filosóficas no sentido de salientar os limites da racionalidade humana. e o que sentem precisar. artistas e públicos. a fim de perceber.

13). 2). p. Holly (eds. Uma consiste na nossa limitada habilidade de pensar sobre como os processos espaciais operam e para produzir insights que levem a formas melhoradas dos modelos espaciais. e que é uma estupidez injustificável insistir que as ciências naturais e humanas lidam com diferentes tipos de realidade (p. seus conhecimentos são múltiplos... ou à expressão verbo-conceitual. desejos.e reduzir a geografia a uma ideologia disciplinar dominante. 55) afirma que. e contribui para a manutenção de uma forma de sociedade na qual a ciência é um dos recursos empregados para a dominação de uma classe por outra. 2) Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 17 . donc de ses modèles potentiels. (p. B. R. Par suite de la diversité des représentations. Against method: outline of an anarchistic theory of knowledge. a pesquisa empírica está sendo cada vez mais usada para guiar o desenvolvimento teórico para formar uma simbiose equilibrada (Fotheringham et al.. Todo estudo de geografia. 49 Hill. vivências). e isto tem implicações políticas: o conhecimento científico. e a sua dependência ainda se faz sentir nesta direção. p. A outra é o conjunto restrito de ferramentas que temos para testar e refinar tais modelos (ibid. enquanto autores como Hill49 sugerem que deveria ser possível conectar os resultados de todas as ciências empíricas num único sistema unificado dedutivamente. M. R 1981. como as matemáticas. Apud Bird (1993. Positivism: a “hidden” philosophy in geography. é inerentemente repressivo. Oxford: Blackwell. E Harvey. se a realidade é uma. é portanto eminentemente subjetivo. Tipicamente na geografia. P. Do ponto de vista epistêmico esta verdade “psicológica”. en organisant la connaissance par valorisation de certains points de vue et de certaines logiques. Toute étude de géographie. com o advento de novas idéias e técnicas na análise de dados espaciais exploratórios. Ele fala de uma racionalização dos processos subconscientes para chegar a resultados científicos através de diversas linguagens. Themes in geographic thought. ses connaissances sont multiples et rien n'assure a priori leur intercohésion.). apesar de sua utilidade prática.zona dita “intencional” da alma (crenças.. P. p. não passa de uma crença. Por sua vez. Mesmo se cada pesquisador pudesse defender a lógica de seu modelo. est donc éminemment subjective. London: New Left Books. et réduire la géographie à une idéologie disciplinaire dominante. a pesquisa empírica tem dependido das idéias teóricas como guia. como em outras disciplinas. p. il ne faut pas oublier la diversité des visions du monde. Même si chaque chercheur peut défendre la logique de son modèle. e nada garante a priori sua inter-coesão. 21). 48 Bird (1993. motivações. 48 “Pela lógica da diversidade das representações. ao organizar o conhecimento pela valorização de certos pontos de vista e de certas lógicas. concebido positivisticamente.. A política da teoria social. London: Croom Helm. Contudo.. ele não deveria esquecer a diversidade das visões do mundo. 50 Feyerabend. e que as possibilidades da transformação radical em direção a uma sociedade mais racional são bloqueadas e ocultas (ibid. 2005. 38-60. 1981. 7) Existem no mínimo duas limitações envolvendo a pesquisa empirico-quantitativa na geografia. si la réalité est une.. e que a cognição mobiliza as capacidades para lhes racionalizar a posteriori. portanto de seus modelos potenciais. p. p. 55-6). 11) 51 Keat. que o anarquismo teórico é mais humanitário do que suas alternativas de “ lei-e-ordem”. Keat51 afirma que a ciência é autoritária ao não permitir competidores. 1975. autores como Paul Feyerabend 50 atacam os defensores do método científico ou positivistas: por “anarquismo” o autor quer dizer suspeita de uma filosofia que é regida por algum objetivo abstrato tal como a “busca da verdade (ou verisimilitude segundo Popper)”.. racionalizada a posteriori (Ein Gefühl fur Wahrheit).” Bailly e Ferras (2001. Tradução livre. In M.

Por seu turno. que constitui uma outra forma de reação à Geografia Teorético-Quantitativa. p.). 3.. 4. o autor comenta que o fato da literatura geográfica estar colocada em todas estas categorias destrói a validade das dicotomias . destacando cinco casos: 1.. Que a geografia deve ser abordada idiograficamente ou nomoteticamente. com diferentes estruturas conceituais. Seria errôneo equivaler o uso da matemática com um objetivo de estabelecer uma lei. a matemática em muitos casos proporciona um método descritivo notavelmente mais preciso. contendo mais de um discurso. que por outro lado parecia perder o seu centro de referência (. sem dúvida. o ecletismo parecia caracterizar a disciplina. modificado. uma teoria geral não era mais possível (. Na realidade. um produto do modo de produção dominante da sociedade (Amorim Filho. p.” 52 Comentário deste autor Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 18 . enfatizada pela geografia teoretico-quantitativa (. Que a geografia deve ser indutiva ou dedutiva. p. Que a geografia física e humana são áreas diferentes de estudo. mas não as duas condições simultaneamente. e isto até mesmo se aplica à visão adotada de sua própria história – qualquer sistema proposto deve de alguma forma lidar com o fato da propensão inerente de ser trocado. ela é pluralística. Atualmente. 2) parte do princípio de que a disciplina acadêmica da geografia tem um caráter sempre inacabado. p. com a chegada do pós-modernismo. ou mesmo refutado. Em meados da década de 70. Estudos na forma literária podem propiciar excitantes abordagens inovadoras na formulação de conceitos (ibid. e o uso da linguagem com um objetivo descritivo. mas com base nas imagens subjetivas dele. e seu pressuposto fundamental é a afirmação segundo a qual as pessoas se comportam no mundo real não a partir de um conhecimento objetivo desse mundo. Johnston (1986. Ao final. Que a geografia deve ser tópica ou regional.Martin (2005. O autor destaca que as alterações no pêndulo acadêmico podem ser observadas na interação entre as duas tradições básicas da geografia – matemática e literária.. Nenhum discurso controla a organização institucional da disciplina – suas sociedades eruditas e seus corpos pedagógicos. é a Geografia da Percepção e do Comportamento Espacial ou Humanística (hoje humanista-cultural). E nenhum parece estar em condição de fazê-lo num futuro previsível. 424). p. 307-8) comenta que: “A Geografia Humana de certo modo tem sido sempre pluralística como disciplina. e. ganha força a corrente radical-crítica (neomarxista): trata-se de uma reação à suposta neutralidade científica da geografia. Martin (2005. 14).). Que a geografia como um campo de estudo deve ser classificada ou como uma ciência ou como arte. 2. 500) chama a atenção para a existência de dicotomias. Pretende deixar claro que existe uma íntima relação entre ideologia e geografia e que o espaço geográfico só poderá ser compreendido em suas estruturas e processos a partir do momento em que for considerado como um produto social.). e que tem sido prejudicial ao pensamento geográfico. por causa do significado dado à representação simbólica das palavras. Bird (1993.daí seu caráter plural52. Outra corrente.. 527). segundo Amorim Filho et al (1987).. p. Com o desenvolvimento das várias correntes na geografia. E. 1982.. 5.

principalmente pela vertente da “análise espacial”. no sentido de justificar ações onde o interesse de grupos minoritários (ou de ideologias espúrias) subjugasse o da maioria [ou de grupos antagônicos]. A. Tradução livre. 54 MONTEIRO. Ref. encerrando uma complexidade no âmbito da geografia humana. Oxford: Blackwell. Concluindo. os geógrafos deste ou do próximo século precisam de uma nova sensibilidade... 56 Do grego “mundo conhecido e habitado”.) The student’s companion to geography. refletir. F. descreve o que seria uma geografia pós-moderna: “A realidade é complexa. nos dá a dimensão de quão extensa é a capacidade criadora do ser humano operando na superfície terrestre – tanto nas ações como na tentativa de encaixá-las em algum recorte ou classificação racional [ou ideológica].nem por isso desprovida de validação científica ou de unidade filosófica. visando tornar nossa Oikoúmene 56 um lugar melhor e mais harmonioso para se viver. zeitgeist é o contexto cultural. C. a ausência de cada uma das explicações e uma incapacidade para predizer e controlar a realidade poderia ser um resultado positivo se for concebido como que o dito controle é exercido principalmente pelos poderes centralizados e hierárquicos. na p. mais do que as novas técnicas e teorias espetaculares. p.. no. t. p. 127-150. 250. na busca da convivência de um ideário geográfico plural. dialogando as diferenças. 16) também cita Monteiro (1988) na sua ênfase de que: “. numa postura de humildade ética ao reconhecer que a geografia são muitas. et al (eds. Revista Brasileira de Geografia. É inegável o quanto o positivismo fez avançar a geografia.Alisdair Rogers53. 50. Key themes and debates. permitindo uma melhor compreensão dos vários recortes vinculados à realidade complexa. nossa fé na planificação racional e no progresso se debilitou.. congruente com o zeitgeist 55 respectivo de cada época e lugar. ou refazer a realidade. 16). 53 ROGERS. por outro. Ed). por um lado. 386 p. A. 1993. pluralidade e possibilidade são os lemas do pós-modernismo. A abertura. O diálogo deve permear as diversas visões de mundo. possibilitou a manipulação de dados ou recortes da realidade. Mills (1980). dependendo do contexto .” 54 Essa nova sensibilidade passa pela eliminação do negacionismo contido nas diversas correntes da geografia em relação às demais.. 1988 55 Segundo o Merriam Webster’s Collegiate Dictionary (10ª.. Rio de Janeiro.. citado por Amorim Filho (1997. resultou na melhoria da sistematização do estudo das interações entre geografia física e comportamental. Travessia da crise: tendências atuais da geografia. 2. nossas explicações são parciais e nossas interioridades se parecem mais com o criticismo literário ou à psicanálise. In: ROGERS. moral e intelectual geral de uma era. p. não há caminhos garantidos de representação ou de modelagem. Luiz Eduardo Pereira de Oliveira O Positivismo sem Negacionismo na Geografia 19 . os geógrafos devem continuar seu trabalho [científico]. no sentido de criar. com vantagens e desvantagens. Amorim Filho (1997. A. através da imaginação sociológica. Se. em sua matriz teoretico-quantitativa.

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